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ENTREVISTA André Dubeux fala sobre SUS, crise na saúde, fiscalizações e ações sociais CRIANÇAS DESAPARECIDAS Representante do CFM e Cremepe é recebido pelo Papa Francisco NOVIDADES Música, cinema, culinária e livros

MICROCEFALIA Não à transferência de culpa e apoio às mães e bebês


EDITORIAL UNICEF/REPRODUÇÃO

Falta de saneamento básico na maioria dos municípios brasileiros é uma das causas principais de doenças

NOVOS DESAFIOS D epois de 13 anos de circulação, foi encerrada a edição da revista Movimento Médico, que reunia numa só publicação notícias do Cremepe, Simepe, Ampe, APMR, Fecem e APM. Durante mais de uma década, Movimento Médico cumpriu seu papel de levar à categoria médica informações com base na ética e na verdade. Como tudo na vida tem começo, meio e fim, chegou a hora de se pensar num novo projeto editorial, mas que mantenha na sua essência esse mesmo objetivo . Foi assim que surgiu a Revista do Cremepe, uma publicação do

Conselho Regional de Medicina de Pernambuco, com 40 páginas, uma diagramação mais arrojada e notícias mais concisas para deixar a leitura mais leve e mais dinâmica. Em sua primeira edição, o leitor vai perceber que há novos espaços com dicas de cinema, música, livro e culinária. Para estabelecer uma linha de mais interatividade, o médico será incentivado a enviar para publicação artigos sobre diversos temas da área de saúde pelo site www.cremepe. org.br. Nesta primeira edição da Revista do Cremepe, o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco mostra

sua indignação com as políticas públicas adotadas pelos Governos Federal e Estadual para combater o surto das arboviroses (Dengue, Zika e Chikungunya). As discussões e o planejamento para seu enfretamento baseiamse superficialmente no combate ao vetor, colocando a culpa na população pela proliferação do mosquito Aedes-Aegypti. A posição do Cremepe é contrária à terceirização dessa culpa. Um problema de tamanha dimensão mereceria por parte da União mais investimentos financeiros para melhorar a oferta de água à população pobre e sanear a periferia das cidades, duas causas diretas da proliferação do mosquito transmissor da Dengue, Zika e Chikungunya. Se o problema fosse atacado na sua raiz — falta d’água e de saneamento básico —, essa forma de combate estabelecida pelo Poder Público não teria apenas o efeito paliativo. Em cada editorial da Revista do Cremepe, o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco vai deixar bem claro o seu posicionamento sobre os problemas que afligem a saúde da população pernambucana!

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SUMÁRIO MARIANA ARÁUJO

FOTOS: HANS MANTEUFFEL

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ARTIGO A relação do médico com

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ENTREVISTA André Dubeux fala sobre temas de interesses da população e dos médicos

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CAPA O mosquito que ataca uma população sofrida e indefesa

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ESPECIAL A evolução do Cremepe nessas quase seis décadas de existência

o paciente e a tecnologia

26 JURÍDICO Os limites da atuação do estudante de Medicina 28 PATRIMÔNIO A riqueza cultural do Cavalo-Marinho 32 GASTRONOMIA Um espaço para levar o médico à cozinha 35 ARTE & CULTURA As dicas para deixar todo mundo antenado com os livros, filmes, artes visuais e música 40 HISTÓRIA Como era o tratamento da pólio na época de nossos bisavós

EXPEDIENTE

COLABORADORES

PRESIDENTE DO CREMEPE André Dubeux VICE-PRESIDENTE João Guilherme CONSELHO EDITORIAL André Dubeux João Guilherme Ricardo Paiva

JOAQUIM GUERRA Advogado, com especialização em Direito Público e assessor jurídico do Cremepe

MARIANA OLIVEIRA Professora da Maurício de Nassau e editora executiva da revista Continente

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MARIANA ARAÚJO Atua nas áreas de jornalismo cotidiano, social e político, além de assessoria de comunicação

LUIZ ARRAIS Designer, autor do projeto gráfico da revista, trabalha na área de produção editorial

EDITORES Mayra Rossiter Joelli Azevedo Ítalo Rocha

REPORTAGEM Mariana Oliveira Mariana Araújo PROJETO GRÁFICO E ARTE Luiz Arrais IMPRESSÃO CCS Gráfica TIRAGEM 15.500 Exemplares Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores.


OPINIÃO WILSON OLIVEIRA JR Professor Adjunto Regente da Disciplina de Cardiologia da UPE. Médico Cardiologista do Procape-UPE. Membro da Câmara Técnica de Cardiologia do CFM

Relação Médico & Paciente & Tecnologia

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REPRODUÇÃO

ara a Medicina contemporânea, é certo que os avanços tecnológicos trouxeram benefícios irrefutáveis no diagnóstico e tratamento das doenças. Sem desconsiderar essas vantagens, é necessário, no entanto, evitar o deslumbramento ingênuo de alguns profissionais pela utilização de sofisticados exames, acreditando que o seu emprego produza uma Medicina à prova de erros. Sem dúvida, o médico atual domina técnicas de precisão e tem a sua disposição equipamentos sofisticados. Por outro lado, parece faltar-lhe uma correspondente capacidade na compreensão do doente como pessoa. A Medicina, como nossa sociedade, vive o tempo da tecnolatria. No entanto, ao abordarmos dessa forma o emprego da tecnologia, não significa que a estamos demonizando, entretanto, o seu uso sem senso crítico e com ausência de habilidade humana, pode ser mais prejudicial do que benéfico. Portanto, a tecnologia na prática Médica não deve ser utilizada como fim, e sim como meio. Infelizmente, metaforicamente podemos pensar se ocorre, na prática médica, uma inflação de tecnológica e deflação humana. Inquéritos revelam que o maior impacto avaliado pelos pacientes relacionados ao médico não se refere à adoção de tecnologia de ponta em seu tratamento, mas, sobretudo, a uma relação médico-paciente empática. Frequentemente, consensos e diretrizes analisam a abordagem da

doença, mas negligenciam aspectos psicossociais da pessoa doente, o que pode influenciar diretamente na forma como os pacientes aderem ou não à decisão terapêutica. Vale lembrar que o efeito terapêutico do encontro médico-paciente harmônico também impacta positivamente na adesão ao tratamento. Tratar a pessoa doente é mais do que conhecer apenas a doença. Parafraseando William Osler, que no século XIX, já afirmava: “Que tão importante como conhecer a doença, é entender quem tem a doença”. É imprescindível que a relação médico-paciente seja estabelecida dentro de um clima de empatia, no qual por um lado, o paciente possa expor suas dúvidas, temores e angústias e, por outro, o médico também possa compreender o que realmente está se passando com o paciente, em nível físico e emocional, uma vez que todo ser humano é produto de um complexo que envolve o biológico, o emocional e o social. Infelizmente, constatamos, com tristeza, que o atual currículo médico, em que pesem alguns avanços, dedica pouca importância à formação humanística do médico. Continua privilegiando o lado organicista e tecnicista, em detrimento de uma formação mais abrangente, podendo propiciar a formação de profissionais humanamente despreparados. De tudo o que foi dito, podese concluir que, embora o avanço tecnológico deva ser utilizado, as máquinas jamais poderão aquilatar e compreender o sofrimento do paciente, tampouco sanar os seus temores, porque apenas um ser humano é capaz de cuidar e entender outro ser humano.

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E N T R E V I S TA

André Dubeux 4 | REVISTA DO CREMEPE


“A parte social talvez seja uma das ações mais importantes do Cremepe: as Caravanas sobre a saúde dos canavieiros, do sertanejo, do sistema prisional e a campanha pelas crianças desaparecidas” A NOVA GESTÃO, QUE COMANDA O CREMEPE ATÉ 2018, ESTÁ TRABALHANDO PARA SE APROXIMAR MAIS AINDA DOS MÉDICOS, TRAZÊ-LOS PARA DENTRO DO CONSELHO E RESGATAR A ESSÊNCIA DE UMA MEDICINA MAIS HUMANIZADA | ENTREVISTA A MARIANA OLIVEIRA

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urologista André Dubeux assumiu a presidência do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco no último mês de abril. Ele já fazia parte da diretoria e, nos últimos dois anos e meio, havia atuado como vice-presidente. Foi o fascínio pela atuação de seu pediatra, ainda criança, que fez com que ele, filho de um contador e de uma dona de casa, optasse pela Medicina. “Minha magia pela área começou com o meu pediatra Dr. José Wanderley. Tinha uma grande fascinação por aquela pessoa vestida de branco que através de um exame clínico conseguia dar um diagnóstico”. André Dubeux entrou no curso de Medicina da Universidade de Pernambuco em 1984, aos 17 anos, concluindo o mesmo em 1990. Seguiu depois para a residência em cirurgia geral no Hospital Agamenon Magalhães. Na metade do curso, o médico já passou a cogitar a possibilidade de seguir os estudos buscando uma especialização em cirurgia vascular ou urologia. “No final do segundo ano de residência, decidi fazer urologia no Hospital Getúlio Vargas. Fiz essa opção pela possibilidade dos transplantes renais e

de unir cirurgia com a prática clínica. Essa era uma especialidade que aliava a clínica e a cirurgia. Hoje sou apaixonado pela urologia”, conta. Segundo o presidente do Cremepe, a Medicina se aperfeiçoou demais e a área urológica também. Na época da sua residência, para se retirar um cálculo renal se fazia uma cirurgia de grande incisão, era preciso até tirar uma costela, hoje existem as cirurgias por vídeo e a cirurgia robótica. Além disso, a especialidade se torna ainda mais desafiadora pelo fato de o médico terminar se tornando o clínico do homem. “É um ambiente repleto de muito tabu, com as disfunções sexuais, tanto eréteis como de orgasmos. Há muitos conflitos e não é fácil fazer o homem se abrir. Então, quando conseguimos isso, é uma vitória. Eu tenho pacientes que me ligam para falar de outros problemas que nem sempre têm a ver com a medicina. Nesses 26 anos de prática clínica, tenho muitas histórias para contar. Não me arrependo de ter escolhido a Medicina apesar das péssimas condições de trabalho que encontramos. Apesar do glamour e de todo o romantismo que a envolve, a prática é complicada. Muitas vezes o médico é mal interpretado

pelos pacientes e pela sociedade como um todo”, pontua. Nesta entrevista para a primeira edição da Revista do Cremepe, o novo presidente destacou as metas da sua gestão, falou de temas que julga pertinentes no contexto médico e anunciou as ações que vem desenvolvendo e que pretende dar seguimento nos próximos anos.

RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE Fui de um tempo em que o médico era amigo da família. Você ligava para a casa dele. Mas, nesse momento, a profissionalização da área foi tamanha que separou essa relação entre médico e paciente, que deveria ser pautada e solidificada na confiança e no amor. Infelizmente, a desumanização da Medicina é um fato. Eu acho que as escolas médicas tiveram um papel nisso. Boa parte delas (não todas) deixou de ter essa humanização como eixo. Eu vejo muitos colegas dizendo e reproduzindo em sala de aula ou para os seus residentes que o paciente é seu maior inimigo. Eu não consigo fechar essa conta. Pelo contrário, acho que o paciente tem que ser seu maior amigo. Assim, a verdade sempre vai prosperar. A relação humana tem que ser a base.

