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DANIEL MITTMANN Pesquisador de origem operária, professor Filosofia na rede pública estadual de São Paulo, formado em Filosofia pela UNISINOS, na província do Rio Grande do Sul, e pós-graduado em Sociologia pela ESP-Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Atualmente cursa Mestrado em Educação na UNESP, campus de Rivers City, onde tem seus estudos vinculados à linha de pesquisa em Linguagens e Práticas Culturais. Está interessado no debate das questões relativas à dinâmica do poder e dos seus agenciamentos no espaço urbano da cidade capitalista global, bem como das possibilidades de resistências e do surgimento de dispositivos de autogestão de práticas conflituosas de caráter cultural, social e política dentro da forma-cidade.

Pixazao asegún gauchés

prof.mittmann@gmail.com

Daniel Mittmann Lambaré 2012 la.cancha.ava.de.kurnikova

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Colección: Polvo Riente

Título: Pixazao asegún gauchés Autor: Daniel Mittmann Primera edición en: la concha avá de kurnikova, mayo 2012 Lambaré, Paraway Agradecemos a su autor la predisposición para editar este texto

Contacto: www.lacanchaavadekurnikova.blogspot.com la.cancha.ava.de.kurnikova@gmail.com

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subir em muros, trepar em prédios, escalar, correr, esconder-se, fugir; como a dificuldade em realizar linhas curvas com a retidão do rolo. Estas são as interrogações que agenciam a nossa tentativa de compreender de uma maneira mais apurada a pichação e o desenvolvimento dessa particular forma de escrita relacionada ao corpo daquele que escreve, no caso o pichador. Palavras-chave: pichação, linguagem, corpo, máquina, Deleuze.

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A ESCRITA E O CORPO: NOTAS SOBRE A PRÁTICA DA PICHAÇÃO COMO FORMA DE LINGUAGEM Autor: Daniel Mittmann UNESP/Campus de Rio Claro Este trabalho parte de um questionamento acerca da relação corpoe-escrita, mais especificamente da pergunta: “o que se faz com o corpo quando apenas se quer escrever?”. Buscaremos abordar a prática da pichação como uma forma de escrita em que o corpo e todos os seus movimentos – corpo-máquina de Gilles Deleuze – são de fundamental significado. Pois como afirma Jacques Rancière, em Políticas da Escrita, “escrever é o ato que” estabelece “uma relação da mão que traça linhas ou signos com o corpo que ela prolonga”. Para tanto iniciaremos arriscando “definir” no que consiste a pichação, quem são os seus praticantes e qual a relação física destes indivíduos com a escrita. Neste primeiro momento será preciso recorrer a alguns trabalhos de pesquisas etnográficas desenvolvidos em antropologia, os quais observam, acompanham e entrevistam pichadores em ação. Depois de termos desvelado em que consiste a prática (cultural e de sociabilidade) da pichação pretendemos partir de duas perguntas para desenvolver a relação corpo-escrita. São elas: O que quer aquele que, a partir do uso do corpo, se arrisca pela cidade para escrever? E ainda: o que escreve este indivíduo? Para demonstrar a estreita relação corpo-e-escrita, sem mencionar questões econômicas, desenvolveremos uma reflexão sobre a denominada Escola Paulista de Pichação, nome dado a uma forma específica de “pixo” surgido na cidade de São Paulo em decorrência da necessidade do uso de “rolinhos” de pintura e extensores (pedaços de madeira) para escrever no topo dos prédios (sinônimo de status/ibope). Desta necessidade dá origem a uma grafia única na pichação: letras compridas e com predominância de retas. Diversos pesquisadores gráficos curvaram-se ao estudo desta tipologia como por exemplo o português Gustavo Lassala. A relação entre o que é escrito, a forma como se escreve e o corpo de quem escreve se faz presente nas mais variadas manifestações da linguagem textual. Entretanto é premente a particularidade que a escrita da pichação tem com o corpo daquele que picha. Tanto pelos obstáculos quase esportivos que o corpo deste ator tem que burlar:

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“INTERROGANDO” OBRA DE ARTE(?)

