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1 | CRISTIANISMO HOJE


Sumário

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24 26 30 32 36 38 40

PRIMEIRAS PALAVRAS CARTAS E MENSAGENS SOCIEDADE

Drama do infanticídio praticado por tribos brasileiras esquenta o debate acerca da intocabilidade de culturas indígenas, prejudicando a atuação de missionários que tentam salvar crianças da morte

FRASES E PENSAMENTOS BRASIL

Apoio irrestrito de féis da Renascer a dirigentes da igreja presos nos Estados Unidos por crime fiscal é fenômeno típico do movimento neopentecostal que sacraliza líderes eclesiásticos

IGREJA Ed René Kivitz ESPIRITUALIDADE Ricardo Agreste INFORME CH REFLEXÃO Eugene Peterson SONS DO CORAÇÃO Nelson Bomilcar CASAMENTO Gary Chapman MULHER Esther Carrenho

CAPA Apesar dos assaltos da modernidade e do humanismo, Jesus Cristo continua no centro das atenções e influencia o comportamento humano, o mundo corporativo, a mídia e a academia em plena era da informação

ENTREVISTA

Max Lucado, um dos mais admirados autores cristãos da atualidade, fala de seu novo livro, de sua obra e do tempo em que viveu no Brasil

PAVAZINE# Sérgio Pavarini CH DIGITAL Whaner Endo CINECULT Nataniel Gomes LIVROS E RESENHAS Luciano Vergara OS OUTROS SEIS DIAS Carlo Carrenho COMPORTAMENTO

Ministérios de apoio cristão a ex-gays investem em uma nova abordagem da questão, valorizando o discipulado e a assistência continuada como caminho para a mudança da orientação sexual

ÚLTIMAS PALAVRAS Carlos Queiroz

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PRIMEIRAS PALAVRAS Revista Cristianismo Hoje A verdade com conteúdo evangélico www.cristianismohoje.com.br

Informação com encorajamento, união e edificação

Quem somos Cristianismo Hoje é uma publicação evangélica, nacional e independente, que tem como objetivo informar, encorajar, unir e edificar a Igreja brasileira, comunicando com verdade, isenção e profundidade os fatos ligados ao segmento cristão, bem como o poder transformador do Evangelho a todos os seus leitores

CRISTIANISMO HOJE nasce após um processo de gestação que durou três anos. E o último deles foi marcado por intenso planejamento, reuniões no Brasil e no exterior, conversas, pesquisas e muito trabalho. Logo que o projeto tomou forma, o apoio foi evidente e surgiu de várias direções. Isso porque há demandas não supridas no segmento evangélico brasileiro – e uma delas é por informação com isenção e que promova edificação. É claro que a imprensa evangélica nacional tem dado provas inquestionáveis de qualidade e comprometimento com a causa cristã. Mas a verdade é que precisamos ter outros espaços para discutir e refletir sobre o mundo que nos cerca e sobre a Igreja. Não bastam a crítica ou a mera identificação dos problemas; o fundamental é apontar caminhos para o diálogo espiritual e o amadurecimento da fé cristã no Brasil. Uma dificuldade ao se fazer uma revista é a busca incessante pela independência editorial, mas também pela libertação de conceitos e preconceitos muitas vezes arraigados. Questionar comportamentos cristalizados e dogmas que surgem e acabam consolidados ao longo dos anos é obrigação de todo comunicador – e o comunicador cristão tem a responsabilidade de fazê-lo sob o prisma bíblico. Para isso, não se pode abrir mão do constante aprendizado. Por isso mesmo, a parceria com o grupo Christianity Today International foi fundamental para a realização deste empreendimento. Desde que a idéia de lançar uma revista evangélica diferenciada surgiu, os responsáveis por esse tão respeitado ministério surgido nos Estados Unidos há mais de 50 anos demonstraram um profundo interesse em colaborar. A revista que chega às suas mãos, caro leitor, é fruto de uma vasta experiência que nos serve de base para uma caminhada que, esperamos, seja longa e produtiva. Em CRISTIANISMO HOJE, temas como espiritualidade, teologia, comportamento, família, doutrina, missões e muitos outros se misturam aos fatos de um mundo em rápida e constante transformação. O resultado é um mosaico onde diversas fontes de informação são abordados em reportagens, artigos e colunas que expressam a diversidade do pensamento evangélico brasileiro. Nesta primeira edição, o tema de capa é a figura de Cristo e sua influência sobre a sociedade chamada de “pós-moderna”, por alguns teóricos das ciências humanas. Dois mil anos após o Advento do Filho de Deus, seus ensinos continuam fazendo toda a diferença, não apenas na vida daqueles que o seguem, como também na sociedade da informação e da tecnologia deste século 21. Desde já, queremos agradecer a todos que acreditaram e participaram diretamente deste projeto: Conselho Editorial, colaboradores, jornalistas e anunciantes. Nossa missão diz tudo: informar, encorajar, unir e edificar a Igreja brasileira. Esta é a razão de ser desta revista – e queremos que você, leitor, faça parte dela.

Conselho Editorial Carlo Carrenho, Carlos Buckzinsky, Eleny Vassão, Eude Martins da Silva, Marcelo Augusto Souto, Mario Ikeda, Mark Carpenter, Nelson Bomilcar, Richard Werner, Ronaldo Lidório, Volney Faustini e William Douglas

C

Marcos Simas Editor

A revista tem uma parceria com o grupo Christianity Today International, um dos mais importantes grupos de mídia cristã do mundo, com 11 revistas e 28 sites de conteúdo

Editor Marcos Simas Diretor de redação e jornalista responsável Carlos Fernandes – MTb 17336 Jornalistas desta edição Cláudio Neves, Jacqueline Falheiro, Marcos Couto, Tim Stafford, Treici Schwengber e Valter Gonçalves Jr Colunistas Carlo Carrenho, Luciano Vergara, Nataniel Gomes, Nélson Bomilcar, Sérgio Pavarini e Whaner Endo Tradutores Cláudia Ziller Faria e Pedro Bianco Revisores Alzeli Simas e Ricardo Costa Colaboradores desta edição Carlos Queiroz, Esther Carrenho, Ed René Kivitz, Eugene Peterson, Gary Chapman e Ricardo Agreste Projeto gráfico oliverartelucas Publicidade publicidade@cristianismohoje.com.br Assinaturas 0800 644 4010 assinatura@cristianismohoje.com.br Caixa postal 2351 Brasília, DF CEP 70842-970 Informações e permissões para republicação de artigos faleconosco@cristianismohoje.com.br Distribuição MR Werner Distribuidora de livros Ltda. CLN 201 - Bloco C Subsolo - Asa Norte Brasília - DF - CEP 70832-530 CNPJ 06.013.240/0001-07 – IE 07.450.716/001-45 Endereço editorial Caixa Postal 107.006 Niterói - RJ - CEP 24360-970 Cristianismo Hoje é uma publicação da Msimas Editora Ltda. CNPJ 02.120.865/0001-17

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Esta obra vai além dos tradicionais assuntos tratados em uma Teologia Sistemática e proporciona ao leitor os seguintes diferenciais: • Adota uma metodologia integrativa que analisa importantes questões religiosas, históricas, apologéticas e práticas. Essa metodologia divide o estudo em 6 etapas: definição do problema; estudo histórico e comparativo (com um estudo das religiões, seitas e filosofias mais significativas); estudo bíblico; estudo sistemático, estudo apologético e aplicação prática na vida e no ministério.

Portanto, o leitor terá em mãos uma obra que vai além da mera sistematização do ensino bíblico, pois procura responder de forma adequada a questões cruciais do contexto atual.

A teologia sistemática que o leitor tem em mãos é diferente de todas as demais disponíveis no mercado brasileiro de hoje. (...) A presente teologia resolveu mostrar a cada capítulo as implicações práticas de cada um dos principais pontos da sistemática, após discutir as questões apologéticas envolvidas em cada um destes pontos. Sinto-me honrado e satisfeito em poder apresentar a magna opus de Myatt e Ferreira ao público evangélico brasileiro, sempre carente, especialmente nos dias de hoje, de uma visão sistemática clara, bíblica e prática das coisas concernentes a Deus e ao seu Reino. Augustus Nicodemus Lopes “A obra é certamente surpreendente. A verdade é que se poderia esperar que uma teologia clássica de perfil reformado fosse repetitiva e redundante em relação às demais obras já existentes. Isso simplesmente não é verdade. Em primeiro lugar, a obra surpreende por sua contemporaneidade. A religiosidade brasileira foi levada em conta, tanto no aspecto teológico como popular. A interação com enfoques teológicos contemporâneos marca boa presença nesta obra acadêmica. Em segundo lugar, merece menção que a obra é feita a duas mãos, por um teólogo estrangeiro e por um teólogo brasileiro. Tal parceria é singular e prolífica.” Luiz Sayão “Não tenho a mínima dúvida de que a publicação desta obra será um marco na história do evangelho no Brasil. Não há outro tomo que eu conheço desta qualidade, escrito dentro do contexto do Brasil com a atualidade, abrangência, profundidade e segurança desta obra.” Russell Shedd

Nas melhores livrarias do país! Rua Antonio Carlos Tacconi, 75 Cidade Dutra São Paulo SP CEP 04810-020 Telefone/Fax: 11 5666 1911 | www.vidanova.com.br | e-mail: vidanova@vidanova.com.br Vida Nova, há 45 anos trazendo o que há de melhor para a teologia brasileira

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• Inclui respostas a problemas relevantes levantados pela situação cultural atual.


Cartas & mensagens

Christianity Today International sentese feliz ao participar do lançamento de CRISTIANISMO HOJE no Brasil. CTI é uma missão mundial fundada pelo reverendo Billy Graham em 1956, com o objetivo de estabelecer parcerias com ministérios locais que tenham a mesma visão e oferecer recursos de internet, impressos e em outros tipos de mídia para a Igreja em todo o planeta. A Igreja Evangélica brasileira é uma das maiores, mais vibrantes e de crescimento mais rápido no mundo; acreditamos que CRISTIANISMO HOJE poderá desempenhar um papel essencial, ajudando líderes cristãos que enfrentam dificuldades em questões importantes com que a Igreja se defronta.  Keith Stonehocker, chief strategy officer da Christianity Today International No Brasil, tem surgido uma comunidade pretensamente ‘evangélica’ que é cada vez maior, mas também cada vez menos bíblica – e, infelizmente, mais mística e legalista. É hora de debruçarmos-nos diante das Escrituras a fim de peneirar as nossas convicções e convertê-las às verdades bíblicas e às nossas raízes reformadas. Por isso, só posso louvar a oportuna chegada de CRISTIANISMO HOJE, pois ela pode ser mais uma ferramenta nessa nobre tarefa. Que Deus nos abra o coração e nos encha de sua graça. Rubinho Pirola é pastor e diretor executivo da Rádio Transmundial em Portugal

Vivemos hoje uma crise de informação – há excesso de informação de toda espécie e, geralmente, desnecessária e irrelevante. As pessoas, especialmente os cristãos, precisam fazer escolhas criteriosas sobre o que vão ler e assistir, para não perder o escasso e precioso tempo com ‘aquilo que não é pão’. Recomendamos a todos os verdadeiros discípulos de Jesus a leitura desta revista CRISTIANISMO HOJE, pois já conhecemos de longa data o conteúdo rico e diversificado do grupo Christianity Today International e, também, alguns integrantes da equipe editorial brasileira. Que o povo de Deus no Brasil não se acomode em seus respectivos nichos religiosos, satisfeitos com uma perspectiva limitada e estreita. Que este novo veículo de comunicação seja agraciado e ungido por Deus a trazer visão, unidade, amplitude à Igreja – e que faça diferença no meio das publicações cristãs atuais. Christopher Walker, membro do Conselho Editorial da revista Impacto Que notícia alvissareira é a chegada de CRISTIANISMO HOJE! Christianity Today, revista respeitada nos Estados Unidos, já está sendo publicada em nosso vernáculo. Isto é motivo de grande gáudio. Conheço-a desde o meu tempo de estudante no Southwestern Baptist Theogical Seminary, nos EUA. E lá se vão mais de 50 anos... A revista CRISTIANISMO HOJE está

Humor

Rubinho Pirola

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destinada a se tornar num grande fator de divulgação da teologia, da ética, da filosofia e de temas atuais com os quais nos defrontamos. Na esperança de ver CRISTIANISMO HOJE servindo à igreja e não apenas a um grupo, e de que ela não seja uma ferramenta para atacar, mas apenas sirva para edificação, apresento calorosos aplausos por esta conquista. Avante! Ebenézer Soares Ferreira, pastor, líder batista, escritor e membro da Academia Evangélica de Letras do Brasil Sinto-me honrada em dar as boasvindas à revista CRISTIANISMO HOJE, a mais nova publicação do mercado cristão. Ela já nasce respeitada, tanto pela composição do Conselho Editorial como pela proposta de um trabalho sério e responsável, que certamente brindará os leitores com excelente conteúdo e qualidade. Não se trata apenas de mais uma revista no mercado – CRISTIANISMO HOJE vai se destacar por proporcionar notícia relevante e coerente dentro de uma perspectiva cristã. Parabéns pela iniciativa deste grande e importante trabalho. Desejo sucesso a toda equipe da CRISTIANISMO HOJE. Estou ansiosa para receber a primeira edição desta brilhante revista. Marilene G. Terrengui, diretora-presidente da Editora Hagnos e vice-presidente editorial da Associação dos Editores Cristãos


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Atini – Voz pela Vida

SOCIEDADE

Muwaji, mãe suruwahá, enfrentou a tradição de sua tribo e pediu ajuda dos missionários para a filha, Iganami, que sofre de paralisia cerebral

Inocentes sob risco Prática do infanticído, presente em diversas etnias indígenas brasileiras, divide antropólogos, autoridades e missionários

U

Treici Schwengber e Valter Gonçalves Jr

Uma campanha movida pela organização não-governamental evangélica Atini – Voz pela Vida em favor de crianças rejeitadas por suas tribos coloca em xeque a legislação e a política do Estado brasileiro para os povos indígenas. Contrapor a idéia de um direito natural universal, que abrange as prerrogativas individuais básicas, ao relativismo cultural e à noção de que os povos devem

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ter total autonomia, é pedir para a conversa ficar interminável. Ainda mais se de um lado da mesa, por exemplo, estiver um missionário evangélico apaixonado pela fé e, do outro, um antropólogo cético, a defender a intocabilidade de determinada cultura. Mas tudo fica muito mais dramático se no centro desse embate ideológico estiver a vida de centenas de crianças ameaçadas pelo infanti-


Arquivo pessoal

Edson e Márcia Suzuki com a filha adotiva, Hakani: casal enfrentou críticas e até processo por salvar crianças indígenas da morte

Ricardo Stuckert / Agência Brasil

cídio, prática ainda recorrente em pelo menos 13 etnias indígenas brasileiras. Crianças portadoras de deficiência física, gêmeos, filhos nascidos de relações extra-conjugais ou portadores de “mau agouro” são os mais suscetíveis a serem condenadas ao infanticídio. Afinal, pessoas podem ser mortas por motivações culturais? A conversa esquentou na Câmara dos Deputados, em setembro. Com base em experiências como a vivida pela índia Muwaji Suruwahá – que enfrentou a tradição de sua gente para salvar a vida da filha deficiente física Iganani, condenada à morte por envenenamento –, o deputado federal Henrique Afonso (PT-AC) apresentou um projeto de lei que visa impedir “práticas tradicionais nocivas” que atentem contra a vida, obrigando o Estado brasileiro a agir para evitá-las. O texto torna crime a omissão de qualquer pessoa não indígena no caso de ameaças a crianças em tribos brasileiras. Se aprovado, o projeto interfere na política até hoje adotada pela Fundação Nacional do Índio, a Funai, que tem lidado com o infanticídio como uma questão meramente cultural, restrita ao entendimento da tribo. Mais do que isto, o governo atualmente desestimula – e em muitos casos impede – a ação de quem queira resgatar uma dessas crianças rejeitadas por problemas de saúde ou por crenças variadas. O caso de Iganami, ocorrido em 2005, rendeu projeção nacional e muitos problemas aos missionários e etnolingüistas Edson e Márcia Suzuki, casal ligado à agência missionária Jovens com uma Missão

O presidente Lula, entre o ministro da Saúde, José Temporão, e o presidente da Funai, Márcio de Meira, com indígenas: governo tem sido acusado de omissão diante do problema do infanticídio

(Jocum) e que trabalha com a comunidade suruwahá há 20 anos. Eles atenderam ao pedido de Muwaji e conseguiram tratamento com especialistas em São Paulo para sua filha, vítima de paralisia cerebral. A história apareceu em reportagens da TV Globo. E o fato de eles terem levado a família, de uma etnia semi-isolada na Amazônia, a encontrar socorro fora de seu ambiente cultural, provocou uma saraivada de críticas. Os Suzuki, que criaram a Ong Atini, foram acusados de, por motivações religiosas, se intrometerem indevidamente na vida dos suruwahá, povo que tem cerca de 130 indivíduos. Velhos preconceitos, já cristalizados no país, contra missionários evangélicos, vieram à tona e eles chegaram a ser denunciados pelo Ministério Público. O trabalho dos Suzuki, que falam perfeitamente a língua suruwahá, chegou a ser ameaçado de interrupção sob acusações pesadas, como seqüestro de crianças. “Nossa abordagem sempre foi séria. Jamais impusemos qualquer coisa aos suruwahá, e respeitamos sua cultura e suas crenças. Não pregamos o Evangelho de forma tradicional, como se imagina”, explica Márcia. “Apenas estabelecemos um diálogo baseado em convivência e amizade, de forma que qualquer iniciativa parta deles mesmos. Além disso, a Funai sempre teve ciência de nosso trabalho.” Ela sublinha que sua intenção é mover quem trabalha com indígenas a interferir com serenidade e sabedoria em situações similares. E combate, também, idéias equivocadas acerca do trabalho desenvolvido pelas missões. “O missionário atual é quem mais se

