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PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO TOMÁS DE CELANO PRÓLOGO Em nome do Senhor. Amém. Começa o prólogo à vida do bem-aventurado Francisco 1. Quero contar a vida e os feitos de nosso bem-aventurado pai Francisco. Quero fazê-lo com devoção, guiado pela verdade e em ordem, porque ninguém se lembra completamente de tudo que ele fez e ensinou. Procurei apresentar pelo menos o que ouvi de sua própria boca, ou soube por testemunhas de confiança. Fiz isso por ordem do glorioso Papa Gregório , conforme consegui, embora em linguagem simples. Oxalátenha eu aprendido as lições daquele que sempre evitou o estilo floreado e desconheceu os rodeios de palavras! 2. Dividi em três pequenos livros tudo que consegui ajuntar sobre o santo homem,distribuindo a matéria em Capítulos, para que a mudança dos tempos não confundisse a ordem dos fatos e não pusesse a verdade em dúvida. O primeiro livro segue o correr da história, é dedicado principalmente à pureza de sua vida, aos seus santos costumes e edificantes exemplos. Aí foram colocados só alguns dos muitos milagres que o Senhor nosso Deus se dignou operar por meio dele enquanto viveu nesta terra. O segundo livro conta os acontecimentos desde o penúltimo ano de sua vida até seu feliz passamento. O terceiro contém uma porção de milagres - embora não conte a maior parte - que o gloriosíssimo santo tem operado na terra agora que está reinando com Cristo nos céus.Também fala da devoção, da honra, do louvor e da glória que lhe tributaram o glorioso Papa Gregório, e com ele todos os cardeais da santa Igreja Romana, devotíssimamente,quando o canonizaram. Graças a Deus onipotente, que sempre se mostra admirável e bondoso em seus santos. Fim do prólogo. PRIMEIRO LIVRO CAPÍTULO 6 E LIBERTADO POR SUA MÃE. DESPOJA-SE DA ROUPA DIANTE DO BISPO DE ASSIS 13.Aconteceu que seu pai precisou ausentar-se, a negócios, por algum tempo, deixando o homem de Deus preso no calabouço. Sua Mãe, que ficou sozinha com ele em casa, e não aprovava o procedimento do marido, dirigiu-se ao filho com palavras ternas. Mas, vendo que não conseguia fazê-lo mudar de opinião,sentiu seu coração materno se enternecer e, soltando as cadeias, deixou-o sair. Ele deu graças a Deus e voltou para o lugar onde estivera antes. Provado pelas tentações, gozava agora de maior liberdade, e as muitas lutas o deixaram mais feliz. As dificuldades lhe deram maior segurança, e começou a andar mais confiante por toda parte. Nesse meio tempo, o pai estava de volta. Não o tendo encontrado, acumulando seus desatinos, armou uma gritaria com sua mulher. Depois, cheio de ira, correu em busca do filho, decidido a expulsá-lo da região, se não conseguisse trazê-lo de volta. Mas, como o temor de Deus é o arrimo da confiança, logo que o filho da graça viu que seu pai carnal estava chegando, veio seguro, alegre e espontaneamente ao seu encontro, dizendo claramente que, para ele, cárceres e castigos não queriam dizer nada. Até garantiu que, por amor de Cristo, estava disposto a suportar qualquer mal. 14.Vendo que não poderia afastá-lo do caminho em que se metera, o pai cuidou apenas de reaver o dinheiro. O homem de Deus teria querido gastá-lo todo para o sustento dos pobres e na construção daquele lugar mas, como não tinha amor ao dinheiro, não podia sofrer decepção alguma, nem se perturbou com a perda de um bem a que não tinha apego. Achado, pois, o dinheiro que ele, desprezador por excelência dos bens terrenos, vido demais das riquezas celestes, tinha jogado a uma janela como lixo, acalmou-se um bocado o furor do pai irado. A recuperação do dinheiro foi como um refrigério para a sede de sua avareza. Apresentou-o depois ao bispo da cidade, para que, renunciando em suas mãos a própria herança, devolvesse tudo que possuía. Francisco não se recusou, e até se apressou alegremente a fazer o que lhe pediam. 