CRIPTA:

O

CINE-PIXAÇÃO

COMO

“Lo micropolítico es la expresión de um suave murmullo” Eduardo Pavlovsky

“Guerreiro da tribo dos escribas underground, circunstancial e sintomático por referências culturais. Por razões antropológicas. Um amante da sabedoria das ruas em busca de justiça e liberdade. Que apenas sabe que não haverá vitória sem luta, que às vezes o único caminho para a paz é a guerra.” Apresentação de “Cripta por Cripta”, em sua página no facebook.

CRIPTA é a assinatura levada a cabo pelo pichador, que em alguns momentos assumiu a alcunha de ex-pichador (sic), e documentarista Djan Ivson Cripta. Natural da cidade de Itapevi e atualmente morador de Osasco, ambos os municípios da região metropolitana de São Paulo, Cripta é um dos mais destacados “escritores urbanos” da cena atual. Além de se dedicar a espalhar a marca CRIPTA por variantes cantos/dobras e centralidades da “grande” Grande São Paulo (sic2), este jovem-adulto tem se consagrado a cartografar (e não a catalogar) de forma despojada a produção do Pixo no cenário 12

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sul-sudeste brasileiro. Começou filmando os rolês pelas quebradas de São Paulo, era pouco. Invadiu Curitiba, caiu para Porto Alegre, saltou até Belo Horizonte, escalou o Rio de Janeiro e de quebra a Vitória veio do Espirito Santo. Para conhecer e entender acerca do circuito da PIXAÇÃO em desenvolvimento nas regiões sul e sudeste do país, com inegável protagonismo e destaque para a cidade de São Paulo (sem esquecer-se da forte cena caipira pelo interior da província de mesmo nome) é indispensável travar contato com as produções fílmicas de Djan Cripta. Antes, segue o inquérito acerca do cine-pixação e de como a sua própria existência se confunde com a experiência desses registros fílmicos do pixo. DANIEL MITTMANN. Uma pergunta básica: como começou o seu envolvimento com o vídeo? Quando começou a pensar na ideia de filmar e documentar a pixação? DJAN IVSON CRIPTA. Meu primeiro envolvimento com vídeo foi como participante do DVD 100Comédia 1, por volta de 2001 um grupo de pixadores da Pompeia (bairro da região central de SP) começou a fazer registros em vídeo de suas ações e de outros grupos de pixadores da cidade, em 2002 eu estava no auge do meu rolê como pixador e fui convidado para participar de uma filmagem para o vídeo intitulado por eles de 100Comédia, mas com o decorrer dos anos os idealizadores do projeto acabaram abandonado o vídeo por falta de recursos e também problemas com a justiça relacionados a pixação. No ano de 2004 eu também tive que começar a dar um tempo dos rolês de pixação por causas de muitos processos judicias e também por ter constituído família com mulher e filho, mas eu não queria ficar totalmente longe da pixação, foi ai que eu tive a ideia de retomar o projeto do vídeo 100Comédia. Eu não sabia direito de que forma ia fazer isso, mas tinha dentro de mim aquele compromisso de ver aquele vídeo nas ruas, foi ai então que no ano de 2004 mesmo durante uma entrevista que eu estava concedendo como pixador para uma revista de graffiti eu conheci o editor da Revista Rap Brasil conhecido como Alexandre 13 de Maio, apos o fim da entrevista Alexandre me sugeriu a ideia de produzir um vídeo sobre pixação, eu falei que tinha um projeto em andamento, mas que não tinha recursos para a edição, então Alexandre comovido com a situação me ofereceu ajuda pra edição e ainda me emprestou uma câmera HI8 Sony que é usada até os dias de hoje nas filmagens. Dali em diante eu retomei as gravações e em menos de dois anos o DVD 100Comédia 1 estava nas ruas.