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SOCIEDADE

preocupa em dar assistência médica, preservar a cultura, salvar da extinção as línguas nativas e garantir as condições para que essas etnias resistam ao eventual contato com garimpeiros, madeireiros e com todo tipo de gente mal intencionada”, afirma Márcia. Na sua avaliação, os grupos abordados pelas missões cristãs têm mais chance de sobreviver a doenças, à desnutrição e à voracidade dos interesses econômicos. Tragédia familiar – Mas a polêmica vai mais longe. Depois de cinco anos brigando na Justiça, os Suzuki conseguiram adotar legalmente a menina Hakani, que hoje tem 12 anos. Também suruwahá, e rejeitada por não se desenvolver normalmente, a garota foi condenada à morte aos dois anos de idade e tornou-se pivô de uma tragédia familiar. Seus pais, orientados a matá-la, prepararam timbó, um veneno, mas não tiveram coragem de seguir adiante. Em vez disso, preferiram suicidar-se, bebendo a poção. O filho mais velho, Bibi, de 15 anos, foi então incumbido de dar fim à tarefa. O jovem bateu com um porrete em Hakani e a enterrou. Mas, ouvindo-a chorar, arrependeu-se e a resgatou. Vendo isto, o avô, Kimaru, flechou Bibi entre o ombro e o peito. O velho, porém, não suportou a dor e matou-se, também bebendo veneno. Já a menina sobreviveu. Mas, alijada, Hakani passou a alimentar-se de sobras, largada como um bicho qualquer. Márcia relata que, preocupada em não interferir na vida do povo, demorou bastante a assumir a responsabilidade de cuidar da criança, esperando a iniciativa dos próprios índios. Apesar de comovidos, os Suzuki só adotaram Hakani quando o jovem Bibi, penalizado com o enorme sofrimento da irmã, lhes entregou a menina. Hakani, que nasceu com hipotireoidismo – uma deficiência hormonal de fácil tratamento –, hoje vive em Brasília, onde é cercada pelos cuidados da família Suzuki e se desenvolve normalmente. Anos depois, os integrantes da tribo se espantaram ao rever, com saúde, a criança que eles acreditavam não ter alma. Só as cicatrizes os convenceram de que se tratava de Hakani. Publicada pela revista Veja, a história deu ainda mais fôlego à luta em favor de uma possível mudança na abordagem de casos semelhantes. Muita controvérsia cerca o verdadeiro número de crianças mortas. Márcia contabiliza 28 casos em 20 anos de convivência com os suruwahá. De acordo com levantamento da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), 201 crianças foram mortas de 2004 a 2006 só entre os yanomami, povo que habita o norte da Amazônia. O médico sanitarista Marcos Pellegrini, que

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Mosaico de povos

460 225

mil são os indígenas brasileiros

etnias diferentes compõem este mosaico de povos

70

grupos vivem em isolamento voluntário ou não foram oficialmente contatados

180

, aproximadamente, são as línguas indígenas faladas no Brasil

120

nações indígenas têm presença missionária

evangélica

35

povos indígenas possuem o Novo Testamento em sua língua Fonte: Funai e Associação Brasileira de Missões Transculturais (AMTB)

coordenava as ações do Distrito Sanitário Especial Indígena em Roraima, contou 98 crianças assassinadas pelos próprios pais yanomami só em 2004. Segundo o livro Saúde Brasil 2006, publicado pelo Ministério da Saúde em 2007, a taxa de mortalidade entre os indígenas até 5 anos de idade é de 30%. Em 2004, morreram 626 bebês antes de completar um ano, e, dentre essas mortes, 107 podem estar relacionadas ao infanticídio. Ou seja, além de enfrentar graves problemas de saúde, que tiram a vida de centenas de crianças por conta de desnutrição, pneumonias e diarréias, as reduzidas populações indígenas, em grande parte mergulhadas na pobreza, ainda vivem esses dilemas de ordem cultural. “O infanticídio é um tabu. O assunto é evitado nas sociedades indígenas e também entre os brancos. Ninguém fala, ninguém enfrenta. A posição mais cômoda continua sendo a da omissão, maquiada de respeito às diferenças culturais”, critica Márcia. “Estado omisso” – O projeto de Henrique Afonso pretende mudar isso (ver quadro). O texto proposto pelo


O diretor do Departamento de Saúde Indígena da Funasa, Wanderley Guenka, defendeu que os próprios índios decidam sobre o tema, como já ocorre. Ele disse que o principal trabalho a ser feito é construir o diálogo, “com a participação de todos”. Mas, apesar da passividade do Estado em relação ao infanticídio, Guenka revelou que a Funasa tem planos de iniciar um programa de distribuição de pílulas anticoncepcionais às mulheres indígenas. Curiosamente, nenhuma voz opositora ao projeto de Henrique Afonso demonstrou desagrado ante essa eventual interferência na tradição cultural das tribos. “Meu coração dói mais ao ver crianças indígenas ‘aculturadas’ do que vítimas de infanticídio”, afirmou, para espanto geral, o deputado Francisco Praciano (PT-AM). “Maior é a dor das mães e das próprias crianças”, rebateu Márcia Suzuki, que reafirmou que a intenção da Ong Atini é lançar luz sobre o problema, e não simplesmente apontar culpados para as mortes. “Qualquer tentativa de justificar a tolerância ao infaticídio com base em direito à diversidade não tem validade nem respaldo na legislação internacional”, disse, por sua vez, Maíra Barreto,

Laycer Tomaz / Agência Câmara

deputado não criminaliza os indígenas, já que eles são inimputáveis perante a lei, como determina a Constituição brasileira e os Códigos Penal e Civil. O projeto também não obriga – ao contrário do que dizem os críticos – ninguém a interferir acintosa ou violentamente nas comunidades para salvar as crianças condenadas por razões culturais. Mas aponta para uma direção mais racional: obriga qualquer não indígena a comunicar às autoridades, por meio dos postos da própria Funai e da Funasa, se souber de casos em que crianças estejam com a vida ameaçada por ritos tribais. O texto reafirma a responsabilidade do Estado brasileiro em cumprir suas principais atribuições e, por meio de diálogo e de ações educativas, zelar pela vida dessas crianças, conforme determina a Constituição e as convenções internacionais assinadas pelo país. “Práticas tradicionais nocivas presentes em diversos grupos étnicos brasileiros não podem ser ignoradas e merecem enfrentamento, por mais delicadas que sejam”, justifica o parlamentar. “A tolerância em relação à diversidade cultural deve ser norteada pelo respeito aos direitos básicos. A cultura não é o bem maior a ser tutelado, mas sim o ser humano.” Para Afonso, trata-se de homicídio o que muitas vezes é chamado de infanticídio, pois não são apenas crianças recém-nascidas as condenadas à morte em determinadas comunidades. O projeto tramita na Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados, de onde segue, se aprovado, para a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. Se for adiante, chega ao Plenário, e de lá, ao Senado. Em audiência pública na Câmara, no início de setembro, antropólogos, missionários, indígenas e autoridades do governo entraram em rota de colisão. Os debatedores reconheceram que não adianta buscar culpados pelo infanticídio indígena. A questão, porém, é como o Estado e a sociedade vão tratar do tema. Na platéia, muitos funcionários da Funai mostravam desaprovação ao projeto. Já Márcio de Meira, presidente do órgão, disse que o projeto de lei contém uma discussão mais ampla, que é o limite entre o direito à diferença e o direito à vida. Essa discussão, acrescentou, estaria presente em todos os atos da Funai. Mas o tema seria “muito complexo” e o mérito, para ele, devia mesmo é ser debatido entre as mulheres indígenas. “Este é um debate para as comunidades que têm essa prática”, enfatizou Meira, que ainda apontou para diversidade cultural entre os 225 povos indígenas brasileiros e alertou contra um possível “julgamento moral” de suas práticas e tradições.

O índio Paltu Kamayurá, que teve um dos filhos morto: “Essas crianças são gente, e não, animais”

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SOCIEDADE

doutoranda em Direitos Humanos pela Universidade de Salamanca, na Espanha, e membro da International Law Association. Já a antropóloga Rita Segato, ligada à Universidade de Brasília, afirmou que o centro da discussão não é o direito à vida, mas a responsabilidade do Estado brasileiro, que seria “incompetente, criminalizador e punitivo”. Ela não aprova a interferência do Congresso Nacional nessa questão, pois não vê no Legislativo brasileiro legitimidade para tratar de assuntos relacionados às comunidades indígenas. “O Congresso nem tem cotas para índios, então como legislará sobre assuntos indígenas?”, questiona. A representante do Fórum de Defesa dos Direitos dos Indígenas, Valéria Payê, afirmou que as aldeias têm uma concepção própria de direitos humanos. “Por que os povos indígenas deveriam aceitar a visão dos brancos?”, indagou.

Visão diferente tem Paltu Kamayurá, integrante de um povo do Alto Xingu, no Mato Grosso. Ele relatou o sofrimento de perder, por vontade da tribo, um de seus filhos. Segundo explicou, a enfermeira da Funasa que auxiliou sua mulher no parto não avisou que seriam gêmeos. Tão logo as crianças vieram à luz, ele soube que os integrantes da aldeia já se mobilizavam para enterrá-las vivas, em conformidade com suas crenças. Com muita insistência sua, conseguiu ao menos salvar um dos meninos, que já tem oito meses de idade. “É muito triste, a gente não consegue esquecer”, lamenta o índio. “Quando vejo meu filho, que está crescendo, penso no outro que foi morto. Se eu tivesse alguém que me ajudasse, poderia cuidar dos dois. Essas crianças são gente, e não animais”, afirmou no encontro, demonstrando que o infanticídio não é um assunto pacífico entre os indígenas.

Conheça alguns pontos do Projeto de Lei nº 1057/2007, que visa combater o infanticídio indígena: • O texto considera nocivas as práticas tradicionais que atentem contra a vida e a integridade, tais como: homicídios de recém-nascidos, por qualquer que seja a motivação cultural • Quem tiver conhecimento de ameaça à vida de alguma criança indígena fica obrigado a comunicar o fato, por escrito ou pessoalmente, à Funasa, à Funai, ao Conselho Tutelar da respectiva localidade à autoridade judiciária e policial. A pena para quem não o fizer é de um a seis meses de detenção ou multa • Estabelece como medidas cabíveis demover os indígenas, sempre por meio do diálogo, da persuasão e de medidas educativas, e promover a retirada da comunidade, se for o caso, da criança ameaçada, e seu deslocamento para abrigos especiais criados para este fim, ou para a eventual adoção

Dor das tribos – E esse lamento dos 460 mil remanescentes dos povos indígenas também esteve presente no debate. Representante das mulheres indígenas no Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres, Jacimar Gouveia, da etnia kambeba, afirmou que o infanticídio não é o tema mais importante na agenda das tribos, mas sim a desnutrição, a falta de terras, a migração das aldeias para as periferias urbanas e as precárias condições de saúde – além da falta de recursos para um trabalho eficiente da Funai e da Funasa. Para ela, somente as famílias devem ter prerrogativas quanto à vida das crianças. “As etnias que tiram a vida de crianças não percebem esse ato como um gesto de crueldade ou de violência, mas como uma forma de evitar o sofrimento do indivíduo, da família e da aldeia”, justifica. Jacimar critica a idéia de tirar as crianças das tribos, o que não encerraria o drama. “Para o povo, não haveria um desfecho para o sofrimento”.

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De fato, há muitos sinais de que os próprios indígenas podem se mobilizar e mudar a visão de tribos inteiras acerca da morte de crianças. “Nossa cultura não é estável nem é violência corrigir o que é ruim. Violência é continuar permitindo que crianças sejam mortas”, sentencia Débora Tan Huare, do Departamento de Mulheres da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coaib). No Alto Xingu, lideranças indígenas já começam a coordenar a Casa do Kunumin, idealizada pela indígena Divanete Kajabi. A entidade tem como objetivo receber os bebês recém-nascidos em situação de risco, rejeitadas por suas famílias e tribos, e providenciar o gradativo retorno dessas crianças ao convívio de sua comunidade de origem. O debate vai longe. Mas o que se espera é que, apesar das questões acadêmicas ou religiosas, o bom senso prevaleça e o Estado saiba encontrar soluções que preservem a vida.


Frases e pensamentos

A Igreja e seus líderes

Larissa Kanno

“É missão do líder, seja ele pastor ou ministro religioso, interpretar a vontade de Deus tanto para o indivíduo como para o grupo. Isso porque, de acordo com a própria natureza corporativa da igreja, ou corpo eclesiástico, qualquer decisão na esfera pessoal terá seus reflexos, mais cedo ou mais tarde, na esfera comunitária. Este aspecto do ministro como aquele que transmite a vontade de Deus às pessoas nos dá conta da tremenda responsabilidade de sua função.” Darci Dusilek, pastor, professor e escritor, em Teologia ao alcance de todos (inclusive você) “Os líderes mais eficientes nunca dizem ‘eu’. E isso não é porque treinaram para não dizer ‘eu’, mas porque não pensam assim. Pensam ‘nós’, ‘equipe’. Entendem que a função deles é fazer a equipe funcionar. Aceitam a responsabilidade e não tiram o corpo fora, mas o crédito vai para ‘nós’. Isso cria confiança, capacita a pessoa para realizar a tarefa.” Peter Drucker, escritor, em Administração de organizações sem fins lucrativos “O líder cristão do futuro é chamado para ser completamente irrelevante e a estar neste mundo sem nada a oferecer, a não ser sua própria pessoa vulnerável. A grande mensagem que nós temos para transmitir como ministros da Palavra de Deus e seguidores de Jesus é que Deus nos ama não por causa do que nós fazemos ou realizamos – mas porque ele nos criou e nos redimiu em amor, e nos escolheu para proclamar este amor como a verdadeira fonte da alma humana.” Henri Nouwen, professor e escritor, em O perfil do líder cristão no século XXI

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“Precisamos mudar a ênfase, carregada de valores e conceitos mundanos, que damos hoje ao líder, e resgatar a figura bíblica do pastor como modelo de liderança para a igreja, porque esse modelo de liderança que temos acabou por secularizar a vocação pastoral. Os critérios que definem um líder derivam mais do mercado do que das Escrituras e das mais nobres tradições cristãs.” Ricardo Barbosa de Sousa, pastor e escritor, em Nova liderança “Inúmeras igrejas e ministérios receberam Jesus com alegria no passado, mas hoje prosseguem pela sua própria força e seguindo seus projetos, enquanto o Senhor dorme no meio deles.” Irmão Yun, líder da igreja doméstica na China, em O homem do céu “O comentário mais importante que precisa ser feito sobre os pastores cristãos de todo tipo é que estão ‘sob’ as pessoas (como servos) e não ‘sobre’ elas (como líderes e, muito menos, como senhores).

Jesus deixou isso bem claro. A principal característica dos líderes cristãos, afirmou ele, é humildade, não autoridade; bondade, e não poder.” John Stott, teólogo britânico, em The Gospel and the End of Time [O evangelho e o fim dos tempos] “O líder forte no topo da pirâmide, que não presta contas a ninguém, que toma decisões sozinho em questões financeiras e doutrinárias, acaba tirando das pessoas a oportunidade de funcionar como um corpo. Em tais circunstâncias, os abusos se multiplicam. Alguns líderes religiosos têm dificuldade de administrar o poder.” Paulo Romeiro, pastor e pesquisador, em Decepcionados com a graça “Fuja, como de uma praga, do clérigo que era pobre e se tornou rico, ou era desconhecido e passou a ser famoso.” Jerônimo, patriarca da Igreja “Convém meditarmos com calma sobre a declaração do Senhor (em Apocalipse 2 e 3), que conhece cada uma de suas igrejas, não para apontarmos falhas na Igreja de hoje, mas para nos incluirmos nelas, considerarmos em que temos falhado e buscarmos sempre o padrão mais alto que Ele nos dá: ‘Sede santos porque eu sou santo’.” Maria José Elias, escritora, em O Deus presente “Não, minha filha, eu não sou a música – sou o instrumento.” Mário Quintana, poeta, em Apontamentos de história sobrenatural


BRASIL

O apóstolo e a bispa da Renascer cercados por assessores no dia da condenação: apesar da sentença, presença constante junto aos fiéis no Brasil via satélite

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Agência Estado / Antonio Tozzi

Lealdade acima de tudo


Mesmo condenados e presos nos Estados Unidos, dirigentes da Igreja Renascer exercem fascínio sobre seus fiéis, fenômeno comum no segmento neopentecostal

Carlos Fernandes

“Bispa Sônia, eu te amo!” A declaração, veiculada repetidas vezes nos programas da Rede Gospel, emissora de TV ligada à Igreja Apostólica Renascer em Cristo, tem dado o tom do clima na denominação desde a prisão dos seus dirigentes Estevam e Sônia Hernandes. Condenados em agosto pela Justiça americana por terem entrado nos Estados Unidos com 56 mil dólares não declarados, os dois religiosos foram sentenciados a dez meses de reclusão – metade em regime fechado e metade em prisão domiciliar. O juiz permitiu que o casal cumpra a pena alternadamente. Por isso, Estevam, o apóstolo da Renascer, está em um presídio da Flórida, e Sônia, na casa de propriedade da família. Pois é de lá que a bispa participa dos programas, sorridente e esbanjando palavras de fé. Os fiéis, por sua vez, fazem declarações apaixonadas e oram para que a “provação” – assim tem sido tratado o episódio nos círculos da Renascer – acabe logo. Os membros da igreja são chamados a testemunhar e dar depoimentos diante das câmeras. Além dos costumeiros relatos de milagres e bênçãos materiais, todos fazem questão de dirigir palavras de ânimo aos líderes, algumas em tom bem emotivo. O que chama a atenção no caso é o fato de que, embora presos por um crime que nada tem a ver com assuntos religiosos, o carisma dos líderes junto a seus seguidores permanece inalterado. Surgida em 1986 a partir de reuniões de oração realizada na casa dos Hernandes, a Renascer tipifica como poucas o fenômeno do neopentecostalismo, movimento evangélico que se caracteriza, entre outros aspectos, pela força centralizadora de suas lideranças. Desde janeiro deste ano, quando o casal foi flagrado na alfândega americana com dinheiro escondido até dentro de uma Bíblia, todos os templos da denominação espalhados pelo país e no exterior têm dado ênfase à versão de que seus líderes são perseguidos devido à sua fé. “A estratégia principal do casal tem consistido em fazer-se passar por vítima do diabo e dos inimigos do Evangelho”, diz o doutor em sociologia Ricardo Mariano, um dos maiores especialistas brasileiros em pentecostalismo. Ele é autor do livro Neopentecostais – Sociologia do neopentecostalismo (Loyola). “Essa é uma estratégia tradicional e eficaz nos meios pentecostais”, frisa. O pesquisador lembra que manobra semelhante

foi utilizada por deputados envolvidos no escândalo das sanguessugas, ano passado, quando diversos parlamentares evangélicos foram acusados de desvio de dinheiro do setor da saúde. “O discurso persecutório constitui importante mecanismo para mobilizar a base de pastores e fiéis, para reforçar a coesão grupal e forjar um contra-discurso religioso homogêneo e minimamente plausível a fim de rebater as críticas e acusações externas”, teoriza Mariano. Desagravo – Não é a primeira vez que líderes evangélicos enfrentam problemas com a lei e se valem deste tipo de retórica. Em maio de 2002, uma reportagem de capa publicada pela revista Época denunciou uma série de irregularidades supostamente cometidas pelos mesmos Estevam e Sônia na direção do grupo Renascer – que, além da igreja, inclui a TV, emissoras de rádio, duas fundações e uma gravadora, entre outros empreendimentos. Intitulada Os caloteiros da fé, a matéria listou uma série de dívidas, sobretudo com aluguel de templos não quitados, além de suspeitas sobre o patrimônio da denominação e de seus dirigentes. Foi o que bastou para que uma série de atos de desagravo patrocinados pela igreja, sempre contando com a participação de aguerridos fiéis bradando palavras e ordem e ostentando camisetas de apoio ao casal – inclusive na Marcha para Jesus, em São Paulo, evento organizado pela Renascer. O mesmo já aconteceu em episódios envolvendo outra grande denominação neopentecostal, a Igreja Universal do Reino de Deus (ver quadro na página 22). Para Ricardo Mariano, é o comportamento de muitos crentes que os leva a jogar para escanteio o próprio senso crítico. Segundo ele, a exposição prolongada à visão de mundo elaborada e difundida pelas autoridades ecle-

Para o bispo José Bruno, o apoio que os fiéis têm dado aos Hernandes é natural, pois o casal é amado pela igreja CRISTIANISMO HOJE | 19


O sociólogo Ricardo Mariano: “A estratégia principal é fazerse passar por vítima do diabo e dos inimigos do Evangelho”

Arquivo

Carlos Fernandes

Marcos Stefano

BRASIL

Paulo Romeiro aponta a dependência espiritual em relação aos líderes

siásticas faz com que acabem reproduzindo o discurso que convém à liderança – sobretudo, diante de fatos graves e de difícil justificativa. “Além disso”, continua o sociólogo, “as versões sobre a realidade à sua volta, apregoadas pelos que compartilham a mesma fé, levam muitos evangélicos a rejeitar as informações e interpretações dissuasórias. Daí o relativo sucesso do casal Hernandes e dos demais dirigentes da Renascer em transformar as acusações do Ministério Público de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e estelionato em questões de natureza eminentemente religiosa.” Hoje, se Estevam e sua mulher voltassem ao Brasil, seriam presos e processados por estes supostos crimes. A Fundação Renascer, entidade que administra parte dos recursos da igreja, está sob intervenção judicial. Mas desde o início da crise, a Renascer insiste na tese de que os líderes são vítimas de falsas denúncias. “Parte da imprensa nos tem pré-julgado e caluniado”, protesta

O bispo José Bruno: “A rotatividade de membros é comum nas igrejas evangélicas”

o bispo José Bruno, que responde interinamente pela denominação. Deputado estadual (DEM) em São Paulo, Bruno diz que tem tido todo apoio de Estevam e Sônia, que mesmo nos EUA permanecem na liderança espiritual do ministério. Sobre o comportamento dos fiéis que têm lhes prestado irrestrito apoio, o religioso considera o fato natural, já que, segundo ele, o casal é querido por todos. “Hoje a igreja está mais unida e mais forte, depois da provação com o apóstolo e com a bispa”, enfatiza. Quanto à divulgação de estimativas de que algo em torno de 30% dos fiéis teriam deixado a igreja, Bruno descarta que haja um esvaziamento. “Não notamos redução significativa. Nas igrejas evangélicas, a rotatividade de freqüentadores é um fenômeno natural. Muitos saem, mas muitos outros estão chegando.”

