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séries inventadas CRISTINA AMIRAN


Ciclos A presente publicação de Cristina Amiran participa da homônima “Séries inventadas”, que a artista vem desenvolvendo em variadas frentes: fotografia e vídeo, backlights etc. Constituída, em grande parte, pelas imagens que integram esse livro, a série parte da observação de aspectos cotidianos, bem como da manifestação das noções de memória, liberdade e deambulação. Nascidas do registro de inícios e finais de estações, sobretudo do outono, as fotos exigem que as observemos atentamente, indo além de uma imagem capturada e não se evidenciando numa única visada. As transmutações de placas-mãe e memórias computacionais em elementos da paisagem são da mesma ordem de invenção da artista que, nesses deslocamentos de sentidos, colocam um homem em posição de yoga como árvore - ele também pode ser madeira, dando ritmo à imagem, combinando-se a outros troncos que cercam determinada área. É nesse processo em que verticais e horizontais se mesclam para compor lugares, nuvens e rizomas nas séries inventadas de Cristina Amiran. Nessas há claramente composições de linhas, talvez advindas da formação gráfica da artista. Por mais que saibamos que a paisagem seja sempre uma invenção – moldura, enquadramento, forma de registro e exposição, jogos de luz e escuridão, associações a cheiros, textos, conceitos e outros lugares -, não deixamos de nos surpreender com a operação da artista, que manipula elementos [fogo, ar, água e terra], tempos diferenciados, diversos pontos de vista e estágios cíclicos [estações do ano, estados físicos da matéria]. O sentido fabulativo das séries inventadas provém, então, não apenas da imaginação geográfica da artista, mas de uma operação mental intencional, com um viés telúrico que aponta para muito além de cartografias possíveis. Uma vez que dizem respeito a platôs, essas sobreposições estão nas manipulações que a artista realiza, de forma que as transparências deixem ver suas “zonas de intensidade contínua”. Se a série aciona deslocamentos - da artista pelos cenários, de componentes de computador de suas funções, da própria imagem no tempo etc. -, o folhear as páginas do livro também está nessa ordem de interesse. Normalmente associamos paisagens à horizontal e o livro privilegia esse formato, de maneira que a experiência do observador se baseie em princípios de extensão e ruptura, conexão e heterogeneidade, que a artista buscou na filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Por outro lado, a relação com a pintura e com a fotografia, que é prioritariamente vertical, é aqui invertida: o livro de Amiran propõe leituras dessas fotos, como se a linha do horizonte passasse a caber nas palmas das mãos do espectador, podendo ser inteiramente captada por seus olhos.


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As séries inventadas dividem-se em três microsséries: Rizomas, Nuvens e Lugares. A primeira advém de um conceito botânico apropriado por Deleuze e Guattari para embasar a filosofia como um sistema aberto, sua proposição de um pensamento não linear ou dualista. Nas fotografias de Amiran os rizomas são fotografias de árvores secas, sem folhas, típicas do outono, aproximadas de planos-detalhes de componentes de informática que se assemelham a fachadas, sacadas, varandas e às vistas superiores de cidades. Na microssérie Nuvens temos fotografias de céus e nuvens combinadas a transparências de hardwares quase abstraídas. Em diversos estados físicos, ambas armazenam informações e aludem a memórias seletivas diferenciadas: são brumas, fumaças, vapores, sem deixarem de ser presenças efetivas. Já na microssérie Lugares, a maior delas, temos árvores secas focalizadas a partir do chão, cujos galhos remetem a redes, ramificações: rupturas com continuidades, conexões com multiplicidades. Por mais que fixem espaços, essas imagens aludem a possíveis transbordamentos e, assim como em Nuvens, o céu é o grande privilegiado, mas aqui num jogo de aparências no qual a atmosfera, normalmente associada ao elemento ar, em muitas fotografias aparece convertida em mar. E é assim que, interessada na presença do natural na cidade, a artista foca a mudança de ciclos, buscando fixar em frames novos lugares para a memória, por meio da junção de arquiteturas possíveis e natureza. Para tal, realiza a invenção de séries, tornando reais paisagens imaginadas e projetadas. Anne Cauquelin, em A Invenção da Paisagem, aborda a relação entre essa e a pintura, compreendendo a primeira como criação, não como dado pronto, “ao natural”: “De todas as artes praticadas, a paisagem é sem dúvida aquela que reflete mais continuamente nossa precária situação poiética. A meio caminho entre o triunfalismo da técnica e a melancolia de ter perdido a inocência primeira, ela traça essa fina linha crítica de um real que depende apenas do poder de concebê-la”. Para finalizar esse texto, então, utilizaremos como epílogo outra citação da filósofa, atestando que a criação da paisagem é não somente um ato imaginativo como uma atividade mental, assim como as séries que Cristina Amiran inventa, pois “a paisagem que constituímos espontaneamente é o produto de operações intelectuais complexas” 1. Fernanda Pequeno, dezembro de 2011.

1

CAUQUELIN, Anne. A invenção da paisagem. São Paulo: Martins Fontes, 2007. P. 174 e P. 182, respectivamente.



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