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O Ăšltimo Amanhecer Por Cristiano L. Batista


Capítulo Um

“Sou um viajante do tempo.” Pelo menos é o que acho quando estou cansado demais do presente, viajando pelo passado, visitando lugares e pessoas há muito tempo distantes, mas nunca esquecidas. Espreito seus caminhos e simplesmente revivo o que aconteceu em algum tempo perdido, ou talvez nem tão assim. Às vezes um rosto parece ser tão vivo quanto era na época. E isso me assusta. Fantasmas de um mundo perdido. No entanto, estou escondido revivendo pela milésima vez os erros que me propusera estar ali. Por mais injusto que seja, coisas boas são facilmente esquecidas quando temos memórias ruins a nos assombrar. Nem sei quantas vezes supliquei perdão, sentido o frio do cano de uma arma tocando a parti superior da boca. Quantas vezes senti o desejo de correr até o meu “eu” mais jovem e disser: “seu idiota, você esta jogando tudo fora! Não faça isso!”. Mas não posso me aproximar, nem ao menos influenciar as dobras do tempo. O que esta escrito não pode ser apagado ou mudado. Por isso preciso esperar pelo obvio momento do meu eterno arrependimento. “como eu pude ser tão idiota?”. *** Agora estou de volta, sentado depois de outra viagem dolorosa até as amargas recordações. Dormir às vezes pode ser uma péssima obrigação. Meu estomago se revira e meus olhos semi serrados precisam se acostumar com a mudança temporal. Acordar no presente nunca fora tão cansativo depois desses logos anos. O tempo é um amargo vizinho. “Quanto tempo se passou desde a minha breve viagem?” Esfreguei os olhos com as pontas dos dedos enquanto erguia-me pesadamente da poltrona. Era como se estivesse com oitenta anos. O sol parecia uma ofensa maravilhosa os últimos raios vindos por detrás das montanhas, infiltravam pela janela. A sala parecia uma pintura abstrata banhada por ouro. Procurei sobre o aparador o relógio. Estava sobre a pistola, ao lado de um porta retrato já manchado pelo pó. Já passara das dezoito horas. O café sobre o aparador estava frio como a morte. Percebi que Lincoln estava ao chão, olhando-me, miando desesperadamente enquanto esfregava-se em minhas pernas, suplicando por alimento e atenção. Sorri para o bichano e o trouxe até o colo para afagar-lhe a orelha. O se pelo era de um tom cinza e macio. Um ronronado doce e agradecido terminou com o silencio sepulcral que engolia toda casa. Minha mãe sempre dizia que gatos era a melhor companhia para


pessoas solitárias. Entendia isso antes como uma irônica redundância. Mas hoje vejo que estava certa. *** - Pronto! – disse enquanto servia uma tigela de leite para Lincoln, que já a devorava em minhas mãos enquanto pousava-a antes mesmo de toca-la no chão – Vamos com calma, amigo. O mundo ainda não acabou! Pelo menos, não hoje! Parecera uma grande ironia aquelas palavras. “O mundo ainda não acabou”. O que eu ainda poderia esperar do futuro enquanto o tempo se arrastava lentamente para o inevitável. Esse tipo de pensamento sempre me deixava deprimido. Caminhei de volta a sala. Precisava de uma dose de vodka, o efeito da ultima dose estava se extinguindo dentro de mim. Encontrei a garrafa próxima ao sofá, tombada, o carpete cheirando a vomito. Servi um copo generoso e achei uma boa ideia sentar-me lá fora, na varanda, sobre a luz do entardecer e tentar me recordar de algo que pudesse responder o motivo do mundo ter mudado tanto e se havia alguma esperança. Acho que respostas não voam com o vento e somente o frio me tocou, suavemente. O céu se acendia num vermelho intenso na faixa do horizonte. Era como reviver os grandes incêndios, os gritos, o desespero enquanto o sol descia e desaparecia outra vez como nos últimos milhões de anos. Então novamente o silencio. Outro dia estava morto e a noite surgia. Talvez esse não fosse o ultimo amanhecer.


Capítulo Dois

Dirigi por aproximadamente vinte minutos até chegar à entrada da rodovia principal. Estacionei no acostamento antes de continuar em frente. Procurei pelo retrovisor se havia alguma movimentação por perto. A serpente escaldante da ES101 permanecia quieta naquele inicio quente de verão. Precisava descer um pouco, aliviar a bexiga e respirar. Odiava a ideia de abandonar a fazenda, aquilo acabava comigo. Nunca goste de mudanças, quebrar a rotina e todas aquelas incursões a cidade me deixavam muito nervoso. Às vezes me perguntava se haveria outra maneira de conseguir suprimentos sem ao menos por os pés dentro de São Francisco. Mas a mesma resposta negativa empurrava-me naquela direção. Todas as fazendas num raio de cinco quilômetros estavam completamente vazias. Nada fora deixado para trás pelos antigos moradores e o plantio nunca fora meu forte. Estava acostumado a entrar pela porta do supermercado e escolher a alface menos murcha que encontrasse. Até mesmo os animais haviam desaparecido num ímpeto de sobrevivência instintiva. Todos desapareceram quando a merda toda começo acontecer. No entanto, a menos de um ano trás tive o prazer de conhecer alguém tão perdido e sozinho quanto eu. Minha arma estava apontada para a porta do celeiro nos fundo da propriedade que tomei como minha. Durante a noite o som de algo derrubando coisas lá dentro fez-me levantar. Quando abrir a porta, os olhos assustados e amarelos de um filhote de gato entre a palha causaram maior espanto quanto ser atacado por um “bando”. Era um pequeno gatinho de tom grafite e de olhos assustados, mas corajoso o suficiente para irisar seus pelos em modo de defesa, ameaçando-me com suas afiadas garras. Tive de ganhar sua confiança com um pouco de atum enlatado e paciência. O apelidei de “Senhor” Lincoln em homenagem a sua atitude valente e seu temperamento senhoril. Era uma criatura plácida na maior parte do tempo, quando não estava embrenhando-se por entre as caixas de mantimentos a procura de algum camundongo impertinente. Tornara-se um companheiro agradável de longas conversas e passeios. No entanto, decidi por deixa-lo na fazenda. Tomaria conta de tudo, afastando as pragas dos suprimentos que ainda restavam. Na realidade não desejava demorar-me em São Francisco e muito menos poderia contar com a boa vontade de um gato. Era algo que eu não estava nem pouco disposto a esperar dessa vez. Lincoln sempre fazia isso. Embrenhava-se por entre as barricadas e entulhos, a procura de iguarias para seu paladar. Assaltava alguns apartamentos em busca de comida e retornava depois de algum tempo refestelado e tão gordo quanto da ultima vez, com a mesma cara de paisagem fazendo pouco caso da minha necessidade de abandonar o mais rápido possível aquele lugar horrível, enfiavase no carro e dormia um sonho profundo e justo. Enquanto dirigia, eu o advertir sobre quem era o mestre entre nós dois.


