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ISSN 2447-813X

REVISTA MINEIRA DE

ENGENHARIA REVISTA DA SME - SOCIEDADE MINEIRA DE ENGENHEIROS

ANO 9 | EDIÇÃO 41 | JUNHO • DEZEMBRO/2019

Engenheiro do Ano

Ricardo Sena é o maestro da reestruturação que recoloca o grupo Andrade Gutierrez entre os grandes da engenharia mundial. Celular 5G

O novo salto da telefonia - pág. 6

Queijos e Vinhos

A nova riqueza de Minas - pág. 18

Debates

SME de olho na realidade - pág. 35


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Palavra do Presidente

2019, o ano da renovação Ronaldo Gusmão – Presidente da SME

Também discutimos temas propositivos, como a corrida tecnológica; o desenvolvimento e a engenharia; e a importância do aumento da produtividade para a retomada do crescimento econômico. Participamos ativamente da discussão sobre para a retomada do transporte ferroviário em nosso estado, apoiando o Ministério Público Federal e a Assembleia Legislativa na formulação de políticas públicas para nossa malha ferroviária. Mas o programa de privatização do governo, em especial o da Cemig, foi que exaltou os ânimos nos debates, por ser uma empresa de engenharia que foi fundado pelo engenheiro Lucas Lopes a pedido do então governador JK. Mas, os debates só começaram. Vamos apresentar soluções e subsidiar os deputados estaduais com conhecimentos sólidos para a formulação de uma proposta de desenvolvimento para o nosso estado.

N

este ano, a SME completou 88 anos, cheia de vitalidade e renovação; renovação nas práticas associativistas, na cooperação e na conexão de três gerações; na vitalidade pela qualidade e participação nas dezenas de debates e encontros realizados na entidade.

O ano começou com o estado de Minas Gerais sob nova direção, com a apresentação sobre a “Situação Financeira em Minas e seus Reflexos em Belo Horizonte”, o “Programa do Governo de Minas Gerais para os Transportes e Obras Públicas”, o “Plano de Investimentos da Codemig” e, em seguida, o “Desafio da Gestão Ambiental Moderna”. A tragédia de Brumadinho foi assunto de diversos debates na entidade e culminou com a realização do seminário “Engenharia e Governança Ambiental”, que nos mostrou como a engenharia tem sido relegada a segundo plano pela gestão das empresas. Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

Em 2020 estaremos mais atentos e muito mais aguerridos na defesa de uma engenharia forte como suporte para a sustentabilidade de Minas Gerais e do Brasil. Os sinais da retomada já começam a aparecer. Em 2015 o Brasil perdeu 17.771 postos de trabalhos de engenheiros; em 2016 foram 17.885 perdidos; em 2017 foram 8.895 e, em 2018, foram 1.928; de janeiro a outubro de 2019 chegamos ao menor patamar: 283. Mas a melhor notícia é que, depois de 52 meses com perdas de empregos, estamos no quarto mês seguido com saldo positivo. Isso sim é uma notícia para ser comemorada. Mas a melhor noticia será quando recuperamos os 46.762 empregos perdidos nestes anos todos e conseguirmos também empregar os mais de 400 mil formados que não estão trabalhando como engenheiros. Tudo isso só será possível com a participação efetiva dos nossos colegas engenheiros, arquitetos e agrônomos. A razão de uma entidade são seus associados pensando e agindo coletivamente para o bem da sociedade. 2020, o ano da retomada do desenvolvimento sustentável.

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Sumário 6​ Entrevista

O futuro já faz parte do presente e pode ser mais inteligente do que jamais imaginamos

10​ Ponto e Contraponto CEMIG, privatizar ou não?

12 Matéria De Capa Engenheiro do ano 16 Atividades SME Gestão Ambiental é tema na SME

18 Agrotecnologia

34 Jovem Engenheiro

Paixão e comprometimento fazem toda diferença na hora de produzir um bom queijo

André Henrique Marinho Mattioli

22 Para Relaxar

35 Eventos SME

Um convite ao enoturismo

26 Turismo em Minas

54 Homenagem

29 Inventividade

55 Rodrigo Coutinho

32 Mestres Da Engenharia

57 Artigo

Menor basílica católica do mundo

Histórias Das Ferrovias

Otávio de Avelar Esteves

Jornalista Responsável Lígia de Matos MG 12.054 JP Projeto Gráfico / Design Lucas Oriel lucas@lucasoriel.com

Redação Lígia de Matos Viviane Wehdorn

www.sme.org.br . (31) 3292-3962

Departamento Comercial Fabiola Veríssimo Mirani Silva marketing@sme.org.br Tel. (31) 3292 3810 Tiragem impressa 10 mil exemplares Edição Eletrônica 45 mil contatos

/sociedademineiradeengenheiros

Distribuição Nacional - Gratuita Publicação | SME Sociedade Mineira de Engenheiros Rua dos Timbiras, 1514. Lourdes - Belo Horizonte - MG. CEP:. 30.140-061

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Declaração de utilidade pública pela Lei 1313, de 14/11/1955 do Governo do Estado de Minas Gerais e 2034, de 28/12/1971, da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte - Rua Timbiras, 1514 ‒ Bairro Lourdes ‒ CEP:30.140-061 ‒ Belo Horizonte ‒ Minas Gerais - sme@sme.org.br - www.sme.org.br

Publicação:


Editorial A

41ª edição da Revista Mineira de Engenharia dedica sua matÊria de capa ao Engenheiro Ricardo Sena. Nascido em 04 de março de 1948, Ricardo Ê graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, pós-graduado em Administração Financeira pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro – FGV e, desde julho de 2015, Ê presidente da Holding Andrade Gutierrez S.A. e presidente do Conselho de Administração do Grupo AG. Sob sua liderança a AG recuperou sua posição como uma das mais importantes companhias multinacionais brasileiras de engenharia. Por sua trajetória de resultados, Ricardo Sena foi eleito Engenheiro do Ano 2019. Nesta edição entrevistamos o Prof. Dr. Luciano Leonel Mendes, Coordenador de Pesquisa do centro de Referência em Radiocomunicaçþes do Instituto Nacional de Telecomunicaçþes – INATEL e coordenador da Comissão de Pesquisa e Casos de Uso do Projeto 5G Brasil. Na entrevista, Luciano aponta um futuro breve de novos serviços jamais vistos em uma rede sem fio e destaca novas aplicaçþes que viabilizarão o controle de objetos reais e virtuais atravÊs de dispositivos móveis e a integração das redes 5G com a Internet das Coisas (IoT). Com otimismo no futuro, registramos os debates e eventos realizados pela Sociedade Mineira de Engenheiros – SME em 2019, dentre eles o Ponto e Contraponto sobre a proposta de privatização da CEMIG, o novo modelo de licenciamento ambiental apresentado pelo Secretårio de

Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentåvel, Germano Vieira, e importantes debates de amplo interesse público sobre governança no setor de mineração, renovação antecipada dos contratos de concessão de ferrovias, os investimentos da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais – Codemge, a retomada das obras do Laboratório de Pesquisa e Inovação do Sistema ElÊtrico (que estava em construção em Itajubå) e as açþes em prol da população adotadas por empresas públicas como Sudecap e Prodemge. Na seção dedicada ao lazer, à gastronomia e ao turismo (sem perder o elo com a engenharia) destacamos: a produção de excelentes vinhos em Minas - o Santuårio Nossa Senhora da Piedade, em CaetÊ - e, em especial, os queijos mineiros premiados no Mondial du Fromage, maior concurso mundial de queijos. Em reconhecimento aos olhares de otimismos e às açþes de coragem e inovação que caracterizam os perfis dos homenageados desta edição, tomo aqui a liberdade de dedicar esta edição ao nosso querido e saudoso Presidente Rodrigo Coutinho, que nos deixou sua energia, vibração e confiança na importância e responsabilidade da SME e da engenharia para a construção de uma sociedade melhor. Assim, desejamos aos nossos leitores, neste momento de festas, confraternização, esperança e de construção de um grande futuro, uma ótima e prazerosa leitura..

Krisdany Cavalcante



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Entrevista

O futuro já faz parte do presente e pode ser mais inteligente do que jamais imaginamos Lígia de Matos

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5G é o próximo passo evolutivo para a banda larga sem fio. Sua missão é elevar, e muito, as potencialidades da rede atual, conhecida como 4G, alçando a banda larga móvel a altíssimos padrões de velocidade de conexão e de usuários simultâneos. As redes 5G vêm sendo desenvolvidas para comportar o crescente volume de informações trocado diariamente por bilhões de dispositivos sem fio espalhados mundialmente e prometem aos seus futuros usuários uma cobertura mais ampla e eficiente, maiores transferências de dados, além de um número significativamente maior de conexões simultâneas. As redes da 4ª geração, utilizadas atualmente em algumas regiões do Brasil, são capazes de entregar uma velocidade média de conexão de, aproximadamente, 33 Mbps. Estima-se que o 5G será capaz de entregar velocidades 50 a 100 vezes maiores, podendo alcançar até 10 Gbps.

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Tecnologia 5G. Foto: Freepik.com

Para compreender melhor este assunto, a Revista Mineira de Engenharia entrevistou o doutor e professor Luciano Leonel Mendes, Coordenador de Pesquisa do Centro de Referência em Radiocomunicações do Inatel (Instituto Nacional de Telecomunicações). Doutor em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), atua como professor no Inatel nos cursos de graduação e pós-graduação e já ocupou os cargos de gerente técnico do Laboratório de Desenvolvimento de Hardware e Coordenador do Curso de Mestrado de Telecomunicações. Entre 2013 e 2015, executou um projeto de pós-doutorado, com o apoio do CNPq, na Vodafone Chair Mobile Communications Systems, localizada na Technische Universität em Dresden (Alemanha), na área de esquemas de modulação digital para a quinta geração de redes móveis celulares. Hoje, ele coordena as atividades de pesquisa do Centro de Referência em Radiocomunicações Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


Entrevista sociedade conectada, permitindo a integração de sistemas e objetos na rede móvel. Isso irá viabilizar as cidades inteligentes e o controle automático de sistemas domésticos, entre outras aplicações. A rede 5G também irá ter um modo de operação de longo alcance, adequado para a cobertura de regiões rurais e remotas. Essa é a chave para o fim da segregação digital que existe entre os campos e as cidades e o início para o verdadeiro acesso universal à informação. As redes 5G para áreas remotas também irão revolucionar os processos agropecuários, com a possibilidade do uso de IoT integrado às fazendas, criando as chamadas smart farms. Essa nova infraestrutura de comunicações irá mudar a forma como a sociedade emprega as redes móveis, consistindo numa verdadeira revolução digital.

O senhor poderia citar alguns serviços, hoje “impossíveis”, que serão viabilizados?

Luciano Leonel Mendes afirma que o papel do Inatel é garantir que as redes 5G de fato atendam as demandas brasileiras em termos de conectividade móvel. Foto: Arquivo Pessoal

(CRR), sendo o responsável pelas pesquisas em 5G neste projeto. Além disso, coordena também a Comissão de Pesquisa e Casos de Uso do Projeto 5G Brasil, hospedado pela Telebrasil.

Frequentemente, analistas sugerem que o lançamento das redes 5G representa um salto nas possibilidades das comunicações mundiais (breakthrough) e não um desenvolvimento incremental, como ocorre na maioria das inovações tecnológicas contemporâneas. O senhor concorda com isso e, resumidamente, quais os princípios técnicos e científicos que possibilitam essa inflexão após a sequência “natural” 2G, 3G e 4G? Concordo plenamente. Da segunda geração até a quarta, nós podemos ver que o desenvolvimento das redes móveis focou apenas no aumento de capacidade em termos de números de usuários e vazão (velocidade de acesso à Internet). As redes 5G irão trazer um aumento de vazão, mas também irão introduzir uma miscelânea de novos serviços jamais vistos em uma rede sem fio. Podemos destacar, por exemplo, as aplicações de baixa latência, que irão viabilizar o controle de objetos reais e virtuais através de dispositivos móveis, permitindo, por exemplo, o controle de maquinário, drones e até mesmo cirurgias à distância. A integração das redes 5G com a Internet das Coisas (IoT) é outra revolução que trará grandes benefícios para a Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

Alguns dos serviços já foram listados na resposta anterior, mas podemos segmentar por modo de operação da rede 5G. O modo de alta vazão irá permitir a transferência de um grande volume de informação, viabilizando, por exemplo, as chamadas holográficas. Essa aplicação já foi demonstrada na EUCNC 2019. O modo de baixa latência irá permitir a integração das redes móveis em sistemas de controle industriais, viabilizando a chamada indústria 4.0. Além disso, sistemas de segurança ativos em carros poderão ser implementados sobre essa tecnologia, onde um veículo poderá comunicar uma situação de emergência para outros veículos de forma instantânea. As redes 5G de longo alcance poderão levar a Internet a regiões hoje desprovidas de cobertura, permitindo que mais pessoas tenham acesso à rede mundial de computadores. E a sua integração com a IoT irá permitir a automação de diversos processos agropecuários, aumentando a produtividade deste importante setor.

Os Estados Unidos depositaram 14 pedidos de patentes decorrentes de achados durante o desenvolvimento da tecnologia 5G, enquanto a China depositou mais de 40. Significa que os Estados Unidos perderam a supremacia científica, tecnológica e técnica na área? A abordagem americana sobre a questão do 5G está sendo diferente daquela empregada na Europa e Ásia. Enquanto a Europa e Ásia fazem uma corrida tecnológica, os EUA disponibilizaram o espectro para que as operadoras o explorem da forma que julgarem mais competitiva e lucrativa. A meu ver, isso mostra que os EUA não estão preocupados com a infraestrutura de telecomunicações, mas sim com as aplicações que podem ser oferecidas sobre esta rede. Observando a história, fica evidente que o verdadeiro valor econômico das redes móveis está nas aplicações, e não na infraestrutura. Então, arrisco dizer que os EUA estão dando liberdade para que as operadoras possam

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Entrevista tirar o máximo proveito das redes móveis de quinta geração e, com isso, fazer um uso mais inovador da nova infraestrutura.

Nessa disputa de gigantes, qual é o papel do Brasil no processo mundial, representado, segundo a mídia, pelo Inatel e Unicamp? O papel do Inatel é garantir que as redes 5G de fato atendam as demandas brasileiras em termos de conectividade móvel. O Inatel vem atuando em sinergia com o governo federal, Anatel e outros atores importantes no cenário das telecomunicações nacionais para propor soluções em áreas que não estão sendo consideradas no exterior. A principal ação gira em torno da criação de uma rede 5G para áreas remotas. O Inatel está capitaneando as ações para propor uma solução definitiva para este problema. Nosso objetivo é que as redes 5G sejam a solução para levar internet a regiões desprovidas. O Inatel lidera tecnicamente um projeto internacional formado por instituições brasileiras e europeias que visa conceber e implementar uma rede 5G que tenha alcance de 50 km e leve 100 Mbps para a borda da célula, ou seja, um alcance de qualidade que é cinco vezes maior do que aquele oferecido pelas redes 4G. Não estou a par de ações efetivas da Unicamp na área de 5G.

“Essa nova infraestrutura de comunicações irá mudar a forma como a sociedade emprega as redes móveis, consistindo numa verdadeira revolução digital” 8

Os principais fabricantes ocidentais de equipamentos e sistemas modernos de comunicações praticamente desapareceram, enquanto a chinesa Huawei tornou-se o segundo maior player (e vendedor) mundial no setor. Isso perdurará por muito tempo? A Huawei investe de forma agressiva no processo de pesquisa e padronização de tecnologias 5G e, portanto, é de se esperar que sua participação neste mercado seja relevante nos próximos anos. Mas é importante salientar que empresas europeias como Nokia e Ericsson também são bastante ativas e devem ter um posicionamento sólido nesta área.

Esse monopólio do fornecimento dos elementos de rede cada vez mais inteligentes pela estatal Huawei poderá facilitar a prática de espionagem, como teme o presidente Trump? Esse é um tema altamente especulativo. A meu ver, esse risco é pequeno, pois essa prática, se comprovada, iria resultar no fim da empresa como fornecedora de tecnologia. Além disso, não acredito que haverá um monopólio no fornecimento de equipamentos para redes 5G. Como mencionei, empresas europeias estão bastante ativas neste setor e certamente terão um bom posicionamento neste mercado. Além disso, o uso de tecnologias de rádio definido por software e de software embarcado permitirão que novas empresas surjam como fornecedores de baixo custo. O próprio Inatel está desenvolvendo uma estação rádio base 4G compatível com a versão 14 do padrão LTE, que já possui o núcleo da rede integrado, que foi totalmente implementado em software. E o custo desta solução é uma fração do custo de equipamentos de fabricantes tradicionais. Soluções como essa apontam para uma maior diversificação na oferta de equipamentos para a infraestrutura de redes móveis.

Recentemente, viralizou nas redes sociais o vídeo de voo e pouso de um dragão virtual em um estádio lotado de beisebol na Coreia do Sul, causando pânico nos torcedores, criado pelas tecnologias 5G e holografia 3D. Essas “realidades” virtuais não trazem riscos de se tornarem instrumentos de agressão entre países ou grupos rivais? Não acredito que isso seja um risco, uma vez que se tratam de projeções em um ambiente controlado. Esses efeitos visuais demandam a instalação de equipamentos Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


Entrevista específicos nos cenários de exibição. Além disso, sistemas de detecção podem ser usados para verificar a veracidade da ameaça, enquanto que equipamentos de monitoramento espectral podem ser empregados para verificar a fonte de sinais não autorizados.

Considerando que, a cada dia, o mundo está mais interconectado com tecnologias que permitem o tráfego de voz, dados e imagem e com mobilidade, qual seria a preocupação com os empregos atuais e a sua migração para outros setores? Toda evolução tecnológica causa pressão em atividades profissionais que são mais operacionais. O acesso mais fácil à informação e o advento de sistemas de inteligência artificial, juntamente com a busca por maior lucratividade, irão resultar na redução do uso de recursos humanos em atividades que puderem ser realizadas com sistemas autônomos. Alguns exemplos são motoristas profissionais de caminhões, táxis e aplicativos, gestores de TI, contadores e até mesmo advogados. Esse é um processo que acontece desde a revolução industrial e a capacitação profissional é a chave para se manter competitivo no mercado de trabalho.

Nosso objetivo é que as redes 5G sejam a solução para levar internet a regiões desprovidas” E quanto aos estudos já iniciados para a tecnologia 6G, os quais incluem as redes de satélite? O que pode nos contar sobre isso? Na verdade, a integração das redes satelitais com as redes móveis é um tópico que já é considerado para as redes 5G. Esse é um processo que já está em andamento Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

e a rede 5G é a primeira versão de rede móvel a levar em consideração a integração com os satélites. Isso irá permitir uma maior facilidade do uso de satélites como solução de escoamento de tráfego em áreas de alta demanda, backhaul para ERBs instaladas em áreas remotas e até mesmo o uso de satélites como ERBs 5G. O sistema 6G ainda é bastante incipiente e as aplicações e requisitos que virão a ser propostos para este novo padrão ainda estão sendo discutidos. Atualmente, a Universidade de Oulu (Finlândia), parceira do Inatel no estudo de redes 5G para áreas remotas, está liderando as discussões em torno das redes 6G. O Brasil também irá entrar nesta discussão em breve, para garantir que as necessidades da nossa sociedade sejam contempladas nesta futura rede sem fio.

E por que não aproveitarmos o momento para saber quais as possibilidades da utilização da tecnologia 7G, onde os humanos poderão de comunicar em todo o mundo com altas taxas de velocidade, qualidade e principalmente velocidade de acesso? A criação de um novo padrão de comunicações móveis é demandada por aplicações e requisitos específicos. No momento, a academia ainda está explorando o que não poderemos fazer com as redes 5G e quais são as suas limitações fundamentais, para então propor especificações para as redes 6G. Segundo este prisma, não é adequado falar em gerações além do 6G, mesmo porque evoluções do 5G poderão superar nossas expectativas em termos de funcionalidade. Por isso, o foco atual da academia é explorar ao máximo as funcionalidades das redes 5G e vislumbrar aplicações que demandem novas especificações daquilo que seria a rede 6G. Isso deverá ocupar os pesquisadores pelos próximos 10 anos, de modo que não deveremos ter discussões sobre gerações superiores ao 5G/6G nos próximos anos.

