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HANS MANTEUFFEL

EDITORIAL

O urologista Guilherme Lima comanda cirurgias com o robô Da Vinci

OS AVANÇOS TECNOLÓGICOS DA MEDICINA

É

mais do que louvável para a humanidade em geral o avanço que a Medicina vem conseguindo nas últimas décadas. Na área de imagens, saltamos do raio-x tradicional para o ultrassom, depois para a tomografia, em seguida veio a ressonância e agora temos o pet-scan. Na cirurgia, depois do bisturi comum, veio o bisturi a laser, a cirurgia por vídeo e agora chegamos ao robô. São inúmeras descobertas que envolvem a robótica, manipulações genéticas, oncologia, célulastronco e clonagem. É inegável que

os avanços da Medicina, do ponto de vista científico, têm ajudado no tratamento e na cura de muitas doenças e facilitado a precisão de diagnósticos e prognósticos. As novidades tecnológicas no mundo da Medicina contemporânea são o tema de uma reportagem especial de capa desta edição da revista do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco. O Cremepe acompanha a evolução das diversas especialidades da Medicina com entusiasmo, mas também com uma preocupação inquietante: quando é que esses avanços e suas

consequentes melhorias para o desempenho de uma Medicina mais precisa e mais eficiente vão chegar à população pobre do nosso Brasil? É esse lado perverso dessa história que precisa ser revisto para que o acesso seja de todos e não apenas de uma parcela minoritária e privilegiada da sociedade. Até porque, como está bem delineado na Constituição do País, a saúde é um direito de todos e um dever do Estado brasileiro. A diretoria

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FOTOS: HANS MANTEUFFEL

SUMÁRIO

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ENTREVISTA François Figueiroa fala sobre os 35 anos de combate à Aids no Brasil

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CAPA O avanço tecnológico da Medicina e o que muda na vida dos pacientes

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SOLENIDADE O Cremepe resgata a sua memória através da arte

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PRECONCEITO A falta de reconhecimento aos trans gera também homofobia

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JURÍDICO O que é proibido e o que é permitido nas mídias sociais?

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MÚSICA Quem é o pernambucano Johnny Hooker

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PATRIMÔNIO Onde e como respirar o ar puro no Recife?

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GASTRONOMIA Por que tanta gente gosta de tomar café da manhã em mercado público?

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ARTE & CULTURA Série de TV encara a questão do suicídio

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HISTÓRIA Saiba como era o eletrocardiográfico

COLABORADORES

EXPEDIENTE PRESIDENTE DO CREMEPE CORDENAÇÂO EDITORIAL PROJETO GRÁFICO E ARTE Luiz Arrais Italo Rocha André Dubeux VICE-PRESIDENTE João Guilherme

JOAQUIM GUERRA Advogado, especializado em Direito Público e assessor jurídico do Cremepe

MAYRA ROSSITER Jornalista, da Assessoria de Imprensa do Cremepe

JOELLI AZEVEDO Jornalista, da Assessoria de Imprensa do Cremepe

CONSELHO EDITORIAL André Dubeux João Guilherme Ricardo Paiva

ASSESSORIA DE COMUNICAÇÂO Mayra Rossiter Joelli Azevedo REPORTAGEM Mariana Oliveira Mariana Araújo

IMPRESSÃO RB Comunicação Visual TIRAGEM 15.500 Exemplares

FOTO CAPA: HANS MANTEUFFEL

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Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores.

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OPINIÃO ANDRÉ DUBEUX Presidente do Cremepe

Preservar a relação médico-paciente

A

gastrectomias por via laparoscópica, ressecção endoscópica transuretral da próstata, entre outros. Atualmente, chegamos à época da cirurgia robótica com a ideia de se reproduzir, com segurança, as cirurgias oncológicas minimizando danos com a rápida recuperação dos pacientes. Tudo isto é valido, todavia, não podemos esquecer que a pedra angular da Medicina é a relação robusta, solidificada no mais amplo diálogo, respeito e confiança. Não podendo haver substituição pela frieza da máquina, por mais desenvolvimento tecnológico que seja. Somos capazes de mandar notícias e fatos através das mídias sociais para os mais variados campos do mundo com a incrível rapidez, discutindo casos difíceis com colegas mais experientes, entretanto, esta tecnologia não é capaz de substituir o mais elementar na forma de comunicação que seja a linguagem. Ressalto isto para que possamos refletir que, por mais desenvolvida que seja uma sociedade, esta não deve abrir mão das relações interpessoais, tão importantes no contato médico/paciente. REPRODUÇÃO

sociedade moderna vem ao longo dos anos experimentando uma revolução na área de tecnologia e na Medicina não é diferente. Ao longo desses anos, a classe médica vem ganhando informações que têm aprimorado a propedêutica e a terapêutica de forma muito robusta. Vale lembrar que há 40 anos a ultrassonografia na obstetrícia foi um marco para essa especialidade, pois, até então, os obstetras se valiam apenas de um Raio X de abdômen e da semiologia. Com o passar do tempo, vieram a tomografia e a ressonância com o mesmo objetivo. Nas especialidades cirúrgicas, as ditas cirurgias minimamente invasivas vêm ganhando espaço e conceito tanto para a classe médica quanto para os pacientes. Os cálculos renais que antes eram tratados com grandes incisões e retiradas de costelas, hoje são tratados com cirurgias percutâneas com excelentes resultados. É assim com colecistectomia e

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MIVA FILHO/DIVULGAÇÃO

E N T R E V I S TA

“Viver com Aids, hoje, é possível, viver com o preconceito, não”

François Figueiroa O COORDENADOR ESTADUAL DO PROGRAMA DST’S AIDS FALA SOBRE A CHEGADA DA AIDS EM PERNAMBUCO E NO BRASIL | ENTREVISTA A MARIANA OLIVEIRA 4 | REVISTA DO CREMEPE

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No Brasil, o primeiro registro da infecção com o vírus HIV aconteceu em 1980. Em Pernambuco, em 1983, há 35 anos. Nesta entrevista, o Coordenador Estadual do Programa DST’S AIDS, François Figueiroa, fala desse início da epidemia, de como os programas de combate foram estruturados e de como se dá a política de enfrentamento à Aids em 2017. Segundo ele, que atua nesta área há cerca de 20 anos, essa luta não pode se dar sem o viés dos direitos humanos, sem se discutir os direitos sexuais e reprodutivos, sexualidade, relações de gênero, estigma, discriminação e preconceitos. Como foi a chegada da Aids no Brasil? O primeiro caso em Pernambuco foi em 1983, o primeiro nacional foi em 1980. Este ano, são 35 anos da Aids em nosso estado. A Aids, se considerarmos as outras doenças, trata-se de uma epidemia recente – 40, 35 anos de uma enfermidade não é nada. A gente sabe hoje que esse vírus já circulava na África desde a década de 1930, vindo do macaco. Ela se adapta à raça humana, migra para a Europa, depois para os EUA, que é onde a gente vai notar que tem algo errado acontecendo, algo diferente. No final da década de 1970, nos EUA, até por uma vigilância de medicação, estava havendo um uso maior de alguns medicamentos de pneumonia, doença que estava matando muitos gays, e ninguém sabia por quê. Ou seja, um homem, gay, previamente sadio, de repente adoecia e morria do nada. Logo o problema foi relacionado à homossexualidade, depois também a pessoas que usavam drogas e prostitutas. Isso levou a uma carga de preconceito muito grande. Então, logo surgiu o discurso do câncer gay, da peste gay, tudo isso aflorou neste início. Ninguém sabia o que era, nem como se transmitia, só sabia que matava. Agora, nunca houve no mundo uma doença que se soubesse

tanto sobre ela em tão pouco tempo. A organização dos grupos gays nos EUA, por exemplo, ajudou a pressionar por essa busca por conhecimento. No Brasil, o primeiro caso foi em 1980. E a epidemia coincide com o momento da elaboração da nossa Constituição em 1988 e também do movimento sanitário e construção de um modelo de saúde pública, o SUS. Isso se deu neste contexto o que aumentou muito a participação de organizações sociais na construção dessa política. Isso logicamente foi mais forte nos estados mais centrais. Mas aqui, em Pernambuco, tivemos a organização da sociedade civil e ONGs que também participaram dessa construção de políticas públicas, tanto da criação do SUS como a da Aids. Já em 1983, a comunidade internacional sabia que se tratava de um retrovírus, graças às pesquisas de Luc Montagnier, do Instituto Pasteur, e Robert Gallo, nos EUA. Em 1985, tínhamos um teste que podia dar esse diagnóstico. E em Pernambuco, como foi? Nós tínhamos a sorte de ter o Hemope, que teve um papel superimportante na implantação da política pública de sangue no país. A gente não tinha teste em todo canto e, antes do final de 1986, havia triagem de sangue no Hemope, isso já numa visão de saúde pública. Enquanto no sul continuavam existindo os bancos de sangue privados que não tiveram agilidade para implantar o teste. Então, graças a essa politica de saúde pública do Hemope, da política de sangue de Pernambuco, a gente tem um número mínimo de pessoas contaminadas por transfusão sanguíneas, o que difere bastante do Sul e Sudeste. Lógico que quando o Hemope começou a triar o sangue, foi através de um pool, depois passou a fazer em todos os doadores. E logo depois foram criados os COAS (Centro de Orientação e Apoio

Sorológico) que eram estruturas de saúde municipais com uma equipe multiprofissional, onde se garantia todo o sigilo e se acolhia as pessoas que precisavam fazer o teste, que precisavam saber se eram soropositivos para evitar a transmissão. Nessa época já se sabia quais eram os modos de transmissão e também, logo depois, se definiu que a mãe poderia transmitir para o feto. Esses espaços depois foram chamados de CTA – Centro de Testagem e Aconselhamento e tiveram um papel importante. Com o diagnóstico positivo, não havia muito que se fazer, pois a mortalidade era altíssima. Mas fazer o diagnóstico quebrava um pouco a cadeia de transmissão. Quando surgiram os primeiros medicamentos? Em 1987, 1988, o AZT já começa a ser usado, mas o que fez a diferença mesmo foi o coquetel, uma associação de três drogas, com o inibidor de protease, em 1996. Entre o surgimento da epidemia e o surgimento do coquetel, temos um tempo muito curto. Mas muitas pessoas não conseguiram se beneficiar porque ficaram no meio do caminho. O coquetel foi fundamental para reduzir os índices de mortalidade. É importante dizer que a Secretaria de Saúde do Estado, comandada à época por Jarbas Barbosa, adquiriu essa nova droga antes mesmo do Ministério da Saúde. Lógico que foi num número restrito. Houve um intenso debate com a sociedade civil, com as ONGs, para decidir quais seriam os pacientes que receberiam a medicação. E desde então é assim. Como foi organizado o atendimento? No início, havia uma dificuldade no atendimento pela incompreensão. Mas logo a maioria foi direcionada para o Hospital Correia Picanço. Outros hospitais que atenderam pacientes nesse início foi o Hospital das Clínicas e o Oswaldo Cruz. Hoje esses três junto

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E N T R E V I S TA com o Imip são os maiores. Nesse primeiro momento, os profissionais de saúde não sabiam muito sobre a doença e alguns chegaram a se recusar a atender pacientes. A participação da sociedade civil fez toda diferença. Grandes artistas adoeceram e o problema teve destaque. Na época, todo mundo se sentiu vulnerável, era um risco muito grande: não tinha cura e todo mundo poderia pegar. Essa mobilização foi fundamental para que se construísse essa política de enfretamento à Aids como foi feita e como está sendo feita até hoje. Logo em seguida, nós vimos que não era uma

porque não dá para pensar dentro daquelas caixinhas separadas. Não dá para cuidar da doença e não da pessoa. Atualmente quem são as populações mais vulneráveis à doença? As populações chave são gays, travestis, pessoas trans, pessoas que usam drogas, pessoas privadas de liberdade e prostitutas. Nós temos as populações prioritárias. Hoje a gente está vendo que o adulto jovem que, por não ter vivenciado o início da epidemia, não tem noção do risco de vulnerabilidade, está se vulnerabilizando. Além disso, as mudanças dos tempos, a era do