- juro por Deus, gato! Um dia vou te deixar sozinho aqui! – minhas ameaças nem ao menos arranhavam seu muro de incondescendência. Reservava-se a lamber as patas dianteiras, relembrando-se - seja lá do que – o banquete que havia devorado pelo caminho. Às vezes isso deixava a vaga desconfiança de que Lincoln não comia somente ratos e tigelas de leite. Talvez houvesse adquirido um gosto um tanto quanto diferente com os eventuais acontecimentos. Talvez as carcaças o agradassem tanto quanto os camundongos. Isso me causava asco profundo. Sentia o gosto amargo de vomito subir até a boca. *** Em cinco minutos, pude ver pelo para-brisa o cadáver da cidade. Cravada num vale rodeada por montanhas. De longe, parecia dormir um sono profundo das primeiras horas do amanhecer e que a qualquer momento seus moradores surgiriam pelas ruas pontualmente, crianças correndo entre os carros, inundando as escolas, senhoras arrastando logo atrás de si carinhos de ferra, o fervoroso movimento de veículos seguindo para o trabalho, moças limpando as inúmeras portas de vidro das lojas da avenida principal e mais um ônibus atrasado ancorando na antiga rodoviária. O tempo correndo e todos apresados para viverem suas vidas. Havia uma ponta de esperança quando esperava ali, olhando pelo para-brisa, segurando firmemente o volante. Mas nada acontecia. Tudo parecia estar do mesmo jeito como há cinco anos. A morte continuava a empesteava toda a atmosfera com seu halito pesado e fétido. Conferi a munição e a espingarda calibre doze no banco de trás do veiculo. Raramente a usara nesse ultimo ano. O número de criaturas diminuirá consideravelmente nos últimos meses e os poucos mortos que ainda restavam podiam ser abatidos com simples golpes na cabeça. Demonstravam certa lentidão e a cada ano pareciam estar “morrendo” com a falta de carne humana fresca. Isso parecia algo bom, mesmo assim não desejava encontrar com um grupo muito grande dessas coisas, mesmo lentas, atacavam silenciosamente, notadas quando já era tarde demais para reagir. *** Estacionei a velha camionete na entrada da cidade. Preferia o trajeto a pé, por uma rota conhecida e mais segura, isso me dava mais liberdade e a confiança de caminhar por toda a parte sem ser encurralado. Sempre havia uma rota alternativa pelo caminho que criara, sem surpresas. Alem do mais, era impossível seguir muito a frente com qualquer veiculo, mesmo se tratando de uma moto. As ruas estavam tomadas por inúmeras muralhas de entulho, moveis e veículos carbonizados, formando uma pista de obstáculos gigantesca e repleta de inúmeros percalços. Por isso caminhava sempre com cuidado temendo o que poderia sair por destras de alguma coisa. Sempre odiei o inesperado. Saltar por entre as barricadas era algo exaustante. Porem isso me mantinha o sangue quente e o corpo alerta enquanto vasculhava casas a procura de algo útil. Alem do mais, a visão por cima de qualquer uma delas era a melhor forma de encontrar a presença dos mortos vivos.


Continuei seguindo por um dos maiores bairros da cidade. Tempos atrás freqüentava muito aquele local, em festa em casa de amigos durante toda noite. Muita musica, boa bebida e algumas drogas também. Hoje encontro escombros e portas escancaradas como se nunca houvesse conhecido aquele lugar. Ficava logo nos arredores da área industrial. Boa parte das residências ali fora saqueado há muito tempo antes pelo poucos moradores que restavam, não havia muito que olhar ou procurar por ali. Nem mesmo as recordações permaneciam naquele lugar abandonado. O cenário era deprimente. Era um local sem muitas arvores pela rua. Resolvi parar um pouco sob a sobra de uma única castanheira na esquina logo a minha frente antes de continuar rumo ao meu objetivo. O sol estava a pino e minha cabeça, apesar do boné, latejava de dor pelo forte calor do verão. “talvez esse seja o dia mais quente do verão” pensei enquanto olhava para o céu. Era de um azul anil profundo e impenetrável. Era um deserto azul no qual não se avistava nenhuma nuvem. Isso muito me interessava. Mesmo com tudo morto, a natureza cumpria seu ciclo de estações. Apesar de ninguém para se importar, ela cumpria o seu trabalho. Às vezes eu pensava que ela poderia saltar de um inverno para o outro sem ao menos se importar com a forma certa das coisas acontecerem. Mas ela estava trabalhando com sempre, cumprindo o seu contrato com Deus, desprezando o fato de a raça humana ter sido dizimada, ou mesmo o fato de os poucos que ainda andam por ai estejam se devorando avidamente. A imagem misteriosa de Lincoln lambendo suas presas suavemente veio-me a cabeça. Realmente o sol devia estar muito quente, novamente eu estava pensando tolices. - Tenho de continuar! – disse baixo enquanto me levantava como se fosse um velho de noventa anos apoiado na espingarda. Por um estante, o som da minha voz pareceu ser a coisa mais estranho por ali, como se quebrasse o trato com o silencio. Era algo realmente incomum estar vivo. Porque existia esse instinto de sobreviver quando não há um motivo plausível para isso? E se eu for o ultimo? Como diabos eu vou reconstruir toda essa merda? A cabeça girava freneticamente em pensamentos cozidos pelo calor escaldante mergulhado em duvidas. Privando-me da capacidade de perceber o movimento vindo pelo outro lado da rua, na minha direção. Arrastando-se suavemente, camuflado pelo som do vento sobre a copa das arvores e os braços estendidos como se quisesse me consolar com seu abraço mortal e apagar de vez todas as minhas duvidas.


Capítulo Três

Depois de algum tempo, os olhos da morte se torna algo banal e sem sentido quando se esta acostumada a caminhar ao seu lado todos os dias. Nunca pensei de outra forma. Todos os dias, esperando sua chegada, como se não houvesse outra opção, era um luxo ao qual sempre me comprometi aproveitar até o fim. Mas naquele instante, no chão, enquanto aquela criatura sobre o meu corpo tentando ferozmente devorar meu rosto, lançando o cheiro acre de decomposição vindo da sua boca sobre o meu rosto, batendo raivosamente os dentes negros a poucos centímetros da minha pele, percebi, nunca havia imaginado ser daquela forma o meu fim. Meu estomago contorcia-se de asco enquanto eu tentava desesperadamente manter aquela coisa que um dia fora uma mulher longe do meu rosto. Pelo estado decadente e decomposto que se encontrava, não tive dificuldade em lança-la para o lado, me libertando de seu ataque. Rastejei rapidamente, e antes que ela pudesse alcançar meu calcanhar, alcancei o primeiro objeto ao meu alcance e, num único golpe, parti seu crânio como uma abobora podre quando atingida pela enorme pedra entre minas mãos. O sangue negro explodiu sobre mim me deixando com mais nojo de toda aquela cena desprezível. Sem importar com a possível presença de outros zumbis, lancei para fora toda batalha travada dentro do meu estomago sobre o asfalto quente. Senti como se fosse colocar a alma para fora tamanho os espasmos estomacais que atravessavam meu corpo. Meu coração disparado parecia saltar pelas têmporas num batimento alucinado. Tive de ficar ali abaixado, buscando todo ar possível, encostado na lataria de um opala carbonizado enquanto a vida voltava ao meu rosto. Há muito tempo não era pego de surpresa por uma dessas coisas. “Só que não foi dessa vez!”. Senti um misto de vergonha e tristeza por confiar daquele jeito na vida. Quando finalmente conseguir me reerguer sem sentir o chão rodar, percebi preso no corpo algo familiar e tive a certeza que conhecia aquela coisa caída no chão com o crânio esmagado. Não pelas feições – o corpo já se encontrava num estado critico de apodrecimento e o rosto desfigurado pela pedra– mas por um colar de prata ao lado do corpo mergulhado no sangue coagulado e negro que minava da boca deformada e escarnecida do cadáver. Abaixei ao lado do corpo, tapando a boca com um lenço puído, com um graveto levantei a placa em forma de coração presa ao cordão. Parte esta levemente suja pelo sangue negro, mas pude ler as inscrições com facilidade. “Paula Schumann, Feliz aniversário”. Naquele instante tive a vontade de abandonar por ali mesmo o objetivo de buscar por mais mantimentos.