“Esse é um processo que acontece desde a revolução industrial e a capacitação profissional é a chave para se manter competitivo no mercado de trabalho” 9


Ponto e Contraponto

CEMIG ‒ privatizar ou não privatizar? Marcelo Freitas

Victor Cezarini (esquerda) e Aloisio Vasconcelos (direita): pontos de vista opostos sobre privatização da Cemig. Foto: SME/Divulgação

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ais de cem pessoas lotaram a sede da Sociedade Mineira de Engenheiros (SME), em outubro, para discutir um tema que sempre desperta muita polêmica: a privatização da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). Lá estavam engenheiros, ex-diretores da empresa e representantes do Sindicato Intermunicipal dos Trabalhadores na Indústria Energética de Minas Gerais (Sindieletro), de um lado; de outro, em menor número, defensores da venda da estatal, que, em certos momentos, foram, porém, muito enfáticos nas palmas ao economista Victor Cezarini, assessor da Secretaria de Estado da Fazenda, que foi à SME defender a venda da estatal. Como crítico da privatização, na mesa, estava o engenheiro eletricista Aloisio Vasconcelos, ex-diretor da Cemig e ex-presidente da Centrais Elétricas Brasileiras (Eletrobrás). Ambos apresentaram argumentos claros, tanto na defesa quanto no questionamento da privatização. O clima entre os dois foi amistoso até o exato momento em que Cezarini

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encerrou sua fala de 20 minutos, toda ela centrada em dois pontos básicos: um é de que o Estado precisa se desfazer de seus ativos para resolver a crise fiscal; o outro é de que a Cemig seria muito mais útil ao Estado nas mãos da iniciativa privada do que como empresa pública. Foi no encerramento que ele disse a frase que irritou Aloisio Vasconcelos: “É uma falácia dizer que a Cemig vai sair da mão dos mineiros. A Cemig não é dos mineiros. A Cemig é dos burocratas que comandam o Estado”, afirmou Cezarini. Em resposta, logo em seguida, Aloisio Vasconcelos fez a réplica à fala do assessor da Secretaria de Fazenda: “Dentro da elegância com que me propus a fazer o debate, o tempo todo eu reconheci muito o valor intelectual do dr. Victor e externei isso. Mas agora, vamos discordar profundamente. A última frase sua [“A Cemig pertence aos burocratas que comandam o Estado”] não foi feliz. Isso não bate com a sua inteligência. Vou encerrar aqui para manter o clima pelo menos agradável que a gente vinha mantendo”, afirmou Aloisio Vasconcelos. Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


Ponto e Contraponto

Governo do Estado não tem sinal verde para a venda da Cemig; autorização depende da Assembleia e de referendo. Foto: SME/Divulgação

Eficiência – O eixo central da fala do ex-presidente da Eletrobras foi a defesa da Cemig a partir de sua história e de sua eficiência enquanto empresa de produção de energia. Ele lembrou que a Cemig está presente em 774 municípios mineiros e tem ampla aprovação dos consumidores, conforme pesquisa de opinião por ele citada durante o debate. Vasconcelos ressaltou, ainda, que a empresa investe em eletrificação rural, algo raro entre as concessionárias privadas de energia; tem um corpo técnico altamente qualificado e, do ponto de vista financeiro, não considera que sua venda vá contribuir para a solução da crise fiscal do Estado, que é dono de 17,02% do capital da empresa. Com a venda, por supostos R$ 21 bilhões, como tem sido ventilado como valor da companhia, o Estado receberia cerca de R$ 3,4 bilhões, recurso que, de acordo com Aloisio Vasconcelos, o Estado teria de volta em pouco tempo – dois ou três anos, segundo ele – na forma de dividendos. Outro argumento contrário à desestatização é que, segundo Aloisio Vasconcelos, o futuro controlador não seria da iniciativa privada, mas sim uma estatal da China, da Itália ou da França. Em defesa da venda da empresa, Victor Cezarini argumentou que em função da crise fiscal do Estado, a manutenção da Cemig como estatal iria prejudicar o desenvolvimento de Minas, porque o Estado não teria como aportar os recursos de investimento necessários para atender à demanda por energia, e que são da ordem de R$ 16 bilhões. “O estado não tem um centavo”, lembrou o assessor da secretaria da Fazenda. Segundo ele, tal cenário não aconteceria se a Cemig fosse uma empresa privada. Como exemplo, citou a Centrais Elétricas de Goiás (Celg), que recebeu dos novos donos, privados, aportes de investimento no montante de R$ 2,2 bilhões em apenas três anos. Cezarini apontou também, como fator positivo, a geração de empregos. Segundo ele, Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

o número de funcionários da Celg passou de 7,5 mil antes da privatização, para R$ 9,4 mil após a privatização. O economista apontou, ainda, como argumentos para a venda da empresa, o acesso que o Estado teria a um montante da ordem de US$ 15 trilhões em recursos internacionais que estão sendo aplicados a juros negativos e estão à espera de cenários atraentes onde possam ser aportados. No seu entendimento, a privatização da Cemig abriria as portas para a entrada desses recursos, além de contribuir, para a geração de caixa necessário à solução da crise fiscal do Estado, que tem uma dívida R$ 115 bilhões. Durante o debate, que durou duas horas, Aloisio Vasconcelos e Victor Cezarini protagonizaram outros contrapontos além do que irritou o ex-presidente da Eletrobras. Um deles foi em relação à defesa da excelência do trabalho da Cemig, que Cezarini rebateu apresentando números da Agência Nacional da Energia Elétrica (Aneel). De acordo com ele, outras empresas apresentavam indicadores de qualidade melhores que os da estatal mineira. Mais uma vez ele recorreu à Celg para afirmar, com base em informações da Aneel, que todos os indicadores da empresa goiana melhoraram após a sua privatização. Para ele, é uma falácia a estatal mineira dizer que tem a “melhor energia do Brasil”. Consenso – Pelo menos em um ponto havia consenso entre os dois. Ambos enfatizaram a necessidade de a empresa se ver livre de influências políticas. Aloísio Vasconcelos defendeu que, mesmo estatal, a Cemig passe a ser dirigida apenas por critérios de meritocracia. Para Cezarini, a privatização é o caminho para que a empresa fique livre de influências políticas, que, segundo ele, é o fator a impedir que a estatal possa fazer planejamentos de médio e longo prazo, já que, a cada quatro anos, a troca da direção da empresa pode significar mudanças radicais no que vinha sendo pensado até então.

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Matéria Matéria de de Capa Capa

O Engenheiro do ano Engenheiro Ricardo Sena tem, de idade, o mesmo tempo de vida da Andrade Gutierrez, empresa que se reinventou, por meio de programas robustos de compliance, excelência operacional, digitalização de projetos e inovação Foto: Leo Pinheiro/Valor/Agência Globo

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Matéria de Capa

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No Perú, Andrade Gutierrez construiu a rodovia Interoceânica Sul, que liga o Brasil, a partir de Rio Branco, no Acre, ao Oceano Pacífico, em território peruano. Foto: Andrade Gutierrez/Divulgação

engenheiro Ricardo Sena tem, de vida, o mesmo tempo que a Andrade Gutierrez tem de existência: 71 anos. Na Andrade, ele está desde 1981, onde começou como Chefe do Departamento de Orçamento. Na função de Superintendente de Novos Negócios, que passou a exercer a partir de 1993, foi o responsável pela consolidação do portfólio da nova área de operação da empresa, a concessão de serviços públicos de infraestrutura.

O resultado concreto é o faturamento de R$ 4,5 bilhões Hoje, aos 70 anos, a Andrade Gutierrez S/A, um conglomerado de empresas que atua nas áreas de engenharia, concessão de serviços públicos, geração de energia, telecomunicações e saneamento básico; que tem cerca de 50 mil funcionários, já executou mais de 900 projetos e atua hoje no Brasil, América Latina, EUA, Europa e África. Nesses dois últimos continentes, por meio da sua subsidiárias Zagope e Inzag, com sedes em Lisboa e Berlim.

De 2000 a 2013, Ricardo Sena foi presidente executivo e membro do Conselho de Administração da Andrade Gutierrez Concessões S/A, tendo estado à frente de dezenas de projetos no Brasil e na América Latina, em parceria com sócios canadenses, americanos, franceses, portugueses e brasileiros. Em 2013 e 2014 foi membro do Comitê Executivo da Holding do Grupo AG. Desde julho de 2015, Ricardo Sena é presidente da holding Andrade Gutierrez S/A e presidente do Conselho de Administração do Grupo AG.

Por ter conseguido fazer a Andrade Gutierrez dar a volta por cima, ele foi escolhido “Engenheiro do Ano” pela Sociedade Mineira de Engenheiros (SME). De acordo com a entidade, a escolha se deu porque a Andrade Gutierrez soube se manter firme e com êxito no propósito de recuperar a sólida posição que tinha como uma das mais importantes companhias multinacionais brasileiras de engenharia. “Assim, entendemos, neste momento, ser justo este merecido reconhecimento”, afirma o presidente da SME, engenheiro Ronaldo Gusmão.

Nestes cargos, é o timoneiro da volta por cima que a empresa está dando depois de envolvida na Operação Lava Jato, em 2015. Porém, a empresa se reorganizou e deu a volta por cima. Melhorou sua política de compliance, investiu em inovação, na busca da excelência operacional e reduziu ao máximo as operações com o poder público.

Ricardo Sena afirma ter recebido com “muita alegria e satisfação” a notícia de que seria o “Engenheiro do Ano”, prêmio que ele prefere dividir com a equipe que coordena. “Esse prêmio reconhece um trabalho que vem sendo realizado por uma grande equipe de pessoas competentes, que formam a Andrade Gutierrez. O meu mérito é poder

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Matéria de Capa

Na construção a Arena do Amazonas, Andrade Gutierrez aplicou, pela primeira vez a metodologia da Lean Construction, cujo objetivo é a excelência operacional na construção. Foto: Andrade Gutierrez/Divulgação

ter o privilégio de liderar essa equipe e ajudar a alcançar os resultados que estamos alcançando. Ninguém faz nada sozinho”, afirma Ricardo Sena, que se diz particularmente orgulhoso pelo fato de o prêmio ter vindo de uma entidade de engenheiros. “Estamos sendo reconhecidos por pessoas que dividem a mesma paixão que temos pela engenharia e entendem profundamente do negócio que tocamos”. Compliance – A “volta por cima” a que Sena se refere está sustentada em quatro pilares: compliance, excelência operacional, digitalização e inovação: a introdução da política de compliance significou a implantação de uma metodologia transparente de relacionamento entre a empresa e seus clientes, notadamente os da área pública, que acabaram sendo os pivôs da crise que se abateu sobre a empresa a partir de 2015, com a operação Lava Jato. O primeiro ato da política de compliance foi a aprovação, em 2013, do Código de Ética e Conduta e a instalação, no ano seguinte, do comitê responsável por sua aplicação. Em 2015, entrou em vigor uma norma específica da empresa para o relacionamento com o poder público.

“Esse prêmio reconhece um trabalho que vem sendo realizado por uma grande equipe de pessoas competentes, que formam a Andrade Gutierrez. O meu mérito é poder ter o privilégio de liderar essa equipe e ajudar a alcançar os resultados que estamos alcançando. Ninguém faz nada sozinho”

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Assim, quando as primeiras denúncias envolvendo a companhia apareceram, em 2015, a empresa já estava com seu programa de compliance em andamento, inclusive com um canal ativo para o recebimento de denúncias envolvendo a empresa. “A gente já estava nessa jornada de transformação”, explicou, durante seminário sobre inovação realizado em novembro, na SME, o diretor de Planejamento Estratégico da Andrade Gutierrez Engenharia, Guilherme Pinto. Por isso, segundo ele, quando a Lava Jato chegou, a transição para um novo modelo foi rápida. “A gente já sabia o que fazer’, afirmou. Tanto que o primeiro acordo de leniência com o Ministério Público foi assinado já no ano seguinte, em 2016, poucos meses após o surgimento das primeiras denúncias envolvendo a empresa. Em 2017, outro marco da política de compliance foi a certificação da empresa pela ISO 37.600, que normatiza essas regras. Excelência – As primeiras ações da Andrade Gutierrez na busca da excelência operacional foram adotadas em 2010, quando da construção da Arena da Amazônia, um dos estádios utilizados nos jogos da Copa de 2014. Ali, pela primeira vez, a Andrade Gutierrez aplicou a metologia da Lean Construction, uma instituição internacional especializada na implantação de normas de qualidade específicas para a indústria da construção. No Brasil, o Lean Institute está há 20 anos. Em 2012, estas normas foram aplicadas em duas obras industriais e, três anos depois, em 2015, estendidas a todos os canteiros de obras da companhia. Um dos pilares do sistema é o planejamento reverso, no qual as ações são definidas partindo do final da obra até o seu início, com planejamentos para três meses e também para seis semanas, além da realização de reuniões diárias e semanais para avaliação de cada etapa. Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


Matéria de Capa Isso significa, entre outras coisas, a otimização do tempo, por exemplo, na mobilização para o início de obra, que tem ocorrido no prazo recorde de um mês e meio a dois meses, de acordo com Guilherme Pinto. Ele conta que em um dos contratos, o próprio cliente não acreditou que isso ocorreria no tempo previsto, tendo sido, inclusive feitas apostas internas na empresa contratada de que isso não ocorreria. Mas ocorreu. O mesmo esforço concentrado é aplicado na desmobilização do canteiro, para que ocorra sem deixar passivos. “Obras terminam todos os dias”, afirmou Guilherme. Digitalização – A otimização dos processos passa também pela digitalização de todo o processo construtivo, por meio do BIM (Building Information Modeling, na sigla em inglês), um sistema informatizado que integra tanto o projeto de uma obra quanto as várias etapas de seu desenvolvimento que, assim, pode ser acompanhada virtualmente, em tempo real, também nos canteiros de obras. Anteriormente, eram impressas cerca de 2 mil cópias de projetos por mês e, mesmo assim, nem sempre os encarregados trabalhavam com a versão mais atualizada, o que não ocorre hoje. Além da economia de papel, houve a eliminação do retrabalho. “O BIM é um dos pilares desta transformação da empresa”, afirma Guilherme Pinto. Segundo ele, a digitalização permitiu que o encarregado e o mestre de obras passassem a ter uma noção mais clara do estágio em que a obra está, melhorando também a qualidade das reuniões diária e semanal de avaliação do cronograma. Inovação – A Vetor AG é a face da Andrade na área de inovação. Trata se de uma aceleradora de startups por meio da qual a empresa faz chamadas externas e escolhe os projetos que mais se adequam às suas necessidades. Em 2018, foram recebidas 150 inscrições, número que surpreendeu a empresa. Destas, sete foram selecionadas: Construcode, Lesense, Rio, Levitar, Controller, Mapi e Magalhães Gomes. Este ano, o número de startups inscritas subiu para 250, tendo sido selecionadas outras nove: Sunew, 4Mart, Agililean, Laboratório de Soldagem da UFMG, Novidá, Spectrageo, Geoepic, Recrutasimples e SGP. A parceria com a Construcode permitiu, por exemplo, que, com o uso de QR Code, os projetos de engenharia pudessem ser acessados em tempo real nos canteiros de obras. A Magalhães Gomes levou a tecnologia da magnetização da água utilizada na produção do concreto, o que permitiu uma economia de 4% em seu custo de produção. Com a Levitar, a Andrade Gutierrez passou a utilizar drones para fazer o lançamento de cabos-guia de energia em torres de transmissão. O processo reduz custos, mão de obra e riscos, além de contribuir para o meio ambiente, já que não é necessário mais desmatar, como era feito antes. A Mapri levou para a Andrade Gutierrez a tecnologia da automação da medição das obras, com drones e softwares. Por seus projetos na área de inovação, a Andrade Gutierrez recebeu, este ano, o prêmio “Inovação Brasil”, dado pelo jornal “Valor Econômico”. Para Ricardo Sena, o prêmio é o coroamento de um trabalho que vem sendo desenvolvido há pelo menos cinco anos na empresa, que, como ressalta, Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

A operadora de telefonia Oi é um dos braços da Andrade Gutierrez na área de concessões. Foto mostra antenas da operadora na Antartida. Foto: Andrade Gutierrez/Divulgação

praticamente inaugurou a aplicação da inovação no setor de engenharia brasileiro. Otimismo – Ricardo Sena enxerga 2020 com otimismo. “Acredito que já há sinais consistentes de uma possível retomada da economia. Todos os indicadores mostram isso. A bolsa atingiu seu recorde histórico, os juros estão no patamar mais baixo da série histórica, a inflação segue controlada e medidas importantes vem sendo tomadas, como a reforma da previdência”, afirmou. Ele ressalta, porém, que essa retomada não se dará de uma hora para outra, sendo necessário estar atento aos movimentos que estão se dando nas economias de outros países, principalmente aqueles com os quais o Brasil mantém relações econômicas mais fortes. No plano interno, ele defende como prioridade a aprovação das reformas administrativa e tributária. A primeira, ao reduzir o tamanho do Estado, irá, segundo, ele, abrir caminho para que os resultados da reforma tributária possam ser melhor otimizados. Otimista, ele vê sinais positivos de redução do desemprego, com a retomada do varejo e da construção civil, os dois setores que mais geram empregos no país. “Na minha visão, estamos diante de boas perspectivas para o próximo ano. Estou confiante e otimista”, afirmou Ricardo Sena.

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Atividades SME

Gestão Ambiental é tema na SME Viviane Wehdorn Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD) são servidores de carreira. Todos os subsecretários são servidores e buscam fazer o seu melhor”, analisou. A necessidade do uso de tecnologia para a desburocratização do licenciamento ambiental foi um dos temas abordado por Germano na apresentação. Segundo ele há uma confusão entre a diminuição da burocracia e a flexibilização das leis ambientais. Atualmente, a Infraestrutura de Dados Espaciais Zema (IDE-Zema) reúne 300 camadas de informação e qualquer investidor do mundo pode entrar na Internet e verificar a viabilidade de seu empreendimento em Minas. “Você dá previsibilidade ao investimento. Inclusive o processo chega para o analista ambiental mais preparado, mais robusto, porque muitas das análises já estavam antecipadas, assim como os cenários na IDE. Isso, obviamente, traz uma agilidade. Isso é desburocratização, não é flexibilização do processo”, esclareceu o secretário. Germano Vieira, Secretário de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Foto: Divulgação

O atual cenário...

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Secretário de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Germano Vieira, participou de um debate realizado na Sociedade Mineira de Engenheiros (SME). O tema do evento foi “O Desafio da Gestão Ambiental Moderna” e tratou de temas relevantes, como o uso de novas tecnologias para agilizar os processos de licenciamento e o aumento nos critérios de fiscalização de barragens. Também participaram do evento o Secretário-Adjunto, Anderson Aguilar, e o Diretor de Estratégia, Daniel dos Santos Gonçalves. Germano Vieira iniciou a apresentação falando sobre o papel da mídia na gestão ambiental e da necessidade de resgatar a confiança entre todos os agentes envolvidos neste processo. “Nós temos o desafio da repactuação da confiança: a confiança com a sociedade de que, dentro dos órgãos públicos, tem gente séria trabalhando. Repactuar a confiança com o Ministério Público, colocando as informações em seus devidos lugares, repactuar a confiança com os deputados, que têm que auxiliar a estruturação dos órgãos ambientais e repactuar com a sociedade civil e deles entre eles mesmos”, explicou. Para o Secretário, um ponto importante pra essa repactuação é o fato da ascensão de servidores de carreira para cargos de chefia, pois, independente do partido político que esteja no governo, a lisura nos processos é mantida. “Hoje, nas quatro entidades todos os chefes da Secretaria de Meio

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O diretor de estratégia Daniel Gonçalves ratificou a fala do secretário e complementou dizendo que, para que a desburocratização aconteça de forma segura é necessário investir em outras áreas. “Para trabalharmos com licenciamentos ambientais mais simplificados temos que fortalecer outras cearas: a parte de avaliação ambiental estratégica integrada, a fiscalização, a educação e o trabalho do Ministério Público e poder judiciário também. Esse modelo novo necessita de diversos atores para se tornar efetivo”, avaliou Daniel. Um tema bastante abordado na palestra pelos três participantes foi a Deliberação Normativa do COPAM - DN217, que modificou os critérios do licenciamento ambiental de Minas Gerais. Segundo o Daniel Gonçalves, há uma confusão muito grande em relação à DN217, pois ela permite o licenciamento ambiental simplificado para empreendimentos de baixo impacto, porém, traz maior rigor para empreendimentos de grande impacto. “A população acha que houve uma flexibilização do processo ambiental com perda do rigor técnico para todo tipo de empreendimento, o que não é verdade. A atividade de mineração, que é a mais debatida, não passou por nenhum tipo de flexibilização. No processo antigo tínhamos análises insuficientes em alguns casos, pois não tratava dos critérios locacionais e das peculiaridades de determinado território. Então, com essa mudança, aumentam os números de estudos ambientais verificados pelo órgão e aumenta o rigor técnico”, elucidou o diretor de estratégia. Germano Vieira considera a criação da DN217 um dos processos mais democráticos dos quais já participou, já que envolveram centenas de técnicos, discussões nas câmaras do Conselho Estadual de Política Ambiental (COPAM) e permaneceu em consulta pública para que qualquer cidadão Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


Atividades SME

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Após o encerramento das palestras, a palavra foi aberta ao público. Os palestrantes foram questionados sobre legislação, educação ambiental e geração de energia. Germano Vieira classificou o evento como positivo e ficou feliz ao conversar com o público presente. “Eu saio daqui muito mais otimista do que entrei. É bom ter pessoas para dialogar e nós precisávamos dessa energia’, concluiu o secretário.

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“A atividade de depor rejeitos já havia sido licenciada em 1976. A última licença para essa atividade naquela barragem era de 2007. O que estava sendo licenciado era uma atividade com o potencial poluidor menor, que dava uma classe 4 ao invés da 6, pois era um benefício ambiental. A área seria recuperada logo após”, esclareceu Daniel Gonçalves.

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Sobre a possível perda de rigor no novo processo de licenciamento, o Secretário-Adjunto Anderson Aguilar também validou as colocações do secretário Germano Vieira e do diretor de estratégia Daniel Gonçalves. “Se a gente pegar a linha histórica do licenciamento ambiental no estado de Minas Gerais, houve um aumento dos critérios. Não houve, de forma nenhuma, diminuição. É só olharmos para trás e verificarmos as normas”, completou.

Quando questionado sobre a afirmação de que o estado havia rebaixado o risco da Barragem do Feijão, em Brumadinho, meses antes do desastre, o diretor de estratégia explicou que a licença emitida pela SEMAD em dezembro de 2018 não licenciava o depósito de rejeitos na barragem e sim o seu descomissionamento, que é o processo de retirada dos rejeitos, que possui um risco ambiental mais baixo.