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E N T R E V I S TA A comunicação na medicina está muito ruim. Um conjunto de fatores nos levou a esse momento de desassociação de uma medicina praticada há uns 40 anos, quando o médico se tornava o membro da família. Hoje se trata de uma questão meramente de formalidades. No intuito de rever isso, estamos fazendo parcerias com as escolas, através da Escola de Ética Médica. Lógico que não vai se ensinar ética e humanismo, seria utopia da minha parte acreditar nisso, já que essas questões têm muita relação com a instituição família. Mas todo o sistema dos Conselhos precisa buscar a prática

hospital. E eu pensei em como leválo até lá passando pelos seguranças do hospital. Comentei com meus colegas e todos acharam que eu estava louco, que se fosse pego seria expulso ou suspenso. Não desisti. E levei Gilmar ao Hiper para fazer um lanche, comer uma coxinha. No outro dia, ele fez uma biópsia de fígado e morreu. Claro que eu poderia ser rotulado de irresponsável, mas, muitas vezes, temos que sair do script. Medicina não é receita de bolo. Você dando uma mesma receita para três pessoas distintas, teremos resultados diferentes. Cada paciente

“A fiscalização é uma prioridade, está dentro das funções do Conselho e vai seguir acontecendo nos hospitais privados e públicos” de uma Medicina mais humanizada e menos burocrática e isso começa nas escolas médicas.

UMA HISTÓRIA Se eu pudesse contar uma situação marcante de minha vida na área da Medicina, seria uma que aconteceu no rodízio de pediatria do Barão de Lucena, em 1988, e eu era o responsável por um paciente chamado Gilmar, de 13 anos, que tinha leishmaniose. Um dia esse menino me falou que seu maior sonho era conhecer o Hiper Bompreço da Caxangá, que fica ao lado do

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é um. A Medicina precisa do seu lado humanístico. Tenho certeza que Gilmar, onde quer que ele esteja, ficou satisfeito com a realização do seu desejo.

SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE O SUS foi a maior conquista social desse país, mas ele vem se deteriorando e se não tomar cuidado ele pode ser um dos maiores empecilhos para o atual governo. Na verdade, o ministro Ricardo Barros é um engenheiro. Ao assumir o Ministério da Saúde, ele procurou o Conselho Federal de Medicina, na pessoa do presidente

Carlos Vital, confessou que não entende da área e que vai precisar de assessoramento. Provavelmente, ao assumir, ele deu algumas declarações controversas. Mas ele disse também que precisa de dinheiro. Ele foi o relator do orçamento e de números ele entende. Hoje, a saúde pública envolve transplantes, assistência primária e até a violência urbana. As agressões por arma de fogo, por exemplo, levam muitos às emergências. Temos armas cada vez mais potentes e há um impacto direto na saúde pública, assim como a questão dos acidentes com motos. É uma bola de neve. A saúde precisa estar inserida dentro do contexto do Planejamento, da Fazenda, da Previdência Social e até mesmo da segurança pública, porque está tudo interligado. Outro ponto importante que está sobrecarregando o SUS ainda mais é uma grande parcela da população que deixou de ser atendida pela saúde suplementar nesses tempos de crise, ou porque deixou de pagar o Plano de saúde ou porque foi demitido. Isso gera mais procura pelo serviço público.

FISCALIZAÇÕES A fiscalização é uma prioridade, está dentro das funções do Conselho e vai seguir acontecendo nos hospitais privados e públicos. Recentemente, visitamos o Hospital Getúlio Vargas junto com um representante do Ministério Público. É diferente ver in loco, do que simplesmente receber um papel. O papel não sangra. Estivemos na emergência, que está funcionando na metade de sua capacidade, pois parte dela está interditada. A sala de recuperação lotada, as condições gerais péssimas. Também estive no Ulysses Pernambucano. O hospital é uma vergonha. Quando eu digo isso, quero dizer que atenta contra a dignidade humana. É um prédio tombado pelo Iphan, com problemas de mofo, infiltração, sistema elétrico


e sanitário deficiente, um horror. Já estamos tomando as devidas providências. O Hospital de Buíque foi o último interditado, porque estava com escalas médicas incompletas. As fiscalizações são um desafio e trabalhamos em parceria com a Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária e com o Ministério Público. Essas instituições são um grande alicerce, nós estamos também tentando que os outros conselhos de classe se juntem a nós. A exemplo do Corem, o Conselho de Enfermagem, do Crefito, de Fisioterapia, o de Nutrição, o de Farmácia, na tentativa de uniformizar as ações, ainda que cada um tenha a sua especificidade.

SOCIAL A parte social talvez, hoje, seja uma das coisas mais importantes do Cremepe. O CEAC promove várias ações, inclusive as caravanas, como aquelas voltadas para a saúde dos canavieiros, ou no sistema prisional, ou abordando questões como abuso sexual. Agora estamos focados nessa questão das crianças desaparecidas. A cada 15 minutos uma criança desaparece no Brasil. Esse é um número muito alarmante, pois a maioria delas não é encontrada, e há uma relação direta com a questão do tráfico de órgãos, tornando essa questão mais próxima da Medicina. Nós estamos nessa campanha para conscientizar a população sobre esse assunto. Nas visitas aos órgãos jurídicos, estamos buscando usar a capilaridade deles no Interior para divulgar ainda mais esse problema.

CARAVANAS A gente está pensando em fazer uma caravana, no segundo semestre, relacionada à microcefalia e à assistência a essas crianças, desde a questão médica até a questão social. Ricardo Paiva está planejando isso. Este

ano, nós fizemos uma visita a algumas unidades prisionais para ver como anda a incidência de algumas doenças negligenciadas como hanseníase e tuberculose nesses ambientes. E, para nossa surpresa, não foi tão ruim, a despeito dos problemas encontrados nesses presídios. Fomos na Colônia Penal Feminina do Recife, na Barreto Campelo e em uma das unidades do Aníbal Bruno. Estamos buscando uma aproximação maior com alguns órgãos jurídicos, como a OAB, o TJ, o TRT, o TRF, na tentativa de estreitar relações e poder discutir eventuais problemas na área médica com esse pessoal.

necessidade. O sistema conselhal e as outras entidades médicas aqui de Pernambuco (Ampe, Simepe, Academia de Medicina) estão unidas. E é preciso alicerçar isso, robustecer essa parceria para brigar por uma melhor gestão da saúde.

NOVA REVISTA Criamos a Revista do Cremepe, uma nova publicação editorial do Conselho que está agora na sua primeira edição veiculando esta nossa entrevista. Nosso desejo foi torná-la mais interativa, mais próxima do médico. Teremos, entre outras coisas, um espaço para

“É enorme o número de pacientes no SUS aguardando uma cirurgia. Emergências lotadas, faltam leitos, não se consegue agendar consultas” CRISE A crise é uma madrasta da saúde. É inegável que o contingenciamento de verbas na saúde termina impactando na assistência. É enorme o número de pacientes no SUS aguardando uma cirurgia, seja na urologia, cardíaca, ortopédica. Faltam leitos, não se consegue agendar consultas, emergências lotadas... Um conjunto de fatores causa essa situação. Não se pode olhar apenas a assistência, temos que atentar para os outros setores que impactam na saúde. Os médicos precisam discutir essas questões, não podem fugir dessa

assessoria jurídica, tirando as dúvidas dos profissionais, expondo os debates da Escola Superior de Ética Médica. Queremos estreitar mais essa a relação com os médicos. Tentar desmistificar a ideia de que esse órgão seja apena punitivo. Ele o é, mas não é só isso. Os conselheiros são médicos atuantes, que têm consultórios. Nós queremos trazer os médicos para dentro do Conselho, para discutir, conversar. Se eu conseguir fazer isso, será um grande feito. Toda a nossa diretoria não quer só ser receptiva, nós queremos ser propositivos e só conseguimos isso se ouvirmos os médicos.

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REPRODUÇÃO

EM FOCO

Representante do CFM e do Cremepe é recebido pelo Papa RICARDO PAIVA LEVOU AO PAPA A PREOCUPAÇÃO DAS ENTIDADES MÉDICAS COM AS CRIANÇAS DESAPARECIDAS

E

m uma audiência histórica com o Papa Francisco, no Vaticano, no dia 9 de junho, o representante da Comissão de Ações Sociais do Conselho Federal de Medicina, Ricardo Paiva, conselheiro do Cremepe, pediu apoio para a realização de uma conferência mundial para tratar do problema das crianças e adolescentes desaparecidos. O encontro com o Papa reuniu cerca de quarenta dirigentes de entidades médicas de países da Europa e da América Latina. De acordo com Ricardo Paiva, o Papa

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sinalizou de forma positiva à proposta da realização da conferência. “O Papa concordou plenamente e disse que se faz necessário. Vamos tratar agora de colher dois milhões de assinaturas para sensibilizar a todos. O problema do desaparecimento de crianças e adolescentes deve ser entendido como prioridade não apenas pelas famílias que vivem esse drama, mas pela população em geral” — disse. Ricardo Paiva disse que os números são alarmantes. Só no Brasil, são 50 mil desaparecimentos de crianças e adolescentes por

ano. E acrescentou: “São crianças que acabam terminando vítimas de tráfico humano, escravidão, inclusive sexual, e subtração de órgãos para transplante”. Ele entregou ao Papa um documento do CFM sugerindo que as Nações Unidas precisam urgentemente de uma ação estratégica que permita à sociedade avançar no combate a esta mazela. “Não se fala de esforços onerosos ou complexos. Medidas simples ajudariam a reduzir a incidência de desaparecimentos de crianças e adolescentes. Um exemplo seria a garantia de que todo recém-nascido tivesse sua certidão de nascimento expedida na própria maternidade e, aos dois anos, seu registro de identidade expedido nos postos de vacinação. Para auxiliar na busca, a numeração destas Carteiras de Identidade deveria ter caráter nacional, nos diversos países” — concluiu Ricardo Paiva.


D E B AT E

DIVULGAÇÃO

Por que o Cremepe é contra o uso da pílula do câncer?

O

Conselho Regional de Medicina de Pernambuco orienta os médicos do Estado a não prescreverem a fosfoetanolamina sintética, conhecida popularmente como a pílula do câncer, por ser uma droga ainda em fase experimental, necessitando de maiores subsídios técnicocientíficos. De acordo com o Código de Ética Médica, é vedado ao médico prescrever medicações que não estejam devidamente registradas pelas autoridades sanitárias do País. Esse posicionamento do Cremepe foi adotado até mesmo antes de a presidente Dilma Rousseff ter sancionado, em abril, a lei que permite o uso dessa pílula por pacientes que sofrem de câncer. Poucos dias depois, essa mesma lei sancionada pela

Presidente da República foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal, por 6 votos a 4. Um dos argumentos que prevaleceram para que a pílula do câncer fosse considerada ilegal pela mais alta corte jurídica do País é o de que não há testes suficientes que comprovem a segurança e a eficácia do composto sem pôr em risco a saúde dos pacientes. A decisão dos ministros do STF é em caráter liminar, ou seja, provisória, mas mesmo assim mostra o quanto é polêmica essa questão. O Supremo atendeu a um questionamento da Associação Médica Brasileira, a AMB.