15.Diante do bispo, já não suportou demoras e nada o deteve. Nem esperou quefalassem, nem ele mesmo disse nada. Despiu-se imediatamente, jogou ao chão suas roupas e as devolveu ao pai. Não àguardou nenhuma peça de roupa, ficou completamente nu diante de todos. O bispo, compreendendo sua atitude e admirando seu fervor e sua constância, levantou-se e o acolheu em seus braços, envolvendo-o na capa que vestia. Compreendeu claramente que era uma disposição divina e percebeu que os atos do homem de Deus que estava presenciando encerravam algum mistério. Tornou-se, desde então, seu protetor, favorecendo-o, confortando-o e abraçando-o com caridade. É aqui que o nu luta com o adversário nu e, desprezando todas as coisas que São do mundo, aspira apenas a justiça de Deus. Foi assim que Francisco tratou de desprezar a própria vida, deixando de lado toda solicitude, para encontrar como um pobre a paz no caminho que lhe fora aberto: só a parede da carne separava-o ainda da visão celeste. CAPÍTULO 7 ASSALTADO POR LADRÕES, É JOGADO NA NEVE. SERVIDOR DOS LEPROSOS 16. Vestido com uma roupa curta, ele que em outros tempos andara de escarlate, e cantando em francês através de um bosque, foi assaltado por ladr5es. Perguntaram-lhe ferozmente quem era, e ele respondeu forte e confiante: “Sou um arauto do grande Rei! Que é que vocês têm com isso?” Bateramlhe e o jogaram numa fossa cheia de neve, dizendo: “Fica aí, pobre arauto de Deus”. Quando se afastaram, revirou-se na fossa e conseguiu sair, sacudindo a neve. Com alegria redobrada, começou a cantar em voz alta pelos bosques os louvores do Criador de tudo. Chegando a um mosteiro, passou muitos dias na cozinha como servente, vestido apenas com uma túnica vil, contentando-se com um pouco de caldo. Mas ninguém teve pena dele e não conseguiu sequer alguma roupa velha. Por isso, levado não pela raiva mas pela necessidade, saiu dali e foi para a cidade de Gúbio, onde conseguiu uma túnica com um de seus antigos amigos. Pouco tempo depois, quando a fama do homem de Deus cresceu e o seu nome se espalhou no meio do povo, o prior daquele mosteiro, lembrando-se do que fora feito para Francisco e se arrependendo, procurou-o e pediu-lhe perdão por amor de Deus em seu nome e no dos monges. 17. Dois disso, o amante de toda humildade transferiu-se para um leprosário. Vivia com os leprosos, servindo a todos por amor de Deus, com toda diligência. Lavava-lhes a podridão dos corpos e limpava até o pus de suas chagas, como escreveu em seu Testamento : “Como estivesse ainda em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para leprosos, mas o Senhor me conduziu para o meio deles e eu tive misericórdia com eles”.Esta visão lhe era de tal modo insuportável que, segundo suas próprias palavras, no tempo de sua vida mundana, tapava o nariz só ao ver suas cabanas a duas milhas de distância. Mas, como por graça e força do Altíssimo já tinha começado a pensar nas coisas santas e úteis, quando ainda vivia como secular, encontrou-se um dia com um leproso e, superando a si mesmo, aproximouse e o beijou. A partir de então, foi ficando cada dia mais humilde até conseguir vencer a si mesmo, por misericórdia do Redentor. Ajudava também os outros pobres, mesmo quando ainda era secular e seguia o espírito do mundo,estendendo sua mão misericordiosa para os