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A engenheira Virgínia Campos, pertencente à Comissão Técnica de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da SME, que também compôs a mesa dos debates, validou a fala do secretário sobre a participação popular na DN217. “O objeto da construção da DN teve uma participação da sociedade, inclusive com um período do processo em que a minuta ficou disponível para a população contribuir. Quando o processo chegou à câmara normativa recursal, no qual a Sociedade Mineira de Engenheiros tem um assento e eu a represento nesse espaço, nós, da CTMAD da SME, pedimos vista ao processo para que pudéssemos discuti-lo. Não só o discutimos ponto a ponto como, também, recebemos representantes de outros setores da sociedade que quiseram dialogar conosco”, explicou a engenheira.

A DN217 é, constantemente, ligada ao desastre de Brumadinho. Informação que foi veementemente rebatida pelos três representantes da SEMAD. “As pessoas ligam o desastre de Brumadinho à nova legislação, mas todos os desastres ambientais ocorridos em Minas foram licenciados pelo modelo de licenciamento da antiga legislação. Há uma confusão muito grande a esse respeito”, comentou Daniel Gonçalves.

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pudesse opinar a respeito. “Tivemos mais e 600 manifestações de vários cidadãos e cidadãs mineiras. Todas essas análises foram consolidadas e levadas para a câmara própria do COPAM e, durante um mês, se discutiu a deliberação normativa 217, que foi aprovada por unanimidade. E é essa norma tão debatida que hoje é entendida como desmanche da legislação”, lamentou o Secretário.

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Agrotecnologia

Paixão e comprometimento fazem toda diferença na hora de produzir um bom queijo Lígia de Matos

Em Minas Gerais, o queijo reina absoluto. Foto: divulgação

“Em junho, foi realizado na França o Mondial du Fromage, maior concurso mundial de queijos, no Salão do Queijo de Tours; Minas Gerais dominou as premiações em todas as categorias.” 18

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concurso acontece a cada dois anos. Na edição anterior, em junho de 2017, os queijos mineiros foram premiados com 11 medalhas, sendo uma super ouro, sete medalhas de prata e três de bronze, disputando com queijos de 20 países como França, Suíça, Itália, Noruega e Portugal, entre outros. Nesta edição, além dos queijos mineiros, o Brasil foi representado por queijos de outros estados como São Paulo, Goiás, Amazonas etc. Ao todo, o Brasil ganhou 58 medalhas, sendo quatro super ouros (três em Minas), oito ouros (cinco em Minas), 23 pratas (20 em Minas) e 23 bronzes (22 em Minas). Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


Agrotecnologia Queijo. Um dos maiores tesouros da humanidade (e não apenas para os mineiros!) é também um dos produtos alimentares mais conhecidos e antigos da civilização. Acredita-se que os primeiros queijos foram desenvolvidos há mais decinco mil anos por povos da Ásia Central e Oriente Médio. É possível encontrar registros de produção de queijo no século XVIII e, a cada ano, cresce a demanda e também a oferta, tanto dos queijos produzidos por aqui quanto dos importados. Apesar das diferenças no processo de produção, formatos, visual, sabor e até mesmo no tempo de maturação, todos os queijos nascem do mesmo jeito. São o resultado da coagulação do leite - que pode vir da vaca, cabra, búfala ou ovelha - que passa do estado líquido para o sólido. Em temperatura ambiente o leite já começa a se transformar pela oxidação natural e pela ação das bactérias do ar. Algumas dessas bactérias, conhecidas também como lactobacilos, gostam do açúcar do leite e o acidificam, transformando a lactose em ácido láctico. Seu gosto fica mais azedo e o aspecto se transforma. A mágica começa a partir daí: ao leite acidificado é adicionada uma substância coagulante. Em outros tempos, essa substância era uma enzima encontrada em um dos estômagos dos animais ruminantes. Hoje, o produtor encontra alguns tipos de enzima purificada à venda, como a renina; plantas, como a flor do cardo ou a alcachofra-brava também funcionam como coalhos naturais. Um bom queijo nasce da manipulação cuidadosa do leite animal. Fatores como boa alimentação, higiene na hora da ordenha e cuidado com a saúde das fêmeas produtoras do leite são fundamentais.

Queijos que valem ouro

Em junho, foi realizado na França o Mondial du Fromage, maior concurso mundial de queijos, no Salão do Queijo de Tours. Minas Gerais dominou as premiações em todas as categorias. O concurso acontece a cada dois anos. Na edição anterior, em junho de 2017, os queijos mineiros foram premiados com 11 medalhas, sendo uma super ouro, sete medalhas de prata e três de bronze, disputando com queijos de 20 países como França, Suíça, Itália, Noruega e Portugal, entre outros. Nesta edição, além dos queijos mineiros, o Brasil foi representado por queijos de outros estados como São Paulo, Goiás, Amazonas etc. Ao todo, o Brasil ganhou 58 medalhas, sendo quatro super ouros (três em Minas), oito ouros (cinco em Minas), 23 pratas (20 em Minas) e 23 bronzes (22 em Minas).  Além das medalhas, os produtores Queijos Cruzília e Queijo d’Alagoa foram homenageados pela ‘Guilde Internationale des Fromagers’ (ou Grêmio Internacional dos Queijeiros) em função de seu trabalho de vendas de queijos pela internet, investimento em qualidade e contribuição com a economia local, realizado em suas respectivas cidades. Os empresários concederam uma entrevista à Revista Mineira de Engenharia sobre o dia a dia de sua Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

produção, suas histórias de sucesso e os planos para o fim de 2019 e o ano de 2020.

Arte em fazer queijos

A Queijos Cruzília é uma queijaria mineira que transforma diariamente 50 mil litros de leite em cinco ou até seis toneladas de queijos. A empresa produz cinco tipos: Mofo Branco (Brie e Camembert), Mofo Azul (Gorgonzola,

Camembert - O camembert é um dos tipos de queijo produzidos pela Queijos Cruzília. Foto: divulgação

Azul de Minas e Santo Casamenteiro), Massa Crua (Queijo Minas Frescal, Queijo Coalho), Massa Cozida (A Lenda, Dagano, Cruzília 300, Serra da Mantiqueira, Gruyere, Emmental, Gouda, Esférico, Estepe e Minas Padrão) e também Massa Filada (Provolone, Trança e Caccio-Cavalo). Segundo o diretor industrial, Luís Sérgio Medeiros de Almeida, a Cruzília trabalha hoje somente com leite de vaca adquirido na região, de diferentes raças de gado. Ele acredita que a mistura desses leites oriundos de linhagens diversas proporciona um “blend” diferenciado para seus produtos.  “Uma parte de nossa produção é completamente artesanal, principalmente quando o mestre queijeiro, num toque com as mãos, sente a necessidade de mais ou menos mexeduras. A outra parte já é mais industrializada. Vendemos para todo o mercado interno brasileiro e nossos principais consumidores são aqueles que apreciam a qualidade e o sabor dos produtos, com uma tendência gourmetizada”, declara o diretor. A história da Queijos Cruzília tem início em 1948, quando o pai de Luís Sérgio - José Moreira de Almeida - saiu da Serra de Ibitipoca (Zona da Mata) e foi ‘tentar a vida’ em São Paulo, com apenas 19 anos. Dentro do Mercadão, ele identificou um local comercialmente estratégico, adquiriu uma prateleira de banca de jornal e ali colocou, no lugar das revistas, os queijos. Assim nascia a “Queijos Cruzília”, mas ainda não com esse nome oficialmente. Em 1989, ele se mudou para uma fazenda na cidade de Cruzília e ali construiu uma pequena queijaria para aproveitar o leite que produzia. 

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Agrotecnologia A empresa nasceu em 2009 e Osvaldo relembra cada etapa nos mínimos detalhes. “Minha mãe pediu pra eu fazer uma visita na casa do Sô Batistinha e Dona Chica e, chegando lá, eu perguntei a eles como estavam as coisas e soube que não iam bem. Uma pessoa ia lá comprar os queijos, pagava um preço irrisório e ainda dava cheque para 40 dias. Voltei para casa e fiquei pensando em fazer algo pra mudar aquela situação. Foi daí que, por Deus, escutei uma voz: venda queijos pela internet! Pensei: Meu Deus, estou ficando louco? E a voz repetiu: venda queijos pela internet. E assim nasceu a Queijo d’Alagoa-MG, pioneira na venda de queijos pela internet”.

Um pedaço da história - José Moreira de Almeida em seu pequeno estande no mercadão de SP, em 1952. Foto: Arquivo pessoal

Luís Sérgio e seus sócios e irmãos, Carlos Almeida e Kátia Almeida, são a segunda geração da queijaria e todos praticamente nasceram dentro do balcão de um empório vendendo queijos. “Meus estudos sempre foram voltados para as Artes, principalmente música, pois estudei muitos anos violoncelo. Já meu irmão Carlos sempre teve a vocação do vendedor. Vendia de tudo. Quando crianças, às vezes precisávamos de algum dinheirinho rápido e era só entregar qualquer coisa em sua mão que ele vendia. Assim foi e é a segunda geração da Queijos Cruzília: eu criando os produtos e o Carlos vendendo”, relembra. E sobre o futuro, Luís Sérgio tem grandes planos. “Sempre fui envolvido com arte, acho que isso pode ser um bom diferencial em relação aos nossos concorrentes. Desde o início deste ano estamos em um projeto franco-brasileiro com a empresa francesa La Maison Mons e temos a previsão de, em meados de 2020, lançar no mercado nacional queijos brasileiros com maturações francesas”.

Caixinha de felicidade

Qualidade, cuidado e respeito pelo produto são a tônica da Queijo d’Alagoa-MG, empresa pioneira na venda de queijos pela internet. Seu mercado consumidor engloba São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, incluindo revendas em algumas cidades do interior de SP e RJ, bem como em algumas capitais do Centro-Oeste e Nordeste. O foco principal é atender amantes da alta gastronomia e internautas que apreciam vinhos e cervejas especiais, bebidas que harmonizam perfeitamente com os queijos produzidos. “Nossa especialidade é o Queijo Artesanal Alagoa, produzido com leite de gado girolando, predominantemente. Temos em diversos tamanhos e estágios de maturação. A começar pelo Alagoinha, um queijinho de 500 gramas bem macio e saboroso, Queijo Alagoa Pequena, Queijo do Sô Batistinha, Queijo Alagoa Grande, Queijo Faixa Dourada, Queijo Mantiqueira Real, Queijo do Coronel e o Gran Alagoa. Para comemorar os 10 anos, estamos lançando o Alagoa Fumacê (defumado), o Barista d’Alagoa-MG (maturado com café especial) e também o Alagoa Rubi (maturado com vinho)”, descreve Osvaldo Filho, sócio e proprietário da Queijo d’ Alagoa.

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Um pedaço da história - José Moreira de Almeida em seu pequeno estande no mercadão de SP, em 1952. Foto: Arquivo pessoal

Hoje, o Sô Batistinha, produtor parceiro da Queijo d’Alagoa-MG, produz sete queijos por dia com seu filho Rafael; e o Sô Márcio, outro produtor parceiro, produz uma média de 40 peças por dia junto com a esposa Dona Dirce e seus filhos Caik e Luan. Segundo Osvaldo Filho, é o contrato da empresa que mantém aberta a agência dos Correios em Alagoa. A produção, como já descrita, é totalmente artesanal. Não utiliza corantes ou conservantes, tem baixa escala, mas seu diferencial é o terroir. Os fatores ambientais somados ao caráter humano, história, tradição e o saber fazer é o que conferem singularidade a seus queijos. Para o proprietário, sua diferença em relação à concorrência é a bênção de Deus, pois eles saíram na frente. “Abrimos um caminho no e-commerce e nos tornamos referência no setor. Cada região de Minas tem sua característica e imprime particularidades a seus queijos. O nosso é levemente salgado, intenso e persistente na boca e vai muito bem embalado e dentro da caixinha-de-felicidade. Temos uma presença descontraída nas redes sociais. Creio que é a soma de tudo isso que nos diferencia dos demais”. Sobre projetos e novidades para 2019/2020, Osvaldo Filho comemora a compra de uma propriedade rural de 11 hectares em uma altitude de 1.600 metros na região. O objetivo é que no início do próximo ano já exista uma pequena produção do Queijo do Osvaldinho. Dois silos antigos, que existem hoje no local e estão Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


Agrotecnologia desativados, serão transformados em caves de maturação. “Será um atrativo a mais para nossos clientes que vêm até aqui para fazer a Rota do Queijo e do Azeite”, antecipa o empresário.

Especialista no assunto

Eduardo Girão é estudioso e especialista em queijos mineiros. Foto: Alexandre Guzanshe/Divulgação

Desde 2016, o jornalista gastronômico Eduardo Tristão Girão promove degustações de queijos artesanais mineiros e presta consultorias sobre o assunto, além de atuar como palestrante e jurado de concursos como o Prêmio Queijo Brasil e o Mundial do Queijo do Brasil. Ele já foi premiado com a Medalha do Dia do Estado de Minas Gerais e o troféu Eduardo Frieiro, além de ter atuado como repórter do jornal Estado de Minas e colaborador do jornal Estado de S. Paulo e as revistas Prazeres da Mesa e Gula. Girão já avaliou bares e restaurantes para o Guia Unibanco Minas Gerais (editora Bei) e participou de votações da lista anual The World’s 50 Best. Fez diversas viagens gastronômicas pelo Brasil e para países como Portugal, França, Espanha e Chile e participou de festivais como o de Gastronomia de Tiradentes, Festival Fartura, Festival do Queijo Minas Artesanal, Casa Cor e Minas Láctea. “Enxergo Minas como um conjunto. São diferentes regiões, com diferentes queijos, formando um painel gastronômico, cultural e histórico muito variado. Isso faz do estado um território incrível para o queijo no Brasil, pois temos tradição, qualidade e diversidade. Não fôssemos enxergados assim, não teríamos o mesmo reconhecimento em se tratando de queijo. Entretanto, é possível perceber regiões emergentes em meio a outras já consolidadas (como a Serra da Canastra) e uma delas é a de Diamantina. Produtores locais têm queijos de ótima qualidade, produzidos em terras altas e frias, o que favorece o desenvolvimento de massa mais cremosa. Eles têm se organizado Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

para pleitear reconhecimento legal como região produtora de Queijo Minas Artesanal e têm organizado eventos para promover as riquezas locais que produzem, o que inclui também vinho e cerveja. Eis uma região a ser melhor explorada em vários sentidos”. Sobre sua introdução ao estudo dos queijos, o jornalista conta que trabalha na área gastronômica há 15 anos, na maior parte dentro do jornal Estado de Minas, e os queijos, ainda que com frequência bem menor que a atual, sempre fizeram parte de sua pauta. “Nos meus últimos anos lá, naturalmente passei a me interessar cada vez mais pelos nossos queijos, visto que a oferta de queijos artesanais mineiros de alta qualidade no mercado da cidade vinha aumentando. Isso chamou minha atenção e comecei a experimentar esses queijos, querer saber mais sobre eles, entrevistar os produtores, visitar queijarias e publicar posts no Instagram. Os queijos foram aparecendo cada vez mais nas minhas publicações e percebi que o público tinha grande interesse pelo assunto. A convite de uma amiga, montei três anos atrás uma degustação desses queijos aberta ao público, permitindo que pudessem ser degustados e melhor entendidos. Na mesma época, decidi sair do jornal e, assim, começou a minha história com os queijos de Minas Gerais”. Ao ser questionado sobre os melhores exemplares hoje produzidos no estado ou mesmo a região mais promissora, sua resposta é bem clara: “é impossível eleger os melhores queijos que produzimos quando produzimos tanto, tão bem e com tanta variedade”. Mas o especialista profere sua opinião embasada nos conhecimentos adquiridos ao longo dos anos de estudos e análises. “Posso dizer um pouco sobre essa variedade, levando em conta onde percebo tipicidade e qualidade. Começo pelo Queijo Minas Artesanal, produzido praticamente no estado inteiro e reconhecido legalmente em sete microrregiões até o momento (Araxá, Campo das Vertentes, Cerrado, Serra da Canastra, Serra do Salitre, Serro e Triângulo). Depois, temos o cabacinha (Vale do Jequitinhonha), os requeijões de corte (branco, com raspa e moreno, sendo esse último tradicional do Leste e Norte do estado), os queijos de Alagoa e da Serra da Mantiqueira, o parmesão artesanal do Vale do Suaçuí, o queijo do reino na Zona da Mata e os queijos de matriz europeia no Sul de Minas. Além disso, há excelentes queijos elaborados com leites de outros animais - cabra, ovelha e búfala - espalhados por todo o estado e também dignos de atenção, embora não agrupados em regiões, como os que foram anteriormente citados. Isso é a riqueza queijeira de Minas”, destaca.

Contatos Queijo d’Alagoa http://www.queijodalagoa.com.br/ Queijos Cruzília http://cruzilia.com.br/

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Para Relaxar

Um convite ao enoturismo visite as vinícolas do Sul de Minas Lígia de Matos

Parreiral da Casa Geraldo. Foto: Divulgação Casa Geraldo

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turismo possui cada vez mais nichos para atender a todo o tipo de viajante; um dos mais prazerosos e bem-sucedidos é o chamado enoturismo. Ele surge a partir do aumento do número de apreciadores de vinho e da vontade de provar diferentes tipos, marcas e rótulos. Os roteiros ao redor do mundo permitem que os visitantes conheçam as plantações de uva, aprendam sobre a forma como os vinhos são produzidos e, muitas vezes, descubram a história das famílias pois, em grande parte dos casos, é um negócio familiar.

A tradição de produzir bebidas alcoólicas a partir da uva chegou ao Brasil junto com os portugueses e passou por um período de proibição, no século XVI, por parte da família real que temia a concorrência com a produção lusitana. Foi com os imigrantes italianos e alemães que o cultivo realmente se desenvolveu a ponto de, hoje, a indústria vitivinícola brasileira ser a quinta maior do Hemisfério Sul. Os roteiros do Sul do país são os mais famosos, mas o

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Sudeste também oferece boas opções. As duas principais regiões vinícolas estão no interior de São Paulo e no Sul de Minas Gerais. Celeiro de produtos de alta qualidade como queijos, café e também aguardente, o Sul do estado possui uma produção vitivinícola interessante em cidades como Andradas, Poços de Caldas, Três Pontas, Andrelândia, Cordislândia, Três Corações e Boa Esperança. Vinícolas como Luiz Porto, Primeira Estrada, ABN despontam neste cenário, assim como Casa Geraldo e Maria Maria. Essas duas últimas abrem suas portas para visitação e mostram ao público toda a riqueza da produção de vinhos em Minas Gerais. Fundada há mais de 30 anos na cidade de Andradas, por imigrantes italianos, a Casa Geraldo é hoje uma das maiores produtoras de uvas da região e uma vinícola importante no estado. Segundo Fábio Silva, representante da Casa Geraldo, a vinícola está aberta à visitação diariamente, em dois horários - 09h e 15h, de segunda a Revista Revista MineiraMineira de Engenharia de Engenharia nº 41 | ////2019 nº 41 | 2019


Para Relaxar sexta-feira e em cinco horários aos sábados e domingos - 10h, 11h, 13h, 14h30 e 15h30. O cronograma do passeio se inicia por uma visita às parreiras de Shiraz e Sauvignon Blanc, seguido da apresentação da moagem, fermentação e produção de espumantes com uma explanação sobre todos os processos e degustação das bebidas direto dos tanques. Depois o grupo vai para a adega, passando pela cantina e acompanhando o engarrafamento enquanto degustam os vinhos de mesa e frisantes, harmonizados com queijos e frios. A parte final é na cave de maturação, onde os visitantes podem experimentar os vinhos secos. O valor é de R$ 22 por pessoa. “Hoje, investimos muito na safra de inverno (conhecida como dupla poda) que consiste na mudança da safra de janeiro para final de julho, período em que nossa uva amadurece em meio a grande estiagem, noites frias e dias nem tanto, dando uma ótima amplitude térmica. Temos apostado nas uvas Syrah, Cabernet, Merlot, Cabernet Franc, Sauvignon Blanc, Moscato, Viognier, Chardonnay e Pinot, entre várias outras em fase de testes. A qualidade de nossas uvas concorre com as principais regiões do mundo. Talvez por isso, estamos ganhando tantos prêmios em nível mundial. Só este ano, já ganhamos 25 medalhas e as principais foram três bronzes na principal avaliação do mundo (Decanter World Wines)”, explica Fábio Silva. O raio de distribuição da Casa Geraldo é de 130 quilômetros ao redor da vinícola, sendo que a única cidade fora desse circuito é Belo Horizonte, por terem uma loja própria na cidade, além do site de compras: casageraldo.com. 

