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COMPOSIÇÃO

DIRETOR-GERAL: Frederic Zoghaib Kachar DIRETOR DE AUDIÊNCIA: Luciano Touguinha de Castro DIRETORA DE MERCADO ANUNCIANTE: Virginia Any

NOVEMBRO 2016 DIRETORA DE GRUPO CASA E COMIDA, CASA E JARDIM, CRESCER E GALILEU: Paula Perim

ANTIMATÉRIA

REDAÇÃO EDITORA-CHEFE: Cristine Kist EDITORA DE ARTE: Fernanda Didini EDITORES: Giuliana de Toledo, Nathan Fernandes e Thiago Tanji REPÓRTERES: André Jorge de Oliveira e Isabela Moreira DESIGNERS: Felipe Eugênio (Feu) e João Pedro Brito ESTAGIÁRIOS: Bruno Vaiano (texto) e Mayra Martins (arte) ASSISTENTE DE REDAÇÃO: Gabriela Nogueira

INVISÍVEIS

ALTURAS DA

P.7

COLABORADORES DESTA EDIÇÃO:

André Bernardo, Carol Castro, Cartola Conteúdo, Felipe Floresti, Juliana Cunha, Marcelo Soares, Marília Marasciulo, Leandro Saioneti e Thiago de Araújo (texto); Brunna Mancuso, Diego de Paiva, Marcus Penna, Rodolfo França, Tomás Arthuzzi e Zansky (arte); Monique Murad Velloso (revisão).

Boneca é coisa de menino

TECNOLOGIA DIRETOR DE TECNOLOGIA DE INFORMAÇÃO: Rodrigo José Gosling DESENVOLVEDORES: Everton Ribeiro, Fabio Alessandro Marciano, Jeferson

UMA LÍNGUA PARA TODOS P.10

GERENTE DE EVENTOS: Daniela Valente COORDENADOR DE OPEC OFFLINE: José Soares

P. 16

Ana Silvia Costa, Guilherme Iegawa Sugio, Lilian de Marche Noffs e Dominique Petroni de Freitas. DIGITAL — Diretora de negócios digitais: Renata Simões Alves de Oliveira. ESCRITÓRIOS REGIONAIS — Gerente multiplataforma: Larissa Ortiz; Executiva multiplataforma: Babila Garcia Chagas Arantes. UNIDADE DE NEGÓCIOS/RIO DE JANEIRO — Gerente multiplataforma: Rogerio Pereira Ponce de Leon; Executivos multiplataforma: Andréa Manhães Muniz, Daniela Nunes, Lopes Chahim, Juliane Ribeiro Silva, Maria Cristina Machado e Pedro Paulo Rios Vieira dos Santos. UNIDADE DE NEGÓCIOS/BRASÍLIA — Gerente multiplataforma: Barbara Costa Freitas Silva; Executivos multiplataforma: Camila Amaral da Silva e Jorge Bicalho Felix Junior. ESTÚDIO GLOBO — Diretora: Roberta Ristow; Coordenador de projetos especiais: Renan Abdalla; Estratégia comercial: Renata Dias Gomes; Criação: Vera Ligia Rangel Cavalieri; Arte: Rodolpho Vasconcellos AUDIÊNCIA Diretor de marketing: Cristiano Augusto Soares Santos Diretor de clientes e planejamento: Ednei Zampese Gerente de vendas de assinaturas: Reginaldo Moreira da Silva Gerente de criação: Valter Bicudo Silva Neto Gerente de inteligência de mercado: Wilma Conceição Montilha Coordenadores de marketing: Eduardo Roccato Almeida e Patricia Aparecida Fachetti

GALILEU é uma publicação da EDITORA GLOBO S.A. — Av. Nove de Julho, 5.229, 8º andar, CEP 01406-200, São Paulo/SP. Tel. (11) 3767-7000. Distribuidor exclusivo para todo o Brasil: Dinap — Distribuidora Nacional de Publicações. Impressão: Plural Indústria Gráfica Ltda. — Av. Marcos Penteado de Ulhoa Rodrigues, 700, Tamboré, Santana de Parnaíba/SP, CEP 06543-001

OFICINA

ENTREVISTA P. 12 RETROCESSOS NAS LEIS AMBIENTAIS

HISTÓRIA

P.19

SOMMELIER DE GAMBIARRAS

P.23

CAÇA AOS

PARA CARNÍVOROS

OSCAR

P.18

Novelaaumenta onúmero dedivórcios

MERCADO ANUNCIANTE SEGMENTOS FINANCEIRO, IMOBILIÁRIO, TI, COMÉRCIO E VAREJO — Diretor de negócios multiplataforma: Emiliano Morad Hansenn; Gerente de negócios multiplataforma: Ciro Horta Hashimoto; Executivos multiplataforma: Selma Maria

MOBILIDADE, SERVIÇOS PÚBLICOS E SOCIAIS, AGRO E INDÚSTRIA — Diretor de negócios multiplataforma: Renato Augusto Cassis Siniscalco; Executivos multiplataforma: Andressa Aguiar, Diego Fabiano, Cristiane Soares Nogueira, João Carlos Meyer e Priscila Ferreira da Silva. EDUCAÇÃO, CULTURA, LAZER, ESPORTE, TURISMO, MÍDIA, TELECOM E OUTROS — Diretora de negócios multiplataforma: Sandra Regina de Melo Pepe; Executivos multiplataforma:

P.21

DA PAZ E DO AMOR

INOVAÇÃO DIGITAL DIRETOR DE INOVAÇÃO DIGITAL: Alexandre Maron GERENTE DE ESTRATÉGIA DE CONTEÚDO DIGITAL: Silvia Balieiro

de Pina, Cristiane de Barros Paggi Succi, Christian Lopes Hamburg, Milton Luiz Abrantes e Taly Czeresnia Wakrat. MODA, BELEZA E HIGIENE PESSOAL — Diretor de negócios multiplataforma: Cesar Bergamo; Executivos multiplataforma: Adriana Pinesi Martins, Eliana Lima Fagundes, Juliana Vieira, Selma Teixeira da Costa e Soraya Mazerino Sobral. CASA, CONSTRUÇÃO, ALIMENTOS E BEBIDAS, HIGIENE DOMÉSTICA E SAÚDE — Diretora de negócios multiplataforma: Marilia Guiti Hindi; Executivos multiplataforma: Giovanna Sellan Perez, Keila Ferrini, Lucia Helena Lopes Messias, Rodrigo Girodo Andrade e Valeria Glanzmann.