Desde o início da crise, em janeiro deste ano, a Renascer insiste na tese de que os líderes são vítimas de falsas denúncias

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“Dependência espiritual” – No entender do sociólogo Ricardo Mariano, a prisão dos líderes da Renascer pode


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BRASIL

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Fé inabalável Arquivo

não representar uma queda significativa no número de membros. “Não creio que isso resultará necessariamente na decadência institucional da organização. Basta saber administrar a crise para evitar uma sangria muito grande”, sintetiza. Ele lembra que a migração de fiéis entre as igrejas evangélicas é freqüente. “Por conta do impacto do escândalo, porém, o saldo da Renascer deverá ficar negativo a curto prazo”, acrescenta. Mas ele ressalva que tal migração deve se dar em várias direções: “As pessoas escolhem suas igrejas por motivos variados. Às vezes, banais, como a proximidade geográfica. O perfil de classe média de parte dos adeptos da Renascer tende a leválos, no caso de mudança denominacional, a optar por grupos religiosos dotados de perfil social semelhante”, adianta. Para o pastor e pesquisador Paulo Romeiro, dirigente da Igreja Cristã da Trindade, o caso Renascer revela também uma outra faceta. “Se um grupo cristão depende da boa reputação de seu líder e essa é destruída por questões morais, éticas ou doutrinárias, a tendência é acontecer uma derrocada do ministério”, avalia. “O que acontece na Renascer provoca o abandono da fé por parte de várias pessoas. Outros, com certeza, já estão à procura de igrejas alternativas. Há também aqueles que não querem mais uma igreja com o perfil da Renascer, mas buscam uma igreja mais alinhada com os postulados da Reforma Protestante.” Como Estevam e Sônia ainda vão cumprir outros 14 meses em liberdade condicional em território americano – só poderão retornar ao Brasil em 2009 – não de pode mensurar que efeitos essa ausência terá sobre a membresia. Autor de Decepcionados com a graça (Mundo Cristão), onde menciona que a frustração oriunda de promessas espirituais não cumpridas faz com que muitos crentes abandonem não apenas determinada igreja, mas a própria fé, o pastor acredita que pode, sim, haver uma debandada de fiéis. “Mas ainda é cedo para chegar a tal conclusão”, ressalva. “Tudo vai depender da maneira como as coisas são encaradas pelos freqüentadores da Renascer” – e nesse caso, como já foi visto, há variáveis em jogo. “Em muitos círculos neopentecostais, a relação entre a ovelha e o pastor acontece no campo da emoção e não da razão. Geralmente, o rebanho não tem preocupação com a ética cristã ou com a sã doutrina”, opina Romeiro. “Há pessoas que têm certeza de que foram abençoadas na Renascer, com curas ou prosperidade financeira, através do ministério dos Hernandes. Isso as torna sempre dependentes deles.” (Colaborou Marcos Couto)

Culto lotado na Universal: suspeitas não abalaram apoio de fiéis a Edir Macedo

N

o início dos anos 1990, a prisão do bispo Edir Macedo, dirigente máximo da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), também galvanizou seus seguidores. Acusado de praticar charlatanismo, Macedo passou alguns dias detido – e milhares de fiéis da Iurd foram às ruas do Rio de Janeiro e de outras cidades para exigir sua libertação. Já em 1995, os membros da Universal deram mais uma vibrante demonstração de fidelidade aos seus líderes. Um vídeo mostrando Macedo e outros dirigentes da igreja em cenas constrangedoras – numa delas, eles apareciam contando pilhas de dólares – foi exibido em rede nacional. Uma saraivada de críticas desabou sobre a denominação. Ao invés do questionamento, os membros da igreja preferiram outro caminho: culpar o diabo e a mídia como responsáveis pela crise. Hoje, passados mais de dez anos, a Iurd continua como uma das cinco maiores confissões evangélicas do país.


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A , s o c i l é g n a Ev evangelicais e

fundamentalista

s

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A origem e desenvolvimento do protestantismo brasileiro pode ser compreendida a partir de dois termos que voltam a ocupar a pauta de discussões relevantes na chamada Igreja Evangélica brasileira: evangelicalismo e fundamentalismo. O termo “evangelical” é um anglicanismo que originalmente equivaleria à totalidade dos cristãos que se identificaram com a Reforma Protestante do Século XVI. Por esta razão, muitas igrejas acrescentam ao seu nome o adjetivo “evangélico” como oposição a “católico”. Com o passar do tempo, o termo “evangelical” foi se distinguindo de “evangélico” – até o ponto em que se pode afirmar que todos os evangelicais são evangélicos, mas nem todos os evangélicos são evangelicais. Já o termo fundamentalismo tem raiz histórica na Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana Americana, realizada em 1910 em resposta ao liberalismo teológico europeu. Dali, saiu uma declaração de cinco fundamentos considerados inegociáveis à fé evangélica: os milagres, o nascimento virginal, a morte expiatória, a ressurreição de Cristo e a autoridade das Escrituras. Estes cinco pontos foram desdobrados em uma série de 12 livretos chamados de Os Fundamentos. A respeito dos fundamentalistas, também se pode dizer que todos eles são evangélicos, mas nem todos os evangélicos são fundamentalistas. O período evangelical contemporâneo, isto é, a existência do evangelicalismo como movimento nascido dentro do segmento evangélico, tem início no Congresso Mundial de Evangelização, realizado em Berlim, na Alemanha, em 1966 – evento convocado, dirigido e patrocinado pela revista Christianity Today. Outro marco do movimento evangelical foi o Congresso Mundial de Evangelização, na cidade suíça de Lausanne, em 1974. Seu documento principal foi o Pacto de Lausanne, cujo relator foi o teólogo britânico John Stott, mas teve a contribuição significativa de teólogos latino-americanos como Orlando Costas, Samuel Escobar e René Padilla. Desde então, o movimento evangelical está associado ao chamado “espírito de Lausanne”. Na verdade, o Pacto de Lausanne resulta de um processo de aproximadamente três anos, cheio de conflitos internos, especialmente entre os evangelicais e os fundamentalistas norte-americanos, ligados à Escola de Crescimento da Igreja de Donald McGavran e Peter Wagner, que consideraram o Pacto progressista. De fato, os evangelicais criticaram o movimento fundamentalista em termos teológicos, ideológicos e estratégicos. René Padilla, em sua palestra A evangelização e o mundo, proferida em Lausanne, fez severas críticas ao imperialismo norteamericano e sua abordagem pragmática dos métodos de evangelização. Entre os contundentes questionamentos

Johnny Magnussona

IGREJA | Ed René Kivitz


de Padilla estavam a rejeição do “princípio de unidades homogêneas” como base para a estratégia missionária da Igreja, considerado por ele mundano, pois impulsiona os seres humanos a serem cristãos sem cruzarem as barreiras que os separam; a condenação à identificação do cristianismo com o american way of life; a simplificação da conversão como mudança de religião, em detrimento da mensagem que exige uma completa reorientação da vida em relação a Deus ao próximo e à criação; e a afirmação da imprescindível relação entre evangelização e responsabilidade social. Desde Berlim, o movimento evangelical se desenvolveu na América Latina especialmente através dos quatro Congressos Latino-Americanos de Evangelização, realizados entre 1969 e 2000 na Colômbia, no Peru e no Equador. No Brasil, o evangelicalismo ganhou força nas duas edições do Congressos Brasileiros de Evangelização (CBE), em 1983 e 2003, e no Congresso Nordestino de Evangelização, 1988. A atuação de instituições como a Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL), a Aliança Bíblica Universitária (ABU), o Centro Evangélico Brasileiro de Estudos Pastorais (Cebep), a Sociedade dos Estudantes de Teologia Evangélica (Sete), o Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC), a Visão Nacional de Evangelização (Vinde), a Visão Mundial e a Associação Evangélica Brasileira (AEVB) também foi determinante para a consolidação do movimento evangelical no país. Os aspectos relevantes que distinguem o movimento evangelical do movimento fundamentalista podem ser classificados como teológicos, ideológicos e estratégicos. O fundamentalismo se articula com ênfase no discurso apologético dogmático, mais preocupado com a defesa da fé bíblica, notadamente a partir de uma leitura literalista, moralista e filosoficamente racionalista das Escrituras Sagradas. Isso acaba gerando uma postura inquisitorial, uma vez que sua identidade implica o combate violento a tudo e todos que compreende como inimigos da sã doutrina e da moral e dos bons costumes. O fundamentalismo é vítima da prepotência ocidental, que confunde Cristianismo com positivismo e evangelização com colo-

nização, e pretende fazer com que a fé cristã seja equivalente à cultura do homem branco imperialista. Já o movimento evangelical se articula prioritariamente a partir da realidade do Reino de Deus e busca compreender e vivenciar todas as implicações do Evangelho todo para o homem todo, proclamando a redenção integral do homem e suas circunstâncias – isto é, sua realidade social, política, cultural e espiritual, respeitando a pluralidade ética e cultural do Cristianismo histórico, desenvolvendo uma estratégia missionária com base na Bíblia como um documento ao mesmo tempo divino e humano, portanto carente de constante contextualização e releitura para cada geração. Isso ajuda a compreender porque o movimento evangelical é também identificado como movimento da missão integral da Igreja. A partir disso, podemos identificar pelo menos duas agendas para a chamada Igreja Evangélica brasileira. A agenda fundamentalista está preocupada em descobrir métodos e metodologias capazes de apresentar uma mensagem e promover a adesão de pessoas às igrejas. Trata-se, sobretudo, de divulgar uma verdade conceitual que funcione como instrumento para tirar pessoas do mundo e leválas para dentro das igrejas, que sobrevivem de eventos, programas e projetos voltados para o público interno, bem doutrinado e bem comportado, à espera do céu. Por outro lado, a agenda evangelical está ocupada em sinalizar historicamente a realidade do Reino de Deus, buscando identificar-se com o próximo em sua complexidade, visando à transformação da sociedade – ou, como preconizou Lausanne, levar “o Evangelho todo para o homem todo, para todos os homens”, através do serviço e da proclamação. A primeira agenda é avaliada pela capacidade de produzir igrejas de sucesso; a segunda, parafraseando Robinson Cavalcanti, comprometida em manifestar aqui e agora a maior densidade possível do Reino de Deus que será consumado ali e além, de modo a oferecer ao mundo um anúncio profético do novo céu e da nova terra.

“A agenda fundamentalista é avaliada pela capacidade de produzir igrejas de sucesso; já a ênfase evangelical é levar o Evangelho todo para o homem todo, através do serviço e da proclamação”

Ed René Kivitz é escritor, conferencista e pastor da Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo. Casado com Sílvia, tem 3 filhos

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ESPIRITUALIDADE | Ricardo Agreste

Um remédio para a exaust

A

Ao longo de minha vida, algumas vezes me deparei com um estranho sentimento de exaustão interior. Nestes momentos, fui tomado pela consciência de minha completa incapacidade em corresponder às expectativas das pessoas em relação a mim. Sinto-me sem condições de atender às necessidades dos que freqüentam minha igreja; às demandas daqueles que esperam que eu possa falar numa conferência ou escrever um artigo; às cobranças dos amigos que me ligam chateados porque esqueci a data de um aniversário – sem falar, claro, das pressões geradas numa família com dois filhos adolescentes e uma pré-adolescente. Então, sou tomado pelo desânimo em relação aos desafios que me cercam e pelo desejo de não ter tantos compromissos diante de outros. Quando esta exaustão interior me assalta, minha vontade é de jogar tudo para cima. Fico sonhando com a possibilidade de abrir mão de todas as responsabilidades, procurar um chalé numa região bem distante e viver ali por algum tempo. Minha única vontade é a de voltar-me

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para o cuidado do meu próprio coração, lidando com as minhas próprias demandas interiores – coisa singelas, como o silêncio, a solitude, a leitura e a oração. Sei que muitos pensam que um cristão não deveria sentir-se assim e um pastor não poderia falar assim. No entanto, tenho que decepcionar os crentes-ETs de plantão lembrando que, se Papai Noel realmente não existe, também não é menos verdade que pastores honestos e cristãos sinceros enfrentam, sim, seus dias de exaustão. E esses sintomas em muito se assemelham à própria depressão. Diante desta tal exaustão interior e da impossibilidade de jogar tudo para cima, acabo caminhando alguns dias em reflexão e oração, os quais me levam a uma conclusão. O problema, antes de residir nas expectativas daqueles que me cercam ou nas pressões delas decorrentes, são, geralmente, fruto ou de meu descuido em viver, dia após dia, dependendo da minha própria potencialidade, ou de um equívoco – o de colocar minha confiança de realização em projetos e relaciona-


“A falta de conexão com o Senhor Jesus, a fonte primária da água viva, nos conduzirá, mais cedo ou mais tarde, à sequidão”

tão interior mentos que jamais poderão me oferecer o que somente Deus tem para me dar. Bernardo de Claraval, monge francês que viveu entre os séculos XI e XII, disse que tudo o que somos e fazemos deve ser fruto não de nossas próprias reservas, mas do transbordar da água viva que Jesus derrama em nossas vidas. Podemos, assim, dedicar-nos a algo sem nos exaurirmos; dar-nos sem nos esgotarmos; cuidarmos de outros sem cometer o equívoco de não cuidarmos de nós mesmos. Se, contudo, abandonamos esta relação constante com a pessoa de Cristo, fechamo-nos para a fonte que abastace o nosso reservatório interior e deixamos de receber a água viva que emana do Pai. No entanto, a falta de conexão com a fonte primária da água viva nos conduzirá, mais cedo ou mais tarde, à sequidão. Essa dimensão de vazio interior foi comparada por Jesus, quando do memorável diálogo com a mulher de Samaria, com a sensação humana da sede. Ela não sabia, mas tinha diante de seus olhos aquele capaz de

saciar a sede existencial que existe dentro dos corações de homens e mulheres. Sede de sentido para vida, sede de sentir-se valorizado ou amado por alguém. Um de nossos grandes erros, humanos que somos, é o de tentar lidar com o sentimento de vazio interior que insiste em nos acompanhar ao longo da vida através de conquistas. Queremos acumular coisas, ser amados pelos outros, atingir grandes realizações; enfim, queremos ser felizes com a vida. O profeta Jeremias registrou a contenda de Deus contra seu povo Israel apontando os mesmos equívocos nos quais hoje ainda incorremos: “O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas, cisternas rachadas que não retêm água” (Jeremias 2.3). Logo, quando colocamos nossa esperança ou buscamos a realização em qualquer outra fonte que não seja o próprio Pai, corremos o risco de buscar a água onde ela simplesmente não existe. Conhecedor do coração humano, Jesus nos convida, de forma simples e prática, a uma solução: “Quem tem sede, venha a mim e beba”. Ele próprio se apresenta como a única fonte capaz de saciar nossa sede existencial. Neste caso, estamos falando da importância de estarmos constantemente na presença do Senhor, bebendo da água viva que somente Cristo pode nos oferecer. Somente assim, seremos reservatórios que, repletos de água, transbordam a ponto de irrigar a vida daqueles que nos cercam. Assim, termino com uma confissão. Muitas vezes, a exaustão interior que me assalta é decorrente do meu descuido de viver a partir de mim mesmo, ou do equívoco de buscar nos projetos e nos relacionamentos o que somente em Jesus posso ter. Por isso, quando tomado pelo sentimento de cansaço, me aquieto na sua presença e volto a escutar o convite amoroso e paciente para beber da água que somente Ele pode me oferecer. É esta água viva que nos capacita a renovar nossas forças físicas e emocionais, bem como a nos libertar das buscas infindáveis que drenam nossas energias e nos fazem reféns de nossos próprios anseios. Somente assim, como diz a Escritura, fluirão rios de nosso interior. Rios da mais pura água – a água da vida. Ricardo Agreste da Silva é pastor na Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera, em Campinas (SP), coordenador da área de Teologia Pastoral no Seminário Presbiteriano do Sul e membro do Projeto Timóteo e do Centro de Treinamento para Plantadores de Igreja). É casado com Sônia e tem três filhos

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INFORME CH

Partidos cristãos, esses desconhecidos Pesquisa mostra que eleitores votariam em legendas que defendam valores do cristianismo, mas não conseguem identificá-las

A

pesar do descrédito generalizado em relação à clasOutros valores, como a solidariedade, a justiça social e se política no Brasil, partidos que defendam valores a dignidade humana também foram considerados como cristãos ainda atraem votos. A “muito importantes” para integrar a conclusão é de um estudo do Instituto plataforma dos partidos políticos, no entender dos entrevistados. No enBrasileiro de Pesquisa Social (IBPS). tanto, os eleitores parecem ter alguSegundo o levantamento, 46% dos entrevistados, que não integram nenhum ma dificuldade em identificar quais grupo religioso específico, respondepartidos defendem tais bandeiras. Nada menos que 84% das pessoas ram que votariam em candidatos de que responderam ao estudo disselegendas com aquele perfil. Os valores ram não saber quais são as legendas cristãos mais citados pelos entreviscristãs que atuam na cena política tados foram “amor a Deus” (39% das nacional. respostas), “amor ao próximo” (28%) e O plenário do Senado Federal: a defesa da igualdade, citada por vinte legendas que defendem valores cristãos Fonte: Agência Soma e um por cento dos ouvidos. são desconhecidas pelos eleitores

Ministério ou emprego?

