CPT NE2 - Boletim Alvorada - 3ª edição - Agosto 2021

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BOLETIM

Comissão Pastroral da Terra Nordeste 2 - agosto de 2021

ANO I - Nº 03

PERNAMBUCO

“Meu Povo vai comer o que plantou e habitar o que construiu” (Is.65:21)

Diante de ataques e destruições, famílias agricultoras posseiras se levantam para defender a terra, a vida e o pão na Mata Sul de Pernambuco “Chegaram de repente, sem a gente esperar. Invadiram, derrubaram o curral, cortaram o coco, o abacate, o limão, a banana. Destruíram tudo."

O

relato é da agricultora posseira Maria Eunice*, moradora do Engenho Várzea Velha, Jaqueira, Zona da Mata Sul de Pernambuco. Destruições de lavouras, ameaças de expulsão, emboscadas, ameaças de morte, envenenamento das terras, perseguições e intimidações com seguranças armados. Essa é apenas uma parte da violência que atinge dona Maria e mais 1.200 famílias antigas trabalhadoras e moradoras dos engenhos da Usina Frei Caneca, desativada em 2003. Elas estão há tantas gerações fincadas na terra que os mais novos guardam as lembranças remotas dos mais velhos sobre as chegadas das locomotivas e do asfalto. Alguns(as) se estabeleceram no local no início do século XX para trabalhar na produção do açúcar. Outros(as), há mais tempo. Ali, comunidades se consolidaram com o passar dos anos: Fervedouro, Barro Branco, Jaqueira, Laranjeiras, Guerra, Várzea Velha e Caixa D’Água. De suas roças saem os frutos que ajudam a alimentar a população de Jaqueira e de municípios

Famílias agricultoras posseiras de Jaqueira realizam protesto na cidade - agosto de 2021.

vizinhos. Macaxeira, milho, inhame, feijão, banana e toda a sorte de frutos. Na pandemia e em meio à fome e à insegurança alimentar, que atingem mais de 116,8 milhões de pessoas no país, a agricultura camponesa adquiriu maior força e significado, ainda mais na Zona da Mata pernambucana, que detém alguns dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do estado. Mas em vez de celebrarem a fartura nas lavouras, famílias como a de dona Maria assistem à sua destruição. Nessa região, sítios inteiros e dezenas de hectares de lavoura vêm sendo colocados abaixo em nome do latifúndio. A violência no campo não faz quarentena. As raízes da violência – No início do século XXI, a decadência do setor sucroalcooleiro e o acú-

mulo de dívidas milionárias resultaram no fechamento da Frei Caneca, que paralisou suas atividades sem cumprir com obrigações legais e trabalhistas. As famílias agricultoras credoras permaneceram nos sítios e iniciaram a luta pela regularização de suas posses. Contudo, há cerca de seis anos, as terras da Usina passaram a ser arrendadas e, mais recentemente, arrematadas em leilões por empresas do ramo da pecuária. O povo que resistiu outrora às opressões do monocultivo da cana-de-açúcar passou a ser alvo das violências promovidas por novos empreendimentos pecuários. Desde então, ataques vêm sendo relatados constantemente pelas famílias a órgãos de governo, como a Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos.


Mas não bastasse as agressões do latifúndio, os camponeses e camponesas também se defrontam com representantes do Estado que respondem às suas reivindicações com mais violência, como tentativas de despejos irregulares, decisões judiciais injustas e criminalizações. Adriano de Andrade, da Associação de Moradores(as) da Comunidade do Engenho Fervedouro de Jaqueira/PE e Engenhos Circunvizinhos, reafirma: a luta das comunidades é pelo fim da violência e pelo reconhecimento do direito de continuarem produzindo alimentos nas terras em que vivem há gerações, com paz e dignidade. Elas também cobram o pagamento das dívidas da Frei Caneca, que, acumuladas, ultrapassam R$ 345 milhões, segundo a Fazenda Nacional e a Estadual. Há ainda pedidos de investigação dos contratos de arrendamento e dos leilões por conterem indícios de irregularidade e tentativas de livrar os imóveis das dívidas fiscais e trabalhistas. As terras da Frei Caneca correspondem a 60% de todo o território do município de Jaqueira.

Famílias agricultoras posseiras de Jaqueira realizam protesto na cidade - agosto de 2021.

Agricultoras Familiares do Estado de Pernambuco (Fetape), Diocese de Palmares, Arquidiocese de Olinda e Recife, Sindicato dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Sintraf), além de outras entidades nacionais e internacionais. O alvorecer da resistência e as lições aprendidas - O cenário desolador, composto de camponeses(as) ameaçados(as) e lavouras destruídas, deu lugar à indignação e à resistência organizada. Em meio aos conflitos, as famílias decidiram participar de espaços coletivos de articulação e de reflexão sobre a violência à que estão submetidas. Diante da situação vivida, surgiu a pergunta: “quais estratégias de resistência coletiva podem fortalecer a nossa luta e proteger a terra e a vida? A resposta veio da organização e da solidariedade camponesa. O povo levantou a sua voz e

O conflito vem sendo acompanhado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e

Plantação destruída, Jaqueira/PE - agosto de 2021.

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Conselho editorial Dênis Venceslau José Carlos Lima Lara Tapety Nilton Júnior Renata Albuquerque Vanúbia Martins

está se fazendo ouvir, ocupando as ruas, denunciando cada injustiça e cobrando do Estado a efetivação de seus direitos. “Apesar de viverem em comunidades diferentes, essas famílias partilham os mesmos desafios, as mesmas dores e esperanças. Juntas, têm mais força para cobrar do governo as medidas para solucionar os conflitos”, destaca Geovani Leão, agente pastoral da CPT na Mata Sul do estado. A camponesa Jucilene Maria*, da comunidade do Engenho Barro Branco, fala o que vem aprendendo nessa caminhada: “é uma aliança para a gente batalhar, conquistar as nossas vitórias. Muitas vezes, uma comunidade está com dificuldades, mas uma dá força para a outra. Essa articulação nos fortalece, dá mais coragem para continuar a luta, ir em frente”. Acompanhado da utopia, o povo do campo caminha para romper a engrenagem de um dos mais complexos conflitos agrários do estado na atualidade. E um dos mais graves e violentos das últimas décadas. Como diz a música: “a liberdade é coisa tão bela, mais bonito é seu praticar. A gente sabe que ela é da gente, quando os outros tomam, a gente vai buscar”. *Nomes modificados a pedido dos/as entrevistados/as, por receio de perseguições e retaliações.

Edição: Setor de comunicação CPT NE2 Fotografia: Equipe CPT Mata Sul/PE Jornalistas responsáveis: Lara Tapety (Reg. Prof. 0001340/AL) / Renata Albuquerque (Reg. Prof. 0007209/PE)

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