que não tinham nada e mostrando compassivo afeto para com os aflitos. Houve um dia em que, contra o seu costume, porque era muito bem educado, tratou mal um pobre que lhe pedia esmola. Mas logo, arrependido, começou a dizer consigo mesmo que era grande ofensa e vergonha negar a quem estava pedindo no nome de tão grande Rei, o que quisesse. Prometeu a si mesmo que jamais negaria a quem lhe pedisse em nome de Deus o que estivesse ao seu alcance. E o cumpriu com muita diligência, até oferecer totalmente a si mesmo, fazendo-se antes um cumpridor que um mestre do Evangelho: dá a quem te pede e não te desvies daquele que te pedir emprestado. APÍTULO 8 RESTAURAÇÃO DA IGREJA DE SÃO DAMIÃO. A VIDA DAS RELIGIOSAS QUE ALI MORAVAM 18.A primeira obra que o bem-aventurado Francisco empreendeu depois que obteve total liberdade da parte de seu pai carnal foi edificar a casa de Deus. Mas não a reconstruiu de novo, consertou o que era velho, reparou o que era antigo. Não desfez os alicerces mas edificou sobre eles, reservando essa prerrogativa, mesmo sem pensar, ao Cristo: ninguém pode pôr outro fundamento senão o que foi posto: Cristo Jesus. Voltou pois ao lugar em que, como dissemos, fora construída antigamente uma igreja de São Damião. Com a graça do Altíssimo, reparou-a cuidadosamente em pouco tempo. Essa foi aquela casa feliz e abençoada em que teve auspicioso início a família religiosa e nobre Ordem das Senhoras Pobres e santas virgens, quase seis anos depois da conversão do bem-aventurado Francisco e por seu intermédio. Nela estabeleceu-se Clara, natural de Assis, como pedra preciosa e inabalável, alicerce para as outras pedras que se haveriam de sobrepor. Pois já tinha começado a existir a Ordem dos Frades quando essa senhora foi convertida para Deus pelos conselhos do santo homem, servindo assim de estímulo e modelo para muitas outras. Foi nobre de nascimento e muito mais pela graça. Foi virgem no corpo e puríssima no coração; jovem em idade mas amadurecida no espírito. Firme na decisão e ardentíssima no amor de Deus. Rica em sabedoria, sobressaiu na humildade. Foi Clara de nome, mais clara por sua vida e claríssima em suas virtudes. 19.Sobre. ela foi edificada uma estrutura das mais preciosas pérolas, cujo louvor não vem dos homens mas de Deus. É impossível compreendê-la com nossa estreita inteligência e apresentá-la em poucas palavras. Antes de tudo, elas possuem a virtude da mútua e constante caridade, que a tal ponto une suas vontades que, vivendo em número de quarenta ou cinqüenta em um mesmo lugar, parecem ter uma só vontade e uma só opinião. Brilha também em cada uma a jóia da humildade, que conserva os dons recebidos do céu e lhes merece as outras virtudes. O lírio da virgindade e da pureza perfuma-as todas, a ponto de esquecerem os pensamentos terrenos e desejarem apenas meditar nos celestiais. Essa fragrância acende em seus corações tão grande amor pelo Esposo eterno, que a sinceridade desse afeto sagrado apaga toda lembrança da vida passada. São exornadas de tão grande pobreza que nunca se permitem satisfações no comer e no vestir, mas só o que é de necessidade extrema. 20.Adquiriram a graça especial da abstinência e do silêncio, a ponto de não precisarem esforçar-se para coibir os apetites carnais e refrear a língua. Algumas delas Já se desacostumaram tanto de falar que, quando precisam, mal conseguem lembrar-se de como se formam as palavras. Todas São adornadas pela virtude da paciência, de modo que nenhuma adversidade ou moléstia chega a perturbálas ou alterá-las. Afinal, chegaram a tal nível de contemplação, que nela aprendem tudo o que devem fazer ou deixar de fazer e aprenderam a se arrebatar por Deus, dedicando a noite e o dia aos louvores divinos e ... oração. Digne-se o eterno Deus, com sua santa graça, dar conclusão ainda mais santa a esse santo começo. Baste por enquanto isso que dissemos sobre as virgens consagradas ao Senhor, devotas servas de Cristo, pois sua vida admirável e a gloriosa instituição que receberam do Papa Gregório, quando ainda era bispo de Óstia, pedem uma obra à parte. CAPÍTULO 9 FRANCISCO MUDA O HÁBITO E REPARA A IGREJA DE SANTA MARIA DA PORCIÚNCULA. TENDO OUVIDO O EVANGELHO, ABANDONA TUDO. IMAGINA E FAZ O HÁBITO QUE OS FRADES USAM 21.Depois que o santo de Deus trocou de hábito e acabou