Suicidas são 3 mil por dia, aponta estudo

Um processo trabalhista no mínimo inusitado chamou a atenção no Rio de Janeiro. Um diácono de uma igreja evangélica ajuizou uma ação requerendo o reconhecimento de vínculo empregatício entre ele e a comunidade – o que lhe permitira exigir indenização no caso de um eventual rompimento. Em sua petição, o diácono disse ter prestado diversos serviços à igreja, inclusive como operador de som nos cultos. Mas o juiz José Geraldo da Fonseca negou provimento ao pedido. Segundo o magistrado, o vínculo de um religioso com seu grupo decorre de uma relação de fé e não configura relação jurídica. Em sua defesa, a igreja citou seus estatutos, segundo os quais quem exerce funções na congregação não percebe qualquer remuneração – apenas uma ajuda de custos, se for o caso. Ações deste tipo, envolvendo pastores e suas igrejas, são cada vez mais comuns, mas o entendimento da Justiça é que o serviço ministerial é voluntário e foge ao âmbito do Direito do Trabalho.

Cerca de 3 mil pessoas por dia cometem suicídio no mundo, o que significa que, a cada 30 segundos, uma pessoa se mata. O alerta é da Organização Mundial de Saúde (OMS). O fator que mais predispõe ao suicídio é a depressão. Mas há ainda muitos outros, como transtornos neurológicos, dependência química – tanto de drogas como do álcool –, doenças mentais, antecedentes familiares, enfermidades crônicas que acarretam grande sofrimento físico e também contextos socioeconômicos e educacionais pobres. A média de suicídios aumentou 60% nos últimos 50 anos, em particular nos países em desenvolvimento. Segundo a OMS, a maioria dos mais de 1,1 milhão de suicídios cometidos a cada ano no planeta poderia ser prevista e evitada. Para isso, é necessário que os Estados nacionais adotem medidas adequadas e garantam tratamento adequado às pessoas que sofrem de distúrbios mentais.

Fonte: Consultor Jurídico

Fonte: Folha Cristã

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REFLEXÃO | Eugene Peterson

Edmund Groepl

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O que há de errado com

F

Falar de espiritualidade neste mundo do século XXI é falar de um tema cuja relevância salta aos olhos. Diante de uma sociedade faminta por significado existencial, sedenta pelas coisas da alma humana e cada vez mais curiosa sobre Deus, é fundamental que a Igreja de Cristo não se furte a ensinar e pregar as Sagradas Escrituras. Na verdade, isso sempre foi necessário desde a proclamação do célebre “Ide” – mas há hoje uma urgência contemporânea pela anunciação das boas novas do Evangelho, porque somos cercados por “espiritualidades” que, ignorando a pessoa de Jesus, desenvolvem-se a partir das muitas e variadas experiências de cada um. Sabemos que o Espírito Santo, ao longo de toda a Bíblia, fornece ao homem o mapa da verdadeira espiritualidade. As histórias que ela conta nos convidam a um outro mundo que não o nosso – um mundo maior que nós mesmos. As histórias bíblicas nos convidam ao mundo da criação, da salvação e da bênção de Deus. Evidentemente, todo o cânon sagrado é um texto integral – mas o evangelho de Marcos, o segundo livro do Novo Testamento, tem certa primazia. Afinal, ninguém nunca havia escrito um evangelho cristão quando Marcos escreveu o dele. Com isso, criou um novo gênero. Sua forma de escrever que logo se tornou fundamental e formativa para a vida da Igreja e do cristão. Isso veio contrastar com a preferência antiga pela criação de mitos, prática que reduzia os humanos a meros espectadores do sobrenatural. Também vai de encontro à predileção moderna pela filosofia moral, concepção que nos torna responsáveis por nossa própria salvação.

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A história narrada no evangelho segundo Marcos é o relato verbal da realidade que, como seu assunto – a Encarnação – é, ao mesmo tempo, divina e humana. Ela revela algo que jamais concluiríamos por nossa própria observação, experiência ou suposição; e, ao mesmo tempo, nos envolve, colocando-nos na ação como receptores e participantes, sem jogar para nós a responsabilidade de fazer tudo dar certo. As implicações disso para nossa espiritualidade são enormes, já que a forma, por ela mesma, nos protege das duas principais práticas que levam a pessoa a se afastar do caminho certo: a de viver como espectador leviano dos fatos, exigindo sempre atrativos novos e mais exóticos vindos do céu; ou como moralista ansioso, aquele que toma sobre seus ombros todas as cargas do mundo. A própria forma do texto molda em nós reações que tornam muito difícil sermos simples espectadores ou moralistas. Não estamos diante de um texto que podemos dominar. Pelo contrário – somos dominados por ele. A espiritualidade é a atenção que damos à alma, ao mundo interior invisível de nossa vida – um mundo que é a essência de nossa identidade, esta alma à imagem de Deus que engloba toda nossa individualidade e glória. A espiritualidade pode parecer uma coisa maravilhosa, mas vinte séculos de experiência cristã diminuíram bastante o entusiasmo que ela outrora provocava. E sua prática não se mostra tão maravilhosa. Olhando para nossa história, não nos admiramos ao verificar que a espiritualidade costuma ser vista com desconfiança, quando não com hostilidade declarada. Isso acontece porque, na prática, e com


m a nossa espiritualidade? muita freqüência, ela se transforma em neurose. Em nossos dias, temos visto a espiritualidade – ou uma suposta espiritualidade – descambar para o egoísmo, principalmente quando vira mera pretensão. Mas como isso pode acontecer? A resposta é simples: isso acontece quando nos afastamos da história do Evangelho de Cristo e adotamos a nossa própria experiência, e por quê não dizer, a nós mesmos como elemento fundamental e autorizado da espiritualidade. Passamos a fazer a exegese em nós mesmos como se fôssemos textos sagrados. Não jogamos o Evangelho fora; contudo, ele fica na prateleira e pensamos que lhe conferimos honra consultando-o de vez em quando, como uma obra de referência indispensável. Por outro lado, nossos orientadores espirituais nos ensinam que somos seres gloriosos e almas preciosas. Somos levados a acreditar que nosso anseio pela santidade, bondade e verdade é magnífico. Mas a espiritualidade não está em nós mesmos, pois o próprio Deus revelou que ela está em Jesus. Como em tudo nesta vida, espiritualidade é coisa que se aprende – e o evangelho segundo Marcos é um texto didático para se entender o que é a espiritualidade. Tomamos o texto e lemos a história de Jesus, uma história estranha. Na verdade, o evangelista conta muito pouco do que nos interessa em uma história. Não ficamos sabendo sobre Jesus praticamente nada do que queremos saber. Não há descrição da sua aparência; nada ali é dito sobre sua origem, sobre quem eram seus amigos. Informações sobre a educação que recebeu, ou sobre sua

família, são inexistentes. Fica difícil avaliar ou entender uma pessoa sem esses dados. E também há muito pouca referência ao que o filho de José e Maria pensava e sentia, suas emoções e lutas interiores. Embora Jesus seja a pessoa mais citada, o texto é surpreendentemente reticente quanto a ele A certa altura, porém, entendemos que se trata de uma história sobre Deus e sobre nós. Jesus é a revelação de Deus; então, quando nos defrontamos com ele, encaramos o que há em Deus. A narrativa abrange outros personagens, claro, e são muitos: os doentes, os famintos, as vítimas sociais, os excluídos. Mas Jesus é sempre o centro. Nenhum evento acontece e nenhuma pessoa aparece sem ele. Ali, Cristo subsiste tanto no contexto quanto no conteúdo da vida de todos. A espiritualidade, a atenção que dedicamos à nossa alma, transforma-se quando permitimos que o livro de Marcos dê forma a nossa prática. O texto nos ensina essa percepção: linha após linha, página após página, o conteúdo é sempre o mesmo: Jesus, Jesus e mais Jesus. Nenhum de nós é capaz de fornecer o conteúdo de nossa própria espiritualidade, pois ela nos é concedida por Jesus. O texto não dá margem a exceções. A morte de Jesus – Lendo o texto do Evangelho conforme o escreveu Marcos, logo descobrimos que toda a história se canaliza para a narração dos acontecimentos de uma única semana da vida de Jesus – justamente a semana crucial da paixão, morte e ressurreição do Filho de Deus. E, dos três eventos, sua morte é apresentada com mais detalhes. Se nos pedissem para dizer com o

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REFLEXÃO

menor número possível de palavras qual é o conteúdo do livro de Marcos, deveríamos responder: “A morte de Jesus”. A princípio, não parece um conteúdo muito promissor, especialmente para os que procuram um texto que os oriente na vida, capaz de alimentar a alma. Mas é assim. A história possui dezesseis capítulos. Nos oito primeiros, Jesus aparece vivo, passeando sem pressa pelas vilas e caminhos da Galiléia, levando vida às pessoas. De repente, bem na hora em que atrai a atenção de todo mundo, Marcos começa a falar sobre morte. Os oito capítulos finais de seu evangelho são dominados por palavras de morte. O prenúncio da morte de Cristo assinala também uma mudança de ritmo. A narrativa, na primeira metade do livro, apresenta características de tranqüilidade e descreve os movimentos do Mestre em um ambiente quase idílico. Porém, isso muda diante da tragédia anunciada, a partir do momento em que Jesus dirigese diretamente para Jerusalém, onde seria martirizado. Urgência e gravidade passam a caracterizar a narrativa. Muda a direção, o ritmo, o clima. Jesus é explícito em três ocasiões: ele irá sofrer, será morto e ressurgirá, conforme se lê, respectivamente, em Marcos 8.31; 9.31; e 10.33-34. E acontece a morte, descrita em seus horrores com detalhes e a precisão digna de um arguto observador. Nenhum outro acontecimento da vida de Jesus foi contado com tantas minúcias. Não há como duvidar da intenção de Marcos de deixar bem claro que o enredo, a ênfase e o significado de Jesus residem em sua morte. E o evangelista faz questão de definir este sacrifício como voluntário. Jesus não era obrigado a ir para Jerusalém; fê-lo por sua própria vontade. Explicitamente, concordou com sua própria morte. Logo, não foi

“A espiritualidade é a atenção que damos à alma, ao mundo interior invisível de nossa vida – um mundo que é a essência de nossa identidade, esta alma à imagem de Deus que engloba toda nossa individualidade e glória”

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um episódio acidental, tampouco inevitável. Ele aceitou a morte para que os outros pudessem receber vida – ou, conforme o texto, veio para “dar a sua vida em resgate por muitos”. Sintomaticamente, cada um dos três anúncios explícitos da morte de Cristo é concluído com o anúncio da ressurreição. A história daquele evangelho, como um todo, se encerra com o testemunho da ressurreição. Isso não dá menor valor à morte, mas a torna muito diferente do que estamos acostumados a pensar. As idéias de tragédia e procrastinação são as palavras que caracterizam a atitude de nossa cultura diante da morte. Herdamos dos gregos esta visão trágica da finitude humana. Eles escreviam textos primorosos sobre mortes trágicas – vidas ceifadas por obra de forças grandes e impessoais, circunstâncias indiferentes ao heroísmo e esperança do ser humano. Já a tentativa de procrastinar a morte ao máximo é legado da medicina moderna. Em nossa cultura, a vida é reduzida a batimentos cardíacos, circulação sangüínea, impulsos cerebrais. Como as pessoas só levam em conta sobre a vida o que a biologia pode estudar – sem enxergar sentido, espiritualidade, nem eternidade –, as tentativas de afastar, adiar e negar a morte são cada vez mais intensas. O detalhe é que não houve procrastinação na morte de Jesus. É necessário, portanto, irmos contra nossa cultura, permitindo que o vigoroso relato de Marcos molde nosso entendimento de modo a entendermos nossa própria morte dentro das ricas dimensões e relações da história de Jesus. O asceta e o esteta – Bem no centro do evangelho segundo Marcos há uma passagem que pode ser considerada o cerne da espiritualidade do texto e consiste de duas histórias. Na primeira, Jesus chama os discípulos à renúncia, quando eles partem para Jerusalém. É a dimensão asceta da espiritualidade. Já o segundo relato, o da transfiguração de Cristo no Monte Tabor, fornece a dimensão estética dessa mesma espiritualidade. As histórias são cercadas, nas duas extremidades, por afirmações da verdadeira identidade de Jesus como Deus entre nós. Pedro afirma: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. No final, uma voz vinda do Céu declara: “Este é o meu Filho amado. Ouçam-no!”. Era o testemunho humano sendo legitimado pela confirmação divina. Essas histórias possuem uma conexão orgânica, um ritmo binário e uma teologia espiritual única. Elas reúnem os movimentos ascetas e estéticos, o sim e o não que atuam juntos no coração da teologia espiritual. O ascetismo apa-


rece circunscrito nas palavras do Salvador, que são breves e diretas: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8.34). Fica evidente que Jesus vai a algum lugar e nos convida para irmos com ele. É um convite, sim, à renúncia. Sempre há um forte elemento ascético na teologia verdadeiramente espiritual. Seguir Jesus implica em não seguir nossos impulsos, apetites, caprichos e sonhos, pois tudo isso foi danificado pelo pecado. Seguir Jesus significa não seguir as práticas de procrastinação e negação da morte, mesmo em uma cultura que, pela busca obsessiva da vida sob a inspiração de ídolos e ideologias, acaba encontrando uma existência tão restrita e degradada que dificilmente merece o nome de vida. Mas a arte de dizer “não” nos deixa livres para seguir Jesus. Na monumental obra escrita por Marcos, o esteta aparece ao lado do asceta. É o “sim” de Deus em Jesus. Pedro, Tiago e João o vêem transfigurado na montanha, em uma nuvem brilhante, na companhia de Moisés e Elias. Os discípulos viram a beleza da glória do Senhor, e é ela que acabamos por experimentar ao nos aproximarmos do Pai. Há sempre um componente estético forte na verdadeira teologia espiritual. Subir ao monte com Jesus significa

“Sempre há um forte elemento ascético na teologia verdadeiramente espiritual. Seguir Jesus implica em não seguir nossos impulsos, apetites, caprichos e sonhos, pois tudo isso foi danificado pelo pecado”

deparar-se com uma beleza de tirar o fôlego. Permanecer na companhia dele é contemplar sua glória e escutar a confirmação divina da revelação nele. Aqui está o segredo do Jesus transfigurado. Ele é a forma da revelação, e a luz não cai do alto sobre essa forma, nem vem de fora – antes, brota de seu interior. A única reação adequada a essa luz é manter os olhos abertos para observar o que está sendo iluminado: adoração. O impulso estético na teologia espiritual relaciona-se a treinar a percepção, isto é, aprender a apreciar o que está sendo revelado em Jesus. Não somos bons nisso, pois o pecado prejudicou nossos sentidos. O mundo, apesar de alardear a celebração da sensualidade, é implacável em anestesiar e esquecer o que é sentir, restringindo a estética ao que se pode encontrar em museus ou jardins. Nossos sentidos precisam de cura e reabilitação para se tornarem adequados a receber e responder às visões e aparições do Espírito Santo de Deus.Nosso corpo, com seus cinco sentidos, não é empecilho para a vida de fé. Nossa sensibilidade não é barreira para a espiritualidade, e sim, o único acesso a ela. Marcos escolheu mostrar Jesus como a revelação de Deus e fez um relato completo da sua obra na salvação. Somos convidados a participar por inteiro da história de Jesus, e o evangelista nos mostra como fazer isso. Ele não se limita a contar que Jesus é o Filho de Deus; nem a nos dizer que nos tornamos beneficiários de sua expiação. Ele nos convida a morrer a morte de Jesus e a viver sua vida com a liberdade e a dignidade dos participantes. E eis aqui um fato maravilhoso – ficamos no centro da história, sem nos transformarmos nos seus principais protagonistas. Habitualmente, e os crentes sabem bem disso, sempre é perigoso o interesse do indivíduo em si mesmo. A obsessão com as questões da alma fazem com que Deus passe a ser visto como mero acessório da experiência pessoal. É preciso muita vigilância – e a teologia espiritual é, entre outras coisas, o exercício dessa vigilância. Por isso o evangelho de Marcos é um texto básico para se entender a espiritualidade humana. Suas histórias sobre vida e morte, crucificação e ressurreição, nos mostram e nos ensinam sobre negação e afirmação. Mas não se limitam a isso. Também levam-nos adiante em fé e obediência, para a vida que só se completa, por fim no não definitivo e no sim glorioso do Jesus crucificado e ressurreto. Eugene Peterson é professor emérito de Teologia da Espiritualidade na Regent College, em Vancouver, no Canadá

(Tradução: Cláudia Ziller Faria)

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SONS DO CORAÇÃO | Nelson Bomilcar

O legado de um gênio

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Ele foi um dos maiores compositores da música cristã brasileira, se não o maior. Com mais de 500 músicas compostas, muitas ainda inéditas, consagrou-se como um dos principais autores do gênero. A voz, de timbre grave inconfundível, e o estilo de tocar, cheio de leveza e arte, eternizaram músicas inspiradas na Palavra de Deus e repletas de sensível poesia. Autor, compositor e poeta, ele tinha uma mente privilegiada e o coração sedento por comunhão com o Senhor e com o Evangelho que abraçou, testemunhou e divulgou. Assim foi Sérgio Pimenta. Há exatos 20 anos, em 1987, Sérgio partiu para a glória do Senhor, vítima de um câncer agressivo e fulminante. Tinha apenas 33 anos – mas nenhum outro músico cristão produziu legado tão extenso em tão pouco tempo de vida. Sérgio, nascido em 1954 no Rio de Janeiro, era filho do médico e militar Silas Pimenta e de dona Ilza. Por influência do pai, também seguiu carreira nas Forças Armadas. Ainda moço, fez parte da primeira geração de compositores cristãos com grande repercussão nacional – nomes como Guilherme Kerr Neto, Paulo César da Silva, Jayrinho Gonçalves, Wolô, Aristeu Pires e Artur Mendes, entre outros. No fim do regime de exceção e início dos anos 70, vivíamos com experimentações e desafios dentro e fora da Igreja. O Brasil via seus artistas seculares serem perseguidos pelo poder. Mas foi justamente o trabalho de compositores como Chico Buarque, Elis Regina, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Caetano Veloso que alimentou uma época de efervescência criativa. Sérgio, com sua pele negra e legítimo representante da herança rítmica africana, trazia essas referências inconfundíveis em sua música.

