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CADERNO DE ENTREVISTAS COM LIDERANÇAS LOCAIS

2009


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Atribuição-Uso não comercial- compartilhamento pela mesma licença 2.5 Brasil- Vedada a criação de obras derivadas Você pode: • copiar, distribuir, exibir e executar a obra Sob as seguintes condições: Atribuição: você deve dar crédito ao autor original, da forma especificada pelo autor ou licenciante. Uso não-comercial: você não pode utilizar esta obra com finalidades comerciais. • Para cada novo uso ou distribuição, você deve deixar claro para outros os termos da licença desta obra. • Qualquer uma destas condições podem ser renunciadas, desde que você obtenha permissão do autor. Qualquer direito de uso legítimo (ou “fair use”) concedido por lei, ou qualquer outro direito protegido pela legislação local, não são, em hipótese, alguma afetados pelo disposto acima.

CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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Apresentação Criada em 2005, a Fundação Tide Setubal é uma instituição que nasce como objetivo de apoiar o desenvolvimento local e fortalecer o exercício da cidadania nas comunidades em que atua. Os projetos e as atividades desenvolvidos acontecem prioritariamente em São Miguel Paulista, zona leste da cidade de São Paulo. Na concepção e realização dos projetos, a Fundação Tide Setubal utiliza uma metodologia participativa aberta a moradores e lideranças locais, aliada a pesquisas, estatísticas e indicadores sociais da região. Nesse contexto surte o Centro de pesquisa e documentação – CPDOC, criado em 2008 a partir da formação dos jovens do projeto São Miguel Paulista e Brasileiro – SMPB, que tem como foco a memória local especialmente nas áreas de educação, cultura e cidadania. O Caderno de Entrevistas “Um olhar sobre São Miguel Paulista – moradores revelam: cultura, tradições e costumes do bairro” é um compêndio das entrevistas realizadas pelos jovens do projeto São Miguel Paulista e Brasileiro em 2006. Memórias,

conhecimentos,

narrativas,

valores,

desejos,

sentimentos,

aprendizagens... as relações inerentes a cada lugar vão muito além de seus contornos físicos e sua localização geográfica. O lugar em que vivemos é uma espécie de espaço protetor, de enraizamento, um porto seguro carregado de significados profundos constitutivos do nosso ser, pois local de pertencimento e identidade. A sociedade contemporânea, complexa e globalizada, é atravessada por processos sociais, tecnológicos, econômicos multideterminados, e é na esfera local que esses processos acontecem concretamente. Portanto, cada lugar contém elementos do global e, ao mesmo tempo que dialoga com eles, reorganiza-se com base em CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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características próprias, que são construídas em um contexto especifico de valores, formas de ser, de trabalhar e de lazer. Enfim, de sua cultura. O patrimônio cultural diz respeito aos legados das gerações anteriores que fazem com que as pessoas sejam da maneira que são;eles formam os modos de falar, de vestir, comer, morar, festejar, construir, rezar, casar. Pela transmissão de seu patrimônio cultural, os membros de um grupo se reconhecem nas gerações anteriores, das quais receberam essa herança repassada à geração seguinte. O diálogo com o passado traz esse passado para o presente, juntamente com pessoas e fatos ausentes que, através da memória, se libertam do tempo. Por meio da partilha de um patrimônio cultural comum, as pessoas sentemse pertencentes a um lugar, a um grupo a uma história. A valorização das histórias, memórias, saberes e fazeres locais permite que crianças, adolescentes, e jovens se reconheçam nessa história, possibilitando-lhes a articulação entre passado e presente e entre o local e o global. Na recuperação do patrimônio cultural imaterial de uma comunidade, bairro ou cidade, ganham voz personagens que trazem à tona nossas especificidades culturais e diversidade de nossas tradições e costumes. Recuperar essas histórias representa, ainda, a valorização de uma auto-estima perdida, a união em torno de valores e crenças comuns e, sobretudo, a abertura de espaços que façam circular seus interesses de forma a se configurarem em planos e projetos para o futuro. Assim, que este compêndio seja para as diferentes instituições de São Miguel – escolas, bibliotecas, ONGs, núcleos socioeducativos, centros da juventude, associações de bairro, igrejas – possam sentir-se reconhecidas e identificadas nesses relatos e imagens. Para nós, é também uma forma de fazer com que São Miguel Paulista possa ser conhecido e re-conhecido em outras regiões de São Paulo, e desse modo participar de forma mais ativa das discussões e planos da cidade. CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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Índice: José Nario Pereira dos Santos Narinho...................................................................................................06 Sueli Kimura.............................................................................................................................................................44 Ronaldo Delfino de Souza...............................................................................................................................70

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José Nario Pereira dos Santos Narinho

José Nario Pereira dos Santos, mais conhecido como: "Seu Narinho", 58 anos, natural de Aiquara (Bahia), morador do Jardim Lapenna, é líder comunitário e presidente da Sociedade de Amigos do Jardim Lapenna.

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A entrevista ocorreu na sede da Sociedade Amigos do Jardim Lapenna na manhã do dia 10 de fevereiro de 2009. A equipe do CPDOC foi formada pelo coordenador Mauro Bonfim, e pelos estagiários Camila Brazão e Diego Albino Figueiredo. CPDOC – Bom dia, seu José Nário, posso chamá-lo de Narinho? Narinho – Narinho é o nome predileto do meu conhecimento, do pessoal conhecido. E bom dia.

CPDOC – Seu Narinho, vamos começar essa conversa e eu gostaria que o senhor contasse como era a infância, a adolescência, como é que era a vida na cidade, e no caso, na região de Aiquara. Narinho – Bom, eu nasci na roça. Eu nasci em 1950. Com 9 meses de vida eu era uma criança muito doente, minha mãe era muito jovem e ela não tinha experiência. Eu era o primeiro filho da família e ela não tinha experiência para cuidar e eu fui doado para aos meus avôs. Então, até os 14 anos, eu fui criado com avós. E após os 14 anos de vida, meus avôs vieram falecer e eu retornei para o convívio dos meus pais. E a minha vida foi sempre roça. Aos 10 anos já trabalhava na roça, plantava mandioca, milho, colhia cacau, banderava cacau, não é colhia porque quem colhia eram os adultos. E sempre trabalhei na roça, até os meus 18 anos. Depois dos meus 18 anos eu tive uma passagem, fui morar com uma família conhecida em São Sebastião do Passe, entre Candeias e Salvador, fiquei 11 meses lá, não me adaptei CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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porque roça não era meu forte, roça não fazia parte do meu dia a dia. Eu não era daqueles moradores de roça que acordava cedo para ir para a roça, que acompanhava os pais para tirar leite às 5 horas da manhã, para correr atrás de gado, montar em burro bravo. Então meus pais me davam uns courozinhos de vez em quando, achavam eu muito mole. Depois, aos 20 anos, fui para Ipiaú, trabalhar numa churrascaria quebra viola, trabalhei durante 3 anos lá. A minha infância, estudei até o 4º ano, não era bom de escola, dava um trabalho danado para ir para a escola. Eu não tenho muita coisa a falar assim do Norte, da infância, porque eu era uma pessoa muito tímida. Sempre fui tímido. Vim a me desenvolver um pouco aqui, de uns anos para cá, eu era muito tímido. Então, eu brincava, no meio de todas as crianças, batia uma bolinha naqueles campinhos de terra. No meio lá não tinha terra, era campinho nas roças mesmo – como se fala? puxa! já até esqueci o nome, faz tanto tempo – é nas mangas, lá chama mangueira onde criava uns pastos, tinha lá de frente aqueles pastos que tinha uns campinhos de futebol ali. E a gente brincava no final da tarde, aqueles rachinha lá. E falar da Bahia, eu falo muito pouco. Falo muito pouco porque a minha trajetória foi ali mais na roça. Até os 18 anos a gente trabalhava, mas quem recebia o dinheiro era o pai, era o pai que comprava roupa, era o pai que comprava o sapato. Então, tinha pouca liberdade. Íamos à cidade, até os 18 anos, quando os pais levavam, os avôs levavam, os tios. Sempre a gente morava muito distante da roça CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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para a cidade e isso dificultava um pouco até o desenvolvimento da gente lá. Depois eu fui morar numa cidade com os compadres do meu pai me levou para morar em Ipiaú numa outra cidade. Fui trabalhar num restaurante. Lá fiquei 3 anos. Após 3 anos decidi vir embora para São Paulo. Isso foi uma coisa assim, de um dia para outro. Nós não estávamos muito preparados, já tínhamos parentes aqui, mandava carta falando de São Paulo e tal. Eu já tinha irmão mais novo do que eu que estava morando em São Paulo, eu decidi vir embora para São Paulo. Então, hoje eu estou com 58 anos, 23 fiquei na Bahia, o restante em São Paulo: 25 em São Paulo. Então, eu sou metade paulista e metade baiano. Conheço mais São Paulo do que da Bahia. Eu tenho mais histórias para contar de São Paulo do que da Bahia.

CPDOC – Emendando um pouquinho já nessa trajetória, como é que foi a vinda para São Paulo. Como é que foi essa jornada, sair da Bahia e como é que o senhor se instalou aqui em São Paulo? Narinho – Para vir para São Paulo eu dependi de um ex-patrão meu. Na hora em que nós resolvemos vir para cá, ele me deu o dinheiro da passagem. Eu não tinha como vir, e ele me deu o dinheiro da passagem. Só que parece que já tinha alguma coisa dizendo que o meu lugar não era na roça. O meu convívio não era na roça, eu tinha que ir para a cidade grande procurar outra coisa para fazer porque a roça não era o meu objetivo, não era o meu futuro. E quando eu cheguei, eu e mais outro CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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rapaz, um colega meu que era da mesma cidade. Eu vim em 1973, cheguei aqui em 14 de março de 73. Eu vim só com uma carta de um irmão meu, o meu irmão trabalhava na Nitro e morava já no Jardim Lapenna. Só que eles mandavam carta para a gente e essas cartas chegavam com o endereço de comércio, de bares, a vila aqui ainda não chegava carta nessas residências. Ele deixava as cartas na Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, na Praça do Forró. E viemos só com essa carta com o endereço e o dinheiro da condução contado. E foi engraçado, chegamos na rodoviária que era na Estação da Luz, pegamos um táxi e viemos no endereço, nesse endereço nosso aqui, que era aonde hoje é a loja de cama e mesa aqui da Praça do Forró, ali era um bar. E nós viemos de táxi, o táxi parou, os carros passavam em frente da Capela, ali naquele triangulozinho ali, era aonde tinha a passagem dos táxis. O carro não passava na frente do Posto de Saúde não, passava na rua do meio, aonde é a praça hoje. E o rapaz do táxi ficou esperando, ele veio com a gente até o bar para procurar esse endereço. Quando chegou, o dono do bar chamava Piauí – que eu fiquei conhecendo depois – ele foi muito ingrato com a gente, falou que não conhecia aquele endereço, o nome da pessoa, não conhecia a Nitro e que ali passava muita gente. Como a gente era bem caipira mesmo, caímos em depressão, começamos a chorar os dois. Começamos a chorar e ficamos desesperados, com medo de ficar perdido, e esse motorista de táxi resolveu levar nós de volta para a rodoviária. Mas CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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eu era tão caipira, que ele olhou no taxímetro – eu lembro como hoje, uma coisa que está sempre na minha memória – eu sei que eu lembro que tinha um 2 e um 0. Naquela época deveria ser dois reais ou dois centavos. E a gente tinha 20 mil réis – eu não me lembro bem na época como era o valor do dinheiro - eu acho que era cruzeiro, 20 cruzeiros. E ele tomou esse dinheiro. Quer dizer, ele falou que era 20, nós temos 20 cruzeiros e ficou a zero, só com as sacolas, com a malinha de couro, com as malinhas de couro que nós trazia - naquela época usava trazer muita coisa, pimenta, farinha, carne seca - bastante coisa a gente trazia de lá para trazer para o pessoal aqui. Naquela época que não tinha ainda as feiras, as Casas do Norte, como tem hoje. Então, quando vinha uma pessoa do Norte para cá, trazia de tudo, e a gente trouxe tudo isso para dar para as famílias. Como nós ficamos perdidos, e nós tínhamos outro endereço lá de um amigo da família, em Americanópolis, o motorista de táxi se propôs a levar nós lá: já estava pago tudo mesmo. Daí ele ficou bonzinho, e levou nós para Americanópolis. Lá procuramos em tudo o que foi lugar, também não localizamos o endereço. E lá vamos nós de volta para a rodoviária porque nós queríamos ir embora a todo o custo naquele dia para a Bahia e lá nós íamos procurar os parentes para pagar a condução. A gente era meio inexperiente. E ao chegar à rodoviária, lá na Estação da Luz, ele parou em frente a um posto policial. Eu mesmo nunca tinha conhecido polícia fardada e essas coisas. E quando chegou na polícia o sargento falou: Já sei, andaram de táxi e não têm o dinheiro para pagar. CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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O motorista falou: não, doutor, são uns meninos bons, pagou tudo direitinho, mas estão perdidos e eles não querem ficar aqui, querem voltar para a terra deles, garante que chega lá, tem gente em Jequié para pagar a condução deles de volta. O sargento falou: Se esses baianos vieram para trabalhar, eu vou arrumar serviço para eles e tenho certeza que eles vão esquecer da Bahia. Desse jeito. Se eles vieram mesmo para trabalhar, pode ter certeza que eles vão esquecer que a Bahia existe. Parece que foi uma praga, que até hoje eu não retornei lá. Fez um bilhetinho, ali no Parque Dom Pedro estava iniciando as obras do metrô, estava tudo bagunçado ali, tinha alojamento, tinha tudo. E mandaram para nós ir lá ao metrô. Mandou o mesmo taxista levar nós até o metrô. E ao chegar lá, o rapaz que nos recebeu que era o chefe lá do departamento, era enteado desse sargento – sargento, cabo eu não lembro – ele brincou – eu lembro a frase tudinho – ele brincou assim, falou assim: é, tem que alojar eles porque se não alojar, quando eu chegar lá o meu padrasto me dá uma surra. Coincidência, as coisas vão se encaixando, e tudo foi dando certo para a gente. E eu acabei indo pra esse alojamento do metrô da Liberdade. Só que nós chegamos lá – eu não estou bem lembrado da data, mas era próximo do carnaval de 73 – e quando ele encaminhou a gente para lá, deram um marmitex para a gente jantar, que era no final da tarde, o cobertor, o capacete, aquelas botonas, encaminhou a gente diretamente lá para o alojamento. Nós fomos para o CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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alojamento, no outro dia cedo era para a gente descer para retornar lá para o escritório da Camargo Correa, aí nós fomos para a Camargo Correa, eles deram um documento para a gente ir na Rua Bom Pastor, parece que ali era um SESI, para primeiro fazer os exames, chapa de pulmão, para toda a documentação. E no outro dia a gente tinha que pegar os exames, levar lá no escritório lá da firma, já começar a trabalhar. Para minha infelicidade, quando nós fomos buscar, eu e o meu colega fomos buscar a documentação, que eu trouxe a chapa de pulmão, quando eu cheguei ao escritório, que fui passar no médico, a minha chapa de pulmão deu mancha. Deu uma mancha, eles queriam me desalojar do alojamento, que eu não podia estar em convívio com os outros funcionários. E aí já separou o rapaz que estava comigo, que chamava Cosme, que chama Cosme. Já separou, ele foi para um alojamento, eu fiquei no outro. E aí esse rapaz não queria deixar eu ficar mais no alojamento. Aí bateu o desespero. Aí comecei chorar, que eu sou chorão demais. Daí eu comecei chorar, cai aos prantos porque não tinha o que fazer. Ele me deu um prazo, disse assim: olha, hoje é 6ª feira, vai começar o carnaval, quando chegar na 4ª feira de Cinzas, você vai retornar, vai fazer novos exames, fazer novos exames e trazer os exames aqui. Se você continuar com problema, você vai ter que sair do alojamento porque não pode ficar no alojamento. Eu estou te dando uma chance. E aí eu fiquei lá durante quase 8 dias lá no alojamento sem fazer nada, só dormia, que o meu colega já estava trabalhando no outro alojamento, lá no meio, CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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na mesma avenida, mas distante da gente, nós não tinha mais contato. Só que eu desci para a Praça da Sé, o caipira, comecei a andar na Praça da Sé. Eu conheci um velhinho, naquela época ele deveria ter uns 60 e poucos anos, e ele viu a minha tristeza e eu preocupado e tal, começou a conversar comigo, ele era de Ilhéus, da Bahia. E aí ele, para me ajudar, pois eu contei a história para ele, estava perdido, não tinha dinheiro, precisava localizar a minha família, ele me perguntou se eu não queria ficar segurando aquelas plaquinhas de chapa de pulmão e de foto. Fiquei 5 dias na Praça da Sé com aquela plaquinha ali, o dia todinho em pé. Aí chegava umas pessoas, eu levava até ele porque ele ia levar lá onde tirava a foto, fazer esses exames, e quando chegava no final da tarde ele me dava o dinheiro para o café e me dava um dinheirinho para mim vir aqui no meu endereço para ver se eu encontrava meu irmão. Eu pegava o ônibus, vinha, atravessava até a linha do trem, chegava ali, não perguntava a ninguém e voltava. Eu era tão caipira que eu não perguntava. E a menos de 100 metros morava minha família. Como eu fiquei uma semana com esse senhor lá de Ilhéus e ele me dava um dinheirinho para mim vir procurar a minha família aqui em São Miguel, eu vinha, pegava o ônibus, descia na Praça do Forró, naquela época não era Praça do Forró, era Padre Aleixo Monteiro Mafra, e atravessava ali, que ali era a rua da balsa. Atravessava ali, do lado de baixo tinha um emporiozinho do Zé Firmino, ficava ali em pé uns 10 minutos e aí ficava com medo, retornava de novo lá para a Liberdade. Daí eu comecei, ele me ensinou para mim CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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fazer as cartas e colocar para o endereço lá da Liberdade, com o endereço daqui que eu tinha, dessa carta que eu trouxe, aqui para esse mesmo bar. E quando foi um belo dia, para a minha surpresa, era por volta de umas 6 horas da tarde, tinham roubado um gravador lá no alojamento e estava uma brigaiada danada, e polícia lá dentro, não deixava ninguém sair do alojamento, eu corri, fiquei na portaria, sem poder sair para fora, fiquei na portaria. Quando eu olho, olha quem chega? Meu irmão. E aí não podia sair ninguém de lá de dentro. Aí bateu o meu desespero! Eu com o medo do meu irmão ir embora e me deixar. Aí comecei aos prantos gritar, corri lá embaixo, peguei a malinha de couro e já vim para a portaria e: é meu irmão, meu irmão veio me buscar. E eu sei que o pessoal lá, a polícia foi lá, olhou a minha mala e ele me dispensou e eu vim embora. Vim embora com o meu irmão e deixei meu colega lá. Quando eu cheguei aqui em São Miguel, aí já foi outra história, foi uma alegria danada, os tios, tava aqui meus tios, meus primos, passamos a noite toda em claro, conversando, e na ansiedade para no outro dia ir buscar o meu colega. Foi um desespero. No outro dia fomos lá na Liberdade, já trouxemos o meu amigo lá, tivemos que ir no escritório da Camargo Correa para dar baixa no capacete dele, as coisas dele, o meu eles já tinham tomado mesmo, que eu não tinha passado nos exames. E entregamos tudo e viemos embora. Quando chegamos aqui na 6ª feira à noite, no sábado era o carnaval na Nitro. E o meu irmão trabalhava na Nitro. Fiquei, passei a CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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semana, quando foi na 5ª feira depois da 4ª feira de Cinzas, na 5ª feira ele me levou na Nitro, lá no departamento pessoal. Foi a minha sorte. Cheguei lá, já fizeram a minha ficha, tudo direitinho, tinha um berçario, tinha um clube, tinha um departamento onde fazia, cadastrava o pessoal para trabalhar. E eu fui passar no médico ali mesmo na Nitro, do lado tinha um laboratório, fiz todos os exames, a minha chapa do pulmão não deu problema. Com 8 dias, estava trabalhando na Nitro. Trabalhava lá na fiação. Trabalhei 2 anos e 8 meses na Nitro. Trabalhei pouco tempo na Nitro, que não era a minha praia também ficar em firma, não tive problema de pulmão, até hoje, aquilo era tudo ansiedade, desespero. Era para mim não trabalhar para a Camargo Correa. Eu vim fiquei na Nitro. A Nitro tinha problema de gás, chegava lá na enfermaria, todo o mundo com gás. Eu nunca peguei gás na Nitro. Nunca peguei gás na Nitro. Pode até hoje pegar a minha ficha, eles têm a minha ficha lá para dizer que eu era muito ousado, gostava de carnaval, pegava alguns atestados, mas não de gás. Pegava uns atestadozinhos, mas não de gás, para não ir trabalhar no dia de carnaval.