CFM A posição do Conselho Federal de Medicina contra a pílula do câncer tem sido firme e baseada em fundamentos

científicos. O CFM divulgou para todo o Brasil uma nota em que deixou bem claro o que pensa a entidade sobre o prejuízo que o uso dessa pílula pode acarretar aos pacientes que sofrem de câncer. Na nota, o CFM diz que a fosfoetanolamina sintética não deve ser receitada pelos médicos porque a sua substância não é reconhecida por evidências científicas. Autoridades ligadas à Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que é responsável pelo registro de medicamentos, têm condenado também a pílula do câncer. Para a Anvisa, trata-se de uma substância e não de um medicamento e que não conta com o aval das autoridades sanitárias da Agência. Sintetizada há mais de 20 anos, a fosfoetanolamina sintética foi estudada pelo professor aposentado Gilberto Orivaldo Chierice, quando ele era ligado ao Grupo de Química Analítica e Tecnologia de Polímeros da Universidade de São Paulo (USP), campus de São Carlos. Algumas pessoas tiveram acesso gratuito às cápsulas contendo a substância, produzidas pelo professor, porém, sem aprovação da Anvisa. Esses pacientes usavam a pílula como se fosse um medicamento contra o câncer. Alguns chegaram a dizer que essa era a cura da doença - o que nunca ficou comprovado cientificamente. Em junho de 2014, uma portaria da USP determinou que substâncias em fase experimental deveriam ter todos os registros da Anvisa antes de serem distribuídas à população. Desde então, pacientes que tinham conhecimento das pesquisas passaram a recorrer à Justiça para ter acesso às pílulas. Em outubro do ano passado, o Ministério da Saúde anunciou a criação de um grupo de trabalho para estudar a eficácia e a segurança da fosfoetanolamina sintética na cura do câncer. Até agora, nenhum resultado desses estudos foi publicado.

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C A PA

A oftalmologista pediátrica Liana Ventura coordena o atendimento na Fundação Altino Ventura

Uma geração 10 | REVISTA DO CREMEPE


DESDE O FINAL DO ANO PASSADO, PERNAMBUCO TORNOU-SE O EPICENTRO DOS ACONTECIMENTOS QUE LEVARAM OS MÉDICOS A CONSTATAR A ASSOCIAÇÃO ENTRE O VÍRUS DA ZIKA E A MICROCEFALIA TEXTO MARIANA OLIVEIRA FOTOS HANS MANTEUFFEL

J

marcada

oão Guilherme nasceu no dia 28 de outubro de 2015. Era o primeiro menino gerado por Verônica Maria dos Santos, que já tinha três meninas. Seu bebê foi uma das crianças nascidas com microcefalia em Pernambuco, no ano passado, e que chamou a atenção da comunidade médica para a relação entre o vírus zika e essa má-formação. Verônica, que vive em Paulista, recorda que teve os sintomas da virose no início da gravidez, entre o terceiro e o quarto mês. À época, nada se sabia sobre essa possível relação. A notícia de que seu filho teria um problema chegou na ultrassonografia morfológica. A primeira informação que lhe foi passada foi que seu filho teria hidrocefalia. Ela se desesperou, mas levantou a cabeça e foi em busca de mais informações sobre o problema. Porém, para sua surpresa, num exame sequente, o diagnóstico mudou, João Guilherme teria, na verdade, microcefalia. “Eu já tinha me inteirado sobre a hidrocefalia e depois recebi a notícia da microcefalia. Foi um desespero grande”, conta, lembrando que só se manteve firme porque contou com o apoio do marido e das filhas. Desde então, ela se afastou do emprego de supervisora de hotéis e tem se dedicado em tempo integral ao pequeno, que, de fato, foi acometido tanto pela microcefalia como pela hidrocefalia, problema que o levou à sala de cirurgia.

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C A PA O caso de Germana Soares foi um pouco diferente. Grávida de seu primeiro filho, a jovem de 25 anos, moradora do município de Ipojuca, teve zika por volta dos três meses de gravidez. A despeito disso, tudo seguiu normalmente durante sua gestação, inclusive na ultrassonografia morfológica, que não apontou qualquer alteração. Chegou o dia do parto e seu bebê nasceu. Num primeiro momento, os médicos informaram que tudo estava bem, mas, ainda na maternidade, surgiu a suposição de uma encefalite e os médicos começaram a investigar. Era novembro e explodiam na mídia as notícias sobre a possível relação do vírus zika com a microcefalia. O marido de Germana começou a desconfiar e entendeu o porquê dos médicos estarem submetendo seu filho a tantos exames. Não tardou muito, o diagnóstico chegou. Assim como Verônica, Germana, que atuava como corretora de imóveis, passou a se dedicar exclusivamente ao cuidado do seu filho. Ela se engajou na criação de um grupo de mães (UMA – União de Mães de Anjos) que se apoiam do ponto de vista emocional, mas que também se articulam para lutar pelo tratamento adequando de seus bebês e na busca de direitos e benefícios para colaborar com a saúde deles. Essas crianças fazem parte das estatísticas devastadoras de Pernambuco que viveu, em 2015, uma epidemia de zika e tornou-se o epicentro dos acontecimentos, sendo o estado onde primeiro se percebeu a ocorrência de um maior número de casos de microcefalia. Segundo a Secretaria de Saúde de Pernambuco, até o início de junho, foram notificados 1.987 casos de microcefalia no estado desde agosto de 2015. Desse total, 860 (43%) atendem aos parâmetros da Organização Mundial de Saúde (OMS). Ao todo, 363 casos foram confirmados

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Verônica Maria dos Santos largou o emprego para se dedicar ao tratamento de seu filho

“Levantei a hipótese de que existia uma relação entre zika e microcefalia. Essa hipótese chocou a todos, por tratar-se de um agente que não tínhamos como isolar”, relembra o médico Carlos Brito como microcefalia e 1.148 tiveram o diagnóstico descartado. O Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães/ Fiocruz e o Instituto Evandro Chagas confirmaram, em Pernambuco, 164 casos de microcefalia relacionados ao vírus zika por detecção laboratorial. Outros 126 casos deram negativos e quatro inconclusivos, totalizando 294 testes realizados.

ASSOCIAÇÃO Nos primeiros meses de 2015, o Estado registrou a ocorrência de muitos casos de uma espécie de “dengue fraca”. Segundo a infectologista pediátrica Ângela Rocha, naquele momento circulavam em Pernambuco os quatro tipos de dengue, a zika e a chickungunya. “Tínhamos um comportamento epidemiológico de uma arbovirose, o que levava a se acreditar que fosse dengue. Além disso, o exame para dengue poderia dar cruzado, dando um falso positivo para a doença”, detalha o infectologista e conselheiro do Cremepe Carlos Eduardo Padilha. Foi em agosto de 2015 que os médicos pernambucanos começaram a perceber que alguma coisa estava fora da normalidade. Na média histórica, registravamse, por ano, cerca de 10 casos de bebês com a microcefaleia no Estado e, de repente, a situação ia se tornando estranhamente comum. Os neonatologistas, surpresos com essa ocorrência, foram consultar os infectologistas. O médico Carlos Brito foi procurado pela neonatologista


O atendimento multiprofissional é fundamental para o desenvolvimento dos bebês

Segundo Ângela Rocha, as calcificações no cérebro são uma das características dos bebês que tiveram contato com o zika vírus

Jucile Menezes que havia registrado 16 casos no Imip. Chegando lá, ele conversou com as mães e aplicou um formulário. O infectologista percebeu que as mães vinham de cidades muito distantes e que uma infecção por rubéola, por exemplo, não poderia ter esse poder de dispersão. Também foi constatado que boa parte dos bebês apresentava calcificações no cérebro, algo comum numa infecção congênita de início de gravidez. “Conversando com as mães insisti para que se recordassem de algum episódio no primeiro trimestre. 67% relatavam sintomas compatíveis com o zika. Como eu havia participado das discussões que levaram a conclusão que no início do ano de 2015, o que tivemos em Pernambuco não tinha sido um surto de dengue fraca, mas sim uma epidemia de zika. Eu tinha conhecimento sobre sintomatologia da doença. Além disso, tinha sido chamado para avaliar o aumento de alguns casos neurológicos em adultos após a doença no Hospital da Restauração, meses antes. Nesse

caso nós já tínhamos conseguido isolar o vírus zika através da LCR. Então, sabendo da afinidade do vírus com o cérebro, levantei a hipótese de que existia uma relação entre zika e microcefalia. Essa hipótese chocou a todos, inclusive a mim, por tratar-se de um agente que não tínhamos como isolar”, relembra Carlos Brito. O médico lançou essa suposição para seus colegas no dia 20 de outubro. Na semana seguinte, um grupo grande de especialistas se reuniu no Cremepe para discutir a situação e para cada um passar um pouco da sua experiência daquilo que estava vendo. Naquele momento, existiam elementos clínicos e epidemiológicos que apontavam para a hipótese, mas faltava isolar o vírus. Foram feitos os exames dos pacientes vistos por Carlos Brito no Imip, mas pelo LCR não se encontrou a presença do vírus, provavelmente devido à exposição ao mesmo ter acontecido meses antes. Não tardou para que o vírus zika fosse isolado no líquido amniótico de um bebê com microcefalia. Em meados de novembro,

a médica Adriana Melo puncionou o líquido de duas gestantes com bebês com microcefalia encontrando o vírus, em Campina Grande (PB). Nesse momento todas as atenções nacionais e internacionais já estavam voltadas para Pernambuco. Toda a comunidade científica preocupava-se e buscava compreender melhor o que estava acontecendo. “Entre a hipótese, no dia 20 de outubro, e a confirmação pelo isolamento do vírus, foram menos de 30 dias úteis. Tratavase de uma doença inédita. Vai ficar para a história”, diz Carlos Brito. Segundo Carlos Eduardo Padilha, microcefalia por zika é uma doença nova que está se desenhando e ainda são necessários muitos estudos para uma melhor compreensão das lacunas. “Ainda temos muitas perguntas não respondidas. Está ficando mais clara que a transmissão sexual é importante. Quanto à amamentação, a recomendação é que se faça, mas a gente não sabe ao certo. No caso

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C A PA Regina Coeli diz que só agora começa a se desenhar o fenótipo da microcefalia causado por zica vírus

da AIDS, no início, nós também mantivemos a amamentação. Além disso, nos preocupam as crianças que não tiveram microcefalia, mas que possam vir a ter outro comprometimento”, detalha. A infectologista pediátrica Ângela Rocha compartilha dessa preocupação e afirma que é preciso muita atenção com aqueles bebês cujas mães tiveram zika e que não nasceram com microcefalia. Elas precisaram ser monitoradas pelo menos nos primeiros dois anos de vida para se observar se vão desenvolver algum tipo de problema, como déficit cognitivo, TDH, problemas de audição, entre outros. “Só o tempo dirá os efeitos que a infecção pelo vírus poderá trazer a um bebê sem microcefalia. A pediatria vai viver um desafio grande nos próximos anos. O pediatra da ponta precisa estar ainda mais atento para o que pode acontecer. Nossa ideia é acompanhar esses meninos cujas mães tiveram zika, mas que não desenvolveram a má-formação. O panorama ainda é nebuloso”, diz.