HUMANIDADE

CIVILIZAÇÃO

E-MAIL DA REDAÇÃO: galileu@edglobo.com.br

Mendonça, Leandro Paixão, Leonardo Turbiani, Marcelo Amendola, Marcio Costa, Murilo Amendola e Victor Hugo Oliveira da Silva; OPEC ONLINE: Rodrigo Santana Oliveira, Danilo Panzarini, Higor Daniel Chabes, Rodrigo Pecoschi e Thiago Previero

INFOMANIA

P.11

GUERRAS

P.20

P.22

BATE-PAPO

COM O QUADRINISTA

DASH SHAW

LUNETA P.14

DOSSIÊ

P.80

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

PANORÂMICA

P. 27

Disponível de segunda a sexta-feira, das 8 às 21 horas; sábados, das 8 às 15 horas. INTERNET: www.sacglobo.com.br SÃO PAULO: (11) 3362-2000 DEMAIS LOCALIDADES: 4003-9393* FAX: (11) 3766-3755 *Custo de ligação local. Serviço não disponível em todo o Brasil. Para saber da disponibilidade do serviço em sua cidade, consulte sua operadora local. PARA ANUNCIAR LIGUE: SP: (11) 3767-7700/3767-7500 RJ: (21) 3380-5924 E-MAIL: publigalileu@edglobo.com.br PARA SE CORRESPONDER COM A REDAÇÃO: endereçar cartas ao Diretor de redação, GALILEU. Caixa postal 66011, CEP 05315-999, São Paulo/SP. FAX: (11) 3767-7707 E-MAIL: galileu@edglobo.com.br As cartas devem ser encaminhadas com assinatura, endereço e telefone do remetente. GALILEU reserva-se o direito de selecioná-las e resumi-las para publicação. EDIÇÕES ANTERIORES: o pedido será atendido por meio do jornaleiro pelo preço da

edição atual, desde que haja disponibilidade de estoque. Faça seu pedido na banca mais próxima. Contatos para Justiça Eleitoral: E-mail: justicaeleitoral@edglobo.com.br Fax: (11) 3767-7091

O Bureau Veritas Certification, com base nos processos e procedimentos descritos no seu Relatório de Verificação, adotando um nível de confiança razoável, declara que o Inventário de Gases de Efeito Estufa — Ano 2012 da Editora Globo S.A. é preciso, confiável e livre de erro ou distorção e é uma representação equitativa dos dados e informações de GEE sobre o período de referência para o escopo definido; foi elaborado em conformidade com a NBR ISO 14064-1:2007 e as Especificações do Programa Brasileiro GHG Protocol.

CURTO-CIRCUITO

ATENDIMENTO AO ASSINANTE

P.79

MOEDA ELEMENTAR

P. 26

SUMÁRIO DE REPORTAGENS

P.35


PRIMEIRAMENTE

W W W.G ALILEU.GLOBO.COM

#304

QUEM FEZ A CAPA ILUSTRAÇÃO Marcus Penna

11. 2016

POR CRISTINE KIST

COLABORADORES DO MÊS

Marcelo Soares JORNALISTA ONDE NASCEU E ONDE MORA Porto Alegre (RS) e São Paulo (SP)

Dizia ele: “A interpretação do que é jornada exaustiva de trabalho faz

HISTÓRICO Foi editor de audiência da Folha de S.Paulo e tradutor de quadrinhos da Marvel. É professor da ESPM.

com que relações entre empregador e empregado sejam, erroneamente, consideradas trabalho escravo”. Pois que, em janeiro, o grupo presidido

O QUE FEZ NESTA EDIÇÃO O levantamento de dados que serviu de base para a matéria de capa (p. 36)

por esse mesmo executivo havia sido condenado a indenizar uma costureira que colocava elástico em 500 calças por hora e evitava beber água para diminuir as idas ao banheiro,

NINGUÉM

que eram controladas por fichas. Jor-

FA Z M AT É R I A

nada exaustiva ou não? Coincidente-

PA R A G A N H A R

mente, poucas semanas depois que o

Zansky

artigo do empresário foi publicado, o

ILUSTRADOR

PRÊMIO, MAS...

editor Thiago Tanji ganhou um prê-

ONDE NASCEU E ONDE MORA São Paulo (SP)

mio do Ministério Público do Trabalho por essa mesmíssima matéria. Não fosse isso motivo suficiente para comemorar, em outubro nossa equipe — capitaneada pelo editor Nathan Fernandes — recebeu também

N

o fim de agosto, o jornal Folha de S.Paulo publicou um artigo em que o presidente de

uma grande rede de lojas de departamento descascava a capa da GALILEU de março, ainda que sem citá-la pelo nome. A reportagem em questão, Escravos da moda, tratava das condições precárias a que com frequência são submetidos os trabalhadores das confecções que abastecem as nossas lojas preferi-

o prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos pela reportagem de capa da edição de fevereiro, O bandido está morto. E agora? Trata-se do prêmio jornalístico mais tradicional do país na área dos direitos humanos. Essas duas reportagens são exemplos do jornalismo que a GALILEU se propõe a fazer. Acreditamos de verdade que o conhecimento é o primeiro passo para qualquer transformação. E, infelizmente, há muito a ser transformado. Voltamos a conversar no mês que vem!

das. O artigo do empresário fazia, basicamente, uma grande defesa da

Cristine Kist — editora-chefe

revisão das leis trabalhistas.

ckist@edglobo.com.br

! DUAS VEZES GALILEU Desde meados de outubro nossos leitores cariocas podem nos acompanhar também no jornal Extra. A seção Extra em Revista, publicada às segundas, relembra algumas das melhores matérias feitas por nós nos últimos tempos.