Conhecia Paula Schumann. Estudamos juntos nos anos de colegial. Era uma daquelas pessoas superpopulares. Sempre a frente de todas as festas da escola. Miss João XXIII pelos três anos de ensino médio. Presidente do corpo estudantil liderando um grupo - não formalmente - de pessoas mais influentes entre os alunos. Uma pessoa perfeita pelos parâmetros sociais. Completamente diferente do monstro que se via abatido no asfalto, pelo menos não exista nenhum traço da sua fisionomia. Tem o dom da simpatia atrelado a beleza branca de um rosto salpicado por suaves pintas, num contraste felinos com os olhos de um verde oceano, tão profundos que as vezes eram como se manipulasse todo uma multidão. Essa capacidade atraente era um pequeno complemento ao corpo, talvez a mais abençoada entre as garotas de sua idade. Quando mais velha, seria uma das mais lindas mulheres que eu já vi na vida. Tudo isso era um indicador de que a vida seria melhor para ela, pelo menos, se essa droga toda não houvesse acontecido e eu estivesse diante do seu corpo, sem vida. Depois de alguns meses após a formatura, nunca mais a vi, mas alguns rumores sobre ela era algo comum na cidade. Enquanto alguns de nós ainda permanecíamos presos a São Francisco, procurando começar uma nova vida depois do Colegial ela já tinha seu destino traçado dentro de uma grande empresa petrolífera. Descobrir isso em uma das idas ao supermercado Relmer enquanto escutava, meio sem querer, a conversa entre a esposa do prefeito e a mãe de Paula. Enquanto me decidia se seria melhor tempero para salada ou azeite, percebia a animosidade na voz da senhora Schumann ao relatar com certo contentamento que a filha partira para vitoria, cursaria o curso de petróleo e gás. Trabalharia em uma das mais influentes empresas na área de extração de petróleo e como se sentia orgulhosa. Tive a certeza que o azeite seria melhor que o molho. O sucesso sempre fora algo no caminho Paula Schumann. Por isso eu a odiava. Talvez porque o seu sucesso descaradamente refletia o fracasso de outras vidas como a minha também. Miseráveis camponeses do interior do espírito santo, fadados a viver a sombra de um sistema feudal, iludido por políticos e empresários milionários que absorvem os recursos naturais como gafanhotos e partem deixando somente o solo arenoso e nem um maldito “obrigado e até nunca mais”. Talvez eu a odiasse porque sua vida simplificava tudo o que não conseguiria ter em duas existências. No entanto, pareceu absurdamente estranho pensar sobre aquilo agora, ela estava aos meus pés, morta. Dominada por um mal que ninguém Sade de onde e nem o porquê de nos tornar demônios caminhantes. Nunca lhe desejei qualquer mal daquela formar, ou que nossa ultima conversa fosse esmagando sua cabeça com um bloco de calçamento tentando salvar minha vida. Toda a minha inveja se dissipara naquele momento. O horror havia se dissipado. Permaneci abaixado olhando para aquele rosto desfigurado procurando a lembrança da minha tão odiosa colega de escola. Ela não estava ali.


Olhei ao redor, para todo esse horror que me circundava. O sol acendia como chamas do solo, queimando o asfalto. Sempre me pergunte o que passara pela cabeça de Deus para lançar-nos nessa situação caótica e sem sentido. Que diabo de castigo era esse? Pessoas mortas caminhando por ai, sem o devido descanso. Qual fora o pecado da raça humana para merecer algo como isso? Por que Paula merecera estar morta? Retirei-lhe o cordão cuidadosamente para não ter a infelicidade de tocar novamente o sangue contaminado. Limpando-o cuidadosamente com a ponta do lenço encharcado de suor, o coloquei no bolso e fiz a ultima coisa humanamente possível por Paula antes de continuar em frente. Com a ajuda de gasolina que ainda restava no tanque de uma motocicleta destruida, alguns jornais velhos e um ultimo palito de fósforo no bolso, queimei seu corpo sobre o sol de verão. *** Depois desse incidente, minha percepção estava mais aguçada. Era como se algo houvesse quebrado dentro de mim e eu precisasse caminhar como cuidado para mão me cortar. Isso não era uma novidade pelo menos, sempre que algo do tipo me acontecia, os extintos aumentaram minha atenção. Mesmo quando o mundo ainda não era aquela bagunça de pessoas mortas devorando gente viva, nunca deixei de seguir alguns princípios básicos para sobreviver a pessoas vivas matando gente viva. Um deles era, durante a noite, sempre seguir pelas ruas principais, iluminadas e com mais fluxo de pessoas. Era como um bando de guinus pastando sobre a savana africana. Não tinha nada haver com ajuda, era a questão de fugir enquanto o caos era instaurado. Ninguém ajuda ninguém, somente servimos de escudo para outras pessoas fugir e se esconderem. Pelo menos era assim São Francisco. Apesar do porte de uma cidade interiorana, com seus 46 mil habitantes, nunca a subestimei e a possibilidade de um ataque, um assalto. Era algo que aprendi a conviver depois da instalação de uma Unidade Prisional Estadual nos arredores da cidade. Isso atrai um numero considerável de pessoas desconhecidas, na maior parte, parentes dos internos vindos de outros Estados. Logo, caminhar pela cidade era como estar em outro lugar desconhecido. Os rostos familiares se tornavam mais escassos a cada dia e o sentimento de desconfiança crescia na mesma velocidade que os crimes. Mas a minha experiência não se resume a especulações preconceituosas. Dois anos após concluir o ensino médio, matriculei-me num curso noturno de pedagogia a distancia, nunca me imaginei dentro de uma sala de aula, riscando um quadro verde. No entanto, as opções não eram muitas a meu favor caso quisesse cair fora daquele lugar um dia. A faculdade ficava a meia hora da minha casa, era preciso circundar toda a cidade num trajeto sem ônibus após as 22h. Isso me atordoava profundamente, mas sempre havia uma segunda opção. Eu precisava quebrar algumas das minhas regras de sobrevivência no mundo moderno. Por isso eu economizava