“Eu acho que a Aids revolucionou o SUS, porque não dá para pensar dentro daquelas caixinhas separadas. Não dá para cuidar da doença e não da pessoa” simples doença. Ela era transmitida pela relação sexual, através do sangue e de mãe para filho. Percebemos que ela não ia se resolver pela saúde. A Aids, sabendo como se transmite, como se evita e o que vulnerabiliza uma pessoa, a gente sabe que não é só a saúde. É uma doença da sociedade, precisamos ver outras questões. Se você não trabalha na lógica do social, dos direitos humanos, do não à discriminação e ao preconceito, dos direitos sexuais das pessoas, a gente não vai impactar. Então, isso é fundamental e a sociedade civil precisa colocar na sua agenda. Eu acho que a Aids revolucionou o SUS,

instantâneo, do volátil, isso muda as relações entres as pessoas, aumenta o número de parcerias sexuais. Infelizmente, o aumento do nosso conhecimento não leva a um aumento da prevenção. Uma pesquisa recente de comportamento nacional mostrou que 45% da população sexualmente ativa não utilizou proteção em relação eventual nos últimos meses. Como vocês atuam hoje no sentido de prevenir o avanço da doença? Utilizamos maneiras de prevenção combinada. Hoje temos uma estratégia para trabalhar a prevenção de todas as

doenças sexualmente transmissíveis, que estamos chamando de infecção sexualmente transmissível, para mostrar à sociedade que a doença pode estar totalmente assintomática e você pode pegar, é uma infecção. Distribuímos camisinhas e todos os insumos de proteção. Também oferecemos o kit de redução de danos ao usuário de droga injetável. Se a pessoa não quer parar, pelo menos reduzimos os danos. No início, isso foi motivo de prisão de trabalhadores. Hoje já existem liminares na justiça que permitem, mas dar o kit foi e é visto por muita gente como um incentivo. Isso é muito forte ainda. A vacina do HPV que previne um vírus que também é transmitido sexualmente é vista hoje, por alguns, como um incentivo para que as meninas iniciem a vida sexual mais cedo. Mas países como a Austrália têm mostrado o contrário. Vivemos uma epidemia de Sífilis. Trata-se de uma doença de fácil diagnóstico e que tem cura em qualquer estágio. Mas ela está se incrementando. Temos um projeto aqui na secretaria, o Quero Fazer, que leva um trailer onde é possível fazer um teste rápido de algumas doenças (incluindo Aids e Sífilis) a locais por onde circula uma população com pouco acesso aos centros de saúde. Na última vez, testamos 65 pessoas, 18 tiveram um positivo para Sífilis. E o tratamento? Temos medicamentos cada dia melhores e com menos efeitos colaterais. Esses remédios têm sido sempre incorporados ao protocolo nacional, e, por lei, garantidos a todos os portadores de HIV. O tratamento deve ser iniciado cedo, sabemos que não é preciso esperar a queda do CD4, como se achava. Isso beneficia muito o paciente em si. Mas tem outro fator importante, como essa pessoa vai baixar sua carga viral ao ponto de ficar

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indetectável, isso traz um benefício individual e coletivo, porque ela dificilmente vai transmitir o vírus. O grande problema hoje é uma terceira epidemia que se chama preconceito. Eu diria: viver com Aids, hoje, é possível, viver com o preconceito, não. A discriminação ainda é muito forte. A grande maioria dos pacientes que pega medicação no hospital, antes de sair, tira todos os rótulos dos remédios. Em muitos casos, a família, os amigos, os colegas de trabalho não sabem que a pessoa faz uso dessa medicação e mesmo que tem a doença. Hoje a gente sabe que beijar, abraçar, encostar-se a uma pessoa suada, pegar no sangue dela se eu não tiver nenhum corte, ou na mucosa, eu não vou pegar. Se eu transar com uma pessoa com camisinha também não tenho risco de pegar. A gente divulga insistentemente isso até hoje para tentar quebrar esse preconceito que ainda existe inclusive nos serviços de saúde. A ponto de quererem identificar no prontuário do paciente um destaque apontando que ele é HIV positivo vermelho, o que não pode de maneira nenhuma. Isso não traz benefício para o profissional de saúde, porque a biossegurança deve ser igual para todo mundo. Na hora que eu me protejo mais com esse que tem a cruz vermelha é porque eu estou me protegendo menos com a aquele que está sem a cruz. Mas quem me garante que ele não tem HIV? Mesmo com o teste negativo, ele pode estar na janela imunológica e esse é o período mais infectante. A janela imunológica é de 30 dias. Esse paciente infecta mais que o outro que eu já estou tratando. Então a biossegurança tem que ser igual para todos. Além disso, temos a profilaxia pós-exposição, que diminui muito a chance de infecção. Todo esse preconceito existe porque essa doença está relacionada à sexualidade, que é o que temos menos resolvido. Não é fácil falar sobre isso com o filho em

“O diagnóstico precoce faz toda diferença. Você tem controle, sabe como se transmite o HIV, que pode curar a Sífilis, então, doutor, peça o teste ao seu paciente” casa, na escola, e nós, profissionais de saúde, não somos preparados para isso na academia. Isso passa muito ao largo numa conversa com o paciente. É por isso que dizemos veja o paciente como um todo. Não perca essa oportunidade. É difícil um homem ir a um serviço público de atenção básica. Se foi, aproveite e pergunte como está a sua vida sexual, proponha fazer o teste. Temos o teste de sífilis, de HIV, Hepatite B e C, e HTLV. As quatro primeiras nós temos teste rápido, estamos implantando e treinando multiplicadores em todas as unidades básicas, para que o teste seja feito não só em gestantes, não só em pessoas com tuberculose (doença que mais tem matado os pacientes com HIV). A verdade é que para qualquer doença transmissível o diagnóstico precoce faz toda diferença. Porque se tiver você trata e cura ou trata e controla, evitando a transmissão. Você tem controle, sabe como se transmite o HIV, sabe que pode curar a Sífilis, então, doutor, peça o teste ao seu paciente. Ficamos preocupados com triglicerídeos, colesterol, glicose, mas quando é pra falar de sexualidade a gente passa ao largo. Pesquisas atuais indicam novidades? Hoje a gente tem vários projetos de vacinas sendo desenvolvidos, mas acredito que isso ainda leve um tempo por conta da complexidade

do vírus. Mas há umas luzes, estão encontrando alguns detalhes do vírus que poderiam funcionar para todas as variantes, isso é muito importante. Apenas quero relembrar que a gente tem vacina de Hepatite B e isso não está resolvendo o problema. Em termos de medicação, temos várias sendo elaboradas, inclusive com novas tecnologias. Medicação que você pode usar através de implante e isso iria resolver muito a questão que falamos da adesão, ou de um pessoa privada de liberdade, morador de rua. Outros já levantam a possibilidade de tomar semanalmente ao invés de diariamente, talvez até mensalmente. O grande desafio é acesso a isso. Hoje temos milhões e milhões de pessoas no mundo que não têm acesso ao mais simples medicamento. Vários governos do mundo não oferecem. Nos EUA, você tem acesso pagando, por plano de saúde, ou através da filantropia e das ONGs que bancam o tratamento para o paciente. Na África nem todo mundo tem acesso, tanto que o Brasil ajudou Moçambique a implantar uma fábrica de antirretroviral. O país tem áreas com 30% da população sexualmente ativa com HIV. Na África do Sul, são 10%. E os números no Brasil. Quais são? Aqui temos 0.4% população sexualmente ativa. A epidemia nacional está estabilizada, mas num patamar alto. São em torno de 40 mil novos casos de Aids registrados por ano no país. Em Pernambuco, temos uma média de 1.600 novos casos por ano notificados, e a mortalidade em torno de 500. Também sem diminuir. Os que falecem geralmente descobriram tardiamente e não aderiram ao tratamento. São 25 mil pessoas tomando antirretroviral em Pernambuco. A gente está conseguindo colocar o teste rápido na ponta, então, temos que pedir aos médicos: peçam o teste. Conversem com seus pacientes, falem das vulnerabilidades. Repito.

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GOOGLE IMAGES

C A PA

OS AVANÇOS DA CIÊNCIA TÊM IMPACTADO DIRETAMENTE NA MEDICINA E LEVANTADO DISCUSSÕES ÉTICAS E TAMBÉM SOBRE O ACESSO DE TODOS AOS BENEFÍCIOS DESSAS NOVAS TECNOLOGIAS TEXTO MARIANA OLIVEIRA

Há limites para a medicina 8 | REVISTA DO CREMEPE

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E

m 1818, a jovem escritora inglesa Mary Shelley (1797 –1851) lançava o seu romance Frankenstein. O protagonista da história é um inquieto cientista, Victor Frankenstein, que tinha como objetivo vencer a morte, tornando-se capaz de criar a vida. “Eu seria o primeiro a romper os laços entre a vida e a morte, fazendo jorrar uma nova luz nas trevas do mundo (…). Ressurreição! Sim, isso seria nada menos que o poder de ressurreição”, dizia o personagem na obra. É assim, utilizando restos de corpos roubados de cemitérios, que ele consegue dar vida a uma criatura. Porém, ao chegar ao seu objetivo, ele fica horrorizado com o que produziu e se afasta. O “monstro” se enfurece ao ser deixado para trás e jura vingança, passando a persegui-lo ao redor do mundo. A obra faz uma dura crítica à transgressão de Victor Frankenstein de querer criar uma vida, à sua ambição pelo poder científico, ao seu desejo de virar uma espécie de deus. A narrativa de Mary Shelly era bastante pertinente naquele início do século XIX, era uma crítica romântica ao cientificismo, à tirania da razão em detrimento da imaginação e do sentimento. Em suma, a jovem autora de 19 anos já alertava a humanidade sobre os limites morais e éticos da ciência. Agora, em 2017, 200 anos depois, vê-se o avanço descomunal da ciência. São inúmeras descobertas envolvendo a robótica, manipulações genéticas, células-tronco, clonagens que têm impactado a prática médica de modo muito relevante. Os avanços científicos no campo da medicina não

param e têm ajudado nos tratamentos de muitas doenças, possibilitado a cura de muitas outras, e permitido uma maior assertividade nos diagnósticos e procedimentos. A medicina da pós-modernidade está intimamente ligada a essas descobertas. Entretanto, a discussão sobre os limites, sobre a ética e a moral de alguns experimentos continua tão atual quanto no século XIX. Isso sem falar no fato de todo esse avanço permanecer durante longos períodos como algo exclusivo a uma pequena parcela da população. A literatura atual, seja no campo da ficção ou dos ensaios, tem refletido sobre a seguinte questão: “Há limites para a ciência?” O historiador israelense Yuval Noah Harari, em Homo Deus – Uma breve história do amanhã, faz uma reflexão, sempre buscando referências no passado, para imaginar que caminho a humanidade está seguindo. Inicialmente, ele pontua que durante séculos a agenda do homem, ou seja, todas as suas preocupações e anseios, giravam em torno de três pilares: a fome, a peste e a guerra. Porém, segundo ele, nas últimas décadas, em linhas gerais, essas três questões foram controladas. A fome, as pestes e as guerras vão continuar matando milhões nos próximos anos, porém não podem mais ser vistas como tragédias inevitáveis. Elas são evitáveis e a humanidade sabe disso. “Essas calamidades de fato acontecem cada vez com menos frequência. Pela primeira vez na história, hoje morrem mais pessoas que comeram demais do que de menos; mais pessoas morrem de velhice do que de doenças

infecciosas; e mais pessoas cometem suicídio do que todas as que, somadas, são mortas por soldados, terroristas e criminosos. No início do século XXI, o ser humano médio tem muito mais probabilidade de morrer empanturrado com McDonalds do que de seca, de Ebola, ou num ataque terrorista do Al-Qaeda”, escreve Yuval Noah Harari. Sendo assim, o que ocuparia a agenda da humanidade agora? Segundo o autor, passada a necessidade de lutar bestialmente pela sobrevivência, a humanidade pôde alimentar outras ambições: a imortalidade, a felicidade e a divindade, numa caminho que transformaria o Homo Sapiens no Homo Deus. Yuval Noah Harari demonstra que na cultura e na ciência moderna a morte não é mais algo inerente a vida, algo que dá sentido a mesma, que completa um ciclo. Ela passou a ser vista como um problema técnico, que precisa ser resolvido. Se seu coração parou de bater por conta de gordura nos vasos, há meios de reanimá-lo e de tratar esse problema; se as células cancerosas invadiram seu fígado, a quimioterapia pode chegar lá para tentar resolver... Ainda não existe solução para todos os problemas de saúde, mas as pesquisas e a ciência não param e dentro dos grandes laboratórios do mundo, cada dia, se avança um pouco mais em alguma área. Ou seja, morrer não é visto mais como algo inerente à vida. Mesmo quando alguém morre em uma tragédia natural, como um furacão, sempre se pensa que havia algum modo de tê-la evitado. Alguém falhou. “A grande maioria dos cientistas, médicos e estudiosos ainda se distan-

na pós-modernidade?

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C A PA cia de sonhos explícitos com a imortalidade com a alegação de que estão tentando superar este ou aquele problema específico. A velhice e a morte são o resultado de problemas específicos. Além disso, não existe um ponto no qual os médicos e cientistas irão se deter e declarar: ‘Até aqui, e nenhum passo a mais. Já superamos a tuberculose e o câncer, mas não vamos erguer um só dedo para combater o Alzheimer’. As pessoas poderão continuar a morrer deste mal. Não se afirma na Declaração Universal dos Direitos do Homem que os homens têm direito à vida até os noventa anos. O que se diz é que todo homem tem direito à vida. Ponto. Esse direito não é limitado a uma data de vencimento”. Os poucos pesquisadores que já falam sobre a real possibilidade da imortalidade apontam que em 2200, 2100, e, pasmem, 2050, o homem já poderia alcançar esse objetivo. Para o autor, essa não seria uma estimativa coerente e antes de se pensar em imortalidade, deveria se pensar em duplicar a expectativa de vida, algo que tampouco parece simples ou fácil a Yuval Noah Harari. Segundo ele, no século XX, passou-se de uma expectativa de 40 anos para os 70 anos, mas nada garante que seja possível alcançar essa mesma meta hoje. Em 1900, a expectativa de vida global era de 40 anos porque se morria muito de subnutrição e de doenças infecciosas, mas aqueles que conseguiam se livrar dos males da guerra, da fome e da peste, viviam até os 70, 80 anos. Galileu Galilei morreu aos 77, Isaac Newton aos 84, Michelangelo aos 88. “Na verdade, até o presente, a medicina não prolongou o tempo de vida natural do ser humano em um ano sequer. Sua grande conquista foi nos salvar da morte prematura e permitir que usufruamos da plenitude da existência. Mesmo que o câncer, o diabetes e outros grandes assassinos

possam ser vencidos, poderíamos nos estender ate os 90 anos – mas isso não seria suficiente para nos levar aos 150 anos, muito menos aos 500 anos. Para isso, a medicina terá que não só realizar a reengenharia das estruturas e dos processos fundamentais do corpo humano como também descobrir como regenerar órgãos e tecidos. Não está claro se seremos capazes de fazer isso até 2100”, conclui.