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A PICHAÇÃO, OS BANDOS E A ESCRITA COMO MÁQUINA DE GUERRA Palavras chave: pichação, etnografia, Deleuze Daniel Mittmann UNESP A pichação é uma prática que consiste em escrever nomes, palavras, frases em muros, paredes, prédios e outros usando tinta aerossol spray e ou rolinho de pintura e tinta esmalte. Mas o que querem e o que escrevem “estes pichadores”? A partir de trabalhos etnográficos entramos em contato com o mundo do “pixo”, termos como: grife, point e ibope nos são apresentados pela voz dos próprios pichadores. Debruçados nestes relatos pretendemos estabelecer alguns entendimentos sobre a pichação e os seus agenciamentos. O “ataque em bando” (SPINELLI, 2007) e as relações possíveis com a “máquina de guerra” (DELEUZE, 1997). Os pichadores a-grupados agem em perambulações que levam o nome de rolê, e tem-se por objetivo escrever o nome/apelido (Tag) no maior número de lugares possíveis. O desafio é: pichar onde for mais difícil e mais visível. Pois o que querem é reconhecimento e “IBOPE”. Manifesto que não costumam agir sozinhos, é interessante descrever a acepção das grifes. Para os pichadores “a grife é uma união, uma família”. Essas são “reuniões” de pichadores. “Bandos” que levam um nome e servem como uma “marca” a ser escrita ao lado da tag do pichador. Este trabalho quer pensar a prática social da pichação, como escrita-de-bandos, e as relações prováveis com as elaborações conceituais de Deleuze acerca da “Máquina de Guerra” no texto “Tratado de Nomadologia”. A máquina de guerra é compreendida como a ação nômade que deixa marcas (sem ser marcada) em uma luta/guerrilha contra o aparelho de Estado. A pichação quer ser vista sem ser reconhecida, e busca status no desrespeito as proibições legais de sua prática. Atravessados por essas aproximações, perguntamos: qual a simpatia-antipatia entre uma grife pichadora e uma máquina de guerra deleuzo-guattariana. A tarefa está em andamento.

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MITTMANN. Os seus vídeos sobre o universo do pixo são compreendidos, geralmente, como filmes documentários. Você acredita que esta fazendo filmes deste gênero ou pensa que esteja desenvolvendo outra forma de fazer cinema, algo particular, diferente etc. CRIPTA. Os vídeos que produzo na realidade tem uma linguagem diferente que é mais direcionada para os pixadores, por isso os DVDs 100Comédia, Escrita Urbana, Só Prédio, Preto Fosco, Pixadores em Ação, Marcas das Ruas e Pixo Ação são vídeos produzidos e consumidos por pixadores, é uma linguagem própria que criamos de cinema marginal puro e genuíno, até por isso resolvi produzir o Documentário PIXO junto com os irmãos João Wainer e Roberto T. Oliveira, para a sociedade num geral entender um pouco melhor nosso universo da pixação. MITTMANN. Recentemente a mídia tem se interessado pela pixação, você é figura constante em grandes meios de comunicação (como o jornal Folha de São Paulo), a que atribui esse “repentino” interesse pelo universo do pixo? CRIPTA. Acho que o interesse dos veículos de comunicação é devido aos últimos acontecimentos dos últimos quatro anos envolvendo a pixação no mundo das artes, as invasões as instituições de Arte como a Universidade de Belas Artes e Bienal Internacional de São Paulo e toda essa discussão que vem se sucedendo em volta da pixação a partir desses acontecimentos que tem gerado esse interesse da mídia. E eu como participei dessas intervenções meio que faço o papel de um porta voz do grupo que idealizou essas ações, por isso estou sempre a frente das entrevistas. MITTMANN. Gostaria que comentasse a respeito do processo de captação de imagem para os seus filmes, como é filmar os pixadores em ação, como é estar no alto de um prédio segurando uma câmera enquanto seus colegas acionam latas de spray? CRIPTA. O processo de captação dessas imagens é perigoso e arriscado, tenho que ter todo cuidado para não chamar atenção de outras pessoas que estão na rua. Então, esse processo é diferente de um jornalista que esta filmando, por que eu como câmera também estou fazendo parte da transgressão. E se eu for pego é bem pior pra todos, por que dessa forma temos a prova do “delito” que estamos cometendo. Eu já cheguei a ser preso e processado junto com a galera que estava fazendo a ação, por que além de ter 10