HISTÓRICO Já foi designer gráfico, mas a vida o levou para a ilustração. Ilustra para editoriais, publicidade e seus projetos pessoais pela Edições de Zaster. O QUE FEZ NESTA EDIÇÃO Ilustrações do Antimatéria (p. 7)

Juliana Cunha JORNALISTA ONDE NASCEU E ONDE MORA Salvador (BA) e São Paulo (SP) HISTÓRICO Foi repórter da Folha de S.Paulo, é mestranda em Teoria Literária na Universidade de São Paulo e autora do blog Já Matei por Menos. O QUE FEZ NESTA EDIÇÃO A guerra da esquina (p. 60)


POR NATHAN FERNANDES

POR NATHAN FERNANDES

CONSELHO

Edição • Outubro/2016

COMO ELES VIRAM A EDIÇÃO DE OUTUBRO

O QUE ELES ACHARAM: DA MATÉRIA CIÊNCIAS MAIS OU MENOS EXATAS?

Nossos nobres conselheiros provaram que estão enxergando muitíssimo bem e leram (e avaliaram) a edição anterior todinha

MÉDIAS DAS MATÉRIAS 9,1

9,5

9,2

9

9,3

9

O QUE ELES ACHARAM: DO ENSAIO FOTOGRÁFICO DA NAMÍBIA 14%

15%

15% 85%

71%

Gostei, demorou para falarem sobre isso

Gostei, por favor tragam a África para mais perto do Brasil

Não gostei, isso é coisa de esquerdistas

Não gostei, prefiro o Globo Repórter Não sou capaz de opinar

DA MATÉRIA SOBRE A ESTRELA MAIS ESTRANHA DA GALÁXIA

DA ENTREVISTA COM O HISTORIADOR E ESCRITOR BENJAMIN MOSER 12,5%

87,5% Gostei, publicar mais entrevistas assim não é uma exigência exótica Não sou capaz de opinar

DO DOSSIÊ SOBRE CRIPTOGRAFIA

Capa: Como você vê o Brasil

Dossiê Criptografia

Uma estrela bem estranha

A vida não é em preto e branco

Universidades no vermelho

Ciências pouco exatas

Para todos os gostos

E agora, José?

Beleza é fundamental

“A pluralidade de informações e a imparcialidade da edição fizeram com que eu apreciasse a capacidade da revista em abordar temas polêmicos sem influenciar o leitor.”

“A editoria de ciência é sempre uma das mais complicadas de ler. E sempre que acabo os textos fico pensando: ok, e o que eu faço com essa informação agora?”

“A equipe de arte arrasou. Eu adoro as fotos criativas que vocês fazem, e, nessa matéria em particular, a parte visual ficou linda. Todos de parabéns!”

CAMILA OLIVEIRA (Porto Alegre, RS) sobre Uma estrela bem estranha

ELLEN DA SILVA (Goiânia, GO) sobre Universidades no vermelho

JULIANO SANTANNA (Rio de Janeiro, RJ) sobre Como você vê o Brasil

Atirando para os dois lados

100% Gostei, é por isso que prefiro ler no papel Não gostei, a matéria pareceu encriptada e indecifrável para mim

06

“TENDO FREQUENTADO CURSOS tanto de humanas quanto de ‘exatas’ (prefiro ‘naturais’, porque é Biologia), vejo como a formação humana faz falta de um lado e como, de outro, carecemos de maior interação entre política e ciência. Alain de Botton, em Religião para Ateus, relembra muito bem como os discursos de formatura mais convencionais são vazios de sentido, sugerindo que ‘as faculdades formam seus estudantes também como pessoas’, quando não há nada muito seriamente planejado e sistematicamente executado nessa direção!” SÁVIO MOTA (Fortaleza, CE) sobre Ciências mais ou menos exatas

14% 14%

72% Gostei, o universo é tão fascinante quanto essa matéria Não gostei, espero que caia em um buraco negro e desapareça para sempre Não sou capaz de opinar

DO ABRE DO ANTIMATÉRIA, SOBRE A BOA FASE DAS STARTUPS BRASILEIRAS 14% 14%

72% Gostei, matéria inspiradora em tempos de crise Não gostei, essa matéria deveria estar na Época Negócios Não sou capaz de opinar


11.2016

P. 07

ANTIMATÉRIA

EDIÇÃO CAROL CASTRO

Fig. 01 -(ZK)

GUERRAS INVISÍVEIS 11.2016

Enquanto as atenções se voltam para conflitos no Oriente Médio, países da África vivem décadas de violência ininterrupta POR FELIPE FLORESTI

ILUSTRADORES CONVIDADOS DESIGN FEU

1 2 3 4

ZANSKY (ZK)

BRUNNA MANCUSO (BM) ESTÚDIO BARCA (EB) MARCUS PENNA (MP)


ADEMOCRACI P. 08

11.2016

... FUNCIONOU NA República

segunda, 19 de setembro. Sem

conflito — o maior banho de

Democrática do Congo nas úl-

pilhagens ou roubos. Marchem

sangue no mundo desde a

timas décadas. Pela primeira

com sua raiva para que seu país

Segunda Guerra Mundial.

vez na história do país, no en-

possa ter democracia e mudan-

O conflito começou em

tanto, a população estava ani-

ça de poder. A força está no

Ruanda, vizinho da República

mada com a possibilidade de

povo!”, dizia um comunicado

Democrática do Congo, quan-

uma transição política pacífi-

escrito pelos manifestantes.

