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Mônica Coster Portfólio 2015 - 2018


Sou artista e pesquisadora de arte contemporânea, formada pela EBA/UFRJ. A potencialidade velada dos objetos, aquilo que lhes é original, mas não manifesto, aquilo que dedura suas funções no mundo para além do utilitário, me interessa como possibilidade de escultura. E assim, a utilidade marginal, o encantamento ingênuo, o delírio, a magia. Ao esgotamento do funcionamento científico, sobram possibilidades desencadeadas, subterfúgios corriqueiros e subversões íntimas.


Sem sinal 2017 Terracota crua, 7x11x5cm (esq); Rรกdio e argila, 8x14x3 cm (dir).


Sem sinal, 2017. Rรกdio, balde de metal, รกgua e pigmento.

20x35x35cm.


Sem sinal Para além de qualquer explicação do fenômeno físico, o enigma dos aparelhos permanece. O mistério de seu funcionamento é o mistério de seu funcionamento sobre nós. O incorpóreo que os ronda é o espírito que nos move. Eles nos transmitem algo, não apenas som, imagem, texto. Afinal, se as telecomunicações fundam a comunicação à distância, então os aparelhos transmitem também essa distância. Esse intervalo infinito, abismo assustador sem fim e sem começo porque é inimaginável e impalpável. Zona desumana porque não nos cabe, apenas dos chega de algum lugar desconhecido, violenta e transformadora. E dura, e se propaga pela nossa presença, nos adere, nos chama e nos conecta. Ou melhor, é algo ao qual nós ativamente nos conectamos, pelo qual nos transmitimos e nos atravessamos. A parafernália física – tela, antena, botão, vistor – é a interface: ela nos situa geograficamente, mas também é através dela que nos desmaterializamos. Aceitamos a companhia do rádio, a voz nos penetra e nos toma. De qualquer maneira, fomos nós que inventamos o rádio e, com ele, inventamos os medos, do sobrenatural à manipulação midiática. Talvez tenhamos inventado também um novo corpo, uma nova presença. Um corpo capaz de se conectar, de abstrair parte de si no aparelho, de diluir-se. Aqui, não me proponho a uma análise histórica e prefiro admitir que esse corpo é reinventado a cada contato espiritual – e não poderia ser diferente – com o aparelho. Um corpo meio físico, meio etéreo. Meio cá, meio lá. Meio isolado, meio fundido; meio atento, meio sedado; meio acordado, meio sonado. Meio vivo, meio morto. Uma presença no meio do caminho, metade submersa no além do aparelho, metade emergida no aqui. E nesse momento, tornamo-nos nós mesmos o aparelho, o conectivo. A telecomunicação se dá em nós.

Tive vontade de enfiar um radinho em um balde de água porque não queria mais ouvi-lo falar. Não sabia da onde vinha a voz. Ainda não sei. Não a identifico, sofro com ela que vem direta e assertiva de várias direções. Não encontro o ponto exato onde ela me atinge, algum lugar entre a minha presença física e o meu pensamento. A voz do locutor é uma voz fantasmagórica porque vem de um lugar vazio e desconhecido. Algo que surge do rádio me atinge e algo de mim também se esvai através dele. Algo da minha presença, do meu tempo e da minha capacidade. Não sei exatamente o quê, mas entrego algo de mim que me falta. Talvez seja justamente a falta que eu ofereça ao aparelho. O vazio suga. O que se une ao rádio é o que de mim também é distância: capacidade de abstrair, medo.