15 minutos fazendo um atalho pela floresta que separava o meu bairro a outra ponta da cidade. Sempre trazia comigo uma lanterna e um canivete de caça quando eventualmente era acometido pela preguiça e essa era maior que o medo. Havia uma trilha feita por cavalos que pastavam por ali durante o dia e era largo o suficiente para duas pessoas caminharem lado a lado. A luz da lanterna cortava a escuridão como uma faca. Intuitivamente pensava bem sobre não empreender mais essas aventuras pela mata. Depois que a onda de crack tomou a cidade, e pessoas começavam a se tornar violentas e imprevisíveis quanto se tratava de sustentar o vicio pela droga e qualquer canto escuro parecia esconder braços prontos a agarrar qualquer um que se aproxime, mas no fundo eu estava disposto a matar qualquer pessoa caso tivesse que caminhar meia hora. Afinal de contas, o escuro não poderia ser tão assustador assim. Pelo menos foi o que eu achei. Naquela noite não havia trago os fones de ouvido. Tive de me contentar com os sons da mata. Grilos, o barulho do vento nas copas e o ruído dos meus passos sobre as folhas no chão. No mais somente a escuridão ao meu redor e o feixe de luz guiando-me logo à frente. Tudo seguia seu curso normal e propenso a filme de terror, proporcionando no interior da minha cabeça a sensação atraente de caminhar para dentro do porão quando deveríamos fugir e chamar a policia. Imaginação voava entre hipóteses malucas, mantendo-me flutuando dentro da escuridão. Então, o sobre salto veio de repente. De algum lugar na noite, o grito estridente sendo arrancado do interior com violência atravessou de um lado ao outro da trilha congelando todo meu sangue como se uma onde de frio recaísse sobre mim. Novamente, desta vez mais abafado e sombrio, o grito indicou-me sua origem. Logo a minha frente, eu tinha certeza, vinha do final da trilha. Nem ao menos percebi que a lamina do canivete já estava para fora, firme em minha mão suada. Pude sentir o sangue se prendendo entre as juntas dos dedos. Eu precisava sair dali, voltar, me esconder. Mas não podia permanecer ali, parado a mercê de alguém ou algo. Poderiam estar me observando, ou atrás, no escuro. Eu me sentia acuado. Meu braço estava apontado para todas as direções. Era torturante não poder saber de onde viria. Precisava sair dali o quanto mais rápido, então, num impulso que amaldiçoou até hoje. Continuei em frente, em passos firmes, quase correndo. A luz da lanterna tremulizava para todas as direções. Balançando de um lado para o outro enquanto as mãos tremiam sem controle. O canivete já fazia parte de braço, preparado para se defender de qualquer coisa. Lagrimas desciam do meu rosto, não certo por medo ou nervosismo, rolavam desenfreadamente e só pararam quando finalmente eu chegara ao final do caminho. Havia um poste a margem da estrada, iluminando a abertura na cerca, arrebentado por algum cavalo. Pude sentir os músculos se contraindo mais e quando pensava estar livre e a salvo, algo aconteceu. Do meu lado, vindo dentro os arbustos, desesperadamente, um homem, que aparentava ter seu 40 anos, calvo e completamente magro, como se nunca tivesse se alimentado antes na vida, atravessou a trilha quase se chocando comigo. caindo diante os meus olhos, debatia-se no chão em espasmo, gritando loucuras, a boca sangrava, os olhos


perdidos, tão negros que brilharam quando lancei sobre ele a luz. Parecia estar drogado e quando a luz o atingiu, os espasmos cessaram. Respirava profundamente tentando recuperar o ritmo. Olhei ao redor a procura de mais algum maluco, mas a noite tornara-se tão tranquila novamente que pude escutar a minha pulsão a ponto de explodir meus tímpanos. Ele estava hipnotizado pelo feixe de luz. Aquilo parecia algo completamente insano. Eu não sabia o que fazer. Temia me aproximar dele quando descobri que o sangue em sua boca não era dele de fato. Quando finalmente decidi me acalmar, guarda a faca e retirar o celular do bolso da calça, verificar o sinal dele e tentar ligar para policia, a lanterna apagou-se – malditas baterias recarregáveis – e uma nova onda de gritos começou. O indivíduo, como visse o próprio demônio, rastejou como um animal acuado de volta para o mato aos gritos, debatendo-se na escuridão contra as arvores, tropeçando e caindo sobre a relva. Quando finalmente conseguir, depois de uma surra, ligar a lanterna, seus gritos já se perdiam na escuridão num vulto enlouquecido e distante. A partir desse dia nunca mais confiei na pacata vida que levava. *** Sempre tive esse pé na desconfiança, mas desde aquele acontecimento estranho e sem resposta talvez tenha sido a chave para minha sobrevivência até agora. Algo a se lembrar da próxima vez que estiver caminhado por ruas infestadas de zumbis e resolver parar para tomar um refresco. “Não confiar em ninguém” era meu mantra. Ser alguém solitário e saber me virar sozinho foi as melhores armas nesses últimos anos. E no fundo, viver no meio dessa quietude macabra não me afetou tanto quanto as outras pessoas. Muitas se entregaram, enlouquecidas, disparavam contra o próprio céu da boca num ultimo momento de desespero. Acostumei-me a não criar laços, vínculos, e quando me vi, estava sozinho. Até antes mesmo da epidemia, a presença de outras pessoas pouco importava. Eu poderia passar minhas horas imersas em livros, esquecendo-me de certos terrores. Mas depois desse ataque, percebi que estava me deixando levar pela falsa sensação de paz e isso quase me custara uma das maçãs do rosto. Os sentidos agora estavam mais aguçados e minha pressa maior em encontrar tudo o que precisava e me mandar de volta para fazenda. Consultei no pulso o relógio digital que havia encontrei na ultima visita a São Francisco, constatei que já passava das 11h. Ainda estava longe de chegar ao local desejado, logo estaria entardecendo e voltar para a fazenda seria algo arriscado a se fazer durante a noite, mesmo com o repentino desaparecimento de todas aquelas coisas! Continuei a caminhada desconfiando até mesmo de minha própria sombra, de repente tudo parecia um potencial inimigo e a cada passo amaldiçoava a


sensação de ter algo me seguindo. Por volta das 12h30 cheguei ao centro da cidade. De longe pude ver a construção demolida da diocese São Francisco de Assis, no passado um dos cartões postais da cidade agora reduzidos a escombros incendiados. Não havia nada lá alem de morte e memórias tristes, decidi continuar em frente. O tempo estava correndo. Eu estava perto de terminar aquele dia infernal. No caminho esbarrei com alguns monstros, cinco mais precisamente. Foi uma curiosa surpresa encontrá-los ali, reunidos, mas logo percebi o motivo. De alguma forma ficaram preços entre alguns carros que jutos formavam uma espécie de cercado. Pareciam inquietos, como se estivessem que ir a algum encontro de zombies ou estivessem com muita “fome”. Mantive a calma. Silenciosamente os contornei por entre carros empilhados e rastejei por entre o entulho, numa abertura um pouco maior do que uma pessoa, consegui deixa-los para trás. Não havia tempo para abatê-los e o confronto poderia atrair outros para aquela área. Mas não pude deixar de pensar no comportamento estranho daquelas criaturas, como andavam em circulo esbarrando nos carros destruídos que os circundavam. Os pensamentos se debatiam dentro de mim que nem ao menos percebi que havia chegado ao meu destino. Um dos poucos armazéns ainda intactos pela evacuação. Quando encontrei, por engano e sorte durante a fuga de um bando de mortos, tive a impressão de que alguém saltaria por entre o lixo e diria algo do tipo, “Você é o cliente numero mil e acaba de ganhar mais alguns dias de vida!”. Não consegui dormir direito naquela noite quando voltara para a fazenda e mesmo antes de amanhecer, quase imprudentemente, abasteci a caminhonete e dirigi cautelosamente até a entrada da cidade, onde esperei quando o sol já estive numa posição que favorece minha tremenda curiosidade. Alem da arma e os suprimentos de sempre, trazia algumas ferramentas. A loja era bem protegida e precisaria de muito tempo para penetrar por entre suas grades. Infelizmente, tempo era meu único legado. Demorei pelo menos dois dias para conseguir cortar três das grossas grades de proteção da vitrine, e pela falta de energia elétrica há alguns meses, nem mesmo os alarmes soaram tentando afugentar-me. Senti que pela passagem aberta era possível me espremer por ela sem nenhum problema. Dentro do armazém o tempo parecia ter parado. Tudo continuava da mesma forma que os funcionários haviam deixado quando os alarmes soaram num gemido estridente e agonizante, avisando ser o ultimo alerta de evacuação da área. Verifiquei todo o local antes de começar a encher as duas mochilas que trazia comigo. Mesmo com a certeza de que ninguém pisava por aquelas bandas por mais de cinco anos, era melhor ter o alívio de que realmente estaria sozinho ali dentro e poderia se concentrar melhor no que procurar. O lugar se estendia por longos corredores de prateleiras quase intactas. A luz do dia entrava pela vitrine embaçada num fosco furtivo e suave, possibilitando o livre deslocamento por todo o armazém. O local estava realmente limpo dos mortos vivos. Deviam tê-lo lacrado antes mesmo da infecção realmente ter piorado. Na esperança de que tudo terminasse rápido e a vida pudesse voltar ao normal.