CPDOC – Falando um pouquinho em carnaval, vamos voltar um pouquinho lá na chegada, aqui no Jardim Lapenna. Como é que era o Jardim Lapenna? Como é que eram as ruas? Como é que era o local?

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Narinho – Então, quando eu cheguei no Jardim Lapenna, aqui era mato, tinha poucas casas. Tinha a Vila Nair, que é a mesma, tinha ali na passarela da rua principal, pegando a linha do trem, já tinha aquelas casas, era uma vilinha de tipo uma carreira de casa, essas são as casas mais antigas aqui, e aqui em baixo era tudo terreno. Casas, mas casas salteadas. Tinha, vamos supor hoje, 30% das casas que tem aqui hoje. Tinha 4, 5 passagens aqui para baixo, ali na rua principal na Angelina Lapenna, passava carro por cima dos trilhos. Na rua ali em frente à Praça do Forró, era a rua da balsa. Do lado de baixo tinha um empório, tinha só um empório ali. Tinha a balsa que atravessava o Tietê, que aqui era o Rio Tietê, tinha uma balsa que atravessava para o outro lado, aqueles terrenos que tinha aqui, onde tinha uma represa. Morreu muita gente aqui na represa. Inclusive perdemos um conhecido nosso, um amigo da gente aqui, que é sobrinho da Dona Glória. E era um bairro tranquilo. Um bairro tranquilo, bom de se viver. Ele estava se formando, o Jardim Lapenna. Apesar de ser um bairro antigo, era um bairro que estava se formando. Tinha muito loteamento, tinha campo de futebol aqui, próximo da onde é o mutirão hoje, tinha um campo de futebol que era da Portuguesa. E o pessoal pescava aqui, pescava naquela época ainda quando eu cheguei, o pessoal caçava, caçava aqui, plantava mandioca, criava, teve uma senhora que ganhou uma vaca naquela época que o Sílvio Santos dava uns prêmios aqui embaixo, ela ganhou uma vaca leiteira aqui para sustentar os filhos. O restante era tudo brejo. CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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E com o tempo foi que, como era tudo brejo, áreas particular, era terras particular, que tinha dono, o Lapenna, vários proprietários aqui tinham terreno. O próprio Antonio Ermírio de Morais tinha bastante aqui. Em 78, o Maluf desapropriou aqui para transferir o Tietê, que o Tietê, quando ele chegava no Bairro dos Pimenta, ele fazia, fazia duas pernas, a de lá, que continua até hoje, e uma que passava por dentro da Nitro. Então, eles começaram a construir a Airton Sena e desapropriou e fechou aqui e fechou o rio lá na frente. Por isso que o Tiete, e aqui virou área mananciais. Não podia construir moradia. E desapropriou dos proprietários. Bem, como era brejo e não tinha valor na época, nenhum, o preço, quando o Maluf desapropriou, o preço dos terrenos lá em cima, o valor venal muito alto. Em 82, quando o Montoro ganhou as eleições para governador, que o Montoro ganhou, que foi fazer levantamento, o valor dos terrenos estava acima do valor de custo, ele tentou devolver esses terrenos para os proprietários, os proprietários não aceitaram. Aí entraram na Justiça, não sei mais o andamento como está. Isso aqui foi do Parque Ecológico até lá no Jardim Romano muitas áreas foram desapropriadas, tentaram devolver, só que aí os proprietários não aceitaram. O Lapenna foi se desenvolvendo, chegou tudo aonde está hoje aqui, o Pantanal, a Vila Nair. Mais iniciou assim.

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CPDOC – E o Lapenna era toda essa região? Ou tinha já essas divisões de Vila Nair, Vila... Narinho – A Vila Nair é da Escola Pedro Moreira Matos até o rio. Da Escola até a Nitro é Jardim Lapenna, aí por causa de divergência de bairro, se criou a Vila Gabi. Se criou a Vila Gabi. Então, ficou Vila Gabi do mutirão para lá, do mutirão até a Escola, Jardim Lapenna e até o rio, Vila Nair. Em 86, quando o Quércia foi governo de São Paulo, por volta de 87, 88, tinha umas famílias de Guaianazes, parece que eram 80, 90 famílias, que ia ser desapropriado a área e não tinha para onde essas famílias irem, o Quércia doou 90 lotes aqui na União de Vila Nova, que era para fazer 80 casas. Ele deu o terreno, liberou o terreno e liberou a cesta de material e se construiu 90 casas. Foi um caminho para o povo invadir, que é a Nova Cidade União de Vila Nova. Aí começou a invasão aqui e se transformou tudo nessa cidade que vocês conhecem hoje.

CPDOC – Narinho, bom, nós já temos, de certa forma, a tua trajetória da chegada até aqui. Então começa a segunda fase da nossa conversa. Porque é assim, Narinho veio para cá, se estabeleceu, etc... E como é que o Narinho começou a se envolver com esse trabalho comunitário? Narinho – Já chegando nesse trabalho comunitário, eu já sai da Nitro, da Nitro eu trabalhei na Souza Cruz. Saí da Souza Cruz, fui trabalhar na Goodyear. Só trabalhei CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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em empresas boas, não me adaptei em nenhuma delas. Trabalhava bem, sempre correspondi com as minhas responsabilidades, mas não era ainda aquilo caminho que eu estava a minha trajetória. Fui trabalhar num barzinho ali do lado do cinema. Fiquei pouco tempo lá também. Montei um barzinho na Avenida São Miguel. Chamava O Bambuzinho. Era, quem fala do Bambuzinho em São Miguel, todo o mundo conhece. E lá, quando foi em 1981, eu conheci o Fausto Tomaz de Lima. Conheci o Fausto e um grupo de amigos me pediu para ajudar o Fausto politicamente, falou para ele que eu era muito conhecido, que eu tinha um tipo de liderança, de amigos e tal, e o Fausto me convidou para que eu ajudasse ele naquela campanha. E ali começou a vida pública, a vida política. Ali foi, fiquei com o Fausto vários anos, fizemos três eleições juntos, perdemos as três, perdemos as três eleições. Em 88, ele ganhou. Eu estava em Guarulhos, trabalhando com o deputado federal Gerson Marcondes e o Fausto precisava de mim para ajudar ele na eleição aqui. E ele foi lá me convidar e eu larguei tudo lá, o Gerson me liberou, eu vim trabalhar com o Fausto em 1988 de volta, já estava com ele, mas vim para ajudar na campanha. Ele foi eleito e me levou para a Câmara Municipal. Só que o Fausto era assim, eu era motorista dele na Câmara Municipal e ele me deixava à disposição da comunidade. A comunidade me usava. Tudo o que precisava, estava na minha porta. Era uma festa comemorativa, me chamava para participar. E aí eu fui me envolvendo. CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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Era uma senhora que ganhava nenê de madrugada, o carro estava ali, tinha que levar no hospital. Adoecia alguém, eu tinha que está acompanhando, e ele foi me tornando assim, uma espécie de liderança. E eu ia muito em comunidade com ele, ele ajudava muito as pessoas e aquilo eu fui aprendendo com ele, fui me dedicando até quando chegou em 1993, eu já não estava morando no Lapenna, me mudei daqui, estava morando lá na Vila Alto Pedroso e aqui era uma área que tinha sido construído um salão no governo Montoro e tinha entregado para a comunidade fazer palestra, reunir as famílias, que aqui já tinha um campo, distribuição de leite. E passou por vários presidentes da comunidade e abandonou tudo, todo esse terreno enorme aqui, o povo começou invadindo. E um belo dia, os moradores daqui se reuniram e foram me convidar para mim vir ser o presidente aqui. Eles achavam que eu era uma salvação para recuperar a área para que o pessoal não invadisse tudo. Já estava tudo casa, moradia aqui do lado, tudo demarcado o pessoal, e principalmente o pessoal da área de esporte, com medo de perder o campo, que já existia o campo, e me convidaram para mim ser o presidente. A princípio, no início eu não queria porque eu também nunca tinha administrado nada, não sabia que eu tinha dom para a coisa, tinha um pouco de medo de vir também e não dar certo. Mas com muita insistência, foram umas três vezes lá, eu acabei um dia aceitando em ser o presidente aqui.

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CPDOC – Uma vez sendo o presidente da Sociedade aqui do Lapenna, o que é que o senhor encontrou? O senhor já estava falando um pouquinho que estava meio que abandonado, então, eu queria só que o senhor recapitulasse, falasse dessa questão das facilidades, de certa forma, que foram encontradas ao ser presidente de uma entidade, dos ganhos e das dificuldades. Esse momento de ser presidente, como é que foi? Narinho – Então, assim que eu fui convidado para ser o presidente aqui, a princípio eu não queria assumir porque eu tinha medo de assumir a responsabilidade e não dar conta, não corresponder. Eu convidei um amigo para vir comigo, o Henrique, que ele já tinha sido presidente de entidade aqui no Parque Paulistano e ele tinha uma experiência muito grande. E eu convidei ele para vir comigo. A princípio também ele também não queria porque ele já tinha tido bastante decepção com comunidade, você faz, convida o pessoal, quer fazer um bom trabalho, convida a população, a população não participa, não quer nada. E aí chega uma hora que a pessoa não quer dar continuidade. E aí, quando ele chegou aqui, que viu o tamanho da área, ele se interessou em estar participando comigo. Quando eu vim convidar a população para a gente fazer a chapa para montar a diretoria – o pessoal estava me dando a entidade, mas eu tinha que montar uma diretoria – os moradores daqui não quiseram participar. Eu tive que buscar pessoas de fora, do Parque Paulistano, de São Miguel, daqui mesmo, do Lapenna, só três CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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assinaram a ata para fica na diretoria porque eles não acreditavam que ia se fazer nada aqui. Achavam que era mais um que vinha, que isso aqui estava tudo destruído, tudo abandonado. Não tinha mais o salão, não tinha telhado, não vidro. Eu tenho as fotos aí que vocês podem comprovar. E como aqui já tinha moradia, já tinha tudo, o pessoal não acreditou que a gente ia fazer um trabalho. E era tudo brejo aqui. Era tudo brejo, tabua. Tinha a casa aqui, só tinha um campo, uma estrada até aqui e o lugar onde o pessoal vinha dia de domingo, jogava bola, se trocava aí na rua mesmo, na beira do campo, não tinha vestiário, não tinha nada. E aí então, eu trouxe a Jurema, trouxe várias pessoas, a filha do Fausto para ser uma das diretoras, trouxe o Aurélio também. Trouxe bastantes amigos meus de fora para vir completar a diretoria. Como aqui pertence ao Parque Ecológico, ao DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica), eu fui procurar o diretor do parque para me ajudar a organizar aqui, a fechar para que o pessoal não invadisse, e eu todo feliz, peguei a pastinha e fui até o Parque Ecológico. Quando eu cheguei lá, o diretor do parque chamava Dr. Luiz Pimentel, ele estava com a perna quebrada – eu conto essa história para todo o mundo – ele estava com a perna estirada assim, estava enfaixada, a secretária dele anunciou e tal, e ele me recebeu. Daí eu: Doutor, meu nome é Narinho, eu sou o presidente da Sociedade Amigos do Jardim Lapenna. Ele disse: pode parar, aquilo lá eu não dou, se veio me pedir alguma coisa, não presta, porque eu não dou um CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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prego, aquilo lá para mim é uma zona. Dessa maneira. Não dou um prego, não quero saber mais daquilo lá. Porque ele acompanhava com dados, aquilo era área do parque, ele tinha interesse em preservar. Eu perdi o rebolado. Depois ele viu que foi muito grosso com a gente, pediu desculpa, mas só falou que não adiantava, que não ia me ajudar. Não podia fazer mais nada disso. Aí voltamos e falamos assim: vamos trabalhar. Então comecei, me deu aquela vontade de mostrar serviço, aí me apareceu uma empreiteira que se chama Frazão, precisava colocar terra para ela botar fora, de aterro, e não tinha lugar para jogar aterro, jogar terra. Eu estava como presidente aqui, e autorizei vir aterrar aqui. No início me deu uma dor de cabeça, quase que eu vou preso porque era área mananciais e não podia. Ele colocou 40 caminhões aqui, puxando terra aqui da Ponte de Cumbica, Bota-Fora, e chegava aqui a semana todinha com os caminhões e jogava. Mas como era brejo, jogava aquilo, quando empurrava sumia tudo dentro da lama. Quanto mais vinha terra, mais desaparecia. Pedra? Pelo amor de Deus! Daqui a pouco baixou aqui a Polícia Florestal atrás de nós, chegou uma hora que de tanto ele ficar todo o dia atrás da gente aqui, eu fui lá no Parque Ecológico e intimei o pessoal, falei: ou vocês deixam eu fazer o trabalho, ou eu deixo o povo invadir. Porque aí eu tinha duas opções: ou confiar no meu trabalho, ou eu deixava o povo invadir que nem invadiu a União de Vila Nova, o Pantanal, tudo. Eu acho que CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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acreditaram e a Polícia Florestal se ausentou de vir aqui, seguir aqui. E aí eu fui aterrando, deu uma chuva em 94, o pessoal que morava desse lado, que eu passei para o outro lado para colocar tipo uma divisória onde o povo poderia construir, aonde não podia, a casa que deu menos, deu um metro e meio de água. Aí do outro lado. E as famílias que estavam aqui, se revoltaram comigo, vieram para a minha casa querendo esbravejar aonde é que eu morava, se revoltaram contra mim. Deu uma dor de cabeça! Deu uma dor de cabeça! Eu tive que cair dentro dessa água, duas horas da madrugada, tirando criança, tirando gente, levando para a igreja, levando pros barracos. Eu e o Henrique. Foi uma loucura! Foi a minha primeira experiência como líder comunitário. Ali foi a primeira experiência, eu falei: agora eu tenho que ser líder mesmo, agora eu tenho que, enfim, e pulso para poder administrar, aqui não vai fazer, aqui você faz, aqui não entra e tal e comecei a batalhar, comecei correr. No outro dia cedo, fui para a padaria pedir pão, pedir leite, fazer café para esse povo, mais de 100 famílias na igreja. E daí para frente, me tornei líder comunitário.

CPDOC – O senhor já narrou boa parte das dificuldades que o senhor teve, e hoje, quais são essas dificuldades? Pois aquele era um período, aquele era um momento de iniciando a carreira, vamos dizer assim, e hoje, quais são as dificuldades? Quais são as potencialidades? CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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Narinho – Assim, para chegar até hoje, como eu fiz esse trabalho em 94, e tem uma moça que ela era assistente da administração do SAS [Secretaria Assistência Social] da subprefeitura, ela começou a me incentivar a implantar grupos aqui: pôxa, seu Narinho, a família aqui é muito carente, precisava ter um Centro da Juventude aqui, fazer um trabalho com criança e tal. E daí, eu fui me aperfeiçoando, acompanhando, aprendendo. Em 96 eu implantei o primeiro Núcleo aqui, que foi o Centro Ação Jovem, eu implantei um sopão que eu dava sopa aqui para 220 famílias, num total de 880 pessoas de 2ª a 6ª. Era uma luta esse panelão de sopa. Se tivesse uma pessoa na tua casa, você levava sopa para uma pessoa. Se você tivesse 10, você levava para 10. Você não tomava a sopa aqui, levava para casa. E foi abrindo as portas, a gente vai fazendo um trabalho, as pessoas vão vendo, vão acreditando no teu trabalho, vão dando os parabéns, se você gosta daquilo, você se sente bem, você vai se propondo a fazer mais e fazendo melhor. Mas aí você faz um, deu bem, está tudo bem, está tudo funcionando, as pessoas: opa, meus parabéns, está ótimo e tal, você vai ampliando. Fui ampliando os trabalhos, hoje eu tenho aí 2 creches, tenho dois CCA - que antigamente era o Centro da Juventude e agora é o CCA (Centro da Criança e do Adolescente) – tenho o abrigo, que veio em 98. E cresceu, está virando uma... como se fala? Uma bola de neve não é porque bola de neve, ela some, mas está virando CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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um trabalho que cada dia que passa a gente tem orgulho de fazer, se dedica mais, faz com amor e vê criança, jovem fazendo curso, participando. Estamos chegando quase no objetivo de um sonho que foi Deus que deu, que trouxe, e o sonho está se realizando porque depois eu vou te falar aonde esse sonho vai chegar, tá bom?