Sem sinal (Comunicação de massa) 2017. Walkie-talkies e plasticina. 12x20x9cm


Como atravessar uma montanha 2016. Vídeo digital, 01:50 min. Link: https://vimeo.com/223365699

Nessa ação, realizo a travessia do túnel Santa Bárbara, no Rio de Janeiro, sem respirar. O plano sequência, que se inicia com a tomada de fôlego, acompanha minha apneia de dentro de um veículo em movimento até o respiro de alívio. Assim, atento para o fato de que quando cruzamos túneis passamos por dentro de montanhas. O túnel propõe um lapso em nossa vivência urbana, no singelo momento em que passamos por dentro do relevo da terra. A montanha é um desafio físico e simbólico para o ser humano. Experimento a esfera mágica da montanha, fazendo frente à sua grandiosidade com a simples perturbação na ordem da minha respiração. Se o interior de um túnel é um espaço sem sinal de telefone ou GPS, a montanha é um lugar de conexão cósmica.


Vazamento 2017. Instalação. Cano de PVC, argila líquida e tecido. Dimensões variáveis.

Trabalho realizado na Fábrica Bhering, no Rio de Janeiro, antiga fábrica de chocolate e atual espaço de arte, onde anexei um cano de pvc ao já existente cano aparente no espaço expositivo. Da ponta do cano vaza um uma massa argilosa, devaneio do edifício que se liquefaz pelo encanamento desativado.


Sem sinal (Miragem) 2018. Rรกdio e garrafa de vidro. 60x8x8 cm.


Jogo de Mesa 2017. Cerâmica. 21x21x4cm (esq); 3x6x6 (dir).

Intervenção no acervo do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro. Prato de cerâmica esmaltado com arranhão de garfo sobre o esmalte, revelando a cor vermelha da argila. Ao lado, cerâmica com marca de garfo. O objeto foi instalado temporariamente dentro do acervo do Museu, ao lado da vitrine de louças da família real e de instrumentos de tortura usados no período colonial.


Eterno movimento 2018 Copo de vidro, água pigmentada e barquinho de papel. 10x07x07 cm.

Um simples barquinho de papel navega no limitado espaço circular de um copo de cerveja. À qualidade entorpecente da bebida, é atribuído o movimento mareado do barco em uma composição um tanto quanto onírica, que propõe, através de elementos banais, uma viagem íntima típica do devaneio. O título do trabalho foi retirado da música O movimento dos barcos, de Jards Macalé, na qual o autor traça um paralelo entre as dinâmicas do mar, das embarcações e do amor. Nesse sentido, os movimentos que pendulam entre o delírio e a realidade, a aproximação e a distância são ontologicamente eternos nas relações.


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O forno 2018. Lâmpada , soquete e terracota crua. 15x07x07 cm.

Sobre uma lâmpada incandescente acesa, há uma “lâmpada” de terracota que encobre seu brilho. Símbolo da descoberta científica, do insight (da “Eureka!” de Thomas Edison), a lâmpada que ilumina o mundo com explicações racionais, é aqui coberta por uma lâmpada de mesmo formado feita de argila crua. Não é possível ver o brilho incandescente que está por dentro do objeto, mas ao aproximarmo-nos, sentimos o calor que emana dele. O título alude ao forno de cerâmica, pois aqui a terracota sofre uma lenta queima ao longo dos dias em que permanece aquecida pela lâmpada que encobre.


Mortalha 2016. Tecido e texto sobre parede. 150x150 cm.

A toalha de mesa exposta contém uma mancha de caneta, feita acidentalmente por meu pai quando ele recebeu a notícia de morte de sua esposa, por telefone. O texto ao lado narra parte dessa história, evocando a mancha como o vestígio de um corpo passado.


Mortalha 2016. Tecido e texto sobre parede. 150x150 cm.

