CPT NE2 - Boletim Alvorada - 6ª edição - Abril de 2022

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BOLETIM

Comissão Pastoral da Terra Nordeste 2 - abril de 2022

ANO II - Nº 01 PARAÍBA

Mulheres de Acauã dão exemplo de autoorganização com a comercialização de produtos feitos dos frutos da luta pela terra

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efeições, bolos, biscoitos, doces e salgados preparados com alimentos saudáveis, frutos da luta pela terra. Todas essas delícias são feitas por mulheres da comunidade do assentamento Acauã, situado no Alto Sertão paraibano. Chamado “Recanto das Delícias”, o grupo é composto por 11 camponesas que comandam a cozinha comunitária de Acauã. Essas mulheres fornecem a produção para municípios como Aparecida, Sousa, e Cajazeiras por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Entre 2020 e 2022, elas também destinaram parte dos alimentos beneficiados para as campanhas de solidariedade realizadas pela CPT com o intuito de amenizar o sofrimento de famílias desempregadas e que passam fome nas periferias

Grupo Recanto das Delícias é formado por mulheres camponesas no Alto Sertão paraibano.

das cidades da região. Vale dizer: todos os alimentos vêm diretamente das famílias da comunidade. Coco, mamão, leite, banana, gergelim, goiaba e tantas outras frutas, raízes e verduras. É muita fartura! Sabores fruto da luta pela terra - A cozinha comunitária, onde são preparadas as delícias, não é a única coisa em comum entre essas mulheres. Elas também compartilham a mesma história de vida e de luta por justiça social e pela Reforma Agrária. O assentamento Acauã, onde vivem, é fruto da primeira ocupação de luta pela terra no Alto Sertão da Paraíba, realizada em 2 de dezembro de 1995. Na data, 114 famílias ocuparam o latifúndio improdutivo para reivindicar

a desapropriação da área. Os trabalhadores e trabalhadoras rurais sem-terra viveram por oito meses acampados(as) debaixo da lona preta, enfrentando diversos episódios de violência, como despejos, perseguições, ameaças e prisões ilegais. A conquista da terra veio no dia 14 de outubro de 1996, quando ocorreu a imissão de posse da área de 2.823 hectares pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A Terra Prometida foi conquistada, mas as famílias sabiam que a luta precisava continuar. Conheciam bem aquela canção que diz: “Quando chegar na terra, lembre de quem quer chegar. Quando chegar na terra, lembre que tem outros passos pra dar”.


Com a criação do assentamento e com o passar do tempo, a ideia de uma cozinha comunitária e de um grupo de mulheres começou a pulsar mais forte. Foi em 2019 que a semente do Recanto das Delícias foi germinada a partir do desejo e da necessidade das mulheres de valorizar a produção camponesa e, ao mesmo tempo, fortalecer sua autonomia e a resistência na terra. No início, as agricultoras foram equipando o espaço da cozinha com os utensílios trazidos de suas casas. Uma panela daqui, uma colher de pau dali. E assim foram iniciando a produção e mostrando que quando as mulheres se organizam, toda a comunidade avança na luta. Com o apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT), da associação comunitária do assentamento e de várias entidades amigas da Reforma Agrária, o grupo conseguiu melhorar a infraestrutura do espaço, equipando mais a cozinha, além de avançar nas reflexões e práticas de cuidado com meio ambiente, com o reaproveitamento de embalagens e de resíduos orgânicos. Algumas das camponesas integrantes do Recanto das Delícias também estão inseridas em outros espaços de organização do assentamento, assumindo papel de lide-

Aos domingos, os produtos são comecializados na feira em Aparecida-PB

“Somos um grupo unido, enfrentamos todos os obstáculos, somos acolhidas uma pelas outras” rança e envolvendo suas famílias e toda a comunidade nas ações planejadas do grupo. O Recanto das Delícias é um orgulho para o assentamento Acauã. É mais uma das belas experiências que mostram o papel da Reforma Agrária para transformar vidas marcadas por injustiças em exemplos de fartura e autonomia. Ainda mais quando se trata das mulheres, tão violentadas pelo latifúndio e pelo machismo. O exemplo da criação do grupo mostra que, em Acauã, elas de-

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Dênis Venceslau José Carlos Lima Lara Tapety Nilton Júnior Renata Albuquerque Vanúbia Martins

cidiram se levantar e se organizar, avançando na luta pelo direito à vida digna no campo, com autonomia, criatividade e muito tempero. “O que me motiva a ser presente e participativa na cozinha comunitária é a força de ser mulher, de ter a própria independência, de ser produtiva e criativa, ter estabilidade, ser empoderada. Somos um grupo unido, enfrentamos todos os obstáculos, somos acolhidas uma pelas outras”, explica a agricultora Aparecida Gomes. Muitos passos foram dados, mas ainda há mais passos para dar. Para o grupo, é sempre tempo de avançar, pois ainda é preciso equipar melhor a cozinha e envolver mais camponesas no processo de produção e de busca por autonomia. Por isso, em março, no mês de luta internacional das mulheres, o grupo consolidou a Associação das Mulheres do Recanto das Delícias, o que foi bastante festejado por todas as famílias do assentamento. “São passos importantes de organização que vão servir de exemplo para outras mulheres”, destaca Socorro Gouveia, agente pastoral fundadora da CPT no Sertão da Paraíba e que acompanha o grupo.

Edição: Setor de comunicação CPT NE2 Fotografia: Equipe CPT Cajazeiras (PB) / Grupo Recanto das Delícias Jornalistas responsáveis: Lara Tapety (Reg. Prof. 0001340/AL) / Renata Albuquerque (Reg. Prof. 0007209/PE)

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