do uma guerra entre grupos ét-

ca. O atual presidente, Joseph

Os protestos aconteceram

nicos matou mais de 800 mil

Kabila, está há 15 anos no po-

de forma descentralizada,

pessoas durante três meses do

der — herdou o cargo do pai,

principalmente em bairros po-

ano de 1994 e levou milhares

assassinado em 2001, e venceu

pulares de Kinshasa, capital

de refugiados aos países vizi-

as eleições em 2006. É o pri-

do país. Mas nem deu tempo

nhos. Os rebeldes de Ruanda,

meiro governante eleito da na-

de fazer muito barulho. Forças

então, perseguiram os fugiti-

ção a completar seu mandato

de segurança do governo abri-

vos, ignorando qualquer fron-

e, nesse tempo, aprovou uma

ram fogo contra a popula-

teira. Começava ali uma “guer-

nova Constituição que previa

ção, matando pelo menos 37

ra mundial” na África, que

eleições para novembro deste

pessoas. Como retaliação,

envolveu mais de nove nações.

ano. Mas ele preferiu deixar

grupos ligados à oposição

Mas a história sangren-

essa determinação para lá.

queimaram vivo um policial

ta da República Democrática

Alegando falta de dinheiro,

e incendiaram a sede do parti-

do Congo é ainda mais anti-

Kabila e a elite política do país

do ligado ao governo. A barbá-

ga. Desde sua independência,

postergaram o pleito para 2018.

rie venceu a democracia.

em 1960, o país teve um pre-

A oposição, então, convocou

Esse foi apenas o mais re-

sidente assassinado pela CIA,

protestos: “Levantem-se, con-

cente episódio de uma ca-

a agência de inteligência dos

goleses. Inimigos do povo que-

deia de violência que matou

Estados Unidos, passou por

rem dar a Kabila um terceiro

quase 6 milhões de pessoas

três golpes de Estado, viveu

mandato. Passeata pacífica na

em mais de duas décadas de

32 anos de ditadura e mudou

120 MORTES POR DIA NA ÁFRICA

52%

DOS CONFLITOS MUNDIAIS ACONTECEM NO CONTINENTE

3,7

MILHÕES É O NÚMERO DE REFUGIADOS NA REGIÃO SUBSAARIANA

Fontes: Institute for Security Studies in Africa; Armed Conflict Location & Event Data Project


IANÃO

11.2016

P. 09

O CAOS NA ÁFRICA

Regiões do continente onde aconteceram conflitos em 2015

MARROCOS ARGÉLIA

LÍBIA

SAARA OCIDENTAL MAURITÂNIA

ARÁBIA SAUDITA

EGIT0

MALI

SUDÃO

NÍGER

SENEGAL

OMÃ IÊMEN

CHADE NIGÉRIA

SUDÃO DO SUL

REPÚBLICA CENTROAFRICANA

LIBÉRIA

GUINÉ EQUATORIAL

UGANDA

REPÚBLICA CONGO DEMOCRÁTICA DO CONGO

QUÊNIA

SOMÁLIA

TANZÂNIA

ÁREA COM MAIS CONFLITOS ANGOLA ZÂMBIA

MOÇAMBIQUE

NAMÍBIA BOTSUANA

ÁREA COM MENOS CONFLITOS

ÁFRICA DO SUL

de nome e bandeira quatro

população não se sente repre-

vis há anos. O Sudão do Sul,

locais. O Quênia quer fechar um

vezes. Com território equi-

sentada, a revolta é o único

aliás, é o segundo país mais

campo de refugiados, alegando

valente ao da área de toda a

jeito de chamar a atenção da

perigoso do mundo, de acordo

a existência de células terroris-

Europa Ocidental e abrigan-

elite.” Enquanto fogem de exér-

com o Índice Mundial da Paz,

tas. Outros somalianos retorna-

do mais de 250 diferentes gru-

citos e da ONU, os rebeldes,

perdendo apenas para a Síria.

ram à terra natal após encontrar

pos étnicos, a nação nunca

que mantêm 22 mil homens

Cada conflito abre espaço

a mesma pobreza no Iêmen, na-

experimentou a paz.

na região, aterrorizam vilare-

para a chegada de novos gru-

jos com assaltos, estupros e

pos extremistas, como acon-

A última década foi mar-

até casos de canibalismo.

teceu na Nigéria, com o Boko

cada por um declínio históri-

Em 2002, parecia que a situação mudaria. Um acor-

ção do Oriente Médio.

do assinado naquele ano pôs

Não é só mudança política

Haram. “Nunca se resolvem

co de paz mundial, o que não

fim à fase mais sangrenta dos

que os revoltosos desejam. Eles

os problemas e a sociedade

acontecia desde a Segunda

combates da guerra na África.

também lutam para controlar os

fica sem perspectivas”, diz

Guerra. Hoje, 2,58 bilhões de

Mas os conflitos na República

recursos minerais do país — a

Jonuel Gonçalves, professor

pessoas vivem em lugares pe-

Democrática do Congo não

região é rica em tântalo e ouro,

de Relações Internacionais

rigosos — 36% da população

acabaram: atualmente, são

fundamentais para a indústria

da Universidade Federal

do planeta. Em 2015, o mun-

mais de 40 pequenos gru-

de produtos eletrônicos. Com

Fluminense. O resultado da

do gastou US$ 1,6 bilhão em

pos armados espalhados pela

a venda desses minérios, con-

escalada da violência é uma

armas e guerras. Metade

região leste do país, a mais de

seguem financiar suas lutas. E

horda de refugiados à pro-

desse dinheiro seria sufi-

1,5 mil quilômetros da capital.

é bem provável que você car-

cura de uma vida melhor: na

ciente para atender todas as

“Muitas fronteiras foram fir-

regue parte desse conflito no

região subsaariana da África,

metas de desenvolvimen-

madas de forma artificial no

bolso, em seu celular.