CPDOC – Em que liderança o senhor se espelha, vamos assim dizer? Narinho – Olha, é assim, para ser sincero nós não temos uma liderança, assim, a não ser o Fausto Tomaz de Lima, o modo como ele agia com o ser humano, eu não tenho outra liderança assim. Uma que eu acompanhei pouco, para mim me espelhar. Então assim, eu sou observador, eu sou muito observador e eu sonho muito, eu sonho muito. Eu trabalho todo o dia aqui, quando eu chego em casa que eu vou dormir lá por volta de uma hora, meia-noite e meia, uma hora, a noite eu não durmo, a cabeça fica martelando alguma coisa que eu tenho que fazer, alguma coisa. E aí eu vou bolando, vou pensando, eu vou pensando, quando é no outro dia eu acabo colocando aquilo em prática. Se a pessoa perguntar assim: você planejou tudo aqui para fazer? Não, não planejei nada. Você sabia fazer? Não, não sabia fazer. Se perguntar: como é que você fez? Eu também não tenho a resposta. De uma coisa eu te passo: fiz tudo aqui, não tive o investimento de empresários, não tive investimento de políticos, não tive investimento de político, tive nada. Hoje, de dois anos para cá, a Fundação Tide Setúbal nos ajuda. Depois que a Fundação chegou, CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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para cá, ela me ajuda. Porque eu falo da Nitro. Todo o lugar que eu vou, eu falo da Nitro. Falo da Nitro assim: um diretor da Nitro me descobriu, o meu trabalho, se chama Hilário Labat Uchôa ele descobriu o meu trabalho e acreditou no meu trabalho e há 12 anos, as minhas festas de final de ano, o Uchôa faz comigo. Ele me faz doação dos brinquedos. E através do Uchôa, chegou até o Dr. Fábio Felippo, que ele é outro diretor da Nitro, que é o diretor-chefe da Nitro. E através deles, ele é que me ajuda, quando eu passo dificuldade, ligo para lá, levo uma carta, eles estão sempre ajudando a minha comunidade pelo trabalho que eu desenvolvi, que eles são vizinhos, chegou o meu trabalho, vieram a minha seriedade. Tanto que o Uchôa fala para todo o mundo que eu nunca fui lá pedir nada para mim, quando eu peço alguma coisa é para a comunidade. E pela minha transparência, tudo o que ele puder fazer para ajudar a comunidade do Lapenna, que ele ajuda. Me ajuda aqui através do Uchôa, através do Dr. Fábio Felippo eu convivo muito com o pessoal lá e acompanho bastante a história da Nitro aqui em São Miguel. Acompanho bastante. A Votorantim, a associação, eles têm projetos, ele ajuda 15 projetos. Se você tem um projeto, você leva para a Nitro, de lá ela elabora o projeto junto com as necessidades. Agora, as entidades têm que se organizar. Eu não tenho nenhum projeto com a Nitro. A Nitro, teve uma época em que ele liberava para nós uma verba para a gente implantar uma creche aqui, implantar uma creche. O Uchôa conquistou isso através do Grupo para ser construída uma creche no Lapenna. Só CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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que eu precisava da autorização do terreno porque era uma verba que ia se gastar dinheiro, você não pode investir um certo valor num lugar irregular que depois pode ser que amanhã desapropria, quebra tudo, então eu precisava dessa autorização. O DAEE demorou, não me deu essa autorização porque precisava fazer um contrato de comodato, esse contrato de comodato gerou muita burocracia e nós perdemos essa verba. Então, eu já tive, era para mim fazer alguns projetos, não tive uma pessoa para elaborar o projeto, para fazer, que era para ir para a Fundação, para que a Fundação nos ajudasse. Só que eu acompanho muitas entidades que a Fundação da Nitro, ou seja, da Votorantim ajuda essa comunidade. E, principalmente, São Miguel. Nós perdemos um clube aqui, o Clube da Nitro, nós perdemos por incapacidade da população de São Miguel. Principalmente os empresários, os políticos de São Miguel porque até então, quando a Nitro pensou em desativar o clube, não foi desativado, simplesmente a Nitro não queria administrar. Então, qualquer entidade que criasse um projeto e levasse para a Nitro, tinha certeza que hoje estava funcionando e a todo o vapor aquilo ali. Perdemos por incapacidade dos empresários que não se interessaram. Os empresários de São Miguel são assim, ó, só enxerga para o seu comércio. É tanto que São Miguel está aí parado há muitos anos, graças a Deus chegou, está chegando a Fundação. Está incomodando tanta gente agora, mas graças a Deus chegou a Fundação. Mas tem um bom papel na área social aqui a Nitro de São Miguel. Pode ter certeza absoluta. CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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CPDOC – Muito bem. Então, já que o senhor está falando de Fundação, eu gostaria que o senhor colocasse, um pouco mais, a visão que o senhor tem em relação à Fundação. Não só aqui, no Jardim Lapenna especificamente, mas como é que o senhor enxerga a Fundação em São Miguel. E daí em diante, a gente já começa a outra fase que é as relações com a Fundação. Narinho – É, com a Fundação. A minha visão da Fundação para São Miguel é das melhores possíveis. É das melhores possíveis. Tem todo o meu apoio, aval porque eu acredito muito na Fundação. Não é porque a Fundação está aqui no Lapenna ou a Maria Alice freqüenta aqui, nada disso. É porque acredito no projeto que a ela vai desenvolver em São Miguel. Apesar de que cria ciúmes em muita gente porque a gente tem a mania de ser egoísta, a gente não faz e quando alguém chega para fazer, a gente quer atrapalhar, fica com inveja: puxa, fulano vai fazer, vai crescer, então, cria aquele ciúmes. Mas a Fundação, quando veio para São Miguel, a primeira coisa que ela fez foi convidar todas as entidades, mostrou um projeto e perguntou se as pessoas estavam interessadas – inclusive eu estava presente – e poucas entidades quiseram. Eu fui esse sonhador e acredito, abri logo as portas à minha, para que? Uma que eu não tenho a pessoa obcecada para ser presidente de entidade. Pode ter certeza disso. As pessoas falam assim: puxa, você quer fazer tudo sozinho, você não sei o que. O que eu fiz aqui já é o suficiente para mim. Fiz, olha CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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preservei uma área enorme, não deixei fazer moradia. Não deixei fazer moradia. Não loteie nem um pedacinho de chão, nunca vendi nenhum pedacinho de terra aqui. Esse aqui é o patrimônio da comunidade, essa semana veio um diretor novo do Parque Ecológico aqui - vou voltar um pouquinho atrás - chama Brandão, e veio um engenheiro que ele sempre acompanhou isso daqui e tal, que é o engenheiro Labruna (Parque Ecológico). Ele chegou, falou: Narinho, eu não acredito como está isso aqui, eu não acredito o que você fez tudo isso aqui. Aí eu falei: fiz e estou fazendo mais, levei e mostrei o novo galpão que a Fundação está ampliando lá. Invés de dizer, pôxa, você está construindo na área, me deu foi os parabéns. Se é uma coisa que mexe muito com a gente é a credibilidade. Então, eu não sou obcecado para ser o presidente daqui. Sou o presidente daqui porque infelizmente não chegou pessoas aqui com o mesmo pensamento meu, com a mesma vontade minha, para fazer um trabalho, não é só para a comunidade daqui, para São Paulo, para São Miguel. Então, quando a Fundação veio, que colocou a ideia, a proposta, de imediato eu enxerguei e vi um avanço. E é o que esta acontecendo para São Miguel. Eu participei do projeto gestor, que acabou indo para a Associação Comercial, se tivesse lá na Fundação, ou lá ou aqui no Lapenna, eu tenho certeza que tinha dado o avanço. Nós tinhamos incomodado tanto o subprefeito, (risos) É coisa boa. CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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CPDOC – E, claro, para tudo o que é feito existe os seus problemas? Quais conflitos o senhor tem com a Fundação? Narinho – Conflito com a Fundação? Assim, com a Fundação em si, nenhuma. Eu tive alguma dificuldade com as pessoas que a Fundação trouxe. No início me veio um grupo, que quando chegava para resolver, para ver qualquer tipo de trabalho, de atividade, nos procurava e conversava com a gente: Seu Narinho, nós vamos fazer assim, assim, o que é que o senhor acha? Então, tinha aquela relação ótima. Depois, veio pessoas que era assim: eu sou da Fundação, não tenho satisfação para dar para a entidade. Eu sou da Fundação e a Fundação é isso e está lá na 9 de julho, a sociedade está aqui no Lapenna. E aí eu tive um pouco de dificuldade para conviver com essas pessoas. Agora, não é que eles eram maus, que eram más pessoas, não. Era que faltou diálogo. Eu sou o presidente, eu vou continuar sendo o presidente aqui até a população aceitar. Enquanto eu for a população, presidente aqui, tudo o que passa aqui eu tenho que decidir, tenho que falar tudo. Mesmo eu vendo que é bom para a comunidade eu tenho que dizer sim ou não porque a responsabilidade aqui é minha. Amanhã se o DAEE tiver que processar alguém porque construiu um barracão ali, porque construiu um prédio, é eu que vou responder. É eu que vou responder.

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Então, tudo o que foi feito aqui, a Maria Alice, a Mirene nos procurou, trouxe o projeto para a ampliação do galpão. Puxa! A ampliação do galpão. O que é que eu vou fazer com todo esse terreno aqui? Vão ampliar o galpão para que? Para melhor atender a comunidade. Melhor atender a comunidade. Melhor atender os jovens. Vai dar curso para os jovens. Então, vamos fazer. Se amanhã, o Parque Ecológico chegar e falar assim, olha, se tiver que punir alguém, não vai punir a Fundação, vai punir a Sociedade Lapenna que autorizou. Eu autorizo e assumo isso. Eu assumo. Eu mandei construir, então eu sou o responsável. A Fundação não está invadindo aqui, está fazendo porque eu autorizei. Então, as pessoas que vem trabalhar, que vem participar do grupo, têm que estar envolvido comigo aqui, têm que falar comigo. Eles vem, faz um trabalho, vai embora. Trabalho de 2ª a 6ª, sábado e domingo não vem porque quem toma conta sou eu. Se alguém estiver depredando lá e eu for lá falar quem toma uma pedrada sou eu. Se alguém estiver roubando lá, eu tenho que ir lá reclamar, se tiver de ir sou eu. Então, tudo tem que falar comigo, eu sou o responsável. Dali da rua para cá, tem que falar comigo. Nem o prefeito não entra aqui sem falar comigo. Tem que falar comigo porque eu que sou responsável pela área. Se amanhã o DAEE quiser invadir aqui, quiser demolir aqui, eu vou para a Justiça, para embargar. Não é não? Eu estou aqui desde eu cheguei em 93. Só que a entidade aqui é desde 81 que está aqui dentro. E preservando, preservando uma coisa que poderia estar uma favela, não tenho nada contra favela, a gente fala que CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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não tem, mas tem. Porque a coisa bem organizada, bem bonitinha, bem urbanizada é bem melhor do que uma favela ou coisa assim. Porque negócio de favela não é negócio de coitado não. Às vezes é coitado de mente, de vontade, às vezes as pessoas usam a favela para ganhar dinheiro, explorar a miséria de alguém. Eu não sou desses.

CPDOC – E pegando esse mesmo trecho dos conflitos, a gente também entende que todo o conflito tem coisa positiva. O que é que o senhor consegue tirar desse conflito, dessas, vamos dizer assim, em alguns momentos queda de braço, com um, com outro, o que é que o senhor com tudo isso? Narinho – Aprendi tudo (risos). Aprendi muito. Já perdi a timidez, (risos). Sou bom aluno, aprendi a trabalhar melhor aqui com a comunidade, aprendi a ser mais transparente nas coisas, aprendi só coisa boa. Algumas coisas que eu desenvolvo hoje com o meu grupo, com o meu pessoal que trabalhava comigo nas creches, no abrigo, aqui no CCA. Eu aprendo com o pessoal da Fundação aqui, o Tião, com a Mirene, com todo o mundo, com o pessoal do Ação Família. Mesmo eu assim distante, mas eu vou observando, eu vou pegando, eles são mais técnicos do que eu. Eles são técnicos, eu não sou. É por isso que às vezes até o conflito ele existe porque eu faço as coisas pelo impulso, pela garra de fazer, a vontade de fazer e eles fazem as coisas porque eles são técnicos, estudaram para aquilo, têm todo o CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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conhecimento. E eu vou aprendendo com eles, já à tarde eu vou colocando em prática, contratei uma gerente-administrativa para cuidar das coisas que eu não acompanho. Então, a Fundação, para mim, é uma lição, é uma escola e eu estou aprendendo. A Maria Alice contrata os técnicos, traz para cá e eu vou... Tião é um belo professor! Por sinal a equipe toda, eu não tenho nada contra a equipe, graças a Deus.

CPDOC – Você poderia apontar, por exemplo, uma coisa que para nós, para a Fundação deve ser importante, e que para qualquer relação de uma entidade com outra, sempre tem um aprendizado. A gente imagina que a história de vida das pessoas, ela é acompanhada e cheia de aprendizados. Por exemplo, se o senhor fosse apontar algumas coisas que na Fundação o senhor acha que seria interessante alterar, modificar, melhorar. Dentro dessa relação que o senhor disse que aprende, o que é que o senhor acha que a Fundação poderia também estar aprendendo com esse tipo de relação? Narinho – É assim, o trabalho da Fundação para o meu é completamente diferente. Eu ainda tenho aquela coisa de ajudar com o peixe, a Fundação não dá peixe, ela dá o rio, a vara, o anzol, mas também não mostra se o rio tem peixe. A Fundação ainda está naquela de mostrar o rio, dar a vara, o anzol e dizer onde tem o peixe. Não adianta. Eu ainda dou o peixe porque se a pessoa não tiver um sustento, às vezes a CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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pessoa bate na minha porta com fome, se eu só mostrar o rio e não der um sustento para ele hoje, para ele começar a pescar de agora em diante, como é que ele vai chegar até lá para pescar? E às vezes se mostra o rio, mas não mostra, e o rio não tem peixe. Que nem, dar curso. Se é que dá os cursos que está sendo dado para os jovens aqui, precisava também abrir uma porta para eles ingressarem em alguma coisa. É o que nós fazemos aqui: o teatro, o Beto dá aula de teatro, e depois procura encaixar as crianças, o jovem em alguma coisa. Então, essa é um pouquinho. Eu acho que a Fundação poderia, junto com a entidade, criar – já que o trabalho da Fundação é mais técnico – poderia abrir essa porta junto com a entidade. Juntaria as coisas que a entidade faz, ajudar para que a entidade fosse desenvolvendo até crescendo mais em pró da população. Essa é uma das coisas que talvez falte, a gente esta sentando com a Maria Alice, dialogando, para tentar, para ir colocando em prática. Mas precisa. Não adianta ter vários cursos, que nem, os meninos estão fazendo São Miguel no Ar, os meninos fizeram Arteculturação, tem o Projeto Menina-Mulher. Mas e daí? Fez todo um ano de palestra, e depois? Essas meninas desenvolveram. Aí, para ali, é um sonho que ficou parado, não teve um avanço. E é bom avançar que é para servir de exemplo. Puxa! Sai um menino desses que está fazendo São Miguel no Ar, tal, tal. Daí a pouco está num emprego, fazendo um estágio assim, assim, assim, dá um incentivo para os outros.

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Eu vou contar uma que talvez é até bom para a Fundação, o pessoal da Fundação ver a fita, refletir. Eu tinha um projeto do lixo, aqui. Eu tinha um projeto do lixo, que não era nem projeto, ideia que eu estava focado, brigando, lutando com os moradores para tirar o lixo da rua, que o pessoal estava acumulando na rua, e se cada morador tivesse o cestinho para cada morador cuidar do seu próprio lixo. A Fundação fez um projeto, veio, esse projeto está aí, muito bonito e tal. Colocou em prática aí no final do ano passado. Não sei qual foi o custo desse projeto. Não sei qual foi o custo e colocaram o projeto. De duas semanas para cá está todo o mundo reclamando: o caminhão grande passa lá, leva o lixo e o pequeno não vem mais. Se a Fundação tivesse feito esse projeto comigo, e todo o mundo tivesse o seu cestinho de lixo lá que é para todo o mundo cuidar do seu próprio lixo, talvez não precisava ter gastado nada, era só palestra e reunião e incentivo. Fez todo esse gasto, tudo. Se eu mando você ir nas ruas, não está mais colhendo o lixo. Então, faltou assim, abraçar um pouquinho a idéia do louco, porque como eu não sou técnico, as minhas ideias, elas ficam um pouquinho mais do lado. Às vezes eu tenho a ideia, mas não sei colocar ela no papel, não sei transformar ela em palavras, certo? E ela aí fica um pouquinho, muito perdido. Eu acho que a Fundação deveria usar as minhas ideias e transformar isso em realidade que ia dar muito certo. O louco, o sonhador (risos)