Yuval Noah Harari (foto) demonstra que na cultura e na ciência moderna a morte não é mais algo inerente à vida, algo que dá sentido à mesma, que completa um ciclo

150 ANOS? Desde a década de 1980, Jay Olshansky, especialista em envelhecimento, afirma que os seres humanos teriam uma limitação biológica que estaria entre os 80 – 100 anos. Já outro pesquisador, Steven Austad, biólogo que estuda o envelhecimento, declarou no início dos anos 2000: “A primeira pessoa de 150 anos provavelmente está viva agora”. A discordância entre os dois gerou uma aposta. Em 15 de setembro de 2000, os dois colocaram US$ 150 cada um em um fundo de investimento e assinaram um contrato afirmando que o dinheiro e os retornos seriam pagos ao vencedor (ou seus descendentes) em 2150. A aposta também estipula que Austad só ganhará se o jovem que chegar aos 150 anos estiver cognitivamente bem. Em outubro de 2016, um artigo publicado na revista Nature, baseada em dados demográficos globais, apontou que haveria um limite natural à vida humana em torno dos 115 anos. À época, Olshansky, que atua na Universidade de Illinois, em Chicago, afirmou acreditar em grandes avanços que vão prolongar significativamente a vida humana, porém eles não serão suficientes para que alguém que nasceu antes de 2001 chegue aos 150 anos. Seu “adversário” Austad, que atua na Universidade do Alabama, Birmingham, manteve sua posição, destacando os estudos recentes com a rapamicina, os quais têm prolongado significantemente a vida de animais, e as pesquisas que demonstram que o uso da metformina (usada para combater a diabetes) também pode reduzir os efeitos biológicos do envelhecimento. Longe dessa disputa direta, o médico e professor João Lima, do Instituto do Envelhecimento, da John Hopkins University (EUA), afirma que a filosofia de trabalho que norteia as pesquisas desenvolvidas pela sua equipe está focada na qualidade de vida. “Sabe-

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Armando Hernandez-Rey acredita que não se pode utilizar a manipulação genética para brincar de Deus

mos que hoje o envelhecer é muito duro, uma queda de qualidade de vida enorme. O que nós buscamos aqui é uma retangularização dessa qualidade de vida, mantendo-a estável ao longo dos anos”, diz. As pesquisas desenvolvidas têm como objetivo possibilitar idosos mais ativos, menos dependentes. Nesse sentido, há uma preocupação em aliar, por exemplo, uma boa cognição com uma também boa possibilidade de locomoção, um cérebro e um coração funcionando em plenitude. Afinal, não adianta ter uma dessas vertentes funcionando bem, enquanto outra funciona mal. João Lima acredita que as pesquisas em andamento hoje estejam seguindo por um caminho no qual será possível que se faça uma combinação do humano com partes biônicas. “Esse se­ria o próximo passo”. O professor afirma que limitar o desenvolvimento científico não é algo salutar, porém reafirma a necessidade de se discutir as várias implicações éticas de alguns experimentos e

A médica Madalena Caldas aponta os avanços na área da reprodução humana

técnicas. Segundo ele, há alguns anos uma técnica de edição de DNA chamada CRISP/Cas9 tornou possível, a um custo relativamente baixo, fazer uma edição do DNA. Esse processo repara a mutação de um gene nas primeiras fases do desenvolvimento de embriões humanos. “Se imaginarmos que esse tipo de atividade pode ajudar a prevenir doenças hereditárias ou algumas síndromes graves, é algo muito positivo e justificado. Porém, e se decidirem utilizar esse programa para definir, por exemplo, a cor dos olhos do bebê. Será que isso seria correto?”, indaga.

REPRODUÇÃO HUMANA Segundo o especialista em endocrinologia e medicina reprodutiva assistida, Armando Hernandez-Rey, que também atua nos EUA, ainda é muito cedo para falar sobre o CRISP/Cas9, a tecnologia é muito recente e as consequências ainda não foram totalmente esclarecidas. “Manipulação genética deve ser algo muito cuidadoso e

meticuloso. Brincar com a natureza e sua regulação das espécies pode não ser algo favorável à espécie humana. Lógico que utilizar certas técnicas para evitar dor, sofrimento e gastos desnecessários, ou mesmo para certas interferências que não vão alterar de maneira significativa o desfecho, não há nada contra. Mas utilizar a manipulação genética para brincar de Deus é muito complicado”, pontua o médico, que utiliza a moderna técnica LifeAire na sua prática de reprodução assistida. A médica pernambucana Madalena Caldas, também especialista em reprodução humana, comenta que as novas plataformas para estudo de pequenas porções do DNA humano já existem e hoje é possível determinar alterações em SNIPS no DNA humano. Esses avanços geraram um diagnóstico genético preciso, não apenas para cromossomopatias, como também para síndromes como a de Down, Edwards, Patau, Tuner, Klinefelter. Os estudos do sistema HLA de um embrião para que

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HANS MANTEUFFEL

C A PA suas células-tronco do cordão umbilical possam ser usadas para tratamento de algumas doenças hematológicas em familiares também são uma área em franco crescimento. A qualidade dos meios de cultura e das incubadoras de cultivo têm permitido melhorias claras nesse processo. O embrião, hoje, pode passar mais tempo no laboratório até o estágio de blastocisto e também pode ser filmado full time sem que seja preciso retirá-lo da incubadora. A médica também destaca que o congelamento de embriões é realizado, atualmente, pela técnica de vitrificação na qual substâncias com alta viscosidade são capazes de melhor manter a viabilidade do embrião com sobrevida de praticamente 100% dos descongelamentos, contra 70% dos métodos antigos. “Está provada, por evidências científicas, que a transferência de embriões congelados posteriormente traz melhores resultados obstétricos, como peso do RN, maior idade gestacional ao nascimento e melhor desempenho placentário. As inovações tecnológicas como congelador automático de embriões, rastreamento automático das amostras dentro do laboratório e a engenharia genética como a manipulação de genes anormais já se encontra em fase avançada”, resume a médica.

COMBATE AO CÂNCER Os estudos genéticos também têm sido bastante importantes nos avanços do campo da oncologia. Segundo o médico oncologista Thiago Apolinário, os testes genéticos estão conseguindo diferenciar os subtipos de tumores permitindo a aplicação de um tratamento mais específico. Essa possibilidade de trabalhar de modo mais individualizado garante um tratamento mais efetivo, com o benefício de menores efeitos colaterais. “Há 10 anos, utilizávamos a quimioterapia nos pacientes de modo mais geral.

O urologista Guilherme Lima realiza cirurgias assistidas por robô

Hoje, temos condições de conhecer o subtipo da neoplasia em questão e focar num tratamento que garante melhor resposta a ele. A imunoterapia trouxe um grande avanço. O futuro da oncologia é esse pensamento individualizado, que vê cada paciente como um e decide o melhor tratamento para ele naquele momento da sua vida e naquela situação”, pontua. O oncologista ressalta que tudo isso não significa que se está chegando na cura do câncer. Na oncologia, na grande maioria dos casos, não se trabalha com esse foco específico. O objetivo é garantir benefícios ao paciente, ampliando seu tempo e qualidade de vida. “Atuamos muitas vezes no sentido do cuidar, do palear. Precisamos analisar o caso do paciente e avaliar se esse paciente já debilitado, por exemplo, deve entrar num tratamento com uma medicação pesada, que traz muitos efeitos colaterais, cujo resultado não garantirá grandes avanços em sua qualidade de vida. Vale a pena chegar aos 150 anos em condições muito ruins?”, indaga Thiago Apolinário. Ele apoia o avanço das pesquisas, mas sempre seguindo a máxima de

que para alcançar seus resultados não seja preciso prejudicar ninguém, limitando ou destruindo vidas. As pessoas hoje já têm a possibilidade de fazerem estudos genéticos e descobrirem sua predisposição para desenvolver um câncer. A atriz Angelina Jolie, por exemplo, fez um desses mapas e como tinha um forte indicativo genético para desenvolver uma neoplasia retirou os dois seios. Para o médico, atitudes individuais como essa não seriam um problema. Porém, ele destaca que é preciso se ter muita atenção com essas informações e no modo como elas podem impactar na vida das pessoas. Para alguns, ter a notícia de que tem 50% de chances de desenvolver um câncer ou ter um infarto pode apenas gerar muita ansiedade, prejudicando sua vida cotidiana, ou, quem sabe, por outro lado, pode ajudar a mudar seu estilo de vida. “Precisamos estar atentos para o uso que será feito desses estudos genéticos. Imaginem se as empresas passarem a exigir a apresentação desse documento para efetuar uma contratação. Ela pode optar por não dar o emprego a um indivíduo porque em

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DIVULGAÇÃO

param e têm surpreendido até quem é da área. Ninguém está brincando de Deus, queremos melhorar os resultados para o nosso paciente”, sublinha o urologista. Ele lembra que com o passar dos anos as patentes de algumas máquinas estão vencendo e elas estão se tornando mais acessíveis, com versões produzidas em países como Itália e Índia. Esse processo pode fazer com que a cirurgia robótica fique mais acessível a uma parcela maior da população.

João Lima atua no Instituto do Envelhecimento da John Hopkins University (EUA)

PARA POUCOS

seu estudo genético aponta uma alta probabilidade de câncer”, explica o oncologista, salientado que o problema não está necessariamente na tecnologia do mapeamento genético, mas na forma como essa informação será utilizada e com que finalidade.

O ROBÔ O urologista Guilherme Lima também acredita que os avanços da ciência e da tecnologia têm colaborado sobremaneira com a medicina. A grande preocupação não deveria ser até onde esse progresso vai levar a humanidade, mas sim como se utilizará esse conhecimento de forma ética. “Não existe um limite. Daqui a 10, 15 anos, teremos avanços expressivos nas pesquisas de célula-tronco e na engenharia genética... Mas o contato médico-paciente, o olho no olho, nada substituirá”, diz. Ele é um dos profissionais em Pernambuco que utiliza o robô na realização de algumas cirurgias. No estado, atualmente, existem dois deles que são utilizados mais frequentemente para procedimentos urológicos e ginecológicos. De acordo com o médico, o

robô vem para assistir o médico durante a cirurgia, auxiliando-o e garantindo uma magnificação da visão, amplitude, precisão e delicadeza de movimentos. A máquina é ope­rada pelo profissional que, durante a cirurgia, dá todos os comandos através de um console. “Todo o processo é guiado pelo médico e por sua mão. Não se trata de uma substituição. Todo o atendimento prévio e pós-cirúrgico é feito com o profissional, que precisa ter esse olho no olho com o paciente, detalhar o diagnóstico, apresentar as possibilidades de tratamento, enfim, dar todo o seguimento mantendo a relação médico-paciente com um elo forte”, resume. Os ganhos para o paciente com esse tipo de cirurgia são muitos. O pós-operatório e a recuperação são mais rápidos. Além de conseguir ser resolutivo no que diz respeito à questão oncológica, o grande ganho que a cirurgia robótica traz para o paciente é no aspecto funcional, já que faz uma incisão mais precisa, com menos chances de danificar um nervo, e, portanto, preserva a potência e continência do enfermo. “Os avanços na tecnologia robótica não

De fato, a ciência vem garantindo muitos avanços na área médica ao longo dos últimos anos. E eles suscitam, além dos debates ligados à bioética e aos “limites da ciência”, uma discussão sobre o acesso a essas inovações. As novidades no campo da reprodução humana, da oncologia e mesmo da cirurgia robótica, usados nesta reportagem como referências, estão muitíssimo distante das possibilidades da grande maioria da população. “Demos um grande salto com a união da medicina e da tecnologia, todavia todos esses ganhos não chegaram para todos. E isso é um lado muito perverso dessa história”, afirma o presidente do Cremepe, André Dubeux. Segundo ele, é preciso que se discuta toda essa questão. Afinal, a saúde é um direito de todos e um dever do Estado. O médico conta que em Cuba, por exemplo, onde há um forte investimento na assistência básica, só existem três aparelhos de ressonância magnética. Aqui no Recife, por exemplo, é difícil de precisar quantas máquinas estão em funcionamento, mas esse maior número de maquinário não significa que toda a população possa realizar este exame. “Não vamos contestar o avanço científico e tecnológico, mas precisamos nos questionar quando a população mais carente terá acesso a essas inovações,” disse Dubeux.