Mortalha. Temo não conseguir transpor toda a história nesse simples objeto. É pouco, quase nada. Mas, ao mesmo tempo, está tudo ali: o mau gosto, o doméstico, a lista de compras, a morte... Há algo de curioso na morte. Quase atrativo. Ela não parece deixar marcas (manchas), é fugidia. Os rastros que são deixados não são da morte, senão da vida. O ser ainda é vivo para aqueles que não receberam a notícia da sua morte. Ela se reparte, entre os vivos, é claro. (05/04/2017). Meu pai fazia a lista de compras com uma caneta retroprojetor azul. Eu ainda não tinha chegado em casa quando tocou o telefone e ele largou a caneta sobre a toalha de mesa. Eu nunca gostei daquela toalha e cheguei a pensar que nos dias em que a minha madrasta estivesse no hospital, poderíamos mantê-la guardada no armário. Mas, quando chegamos no hospital, ela já tinha morrido. Na volta, vi a toalha manchada. Talvez seja impossível captar o momento da morte. Mas essa toalha é uma armadilha à espreita. É a toalha que durante quatro anos esteve sobre a mesa de jantar da minha casa. A mancha é o desespero e o medo. É uma perturbação, um descuido invisível. É assustadora.


Só alguma sensação 2018. Vídeo digital, 03:45 min. Link: https://vimeo.com/280682983

Só alguma sensação é um vídeo caseiro que retrata o momento imediatamente posterior à morte da minha avó: a colocação do corpo no caixão por seus familiares e a retirada do caixão de sua casa. O plano fixo tem início com a imagem do caixão atravessado no cômodo vazio e se desenvolve com a entrada de duas pessoas que carregam o corpo enrolado em um lençol, o alojam no caixão e o retiram da casa. Durante os 03:45 minutos de vídeo, 19 frases de 10 segundos de duração, se alternam sobre a cena, expressando o que parece ser os pensamentos daquele que filma: descrições de sonhos surreais misturadas com ações banais e frases descontextualizadas acompanham o ato fúnebre. A cena toda é filmada de um canto escuro da casa, lançando um olhar vouyer e ao mesmo tempo envergonhado para o acontecimento.


Endoscopia 2016. Objetos variados e etiquetas de papel. Dimensões variáveis.

Coleção de objetos que foram engolidos por mim e extraídos do meu corpo através de procedimentos cirúrgicos. Os objetos são pequenas próteses íntimas e corriqueiras que usamos diariamente: unha postiça, presilha, camisinha, protetor auricular etc. Cada objeto é acompanhado de uma etiqueta indicando a idade da paciente, nome do objeto, localização no corpo e procedimento de extração.


Endoscopia 2016. Objetos variados e etiquetas de papel. DimensĂľes variĂĄveis.


Sem título 2016 Fita adesiva. Dimensões variáveis.

Fotos: Wilton Montenegro

Intervenção no acervo do Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro. Demarcação de 11 espaços vazios entre obras do acervo no Museu As fitas, que fazem referência às sinalizações do museu para restringir a proximidade do público com as obras, limitam o inverso do espaço proibido, questionando as convenções do sistema de exibição e o lugar do visitante no espaço expositivo.


Sem título 2016 Fita adesiva. Dimensões variáveis.


Balanço 2015. Rafael Lima e Mônica Coster. Instalação. Madeira e correntes. Dimensões variáveis.

O balanço, instalado sob o batente de uma porta propõe, não a travessia, mas a vivência da intersecção entre duas salas. Ao se balançar, o visitante observava o restante da exposição de um lugar não estático, atravessado e lúdico. Registro em vídeo: https://vimeo.com/239359713


Balanço 2015. Rafael Lima e Mônica Coster. Instalação. Madeira e correntes. Dimensões variáveis.


Implante Grego 2015. Instalação. Fibra de vidro e tinta acrílica. Dimensões variáveis.

Os dois capitéis jônicos aqui apresentados foram instalados em duas colunas externas do edifício que abriga a Escola de Belas Artes (UFRJ). Ao contrário do que se espera de um capitel clássico, que ele encubra a junção coluna-teto, esses dois falsos ornamentos deslizam coluna abaixo no projeto modernista. Posicionados no meio das colunas, dialogam com os rumores de que o prédio está afundando no solo pantanoso sobre o qual foi construído.


Textos crĂ­ticos / folders


Aqui, 2018 .

Centro Cultural Light, Rio de Janeiro.