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CPDOC – Falando do sonhador, o senhor pegou a frase. Vamos entrar naquela que a gente falou, da terceira parte. Que é o sonho. O senhor falou a mim, mencionou lá no meio da nossa conversa, eu gostaria um pouco que o senhor falasse desses sonhos. Quais sonhos o senhor tem para o Jardim Lapenna, para o senhor, enfim? Narinho – Eu falei no início para você que eu passei muita dificuldade: eu passei fome. Quando eu estava na minha infância eu passei fome, passei bastante dificuldade. Te falei que eu com 18 anos, eu ainda não pegava no meu salário lá na fazenda. Nós trabalhávamos a semana toda e o meu pai é quem recebia o nosso salário. Eu vou até voltar numa pontinha aí porque nós éramos três irmãos e quem tinha um par de sapatos era meu pai. Nós só íamos para o baile, quando ele não ia, que era para brigar quem é que pegava o sapato primeiro. Parece brincadeira, mas era verdade. Parece brincadeira, mas era verdade. Assim que eu assumi aqui, eu fui aprendendo, eu fui desenvolvendo um trabalho, que eu acompanhei o dia a dia do Fausto. O Fausto chegava numa residência, tinha uma família que falava lá: Seu Fausto, eu não pude dar o café que eu não tinha o gás. Ele não falava nada. Saía, entrava dentro do carro comigo, chegava no lugar, comprava um botijão de gás e ia levar para aquela família. Essa era a vida dele. Chegava – naquela época não se dava remédio que nem dá nos Postos hoje – chegava numa casa, tinha uma pessoa com uma receitazinha de remédio e não tinha dinheiro para comprar, ele pegava a receita, colocava no bolso, CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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ia lá e comprava e eu entregava. E eu vivi 14 anos com ele, eu fui aprendendo essas coisas, eu fui aprendendo essas coisas com ele. E assim que eu assumi aqui, fui trabalhando, fui convivendo com as pessoas, as pessoas começaram a bater na minha porta e foi me procurando e pedindo e eu fui me sensibilizando com aquilo também e refletindo para trás o que ele fazia. Porque assim, a nossa população, o nosso povo, ele é tão tímido, tão acanhado que às vezes ele tem vergonha até de te pedir uma informação. Ele não sabe como procurar uma informação. A gente que está desenvolvido, outros que têm um estudo melhor, é fácil. Quando as pessoas vem da roça para cá, eu tenho certeza hoje que têm famílias aqui que chegaram do Norte, chegou aqui no Jardim Lapenna, morou aqui 10 anos, 15, 20 anos, não foi na Penha, não conhece a Penha, não conhece Remédio, no Matarazzo, não conhece, se brincar, não conhece o centro de São Miguel. E isso eu descobri. E aí você vai tentando passar isso para a sua população que você está se tornando – eu não digo líder – mas um amigo. Que eu não sou líder, eu não sei, líder é esse pessoal que consegue transformar as pessoas, foi fazer as pessoas seguir o segmento deles. Eu não faço isso. Não sei fazer. Líder é essas pessoas que faz as pessoas, tipo uma seita. Vai ali, arrebenta tudo, pega isso ou me acompanhe e todo o mundo segue que nem o carneiro lá atrás. Que nem a gente vê aí nas religiões e em outras coisas por aí. Eu não sou líder. Eu sou um amigo comunitário, que se eu ver que as pessoas estão passando necessidade de estudar, qualquer coisa, eu estou pronto para ajudar. CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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E sonho, sonho é assim: quando eu vi com vocês, conversei e vi os absurdos aí que está tomando conta do nosso país, dos nossos filho - uma coisa que não era nem para falar, mas eu vou falar porque a gente tem que ser transparente e falar sem medo – o envolvimento com a droga, com muitas coisas ruins e eu tentei, quem sabe daqui a gente cria, se amanhã diminuir o 1% da criminalidade ou o 1% da desigualdade social, do analfabetismo, quem sabe o Narinho aqui com o grupo dele não contribuiu um grãozinho de areia para isso. É pensar no futuro. É pensar no amanhã. Pensar no amanhã, pensar nos meninos, pensar nos meus filhos, pensar nos meus netos, nos dos outros: pensar no ser humano. Pensar no ser humano. Eu falo isso, as pessoas podem achar: que nada, é egoísta, o que ele não teve. Mas eu não acho que deixar de dar um prato de comida para um coitado que está passando fome e pagar dois mil reais numa garrafa de champagne, eu acho que é muita sacanagem, é muita sem-vergonhice. Ah, mas o dinheiro é meu. Pôxa, tudo bem, o dinheiro é seu, mas pôxa, você deixar, e vocês sabem disso, nosso país, ele é tão rico, mas ele é tão rico que os caras roubam tanto, roubam tanto e ainda o país ainda, graças a Deus, ainda consegue se manter. Você já pensou, se as pessoas não fossem tão egoístas, as pessoas não fossem tão egoístas porque quem rouba o nosso país é quem já tem muito, é quem não tem necessidade de dinheiro, infelizmente. São as pessoas que não têm necessidade de dinheiro. Esse país era para todo o mundo andar bem vestido, bem calçado, não ter inveja de ninguém, não CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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pensar em tomar nada de ninguém porque esse país tem condições para tudo isso. E eu tenho vontade de contribuir com isso. Tenho vontade e gostaria. Gostaria muito e estou lutando para isso. E estou lutando para isso. Agora dizer, não é egoísmo, não é inveja, não para amanhã estar na mídia, não tem nada disso. Eu gosto de fazer, faço o que gosto, faço porque amo, faço porque gosto de ver as pessoas me darem os parabéns. Estou carregando uma bela de uma carga nas costas, agora, que não posso errar. Olha, eu não posso errar. Eu não errei até os 18, até os 30 anos, 40 anos eu não errei. Agora, com essa puta responsabilidade, vocês aqui falando comigo, vocês vieram falar comigo porque acreditam, se eu fosse... Não vinham. Ter que chegar aqui, receber o diretor da Nitro, receber a Maria Alice, receber outras pessoas e chegar aqui e falar assim: meus parabéns, continua assim e tal. Aí você olhar para esse monte de jovens, domingo aqui tinha um casal, Tiago e a Simone. A Simone eu vi miudinha, e ele também porque são dois irmãos. E ele falou: Nário, eu estou estudando, estou estudando, estou fazendo faculdade e eu quero ser presidente aqui dessa entidade e você é que vai me apoiar. Caramba! Né? E aí? Você ouvir isso de um jovem! O jovem voltar para a escola, falou: eu me sinto bem quando vejo você recebendo pessoal aqui, conversando, você é o meu espelho! Puta! Olha! Né? Não é fácil. Então, esse é o meu sonho, é meu sonho, é meu objetivo, quero ver isso daqui servir de exemplo para outros virem aqui, copiando e tudo correndo bem. CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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CPDOC – Para finalizar, Narinho, o que é que você espera dessa parceria com a Fundação? Narinho – Ah, o que eu espero da Fundação, da parceria, é assim: que ela continue por muitos e muitos anos. Eu não tenho o porquê não deixar que essa parceria avance. Espero que do outro lado também seja da mesma forma. O meu objetivo aqui não é, apesar de que é claro, quero sobreviver, tenho que sobreviver, tenho que comer. Mas o meu objetivo aqui é ver a comunidade bem, é ver as famílias bem, é ver o trabalho social à altura que São Paulo merece ou que o Brasil merece. E se a gente está voltado para isso, não tem por onde não crescer. Já falei que eu não sou obcecado para ser, continuar que nem o Saddam Hussein, para ser presidente para o resto da vida, eu quero saber que um dia que eu sair daqui todo o mundo olha com os bons olhos e fala: ele contribuiu muito para isso daqui. É tanto que pelas fotos já diz alguma coisa. Só isso.

CPDOC – Muito obrigado, Narinho, pela sua paciência, pela sua disponibilidade em nos receber aqui na Sociedade Amigos do Jardim Lapenna, agradecendo toda a equipe, Camila, Diego e Mauro, muito obrigado e você receberá uma cópia.

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Narinho – Eu fiquei muito feliz dessa vinda de vocês aqui, dessa participação, dessa gravação. Espero ter colaborado com o projeto e dizer que mais uma vez agora que eu não vou poder errar, está tudo gravado aqui, aí é que eu vou ter que trabalhar mesmo. E dizer, mostra que a coisa aqui é transparente. Errar, todos nós erramos, às vezes não erra porque quer, às vezes por vontade de acertar. Mas eu estou aberto para o diálogo e para aprender da orientação das pessoas que vierem participar aqui, me orientar para cada dia que passa isso aqui melhorar, estou aqui à disposição.

CPDOC – Obrigado.

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Sueli Kimura

Sueli Kimura, presidente do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Social e Humano, moradora do bairro do Itaim Paulista. A entrevista ocorreu no CPDOC São Miguel, na tarde do dia 09/02/2009.

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CPDOC – O CPDOC São Miguel Paulista, entrevista na tarde de hoje, 9 de fevereiro de 2009, Sueli Kimura, presidente do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Social e Humano. Ela é moradora do bairro do Itaim Paulista desde 1981. Boa tarde, Sueli. Sueli – Boa tarde, prazer, espero contribuir a contento para o sucesso do empreendimento de vocês.

CPDOC – Muito bem, Sueli. Bom, como nós começamos a fazer sempre no CPDOC, nós começamos investigando um pouquinho a vida do nosso entrevistado. Gostaria que você contasse para a gente, como é a sua história, até meados da década de 80, ou seja, infância, adolescência, como é que foi? Sueli – Então, eu sou moradora, nasci no interior de São Paulo, mais precisamente em Mogi das Cruzes. Infância comum, muito saudável, como qualquer criança do interior. E fiquei lá até a adolescência, quando, por motivos econômicos, nós tivemos de sair de lá e viemos para São Miguel, mais precisamente na Rua 2. Se vocês conhecem São Miguel, Rua 2 é a rua do mercado. Então, imagina eu sair de uma cidadezinha bucólica do interior paulista, vir para cá, para a Rua 2. Foi um choque total! Então, eu costumo dizer que o meu amor por São Miguel foi à segunda vista, porque à primeira vista foi rejeição total.

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CPDOC – E o que é que você encontrou de mais diferente entre Mogi, uma cidade bucólica como você coloca, e São Miguel, sendo um bairro da periferia da cidade de São Paulo? Sueli – Na verdade, nem procurei muito. Você vinha com más informações. Então, a rejeição foi muito mais no inconsciente, do que uma coisa de observação. Mas confesso que quando eu cheguei aqui e fui morar nesse local, mais precisamente aquele local era um local muito marginal, vamos dizer, entre aspas, então me deparei já com algumas coisas envolvendo drogas, prostituição porque logo ali atrás funcionava, era a própria rua desse tipo de coisas assim, foi muito chocante mesmo. Então, eu rejeitei. Tanto é que eu não estudei em São Miguel. Continuei estudando na cidade onde eu morava, fiquei muito tempo apegada a essa cidade. Depois, o ensino médio, fui estudar na Penha e o ensino superior voltei para Mogi. Me formei pela Universidade de Mogi das Cruzes.

CPDOC – Como era ser estudante nessa década, por volta da década de 70? Sueli – Nós éramos alienados, na verdade assim, a gente não tinha muita informação de um estudante durante todo esse período da ditadura. Eu nasci em 56, então logo após, 10 anos depois, já, tudo o que ocorreu. Então, eu vivia no Mundo da Fantasia, na Terra, na Ilha da Fantasia, então, eu era bem assim. Só que o meu pai, embora não tenha escolaridade, ele falava, ele era uma pessoa muito CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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instruída, autodidata e tal, e muito antenada para as coisas. Então, ele falava assim para mim, que ele tinha votado para presidente. Eu nem sabia o que era isso! Para mim, era muito normal que aquilo que eu vivia, acontecesse. Era muito tranquilo, muito normal, uma vida muito, é isso mesmo, Ilha da Fantasia total. Mas aí, chegando em São Miguel, então eu estou nessa rejeição toda, acabou a faculdade, de repente eu teria que sair para o mundo. Nesse ínterim, os meus irmãos, por exemplo, eles se adaptaram muito bem a São Miguel, então eles formaram o grupinho deles. E um desses rapazes, me levou para participar de um grupo de jovens da igreja matriz de São Miguel. Então, aí sim, realmente a minha vida em São Miguel aconteceu. Então, no grupo de jovens havia dois interesses distintos: a coisa da espiritualidade, da evangelização, mas havia também o outro grupo, a igreja progressista já em movimento. Então, havia um outro grupo bastante interessado nesse aspecto. E, obviamente, todas as histórias que o meu pai contava, aquilo foi, realmente, um imã para mim e nós começamos a participar desse grupo.

CPDOC – Em que período isso aconteceu? Sueli – Eu me formei em 76, me graduei em 76, nesse ínterim, 76, 78. Eu não acompanhei todo esse processo histórico, forte, que São Miguel tem uma história bastante revolucionária, nesse aspecto. E aí então, fui para esse grupo, me envolvi,

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fui totalmente conquistada por esse grupo que faz parte da tendência progressista da Igreja Católica, embora eu não seja católica.

CPDOC – Os grupos desse período, eles tinham uma relação sindical, como é que se dava essa relação? Sueli – Lá ainda não. Nós ainda não porque a gente estava desvendando esse universo. Então, era muito assim, da gente conversar com os seminaristas progressistas, os padres progressistas. Então, a gente foi envolvido mesmo, pela Igreja. Então, ainda não havia esse... eu nunca tive esse envolvimento muito com a questão sindical.

CPDOC – E a Teologia da Libertação? Sueli – Tinha aí total. Até ouso dizer que sofri uma leve lavagem cerebral porque era muito intensa a nossa convivência. Então, algumas pessoas na época, não sei se são muito conhecidas, mas foram muito importantes: Carlos Tradelli, o Zé Luiz, seminarista, o Chico Falcone. Então, essa turma toda da Igreja: Paulo, não me recordo o sobrenome, Assis. Esse pessoal, a gente tinha um envolvimento muito forte.

CPDOC – Quais eram as atividades que vocês realizavam, nesse período? CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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Sueli – Então, aí esse grupo, muito ansioso, jovens - nós tínhamos 18, 20 anos então muito ansiosos. A gente ouvia muita coisa sobre o passado, pré-golpe, enfim, então, isso aí nos levou a seguir alguns caminhos. Então, uma das coisas que a gente quis fazer, foi a alfabetização de adultos. Então, começamos a estudar o Método Paulo Freire, passamos quase um ano estudando, intensivão mesmo, e aí começamos a aplicar. Depois disso, a Igreja tinha uma atuação forte no sentido da Casa Pintada, na favela ali, principalmente, notadamente, na favela. E nós fomos com a cara e a coragem e um monte de teorias e boa-vontade, e lá chegando a gente construiu toda uma história lá dentro. Quando Paulo Freire voltou do exílio, regressou ao Brasil - agora eu não me lembro bem a data, situar muito bem – ele foi até à Igreja Matriz e nós tivemos contato, assistimos a primeira palestra dele no Brasil. E Nossa! Aquilo foi muito bom! E a gente fez um primeiro contato com ele e relatamos a nossa experiência, no que ele se encantou, e a partir daí a gente começou a ter uma participação muito ativa com o auxílio dele. Então, uma vez por semana, a gente ia à casa dele, tomar o caldinho de feijão que ele nos preparava porque ele morava lá em Perdizes e nós aqui da Zona Leste, a gente de ônibus. Então enfim, a gente chegava e éramos recebidos pelo tal de caldinho de feijão que a Dona Elza nos preparava. E o Paulo ficou muito encantado com a nossa experiência porque assim, ele estava no exílio e havia gente praticando, embora houvesse a ditadura e tal, uma situação daquela, nós estávamos aplicando o método CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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dele. Obviamente, nós fizemos várias mudanças de rota e isso era muito interessante para ele. Então, houve o feedback, e aí ele absorvia mais sofregamente as nossas experiências do que nós. Ele foi nos conduzindo e ouso dizer que a partir dessa experiência, onde ele fez uma releitura da Pedagogia do Oprimido e aonde ele então, em seguida, já veio com algumas coisas que nós havíamos vivenciado e foi uma experiência muito intensa e interessante. Concomitante, esse mesmo grupo, alguns desse grupo, se você quiser cito nomes também, as pessoas. Enfim, o grupo de alfabetização era composto por Eduardo Francisco, conhecido por Chico Edu, Cláudio Gomes, Severino do Ramo, eu, Gilberto Nascimento, jornalista, você conhece. O núcleo central era esse. João Muniz, figura muito importante, João Batista Muniz. É, éramos esses. Alguns desses começaram, inclusive eu, a participar do grupo de teatro. Na verdade, do curso de teatro desenvolvido pelo Grupo Núcleo ali na Penha.

CPDOC – Celso Frateschi, Del Vecchio Sueli – Celso Frateschi, exatamente. Então, a gente teve um envolvimento lá. E a partir disso, criamos um grupo chamado Teatro de Rua, Terua, para os íntimos. E aí se dá o meu envolvimento com o MPA, a partir da participação do Teatro de Rua no MPA.

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CPDOC – Voltando só um pouquinho. Então, teve toda uma linha de desenvolvimento na área de educação, educação popular, a partir do Método Paulo Freire. Posterior a isso, como é que se deu essa migração das ações que eram realizadas dentro da Igreja para o teatro e para as ações, por exemplo, mais fora da Igreja como era um grupo de teatro? Sueli – Eu acho que automaticamente. A partir do momento em que a gente começou a fazer o curso, você tem outras influências, outras discussões, outros debates e, obviamente, a partir daquilo você consegue modificar. Na verdade, nós somos seres pensantes, então, não era uma coisa assim, que acatávamos, a gente discutia muito o que ouvíamos, então, foi natural. Apesar de que nem migramos, a gente continuou com as duas ações, tanto culturais, quanto educacionais.

CPDOC – Como era a relação, por exemplo, com as pessoas de São Miguel? As lideranças políticas de São Miguel, uma vez que era um grupo que tinha posicionamentos não muito comuns. Sueli – Então, nem havia tanto porque assim, na verdade, meio que ignorávamos, entre aspas, sempre, porque hoje já muitos estão à direita, vamos dizer assim. Então, a gente se conduzia muito mais pelo que a gente acreditava. Então assim, a gente ia à favela e queríamos fazer a revolução, na verdade, e acredito que teríamos feito, é meio temerário falar isso, mas isso. Isso posto, a gente começou o CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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envolvimento com a cultura, a parte mais artística, porque tudo é cultura na verdade. E aí a gente foi parar no MPA, participamos dessa fase inicial do MPA, o Arantes, Tadeu Giga era o assistente dele, enfim, nós tivemos todo esse envolvimento também das discussões iniciais.

CPDOC – Eu gostaria que você aprofundasse um pouquinho mais, Sueli, nessa relação, por exemplo, a chegada do Arantes, como é que se deu? Que cenário ele encontrou aqui? Que cenário existia? E quais foram as atividades que ele realizou para sistematizar porque isso se transformou numa pesquisa, num livro? Sueli – Então, assim, como eu te disse, eu não tinha muito envolvimento com São Miguel, essa coisa afetiva, então, assim, a minha lembrança mais viva é que havia pessoas fazendo arte. Então, Raberuan, eu já conhecia, o Edvaldo Santana, mas assim, como amigos do meu irmão, o pessoal que tocava e tal. E parece que na época também o disco Matéria já existia, Matéria Prima, que estava na mídia, enfim. Então, tinha uma coisa muito esparsa, não era tão aprofundada. Então, o cenário, para mim, era esse. Eu tenho a impressão de que com a chegada dos antropólogos, meio que ele organizou, ele reuniu, é como essa abordagem que a Fundação fez que foi aos poucos, com cuidado, se aproximando das pessoas, dos produtores culturais, enfim, e como esse pessoal estava muito solto, aquilo foi ótimo. Pôxa vida! Até que enfim um espaço para as pessoas discutirem cultura. E essa é a visão que eu tenho. CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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E assim, para nós também, então, de repente, nós estávamos soltos, o Teatro de Rua, e encontramos um local para discutir arte, cultura. Então, eu acho que eu não tenho muito mais a acrescentar ao que você deve já conhecer.

CPDOC – Agora é uma perguntinha que a gente não pode deixar de fazer, o que é que vocês liam? Qual era a informação? O que é que chegava? Sueli – (ri) Comprometedor.

CPDOC – O que é que chegava aí nas mãos desses artistas? Sueli – Então, eu posso dizer por mim, assim, na época, a gente lia muitos livros clandestinos, muito texto comunista, dentro dessa ótica mesmo. Então, a gente fez um grupo de estudos para estudar O Capital. Uma loucura pessoas com 18, 20 anos, universitárias, querendo ler e discutir O Capital. E essas leituras assim. Paulo Freire, bastante Paulo Freire e por aí ia. Mas era muito leituras clandestinas porque ainda havia um resquício da ditadura. E até para... acredito que até por serem jovens, era uma aventura a participação nesses eventos. Inclusive, quando o Lula, o boom do Lula, participou de todas esses eventos, estivemos em São Bernardo. E me parece meio uma coisa assim idealista, mas também aventureira. A gente realmente acreditava que poderia transformar aquela situação. Então, é isso.