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ATENDIMENTO O Setor de Infectologia Pediátrica do Hospital Oswaldo Cruz, chefiado por Ângela Rocha, foi um dos serviços onde houve um aumento no número de atendimentos de crianças com microcefalia, fugindo completamente da média habitual. Os médicos logo perceberam que algo novo estava causando esse surto e não as doenças que habitualmente levam a essa máformação. Enquanto não se conseguia isolar o vírus da zika nos bebês, os profissionais se reuniram e montaram um protocolo que ficou pronto no início de novembro. A ideia era afastar todas as outras doenças que poderiam levar a má-formação e constatar a existências das calcificações no cérebro via tomografia. Seguindo essa recomendação, seria possível apontar que a provável causa daquele caso seria a infecção por zika. A infectologista pediátrica Regina Coeli, que atua no mesmo serviço, diz que já existia um fenótipo da microcefalia causada pelo citomegalovírus, pela rubéola, mas só agora começa a

se desenhar a caracterização da microcefalia pelo zika. A médica reforça a necessidade de dar atenção também às crianças com perímetro encefálico normal. “Encontramos calcificação em algumas delas. Será preciso manter a vigilância”, diz. Para Carlos Eduardo Padilha, o fato de no início as notificações terem tomado como base o perímetro encefálico de 33 cm (aceito pela Escola de Pediatra, por questões étnicas), terminou aumentando a sensibilidade. Depois passou a ser considerada a margem da Organização Mundial de Saúde (32cm). “Foi bom termos começado por 33 porque nós aumentamos a sensibilidade. Encontramos alguns pacientes que pelo diâmetro, no padrão da OMS, não teriam microcefalia, mas que apresentavam calcificações”, pondera. Por isso, a insistência de que todas as crianças sejam acompanhadas. Para tanto, os médicos da ponta, que atendem em ambulatórios e nos postos de saúde, precisam estar preparados. “Eles precisam ter um olho clínico para ver, por exemplo, se uma criança que nasceu com um perímetro encefálico de 33cm, sem microcefalia, está se desenvolvendo normalmente. Os casos que estão sendo hoje descartados precisam ser acompanhados de perto”, salienta Regina Coeli. Segundo o Secretário de Saúde do Estado, Iran Costa, foi preciso reestruturar a rede de atenção para garantir o tratamento às crianças com microcefalia e às suas mães. No primeiro momento, no final do ano passado, Pernambuco contava com duas instituições que atendiam as crianças com o problema: o Imip e a AACD, já que, historicamente, se registrava cerca de 10 casos/ano. “Nosso maior desafio foi garantir a ampliação dessa rede de assistência, de forma organizada e descentralizada.


crianças com microcefalia. Segundo a oftalmologista pediátrica Liana Ventura, boa parte desses bebês tem algum tipo de comprometimento ocular, o que chamou a atenção da FAV no início das ocorrências. “Depois a procura pelo atendimento foi tão grande que tivemos que separar dois dias para o atendimento exclusivo dos bebês com microcefalia. Estamos atuando no nosso 100%. Propomos um atendimento multidisciplinar com foco também nas mães. Criamos oficinas de empoderamento para essas mulheres, fortalecendo os vínculos e dando força para que sigam em frente”, explica.

DIREITOS

Germana Soares é uma das mães que coordenam o UMA – União de Mães de Anjos

Hoje, após pouco mais de seis meses do início dos esforços, já são 23 unidades em todo o Estado que prestam algum tipo de atendimento relacionado à microcefalia. E isto teve um impacto muito importante para estas famílias. Para se ter uma ideia, em outubro do ano passado, uma criança precisava percorrer, em média, 420 quilômetros para ter um atendimento para microcefalia. Atualmente, essa distância foi reduzida para, em média, 60 quilômetros”, destaca o secretário. No Huoc, os médicos têm se organizado para melhor receber os pacientes com microcefalia, formatando um atendimento multiprofissional. A ideia é poder proporcionar um serviço que leve ao melhor desenvolvimento do

bebê dentro da sua limitação. “Uma das coisas mais importantes é a estimulação precoce. Nosso objetivo é que dentro daquela lesão ele tenha o melhor desempenho possível”, pontua Ângela Rocha. Focando nisso, muitas mães frequentam diversos serviços querendo oferecer o máximo de estimulação aos seus filhos. “Percebo essa descentralização, o que não é o ideal. Não é a quantidade de vezes, mas a qualidade. Inicialmente nosso papel foi dar o diagnóstico, agora é dar o tratamento para uma melhor qualidade de vida e sobrevida. O lado psicológico da mãe também é muito importante”, complementa Regina Coeli. A Fundação Altino Ventura (FAV) é outro local que terminou tornandose referência no atendimento às

Hoje algumas mães com bebês com microcefalia já participam de dois grupos o AMAR – Aliança das Mães e Famílias Raras e o UMA – União de Mães de Anjos. Essas associações unem as famílias com o problema, proporcionando o compartilhamento da dor e das suas experiências. Elas também promovem campanhas para arrecadar doações para ajudar as mães que, na maioria dos casos, param de trabalhar para se dedicar exclusivamente aos seus filhos, cruzando o Recife para conseguir o atendimento necessário. Germana Soares, personagem citada no início desta reportagem, coordena o UMA – União das Mães de Anjos. Segundo ela, a situação de muitas famílias é bastante complicada. “Temos mães que moram fora da RMR e têm que vir ao Recife para conseguir atendimento adequado. Vindo de fora, gastam com transporte, já que só conseguimos a gratuidade aqui dentro da cidade. Temos um caso de uma mãe cujo marido ganha um salário e que gasta parte desse valor no transporte para o Recife além da necessidade de comprar anticonvulsivos para o seu bebê”, conta destacando que essa

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INTERVIEW

A falta de saneamento básico cria o ambiente perfeito para o Aedes-Aegypti

família, até o momento, não conseguiu o benefício do INSS. Em janeiro deste ano, o governo federal anunciou que as famílias com crianças com microcefalia poderiam receber um salário mínimo do INSS, um Benefício de Prestação Continuada, concedido a pessoas com deficiência de qualquer idade, desde que tenham impedimentos de longo prazo, de natureza física ou mental, e atendam ao critério da renda. Para ter direito, a família tem que ter renda per capita inferior a ¼ de salário-mínimo, R$ 220,00. Por isso, se exige RG e CPF dos pais, comprovante de residência e de renda, além da identidade e CPF de todos os moradores da casa em que vive a criança com microcefalia. Segundo a Previdência Social, até abril, foram concedidos 309 benefícios para crianças com microcefalia. As famílias interessadas em fazer essa solicitação são orientadas a ligar para o 135, canal da previdência social, e agendar seu atendimento. Para Germana Soares, essa forma não consegue atender bem às crianças.

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“Leva-se mais de três meses nessa busca pelo benefício, isso quando ele é aprovado. Mas nós precisamos para hoje, nos primeiros meses de vida é quando os bebês precisam de maior atenção e estímulos constantes. Por isso, buscamos organizar alguns mutirões, conseguimos dois, para agilizar esse processo. Inclusive eu consegui meu benefício num deles. Enviamos até uma carta pra Brasília fazendo nossas solicitações”, salienta. Ela conta que algumas mães tiveram suas casas visitadas para avaliação e diz que o fato delas terem eletrodomésticos, por exemplo, era algo que contribuía para que sua situação fosse avaliada como boa e o benefício negado.

RESPONSABILIDADE Ao que tudo indica, o vírus da zika chegou ao país durante os grandes eventos internacionais dos últimos anos, Encontro da Juventude, Copa das Confederações e Copa do Mundo. Em terras brasileiras, ele encontrou a forte presença do Aedes Aegypti. Atualmente, o mosquito, que chegou

a ser eliminado do território nacional, encontrou seu ambiente ideal no país devido aos grandes problemas de saneamento básico, algo fundamental na sua proliferação. Nesse sentido, o presidente do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco, André Dubeux, destaca que a instituição não aceita a terceirização da culpa. Obviamente que a população pode e deve assumir sua responsabilidade, mas a omissão do poder público é o maior problema. “No Recife só 27% da população têm saneamento básico. Falta água na torneira. Como vamos culpá-los por guardá-la para o uso no dia a dia. Por isso, refutamos essa ideia de que a culpa é da população e de que ela pode resolver o problema sozinha”, diz o presidente. Segundo ele, o momento agora é de investir na pesquisa, nos seus mais variados campos, da imunização ao combate ao vetor. Porém, para que se caminhe para uma solução efetiva é preciso democratizar o acesso à água e investir fortemente no esgotamento sanitário.


EM FOCO

FOTOS: DIVULGAÇÃO

A Escola da Ética Médica

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Escola Superior de Ética Médica do Cremepe (Esem) caracteriza-se como núcleo técnico permanente responsável pela realização de eventos (conferências, seminários, fóruns e cursos) para apresentação e discussão de temas específicos e atuais envolvendo a ética e a bioética na Medicina. Foi criada através das Resoluções CREMEPE/2005 e 08/2011 com a finalidade de aprimorar sistematicamente os estudos sobre ética médica e bioética, contemplando a visão humanística da medicina à luz dos avanços da ciência, da tecnologia e das transformações da sociedade. A Escola é pioneira no Nordeste e busca integrar as diversas instituições de ensino médico do Estado e demais entidades relacionadas. Já firmou termos de cooperação com a Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS) e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), além de manter permanente diálogo com instituições que promovem a ética profissional.

Helena Carneiro Leão, Sílvio Rodrigues e Taciana Duque

Através de simpósios e cursos de atualização traz para discussão a relação médico-paciente, a autonomia dos pacientes e dos médicos; as decisões morais em torno da gestão do corpo, da vida e da morte; o respeito aos direitos de intimidade e privacidade e a promoção da responsabilidade, entre outras questões.

PRÊMIO MARIA CLARA ALBUQUERQUE Também visando incentivar e contribuir para o conhecimento e aprimoramento das questões na

formação e qualificação do médico, em 2013, a Esem instituiu o Prêmio de Incentivo à Ética e Bioética Profª Maria Clara Albuquerque, destinado aos estudantes de medicina em homenagem à médica que foi pioneira na questão da ética e bioética no Estado. Os temas dos prêmios foram: “Reprodução assistida. O que é ético?” (1ª edição) “Compromisso Ético e social do Estudante de Medicina” (2ª edição) e “A medicina, a ética e a internet” (3ª edição).