3,7 milhões de pessoas estão

to sustentável determinadas

em busca de um novo lar.

pela ONU. Com 20% dos re-

período colonial, aleatoriamen-

Com pequenas alterações

te”, afirma EJ Hogendoorn, di-

no enredo, a história se repe-

Só na Somália, sem gover-

cursos bélicos, os objetivos

retor do International Crisis

te nos países vizinhos, como

no central há 20 anos, mais de

para a educação seriam cum-

Group, uma organização in-

República Centro-Africana

900 mil indivíduos fugiram do

pridos, e a fome e a pobreza

dependente que estuda esses

e Sudão do Sul — as nações

país e enfrentam dificuldades

extrema acabariam. Mas isso

conflitos. “Quando parte da

também enfrentam guerras ci-

para se estabelecer em outros

interessaria aos governantes?


P. 10

11.2016

SEM DÚVIDA

POR QUE AS UNHAS DOS PÉS DEMORAM MAIS PARA CRESCER?

Júlia da Cunha, via e-mail As unhas dos pés precisam de um tempo até três vezes maior para crescer. Esse pedaço de unha que acabou de despontar na cutícula dos dedos do seu pé, por exemplo, só será cortado daqui a 12 ou 18 meses. Nas mãos, esse processo de renovação é bem rápido: demora apenas seis meses. Ou seja, a cada três vezes que você cortar as unhas das mãos, só precisará cortar uma vez as dos pés. Mas ninguém sabe

R:

O SOM E O SENTIDO

Palavras básicas, como nariz ou água, têm as mesmas letras na maior parte das línguas do mundo. E isso muda tudo para a ciência da linguagem POR BRUNO VAIANO

FIG. 02 - ZK

lavras para conceitos que esperamos encontrar em todas as línguas, como ‘água’, ‘pedra’ ou ‘língua’”, explica Blasi. “Esse é o vocabulário básico.” A equipe, então,

alavras são códigos aleatórios.

analisou um grupo restrito de cem pala-

Você só descobriu que “dog”

vras em mais de 4 mil idiomas. E calhou

era “cachorro” depois que al-

que o signo não era, afinal, tão arbitrário

guém que já sabia inglês fez

assim. Mesmo em sistemas de linguagens

o favor de lhe contar. O linguista francês

sem descendência comum, a palavra “re-

Ferdinand de Saussure, aliás, percebeu isso

dondo”, por exemplo, geralmente tem um

há muito tempo, e na primeira década do

“r”, enquanto “nariz” tende a ter “n”. Essas

século 20 cravou que “o signo é arbitrário”.

coincidências se repetem por toda a lista.

Esse é um princípio básico da linguís-

“Foi uma surpresa”, afirma Blasi. “Sabe-

tica, e por mais de cem anos, ninguém

-se que o ser humano é sensível a relações

encontrou provas do contrário. Mas a ci-

entre som e significado desde a década de

ência é um moinho, e o cientista Damián

1920, mas ninguém havia demonstrado

Blasi transformou as ilusões de Saussure

isso com um grande número de línguas.”

em pó. A equipe do pesquisador do

Há várias hipóteses para explicar o fenô-

Instituto Max Planck, da Alemanha, apos-

meno. Uma das favoritas de Blasi é a de

tou que nossa fonética não podia ser as-

que associamos fonemas à textura e à apa-

sim tão aleatória. E acertou em cheio.

rência das coisas. Um “espeto”, por exem-

P

Testar a validade da hipótese não foi

plo, tem sons secos, como “p”. Já “mãe”

fácil. “Primeiro, precisamos encontrar pa-

teria um “m” macio. Um som, mil sentidos.

ao certo por que isso acontece. De acordo com a bióloga Karlla Patrícia, o sangue corre mais rapidamente nas mãos do que nos pés — o que acelera o crescimento das unhas. Além disso, os sapatos que você calça ajudam a frear esse crescimento. Mas o que se sabe mesmo é que as unhas não passam de um amontoado de células mortas, formadas embaixo da pele. E, no fim das contas, o corpo só quer se livrar delas.

1

Equivale a metade da área do México

MILHÃODEKM É O TAMANHO DA MANCHA DE SUJEIRA NO PACÍFICO, ENTRE A CALIFÓRNIA E O HAVAÍ

2


11.2016

P. 11

NÃO MINTA NO FACEBOOK

É fácil fingir ser outra pessoa nas redes sociais. Mas a ciência garante: não vale a pena. Só vai causar sofrimento e estresse — POR CAROL CASTRO

NO FIM DOS ANOS 1990, quando a internet ainda engatinhava, William Swann, da Universidade do Texas, descobriu que funcionários com baixa autoestima costumam se demitir depois de receber aumento salarial. Essas pessoas enfrentam um conflito interno: pensam que o chefe não consegue vê-los como realmente são. Eles se sentem desconectados e perdidos, com um nó na cabeça. Vinte anos depois, dois psicólogos australianos, Rachel Grieve e Jarrah Watkinson, decidiram investigar se a internet causa o mesmo efeito de incompatibilidade. Afinal, nada mais fácil do que ser uma pessoa na vida real e outra bem diferente no mundo virtual.

Para tirar a prova, eles entregaram a 164 pessoas dois testes de personalidade: um deveria ser respondido de acordo com o perfil do Facebook e o outro teria de ser mais sincero, com base em como pensam e agem quando estão offline, sem ninguém por perto. Perguntaram, então, quão satisfeitos estavam com a vida. Por mais populares que fossem nas redes sociais, quando o perfil virtual destoava muito da personalidade real, essas pessoas se sentiam da mesma forma que aqueles trabalhadores entrevistados por William Swann: desconectados de tudo e todos. E eram muito mais tristes em relação aos entrevistados que não tinham uma “vida dupla”.