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CPDOC – E qual era o cenário que mais incomodava, nesse período? O que é que mais incomodava? Era falta do que? Falta de educação? Falta de liberdade? Sueli – Então, era falta de tudo, nem da liberdade tanto assim, porque eu vim de Mogi das Cruzes, ali a gente não sentia muito esse drama, eu fui sentir mais em São Miguel. Mas, assim, a falta mesmo de informação. Nós não tínhamos informação. Eu fui ter contato com arte e cultura com o Grupo Núcleo. Então, você não tinha, não vinha, não acontecia. Então, eu acho que é a informação. No meu ponto de vista, o que eu mais sentia falta era de informação. Até porque isso faz parte da minha característica, eu acho.

CPDOC – Olhando para trás hoje, o que é que significou o MPA para você? Sueli – Então, eu vou falar sobre o aspecto mais pessoal. Então, começamos esse envolvimento, devo confessar que eu não sou artista. O teatro foi mais uma maneira de eu estar conversando com pessoas inteligentes, trocando ideias. Essa coisa de troca de idéias. Então, eu não sou artista. Fiz algumas coisas, assim, meio que eu acho que temerárias, assim. E aí, como o grupo era de teatro, nós nos envolvemos, nós fomos ao MPA. Porque inicialmente, e depois dessa fase inicial que houve as apresentações da Capela, até que aquilo foi muito intenso, as discussões dentro da capela, aí é que surgiram as praças porque era uma conquista, o pessoal queria que a Capela se CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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transformasse num Centro Cultural e foi uma luta muito difícil porque até inglório você brigar com a Igreja Católica. E não conseguimos. Embora Dom Angélico fosse uma pessoa tão progressista, mas ele faz parte de uma instituição, que é a Igreja. Então, ele segue toda a conduta da Igreja. Então não conseguiram, não conseguimos a Capela. Então iniciou-se as praças e tal e a praça era muito interessante. Então, o meu olhar agora vai ser de uma pessoa que participou, não tanto – é o que você falou – não tanto como produtora, mas como pessoa, uma cidadã dentro do MPA. E era muito interessante porque as praças, de repente, me remetia às praças da minha infância e assim era uma coisa muito prazerosa que as pessoas iam de peito aberto. Embora tenhamos feito muitas coisas também não tão tranqüilas. De repente eu me via com todos os medos do MPA, cercado pela polícia porque participamos da Greve Geral, a primeira Greve Geral, e aí o Baitola e Edvaldo Santana e o Akira naquele coreto que era o nosso palco, bradando, desafiando a polícia, enfim. Mas também tinha o outro lado, que era muito bom, então as pessoas iam lá para ver gente, ouvir boa música, dançar. Se ver o material daquela época, você vai perceber o prazer das pessoas de estarem lá, o público. E também o prazer dos artistas se apresentando. Então, o pessoal paquerava, o pessoal conversava, revia amigos. Porque a arte propicia muito isso. A arte tem essa coisa agregadora.

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CPDOC – O MPA era um movimento orgânico? Movimento organizado? E como é que você conseguia identificar isso? Sueli – Sim, porque assim - embora eu não gosto de falar assim, desse jeito – mas havia as lideranças. Naturalmente isso surge, as lideranças surgem em qualquer processo, seja grupo, seja movimento. Ainda mais um movimento daquele porte, que ele criou uma dimensão muito grande e foi agregadora, aquilo precisaria ter uma, então, havia as lideranças sim. Eu te cito algumas, o Akira, eu lembro do Akira, do Sacha e algumas outras pessoas, Edson Tomás Filho, o Eduardo, Edvaldo Santana. Eu acho que mais essas pessoas e os outros também juntos. Mas a cabeça, vamos dizer, organizacional, não a cabeça do movimento, senão o pessoal briga comigo porque eram todos muito importantes nesse processo. Mas havia certo sim, eu acho, uma organizacidade, senão ele não teria durado tanto tempo. Embora eu creio que o movimento é uma coisa dinâmica, então o movimento, nesse período em que ele existiu, ele cumpriu bastante a sua função que era a de despertar mesmo nessa coisa de fazer artístico, da auto-estima como artista, desenvolvimento cultural mesmo porque foi um boom, Nossa! Então, que tudo em termos de cultura ocorreu naquela época e realmente foi todo o poder. E acho que isso se esgotou, assim. Então, acabada essa fase da praça, por conta dessa organização, aí eu, historicamente, eu não sei te situar porque eu não participei mais desse momento,

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surgiu o circo, desse momento em diante, eu não tenho muito que te dizer assim, mas havia uma condução. E eu acho importante.

CPDOC – Uma última pergunta com relação a essa questão do MPA, como é que era a relação do MPA, da Igreja, dos movimentos sociais que existiam nesse mesmo período porque houve movimentos sociais de todas as ordens, enfim, como é que você vê essa relação, esse momento? Sueli – Eu acho que o MPA estava bem integrado com essas ações todas porque São Miguel, que eu me lembre da época, São Miguel, de repente os focos se voltaram para São Miguel porque era um dos poucos lugares em que realmente havia essa efervescência política, cultural e tudo acontecendo ao mesmo tempo. E esses acontecimentos estavam sempre bastante integrados, interligados, até por conta da característica das pessoas que ali estavam. E você tinha perguntado a questão da organicidade, até depois algumas pessoas participaram do poder público. E aí teve um desdobramento, aí conseguimos esse diálogo com o resto da cidade, por conta disso. Então, havia o Movimento Popular de Arte integrado a vários movimentos da cidade de São Paulo. Isso foi muito bacana. E houve um congresso dos movimentos, aí foi também por parte disso que aconteceu o congresso dos movimentos populares de cultura que foi bem bacana. Eu acho que, mais ou menos, é isso o que eu tenho a dizer sobre o MPA. CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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CPDOC – Então, vamos falar agora um pouco da questão da Fundação. Qual é a sua visão com relação à Fundação em São Miguel, tá? E assim, dentro dessa visão da Fundação, a questão do curso de liderança que você realizou aqui conosco. Sueli – Então, eu só vou fazer uma introdução assim, nesse ínterim, que você pôs essa questão toda, eu fui ter filhos e tal, parei um pouquinho com isso. E eu retomei essa nova jornada desenvolvendo atividades com o terceiro setor. Então, essa linguagem para mim, me encantei, e desenvolvi um projeto lá no Itaim Paulista em parceria com a Associação de Apoio ao Programa Capacitação Solidária, ligada à Dona Ruth Cardoso, à Comunidade Solidária. Então, essa linguagem, esse comportamento, vamos dizer assim, sempre me encantou. Então, quando eu soube que havia uma fundação aqui, do porte da Fundação Tide Setúbal, isto me deixou muito encantada. Mas eu estava fora desse tipo de atividade, eu estava cuidando da minha vida, tentando sobreviver, tal, não me envolvi muito com a Fundação, mas sabia por intermédio do Sacha e desse pessoal que já tinha uma relação mais próxima com a Fundação, das ações da Fundação aqui em São Miguel. E aí, em 2008, sabedora desse curso, do Arteculturação, do Núcleo de Formação para Lideranças, resolvi participar, até por um estratagema do Akira, que ele falou: CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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olha, vamos lá, tem tudo a ver com você, vamos participar. E vim. Me encantei com todas as propostas desse curso, tanto é que participei ativamente, presença constante nos debates e as pessoas que eram convidadas, enfim. Então, a Fundação, eu acho que ela, pessoalmente, veio me enriquecer muito, assim, em termos de conhecimento. Com relação a São Miguel, São Miguel eu acho que nunca teve, porque as lutas aqui em São Miguel - você agora me disse que participou – você sabe que sempre foram muito difíceis. A relação com o poder público, a relação com a própria organização das ONGs, não há organização, se você perceber as ONGs são muito amadoras, vamos dizer assim, então o atendimento acaba sendo precário por conta disso. Então, a Fundação, eu acho que ela veio preencher essa lacuna e veio com força total, acho, assim. Muito positiva a presença da Fundação aqui. Me encanta todas as perspectivas que se abriram a partir desse relacionamento com a Fundação. Eu acho que, inicialmente, seria isso que eu teria a dizer.

CPDOC – E dentro do Curso de Formação de Liderança, quais os aspectos que você destaca? Claro que você já colocou que todos são, todos te encantaram, mas aquele que você olha, tem um olhar um pouco diferenciado. Sueli – Olha, é difícil assim, mesmo. Porque assim, o curso fez uma coerência muito grande teve uma condução muito interessante. Então, assim, destacar CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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fica meio complicado. Destacaria a atuação dos mediadores, tanto o Tião Soares quanto o Pedro Neto, eles souberam nos conduzir muito bem. E a própria sensibilidade da Maria Alice, que eu acho que ela é muito acessível e próxima. Isso é outra coisa que me encanta nessa relação porque se você não tiver o seu interlocutor próximo, você fica meio solto nessa coisa toda. Então, isso é o que eu poderia destacar mesmo.

CPDOC – E para você, na sua vida, qual a aplicação que você dentre os conteúdos que você teve a oportunidade de participar, qual aquele que você pode dizer assim que você aplica diariamente ou que mudou o conceito ou que facilitou para além da atuação aqui na Fundação? Sueli – Assim, não muita coisa, mas assim, deu um salto de qualidade, na verdade - enorme, diga-se de passagem – nas coisas que eu já acreditava. Então, assim, é a coisa da qualidade, mesmo. Então, de repente eu tive contato com pessoas que se eu tivesse que fazer o curso não seria tão fácil, e as pessoas estavam aqui, disponíveis, eles trouxeram muitas informações a partir de pessoas também, trouxeram os nossos palestrantes, eram pessoas de altíssimo nível. Então, isso aí deu um up grade na minha vida, que não tem preço.

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CPDOC – E como é que você estabeleceria, por exemplo, esse elo desse período, por exemplo, lá a década de 70, 80 e esse momento, esse processo? Sueli – Então, mas justamente isso, antigamente o trabalho era muito voluntário, quase que espontâneo. Lógico que no meu caso, o processo foi desencadeado pela Igreja Católica, a ala progressista da Igreja Católica. Mas era mais espontâneo, mais assim, era uma coisa não muito... e fora disso havia uma integração, mas era muito mais - não encontro o termo – mais espontâneo. Hoje não, com essa coisa do terceiro setor, eu acho que a gente adquiriu o know how, um handicap maior e as próprias empresas – eu não estou conseguindo agora pensar porque é muito recente – participando disso. De repente, toda a sociedade está voltada, por uma questão de sobrevivência, em torno de um objetivo, que é essa coisa da atualidade mesmo, de vida e desenvolvimento. Antes a gente ficava muito parado no tempo porque não havia o próximo passo. Então, você tinha muita vontade de fazer, havia as informações possíveis, mas hoje não, a coisa está meio que institucionalizada, vamos dizer.

CPDOC – E aí entra o Instituto. Como é que você chegou até o Instituto? Sueli – Então, o objetivo, eu creio que, do curso, que um dos objetivos finais do curso, além de todo o conteúdo que esse curso tem, programático, era a criação do CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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Instituto. Mas foi uma eleição, fui eleita, no final havia uma proposta de criação do Instituto e fui eleita, por unanimidade, presidente.

CPDOC – Quais as linhas do Instituto, assim, em linhas gerais? Sueli – Então assim, o próprio nome já é, porque é assim, você me desculpa essa titubeação - de novo essa palavra - mas é que ele está recém-nascido. Então assim, a gente veio discutindo várias questões como ética, política, políticas públicas, terceiro setor, então teve todo um conteúdo programático. E aí, nesse bojo é que surgiu esse Instituto. E nós somos recém-nascidos. Então, estamos fazendo a segunda reunião hoje, agora, e a gente está tentando organizar os pensamentos iniciais sobre o Instituto. Da minha parte, eu tenho bem claro o que eu quero porque foi muito difícil, eu recebi a sugestão de que poderia ser eu e resisti muito porque achei uma missão de muita responsabilidade, acho até hoje, é gigante todo esse processo, mas assim, quando eu aceitei, comecei a aceitar a idéia dele, quando aceitei ser presidente, aceitei a ideia dessa responsabilidade toda. Então, na minha cabeça está que eu tenho claro o que eu pretendo e nós estamos agora conversando entre os membros para ver se todos pensamos a mesma coisa. A grata surpresa é que sim, de alguma forma a gente construir realmente essa missão e levar adiante. Eu posso falar algumas coisas sobre o que penso. Como já existe a Fundação aqui na região, eu acho que a gente não pode CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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estar atuando na mesma seara. Então, onde a gente poderia ser mais eficiente? Partindo da nossa experiência. Então assim, de imediato, a gente pretende atuar nas áreas de cultura mais artística, que é a nossa praia, educação e ter algumas transversais com o meio ambiente. Eu acho que seriam três focos bacanas para iniciar. Tudo isso com enfoque de melhorar mesmo a questão da qualidade de vida da região.

CPDOC – Quais são as pessoas que estão envolvidas no Instituto? Sueli – Somos, eu, no caso, eu, Toninho César, Akira, Raberuan, Eduardo Dantas, Ivanildo, Tião Soares, Pedro Neto, Sara. Por enquanto são esses. O Zulu de Arrebatá, não posso esquecer do Zulu. Somos esses, assim. Então, estamos bem no processo inicial mesmo.

CPDOC – Primeiro eu vou fazer uma pergunta bem capciosa mesmo. Por que é que você assumiu a presidência do Instituto? Sueli – Justamente porque assim, eu assumi porque percebi que o Instituto vai me permitir e vai me dar condições totais de executar aquilo que queremos. Então assim, vamos conseguir promover mesmo essa melhoria dessa qualidade. Então, me surgem muitos termos utilizados e recorrentes, mas é isso mesmo: é propiciar à população de São Miguel, região e Curuça mais adjacências, essa promoção mesmo CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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dessa melhoria dessa qualidade de vida. Nem tudo o que isso significa, seja na área de educação, de cultura, enfim.

CPDOC – É, você já está falando um pouco das linhas de atuação, agora, dentro do cenário que nós temos hoje, por exemplo, das dificuldades que nós temos, você já citou a questão do meio ambiente, mas qual é o retrato, se você fosse pintar o quadro, qual o retrato que você pintaria de São Miguel, de potencial de execução, de possibilidades reais e de dificuldades que têm que ser enfrentadas? Que quadro você pintaria? Sueli – Bom, a dificuldade que eu encontro é porque as coisas estão muito setoriais, vamos dizer assim. Então assim, cada um está se organizando dentro do seu setor, dentro da sua especificidade e essas coisas não estão articuladas. Eu acho que a Fundação veio meio que para cumprir esse papel de articulador mesmo, de juntar as coisas que estão tentando se organizar e o Instituto faz parte disso. A gente vai estar em outra seara, vamos dizer assim, mas junto. Então, eu acho que é de muita desorganização que eu vejo em São Miguel. Alguns elos se perderam mesmo, se você for ver, é muito individual as coisas, os relacionamentos não são mais articulados. E a força que eu acho que o Instituto tem é essa parceria com a Fundação. Juntos estarem articulando esses setores.

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CPDOC – Você consegue ver uma relação, por exemplo, desses dois períodos? Voltando um pouquinho lá para a década de 70, 80, onde tinham os movimentos sociais, que eram movimentos também, Movimento Popular de Arte, movimento de saúde e hoje, essa necessidade de articulação, de organização. Como é que você vê esses dois movimentos? Sueli – Então, na época, não havia, por exemplo, uma Fundação e nem havia possibilidade, não havia esse enfoque. Talvez a Igreja, quem sabe, pudesse fazer esse papel, tivesse tentado fazer esse papel de organizar a sociedade civil, mas não conseguiu. Você sabe depois o que aconteceu e nós acabamos nos afastamos e as pessoas, com o advento da democracia, com o fim da ditadura, eu acho que foi quando a gente meio que perdeu essa motivação de organização e fomos cuidar da nossa vida. Então, hoje eu penso assim, que mais friamente a gente consegue ver a situação, menos emocionalmente, a gente consegue ver com o olhar mais distante e com uma situação política que temos agora, muito mais tranquila, muito mais aberta, a gente consegue, eu acho que é mais possível essas articulações, a gente não tem que fazer clandestinamente isso, a gente está fazendo isso a olho nu, as pessoas não têm mais medo de discutir essas questões, as pessoas estão tentando se posicionar. Embora eu considere de forma errônea, mas é um começo. A democracia é uma coisa que você só consegue realizar vivendo, administrando as diferenças. Principalmente isso mesmo, administrando as diferenças, praticando a CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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tolerância e aí tentar juntar mesmo, com inteligência esses setores. Eu acho que hoje é bem mais possível, tudo está mais possível. Seria redundante continuar essa fala. Porque é bem bacana assim, a gente pretende organizar mesmo, dar um up grade mesmo no atendimento que as ONGs estão dando. É isso mesmo. Porque a Fundação já veio para fazer uma série de ações, tão bem-feitas que você não tem que estar, como diz o Tião, reinventado a roda. Então, a gente quer aperfeiçoar o trabalho.

CPDOC – Bom, então é o seguinte, nós vamos agora para a terceira e última parte... Sueli – Que é a mais difícil.

CPDOC – Que é aquela que a gente já havia falado. Na verdade, eu entendo que você já respondeu. Eu teria uma outra pergunta que é ações do Instituto no futuro, eu acho que de certa forma você já colocou no meio e ainda ganhando uma única pergunta. E aí assim, eu acho que a gente poderia gastar um bom tempo para falar sobre isso. Sueli, diante dessa linha do tempo, pegando a sua trajetória em São Miguel, os seus trabalhos, os envolvimentos que houveram desde esse período, eu tenho uma pergunta para lhe fazer que é assim – aí é pessoal mesmo, CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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tá? – que é assim: quais são os seus sonhos, sonhos da Sueli para com a Sueli e da Sueli para com São Miguel? Sueli – Na verdade isso é muito simples, então eu não perderia muito tempo falando sobre isso. Eu acho que os sonhos já estão se realizando. E não é nenhuma demagogia - o pessoal da Fundação sabe que eu não pratico demagogia, com eles, principalmente, às vezes a gente tem conversas duras - e que já estão acontecendo com essa parceria com a Fundação. De repente eu vejo a possibilidade concreta de realização de qualquer coisa que a gente imaginar porque a gente, contanto que a gente, claro, tenha bom senso, contando que a gente siga a missão - porque todos nós criamos essa missão e concordamos com ela - de realmente linkar São Miguel com o resto do mundo como um local que as pessoas pertencem àquele local, que gostam do local, que tem qualidade nas relações pessoais, qualidade de aprendizado, de crescimento pessoal, de crescimento, de auto-estima mesmo porque São Miguel meio que perdeu isso. Às vezes, na fala mesmo dos companheiros, a gente percebe isso. Então, é recuperar isso e é um sonho desenvolvimentista mesmo. É exatamente isso que o Instituto representa. Então, o meu sonho é esse e já está se realizando. Sonhos estão aí para serem concretizados. Então, eu acho que é isso.

