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Porque o jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte. (Gabriel García Marques)

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Copyright 2014 - Samara Coelho Todos os Direitos desta edição reservados Samara Coelho e Wilson Cid Diagramação: Eduardo Santos Revisão: Leonardo Toledo Projeto: Samara Coelho Dados Nacionais de Catalogação na Publicação ( Faculdade Estácio de Sá Juiz de Fora) Coelho, Samara Universo Memorável / Coelho Samara 1ª edição Juiz de Fora - MG Bibiografia - 98795493624

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Universo Memorável


Apresentação

Posso Intitular de retorno a um longínquo mais próximo que podemos imaginar, dando um sentido aos momentos históricos, a um passado talvez esquecido, desconhecido e muito presente, através do olhar desse grande comunicador e privilegiado espectador de seu tempo. O paradoxo é válido quando se trata de uma pessoa tão viva e inerente nos acontecimentos tradicionais, culturais, políticos e sociais da cidade de Juiz de Fora, onde tem dedicado sua vida. Narrar os caminhos percorridos de maneira tão intensa e sagaz me parece instigante ao ponto de mostrar alguém através da minha perspectiva, real e tão pretenciosa para fazer desse livro um reencontro apenas. A intenção dessa biografia é apresentar um jornalista de variadas épocas e, sobretudo política, no qual soube agarrar a oportunidade que lhe foi ofertada num banco de ônibus, pela sorte de ter uma bela voz. Este é um livro biográfico que não tem a intenção de exibir a intimidade ou os contratempos, muito pelo contrário, é um passeio por um universo jornalístico, um resgate a fatos já ouvidos e familiares, a épocas e figuras mencionadas e despercebidas, a um perfil extenso e profundo quando se tratam de valores, profissionalismo, integridade e dedicação. Biografá-lo é resgatar a memória local e permanecer no imaginário formidável que é viajar a décadas atrás, conhecendo e aprendendo o que nos é oferecido de forma tão sútil e engrandecedora, mostrando quem foi, quem é, e quem se torna a cada dia, através da busca incansável de conhecimentos e colaboração para a valorização da cidade, do intelecto e de sua memória cultural. Reafirmando o quão merecido reconhecimento a um profissional e pessoa que agrega positivamente e de uma forma geral ajuda a quem deseja experimentar da vasta experiência que um eterno radialista e jornalista, observador atento e atuante têm a nos conceder. O olhar crítico e aguçado sobre as transformações, as fases contemplando as transformações geográficas e econômicas da cidade farão parte em meio a atualidades e previsões do biografado, sobre as informações que nos cercam. Será uma visita ao universo de um homem modesto e digno de seus méri-

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Apresentação

tos, mas também será uma visita a vários outros universos que nos contempla a sorte de envolvimento com ele e com uma cidade repleta de fábulas. O livro reporta, atualiza e regenera a possibilidade de você sentir-se entrando na vivência abrangente de uma figura que nos auxilia e nos compromete a ler variados livros, dos clássicos aos complexos, para se inteirar a nossa realidade e nosso recuo. Como eu falei anteriormente, será apenas um reencontro. Você conhece Wilson Cid?

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Indice

A memória e o tempo ............................................................................

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Nas ondas do Rádio ...............................................................................

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Circo Americano de Niterói ..................................................................

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A Tv e o jornalista .................................................................................

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Um Diário Mercantil .............................................................................

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O sabor amargo da repressão ................................................................

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Jornais, jornais, jornais...........................................................................

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Análises, aptidões e família ....................................................................

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Agradecimentos .....................................................................................

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Bibliografia .............................................................................................

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A mem贸ria eo tempo 6

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A memória e o tempo

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ra apenas um menino, de quatro anos de idade, que chegara a Juiz de Fora com os pais no Natal de 1944. A cidade, então, experimentava pleno período de transformação com repercussões econômicas e sociais. Há 73 anos atrás, Wilson Cid despedia-se de Três Rios, pequeno município do Rio de Janeiro, sem mesmo saber que dedicaria sua vida na cidade mineira e vincularia sua legenda na história da imprensa brasileira. Nessa época, a cidade era um parque industrial muito importante. Por outro lado, deixava sua fase “belle époque”, período de influência europeia na arquitetura e nos costumes, legado de uma expressão considerável na cafeicultura. Quase onipresente nas casas das famílias mais ricas, o piano foi um dos representantes dessa época. Muitos viajavam a Paris para aprender o instrumento, o que levou Murilo Mendes a dizer que “Juiz de Fora era uma cidade cercada de pianos”. Em meados do século passado, entretanto, o município perde importância na cafeicultura para ganhar representatividade no empresariado e na força de trabalho industrial. A expressão de Juiz de Fora como referência sindical e trabalhista começa nessa época. Havia grandes fábricas, como a São Vicente, Santa Rosa, Bernardo Mascarenhas e a Meurea. Essa última era o local de trabalho de dona Maria Abreu, mãe de Wilson Cid. Ela confeccionava ilhoses para camisas de times esportivos. Algumas vezes, o expediente avançava pela madrugada, e o filho a ajudava a carregar até a fábrica. A tecelagem Bernardo Mascarenhas, por exemplo, foi uma das responsáveis por produzir uniformes para os soldados da guerra no período da 2º guerra mundial. Nessa época, também existiam duas fábricas de piano. Em 1912, Francisco Batista de Oliveira era proprietário de um escritório do café em Paris. Grande homem, criador da Academia de Comércio, cidadão de atividades filantrópicas, a quem se deve o nome da rua que cruza o Centro de Juiz de Fora. Descendente de imigrantes espanhóis, Wilson se fez à custa de seu próprio esforço. O pai, Francisco Cid, trabalhou na ferroviária Central do Brasil. Além disso, também foi comerciário, operário e frentista. A mãe, Maria Abreu, também trabalhava para ajudar nos encargos da casa. Wilson começou a trabalhar

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A memória e o tempo muito cedo para auxiliar a família. Seu primeiro emprego foi como auxiliar de escritório, no Sindicato de Indústria de Tecelagem, antes mesmo de completar 17 anos. Quase optou pela faculdade de direito, por proporcionar um conhecimento mais amplo e, sobretudo aproximá-lo no campo do humanismo. De início, a família Cid se instalou no Bairro Poço Rico, mudando para o Morro da Glória, tempos depois. Em seguida, foram residir no Bairro Cerâmica. Wilson estudou e concluiu o Ensino Básico na Escola Estadual Antônio Carlos, fez ginásio e se formou na Fundação Educacional Machado Sobrinho, contraditoriamente, em contabilidade. Por ironia do destino, sua carreira não seria em torno de números, e sim das letras. O jovem estudante sensibilizou-se com os estudos de línguas neolatinas e foi para o Rio de Janeiro, fazer curso de filologia românica e introdução à linguística, com o professor Claiton Chaves de Melo, na tentativa de conhecer melhor o português. Curiosamente, Wilson vinculou-se ao jornalismo, de fato, por um capricho do destino. Certa vez, andando em um ônibus da linha Jardim Glória, conversava com um conhecido, quando foi surpreendido por Raimundo de Oliveira, que sentava ao seu lado. Raimundo era produtor da Rádio Industrial, além de editor, apresentador e novelista. “Acho que você tem uma voz boa pra rádio, você não quer fazer um teste?”, perguntou. Começaram a conversar sobre o assunto. Logo, Wilson se via tentado pelo convite e disposto a fazer um teste. Seria apenas o pontapé inicial de uma longa trajetória. Raimundo de Oliveira tinha muita influência no rádio e poderia contribuir para a carreira do jovem jornalista. Wilson passou no teste e estreou na nova profissão em fevereiro de 1957, como locutor na Rádio Difusora, aos 16 anos. Desde essa data, dedica-se ao jornalismo. Na Rádio Difusora, Wilson começou como locutor em um programa de música. Logo depois, passou para o radiojornalismo, no cargo de produtor de noticiários. A Difusora era considerada uma estação de elite e titulava como emissora católica de Juiz de Fora. Não pertencia à cúria, mas era destinada a família católica. Com o tempo, incorporou a Rádio Industrial, destaque no jornalismo da época.

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A memória e o tempo De 1957 a 1962, Wilson trabalhou no Noticiarista T9. Na época, a vida de jornalista era bem diferente. Não havia agências de notícias, por exemplo. O que se tinha era um radiotelegrafista – Waldemar Ney de Aquino –, que pegava as notícias e passava direto para a redação. Wilson se lembra com admiração do fato de seus textos, passados às pressas, não terem um único erro ortográfico. Os noticiários nacional e internacional, por sua vez, eram tirados diretamente de um rádio antigo, um imenso aparelho Kraft, da Segunda Guerra Mundial. O pessoal de redação local, composta por nomes como Raimundo de Oliveira, Mário Helênio e Heitor Augusto Guimarães, contribuía com notas de conteúdo regional, que eram inseridas no jornal. O Noticiarista T9 foi o programa mais famoso da cidade por algumas temporadas. Com alto-falantes virados para a Rua Halfeld, era transmitido de segunda sexta, em quatro horários, às 9h, 12h30m, 17h e 21h30m. Nesses horários, a tradicional via juiz-forana se enchia com o prefixo da ZY T9, e as pessoas paravam para ouvir as últimas notícias. Wilson se lembra da comoção provocada pela renúncia do presidente Jânio Quadros. “No dia em que Jânio Quadros renunciou, em 1961, o noticiário do meio-dia e das 17h durou uma hora e dez minutos. Como não havia censura, o pessoal da segurança exigiu que, junto ao locutor, ficassem policiais embalados. Tivemos que fazer um noticiário de uma hora com um sujeito portando metralhadora atrás de nós. Foi um negócio muito complicado e preocupante. Nesse dia, aconteceu o mais longo jornal que tivemos na história do rádio, pelo menos da Rádio Industrial. A partir daí, as coisas começaram a complicar: João Goulart estava em Singapura, e, para voltar ao Brasil, teve que fazer um contorno incrível, porque os militares não queriam que ele assumisse. Enfim, aquele noticiário foi muito intenso, um momento histórico do Noticiarista T9”, descreve.