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ESPECIAL

O Cremepe e os avanços tecnológicos

CONSELHO PERMANECE COM O DESAFIO DE GARANTIR O EXERCÍCIO ÉTICO DA MEDICINA AGORA COM O USO DE INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS TEXTO MAYRA ROSSITER FOTOS LÉO CALDAS

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m 1958, quando o Cremepe foi fundado, mais precisamente no dia 10 de março, em meio aos elepês de rock de Elvis Presley, “ginkanas” de lambretas e os cinemas de bairros, não se imaginava nem de longe a dimensão que o Conselho teria com os avanços tecnológicos. Hoje, num casarão localizado no bairro do Espinheiro, área central do Recife, 67 pessoas – entre funcionários, comissionados, estagiários e prestadores de serviços – estão a postos diariamente, de segunda a sexta, para atender os médicos e o público em geral. O Cremepe permanece com o mesmo desafio de garantir o exercício ético da Medicina, mas agora anda de mãos dadas com a tecnologia. Para o médico, isso significa dizer que ele pode dar entrada em diversos serviços do Cremepe através dos seus smartphones ou tablets. Desde o fim de 2015, os atendimentos à Pessoa Física e Pessoa Jurídica, por exemplo, só estão sendo realizados mediante agendamento prévio, através do portal do Conselho (http://agendamento.cremepe.org.br/). Desta forma, a entidade visa agilizar o atendimento e proporcionar maior comodidade aos médicos e prestadores. No sistema de agendamento, os médicos (Pessoa Física) e prestadores (Pessoa Jurídica) podem se programar para fazer diversos serviços. Após esse prévio agendamento, o médico então irá se dirigir ao Conselho para dar continuidade às solicitações.

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ESPECIAL Lembrando que as solicitações via e-mail precisam ser digitalizadas, datadas e assinadas. E caso o médico deseje receber a certidão por e-mail deve mencionar isso na solicitação. Mas há alguns serviços que precisam da presença do médico: inscrições primária e secundária, efetivação de transferência para o Cremepe, registro de especialidade, segunda via de carteira profissional médica e cédula de identidade. Outro aspecto importante é que o recém-formado deverá fazer a pré-inscrição online ou no site do Conselho.(cremepe.org.br)

INSCRIÇÃO DE PESSOA JURÍDICA

RECEPÇÃO A responsável por receber e atender os médicos e o público é Zulima Pereira Machado.

recebidas não endereçadas e prestar informações sobre andamento dos documentos recebidos. O e-mail do setor é o protocolo@cremepe.org.br.

PROTOCOLO

TELEFONISTAS

Assim que o médico chega ao Conselho, o primeiro setor que ele se depara após a recepção é o de Protocolo. À frente do setor está Azenate Gomes (foto). Ela é responsável por receber, registrar e distribuir documentos em geral, devolver as correspondências

Dentro da sua política de inclusão social, o Cremepe contratou, por meio da entidade Fraternidade Cristã, uma recepcionista e duas telefonistas que atendem as demandas dos médicos, dos funcionários e do público em geral.

INSCRIÇÕES DE PESSOA FÍSICA Os responsáveis pelo setor são os funcionários Kleber Correia, Juliana Oliveira e Sandra Alencar. Eles estão no Cremepe todos os dias da semana, das 8h às 17h, assim como os demais funcionários. Alguns serviços do setor podem ser solicitados via e-mail (secretaria@cremepe.org. br). São eles: solicitação da Certidão Ético-profissional, Cancelamento de Inscrição Primária e Secundária, solicitação de Inscrição Secundária e transferência para outro Estado. A emissão de Certidão de Inscrição e as atualizações de endereços podem ser feitas online ou presencialmente.

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Pelo portal do Cremepe, o setor de Inscrição de Pessoa Jurídica disponibiliza aos médicos a Certidão de Quitação, 2ª Via do Boleto de Anuidade, impressão do requerimento para renovação do Certificado de Regularidade de Inscrição de Pessoa Jurídica, Préinscrição online para empresas novas (consiste no preenchimento do formulário com a finalidade de requerer a inscrição inicial de Pessoa Jurídica), além do agendamento de impressão da Declaração do Repasse da Responsabilidade Técnica e do Agendamento do atendimento presencial de Pessoa Jurídica. O responsável pelo setor é o funcionário Ernani Eiras (foto) e o email: pjuridica@ cremepe.org.br.


O Cremepe possui um corpo de 42 conselheiros, que participam de reuniões administrativas e de comissões técnicas, com discussões relacionadas a temas institucionais, ao corpo clínico (processo ético e sindincância) e de plenárias de julgamento gerais GERÊNCIA Há 18 anos no Cremepe, a funcionária Miriam de Andrade Albuquerque (foto) é responsável pelo gerenciamento do Conselho, contribuindo para o seu bom funcionamento interno, bem como na prestação de serviços aos médicos. Ela trabalha em conjunto com Poliana Jerônimo dos Santos. (gerencia@cremepe.org.br)

TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO O setor tem por objetivo suprir as necessidades de informática relacionadas com o atendimento aos médicos e usuários internos, redes, internet, desenvolvimento de aplicações e banco de dados. É responsável por manter o acesso, a segurança e a performance da infraestrutura de rede e telecomunicações. Desenvolve sistemas informatizados específicos, incluindo programas, sites e bancos de dados. O funcionário Lourival Quirino da Silva Júnior (foto) foi responsável pela implantação do Sistema de Agendamento Online e pelo Formulário Online de Atualização de Endereços. Atualmente Lourival Quirino está debruçado na criação do portal da transparência, seguindo as determinações da Lei da Transparência. Mariana Neide do Carmo Silva (foto) integra também o setor de Tecnologia da Informação do Cremepe.

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ESPECIAL FISCALIZAÇÃO

ASSESSORIA JURÍDICA Os advogados responsáveis pela assessoria jurídica do Cremepe são Joaquim Pessoa Guerra Filho, Ricardo José Quirino de Azevedo Filho (foto) e Elizangela Sfoggia. As estagiárias são quatro, sendo duas no turno da manhã, Eduarda Carolina de Andrade Lima e Mariana Mascarenhas Veras Morais (foto)) e duas no turno da tarde, Priscila Andrade Lima Paiva e Lígia Gabriela Peres Torres. A Assessoria Jurídica presta serviço ao Cremepe como instituição. (assessoria@cremepe.org.br)

DEPARTAMENTO DE PROCESSOS Vinculado à Corregedoria do Cremepe, o Departamento de Processos tem a finalidade de receber denúncias, instalar sindicâncias e processos disciplinadores dentro das normas do Código de Processo Ético Profissional. Executa e acompanha todo o trâmite dos

processos referentes à ética e disciplina dos profissionais na área de sua jurisdição, além de assessorar os Conselheiros, mediante apoio técnico e administrativo para o bom desempenho de suas funções. Caso o médico tenha algum processo em andamento no Conselho e queira se inteirar dele precisa comparecer pessoalmente, munido de documentação, uma vez que este tipo de demanda jurídica corre sob o mais absoluto sigilo. Também atende, presencialmente, a população no que diz respeito às informações relativas ao departamento. Os funcionários que atuam no setor são: Alaíde Maria Saraiva Landim, Anamélia Belém de Costa Tavares, Claudia Ramos França, Elienai Lima, Flávia de Almeida Souza (foto), Gustavo Barreto de Freitas, Severino Alexandre da Rocha Filho (foto – o mais antigo funcionário do Cremepe) e Vanderlúcia Maria da Silva. (juridico@cremepe.org.br)

Instalado no primeiro andar do prédio, o departamento é responsável por fiscalizar hospitais, clínicas e postos de Saúde. Os médicos fiscais Otávio Valença, Polyanna Neves e Sylvio Vasconcellos integram o departamento. A funcionária Dione Andrade Cordeiro (foto) também faz parte da equipe e é responsável pela inclusão dos relatórios no sistema do CFM, pela execução dos despachos do segundo secretário e pelo encaminhamento dos ofícios para os órgãos competentes, entre outras coisas. (fiscalizacao@cremepe.org.br)

TESOURARIA Os funcionários Patrícia Câmara e Jabes Macedo (foto) são responsáveis pela atividade de cobrança e pagamento. A Tesouraria também disponibiliza para os médicos e empresas registradas no Conselho a emissão de boletos e certidões de quitação através do portal (www. cremepe.org.br). O e-mail do setor é o tesouraria@cremepe.org.br.


BIBLIOTECA Fundada em 1987, a biblioteca do Cremepe, que faz parte da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), possui um acervo composto por 1.500 livros e periódicos especializados na área de Ética Médica, Bioética e Direito Médico. Tem como objetivo preservar, conservar, divulgar e oferecer aos seus usuários material inerente à área de saúde. Na Biblioteca, o médico pode utilizar os serviços de informática com acesso à internet e conta com um profissional capacitado para monitoramento e esclarecimento de qualquer dúvida em sua consulta de artigos científicos. À frente da biblioteca está o funcionário Rafael Teixeira (foto), e a estagiária em Biblioteconomia, Julyanne Barbosa. O espaço físico é amplo, possui 3 mesas para leitura e duas áreas reservadas para estudo individual. Disponibiliza um computador para o público em geral. Pela internet (bibcrmpe@ cremepe.org.br) sem sair de casa, o médico pode pedir o levantamento bibliográfico e consultar bases de dados em saúde (Bireme/ BVS), computação bibliográfica (artigos científicos pagos), pesquisar normativos éticos-médicos nas esferas regional e federal, além de Resoluções e Pareceres, e ter acesso à Legislação na área de saúde (Ministério da Saúde, Anvisa, etc.).

IMPRENSA Na Assessoria de Imprensa, é feita diariamente clipagem eletrônica dos principais jornais impressos, dos Blogs e Portais de Pernambuco e do Brasil. Desta forma, os médicos têm acesso ao noticiário do dia a dia. As jornalistas Mayra Rossiter e Joelli Azevedo também são responsáveis pela elaboração de conteúdo, diagramação e tratamento

A Assessoria é responsável também pela publicação trimestral da Revista do Cremepe e pela produção e gravação do Programa Memórias da Medicina, veiculado no Portal do Cremepe

das imagens do Portal do Cremepe e do Boletim Eletrônico semanal. O Boletim é enviado todos os domingos para os médicos pelo mailing da entidade. O médico pode inclusive atualizar seu endereço eletrônico pelo Portal do Conselho (www.cremepe.org.br). São elaboradas ainda pautas para os veículos de comunicação sobre cobertura de congressos, seminários, palestras, fiscalizações e projetos sociais da entidade. A Assessoria é responsável também pela publicação trimestral da Revista do Cremepe e pela produção e gravação do Programa Memórias da Medicina, veiculado no Portal do Cremepe.

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ESPECIAL

As funcionárias Andrea Maria Pimentel e Anne Jacqueline têm mais de 10 anos de casa e são lotadas no Gabinete da Presidência e da Diretoria, respectivamente GESTÃO DE PESSOAS

COMPRAS E ALMOXARIFADO

A assessora Hercília Acioli Lima (foto) é responsável pelo departamento de Gestão de Pessoas do Cremepe. Cabe ao Departamento, a tarefa de assessorar na elaboração, implementação e execução de políticas de recursos humanos, proceder ao cumprimento da legislação trabalhista, e dos normativos de pessoal do Cremepe. Administrar o Plano de Cargo, Carreira e Salário (PCCS), operacionalizar o ingresso e saída de funcionários e estagiários do Cremepe. Como também a organização da folha de pagamento de pessoal e encargos sociais, programas de benefícios, de treinamento e desenvolvimento de pessoal, zelar pela saúde e segurança dos funcionários no ambiente de trabalho, além de apoiar tecnicamente negociações trabalhistas.