Resolvi deixar esse pensamento de lado, de nada me valia remoer o passado, não poderia depreciar aquela jazida de suprimentos, a algum tempo começava a me preocupar com isso. Porem finalmente, depois de muito tempo, algo de bom começava a acontecer e aquele local me abasteceria por um longo tempo e na pior das hipóteses, seria um excelente esconderijo dentro da cidade. Já havia encontrado outros pontos que poderia se abrigar em São Francisco, mas nenhum tão próximo da área central. Esse era um marco e tanto. Voltei a olhar para o relógio no pulso. Senti uma pontada de remorso por deixar aquele local tão abastecido para trás levando tão poucas coisas, mas quando pudesse, voltaria para buscar mais, ate mesmo encontrar uma rota limpa para trazer a camionete o mais perto possível. Seria ótimo não ter que me preocupar em voltar para aquela armadilha. Voltei até a abertura entre as grades. Espiei por entra a abertura antes de cair fora dali. O vento soprava o suave odor de destruição e paz. *** Pelo caminho, voltando para onde havia estacionado a caminhonete, tive tempo para pensar sobre a considerável diminuição nos mortos vivos pela cidade. Era normal encontrar pelo menos um grupo de aproximadamente cinquenta indivíduos caminhando a esmo há alguns meses atrás, só que desta vez nada mais do que seis caminhantes se entreviram pelo meu caminho. Era algo “anormal”, de repente todos desaparecerem. Pra onde foram não me importava, mas a intuição dizia que algo estava errado, tilintando em meus ouvidos um sinal de alerta. Toda essa paz deixava a vaga impressão de que algo iria acontecer a qualquer momento e seria realmente ruim estar aqui para presenciar. Comecei a desconfiar que existisse algo instintivo naquelas criaturas, mas um sentimento de completa loucura viera à cabeça e pareci ridículo especular sobre o comportamento dos zumbis como se fossem criaturas dotadas de algum tipo de inteligência. Pensei estar no começo de algo pior que a morte, a insanidade. - Eles estão mortos, só isso, não há nada de estranho nisso! – novamente minha voz parecera algo completamente alheio a tudo aquilo. Eu já estava perto da saída de São Francisco onde havia deixado o carro. O sol logo começaria se por, entre as montanhas rochosas ao oeste, e muito me alegrava saber que em breve estaria seguro, a luz da lareira experimentando alguns figos enlatados enquanto Lincoln se refestelaria com um pouco de comida para gatos sabor fígado ao molho pardo. Por um momento um breve sorriso me escapuliu num impulso de sentir inveja do velho bichano. Gatos até mesmo no fim do mundo são criaturas refinadas. Admito que o tempo vinha passando cada vez mais lento, mas seria insuportável sem a presença de Lincoln. ***


Como um trovão que surge repentinamente e nos assalta, meu corpo estacou exatamente onde eu estava e algo atravessou minha cabeça. Estava a poucos quarteirões do carro, mas percebi que era necessário voltar. Fiz o caminho de volta atalhando por uma das ruas acima do que a havia vindo. O tempo era escasso, no entanto se estivesse certo, valeria a pena correr algum risco. A rua se estendia num atalho com menos obstáculos e com toda aquela carga extra nas costas, ele seria o mais indicado até o meu objetivo, 3 quadras acima dali. De repente, quando consegui chegar próximo do meu destino as ruas mostraram-se familiares. Senti um leve frio no estomago subir pelo esôfago. Apesar da destruição, ainda podia lembrar-se de todas as manhãs que passara por ali, sonolento praguejando pensamentos mal humorados por ter de acordar cedo todos os dias. Logo à frente havia um prédio que se erguia oponente diante os outros ao seu redor. Um edifício de oito andares, de fachada moderna de aço e vidro, e pude me recordar do meu primeiro emprego no ultimo andar. Isso acendeu uma luz dentro de mim, uma ideia que tivera há algum tempo atrás e não a levara em consideração. Deixei a bolsa no chão oculta por detrás da roda tombada de um caminhão e verifiquei se a espingarda estava carregada e se havia bastante munição dentro da mochila. Enchi o bolso com um punhado de balas e caminhei ate a entrada do prédio olhando desconfiadamente e mantendo a arma apontada para todos os lados. A entrada estava desobstruída por dentro, apesar das portas estarem visivelmente trancada, elas eram feitas de vidro temperado e arrombálas causaria uma chuva de estilhaços e isso poderia atrair a atenção de qualquer zumbi nas redondezas, mas não havia outra forma de fazer aquilo. Atingi a fechadura da porta com um soco seco e forte da coronha da arma, fazendo-a desabar em uma cascata de cristais verdes sob o chão empoeirado. Não havia tempo a perder, eu precisava subir e ser rápido antes que todos os mortos vivos viessem para o meu jantar. Mas caso encontrasse o que estava procurando, essa poderia ser a minha chance de descobri se estava ou não sozinho naquele inferno!


Capítulo Quatro

Existe algo fascinante no medo. Há muito tempo venho caminhando sozinho por um mundo destruído e traiçoeiro. Mesmo assim, sempre que me proponho a pensar sobre o medo, somente uma única vez sentira o coração paralisar completamente meu corpo, as mãos tremulas e frias como se um repentino inverno houvesse caído ao meu redor, tornando os nervos rígidos como cordas congeladas. Eu estava completamente apavorado. Era o começo de janeiro de 2009. Por volta dos dezoitos anos, eu vivia intensamente minha perturbada puberdade. Acabara de concluir o ensino médio e não via nenhum futuro depois dele. Estava sozinho, triste e com raiva, três sintomas normais para aquele período, e tudo o que poderia fazer era “nada fazer” enquanto o tempo corria tranqüilo em qualquer direção, mesmo parecendo que estava caindo em vez de correr. Posso afirmar que estava completamente perdido. Repleto de medos e do que seria da minha vida dali em diante. E de todos os medos, o futuro era o mais assustador deles. *** O pôr do sol lançou sobre a cidade o tom rubro de outro entardecer. Tingindo as nuvens num alaranjado faiscante e maciço, como brasas incandescentes que se apagam a medida que a noite cai. A nesga de luz infiltrava pelas básculas das escadas de emergência do edifício, iluminando os lances dos oito andares do edifício de forma precária. A estrutura de metal subia por um fosso, cortando do térreo ao ultimo andar do prédio em forma de caracol. A cada passo, o rangido do metal se contorcendo pelo meu peso liberava uma descarga de arrepios que atravessavam minhas costas até a nuca, meus dentes também rangiam ao ritmo do ruído infernal como se o controlasse com a boca. Pela ausência de eletricidade, o elevador não funcionava e isso não era nenhuma surpresa, então a única opção fora se enfiar naquela armadilha que antes era usada com saída de emergência. Mesmo parecendo oras, chegou ao lance final da escadaria em cinco minutos e logo estava de pé diante a entrada do oitavo andar. Precisei pouco menos do que um pontapé para abrir a porta, escorada por dentro por apenas uma cadeira de metal que foi lançada para longe num estalo metálico, anunciando minha chegada. A cadeira estendida no chão fez-me lembrar de algo. Talvez essa fora a ultima tentativa de alguém manter alguma coisa fora, ou dentro, do oitavo andar. Possivelmente eu encontraria essa “alguma coisa” e isso não me animava nem um pouco. Mas agora não havia como retornar com as mãos abanando. Procurei entre os bolsos uma lanterna. O sol já se pusera completamente deixando somente um leve suspiro de claridade ao meu redor. A lanterna era pequena o bastante para se carregar num chaveiro, mas o feixe de luz que