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Nas ondas do Rรกdio 10

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Nas ondas do Rádio

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ilson foi radialista também na Rádio Itatiaia em Belo horizonte trabalhando poucos meses e, quando voltou para Juiz de Fora, veio para a Rádio Sociedade, em que esteve de 1962 a 1980. Fazia matérias para o radiojornalismo da emissora, vinculada ao Diário da Tarde e ao Diário Mercantil . Entre as notícias marcantes dessa fase, está a da morte do estadista britânico Winston Churchill, famoso por ser o primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial. As matérias pagas eram comuns nos jornais daquela época. Logo, Wilson foi contratado para fazer reportagens comerciais, ganhando por centímetro de linha composta. Eram coberturas de assuntos como inaugurações de lojas, com direito a benção do padre e discurso do proprietário. Vendia-se tudo, o que acabou se tornando uma oportunidade rentável para o jornalista. Wilson vivenciou a época áurea do rádio, e também a chegada da televisão no Brasil, tornando-se espectador e protagonista privilegiado do seu tempo. Habitualmente, os jornalistas chamam de anos dourados do rádio o período do final da década de 50. Muitos profissionais da época vinham das equipes de radioteatro. A Rádio Industrial tinha duas orquestras e programas de auditório diários. Nesse período, a televisão era ainda incipiente e não tinha a capacidade de mobilização atual no jornalismo, o que tornava o rádio protagonista na cobertura de fatos importantes, como a chegada de Fidel Castro ao Brasil ou a visita do presidente norte-americano Dwight David Eisenhower. Em ocasiões como essa, Wilson era deslocado para o Rio de Janeiro para fazer a transmissão direto do Palácio do Itamaraty. “Fidel era um monstro sagrado, inspirava a libertação. Para a época, bater de frente com ele foi uma experiência interessante. Hoje, não teria nenhum sentido, pois é um ditador vagabundo”, comenta. Wilson Cid conta com um arsenal de entrevistas com personalidades que marcaram a história recente do Brasil e do mundo. Luiz Carlos Prestes – conhecido como o cavaleiro da esperança - foi um deles. Figura emblemática do comunismo no Brasil, teórico e idealista do partido comunista, exilado, sofreu pressão e torturas, sendo objeto de uma biografia escrita por Jorge Ama-

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Nas ondas do Rádio do. Em outra ocasião, Wilson visitou o sertão de Minas para conhecer Manoelzão, famoso por sua simplicidade, sabedoria e respeito à natureza, figura mitológica, personagem de livros de Guimarães Rosa, como Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, esse último dividido atualmente em três partes Noites do Sertão, Manuelzão e Miguilim e No Urubuquaquá, no Pinhém. Wilson também destaca a cobertura de um desastre de ônibus na Serra da Vilheta, próximo a Leopoldina – local onde sempre aconteciam acidentes. Morreram mais de 30 pessoas, mas havia sobreviventes, feridos, que conversavam com o repórter após serem resgatados. Coincidentemente, entre essas pessoas que sobreviveram, estava Maria da Conceição, filha bastarda de Lampião e Maria Bonita. Conceição estava indo para Juazeiro do Norte, quando o acidente aconteceu. Outro acontecimento notável foi a visita do astronauta russo Iuri Gagárin ao Brasil. Wilson transmitiu o evento com direito a reportagem radiofonizada e sustentação do radio teatro, a cargo de Natálio Luz, algo necessário, já que a televisão ainda não tinha mobilidade e recursos suficientes para concorrer com o rádio. Foi uma cobertura intensa, com montagens e programas especiais sobre o assunto, tudo apoiado pelo radiojornalismo. Popov, o primeiro russo que flutuou no espaço, veio ao Brasil e visitou Ouro Preto. Voltando para o Rio de Janeiro, ocorreu um problema com o carro que transportava a comitiva, obrigando-os a parar em um posto de gasolina em Juiz de Fora, nas imediações da Praça Antônio Carlos Nesse momento, teve-se a oportunidade de entrevistar aqueles homens “simpáticos e bonitos”, na descrição de Wilson Cid. Enquanto faziam a transmissão, alguém no Instituto de Educação (Escola Normal) ouviu a rádio. A partir daí, estava formada a confusão. Quando perceberam que na praça, a alguns metros de distância, estavam Popov, muitas alunas desceram alvoroçadas para serem fotografadas com eles. Um episódio marcante, que rendeu uma homenagem russa: uma medalha em forma de uma miniatura do Sputnik. Rendendo preocupações imediatas no contexto da Guerra Fria. Isto gerou alguns contratempos no campo de segurança nacional, mas tudo facilmente superado. Wilson sempre teve desde essa época grande curiosidade em saber como era 12

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Nas ondas do Rádio sua ficha de segurança, o que eles tinham em relação e contra ele, e nunca seus amigos militares conseguiram tirar a pulga atrás da orelha de Wilson Cid. As precárias condições da época rendiam grandes contratempos. Na eleição de Jânio Quadros em 1960, Wilson foi deslocado para o Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Integrava uma equipe de três pessoas, instalada em um box modesto. No mesmo local, emissoras como a Rede Continental e a Rede Bandeirantes contavam com 40 ou 50 profissionais. A pequena equipe colocou a modesta plaquinha da Rádio Industrial no seu respectivo espaço. Um instante depois, um rapaz apoiado numa muleta perguntou a eles: “Rádio Industrial? Só pode ser de Juiz de Fora. Nasci em São Mateus”. A partir daí, as portas se abriram e o time juiz-forano teve a disposição todos os recursos da Rede Bandeirantes. Sem esse apoio, teria sido quase impossível a realização da transmissão. De acordo com Wilson, o assunto que mais emocionava, movimentava e prendia a atenção de Juiz de Fora nas ondas do rádio eram as transmissões de apuração eleitoral. Naquela época, havia disputas acirradas. A cidade se mobilizava quando a Rádio Industrial, que tinha o prefixo mais famoso da cidade, a música norueguesa Marcha dos Boiados [Boyars ou Boyards], entrava no ar dando resultados da apuração. Houve uma eleição que se prolongou por uma semana: na disputa de Mello Reis com o outro candidato à prefeitura, Itamar Franco, a diferença não ultrapassou os 300 votos. A cidade parou. “A emoção contagiava de tal forma, que as pessoas sentiam palpitação e precisavam colocar um comprimido de Isordil debaixo da língua”, relata. A apuração demorava até uma semana e era necessário manter um repórter em cada junta apuradora. Certa vez, acompanhando a apuração de 1965, havia urnas funcionando na Casa d’Itália, no Centro de Juiz de Fora, e o desembargador presidente do Tribunal Regional Eleitoral exigiu a retirada das sessões, por considerar território estrangeiro. “Era um correcorre, em meio de briga, confusão, quebra-quebra, prisões, boca de urna, venda de bebida alcoólica”, relata Wilson, que considera esse tipo de cobertura como uma grande escola de jornalismo. “As aberturas mais importantes era sempre nas eleições, o processo eleitoral demorava vários dias, 13


Nas ondas do Rádio por conta de contestações, como mandato de segurança. O tribunal mandava recontar aqui, recontar ali, isso tornava os momentos únicos”, conta. As eleições terminaram por ser um excelente aprendizado para Wilson, que se inteirou da política. O prazer daquela agitação e a compreensão do assunto fizeram com que se tornasse especialista no assunto. Na época, a política arrebanhava os maiores interesses do público, em eventos como a vinda das convenções partidárias, a visita do presidente da República, do governador, atividades do prefeito, funções da Câmara Municipal, entre outros acontecimentos. Wilson se viu rodeado de fontes de inspiração, como os já citados Raimundo de Oliveira, os jornalistas Natálio Luz e Cláudio Temponi, além de Eron Domingues, repórter da Rádio Nacional. Apesar da admiração confessa, não desejava imitá-lo, pois Eron estabelecia um padrão. No jornal impresso, apreciava Heitor Algusto e José Carlos de Lery Guimarães, com quem viveu os dois momentos mais altos de sua carreira. O primeiro deles foi a produção do Cristo Total em março de 1963, no Sporte Clube. Um espetáculo de massa, baseado em fatos da época, em forma de teatro, envolvendo mais de 250 pessoas, incluindo estudantes e militares. Copiado em Belo Horizonte, chegou a ser capa do New York Times. Foi um espetáculo que mobilizou a cidade inteira, o Colégio Santa Catarina, o elenco de radioteatro, Natálio Luz estava com ele, como também José Carlos de Lery Guimarães e Heitor Augusto, ajudando na narração. Tentou-se adequar uma Semana Santa de forma dramatizada dentro do campo do Sport Clube, para que o público compreendesse a narrativa de forma mais contextualizada às questões sociais da época”, resume Wilson. Cristo Total foi escrito por Wilson Beraldo, José Carlos de Lery Guimarães e pela Irmã Benedita Hidelfeld, enfatizando os problemas da humanidade a cada passo da Paixão de Cristo, como drogas, o dólar alto, a prostituição e outras questões da época. Em seguida, o roteiro trazia a Aquarela do Brasil, com texto de José Carlos de Lery Guimarães, retratando, com teatro e dança, cada região brasileira. Na década de 1975, Wilson, que sempre foi católico praticante, fez com

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Nas ondas do Rádio que a tradicional forma de transmissão da Semana Santa fosse apoiada por outros instrumentos do rádio, com intuito de despertar a atenção e provocar a participação popular. Por exemplo, ao invés da simples narrativa do Domingo de Ramos, foi acrescentado o radioteatro, dramatizando a chegada de Jesus Cristo a Jerusalém. Na Sexta-feira da Paixão, foi transmitida a Paixão Segundo São Mateus, peça bastante aplaudida pelo público, com cinco horas de duração. Os Passos da Paixão também foram acompanhados, todos, por encenações radiofônicas. Foi uma experiência satisfatória para Wilson. Lamentavelmente, coincidiu com a grande transformação do rádio, que aconteceria logo após, afastando a possibilidade de continuar. Havia uma mobilização geral do elenco de comunicadores da rádio para realizações desses tipos de trabalho e Wilson se comprometeu com a radiofonização total de todos os passos da Semana Santa, trabalho que lhe renderia plantões por dias, noites e até mesmo madrugadas. Enquanto depois do serviço todos iriam dormir aproximadamente às 22h, Wilson continuava. Quando o restante da equipe chegava na manhã seguinte, encontrava-o ainda trabalhando. Décadas depois, Natálio Luz descreveria o episódio em depoimento ao projeto “Diálogos abertos”, do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), da UFJF. “Ao meu cumprimento de bom dia, você respirava profundamente, fazia uma longa pausa, me olhava nos olhos e, sem dizer palavra, num gestual metafísico, com as mãos espalmadas, alisava os cabelos desalinhados, vigorosamente, e continuava o trabalho, não me respondia o bom dia. Seus olhos azuis refletiam misteriosamente a luz de um ser ungido pela transcendência. Conclusão: o resultado foi um trabalho maravilhoso, um texto criativo, antológico, uma obra-prima de jornalismo e radiodramaturgia, que até hoje encanta a quem ouve.” Na segunda metade da década de 1970, o rádio passou por uma fase cruel, que Wilson classifica como “sua quase transformação em posto de alto-falante e toca-discos”. Em grande parte, a FM rompeu com o rádio de produção, aquele com maior investimento em conteúdo de matéria e pro-

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Nas ondas do Rádio

dução. Se não fosse esse fenômeno transformador do rádio, talvez, aquele tipo de cobertura teria prosseguido, mesmo por que outras emissoras acharam a iniciativa inovadora e conveniente. Há cinco anos, numa igreja localizada na Rua Francisco Bernardino. Transmitiu pelos seus alto-falantes, na Sexta-feira Santa, aquela gravação da Paixão segundo São Mateus. A peça se perpetuou, continuou despertando o interesse do grande público. De volta a década de 1960, não podemos deixar de registrar os 40 dias que Wilson Cid gastou tentando falar com o então presidente Jânio Quadros. Só conseguiu marcar a entrevista com o auxílio de Adauto Lemos, homem ligado ao alto escalão da época. Na hora, o jornalista juiz-forano tremia preocupado com a responsabilidade de falar com o presidente da República, conhecido por ser temperamental e mal-educado. A conversa foi registrada com gravador. Entretanto, no momento da veiculação da entrevista, o operador se equivocou e, ao invés de entrar a voz do presidente Jânio da Silva Quadros, entrou a voz da Judite, porta-bandeira de escola de samba. Razões que faz Wilson rir hoje. Outro episódio impagável aconteceu na campanha presidencial de 1960, quando esteve na cidade, para comício na Praça da Estação, o Marechal [Henrique Teixeira] Lott, que disputava com Jânio Quadros. Naquele dia caia um temporal em Juiz de Fora. A fiação ficava pelo chão e os microfones davam choque. Wilson lembra de quando o operador de áudio Edu Alexandrino dizia: “Quando pegarem o microfone segurem com firmeza, firmeza mesmo, para que vocês consigam enfrentar o choque.”. Wilson obedeceu, mas, ao longo da transmissão, foi ficando com uma dor muscular intensa no braço e resolveu pedir a Geraldo Martins, um colega da rádio, que segurasse um pouco o microfone. Ao se virar para chamá-lo, encostou o microfone no ouvido do Marechal Lott e o candidato pulou para trás. Simultaneamente, soltaram um foguete e Wilson pensou: “mataram o homem!”