O funcionário Guilherme José da Silva Moares Júnior (foto) é quem fiscaliza os contratos ou manutenção e é também responsável pela aquisição de materiais e serviços de pequenos volumes.

CONTABILIDADE As principais atribuições do setor são o de efetuar os registros e escriturações contábeis e analisar as contas e registros contábeis do Cremepe. Também elabora e analisa os balancetes, os balanços gerais e as demais demonstrações contábeis. Elabora juntamente com o setor financeiro as prestações de contas do Cremepe, além de analisar e registrar

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as despesas. São responsáveis pelo setor os assessores Marivânia Monteiro Alves da Silva e Djamilton de Souza Maia (foto).

CONTRATOS E LICITAÇÕES Prepara os editais dos pregões eletrônicos, tomadas de preços e outras modalidades. São responsáveis pelo departamento os funcionários Domingos Sávio Lopes e Carlos Greidyson de Oliveira (foto). Eles contam com o apoio dos estagiários Higor Pontes e Bruno Ferreira.

SUPORTE AO COLEGIADO O setor é responsável por prestar apoio aos conselheiros nas atividades profissionais relacionadas às Comissões Técnicas, Comissões de Pareceres, Comissões de Ética e Escola Superior de Ética Médica (Esem). Bárbara Albuquerque (foto) é a funcionária responsável pelo setor.


APOIO OPERACIONAL Os responsáveis por manter a sede do Cremepe sempre organizada para receber médicos e visitantes, além dos próprios funcionários, são Dulcineia Lima de Assis, Rafael Teixeira de Lima Silva, Sergio Bosco Lima e Carmem Lucia Batista da Silva. Esta última com 39 anos dedicados ao Cremepe.

TRANSPORTE A logística do transporte da diretoria e de funcionários para eventos ligados ao Cremepe é feita pelos funcionários Valdir Francisco da Silva e Leandro Rocha da Silva. O transporte prioriza o trabalho da equipe de Fiscalização do Cremepe.

SEGURANÇA A segurança patrimonial do Cremepe fica sob a responsabilidade da Liserve, através dos prestadores de serviço, Edionaldo José Taurino da Silva, Flávio Alves da Silva, Márcio Alexandre de França, Luciano Laurentino de Lemos (foto), José Roberto Barbosa e Rafael Mendes Silveira.

O Cremepe mantém no Interior do Estado Delegacias e Representações, a exemplo das localizadas nas cidades de Petrolina, Serra Talhada, Caruaru e Garanhuns

COMO TUDO COMEÇOU

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undado em 1958 por um grupo de médicos, entre eles, Antônio Figueira, João Marques de Sá, Rui João Marques, Hindemburg Lemos, Francisco Cornélio Fonseca Lima, Leduar de Assis Rocha, Júlio de Oliveira e Vicente Vanderlei, o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco teve sua primeira sede no Centro do Recife. Funcionava no Edifício Tabira (foto), na Avenida Conde da Boa Vista. Computador naquele tempo nem sequer se ouvia falar. O caminho burocrático e político para a criação de um órgão que regulamentasse a profissão da medicina foi longo e árduo. Começou em 1945, quando o Governo do presidente Getúlio Vargas, inspirado nos resultados do IV Congresso Sindicalista Médico Brasileiro, criou um Conselho de Medicina. Somente 12 anos depois, o presidente Juscelino Kubistchek, que era médico, sancionou a lei que deu ao Conselho Federal de Medicina e aos Conselhos Regionais a configuração jurídica que, na sua essência, até hoje está em vigor. O primeiro presidente do Cremepe, que por um longo período recebeu a denominação de CRM (Conselho Regional de Medicina), foi o pediatra Antônio Figueira, coordenador do grupo de médicos pernambucanos que fundou o Conselho. Ao sair do Edifício Tabira, a sede do Conselho ocupou a casa de número 740 da Rua da Hora, no bairro do Espinheiro. Em 1979, foi a vez de o Cremepe ter a sua sede própria, no bairro da Encruzilhada. Quase 20 anos depois, o Conselho se mudou para a Rua Conselheiro Portela, também no bairro do Espinheiro, onde permanece até hoje.

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FOTOS: DIVULGAÇÃO

J U R Í D I C O

O CREMEPE SEMPRE PROCUROU COIBIR O ABUSO DOS LIMITES LEGAIS DA ATUAÇÃO DO MÉDICO TEXTO JOAQUIM GUERRA

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tualmente, estamos assistindo a um crescimento constante do número de escolas médicas no País. O papel das entidades médicas, dentre outros, lógico, é observar os limites éticos e legais da atuação do médico desde o início da sua formação acadêmica. Pela lei, o médico é o profissional graduado em Medicina, porém, seu exercício legal está condicionado ao prévio registro no Conselho Regional do Estado onde pretenda exercê-la. O estudante de Medicina não pode e não deve de forma alguma exercer a profissão de médico. E se assim proceder poderá responder criminalmente por exercício ilegal da profissão, crime tipificado no artigo 282 do Código Penal Brasileiro, com pena até 2 anos de prisão.

O estudante e a prática

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O estudante de Medicina, na condição de estagiário, poderá exercer determinados atos em hospitais ou outra unidade de saúde, atuando sob a supervisão de um médico preceptor, com o objetivo de conhecer diferentes técnicas e procedimentos, possibilitando com isso o contato direto com pacientes. Essa conduta é primordial para a boa formação do profissional médico e o zelo para que essas normas sejam seguidas faz parte da atuação permanente do Conselho Regional de Medicina. O estágio ou treinamento do estudante de Medicina, mais precisamente no que se refere à fase de internato, tem suas normas regulamentadas pelo Ministério da Educação. A Universidade ou Faculdade são responsáveis pelas ações que atribuir aos seus alunos, devendo oferecer condições necessárias para o aprendizado. Em diversas oportunidades, o Conselho Federal de Medicina já destacou a responsabilidade do preceptor pelas ações do estudante de Medicina, a exemplo do Parecer CFM 13/97, o qual dispõe que “O treinamento do estudante de Medicina, em qualquer etapa de internato, tem que ser feito sob supervisão direta médica, cujo preceptor responderá pelo ato médico praticado”. O residente médico, ao contrário do estudante, está em processo de especialização, já sendo profissional detentor do diploma de Medicina e respectivamente registrado no Conselho do seu Estado de atuação.

Assim sendo, estará habilitado para exercer a Medicina em qualquer especialidade, responsabilizandose em caráter pessoal pelos atos praticados. Nas instituições que não possuam programas de estágio, a responsabilidade pelos atos praticados pelos estudantes de Medicina será do Diretor Técnico ou Diretor Clínico. Essa responsabilidade poderá ser aferida em diferentes esferas, ética, civil ou criminal, de forma cumulativa ou individualizada. Entretanto, para se apurar a responsabilidade é indispensável observar a relação existente entre o resultado e a conduta, seja pela ação ou pela omissão decorrente de determinado ato do profissional, o que na responsabilidade civil denominase nexo causal. Nesses casos, a responsabilidade do preceptor ou diretor poderá ser indireta, em relação ao ato praticado pelo estudante (art. 932, III, CC), ou decorrer de ato próprio (art. 186 CC). O Código de Ética Médica prevê no seu artigo 1º a proteção ao paciente

por atos decorrentes da ação ou omissão do médico caracterizado por imperícia, imprudência ou negligência, previsão similar disposta no artigo 186 do Código Civil. Em que pese o estudante de Medicina não submeter-se à responsabilização ética, o profissional médico sim e, apesar do registro perante o Conselho de Medicina onde atue conferir-lhe habilitação, existe julgado éticoprofissional que reconhece imperícia praticada por médico (CRM-PE. 0273/2009) registrando-se, por oportuno, não ser o mais habitual. O CRM-DF, no intuito de melhor orientar os estudantes de Medicina, publicou o Código de Ética Estudantil Médica - CEEM, que traz em seu bojo um conjunto de direitos e deveres balizadores que devem ser observados pelo estudante e está disponível para consulta no Portal Médico http:// www.portalmedico.org.br/arquivos/ CodigodeEticaEstudantes.pdf. Joaquim Pessoa Guerra Filho é advogado, com especialização em Direito Público pela UPE e em Direito Civil e Empresarial pela UFPE, e assessor jurídico do Cremepe.

ilegal da Medicina

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PAT R I M Ô N I O

Um verdadeiro espetáculo CAVALO-MARINHO, TRADIÇÃO TÍPICA DA ZONA DA MATA NORTE DE PERNAMBUCO, RETRATA O COTIDIANO DOS TRABALHADORES DOS CANAVIAIS NUMA APRESENTAÇÃO LÚDICA, COM MAIS DE 70 PERSONAGENS

TEXTO MARIANA OLIVEIRA FOTOS HANS MANTEUFFEL

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eatro, música, dança? É difícil classificar o Cavalo-Marinho, manifestação popular típica da Zona da Mata Norte de Pernambuco e da Paraíba, reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, em 2014. A dificuldade se dá justamente por ela unir elementos teatrais e musicais em apresentações dançantes. Essa tradição, que remonta aos canaviais e aos costumes dos trabalhadores da região da Mata, típica do Ciclo Natalino, é composta por um Banco, formado pelos tocadores de rabeca, pandeiro, baje e mineiro ou caracaxá, e por mais de 70 personagens que brincam ao longo da apresentação, que pode durar cerca de nove horas.