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CPDOC – Então, eu volto à pergunta anterior, que eu não fiz. Quais são os projetos da Sueli? Sueli – Os projetos da Sueli hoje se misturam e se confundem com esse projeto que a gente vai estar, que eu estou focada totalmente nesses projetos aí do Instituto. Assim, tentando criar projetos também, junto com os companheiros, os parceiros de empreitada e são esses projetos mesmos. Porque projetos pessoais já realizei, meus filhos estão aí, saudáveis, criados, minha família, super tranquila, marido ótimo. Então, esses projetos pessoais estão muito bem resolvidos. Então, são os projetos que eu deixei meio de stand by por conta da questão familiar mesmo, que eu fiz uma opção. Então, o hiato que você percebeu daquela época para a retomada agora, que eu estou retomando agora, em 2008, então houve um hiato que era estar mais com a família. Agora, então, eu estou com o gás todo e uma vontade enorme que aconteçam as coisas assim.

CPDOC – Universidade, estudo, pesquisa? Sueli – E aí tudo é conseqüência, conforme as necessidades que forem surgindo, eu pretendo estar fazendo. Não tenho nenhum plano assim, de imediato. Prefiro ver como vai estar sendo conduzido esse processo todo, mas assim, pessoais, pessoais, pessoais, não tenho mais necessidade, mas agora é o Instituto. Aliás, é um baita projeto! Diga-se de passagem. CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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CPDOC – Com certeza! Sueli – Que vai me absorver bastante. Aí eu conto com vocês também. A gente vai fazer uma parceria bem bacana, pelo que eu estou vendo assim, é isso eu acho.

CPDOC – Sueli Kimura, muitíssimo obrigado. Sueli – Eu é que agradeço.

CPDOC – Pelo tempo que você dedicou aqui ao CPDOC, ao Centro de Pesquisas e Documentação. Gostaria de dizer que quem participou dessa gravação de hoje, Camila Brazão, Diego Figueiredo, que foi estagiário do CPDOC e eu, Mauro. Gente, pela Fundação e pelo CPDOC, a gente agradece a tua presença e esperamos que a gente possa dar continuidade nesses diálogos nos próximos dias, meses e anos. Sueli – Conte comigo. Foi um prazer. Espero que eu tenha contribuído para os propósitos de vocês, tá bom?

CPDOC – OK. Muito obrigado. Sueli – Nada.

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Ronaldo Delfino de Souza

Ronaldo Delfino de Souza militante político ambientalista A entrevista ocorreu no Instituto Alana no Jardim Pantanal, na tarde do dia 05 de junho de 2009. A equipe do CPDOC foi formada pelo coordenador Mauro Bonfim, e pelo estagiário Diego Figueiredo.

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CPDOC – Ronaldo, a gente vai começar a nossa conversa aqui, que a gente quer saber um pouco como é que foi a infância do Ronaldo e em seguida, como é que foi a vinda do Ronaldo para São Paulo. Ronaldo – Eu nasci em Paulistano no Piauí do casamento de um sapateiro com uma doméstica. Tive uma infância em trabalho, era uma briga grande para estudar porque os pais queriam que você trabalhasse, a profissão é que ia dar o resultado, o estudo não. Então era aquela briga sempre porque eles queriam que você trabalhasse, não estudasse. Com sete anos eu já costurara em máquina de costura como sapateiro. Sou sapateiro, mas não exerço a profissão há muito tempo. E foi uma infância, apesar do sofrimento, porque a minha mãe, dentro da minha casa tinham mais 17 pessoas, que eram irmãos do meu pai, que a minha mãe criava. Imagina a frustração. Então, no final dos anos 70, como na nossa cidade não tinha ensino médio, só estudava-se até o ginásio, não tinha o ensino médio, na época era o colegial, o famoso colegial, então o meu pai mudou para Petrolina no Pernambuco com toda família, aí ele entendia que precisava estudar, mas daí não dava a condição de estudar porque eu tinha que trabalhar e trabalhar. Então, em Petrolina você começa, numa cidade mais desenvolvida, começa a participar do grêmio estudantil, aí vai entender na questão da sociedade, aquela coisa, né? CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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Eu tive no ensino fundamental foi, assim, um retrocesso dos meus estudos porque eu saí de uma cidade pequenininha, eu fui para uma cidade maior, bem desenvolvida com o Rio São Francisco. A juventude, no final dos anos 70, tudo doidona. Então os estudos, eu repeti a oitava série três vezes para poder ir cursar o meu ensino médio e depois poder ir parando para trabalhar. Fui trabalhar de cobrador na Gontijo empresa se ônibus, aí já com 18 anos, saindo dispensado do exército, aquela coisa toda. Então, trabalhar e não dava para estudar porque era viajando direto. Isso, nessa juventude, já entro na questão da vida, né? Você trabalha, aí você não quer mais trabalhar com os seus pais, aí você quer... lá, o primeiro trabalho livre, isso você vai para outro. Fui trabalhar nas Casas Pernambucanas de cobrador, de porta em porta. Imagina essa convivência com as pessoas, você chegar e ouvir aquela choradeira das pessoas que não tinham o dinheiro para pagar a prestação, mediar aquilo com a loja. Os outros cobradores já davam a intimação, vamos levar teus móveis de volta, e eu fui simplesmente fazendo a cobrança era chamada a atenção direto porque eu não fazia essa intervenção. Eu sempre tentava entender o lado do cara, que eu também na mesma situação não ia, né? Então você tinha que dar o resultado para a loja e tinha que mediar. Então, era aquela coisa de ligar, chorar pelos juros que terminava tirando um pouco do prejuízo do devedor, e a loja achava-se penalizada, chegou a descontar uma vez uma prestação do meu salário porque eu tirei o juro todinho da CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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mulher e foi aquele negócio, né? E saí das Casas Pernambucanas aí em 85, de 84 para 85, né? Vim baixar aqui em São Paulo, vim porque minha irmã tinha casa e tudo, e terminei ficando em São Paulo de 85 até 87. Chegando em São Paulo, morei na Freguesia do Ó. Chegamos na época bem no auge da campanha da vassourinha do Jânio Quadros e os meus parentes todos estavam apoiando o Jânio Quadros, não, vamos fazer boca de urna. Vai daí eu falei, boca de urna para Jânio Quadros, imagina! Cheguei fazer boca da urna recém chegado do nordeste para Jânio Quadros com a questão da vassourinha, varre, varre vassourinha, e aquele negócio e você vê o resultado que deu, o que é que foi. E depois, aqui em São Paulo fui trabalhar de repositor num grupo de mercado, que não existe mais, que era o

Bazar 13, que tinha naqueles shopping e tal. Eu

trabalhava à noite. Daí você saia da Freguesia do Ó para Pirituba, eu trabalhava no shopping de Pirituba, então você pegava dois ônibus para vir à noite porque era perigoso, mas de manhã eu ia a pé de Pirituba à Freguesia do Ó para economizar as duas passagens. Cortava tudo aqui por cima, saía aqui, ali, Brasilândia até chegar na Freguesia do Ó, na andança. Depois eu fui morar, isso morando com a minha irmã, como parente que não dava, muito jovem, querendo conhecer a cidade e tudo, ela não queria deixar, vou chegar a tal hora em tal dia, no carnaval fiquei três dias fora, aí deu aquele confusão com a irmã, fui morar com uns amigos no apartamento da CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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Cohab Quatro de Taipas. E fiquei lá em Taipas, brigava com o síndico pela questão da reunião, era muita interferência, a questão do lixo, aquelas conversas toda que a gente conhece dentro do condomínio. E foi uma experiência muito louca de morar num apartamento, coisa que nunca tinha morado. Morava no Nordeste num quintalzão grande para você andar com pés de fruta e tudo a manga, seriguela, aquelas coisas, e você ir morar naquele quadradinho e tudo o que é regras possível para você seguir. Você não tinha então, imagine essas pessoas, hoje eu imagino as pessoas que saem de uma comunidade para ir para um apartamento da CDHU o que é que passa por seguir toda aquela regra de condomínio. Então, foi uma experiência assim, que eu não quero repetir morar em apartamento nunca mais.

CPDOC – E mudando um pouco isso aqui que você está dizendo, como é que nasceu esse espírito comunitário. Você já está falando das reuniões, então, como é que foi essa coisa do trabalho comunitário? Fazendo essa ponte aí. Ronaldo – Eu acho que vem com a minha mãe. A minha mãe, a gente, como morava na cidade e tinha os parentes dela que morava na roça, na fazenda em Paulistana, então vinha aquele monte de pessoas para a minha casa. Além de ter os irmãos de meu pai que morava tudo em casa, ainda vinha aqueles outros, primo, tio da minha mãe e tudo para ir para o hospital. Minha mãe passava a semana trabalhando em casa para fazer tudo isso, ajudava ainda o meu pai, que ela vendia na feira, vendia CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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comida para as pessoas para pode agregar a renda. Mas durante a semana, era levando gente para o hospital direto. Então, uma das coisas que a minha mãe, que hoje eu não segui, era a questão religiosa. A minha mãe era muito católica e tal e me enfiou de goela abaixo para mim fazer catequese. E na catequese eu, toda a aula, eu ficava de castigo porque era uma coisa que eu contestava tudo o que dizia. Por exemplo, a questão do mar se abriu em dois, quando vem isso, eu levo uma bacia no outro dia, isso com oito para nove anos de idade eu levo uma bacia de alumínio com duas tábuas pregada de um lado e do outro para a mulher colocar água de um lado e do outro e ela não vazar para o meio. [risos] O padre, esse menino é o capeta, ele está com o satanás. De joelhos nas pedras. Então era castigo e isso eu não seguia. A minha mãe dizia: Meu filho, você ia tanto na igreja. Se a senhora olhava, eu tava dormindo, eu tava só para estar com a senhora, pra senhora não ir sozinha. A minha mãe, ela fazia toda essa, ela era uma pessoa, era não, é, que está viva, é uma pessoa muito humana. Então, ela deixa tudo o que estiver fazendo para ajudar a um outro. Acho que esse espírito veio. Ao contrário do meu pai. O meu pai, nós tinha quebras desde garoto pela exploração. Ele fazia, por exemplo, os meus tios trabalharem, trabalhava a semana todinha, no final de semana, porque eram tudo rapaz jovem, solteiro, querendo namorar e o meu pai, primeiro se embelezava todinho, bonitão, dinheiro no bolso, os meus tios e ele falava: Se está comendo, está dormindo, está vestindo, quer dinheiro para que? Era nessa linha, era um velho daqueles, egoístas não sei de onde veio, ranzinza, mas daqueles, que na farra era outra coisa. Então, o oposto a minha mãe e o meu pai, totalmente o oposto. E o que desenvolve mesmo é que é assim, como eu não tinha tempo de brincar muito, final de semana na feira eu tinha que engraxar os sapatos. Naquela época, tinha um grupo de senhores que chegou na nossa cidade, um tinha um armazém, o outro tinha um cartório, o outro tinha uma lojinha. Aquele pessoal foi chegando, chegou um médico. . Aquele grupo se sentava numa pracinha em frente à lanchonete dos meus pais, que era no mercado municipal, ele tinha um canto lá, e esse pessoal CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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ficava ouvindo A Voz do Brasil. E onde estava Ronaldo? Garotão, engraxando o sapato desse pessoal, durante o dia, e à noite se aproximava para ouvir as conversas. E o pessoal falava, não se aproxime desse povo que eles são maçons. Porque viam no grupinho tal. Quando eu me entendo como gente da política e descubro que eles eram comunistas fugindo do regime militar para a cidade pequena. Então, por isso que eles estavam sempre em grupinho ali, discutindo, hoje quase todos já devem ter morrido mais de 30 anos que eu não tenho contato com eles, mas, imagino eu que os que estão vivo estão vendo aí a situação que está hoje. Então, naquela época eu ouvia eles conversando dessas questões de sociedade e tudo e eu tenho uma memória muito boa, assim, de lembrar de fatos da infância. Eu costumo muito dizer que eu lembro quando eu estava mamando e eu lembro mesmo. Minha sentava e eu vinha, pegava no peito dela para mamar, eu lembro disso. Ela já grávida do meu irmão e eu lá, puf, mamando. [risos] Então, é uma coisa que vem desta época e eu desenvolvo mesmo quando eu chego na Escola Antonio Alves Filho, a EMAAF, em Petrolina, que tinha, aqui chama o grêmio, lá chamava centro cívico. E o pessoal começa e me leva para o centro cívico. E a gente começa a fazer coisas como montar campeonato de futebol, começa a montar passeios naquelas ilhas que tem em Petrolina, tudo, e isso você já vinham fazendo discussões políticas. Tinha um grupo cultural chamado Guterima que o pessoal tocava, na época estava começando Geraldo Azevedo, tinha na época Antonio Luiz também e esse pessoal se juntava com eles e a parte cultural que você vai por aí desenvolvido praticamente. Tinha um camarada também, chamado José Damasceno, que tinha uma pequena deficiência num pé, que ele andava com um pé assim para cima, e ele também me deu grandes dicas, assim, de sociedade. Na questão da música, meu pai ouvia Waldick Soriano, aquele do Eu não sou cachoro não, e eu quando ouvi a música Ouro de tolo do Raul Seixas, todo o jeito, fiz o velho comprar o disco. Fiz ele comprar o disco e tal. CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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Daí, esse desenvolvimento da questão cultural, da música, de tudo isso, esse José Damasceno, esse camarada, que era muito amigo do meu pai, meu pai queria colocar aquelas músicas dele e ele falava, ouça o seu filho, isso não é música, isso não traz cultura nenhuma. Então, a minha infância, adolescência, a pré-adolescência teve esses altos e baixos, os conhecimentos, desconhecimentos, essas coisas todas. Também, uma coisa que teve, era muito fragilizado, como se diz? Fisicamente porque desde criança que eu tenho asma, eu cheguei quase a morrer com infecção intestinal com 11 anos de idade. Então, era bem fragilizado, mas o bom de você morar no interior, então você, eu acho que você vai valorizando mais a vida, né? Nadar, pescar, comer, brincar, as brincadeira não era essa, que não é essa mesma de hoje.

CPDOC – Então, vamos fazer um salto aí. Já que você falou dessa coisa da infância, eu queria saber agora e em São Paulo? Você havia dito que morou na Freguesia e qual foi à paisagem que você encontrou aqui na região do São Miguel, mais precisamente aqui no Pantanal. O que é que você encontrou aqui? Ronaldo – Então, aqui em São Paulo tem uma parte que em 88 eu voltei em Petrolina para fazer a campanha de um amigo meu, que era do centro cívico e saiu candidato a vereador lá. E eu fui daqui, pedi as minha contas e fui para lá ajudar ele. Ele não se elegeu e eu ainda recebi o convite amável dos capangas lá, dos CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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mandantes da cidade para mim se retirar, com as duas passagens ainda na mão. Trouxeram duas passagens e falaram: Isso aí é em consideração à sua mãe, senão você não ia sair daqui para você aprender a falar de gente honesta. Imagina, os coronéis da cidade gente honesta. [risos] Aí eu voltei, volto para cá, em 88, e daí, da Freguesia do Ó, arrumei emprego lá na Aclimação. E era longe pra burro sair da Freguesia do Ó para a Aclimação. Então, eu fui trabalhar lá e de lá foi onde eu conheci no Cambuci, eu trabalhava numa fábrica chamada Espaço Arte, que hoje não existe mais, e conheci a minha esposa, Maria Lucia, eu comecei a namorar com ela lá, no Cambuci. E ela morava na Favela da Vila Jóia, no Butantã. E a família dela toda aqui, no Vila Mara. E ela e a irmã dela moravam na Favela da Vila Jóia. Aliás, a irmã dela, ela estava indo mudar para lá. Tinha se separado do marido, tava brigando pelos filhos, pela guarda dos filhos e começamos a namorar. Ela trabalhava no Banco Itaú, na época, e eu nessa firma. Quando a gente viu, já tava morando junto lá na Vila Jóia. E lá foi uma briga, nós morava lá, no legado de 89, no inicio de 89 até 91, no fim de 91, quando eu mudo para cá para o Pantanal. Em 92, eu mudo para cá. E lá, imagina, aquela favelona, também lá, a luta lá foi grande, a gente participou da luta, da organização do pessoal que no governo da Erundina conseguimos 0que a Erundina removesse eles para o Projeto MULP no km 19,5 da Raposo Tavares. E eu não fui porque trabalhava aqui. Então, trabalhava aqui em São Miguel, imagina, morava no Butantã e comecei CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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a trabalhar com o cunhado da minha esposa numa loja de disco na Marechal Tito. Então, vinha do Butantã para cá, em 90 e tal. E daí, não sou membro da ocupação aqui do Jardim Pantanal. aqui a ocupação foi em 89, em 90 já estava o pessoal começando e daí eu venho no início de 91, bem na época das chuvas, conhecer o Pantanal. Quando eu chego aqui, aí eu me deparo com uma casinha aqui, outra ali, um pedaço ali e esta Rua Erva do Sereno, por exemplo, quando eu vim deu enchente. Era de noite. Como é que a gente vai morar aqui? Com a minha esposa. Ela falou: Não, nós vai ver mesmo uma casa, a gente foi ver uma casa que era ali na Rua Afoxé. E a dona já tinha vendido a casa. Onde hoje é um prédio que até foi sede do MULP, em uma época. Aquela casa era pra gente ter comprado. E a dona já tinha vendido. Era uma casa antiga. E aí a gente vem por esta rua aqui, chama Samoa Ocidental, procurando casa. De noite, você via uma luz aqui e outra lá a 200 metros, acesa. E daí eu falo, e agora? Aí o meu cunhado, não, eu trouxe uma lanterna. Ele veio com a lanterna. [risos] Mostrando. Aí eu falei, mas isso aqui, que a gente vai morar aqui? É, isso aqui vai desenvolver, isso aqui vai e tal. Eu digo, bom, tudo bem, só em eu estar, porque aqui é perto, pelo jeito dá até para ir a pé para São Miguel, já eu não ter que sair lá do Butantã pra cá, já vale qualquer coisa, mas então vamos ver que casa que a gente vai comprar. Nós vimos a casa de noite e olhamos e a casa era de um crente. O crente olhou, a gente olhava assim para o teto, tinha lona por cima da telha. Por que CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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é que tem a lona? Não, isso é para tirar o calor, mas era por que as telhas era tudo rachada, mas de noite não dava para você ver. Então, o cara passou a perna e era nessa linha aí. Que negociava as casas. A ocupação, depois a gente vai saber, que a ocupação aqui do Pantanal, ela não foi uma ocupação assim que organizou as pessoas, e veio. Teve um grupinho que organizou duas, três primeiras ruas e daí as pessoas que se diziam liderança na época, separaram um monte de lotes, né? Uma, esse é meu, esse é meu, aí esse aqui é teu, esse aqui é seu, esse aqui é seu, esse aqui é seu, esse aqui é seu, então, quando eu cheguei, estava naquela venda, venda do terreno. Então você tinha um dia aqui um vizinho, quando era no outro dia, tinha dois, três, quatro já ali demarcando. E foi um processo gostoso, assim. Não participei totalmente assim, porque eu trabalhava de domingo a domingo, mas nos dias em que eu estava em casa era gostoso porque você ia lá ajudar as pessoas. Você, se tinha um mexendo em cimento, ali o concreto para preencher a coluna, daqui a pouco tinha seis, oito pessoal ao redor, um levando, outro enchendo lá e elas, praticamente, as primeiras mil casas aqui no Pantanal, elas foram construídas em mutirão. E era isso o gostoso. Não tinha praticamente um final de semana que você não ia bater laje, as pessoas iam junto. E isso, aí você começa a fazer como... que não tinha rua. Essa Rua erva do Sereno que tem aqui, você passava só naquele carrilhão. Se você escorregasse a água vinha até aqui na coxa. E o que você via de bêbado nadando, porque os caras CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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mudavam, aí eu acho que dava aquela angústia, olha, eu vim pra cá a pouco, eu estou morando aqui nessa casinha, dois cômodos, nessa situação sem luz, sem água, sem esgoto. Lógico que dá uma depressão. Principalmente em 92, depois que vem a primeira enchente, eu falei, e agora, mulher? Nós saímos de lá da favela, nós podia ter ido para um apartamento, a gente veio para cá. Olha a enchente! E a minha casa era na beira do córrego Beira Rio. Então, se o córrego transbordava, a rua ficava cheia. A minha casa, quando eu mudei para cá, ela tinha uns três degraus que dava da altura do que nós estamos para a câmera. Você subia um, dois, três. Com quatro anos que a gente estava aqui, aí o degrau já era pra dentro. Teve que aterrar todinha e ela ficou baixa da rua, né? você já descia para dentro da casa. Foi a última enchente de 97 que a gente pensou que ia entrar água em casa. Então, eu fiz um degrau a mais, você já passava e daí, com todo aquele aterramento da Jacu – Pêssego, toda aquela obra, está toda aqui dentro. Então, veio aquele aterro todo nessa época aí pra cá e foi mudando o cenário onde você fazia um carreirinho, você vai fazendo rua. Os moradores se uniram, na minha rua mesmo, nós fomos buscar umas manilhas que tinham deixado lá no Jardim Helena, próximo ali dos campos de futebol, tinham feito uma obra e tinham deixado umas manilhas velhas. Nós juntamos aí num caminhão velho, fomos dois times de futebol que nós tinha era aí, um na rua e o outro na outra, buscar essas manilhas. Imagine, sem guincho, colocar aquelas manilhas de 80 em cima do caminhão. Era com tábua, tudo, colocamos CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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tudo. Passamos o domingo todinho para trazer quatro manilhas de ir colocar na rua. Um final de semana todinho. Trouxemos as manilhas em um, quando foi no outro final de semana, sábado e domingo, garoando, para colocar. Então nós fizemos uma primeira passagem da Rua das Gaivotas com essas manilhas. E daí, quando você faz uma ação dessa, as outras ruas vão copiando. Então, as outras ruas começou a fazer e com todo esse aterramento que vinha, você pegava um caminhão de terra para a sua casa e um caminhão para a rua. Um caminhão e isso você foi aterrando todinho e deixando, tirando toda a paisagem que tinha do rio, hoje é totalmente, nós estamos aqui mais altos do que o Noêmia, mais alto do que o Maia e mais alto do que o São Martinho. Então, isso foi um processo muito, como é que eu diria? De ações comunitárias mesmo, mas por detrás disso também teve muita exploração porque teve muita gente lá via aquele monte de caminhão, o caminhão vinha e as pessoas deixaram de comprar alguma coisa, na época estavam na transição do cruzado para o real, então era URV, a unidade real de valor, o caminhãozinho, 10 URVs. 10 URVs o caminhãozinho de terra. Quando não tinha, não 5 tá bom. Quando você passava, os caras invés de ir pro o bota-fora, os caras tinha que pagar o botafora naquela época, dava em torno de uns 50 URVs por caminhão, que era para jogar lá, os caras não jogavam lá, traziam pra cá e ainda recebia os motoristas a caixinha com isso. Então, a gente não tinha nem noção do que seria a questão de uma preservação ambiental porque se tivesse, talvez a gente não teria de fazer esse CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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trabalho todo de aterrar e tudo, talvez orientasse a não fazer isso. Hoje a gente acredita que para fazer uma urbanização decente isso daqui vai ter que tirar, pelo menos, uns 70 centímetros de terra por rua, baixar, se não vamos ficar ilhado quando chover.