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Nas ondas do Rádio

Bar na rua Santa Rita em Juiz de Fora. O radialista Wilson Cid ao fundo de braços cruzados e o radialista Mario Helênio de óculos com uma faca na mão. ( arquivo do blog Maria do Resguardo)

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Sauna, Turma da Rรกdio PRB-3, dezembro de 1963 (arquivo do Blog Maria do Resguardo)

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À esquerda na primeira fila, de óculos, Paulo Emerich e sentando escrevendo Wilson Cid. ( Arquivo blog Maria do Resguardo)

Ao microfone, de óculos,Wilson Cid. ( arquivo do blog Maria do Resguardo)

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Circo Americano de Niterói

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m 1962, um incêndio durante uma apresentação do Circo Americano de Niterói matou centenas de pessoas e chocou o Brasil. Ao lado de José Carlos de Lery Guimarães, Wilson Cid acompanhou os desdobramentos da tragédia, vivendo uma experiência impactante, dolorosa e inesquecível. A dupla de jornalistas estava em Niterói na ocasião para buscar uma televisão que o tio de Wilson daria de presente para sua mãe. Era domingo, e a volta para casa acabou por coincidir com o triste episódio. Por coincidência, Wilson e José Carlos estavam com o carro equipado da imprensa. Diante do fato, aproveitaram a maleta de transmissão da rádio e se utilizaram de um telefone de uma padaria próxima para possibilitar a transmissão. Na tragédia, morreram aproximadamente 320 pessoas, incluindo crianças. Além do fogo, muitos foram pisoteados no pavor do momento. “Vi cadáver de elefante desidratado, como se fosse um bezerrinho. Sair de lá de dentro às bicas, com os sapatos encharcados de suor. Não dava para ser frio naquele momento. José Carlos de Lery Guimarães chorava copiosamente. Foi uma coisa trágica, um dia infernal”, descreve. Wilson e José Carlos noticiaram o fato quase no instante em que aconteceu. Apesar de ter sido uma grande reportagem, as memórias daquele dia são motivo de profundo lamento. “Preferia não ter vivido”, confessa. Em uma época em que a televisão ainda dava seus primeiros passos no Brasil, sem mobilidade ou recursos tecnológicos para uma transmissão ao vivo, o rádio fez a diferença. “A preocupação era como aquilo tinha acontecido. Falaram que foi um tal de Zezinho que tocou fogo por terem o impedido de entrar no circo. Anos depois, o suposto sujeito de ter ateado fogo no circo, foi encontrado morto numa Rua em Niterói, com 40 facadas. O país ficou mobilizado e sem fazer espetáculos circenses por muito tempo, sob um clima de preocupação, com rigorosas providências de precaução. Foi um dia infernal e marcante para os dois.” O papel do rádio para Wilson sempre foi fundamental. Esse veículo o ensinou o improviso e a ser rápido na comunicação. Hoje, o jornalista lamenta profundamente seu afastamento dessa forma de comunicação. Sua experiên-

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Circo Americano de Niterói

cia foi fundamental, por exemplo, em 1986, quando foi convidado para uma cobertura eleitoral para comentar o processo de eleição daquele ano. Ele se arrumou para fazer tal comentário e daqui a pouco faziam sinais para ele, deixando-o perdido, sem saber como proceder, ficando muito dependente de outros setores, já no rádio a reportagem que ele transmite é aquilo que ele sabe ou não sabe fazer, e não o que mandam ele fazer, foi assim que sempre determinou sua opinião, confiança e fidelidade ao veículo. O rádio o ensinou há raciocinar dois segundos antes de falar, confiando nos seus recursos próprios, os méritos eram seus. Na opinião de Wilson, o que cativa nesse meio é a capacidade de o jornalista se identificar diretamente com o produto veiculado. “O jornalista é um aproveitador de seu tempo. A vantagem é a convivência de fazer o melhor da história no dia a dia. Tive a sorte de começar no rádio. Passei quase toda a minha vida fazendo jornal. Mas, se dissessem que teria que fazer uma opção, faria pelo rádio, por achar que é um meio de comunicação onde você tem uma responsabilidade direta muito mais pessoal. O rádio valoriza o profissional. O que você faz bem feito é bem feito; o que você faz mal feito é mal feito, e estamos encerrados. Não há distribuição de responsabilidades. As responsabilidades são suas e acabou”, avalia. A televisão se aproveitou muito do rádio, grandes talentos que brilharam na TV vieram dele, carregados de “cacoetes” do rádio. Wilson habituou-se a raciocinar “dois segundos antes de falar”, o que o instigava a não errar. Carlos Lacerda, jornalista e político, também pensava assim. Era conhecido como um orador de improviso brilhante, que também usava essa técnica. “É um recurso que se encontra nos grandes oradores políticos como ele. Mas isso também não é uma experiência de dois dias”, comenta. Com a chegada da televisão, o prestígio do noticiário radiofônico caiu, permanecendo assim por muito tempo. Wilson Cid acredita que o rádio começa a se recuperar, talvez devido a uma nova visão de texto, mais objetividade, contemplando mais o fato local, da comunidade, o que está permitindo um fenômeno de fênix: ressurgir das velhas cinzas, depois de ter levado uma bordoada fantástica da televisão.

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Foto: Humberto Nicoline

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A Tv e o jornalista

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ilson Borrajo Cid - seu nome completo, também provaria o sabor da televisão. Embora sempre frise que não é amante de tal recurso, fez sua estreia na pioneira TV Mariano Procópio, nos anos 1960, época em que se produzia telejornal de cinco minutos diários de transmissão para a TV Tupi. A TV e o telejornal já tinham papeis consideráveis em cadeia nacional, logo, Juiz de Fora construía uma identidade a partir do percurso que o veículo possibilitou. A cidade, aliás, tem uma relação com a televisão antes mesmo de inauguração da primeira emissora do país em 1950. As transmissões dos canais cariocas na cidade contribuíram para reforçar a proximidade do município com o estado do Rio de Janeiro. Um grande exemplo foi a extinta TV Mariano Procópio que marcou um capitulo significante na história audiovisual da cidade. A TV Mariano Procópio funcionou como uma emissora experimental nos primeiros anos das décadas de 1960, por iniciativa dos Diários Associados, do jornalista Assis Chateaubriand, grupo que também possuía o jornal Diário Mercantil e a Rádio Sociedade, locais que Wilson também trabalhou. A estruturação de conglomerados de comunicação era uma marca dos Associados. Wilson Cid, por sua vez, fazia matérias para o Jornal da Tarde, programa da TV Mariano Procópio. Produzia textos do noticiário enquanto o fotógrafo Jorge Couri produzia slides. O ônibus da viação Útil vinha buscar as produções para levar ao Rio de Janeiro, a tempo de irem ao ar às 13h03min. O programa tinha cinco minutos diários na TV Tupi. A locutora do jornal de Juiz de Fora era Íris Littieri, dona de um timbre atraente, conhecida como a voz do Aeroporto Tom Jobim no Rio. Jorge Couri lembra que essas publicações eram esporádicas e bem trabalhosas de serem produzidas. Eram poucos minutos concedidos de programação local. Para Wilson fazer uma entrevista, era uma aventura. A antena transmissora funcionava em um morro do Bairro São Benedito, em um local de difícil acesso. Os scripts eram elaborados por Wilson, mas seguiam um padrão, inspirado no Jornal da Tupi. Wilson Cid cobriu, nessa época, a visita do então senador João Calmon à cidade para ser enviada ao canal de Belo Hor25


A Tv e o jornalista izonte. Quando o entrevistaram, tiveram que levar o político para Linhares, em um espaço muito pequeno, que obrigava a todos a ficarem espremidos. Após vários eventos, realizaram algumas coberturas específicas, como o aniversário da cidade, a visita de João Goulart a Juiz de Fora, em maio de 1963. Na ocasião, aliás, foram produzidos programas especiais de cobertura, com utilização de toda a estrutura da televisão. Era uma época de grande agitação política, o que rendia excelentes oportunidades, como a do dia 31 de maio de 1963, quando a chefia de reportagem deslocou Wilson para o Rio de Janeiro. Na volta, o repórter veio no avião da Presidência da República. “Nessa época, a irresponsabilidade quanto à segurança era considerável ao ponto que se emprestava o avião do presidente. Aqui em Juiz de Fora, com aquele rádio Kraft de guerra, sintonizava-se a frequência do avião e, assim, foi possível entrevistar o Presidente da República na viagem que ele fez à cidade.” Conta Wilson Cid. A veiculação do telejornalismo juiz-forano durou um ano e meio na TV Tupi Rio, tendo seu tempo útil de vida, mesmo conquistando público na cidade. Não havia programas de grade fixa e a decisão do canal carioca de parar a veiculação do noticiário de Juiz de Fora foi motivada pela impossibilidade da emissora explicar por que uma cidade do interior de Minas tinha destaque nacional, com um bloco de cinco minutos, enquanto as outras não tinham.

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Fonte: acessa. com

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Um Diรกrio Mercantil 28

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Um Diário Mercantil

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ilson foi aumentando seu leque profissional ao mesmo tempo em que adquiria experiências diversificadas. Um desses aprendizados foi no Diário Mercantil, veículo que já tinha relevância na cidade há décadas. Criado em 1912, tornou-se referência, atingindo tamanha notoriedade. Antônio Carlos de Andrada e João Penido assumiam o periódico, e tinham a proposta de defesa dos interesses das chamadas “classe conservadoras”. O editorial propunha a luta das classes produtoras da região. “O jornal tinha uma expressão conservadora e não podia ser de outra forma, era um jornal político”, afirma Wilson, que entrou para a redação no começo da década de sessenta. Na época, havia 25 profissionais, que atuavam sem editoria fixa. No início, Wilson trabalhava fazendo produção de matérias comerciais. Mais tarde, viraria editor geral, posto que ocuparia até seu fechamento, em outubro de 1983. Foi editor e repórter de política. A propósito, quando perguntado sobre seu esporte preferido, o jornalista ousa responder que é a “política”, ou pelo menos tentar entendê-la. Suas experiências foram extremamente voltadas para episódios como a convenção do PMDB em Brasília, convenções regionais de diversificados partidos, convenções municipais, encontros políticos, palestras, conferências. Sempre muito atuante, cobria também expressões políticas que vinham a Juiz de Fora, como Jânio Quadro, Rodrigo Salgado, Pedro Aleixo, José Maria Alkimin, entre outros. Nesse tempo, a produção gráfica se fazia à moda antiga, com quatro linotipos, fechados em ramas, composição em chumbo, linha por linha. A colocação de fotos era extremamente trabalhosa, segundo relata Wilson. “O filme era revelado, secado com secador de cabelo. Aparentemente, não existia manipulação, revelávamos aquele positivo, gravávamos no zinco, pregávamos aquilo em placas de madeira, da mesma altura da cobertura da linha do zinco, enfim. A vantagem dessa época era que se podia interromper a qualquer hora a impressão. Hoje é bem mais complicado. Num sábado à tarde, quando morreu a princesa Diana, nenhum jornal deu a matéria no domingo. Não tinha como dar.”