“Sérgio Pimenta foi um cristão sincero, poeta e compositor com mais de 500 músicas. Nenhum outro artista evangélico produziu obra tão extensa em tão pouco tempo de vida” 36 | CRISTIANISMO HOJE

Pérolas – Sérgio Pimenta foi presença obrigatória nos álbuns do ministério Vencedores por Cristo. Quico Fagundes, excelente violonista brasiliense e amigo de Pimenta, descreve: “Eram jovens talentos brasileiros, músicos de excelente qualidade. Foi um time de conspiradores, digno das maiores inconfidências, que mudou o perfil da música cristã no Brasil”. Entre os tais conspiradores, Sérgio Pimenta dava vazão à sua genialidade e espiritualidade com canções inesquecíveis, como Cada instante, Você pode ter, Pescador, Tanto Amor e Resposta certa, para citar apenas uma fração de sua grandiosa obra. Entre tantas pérolas, o artista participou de trabalhos memoráveis. Um deles foi o grupo Semente, no qual atuou por sete anos, deixando rico acervo de históricas produções como os álbuns Plantando a semente, Fruto da semente e Criação. Marcou também presença no LP De vento em popa, lançado pelos Vencedores em 1977 – há três décadas, portanto – e considerado, com inteira justiça, o marco que mudou os rumos da música cristã brasileira. Sérgio não abria mão de ritmos tipicamente brasileiros, como samba, baião, valsa, seresta, chorinho e frevo. E deixou fortes influências, reconhecida por outros músicos cristãos de expressão que gravaram composições suas, como Wanda Sá, Jorge Camargo, João Alexandre e Gerson Ortega, além do Quarteto Vida e da Cia de Jesus. Sérgio Pimenta também deixou preciosa herança familiar: seus filhos Renato, hoje com 23 anos e publicitário, e a dentista Juliana, de 21, fruto de sua relação com Sonia Dimitrov, uma descendente de búlgaros com a qual casouse em 1982. Embora mal tenham convivido com o pai – Juliana ainda era bebê quando Sérgio morreu – os dois também são músicos. Ao iniciarmos o trabalho na revista CRISTIANISMO HOJE, nada melhor do que reconhecer sua vida e arte, e lançar o apelo para que sua incomparável obra jamais seja deixada de lado. Nelson Bomilcar é músico, compositor, escritor e pastor. Trabalha com o Instituto Ser Adorador (www.seradorador.com.br ) e apresenta o programa Sons do Coração, pela Rádio Transmundial e pela internet (www.transmundial.com.br)


CASAMENTO | Gary Chapman Copyright © 2007 por Christianity Today

Discussão não é a solução

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Conflitos fazem parte da natureza humana. Sempre que interesses são contrariados, surgem pontos de atrito que acabam levando a eles. Há conflitos entre pessoas, entre grupos, entre nações – mas poucos espaços são tão propícios à eclosão de conflitos quanto o matrimônio. Afinal, é no casamento que as individualidades são postas à prova quase que diariamente. E os conflitos resultam justamente de nossa individualidade. Mas, para alguns casais, o conflito gera discussões que, com freqüência, fogem ao controle. Aí, ao invés de se encontrar soluções, criam-se novos problemas de relacionamento. O que há de tão ruim nas discussões entre casais? É que, geralmente, elas não levam a soluções – quando um dos cônjuges vence a discussão, o outro sai derrotado. Discussões podem ter como resultado grandes parcerias. Mas, também, podem ser bastante destrutivas. Discussões são quase sempre carregadas de emoção. O pior é que as discussões acabam levando a um destes três resultados: o marido ganha, a mulher perde; a mulher ganha, seu marido perde; ou, então, ocorre um empate, onde ambos perdem. Nenhum dos dois aceita a posição do outro e ambos saem decepcionados, frustrados, magoados, irados. A boa notícia é que os conflitos podem ser resolvidos sem discussão. Encontrar a solução certa começa quando decidimos acreditar que ela existe e que as duas pessoas envolvidas são inteligentes o suficiente para encontrá-la. Isso envolve respeito às idéias do outro, ainda que sem concordância tácita. E amor, é claro. Afinal, o objetivo é encontrar uma solução, e não vencer uma discussão. O alvo na solução dos conflitos não é acabar com as diferenças, mas aprender a trabalhar com elas, usando-as para tornar a convivência melhor. No caso da vida a dois, resolver

conflitos é o passaporte para se construir um relacionamento melhor. Não há como solucionar um conflito sem ouvir com empatia. Infelizmente, a maioria dos casais pensa que está ouvindo um ao outro; mas, na verdade, quando deveriam ouvir, estão apenas recarregando a metralhadora verbal. Ouvir com empatia significa tentar entender o que o parceiro está pensando e sentindo. É colocar-se no lugar do outro e tentar ver o mundo pelos seus olhos. Isso implica em baixar a arma verbal em prol de entendimento verdadeiro do ponto de vista do cônjuge. Em vez de pensar em como vamos responder ao que o outro está falando, deveríamos dedicar toda a atenção em ouvir o que ele está dizendo. Só obteremos uma resposta de amor depois que entendermos o significado e o sentimento que se encontram por trás das palavras. O erro mais comum que os casais cometem na tentativa de solucionar conflitos é responder antes de enxergar o cenário completo. É inevitável que isso leve a discussões. Quando as pessoas retrucam rápido demais, costumam responder à questão errada. Mas ouvir ajuda a focalizar o ponto central do conflito. Quando você declara ter entendido a perspectiva de seu cônjuge, pode compartilhar a sua e, juntos, negociarem uma solução que atenda às idéias e os sentimentos dos dois. Sim, é possível encontrar uma solução em que os dois saiam vencedores. Quando ouvimos, entendemos e respeitamos as idéias um do outro. Quando o marido e a esposa buscam soluções em amor para os conflitos, acabam chegando à harmonia e à união que desejam construir acima de tudo.

“Quando o marido e a esposa buscam soluções em amor para os conflitos, acabam chegando à harmonia e à união que desejam construir acima de tudo”

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Gary D. Chapman, Ph.D., é autor de As cinco linguagens do amor, publicado no Brasil pela Mundo Cristão (Tradução: Cláudia Ziller Faria)


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Jyn Meyer

MULHER | Esther Carrenho

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Ser mulher

Tive dois impactos na minha vida em relação ao que é ser mulher. O primeiro se deu quando ainda morava na zona rural. Eu era pequena e já ouvia minha mãe dizer que menina não precisava ir à escola. Afinal, dizia ela, para quê aprender a ler e estudar se o papel da mulher resumia-se a ficar em casa cozinhando, lavando roupas e cuidando de crianças? Aquilo me marcou muito. Comecei a desconfiar que, pelo menos na ótica da minha mãe, era mais vantajoso ser homem. Mas, para minha felicidade, meu pai não pensava assim e decretou que seus filhos só sairiam da escola quando estivessem, ao menos, alfabetizados. Percebi, aliviada, que para ele meninos e meninas – e, por extensão, homens e mulheres – tinham o mesmo valor. O segundo aconteceu muitos anos depois, na década de 1980. Já estava casada e com dois filhos, um menino

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e uma menina. Na época, os sermões em muitas igrejas giravam em torno da família e dos diversos papéis desempenhados no lar. Mas sempre que eu ouvia sobre as funções da mulher, sentia certo mal estar, cuja natureza não conseguia definir direito. Só percebia que era uma sensação de falta, mesmo tendo certeza de que, diante de Deus, a mulher é diferente do homem, mas não inferior. O nobre, naqueles anos, era a mulher se identificar com a frase: “Sou esposa e mãe.” Eu não via nada de errado naquilo, afinal eu era casada e tinha filhos. Mas sentia falta de alguma coisa. Um dia, enquanto via minha filha de 10 anos brincando no gramado de casa, o nó se desfez. Olhei para ela e falei com meus botões: “E se ela não se casar? Ou se, mesmo casada, não gerar filhos?”


Naquela conversa entre eu e eu mesma, compreendi que realmente falta algo na identidade da mulher que vai além do estado civil e da capacidade biológica de gerar e criar filhos. Só que a sociedade está impregnada de mensagens desvalorizando e sugerindo que a mulher é inferior. Basta ver que a publicidade usa e abusa do corpo feminino e da sua sexualidade na divulgação de tudo quanto é produto. E muitas mulheres se submetem, muitas vezes inocentemente, a esta exploração sem se dar conta que estão cooperando com a humilhação, não apenas de si mesmas, mas de todo o gênero feminino. E o que dizer, então, das diversas situações degradantes a que as mulheres são submetidas em pleno século XXI? Paul Tournier, psiquiatra suíço que muito influenciou os cristãos brasileiros, defendeu a idéia de que a mulher tem o sentido de pessoa muito mais apurado que os homens. Naturalmente, elas se inclinam mais para as pessoas, enquanto os homens, em sua maioria, se devotam mais às coisas. Ele compreendia que, se a mulher cumprisse sua missão, a civilização poderia ser curada de sua frieza e da indiferença com que trata os desprotegidos e indefesos. Na percepção dele, a mulher já provou do que é capaz, mas tem se submetido aos critérios masculinos, mesmo nos espaços por ela conquistados. Isto é, mostrou sua capacidade – mas deixou de lado a parte específica da sua identidade e passou a imitar o homem. O valor da mulher é resgatado com o advento de Cristo. Deus se fez gente e dependeu de um útero para nascer neste mundo e de seios maternos que lhe dessem sustento. Em todo o ministério de Jesus, ele fez questão

“O valor intrínseco da mulher reside no que ela tem de singular e único. Ela tem significado em si mesma como ser criado à imagem e semelhança de Deus”

de aceitar e reconhecer o valor da participação da mulher. Ao longo de sua trajetória neste mundo, o Filho de Deus protagonizou vários episódios ao lado de mulheres. Ele curou uma mulher com hemorragia uterina, doença exclusiva do sexo feminino; ressuscitou uma menina; gastou tempo ensinando Maria de Betânia, que era solteira, mesmo que a lei judaica só permitisse o ensino para os homens; aceitou o presente e os gestos de gratidão da mulher tida por todos como prostituta; não julgou aquela que foi flagrada em adultério, e amorosamente ainda a convidou a uma mudança de vida; e não teve pudores em revelar-se como Messias à samaritana do poço, uma mulher discriminada não apenas por sua origem, mas também porque já estava em seu sexto relacionamento conjugal. Diante do exemplo de Jesus, podemos reconhecer e acreditar no valor intrínseco da mulher pelo que ela tem de singular e único. Pelo potencial específico e inigualável que se expressa através da profissão, das habilidades artísticas, da atividade religiosa, do voluntariado e do envolvimento político – e também pelo seu desempenho no próprio lar, como companheira do homem e como mãe. E, embora a identidade da mulher não dependa exclusivamente do casamento ou da geração de filhos, é claro que a parceria conjugal e a maternidade podem acrescentar e enriquecer suas experiências de vida e contribuir para sua maturidade. Contudo, o valor da mulher pode e deve ser cultivado e desenvolvido independentemente de sua condição, pois ela, como todo ser humano, tem significado em si mesma como ser criado à imagem e semelhança de Deus. O relato bíblico da Criação mostra que o Senhor delegou ao homem e à mulher a tarefa de cultivar e dominar a terra. Eu acho que, no plano divino, todas as decisões e atitudes humanas devem ser tomadas levando em consideração a ótica masculina e a feminina. Os dois gêneros precisam caminhar juntos – e aprender mutuamente. Os homens precisam considerar e dar espaço para a contribuição da mulher; e ela precisa apenas ser mulher! Esther Carrenho, teóloga e psicológa clínica. Palestrante, ministra cursos de treinamento em aconselhamento, relacionamento interpessoal e orientação familiar

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Martin BOULANGER

Cláudio Neves

Jesus Cristo

SUPERS Após dois mil anos, ensinamentos do Filho de Deus continuam influenciando o comportamento, o mundo corporativo, a mídia e a academia em plena era da informação 42 | CRISTIANISMO HOJE

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A primeira década do século 21 já está se acabando e, apesar do que arautos da modernidade apregoaram, Jesus Cristo continua em alta. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, caso estivesse vivo, ficaria decepcionado ao perceber que o Deus dos cristãos não morreu, conforme vaticinou. Se existe um personagem da História que nunca deixa de ser exaustivamente escrutinado esse é o pregador de Nazaré. Mais de dois mil anos se passaram, e seus ensinos ainda são objeto de estudo de intelectuais que se envolvem com interesse renovado nas mesmas discussões, controvérsias e debates em torno do Messias. Não foge a esta regra o mundo publicitário, o cinema, a


STAR

televisão e a internet – e, quem diria, até a alta tecnologia contemporânea rende-se ao carisma inigualável do Filho de Deus. Enfim, a indústria do consumo “adora” Jesus, desde que fature bem. Devotos, ateus, intelectuais ou teólogos, cada um tem seu motivo para dissertar a respeito do Cristo, mesmo que o consenso acerca dele pareça mesmo impossível. Contrariando completamente todos os postulados que relegam a religiosidade a um papel ignominioso na celebrada sociedade da informação, as eternas palavras de Jesus e seu estilo de vida também contribuem para o sucesso empresarial. Suas verdades têm sido fontes perenes e con-

sistentes de subsídios na formulação das melhores práticas corporativas, especialmente nas estratégias para uma boa liderança. Que dizer, então, dos incontáveis livros de auto-ajuda cuja base é ninguém menos que o Salvador do mundo? O rabi da Galiléia também tem sido citado em palestras motivacionais, é tema de estudos neurolingüísticos e visto como modelo de gestor de pessoas. Para se usar um termo da moda, Cristo está cada vez mais essencial. O mundo corporativo já percebeu isso faz tempo – e, mesmo que trazer a figura do Mestre para dentro da empresa não signifique, necessariamente, a conversão pessoal dos funcionários, os benefícios dessa parceria divina são muitos. “Assim como Cristo fez, ensinamos os líderes a serem servos, a entender e ouvir as pessoas”, aponta Eucimar Almeida, chairman para a América Latina da Strides Arcolab Limited, multinacional indiana que formou join-venture com a brasileira Cellofarm. “Procuramos usar de forma justa aquilo que ele sempre ensinou, ou seja: liderar com sabedoria, conciliar diferenças e jamais se omitir diante do erro.” Segundo ele, a Bíblia tem sido usada como parâmetro na empresa. “Depois que colocamos Cristo como ensinador e Mestre, o resultado tem sido extremamente significativo. Adotando métodos inspirados no que ele pregou, transformamo-nos na quinta maior indústria de medicamentos hospitalares do Brasil e estamos hoje em 12 países”, comemora o executivo. Ensinamentos ‘cristomizáveis’ – Outro que fez semelhante combinação foi Adilson Xavier, presidente da agência de publicidade Giovanni+Draftfcb, empresa sediada em São Paulo e com filiais em várias cidades brasileiras. O executivo encontra diversos paralelos entre a vida que Cristo viveu aqui na Terra com a realidade do mercado publicitário. Em agosto, Xavier lançou um livro no qual enfatiza que Jesus foi o comunicador mais eficiente de todos os tempos, “com formulações brilhantes e uma capacidade extraordinária de empolgar o público”, descreve. O autor, em O Deus da Criação, transformou os dez mandamentos, um dos trechos mais lidos e apreciados das Sagradas Escrituras, em um briefing do Todo-Poderoso para Moisés, onde constam até dicas para um brainstorm (termo que designa o processo criativo) eficiente numa agência de propaganda. Aliás, achar soluções criativas para cada tipo de consumidor e oferecer-lhe produtos exclusivos, a chamada customização, tem ganhado uma nova versão, que bem poderia ser denominada “cristomização”. Esta também é a tática empresarial da corporação americana de TI, Apple, que lançou seu mundialmente badalado dispositivo móvel, o IPhone. O comercial no qual era anunciado o lançamento

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Cláudio Neves

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A evangélica Noir fala com entusiasmo de Jesus: “Ele é tudo para mim!

do produto começava, sugestivamente, com um céu cheio de nuvens, onde aparecia a inscrição Jesus Christ it’s coming (“Jesus Cristo vem”). A partir daí, o Senhor aparece como garoto-propaganda do celular 3G (terceira geração). Numa referência à tecnologia, que sempre se apresenta como algo poderoso e desejável, a novidade foi batizada como Jesus IPhone. Quem disse que a fé não pode ser high-tech? Mas se o mercado se utiliza largamente da imagem de Jesus para vender produtos, o inverso também ocorre. Perry Noble, pastor da Newspring Church, igreja localizada em Anderson, Carolina do Sul (EUA), publicou em seu blog o inusitado artigo Jesus versus the I-Phone. Noble recomenda que, assim como o Xbox360 da Apple, os cristãos devem tornar Jesus disponível em todo lugar. Ele argumenta que a empresa, além de manter a simplicidade e universalizar seu produto, também maximiza o uso das tecnologias que fabrica. “Se a Apple pode lançar mão de tecnologia para causar um tremendo barulho em torno de seu telefone pessoal” – diz o religioso – “por que a Igreja não poderia fazer o mesmo? Jesus não é mais relevante que um IPhone?”, questiona. O líder da Newspring

Paixão e polêmica na telona

Ao longo da história do cinema, dezenas de produções retrataram a vida e obra de Jesus Cristo

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ão é de hoje que a figura de Jesus Cristo inspira a cultura de massa. Ao longo de todo o século 20, diversos cineastas, produtores e distribuidores apostaram na popularidade da maior personalidade da História para conquistar multidões de espectadores e fortunas de bilheteria. Desde a popularização do cinema como a sétima arte, ele já foi retratado de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Quase sempre, cineastas e atores mantiveram uma certa reverência ao levar o Senhor para as telas, mas algumas produções chegaram a ser consideradas verdadeiras blasfêmias. Já em 1912, o filme Da manjedoura à cruz, em cinema mudo, emocionou

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as platéias, apesar da precariedade técnica. Quatro anos depois, Intolerância, do diretor D.W.Griffith, já pôde ser considerada uma superprodução para a época, ao mostrar lances dramáticos da paixão de Cristo. Em 1927, foi a vez de Cecil B.de Mille criar a sua versão cinematográfica do Filho de Deus. O resultado é de fazer rir – Rei dos reis, em película preta e branca, é protagonizado por um Jesus louro, maquiado, de cabelos alisados à base de gomalina, perfil impensável para um judeu que viveu na empoeirada Galiléia do primeiro século. Pier Paolo Pasolini ambientou a Palestina na sua Itália para rodar O Evangelho segundo São Mateus. O filme, de


1964, não é dos piores. Mas Enrique Irazoqui conseguiu roubar a cena, na pior acepção da palavra. Irascível e rude com seus discípulos e com quem encontrasse pelo caminho, o Cristo de Pasolini nada tinha a ver com quem é descrito pela Bíblia como “manso e humilde de coração”. Foi só na década seguinte que os filmes sobre a vida, paixão e obra de Jesus ganharam apuro técnico, fidedignidade aos evangelhos e revelaram grandes performances na telona. Considerado por muitos como o melhor do gênero, Jesus de Nazaré, de 1977, foi uma megaprodução do gênio Franco Zefirelli. Extremamente fiel aos textos bíblicos, o filme trouxe o ator Robert Powell magistral no papel-título. Com cenas que se tornaram antológicas, como os closes em contraluz, figurinos e locações impecáveis, Jesus de Nazaré virou um clássico. Jesus em mil idiomas – Outro filme de muito sucesso é Jesus, produzido e distribuído mundialmente pela Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo com objetivos exclusivamente evangelísticos. Mas ninguém pense que a coisa é amadorística – ao contrário, Jesus, finalizado em 1979 com orçamento baixíssimo para os padrões do cinema, encanta pela emoção de suas cenas. Com versões dubladas para mais de mil línguas e dialetos, Jesus já foi

Arquivo

Church salienta ainda que essa companhia também conseguiu gerar grande expectativa em torno do lançamento de seu gadget digital. “Para todo lado que me virava, ouvia falar sobre o IPhone. Aqui é onde o cristianismo deveria usar o mesmo trunfo da Apple, e anunciar que o túmulo de Jesus está vazio. Cristo e sua Igreja são as coisas mais animadoras que surgiram no planeta, mas os cristãos ficaram dois mil anos tornando isso enfadonho e irrelevante”, critica. Se a falta de entusiasmo de alguns seguidores do Senhor vem afetando negativamente a divulgação de sua mensagem, existe um outro extremo que os bens de consumo não podem satisfazer – afinal, o que estaria motivando indivíduos esclarecidos, e até muitos cientistas respeitados, a investigar a natureza da pessoa de Jesus com tanto afinco? “Cada geração tem uma conjuntura de idéias, fatos e modos de produção próprios. Isso exige que os homens repensem seu tempo e façam perguntas à eternidade e à história”, lembra Robinson Cavalcanti, bispo da Diocese Anglicana de Recife (PE). “A história da humanidade foi dividida em antes e depois de Cristo

O bispo Robinson Cavalcanti diz que é impossível separar o Cristo histórico do Filho de Deus

assistido, segundo seus produtores, por mais de 3 bilhões de pessoas em todo o mundo. O filme tem sido veiculado também no Brasil, em cruzadas e campanhas evangelísticas. Outros cineastas preferiram seguir um caminho, digamos, menos ortodoxo ao tratar do tema. Jesus Cristo superstar, musical de Andrew Lloyd Webber, estreou em 1973 e virou cult ao tratar o Evangelho no auge da contracultura hippie. A última tentação de Cristo, de Martin Scorsese, trouxe Willian Dafoe na pele de um Cristo atormentado por paixões carnais e Je vou salus, Marie, assinado por Jean-Luc Godard, chegou a ser condenado pelo Vaticano ao sugerir que Maria nada tinha de santa. Bem mais sério é A Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson, que estreou em 2003 e provocou forte impacto e muita polêmica. O impacto ficou por conta das cenas de um realismo impressionante. Jim Caviezel, o Jesus escolhido por Gibson, é submetido a um massacre tão intenso que muitos espectadores chegaram a passar mal. E a polêmica ficou por conta da reação dos judeus, indignados com o papel de vilões que supostamente a história lhes imputa. Tudo para confirmar as palavras do próprio Cristo, registradas no evangelho de Lucas, 12.51: “Cuidais vós que vim trazer paz à terra? Não, vos digo, mas antes dissensão”.