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SOLENIDADE

Cremepe inaugura Galeria dos Presidentes

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ma manhã de homenagem aos ex-presidentes do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe). Foi assim o início da segunda-feira, 3 de julho na sede da autarquia, com a inauguração da Galeria dos Presidentes. Os 17 ex-presidentes que lideraram o Conselho, desde a criação em 1958 até a atual gestão, foram pintados em telas a óleo pelo artista Roberto Ploeg e a partir de agora compõem o hall de entrada da entidade. A inauguração contou com a presença de ex-presidentes e de familiares daqueles que já faleceram. O atual presidente do Cremepe, André Dubeux, comandou a homenagem e iniciou a solenidade com um minuto de silêncio para homenagear os presidentes já falecidos e começou o discurso explicando que a inauguração da galeria é um “gesto de fidelidade do Cremepe ao seu passado”. De acordo com Dubeux esta é uma das formas de manter viva a história da instituição. “Estamos no processo de estruturação da nossa memória. Começamos hoje com esta inauguração e continuaremos com o livro dos 60 anos, onde haverá um resgate histórico

de todos os acontecimentos e narrativas do Conselho nestes anos”, disse. Ele ainda reforçou a importância de cuidar da memória de uma instituição não somente “como um dever histórico, mas principalmente como uma forma de respeito por aqueles que se dedicaram com afinco à instituição”. Após a abertura, Dubeux chamou os ex-presidentes e convidados que desejassem falar. O primeiro foi o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Carlos Vital, que louvou a iniciativa em registrar os rostos dos ex-presidentes através da arte. “De fato em todas as gestões do Cremepe ficaram evidentes os compromissos vocacionais do Conselho pela prática médica com seu interesse individual e coletivo. Os membros destas gestões com características próprias aos seus perfis e épocas em contínuo e sequencial aprimoramento ultrapassavam os desafios e obstáculos que tiveram e superaram as divergências políticas obtendo o respeito dos médicos e da sociedade em geral”, disse Vital. Para o presidente do CFM, a galeria significa uma homenagem às vitórias e êxitos institucionais conquistados não apenas pelos ex-presidentes,

mas também pelos funcionários, colaboradores e conselheiros presentes em cada uma das gestões. “Posto que nas essências das telas do painel inaugurado destaca-se a genialidade do artista na captação dos traços fisionômicos com peculiar sensibilidade nas misturas das tintas e destreza na manipulação dos pincéis capaz de estimular as reflexões, faz surgir compreensões que tornam esta exposição representativa de outras faces que não foram pintadas e sem as quais nada ou muito pouco de valor poderia ter sido feito pelo Cremepe”, concluiu Vital. Na sequência, a única expresidente mulher da instituição, Helena Carneiro Leão, reafirmou que a exposição representa a arte e a história. “Estamos aqui para comemorar a história do Cremepe, história da Medicina no nosso Estado. É mais um momento de união e para nos prepararmos para um futuro que virá porque não existe futuro sem passado e presente sem que a gente viva o que aprendemos”, disse Helena. Ao final, foi oferecido um café da manhã aos convidados e demais funcionários do Conselho.

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EM FOCO

Cremepe fiscaliza UBS em Nazaré V Encontro dos Assessores de Comunicação do CFM

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o olhar as fotos da fiscalização nas Unidades Básicas de Saúde do município de Nazaré da Mata (69 km do Recife) nada se parece com unidades de saúde a não ser pela placa imensa com o nome UBS em cima do portão. Logo se vê que são moradias adaptadas para o atendimento médico. O município tem 12 unidades com a finalidade de ser “a porta de entrada preferencial do Sistema Único de Saúde (SUS) com o objetivo de atender até 80% dos problemas de saúde da população, sem que haja a necessidade de encaminhamento para hospitais”, de acordo com o Ministério da Saúde, mas não é o que acontece em Nazaré, não é o que acontece em Pernambuco. Se não bastasse a estrutura improvisada, a falta de acessibilidade e os problemas se agravam no interior dos prédios: Mofo e infiltrações, o espaço para guarda de prontuários é pequeno. Segundo o Manual de Estrutura Física das Unidades Básicas de Saúde, devem existir cadeiras em número compatível com a quantidade de participantes de atividades educativas, mesa, televisão, vídeo, computador, retro-projetor, tela de projeção e outros equipamentos de mídia. Não existem salas adequadas para reunião de gestantes. As salas de reunião são improvisadas. A situação foi identificada no mês de julho quando o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe), a partir de um procedimento do Ministério Público Federal (MPF), vistoriou todas as unidades Básicas do município. A determinação da Justiça Federal consistia em identificar da escala

de plantão dos funcionários uma vez que após as eleições todo o quadro foi demitido – exceto os ACS que são concursados -. De fato, os médicos, enfermeiros, técnicos, odontólogos e pessoal de serviços gerais foram recontratados, deixando a escala completa. A ventilação é precária em todas as unidades e não há climatização nos setores indispensáveis como a farmácia e sala de vacinação. Em todas as UBSs a sala de curativo é compartilhada com nebulização e pequenos procedimentos. A maioria das unidades não tem sala odontológica.

MEDICAÇÃO Na opinião do 2º secretário do Cremepe, Sílvio Rodrigues, o problema mais grave é a falta de medicamentos básicos como captopril – para pressão -, losartana, metronidazol, metocopramida. Tem unidades que faltam até dipirona e ácido fólico, substâncias para tratamento de dores. “As unidades básicas são extremamente precárias e isso reflete na capacidade de resolução, no fornecimento de medicações essenciais e na qualidade dos procedimentos”, explicou Rodrigues.

As assessoras de comunicação do Cremepe participaram em julho de 2017, em Brasília (DF), do V Encontro dos Assessores de Comunicação dos Conselhos de Medicina, realizado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Compareceram cerca de 70 pessoas, entre jornalistas, assessores de comunicação, representantes da diretoria dos conselhos regionais de medicina (CRMs) e conselheiros do CFM. As jornalistas Mayra Rossiter e Joelli Azevedo representaram Pernambuco no encontro. “Nosso principal objetivo, com essa iniciativa, é preparar, com os CRMs, estratégias que ampliem a visibilidade construtiva das nossas autarquias, assegurando presença nas diferentes mídias, e unificarmos os discursos em prol da adoção de políticas de saúde dignas e competentes para o País”, explica o 1º secretário do CFM, Hermann von Tiesenhausen. Além de alinhar estratégias e encaminhar demandas técnicas, administrativas e jurídicas, o grupo debateu temas sobre a mídia e a relação jornalista-assessor de imprensa com representantes de veículos, como Correio Braziliense, Estado de S. Paulo, Jornal do Senado, Folha de S. Paulo, Portal Só Notícia Boa, SBT, Metrópoles. Os participantes discutiram ainda as perspectivas das redes sociais, campanhas institucionais e ferramentas úteis para o trabalho do jornalista, como o Google Analytics, projetos de inclusão social por meio de libras e voz, e criação de websites. Além disso, uma mesa específica expôs relatos dos CRMs de atividades que agregaram importantes aprendizados a serem compartilhados com o grupo. (Fonte: CFM)

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PRECONCEITO Valentina Sampaio, modelo cearense, hoje com carreira consolidada internacionalmente posou para capas da Elle e Vogue

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REPRODUÇÃO

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POPULAÇÃO TRANS PROCURA O RECONHECIMENTO. FALTA DE COMPREENSÃO DE FAMILIARES E AMIGOS AINDA É GRANDE, ASSIM COMO ATITUDES QUE GERAM PRECONCEITO E HOMOFOBIA TEXTO MARIANA ARAÚJO

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Brasil parou, no final de agosto, para ver a cena em que a personagem Ivana, da novela A Força do Querer, comunicava à família que é transexual, que não se identificava no corpo de mulher, que se sentia homem. Um drama muitas vezes não compreendido e não aceito, não compreendido por familiares e amigos. E que gera preconceito e homofobia. Os dados são alarmantes. Uma pesquisa feita pela organização não governamental (ONG) Transgender Europe (TGEU), que apoia organizações que trabalham com a população transgênero, apontou que o Brasil é o país do mundo que mais mata travestis e transexuais. De janeiro de 2008 a março de 2014, foram registradas 604 mortes. Um levantamento do Grupo Gay da Bahia aponta que em 2016 foram cometidos 347 assassinatos de pessoas da população LGBT no Brasil, o maior número de casos desde que a pesquisa foi iniciada, há 37 anos. Enquanto a expectativa de vida da população em geral é de 75,5 anos, segundo o IBGE, a vida de uma pessoa trans no Brasil é, em média, de 35 anos, segundo informações da União Nacional LGBT. No ano de 2016, no Disque 100, canal de denúncia de violência doméstica do Governo Federal, foram registrados 1.876 casos de agressões contra pessoas LGBTs. De Pernambuco, foram 56 ligações, com denúncias de discriminação, de violência física e de violência psicológica. Reflexos da violência chegam aos serviços públicos de atendimento às pessoas LGBTs. O Recife abriga, no Hospital das Clínicas, um dos cinco centros públicos do Brasil autorizados pelo Ministério da Saúde a fazer o atendimento para realização da cirurgia de redesignação sexual, conhecida como mudança de sexo. Lá, é oferecido o tratamento psicológico,

social e biológico. Além da capital pernambucana, o serviço é oferecido também nas cidades de Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e Goiânia. “A gente não centraliza apenas na cirurgia. Essa é mais uma modalidade. É priorizada a questão do monitoramento, das pessoas virem para o cuidado”, afirma a psicóloga e coordenadora do Espaço Trans, Suzana Livadias. “Quando a gente fala em cuidado integral, a gente está olhando a pessoa enquanto sujeito e num contexto que esses intervenientes - fatores sociais, não só biológicos – podem também interferir no processo. Quando uma pessoa vem aqui, ela vem atrás de alterações no corpo, via tratamento hormonal ou cirurgia. Mas também vem em busca de acompanhamento psicoterápico, falar sobre seus sofrimentos. Se precisar de alguma questão psiquiátrica, em função de alguma avidez a mais, a gente encaminha. A questão do nome social a gente também subsidia, com a questão do relatório psicológico”, acrescenta. Suzana afirma que não é raro chegarem casos de pessoas que buscam se reerguer diante de casos de bullying em escolas, de homofobia, de violência doméstica. O atendimento não é feito de maneira linear, com etapas. É mais voltado para o acompanhamento de grupos operativos de discussão e reflexão que tenham a ver com a temática de vivência da pessoa trans. “Têm os acompanhamentos dos profissionais de psicologia, de assistência social, de enfermagem, e outras especialidades que a gente acha que naquele contexto pode ser interessante. É mais em função de um acompanhamento em função das discussões, das reflexões, das queixas que vêm, das temáticas que a gente vê, inclusive implícitas. Outras especialidades podem ajudar a

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PRECONCEITO

Carol Duarte, que interpretou Ivana, personagem trans da novela A Força do Querer

entender a transexualidade como uma vivencia humana não-patológica, como o próprio sujeito vai nos dizer quem é. Não sou eu que vou dizer quem ele é. São questões que a gente vem discutindo, imprimindo uma outra forma de pensar. Tem acompanhamento psicoterápico, mas na medida da necessidade”, explica Suzana. O centro do Hospital das Clínicas atende 280 pessoas atualmente. Cerca de 25 pessoas não são de Pernambuco. Suzana não detalha os números da fila de espera, mas afirma que “há um número pequeno de serviço e que a rede precisa aumentar”. “Isso causa uma grande ansiedade na população”, explica. O Espaço Trans do Hospital das Clínicas foi criado em outubro de 2014, quando a unidade recebeu o credenciamento do Ministério da Saúde para a implantação dos procedimentos relativos ao processo

transexualizador do SUS, por meio da Portaria nº 1.055. A unidade não tem um mapeamento preciso sobre o percentual de pacientes que chegam a realizar a cirurgia, mas Suzana Livadias estima que entre 15% a 20% dos pacientes desejam fazer cirurgias. O Centro Integrado Amaury de Medeiros (Cisam), em parceria com o Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc) da Universidade de Pernambuco (UPE), possui, há um ano, um ambulatório de serviço de saúde trans masculinidade. O atendimento é feito por uma equipe multidisciplinar com psicólogo, assistente social, enfermeiro, endocrinologista, psiquiatra e cirurgião. O Cisam não está credenciado para a realização da cirurgia de redesignação sexual, mas os pacientes podem se submeter a mastectomia e a hormonoterapia. Atualmente, há

104 pessoas cadastradas, sendo 84 em atendimento. A fila de espera tem 37 pessoas, com a previsão de atendimento até dezembro de 2017. Outras oito pessoas só devem conseguir atendimento em 2018. A Prefeitura do Recife possui o Centro Municipal de Referência em Cidadania LGBT, implantado em agosto de 2014. Na unidade, trabalham profissionais como agente de direitos humanos, advogado, psicólogo e assistente social, que dão orientações gerais sobre direitos humanos e presta atendimento às vítimas de discriminação e violência homofóbica. O Centro LGBT tem cerca de mil usuários cadastrados e realizou, desde a sua criação, mais de cinco mil atendimentos. Pernambucana, Robeyoncé Lima, de 28 anos, foi a primeira advogada do Norte-Nordeste a ter o nome social reconhecido pela

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YAGO MENDES/HC-UFPE

Hospital das Clínicas tem um dos cinco ambulatórios cadastrados pelo Ministério da Saúde

Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no primeiro semestre do ano passado. Em junho, ela conseguiu na Justiça o direito de alterar o nome e o gênero no registro civil. O caminho para se identificar como uma pessoa trans não foi fácil, ela explica. Nascida e criada no bairro de Beberibe, ela disse que não teve, nem na comunidade nem nas escolas públicas que estudou, acesso à informação. Foi quando entrou na Faculdade de Direito do Recife e começou a participar de debates, que se identificou como uma pessoa trans. “Como é que você vai saber que é trans se nunca ouviu falar sobre transexualidade, sobre gênero? Você primeiro tem que conhecer, se aproximar da temática para se descobrir como pessoa trans. Eu me sentia uma pessoa estranha, diferente das outras pessoas. Eu não sabia o que era, eu não sabia definir”, lembra.