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Desde a década de 1970, os noticiários nacional e internacional eram recebidos pela agência Meridional, por telefone. Wilson trabalhou assim por meses no Diário Mercantil. “Tudo acontecia a dois metros do linotipo, com um barulho ensurdecedor, mas já se visualizava uma evolução. Anos antes, Mário Helênio, um dos maiores cronistas esportivos de Juiz de Fora, tinha que ir até a Estação Central esperar o trem noturno, que chegava às 22h com o jornal A Noite, para então selecionar o que essencial para por no jornal do dia seguinte”, conta. Uma vez, Wilson ainda estava trabalhando no “chumbo”, às três horas da manhã, quando o telefone tocou. O papa João Paulo I tinha morrido. O jornal parou naquele dia, ligaram para Catedral, para o arcebispo, para o prefeito, e, de manhã cedo, a edição extra já estava na rua para circulação. O Diário Mercantil era líder não só em Juiz de Fora, mas no interior de Minas e circulou durante 70 anos, período em que teve grande influência sobre a cidade. Eram quase 3.500 assinantes, fora a venda avulsa.. Conforme Wilson, os leitores se satisfaziam com o noticiário local. “Em tempos passados, as pessoas cobravam mais do jornal um conteúdo cultural, diferente de hoje, quando há vistas mais práticas na busca da informação rápida. O Diário Mercantil contextualizava os fatos, tendo uma coluna do professor Henrique Hargreaves para falar sobre cultura, onde, em determinados dias, ele falava sobre a “desromanização do pontificado católico”, sendo uma autoridade no assunto. Os leitores dessa época cobravam e exigiam conteúdo. Quando se fazia uma crítica ao prefeito, cobrava-se também o aspecto cultural, dos fatos com os quais os políticos lidavam, o que difere do público atual que procura por informações densas e objetivas”, compara. No mesmo período, os jornaleiros viviam seus últimos dias, meninos que saiam na rua vendendo jornal. “Era uma algazarra, sobretudo no Jornal da Tarde, que era vespertino e saia às 16h. A redação, a impressão e a oficina eram na Avenida Rio Branco. Saiam dezenas de meninos desesperados. Às vezes, era necessário a polícia fechar o trânsito para a garotada correr

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e se espalhar. Inclusive, o Diário Mercantil todo ano destacava uma personalidade de destaque. O troféu se chamava Pequeno Jornaleiro”, relata. Na fase do Diário Mercantil, Wilson Cid teve o privilegio de trabalhar ao lado do colunista social Décio Cataldi, profissional que se destacou com mais de 40 anos dedicados à imprensa. Sua coluna permanecendo até o fechamento do jornal e noticiou grandes eventos, incluindo sua premiação anual para pessoas de destaque na cidade, escolhidas por uma comissão. Depois, foi escrever para a Tribuna de Minas e o Diário Regional, continuando na ativa até dois anos antes de falecer, em 1997. Depois de Cataldi, veio para o Diário Mercantil, a página social de César Romero, hoje publicada na Tribuna de Minas. Anualmente, era promovida pelo jornal uma festa do colunista. Em meio à diversão do evento, ninguém adivinharia que, um dia depois, o jornal deixaria de circular. Episódio ainda vivo na memória de Wilson, a notícia do fechamento do imponente Diário Mercantil, há 30 anos, criou um verdadeiro clímax em Juiz de Fora, deixando-a com um sentimento de vazio, quase orfandade na classe jornalística. O sustento do jornal era baseado no grande sucesso da Rádio Sociedade, que faturava alto. “Na rádio, havia uma publicidade mais barata, mais volumosa e que atingia rápido o público. O custo operacional da peça publicitária era mais viável”, explica. Nesse contexto, o fechamento do Diário Mercantil deveu-se a decisão dos Diários Associados de, paulatinamente, interromper a circulação de seus jornais deficitários financeiramente. Nos anos anteriores ao encerramento das atividades, o processo de impressão tradicional foi modificado para offset, por meio de uma custosa operação financeira. O contrato fora feito em dólar e o valor aumentou consideravelmente com a variação cambial. Assim, o jornal trocava todo um esquema de produção industrial reciclável por um aparato gráfico de manutenção insustentável, sem ao menos fazer uma pesquisa de mercado. O Diário da Tarde também entrou em declínio. Os pequenos jornaleiros paravam de gritar manchetes pelas ruas e a cidade de certa for-

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ma acordaria mais pobre economicamente e culturalmente. “Só não foi pior porque, quase que paralelamente, surgiu a Tribuna de Minas, que se tornou um grande jornal e realmente supriu a lacuna que teria ficado, caso essa iniciativa não houvesse acontecido, porque todos os outros jornais eram esporádicos ou sem maior expressão”, pondera Wilson. Depois que o Diário Mercantil cessou sua circulação, Wilson Cid passou pelas sucursais de O Estado de Minas, Hoje Em Dia e O Tempo. O jornalista também trabalhou 19 anos como correspondente de O Globo em Juiz de Fora, período que coincidiu com o funcionamento da 4º Região Militar nos julgamentos de perseguidos políticos sob acusação de subversão. Os casos ocorridos em Minas Gerais, Goiás e Brasília eram todos julgados em Juiz de Fora. Wilson precisava cobrir os julgamentos das pessoas que eram contra a revolução e o golpe de estado, movimentações intensas de auditoria. Em 1985, quando trabalhava para o jornal, Tancredo Neves estava no auge, não havia objeções nem oposição a seus feitos. Nessa época, descobriu-se que em São João D’El Rei, terra natal do ex-presidente, havia uma comissão provisória do PSD, o partido de oposição. Aquilo foi considerado muito estranho. Wilson foi encarregado de apurar os fatos. Após dois dias de investigações, descobriu que a tal comissão executiva de oposição era comandada por um coronel aposentado do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, que se aposentou no Rio e veio para Minas. “Tancredo foi uma figura muito interessante e importante no pouco que se pôde conferir. Ele foi uma figura ativa em Juiz de Fora também, como, aliás, certa vez, pessoalmente, tive oportunidade de comentar com ele. Certo dia, Tancredo Neves, chegando a Juiz de Fora, ao ser obrigado a ficar parado longamente naquela travessia de nível perto da Becton Dickinson, comentou com Tarcísio Delgado, que o acompanhava, que se chegasse à Presidência da República uma de suas primeiras iniciativas seria tirar aqueles trilhos do centro da cidade. Ele morreu e os trilhos continuam como estavam”. Wilson Cid sempre concentrou múltiplos talentos e sempre se reciclara

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com o tempo, o próprio tempo o transformava cada vez mais se tornaria um individuo sábio, modesto, tranquilo, bem humorado. Há quem diga, mais precisamente os focas (jornalistas iniciantes), que andavam atrás do experiente colega, quando iam ao extinto restaurante Faisão Dourado, a conversa não começava enquanto Wilson não chegava, porque ele traria. Ficavam todos esperando as notícias que iriam sair no jornal no dia seguinte, uma turma a espera dele para fazer uma análise dos fatos, contar o que tinha acontecido no dia e dizer o que seria destaque no outro dia. Hoje, a internet acabou com esses hábitos e as esperas curiosas ficaram na lembrança de Paulo César Magela, hoje editor do Tribuna de Minas, um dos focas de Wilson Cid naquela época. Eles trabalharam juntos na antiga Super B-3. Wilson lia os noticiários e liderava o Departamento de Radiojornalismo. Dedicado ao extremo, ele não só produzia como também apresentava especiais em datas importantes. Com a experiência de radioteatro de Natálio Luz, foram realizados diversos programas como viés dramatúrgico. Além de grande escritor, também foi beneficiado por Deus com uma bela voz, o que tornava possível as dobradinhas ora com o Natálio Luz, ora com o Cláudio Temponi, outras duas vozes maravilhosas do rádio. Paulo Magela aprendeu, e não foi pouca coisa. Graças a Wilson, ele é um jornalista, pois foi à oportunidade que ele deu de começar no Departamento de Rádiojornalismo, produzindo pequenas notas, fazendo o serviço burocrático de arquivamento de textos e gravações. Certo dia, ante as faltas frequentes de um dos produtores, ele o efetivou. Desde então, Magela não saiu mais do jornalismo. “Entre muitos, sou um dos que mais deve a Wilson Cid”, sentencia. Paulo Magela era estudante de Direito na UFJF. Em uma das formaturas de fim de ano, o paraninfo da turma era o jurista Heleno Cláudio Fragoso (um dos mais importantes defensores de presos políticos). Em plena ditadura, ele, falando aos formandos no Salão do Júri, no Fórum Benjamin Colucci, fez um duro discurso contra o sistema. Era uma sexta-feira, à noite. Como Paulo não estava com gravador, pois estava apenas assistindo a colação de

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grau de colegas da Faculdade, pediu uma cópia do discurso. Ele disse que só tinha aquela, e não podia lhe passar, pois usaria em outra solenidade, mas o autorizou a tirar cópia. Como, àquela altura da noite? Chamou o colega Cássio Rodolfo Guedes (hoje desembargador aposentado) e correram para a rádio, na Rua Santo Antônio. Usando as antigas máquinas de datilografia, cada um copiava uma página. Feito isso, devolveu o discurso ao Dr. Heleno, que estava numa confraternização com os formandos (ele confiou em Magela). Logo de manhã, fez uma matéria, por conta própria, e apresentou a Wilson, também editor do Diário Mercantil. Ele não só gostou, como fez dela a manchete da edição de domingo. A partir daí, também o chamou para ser repórter de política do Diário Mercantil. Não haveria generosidade maior. Wilson conseguiu ser a âncora de Magela não só pelas oportunidades, mas também por inseri-lo no mundo político. “Fazer jornalismo naqueles tempos não era fácil, ainda mais político”, comenta o editor da Tribuna de Minas. Paulo César Magela tornou-se amigo da família, passando até mesmo alguns natais na casa deles, ainda na Rua Espírito Santo. ‘’O Wilson é um arquivo da história de Juiz de Fora. Intelectual brilhante, embora modesto, tem documentado e de cabeça também, parte da história da cidade’, define.  