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PAT R I M Ô N I O Segundo Maciel Salú, músico, brincante de Cavalo-Marinho, e filho de Mestre Salustiano, o folguedo é dividido em 62 partes e os personagens podem ser humanos (Mateus, Catirina, Sebastião), fantásticos (Caipora) ou animais (Ema, Boi). Cada um deles entra na brincadeira num determinado momento, com música própria. Há brincantes que colocam mais de um personagem. Um grupo de CavaloMarinho é formado geralmente por 22 pessoas que se revezam nos papéis. “Eu mesmo coloco Mateus, Sebastião, Mané do Baile, Seu Ambrósio, Capitão, Veia do Bambu, entre outros”, diz Salú. Há um lado religioso, que fala do nascimento de Cristo, mas há um reflexo muito forte do cotidiano dos trabalhadores e também do passado dos escravos que trabalhavam na lida da cana-de-açúcar. São histórias dos engenhos, das fazendas, com aspectos do universo rural. O vendedor, o fazendeiro, o vaqueiro, o soldado, as crenças populares. Até do ponto de vista logístico, há uma ligação entre a safra da cana e o início dos preparativos dos grupos de Cavalo-Marinho. Com o início da colheita em setembro, os trabalhadores começam a receber e têm verba para investir na produção das indumentárias e nos ensaios. O momento máximo das apresentações acontece no fim do ano, dentro do Ciclo Natalino, seguindo até as semanas que antecedem o carnaval. O enredo base do folguedo é o seguinte: o Capitão-Marinho (daí o nome da manifestação) decide oferecer um baile ao Santo Rei do Oriente e para comandar a festa ele chama dois negros, Mateus e Bastião (personagens que permanecem durante toda a apresentação), para cuidarem da festa no terreiro. “O Banco do Cavalo-Marinho é quem

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No alto, Maciel Salú, músico que é também brincante de CavaloMarinho. Acima, o Banco do Cavalo-Marinho é responsável pela música. O folguedo é dividido em 62 partes, cada uma com seus personagens


Há um lado religioso, que fala do nascimento de Cristo, mas há um reflexo muito forte do cotidiano dos trabalhadores e também do passado dos escravos que trabalhavam na lida da cana-de-açúcar. São histórias dos engenhos, das fazendas, com aspectos do universo rural dá início aos trabalhos, com um boa noite. Depois entra o Mergulhão, que são os galantes sem fantasia, o Mateus e o Bastião, seguidos pelo Ambrósio e pelo Soldado da Gurita. Seguem os outros personagens e o penúltimo é o vaqueiro que dá a deixa para a entrada do último elemento, o boi. A brincadeira termina da forma como começou com os galantes fazendo um coco”, resume Maciel Salú. Atualmente existem cerca de 17 grupos de Cavalo-Marinho em atividade em Pernambuco, a maioria na Zona da Mata Norte, mas também com representante na Mata Sul, e na RMR, com o Boi Matuto de Olinda, pertencente à família Salustiano. Cada grupo possui um mestre que é o grande articulador e organizador das apresentações. É ele quem marca com um apito o ritmo da música e o início e fim dos atos, que contam com diálogos e brincadeiras, além das toadas.

SABEDORIA O Mestre domina muitos personagens e é peça fundamental na transmissão desse conhecimento às novas gerações. Segundo Maciel Salú, existem personagens, inclusive, que vão deixar de existir quando alguns mestres morrerem justamente por eles não terem tido a oportunidade de repassar aos mais jovens as suas características e a forma como eles se inserem na brincadeira. “Você dar vida aos personagens não é simplesmente pegar uma máscara, uma indumentária e entrar. Cada um deles tem uma história, faz parte de um contexto, é preciso conhecê-lo”, pontua Salú. Segundo ele, os mestres do Cavalo-Marinho ainda não recebem o devido reconhecimento e valorização. “Quem já ouviu falar de Mariano Teles, Inácio Lucindo, Mestre Biu Alexandre, Mestre Araújo, Zé de Bibi, Mestre Grimário?”. Mesmo com a declaração do Cavalo-

Marinho como Patrimônio Imaterial pouca coisa mudou no dia a dia desses brincantes. Eles seguem quase sem nenhum apoio das secretarias municipais e nem sempre conseguem um bom produtor cultural para inscrever projetos nos fundos de cultura estaduais. Por outro lado, todo o trabalho desenvolvido nos anos passados por figuras como Mestre Salustiano ajudou a dar mais destaque às manifestações populares tradicionais e gerou uma maior curiosidade por elas. De uns anos para cá, há mais jovens interessados em tocar rabeca, em aprender Cavalo-Marinho. “Essa aprendizagem se dá dentro do próprio grupo. Os mestres que vão ensinando os personagens e todo o processo. Minha filha já brinca Cavalo-Marinho, meus netos também. O Maracatu e o CavaloMarinho são minha faculdade de música, a rabeca é que me dá inspiração. Isso é a minha base, alguns desses mestres já fizeram parceria comigo em outros discos”.

ENCONTRO Há quase 30 anos os grupos de Cavalo-Marinho pernambucanos se juntam para uma série de apresentações na Casa da Rabeca, em Olinda. O I Encontro de Cavalo de Marinho foi organizado por Mestre Salustiano, em 1989. O mestre, natural de Aliança, havia trazido para a cidade anos antes toda essa tradição da Zona da Mata Norte do Estado e, na época, já havia conseguido estabelecer um diálogo com nomes relevantes da cena cultural buscando justamente a valorização da cultura popular. Atualmente, o encontro segue sendo realizado pelos filhos de Salú e acontece em dois momentos: no dia 25 de dezembro, Natal, e no dia 6 de janeiro, Dia de Reis.

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CARDÁPIO Gilliat Falbo apresenta seu lado chef e ensina prato que preparou para receber amigos em almoço descontraído

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Um médico na cozinha A CADA EDIÇÃO DA REVISTA, UM MÉDICO OU MÉDICA SERÃO CONVIDADOS A MOSTRAR SEUS DOTES CULINÁRIOS TEXTO E FOTOS MARIANA ARAÚJO

C

irurgião pediátrico, Gilliatt é casado com a pediatra Ana Falbo. O casal tem dois filhos: Conrado Vito e Clarissa. Atual presidente do Imip e coordenador acadêmico da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS), Gilliatt formou-se pela Faculdade de Ciências Médicas de Pernambuco, em 1979, e fez a residência médica em Cirurgia na Universidade Federal de Pernambuco. O doutorado em Saúde Materno Infantil foi concluído na Universidade de Trieste, na Itália. Gilliatt atua no Imip desde 1982, onde já ocupou funções como cirurgião pediátrico, chefe da Cirurgia Geral Pediátrica, chefe do departamento de Cirurgia infantil, coordenador do Comitê de Ética em Pesquisas em Seres Humanos, diretor de pesquisa e líder do Grupo de Estudos da Violência do Imip. Na FPS, também coordena o Mestrado de Educação para Profissões de Saúde e dedica-se a pesquisas sobre educação médica. Na década de 90, foi Secretário de Saúde no Governo de Miguel Arraes, presidente

do Conselho de Administração do Laboratório Farmacêutico de Pernambuco (Lafepe) e presidente da Fundação de Saúde Amaury de Medeiros (Fusam). Gilliat Falbo é um apaixonado pelas panelas. Não são raras as vezes em que deixa os amigos na varanda do seu apartamento e fica na cozinha, preparando petiscos e outras delícias para servi-los. O interesse pela culinária começou ainda na infância. Ele e o irmão Alexandre gostavam de preparar uma mistura para bolos. Os dois esperavam sentados na cozinha o bolo ficar pronto para em seguida comê-lo. Outra diversão era ficar observando a mãe preparar as refeições da família. Já adulto, casado, foi morar na Inglaterra. O gosto pela culinária salvou a estada da família no país. Ele e a mulher, Ana, permaneceram na terra da rainha Elizabeth por um ano. Aproveitou o período para desenvolver técnicas. “Lembro que o primeiro prato que eu fiz foi uma lagosta que minha mãe fazia”, conta. Mas afirma que não tem preferências na cozinha. “O prato

que eu gosto de cozinhar é o prato gostoso”, diz. Na cozinha de casa, livros de culinária de todas as parte do mundo ganharam uma prateleira. Ficam ao lado dos temperos. Mas isso não significa que siga à risca o que está escrito. Ele gosta de experimentar, de testar novos ingredientes, de adaptar ao paladar. Por exemplo, a entrada que apresenta nestas páginas tem a receita original com fava e presunto copa. Trocou por feijão verde e salame, além de ter acrescentado o paio. Já no prato principal, o coentro substitui a salsa. Também não se prende às quantidades. Vai muito pelo “olhômetro”, principalmente na hora de dosar os temperos. Um dos segredos da sua cozinha é o uso de manteiga de garrafa para refogar os alimentos. “Dá um sabor mais especial”, revela. Mesmo com tantos pratos, tantas experimentações, ainda tem um desafio a ser vencido: a culinária japonesa. “Já fiz temaki, mas ainda não me atrevi a fazer sushi”, diz.

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CARDÁPIO

ENSOPADO DA COXA DA ASA AO PINOT NOIR

Entrada Feijão verde com queijo de cabra Ingredientes •500g de feijão verde cozido na água e sal •100g de chorizo, paio e bacon •1 xícara de cebola picada •Pimentão vermelho e amarelo •Salame de Pamplona •Queijo de cabra Comece refogando a cebola, o alho e o feijão já cozido. Acrescente os embutidos e os pimentões. Quando estiver pronto, monte uma cumbuca individual cercando com salame e vagem. Coloque o feijão no centro

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e cubra com queijo de cabra ralado. Coloque para gratinar. “A dica é, se sobrar o feijão gratinado, misturar com maionese e servir como uma salada fria. Acho mais gostoso até do que o prato quente” deixa a dica. Prato principal Ensopado da Coxa da asa ao pinot Noir •Asas de galinha •1 cebola picada •10 ceboletes •Cenoura •Tomate e cereja •Coentro e cebolinha

•Batata cozida •1 taça de vinho Primeiro, asse as asas da galinha temperadas com sal, pimenta e alho. Em uma panela funda, refogue a cebola, as ceboletes e acrescente as asas já assadas. Acrescente a cenoura, o tomate e o pimentão. Acrescente o vinho. Deixe em fogo brando para fazer o cozimento. Sirva com arroz de cenoura. “Se quiser, ainda pode acrescentar azeitonas” — diz Gilliatt, transbordando de orgulho pelos dotes culinários.


ARTE&

CULTURA

LIVROS P.36 VISUAIS P.38 MÚSICA P.39

CINEMA MOSTRA A VIDA DE NISE DA SILVEIRA | PÁG. 37

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LIVROS | LU IZ AR RAIS FOTOS: DIVULGAÇÃO

LINHA M Depois do cultuado Só garotos, a cantora e escritora Patti Smith volta à sua odisseia pessoal neste Linha M, que ela chama de “um mapa para minha vida”. O livro mostra a rotina da artista, que vai ao mesmo café e, munida de seu caderno de anotações, registra suas impressões sobre o passado e o presente, a arte e a vida, o amor e a perda. Cia das Letras, 216 páginas, R$ 39,00

LEMBRANÇAS DE UM TRABALHO DIFÍCIL

P

ara a fotojornalista Lynsey Addario não há pauta impossível. Com trabalhos realizados nos lugares mais perigosos do planeta, essa norteamericana de 42 anos, narra suas atividades a partir dos anos 2000. Seus trabalhos incluem coberturas no Afeganistão invadido após os atentados do 11 de Setembro, Síria, Iraque, Líbano, Congo, Líbia e outros lugares menos conflituosos. Com trabalhos publicados regularmente em veículos como o The New York Times, a National Geographic e a Time, recebeu diversos prêmios, incluindo o Pulitzer de Reportagem Internacional. As imagens captadas pelas lentes de Lynsey parecem buscar sempre um propósito maior percorrendo um espectro que vai da crueldade à delicadeza, do arrebatamento à reflexão. Suas memórias incluem a vida familiar, amorosa e a dura jornada atrás das lentes. Apesar de toda a coragem em viver em lugares onde a morte parece mais próxima, o medo, para ela é uma companhia constante: “Trabalho com frequência em lugares onde a prática do estupro é uma arma de guerra muito comum. Essa é sempre uma ameaça”. É isso que eu faço –Uma vida de amor e guerra – Editora Intrínseca, 352 páginas, R$ 69,90