produzia era amplo e farto e serviria para averiguar melhor o caminho. Desconfiando de minha memória, conferi novamente os cartuchos. Dez balas bem armados e prontos para mandar para o inferno qualquer coisa que se mexesse diante da mira da winchester. *** Durante mais de um ano não encontrei uma única alma viva perambulando por onde houvesse passo. Os últimos seres humanos que me recordo foram alguns viajantes a pouco menos de cinco meses atrás. Era um grupo de aproximadamente quinze pessoas entre idosos, crianças e mulheres, escoltados por outros cinco homens fardados como soldados do exercito brasileiro. Cruzando uma das avenidas principais, tentavam atravessar a cidade o mais rápido possível. Nessa época havia muitas daquelas criaturas demoníacas rodando pelas ruas, farejando a carne fresca de qualquer coisa que bobeasse sangue. Eu tive a oportunidade de avista-lo de um dos pontos seguros de observação criados pelos últimos sobreviventes da cidade antes da total evacuação. Localiza-se entre a estrutura do cruzeiro, corroído pela chuva e a ferrugem, plantado no alto do moro que levava o mesmo nome do monumento. Os mortos tinham certa dificuldade em subir as rampas. Talvez a sensação de segurança no alto das colinas tenha sido o maior erro de quem pereceu pela fome e sede sem como fugir. E bem lá do alto, monitorei todo o movimento do grupo com a ajuda de binóculos. Era possível acompanhar toda a área num raio de um quilometro e sabia que a qualquer momento, em direção ao foco mais critico da infestação de zumbis, eles estariam encurralados pela horda de demônios que os esperavam para um banquete macabro. Pensei em sinalizar para não continuarem em frente, retrocederem e leva-los para um lugar seguro antes que todos fossem devorados. Mas algo mudou bruscamente a minha opinião. Mantive-me deitado sobre o sol das 15h, observando pelas lentes o que se descortinava diante dos meus olhos e recordando o porquê de nunca confiar em outro ser humano em toda a minha vida, principalmente agora, num tempo de medo e vigília. Presenciei algo que passei a temer mais do que os próprios mortos vivos. A fúria humana. Um dos soldados, de aparência latina, cabelos curtos e barba grossa e especa, avistou uma das criaturas caminhando despendida do bando, ordenou que todos se abaixassem e caminhou o mais próximo possível da criatura. Era uma criança zumbi que aparentava traços de contaminação quando ainda tinha oito anos. O soldado agarrou-lhe pela cabeça – a criatura se debatia tentando agarrar uma parte do braço do soldado, seus gruídos gelavam-me mesmo daqueles distancia - e o arrastou de volta ao grupo e começou a golpea-lo. Não na cabeça, tentando exterminá-lo de uma vez por toda, mas por todo o corpo que se desmanchava gradativamente, jogando-o contra a parede, prende-o fortemente com uma das mãos e o mutilou com uma faca de caça, perfurando toso o corpo apodrecido. Deus, a criança não apresentava o menor sinal de dor. Seus dentes batiam alucinadamente enquanto pedaços de carne negra e podre voavam por toda


parte. O mais abominável era o prazer doentio nos atos do soldado que beirava a loucura, agredindo insandecidamente o cadáver que se revirava tentando morde qualquer parte de seu agressor. Por um segundo tive pena por aquilo que um dia foi uma criança. Os outros supostos soldados – comecei a repensar sobre as forças armadas, se ainda existiam ou seriam somente milícias armadas soltas por ai - se aproximaram e o ajudaram, pisoteando o pequeno cadáver, envoltos numa alegria doentio, como se brincassem com um boneco velho. O estraçalharam-no ao ponto de não haver meio de se mover. Somente sua boca rangia desejosa de carne fresca. Meus olhos pareciam querer quebrar o vidro das lentes. O sol queimava minhas costas e não sabia se eram lágrimas ou suar escorrendo pelo rosto quando o enxuguei com o canto da camisa e tentei desembaçar as lentes dos binóculos. Quando os posicionei diante dos olhos novamente senti o sangue desaparecer novamente e calafrios fizeram o suar que escoria pelos cantos das maçãs do rosto, tornarem-se gotículas gelas. Um dos velhos se desprendeu do grupo de pessoas abaixadas e caminhou até militares. O velho gritou algo que não pude ouvir nitidamente, mas estava carregado de raiva e revolta. No mesmo instante o ataque covarde parou contra o zumbi, um dos soldados – um menor, de barba fechada– sacou a arma e disparou contra a cabeça da criança no chão que se calou no mesmo instante. Em seguia caminhou na direção do homem e disparou contra a sua cabeça. Não pude acreditar no que estava assistindo. O corpo do senhor cairá inanimado sobre o solo, tingindo todo o asfalto num jorro sujo de sangue. As outras pessoas gritavam desesperadamente, abraçados uns aos outros na tentativa de afastar o medo de seus corações. De repente, algo no canto esquerdo chamou-me a atenção, movendo-se como a maré quando sobe, a horda de zombies caminhava em direção da balburdia atraídos como tubarões ao farejar sangue sob a água a milhas de distancia. Quando retornei a visão sobre aquilo que mais parecia um filme de terror claustrofóbico, percebi que o horror estava longe de terminar. Em seguida os soldados apontaram suas armas para o grupo, que chorava e gritava desesperadamente por clemência estavam, e logo o silencio se fez sobre a ameaça velada de seguirem o mesmo destino do velho estirado no chão. Minhas mãos suavam frias e lagrimas, definitivamente, escoriam pelo meu rosto. Eu não podia acreditar. Sentia o desejo de fazer algo, saltar de onde estava escondido e fazer alguma coisa que pudesse detê-los. “Mas o quê?”. Eu não podia! Não havia nada que eu pudesse fazer. Minhas mãos serravam-se sobre o binóculo e a certo ponto parecia querer trincar as lentes que brilhavam como fogo. A única coisa possível naquele instante era fechar meus olhos, secar minhas lagrimas e sair dali o mais rápido possível. Não olhar para trás. Não voltar atrás. Juntei minhas coisas e voltei minhas costas para todo aquele terror e parti na direção da saída da cidade. Quando já alcançava boa distancia do moro do cruzeiro o som de rajadas de metralhadoras viajaram até meus ouvidos e no interior do meu coração desejei que os mortos os tivesse interceptado antes que houvessem tido tempo para cometer uma idiotice que fosse com qualquer uma daquelas pessoas.