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Foto: Humberto Nicoline

Wilson Cid assina última edição do Diário Mercantil em novembro de 1983. (Foto: Humberto Nicoline)

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ilson Cid é referência quando se trata historicamente sobre o assunto ditadura. O jornalista esteve, vivenciou, reportou e analiticamente observou o período com habilidade. Naquela época, há 50 anos, era um jovem ousado e perspicaz atrás de noticias. Cinco décadas depois, Wilson considera esclarecidos dois aspectos em discussão naquela época. O primeiro é o projeto do presidente João Goulart de transformar o Brasil numa República sindicalista e comunista, algo considerado um pretexto grotesco e historicamente desmentido. A segunda dúvida era em relação ao interesse dos Estados Unidos num golpe de estado e um plano de invasão. A única questão persistente aos olhos de Wilson é o porquê das evidências daquela conspiração militar não tenham sido percebidas. Onde estariam os serviços de informação e contra informação do governo? Sabe-se que foi aqui de Juiz de Fora de onde partiu as tropas militares. “O governador do estado comandando a 4° região militar, o secretário de segurança reuniu-se no aeroporto da Serrinha, a vista de todo mundo”, lembra o jornalista. O próprio Wilson esteve no local à procura de informações. Trabalhava na rádio, mas o máximo que conseguiu foi um: “oh menino vai cuidar da sua vida”, de Monteiro de Castro, secretário de segurança e coordenador geral do comando de polícia. O governo não sentiu as evidências daquela situação, embora até os postos de gasolina de Juiz de Fora tivessem sido fechados 48 horas antes, recebendo ordem de não vender combustível. Os generais conversavam pelo telefone, conspiravam diretamente e os oficiais que não concordaram com o golpe, eram retirados de circulação. Mas o anúncio do general Olímpio Mourão Filho foi comunicado à imprensa juiz-forana, naquele 31 de março de 1964, impondo sua decisão sobre a marcha das tropas que se deslocaria para o Rio de Janeiro. Jorge Couri fazia as fotos e flagrou o exato momento em que o Golpe Militar dava inicio. Wilson Cid e o jornalista Paulo Emerich faziam a cobertura da entrevista e registraram aquela marcante movimentação, que culminou com a queda do então presidente João Goulart e o começo de um período de 21 anos, em que as rédeas do país permaneceram sobre o domínio dos militares. 37


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Jorge Couri, com 33 anos na época, também trabalhava no Diário Mercantil e no Diário da Tarde que funcionavam em frente ao antigo Cine Excelsior. Morava próximo e sempre descia andando para o trabalho, perto da chegada à redação observou aquela movimentação de guardas. Logo, percebeu que algo estaria acontecendo. Quando Couri chegou lá, Décio Cataldi o informou que haviam sido convocados para ir a 4º Região Militar. Ninguém sabia ao certo o que estava se passando. Wilson Cid também testemunhava aquele cenário, via aquela agitação antes mesmo do anúncio, ouvia notícias de algumas prisões e de que alguns políticos estavam sendo procurados. Às 17h, foi feita a proclamação, dizendo que o presidente da República havia descumprido os dispositivos constitucionais. Desta maneira, se esperava que ele deixasse o poder imediatamente. Apesar do clima agitado, a notícia da marcha das tropas surpreendeu também Paulo Emerich, repórter da Rádio Sociedade (PRB-3). Os jornalistas não tinham ideia do que podia acontecer. Havia a oposição contra o presidente da república, mas existia também quem ficasse a favor. Um de seus grandes defensores era Claudemir Dibiane, na época, presidente da Confederação da Indústria. João Goulart era acusado de estar quebrando hierarquia militar, favorecendo uma república ‘’comunisindicalista’’; havia sindicados que debatiam muito a questão, associações num circulo socialistas e os partidos políticos que se reuniam constantemente. “Houve uma movimentação precedente e antecedente do golpe, junto às conspirações dos militares, os partidos políticos de 1964 tinham mais expressão e poder do que tem hoje, Juiz de Fora era a sede da 4º região militar, a guarnição de Juiz de Fora estava à cima da guarnição da capital, isso quer dizer que o general Mourão Filho era superior ao general Luiz Carlos Guedes em Belo Horizonte, dando uma grande expressão a cidade. Não foi em vão que no dia do golpe militar, baixaram na cidade importantes expressões da política, do exercito, como o general Murici, por exemplo, registrando que a ação deveria acontecer entre 2 e 8 de abril de 1964”, relata Wilson. Tanto para Wilson Cid, quanto para muita gente, o golpe de 31 de março causou espanto. Wilson, com 24 anos, não se conformava naquele 38

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momento e achava que a destituição do Presidente da República, era algo muito complicado, era como rasgar a constituição, tornando o acontecimento irreversível ao ponto de se perguntar onde estava o governo. No dia seguinte ao golpe, o avião da Força Aérea Brasileira (FAB) jogou sobre a cidade uma cópia do “decreto do imperador”, destituindo o comandante, mas o golpe já estava em curso, declarado e efetivado. “A cidade parou a partir das 15 horas e tributou à tropa da liberdade a acolhida justa. A manchete publicada no Diário da Tarde, no dia 7 de abril de 1964, relata o retorno das tropas militares a Juiz de Fora após a movimentação que derrubou o presidente da República, João Goulart (Jango), do cargo máximo da nação. A frase pode ser vista como uma síntese de como a imprensa local tratou o golpe orquestrado pelo general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, então sediada na cidade”, descreveu o jornal Tribuna de Minas, em especial sobre os 50 anos do golpe militar. O general e as tropas marcharam para o Rio de Janeiro no dia 1º de abril daquele ano com a intenção consumada de depor João Goulart. A imprensa recuou, mas muitos jornalistas não aceitavam tudo o que acontecia, embora estivessem garantindo sua sobrevivência a partir das coberturas feitas. A base da imprensa de Juiz de Fora estava nos Diários Associados, que foram totalmente favoráveis ao golpe, o apoiando de imediato. Não havia oposição das outras organizações. No entanto, todos sofreram censura após a chegada dos militares ao poder. As manchetes prevaleciam “anticomunistas” e era observada certa cumplicidade entre a ação militar e o discurso da imprensa juiz-forana da época, já nos dias que sucederam a partida e o retorno das tropas de Mourão Filho. Nas bancas, destacavam-se manchetes contrárias ao presidente deposto. O general Mourão Filho instalou em Juiz de Fora o QG da Força de Defesa da Democracia em Minas Gerais, fato destacado pelo Diário Mercantil na edição de dia 1º de abril de 1964. O tom eufórico foi mantido nas publicações subsequentes. Em uma delas, a manchete “Congresso escolherá nome apartidário para a presidência da República”, também publicada no jornal, no dia 4, revela que a interpretação da imprensa era de 39


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que os efeitos do golpe não permaneceriam por muito tempo. O general Castelo Branco, o primeiro presidente a assumir o cargo depois do golpe militar, tomou posse com um discurso solene perante a nação de que em um ano seriam convocadas eleições livres. A decepção surgiu no momento em que todos entenderam que aquilo não era uma reação transitória dos militares. Segundo Wilson Cid, a imprensa refletia a opinião de grande parte da população juiz-forana naquele primeiro momento. As tropas de Mourão Filho, no retorno para a cidade, foram tratadas como heróis, que salvaram o país dos comunistas. O Diário Mercantil de 7 de abril de 1964 registrou o fato, publicando: “A população de JF veio para a rua confirmar o seu não ao comunismo. O povo, em lágrimas e com flores, recebeu a tropa em liberdade.” Nos primeiros dias após a ação militar, os jornalistas juiz-foranos tiveram liberdade de atuação, nas dependências militares, criando até mesmo um comitê de imprensa no dia que em que o general Mourão Filhou anunciou o golpe. Situação bem diferente do que aconteceria depois, sobretudo a partir de 1968. As informações eram todas transmitidas por eles, podendo acompanhar as conversas que culminaram na partida das tropas. Hoje, conclui-se que os militares tinham interesse em divulgar e que não estavam fazendo favor nenhum. O radialista Paulo Emerich, transmitia direto da 4ª Região, com o general falando que a cidade estava em revolução. Qualquer pronunciamento tinha que passar por ele. Contudo, às 19h do dia 31 de março, em retaliação ao programa do Governo federal, Mourão Filho ameaçou lacrar todos os transmissores depois das emissoras de rádio local entrarem normalmente como ‘A Voz do Brasil’. Logo, a transmissão foi cortada. A partir daí, com o passar do tempo, a tesoura da censura virou via de regra na imprensa nacional, com reflexos claros na mídia juiz-forana. Desde então, a censura começou a controlar timidamente as redações da cidade até atribular completamente o exercício de democracia relacionado à imprensa. Era impossível para os jornalistas fazerem qualquer tipo de resistência nas páginas dos periódicos da cidade. A oposição era feita em conversas e reuniões. Mas, pela imprensa, não havia o que fazer. Logo a censura 40

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se acentuou. Principalmente com o golpe sobre o golpe, a partir da instituição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), eles precisavam burlar as informações, até mesmo deixando um espaço em branco para saber que ouve censura. Os militares passam a controlar os jornais, procurando saber que iria sair na próxima edição e saber o que se passava dentro das redações. E, claro, Wilson entre os demais, tinha que obedecer às imposições e acatar truculências que impediam de que os profissionais da imprensa pudessem efetuar suas respectivas funções jornalísticas tranquilamente. Manifestações contra a ditadura não eram comuns. Uma das exceções aconteceu em março de 1964, com uma concentração de pessoas no extinto Cinema Popular, na Avenida Getúlio Vargas, diante de um comício do então governador de Pernambuco, Miguel Arraes, um dos maiores expoentes da esquerda brasileira. Tratava-se de um evento que defendia o presidente João Goulart e que foi considerada uma provocação pelos grupos de direita, que logo reagiram. Houve reação também da polícia, junto a correrias e ameaças. Nessa época, havia um carro da polícia chamado “Brucutu”, que jogava areia, água e pimenta. Wilson e outros jornalistas foram alvo do veículo. Assim como em outros jornais brasileiros, os jornalistas de Juiz de Fora chegaram a substituir trechos censurados por receitas de bolo ou por trechos da Ave Maria ou ainda poesias de Manuel Bandeira. A situação era humilhante para a imprensa, deixando marcas inesquecíveis e dolorosas. Alguns dos problemas que aconteciam era quando notas oficiais dos poderes públicos geralmente contavam o que não aconteceu, e a preocupação dos editores em guardar matérias. Wilson se empenhava em seus textos, mas o editor as guardava-as porque num fim de semana teria que fazer prospecção. A situação foi se agravando quando a repressão foi delegada à redação do jornal, ficando nas mãos dos diretores do jornal, preocupados em manter seus cargos. Certa vez, quando chegou tal coronel na redação, Wilson teve que explicar que seus textos não tinham nada de comprometedor em relação ao militarismo, até mesmo convencendo de outro determinado assunto. Os trabalhos mais observados eram os dos correspondentes de veículos dos grandes 41