ZITO JUNIOR/DIVULGAÇÃO

Robeyoncé Lima, de 28 anos, foi a primeira advogada do NorteNordeste a ter o nome social reconhecido pela OAB

O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, segundo ONG europeia. EM 2016, o Disque 100 registrou 1.876 casos de agressões, sendo 56 de Pernambuco

“Antes da retificação, a gente passa por vergonha, constrangimento, vexame, porque a identidade no documento não reflete a nossa identidade de gênero. Antes de mudar o nome, tive alguns constrangimentos. A gente tem que entender que o nome social é uma política importante, foi um avanço, uma conquista. Mas é um paliativo e por isso mesmo ele esbarra nessas burocracias do dia a dia”, disse. Hoje, ela ajuda voluntariamente outras pessoas trans a ingressarem com ações na Justiça para obter a alteração no registro civil. Robeyoncé é funcionária pública concursada da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Antes, trabalhou como assessora jurídica no gabinete do vereador do Recife Ivan Moraes (PSOL). Até se formar, ano passado, ela estagiou em locais como a Secretaria da Fazenda, Tribunal de Justiça de Pernambuco, Petrobras e Justiça Federal. Passou na primeira tentativa no exame da OAB. “É uma questão pessoal de superação e também de inspiração para outras meninas trans e travestis, que elas podem ir mais adiante, podem ir um pouco além daquilo que elas têm hoje em dia. E também serve para abrir os olhos da sociedade, porque nos olhos das pessoas, todas as trans são promíscuas, estão estigmatizadas, estão relegadas a um destino cruel. A gente sabe disso, infelizmente a realidade é cruel. Você passa a vida inteira sendo discriminada, você perde o estímulo, perde a autoestima”, relata. Ela cita a necessidade de mais serviços de atendimento público voltados para a população trans. O parecer nº 32/12 do Conselho Federal de Medicina (CFM) orienta que o adolescente com disforia de gênero (DG) deve ser assistido em um centro dotado de estrutura capaz de possibilitar o diagnóstico e

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PRECONCEITO promover a integridade da atenção de excelência. O texto orienta, ainda, que a homonoterapia com o bloqueio do gênero de nascimento, deve ser iniciada nos primeiros sinais de puberdade. Aos 16 anos, o paciente deve iniciar o tratamento hormonal para o gênero desejado, caso persista a DG. No CFM, há uma comissão estudando mudanças na resolução. O estudo deve ser concluído em um ano. O debate está sendo feito dentro de câmaras técnicas do CFM. “É preciso haver mudanças, que os serviços avancem. Infelizmente o investimento ainda é pouco para as necessidades, para as pessoas que ainda vão ter acesso. Não são cirurgias simples, as equipes precisam ser bem preparadas”, afirmou Helena Carneiro

Leão, integrante da câmara técnica de bioética do Cremepe. “O serviço público tem que se preparar para essa nova mudança, para que haja essa abordagem, uma vez que isso é um tratamento médico. É uma necessidade, não é uma coisa, como as pessoas pensam, estética, de vontade. Quando há o diagnóstico, a pessoa está devidamente acompanhada e há o benefício, tem que ser feito”, acrescentou Helena. Para a médica, o acompanhamento deve envolver a parte física e mental, para que possa ser bem-sucedido. “A saúde da pessoa é um todo. O paciente só se sente saudável quando está no seu bem-estar físico e mental. A pessoa precisa estar bem. Eu vejo isso como uma coisa que vai caminhar mais rápido do que a gente pensa

por pressão de fora para dentro. Com a novela, as pessoas começaram a entender. As pessoas criam coisas na cabeça. E essas coisas que a gente cria como diferente, como anormal, estão evoluindo. A geração mais nova já vê de forma diferente, de como respeitar a autonomia do outro e fazer o melhor. Porque a gente quer o bem. E isso é o bem para uma pessoa”, afirmou. “É importante fomentar o debate na academia, para que possa despertar o interesse dos profissionais, a compreensão dos profissionais no cuidado da saúde da população trans, a noção de normalidade e humanidade dessas pessoas que são cuidadas. É preciso aumentar o serviço, mas também ampliar essa discussão com os profissionais”, complementa Suzana Livadias.

ENTENDA OS TERMOS DO UNIVERSO TRANS LGBT Sigla que significa lésbicas, gays, bissexuais e transexuais e serve para designar o grupo de pessoas que têm uma orientação sexual (LGB) ou uma identidade de gênero (T) diferente da dominante. SEXO BIOLÓGICO Determinado pelos genitais, sistema reprodutivo, cromossomos e hormônios. Pode ser feminino, masculino ou intersexo (quando há presença de determinantes tanto masculinos quanto femininos). IDENTIDADE DE GÊNERO É como a pessoa se vê, que pode ser como mulher, como homem, como gênero neutro ou como bigênero. Na maioria das vezes, a pessoa se identifica com o gênero correspondente ao seu sexo biológico, ou seja, nasce com um corpo masculino e se sente homem (se identifica com o gênero masculino) ou nasce com um corpo

feminino e se sente mulher. Indivíduos assim são chamados de cisgêneros. Mas, para algumas pessoas, não acontece dessa maneira. TRANSGÊNEROS São todos os indivíduos cuja identidade de gênero não corresponde ao seu sexo biológico. De maneira geral, essas pessoas sentem um grande desconforto com seu corpo por não se identificar com seu sexo biológico. Por isso, têm a necessidade de adotar roupas características do gênero com o qual se identificam, se submetem a terapia com hormônios e realizam procedimentos para a modificação corporal, tais como: a colocação de implantes mamários, a cirurgia plástica facial, a retirada das mamas, a retirada do pomo de Adão. Na maioria das vezes, desejam realizar a cirurgia de redesignação sexual

(cirurgia genital). O termo também pode ser usado para todas as identidades não cisgêneras (transexual, travesti, não binário, crossdresser). EXPRESSÃO DE GÊNERO É como alguém se mostra para os outros, diz respeito à aparência. É possível ter uma aparência feminina, masculina ou andrógina (que mescla elementos tidos como femininos e masculinos). FTM Sigla para female to male (feminino para masculino). São os homens transgêneros, aqueles que transicionaram do feminino para o masculino. MTF Sigla para male to female (masculino para feminino). São os as mulheres transgêneras, aquelas que transicionaram do masculino para o feminino. TRANSEXUAL Esse termo deriva da classificação

“transexualismo, transtorno de identidade sexual”, descrita na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10), publicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e que não é atualizada desde 1989. Segundo a OMS, o transexualismo é “um desejo de viver e ser aceito enquanto pessoa do sexo oposto. Esse desejo se acompanha em geral de um sentimento de mal-estar ou de inadaptação por referência a seu próprio sexo anatômico e do desejo de submeter-se a uma intervenção cirúrgica ou a um tratamento hormonal a fim de tornar seu corpo tão conforme quanto possível ao sexo desejado.”

Mentais de 2012 (DSM-5), editado pela Associação de Psiquiatria Americana (APA). Segundo a APA, disforia de gênero é: ”Uma forte e persistente identificação com o gênero oposto (não meramente um desejo de obter quaisquer vantagens culturais percebidas pelo fato de ser do sexo oposto). Um desconforto persistente com seu sexo ou sentimento de inadequação no papel de gênero deste sexo. A perturbação não é concomitante a uma condição intersexual física. A perturbação causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo”.

DISFORIA DE GÊNERO É um classificação presente no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos

*Fonte: Correio Braziliense/ Hospital Universitário de Brasília

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N A P O N TA D A L Í N G U A ÍTALO ROCHA Jornalista

Escrever é cortar palavras Na minha adolescência, ouvi uma história de um professor sobre a forma de escrever que me serviu de balizamento pro resto da vida. O relato é fictício, mas tem um componente emblemático forte. Um turista desceu de um navio e no Porto da cidade deparou-se com uma placa numa barraca de vender peixe, onde estava escrito: VENDE-SE PEIXE FRESCO NA BEIRA DO CAIS. O turista foi lá, puxou conversa com o vendedor e pediu educadamente permissão para fazer uma sugestão sobre o cartaz. “Por que o senhor não corta a parte onde está escrito NA BEIRA DO CAIS? Todo mundo sabe que lugar é esse aqui”. O vendedor agradeceu e topou na hora. E a frase ficou VENDE-SE PEIXE FRESCO. Já um pouco amigo do vendedor e ainda insatisfeito, o turista deu outra sugestão: “O senhor venderia peixe que não fosse fresco na beira de um Cais?”. E a frase ficou assim: VENDE-SE PEIXE. Se despediram, o feirante agradeceu, mas o turista, que já tava claro que se tratava de um tremendo “cricri”, soltou mais uma: “O senhor dá peixe aqui pras pessoas? Então, tire o verbo”. O dono da barraca mais uma vez obedeceu e o cartaz ficou assim: PEIXE.

Ao se despedir pela segunda vez, o turista pediu desculpas pelo incômodo todo, mas disse bem baixinho no ouvido do feirante : “Todo mundo está vendo que aqui só tem peixe. Então, por que colocar esse cartaz?”. Moral da história, escrever é mesmo cortar palavras!!!!!! ***** Um cidadão foi conhecer os parentes numa pequena cidade do Interior do Nordeste. Pela manhã, logo após o café, foi dar um passeio pelo centro da cidade. E logo percebeu que as lojas estavam com os nomes escritos incorretamente. O dono da “Gato Branco” escreveu o nome do animal com “J”. O pequeno restaurante chamado “Buraco da Jia” tinha o réptil escrito com “G”. “Recanto do

Passarinho” estava com o nome da ave escrito com “Ç”. “Casa da Luz” tinha um acento indevido em luz e, pra piorar ainda mais, o invento de Thomas Edison estava escrito com “S”. O visitante ficou impressionado com o tamanho da agressão que os lojistas faziam à língua portuguesa. Mas, já no fim da rua, chamou a atenção dele a grafia de uma loja que lhe pareceu ser a única correta: “Aguia de Ouro”. Ele entrou na loja e pediu pra falar com o dono. E travou-se o seguinte diálogo: - Parabéns ao senhor por ter a única loja aqui do comércio que está com o nome escrito de forma correta, faltando apenas colocar o acento agudo no primeiro “A” de “Águia”. - Fico muito agradecido pelo seu elogio, senhor, e disponha aqui da nossa tradicional “AGÚIA DE OURO”.