Homenagem às mulheres

Outra importante representante dos vinhos mineiros é a vinícola Maria Maria. A sua origem é em Três Pontas, mas sua plantação fica em Boa Esperança. Tudo começou no ano de 2006, quando Eduardo Junqueira Nogueira Junior, quinta geração de uma tradicional família de cafeicultores do Sul de Minas Gerais, sofreu um ataque cardíaco e precisou repensar seus hábitos alimentares. Na ocasião, seu médico receitou uma taça de vinho por dia para ajudar seu coração. Eduardo então teve a grande ideia de produzir seu próprio vinho e começou a correr atrás desse projeto. Foi nessa época que reencontrou Murillo Albuquerque Regina, o grande pioneiro e desenvolvedor da atividade na região. Murillo apresentou os projetos que estavam se iniciando, a questão da dupla poda ou poda invertida e a viabilidade do projeto se tornou possível. As primeiras mudas foram encomendadas e, no final de 2009, foram plantadas na Fazenda Capetinga, em Três Pontas, no Sul de Minas. Em 2009 foram plantados 5,2 Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

A variedade de uvas da vinícola Maria Maria é um de seus diferenciais. Foto: Maria Maria divulgação

hectares com as variedades Syrah, Cabernet Sauvignon e Sauvignon Blanc. As plantas se desenvolveram bem com destaque para a Syrah, porém a ideia era que o projeto contasse com vinhos tintos, brancos, rosés e espumantes e, em 2011, foram plantadas mais algumas mudas de Sauvignon Blanc e Chardonnay (esta última variedade especificamente para a produção de espumantes). Em 2012 foi realizado mais um plantio de Syrah, devido ao destaque produtivo e qualitativo que as plantas apresentaram na fazenda e, mais recentemente, em novembro de 2016, houve uma nova expansão do parreiral com 7,5 hectares de Syrah e mais 23.500 plantas. O parreiral ocupa hoje 19 hectares, sendo 13,5 de Syrah, 2,1 de Sauvignon Blanc, 2,3 de Chardonnay e 1 de Cabernet Sauvignon. A ideia do nome Maria Maria veio através da amizade de Eduardo com Milton Nascimento, seu conterrâneo. Milton é um grande amigo da família e, sempre que vai a Três Pontas, visita a Fazenda Capetinga. Quando o parreiral estava sendo implantado, Milton brincou com Eduardo: “Eduardinho do céu, você é doido! Nunca ouvi falar em plantar uvas aqui no Sul de Minas”. Desde aquele momento, o nome do projeto foi decidido. Em relação aos nomes dos vinhos, cada um costuma ter o nome de uma mulher, e como na criação de cavalos e

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Para Relaxar gado, a nomeação se dá em ordem alfabética. Por exemplo, na primeira safra, os vinhos se chamaram Agda (Syrah 2013), bisavó de Eduardo; Ada (branco 2013), tia avó de Eduardo e Anne (rosé 2013), sua cunhada. E assim por diante. Na safra 2015 foram dois vinhos: Bel (branco 2015) e Bia (tinto 2015). Em 2016, Cida e Cláudia e, em 2017, Diana e Diva. “As vinhas foram plantadas em Boa Esperança, sobre latossolo vermelho, com alta fertilidade. O clima na região é bem definido com inverno seco e verão chuvoso. A média pluviométrica é de 1.400 mm anuais. Vale salientar que a região tem a cafeicultura como base de sua economia, sendo que o parreiral encontra-se cercado por cafezais. Os primeiros vinhos foram obtidos da safra de 2012 da variedade Syrah e, em 2013, mais três vinhos foram produzidos: tinto e rosé de Syrah e branco de Sauvignon Blanc”, explica Eduardo. Em 2015, mais dois vinhos foram produzidos, um branco e um tinto. O Maria Maria Bia Syrah 2015 e o Maria Maria Bel Sauvignon Blanc 2015. A safra 2015 teve grande destaque em termos de qualidade. O Sauvignon Blanc foi o primeiro vinho a participar de um concurso e logo de cara recebeu uma medalha de bronze com 86 pontos no concurso Decanter World Wine Awards 2017, realizado na Inglaterra. O vinho tinto foi considerado o melhor vinho tinto do Brasil no evento Vini Bra Expo realizado no Rio de Janeiro no mês de agosto de 2017. Os vinhos produzidos em 2016 foram o Maria Maria Sauvignon Blanc 2016 Cida, o Maria Maria Rose 2016 Claudia e o primeiro vinho reserva da vinícola, o Maria Maria Syrah Reserva 2016 Cristina. Em 2017, os vinhos foram o Maria Maria Diva Sauvignon Blanc e o Maria Maria Diana Syrah, em homenagem à matriarca da família. Em 2018, foi lançado o vinho Sauvignon Blanc Elis, em homenagem à cantora ícone de MPB brasileira, Elis Regina. “O nome de nosso espumante, Sous Les Scaliers, se deve ao fato de sua autólise ter sido realizada ‘de baixo de uma escada’’ na Epamig, em Caldas. O espumante é feito 100% de uvas Chardonnay através do processo champenoise, o mesmo utilizado na elaboração dos vinhos Champagne na França. O espumante é do tipo Nature, ou seja, sem adição de açúcares”, comenta o produtor. Para visitar, é preciso fazer um pré-agendamento e o grupo de pessoas terá a oportunidade de fazer um passeio guiado pelo parreiral, com degustação dos vinhos. Segundo Eduardo, grupos com seis ou mais pessoas podem combinar um almoço harmonizado, geralmente realizado aos sábados. Para isso, é preciso fazer contato via redes sociais (Instagram, Facebook), e-mail, telefone ou WhatsApp. Os valores e datas são confirmados caso a caso.

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O nome de nosso espumante, Sous Les Scaliers, se deve ao fato de sua autólise ter sido realizada ‘de baixo de uma escada’’ na Epamig, em Caldas. O espumante é feito 100% de uvas Chardonnay através do processo champenoise, o mesmo utilizado na elaboração dos vinhos Champagne na França. O espumante é do tipo Nature, ou seja, sem adição de açúcares” – Eduardo Junqueira Nogueira Junior

Quem criou a técnica da podadura nos parreirais do Sul de Minas? A engenheira Marita Arêas de Souza Tavares realizou uma pesquisa e descobriu que, segundo a história de Parreiras, cidade do Sul de Minas que hoje tem o nome de Caldas, a cultura dos vinhedos na região para produção de vinhos teve início em 1881. Ela foi trazida pelo então pároco local, Padre João Aristides de Oliveira, irmão de sua avó, quando passavam. Essa prática, trazida de sua terra natal, tinha porém baixa produtividade por falta de seu conhecimento das melhores técnicas no trato das videiras. Até que, certa vez, um burro penetrou em seu vinhedo. Faminto, o quadrúpede deixou em tocos as videiras. Em consequência, sobreveio uma vegetação exuberante e vigorosa, seguida de uma colheita abundante nunca vista. Foi este o resultado do irracional invadir sua propriedade. E gracejava o padre Assunção: — Portanto, a técnica da poda foi inventada por um burro, que certamente era português, como eu!”. Essa história foi relatada à família de Marita em 1946, pelo vigário de Parreiras, Padre João Aristides de Oliveira, quando passavam as férias de julho na cidade, com o objetivo de fazer uso das águas sulfurosas medicinais de Pocinhos do Rio Verde. “Eu tinha apenas sete anos de idade e essa história ficou registrada no livro de memórias de meu pai”, comenta a engenheira.

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Para Relaxar

Enófilo com muito orgulho

“Eu diria que os exemplares mineiros são surpreendentes, pois existe uma máxima no mundo do vinho de que, como o clima temperado é ideal para o seu plantio, este é encontrado entre os paralelos 30º e 50º. Como nosso estado está no 22º, não haveria condições de prosperar. Ao contrário disso, o mercado consumidor e os resultados de diversos concursos mostram exatamente o contrário, pois o nosso vinho do Sul mineiro já é encontrado em cardápios de diversos restaurantes e vem sendo consumido por um público cada vez maior”, declara o especialista. Segundo Francisco, embora o gosto por um vinho tenha uma conotação pessoal de quem está apreciando a bebida, os bons vinhos são aqueles que são reconhecidos pelas suas características visuais, olfativas e gustativas, apresentando uma estrutura e equilíbrio que agradam aos paladares da maioria das pessoas. “Os bons vinhos não costumam apresentar partículas em suspensão ou depositadas ao serem servidos nas taças. Como o aroma do vinho é característico, sua ausência ou a presença de um odor que não é usual significa que não possui a qualidade desejável. Finalmente, no tocante ao paladar, os bons vinhos não costumam deixar um amargor ao serem degustados”, ensina.

Francisco Maia durante uma degustação de vinhos em Mendoza. Foto: Arquivo pessoal

O Engenheiro Civil e advogado Francisco Maia Neto é sócio da Precisão Consultoria e possui diversos livros publicados sobre avaliações, perícias, arbitragem, mediação, mercado imobiliário e construção, com atuação empresarial no ramo imobiliário e agronegócio cafeeiro. Mas sua verdadeira paixão, há mais de 15 anos, é o mundo dos vinhos, com especial predileção pelo enoturismo, sendo fundador das confrarias Amigos do Vinho BH, Sociedade dos Acadêmicos do Vinho e Vinho é Vida! “Não sou enólogo, mas enófilo, ou seja, alguém que tem o vinho como entretenimento, se dedicando a estudá-lo e apreciá-lo”. Sobre as suas predileções, ele é claro em afirmar que gosta muito do Maria Maria, que é uma vinícola que conheceu ainda em sua fase inicial, visitando seus parreirais. Na época, havia chegado de uma viagem à França e se impressionou com o plantio feito em condições similares ao que havia visto no país mais importante para a vitivinicultura mundial. O estudioso afirma que não é um especialista em viticultura (ciência que estuda o cultivo da uva) mas, como cafeicultor, compreende a grande semelhança entre as duas culturas, por seu caráter permanente, que compreende o trato contínuo e a constante vigilância contra as pragas que atacam essas variedades, além da constante atualização, fazendo com que se consiga uma melhor produtividade com qualidade.

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Eu diria que os exemplares mineiros são surpreendentes, pois existe uma máxima no mundo do vinho de que, como o clima temperado é ideal para o seu plantio, este é encontrado entre os paralelos 30º e 50º. Como nosso estado está no 22º, não haveria condições de prosperar. Ao contrário disso, o mercado consumidor e os resultados de diversos concursos mostram exatamente o contrário, pois o nosso vinho do Sul mineiro já é encontrado em cardápios de diversos restaurantes e vem sendo consumido por um público cada vez maior” – Francisco Maia Neto

Contatos: Casa Geraldo http://www.casageraldo.com.br/site/ Maria Maria http://vinhosmariamaria.com.br

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Turismo em Minas

Minas Gerais é o berço da menor basílica católica do mundo Lígia de Matos

O

turismo religioso vem crescendo exponencialmente em Minas Gerais e um de seus marcos mais importantes é a igreja Ermida da Padroeira de Minas Gerais, que integra o complexo arquitetônico do Santuário Nossa Senhora da Piedade em Caeté. Em 15 de dezembro de 2017, ela foi consagrada basílica durante missa celebrada pelo arcebispo Dom Walmor Oliveira de Azevedo e, a partir de então, ganhou notoriedade por ser considerada a menor basílica católica do mundo. Tombada pelo estado, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo município de Caeté, a

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Vista geral de todo Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade, em Caeté. Foto: Arquidiocese de Belo Horizonte

Serra da Piedade é ponto de partida e chegada do Caminho Religioso da Estrada Real (Crer), que liga o santuário da padroeira de Minas a Aparecida (SP). Os visitantes que participam de algum retiro ou de algum evento noturno podem contemplar a iluminação da ermida, que realça sua arquitetura, com 100 lâmpadas de LED. A fama do lugar teria começado entre 1765 e 1767, conforme a tradição oral, com a aparição de Nossa Senhora, com o Menino Jesus nos braços, a uma menina muda de nascimento, cuja família vivia na comunidade de Penha, a seis quilômetros da Serra da Piedade. Naquele momento, a

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Turismo em Minas menina teria recuperado a fala. O episódio tocou o coração do português Antônio da Silva Bracarena, que estava então na colônia para ganhar dinheiro. Ele se converteu e decidiu dedicar sua vida à construção de uma capela no lugar onde ocorrera o milagre. O singelo templo dedicado a Nossa Senhora da Piedade começou a ser erguido em 1767 e, mais tarde, ganhou a imagem esculpida por um jovem de Ouro Preto, depois reconhecido como mestre do Barroco mineiro – Aleijadinho. A consagração de Minas a Nossa Senhora da Piedade ocorreu em 1960, após o papa João XXIII reconhecer que Maria é a padroeira do estado. A construção possui dois pequenos corredores que ladeiam a única nave e que abrigam a Capela do Sagrado Coração de Jesus e a Capela do Santíssimo Sacramento ou de São José. Nelas, situam-se painéis azulejados com pinturas figurativas, datados de 1996, concebidos pela artista plástica Maria Helena Andrés e executados em azulejos por Gianfranco Cavedone Cerri. Segundo dados da Associação Circuito do Ouro, o Santuário da Piedade em Caeté é um local bastante convidativo à oração e ao contato com Deus, rodeado de paisagens belíssimas em meio às montanhas e à vegetação. Do topo da serra é fácil visualizar matas e diversas cidades mineiras, incluindo a capital. A natureza viva do Santuário da Piedade encanta qualquer observador, pois se trata de um grande jardim. Os mais observadores são capazes de admirar a bela inflorescência das orquídeas (Zygopetalum bracpetalum) e das flores popularmente conhecidas como chuva de ouro (Oncidium blanchetti). Como se espera em regiões de serras, as aves são presença garantida no Santuário da Piedade, tanto que uma nova espécie de pássaro já foi descoberta no local: trata-se do belo tapaculo-serrano (Scytalopus petrophilus sp. nov.).

Complexo Arquitetônico

Segundo dados da Arquidiocese de Belo Horizonte, o Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade tem seu acesso asfaltado e toda sua estrutura foi revitalizada para acolher bem os visitantes, com cafeteria, lanchonete, praça de alimentação, restaurante, estacionamento e ainda a Casa dos Peregrinos Dom Silvério, um ambiente especial para orações, meditações e seminários, com moderno projeto arquitetônico. Interligada a ela encontra-se a Cripta São José, que recebe grupos para fazer retiros. Na Cripta, estão sepultados frei Rosário Jofylly e padre Virgílio Resi, personagens importantes na história do Santuário. Faz parte ainda do complexo arquitetônico a Basílica Estadual das Romarias. Sua arquitetura é moderna e apresenta murais de cerâmica, além de um espaço em seu saguão dedicado a mostras e exposições fotográficas. O Caminho das Dores de Maria, referenciado como um verdadeiro

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Basílica. Foto: Associação Circuito do Ouro

“jardim de espiritualidade”, é outra parte do complexo, próprio para os momentos de oração na Casa da Padroeira de Minas Gerais. Ele reúne mosaicos que retratam sete momentos da vida de Maria, narrados na Bíblia. A via contribui para que todos reconheçam o sentido de peregrinar. O Santuário está aberto para visitação durante todos os dias da semana, de 7h às 18h. Os visitantes que desejarem permanecer mais tempo podem se hospedar na Casa dos Peregrinos Dom Silvério. Sua capacidade é de até 38 pessoas. Os visitantes também podem desfrutar da biblioteca do Santuário que possui um rico acervo de obras raras como, por exemplo, a Sources Chrétiennes, com textos em grego e francês, além de exemplares em outros idiomas como italiano, inglês, espanhol. Esse acervo irá integrar o projeto do Centro Cultural João Paulo II, que será construído no Santuário. Já foram catalogados 12 mil livros do conjunto de obras que será disponibilizado para o público. O Santuário oferece duas opções de Via-Sacra para os visitantes que quiserem vivenciar os Passos da Paixão de Cristo. Há um percurso mais longo, na estrada vicinal que dá acesso ao Santuário, e outro mais curto, próximo à Ermida e ao Calvário. Os passos da Paixão de Cristo são representados em um conjunto de 15 painéis azulejados que revestem pilares de alvenaria de pedra. Os pedestais tiveram a disposição concebida pela arquiteta Ana Schmidt, que se serviu do modelo da Via-Sacra existente no Santuário Arquidiocesano de Adoração Perpétua – Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem. Já o percurso curto tem início na Basílica Estadual das Romarias (na Praça Alcides da Rocha Miranda) e vai até a Basílica da Piedade (na Praça Cardeal Mota). Outra atração do local é o Calvário. Diante da fachada frontal da Ermida, é possível avistar suas esculturas, moldadas em ferro nodular, executadas por Vlad Eugen Poenaru, pesando cerca de uma tonelada cada. A escultura é composta, ao centro, por uma grande cruz, à qual se prende a imagem de Cristo, tendo à sua direita a Virgem Maria e à sua esquerda, São João. E para fechar, vale a visita ao Observatório Astronômico Frei Rosário, mantido pela Universidade Federal de Minas Gerais, que oferece aos visitantes equipamentos especiais para conhecer mais de perto a astronomia.

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Turismo em Minas

O que significa ser uma basílica

A celebração para a consagração da Basílica da Piedade incluiu o rito de dedicação do altar da Igreja, que recebeu duas insígnias comuns às basílicas: a Umbela e o Tintinábulo. A Umbela, nas cores vermelho e dourado, que remetem à Basílica São João de Latrão – cátedra do Papa Francisco, protege o Santíssimo Sacramento durante as procissões. Já o Tintinábulo é um campanário portátil, com pequeno sino, que traz ainda o ícone da Padroeira da Basílica, o brasão do Papa ou o do Vaticano. Na religião católica, assim como as catedrais estão ligadas aos bispos e arcebispos, as basílicas têm vínculo direto com o ministério do Papa e, por isso, são consideradas pela Igreja como território internacional, com grande influência nas regiões onde estão inseridas. Normalmente, são grandes edificações, capazes de receber muitos fiéis. Assim, a Ermida da Padroeira tem uma singularidade que a torna ainda mais especial: é a menor basílica católica do mundo. Com os novos títulos, Minas Gerais tem agora 16 basílicas, sendo duas no território da Arquidiocese de BH – a de Nossa Senhora de Lourdes, no Bairro de Lourdes, na Região Centro-Sul, e a de Santo Cura D’Ars, no Bairro Prado, na Região Oeste da capital. Detalhe de uma das belas peças do acervo do Santuário. Foto: Acervo Nossa Senora da Piedadedo

Já o título de Basílica é concedido pelo Papa, após análise da Congregação do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos, do Vaticano. A concessão veio a partir de um pedido de Dom Walmor (arcebispo de Belo Horizonte) e dos bispos mineiros e, em junho de 2017, o arcebispo esteve em Roma levando um documento com as assinaturas dos religiosos e solicitando que a igreja fosse elevada à condição de Basílica. O pedido foi então acolhido pelo Papa Francisco, que conhece a história do santuário e já havia concedido a sua bênção apostólica a todos os peregrinos que visitassem o território sagrado. De origem grega, a palavra deriva de basileus, que significa rei. A partir do século V, cresceu o número dos cristãos e, para receber os fiéis em orações ou celebrações, teve início a construção de grandes templos, aos quais se deram o nome de basílicas. No mundo, são quatro as maiores: as de São Pedro, São Paulo, Santa Maria Maior e São João de Latrão, em Roma (Itália). Todas as demais são chamadas basílicas menores. Hoje, conforme especialistas, o título tem um sentido peculiar, sendo dado a igrejas que preencham alguns requisitos: ter qualidades artísticas e ser centro de concentração religiosa e piedade do povo. Para merecer o reconhecimento, são necessários documento oficial do Papa, sagração, coroação da imagem, entre outros.

Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade Alto da Serra da Piedade s/n Zona Rural Caeté - Minas Gerais Detalhe dos sinos da menor basílica católica do mundo. Foto: Cibele Silva

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http://santuarionossasenhoradapiedade. arquidiocesebh.org.br/

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Inventividade

Inventividade

Histórias das Ferrovias

Lígia de Matos e Marita Tavares

B

em-vindos(as) a uma nova seção da Revista Mineira de Engenharia: Inventividade. Um espaço especial dedicado a invenções e curiosidades que revolucionaram o mundo. A cada nova edição trataremos de um tema de relevância para o progresso da humanidade, seja uma criação que mudou a forma de uma sociedade se relacionar com o meio ou mesmo uma descoberta da Engenharia que possibilitou o desenvolvimento da estrutura econômica atual. O tema de estreia são as ferrovias; como, quando e onde surgiram e qual a sua história. Ferrovia, também chamada de via férrea ou estrada de ferro, é o meio de transporte baseado na locomoção Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

Imagens das primeiras locomotivas inventadas no mundo. Foto: Domínio público

de trens ou comboios sobre trilhos. Relatos históricos indicam que o primeiro indício da ideia surgiu por volta de 1550, em minas na Bélgica, onde havia um vagão de minério com rodas flangeadas de madeira, correndo sobre trilhos também de madeira. O conceito mesmo começa a se formar em 1712, quando dois artesãos da Cornualha inglesa - o serralheiro Newcomen e o vidreiro Calley – constroem uma máquina a vapor para tirar água das minas. Em 1770, o inglês James Watt transformou esta máquina fazendo com que se condensasse o vapor fora do cilindro. Essa se tornou uma nova invenção aplicável a qualquer indústria inclusive, futuramente, à automobilística.