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centros, que municiavam os jornais de circulação nacional com notícias da cidade e região. Outra vez, um jipe da Marinha parou em frente ao Diário Mercantil e tiraram a força da redação o jornalista Pedro Paulo Taucce, que era correspondente, e o levaram para o Comando da Polícia. Lá, rasgaram sua carteira profissional. Em alguns casos, a perseguição aos jornalistas ultrapassou as linhas dos jornais, com a demissão de profissionais alinhados com ideologias de esquerda. A censura tinha vindo à cidade, até um pouco antes, porque Magalhães Pinto havia feito uma série de descidas aqui no aeroporto da Serrinha para conferenciar com o Comandante da 4ª. Região Militar e para conversar com o Chefe de Polícia. Com toda aquela movimentação, Wilson e companhia farejaram e suspeitaram que estava havendo alguma coisa, e foram atrás. Magalhães era discreto e quando era entrevistado procurava se desviar das coisas que lhes era perguntado e, por trás, mandava a polícia dar ‘um jeito’ nos jornalistas curiosos e persistentes. Informações de acontecimentos importantes ficaram prejudicadas por conta da censura, mesmo que alguns fatos fossem recuperados porque se iniciou uma época de liberdade, mas precisamente abertas depois de 85. Recentemente o tema sobre o Golpe de 64 foi objeto de entrevista no Globo News e no Jornal da Globo, Wilson aparece nas fotos tradicionais ao lado de Paulo Emerique , que estão nas fotos que ainda permanecem vivos, além do Couri que registrou as imagens. “A meu ver, há uma consequência séria causada pelo medo da censura: criamos uma geração de jornalista temeroso, que não gosta de assumir a informação. Dizem: segundo fulano de tal, disse o fulano, afirmou o sicrano, sentenciou o fulano, sempre transferindo declarações, a responsabilidade da informação para a pessoa que lhe dá notícia. Ninguém assume a informação por medo. Essa é uma consequência que ficou desses tempos ruins.” Wilson não foi um lutador idealista propriamente dito, porque sempre foi muito envolvido com a imprensa. Como as pessoas estavam muito temerosas em participar das atividades, ele concordou e resolveu ingressar no MDB, que fazia oposição, ficou por um curto tempo e depois saiu. Quando

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ele tinha 20 anos, Wilson também tinha também aquele ideal de transformação e moralização, por essa razão votou em Jânio Quadros, no qual foi seu primeiro voto em 1960. Reunia-se em grupos socialistas na galeria Azarias Vilela, participando de alguns encontros, certas vezes com Milton Viana de Oliveira, Milton Mourão de Paiva, mas sem se filiar, ele não foi um militante. Só torcia para que as coisas se ajeitassem como todo rapaz de 20 anos, com seus lados idealista e socialista de interpretar a sociedade, ele foi também.

Magalhães, Mourão Filho e o General Carlos Luis Guedes no centro de Juiz de Fora - com microfone, Wilson Cid. (Foto: Jorge Couri)

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( 1ยบ pรกgina do Diรกrio Mercantil um dia depois do golpe)

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Comitê de Imprensa no quartel da 4ª RåM. (Foto: Jorge Uchôa Cavalcanti (com Mourão) e Wilson fazendo suas anotações. (Foto: Jorge Couri) Couri)

31 de março 1964 - 17h, QG da 4ª Região. ( Foto: Jorge Couri)

Ao lado do general Mourão, Paulo Emerich e Wilson Cid registram o anúncio da marcha das tropas para o Rio. (Foto Jorge Couri)

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ilson Cid aprendeu que poderia ser um profissional polivalente. Além de um grande radialista, também havia se tornado um experiente jornalista em outros aspectos, registrando os acontecimentos cotidianos e marcantes. Wilson haveria de ter concorrentes e, possivelmente, aprendizes, como Humberto Nicoline. Na época em que Wilson editava o Diário Mercantil, Nicoline iniciava sua carreira de repórter fotográfico no Tribuna de Minas. Colegas de profissão, haveriam de se conhecer no futuro em outro jornal, o Panorama, onde trabalhou por 3 anos e 4 meses. Sua primeira impressão sobre Wilson foi a de um homem sério e mal humorado. Mas, com o tempo, descobriu o que define como “uma pessoa preparada para o que der e vier, um poeta, ilustrador, laboratorista, escritor, de redação ativa e completa, um homem multimídia, empenhado, focado, com extensa bagagem cultural, um exemplo de profissional”. Os méritos que Nicoline atribuiu a Wilson foram comprovados pelos demais profissionais do Panorama, como o jornalista Geraldo Muanis, que trabalhou com Wilson desde a fundação do jornal, em dezembro 2003, até seu fechamento, no final de 2008. Lançado com grande estardalhaço, o Panorama começou a circular sob a expectativa de renovar o jornalismo impresso em Juiz de Fora e região. Em poucos meses, entretanto, a empolgação inicial deu lugar aos números decepcionantes de vendas. A tiragem foi progressivamente sendo reduzida e a redação começou a passar por uma reformulação geral, com a demissão de muitos funcionários. Na tentativa de manter o jornal, foram experimentados outros formatos. Primeiro, o tablóide, na busca por um perfil de leitor mais popular. Em seguida, o “tabloidinho” (de menores dimensões e mais enxuto) com distribuição gratuita. Nessa terceira etapa, Wilson, que assinava uma coluna política no jornal, terminou por assumir a direção do periódico. Ainda com o Panorama em circulação, foi lançado o JF Hoje que era vendido a R$0,25), jornal de perfil bastante popular, que compartilhava material jornalístico com o Panorama. Ambos, eram pertencentes ao empresário Omar Resende Peres, que além dos dois impres-

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sos, respondia pelo conglomerado que incluía a Rádio Panorama e a afiliada da Rede Globo, TV Panorama (hoje, parte da TV Integração). Na opinião de Muanis, a experiência de Wilson Cid foi fundamental para manter a confiança da redação, fosse para sanar dúvidas históricas, ou de português, ou para evitar atritos possíveis que pudessem ferir os interesses do jornal. Adepto da correção e do bom senso, o experiente jornalista era capaz de manter a tranquilidade na redação e edição das reportagens. Já não é mais novidade que uma grande característica de Wilson é a capacidade de ser um emérito colecionador e contador de histórias da imprensa de Juiz de Fora. Muanis não trabalhou com ele em rádio, mas sempre ouvia repetidas e incansáveis vezes os “causos”, principalmente os erros e os vacilos cometidos no ar por radialistas e locutores. Além de reviver os fatos com fidelidade e teatralmente, o que provocava boas gargalhadas. A família de Muanis foi vizinha da família da futura esposa de Wilson Cid, Sônia, pelos idos de 1966, na parte baixa da Rua Doutor Romualdo. Ele era criança, mas suas irmãs se lembram de Wilson passando em frente à casa deles quando ia namorar. Viriam a se conhecer efetivamente em novembro de 1983, quando Muanis trabalhava na Tribuna de Minas e foi designado para cobrir o fechamento do Diário Mercantil. “Fui entrevista-lo e lembro-me dele sentado e com os pés sobre a mesa. O ambiente na redação, claro, era de enorme desolação. Afinal, ali chegava ao fim uma história de mais de 70 anos.” Depois disso, reencontrou Wilson nas conversas das rodinhas políticas das manhãs de sábado no calçadão da Rua Halfeld. Ali, começou a conhecer bastidores da história política da cidade os episódios curiosos de nossa imprensa. Nessas conversas estavam também presentes o advogado Florival Xavier de Souza e o jornalista Renato Henrique Dias. Algumas vezes, estiveram reunidos na residência do Florival, participando de encontros de proveitosa alimentação cultural e musical. Ainda hoje Muanis se refere a Wilson como “viga mestra do nosso jornalismo” e defende, ao lado da jornalista Christina Musse a importância de ele escrever suas memórias, contar suas histórias e repassar seu conhecimento. “Ele carrega consigo grande parte da 48

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memória de Juiz de Fora, uma cidade que se esfacela em Alzheimer”, comenta. Wilson fez boas amizades no Panorama e admiradores também. Silvia Carvalho, hoje assessora de imprensa da Igreja da Glória, está nesse grupo. Ela já conhecia a fama do jornalista desde a faculdade, mas foram conversar pessoalmente em 2005, sendo então contratada pelo jornal. Quando assumiu a edição, no ano seguinte, Wilson, então diretor do Panorama, foi quem a ajudou a superar seus medos. Era a pessoa em quem ela podia confiar, uma fortaleza para todos na redação. Enfrentaram tempos difíceis, coma a candidatura de Omar Peres à Prefeitura de Juiz de Fora. Mas nada disso abalava o bom humor de Wilson, que brincava o tempo todo na redação e acabava por tirar um pouco da tensão e do clima pesado. Histórias e mais histórias do jornalismo e rádio juizforanos. Sílvia destaca algumas frases lapidares do mestre, como: “Juiz de Fora é a única cidade em que a Coca-Cola e o Mc Donalds fecharam”, ou algo que representa, de forma excepcional, os tempos que vivemos: “Hoje, as pessoas têm muita informação, pouco conhecimento e nenhuma reflexão.” Wilson foi um verdadeiro mestre e amigo para Silvia, ao ponto dela ser convidada para almoços de natais na casa dele, porque os pais moravam em outra cidade. Há de se reconhecer que Wilson Cid é uma biblioteca ambulante. Tem uma memória excepcional, um acervo de dar inveja a qualquer devoto dos livros e artigos de jornal. “Sobre qualquer tema, ele sempre tinha algo do passado para fazer a relação. Política, então, acho difícil outra pessoa que tenha convivido e conviva com tantos partidos, ideias e ideologias, sem que nada disso atrapalhe seu relacionamento com todos eles. Isso é o que pode se chamar de imparcialidade”, opina Sílvia. O Panorama foi a primeira e grande experiência de Wilson com o jornal gratuito. Com sua repercussão, foi o principal responsável por fatos inéditos na cidade, a destituição do prefeito, e a redução da tarifa de transporte coletivo. O periódico poderia ter continuado, não fossem os erros de avaliação e estratégia do projeto megalomaníaco inicial. Wilson continuou em seu cargo na direção até o último dia do JF Hoje, em 31 de outubro de 2010. 49


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As últimas experiências de Wilson Cid com jornais impressos foram no JF Hoje e no semanário Ter Notícias. Também gratuito, o periódico era impresso no Rio de Janeiro e distribuído em Juiz de Fora no formato tablóide, mas não houve sustentação publicitária e as coisas ficaram inviáveis. Em julho de 2013, o Ter Noticia fechou, mas não por causa da perspectiva visionária que Wilson Cid possuía para perceber o potencial de leitores em uma cidade das proporções de Juiz de Fora. “A cidade não tem 15 mil leitores, é pouco, mas é uma cidade universitária, de expressão estratégica, da indústria, do comércio, deveria ter um grande mercado para se ler jornal, tanto que deu resultado”, comenta. Às 6h, a Praça da Estação estaria cheia, com pessoas fazendo fila esperando o jornal, que chegava do Rio e começava ser distribuído. Uma parte da população que não teria condições de comprar o jornal tinha acesso à informação e isso já valeria muito a pena para Wilson. Longe das redações, Wilson continua escrevendo em um blog, Diário da Cidade, um esforço para não se afastar da comunicação. O novo instrumento, por sua vez, possibilita a uma certa liberdade para suas publicações, quase sempre políticas. As atualizações não são feitas constantemente, por falta de tempo. Wilson não aborda questões pessoais, nem dele e nem de outras pessoas, uma característica, aliás, que não faz parte do perfil discreto e requintado que possui. O jornalista cultua a escrita à moda antiga, e as novidades que a tecnologia oferece ainda estão um pouco longe de sua preferência. Em certa ocasião, na campanha de Itamar Franco para o Senado, o ex-presidente o convidou para um café. Conversaram por horas sobre o grande desafio que a sociedade enfrenta, a questão da preservação da privacidade. Na visão de Wilson, quando abrimos mão da privacidade, abrimos mão de tudo, ao ponto que os recursos tecnológicos de hoje terminam por agredir e controlar as pessoas. O jornalista ainda enxerga outro fator limitador no apelo excessivo da tecnologia, a sedução das facilidades oferecidas por assessoriais e meios de comunicação oficiais. “Existem repórteres

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Jornais, Jornais Jornais...

que preferem ver o release da reunião da Câmara do que estar lá, encarando o vereador e conversar com ele. Em outras épocas, apesar de certo amadorismo, tinha-se mais ânimo. Não contávamos com o apoio da internet ou de qualquer outra tecnologia. Isso começou a ficar pior quando veio o telex. Criamos uma dependência, não tiramos o jornalista da redação”, avalia. Nas entrevistas que concede, Wilson nunca deixa de estimular a leitura, principalmente dos clássicos. Sua intimidade com o papel é indiscutível. Recentemente, conta que ganhou um tablet de presente, mas não se familiarizou nem um pouco. Mesmo reconhecendo o progresso da tecnologia, o jornalista acredita que um novo formato não precisa necessariamente substituir outro. “O recurso eletrônico ao mesmo tempo em que, te aproxima te distancia”, diz, exemplificando com um episódio testemunhado recentemente. Certo dia, Wilson foi encontrar um amigo que levou a namorada, num restaurante. Em uma mesa próxima, chegaram quatro moças, todas elas com celular em mãos. Apesar de estarem sentadas uma ao lado da outra, ninguém deu uma palavra. Wilson ficou impressionado com a cena, sem conseguir entender como a fala se reduz a poucos gestos e elimina o prazer de estar em boa companhia.