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ficha na polícia como pixador não tenho nenhuma credencial de jornalista. Tirando essa questão do risco é muito satisfatório pra eu fazer esses registros, por isso quando estou gravando uma ação me preocupo só com a qualidade da capitação, alguns amigos meus até me convidam pra pixar durante as filmagens, mas quando estou na ação procuro me concentrar só no registro, até pra não perder o foco do que estou fazendo. Em algumas vezes eu até participo, mas só quando tem alguém que sabe filmar também, mas esse não é o foco dos meus registros. O foco é registrar o maior número de pixadores com potencial na cidade, me refiro a aqueles que se dedicam mais, até por conta da efemeridade do nosso movimento que esta sempre sendo apagado pela cidade, e muitos pixadores que fizeram historia como #DI#, THENTHO e XUIM não tiveram essa oportunidade de ter um registro em vídeo. MITTMANN. Você recentemente lançou o seu novo filme, o 100Comédia Brasil, que trata das distintas facetas da pixação em diferentes cidades dos estados do sul e sudeste. Comente sobre este filme e se possível sobre as particularidades que encontrou nas cidades que percorreu. CRIPTA. Era um sonho antigo fazer um vídeo com outros pixadores pelo Brasil. Tudo começou com o lançamento do DVD Marcas das Ruas em Curitiba (PR) no ano passado. Fui a Curitiba somente para o lançamento, mas acabei fazendo alguns registros da galera pixando, o material rendeu e acabou me estimulando a continuar a fazer os registros em outros estados. Então resolvi mapear as capitais do Sul e Sudeste onde a pixação tem mais consistência e tradição, daí fui pra Porto Alegre (RS), Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ) e por fim terminei as gravações em São Paulo, ainda de quebra acabei passando por Vitória (ES) onde a pixação esta se iniciando, o que acabou gerando um capítulo para os extras. O que notei nas pixações de outros estados é que mesmo tendo letras parecidas com a de São Paulo cada estado desenvolveu sua própria característica estética, com exceção do Rio de Janeiro que tem um estilo de letras muito próprio de lá, com letras cifradas que lembram rubricas. Interessante foi notar a influencia dupla que a pixação de Belo Horizonte sofreu das pixações carioca e paulista, antigamente a pixação mineira era muito parecida com a carioca, mas com o decorrer dos tempos a pixação paulista mais praticada de tinta e rolinho começou a ser mais praticada no estado, o que acabou gerando o estilo típico mineiro.

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MITTMANN. O estado de São Paulo se destaca na pixação nacional, é difícil andar por uma cidade de grande e ou médio porte do estado paulista (como Campinas, Bauru, São José dos Campos etc.) e não se deparar com as marcas do pixo. Você já pensou em produzir um filme que captasse o movimento da pichação caipira, do interior do estado de São Paulo? CRIPTA. Já pensei sim, e com certeza meu próximo projeto aqui dentro de SP terá esse foco da pixação caipira, inclusive a galera do interior me cobram muito isso, mais é difícil eu dar conta de tudo, ainda mais por que meus vídeos não tem apoio nenhum e o retorno das vendas é muito pouco, mesmo assim não deixo de fazer por que é uma coisa que faço de coração, a pixação é um movimento independente que sobrevive sem apoio ou vinculo algum dos poderes públicos e privados, e por causa disso que faço questão de fazer o vídeo sem apoio de nenhuma instituição, na real quem me apoia nesses projetos são a própria galera do movimento que compra o vídeo e me hospeda nas viagens. MITTMANN. Djan Cripta: quero te agradecer por esta entrevista para a revista de Rio Claro Cinema Caipira e lhe oferecer este espaço final para falar o que achar necessário. Espaço livre. CRIPTA. A mensagem que gostaria de deixar é que se você tiver um sonho ou vontade de realizar alguma coisa na vida corra atrás e não espere por ninguém, a pixação me ensinou a encarar tudo na vida sem medo, então pra mim nada é impossível, pra quem escala um prédio e enfrente a polícia diariamente algumas outras coisas que parecem empecilhos na vida acabam virando fichinhas, coragem irmãos, força na luta e PAZ JUSTIÇA e LIBERDADE. VIVA A PIXAÇÃO e LIBERDADE DE EXPRESSÃO.

ENTREVISTA CONCEDIDA POR DJAN IVSON CRIPTA A DANIEL MITTMANN EM 1° DE MAIO DE 2012. A MESMA SERÁ PUBLICADA NA REVISTA INDEPENDENTE CINEMA CAIPIRA (RIO CLARO, SP) DO MÊS DE JUNHO PRÓXIMO.

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