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Inventividade Em 1784, William Murdoch, ex-aprendiz de James Watt, observou que o vapor poderia ser usado para mover as rodas de um veículo e construiu, então, um triciclo a vapor; apesar de ser bem-sucedido, não deu continuidade a seus projetos. Vinte anos mais tarde, em 1804, Richard Trevithick construiu uma máquina a vapor que andava sobre os trilhos de uma linha industrial, em Peny-darren, no País de Gales, e esta é considerada historicamente a primeira locomotiva do mundo. Entre os anos de 1808 e 1838, essas máquinas fantásticas evoluíram muito e inventores da Inglaterra e dos Estados Unidos se interessaram pelo assunto e desencadearam um enorme progresso. Trevithick construiu outra locomotiva (a “catch-me-who-can”), para circular sobre trilhos, em espaço fechado, na cidade de Londres (1808). Fenton & Murray construíram, em 1811, a primeira locomotiva a cremalheira do mundo, para as minas de Middleton (Wisconsin – EUA). Outros inventores, das mais variadas nacionalidades, se interessaram pelas máquinas e também iniciaram suas experiências. Em 1822, com a participação financeira de Edward Pease e de Michael Longridge, proprietário da Fundição de Bedlington, George Stephenson fundou, no dia 23 de junho, a primeira empresa do mundo para construir locomotivas, chamada Robert Stephenson & Co. A primeira locomotiva construída por esta empresa - a “Locomotion” - data de 1825. George Stephenson é, por muitos, considerado o verdadeiro criador da tração a vapor nas estradas de ferro. Ele foi o primeiro a obter resultados concretos com a construção de locomotivas, dando início à era das ferrovias. Sua primeira locomotiva pesava 10 toneladas, puxava cinco vagões e carregava 70 passageiros. O primeiro trecho de ferrovia foi criado em 27 de setembro de 1825, na Inglaterra e, desde então, o meio de transporte se espalhou por todo o mundo. Em 1830, Horatio Allen projetou e a West Point Foundry e construiu a “The best friend of Charleston”. Ela foi a locomotiva que inaugurou a primeira linha regular de passageiros dos Estados Unidos: a South Carolina & Hamburg Railroad. Em 1832, foi inaugurada na Filadélfia, a fábrica de locomotivas Baldwin Locomotive Work, que se transformou na mais importante do mundo. A primeira ferrovia da América Latina foi inaugurada em 19 de novembro de 1837, em Cuba, ligando Havana a Güines. Em 1839, a Itália e a Holanda importaram suas primeiras locomotivas. A Bayard, do tipo “Patentee”, foi a primeira locomotiva a trafegar na Itália, na ferrovia ligando Nápoles a Portici. Foi construída na Inglaterra pela empresa Longridge & Starburch. Já na Holanda, as duas primeiras locomotivas, a “Snelheid” e a “Arend”, também do tipo “Patentee”, foram construídas por Robert Stephenson & Co. Um ano mais tarde, em 1840, a França construiu sua primeira locomotiva, a “Gironde”, para a

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ferrovia Paris-Versailles. O construtor foi Le Creuset. A Bélgica adquiriu sua primeira locomotiva, a “Namur”, em 1845. Foi construída por Tulk & Ley, de Whitehaven, na Inglaterra, para a linha Namur-Liège. A primeira ferrovia da América do Sul foi inaugurada em 1851, no Peru: um trecho de 14 quilômetros, entre Lima e Calero. Um ano depois, em 1852, o Chile inaugurou sua primeira ferrovia, cuja construção teve início em 1849. A primeira linha transcontinental foi inaugurada em 1869, nos Estados Unidos. A linha, ligava Nova York a San Francisco da Califórnia e tinha extensão de 5.300 km. O Japão recebeu sua primeira locomotiva em 1872. Construída na Inglaterra pela Vulcan Foundry, circulava entre Tóquio e Yokohama.

Brasil

Já no Brasil, a história das ferrovias tem início no ano de 1835, quando o regente Feijó sancionou o Decreto 100, autorizando o Governo a conceder carta de privilégios para quem fizesse uma estrada de ferro do Rio de Janeiro (então a capital do país) para as províncias de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia. Entretanto, vários problemas retardaram o surgimento da primeira ferrovia brasileira, que só foi inaugurada oficialmente em 30 de abril de 1854, pelo Imperador Dom Pedro II. Irineu Evangelista de Souza, o Visconde de Mauá, foi o responsável pelo feito, construindo a ferrovia que ligava o porto de Mauá à raiz da Serra de Petrópolis. Com 14,5 km de extensão, a Estrada de Ferro Mauá (inicialmente chamada Imperial Companhia de Navegação a Vapor e Estrada de Ferro Petrópolis) tinha a bitola de 1,676 metro, denominada bitola larga, que era o usual na Europa. Somente a partir de 1869 os projetos de ferrovias foram nacionalizados e adotada a bitola estreita, por ser de construção mais econômica, o que só foi definido após intensos estudos e discussões técnicas. Segundo estes estudos, a bitola estreita permitia velocidade idêntica à bitola larga, e uma redução nas despesas de construção e de custeio de 50 a 53%. Como consequência, o Primeiro Congresso de Estradas de Ferro do Brasil, em 1882 decidiu que a bitola larga seria utilizada apenas nos prolongamentos da Estrada de Ferro D. Pedro II e da Companhia de Estrada de Ferro Paulista, mais conhecida como Paulista. Na época, a construção de estradas de ferro não se justificava com estudos de viabilidade econômica. Muitas delas eram definidas simplesmente pelas safras de café, cada vez maiores, como a D. Pedro II, Santos-Jundiaí, Paulista e Mogiana. Outras, entretanto, eram construídas em regiões pobres e afastadas, onde a carga ou número de passageiros a transportar era pequeno e sofria a concorrência do transporte por tropas de mulas. Mas não tinha como evitar essa situação, porque antes do Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


Inventividade aparecimento dos automóveis as estradas de ferro eram o único meio de transporte terrestre. Segundo o engenheiro e historiador Pedro Carlos da Silva Teles, “é importante observar que, por essa época e até a década de 20, a engenharia ferroviária era a especialidade mais importante, e até quase única da engenharia brasileira. Fazer engenharia no Brasil era, praticamente, sinônimo de projetar, construir ou operar estradas de ferro.” Muitos acontecimentos importantes, como a construção e ampliação de linhas e surgimento de novas companhias, foram registrados a partir de 1884, período de grande desenvolvimento do setor ferroviário até o ano de 1900, quando o Brasil já contava com 15.316 quilômetros de ferrovias. Algumas delas de grande complexidade construtiva, projetadas e construídas por engenheiros brasileiros, como a Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá. A partir de então, o sistema ferroviário cresceu com maior lentidão, sofrendo com as crises do período da Primeira Guerra Mundial e da Revolução de 30, também de ordem administrativa e financeira, apesar de algumas ferrovias serem modelos de organização e eficiência. Porém, muitas das linhas deficitárias não poderiam ser desativadas porque não havia outro sistema de transporte que as substituísse. A Estrada de Ferro D. Pedro II, que desde a proclamação da República passou a se chamar Estrada de Ferro Central do Brasil, continuou sendo a mais importante obra ferroviária no Brasil, com maior extensão, maior movimento e maior renda. Também era a maior empregadora de engenheiros no País e a grande escola de engenharia ferroviária, por onde passaram quase todos os grandes nomes da nossa engenharia. Outras eficientes e prósperas ferrovias eram a Paulista e a Santos-Jundiaí, de administração privada, mas também algumas de administração de governos estaduais, como a Sorocabana, a Viação Férrea e a Rede Sul Mineira. A Paulista era a mais importante ferrovia do Estado de São Paulo, tida como exemplar, modelo de organização, avanço técnico e perfeição de serviços. No passado, além do transporte de passageiros e de cargas, as estradas de ferro tinham um papel muito relevante no sistema de comunicação do País, pelas suas redes telegráficas, inclusive prestando serviços alheios à ferrovia. Também vale lembrar sua enorme influência e benefícios à sociedade. Paralelamente ao desenvolvimento da engenharia ferroviária, veio o grande desenvolvimento de aplicações de estruturas de concreto armado na construção de inúmeras obras de arte necessárias à construção das ferrovias. Também merece destacar o emprego da eletrificação, que teve início na década de 20, em linhas da Paulista, e na década de 30, na Central do Brasil. Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

As últimas locomotivas a vapor foram usadas até meados do século XX e substituídas por novas versões a diesel e elétricas Em 30 de setembro de 1957, através da Lei nº 3.115, foi constituída a Rede Ferroviária Federal que cobria grande parte da rede ferroviária do País, empresa que teve seu encerramento em 1999. Nos dias de hoje, as ferrovias são amplamente utilizadas na Europa e em muitos países desenvolvidos, além de serem empregadas em países muito populosos, como Índia e China. Países da América Latina e África, assim como o Brasil, optaram pelas rodovias ao invés das ferrovias. A falta de investimentos, aliada à prioridade do governo para o transporte rodoviário desde a década de 50, fez com que o modal ferroviário praticamente desaparecesse, considerando que apenas 42% da rede existente acha-se em plena operação, majoritariamente no transporte de minério e grãos. Algumas poucas, ainda utilizadas para suprir pequenos trechos turísticos. Nossa malha ferroviária, que chegou a ter 34.207 quiIômetros de extensão, conta hoje com 30.129, portanto, apenas o dobro do que existia há cerca de 120 anos atrás (cortar palavra), com participação de 15% na matriz de transportes do País. Segundo declarações recentes do Ministro de Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, está nos planos do governo em início de implantação, dobrar essa participação no prazo de 8 anos.

Ferrovias Históricas do Brasil Ferrovia

Data de inauguração

Recife ao São Francisco (PE)

08/02/1858

D. Pedro II – Central do Brasil (RJ)

29/03/1858

Bahia ao São Francisco (BA)

28/06/1860

Santos a Jundiaí (SP)

16/02/1867

Companhia Paulista (SP)

11/08/1872 Fontes de pesquisa:

História da Engenharia no Brasil, de Pedro Carlos da Silva Telles Séculos XVI a XIX e Século XX https://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/ferrovias-no-brasil-historia-dos-trens-no-pais.htm https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/ferrovia.htm http://www.museuhcnaturais.org.br/conteudo/24/ estrada-de-ferro-no-brasil http://svl.com.br/ferrovia.htm

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Mestres da Engenharia

Otávio de Avelar Esteves Uma vida dedicada à Engenharia e ao Magistério Lígia de Matos pesquisa e chegou a se tornar diretor e depois presidente da instituição na década de 80. No início da década de 90, dedicou-se mais profundamente aos estudos sobre as questões que vêm incomodando cientistas, desde a constatação da dualidade onda-partícula da luz, do princípio da incerteza de Heizenberg, dos desdobramentos da Segunda Lei da Termodinâmica, da complexidade inerente da mecânica quântica. “Temas esses que a chamada Ciência Clássica insistia em  não encarar para valer. A partir da segunda metade do Século XX iniciaram-se movimentos nas fronteiras dos conhecimentos, dando contas de que seria preciso alargar o âmbito do que era abordado pela Ciência, movimento que deu origem ao termo ‘novos paradigmas da Ciência’. Este então passou a ser o meu foco dos estudos científicos. Em última análise, tratar dos fundamentos do conhecimento”, declara o professor. 

Otávio de Avelar Esteves. Foto: Arquivo pessoal

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professor e Engenheiro Otávio de Avelar Esteves sempre foi uma homem fascinado pelo desenvolvimento da Ciência e também pelo magistério e percorreu sua carreira unindo essas duas paixões a todo momento. Natural de São João Del Rei, é casado, pai de três filhos e avô de quatro netos. Sua diversão é acompanhar os jogos de futebol, cuidar de sua fazenda, ler bastante, ouvir música e, mais que tudo, bater papo e contar “causos” mineiros.

Otávio de Avelar é formado em Engenharia Elétrica pela UFMG (1974) e fez mestrado em Ciências Técnicas Nucleares, na mesma instituição, no antigo IPR (Instituto de Pesquisas Radioativas), hoje conhecido como CDTN (Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear). Permaneceu no IPR por dois anos e meio e, após esse período, teve a oportunidade de integrar o quadro do Cetec (Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais) como pesquisador. Participou de diversos projetos de

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Foco em energia

“Quanto ao magistério, iniciei ensaios nesse ‘sacerdócio’ (entendo assim) aos 15 anos, enquanto me dedicava ao meu curso científico (era assim que se chamava na época o ensino médio), tentando ajudar estudantes a desenvolverem seu próprio aprendizado sobre matemática, física e química. Já àquela época não acreditava na expressão muito difundida e que considero falaciosa de ‘passar conhecimento’. O entendimento sobre cada assunto é sempre individual e depende da história e dos conhecimentos prévios de cada pessoa, assim como de seu estado de espírito. Portanto, não acreditava que se podia ‘ensinar’. Apenas estimular as observações e as reflexões sobre os temas a serem estudados”, defende o professor. Após muitas experiências em monitorias e salas de aula, se incomodou com o magistério que exercia, em especial, com o número excessivo de aulas que ministrava, o que o afastava dos alunos individualmente e de suas dificuldades particulares. Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


Mestres da Engenharia “Esta conjuntura me induziu a buscar leituras sobre processo cognitivo e, em meu 4º ano de Engenharia, abandonar quase todas as minhas atividades de magistério e solicitar a realização de uma experiência didática com uma única turma de primeiro ano científico, dedicando-me a alunos ainda sem traumas do ensino clássico. Foi uma experiência completamente heterodóxica, em relação ao magistério convencional. Cheguei ao final do ano com uma conclusão contraditória: é possível desmistificar o ensino de Física, mas, infelizmente uma andorinha sozinha não faz verão. Somente eu realizando um trabalho totalmente diferente, criava um sentimento dúbio nos alunos. Era o final do meu quarto ano. Estava muito gratificado, mas impregnado com um desconsolo com o ensino clássico praticado nas escolas em geral”, conta.

à análise, ao projeto, à implantação, à manutenção, à operação e à gestão de sistemas destinados ao suprimento energético e ao uso de energia em atividades socioeconômicas, de forma técnica, econômica, social e ambientalmente sustentável.

No início de seu quinto ano, resolveu mudar seu rumo pois estava estudando para ser Engenheiro e não professor e foi procurar outra atividade, o que o levou a investir em monitorias, as quais se dedicou até a formatura. “Enquanto estava no IPR, o professor de quem tinha sido monitor na UFMG precisou de alguém para assumir na PUC a disciplina de que eu tinha sido monitor. Eu era um professor já experiente, apesar de meus apenas 24 anos de idade. E lá iniciei, em agosto de 1976, uma carreira de 43 anos de magistério na PUC, o que fiz inicialmente em paralelo com o IPR, a seguir com o CETEC e, quando me aposentei neste último (há cerca de 20 anos), me dediquei exclusivamente à Universidade”.

O ápice de minha carreira como professor pode ser considerado o curso de Engenharia de Energia, cujo projeto pedagógico foi considerado pelos próprios avaliadores do MEC como uma referência. Quando criado, o curso apresentava uma estrutura curricular inovadora, baseada em atividades integradoras e foi considerado uma iniciativa audaciosa, pioneira no ensino de Engenharia no Brasil com fornecimento de informações importantes para a construção de projetos pedagógicos mais modernos. A primeira turma foi montada em 2007”.

Durante sua trajetória profissional na PUC Minas esteve sempre preocupado e procurando se envolver em trabalhos relacionados ao desenvolvimento acadêmico. Participou ativamente da criação de quatro cursos de graduação e coordenou os cursos de Engenharia Eletrônica e de Telecomunicação, Ciências da Computação, Engenharia de Telecomunicação de Poços de Caldas e Engenharia de Energia. Este último, ele coordenou por 12 anos e foi o primeiro curso de Engenharia da PUC a alcançar nota máxima no MEC. “O ápice de minha carreira como professor pode ser considerado o curso de Engenharia de Energia, cujo projeto pedagógico foi considerado pelos próprios avaliadores do MEC como uma referência. Quando criado, o curso apresentava uma estrutura curricular inovadora, baseada em atividades integradoras e foi considerado uma iniciativa audaciosa, pioneira no ensino de Engenharia no Brasil com fornecimento de informações importantes para a construção de projetos pedagógicos mais modernos. A primeira turma foi montada em 2007”, relembra com orgulho. O objetivo do curso de Engenharia de Energia era e ainda é formar profissionais aptos a exercer as atividades referentes ao planejamento, à concepção, Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

O engenheiro de energia seria, portanto, um “clínico geral” dos sistemas energéticos, podendo atuar em um vasto espectro de áreas, dentre as quais se enquadram tecnologias de conversão energética; planejamento energético; alternativas energéticas; gestão de sistemas energéticos; economia e racionalização de energia; produção, distribuição e uso da energia; política energética; meio ambiente, Agenda 21 e desenvolvimento sustentável.

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Jovem Engenheiro

Estudo, inspiração e muita energia em prol do desenvolvimento da Engenharia Lígia de Matos

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ovem, idealista, cheio de planos, projetos e muita vontade de ver os desafios da atual sociedade se dissiparem. Este é o perfil do engenheiro eletricista André Henrique Marinho Mattioli. Ele acaba de completar 26 anos, mas já acumula muitas responsabilidades em sua vida profissional e pessoal. Hoje preside a Comissão de Energia da SME; foi também o responsável por trazer de volta à vida o projeto SME Jovem. “São mais de 310 estudantes de graduação e recém-formados das áreas de Engenharia, Arquitetura e Agronomia interessados, sendo que já foram admitidos 51 novos membros em Belo Horizonte e empossados 18 novos coordenadores regionais em diversas partes de Minas Gerais. Esses novos líderes irão fazer parte de um programa de captação intensivo, com aprimoramento nas soft e hard skills, além de se tornarem referências em seus ciclos de amizade em função do impacto positivo que causarão”, descreve o idealizador da nova versão da SME Jovem. Natural de Belo Horizonte, André já morou em Lavras e também em Januária e destaca que sua vida se assemelha a uma montanha russa com momentos de dificuldades, problemas e incertezas, mas que são eles que fazem com que seja necessário se reinventar e fazer diferente. O engenheiro desde cedo se inspirou pela temática da agricultura e meio ambiente e, ao se deparar com a área de energia elétrica e perceber sua importância para a vida das pessoas no interior, resolveu se dedicar ao seu estudo. “Nós, seres humanos, não sabemos mais viver sem o acesso à energia elétrica em todas as esferas (educação, lazer, indústria etc). Estudar e entender o fluxo da geração, transmissão e distribuição da energia para mim é essencial para evitarmos os problemas ambientais e climáticos que estão acontecendo em proporção global. Em especial, a área de energia solar fotovoltaica me atraiu pelos impactos positivos que agregam valor à tecnologia, por ser renovável, ter baixo impacto ambiental, grande escalabilidade e grande potencial de exploração”, comenta. Seu foco profissional no momento é dar andamento aos projetos assumidos, como expandir a atuação e presença da Sices Solar em Minas Gerais. O objetivo é agregar valor aos clientes parceiros e alavancar novos negócios como provedor de soluções da área de energia solar fotovoltaica, tendo antes atuado como integrador. Busca também atender às expectativas criadas em todas as iniciativas a que se propôs no âmbito do voluntariado, como a própria SME (Sociedade Mineira de Engenheiros), a ABEE-MG

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Jovem Engenheiro André Henrique Marinho Mattioli. Foto: Arquivo pessoal

(Associação Brasileira de Engenheiros Eletricistas de Minas Gerais), a SDSN (Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU). Também é associado ao Rotaract e Rotary Club de Belo Horizonte. À frente da Comissão de Energia da SME, Mattioli abraçou a responsabilidade, pois acredita que a Sociedade Mineira possui um corpo técnico diferenciado para debater teoria e prática e avaliar as diversas mudanças tecnológicas, regulamentárias e culturais que se apresentam atualmente. “Nosso objetivo é desmistificar o tema e trazer o lado prático, oferecendo soluções e contribuições para os desafios que a sociedade vem enfrentando, além de promover encontros e debates abertos ao público sobre a área de energia”. Seus interesses, além da Engenharia, incluem o mercado de investimentos financeiros e as oscilações da bolsa de valores, com destaque para os estudos e avaliações de decisões que podem se tornar ótimos negócios, assim como as atividades extracurriculares que o permitem fazer uso dos conhecimentos adquiridos para contribuir para um mundo mais justo e igualitário. Mas se o tema são os seus sonhos, a prioridade é agradecer à família e buscar inspirar outros jovens em busca de seus ideais. “Primeiramente, desejo retribuir todo o esforço, investimento e dedicação que minha família investiu em mim. Ao longo da minha trajetória, foram eles que me auxiliaram, aconselharam e viveram um sonho que antes era só meu, independentemente das dificuldades e dos desafios que apareciam. Ao mesmo tempo, quero também, através do meu trabalho, ser uma referência na área em que atuo, para que, servindo de exemplo, possa inspirar mais jovens e profissionais em acreditar nos seus sonhos, mantendo suas origens, sendo humildes e fazendo um trabalho de impacto na sociedade”, finaliza. Revista Mineira de Engenharia nº 41 | ////2019


Eventos SME

Para a Cidade, para o Estado, para o País Marcelo Freitas

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urante todo o ano, a SME foi palco de debates acalorados sobre assuntos de extrema relevância para a sociedade. Pela sala de reuniões da SME passaram temas como a governança ambiental, a reabilitação das ferrovias mineiras, os investimentos da Prefeitura de Belo Horizonte para a melhoria da cidade, os investimentos em alta tecnologia a cargo da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge). Na SME discutiu-se também a privatização da Cemig, o futuro da economia brasileira e o cenário que se vislumbra para a mineração em Minas nos próximos anos.

Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

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BARRAGENS

Tragédias mostram urgência da governança

Evento discutiu governança em grandes obras; especialistas recomendam mudanças. Foto: SME/Divulgação

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engenheiro florestal e ex-ministro do Meio Ambiente do Brasil, José Carlos Carvalho, cobrou dos engenheiros que retomem o protagonismo na agenda do desenvolvimento sustentável e também na agenda política. A forma correta de fazer isso é, segundo ele, introduzindo a variável ambiental ainda no início do desenvolvimento do projeto. “Se eu estou fazendo um projeto de mineração e, no início dele, ninguém toma conhecimento do meio ambiente, começamos mal”, afirmou José Carlos, que fez a palestra de abertura do seminário “Governança Ambiental” promovido pela Sociedade Mineira de Engenheiros.