Infelizmente, eu estava errado. Na manha seguinte, depois de passar toda a noite em claro pensando em tudo o que havia presenciado sem ao menos fazer algo, voltei à cidade. Tomando todas as precauções possíveis, caminhei rapidamente até o ponto onde havia visto o grupo pela ultima vez. Escondido por baixo de um ônibus, camuflando minha posição, eu os vi, distantes, sentados no mesmo lugar do dia anterior. Todas as pessoas estavam juntas, exceto os soldados. Todos nus, com pés e mãos amarradas, com uma única marca em comum. Um orifício vermelho e chamuscado feito na testa feito por um tiro de bala em suas cabeças. “Todos mortos.” *** As sombras se projetavam como fantasmas ao leve lampejo da luz da lanterna. O dia terminara, lançando o sombrio véu da noite sobre as montanhas de São Francisco. O frio começava a percorrer as ruas e se infiltrar em meus ossos. Consegui alcançar o oitavo andar sem encontrar o vestígio de qualquer criatura e isso perturbava profundamente. O mistério para onde haviam ido me deixava atônito. Mas nada me tirava à sensação de que algo estava enclausurado dentro daquelas paredes, espreito a espera de alimento. A porta de vidro intacta, a cadeira mantendo a escada lacrada por dentro e a ausência de qualquer morto vivo aumentava mais ainda o sentimento de alerta. Minhas mãos suavam umedecendo a lanterna e os dedos se fecham em torno da empunhadura do facão, que permanecia em riste, aguardando a surpresa indesejada de qualquer coisa que se propusesse na sua mira. Havia desistido do uso da espingarda. Atirar em um ambiente tão estreito poderia me atingir tanto quanto qualquer outra coisa. Verifiquei novamente a retaguarda antes de abrir a saída de emergência e mergulhar no hall de entrada do oitavo andar. Somente a escuridão me espreitava. Prendia a respiração por um segundo e segurei firme a alça da porta. A porta estava destrancada. Contei mentalmente até três e a empurrei. As dobradiças enferrujadas produziam um guincho profundo e lamentoso, como se acordassem depois de muitos anos. Meus olhos percorreram por um minuto toda extensão do corredor que se pronunciava diante da porta e curvava. O som abafado da porta batendo na parede quase me matou de susto. Meus nervos começavam a me pregar peças. A luz da lanterna produzia uma miserável sensação de desconforto a cada passo dado para o interior do corredor. O chão estava coberto de poeira e papeis rasgados e envelhecidos. Lembrei de quando aquilo era um andar comercial, destinado a escritórios de todos os tipos. Todas as portas se encontravam abertas e havia todo tipo de lixo e sujeira pelo chão como se alguém houvesse feito uma festa macabra por ali antes de ir embora de deixar tudo aberto. Moveis revirados


e janelas destruídas criavam a impressão de que todos haviam desaparecido em um furacão de caos completo. Verifiquei o interior de cada apartamento mantendo o esquema de “limpeza” de zumbis. Aproximando meu corpo suavemente da entrada, sondando cada ruído que pudesse ouvir, até mesmo o simples arrastar dos papeis pelo chão que poderia ser o vento ou o sinal de algo rastejando a espera para arrancar meu calcanhar com os dentes. Procuro por todos os quartos e cômodos até mesmo dentro de qualquer armário – esses eu odeio profundamente, certa vez encontrara uma idosa devorando o resto do que seria um gato e tive o prazer de fulminá-la antes que pudesse perceber minha presença – e depois ponho-me a vasculhar qualquer canto a procura de algo util. Mas nada de relevante encontrei alem de algumas pequenas quinquilharias que teria algum tipo de serventia no futuro, a não ser que um grampeador me ajudasse contra uma horda de mortos vivos. Faltavam apenas três apartamentos. Começava achar aquela uma ideia idiota, abandonar todos os suprimentos e empreender naquela busca quando teria sido melhor voltar outro dia, com mais tempo. Mas lamentar-se agora não ajudaria muito. Não havia como voltar atrás e provavelmente teria de esperar até o amanhecer para cair fora dali. Deixei esses pensamentos pessimistas de lado. Eu estava bem próximo do meu objetivo e isso de alguma forma me acalentava a alma dentro daquele poço de imundices inúteis. Dentro da ultima sala, no fundo do corredor a menos de vinte metros, funcionou uma antiga emissora de radio AM e - se estou certo e se ainda estiver no mesmo lugar- possivelmente encontrarei um radio Px Amador Cobra 148 Gtl sobre uma das mesas esperando por alguém que o soubesse usar. Um breve clarão trouxe a memória daquele dia – uma segunda feira de verão. Eu estava pensando na melhor forma de burlar algumas dividas e pagar a mensalidade da faculdade com o pouco de dinheiro que restara do seguro desemprego. A vida não poderia estar pior naquela época, foi o que eu pensei antes de ouvir do radio do bar onde havia parado para afogar as dividas num copo de vodka. Num instante todos os sinais de radio foram interrompidos e numa única voz radiofônica o presidente entrou na programação trazendo o primeiro e importante comunicado que a raça humana se lembraria para sempre. “A extinção é eminente!” são as únicas palavras que ainda consigo ouvir a noite enquanto sonho com aquele dia. Mas nãos somente as rádios pararam naquele dia, mas em todas TV’s do mundo e pela internet, os governos anunciavam ao povo o descontrole de uma praga que começara com um simples teste com mísseis coreanos e que agora acionara o relógio do apocalipse que corria para trás contra nós. Desde aquele dia, minha vida mudara, e a simples preocupação com dividas se tornou poeira de uma geração aniquilada. Depois de tudo, saber que no espaço de vinte metros de distancia estaria a resposta para minha maior duvida era a melhor coisa que poderia me acontecer nos últimos tempos e o medo não seria maior que a agonia de não saber onde estão todos. ***


Os dois apartamentos restantes, apesar da depredação do tempo e da aparência que um vulcão houvesse lançado sua fuligem por toda parte, estavam limpos de qualquer sinal humano ali nos últimos tempos, era como se todos realmente houvessem evaporado. Por sorte, consegui encontrar algumas pilhas ainda embaladas dentro de gavetas de um armário tomado por baratas e lixo, esse foi um pequeno brinde escondido ali e que alimentava minhas esperanças. Mas logo a pequena aura de satisfação que me rondou dissipou-se com o leve ruído de algo se arrastando em algum lugar dentro do oitavo andar. Girei nos calcanhares instintivamente, empunhando o facão preste a desferir um golpe e iluminando a porta no sentido do corredor de onde o som veio. Caminhei em alerta à espera de qualquer coisa que se projetasse sobre a luz bruxuleante da lanterna que tremia em minha mão. O corredor estava imerso numa escuridão profunda e imóvel. Nada se movia na noite. Nem mesmo o ar. Tinha total certeza de ter conferido cada apartamento cautelosamente, mas também jurava ter ouvindo nitidamente algo sendo arrastado sobre o chão imundo. Mesmo assim parecia irreal o som de algo se movendo entre os apartamentos e por um momento imaginei que uma corrente de ar passara e produzira o ruído com o auxilio dos papeis puídos sobre o chão sujo, alimentando assim a minha imaginação e o medo abalado novamente meus nervos. Mas antes que as conjecturas pudessem se firmar, meu coração pareceu parar quando senti o arrastar de pés vindos por detrás de mim. Virei rapidamente e não havia corrente de ar dessa vez. No fim do corredor algo me assaltou. A surpresa de descobrir a única porta ainda fechada fez-me gelar completamente. Por trás dela algo caminhava de um lado para o outro como que atraído pelo o seu odor à medida que me aproximava. A ideia de uma família inteira de mortos vivos acertou-me em cheio. Aproximei-me vagarosamente tentando produzir o menor barulho possível. Pisando cautelosamente sobre os papeis esfarrapados. O movimento de pés agitava-se a cada passo de aproximação e o som de unhas arranhando alucinadamente a madeira maciça criava a trilha de horror a conduzir-me. O suor escorria por entre as dobras dos dedos que apertavam firmemente a lanterna quando finalmente me prostrei diante a porta, preparando para chutá-la o mais forte possível a fim de pô-la abaixo com um único golpe, o som instantaneamente cessou e isso corroeu-me por dentro. “Que diabos é isso?”. Cautelosamente, encostei o ouvido na madeira tentando identificar o que possivelmente estaria do outro lado da porta. Nada, nenhum ruído. Era como se o próprio demônio o tivesse levado de volta para o inferno. O olho mágico revelava somente a escuridão completa. Eu não podia mais conviver com todo aquele suspense. Recuei um metro e decidi que fosse o que estivesse ali dentro, seria melhor estar com a espingarda apontada para dentro. Empunhando-a, lancei sobre a porta um golpe seco com o pé, arrancando-a mais facilmente do que o imaginado, fazendo-a desabar num som grave e seco. Mais rápido do que