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Wilson Cid, Ricardo Mello, Beatriz Inhudes e Geraldo Muanis no Jf Hoje ( Arquivo Geraldo Muanis)

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Wilson Cid e Cristina Musse. (Arquivo do Acessa.com)

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carnaval de 1950 não foi marcado apenas pela folia, mas pelo incêndio que destruiu um dos prédios emblemáticos da cidade, a sede do Clube Juiz de Fora, localizado na esquina da Rua Halfeld com a Avenida Rio Branco. Apesar de não ter deixado vítimas, a destruição de um marco tão conhecido foi um grande susto para a população. A visão dos escombros permanece viva na memória de Wilson Cid. Criança na época, ele desceu o Morro da Glória, onde morava sua família, de mãos dadas com o pai, avistando o local ainda em fumaças. Nunca se esqueceria das várias pessoas que se reuniram no entorno para olhar as ruínas do edifício. Por conta de influências de colegas de redação, Wilson se aproximou de entidades culturais da cidade, se engajando na preservação da história local. Entre outras coisas, tronou-se membro idealizador do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Comppac), secretário do Conselho de Amigos do Museu Mariano Procópio, ex-presidente do Instituto Cultural São Tomaz de Aquino e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora, onde foi presidente por duas vezes. Wilson também foi nomeado a participar da Comissão da Verdade, além de ter sido vice-presidente do Centro Cultural Pró-Música. Algumas das reuniões de criação da entidade, aliás, aconteceram na casa do jornalista, com a presença de seus fundadores, Hermínio e Maria Izabel de Sousa Santos. Wilson também é autor de um artigo, publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico, sobre a história econômica de Juiz de Fora, no qual enfatiza muito a importância do imigrante com formação protestante, como os alemães que vieram para a cidade. Com seu empreendedorismo, esses personagens marcaram uma fase importante no desenvolvimento industrial dos pequenos negócios que dominaram Juiz de Fora na virada do século XIX para o século XX. Wilson possui certo saudosismo dessa movimentação econômica que a cidade perdeu, não só porque as gerações de imigrantes hoje são outras, mas também porque os “quatrocentões” da terra perderam esse espírito empreendedor. Wilson se interessou em reunir, arquivos de jornais e rádio de JF, na 55


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tentativa de ajudar a classe, a criar “A Casa da Imprensa” sendo uma ideia que o persegue junto a outros idealizadores . A publicação de um livro também já figurou entre os projetos do jornalista, mas a empreitada acabou na gaveta. No entanto escreveu muitas crônicas e também contribuiu com alguns volumes do Instituto de Pesquisa e História e para Pró-Reitoria de Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora, para o livro “Diálogos Abertos”. Adepto da boa música e literatura, Wilson. Não acompanha futebol, nem filmes e as novidades do cinema, o que não quer dizer que não goste de ambos. Afirma não conhecer muito de arte, mas sabe o que lhe agrada ou não. O jornalista não tem pudores de assumir que acha certa sinfonias chatíssimas, mesmo sob elogios da crítica. Não abre mão de degustar os livros de Guimarães Rosa, Cervantes, Machado de Assis e Manuel Bandeira, assim como as atuações de Laurence Olivier no cinema. Varia da MPB, como Paulinho de Viola, Dalva de Oliveira, Noel Rosa, Raul Seixas e Villa Lobos a consertos de Mozart. Wilson afirma gostar especialmente da obra memorialística de Pedro Nava, escritor que admira e com quem conviveu em particular. Considerado o maior autor do gênero no Brasil, Nava conta, a partir do seu primeiro livro Baú de ossos, variados episódios de Juiz de Fora. O jornalista lembra que era convidado pelos intelectuais da cidade para participar de encontros com o escritor. Ao conversar com ele algumas vezes sobre a experiência da cidade, descobriu um homem crítico sobre as famílias tradicionais do município. Wilson, a propósito, tem um acervo pessoal de literatura e fotografia incalculável em termo de riqueza, muito bem organizado na sua casa. Wilson sempre consegue ratificar a mostra de um homem íntegro, quanto se trata de profissão julga que falsear a verdade é extremamente antiético. A verdade, às vezes, pode nem sempre ser dita, mas falseá-la e deturpá-la é ferir a ética, em sua opinião. O jornalista visualiza um novo conceito em relação à concorrência pela primazia da notícia, “a evolução do furo”. De acordo com ele, não basta dar a notícia em primeira mão, mas fazê-lo de forma completa, contextualizando o fato com suas consequências e desdobramentos geográf56

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icos. O que é acrescentado a essa informação supera a exclusividade do furo. “A TV já noticiou na frente. Para que dar no jornal apenas o registro da eleição da Criméia, se a televisão ontem já esgotou esse assunto? Então, deve haver ter alguma coisa a mais, o diferencial sobre tal assunto. Quem sabe aqui na colônia do Bairro São Pedro, more alguém que é dessa região. Isso se torna um plus da matéria. É o que pode destacar o profissional e tornar a matéria dele melhor do que a do colega, embora o outro tenha dado o fato antes”, analisa. Wilson Cid também é a favor do jornalismo opinativo, no entanto mais importante que opinar e analisar seria contextualizar. “O jornalismo opinativo pode ser de um grupo ou uma corrente, já o jornalismo analítico enriquece e abrange os fatos”, diz. Wilson não costuma ver muita televisão, no entanto, assiste esporadicamente alguns telejornais. Opina por assistir programas de entrevistas e debates inteligentes, no qual consegue visualizar questionamentos e discussões aprofundadas que tanto ele frisa. Depois de vários anos de profissão, o jornalista se aposentou, mais ainda sim trabalha paralelamente, como coordenador de projetos Culturais da FUNALFA. O convite veio do prefeito Bruno Siqueira, para auxiliar no início de 2014 na assessoria de imprensa da instituição. Diante da experiência nova, Wilson confessa dificuldades em se adaptar com questões burocráticas, diferente dos jornais. Mais do que amor ao Rádio e o jornalismo como um todo, só o amor à família. Quando ainda jovem, aos 26 anos, Wilson foi apresentado a Sônia Maria de Andrade com 23 na época. Filha de fazendeiros, a moça seria a companheira de Wilson por décadas, até seu falecimento, no início de 2014. Dois anos depois de casado, o casal teve sua primeira filha, Giselle Cid. A partir daí, Sônia se dedicaria inteiramente à família, sem deixar de reservar espaço para cursos artesanais, no manuseio da porcelana, ornamentação de flores, frutas e pinturas. Sempre muito amáveis, eram um casal admirável. Ela precisaria, por muitas vezes, aguentar a ausência do marido por conta do trabalho, em noites em claro nas redações e em viagens para fazer co57


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berturas. Depois de Giselle, Sônia engravidou mais uma vez, de um menino, Alexandre. Mas outra gravidez viria, inesperada. Wilson nunca tirava férias, sempre o serviço o comprometia. Mas, certa vez, conseguiu uma folga para viajar com a família para Cabo Frio. Na volta, para surpresa de todos, o jornalista tinha deixado um cartãozinho no lustre da sala anunciando a gravidez de sua amada Sônia, o mais novo membro da família, Gustavo Cid. Sempre caprichosa, Sônia assumiu o comando da casa, incluindo as finanças da família, enquanto Wilson não fazia a mínima ideia de quanto custava um pão. Quando chegava o Natal, o marido sempre aparecia depois do plantão, trazendo um convidado. Sônia se descabelava e tinha que botar a famosa água no feijão. A casa da família sempre foi algo plural. As diferenças eram muito bem-vindas. Preconceitos, seja sobre homossexualidade, cor ou religião, eram discutidos e respeitados. “Havia um entre e sai de gente, um tráfego de pessoas estranhas e esquisitas, junto a artistas, comunistas, pessoas perseguidas pela ditadura, intelectuais entre outros”, relembra Giselle Cid . Em um ambiente como esse, os filhos de Wilson e Sônia sempre aceitaram bem a diversidade. As crianças da família Cid também tiveram outros privilégios. Testemunharam, por exemplo, o nascimento do Centro Cultural Pró-Música. Wilson era um pai que estimulava os filhos a terem uma percepção critica do mundo e uma visão mais global do que estava acontecendo em volta. Foram também estimulados a não ver só por uma perspectiva dos fatos e isso tornou os filhos com um nível de tolerância muito alto, em função de que não existe uma verdade absoluta e que há sempre outra versão. Instruindo-os em termo de formação do caráter, da personalidade e da orientação sobre uma visão libertária, democrática, reforçando um homem avesso a imposição e a censura. Wilson é intolerante à falta de intolerância. A casa de Wilson era lugar onde ninguém tinha hora para dormir. O jornal fechava muito tarde e a família sempre foi acostumada a ter um ritmo diferente. Apesar da flexibilidade, e da profissão consumir Wilson, ele nunca deixou de cumprir com suas funções paternais. A vida de jornalista