Para ele, o atual modelo de licenciamento ambiental é uma “usina de crises” cujo resultado concreto é a necessidade de, na etapa final de aprovação do licenciamento, o empreendedor ser obrigado a cumprir um grande número de condicionantes, que poderiam ser em menor número se a variável ambiental estivesse presente no projeto desde sua concepção inicial. “Se a dimensão ambiental estiver presente no momento da concepção do projeto, o engenheiro, seja qual for a sua especialidade, vai tratar

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de meio ambiente com protagonismo. Ele não vai ser só o vilão depois que o problema acontecer”, enfatizou José Carlos Carvalho. Ele também defendeu que o modelo de licenciamento ambiental do Estado passe a incorporar a variável territorial, de tal forma que sejam também avaliados os impactos cumulativos de vários projetos que pretendam se instalar em uma mesma região, e não somente do empreendimento que está sendo licenciado. O evento foi idealizado pela SME para discutir a governança ambiental em projetos de engenharia de grande porte. Essa discussão, segundo o presidente da SME, Ronaldo Gusmão, se faz necessária tendo em vista os últimos rompimentos de barragem ocorridos em Minas, em Mariana e em Brumadinho, além do desmoronamento, ano passado, de um viaduto sobre a Marginal Pinheiros, em São Paulo. Consenso – Segundo o geógrafo Roberto Messias Franco, ex-presidente da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


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Governança mais aprimorada manteria em segurança barragens com as das hidrelétricas. Foto: EBC/Arquivo

Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a governança dos projetos de engenharia de grande porte, como as barragens, passa pelo respeito à lei, pela busca do consenso e pela transparência, entre outras coisas. No atual cenário, os grandes projetos ambientais que compunham o cenário da Agenda 21 brasileira, vivem, de acordo com Roberto Messias, um momento de inflexão, estando reduzidos a “papeis sem maior significação”. Por isso, ele defende que o Estado brasileiro, nos três níveis que o forma, retome seu papel histórico, abandonando a postura fragmentada que, segundo ele, caracteriza o atual cenário. “Hoje, fica cada um na sua igrejinha”, afirmou Roberto Messias. Uma boa governança, além de trazer resultados positivos para a empresa, em termos de imagem, pode, de acordo com advogado Tiago Fantini Magalhães, coordenador do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBCC), evitar prejuízos. Com exemplo clássico de falha na governança, ele cita o desmoronamento da barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana, em novembro de 2015. Além dos danos à imagem da Vale e da Samarco, o rompimento deverá gerar, para a empresa, prejuízo da ordem de R$ 53 bilhões em dez anos. Margens de incerteza – Cleber José de Carvalho, diretor do Comitê Brasileiro de Barragens (CBB), afirma que uma barragem é uma obra de engenharia, devendo, por essa razão, ser construída segundo regras de cálculo muito precisas. Porém, ele também afirma que essa mesma obra está sujeita a deficiências ou perda de desempenho, como é o caso das barragens que se rompem. Por esta razão, seus responsáveis devem trabalhar com margens de incerteza e regras de operação que incluem inspeções e manutenção, cujo objetivo é manter sua segurança. Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

A não observância dessas regras irá, segundo ele, resultar em uma mudança das condições de segurança, com a possível ruptura. E aponta como causas mais comuns de acidentes desse tipo a falha no monitoramento, envelhecimento da estrutura, erro de projeto e até mesmo falha durante a construção. Para evitar acidente como os ocorridos recentemente no Brasil, Patricia Schmidt, sócia-diretora da empresa de consultoria KPMG, recomenda que as empresas dediquem atenção especial à governança, de forma a fazer com que os funcionários dêem uma atenção maior aos processos de decisão nas empresas. Estas devem ser tomadas levando em conta, segundo ela, princípios básicos, como honestidade, integridade, responsabilidade, independência e preocupação genuína com o impacto das decisões tomadas. Estes pilares são, segundo ela, a razão de sucesso das instituições duradouras. Para evitar a repetição de tragédias com barragens, Carlos Orsini, presidente do grupo YKS e consultor do Banco Mundial, recomenda, como condição mínima, que a condução da sua construção e operação seja “exemplar”, inclusive na fase de descomissionamento, que é quando sua estrutura deixa de receber rejeitos. Outra recomendação que ele faz é que a barragem deixe de ser considerada um passivo ambiental e passe a fazer parte do núcleo principal do negócio da empresa. “Uma barragem deve ser considera um ativo do empreendimento”, afirma Carlos Orsini, que também recomenda atenção especial às que são feitas de material argiloso, devendo ser tratadas como um “ser vivo”, ou seja, “com todos os cuidados possíveis”. M.F.

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TRANSPORTE

SME propõe novo acordo ferroviário

Objetivo da SME é reverter protagonismo que ferrovias tiveram no transporte brasileiro. Foto: EBC/Arquivo

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Sociedade Mineira de Engenheiros (SME) não é contra a renovação antecipada dos contratos de concessão de ferrovias, assinados nos anos de 1990, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. O que a entidade propõe é que, em troca da renovação sejam acertadas contrapartidas que estejam à altura do que as concessões representam enquanto negócio para o seu operador.

inferior ao que seria o valor correto a ser pago pelo concessionário ao governo federal.

A entidade propõe que a compensação inclua, por exemplo a construção e posterior transferência à União de novos trechos de ferrovias e também que o transporte de passageiros seja contemplado nos contratos. Atualmente, há no estado apenas uma linha regular de passageiros que não seja de interesse apenas turístico. Ela faz a ligação entre Belo Horizonte e Vitória, no Espírito Santo, e é operada pela Estrada de Ferro de Vitória a Minas (EFVM), cuja propriedade é da mineradora Vale.

Para sustentar seu ponto de vista, ele cita posição defendida pela Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Cargas (Anut), que estimou o valor da EFVM em R$ 18 bilhões. O valor da Estrada de Ferro Carajás, que corta os estados do Pará e Maranhão foi estimado em R$ 36 bilhões – o dobro da EFVM. Considerando como ponto de partida que os valores a serem pagos pelas outorgas está justo, a SME defende que seja feito o acerto das medidas compensatórias. A entidade propõe, no caso de Minas, a construção de quatro ferrovias no Estado.

Para a SME, os valores das outorgas, a serem pagos por ocasião da renovação, devem também ser criteriosamente avaliados por fontes idôneas. A título de exemplo, a entidade afirma que o valor de R$ 4 bilhões considerado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para a EFVM, é

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“Esse valor encontra-se muito aquém do valor real que poderia ser alcançado em uma análise mais criteriosa que não deixa sombra de dúvidas: trata-se de uma outorga subavaliada”, afirma o engenheiro José Antônio Silva Coutinho, vice-presidente de Relações Institucionais e presidente da Comissão Técnica de Transportes da SME.

Serra do Tigre – Com 450 quilômetros de extensão, a ferrovia ligaria Patrocínio, no Alto Paranaíba a Prudente de Morais, na região Central de Minas, passando por São Gotardo. A estrada seria uma alternativa à ferrovia já existente que faz Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


Eventos SME a transposição da Serra do Tigre, na região de Ibiá e Campos Altos, no Centro-Oeste do Estado, mas enfrenta sérias restrições operacionais, sobretudo para os trens de grande extensão operados pela VLI Logística. O objetivo, com o novo traçado, é, segundo a SME, conseguir aumentar a velocidade média dos trens, dos atuais 16 quilômetros por hora naquele trecho, para 60 quilômetros por hora. Com isso, seria possível passar a capacidade de carga, dos atuais 9 milhões de toneladas por ano, para 21 milhões de toneladas. Ferrovia Norte Sul-Porto de Açu – A nova ferrovia sairia de Uruaçu, em Goiás, passaria por Unaí e Pirapora até chegar a Belo Horizonte. Da capital, seguiria pela Zona da Mata até o norte do estado do Rio de Janeiro. No entender da SME, trata-se de uma ferrovia de grande importância para a integração do Estado ao novo sistema ferroviário nacional, que tem a Norte Sul como espinha dorsal. Ao mesmo tempo, segundo a SME, serviria para criar uma alternativa ao transporte de outras cargas, que não apenas o minério. O projeto da entidade prevê que parte do traçado da antiga Linha Mineira, hoje pertencente à VLI Logística, seja incorporada pelo traçado projetado até chegar ao porto de Açu. Nesse sentido, o que a SME espera é uma verdadeira revitalização da economia regional, promovendo o desenvolvimento desta importante área do Estado, que há muito encontra-se em situação de ostracismo econômico. Além dessas, a SME propõe a construção de duas outras ferrovias, que atenderiam às regiões Leste e Norte de Minas. Ambas partiriam de Governador Valadares e atenderiam a uma região que, até agora, é pouco servida por ferrovias.

Governador Valadares-Pai Pedro – Faria a ligação entre a FCA e a EFVM. Saindo de Governador Valadares, por onde passa a EFVM, a linha seguiria por Teófilo Otoni, Itaobim, Salinas, Grão Mogol, Turmalina e Rio Pardo de Minas, terminando em Pai Pedro, por onde passa a FCA em direção à Bahia. Governador Valadares-Porto de São Mateus – Este trecho também sairia de Governador Valadares, porém em sentido leste, em direção ao município de São Mateus, no Espírito Santo, onde está sendo construído o porto de São Mateus. A ferrovia, de acordo com a SME, tem interesse oficialmente demonstrado pela empresa Petrocity. De acordo com a SME, com a implantação destes trechos ferroviários, rompe-se o círculo vicioso que vem impedindo o devido aproveitamento dos recursos e potencialidades – agroindústria, manganês, siderurgia, rochas ornamentais, produção de açúcar e álcool e silvicultura, entre outras – das regiões Nordeste de Minas: a falta de investimentos em produção decorrente da falta de infraestrutura. E vice-versa. A SME lembra que Minas é um estado meridional que funciona como ligação entre o Nordeste e o Sudeste. Nesse sentido, a ampliação dos novos trechos ferroviários, para carga e passageiros, além de reforçar a malha mineira, possibilita o aumento da eficiência dos corredores de transporte dos Estados da Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro, e também a redução da sobrecarga que há anos existe nos portos de Santos, em São Paulo e Paranaguá, no Paraná. M.F.

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CIDADE EM MOVIMENTO

Sudecap faz balanço e anuncia obras

“Sem a Sudecap, a cidade para”, afirmou o superintendente da autarquia, em debate na SME. Foto: SME/Divulgação

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elo Horizonte é um emaranhado de ruas, praças e avenidas que, se colocadas em linha reta, equivaleriam à distância de uma viagem de ida e volta a Belém, no Pará. Da mesma forma que uma rodovia precisa de manutenção, ruas praças e avenidas também. É preciso que essas vias sejam recapeadas rotineiramente. Uma cidade tem ruas, praças e avenidas. Não é uma floresta, mas também tem árvores, que convivem, bem ou mal, com a vida urbana. Essa convivência exige que o espaço das árvores seja definido e harmonizado com o das pessoas. Para isso, as árvores têm que ser podadas regularmente, ou suprimidas quando atingirem o fim de sua vida útil. Uma cidade também demanda grandes obras, como a construção de vias expressas, de trânsito rápido, viadutos e barragens de contenção das águas de chuva, no verão, para evitar enchentes.

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Para que a cidade funcione sem sobressaltos, é preciso que exista um órgão dedicado a realizar tudo isso de forma rotineira. Em Belo Horizonte, o responsável pelo “funcionamento” da infraestrutura física da cidade é a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), autarquia fundada há exatos 30 anos, em abril de 1969. O início de suas atividades foi marcado por uma obra que, ainda hoje, é de grande importância para a mobilidade dos belo-horizontinos: o túnel da Lagoinha, que liga o centro da cidade à região leste da Capital. “Sem a Sudecap, a cidade pára”, afirmou o superintendente do órgão, Henrique Castilho, em palestra recente na Sociedade Mineira de Engenheiros (SME). Segundo ele, dos órgãos que formam a administração pública municipal, apenas dois não dependem da Sudecap Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


Eventos SME para a execução de suas obras. Um é a Companhia de Transporte e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans); o outro é a Secretaria Municipal de Educação (Smed), que realiza, ela própria, todas as obras de construção e reforma de escolas. Tudo mais, como ele ressaltou, passa pela Sudecap, para que seja planejado e executado. Na manutenção viária, entre 2016 e 2019, quase um décimo – 377 quilômetros – dos cerca de 5 mil quilômetros de ruas, praças e avenidas que Belo Horizonte possui já terão sido recapeados. O número de buracos na pista que foram tampados pelas famosas operações tapa-buracos também aumentou entre 2017 e 2019. Passou Passou do 17mil 400 em 2017, para 115 mil até 25 de julho último. O aumento se deveu, segundo Henrique Castilho, ao melhor acompanhamento das empreiteiras contratadas para esta finalidade e também ao início do funcionamento do aplicativo da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) por meio do qual o cidadão solicita este tipo de serviço. Igualmente aumentou o número de cortes e podas de árvores, serviço que, como ressalta o superintendente da Sudecap, é essencial para evitar que caiam, matando pessoas. Entre 2016 e 2019, o número de árvores cortadas passou de 2,4 mil para 15 mil ao ano. “Ninguém cortava árvores em BH”, afirmou Henrique Castilho ao explicar a razão do aumento ocorrido ano a ano. Segundo ele, a prioridade, nos últimos anos, foi a correção dessa distorção, com a supressão das árvores que poderiam cair sobre carros e pessoas. A partir deste ano, será intensificado o plantio de novas árvores. Grandes obras – Além dos pequenos serviços, a Sudecap está no planejamento final de duas grandes obras na cidade. Uma delas é o Expresso Amazonas. A outra é a que irá pôr fim às enchentes na avenida Vilarinho, na região Leste da capital. O Expresso Amazonas está com o projeto concluído e, no momento, a Prefeitura trabalha na captação de recursos junto ao Banco Mundial. O objetivo é a implantação de um corredor de transporte coletivo expresso para melhorar a acessibilidade da região oeste de Belo Horizonte, de forma a proporcionar a redução do tempo das viagens e o aumento do conforto e segurança dos usuários. A obra da Vilarinho deverá custar entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão e, segundo o superintendente da Sudecap, não será uma transposição de bacias, como segundo ele, chegou a ser divulgado. De acordo com a Sudecap, no momento, estão sendo feitos os estudos hidrológicos para a obra, assim como definidas as soluções de micro e macrodrenagem dos córregos que compõem a bacia do córrego Isidoro. “São estudos complexos que abrangem toda a bacia, com o objetivo de apontar soluções economicamente viáveis e tecnicamente efetivas”, explicou o superintendente da Sudecap, que, Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

Poda de árvores é uma das atividades sob responsabilidade da Sudecap; objetivo é evitar que caiam sobre carros e pessoas. Foto: Rodrigo Clemente/PBH/Divulgação

entretanto, evitou dar mais detalhes do projeto, por tratar-se de algo que ainda está em desenvolvimento. No momento a Sudecap tem 28 obras em andamento na cidade, ao custo de R$ 401 milhões. Trata-se de um cenário que contrasta com a realidade do Estado e da União, que estão com sérios problemas de caixa. De acordo com Henrique Castilho, tal situação se deve à própria autarquia, que passou por uma completa reformulação no atual governo e trabalha segundo dois pilares: planejamento e transparência. Tal reestruturação tem, segundo ele, tornado mais ágil a captação de recursos junto ao governo federal e também no exterior. As perspectivas para os próximos dois anos são de conclusão de mais 90 projetos, sendo 26 de edificações e 64 projetos de infraestrutura com diversos empreendimentos de grande porte. A previsão de desembolso para projetos, de recursos próprios ou financiamentos federais e internacionais, pode chegar a R$ 50 milhões nos próximos dois anos de gestão. M.F.

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NOVAS TECNOLOGIAS

Codemge faz aposta no futuro

Laboratório-fábrica de imãs de terras raras, um dos projetos da Codemge, está em fase final de construção em Lagoa Santa. Foto: Codemge/Divulgação

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magine uma empresa que tem um pé no passado e outro no futuro. Essa empresa é a Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge). O passado está representado, por exemplo, pelos cerca de três mil imóveis acumulados ao longo das últimas décadas, que formam o seu patrimônio imobiliário e pela operação do Terminal Rodoviário de Belo Horizonte. Seu pé no futuro está em empreendimentos como as fábricas de superímãs de terras raras e de baterias de lítio-enxofre e a unidade de processamento de grafeno, prevista para entrar em funcionamento em 2023, em Belo Horizonte, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e o Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear (CDTN). As informações foram dadas pelo presidente da Codemge, engenheiro Dante de Matos, em debate realizado na Sociedade Mineira de Engenheiros (SME).

O laboratório-fábrica de imãs de terras raras está em fase final de construção em Lagoa Santa, devendo entrar em operação em janeiro do ano que vem, para atender um mercado que consome cerca de 118 mil toneladas/ano e que é

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dominado, em 90%, pela China. Com a fábrica, o Brasil irá agregar valor às suas reservas de terras raras – um subproduto do rejeito de nióbio, mineral do qual o Brasil é um dos principais produtores mundiais. O imã de terras raras é utilizado em motores elétricos, automotivos e de elevadores; e também em separadores magnéticos, entre outros usos. Trata-se de um empreendimento, segundo Dante de Matos, estratégico para o Brasil. Isso porque, dentro de 20 anos, as reservas chinesas chegam ao final, abrindo um mercado de grande potencial para o Brasil, que detém, logo abaixo da China, as maiores reservas destes minerais. Outra aposta da Codemge é o mercado de baterias de lítio-enxofre, para atendimento da crescente demanda do mercado de veículos elétricos, em substituição aos que usam motores a combustão. O projeto da fábrica está, segundo ele, praticamente pronto. Terá área de dez mil metros quadrados e está prevista para ocupar as antigas instalações da fábrica de sapatos San Marino, ao lado da rodovia que liga Belo Horizonte ao aeroporto de Confins. Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


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Em evento na SME, presidente da Codemg, Dante de Matos, apresentou os projetos da companhia para os próximos anos. Foto: SME/Divulgação

Sua produção será de 1,2 milhão de células por ano, quando entrar em operação, em 2021. A bateria de lítio-enxofre diferencia-se das tradicionais, de íon-lítio, porque tem um tempo de carregamento mais rápido e consegue armazenar três vezes mais energia. De acordo com Dante de Matos o mercado mundial de baterias é da ordem de US$ 120 bilhões. De acordo com o Serviço Geológico Brasil (CPRM), o país tem aproximadamente 8% das reservas mundiais de lítio, localizadas, em sua maioria, no Vale do Jequitinhonha. Outro empreendimento com o qual a Codemge pretende colocar o pé no futuro é a fábrica de processamento de grafeno, a MG Grafeno. No momento, de acordo com Dante de Matos, o projeto está em sua primeira fase, que é a de desenvolvimento do processo que permita a produção do grafeno em escala industrial. O grafeno é um excelente condutor de calor e eletricidade. É considerado o mais forte material já encontrado, consistindo de uma folha de átomos de carbono densamente compactados. Minas tem reservas de ótima qualidade, sendo o terceiro maior produtor mundial. Na UFMG está um dos centros pioneiros nas pesquisas com o grafeno no país. Para Dante de Matos, o projeto é importante porque irá fomentar o desenvolvimento de uma área industrial de alto impacto tecnológico e alto valor agregado. A ideia, segundo o presidente da Codemge, é concentrar os investimentos estratégicos da Companhia nestas três áreas: grafeno, baterias de lítio-enxofre usina de imãs terras raras, explorando a sinergia entre elas. “É o futuro. E não tem como ser de outro jeito”. Nesses projetos, a Codemge participa sempre com menos de 50% do capital, caso contrário, tornar-se-ia sócia majoritária, o que segundo ele, não é intenção da empresa. Os recursos para estes investimentos Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

vêm dos recursos que a empresa recebe – da ordem de R$ 1 bilhão por ano – da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), pela exploração do nióbio em Araxá. Passado – Ao mesmo tempo que investe em projetos de alta tecnologia, a Codemge mantém um pé do passado, representado, por exemplo, pela operação da rodoviária de Belo Horizonte, que estava arrendada à prefeitura de Belo Horizonte e foi retomada recentemente. Nela, a Codemge fez investimentos para melhorar sua operacionalidade, como, por exemplo, na acessibilidade. O próximo passo será sua devolução ao Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG). Para retirar o pé no passado, a Codemge pretende também, no próximo ano, iniciar a venda dos ativos que não fazem parte de sua missão atual, que, segundo ele, é buscar empreendimentos que dêem resultado mais perenes para a economia mineira. Entre os ativos dos quais a Codemg pretende se desfazer estão a participação do Estado na fábrica de helicópteros da Helibrás, em Itajubá, os distritos industriais que o Estado construiu mas não foram ocupados e os imóveis, cuja venda a Codemge pretende realizar no ano 2020. Para ele, a empresa desfazer-se desses ativos é importante para que possa focar em seus projetos futuros. “Se a gente não olha para traz, não vamos olhar para frente”, afirmou Dante de Matos. A necessidade de se fazer a ponte entre o presente e o futuro é, no entender do engenheiro Wilson Leal, integrante da diretoria da SME, o principal ponto que ele destacou na fala do presidente da Codemge. “Temos que olhar para frente, mas sem descuidarmos do passado”, afirmou o diretor da SME. M.F.