CPDOC – Como é que era a relação, por exemplo, com o poder público nesse período? A prefeitura vinha aqui? Tinha algum tipo de assistência que era dada aos moradores? Como eram assistidas as famílias que aqui estavam no Pantanal? Ronaldo – Na época não tinha assistência. A única coisa que a prefeitura fazia é quando dava a enchente, colocava duas, três assistentes sociais para ver as pessoas que tinham perdido de tudo, colchão, pra ceder cesta básica. Nas enchentes nós íamos para o EMEF Virgilio. Abria o Virgilio, quem estava com a casa dentro d’água ia para o Virgilio. Uma coisa interessante ver, a ação do poder público foi o que? A gente descobriu que essas enchentes todas não era obra de São Pedro, né? Não era da chuva. Tinha a barragem de Mogi das Cruzes, os caras abriam as comportas da barragem de Mogi e fechava as comportas da barragem da Penha para não alagar as marginais. E daí, esse truque foi feito, aqui todo o mundo com o desconhecimento total, você só ouvia falar, não podia ver ficar nublado para o lado de Mogi das Cruzes, opa, lá vem toró. Todo o mundo, ficava amontoando as suas coisas com medo de perder tudo. Mas, quando descobrimos, em 97, que a barragem da Penha CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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estava fechada, um grupo de moradores foi fazer um trabalho na Vila Maria e tinha um Chevette velho e foram de Chevette. Resolveram ir no Chevette velho lá pela Trabalhadores. E geralmente o pessoal daqui só ia de trem, ônibus porque não tinha, até porque para subir pelo bairro dos Pimentas todinho para dar a volta, para pegar a Trabalhadores, então as pessoas iam por dentro aqui. Se ia para a cidade ia de ônibus ou ia pela Celso Garcia ou pela Radial, que era o caminho mais, comum Ninguém tinha o costume de pegar a Trabalhadores até porque não tinha acesso porque só tinha aquela pontinha de madeira ali na Nitro Química. Só passava um fusquinha e olhe lá que ainda balançava. Então, quando o pessoal resolveu ir pela Trabalhadores que chega depois do Parque Ecológico o rio vazio. Aí o pessoal chega aqui e põe a boca no trombone. Ué, aqui tá tudo cheio e lá tá vazio? Aí na época, a Ana Martins que tinha sido recém eleita, querendo mostrar trabalho e tudo aí trouxe aqui o secretário de saúde, que era o Pinotti na época, nós vamos denunciar isso porque não sei o que. Eu sei que fizeram umas ligações para DAE e tudo, isso eram umas 11 horas da manhã. Nesse horário assim, em torno de 5 da tarde, não tinha mais nada no Pantanal. A água foi embora. Por pouco não fazia aquele barulho indo embora. E daí a gente entrou com uma ação no Ministério Público, nunca mais foi deixado fechar a barragem. Nesses últimos dez anos, não deu mais enchente porque a barragem não foi fechada.

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Quando o Serra ganhou, aí com esse negócio da defesa das águas e essas coisas todas, resolveram fazer um teste na bendita barragem lá, fechou no Parque Ecológico. E travou, não abria. Segundo eles travou e não abria. Deu enchente no Cotovelo, no Romano e na Chácara três meninas novamente. Então, a comprovação de que a barragem é que causava a enchente. E dessa vez nós conseguimos pegar a imagem de satélite com a barragem fechada. A gente entrou no Google aí recentemente na data juntaram a barragem fechada, a água indo pelos canos. E aqui com água. Trouxemos o repórter fotográfico João Wainer para mostrar tudo. Então, a relação com o poder público foi sempre nessa questão aí. Nós não podemos fazer nada porque é APA, a lei de APA não permite. O código florestal não permite. Quando você pega, você for pegar a lei 5.594 se não me engano,acho que é essa que institui as APAs no Brasil, está dizendo lá que poderia fazer desde que o órgão ambiental orientasse do jeito que tinha que ser feito, respeitando toda a legislação você pode fazer . Só que eles alagavam aqui para dizer que era cinturão Meandrico. Então, tem toda essa exploração imobiliária, tem a questão dos grandes terrenos que têm aqui. Um lado todinho aqui de onde nós estamos, se você vira para esse lado, é tudo Vila Seabra, da família Seabra. Então, de outro lado é de outra família rica. E aí tinha essa questão toda da exploração aí usa-se a questão da água para não fazer alguma coisa. Então, isso foi quebrado esses paradigmas, que em 2006, os caras fizeram toda a urbanização da Rua Tietê e nós estamos entre a Rua CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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Tietê, o Maia e o São Martinho, na Rua Tietê pode, o resto não pode porque é APA. Então, a gente mata o governo de vergonha falando por que é que aqui é APA e aqui não é? Então, eles não têm resposta, eles não têm critério para essas questões. No todo dessa vida aí foi que eles, né? Que foi a relação. Em 99, com a desculpa do decreto que o Mário Covas criou. 42.780, que passava isso aqui como de utilidade pública e o outro decreto que eu não me lembro bem, parece que é o 4.784, que passa toda essa região do Jardim Lapenna até o que era a Keralux, ali que era o Parque Ecológico, passa-se para a CDHU, para poder urbanizar. E nós passa a ser utilidade pública, parte do terreno do Parque Ecológico. Então, é uma lógica, onde era parque, que eles deram para CDHU construir e onde já tinha as construções, onde já tinha, podia ser feito a urbanização eles decreta como de utilidade pública, como compensam para o Parque Ecológico, a área que estava perdendo. Então, a relação com o poder público foi sempre a do escroto pra gente.

CPDOC – Então, Ronaldo, dando continuidade, eu gostaria que você falasse um pouco de como é que surgiu o Espaço Cultural Pantanal e depois em seguida o Alana, o Instituto Alana. Ronaldo – O Espaço Cultural, ele vem, justamente, por essas questões aí da comunidade, o formato que era, as enchentes, essas coisas todas, e não tinha associações que respondessem. Então, tinha associação de moradores, tinha CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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associação dos trabalhadores do Pantanal, associação amigos do Pantanal, associação... Hoje tem em torno de umas 20 e tantas entidades aqui dentro do bairro. As que aparecem para fazer algum trabalho é pouquíssimas. Então, naquela época já tinha isso. Então, cada reunião que você ia, o pessoal queria 5 URV que era para contratar advogado para arrumar e tal. Então, eu mesmo, da minha parte, eu não queria envolvimento com nenhuma dessas associações aí porque eu ia para a reunião, chegava lá, via os caras, as propostas, eu falava, meu, isso é loucura, como é que vocês pretendem, por exemplo, teve uma reunião que eu fui, a que eu me indignei de fato, porque os caras falaram que iam trazer os caras da prefeitura. Quando eu cheguei lá, o que tinha? Tinha um cara que eu conheço, daqui, que trabalha na limpeza. Porque tinha um crachá da prefeitura, os caras levaram ele como representante da prefeitura. E o outro era um motorista. Na época, os caras tudo dizia que era assessores do Eufrásio Meira, que é aquela coisa, que iam resolver. Eu falei, não venho mais para nenhuma reunião dessas, mas de jeito, maneira. E daí eu trabalhava na loja de discos, como eu já falei, e tive uma pneumonia, de você estar ali naquele pózão da Marechal Tito, ali direto e não se alimentava direito, porque o comércio é aquela correria de louco. E fiquei em casa, o médico me deixou 10 dias em casa e falou para eu fazer caminhada e tal. Eu aproveitei e fui conhecer o Pantanal de fato e o que eu vi, desolou, que era na época bem na época do começo do crack, aquela molecada usando crack nas esquinas, na CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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minha rua, aqueles molequinhos de uns quatro anos de convivência de 12, 13 anos que tinha, chegando aos 16, 17 anos sem perspectiva nenhuma, entrando naquela. E tinha um campinho de futebol na outra rua, que dava esse horário aqui, a galera ia tudo pra bola e era briga para jogar. E começa a ter os times de futebol aqui. Eu falei, dá pra fazer alguma coisa, não é entrando na associação. Então, um dos meninos falou, por que é que nós fazemos um time de futebol aqui? E tava brincando. Resolvemos fazer um time. Me chamaram para participar, organizar. Eu falei, eu até vou, mas tem o formato do time que seria o time que seria com os princípios democráticos, que teria que ter reuniões, as pessoas teriam que cotizar, tinha sido tudo discutido e com algumas questões que era contra, por exemplo, se fosse bêbado para o campo, não jogava; se usasse droga durante a semana, não jogava; se fosse armado para o campo, além de não jogar, era três jogos suspenso e tal; se brigasse no jogo, também era suspenso do mesmo jeito da Liga, dois, três jogos, né? Se reclamasse do juiz, eu trocava. E eu fui, né? Na época eu estava bem gordo, quando trabalhava e era só na cervejinha, aquela, ali do lado da loja de disco tinha uma Casa do Norte então a alimentação era bem, não tinha pique pra correr. Então, o pessoal topou e criamos o time que chamava, com todas essas regras, o time foi batizado de Manguaça Futebol Clube. [risos] Então, era Manguaça, mas se manguaçasse, não jogava, né? E isso foi um processo.

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Nesse meio tempo, a Ana Lúcia Vilella ficou sabendo das enchentes que tinha aqui, através das enchentes, que esse terreno era do avô dela que tinha deixado de herança para ela e o irmão, o Alfredo, né? Que dá o nome aí Alana, Alfredo e Ana. Então, os advogados dela, quando viram as enchentes na televisão, que quando dava enchente era aquele, tem que tirar esse povo daqui, helicópteros todo o dia rondando, aqui em todas essas vilas do Pantanal. Então, ela veio conhecer o terreno. Chegou, viu, falou, esse povo já não tem onde morar né, que tirar eles, ou ainda vou pedir reiteração de posse, vamos ver o que fazer com isso daí. E contratou o Fábio Luiz que é um ativista social, junto com o Neco. E eles vieram ver o que fazer por aqui. O Fábio começou a mapear as pessoas que tinham alguma intervenção aqui. No final de 94 para 95. Que tinha alguma coisa que fazer aqui na comunidade e tal. E encontrou os presidentes das associações, que era a finada Maria do Pantanal, o Lima, o Zé Nita, o Gilson, um monte de pessoas, Zé Alves e a Consuelo que era do MCL, Movimento das Comissões de Luta, uma pessoa bem honesta, que era do movimento nacional e trouxe essa célula do movimento, para cá. E o Zé Alves me conhecia por causa do futebol, que eles tinham também o time do CL e o Manguaça, ele fala, meu, você tem que ir lá, participar. E eu tinha uma outra coisa que eu fazia aqui na comunidade, que eu adoro fotografia, fotografar, eu tinha uma câmara fotográfica e me indignava com aqueles caras que vinha, sabe aqueles caras que CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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vinham, com cavalinho de madeira de baixo do braço, colocava as crianças, tiravam uma foto, 5 URVs. Tudo era 5 URVs. Então, com os 5 URVs você comprava um filme, colocava mais 5 e revelava o filme, na loja mesmo que eu trabalhava fazia isso, fazia a revelação e o filme por 5 URVs. Então, eu adorava tirar fotos e inventei de fotografar um aniversário e não cobrei, só o preço do filme. Imagine! Se 5 URVs era uma foto, 36 dava quanto? Então fiz um aniversário, 72 fotos e trouxe pelo preço dos dois filmes e ficou a revelação como um presente do moleque ainda. E ai você vai no churrasco, participava da festa e fotografava. Então, um cara começou a chamar para batizado. Eu digo, pra entrar na igreja, eu não vou. [risos] Não, mas... A dificuldade era de ir na igreja, eu não queria nem saber, nem ir ver o padre, né? Mas aí foi um, aí eu fiz um batizado. Também ia de boa, sem cobrar nada, e comecei a arrumar encrenca com os fotógrafos porque eu fazia as fotos. E daí, já estava o processo do Espaço Cultural em andamento. Então, um dos moradores, que seria um futuro conselheiro, estava participando do mutirão, me chamou e falou, meu, eu vi as fotos que você tem dos batizados e tal, eu estou fazendo capoeira, eu estou tentando ensaiar o teatro para quando for começar o Espaço, você não quer ir lá? Está terminando, vai terminar a obra e coisa e tal. E eu me propus a ir fotografar o ensaio dos caras. Eu peguei e falei, ah, você compra o filme e tal que eu vou lá, levo a minha camarazinha, meio paraguaishows e tal. Aí eu estou tirando as fotos lá, esse Zé Alves que era do MCL, quando eu ouvi, Ronaldo. Me chama, os caras estava CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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assim na primeira que seria a reunião do grupo de formação do conselho do Espaço Cultural. Aí daí me chama, que aí o Fábio, não, pô, já conheço, eu fui lá conversar com ele, ele não quer se envolver com esse pessoal aí, a Maria, eu mesmo, porque ele não concorda com o formato e tal. Mas esse pessoal não vai ficar, ele dizia pra mim, quando ver qual que é a proposta do Espaço Cultural, que não é de exploração, que não é disso, não é daquilo, esse pessoal, a maioria, vai sair fora. Eles não vão querer nem ser conselheiro porque a ideia é de que a comunidade toque e que não tenha dono, que não tenha isso e aquilo. Aí ele foi falando o que é que pretendia ali. Eu falei, bom, qualquer dia desses eu vou lá. Mas aí nunca apareci, vim tirar essas fotos, e estava tendo a primeira reunião. Então, eu com aquela câmera do Paraguai, o Fábio me coloca uma Canon na mão para mim terminar de fazer as fotos e depois ir pra reunião. Pronto, fui lá fiz as fotos tudo, com a câmara, e fui, estavam fazendo a redação da carta, do que seria a carta de princípios do Espaço Cultural. Lembro as pessoas que estavam naquela sala ali, nome por nome, e fiquei e estou até hoje no Espaço Cultural. Peguei um pouco do mutirão, né? Na pintura e na parte superior da pintura. Na estica dos fios pelas tomadas, no começo a cozinha e coisa e tal e fui entrando no conselho. Na época eu não trabalhava mais na loja de discos, tinha saído, estava trabalhando com pesquisa de mercado. E essa pesquisa, como eu trabalhava com pesquisa, permitia que eu fosse o conselheiro mais atuante porque eu trabalhava dois dias na semana e o resto estava livre. Então foi CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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envolvimento mesmo, na veia. Ajudei a correr atrás dos livros para a biblioteca. O sonho era a biblioteca, então a gente montou a biblioteca. Quando ganhamos a doação dos computadores, os 3.11 ainda, né? Fui um dos selecionados do conselho para fazer o curso de informática para repassar para os outros. Então eu fiz em uma semana. Imagina você fazer na época ainda tinha o MSDOS, o Windows, Word e Excell. Fazer os quatro em uma semana. Imagine. Foi o que eu fiz. E é o que eu uso até hoje, foi nesse curso o que aprendi. Não precisou eu ir que a Márcia, autônoma, começou a ensinar também. E o Espaço Cultural foi isso, nós tínhamos desde a biblioteca, tinha capoeira, tinha artesanato, que a Dona Eliete fazia aquelas cestarias maravilhosas de jornal e tudo. E alfabetização de jovens e adultos. Nós tinhamos aqui aquele monte de pessoas que vinham se matricular, aquele incentivo. Nós tínhamos aquelas cornetas que colocavam aqui em cima, bem no telhado do Espaço Cultural, bem numa quina aqui, uma de um lado, a outra do outro e a gente tinha aquele radinho que a gente falava lá: fulano, ainda hoje vai ter aqui e coisa e tal. E anunciava, funcionava como radinho. Então, anunciamos alfabetização, veio um monte de gente, nós montamos imediatamente quatro salas de alfabetização. O conselho deliberou que as pessoas voluntárias iam ter uma pequena ajuda de custo para permitir que viesse e aquela coisa e tal. E nisso atraiu várias pessoas para vir participar. Começamos a fazer uma propaganda e foi crescendo as atividades, né?