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era atribulada, mas, com tudo isso, não abria mão de levar sua prole para passear nas manhãs de domingo, de ir ao cinema, de tomar sorvete, de parar para comprar revistinha nas bancas, de andar no calçadão da Rua Halfeld e, ao final, passar na Catedral e na floricultura para levar flores para Sônia. É perceptível o amor que Wilson tem e o valor que ele dá à família e aos agregados. Com uma coleção de amigos, de todas as idades, sabe cultivá-los. A proximidade com o pai acabou por influenciar Giselle na escolha da profissão. Wilson advertia a filha, dizendo: “Você sabe muito bem o que é isso, você tem exemplo dentro de casa”. Mas a moça estava certa de sua opção. Além da rotina profissional, sabia que enfrentaria futuras comparações com o pai. “Sentia que tinha entrado numa fria, porque a comparação seria injusta, pois nunca chegaria aos pés de seu pai”, conta. Mas não era bem assim, Giselle era competente e tinha um grande professor para auxiliá-la. Os dois trabalhavam juntos em 1982 na Rádio Cidade; ela, como estagiária, fazia unidade móvel e um programa de debate com José Carlos de Lery Guimarães e Eduardo Almeida. Giselle veio para substituir o então candidato a prefeito Carlos Alberto Bejani, que trabalhava na emissora como radialista. No dia da eleição, os três ancoravam no estúdio, à espera de informações. Giselle, por sua vez, noticiava um típico caso de boca de urna. Quando sem querer, ela se refere a Wilson, chamando-o de pai. O experiente jornalista contornou a situação com naturalidade e descontração junto com os amigos Lery e Eduardo, em meio a risadas. Hoje, Giselle Cid é uma publicitária de renome em Juiz de Fora, Alexandre, o filho do meio, professor e economista e Gustavo advogado. Wilson e Sônia constituíram uma família impecável e, consequentemente, netos também. Segundo o jornalista, o papel de avô o surpreendeu e as crianças o tornaram uma pessoa melhor, “um tanto quanto bobo” em sua opinião. Apesar de ser o pai amoroso, sempre dizia para os filhos para não acharem que ele e Sônia iriam cuidar de netos, pois já tinha cumprindo suas obrigações. Aconteceu exatamente o contrário. O jornalista se mostrou um avô muito presente, ao ponto de fazer todas as vontades dos netos, até mais

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do que faria pelos filhos. “É até cômico imaginar seu Wilson brincando de cavalinho, literalmente de quatro, carregando os netos nas costas. Um dia, a neta liga às dez da noite para casa do vô pedindo “salaminho”, e o avô prontamente sai para fazer a vontade da neta Helena”, Giselle relata. Os netos são apaixonados por ele, até mesmo os netos que ele adotou, enteados de Giselle que o consideram, respeitam e tem um carinho imenso por ele. A vida de Wilson Cid foi recheada de muitos acontecimentos, dos mais inesquecíveis e desconcertantes, aos mais felizes e dolorosos, como a morte da sua mãe há 12 anos. O tempo foi passando e outra notícia lamentável abalou a família: sua esposa Sônia estava com câncer. Wilson ficou ao lado de sua companheira durante todo o tratamento, sempre muito atencioso, e habilidoso na hora de trocar curativos, dar banho, e ajudar Sônia a andar, lavar louça, limpar a casa e preparar as refeições. Os filhos também cuidaram da mãe com todo cuidado e carinho. Giselle foi incansável, em todos os sentidos. Sônia ficou hospitalizada por algum tempo, mas veio a falecer no dia 6 de abril de 2014, vítima dessa doença tão agressiva quanto seu tratamento. Wilson perderia a rotina que tinha há anos, perderia fisicamente a mulher que o amava e que dividia todos os momentos por décadas, mãe, amiga e companheira. Giselle conta que é comum responder a entrevistas sobre seu pai como jornalista, mas que raramente foi solicitada falar dele como pai. Conforme a publicitária, quem vê Wilson pela primeira vez, tende a achálo com um ar carrancudo. Conclusão equivocada, segundo ela. Wilson é, na verdade, um indivíduo extremamente divertido, com humor refinado, com sagacidade desconcertante, rapidez de raciocínio e humor ferino. Sorte de quem o conhece a fundo, podendo presenciar suas artimanhas e teimosias. Wilson não anda de carro, aliás, ele não dirige e prefere andar a pé, o que tem lhe rendido uma saúde de atleta, conforme as avaliações médicas. Além das caminhadas pela cidade, joga bola “só para constar”. Da última vez que participou de uma partida de futebol, quebrou o pé. Seus verdadeiros esportes são a leitura e a política. Não é surpresa que até hoje 60

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escreva sua cartas e as mande pelos correios do modo tradicional. Não se familiarizou com a internet, permanecendo praticante de hábitos que instigam o imaginário de jovens jornalistas e evocam o estereótipo do cinema americano, do repórter movido a máquina de datilografia, café e cigarro. Vários colegas de Wilson ouvidos para este trabalho destacaram seu nome como um grande exemplo de profissional em Juiz de Fora, alguém que viveu exclusivamente do jornalismo a vida toda, não exercendo outra profissão. Ainda assim, conseguiu criar filhos e sustentar a família. A esse respeito, Wilson gosta de citar o filosofo Confúcio: “A vantagem de quem faz o que gosta, é que não trabalha”. Wilson Cid carrega consigo a cultura, as histórias e a memória de Juiz de Fora. Católico praticante, não deixa de ir à missa todos os domingos. Recentemente, visitou o Vaticano. Assistiu missa em Croata. Gostou da experiência de estar em um dos lugares mais importantes do catolicismo, mas sentiu falta da terra que escolheu como sua, Juiz de Fora, lugar de muitos recortes memoráveis, conversas de botequim e reencontros com os velhos amigos. “Para sair de Juiz de Fora, só se levar a Rua Halfeld comigo. Recentemente, fui a Roma, achei tudo muito bonito, fiquei encantado com o Vaticano, mas achei que faltava ali a Rua Halfeld. Se tivesse a Rua Halfeld com o bate-papo...” Wilson Borrajo Cid contribuiu e contribui para a memória de Juiz de Fora, sua capacidade de atuação intelectual e profunda, o qualifica e certifica o quanto ele pode agregar para os jovens estudantes de jornalismo. Ele é um ser incansável no que se remete a busca pelo conhecimento, não importa quais os tipos de entrevistas, sempre Wilson vai reafirmar a motivação pela leitura e o sonho de voltar a ser feliz por completo como ele foi ao rádio.

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Casamento do filho Gustavo ( arquivo de família)

Giselle quando criança ao lado da mãe Sônia, amigos e Wilson a direita. ( arquivos de família)

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Wilson e a esposa S么nia, com netos, Helena e Gabriel ( arquivo de fam铆lia)

Foto: Ant么nio Olavo Matos, o Cerezo.

Wilson e netinho ( arquivo de fam铆lia)

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Giselle Cid criança, com o pai (arquivo de família)

Giselle , Sônia e Wilson (arquivo de família)

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Agradecimentos O nascimento de um livro só existe porque nele várias pessoas contribuíram. Desde o primeiro dia em que idealizei esse projeto, posso dizer que as noites não foram as mesmas, nem os dias. Foi como nascimento de filho, que não deixa você repousar tranquilo. Mas, num piscar de olhos, a criação vai se desenvolvendo e os caminhos vão se tornando trafegáveis. Aparecem pessoas que oferecem a mão e voltam a ser aqueles aprendizes de jornalista, aqueles em que o nervosismo toma conta, mas a audácia impera. Esses anjos atenciosos não só me ajudaram, mas se envolveram com o tema, motivando e aprovando a ideia. Confesso que a humildade e a gentileza, com a ausência da falácia, me ajudaram. Ninguém a quem procurei se mostrou desinteressado e não se propôs de alguma forma a compartilhar esse nascimento. Chico Brinati, por ter me apresentado o jornalista Geraldo Muanis, que, por sua vez, me apresentou a história do Diário Mercantil. Ele demonstrou confiança em meu trabalho ao me entregar sua relíquia: uma edição da Tribuna de Minas de 1985. Muanis também me apresentou Humberto Nicoline, que, mesmo por telefone, também deu sua contribuição. Todos me cederam fotos, me indicaram discretamente como se faz. Entretanto, jamais esqueceria meu orientador e crítico da obra, Léo Toledo. No começo, achou a iniciativa ousada, mas acreditou em minha capacidade e me ensinou o caminho. Agradeço, também, ao jornalista Paulo César Magela, pelo tempo doado e a Silvia Carvalho, que, do mesmo jeito que me parabenizou pela ideia, contribuiu para que a biografia de Wilson Cid fosse contada com total capricho. Não posso esquecer, claro, de meu professor Antônio Carlos da Hora, responsável por meu primeiro contato pessoal com Wilson Cid. Jamais poderia deixar de citar meu biografado, o jornalista memorável.Wilson Cid, referência de comunicador e representante nato da imprensa Juiz-forana, a quem dediquei minha busca para mostrar os percalços e a trajetória brilhante de um jornalista. Sempre muito presente em minha pesquisa, soube colaborar com total interesse para que esse livro fosse rico

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Agradecimentos

de informações. Soube, também, se acostumar ao longo dos meses com minhas ligações inesperadas, sempre que as dúvidas apareciam. Agradeço à Giselle Cid, sua filha, que foi de total simpatia, me recebendo, respondendo minhas buscas e se mostrando solícita para que esse projeto se concretizasse. Esse livro foi composto por uma série de atributos, e não nasceria com tanta força se não fosse minha inspiração chamada Helena, a filha que me pressiona com o olhar e me obriga mesmo que sem saber, a ser uma jornalista competente. Ele não nasceria se não fosse o medo que sentia na barriga, revertido pelo apoio que tive da minha família: pai, mãe, irmã, marido e alguns amigos. Aliás, sempre que possível, dedico meus trabalhos acadêmicos à Esperança, minha mãe tão confiante em minhas aptidões para a escrita, seus elogios às minhas poesias quando criança não foram em vão. Mal sabia ela que estava moldando uma escritora com o olhar de admiração. Bem, “Universo Memorável” se tornou um filho, e seu desenvolvimento deve-se aos que impulsionaram e acreditaram no meu velho sonho de escrever um livro. De nada adiantaria se não fosse composto por tanta gente atenciosa e generosa. Meus agradecimentos poderiam ser eternos, porque esse é apenas o começo de uma longa trajetória.

Samara Coelho

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Bibliografia NEVES, José Alberto Pinho. Diálogos Abertos. Juiz de Fora: Rona, 2012 VILAS BOAS, Sérgio. Biografias e Biógrafos. São Paulo: Summus, 2002 . JUNIOR, Luiz Carlos Pereira. A Apuração da Notícia (Métodos da Investigação na Imprensa) Rio de Janeiro: Vozes, 2010. ARAÚJO MEDINA, Cremilda. Entrevista, O diálogo Possível. São Paulo: Ática, 2005. PIZA, Daniel. Jornalismo Cultural. São Paulo: Contexto, 2009. BELO, Eduardo. Livro Reportagem. São Paulo: Contexto, 2006. FLORESTA, Cleide e BRASLAUSKAS Ligia. Técnicas de reportagem e entrevista em Jornalismo, Roteiro para uma boa apuração. São Paulo: Saraiva, 2009. OLIVEIRA, Livia Fernandes de. TV Mariano Procópio, Representação e Pioneirismo Na História Audiovisual de Juiz de Fora. Rio de Janeiro: E- papers, 2008. (Fontes Consultadas) www.tribunademinas.com.br http://diariodacidadewilsoncid.blogspot.com.br/ http://www.pjf.mg.gov.br/ http://www.pjf.mg.gov.br/funalfa http://jfemfoco.blogspot.com.br http://www.acessa.com/arquivo/jf150anos/3105/ http://www.mariadoresguardo.com.br/ 67


Universo memorĂĄvel de Wilson Cid foi composto de fonte Baskerville regular o miolo impresso em polen 80g e a capa em couchĂŠ 320g, sendo a impressĂŁo de 2 exemplares escrito por Samara Coelho, impresso em junho de 2014.

Modelo 2  
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