BONECA TAMBÉM É COISA DE MENINO Reveja seus conceitos, parça: garotos que brincam com bonecas se tornam crianças mais carinhosas e empáticas — POR C.C. FIG. 03 - BM

FIG. 04 - EB

A NORTE-AMERICANA KRISTEN JARVIS vasculhou as lojas de brinquedos em busca de uma boneca para o filho de dois anos. Só achou bonecas femininas, bebês e super-heróis. Não era nada do que esperava. Grávida, Jarvis queria um boneco para mostrar a ele como seria divertido ter um irmão. Mas se nos Estados Unidos é difícil encontrar um brinquedo desses, imagine, então, no Catar, onde Jarvis vivia. Porém, brinquedos assim deveriam existir. De acordo com Christia Spears Brown, psicóloga da Universidade do Kentucky, nos Estados Unidos, bonecas ajudam as crianças a desenvolver empatia. Como simulam situações reais da vida, elas conversam e tomam conta das bonecas, como se fossem amigas de verdade, aprendendo a ser mais carinhosas e cuidadosas. E meninos gostam dessas brincadeiras tanto quanto as garotas, principalmente até o primeiro ano de vida. “Eles recebem menos estímulos para desenvolver empatia. Ainda que o cérebro seja um pouco diferente, eles se interessam por pessoas tanto quanto as meninas, passam o mesmo tempo observando os outros”, escreve Brown no livro Parenting Beyond Pink & Blue (Paternidade Além do Rosa e Azul, em tradução livre). Ou seja, nada prova que garotos tenham desinteresse nato por brincadeiras que simulem interações humanas, como as com bonecas. Existe só o preconceito dos pais. Foi por isso que Jarvis e a irmã decidiram criar a marca Boy Story, que lançou recentemente os primeiros bonecos, graças a mais de US$ 28 mil arrecadados em crowdfunding. Deram vida a Billy, negro de cabelos crespos, e Mason, branco de cabelos lisos. “Queremos diversidade, fazer com que mais crianças sejam representadas”, diz.


P. 12

11.2016

GOLPE CONTRA A NATUREZA

QUAIS SÃO OS PROJETOS DE LEI EM TRAMITAÇÃO NO CONGRESSO QUE MAIS PREOCUPAM OS AMBIENTALISTAS?

O pesquisador Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, publica artigo na revista Nature para denunciar mudanças nas leis ambientais — POR FELIPE FLORESTI FIG. 05 - EB

O mais famoso é a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 65, de 2012, que ressurgiu enquanto todos prestavam atenção no impeachment de Dilma Rousseff. Ele acaba com a necessidade de licenciamento ambiental para obras. Há ainda o Projeto de Lei 654/2015, que determina um prazo impossível para o Ibama aprovar licenças (um prazo sete vezes mais curto que o atual). Depois desse período, o licenciamento sairia automaticamente. Já pela PEC 215, passariam para o Poder Legislativo, que é controlado por ruralistas, a criação de áreas de conservação e a demarcação de terras indígenas. Não teríamos novas áreas demarcadas e as terras já existentes estariam ameaçadas.

ESSES PROJETOS PODEM SER APROVADOS?

Veja o caso do Novo Código Florestal: 85% da população dizia ser contra, mas ele foi aprovado mesmo assim. Isso mostra a força do dinheiro, que vem da soja. E o grupo que empurra esses projetos faz parte do governo, como Blairo Maggi (ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) e Romero Jucá (senador pelo PMDB). É grande o risco.

COMO AVALIA A LEGISLAÇÃO ATUAL?

Tem muito a melhorar. O licenciamento deveria ser independente, não feito pela empresa que realiza a obra (a empreiteira contrata uma consultoria e envia o relatório ambiental para o Ibama). Isso forma um sistema enviesado. O desastre em Mariana aconteceu por falhas no modelo atual. Imagine sem a necessidade de um licenciamento, como propõe a PEC 65.

CAFÉ RECICLÁVEL Startup franco-brasileira transforma resíduos de produção agrícola em fertilizantes sustentáveis POR ISABELA MOREIRA

FIG. 06 - BM

NOTÁVEIS NOME: Mariana Bittencourt NACIONALIDADE: Brasileira IDADE: 31 anos PROFISSÃO: Arquiteta FEITO: Ganhou uma competição de startups na França

A ARQUITETA MARIANA Bittencourt, de 31 anos, nunca pensou em abrir o próprio negócio. Um curso de verão na Universidade Paris Saclay, onde atualmente cursa pós-graduação em Economia Ecológica, a fez mudar de ideia. Há dois anos, ela conheceu o cientista francês Emmanuel Thiéry, que viria a se tornar seu sócio na startup Cophenol, criada para dar um fim sustentável aos resíduos agrícolas. Com um processo chamado pirólise — combustão em alta temperatura —, eles transformam os compostos em biogás, combustível renovável e biocarvão, responsável por equilibrar a acidez dos solos e que pode até virar fertilizante.

Agora, Bittencourt quer atuar no cerrado de Minas Gerais, transformando os restos da produção de café em biocarvão. “Encontramos empresas que trabalham com pirólise na Europa, mas no Brasil ainda não. Queremos desenvolver um produto que funcione como composto mineral e reduza os custos das cooperativas locais”, explica. A Cophenol tem feito sucesso na França. No ano passado, eles faturaram a primeira temporada do French Tech Ticket, uma competição entre startups. Com mais de 700 concorrentes, o projeto ficou entre os 23 melhores. Ganharam um financiamento de 45 mil euros. Desde janeiro, Bittencourt e Thiéry participam de aulas, eventos e encontros para acelerar o crescimento da empresa: “É um processo de tentativa e erro. O principal é acreditar no que desenvolvemos.”

SEM DÚVIDA

QUALÉOCOMPUTADOR MAISPOTENTEDOMUNDO?

Rafael Zanatto, via e-mail

O mais poderoso computador fica na China. Inaugurado em junho, o Sunway TaihuLight tem mais de 10 milhões de núcleos e realiza 93 quadrilhões de cálculos por segundo. É o equivalente a 50,5 mil PlayStations de última geração trabalhando juntos. Ele precisa de uma energia incrível para funcionar: 15,37 megawatts — similar à energia de uma cidade de 75 mil habitantes.