BOA POESIA, PARCERIA TARDIA

CIDADE EM CHAMAS Combinando o ritmo de um thriller ao escopo dos grandes épicos da literatura, Garth Risk Hallberg constrói um meticuloso retrato de uma metrópole em transformação. Dos altos salões do poder às ruelas do subúrbio, ele captura a explosão social e artística que definiu a década de 1970 e transformou o mundo para sempre. Cia das Letras, 1.048 páginas, R$ 69,90

O livro Poesia Completa, que reúne toda produção do pernambucano Sebastião Uchoa Leite, um dos mais importantes nomes da poesia contemporânea do Brasil, chega ao mercado literário a partir de uma parceira entre a Cepe e a extinta Cosac Naify. Com apresentação do poeta e crítico literário Frederico Barbosa, que classifica Uchoa Leite como “um dos mais originais e provocativos poetas da nossa literatura”, dono de uma “poesia-espiã, sempre avessa a classificações ou modismos, independente e arredia”, Poesia Completa apresenta a obra do importante poeta, pouco conhecido entre nós. Poesia completa, Companhia Editora de Pernambuco (Cepe)/CosacNaify, 512 páginas, R$ 40,00

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CINEMA | MAR IANA OLIVE I RA FOTOS: DIVULGAÇÃO

SAIBA MAIS

AS IMAGENS DO INCONSCIENTE

DURA REALIDADE Bicho de Sete Cabeças, dirigido por Laís Bondansky, é outro longa-metragem brasileiro que revela a realidade dos hospitais psiquiátricos. Neto (Rodrigo Santoro) é um jovem internado pelo pai depois dele ter encontrado um baseado em seu casaco. O filme revela o incômodo e a incompreensão da sociedade com aquilo que difere do padrão, que foge do convencional, apresentando de forma dura e cruel a realidade dos manicômios.

O

filme Nise – O Coração da Loucura (1h 48min -Dir.: Roberto Berliner)sobre a psiquiatra alagoana Nise da Silveira, lança um olhar importante sobre essa figura tão emblemática para a psiquiatria brasileira e que, segundo a atriz Glória Pires, foi sua personagem mais completa. A médica – formada em 1926, na Faculdade de Medicina da Bahia, única mulher em uma turma de 157 alunos – desenvolveu um importante trabalho junto a pacientes psiquiátricos internados no Hospital Pedro II, antigo Centro Psiquiátrico Nacional, no Rio de Janeiro, na década de 1940. Ela assumiu o setor de Terapia Ocupacional e Reabilitação, em 1944, e passou a desenvolver atividades livres e artísticas com os pacientes psiquiátricos. As cenas iniciais do filme mostram a médica retornando ao hospital após um período de licença. Ao chegar, ela é levada a uma sala onde outros médicos estão reunidos para discutir casos e procedimentos. Nise é a única mulher médica ali presente (o que já antecipa um pouco o preconceito que virá a sofrer). Além da questão de gênero, ela é a única a questionar práticas como a lobotomia e o choque elétrico, procedimentos que, à época, eram tidos como fundamentais para a consolidação da psiquiatria como especialidade médica. Na contramão dessas tendências, Nise criou um atelier, estimulando seus pacientes a buscar uma forma de comunicação através da pintura, do desenho e das esculturas. A médica também buscou uma aproximação com a psicanálise estudando e dialogando com as teorias de Jung. Ela chegou a escrevê-lo comentando a evolução dos seus pacientes através dos trabalhos artísticos e recebeu resposta. Nise comemorou o estabelecimento desse diálogo, ainda que o próprio Jung julgasse que ela era um médico, não uma médica. O filme faz um breve recorte desse maravilhoso trabalho desenvolvido por ela, dando uma merecida atenção à trajetória dessa mulher ainda pouco conhecida no Brasil.

PSICANÁLISE O diretor canadense David Cronenberg trata da conflituosa relação entre Sigmund Freud e Carl Gustav Jung. Uma relação perigosa apresenta as relevantes discussões teóricas entre os psicanalistas. Sabina, uma russa que estudava medicina em Zurique, vive um momento de muita confusão mental e passa a ter um relacionamento com seu analista, Jung. O pai da psicanálise, que via em Jung seu sucessor, tenta interferir nesse affair, algo extremamente indesejável para a psicanálise, que lutava, à época, para se firmar perante a psiquiatria tradicional.

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VISUAIS | MAR IANA OLIVE I RA

POESIA VISUAL BRASILEIRA EM FOCO DOMINGOS E QUARTAS O Museu do Homem do Nordeste, instituição da Fundação Joaquim Nabuco, que abriga também o Cinema do Museu, está com um horário estendido nas quartas-feiras, dentro do projeto Uma Noite no Museu. O espaço, que usualmente encerra suas atividades às 17h, estará aberto ao público até às 21h. É nesse horário que o Muhne atende também os alunos do Programa de Educação de Jovens e Adultos – EJA. Além dessa novidade, aos domingos a entrada é gratuita para todos. Mais informações: 3073.6331

O

artista plástico pernambucano Paulo Bruscky vem recebendo grande atenção dos críticos, curadores e também do público desde o início dos anos 2000. Bruscky iniciou sua trajetória no campo da arte ainda nos anos 1960, com uma vasta produção conceitual. Ao longo do tempo, ele tornou-se ainda um grande colecionador, reunindo cerca de 70 mil peças, entre livros, cartazes, recortes de revista e obras de arte experimental e da vanguarda brasileira. Essa riqueza acumulada por Bruscky tornou-se até obra, quando, em 2004, ele foi convidado a levar seu ateliê e tudo que estava dentro dele para a Bienal de São Paulo. Dentro desse acervo especialíssimo é possível se formatar um grande número de exposições com conceitos distintos. A exposição História da Poesia Visual Brasileira, em cartaz no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (R. da Aurora, 265, B. Vista. De terça a sexta-feira, das 12h às 18h. Sábados e domingos, das 13h às 17h. Entrada gratuita), com patrocínio do Funcultura, apresenta um recorte dessa relevante coleção tendo como enfoque a poesia visual no Brasil. A curadoria é do próprio artista e do seu filho, o músico Yuri Bruscky. Juntos eles selecionaram 500 obras que estão em exposição. Quem passar por lá vai conferir a produção de nomes importantes do concretismo, poema/processo, e várias obras experimentais, livros raros, poemas-objetos, cartazes... Segundo Bruscky, a mostra dá espaço para artistas menos conhecidos dentro da poesia visual, que não estão entre os figurões do eixo Rio/São Paulo. É o caso dos dois homenageados: Vicente do Rego Monteiro e Wlademir Dias-Pino. Dentro das atividades em torno da mostra, está o lançamento pela Cepe Editora de um livro com manifestos e poemas, numa edição bilíngue, com cerca de 300 páginas, e uma oficina de poesia visual para alunos da rede pública de ensino. Mais informações: 3355-6870.

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ENTRE O COSMO E O POP Depois de dois anos de sua última exposição na Amparo 60, Kilian Glasner volta à galeria trazendo a exposição Co(s)mic. Com curadoria de Eder Chiodetto, a mostra reúne 12 obras em desenho e um objeto em neon, todos inéditos. Os desenhos têm formatos variados e utilizam técnicas diversas como pastel, nanquim e óleo. O universo dessa exposição transita entre o cosmic e o comic. Segundo o curador, essa nova safra de obras de Kilian Glasner, reunidas em torno de Co(s)mic, parece flagrar um instante de sua carreira no qual detecta-se a confluência de referências que lhe são caras e que surgem agora imbricadas: a cosmogonia, a estética comic e a Pop Art. Informações: 3033.6060


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MÚSICA | MAR IANA ARAÚJO

AS NOVAS VOZES DA MPB RARIDADES DE BOWIE Falecido no início do ano, David Bowie deixou alguns trabalhos inéditos. Nada mais natural para o grande artista que ele foi. Parte dessas raridades está no recém-lançado álbum The Many Faces of David Bowie, que reúne convers, colaborações, produções e participações do artista em outras gravações, além de canções pouco conhecidas. Entre as faixas, está uma gravação de Madman, de 1979, tocada pela banda new wave Cuddly Toys.

A

música popular brasileira volta ao seu auge. Depois dos sucessos de nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil na década de 70, e uma tentativa de renovação nos anos 90 com o surgimento de Marisa Monte para o mundo da música, a segunda década dos anos 2000 tem apresentado boas novidades. Cantoras como Céu (foto), Roberta Sá, Tulipa Ruiz e Clarissa Falcão vêm despontando nas rádios, ultrapassando a barreira dos grupos e fãs alternativos. Céu agrada aos mais variados públicos, devido à ausência de um estilo único. Roberta Sá lançou seu primeiro álbum em 2004 e já emplacou canções em trilhas de novelas. Tulipa chama a atenção pelas suas composições poéticas e pelos arranjos simples que escolhe para as musicas. Clarissa é multi. Filha dos cineastas e roteiristas pernambucanos, ganhou fama como atriz da web série Porta dos Fundos. Suas letras chamam atenção por sem bem humoradas, além disso ela busca fazer um jogo com as palavras. E também há homens entre essa nova geração. Destaque para Marcelo Jeneci que pegou carona no sobrenome do pai, mas já mostrou que tem talento de sobra para voar com suas próprias asas. Cícero teve seu primeiro álbum, Canções de Apartamento, bem avaliado pela crítica. E o gaúcho Felipe Catto vai no segundo álbum. A voz dele é muito comparada à de Ney Matogrosso.

LEGIÃO URBANA 30 ANOS O ano de 2016 será marcado pela volta da Legião Urbana aos palcos. Uma das maiores bandas de rock dos anos 80 e 90 completou 30 anos de gravação do seu primeiro disco. A data mereceu uma regravação. O álbum duplo tem 18 faixas, sendo sete registros alternativos do disco Legião Urbana, que chegou às lojas em 1985. Para marcar a data, uma turnê comandada por Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá percorre o Brasil. No final de maio, esteve no Recife.

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H IS TÓ RI A

Crianças em espécie de pulmão de aço para tratamento da poliomielite, em 1937. Naquela época, não existia vacina

Tratando a pólio O

pulmão de aço era uma peça de equipamento médico usada entre as décadas de 20 e 80 como um tratamento para a poliomielite. Sua função era servir como um respirador mecânico, principalmente no tratamento de indivíduos cuja função pulmonar era dificultada pela doença, a qual causava paralisia dos músculos do peito. O pulmão de aço foi projetado pelo Dr. Philip Drinker, da Universidade de Harvard com a ajuda da fisiologista Louis Shaw. Podia adaptar-se a uma criança pequena ou um adulto pesando até 100 quilos. O tubo cilíndrico podia ser movido sobre rodas, e pequenas janelas na lateral permitiam que os médicos observassem seu paciente. Um colar de borracha montado ao redor do pescoço mantinha a pressão do ar no interior selada no interior do tanque. Motores elétricos alimentavam o pulmão de aço, o qual causava uma mudança na pressão contida no tanque, concebido como uma câmara estanque ao ar que literalmente empurrava o ar para dentro e para fora dos pulmões do paciente.

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Revista do Cremepe  

Ano I - Nº 1 - Ago/Set/Out 2016

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