I PEGA, 2017.

Centro municipal de arte Helio Oiticica, Rio de Janeiro. Texto de Thiago Fernandes, publicado na Revista Desvio v.2, n.2, disponĂ­vel em: https://revistadesvioblog.files.wordpress.com/2018/04/desvio_3_completa.pdf


Histรณrias fora da ordem, 2017.

Museu Histรณrico Nacional (MHN), Rio de Janeiro. Curadoria: Luciano Vinhosa e Beatriz Pimenta Velloso


Tempo, V Bienal da EBA, 2015 – 16,

Centro Municipal de Arte Helio Oiticica, Rio de Janeiro. Texto de Catiussia Silva publicado no catálogo.


Um implante grego na arquitetura moderna da UFRJ, 2015. Beatriz Pimenta e Mônica Coster Trecho referente ao trabalho Implante Grego, extraído de artigo publicado nos anais do VI Seminário Dom João VI, EBA/UFRJ. https://joaosextoseminario.files.wordpress.com/2016/07/anais-eletrc3b4nicos-do-vi-seminc3a1rio-do-museu-d-joc3a3o-vi-painc3a9is-de-pesquisa2015.pdf

“Implante grego” é uma instalação que se apropria do prédio da Reitoria, o ressignifica trilhando os caminhos de uma história velada entre a criação da Academia de Belas Artes, no início do século XIX, e a construção do campus da Ilha Fundão, em 1972. Produzido a partir de uma estratégia que remonta o início do ensino acadêmico de arte, no Brasil, este projeto trata de nossa “influência neoclássica” na arte e na arquitetura. A realização de um capitel, a partir de um modelo de capitel jônico grego, pertencente ao acervo do museu D. João VI, foi uma imersão e uma rememoração do processo pelo qual os alunos de escultura passavam, no início do século XIX na Academia Imperial de Belas Artes. Durante o período neoclássico, o exercício da cópia de obras de arte fazia parte da formação básica de qualquer artista nas academias, desse modo, a partir da exportação de um modelo de educação neoclássico francês, se deu o desenvolvimento da antiga Academia Imperial de Belas Artes, hoje Escola de Belas Artes que inclui o ensino da arte contemporânea. Para realizar dois capitéis foram necessários seis meses de trabalho no atelier de escultura, incluindo a modelagem em argila e a laminação em fibra de vidro. Diferente do modelo utilizado, originalmente um exercício de aluno em pequena escala, os capitéis foram feitos para serem colocados em duas colunas do prédio da Reitoria, que hoje abriga a Escola de Belas Artes. O trabalho final é uma instalação na qual os dois capitéis de fibra de vidro, fixados em duas colunas do piloti externo do prédio, ao invés de ficarem no alto das colunas, na junção com o teto, ficam na altura de três metros do chão. Ao contrário do que se espera de um capitel clássico, que ele encubra a junção coluna-teto e cause uma ilusão de continuidade arquitetônica, uma transição imperceptível entre a coluna e o teto, esses dois falsos ornamentos deslizam coluna abaixo denunciando a liga estrutural do projeto modernista, deixando em destaque a fenda histórica que perpassa a atual Escola de Belas Artes. “Tomar de assalto”VII o pilotis com a instalação de capitéis gregos, junto aos grafites, os lambe -lambes e os estêncis que aparecem nas colunas e paredes do prédio da reitoria, essencialmente revela o atual estado de abandono em que se encontram a Escola de Belas Artes e a UFRJ. Os dois capitéis idênticos, posicionados ao meio comprimento de duas colunas, dialogam com os rumores de que o prédio está afundando dentro do solo pantanoso sobre o qual foi construído.


Como ser civilizado, 2015.

EstĂşdio Dezenove, Rio de Janeiro. Curadoria: Beatriz Pimenta Velloso e Julio Castro.


costerponte@gmail.com http://cargocollective.com/costerponte

Portifolio Mônica Coster  
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