R:

O alto consumo de energia, aliás, é justamente a pedra no sapato do maior computador da América Latina. Localizado no Laboratório Nacional de Computação Científica, em Petrópolis (RJ), o supercomputador Santos Dumont tem capacidade de 1,1 quadrilhão de cálculos por segundo. E gera mensalmente uma despesa R$ 500 mil com energia elétrica. Inaugurado em janeiro, corre o risco de ser desligado.


11.2016

P. 13

O ATRASO NOS LICENCIAMENTOS NÃO TRAZ PREJUÍZOS FINANCEIROS?

O problema é que os proponentes nunca cumprem as determinações e o licenciamento fica parado. As empresas culpam o Ibama, mas não fazem sua parte. Além disso, existem poucas pessoas para fazer o licenciamento e centenas de projetos na fila. E a tendência é piorar. Mas é de propósito: se existe um prazo para liberar as obras, e não tem gente para fazer, a aprovação acaba saindo automaticamente.

POR QUE DECIDIU PUBLICAR ESSE ALERTA EM UMA REVISTA CIENTÍFICA ESTRANGEIRA?

É importante que as pessoas saibam o que está acontecendo aqui. Teve uma boa repercussão lá fora. Mas ainda é preciso que isso seja bastante divulgado por aqui também.

CARGA PESADA Brasileiro só não trabalha mais do que habitantes de Índia e Cingapura. Veja quantas horas semanais trabalham os cidadãos de outros países FIG. 07 - ZK

44 HORAS 42 40

INVASÕES BÁRBARAS

39 37

36

Mudanças climáticas espalham pragas e doenças que ameaçam florestas dos Estados Unidos — POR F.F. inco anos de seca no oeste

compõe 80% da mata nativa. Para pio-

norte-americano fizeram

rar, um novo fungo, o Ceratocystis fim-

muito bem aos besouros.

briata, que chegou a bordo de plantas

Agora, eles não precisam

ornamentais, se aproveitou do momento.

mais se esconder durante a chuva e so-

Eles causam uma doença chamada “ohi’a

bra tempo para se reproduzirem. Mas há

morte rápida” e se espalharam por essas

um problema: com tanto besouro solto,

árvores. Ao todo, já exterminaram mais

as florestas do país correm perigo. Além

de 20 mil hectares de floresta.

Fonte: Statista

Cingapura Índia Brasil México EUA Japão Argentina Espanha Suécia Alemanha Reino Unido França Itália Países Baixos

C

de comerem as árvores e deixá-las mais

Enquanto isso, na Califórnia, outro

fracas, esses insetos espalham doenças

bicho parecido com um fungo propa-

pelas matas nativas. “Não há nada que

gou uma doença batizada de “carva-

você possa fazer para pará-los, a não

lho morte súbita”: mais de 66 milhões

ser que eles matem tudo e fiquem sem

de árvores morreram desde 2010 na

comida”, afirmou Diana Six, entomolo-

Serra Nevada. Todo esse estrago, cau-

gista da Universidade de Montana, ao

sado principalmente pelas mudanças

jornal britânico The Guardian.

climáticas, alterará todo o ecossiste-

No Havaí acontece a mesma coisa.

ma. Árvores sequestram carbono da

Quatro espécies de besouros se espalha-

atmosfera e abrigam uma infinidade

ram por lá. Eles se alimentam da árvore

de vida. E, quanto menor a floresta,

ohi’a, uma espécie do arquipélago, que

menor será a diversidade da vida.


11.2016

POR ANDRÉ JORGE DE OLIVEIRA

ATÉ MARTE E ALÉM

SISTEMA DE TRANSPORTE INTERPLANETÁRIO (ITS) PODERÁ LEVAR HUMANOS ATÉ OS GIGANTES GASOSOS ESPAÇONAVE

COM SÉRIE DE ÊXITOS NA ÚLTIMA DÉCADA, A SPACEX DE ELON MUSK HOJE VALE SINGELOS US$ 12 BILHÕES Outros projetos Sistema de Transporte Interplanetário (ITS)

Com a Dragon, a SpaceX se torna a primeira empresa privada a acoplar cápsula na ISS. Carga é entregue com sucesso na Estação Espacial

2015

Primeiro foguete Falcon 9 é lançado, podendo levar dez toneladas à órbita baixa. Cápsula Dragon chega ao espaço e retorna com sucesso

2012

Após três tentativas falhadas, o Falcon 1 entra em órbita. É a primeira companhia privada a conseguir. Contrato de US$ 1,6 bilhão é firmado com a Nasa

2010

Primeiro lançamento do foguete Falcon 1: sim, Musk ama muito Star Wars. Explodem o veículo e sua carga, um satélite de US$ 800 mil da Força Aérea dos EUA

Versão melhorada do Falcon 9 é lançada, capaz de levar 22 toneladas à órbita baixa. Primeiro estágio do foguete retorna à base de lançamento

• Tripulação: 100 pessoas ou mais

PONTE AÉREA PLANETÁRIA

• Material: Fibra de carbono

TENTAR A VIDA EM MARTE

• Capacidade: até 450 toneladas para Marte

49,5 metros

A CONQUISTA DO ESPAÇO

2008

LUNETA

2006

P. 14

Preço de uma passagem para o planeta vermelho • Métodos tradicionais → US$ 10 bilhões (só ida) 17 metros de diâmetro

• ITS → US$ 200 mil = valor de uma casa (ida e volta) OTIMIZAÇÃO DE 5.000.000 % NO CUSTO PORTONELADA

122 metros*

9 motores

PRIMEIRO ESTÁGIO

1

• Massa: 275 toneladas • Combustível: 6,7 mil toneladas

Primeiro estágio lança espaçonave em órbita e retorna ao planeta para levar nave-tanque ao espaço