o pensamento, empunhei a arma juntamente com a lanterna entre a mão, mantendo a mira da arma e da luz sobre o desafortunado monstro que se atravessasse sobre a minha mira. Uma nuvem de poeira subira com a queda da porta e nada se movia por entre ela. Parecia um momento eterno, parecia que as micro-partículas de pó se moviam num bale disforme diante a luz. Então finalmente algo começou a acontecer. Um passo, e depois outro se arrastando a minha frente. Eu não conseguia ver nada no meio de toda aquela poeira no ar. O cano da Winchester continuava apontada para o interior das sombras. Meus olhos, semifechados, não se desviariam por nada no mundo antes que algo caísse completamente morto e não dispararia te descobrir quantas daquelas malditas bestas estavam ali. “calma, você só precisa do radio! Tenha calma!”. Um vulto se pronunciou a minha frente, seus passos continuavam fracos e arrastados. Eu senti o dedo coçar sobre o gatilho. Mas não atiraria até ter certeza do que estava à minha frente, escondido por entre o nevoeiro de fuligens. “Essa maldita poeira!”. Então o brilho de algo me assaltou e o som familiar de uma voz, baixa e assustada confirmou a duvida dentro de mim. “Eu realmente estava enlouquecendo!”. - Papai? – disse alguém nas sombras.


Capítulo Cinco “Uma criança!?” Eu não conseguia lembrar como era olhar para dentro dos olhos de uma criança, mas o som suplicante de proteção ao pronunciar “papai” nunca sairia da minha cabeça. Muito menos imaginei ser aquela visão a mais assustadora da minha vida. Tudo passou como um raio pelo meu cérebro, descendo pela espinha num arrepio assombroso. Nada daquilo fazia o menor sentido. O cano da espingarda tombava lentamente diante a minha consternação desviando a mira e a luz da lanterna para o chão, mesmo assim eu conseguia sentir o fogo daqueles olhos atravessando o ar . Minha cabeça parecia à beira de uma explosão. Rapidamente, voltei o feixe de luz para direção da garota. E antes que pudesse ter certeza de que ela estava imóvel no mesmo lugar, algo rosnou de forma raivosa e saltou do meu lado direito e antes mesmo que pudesse mirar a luz, alguma coisa cravando profundamente seus dentes sobre o meu braço. Senti a força perfurando minha pele como se fosse papel e a dor terrível cruzou todo meu corpo. Um grito de horror cruzou todo o corredor em eco, então percebi que quem gritava era eu. Por um estante pensei tratar-se de um zumbi, mas no lugar de um rosto desfigurado pela podridão, encontrei a cabeça de um cachorro enorme rasgando meu braço ferozmente. A lanterna foi lançada para longe, rolando até o canto da parede, iluminando toda a extensão do corredor de onde eu tentava desvencilhar-me do animal, difícil de distinguir, que se misturava a escuridão. Mas pude ver seus olhos amarelos brilhando cheios de ódio enquanto a pele era cortada como uma folha de papel e o animal se revirando tentando tirar um pedaço generoso – senão o braço inteiro – de mim. Tomado pelo desespero, lhe esmurrei a cabeça com toda força que ainda me restava, conseguindo somente atiçar mais ainda a sua irá contra mim e sentindo que a qualquer momento iria desmaiar pela dor. Debatiase raivosamente, sacudindo o corpo de um lado para o outro. Da sua boca, jorrava uma grossa espuma misturada pelo sangue e saliva. Eu precisa me desprender rápido daquele ataque. Virei a cabeça - mais pela do dor do que pela consciência - e pude ver não muito longe do braço esquerdo, o resto de algo que fora uma cadeira. A agarrei num dos breves momentos de força sobre mim e desferi inúmeros golpes sobre meu agressor. A cada golpe sentia-me enfraquecido e o animal mais tomado de raiva. Finalmente vencido pelo espancamento, largou-me, afastando-se meio atordoado para o outro lado do corredor, deixando à minha visão o estrago causado no braço direito. Uma ferida horrenda rasgando todo o antebraço, esguichando sangue. Caso não morresse pelo ataque, seria somente um cadáver pálido sem sangue até o amanhecer. A cada segundo perdia muito sangue. A pulsação do meu coração acelerado o fluxo do sangue enquanto pressionava a ferida com a mão esquerda. Teria de finalizar aquela brincadeira o mais rápido possível. Procurei com meus olhos o vulto da arma na escuridão, ela estava caída na minha frente, apouco menos de dois metros. Minha vida dependia de alcançá-la, antes que outro ataque recomeçasse.


O animal logo retomou suas percepções e pude sentir seus olhos amarelos cintilarem na escuridão, cruzando-se com os meus e tive a certeza que novamente iria me atacar, desta vez, fatalmente. Sua boca rosnava raivosamente e era difícil distinguir seu Gorpo enegrecido do resto das sombras. Minha visão começava a se tornar nebulosa. Mas eu sabia que meu sangue escoria por suas presas fazendo-o desejar o restante do braço com toda a sua selvageria. Rastejei lentamente apoiando o braço junto ao corpo, tentando alcançar o cabo da espingarda sem desviar por um segundo seque os olhos do animal que estudava o próximo ponto do seu ataque. Sua cabeça permanecia arqueada, seus olhos riscavam o ar em faíscas e, percebendo a ameaça da minha ação, o cão lançouse numa corrida desembalada na minha direção. Num salto sobre a arma, Agarrei-me a ela e, pondo de joelhos de uma maneira que nem sei como explicar, mirei rapidamente para ele sem ao menos ter certeza de onde acertaria, desejei não errar um único disparo. Era a única chance. Mas antes mesmo de apertar o gatilho, a força seca de um objeto golpeou minha nuca e meu corpo, lançado para frente, desabou sobre o chão duramente, a poucos centímetros da barriga do cachorro, que atravessava o ar sobre mim, errando minha garganta por pouco. Tudo parecia um turbilhão de imagens estranhas. Um borrão de luzes e a escuridão dançavam macabramente diante dos meus olhos. Não conseguindo distinguir nada enquanto tudo se apagava ao meu redor, desmaiei ouvindo a mesma voz se repetir num eco distante. “Papai!”.

Primeiros capitulos de o ultimo amanhecer parte 01  
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