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JURÍDICO

A publicidade médica nas mídias sociais

Entre o permitido e o proibido TEXTO JOAQUIM GUERRA

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ivemos um aumento crescente das inovações tecnológicas, compelindo a sociedade a acompanhar essa evolução quase que compulsoriamente. E esta toada ocorre também com as redes sociais. Boa parte da população no mundo vive conectada às redes sociais e demais veículos de comunicação, na maior parte das vezes com mais de um canal ou veículo, seja qual for ele; Instagram, Facebook, emails, sites, blogs, Twiter, Youtube, bem como programas

de mensagens instantâneas como Messenger, Whatsapp e similares. O fato é que a medicina não fica alheia ao uso dessas formas de comunicação, e não poderia ficar. Todavia os profissionais médicos devem ter atenção na utilização dessas mídias sociais como forma de fazer publicidade médica para não infringir as normas éticas emanadas pelo Conselho Federal de Medicina. Toda profissão possui normas de conduta que devem ser seguidas ou que lhe são vedadas, sob pena de desrespeitadas, restar caracterizada infração ética sujeita às penalidades

previstas em lei. Na medicina não é diferente, sendo estas normas de condutas disciplinadas precipuamente pelo Código de Ética Médica. O atual código em vigor foi instituído pela Resolução CFM nº 1.931/2009 e tem por finalidade orientar a comunidade médica para o aprimoramento do exercício moral da medicina em benefício da sociedade. O CEM, como também é conhecido, segundo consta em sua apresentação, representou o ingresso da medicina brasileira no século XXI e foi resultado de mais de 2 anos de trabalho desenvolvido pelas Comissões Federal e Estaduais

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de Revisão do Código de Ética Médica, sendo analisadas mais de 2.575 sugestões encaminhadas por profissionais e instituições, colocando a medicina em níveis de ciência e de tecnologia nunca antes alcançados. O referido código traz um capítulo específico destinado à Publicidade Médica (Capítulo XIII, artigos 111 à 118), normas de conduta obrigatória no meio médico, inclusive na utilização das mídias sociais. Aqui, vale um parêntese para informar aos médicos que o atual código, por mais inovador que tenha sido quando entrou em vigor, já passa por processo de revisão, aberto a sugestões de alteração pela comunidade médica, que podem ser encaminhadas através dos sites dos Conselhos de Medicina. Por ser o CEM regra geral, o CFM editou a Resolução 1.974/2011 que estabelece critérios norteadores da propaganda em medicina, inclusive conceituando o que considera por sensacionalismo e autopromoção médica, e incluindo estas dentre as condutas vedadas. Para uma melhor compreensão do leitor trazemos algumas de suas conceituações, entendendo-se, por exemplo, por sensacionalismo, a divulgação publicitária realizada de maneira exagerada com o intuito de individualizar e priorizar sua atuação profissional, da instituição onde atua ou tenha interesse pessoal, a utilização da mídia social para divulgar métodos não reconhecidos pelo CFM, a adulteração de dados estatísticos com o intuito de auferir vantagem ou benefícios, a apresentação ao público de práticas restritas ao ambiente médico, o uso de forma sedutora de representações visuais e informações que possam induzir as pessoas a promessas de resultados. A autopromoção é

caracterizada pela utilização de entrevistas, informações ao público e publicações em artigos com o intuito finalista de angariar clientela, de fazer concorrência desleal, de pleitear a exclusividade de métodos diagnósticos ou terapêuticos, ou mesmo de auferir lucro de espécie, e permitir a divulgação do endereço ou telefone de consultório, clinica ou serviço com esta finalidade em particular. Essa Resolução teve origem na necessidade de uniformizar os procedimentos para divulgação de assuntos médicos em todo o território nacional, estabelecendo como norte da publicidade médica que esta tenha por finalidade a orientação educativa e não a publicidade de produtos e práticas comerciais, sendo esse requisito de observância obrigatória para o estabelecimento da concorrência entre médicos, serviços, clínicas, hospitais e demais empresas registradas nos Conselhos Regionais de Medicina. Importante também o profissional conhecer o que a norma entende por anúncio, publicidade ou propaganda, sendo estas definidas como qualquer comunicação ao público, por qualquer meio de divulgação, da atividade profissional de iniciativa, participação e/ou anuência do médico, devendo sempre seguir os requisitos previstos na citada resolução, como por exemplo, conter o nome do profissional com respectiva especialidade e/ou área de atuação quando registrada no CRM, número de inscrição e, quando for o caso, número do registro de qualificação de especialidade (RQE). Além de diferenciar sua página pessoal da profissional e saber distinguir os conteúdos das matérias veiculadas em uma e outra, deve sempre observar obrigatoriamente

A autopromoção é caracterizada pela utilização de entrevistas, informações ao público e publicações em artigos com o intuito finalista de angariar clientela, de fazer concorrência desleal além do Código de Ética Médica, as resoluções editadas pelos Conselhos de Medicina e pela Comissão de Divulgação de Assuntos Médicos dos Conselhos de Medicina (Codame). Entendemos válido chamar a atenção para a vedação ao médico de publicações nas mídias sociais de autorretratos (selfies), imagens e/ou áudios que caracterizem sensacionalismo, autopromoção ou concorrência desleal, bem como ter sempre em mente o resguardo ao sigilo e à imagem do paciente, ainda que este autorize para estes fins. Neste aspecto, vedadas divulgações pelo médico do “antes e depois” de procedimentos, inclusive a publicação por terceiros de reiterados elogios a técnicas e resultados de procedimentos. Vale lembrar que havendo qualquer dúvida sobre o assunto, o médico deverá encaminhar consulta à Codame, visando enquadrar os anúncios aos dispositivos legais e éticos previstos. Advogado, com especialização em Direito Público e assessor jurídico do Cremepe.

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MÚSICA

A ascensão de Johnny Hooker

UM PERNAMBUCANO QUE ESTÁ FAZENDO SUCESSO NO PAÍS INTEIRO TEXTO MARIANA ARAÚJO

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os 30 anos de idade, Johnny Hooker está no auge da sua carreira. O jovem cantor tem uma trajetória que já não pode mais ser considerada “nova”. Já se vão 12 anos de estrada desde o lançamento do primeiro EP até este ano, quando inicia a turnê do novo álbum Coração. O show de

lançamento arrastou uma multidão para o Parque Dona Lindu, em Boa Viagem. Leonino, escolheu a data do seu aniversário para o show. Ouviu 20 mil pessoas entoarem “Parabéns pra você”. Mais recentemente, “causou” no Rock in Rio, ao beijar Liniker durante a apresentação, no palco Sunset.

Tudo no palco é pensado para quem está assistindo. O figurino chama a atenção, repleto de brilhos e transparências, fugindo do convencional. O show é realmente um show, e não apenas uma apresentação musical. Ator, Hooker usa também das artimanhas e performances cênicas para prender

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a atenção do público em suas apresentações no palco. Não seria exagero afirmar que Hooker, nascido e criado no bairro de Candeias, em Jaboatão dos Guararapes, é um dos principais lançamentos da música pernambucana desde o mangue beat, no início dos anos 1990. Motivos para

isso não faltam, desde a sua imagem, criando um personagem andrógino nos palcos, até o estilo musical em si. O menino de Candeias tem como nome de batismo John Vicente Donovan. Filho de mãe cineasta e pai fotógrafo, a arte sempre foi uma constante na sua vida. Velho conhecido do cenário underground local, Hooker começou sua carreira em bandas que nasceram em Candeias. E de Candeias, ganhou o mundo. Apareceu nacionalmente com o reality Geleia do Rock, do canal pago Multishow. A sua banda, Johnny e The Hookers, foi uma das vencedoras, mas a história do grupo foi marcada pela tragédia com a morte de um dos integrantes, Rafael Mascarenhas, filho da atriz Cissa Guimarães. No cinema, canta a música-tema do filme Tatuagem, de Hilton Lacerda, onde também fez uma participação. Para quem ainda não põe fé na capacidade de Johnny Hooker, antes do lançamento de Coração, o cantor foi destaque na revista Billboard, uma das maiores e mais importantes publicações de música do planeta. Nos Estados Unidos, o álbum é distribuído pelo selo CD Baby. À revista, Hooker falou sobre as censuras que recebeu no YouTube e no Facebook. O site de vídeos classificou como impróprio para menores de 18 anos o vídeo da música “Flutua”, um dos carro-chefe de Coração. No vídeo, ele aparece beijando Liniker, que participa da faixa. Já na rede social, o cantor foi impedido de impulsionar a publicação com post patrocinado. Usuários denunciaram que a foto continha conteúdo sexual. “Eu acho depressivo que em 2017 uma foto de duas pessoas se beijando tenha de ser censurada. Nem em meus shows eu censuro menores de 18 anos. Fiquei atordoado”, declarou o pernambucano à revista norteamericana.

Tudo no palco é pensado para quem está assistindo. O figurino chama a atenção, repleto de brilhos e transparências, fugindo do convencional Coincidência ou não, Hooker sempre se envolve em uma polêmica nas redes sociais antes de um grande evento da sua carreira. Foi assim em agosto, pouco antes da estreia do show Coração, no Dona Lindu. Hooker quase parou a internet ao rebater declarações de Ney Matogrosso. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, em julho, Ney se recusou a receber o rótulo de gay e alegou ser acima de tudo um ser humano. O pernambucano foi para as redes sociais criticar as falas. “Essa entrevista é uma série de declarações desastrosas. É inconcebível ler a frase ‘Que gay o caralho, eu sou um ser humano’ no país que mais mata LGBTs do mundo! Vinda de um artista cuja carreira em grande parcela se apoiou na bandeira da luta dessa comunidade, de seu próprio público”, escreveu Hooker no seu perfil no Facebook. No Rock In Rio, voltou a ser notícia não apenas pelo show. Nas redes sociais, criticou a organização do festival por intempéries que enfrentou no hotel. Em vídeos, Hooker criticou uma longa fila no check-in, o fato de ter ficado sem produtos no frigobar porque não tinha um cartão de crédito na hora e uma obra no prédio. JH é assim mesmo, irreverente em tudo!

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PAT R I M Ô N I O

Verde para todos O JARDIM BOTÂNICO DO RECIFE COMEMORA SEUS 38 ANOS CULTIVANDO UMA RELAÇÃO MAIS PRÓXIMA COM OS RECIFENSES, ATRAINDO UM PÚBLICO CADA VEZ MAIOR TEXTO MARIANA OLIVEIRA | FOTOS HANS MANTEUFFEL

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gora, quem passa pela BR-232, nas proximidades do Atacado dos Presentes, no bairro do Curado, avista facilmente, na paisagem, um grande letreiro num barranco gramado. Num molde repleto de flores, lê-se: Jardim Botânico. O equipamento vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente, da Prefeitura do Recife, comemora seus 38 anos este ano, vivendo uma das suas melhores fases, com mais interação e aproximação com a população. O espaço está situado no bairro do Curado onde existia uma grande área de Mata Atlântida preservada e onde funcionava o antigo Instituto de Pesquisa Agropecuária do Nordeste - Ipeane. No fim dos anos 1970, o Cemitério do Parque das Flores, que tem limite territorial com essa área, queria expandir seu terreno e solicitou autorização para avançar no perímetro da mata. Neste momento, um agrônomo e engenheiro florestal que atuava na Emlurb levou à PCR a sugestão de aproveitar esse espaço para criar o Jardim Botânico do Recife. Foi assim que, em 1° de agosto de 1979, por meio do decreto nº 11.341, o então prefeito Gustavo Krause fundou o equipamento que foi aberto ao público em 1980. Os primeiros jardins botânicos do mundo foram criados na Europa, no século XVI, com o objetivo de cultivar e estudar plantas de uso medicinal, formando coleções de plantas para estudos científicos. No Brasil, a primeira referência vem justamente do Recife, uma iniciativa de Maurício de Nassau, no século XVII. Ele criou o seu ao lado Palácio de Friburgo, no Recife, na área onde hoje está o Palácio do Campo das Princesas, entre 1637 e 1644. Só a partir de 1979 o Recife voltou a ter o seu jardim. Hoje, o

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PAT R I M Ô N I O espaço abrange uma área protegida de 10,7 hectares, sendo um hectare aberto à visitação. Apesar de ter quase 40 anos, o equipamento foi subaproveitado pela população durante muitos anos. Sua visitação estava baseada nas visitas escolares e muitas pessoas desconheciam por completo sua existência. Essa situação começou a mudar no início dos anos 2000 quando começaram a ser feitos mais investimentos para recuperar o equipamento. Era necessário que o Jardim buscasse se enquadrar nas 16 regras estipuladas pelo Conama (ligado ao Ministério do Meio Ambiente), em 2003, para que de fato se concretize a existência de um jardim botânico. “Para ser considerado um jardim botânico, é preciso que exista uma estratégia global de preservação da planta. Muitas delas são plantas ameaçadas de extinção. Temos que seguir um ciclo, identificando as espécies, coletando, pesquisando, conservando dentro do seu bioma, estudando, reproduzindo e reintroduzindo essa planta no seu habitat”, explica a atual gestora do Jardim Botânico do Recife, Zenaide Magalhães. Segundo ela, foi em 2012 que se conseguiu que a Comissão Nacional de Jardins Botânicos (CNJB), vinculada ao Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), reconhecesse o Jardim Botânico do Recife e o enquadrasse na categoria C. “Em 2013, cheguei ao Jardim, reuni a equipe e disse: ‘vamos, agora em busca da categoria A’. No início ninguém acreditava que iríamos conseguir, mas ao final deu tudo certo. Viajei e conheci a experiência de outros jardins no Brasil, e fomos percebendo que era possível, que poderíamos atender esses requisitos. Em 2015, recebemos o reconhecimento de categoria A”, conta.

A requalificação do jardim englobou sua parte estrutural e também de pessoal, que teve seus quadros ampliados para melhor atender ao público e às demandas de pesquisa e preservação. Foi criada uma revista, a biblioteca foi organizada, foi instalado um projeto de educação ambiental articulado, as coleções foram organizadas. Toda essa movimentação não foi importante apenas para conseguir a categorização, mas para abrir as portas do jardim botânico de fato ao público. Os números mostram esse avanço exponencial. Em 2013, o total de visitantes no ano foi de 4.000 pessoas. Em 2014, a visitação saltou para 100.000, mantendo esse

padrão nos anos seguintes (2015 102.000 e 2016 - 107.000). “Esses números são bastante relevantes, pois o Recife é uma cidade que tem praia, tem um forte concorrente para uma programação ao ar livre. Em algumas cidades, o jardim botânico é uma opção única para uma programação de lazer em área aberta”, destaca a gestora.