de reparar a mencionada igreja, mudou-se para outro lugar próximo da cidade de Assis. AI começou a reedificar outra igreja, abandonada e quase destruída, e desde que pôs mãos ... obra não parou enquanto não terminou tudo. Dali passou para outro lugar, chamado Porciúncula, onde havia uma antiga igreja de Nossa Senhora Mãe de Deus, mas estava abandonada e nesse tempo não era cuidada por ninguém. Quando o santo de Deus a viu tão arruinada, entristeceu-se porque tinha grande devoção para com a Mãe de toda bondade, e passou a morar ali habitualmente. No tempo em que a reformou, estava no terceiro ano de sua conversão. Por essa época, usava um hábito de ermitão, cingido com uma correia, e andava com um bastão e calçado. 22. Leu-se certo dia, naquela igreja, a página do Evangelho que conta como o Senhor enviou os seus discípulos para pregar. O santo de Deus estava presente e escutava atentamente todas as palavras. Depois da missa, pediu encarecidamente ao sacerdote que lhe explicasse esse Evangelho. Ele explicou tudo e Francisco, ouvindo que os discípulos não deviam possuir ouro, prata ou dinheiro, nem levar bolsa ou sacola, nem pão, nem bastão pelo caminho, nem ter calçados ou duas túnicas, mas pregar o reino de Deus e a penitência, entusiasmou-se imediatamente no espírito de Deus: “E isso que eu quero, isso que procuro, é isso que eu desejo fazer de todo o coração”. Apressou-se daí o santo pai, transbordando de gozo, para levar a cabo o salutar conselho, e sem demora pôs devotamente em prática o que ouvira. Tirou os calçados dos pés, deixou de lado o bordão e, contente com uma só túnica, substituiu a correia por uma corda. Preparou depois uma túnica que apresentava o sinal da cruz, para afastar com ela todas as fantasias demoníacas. Fê-la muito áspera, para crucificar a carne com os vícios e os pecados. Fê-la muito pobre e mal acabada, para de maneira alguma poder ser ambicionada pelo mundo. E procurou praticar com toda diligência e reverência também as outras coisas que ouvira. Pois não era surdo ao Evangelho, antes àguardava tudo louvavelmente de memória e tratava de executá-lo à risca. CAPÍTULO 10 A PREGAÇÃO DO EVANGELHO E O ANÚNCIO DA PAZ. CONVERSÃO DOS SEIS PRIMEIROS FRADES 23.Depois disso, começou a pregar a todos a penitência, com grande fervor de espírito e alegria da alma, edificando os ouvintes com a linguagem simples e a nobreza de coração. Sua palavra era um fogo ardente que penetrava o íntimo do coração e enchia de admiração todas as inteligências. Parecia todo transfigurado, e olhando para o céu desdenhava ver a terra. Foi admirável que tivesse começado a pregar onde em criança aprendera a ler, no mesmo lugar em que haveria de ser sepultado com toda honra, augurando o feliz começo uma conclusão ainda mais feliz. Ensinou onde tinha aprendido e completou o que tinha iniciado. Em todas as pregações, antes de propor aos ouvintes a palavra de Deus, invocava a paz dizendo: “O Senhor vos dê a paz”. Anunciava-a sempre a homens e mulheres, aos que encontrava e aos que lhe iam ao encontro. Dessa forma, muitos que tinham desprezado a paz, como também a salvação,pela cooperação do Senhor abraçaram a paz de todo o coração, fazendo-se também eles filhos da paz, desejosos da salvação eterna.24.Entre estes, o primeiro que seguiu o santo foi um homem de Assis, de vida piedosa e simples. Depois dele, também Frei