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LABORATÓRIO DE ITAJUBÁ

Unifei e SME: união em defesa da inovação

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utar pela inovação foi o que, em agosto, trouxe o reitor da Universidade Federal de Itajubá, Dagoberto Almeida, a Belo Horizonte. Em debate realizado na SME, ele protestou contra a suspensão das obras do Laboratório de Pesquisa e Inovação do Sistema Elétrico, que estava em construção em Itajubá. Quando estivesse em funcionamento, seria o sétimo maior laboratório do mundo – e o maior da América Latina – na área. O projeto já consumiu, em obras de infraestrutura, R$ 41 milhões, dos R$ 450 milhões que compõem seu orçamento total. A próxima etapa seria o início da construção das edificações. Porém, a CNI, que está à frente do empreendimento, informou que o projeto está suspenso por falta de recursos. Dagoberto Almeida afirmou que ficou surpreso em saber que o projeto está suspenso. “Na condição de dirigente de uma das mais tradicionais instituições federais brasileiras no campo do ensino e da prática da engenharia elétrica, a Unifei lamenta profundamente tal decisão. Afinal, um país próspero só é possível se houver efetivo desenvolvimento em ciência e tecnologia”, afirmou o reitor. Em sua fala na SME, Dagoberto fez um balanço da evolução dos investimentos em ciência e tecnologia no Brasil nas últimas décadas. E foi cético quanto ao futuro: “Nós estamos perdendo a corrida. E essa é uma corrida permanente”, afirmou ele. Algumas saídas começaram a ser delineadas como alternativas para a retomada das obras de implantação do projeto. Uma das alternativas seria o uso de recursos provenientes do Fundo de Petróleo e Gás da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Segundo o reitor, a justificativa seria o fato de que as centenas de plataformas de petróleo que o país tem em alto mar precisam, a partir de 2020, passar por extenso e profundo processo de modernização, tanto de equipamentos quanto de instalações, sob pena de serem desativadas. E uma parte substancial dessa atualização refere-se, segundo o reitor, a sistemas elétricos. Outra possibilidade seria uma possível parceria com a Unifei que, assim como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), possui a prerrogativa de importação de equipamentos de tecnologia sem taxação alfandegária, além

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Reitor da Universidade Federal de Itajubá, Dagoberto Almeida, veio a Belo Horizonte, onde participou de debate na SME. Foto: SME/Divulgação

de ser a universidade credenciada a participar das demandas de pesquisa e desenvolvimento das agências reguladoras e de fomento. De acordo com o reitor, a Unifei não tem condições de apoiar financeiramente o projeto, mas pode apoiar tecnicamente, visto que, é uma instituição de referência em energia elétrica no país. Mobilização política – Essas possíveis alternativas foram discutidas em reunião realizada no início de setembro, durante visita do governador Romeu Zema às instalações da Unifei, em Itajubá. Em reunião no gabinete da Reitoria, o reitor salientou que o maior complexo laboratorial do setor elétrico na América Latina e o sétimo mais moderno em sua categoria no mundo, não pode, após ter consumido mais de R$ 41 milhões em terraplanagem e implantação de obras de infraestrutura, ser simplesmente cancelado sem que haja uma união de todos em prol da busca de meios que garantam sua continuidade. Participaram da reunião, além do governador Romeu Zema, o secretário de Governo de Minas, Bilac Pinto; o ex-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Mário Neto, que representou a Sociedade Mineira de Engenheiros (SME); o senador Carlos

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Eventos SME Viana (PSD-MG) e o presidente da Federação das Indústrias no Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, entre outras autoridades. Na ocasião, o reitor da Unifei reconheceu que há, de fato, imensas dificuldades financeiras por parte do Estado para que o modelo atual de negócios seja atendido. Todavia, salientou a importância do Estado assumir o protagonismo na busca de apoio político para o projeto junto ao Governo Federal. “A razão para tal é que esse complexo laboratorial é fundamental para o desenvolvimento da infraestrutura do setor elétrico sem a qual o Brasil não terá condições de desenvolver todas as demais áreas, pois a energia é insumo básico do progresso”, afirmou o reitor. Dificuldades – O presidente da Fiemg, Flávio Roscoe apresentou as dificuldades que a instituição possui para garantir a continuidade do projeto e defendeu a efetiva participação da Confederação Nacional da Indústria (CNI) na sua continuidade. Roscoe também defendeu a união da classe política de Minas em torno do projeto e sua atuação junto ao governo federal. Todos os participantes se comprometeram em unir forças em prol do projeto. Presente na reunião de Itajubá, Mário Neto afirma também estar otimista. Ele diz ter percebido, ao final da reunião, um interesse muito forte dos presentes em buscar meios que permitam a retomada das obras. “Continuamos nessa luta”, disse Mário Neto. Nova governança – O projeto será orçado em R$ 432 milhões, dos quais R$ 16 milhões foram

desembolsados pela Fiemg e Senai-MG com recursos próprios. Os demais agentes financiadores seriam a Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge), com R$ 32 milhões; a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de Minas Gerais (Fapemig), com R$ 40 milhões; a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), com R$ 152 milhões; e o Banco Nacional Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com R$ 198 milhões. O BNDES informou que, a despeito da paralisação das obras, o projeto não tem restrições por parte da instituição, estando apto a receber recursos. As obrigações do governo de Minas somam R$ 72 milhões; os recursos da Aneel dependem da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), por se tratar de verbas de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D). A fatia maior, correspondente a quase a metade do orçamento total do projeto, viria do BNDES. O problema é que o dinheiro do BNDES não é a fundo perdido. Trata-se de um empréstimo que seria pago pela Fiemg e o Senai-MG, que dizem não dispor de recursos para tal. Por isso, faz sentido a ideia que vem sendo defendida pelo reitor da Unifei de se buscar um novo modelo de governança, no qual a responsabilidade pelo pagamento do empréstimo deixaria de ser da Fiemg e do Senai-MG, para ser assumido por outro agente, que ele imagina possam ser, por exemplo, empresas privadas para as quais o laboratório seria de utilidade. M.F.


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IDEIAS: OLAVO MACHADO

Engenharia deve ser vista como negócio

O

ex-presidente da Federação das Indústrias no Estado de Minas Gerais (Fiemg), Olavo Machado, participou de debate na SME. Ele falou sobre o papel do engenheiro, a indústria 4.0, inovação e privatização da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). Abaixo, um resumo das ideias de Olavo Machado:

Desenvolvimento da indústria

O que a indústria pode fazer para melhorar? A indústria é usuária, mas depende de mercado. E ela foi grandemente estimulada a buscar o Estado pela Cemig, que sempre procurou fazer com que aquilo que ela usasse, pudesse ser fabricado em Minas. Durante muitos anos, foi assim. Eu fabricava paineis [elétricos] e tinha decidido fabricar transformadores. Fui conversar na Cemig com o José Augusto Sarmento. Ele me disse: Não faz não, porque não tem espaço para ter outra fábrica [de transformadores] aqui. Hoje, não há ninguém mais se preocupando se a indústria está ficando em Minas ou se está ficando fora. Os próprios engenheiros não se preocupam se nós não criamos empregos em Minas Gerais para os nossos filhos e os nossos netos. O resultado é que eles terão que ir embora. Nós estamos formando pessoas para serem exportadas.

Papel do engenheiro

Procurei, na Fiemg, fazer um projeto que valorizava o engenheiro – o “Engenheiro do futuro” – justamente porque os alunos [de engenharia] não têm oportunidade de conviver com aquilo que a minha geração pôde fazer. O que nós precisamos é pegar as entidades empresariais e fazer com que elas entendam o papel do engenheiro. Isso, muitas vezes, não é entendido. A confiança que esses meninos têm que ter tem que partir de nós, os mais velhos. Nós é que temos que estimular e mostrar os caminhos. Se ele se formou engenheiro, ele não tem que ter medo.

Indústria 4.0

O que a indústria 4.0 tem de diferente? Nada. É a mesma indústria de sempre. O hardware que está lá é o mesmo de qualquer equipamento. A diferença é que ele é robotizado. O problema que nós somos engenheiros analógicos. Você, quando vê alguma coisa funcionando, faz analogias. O

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Para Olavo Machado, a diferença entre a indústria convencional e a Indústria 4.0 é que nesta última há softwares por trás da operação.. Foto: Governo do Espírito Santo/Divulgação

problema é que, com a digitalização, quando você vê algum equipamento elétrico funcionando, você não vê quase nada além [do equipamento] e as coisas acontecem conforme você programou, porque o que está por trás são softwares. Já nas outras áreas, como na engenharia civil, ou em um equipamento mecânico, dá para você enxergar.

Laboratório de Itajubá O Laboratório de Inovação Itajubá estava tudo viabilizado. Mas não foi para frente. Minas não deixou ele ficar aqui. Para onde ele vai? Não sei. A Unifei está lutando muito. Esse é um grande problema. Minas está perdendo investimentos. Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


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Olavo Machado fez um chamamento aos engenheiros para que ajudem a desenvolver a engenharia como negócio. Foto: SME/Divulgação

E acha que é isso mesmo. Nós temos o Cetec. É o mesmo laboratório que temos na Bahia. Só que o nível do de lá é quinhentas vezes melhor que o nosso. Não foi fácil fazer o que foi feito no Cetec, pois atingimos várias pessoas amigas que estavam lá, mas não tinham o perfil que a gente queria que tivessem para um centro de tecnologia. Vão dizer: aquilo é do Senai. Não, aquilo é de Minas. Os outros estados estão se preocupando mais que Minas com esse tipo de equipamento.

O negócio da engenharia

Meio ambiente tem que ser visto como um negócio. E negócio é coisa de empresário e não coisa de ecologista. Engenharia é negócio. Tem que ser encarada como negócio. Agora, em um lugar onde não há mercado, você vai para onde? Essa missão é nossa, dos engenheiros. Para começar, acredito que precisamos aceitar que os erros são nossos, que a mentalidade do engenheiro tem que ser modificada, a cabeça do engenheiro tem que continuar cartesiana, mas com uma visão diferenciada, de pensar que quando eu faço uma coisa errada, eu atrapalho a empresa de outro engenheiro. Só vai para frente quando todos vão para frente. Olha a quantidade de pessoas que perderam o emprego. É muita gente. Isso aconteceu porque nós não cuidamos de fazer com que essas empresas tivessem mercado. Porque o que é vital na engenharia é mercado.

Inovação

A indústria que não inova não se desenvolve. Não tem como. Se ela não fizer, não sobrevive. Como engenheiro, temos que valorizar e fazer com que isso funcione. Para mim, a inovação com o melhor resultado é a startup, que surgiu da necessidade, principalmente de engenheiros, na universidade, de produzirem alguma coisa que tivesse menos teoria e mais Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

prática. Isso, sim, foi inovação e, muitas vezes, vai fazer com que os velhos negócios ganhem uma sobrevida.

Privatização da Cemig

Hoje, quanto menos o governo entrar, melhor. Porém, quando você vê que a privatização está sendo feita com estatais estrangeiras, será que o brasileiro tem que passar a ideia de que nós somos maus administradores, que nós não sabemos administrar uma empresa porque a política não deixa? Qual foi a última vez que o Estado colocou recursos na Cemig? Desde quando eu me entendo por gente, o que eu vejo é o Estado recebendo da Cemig. Agora, pode o Estado ficar livre da Cemig? Pode. Mas, com certeza vai perder uma fonte de renda. Uma fonte que poderia ser usada melhor se fôssemos mais competentes. O problema da Cemig é um problema do governador. É uma empresa referência. Não há que se falar em qualquer senão da Cemig. Agora ela foi desvirtuada, principalmente com o excesso de pessoas que não conhecem engenharia, não conhecem desenvolvimento não sabem a dificuldade que é colocar um poste em pé no meio do mato. Aí vem um e reclama que a Cemig não liga a energia. Não é que ela não queira ligar. O problema é que nem sempre tem jeito. À vezes, não é negócio ligar. A obrigação não é dela. A obrigação é do Estado. Se o Estado decide desenvolver o Jequitinhonha com energia elétrica, é problema da Cemig ou do Estado? É do Estado. O que nós precisamos é saber o que a engenharia pode fazer para multiplicar os recursos. A equação tem que ser: como isso vai gerar desenvolvimento? Como isso vai gerar oportunidades para as pessoas que moram em Minas? A Cemig no passado teve um papel muito importante na industrialização em Minas. Mas é passado. Se isso trouxer vantagens, desenvolvimento, não tem problema [privatizar]. M.F.

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IDEIAS: PAULO PAIVA

Economista não enxerga luz no fim do túnel Retomada do crescimento

Aumento da produtividade da indústria é condição para que economia brasileira possa retomar seu crescimento nos próximos anos. Foto: Arquivo/Agência Brasil

O

economista Paulo Paiva não enxerga, no cenário brasileiro, condições objetivas para a retomada do crescimento econômico, que somente acontecerá se o país investir no aumento da produtividade. Segundo ele, nos últimos 50 anos, Brasil teve uma economia extremamente volátil, alternando períodos de crescimento com outros, de recessão e crescimento zero. A seguir, conheça um pouco das ideias de Paulo Paiva:

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O crescimento econômico, como nós conhecemos, é um processo muito recente na história da humanidade. Se tomarmos como referência o início do cristianismo, foi somente na segunda metade do século 18, ou seja, apenas nos últimos 250 anos, que o mundo passou a crescer regularmente. Nessa época, tivemos duas rupturas importantes. Uma foi a demográfica, que ocorreu quando a população passou a crescer constantemente. A segunda foi a tecnológica, que veio com a Revolução Industrial. Por aqui, a renda per capita e a participação do Brasil na economia mundial cresceram até a década de 80 do século passado. A partir daí, vêm diminuindo. Por outro lado, há países emergentes com desempenho econômico excelente. Esses países estão divididos em dois grupos. Um é o dos que têm 50 anos de crescimento da renda per capita igual ou superior a 3,5%. Esse grupo é formado pela China, Indonésia, Cingapura, Coreia do Sul, Hong Kong, Malásia e Tailândia. Além desse grupo, há outro, de 11 países que, nas últimas décadas, tem crescimento de renda per capita de pelo menos 5% ao ano: Azerbaijão, Camboja, Etiópia, Índia, Cazaquistão, Miamar, Turquemenistão, Vietnã e Usbequistão. Nenhum país latino-americano, incluindo o Brasil, faz parte desses grupos. No Brasil, a renda per capita cresceu 2,2% nos últimos 50 anos. Quando se faz um corte, a situação do Brasil está dividida em dois períodos. Um é o que vai de depois da Segunda Guerra até fins da década de 70, quando a economia cresceu 7% e a renda, 3,5%. O que os países asiáticos mantiveram por cinco décadas, nós mantivemos por apenas duas. A partir dos anos de 1980, nos transformamos em um avião em queda livre. O crescimento econômico foi para apenas 2,2% e a renda per capita para 1,3%. Se examinarmos a economia brasileira nesse período, o que tivemos foi uma enorme volatilidade.

Governo Lula

Eu gosto de ser sempre muito assertivo. De fato, tivemos na passagem do século uma conjugação de fatores – como quando os astros se alinham e, supostamente, nos trazem uma série de benefícios. Entre 2004 e 2010, crescemos 4,5% ao ano, muito em função do ajuste macroeconômico feito no governo FHC, que acabou com a hiperinflação e gerou racionalidade na economia, criando um ambiente de estabilidade Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


Eventos SME econômica. Aliado a isso, tivemos um boom das exportações de commodities, não só minerais, mas também agrícolas. O minério de ferro, por exemplo, passou de 32 para 160 dólares a tonelada. Isso permitiu o aumento do emprego formal e também do consumo. Nesse ambiente, o governo Lula teve o mérito de não atrapalhar o tripé macroeconômico que veio de FHC e foi o principal fator de aumento do emprego e dos salários, com impacto na distribuição de renda. Isso durou até 2011, quando os preços das commodities começaram a cair e nossa economia começou a perder fôlego. Isso mostra a volatilidade da economia brasileira. Nos últimos 40 anos, o que incluiu FHC e Lula, a economia brasileira cresceu acima de 5% em sete anos. E abaixo de zero, em oito anos. Nos outros 25 anos, flutuou entre zero e 5%. É um crescimento espasmódico, não sustentável. Nesse sentido, diria que o governo Lula foi um espasmo de crescimento.

Perspectivas para o Brasil

Se você pegar a taxa de crescimento do PIB e a decompuser em seus dois componentes, que são população e produtividade total, verá que as perspectivas não são muito animadoras. No primeiro período, o do crescimento de 7% ao ano, 4,2% foram decorrentes da produtividade e 2,8% do crescimento demográfico. No segundo período, aqueles 7% baixaram para 2,2% e os 2,8% caíram para 0,7%. Então, olhando para frente, como ficará a situação? O primeiro complicador é demográfico. Isto porque a partir de 2049, a população tenderá a parar de crescer. Mas já no final da década de 30, isso já estará acontecendo com a população que entrar no mercado de trabalho. A contribuição da demografia para o crescimento econômico será de zero. Sobra a produtividade, que, estudos atuais, indicam que irá contribuir com apenas 0,5%. Nesse cenário, se absolutamente nada for feito, o potencial de crescimento do Brasil é de somente 0,5%, porque é impensável que a população volte a crescer. Assim, o destino do Brasil depende de nossa capacidade de aumentar a produtividade. Esse é o tema que quero colocar em pauta para os engenheiros.

Limites do crescimento

Sim. Por isso, temos que mudar o Estado, abrir espaço para a participação do capital privado, discutir privatizações, concessões. Temos que mudar o Estado e preparar as empresas para conviver com esse novo cenário. Investir em educação ajuda a aumentar a produtividade, mas não é só colocar os meninos na escola. É condição necessária, mas não é suficiente, ainda mais em um ambiente no qual a revolução digital ganha mais espaço a cada dia e cujo impacto sobre a economia não conhecemos ainda. Não quero deixar uma mensagem catastrófica de fim do mundo, mas não podemos cruzar os braços e deixar o destino resolver. Quem sabe não precisamos ter uma ruptura e ter um Estado diferente. A gente sempre procura responsabilizar o outro. Mas o que nós precisamos é assumir coletivamente a responsabilidade pelos destinos desse país. Temos 28 milhões de desempregados e subempregados. Se pegarmos esse conjunto de pessoas, teremos o segundo estado do Brasil. O primeiro será São Paulo. Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

Em debate na SME, Paulo Paiva defendeu o aumento da produtividade como condição para a retomada do crescimento. Foto: SME/Divulgação

Jair Bolsonaro

Acho que o atual governo fez um diagnóstico correto da economia. A dificuldade está na implementação do diagnóstico, é no como fazer. Até agora, vejo que o governo não conseguiu transferir para a sociedade a visão clara do que ele pretende fazer. O governo Temer deixou prontos vários projetos que iam nesse sentido. E o governo Bolsonaro perdeu tempo ao não querer usar um projeto de reforma da Previdência que já estava sendo votado. Gastou tempo, energia e capital político desnecessariamente. O governo está preso na armadilha das reformas constitucionais, mas ninguém consegue governar um país só com uma agenda de reformas constitucionais. O resto, se está andando, não é comunicado para a sociedade. Crescimento econômico não tem nada de ideológico. É apenas decidir entre uma visão mais liberal ou menos liberal. A discussão é se vai concentrar mais o Estado ou se vai dar mais participação para a iniciativa privada. Infelizmente, a ideologia está contaminando o governo Bolsonaro. Uma questão é o ajuste fiscal. É preciso cortes no orçamento das universidades. E aí vem o ministro da Educação e diz que tem muita ideologia nas universidades. O governo deveria ser mais técnico e menos ideológico. Deveria usar sua energia para convencer as pessoas de que o Brasil deveria crescer. E parar com essa discussão se o homem deve usar azul e a mulher, rosa; se a escola deve ter partido ou não deve ter partido. Precisamos é agregar pessoas a um projeto de desenvolvimento do Brasil. M.F.

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TECNOLOGIA

Aplicativos facilitarão ainda mais a vida do cidadão Da mesma forma, o cidadão que pensa em adquirir um carro poderá saber, em tempo real, o histórico do veículo. Nesse histórico, será possível obter informações sobre o número de proprietários que o veículo já teve, os acidentes envolvidos e demais dados que poderão auxiliá-lo na decisão de compra. Essas medidas estão caminhando para se tornar realidade. Elas constituem APIs que estão sendo desenvolvidas pela Companhia de Tecnologia da Informação do Estado de Minas Gerais (Prodemge), uma empresa pública do governo de Minas que dá suporte à transformação digital do Estado, executando um trabalho de grande utilidade para o cidadão. As APIs são um conjunto de funções e procedimentos que permitem a comunicação entre sistemas. Dessa forma, as APIs disponibilizadas pelo Estado permitirão que empresas e desenvolvedores criem soluções que consultem os dados da administração pública estadual, propiciando a integração de processos e serviços. Em palestra proferida na Sociedade Mineira de Engenheiros (SME), o diretor-presidente da Prodemge, Rodrigo Paiva, explicou que elas serão disponibilizadas dentro de algum tempo e trarão benefícios para a rotina das pessoas.

Anúncio do desenvolvimento dos aplicativos foi feito pelo presidente da Prodemge em debate na SME. Foto: SME/Divulgação

É

muito comum o cidadão pedir um automóvel pelo aplicativo de transporte e, ao entrar no carro, ou mesmo durante o percurso, ter algum tipo de desconfiança em relação ao motorista. Hoje, em situações como essa, não há muito o que o passageiro possa fazer. Ou ele interrompe a corrida, ou segue em frente até seu destino final, mesmo estando inseguro em relação ao motorista.

Porém, essa situação deverá mudar. Futuramente, o passageiro poderá consultar em seu celular a informação se o motorista tem atestado de bons antecedentes. Se não tiver, o passageiro poderá decidir por não efetuar a corrida.