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CAPA

Divulgação / Mundo Cristão

porque as pessoas sempre voltam a questionar sobre ele. Independente de o indivíduo ser intelectual, PhD ou alguém sem instrução, sempre será um ser humano e tem necessidade de fazer perguntas essenciais básicas”, avalia. “Não devemos separar rigidamente o Jesus histórico do Cristo de Deus. O que tem atraído a humanidade é justamente a riqueza da natureza de Jesus. Ter ao mesmo tempo palavras de diálogo com a mulher samaritana e um duro discurso contra certas instituições estabelecidas demonstra bem seu valor. O Jesus histórico, um personagem rico, não esgota o Cristo de Deus. Necessidade de Deus – Mesmo assim, essa devoção a Jesus tem sido uma incógnita para muitos, simplesmente pelo fato de ainda existir gente que o adora e diz falar com ele todos os dias. É de se perguntar, então, o porquê de essa busca espiritual continuar tão intensa em pleno terceiro milênio, uma era de materialismo exacerbado e falência da religiosidade tradicional. Segundo o doutor em biofísica molecular e professor de teologia na Universidade de Oxford, no Reino Unido, Alister MacGrath, tal anseio é sintomático: “A sede humana indica necessidade de água”, resume. Junto com a mulher, Joanna, ele é autor do livro O delírio de Para Alister McGrath, a Dawkins – Uma resposta existência de Deus não é ao fundamentalismo atemera questão intelectual ísta de Richard Dawkins (Mundo Cristão), onde combatem a idéia de que a existência de Deus é mera questão intelectual. Longe da filosofia e das discussões acadêmicas, para aqueles que o seguem Jesus tem sua melhor performance – a de Salvador. Muito mais que entender seu papel histórico ou o legado de sua obra perante o mundo moderno, os fiéis o vêem como alguém digno de ser amado e adorado. E o que ele significa para gente assim? “Tudo!”, responde com entusiasmo a dona de casa Noir da Silva, 49 anos. Evangélica há 20 anos, ela é uma mulher de humor contagiante

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que decidiu construir junto com o marido, o pastor Sidnei Silva, 45, uma igreja no bairro do Paraíso, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. “Ele trouxe vida ao meu coração”, declara Noir, que não esquece de mencionar os benefícios que diz ter recebido de Cristo: “Ele me ajudou durante uma gravidez difícil, salvou minha filha de um acidente automobilístico quando tinha oito anos e está recuperando a memória de meu pai, que é doente mental”, enumera, com uma fé simples. “Quando precisamos de socorro, clamamos a Jesus. Jesus, Jesus!”, brada. Pois com Jesus no coração e uma idéia na cabeça, o casal conseguiu adquirir um terreno, erguendo do nada o que é hoje a Igreja Pentecostal Vale de Beraca, além de uma casa com dois andares. A ajuda esporádica surgia tão somente de algumas pessoas recém-chegadas a seu pequeno ponto de pregação – a maior parte, porém, partiu de investimentos da própria família. Segundo Noir, dentre os freqüentadores da congregação há quem, no passado, teve experiências com o submundo do tráfico e da prostituição; outros foram presidiários. Tipos que passaram a compor uma seleta comunidade que, além de ter se redimido, sequer lembram qualquer coisa parecida com a vida que levavam. Noir, que é vice-líder da igreja, tratou de apóia-los espiritualmente, psicologicamente e até com abrigo, comida e, às vezes, algum dinheiro. “Sempre tive vontade de ajudar os outros, e essa foi uma forma que encontrei de encontrar realização e ao mesmo tempo ser grata a Jesus”, diz. Assim como Noir que, por se dedicar à causa social e espiritual em tributo a Cristo, não abre mão de recorrer a ele nas horas aflitivas, milhões de pessoas no mundo inteiro ainda não depositam todas as suas fichas na ciência como solução final para a humanidade. A explicação para isso, conforme avalia Ricardo Bitun, professor de sociologia e antropologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, vem de longe: “Muito do pensamento contemporâneo deriva dos iluministas, mas também tem forte influência do positivismo de Augusto Comte. Durante um bom tempo achou-se que a sociedade industrial cresceria a tal ponto que os mistérios da vida iriam desaparecer com o avanço da ciência”, destaca. Ledo engano. “Após a Segunda Guerra Mundial, a religião não desapareceu – pelo contrário, se revitalizou, pois as pessoas precisavam achar respostas para toda aquela crise, e isso ficou bem claro”, explica o especialista. “Claro que a ciência tem valor, mas uma coisa não exclui a outra”, conclui. Com título de doutor, Bitun é um intelectual que não abre mão da fé, já que também é pastor da Igreja Manain, naquela cidade. Ou seja, conhece muito bem os dois mundos de que está falando.


ENTREVISTA

Carlos Fernandes e Jacqueline Falheiro

Divulgação

O escritor Max Lucado: obra repleta de referências ao amor de Deus e defesa da contemporaneidade dos conteúdos das Escrituras

“Precisamos hoje de um Evangelho simples”

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Um dos mais festejados autores cristãos da atualidade, Max Lucado faz de sua obra um instrumento do amor de Deus

Já se disse – e é verdade – que a unanimidade é perigosa. Por isso mesmo, dizer que todo mundo gosta do escritor americano Max Lucado pode ser arriscado. Mas, com certeza, é algo bem próximo da realidade. Autor consagrado por mais de 60 livros que venderam algo perto de 50 milhões de exemplares em todo o mundo, ele é um fenômeno das letras cristãs. A abrangência de sua obra pode ser avaliada pela diversidade dos temas que aborda. Derrubando Golias, Ele escolheu os cravos, Seguro nos braços do Pai, Nas

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garras da graça e Simplesmente como Jesus são alguns títulos que demonstram seu ecletismo. Lucado, mestre dos textos devocionais e inspirativos, começou a escrever em 1985, quando morava no Rio de Janeiro. Aliás, o período em que viveu no país é descrito por ele como um tempo de carinhosas lembranças. “Tenho um amor especial pelo Brasil”, derrete-se. “O brasileiro é o melhor povo do mundo.” Pastor por chamado divino e escritor por uma vocação que garante ter recebido também de Deus, Max Lucado é


tido nos Estados Unidos como uma referência cristã que transcende os muros da Igreja. Seu trabalho é enaltecido por publicações seculares como o New York Times e o USA Today. Mesmo assim, ele não é condescendente com a atual situação de seu país. “Os Estados Unidos não são mais uma nação cristã, porque o cristianismo não influencia mais suas decisões”, critica. Casado com Denalyn e pai de três filhas, Lucado vive em San Antonio, no Texas, onde até recentemente pastoreava a Oak Hills Church. Afastou-se do púlpito para dedicar-se mais à carreira de escritor – embora, evidentemente, as duas funções lhe caibam como uma luva. Por telefone, Max Lucado concedeu a seguinte entrevista exclusiva a esta primeira edição de CRISTIANISMO HOJE:

“Hoje, os Estados Unidos não são um país cristão, pois o cristianismo não os influencia mais. Um país cristão glorifica a Cristo em suas decisões; e os Estados Unidos não estão fazendo isso”

Há uma maneira de comparar 9/11 com João 3.16 – e é precisamente a contraposição do medo contra a esperança. Na sua opinião, o que mudou na Igreja após aquele episódio? Ela também perdeu um pouco da sua esperança? E agora, passados seis anos dos atentados, como os cristãos americanos lidam com a questão? Infelizmente, nada mudou desde então. Eu me lembro de que nos primeiros dias após o atentado, todas as igrejas estavam lotadas. Só que o tempo passou e as pessoas não permaneceram naquela busca pelo Senhor. Agora, está tudo normal. Infelizmente, o cristianismo não influencia os Estados Unidos. Aliás, os Estados Unidos não são um país cristão, mas um país que tem cristãos. Um país cristão glorifica a Cristo em suas decisões e os Estados Unidos não estão fazendo isso. Eu acho que os Estados Unidos não estão crendo no Senhor como a Coréia do Sul, o Brasil ou a China. Qual sua expectativa quanto ao efeito de João 3.16 sobre os leitores? Eu tenho duas expectativas. Uma delas é a de alcançar as pessoas que não são discípulos de Cristo – para isso, quis apresentar-lhes um livro que explicasse o Evangelho de forma simples. A outra é edificar os cristãos, fazendoos entender o Evangelho. Eu quis descomplicar as coisas importantes da Palavra de Deus.

CRISTIANISMO HOJE – A passagem de João 3.16, também chamado de “texto áureo” da Bíblia, é certamente a mais lida e pregada da Escritura. Por que o senhor o escolheu como base do seu novo livro? MAX LUCADO – Sou pastor, e todos os meus livros são para a Igreja – ou seja, eu os faço pensando na Igreja, e ela necessita saber que estamos numa época em que precisamos estudar um Evangelho simples. E como fazer isso? Explicando tudo numa frase bem simples, expressando opiniões mais simples ainda. Então, considero o texto de João 3.16 como uma passagem ideal. O curioso é que a primeira vez em que pensei neste livro foi em 1998, quando ouvi uma música da cantora Jacy Velasquez baseada justamente na passagem de João 3.16. Aí, uma pessoa me deu a idéia de escrever um livro baseado também naquele texto. Bem, passados estes anos, aí está o livro.

Mas o livro tem alguns capítulos que abordam temas bem complicados, como a existência do céu e do inferno.  Algumas modernas interpretações da Bíblia têm procurado relativizar essa doutrina, sugerindo que um Deus tão amoroso jamais lançaria pessoas no inferno, e que este termo, na realidade, significaria apenas “sepultura”. O senhor considera que as referências ao céu e ao inferno, na Palavra, são literais e referem-se mesmo a estados eternos a que serão destinadas todas as pessoas? Eu procurei achar todas as possibilidades e caminhos para concordar com as pessoas que dizem que não existe literalmente o inferno. Mas, simplesmente, não concordo com isso. As Escrituras descrevem uma punição eterna com a mesma convicção que falam sobre a existência do céu. Eu estou convencido de que o inferno existe de fato – e é o destino eterno das pessoas que passam a vida inteira dizendo para Deus as deixarem a sós. Pois no final, é exatamente isso que Ele irá fazer.

Por que o dia 11 de setembro, data tão emblemática para a humanidade, foi escolhida para o lançamento mundial de um livro que fala justamente da antítese do ódio?

Desde o lançamento de O maior vendedor do mundo, de Og Mandino, os temas motivacionais e princípios da auto-ajuda ensejaram o surgimento de um dos princi-

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ENTREVISTA

pais gêneros literários da atualidade. Qual a sua opinião acerca deste tipo de literatura? A auto ajuda é uma boa idéia – mas uma mão limpa não pode ajudar a limpar uma suja. Logo, os princípios da auto-ajuda não são suficientes para o ser humano. Por isso, temos que buscar ajuda de outro lugar. Precisamos ter ajuda de Deus. É por isso que eu prefiro a Cristo-ajuda...

fundas com esse país. Eu ainda tenho muito amigos no Brasil, especialmente nas cidades do Rio de Janeiro, Natal, Recife e São Paulo. Eu também tenho lembranças de Porto Alegre e Curitiba. Foi um privilégio viver aqueles anos em seu país.

Mas esses temas também têm influenciado fortemente a literatura evangélica. Como conciliar, então, os princípios da auto-ajuda, que visam ensinar as pessoas a resolver seus problemas, com a fé cristã, que enfatiza a dependência irrestrita de Deus? Bem, todo mundo precisa de encorajamento – e, por isso, todo mundo precisa atualmente da mensagem de Cristo sobre a cruz e a ressurreição. No entanto, não podemos sacrificar o Evangelho. Só encorajar não é suficiente. Temos que tratar o pe-

A publicação do documento Respostas a questões relativas a alguns aspectos da doutrina sobre a Igreja, no qual o Vaticano arvora para o catolicismo a condição de “única Igreja de Cristo”, foi um duro golpe no processo de aproximação da Igreja Católica das demais correntes cristãs. Como escritor que também é maciçamente lido por católicos, o que o senhor pensa acerca deste enfrentamento? Eu acho que ser cristão é ser uma pessoa cujo Deus

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“Estou convencido de que o inferno existe de fato como destino eterno das pessoas que passam a vida inteira dizendo para Deus as deixarem a sós. Pois no final, é exatamente isso que Ele irá fazer”

cado, explicando sua natureza e mostrando o Salvador, mas não abrindo mão do Evangelho. O que sabe da aceitação de seus livros no Brasil? Fico feliz porque sempre recebo muitas cartas de brasileiros, que fazem questão de me encorajar e incentivar. Que lembranças o senhor guarda do período em que viveu no Brasil? Tenho um amor especial pelo Brasil! É o melhor povo do mundo. Os brasileiros me ensinaram muito sobre relacionamento. Na juventude, eu passei um verão no Brasil como estudante universitário. Então, acabei me apaixonando pelo país, e desde então sabia que o seu país era onde eu queria morar. Eu tenho três filhas, sendo duas nascidas no Brasil; logo, eu e minha família temos raízes pro-

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E pensa em voltar a residir no Brasil? Não. Mas adoraria uma nova estada prolongada.

é o Senhor e que tem a Jesus Cristo como único salvador. Ora, não podemos ser salvos sem Cristo! Eu não acho que todos os caminhos levam a Deus. O que faz uma pessoa cristã não é a igreja que ela freqüenta; por isso, acho que há verdadeiros cristãos tanto na Igreja Católica quanto nas igrejas protestantes. Todavia, há muitos católicos que não são cristãos, como também há muitas pessoas que pertencem a igrejas evangélicas que não o são. Em seu livro Dias melhores virão, o senhor defende a crença no fato de que o Senhor sempre está no controle da situação – mesmo em casos de extremo infortúnio, como a doença e a morte, tema também presente em Aliviando a bagagem, Ele ainda remove pedras e diversas outras obras suas. Mesmo para o cristão, manter a fé diante do mundo de hoje não está cada vez mais difícil?


Sim, está. Eu acho que é muito difícil ser cristão. Principalmente, nos Estados Unidos, onde o secularismo é uma religião – ou seja, só se acredita vendo. Por causa disso, as pessoas não oram, pois só acreditam no que vêem. O que eu gosto no Brasil é que os brasileiros acreditam que existe um mundo espiritual, crêem na existência de anjos etc. Na sua opinião, o cristão tem uma percepção correta do sofrimento e do seu significado? É muito necessário a gente entender o propósito do sofrimento. Ele é a ferramenta usada por Deus para tratar o caráter humano. A Bíblia diz que o sofrimento nos prepara para sermos fortes; ele nos prepara para a vida eterna. E é fundamental ressaltar que a Palavra de Deus não nos revela que não teríamos sofrimentos – mas afirma que Cristo nos fortaleceria nestes momentos. A teologia da prosperidade, de matriz americana, influenciou fortemente a Igreja Evangélica brasileira. Um de seus pressupostos básicos é justamente a eliminação do sofrimento nesta vida. Mas percebe-se que hoje tem havido um certo “cansaço”, sobretudo em relação a promessas dos líderes que não se concretizam na vida dos fiéis. O que o senhor pensa da confissão positiva? Eu não acho bom dizer às pessoas que, quando elas se tornarem cristãs, vão ter coisas materiais. E tenho problemas com aqueles que dizem que, quando o indivíduo se converte, vai ganhar dinheiro, não vai ter doenças... Mas a promessa de Cristo é a de nos fortalecer no meio dos problemas, e não, que a gente não vai tê-los. O que mudou no Max Lucado escritor desde o lançamento de seu primeiro livro? O que mudou (risos)? Hoje em dia, eu tenho mais dead line (Da redação: Trata-se de expressão utilizada no segmento editorial e se refere aos prazos para fechamento de textos e entrega de originais). Agora, eu trabalho muito mais no computador do que antes. Eu escrevi meus primeiros livros na época em que morava no Rio de Janeiro. Naquele tempo, eu os escrevia entre dez e meia da noite

“Só encorajar as pessoas não é suficiente. Temos que tratar do pecado, explicando sua natureza e mostrandolhes o Salvador”

“É muito necessário a gente entender o propósito do sofrimento. Ele é a ferramenta usada por Deus para tratar o caráter humano” e meia-noite... Só que agora, uso o meu tempo integral para escrever. Agora, uma pergunta inevitável: qual o segredo do sucesso dos seus livros? Olha, eu não sei o porquê de os meus livros serem bem recebidos. Simplesmente, não tenho explicação para isso. Eu apenas gosto de escrever para pessoas que não gostam de ler, pois sou uma pessoa bem simples. Por que o senhor resolveu aposentar-se do pastorado da Oak Hills Church, congregação onde exerceu o ministério desde 1987? Na verdade, não estou me aposentando. Só estou mudando de cargo, já que vou ficar trabalhando como professor da Bíblia. Acontece que conciliar o ofício de escritor com o cargo de pastor principal é demais. Só estou simplificando as coisas... Em João 3.16, Deus apresenta seu amor infinito ao homem. Como o senhor tem vivenciado este amor na sua vida? O amor de Deus é a coisa mais importante da minha vida. Eu lutei muito com o Senhor nos primeiros dias da minha conversão. Era alcoólatra e achei que Deus poderia me perdoar; e aí, finalmente, comecei a acreditar nesse amor divino e efetivamente cri que Deus pode nos perdoar. Em recente entrevista a uma revista americana, o senhor abordou essa sua relação com o álcool – tema considerado tabu no segmento evangélico, que consideram seu consumo como pecado. Por que o senhor resolveu tocar no assunto? O abuso do álcool é parte da minha história, pois me envolvi cedo com a bebida. Mas, graças a Deus, beber excessivamente não é mais uma tentação para mim. Logo, Deus é o Deus da segunda chance? E da terceira, da quarta...