Bernardo abraçou a missão de paz, correndo alegremente a ganhar o reino dos céus em seguimento do santo de Deus. Hospedara com freqüência o bem-aventurado pai, tendo observado e provado sua vida e procedimento. Atraído pelo aroma de sua santidade, concebeu o temor e nasceu para a salvação do espírito. Via-o em oração a noite inteira, dormindo raramente, louvando a Deus e sua gloriosa Mãe. Admirava-se e dizia: “Verdadeiramente, este homem é de Deus”. Logo vendeu todas as suas coisas e deu-as não aos parentes mas aos pobres. Tomando o caminho da perfeição, cumpriu o conselho do santo Evangelho: “Se queres ser perfeito, vai e vende tudo que tens, e distribui-o aos pobres. Terás um tesouro nos céus. E vem e segue-me”. Feito isso, juntou-se a Francisco na vida e no hábito. Esteve sempre com ele até que, tendo aumentado o número dos Irmãos, foi transferido para outras regiões em obediência ao piedoso pai. Sua forma de conversão passou a ser modelo para os outros que se converteram: vender as propriedades e dar aos pobres. São Francisco teve uma alegria enorme com a chegada e a conversão de um homem de tanto valor, pois reconheceu que o Senhor cuidava dele, já que lhe mandara um companheiro tão necessário e um amigo tão fiel. 25.Logo o seguiu outro cidadão de Assis, que teve vida muito louvável e, depois de pouco tempo, terminou ainda mais santamente o que santamente começara . Não muito tempo depois, seguiu-o Frei Egídio, homem simples, reto e temente a Deus, que ficou muito tempo vivendo justa, piedosa e santamente, e nos deixou exemplos de obediência perfeita, de trabalho braçal, de vida silenciosa e de santa contemplação. Depois desses, deixando fora um outro, Frei Filipe completou o número sete. Seus lábios foram purificados pelo Senhor com a brasa da castidade, para falar palavras bondosas e doces.Entendia e interpretava as Escrituras, sem as ter estudado. Foi imitador daqueles a quem os príncipes dos judeus acusavam de idiotas e iletrados. CAPÍTULO 11 ESPÍRITO PROFÉTICO E ADVERTÊNCIAS DE SÃO FRANCISCO. 26.O bem-aventurado Francisco se enchia cada vez mais da consolação e da graça do Espírito Santo. Com todo o cuidado e solicitude, dava a seus novos filhos a nova formação, ensinando-os a trilhar com passo seguro o caminho da Santa pobreza e da bem-aventurada simplicidade. Certo dia, admirando a misericórdia do Senhor nos muitos benefícios que executava por seu intermédio, e desejando que o Senhor se dignasse mostrar-lhe o progresso que ele e os seus fariam na perfeição, foi para um lugar de oração, como fazia com freqüência. lá ficou bastante tempo rezando com temor e tremor, diante do Senhor de toda a terra. Relembrando com amargura os anos que aproveitara mal, repetia sem cessar: “Deus, tende piedade de mim que sou pecador”. O íntimo de seu coração começou a extravasar sensivelmente uma alegria incontável e uma suavidade sem tamanho. Sentiu-se desfalecer, dissipando-se os temores e as trevas que se tinham juntado em seu coração por medo do pecado, e lhe foi infundida uma certeza da remissão de todos os pecados e uma confiança de que viveria da graça. Arrebatado em êxtase e absorvido totalmente em claridade, alargou-se a sua mente e pôde ver com clareza os acontecimentos futuros. Quando a suavidade e a luz se afastaram, ele, renovado no espírito, parecia transformado em um novo homem. 27.Dirigiu-se alegremente aos Irmãos, dizendo: “Confortai-vos, caríssimos, e alegraivos no Senhor, nem vos entristeçais por parecerdes poucos, nem vos desanime a minha simplicidade ou a vossa, porque, como o Senhor me mostrou na verdade, Deus nos vai fazer crescer como a maior das multidões e nos vai espalhar até os confins da terra. Para vosso maior proveito, sou obrigado a contar o que vi. Preferiria calar, se a caridade não me obrigasse a contá-lo. Vi uma enorme multidão de homens vindo a nós e querendo viver conosco este gênero de vida e esta Regra de santa religião. Parece-me ter ainda em meus ouvidos o seu rumor, indo e vindo conforme a disposição da obediência. Vi-os caminhando em multidões pelas estradas, quase de todas as nações, vindo para c . Vêm franceses, apressam-se espanhóis, correm alemães e ingleses e se adianta uma multidão enorme de outras línguas diversas”. Ouvindo isso, os frades se encheram de salutar alegria, tanto pela graça que o Senhor concedera ao seu santo como porque tinham sede ardente do bem do próximo, desejando que crescessem em número, para que nele pudessem ser salvos . 