O QUE VISITAR A área do Jardim Botânico do Recife reúne hoje cerca de 90 espécies diferentes por hectare, são 10,7 hectares no total. São sete trilhas disponíveis (uma principal, calçada e autoguiada, e outras guiadas que cortam a mata). “As trilhas que

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O Jardim de Plantas Tropicais destaca a exuberância paisagística de algumas plantas Zenaide Magalhães (acima) cuida da gestão do Jardim Botânico do Recife desde 2013 As orquídeas compõem uma das coleções científicas do Jardim

passam pela mata estão interditadas agora, devido às fortes chuvas do inverno que derrubaram árvores e galhos e prejudicaram a rota toda de barro. Estamos em processo de recuperação para voltarmos a liberá-las para o acesso do público”, diz Zenaide. No trajeto central, o visitante vai encontrar placas e painéis indicando os pontos de parada e observação. Quem desejar também pode percorrer este caminho, de 574,54 m, com um monitor, basta agendar. Seguindo o roteiro, o visitante passará pelo Jardim das Palmeiras, que reúne diversas espécies da família botânica Arecaceae; Jardim de Plantas Medicinais que abriga

De 2014 para cá, a visitação ao equipamento cresceu chegando à casa dos 100 mil/ano mais de 40 espécies de plantas utilizadas no tratamento de doenças; Jardim de Plantas Tropicais, o qual destaca a exuberância paisagística de algumas plantas, sendo destinado, principalmente, a momentos de contemplação; Jardim Sensorial, espaço idealizado para as pessoas com algum tipo

de deficiência descubram as características de algumas plantas explorando o cheiro, o toque, o som, o olhar. Segundo Zenaide Magalhães, além desses jardins, o público pode conhecer as três coleções científicas do Jardim Botânico. O Bromeliário é formado por 200 espécies catalogadas e registradas pertencentes à família Bromeliaceae. Dentre elas, destaca-se a espécie Vriesea limae, exclusiva de Pernambuco. O Cactário reúne espécies pertencentes à família Cactaceae, plantas que se destacam pela adaptação a ambientes extremamente quentes e áridos. Fechando a trinca de coleções,

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A área do Jardim Botânico do Recife reúne hoje cerca de 90 espécies diferentes por hectare; são 10,7 hectares no total

encontra-se o Orquidário. São mais de 250 espécimes de orquídeas catalogadas e registradas, entre elas, destaca-se a Cattleya labiata, ameaçada de extinção. Quem visita o espaço passa a entender que essas flores, além de sua beleza, exercem importante papel ecológico ao atraírem insetos e pássaros polinizadores. Segundo os pesquisadores do Jardim Botânico, a existência deste acervo busca resguardar o patrimônio genético destas espécies, já que elas possuem potencial ornamental,

agroecológico, industrial, biotecnológico. Outro espaço que merece a visitação é o Meliponário, um criadouro de abelhas brasileiras. Essas espécies não possuem ferrão e vivem em colônias comandadas pela abelha-rainha. Elas são fundamentais para a manutenção do equilíbrio do ecossistema, pois fazem a polinização de inúmeras espécies de plantas, tanto nas florestas como nas lavouras agrícolas, além de produzirem mel. “Aqui é possível perceber

a interligação direta entre a fauna e a flora. Se as abelhas nativas desaparecerem, teremos o desaparecimento de algumas espécies de plantas também”, comenta a gestora. No trajeto da trilha principal, o público ainda poderá conhecer o Visgueiro, árvore típica da Mata Atlântida, que é símbolo do Jardim Botânico do Recife. Essa caminhada termina numa área ampla, uma espécie de praça, onde é possível sentar num banco, relaxar, visitar o espaço destinado à educação ambiental e a biblioteca. É lá também que está situada a administração do lugar. Próximo à entrada do Jardim, há outro espaço de convivência que abriga exposições temporárias de plantas e de pesquisas, assim como atividades de educação ambiental como contação de história, oficinas, pintura. Há algumas recomendações para o público. Àqueles visitantes que pretendem seguir pelas trilhas dentro da mata, pede-se que venham com calças compridas e sapato fechado. Também se pede que não se tire nada da mata, não se escreva nada nas árvores, nem se deixe lixo e qualquer outro tipo de material nas trilhas. “Tivemos que começar a impor algumas regras. Tinha gente que vinha fazer um book de fotos aqui e isolava áreas, trazia balões, papel picado, enfim... Isso não pode acontecer. Então passamos a estipular algumas regras. Temos que investir naquilo que nos é próprio enquanto Jardim botânico”, explica a gestora. O Jardim Botânico do Recife abre de terça a domingo, das 9h às 15h30. A entrada é gratuita. Grupos com 10 a 30 pessoas que desejem acompanhamento de monitor devem agendar pelos telefones (81) 3355-0002 e 3355-0000.

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GASTRONOMIA

Café da manhã no Mercado DESDE QUE FOI INAUGURADO EM 1925, O MERCADO DA MADALENA É FREQUENTADO PELA BOEMIA DA CIDADE EM BUSCA DE BOA COMIDA

TEXTO MARIANA ARAÚJO | FOTOS HANS MANTEUFFEL

Fava frita, prato principal da Bodega do Seu Artur

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GASTRONOMIA Nesta página: aspecto da entrada do mercado. Na outra página: box da Confraria dos Chifrudos, um dos mais frequentados do espaço. No detalhe: Antonio Fernando Correia, dono da Confraria, que há 40 anos administra o local

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eduto de boêmios e consumidores em busca de produtos frescos, como verduras, legumes e carnes, o Mercado da Madalena é uma referência não só para o bairro, mas também para o Recife. O espaço possui um dos mais tradicionais cafés da manhã da capital pernambucana, servindo o que há de melhor da nossa culinária regional. Imagine a possibilidade que é esticar a noite na rua e ter, à sua disposição,

um espaço para recarregar as energias logo cedinho, antes de um merecido descanso. Quem nunca experimentou virar a madrugada em uma festa e tomar café no Mercado da Madalena, está deixando de aproveitar umas melhores experiências que traduz o que é “ser recifense”. Leila Guerra recebeu a notícia do pai, frequentador do Mercado, que assumiria o controle de um box de comidas no local. Assíduo no espaço,

ele soube que um dos restaurantes estava passando o ponto e disse à filha que, se ela quisesse, ele pegaria o espaço para ela administrar. Foi assim a mudança de vida de Leila, há 15 anos, quando ficou à frente do Bodega do Seu Artur. Ela trabalhava como prestadora da Caixa Econômica há nove anos e aproveitou a experiência que a família tinha com comércio e levou para o box. O café da manhã tem tudo para quem ama a culinária nordestina: cuscuz, inhame, macaxeira, bode guisado, galinha guisada, guisado de boi, de porco, carne de sol e charque. Mas nenhum prato ganha para a “prata da casa”: a fava frita, criação do marido de Leila, Artur Lima, que dá nome ao restaurante e fica à frente da cozinha. A especialidade da casa é feita com fava, queijo coalho em cubos, carne de sol ou charque e vinagrete, tudo feito com manteiga de garrafa. “É um dos pratos que mais sai aqui”, afirma Leila. O trabalho é puxado. O box abre às 6h30 e vai até 21h de segunda a sexta. Nos finais de semana, fecha no final da tarde. “A

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gente gosta do que faz. Trabalhar do final de semana é complicado, mas se é para a diversão dos clientes, a gente faz. Nos identificamos e nos realizamos aqui”, diz Leila. O médico Bruno Ishigami frequenta o box desde que se mudou para o bairro da Madalena, há quase um ano. “Venho mais nos finais de semana, quando o tempo é menos corrido. Gosto do cardápio, do preço, do ambiente. É uma comida mais regional e o ambiente é familiar. A cartola é imperdível”, elogia. Outro ponto tradicional para café da manhã no Mercado da Madalena é o Box do Jairo, na parte interna do espaço. No cardápio, itens como cuscuz, inhame e macaxeira estão nas preferências dos clientes. “O que me faz voltar é a comida”, diz o representante comercial Emerson Cardoso, frequentador do box há 12 anos. Ele sempre vai nos finais de

O dono da Confraria dos Chifrudos, Antonio Correia (foto), diz que “corno de verdade, não passa pelo local, passa longe”, brinca

semana e tem como pratos preferidos o bode e a rabada. Sem dúvida alguma, um dos boxes mais conhecidos do Mercado da Madalena é a Confraria dos Chifrudos, também na área interna. Falar do Mercado e não citar o box é quase um pecado. Tradicional por ser um dos locais de boemia da cidade, o espaço é famoso pelos petiscos. Os mais pedidos são rabada, bode guisado, cupim, sarapatel e patinho com charque. À frente da Confraria há 40 anos, Antônio Fernando Correia começou a trabalhar do lado de fora do Mercado. Foi quando desocupou um box e ele viu a oportunidade de ampliar o negócio. O cardápio é o mesmo desde a fundação. “Adoro isso aqui. Minha clientela são meus amigos. As pessoas vêm aqui para conversar, bater papo. A tradição é grande”, relata. O nome do bar

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CARDÁPIO

O mercado possui um dos mais tradicionais cafés da manhã da capital pernambucana, servindo o que há de melhor da nossa culinária regional veio por uma brincadeira de agentes da Polícia Federal que, entre os plantões, faziam suas refeições lá. “Havia casados e solteiros. Alguns passavam até cinco dias fora. Aí os outros brincavam que eles estavam sendo traídos pelas esposas. Pegou e o nome ficou até hoje”, explica Antônio. Apaixonado pelo Santa Cruz – um dos seus irmãos jogou no time entre 1964 e 1971 – Antônio também faz referências ao Sport e ao Náutico. Há chifres pintados com as três cores do time na decoração do box. “Aqui tudo é brincadeira. Corno de verdade não vem aqui, passa longe”, diz. Navegar pela história do Mercado da Madalena é conhecer a própria história do Recife. O bairro surgiu como umas regiões produtoras de cana-de-açúcar ainda na época das capitanias hereditárias. Duarte Coelho doou as terras ao seu cunhado, Jerônimo de Albuquerque. Com a sua morte, as terras foram divididas entre os seus filhos. Um deles, Pedro Afonso Duro, era casado com dona Madalena Gonçalves Furtado. Nas terras, foi construído o Sobrado Grande de João Alfredo, a casa-grande do engenho, que ficou conhecida como Passagem de Dona Madalena.

No mercado também há venda de doces e outros produtos diferenciados

Já o Mercado foi construído em 1925. Era um dos principais pontos de reunião de feirantes. Como funcionava à noite, ficou conhecido também como “Mercado do Bacurau”. Já na época da sua fundação, o local começou a ser frequentado por boêmios da cidade. A primeira reforma ocorreu em 1960, quando o piso foi requalificado.

Em 1982, foi realizada uma importante restauração. Foi quando foi descoberto na fachada um brasão pelo historiador Vanildo Bezerra Cavalcanti, conhecido frequentador das partes boêmias do Mercado. Ele constatou que se tratava do brasão da cidade do Recife. O símbolo foi restaurado e hoje tem destaque em uma das principais entradas do prédio.

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ARTE&

CULTURA

QUESTÕES SOBRE O SUICÍDIO | PÁG. 37 revista do Cremepe 25-10-2017.indd 35

LIVROS P. 36 VISUAIS P. 38 MÚSICA P. 39

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LIVROS | LU IZ AR RAIS FOTOS: DIVULGAÇÃO

PELA AFIRMAÇÃO DA IDENTIDADE

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iografia nem pensar!” Foi o que disse o ator Lázaro Ramos nas primeiras reuniões com os editores da Objetiva para falar sobre o livro Na minha pele. Na época, ele não poderia imaginar que em 2017 seria uma das estrelas da principal festa literária do país, a Flip, em Paraty/RJ. Nascido em Salvador/BA em 1978, o ator, cineasta, apresentador e escritor infantojuvenil ele discorre sobre ser um artista negro no Brasil, sua infância, a trajetória profissional, desde o início no Bando de Teatro Olodum até o estrelato. Mas é a primeira vez que se expõe tanto por meio da escrita, tratando de temas contemporâneos e contando sobre a intimidade com os pais, as principais referências literárias e os episódios em que foi vítima de discriminação racial. Sem fazer concessões, Lázaro Ramos apresenta no livro uma série de questionamentos bastante atuais. “Todos os meus trabalhos têm um viés social, que é a minha voz, mas, junto a ele, há também o desejo, do qual me orgulho muito, que é o de entreter. Apesar de apresentar coisas que são duras e às vezes dolorosas, a tentativa é a de fazer uma conversa agradável e que prenda a pessoa até o fim. Uma curiosidade: quando indagado, jovem, o que queria ser na vida, Lázaro respondia, meio sem convicção: “Quero ser médico.” Na minha pele – Editora Objetiva, 147 páginas, R$ 34,90