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Quando conheci o Roberto Taty, que era o meu amigão, morava do lado da loja em que eu trabalhava, aí falando do trabalho daqui, como fazia o teatro, tocava violão, propus para ele vir ensinar o que ele sabia repassar o que ele tinha aprendido, tanto do violão, quanto do teatro. E o Beto veio, nós fizemos um monte de loucura aí. Teve a peça Circo Brasil, foi Cabral que descobriu. Nós fizemos no Brasil 500 anos lá na Praça do Forró, saiu no Estadão. E aquela foi uma das coisas. Fazíamos Festa Junina loucas, assim, junto com a população, numa delas nós fizemos um bingo de um boi vivo. Imagine você fazer [risos] uma Festa Junina aqui, dentro daquele galpão, passar mais de 600 pesso

as. Imagina o que era isso. Barraca de quentão,

barraca disso, toca do coelho, e aquela coisa toda, pau de sebo. Tem uma foto de um moleque catando a nota lá no pau de sebo lá, uma coisa bem louca assim. Essas coisas que a gente, praticamente, do resgate da cultura nordestina para cá e tal. E isso para mim, pessoal assim, tudo assim, a questão de desenvolvimento cultural, político, o desenvolvimento interpessoal, tudo vem com o Espaço Cultural que você participava do conselho, tinha curso de formação, a primeira ida ao Teatro Sérgio Cardoso foi junto com o conselho do Espaço Cultural, assistir a peça O inimigo do povo, com o Paulo Betti. Aí depois o Paulo Betti recebeu a gente no camarim dele para bater um papo sobre as questões comunitárias, sobre coisa e tal. E daí você vai desenvolvendo toda essa questão.

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A gente tinha muitos altos e baixos porque as pessoas não tinham um entendimento da coletividade. Com os educadores, nós tivemos um grupo de estudo do poema pedagógico de Anton Makarenko um livro que retrata a juventude pós guerra da Rússia para discutir essas questões da juventude, o porquê da juventude periférica, como é que era e tudo o mais. E essa formação toda foi indo, tinham pessoas que entendiam, outras achavam que a gente tinha que dar cesta básica para o povo, tinha que trazer isso e aquilo... Não, nós temos que primar pela cultura. E fomos indo, né? Fizemos parceria com várias outras entidades para trazer cursos e essas coisas e tal. E foi um desenvolvimento muito bom assim até que o Grupo Empresarial Alana cismou de trazer uma pessoa que era para ensinar a gente a desenvolver melhor a coisa. É realmente teve um desenvolvimento maior que veio o Instituto Alana, mas como Espaço Cultural, essa pessoa, uma das coisas que ele me falou uma vez foi, viu, isso aqui é uma galinha dos ovos de ouro. E eu retruquei assim, pra você pode ser, pra mim não é nenhuma galinha, embora a gente aqui é coisa construída por pessoas. Você tá é besta, porque isso dá pra desenvolver, olha, se você vier comigo você vai mudar de vida. Aí convenceu o povo que tinha que extinguir o conselho comunitário porque o conselho tinha democracia demais e atrapalhava os projetos. Porque nós tínhamos uma gestão onde tinha alguns setores, de educação, setor corpo, que era esporte, tinha o setor voluntário e administrativo. Então, esses setores, cada um tinha um representante, eles CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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sentavam, discutiam entre eles as atividades. O representante discutia lá com o seu setor e vinha pra cá. Não resolvendo levava para o conselho. O conselho não resolvendo, convocava uma assembléia. E tinha o setor administrativo que era o executivo das coisas, que executava tudo ali. Ele falou que isso era democracia demais. Então daí extinguiu-se, foi aprovada no grito assim, com diferença de três a quatro votos, a mudança do estatuto. Aí, com a mudança do estatuto, com a mudança de não ter mais o conselho, não ter, eu achei que o Espaço Cultural tinha perdido todo o seu foco para que é que ele foi criado, por isso sair , do Espaço Cultural em outubro de 2002. E daí em janeiro de 2003, o Espaço Cultural fecha as portas e doa tudo para o Instituto Alana e abre-se como Instituto Alana, que já estava sendo formado, formatado naquele momento. Inclusive na época tive o prazer do Roberto Taty me apresentar a você Mauro Bonfim e dizer esse aqui é o camarada firmeza, pena que eu não estou aí para poder ver, mas você pegou um pouco, viu aqui o negócio como que era, fiquei muito feliz quando eu soube que você tinha ido para o CEU Curuça que o estava aí tocando as coisas. Porque por aqui, na época do Espaço passou muita gente boa. Trabalhou muita gente boa com a gente e deu essa bagagem. Teve o Otávio de Melo, teve o Fábio, teve uma psicóloga chamada Paz. E o conselho como um todo. Todo o dia você construía, todo o dia você conhecia.

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E volto de um encontro com a Ana Lúcia, presidente do Instituto Alana, em uma reunião na sub-prefeitura com o pessoal todo, chama o pessoal daqui, da APA, e quando chego lá, ela falou, ô, Ronaldo, você voltou! Eu digo, voltou de onde? Eu nunca saí daqui. Você tinha indo embora? Não. E o camarada lá? Não, não. Então, ela foi e me convidou, falou, eu quero contratar você, não há cabimento, ter um trabalho desse daí, que você está aqui, sem você estar lá. E daí começamos a conversa e eu fui contratado. Tipo, vai incomodar? Vai. Então, ganhei um dos maiores presentes do Instituto Alana que esse camarada, tipo assim, vai ser mal, ele não vai aguentar, ele vai sair, me colocou para trabalhar com os idosos. Coisas que nunca tinha passado por mim. No Espaço Cultural nós tínhamos a ideia de ter um grupo de idosos, mas nós nunca tínhamos nem discutido mais a fundo a questão. E eu pego de vez para trabalhar com os idosos e descobri uma grande experiência. Então, dentro do Instituto Alana hoje a gente vê todos os envolvimentos aí da comunidade quando o Instituto Alana começa a creche aí com umas 70 crianças, hoje é em torno de 205 crianças na creche. Os idosos que era 40 e poucos, hoje está com 137. Resumindo, hoje nós atendemos, eu costumo dizer que o Alana atende de 0 a 150 anos se tiver. Então, tem atendimento aí de todas as faixas, hoje a gente atende em torno de 1.500 pessoas por semana.

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CPDOC – Eu queria emendar essa fala sua, quando dos atendimentos e tal, e aí surge, mais adiante, o MULP, O Movimento de Urbanização e Legalização do Pantanal. Quais as ações que o MULP desenvolve e como é que é essa relação com, hoje, o Instituto Alana? Ronaldo – Então, o MULP, ele nasce, justamente, porque teve no final dos anos 90, teve o Movimento Unificado do Pantanal, que era o MUP. Então, esse se partidarizou. Então, os caras, numa vila MUP representava um partido, no outro representava outro. E a gente viu a necessidade de ter um movimento comunitário de fato. Daí nasce a proposta do MULP. O Movimento de Urbanização e Legalização do Pantanal com a perspectiva que participe toda a comunidade. Então, através do MULP tinha que ter em cada rua um ou dois representantes que traga as demandas para as reuniões coletivas do MULP, para as assembléias para discutir. E o MULP começou a desenvolver, viu que ele não tinha só que lutar pela morada se não tivesse formação não adiantava. Então, a gente começa um processo de formação política para os representantes. Então, todo o ano tem um curso de formação política para aqueles que iniciaram, que é a base da introdução à política social, o que é? Como que funciona a sociedade. E daí vai aprofundando os cursos mais na questão do entendimento do socialismo, capitalismo. Na questão da lógica formal, da dialética. Você vai aprofundando nessas questões aí.

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E uma das coisas que foi o grande salto do MULP foi a criação do Fórum de Formação Política que agora em abril fez sete anos de existência e acontece todo o segundo domingo do mês. Apesar de ser domingo, tem um público bem assíduo, assim, né? Vem 30, 40 pessoas. Nós já fizemos Fórum com 130 pessoas. Na lista de presença. Fora aquele que entra, não assina e tal. Estamos discutindo temas desde A Comuna de Paris, A Religião e a Política. Todos os temas que diz que é proibido, nós discutimos, religião, política, futebol, tudo relacionada à política. A Política por Política. E essas coisas tudo foi discutido aí dentro. E o interessante é que a própria comunidade, ela pesquisa para poder apresentar. Então, além de ter essa questão do aprendizado, o Fórum, ele serve para desenvolver a questão da pesquisa. A pessoa perde o medo de falar em público e, principalmente, o respeito às diferenças porque ali sai de tudo e a pessoa, cada um que está falando, ele tem que parar três minutos de fala, tem que parar a fala, a mesa lá controla os três minutos e não tem essa de vai em frente é respeitar os outros. Então isso é um processo. O outro foi o cursinho pré-vestibular que a gente começou com parceria com o Cursinho da Poli. Lá o Cursinho da Poli aí depois se desintegrou tudo pela questão partidária novamente e a gente resolveu montar o nosso próprio cursinho. Começamos com parceria com o Educafro, que hoje é um tema que discutimos a saída, e hoje é o cursinho é do MULP mesmo. Só o Cursinho do MULP. Nesse meio tempo aí, nós vamos colocando mais de 30 jovens na universidade, na pública, tem na USP, tem na CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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Federal, temos na FATEC. E fora a grande número a gente vai pelo Pro Uni, né? Através do cursinho.

CPDOC – E emendando um pouco, já que vocês trabalham com formação, eu queria que você falasse um pouco sobre a questão, esse processo de formação e o desenvolvimento local. Como é que você enxerga o desenvolvimento local, uma vez que têm todas essas ações acontecendo aqui no território? Ronaldo – Então, a questão do local eu costumo dizer para as pessoas que a distância que a gente leva para ir daqui no Davó, pra ir daqui no Barateiro ou no Nagumo que seja, o tempo que você ganha de comprar aqui dentro, nos mercados que tem aqui dentro, é muito maior do que você pagar a diferença de 10 centavos. Uma diferenciazinha aqui dentro. Então, começou pela questão comercial. As pessoas começaram a montar as suas barraquinhas, aqueles que tiveram uma visão mais aguçada foram aumentando, no caso, nós temos um mercadinho aqui que não perde para os outros mercados. Dentro do mercado tem açougue, tem lojinha, vende de tudo dentro do mercado, que é o mercadinho Beija-Flor aqui. Um barzinho que tinha na esquina, que o cara ficava só o bebum encostado no pé do balcão, né? A gente conversando com o pessoal, meu, por que é que não põe um negócio, tem espaço e tudo. Hoje é uma Casa do Norte. Farmácia, o pessoal vende. Agora, na questão mesmo, várias pessoas viram que perder o seu emprego, ia ficar aí jogado. CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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Então, nós fizemos um levantamento aqui, os meninos da cooperativa MIRA periferia digital fizeram um levantamento de desenvolvimento local e eu fiquei encantado com isso, o tanto de coisa que eles acharam, costureiros, pessoas que são exploradas hoje pela indústria, sem ser funcionário da indústria então, naquele negócio de fazer a rebarba daquelas borrachas de amortecedor, diz que tem um monte de gente trabalhando com isso, que é uma parte da exploração que os caras fazem. Mas em contrapartida, eu tenho um monte de pessoas produzindo. Produzindo e vendendo para fora. Então, tem pessoas que fazem artesanato, tem pessoas que aí, tem muitos artistas aqui dentro, tem, pelo menos, seis cantores com CDs gravados, aqui dentro do Pantanal, temos escritores aqui dentro do Pantanal. E tem uma grande parte de profissionais que estão buscando uma especialização, que são daqui. Aqui nós temos pessoas que trabalham na Sabesp, no Aeroporto de Cumbica, tem pessoas que trabalham no Hospital das Clínicas. Então, tem um grande diferencial, grandes potencialidades aqui dentro faltando um foco maior de desenvolvimento local mesmo. Eu digo, gente, meu, nós podemos transformar essa comunidade aqui. Então, essa questão do MULP, ela busca isso, orientar as pessoas nas discussões, na questão da formação, de que aqui dentro é possível, e é interessante assim, quando veio a base comum de Conhecimento Cidadão era para vir pelo MULP, mas cadê recurso? O MULP é um movimento que não tem recurso e a gente está buscando CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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agora transformar ele numa pessoa jurídica, que o tanto de pessoas que já se propôs a ajudar o MULP para conseguir o CNPJ para mim... mas não temos. E aí? Como é que fica? Perdemos um dia desses uma doação de 40 computadores porque não tinha CNPJ. Então, nós estamos chamando os representantes para que eles mesmos façam, nós estamos com o estatuto do MULP há quatro anos para ser registrado, mas como não conseguimos fazer as assembléias com as pessoas decidir o que quer dentro do MULP, não foi, nós paramos. Então, uma das coisas que a gente briga é pelo rodízio de coordenações. Não queremos um coordenador mais de 3 anos fica um naquela gestão para poder não perde o foco, mas os outros três são mudados. A cada eleição ficando 2 da gestão passada. O conselho do MULP até pode rodar, mas a parte central, o conselho administrativo, ele roda, não fica. Então, hoje, quem está à frente do MULP é o Vagner. Eu fiquei uns três anos passados, o Vagner desde o ano passado que está o Vagner, no próximo é o Vagner e um grupo. O Vagner e eu estou de longe do MULP, eu estou só dando contribuições no aprendizado que nem diz hoje, sou assessor, é ali participando como militante comum, mas a bagagem que tem vai passando para uma comissão de moradores que foi criado aí.

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CPDOC – E nessa, eu queria fazer uma ultima pergunta, está dando o nosso tempo, que perspectiva de futuro você vê para a região, uma vez que hoje você é um coordenador, observador da sua ação? Ronaldo – [risos] Hoje foi interessante participar da audiência publica da Sabesp, e o Heródoto Barbeiro estava na mesa e ele falou o seguinte, enquanto as comunidades não entenderem que tudo o que está aí é gerado por nós, a coisa não vai mudar. Da minha perspectiva, é que essa comunidade, com o potencial que ela tem, a gente já colocou água, foi a comunidade que colocou, as galerias foi nós que fizemos e isso só vem, o que? Que essa comunidade com o apoio que tem do Instituto Alana, hoje tem uma grande proximidade com a Fundação Tide Setubal, faz os trabalhos com a Ação Familia, essa parceria que está rolando, Fundação Tide Setubal, Instituto Alana, Instituto Votorantim e esse pessoal trazendo aí subsídios para esse povo, eu hoje tem uma turma do Senac do setor do Desenvolvimento Local, do lado de Itaquera, estavam aqui conhecendo hoje. Então, a gente tem esse entendimento de que essa comunidade, ela tem um potencial tão grande que a partir do momento em que a gente sair um pouco da mídia da televisão e cair em si, e isso é aos poucos, que a gente está trabalhando com a criança e a criança, a gente acredita que ela vai incidir na família. Você trabalha com o idoso, você acredita que o idoso vai incidir na família aqui. Porque as questões familiares, não só aqui no Pantanal, mas em todo o Brasil e para todo mundo, ela está se perdendo em virtude de muitos fatores do CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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sistema. Mas a gente acredita que se a criança, ela começa a dar o exemplo, o pai segue. A mesma coisa, quando o pai dá mau exemplo, se o pai começa a fumar, a criança vai querer fumar; se o pai bebe, a criança vai querer beber. E a gente está querendo que seja o contrário, que a criança vai tendo bons hábitos desde a questão ambiental, da questão do lixo, não jogar lixo na rua, de respeitar as pessoas até o alimentar, a mudança alimentar que isso a gente acredita que essa criança vai levando o pai a não mudar totalmente, mas, pelo menos, querer acompanhar ele. E é nessa perspectiva que a gente acredita que o Pantanal, se os governantes derem uma chance, quem vai fazer todo o processo urbanístico vai ser a própria comunidade. Porque se nós formos esperar pelo Estado, ele não vai fazer isso. É nós que temos, não é à toa que está aí o pessoal ontem fez uma manifestação na subprefeitura e a gente vai continuar a marcha. Aí, que o Pantanal, a gente dá 15 dias, a gente acredita que pode colocar um portal ali na entrada, Jardim Pantanal, área de proteção ambiental. Ou, diferente, Jardim Pantanal, meio ambiente, uma frase mais ou menos assim, meio ambiente e habitabilidade. Porque os dois têm que andar juntos. As pessoas falam do meio ambiente, mas esquecem a questão do humano. Só o homem, só tirando fora da questão ambiental e ele faz parte como todos, não existe fauna sem flora, nem flora sem fauna. Só para fechar, a gente diz assim para o Estado, o primeiro passo do meio ambiente saudável é uma moradia digna, se tiver isso, o meio ambiente está perfeito. CPDOC São Miguel - Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel. CDC Tide Setúbal - Rua Mario Dallari, 170 – Jardim São Vicente – S.M.Pta – SP Telefone: 2297-5969 Ramal 25 – Email: cpdoc@ftas.org.br


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CPDOC – Muito obrigado, Ronaldo, o CPDOC de São Miguel Paulista agradece a sua entrevista, reforçando aqui o nosso interessante de que você continue sendo nosso parceiro nas outras atividades que poderão vir daqui em diante.

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Fundação Tide Setubal Presidente Maria Alice Setubal Conselheiros Guilherme Setubal Souza e Silva José Luiz Egydio Setubal Olavo Egydio Setubal Junior Rosemarie Teresa Nugent Setubal Marlene Beatriz Pedro Cortese Centro de Pesquisa e Documentação São Miguel Paulista Coordenador Mauro Bonfim Auxiliares de projeto Camila Tavares Brandão Diego Albino Figueiredo

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Caderno de entrevista com lideranças locais