28.Disse-lhes o santo: “Irmãos, para agradecermos fiel e devotamente a Deus nosso Senhor por todos os seus dons, e para que saibais o que há de ser de nós e de nossos Irmãos futuros, compreendei a verdade dos acontecimentos vindouros. No começo desta nossa vida vamos encontrar alguns frutos doces e muito suaves para comer. Depois serão oferecidos outros de menor sabor e doçura. No fim, serão dados alguns cheios de amargor, de que não poderemos viver, porque sua acidez ser intragável para todos,embora tenham a aparência de frutos belos e cheirosos. Entretanto, como vos disse, o Senhor fará de nós um grande povo. Mas no fim vai acontecer como quando um homem lança suas redes no mar ou em algum lago e recolhe uma grande quantidade de peixes; despeja-os em sua barca, mas, não podendo levar todos pela quantidade, escolhe os maiores e que mais lhe agradam para suas vasilhas, jogando os outros fora”. A grande verdade que encerram essas palavras proféticas e a exatidão com que se cumpriram São muito claras para os que pensam com imparcialidade. Assim o espírito da profecia repousou sobre São Francisco. CAPÍTULO 12 ENVIA-OS, DOIS A DOIS, PELO MUNDO. LOGO SE REÚNEM DE NOVO 29.Por esse tempo, ingressou na Ordem um outro homem piedoso, chegando a oito o número de Irmãos. Então São Francisco chamouos todos a si e, tendo-lhes falado muitas coisas sobre o reino de Deus, o desprezo do mundo, a abnegação da própria vontade e a mortificação do corpo, separou-os dois a dois pelas quatro partes do mundo e lhes disse: “Ide, caríssimos, dois a dois, por todas as partes do mundo, anunciando aos homens a paz e a penitência para a remissão dos pecados; sede pacientes na tribulação, confiando que o Senhor vai cumprir o que propôs e prometeu. Aos que vos fizerem perguntas respondei com humildade, aos que vos perseguirem abençoai, aos que vos injuriarem e caluniarem agradecei, porque através disso tudo nos está sendo preparado um reino eterno”. Recebendo o mandato da santa obediência com gáudio e muita alegria, eles se prostraram suplicantes diante de São Francisco. Ele os abraçava e dizia com ternura a cada um: “Põe teus cuidados no Senhor e ele cuidar de ti”. Sempre repetia essas palavras quando transmitia alguma obediência aos Irmãos. 30.Frei Bernardo e Frei Egídio foram para São Tiago de Compostela. São Francisco com um companheiro escolheram outra região, e os outros quatro foram dois a dois para os lados que restaram. Pouco tempo depois, São Francisco desejou revê-los e orou ao Senhor, que congrega os dispersos de Israel, que se dignasse reuni-los outra vez em pouco tempo. Assim aconteceu que, bem depressa, de acordo com a sua vontade e sem que ninguém os chamasse, eles se encontraram dando graças a Deus. Reunidos, manifestaram sua grande alegria por rever o piedoso pastor e se admiraram de terem tido todos o mesmo desejo ao mesmo tempo. Contaram depois as coisas boas que o misericordioso Senhor lhes tinha feito e pediram correção e castigo ao santo pai pelas negligências e ingratidões que pudessem ter cometido, cumprindo-os diligentemente.Era isso que costumavam fazer todas as vezes que chegavam a ele, e não lhe ocultavam o menor pensamento e até os impulsos das paixões. Depois de terem cumprido tudo que lhes fora ordenado, ainda se achavam servos inúteis. Essa primeira escola de São Francisco tinha tal pureza de espirito que, embora soubessem fazer coisas úteis,