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De acordo com Rodrigo Paiva, todas as soluções baseadas nas APIs seguirão estritamente a Lei Geral da Proteção de Dados (LGPD), qque está para entrar em vigor. A nova legislação prevê que dados pessoais estarão disponíveis desde que o cidadão autorize expressamente seu uso. Capilaridade – A rede de dados do governo operada pela Prodemge alcança 706 municípios mineiros, em 4.161 pontos de atendimento ao cidadão. Sob responsabilidade da empresa, essa rede interliga hospitais públicos do governo de Minas, delegacias de polícia, centros de atendimento 190 da Polícia Militar e escolas públicas estaduais, entre outros tipos de serviço prestados pelo governo do Estado. A Prodemge também é a responsável técnica do MG App, o aplicativo por meio da qual o governo de Minas disponibiliza diversos serviços públicos que podem ser realizados pela internet. Entre eles estão os relacionados a veículos e condutores; emissão de carteira de identidade; segurança pública; impostos e taxas e também os do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), entre inúmeros outros. Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


Eventos SME Recentemente, o aplicativo recebeu o reconhecimento nacional com o prêmio e-Gov, na categoria e-Serviços Públicos, entregue no Seminário Nacional de TIC para a Gestão Pública (Secop). Essa plataforma está em con stante evolução. Em breve, ela disponibilizará o histórico escolar dos alunos das escolas públicas do governo de Minas, que poderá ser consultado pelos pais. A novidade possibilitará que os responsáveis legais dos estudantes acompanhem o desempenho de seus filhos e tomem as medidas necessárias para que eles tenham um melhor rendimento na escola. A Prodemge também opera os sistemas corporativos do Governo de Minas, como o Sistema de Administração de Pessoal (Sisap), no qual estão abrigados 470 mil servidores e que é responsável por cerca de 530 mil pagamentos mensais; o Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), que tem 15,2 mil usuários ativos e recebe 68,8 milhões de acessos por mês; e o Sistema Integrado de Administração de Materiais e Serviços (Siad), no qual estão cadastrados cerca de 160 mil itens de materiais e serviços demandados pela administração estadual. Em uma frase, o presidente da Prodemge resume a importância da companhia para o Estado: “Sem a Prodemge, o Estado para”.

O fim do CRLV impresso vai na mesma linha de ação que gerou o fim da impressão do “Minas Gerais”, o diário oficial dos poderes do estado que, desde o início do ano, tem apenas sua versão on-line. A versão em papel exigia, de acordo com o presidente da Prodemge, a mobilização de uma estrutura de pessoal e maquinário muito dispendiosa para a impressão de apenas 500 exemplares. O fim da versão impressa do “Minas Gerais”, que gerou uma economia anual de R$ 3 milhões, faz parte da estratégia adotada por ele desde que assumiu a presidência da Prodemge, no início do ano, de torná-la uma empresa mais eficiente, enxuta e empenhada na transformação digital do Estado. Rodrigo Paiva afirma que recebeu a companhia com uma dívida de R$ 90 milhões e com R$ 150 milhões em contas a receber. “A Prodemge era uma empresa que lutava para sobreviver”, explicou. A reorganização de sua estrutura trouxe a redução, de quatro para duas, do número de diretorias, e de 105 para 52, do número de unidades organizacionais em que a empresa estava dividida. Com essas e outras medidas, foi possível, segundo ele, uma economia de R$ 70 milhões por ano. “Ainda há muito trabalho a ser feito, mas os resultados alcançados apontam que estamos no caminho correto”, concluiu. M.F.

Brüel & Kjᴂr – Type 2270

Nos planos da empresa, estão projetos em conjunto com órgãos e entidades do governo para a eliminação da impressão de vários documentos. Um deles, segundo Rodrigo Paiva, é o Certificado de Registro e Licenciamento

de Veículos (CRLV), cuja impressão e envio custam ao Estado R$ 50 milhões por ano.

Acústica Ambiental e Industrial

Mapas Acústicos

Medições e Ensaios

Laudos técnicos

Ambientais

Laudo de Ruído Ambiental ABNT NBR 10151:2000 (Acreditado CRL-0476)

Projetos acústicos

Industriais

Ergonomia e Ambientes de Edificações (ABNT NBR 10152:2017 / NR-17)

Assessoria e consultoria técnica

Ocupacionais

Desempenho Acústico de Edificações (ABNT NBR 15575:2013)

Calibrações Sonômetro (IEC 61672-3/651/804) Calibrador sonoro (IEC 60942) Microfone (IEC 61094-5) Audiodosímetro (ANSI S1.25)


Eventos SME

MINERAÇÃO

Ibram admite erros e promete mudanças

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Flávio Penido (centro) e Wilson Brumer (direita) debateram na SME o futuro da mineração no Brasil. Foto: SME/Divulgação

o primeiro evento público realizado após o Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) ter autorizado, em outubro, a Samarco a retomar suas atividades, os dois principais executivos do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) fizeram uma autocrítica, anunciaram mudanças e, ao mesmo tempo, fizeram um apelo. A autocrítica era no sentido do reconhecimento dos erros que resultaram no rompimento das barragens de Fundão, em Mariana; e Córrego do Feijão, em Brumadinho. O apelo era no sentido de que a mineração como um todo não fosse penalizada, por exemplo, com o aumento de tributos que onerem todo o setor, como uma espécie de resposta ao que ocorreu nas duas cidades. “A gente tem que lamentar tudo o que aconteceu. Nós não chamamos de acidente. Chamamos de tragédia. Temos que lamentar profundamente”, afirmou Wilson Brumer, presidente do Conselho Diretor do Ibram, durante o debate, realizado na sede da Sociedade Mineira de Engenheiros (SME). Para ele, a mineração tem um desafio pela frente: o de fazer com que a sociedade volte a

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acreditar no setor, que tem seus problemas, como ele admitiu, mas também suas qualidades, como a geração de empregos e renda, como ele ressaltou nos números apresentados no evento. De acordo com o presidente do Conselho Diretor do Ibram, a mineração gera 180 mil empregos diretos e responde por 36% do saldo da balança comercial brasileira, ocupando apenas 0,5% do território nacional. Quem também definiu o rompimento das barragens como uma tragédia foi o presidente do Ibram, Flávio Penido, que considerou o fato como resultado de uma realidade que o setor tem que encarar; a existência de barragens construídas há mais de quatro décadas e que nem sempre recebem a devida manutenção. Tal como Brumer, Flávio Penido reconhece que uma parte da população não tem uma boa imagem do setor. Não sabe, por exemplo, segundo ele, que a mineração é a dona de parte significativa das áreas de preservação existentes ao sul da Região Metropolitana de Belo Horizonte, como a Mata do Jambreiro; ou na região de Poços de Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


Eventos SME Caldas, no Sul de Minas, onde a área operada pela Alcoa foi recomposta e nem de longe lembra que já foi uma mina de bauxita. Ele também entende como injusto que o setor todo seja penalizado. Como exemplo, citou a existência hoje, em tramitação no Congresso Nacional, de aproximadamente 140 projetos de lei, todos apresentados após os rompimentos, que impõem penalidades para o setor. Como exemplo, Flávio Penido citou um, que proíbe a construção de barragens em todo o território nacional. Penido lembra que a medida, se aprovada, comprometeria, inclusive o abastecimento de água, já que há barragens construídas com este único objetivo. Diante de tais situações, o que o Ibram tem feito, segundo ele, é mostrar a deputados e senadores, com racionalidade, o que é viável e o que não é. Ele se queixa da inexistência de proposições que tenham o sentido de instituir normas legais que, por exemplo, aumentem a segurança das barragens, predominando a preocupação em penalizar o minerador. Como exemplo de postura que considera adequada a situações com a que vive hoje o Brasil, Flávio Penido cita o Canadá, onde há cinco anos, em agosto de 2014, ocorreu o rompimento da barragem da mina de ouro da empresa Mount Polley e que resultou no derramamento de um volume de rejeitos correspondente à metade da de Fundão. Lá, a solução adotada, que Flávio Penido considerou correta, foi a investigação das causas do que ocorreu, o desenvolvimento de novas técnicas de operação e a reabertura da mina em melhores condições de segurança. A reabertura da mina é importante, segundo ele, porque é preciso que a empresa gere os recursos que permitirão o pagamento dos prejuízos causados. “É importante ter o sentido de verificar o que ocorreu, mas ao mesmo tempo, é preciso olhar para frente”, afirmou o presidente do Ibran durante o debate na SME. ANM – Também na linha de mudar a imagem do setor, Brumer defendeu o fortalecimento da Agência Nacional de Mineração (ANM) de tal forma que esta tenha o peso compatível com o setor de mineração. “Não adianta simplesmente transformar o antigo DNPM [Departamento Nacional de Produção Mineral] em uma agência de mineração, frisou. “Precisamos de uma agência forte para realmente fazer com o que o setor cresça. Uma agência não de governo, mas de Estado”, enfatizou o presidente do Conselho Diretor do Ibram, que insistiu também na importância de a sociedade reconhecer os acertos do setor, bem como sua importância para a vida moderna. “Não existe desenvolvimento sem mineração. Mineração está nesta casa, no ar condicionado, no remédio. É preciso que a sociedade entenda mais o que é mineração”, afirmou Brumer, para quem também está passando da hora de a mineração ser incluída na agenda de desenvolvimento do país. Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

Situação de barragens construídas há mais tempo é uma realidade que, segundo o Ibram, setor tem que considerar. Foto: Prefeitura de Sorocaba/SP

Documento – Durante o evento, os dirigentes do Ibram divulgaram documento em que cerca de 200 profissionais do setor definem as bases da transformação da mineração. O documento lista 12 compromissos e ações previstas para cada um deles. Os compromissos são: segurança operacional; barragens e estruturas de disposição de rejeitos; saúde e segurança operacional; mitigação de impactos ambientais; desenvolvimento local e futuro dos territórios; relacionamento com comunidades; comunicação e reputação; diversidade e inclusão; inovação; água; energia e gestão de resíduos. Críticas – Durante o evento, ele também ouviu críticas. Houve reclamações quanto à atuação dos representantes do setor mineral no Copam, que sempre teriam atuado no sentido de impedir a ampliação das áreas de preservação, especialmente ao sul da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Houve críticas também quanto a uma suposta pouca preocupação do setor mineral em relação à preservação dos recursos hídricos na região. Também foram feitos questionamentos sobre o pagamento, pelas mineradoras, das multas aplicadas pelos órgãos ambientais quando dos rompimentos das duas barragens. M.F.

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Homenagem

MERECIDA HOMENAGEM

Marita Tavares é Doutora Honoris Causa da Unifei Marcelo Freitas

Título foi entregue a Marita Tavares em concorrida solenidade na Unifei. Foto: Unifei/Divulgação

O

dia 23 de novembro último foi um dia especial na vida da engenheira Marita Arêas Tavares, a “nossa decana”, como carinhosamente assim a trata o presidente da SME, Ronaldo Gusmão, sempre que a apresenta em público. Neste dia, Marita Tavares recebeu o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), onde se formou, em 1962.

Em seu pronunciamento, o reitor da Unifei, Dagoberto Almeida, disse que Marita Tavares é uma pessoa que, ao longo de sua vida, sempre demonstrou grande generosidade com a Unifei, nunca se furtando a contribuir com a instituição. Este ano, Marita Tavares foi uma das articuladoras do movimento para a retomada das obras do Laboratório de Inovação de Itajubá, que foram interrompidas em meados do ano. Dagoberto Almeida citou também seu trabalho em fator da Fundação Teodomiro Santiago (FTS), mantida pela

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universidade e que, entre outras ações, apoia jovens carentes no programa Garanta o Futuro. “O fato é que a engenheira Marita tem se mostrado uma força viva que merece ser reconhecida e respeitada, razão pela qual o título Doutor Honoris Causa se presta perfeitamente a esse propósito”, disse o reitor. Marita Tavares disse que recebeu a notícia com muita surpresa e emoção. Ela conta que sempre teve uma ligação estreita com a Universidade, muitas vezes através da Associação dos Diplomados da Unifei, da qual foi presidente, ou também da FTS, de cuja diretoria e conselho curador fez parte. Marita Tavares foi também uma pesquisadora e divulgadora da história da instituição e dos personagens envolvidos na sua trajetória. “Mas, se tive uma colaboração, sempre foi por puro prazer, sem nunca esperar por qualquer reconhecimento ou recompensa”, afirmou. Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019


Rodrigo Coutinho

RODRIGO COUTINHO

Grande perda, para a SME e para a engenharia Marcelo Freitas

Ele era uma pessoa que não deixava uma causa em descoberto.” – Teodomiro Diniz Camargos, vice-presidente da Fiemg

em seu sentido mais amplo. “Era uma pessoa extremamente alegre, irônica, positiva, crítica e, principalmente, um líder associativista”, definiu Teodomiro Diniz Camargos, vice-presidente da Federação das Indústrias no Estado de Minas Gerais (Fiemg) e integrante do Conselho Fiscal da SME.

Rodrigo Coutinho presidiu a SME entre 1994 e 1996. Era conhecido como uma pessoa alegre e um defensor das grandes causas da engenharia. Foto: Acervo SME

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ste ano, a SME perdeu um de seus grandes nomes: o engenheiro Rodrigo Otávio Coutinho Filho, ex-presidente da entidade e presidente do Conselho Deliberativo. Quem conheceu Rodrigo Coutinho ressaltou algumas de suas qualidades: era uma pessoa elegante no trato, um ótimo gestor e alguém sempre preocupado com o contínuo desenvolvimento dos projetos ligados à SME e à engenharia Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

Segundo Teodomiro, em todo ambiente em que Rodrigo Coutinho chegava, ele primeiro se inteirava das questões coletivas e, em seguida, se disponibilizava para ajudar a implementá-las. Como exemplo, aponta a interferência direta dele para que a área de habitação popular fosse incluída no documento encaminhado pela Fiemg ao governo federal contendo prioridades do setor para o governo federal colocar em prática assim que fosse empossado. De acordo com Teodomiro, assim que soube que havia esse programa em curso e que nele não havia nada previsto para a área de habitação, Rodrigo Coutinho fez contato com o Sindicato da Indústria de Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon) e depois com a Companhia de Habitação do Estado de Minas Gerais (Cohab), onde levantou as informações necessárias e compôs a proposta que incluiu o setor de habitação no plano entregue ao governo. “Ele era uma pessoa que não deixava uma causa em descoberto”, afirmou Teodomiro

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Rodrigo Coutinho

Reforma da sede Rodrigo Coutinho Filho foi presidente da SME entre 1994 e 1996. Em sua gestão foi feita a reforma do saguão da sede da entidade, com a retirada da escada que havia no meio do espaço e sua transferência para a entrada lateral. Também em sua gestão ocorreu uma das solenidades mais concorridas da história da instituição – a entrega do prmio “Engenheiro do Ano” a Itamar Franco, que havia deixado a presidência da República em 31 de dezembro de 1994. Naquele ano, como o número de pessoas que haviam confirmado presença na solenidade superava em muito a capacidade da sede da SME, a solenidade acabou sendo transferida para o Palácio das Artes, que ficou lotado. Nos anos de 1990, a SME vivia um período de grande efervescência. Nos anos seguintes, perdeu um pouco do protagonismo que tinha, até deixar sua sede, para a qual retornou em fevereiro de 2017.  Segundo a conselheira da SME Marita Arêas de Souza Tavares, uma das grandes preocupações de Rodrigo Coutinho era no sentido de fazer com que a SME retomasse o protagonismo de antes. Ele, porém, recusou o convite para que disputasse a presidência da entidade, aceitando apenas ser o presidente do Conselho Deliberativo. Isso, entretanto, não foi, segundo ela, um empecilho para que ele sempre trabalhasse em prol da entidade. “Era uma pessoa que tinha um entusiasmo permanente”, afirmou Marita. Para Francisco Maia Neto, ex-diretor da SME, Rodrigo Coutinho deixou para a entidade um duplo legado. O legado material foi o de reforma da sede; o imaterial foi o de, mesmo após deixar a presidência da entidade, ter continuado a dela participar no seu dia a dia. “Rodrigo era uma pessoa que aglutinava pessoas”, definiu Maeli Estrela Borges, diretora da SME. Maeli aponta, entre as qualidades de Rodrigo, sua alegria constante e a suavidade no trato com as pessoas. Como exemplo disso, ela cita episódio recente ocorrido no grupo de WhatsApp da SME. Maeli conta que havia postado uma carteira da SME do tempo em que ainda era aspirante a associada. Na sequência, Rodrigo Otávio comentou no grupo: “O engenheiro Aarão Reis tinha uma igual”. Segundo Maeli, vindo de outra pessoa, a frase seria tomada como ofensiva. Porém, vinda dele, segundo Maeli, era apenas mais uma das rotineiras brincadeiras com as quais procurava alegrar o ambiente, ainda que virtual. “Era uma pessoa gentil e elegante”, definiu Emir Caddar, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Pesada no Estado de Minas Gerais (Sicepot) e também associado da SME. Rodrigo Coutinho era empresário da área de construção e também associado do Sicepot. “Fizemos muitos eventos juntos”, afirmou Emir Caddar.

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Artigos

De desempregada a diretora executiva de uma rede com mais de 50 mil usuários História do Portal Agromulher Por Vanessa Sabioni

Olá! Sou Engenheira Agrônoma e venho hoje relatar uma parte da minha vida que representa minhas passagens pelo universo agro e como cheguei até aqui como fundadora do Portal Agromulher.

networking no agronegócio. Meu dia a dia sempre foi conversar com profissionais do agro: gerentes, diretores, líderes… Sempre achei que eles eram os caras mais “tops”. E são, pode ter certeza. Queria ter contato com os produtores e saber o que pensavam. Logo, idealizei uma marca, o AGROMULHER. Um amigo me indicou uma plataforma para desenvolver um site em que eu pudesse divulgar informações sobre mulheres do agro, carreira, gestão e universo agro, como um blog. Em fevereiro de 2017, desempregada, sem dinheiro, sem saber o que fazer, reiniciei o projeto com o Portal Agromulher. Voltei a fazer edições no site e o coloquei no ar, porém não divulguei na mídia. Ao mesmo tempo fazia entrevistas de emprego e um intenso networking pelo Facebook e Linkedin, preocupando-me principalmente com a forma de compartilhar conteúdo e com a forma de abordar os executivos do agro.

Foto: Vanessa Sabioni

N

osso propósito é capacitar, inserir e valorizar a mulher do agronegócio. Atualmente, somamos mais de 50 mil usuários em todas as redes sociais, nas quais publicamos conteúdo diariamente e interagimos fortemente com nosso público. Na minha primeira oportunidade no agronegócio, no ano de 2016, iniciei como assistente técnica numa empresa de agroquímicos, atuando na relação de venda com clientes, venda e marketing de produtos, e campos demonstrativos. Também tive contato com o preconceito, o assédio e a competição. Foi uma das fases mais difíceis da minha vida, mas passar por ela me fez uma pessoa mais consciente dos meus próprios limites e potencial, e ainda pude fazer muitas amizades, adquirindo conhecimentos técnicos e visão mais abrange sobre os mercados do agro. Na segunda oportunidade em 2017, atuei no marketing para o desenvolvimento de mercado de adubos especiais, atendendo cooperativas e revendas. Nesta oportunidade me vi perdida. Tudo que havia aprendido lá atrás tinha virado poeira e a minha vida estava péssima. Tinha um gestor insensível, negativamente competitivo e que fazia microgerenciamento comigo. Ele não percebeu o excelente trabalho que eu fazia, conquistando a amizade dos gerentes das cooperativas e das pessoas que trabalhavam nelas. Eu fazia várias visitas técnicas nas fazendas nas quais eu vendia, montava campos demonstrativos e os clientes falavam muito bem do meu trabalho, dos produtos e dos resultados efetivos. Sempre gostei de estar na mídia e nas redes sociais. Sempre gostei de mostrar a minha carinha. Aliei esta vontade ao amor pelo

Revista Mineira de Engenharia nº 41 | 2019

Em maio de 2017, coloquei o Portal Agromulher no ar. Contava com três colunistas para a produção de conteúdo e o artigo de estreia foi uma publicação minha com um vídeo e entrevista com a pecuarista e gestora Teresa Vendramini, a primeira mulher a assumir uma posição administrativa na Sociedade Rural Brasileira, em 90 anos. Conheci a Teresa no Facebook através das postagens que faziam sobre ela. Um grande exemplo de liderança feminina no agro. Olhando para o passado e observando como estou hoje, consigo ver-me mais forte, mais resiliente e muito mais focada. Os obstáculos e desafios que enfrentei e ainda enfrento, me fazem ser uma mulher mais FORTE, mais DETERMINADA e mais CONSCIENTE, porque eu escolhi me levantar das quedas e fazer destas os meus degraus para o meu sucesso pessoal e profissional. Hoje o Portal Agromulher faz parte da estruturação da Rede Digital Agromulher, que possui mais de 30 mil seguidores no Instagram, mais de 9 mil curtidas na página do Facebook, grupos, Canal no Youtube, além de diversos líderes ou embaixadores que se assumem como representantes dos valores e princípios do Agromulher. Este ano lançamos o aplicativo Agromulher que é mais um canal que criamos para informar, socializar e conectar as mulheres do Agro. A Rede Digital Agromulher promove todas as mulheres do agro e os grupos formados por elas, e apoia o empoderamento feminino no sentido de fortalecimento e união. Compartilha conteúdos sobre Agromulheres de todo o Brasil, além de publicações relacionadas a carreira, gestão, universo agro e notícias. Fazemos eventos digitais com o objetivo de promover o desenvolvimento pessoal e profissional de jovens, estudantes, profissionais, gestores, empreendedores e jornalistas do agro. O Agromulher chegou até aqui graças a uma equipe maravilhosa, que se empenha e tem paixão pelo nosso propósito. Sem ela não estaríamos onde estamos, crescendo, contribuindo e transformando a vida das pessoas. Gratidão a toda equipe e a todas as pessoas que nos apóiam ou participam de nossas ações. Vocês nos dão força para continuar nessa caminhada. Vanessa Sabioni de Almeida CEO e Fundadora AgroMulher Eng. Agrônoma e MSc em Fitopatologia

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