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PavaZine# | Sérgio Pavarini

Ladeira abaixo “Eu fui só transcrevendo na lousa. Com um dicionário, mediante a minha orientação, eles foram procurar os conceitos de cada palavra.” Cansada da zoeira com palavrões na sala de aula, a professora Raimunda Gomes Castro decidiu ajudar a gurizada a descobrir o significado das palavras que estavam proferindo. A evangélica paraense está sendo processada pelos indignadíssimos pais de três alunos. Reunião do G8 na Rússia em 2006. George Bush trocava idéias com o premiê britânico Tony Blair sem saber que os microfones estavam ligados. “A ironia é que eles [a ONU] precisam fazer com que a Síria convença o Hezbollah a parar com essa %*&@#, e aí está acabado”, mandou o presidente americano, evangélico. A frase correu o mundo no dia seguinte. Com certos filtros subtraídos apesar de a doença ainda estar no estágio inicial, o conhecido pastor recebeu visitas. – Querido, alguns amigos vieram ver você. Vamos colocar uma camisa bem bonita para receber seus colegas de ministério. – De novo? Aposto que aqueles #*@#&% vão querer orar por mim novamente... Em Como os pingüins me ajudaram a compreender Deus (Thomas Nelson Brasil), Donald Miller fala de um líder amigo que criou a reputação de ser “um pastor que dizia palavrões”. Conta ainda que o ministro de sua comunidade também fala palavrões, embora menos que o “Pastor Desbocado”.

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“Querem saber de uma coisa? Vocês não conhecem Craig como eu. Então é melhor parar de falar tanta #$&@! Calem essa *#@&% dessa boca!” O Craig [Groeschel] em questão é o autor de Confissões de um pastor (Mundo Cristão). Ele elogia o jeitão do amigo e diz que prefere “estar perto de um não-cristão autêntico do que de um seguidor de Jesus que vive como se estivesse representando num teatro o tempo todo”. Há alguns anos, um escritor e pastor americano citou a palavra *@&#a numa de suas palestras. A uma platéia estupefata, ele argüiu que os cristãos se escandalizavam com determinadas palavras mas estavam anestesiados para aquilo que realmente deveria produzir indignação neles. Os olhos divinos enxergam o que está sob a superfície. Por mais que tentemos camuflar a forma, o conteúdo é transparente para Deus. Será que isso também vale para os “palavrões”? As aspas são necessárias porque a linguagem é viva e muda continuamente. Palavras consideradas “obscenas” são aceitas tempos depois. Basta observar os textos publicados atualmente nos jornais e revistas. Muitos cristãos objetam que há um poder quase mágico nas palavras, crença reforçada por páginas cristãs tão pobres de conteúdo quanto de fundamentação bíblica. Muitos brincam que, fosse tal crença verdadeira, os lupanares estariam repletos de genitoras de juízes de futebol.

“O ensinamento de Jesus sobre como viver não pode ser reduzido à informação, palavras, regras, livros ou instruções”, defende Brian McLaren no livro Uma generosa ortodoxia (Editora Palavra).

Os cristãos deveriam ser reputados (sem trocadilho) como os verdadeiros criadores da Second Life. Vivemos num mundo imaginário, literalmente crentes de que adotar certas práticas já é suficiente para sinalizar que somos diferentes. Limar algumas expressões do vocabulário é um dos expedientes mais fáceis e triviais para os avatares que forjamos. Basta olhar para o lado para constatar a falibilidade e a incompletude dessa práxis hipócrita.

Philip Yancey afirmou que “a moeda das palavras sofre, há séculos, uma deflação inexorável”. No entanto, a verdadeira analose está na qualidade de relacionamento que os cristãos têm com Deus. A julgar pela sucessão de escândalos envolvendo o povo santo, o fundo do poço de tristeza parece não ter fim. Possa o Pai misericordiosamente ajustar as nossas lentes e tornar verdadeiras em nós as palavras do antigo poema hebraico: “Quando estamos nos degraus mais baixos da escada do pesar, nós choramos. “Quando chegamos à metade dela, nós emudecemos. “Mas quando alcançamos o topo da escada do pesar, nós convertemos a tristeza em canto” Sérgio Pavarini é jornalista e marqueteiro. Blog: pavablog.blogspot.com E-mail: pavarini@uol.com.br


CH DIGITAL | Whaner Endo

Já se passaram 23 anos e o Grande Irmão, cujo advento foi anunciado por George Orwell no clássico 1984, parece ter finalmente dado as caras. Seu nome? Google! Mas, enquanto ele não vai para o lado sombrio da força, gostaria de falar um pouco de como suas ferramentas estão mudando a vida de bilhões de míseros mortais, nesse início de século XXI. Todo mundo conhece o seu sistema de busca. Você lembra qual foi a última vez em que passou um dia sem procurar algo na página do Google? Pois é, eu também não. Mas ele não é apenas um sistema simples (e eficiente) de busca. Google é muito mais! Você já tem e-mail? Não? Então, que tal entrar no Gmail, um serviço gratuito que lhe dará um espaço de 2.8 Gb para receber mensagens ou guardar arquivos? Para se inscrever, é fácil. Basta acessar o endereço www.gmail.com, clicar no link ‘Inscrever-se em Gmail’ e preencher o formulário. Pronto! Muitos também devem conhecer o Google Earth (www.earth.google.com), um programa que combina o sistema de buscas do Google com fotos de satélite, mapas, terrenos, informações geográficas... Se você tem a tendência de passar horas e horas em frente ao computador, fique longe, pois o Google Earth vicia. É maravilhoso você ver o Cristo Redentor, o Coliseu, a Torre Eiffel... E, é claro, sua própria casa. Há algumas semanas, o Google lançou uma nova versão, a 4.2, que permite ao internauta explorar não apenas qualquer canto da Terra, mas o espaço, visitando planetas, estrelas e constelações. Mas as ferramentas deste admirável mundo novo do Google não servem apenas como diversão. Com o Google Maps (www.googlemaps.com.br), que é baseado no Earth, você não vai mais se perder quando quiser atender

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àquele convite para um culto do outro lado da cidade. O Maps é similar a outros serviços como o Apontador.com ou Maplinks – mas é muito mais fácil de usar. E, além disso, tem a vantagem de utilizar imagens geradas via satélite. É como se tivéssemos olhos de águia. O mais legal desse sistema é que ele possibilita acessar o Maps em seu celular, como o TREO 680. Basta baixar o software e instalá-lo no TREO. Você vai poder traçar rotas, achar endereços e até ver a imagem do satélite. O programa é estável e fácil de utilizar. É uma ótima opção para os GPSs, que ainda estão com preços proibitivos. Outra ferramenta é o Google Book Search, que faz uma busca em milhões de livros. O usuário pode ler parte do seu conteúdo, obter resenhas sobre aquele título e até, claro, fazer uma compra online. O pacote Google inclui, ainda, o Picasa (gerenciador de fotografias), e os sites Orkut, YouTube e Blogger, três dos endereços mais acessados aqui no Brasil. Falando em Blogger, o Google Reader é um ótimo agregador de feeds e, com ele, você não vai precisar ficar visitando vários blogs, procurando por atualizações. O Reader vai atualizar tudo, automaticamente, sempre que aquele blogueiro postar algo novo. Bom, você percebeu que o Google está em todo lugar, então, aproveite enquanto a grande maioria desses fantásticos serviços ainda são gratuitos... Benjamin Earwicker

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Grande Irmão zela por ti

Whaner Endo é diretor executivo da Associação de Editores Cristãos, membro da World Association for Christian Communication (WACC) e publisher da W4 Editora. É membro da Igreja Metodista em Campo Belo, São Paulo. Contatos: whaner@cristianismohoje.com.br


CINECULT | Nataniel Gomes

Os Simpsons - O Filme Os Simpsons - O filme já está em cartaz há algum tempo. Mas, se você ainda não assistiu, vá logo. Quem foi, gostou – inclusive, os crentes. O filme, esperado pelos fãs da série havia 18 anos, consegue excelentes tiradas com seu humor ácido e um roteiro bem feito. A história é simples e começa quando Lisa, a filha engajada de Homer, alerta Springfield sobre os males da poluição. A população, sensibilizada, decide parar de sujar a cidade. Mas Homer comete mais uma burrada e emporcalha o lago a ponto de desencadear mutações nos peixes. Diante da catástrofe, o presidente dos EUA, Arnold Schwarzenegger – é, na ficção o ex-brutamontes vai pular do governo da Califórnia para a Casa Branca –, manda isolar toda Springfield com uma redoma de vidro. Só resta a Homer consertar os erros cometidos. O filme, na verdade, faz críticas para todas as direções, desde a atual política adotada nos Estados Unidos até dramas familiares, como pais que ignoram os filhos – exatamente como Homer faz com o pequeno Bart quando resolve adotar um porco. Hilárias também são as cenas envolvendo os cultos freqüentados pelos Simpsons. Além de boas risadas, o filme até pode ensinar alguma coisa, como o caminho do arrependimento, do amor da família e a arte de criar filhos.

A volta do Todo Poderoso Nessa continuação do filme de 2003, Deus “arruma” muitas confusões para o ex-apresentador de TV e agora deputado Evan Baxter. A confusão é suficiente para que o filme mantenha o ritmo e provoque vários momentos divertidos. Desde seu primeiro dia no Congresso, mistérios supostamente divinos acontecem. Primeiro, o parlamentar recebe uma caixa com ferramentas rústicas. Depois, chega um carregamento de madeira – e, para complicar ainda mais a situação, ele recebe a encomenda da construção de uma arca. Julgando-se vítima de estresse, Evan ignora a determinação e, só depois de muitas visitas e aparições, além das muitas confusões, admite que está sendo chamado por Deus para a missão. Por mais que demore a acreditar, descobre que será uma espécie de Noé, com a tarefa de reunir animais na arca, exatamente como narra o Gênesis. E, da mesma forma que Noé, Evan também é ridicularizado – pela imprensa, pela sociedade, pelos políticos... Numa das cenas iniciais, Evan é seguido por centenas de aves, uma referência ao clássico Os pássaros, de Hitchcock. É, muitas vezes seguir as determinações do Senhor causa uma série de transtornos. Mesmo que o filme seja uma comédia, em alguns momentos ele faz pensar – inclusive, sobre o chamado e a missão de cada um.

Nataniel Gomes é doutor em Lingüística, professor universitário, editor da Thomas Nelson Brasil, membro da Comunidade de Jesus do Rio de Janeiro

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LIVROS E RESENHAS | Luciano Vergara

Teologia com base na Missão Teologia do Novo Testamento – Diversos testemunhos, um só Evangelho I. Howard Marshall 651 páginas Vida Nova, 2007

Vale a pena comemorar. A teologia bíblica do Novo Testamento segue indispensável em seminários mundo afora. Tal reflexão requer literatura fundamentada e sempre atual – e Marshall tem contribuído sobejamente para isso. Este escocês inovou usando uma fórmula simples: tomou como ponto de partida a Missão. Ele enxergou o liame que une as diversidades neotestamentárias e apostou numa construção sintética a partir da vocação testemunhal da Igreja. Três anos após o lançamento na Europa e América do Norte, Teologia do Novo Testamento chega ao Brasil com a possibilidade de ampliar a visão tropical sobre o novo pacto ou simplesmente acentuar a distância entre a teologia dos doutores e a das comunidades. Se fizer apenas isso, o livro já terá prestado um enorme serviço.

Check-in teológico Fundamentos da teologia reformada Hermisten Maia Coleção Teologia Brasileira 224 páginas Mundo Cristão, 2007

Para os não iniciados, a teologia pósReforma, às vezes, pode parecer saguão de Cumbica em pleno apagão aéreo, com malas, passageiros e funcionários embolados na mixórdia. Pois alguém sabe explicar o que acontece nestes tempos de evangelismo eletrônico, superpastores midiáticos, e incoerência de conteúdos? Afinal, o que há de novo acerca do movimento religioso, social e político eclodido no século 16, quando o monge Martinho Lutero expôs suas célebres teses? O professor Hermisten Maia foi conferir. Ele decolou em direção à Europa quinhentista e veio sobrevoando a herança reformada na coleção Teologia brasileira, da editora Mundo Cristão. Hermisten é um acadêmico, viajante de livros que, a julgar pelas suas editoras, são “vôos” de bandeiras variadas em rotas multidisciplinares com conexões na história, na filosofia e, claro, na teologia. Didático, não há pistas desconhecidas para o professor. Embarcando com pequenas panes que fogem à revisão, a quota bibliográfica acima do limite da classe econômica acende no check-in, sem surpresas, a luz para uma mala tão pequena.

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Para ler e orar Súplicas de um necessitado – Oração e vigilância Elben M. Lenz César 88 páginas Ultimato, 2007

O bom “Mineiro” está de volta. Mas desta vez, como peregrino em suas próprias orações. Cada uma delas é definitivamente a que cada crente desejaria fazer toda manhã – o segredo é a humildade de se reconhecer necessitado. Essas súplicas têm mais a ver com o publicano contrito, aquele que batia no peito a clamar por misericórdia, do que com o fariseu orgulhoso do primeiro banco do templo. A simplicidade do tamanho dessa produção – que não é acadêmica, mas devocional – oculta uma energia espiritual que só quem já privou, ao menos um pouco, da companhia de Elben pode atestar. Nessa segunda versão, revista e atualizada, 26 orações se encaixam à experiência devocional de cada dia do mês, exceto domingos. É leitura recomendável também como inspiração para cultos domésticos e reuniões de pequenos grupos.

Terapia que cura Bibliodrama – A arte de interpretar textos sagrados Anete Roese 156 páginas Sinodal, 2007

Entender relacionamentos e curar sofrimentos emocionais. Estas têm sido algumas das principais atribuições dos pastores na Igreja contemporânea. A luterana Anete Roese faz isso usando a Bíblia. Ela concluiu que o psicodrama é eficaz e, por acreditar no valor terapêutico das Escrituras, desenvolveu o processo que chamou de bibliodrama. Na terapia da pastora, a hermenêutica bíblica fornece interpretações sociais e éticas que ajudam a encontrar soluções. Esse método, concebido pelo médico romeno Jacob Levy Moreno (1889-1974), ficou conhecido como psicoterapia de grupo e serve de base para interações do tipo role playing. Estuda e intervém nas relações interpessoais, em grupos, entre estes ou ainda de uma pessoa consigo mesma, usando dramatizações de cunho sócio-relacional. Para os adeptos, é “uma via de investigação da alma humana mediante a ação” que remonta à Antigüidade. Luciano Vergara é jornalista, professor do Seminário Teológico Betel, no Rio de Janeiro, e pastor metodista


OS OUTROS SEIS DIAS | Carlo Carrenho

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Pontapé inicial

A pergunta veio como um direto de esquerda: “Por que há tão poucas editoras evangélicas presentes na Bienal do Livro do Rio de Janeiro?”. O programa era ao vivo, em uma emissora de TV evangélica, e referia-se ao maior evento literário do ano, ocorrido em setembro. A resposta era óbvia: “Porque gostamos de viver dentro do gueto evangélico. Não nos misturamos, vivemos fechados em nosso próprio mundo”. Claro que a realização concomitante da Expo Cristã – esta sim, uma feira gospel – era outra das razões para a ausência evangélica. Mas não seria a própria Expo uma conseqüência de nossa opção pelo gueto? Sempre fui muito crítico a essa postura de isolamento da comunidade evangélica. Por isso, quando fui convidado a escrever em CRISTIANISMO HOJE, fiquei entusiasmado. A idéia era falar do mundo secular, das coisas positivas e belas que existem por aí e não estão dentro da esfera evangélica. Em outras palavras, uma espécie de evangelismo às avessas – eu deveria trazer “o mundo”, essa expressão tão evangélica que define o que está fora da Igreja, justamente para dentro dela. Pode parecer difícil de acreditar, mas a verdade é que a maioria das coisas fora do âmbito cristão são positivas – é, o tal mundo é bem menos mundano do que parece.