santas e justas, não sabiam absolutamente vangloriar-se por causa disso. Mas o santo pai,abraçando seus filhos com muita caridade, começou a manifestar-lhes seu pensamento e o que o Senhor lhe havia revelado. 31.Logo se uniram a eles outros quatro homens bons e idôneos, que seguiram o santo de Deus. Espalhou-se um grande comentário no meio do povo, e a fama do homem de Deus começou a se estender para mais longe. São Francisco e seus Irmãos tinham naquele tempo uma imensa alegria e um prazer especial, quando alguém, quem quer que fosse, devoto, rico, pobre, nobre, plebeu, desprezado, benquisto, prudente, simples,clérigo ou leigo, levado pelo espírito de Deus, ia’ receber o hábito da Ordem: Os leigos se admiravam muito de tudo isso, e o exemplo. de humildade levava-os a corrigir suas vidas e a fazer penitência dos pecados. Sua simplicidade e a insegurança de sua pobreza não eram obstáculo nenhum para edificarem santamente aqueles que Deus queria edificar, pois ele gosta de estar com os desprezados do mundo e com os simples. CAPÍTULO 13 ESCREVE A REGRA QUANDO TEM APENAS ONZE IRMÃOS. O PAPA INOCÊNCIO A CONFIRMA. VISÃO DA ÁRVORE 32.Vendo o bem-aventurado Francisco que o Senhor aumentava cada dia o seu número, escreveu para si e para seus Irmãos, presentes e futuros, com simplicidade e com poucas palavras, uma forma e Regra de vida, sendo principalmente expressões do santo Evangelho, pois vivê-lo perfeitamente era seu único desejo. Acrescentou contudo algumas poucas coisas, absolutamente necessárias para o andamento da vida religiosa. Por esse motivo foi a Roma com todos os referidos Irmãos, desejando ardentemente que o Papa Inocêncio III confirmasse o que tinha escrito. Achava-se naquela ocasião em Roma o venerável bispo de Assis, Guido, que estimava muito São Francisco e todos os seus Irmãos, e os venerava com particular afeto. Vendo ali São Francisco e seus Irmãos,e. desconhecendo o motivo, não gostou. Temia que quisessem abandonar sua terra, onde o Senhor já começara a fazer grandes coisas por meio de seus servidores. Gostava muito de ter esses homens de valor em sua diocese e esperava muito de sua vida e seus bons costumes. Mas quando soube a causa e compreendeu o verdadeiro motivo, alegrou-se muito no Senhor e lhes prometeu seu apoio e influência. Além disso, dirigiuse São Francisco ao senhor bispo de Sabina, chamado João de São Paulo, que se destacava entre os outros príncipes e dignidades da Cúria Romana por “desprezar as coisas terrenas e aspirar ...s celestiais”. Este o recebeu com “bondade e caridade” tendo apreciado muito sua resolução e seus projetos. 33.Entretanto, como era homem prudente e discreto, interrogou-o sobre muitos pontos e tentou persuadi-lo a passar para a vida monástica ou eremítica. Mas São Francisco recusou com humildade e quanto lhe foi possível esse conselho, sem desprezar os argumentos, mas por estar piedosamente convencido de que era conduzido por um desejo mais elevado. Admirava-se o prelado com seu fervor, e temendo que fraquejasse em tão altos propósitos, mostrava-lhe caminhos mais fáceis. Afinal, vencido por sua constância, anuiu a seus rogos e procurou promover seus negócios diante do Papa. Regia a Igreja de Deus naquele tempo o Papa Inocêncio III, homem ilustre, muito rico em doutrina, celebérrimo orador e muito zeloso da justiça em tudo que se referia ao culto da fé cristã. Informado do desejo daqueles homens de Deus, depois de refletir, aceitou o pedido e deu-lhe despacho. Tendo-lhes feito muitas exortações e admoestações, abençoou São Francisco e seus Irmãos e lhes disse: “Ide com o Senhor, Irmãos, e conforme o Senhor se dignar inspirarvos, pregai a todos a penitência. Quando o Senhor vos tiver enriquecido em número e graça, vinde referir-me tudo com alegria, e eu vos concederei mais coisas do que agora e vos encarregarei com segurança de cargos maiores”. Na verdade, o Senhor estava com São Francisco, onde quer que ele fosse, alegrando-o com revelações e animando-o com benefícios. Certa noite, viu-se em sonhos andando por um caminho, ao lado do qual havia uma árvore de grande porte. A árvore