MANUAL DA FAXINEIRA Lucia Berlin (acima), escritora norte-americana, nascida no Alasca, em 1936, teve uma vida repleta de eventos e reviravoltas. Aos 32 anos, já havia vivido em diversas cidades e países, passado por três casamentos e trabalhado como professora, telefonista, faxineira e enfermeira para sustentar quatro filhos. Lutou contra o alcoolismo por anos antes de superar o vício e tornou-se uma aclamada professora universitária em seus últimos anos de vida. Desse vasto repertório pessoal, Berlin tira inspiração para escrever os contos que a consagraram como uma mestre do gênero. Com irreverência, humor e uma mistura de inteligência e melancolia, Berlin retrata milagres da vida cotidiana, desvendando momentos de graça em lavanderias, clínicas de desintoxicação, emergências hospitalares e residências de classe alta da Califórnia, Chile, Nova York e Cidade do México. A autora, morreu na Califórnia, de um câncer, em 2004. Cia das Letras, 532 páginas, R$ 64,90

UMA PÁGINA INFAME DE TRAIÇÃO E VIOLÊNCIA

O massacre da Granja São Bento de Luís Felipe Campos, traz à tona a história de um dos mais sórdidos crimes perpretados pelos agentes da repressão política do regime militar instaurado em 1964. Operação liderada pelo famigerado delegado do Dops/SP Sérgio Paranhos Fleury, quando seis militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), entre eles, a paraguaia Soledad Barret (foto), grávida de 6 meses, foram mortos em uma propriedade rural, situada em Paulista/PE, crivados de balas em clara evidência de execução sumária. O namorado de Soledad, o cabo Anselmo, foi quem dedurou o grupo. O massacre da Granja São Bento – Cepe Editora, 200 páginas, R$ 30,00

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CINEMA | MAR IANA OLIVE I RA FOTOS: DIVULGAÇÃO

A SEGUIR

O SUICÍDIO NA TELA DA TV

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suicídio foi (e ainda é) um tabu. Sempre foi um tema sobre o qual não se falava nas rodas sociais, nem na mídia que seguia uma regra clássica de não trazer o tema à pauta. Ainda um tema espinhoso, hoje campanhas como a do Setembro Amarelo têm mostrado a importância de se discutir a questão. É nesse cenário que a plataforma Netflix lançou este ano a série 13 Reasons why – uma adaptação do livro Os treze porquês, de Jay Asher. O enredo tem como vetor central o suicídio da jovem Hannah Baker (Katherine Langford), uma colegial de uma típica high school americana. Antes de se matar, a garota grava uma série de fitas cassete onde relata os 13 “motivos” que a levaram a cometer tal ato, apontando cada um dos responsáveis pelas situações que viveu. Após a sua morte, umas das pessoas que recebe as fitas é Clay Jensen (Dylan Minnite), um colega, bom moço, que sempre foi apaixonado por ela. Ao escutar a primeira gravação, o mocinho fica sabendo que todos que receberam a caixa estão envolvidos e são responsáveis pelo seu comportamento suicida. A partir daí, acompanhamos a escuta de Clay, ansiosos por saber sua participação naquilo tudo. Os episódios são construídos como uma colcha de retalhos entre o presente e o passado. Os personagens e situações vão sendo reveladas a partir da narrativa de Hannah Baker. O bulliyng, por exemplo, outro tema fundamental discutido pela série, é elemento importante no próprio enredo, já que a mãe da garota decide processar a escola acusando a instituição de não ter tomado as medidas cabíveis para coibir a prática que teria sido uma das motivações do ato da filha. Lançado em março, o seriado chamou a atenção de todos, passando a figurar entre as séries mais comentadas. Houve muita polêmica, nem todos apoiavam a série, afirmando que ela discutia uma temática complexa de modo equivocado e que poderia ser uma influência negativa para pessoas emocionalmente abaladas. Outros apoiaram a produção pois estaria trazendo o tema para a arena do debate.

A COMIDA DOS BRASILEIROS Fonte da Juventude, documentário dirigido por Estevão Ciavatta, faz um mergulho nos hábitos alimentares do brasileiro hoje. Com um roteiro conduzido pela fala de diversos entrevistados, ele mostra como a aposta na diversidade dos alimentos e o resgate de identidade alimentar brasileira podem ser o caminho para a longevidade. O filme conta como o país tem reduzido continuamente a desnutrição e aumentado expressivamente os casos de excesso de peso. Enquanto cresce o consumo de alimentos industrializados, percebe-se que as frutas e verduras sumiram do prato dos brasileiros. Segundo o diretor, trata-se de um filme propositivo, que complexifica os desafios do ambiente alimentar do Brasil e traz soluções encontradas por brasileiros de diferentes classes sociais para essa questão. Mais em: http://fontedajuventude.info/

STRANGER THINGS Em outubro, entrou no ar, na Netflix, a segunda temporada da série, que estreou no segundo semestre de 2016 chamando a atenção do público, em especial aqueles que foram crianças na década de 1980. Isso porque o seriado faz referências claras aos clássicos sobrenaturais do período, tal como Os Goonies e E.T., e também traz elementos dos jogos de RPG, experimentos militares secretos, xerifes, walkie-talkies... A história começa a partir do desaparecimento de um menino sem deixar vestígios. A família, os amigos e a polícia começam a buscá-lo e passam a se envolver num grande mistério, com direito até a um universo paralelo, o Mundo Invertido.

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VISUAIS | MAR IANA OLIVE I RA

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CORES E FORMAS DE TOMIE OHTAKE

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japonesa Tomie Ohtake chegou ao Brasil aos 23 anos, porém sua trajetória na pintura só foi iniciada aos 40 anos. A artista seguiu trabalhando até os 101 anos, em 2015, quando faleceu. É um recorte desses 60 anos de produção que está em exibição até o dia 19 de novembro, na Caixa Cultural Recife. A exposição Tomie Ohtake – Cor e Corpo, traça a história da artista, com 40 gravuras, cinco pinturas e três esculturas pertencentes ao acervo dela. A curadoria de Carolina De Angelis e Paulo Miyada opta por mostrar a versatilidade de Ohtake, refletindo a exploração experimental de diferentes técnicas e processos, reafirmando, entretanto, a coesão de todo o trabalho da artista. Entre as gravuras expostas, realizadas em serigrafia, litografia e gravura em metal, percebe-se as diferentes fases do trabalho de Ohtake. No início da carreira, seus gestos mostravam contornos irregulares, depois, seguem por um momento de grande exploração cromática, até chegar aos trabalhos mais delicados, com linhas mais finas. A mostra conta com três esculturas tubulares que se equilibram no solo como se estivessem suspensas, ressaltado a delicadeza, manualidade e fluidez típicas da artista. Completando a mostra, cinco pinturas que passeiam por questões corpóreas e orgânicas. Vistas como um conjunto remetem a diferentes estágios de fecundação, multiplicação, nascimento e crescimento. Os trabalhos de Ohtake usualmente são vinculados ao informalismo e à abstração geométrica, porém há obras nas quais as formas remetem a elementos da natureza, ganhando mais fluidez, com volumes que aludem ao orgânico do corpo humano. A artista faz uso de tremores, desvios e abaulamentos nas suas formas geométricas que, por isso, fogem da rigidez típica da geometria. A paleta de cores também é uma característica forte em suas obras. Caixa Cultural Recife: Av. Alfredo Lisboa, 505, Bairro do Recife. Fone: (81) 3425.1915

COLORINDO O BRASIL Quem passar pela Caixa Cultural também poderá conferir outra exposição interessante. Em cartaz, até 3 de dezembro, a mostra Poteiro, o Colorista do Brasil, que reúne 37 trabalhos do pintor, ceramista e escultor português Antônio Poteiro. Natural do Minho, no norte de Portugal, migrou para o Brasil com apenas um ano de idade, instalando-se em São Paulo e seguindo, posteriormente, para Minas Gerais e Goiás. De origem humilde, ele conseguiu ter seu trabalho reconhecido na maturidade e hoje se insere entre os nomes de destaque da Arte Naïf brasileira. Suas telas retratam cenas religiosas do cristianismo, mitos indígenas, figuras do folclore, fauna mato-grossense, sempre num trabalho pensado com uma rica paleta de cores.

MEPE COM NOVA EXPOSIÇÃO Pernambuco Território e Patrimônio de um Povo traça uma rota pela história do Estado, desde os seus primórdios, passando pela arqueologia, povos tradicionais, chegada dos europeus, busca pelo pau-brasil, ciclo do açúcar, cultura afro e patrimônio cultural. Nesse caminho, são salientados aspectos ambientais, sociais, econômicos e culturais. A mostra é o resultado de trabalho da equipe do museu que se dedicou a selecionar e revitalizar peças do seu vasto acervo. A mostra sugere uma reconstrução da visão histórico-cultural, sem dividi-la por setores. Acessível aos mais variados públicos, a exposição não tem data para ser encerrada.

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MÚSICA | MAR IANA ARAÚJO

OS NOVOS BAIANOS ESTÃO DE VOLTA

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ma das boas novidades que o show bizz brasileiro trouxe em 2017 foi a turnê dos Novos Baianos. Do show num teatro de Salvador, no final da década de 1970, passando pelo estilo de vida hippie mantida num apartamento no Rio de Janeiro e a conhecida visita de João Gilberto de terno, de madrugada, o que o levou a ser confundido com um policial, ficou a experiência de músicos que hoje têm reconhecimento nacional. A banda, uma das mais influentes no mercado fonográfico do Brasil, roda o País com um show levando ao palco Moraes Moreira, Baby do Brasil, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão. O nome da turnê não poderia ser mais propícia – “Acabou Chorare – Os Novos Baianos se Encontram”, uma alusão ao álbum mais famoso do grupo. Entre as canções apresentadas, músicas que marcaram a carreira da banda no final dos anos 1960 e início dos 1970, como “Preta Pretinha”, “O Samba da Minha Terra”, “Acabou Chorare”, “Mistério do Planeta” e “A Menina Dança”. A turnê passaria pelo Recife em agosto, mas o show foi adiado para dezembro devido a um problema de saúde de Moraes Moreira, que chegou a ser internado. No palco, o grupo mostra que continua afinado, seja pelas guitarras de Moraes Moreira e Pepeu Gomes, ou pelo visual sempre colorido de Baby do Brasil. Nos primeiros shows, a cantora se apresentou com o cabelo tingido de púrpura. Ou seja, o tempo não passou para os Novos Baianos.

PRAZER, PABLLO VITTAR Se você ainda não ouviu falar em Pabllo Vittar, não vai demorar muito até que este nome chegue até você. A cantora – sim, Pabllo é uma drag queen e nasceu no Maranhão e passou parte da vida em Minas Gerais – parou a última edição do Rock in Rio sem nem mesmo ser uma atração oficial. Fez um show de 20 minutos, no primeiro dia em estande de um dos patrocinadores, juntando uma multidão. No dia seguinte, foi convidada para cantar no show de Fergie e fez mais sucesso que a cantora pop norte-americana, ex-integrante do Black Eyed Peas. Este ano, Pabllo lançou seu primeiro álbum e gravou com Anitta e Major Lazer a música “Sua cara”. Também fez duetos com Lucas Lucco e Preta Gil. Após o Rock in Rio, bateu o número de seguidores no Instagram de RuPaul, uma das drags mais famosas do mundo e que comanda um reality nos EUA.

LADY GAGA EM FOCO O que está por trás de uma mega cantora pop, de fama mundial, que arrasta milhares de pessoas para seus shows? É isso que pretende mostrar o documentário Gaga: Five Foot Two, que a Netflix colocou no seu catálogo em setembro. Os fãs irão encontrar uma Gaga sem (ou com pouquíssima) maquiagem, por trás de um par de óculos pretos, falando sobre si e visitando familiares. O vídeo traz também cenas do tratamento da fibromialgia, doença afastou a cantora do palco do Rock in Rio, além de questões como distúrbio de ansiedade. Um documentário para quem é e quem não é fã de Gaga, para quem tem curiosidade sobre como funciona o mundo das cifras milionárias de um astro pop e tudo que envolve uma megaprodução.

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H ISTÓ RI A

O invento de Einthoven O

eletrocardiógrafo foi inventado no início do século XX pelo cientista holandês Willem Einthoven, mostrado na foto acima com o seu invento. Contrastando com os compactos modelos do equipamento na atualidade, o protótipo do eletrocardiógrafo – um galvanômetro de corda aperfeiçoado por Einthoven – apresentava as seguintes características: Dimensões suficientes para ocupar uma sala. Peso de 270 quilos. Exigência da presença de cinco operadores, ao mesmo tempo, para a realização do exame. E, ainda: O paciente não mantinha contato direto com o equipamento. O exame era feito com a imersão parcial de suas extremidades numa solução salina contida em três grandes cubas, com estas conectadas por fios à máquina. Os dois antebraços e a perna esquerda, que ficavam imersos na solução condutora durante o exame, representam os vértices do “triângulo de Einthoven” em cujo centro se situa o órgão cardíaco. E são nestas regiões do corpo em que, atualmente, ainda são colocados os eletrodos que captam os registros elétricos do coração para as derivações dos membros do eletrocardiograma (ECG). O laboratório em Leiden se tornaria um lugar visitado por pesquisadores de todo o mundo.

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Revista do Cremepe - 3ª Edição  
Revista do Cremepe - 3ª Edição  

Revista trimestral produzida pelo Conselho Regional de Medicina de Pernambuco.

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