Wagner M. Paula

“Pode parecer difícil de acreditar, mas a verdade é que a maioria das coisas fora do âmbito cristão são positivas – o mundo é bem menos mundano do que parece”

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O escopo desta coluna, portanto, será amplo. Ela vai abordar tudo o que acontece no chamado segmento secular e é desconhecido de grande parte dos crentes. Vamos, por exemplo, falar de esportes e entretenimento. E aqui, já uma provocação: quando foi a última vez em que você foi a um estádio assistir um jogo de futebol? Nunca? Ou deixou de fazê-lo quando passou a freqüentar a igreja? Pois deveria ir sempre. No país do futebol, marcar presença no estádio de vez em quando é fundamental para entender melhor nossa sociedade e aprender a conviver e testemunhar. Além disso, é uma experiência emocionante e relaxante. Não sou flamenguista, mas desde que passei a viver no Rio adoro assistir aos jogos do Flamengo no Maracanã. Ali, admiro o êxtase da torcida, divirto-me com meus amigos, sinto-me próximo de meu povo e, acima de tudo, sinto-me muito brasileiro. Tenho ainda uma outra provocação: há quanto tempo não visita um museu? Quando foi a última vez que parou para admirar um objeto de arte? Quando foi a última vez que parou para admirar um objeto de arte? E, por favor, não estou falando de arte gospel. Ora, arte não tem religião nem fé – tem apenas temática. E pode ser boa ou ruim, seja qual for a temática. Pois aceite o desafio: aproveite o próximo sábado e vá visitar o MASP em São Paulo, ou o Museu de Belas Artes no Rio de Janeiro. Talvez você se surpreenda ao descobrir que Cândido Portinari pintou uma bela série de quadros com temática bíblica na década de 1940. Aliás, é maravilhoso quando saímos ao mundo e descobrimos elementos sacros. Nunca vou me esquecer da primeira vez que vi o Duomo, a catedral de Florença, na Itália, que hoje é mais um símbolo turístico do que um templo. Diante da beleza arquitetônica que o próprio Michelangelo declarou não ser capaz de alcançar, eu chorei copiosamente. Pois são estas coisas belas, divertidas, prazerosas, que pretendemos abordar nesta coluna – sempre lembrando que, para obedecermos o que está escrito em Mateus 5.13-14, não basta sermos sal e luz. Precisamos, acima de tudo, marcar presença no mundo e nas trevas. Carlo Carrenho é paulistano, mas mora no Rio de Janeiro. É cristão, mas estudou metade da vida em uma escola judaica. Estudou economia, mas trabalha como editor de livros. Adora uma praia deserta da Bahia, mas se encanta toda vez que se mistura à muvuca da torcida no Maracanã. Com tantos contrastes e paradoxos na bagagem, aceitou escrever a coluna Os outros seis dias


COMPORTAMENTO Adaptado de Christianity Today. Copyright © 2007

A hora da MATURID Maior entidade cristã de apoio a ex-gays, ministério Exodus International investe em uma nova abordagem da temática homossexual

D

Tim Stafford

Desde o início dos anos 1970, um movimento de resistência ao comportamento homossexual tem ganhado força ao apregoar a possibilidade de um gay mudar sua orientação sexual graças à fé cristã. Baseados na Bíblia Sagrada, que condena o comportamento gay classificando-o como “abominação contra Deus”, os evangélicos defendem que a homossexualidade é um pecado que precisa ser combatido. As armas desta batalha são os testemunhos daqueles que garantem que, graças a Jesus, mudaram seu estilo de vida. Por outro lado, a sociedade moderna tende a defender que a orientação sexual é coisa que nasce com o indivíduo – e, portanto, seria impossível alterá-la sem acarretar violentos transtornos emocionais. O debate, que tem esquentado em todo o mundo, prosseguiu em junho

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último, quando o Exodus Internacional, maior grupo ministerial de orientação cristã que trata do assunto, promoveu sua 32ª Conferência Anual em Irvine, no estado americano da Califórnia (ver quadro na página 62). O que se discutiu ali é se a abordagem evangélica no trato da questão tem sido a mais apropriada. Apesar dos inúmeros relatos de mudança – não se fala em “cura”, uma vez que, há pelo menos 30 anos a homossexualidade já não é vista como doença –, a postura evangélica tradicional já não tem rendido resultados satisfatórios. Além disso, o patrulhamento da militância gay, apoiada por expressivos setores da mídia e da sociedade, tem conseguido isolar os grupos cristãos mais incisivos. Que o digam, principalmente, aqueles que, após passarem um período seguindo


DADE

início do envolvimento com os trabalhos voltados para ex-gays. Jones e Yarhouse começaram a pesquisa com o propósito de resolver as diferenças surgidas em meio à sua comunidade profissional, que tem alertado que a chamada “terapia restauradora” com homossexuais é tanto impossível como perigosa. Tal concepção tem causado muito barulho também no Brasil, onde até mesmo o atendimento psicoterapêutico a homossexuais tem sofrido sérias restrições (ver quadro na página 63). Apesar das críticas às organizações de ex-homossexuais por parte da militância gay, os pesquisadores descobriram que as pesquisas até então publicadas não davam apoio de fato às suas declarações. Os estudos de campo existentes sobre as mudanças em homossexuais, embora em sua maioria já obsoletos, indicam na verdade algumas possibilidades de

mudança. Só que era preciso atualizar tais estudos, o que acaba de ser feito com resultados significativos. Na maioria dos indicadores, a média dos participantes, tanto homens como mulheres, experimentou mudanças de grande relevância estatística quanto à sua identidade e atração sexual. Tais mudanças têm algumas Alan Chambers, líder do Exodus: “Eu escolho características signi- todos os dias negar-me a mim mesmo, e dependo totalmente de Jesus neste processo” ficativas – entre elas, a de que a redução na atração homossexual foi mais significativa, por exemplo, do que o aumento do interesse heterossexual. Motivação e religiosidade – Os pesquisadores Jones e Yarhouse se esforçam por enfatizar que seu estudo não acrescenta nova luz sobre a probabilidade de uma mudança bem sucedida para nenhum indivíduo em particular. Os participantes foram auto-selecionados – um grupo altamente motivado e de grande religiosidade, todos envolvidos com os trabalhos do Exodus. Contudo, esse estudo marca um ponto crucial no processo de amadurecimento da organização. Começando como um pequeno experimento, o movimento, surgido em 1976, já suportou grandes lutas, aprendeu com seus revezes e alcançou um patamar estável de ministério. Frank Worthen, um homossexual de São Francisco, na Califórnia, teve sua vida transformada por Cristo no início dos anos setenta. A igreja que freqüentava, no sul do estado, começou a aconselhar homossexuais por meio de dois jovens na casa dos vinte anos de idade, Michael Bussee e Jim Kasper. O Exodus foi inaugurado em uma conferência de fim de semana envolvendo esses três e um pequeno grupo de gente interessada na questão. Um ano depois, no segundo evento do gênero, o Exodus já chamava a atenção da Igreja e atraia protestos da parte dos militantes gays. Worthen, agora na casa dos setenta anos, continua com seu ministério para os homossexuais ao lado de sua esposa, Anita – e o Exodus, aos 31 anos, é hoje uma entidade sólida presente em diversos países, inclusive no Brasil, onde acaba de realizar seu 5º congresso nacional. Seus líderes mais proeminentes, como Alan

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Caryn Davis / Exodus International

fielmente o que diz a Palavra de Deus, acabaram saindo novamente do armário e retornaram à prática sexual homossexual. Durante a conferência mesmo, três ex-integrantes do Exodus deram entrevistas falando de sua desilusão com a possibilidade de uma mudança de comportamento. Mas agora, novas pesquisas podem ocasionar uma reviravolta nos rumos do debate. Os psicólogos americanos Stanton Jones, do Wheaton College, e Mark Yarhouse, ligado à Regent University, acabaram de lançar um livro onde narram com detalhes suas descobertas acerca dos primeiros três anos de um estudo ainda em andamento. Eles estão investigando participantes de dezesseis diferentes programas para ex-gays associados ao Exodus – ao todo, um universo de cerca de 100 pessoas. As pesquisas revelam que alguns dos participantes desses grupos de apoio experimentaram mudanças significativas. Além disso, quem se submeteu voluntariamente às perguntas dos estudiosos não apresentou nenhum tipo de angústia mental ou espiritual por ter se envolvido em um programa voltado para ex-gays, ao contrário do que se apregoa. Este é o primeiro estudo a utilizar entrevistas e questionários múltiplos durante mais de um ano, obtendo dados dos participantes praticamente desde o


COMPORTAMENTO

Chambers, Joe Dallas, Sy Rogers, Andy Cosmikey e Alan Medinger, dentre outros, estão fora da prática homossexual e envolvidos no ministério há décadas. A maioria está casada e com filhos crescidos. Escândalos entre os líderes – como o de Michael Bussee, que apenas três anos depois do surgimento do Exodus renunciou aos objetivos do grupo e voltou ao estilo de vida gay, declarando que ninguém muda na realidade – são muito mais raros do que no início do movimento. Isso de deve ao crescente sistema de acompanhamento responsável e à maior conscientização de que aqueles que ministram em sua própria área de tentação são mais vulneráveis.

A crescente aceitação cultural do homossexualismo também tem, de forma um tanto paradoxal, ajudado o Exodus em seu relacionamento com as igrejas. Joe Dallas, fundador e diretor do Genesis Counseling (Aconselhamento Gênesis), comenta que líderes que foram gays ajudam as igrejas a articular uma resposta à teologia próhomossexual. “As pessoas na maioria das denominações jamais imaginaram que teriam que abordar uma perspectiva bíblica do homossexualismo, do mesmo modo que um pai ou uma mãe jamais pensou em ter que responder a uma filha que chegasse em casa dizendo que é lésbica”, frisa Dallas.

Caryn Davis / Exodus International

Discipulado levado a sério

N

Reunidos em Irvine, na Califórnia, cerca de 800 pessoas participaram da conferência anual do Exodus: novos rumos para o ministério

o último dia 26 de junho, no tranqüilo campus da Universidade Concórdia, em Irvine, Califórnia, cerca de 800 pessoas se juntaram para a conferência anual do Exodus. A maioria era de jovens, sendo dois terços do sexo masculino. A “Revolução”, como é chamada a conferência, parecia ser um encontro cristão como outro qualquer: celebrações ao som de música gospel, testemunhos, orações e muitos seminários. O conteúdo do que foi dito, no entanto, expressa bem a nova tendência evangélica na abordagem da questão homossexual. Nada de arroubos de fé – Alan Chambers, o conferencista que abriu o congresso, fez questão de enfatizar que não existem fórmulas como “dez passos” para se vencer a homossexualidade. “Prestem atenção com muita clareza ao que vou dizer: vocês não serão curados nesta semana”, declarou o dirigente do Exodus. “Não podemos escolher o que sentimos, mas podemos escolher como viveremos. Eu escolho todos os dias negar o que brota naturalmente dentro de mim, e tenho que depender do Senhor Jesus Cristo neste processo.” De uma centena de maneiras diferentes, os conferencistas e líderes de seminários declararam que a mudança

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só vem através de uma vida inteira de obediência a Cristo. Aplausos saudaram Sy Rogers, que falou no segundo dia. Rogers é extremamente divertido; no entanto, sua forma de comunicação intensa e contínua transmite uma mensagem muito séria sobre o discipulado cristão. “Deus não disse: ‘Deixe de ser gay’. Ele disse: ‘Siga-me’”. Isso resume muito do modo de agir dos ministérios cristãos voltados para homossexuais hoje em dia. Nada de propaganda enganosa, confiança limitada a técnicas tipo “faça isso e deixe de pensar naquilo”. Não há o massacre espiritual aos gays que marcou durante tanto tempo esse tipo de trabalho, nem triunfalismo. Apenas discipulado levado a sério. Talvez esse seja o único grupo nos Estados Unidos que está totalmente consciente de que, quando se decide seguir a Jesus, nem sempre se acaba fazendo o que se quer. Nos dias de hoje, o movimento de ex-gays flui contra a maré cultural. A opinião pública adversa, o apoio ambivalente das igrejas conservadoras e a asseveração comum de que essas pessoas estão condenados a uma vida de frustrações poderiam significar a falência dos ministérios específicos. Contudo, o número de afiliados ao Exodus dobrou nos últimos dezoito anos. Muitos de seus líderes estiveram no centro da atenção pública por 20 ou 30 anos e ainda apresentam todos os sinais de estabilidade. Eles vivem por idéias radicais acerca da sexualidade, inclusive a de que o ser humano não é definido por seus desejos, sejam eles heterossexuais ou homossexuais – e que todo tipo de atração precisa ser submetida a Cristo, pois somente ele tem a capacidade de redimir o indivíduo. Para aqueles que sentem forte atração pelo mesmo sexo, a tarefa é bem mais difícil, claro. No entanto, continua sendo a mesma luta básica que todo cristão precisa enfrentar – vencer o pecado.


“Liberdade para lutar” – Não surpreende, portanto, que esses ministérios atraiam de um modo especial os cristãos. A maioria dos participantes possui um histórico evangélico e não consegue conciliar sua fé cristã com uma identidade homossexual. A pesquisa de Mark Yarhouse e Stanton Jones descobriu que muitos homossexuais que se convertem ao Evangelho buscam ajuda com persistência e investem anos de sua vida no processo. Ao longo dessa jornada, eles esperam que ocorram muitas mudanças, inclusive quanto aos sentimentos mais íntimos e à atração sexual. “No início do ministério, ninguém sabia o que esperar. As pessoas alimentavam uma certa expectativa e alguns desistiram porque aquilo que esperavam não era a realidade”, diz Alan Chambers. “Eu mesmo era uma pessoa imatura, que reagia de forma imatura. Hoje, encontramos uma maneira muito melhor de falar sobre mudança. Agora já progredi tanto como crente quanto como um homem maduro. Era inevitável que meus sentimentos e aparência externa mudassem. Quando passei a ter como alvo, não ser um heterossexual, porém ser o melhor filho de Deus que pudesse, aceitando a sua graça, minha identidade finalmente mudou”. Chambers é sincero ao dizer que a mudança não erradica a tentação. Ele até se questiona se tal transformação poderia ser completa nesta vida. “Uma coisa que podemos esperar como cristãos é uma vida de renúncia”, afirma o dirigente do Exodus. “Atualmente, não temos receio de dizer às pessoas que elas poderão ter uma vida inteira de lutas. Mas enfatizamos que liberdade não é a ausência de lutas, mas uma vida de lutas com alegria em meio ao processo”. (Tradução: Pedro Bianco; redação: Carlos Fernandes)

Abrangência perigosa

A

possível aprovação do projeto de lei da Câmara dos Deputados nº 122/06, que criminaliza a prática da chamada homofobia, pode provocar uma reviravolta na maneira como o assunto é tratado no Brasil. De autoria da ex-deputada federal Iara Bernardi, a proposta visa punir com mais rigor quem praticar atos de constrangimento contra quem quer que seja devido à sua opção sexual, prevendo penas que podem chegar a cinco anos de reclusão e multas pesadas. Entre outras medidas, o PL 122/06 criminaliza aquele que “discriminar ou incitar a discriminação” contra homossexuais, punindo atos constrangedores ou vexatórios, mesmo que de ordem moral, filosófica ou psicológica. Além disso, impedir que parceiros homossexuais manifestem afetividade em lugares públicos passaria a ser crime, assim como proferir injúrias e impropérios referentes à orientação sexual homoafetiva. Aprovado na Câmara cinco anos depois de apresentado, o projeto agora tramita no Senado Federal e causa apreensão em diversos setores. Pastores, líderes evangélicos e parlamentares ligados à Igreja preocupam-se com a possibilidade de que quaisquer discursos contra o Passeata do Orgulho Gay em homossexualismo – inclu- São Pulo: movimentos prósive pregações baseadas homossexuais dão amplo apoio nas orientações bíblicas ao projeto 122/06 sobre o assunto – passem a ser reprimidos. Abrangente, a proposta, se aprovada e sancionada, poderia em tese atingir até mesmo aqueles que se oponham, por questões pessoais ou religiosas, à homossexualidade. O projeto de lei, que conta com amplo apoio de entidades ligadas ao movimento gay, não é a única iniciativa recente acerca da questão. Há sete anos, entrou em vigor a Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia, que mudou drasticamente o atendimento prestado a homossexuais. Desde então, os profissionais da área ficaram impedidos de interferir na reorientação sexual dos pacientes, devendo restringir seu trabalho ao tratamento de transtornos dela oriundos. Entidades como o Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC) enxergaram na medida um casuísmo para impedir que os gays busquem ajuda para mudar sua opção, ainda que desejem isso. (CF)

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Arquivo

A verdade é que o movimento tem se apresentado de forma muito mais madura. As esperanças iniciais de transformação imediata cederam lugar à crença de que a mudança ocorre através de uma vida inteira de discipulado. “Os ex-gays passam por um processo de conversão que não tem ponto de chegada, e eles admitem que a mudança envolve desejos, comportamento e identidades que não se alinham com total nitidez ou permanecem fixas”, enfatiza Tanya Erzen, professora na Universidade Estadual de Ohio. Ela estudou a fundo o New Hope Ministry (Ministério Nova Esperança), de San Rapahael, na Califórnia. Apesar de confessadamente não simpatizar com os objetivos de quem se declara ex-homossexual e quer alcançar outros, ela gostou das pessoas que conheceu ali. “Ex-gays, tanto homens quanto mulheres, nascem de novo no sentido religioso, e como parte desse processo consideram-se sexualmente reconstituídos. Um deles me disse que a heterossexualidade, para ele, não é um alvo – o objetivo desse pessoal é entregar o coração a Jesus e ser obediente a Deus.”


ÚLTIMAS PALAVRAS Carlos Queiroz

T

O resgate da esperança

Tenho caminhado por muitos lugares e visitado igrejas das mais variadas confissões. E tenho presenciado manifestações inconfundíveis do verdadeiro Evangelho. O Evangelho é, por natureza, de difícil comercialização. Não se consegue vender virtudes; jamais conseguiremos vender o projeto da cruz, ou alienar por determinada quantia o perdão divino. Quem, afinal, pagaria para entregar a face ao perverso? Quantas pessoas estariam dispostas a pagar para sofrer por amor a Cristo? Quantos de nós pagaríamos para nos engajar na causas pela justiça? E quantos ricos aceitariam o Evangelho se tivessem que entregar metade dos seus bens aos pobres e ainda pagar, quatro vezes mais, àqueles a quem houvessem defraudado? Encontro comunidades que vivenciam com profundidade a natureza do Evangelho. Uma delas é a Igreja Batista de Bultris, em Olinda (PE). É uma comunidade de pessoas, em sua maioria, pobres. Por opção, aqueles crentes construíram um templo sem janelas e portas, com o único propósito de servir como espaço de abrigo aos transeuntes sem-teto. Ali, os empobrecidos do bairro são acolhidos. A congregação participa dos conselhos municipais e possui núcleos para formação de bancos comunitários em parceria com entidades de educação e serviço para empreendedores pobres. A igreja em Bultrins promove anualmente um fórum de prática e reflexão teológica para representantes de várias comunidades cristãs do Nordeste – assim, consegue passar essa visão e influenciar a vida de muitas outras pessoas. Conheço de perto também a organização Crianças do Brasil para Cristo, o CBC, formada por membros de várias igrejas em Fortaleza (CE). O CBC não recebe apoio de nenhuma instituição internacional. Todo custo para apoio escolar, alimentação e socialização de crianças e adolescentes através de atividades esportivas e cultu-

rais são provenientes de doações individuais e serviços voluntários, beneficiando mais de 300 menores. Vários daqueles jovens ingressaram na universidade; outros abandonaram a violência e retomaram o caminho dos estudos. Trata-se de pequenas iniciativas? Por certo. Mas, somadas, elas podem nos surpreender por seus resultados. Sem dúvida alguma, os cristãos têm potencial para fazer muito mais. Há ainda muitos recursos sub-utilizados. Os dados estatísticos nos indicam que a grande massa evangélica brasileira é ainda composta pela soma das pequenas comunidades, e não pelos grupos evidentes na mídia. Elas estão distribuídas nas periferias urbanas; nas encostas dos morros; nas regiões ribeirinhas; no semi-árido nordestino. São crentes em Jesus que moram à beira do caminho – à margem dos direitos e à beira da miséria; à margem dos hospitais e à beira da morte; à margem das escolas e à beira da ignorância; à margem do trabalho e à beira da fome. Por outro lado, esta parte do Corpo de Cristo permanece à margem da competitividade, mas diante da solidariedade; à margem da acumulação, mas vizinha da partilha; à margem do lucro, mas próxima da gratuidade; à margem do individualismo, mas de braços abertos para a fraternidade. Eles me ajudam a interpretar e entender a manjedoura, a encarar o sofrimento, a encontrar no calvário sinais de vida e ressurreição. Eles podem me trazer lembranças das coisas que resgatam a esperança da vida. Deus continua se revelando de maneira estranha e em lugares imprevisíveis – e nós não percebemos.

“Deus continua se revelando de maneira estranha e em lugares imprevisíveis – e nós não percebemos”

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Carlos Queiroz é professor, escritor e diretor-executivo da Visão Mundial Brasil. Pastoreia a Igreja de Cristo em Fortaleza (CE)



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