era bela e forte, grossa e muito alta. E aconteceu que, estando a admirar sua beleza e altura, o próprio santo tornou-se de repente tão alto que tocava o cimo da árvore e com suas mãos conseguia vergá-la facilmente até o chão. De fato, foi o que aconteceu quando Inocêncio III, a árvore mais alta e mais respeitável do mundo, se inclinou com tanta benignidade ao pedido e ... vontade de Francisco. CAPÍTULO 14 VOLTA DE ROMA PARA O VALE DE ESPOLETO. UMA PAUSA NO CAMINHO 34.São Francisco e seus Irmãos, muito contentes com a bondade e generosidade do grande pai e senhor, deram graças a Deus TodoPoderoso, que exalta os humildes e dá de novo alegria aos que estão de luto. Foram logo visitar o túmulo de São Pedro e, terminada a oração, saíram da cidade e partiram, tomando o caminho do vale de Espoleto. Durante a viagem, conversavam entre si sobre tantos e tão grandes dons que Deus lhesfizera com demência: como tinham sido cordialmente recebidos pelo vigário de Cristo, senhor e pai de todo o povo cristão; como poderiam pôr em prática suas admoestações e preceitos; como poderiam observar com sinceridade e àguardar com firmeza a Regra que tinham recebido; como fariam para viver diante de Deus com toda santidade e religiosidade; como, finalmente, sua vida e costumes, pelo crescimento das virtudes, poderiam servir de exemplo para os outros. Mas, enquanto os novos discípulos de Cristo discutiam bastante sobre esses assuntos, como numa escola de humildade, o dia se adiantou e a hora passou. Chegaram a um lugar solitário, muito cansados pelo caminhar e, esfomeados, não conseguiram nada para comer, porque o lugar era muito afastado de qualquer casa. Mas, pouco depois, por graça de Deus, foi-lhes ao encontro um homem, levando na mão um pão. Deu-lho e se foi. Os Irmãos, que não o conheciam, ficaram muito admirados em seus corações. Cheios de devoção, exortavam-se mutuamente a ter maior confiança na misericórdia de Deus. Depois de tomarem o alimento, e não pouco confortados por ele, chegaram a um lugar perto de Orte, e ali ficaram quase quinze dias.Alguns deles foram ... cidade para procurar o necessário para a vida. O pouco que podiam recolher, mendigando de porta em porta, levavam para os outros Irmãos, e comiam também em ação de graças e com alegria de coração. Se sobrava alguma coisa, não tendo ninguém a quem dar, àguardavam-na em um sepulcro que já servira para guardar corpos de mortos, para comê-la depois. O lugar era solitário e abandonado e poucos ou ninguém passava por ali. 35Grande era seu regozijo por nada verem, nem possuírem que os pudesse prender ...s coisas vãs e agradáveis aos sentidos. Por isso iniciaram ai sua aliança com a santa pobreza e, extraordinariamente consolados pela falta de todas as coisas que São do mundo, pensaram em ficar ali para sempre. Pondo de lado toda solicitude pelos bens terrenos, só lhes interessava a consolação de Deus.Por isso resolveram com firmeza não se apartar dos laços da pobreza mesmo que fossem atormentados por toda espécie de tribulações e acometidos por tentações. Mas, embora a amenidade daquele lugar, que poderia sem dificuldade amolecer o vigor de seu espírito, não os estivesse prendendo, para que nem uma demora mais longa lhes conferisse mesmo exteriormente alguma aparência de propriedade, abandonaram o lugar e, seguindo o feliz pai, entraram no vale de Espoleto. Fiéis cultores da justiça, discutiam também se deveriam permanecer entre os homens ou retirar-se para lugares desertos. Mas São Francisco, que em assunto nenhum confiava apenas em sua sabedoria, mas prevenia tudo com a santa oração,preferiu não viver apenas para si mesmo, mas para aquele que morreu por todos,reconhecendo que tinha sido mandado para conquistar para Deus as almas que o diabo queria arrebatar.


Primeira vida de são francisco  

Historia da vida de são francisco