3

• Consumo: 7% do propelente p/ voltar e pousar 77,5 metros

2

Frota pode chegar a mil naves viajando ao mesmo tempo

Espaçonave recebe combustível em órbita por meio da nave-tanque

Nave-tanque e primeiro estágio retornam à Terra para usos futuros

NA PONTA DO LÁPIS

• Velocidade: 8,65 mil km/h

CUSTOS EM MILHÕES DE DÓLARES

Partes

ATÉ A ÚLTIMA GOTA VIDAÚTIL DE CADAPARTE DO ITS

Fabricação

Por viagem*

1º estágio

230

11

Espaçonave

200

43

Nave-tanque

130

8

• Primeiro estágio: 1.000 usos

12 metros de diâmetro

• Nave-tanque: 100 usos

• Total por missão: US$ 62 milhões

• Espaçonave: 12 usos

• Total por tonelada: US$ 140 mil *Inclui amortização, combustível e manutenção

Humano

PESO MUITO PESADO Toneladas de carga que os foguetes levam à órbita terrestre baixa (até 2.000 km)

MOTORES RAPTOR

• Total: 42 • Anel exterior: 21 • Anel interior: 14 • Centro: 7 GSLV

* Altura total é cinco metros menor que a soma das duas partes pois os motores da nave se alojam dentro do primeiro estágio FONTE: Making Humans a Multiplanetary Species (Elon Musk)

ÍNDIA 5

SOYUZ 2-1B RÚSSIA 8,2

LONG MARCH 7 CHINA 13,5

ATLASV551 EUA 18,8

H-IIB

JAPÃO 19

ARIANE 5 EUROPA 20

PROTON-M RÚSSIA 22

FALCON 9 EUA 22,8


FALCON HEAVY DESENVOLVER CREW DRAGON

Janela de lançamento para Marte

TESTES DANAVE

2026

Janela de lançamento para Marte

Janela de lançamento para Marte

TESTES ORBITAIS

P. 15

2025

2024

2023

2022

Janela de lançamento para Marte

MISSÕES RED DRAGON

DESENVOLVIMENTO DE ESTRUTURAS DESENVOLVIMENTO DE PROPULSÃO

2021

2020

Dragon pousará em Marte para fazer testes

2019

Primeira cápsula tripulada, a Crew Dragon deve levar astronautas à ISS

2018

Meta é lançar o poderoso foguete Falcon Heavy até o fim deste ano

2017

Depois de fazer história pousando em terra firme, a SpaceX traz o primeiro estágio de volta do espaço e o faz pousar em um navio no oceano

2016

2016

11.2016

VOOS DO ITS PARA MARTE

TESTES DO PRIMEIRO ESTÁGIO

Em evento aeroespacial, o bilionário Elon Musk apresentou os planos da SpaceX de colonizar Marte já na próxima década para salvar a humanidade da extinção •

Nave atinge até 100 mil km/h

4

Reentrada na atmosfera marciana: temperatura de 1.700° C

Espaçonave segue rumo a Marte com entretenimento a bordo e jeitão de “cruzeiro espacial”

5

6

Aerodinâmica desacelera a nave e motores centrais são acionados para o pouso

AZUL É A COR MAIS QUENTE TERRAFORMANDO MARTE Projetos de geoengenharia podem

Nave volta à Terra para levar mais pessoas até a colônia marciana

deixar o planeta vermelho com a cara da Terra. Explosões nucleares nos polos engrossariam a atmosfera e aumentariam a temperatura, graças à liberação do CO2 congelado

Colonos podem voltar “de carona” a bordo das naves

DIAS CONTADOS TEMPO DEVIAGEM POR JANELA DE LANÇAMENTO (ACADA26 MESES)

•2020: 90 dias •2022: 120 dias

NADA DE PETRÓLEO

•2024: 140 dias Média: 115 dias → Meta: 30 dias

COMBUSTÍVELMARCIANO

POSTO DE GASOLINA EM MARTE Será preciso produzir o propelente

dióxido de carbono

das naves (metano e oxigênio) em

2H2O + CO2 → 2O2 + CH4

Marte, por meio de reações entre elementos químicos coletados lá

Água

Oxigênio

Metano

DOCE LAR VIVENDO COMO HOBBITS Deixar o planeta habitável leva tempo e o confinamento DELTA IVHEAVY EUA 28,7

FALCON HEAVY EUA 54,4

SATURNV EUA 135

ITS

EUA 550 INFOGRÁFICO: MP | ÌCONES: EB

em módulos pode ser um pouco sufocante. Alternativa a curto prazo é instalar domos em crateras e vales, criando “estufas” habitáveis

Meta: criar colônia autossuficiente com 1 milhão de pessoas em cem anos


P. 16

11.2016

PRESENTE DE GREGO PARA O COLESTEROL Cápsulas de remédio com anticorpos dão mãozinha ao sistema imunológico no combate ao colesterol ruim POR BRUNO VAIANO

NAS ARTÉRIAS, células do sistema imunológico chamadas macrófagos travam uma batalha silenciosa contra o LDL, o famoso mau colesterol. Um macrófago é uma célula de defesa roliça que realiza a fagocitose — ou seja, que come substâncias nocivas. Sua missão é evitar o acúmulo de uma placa de gordura nas paredes das artérias. Se o “cano” entope, o resultado é um infarto do miocárdio ou um AVC. Agora, essas novelas estão causando um alvoroço na família tradicional muçulmana. O respeito e o amor dos casais da ficção mostram uma novidade às mulheres: reFIG. 15 - BM

lacionamentos igualitários são possíveis e

NOVELAS TURCAS AFUNDAM CASAMENTOS

divórcios, bem-aceitos. Encorajadas, elas começaram a exigir mais respeito dos maridos — e a optar pela separação. Enciumados, eles também preferem colocar um fim no casamento. Um site sírio contou a história de quatro casais que se separaram no embalo de amor de Noor e Muhannad.

Pobreza e regras mais rígidas do islamismo também contribuem para o aumento dos divórcios em países do Oriente Médio POR CAROL CASTRO

Na Jordânia, um portal local noticiou a ira do marido ao flagrar uma foto do galã Muhannad no celular da esposa — o amor acabou ali. Para se ter noção, o número de divórcios no Iraque

M

uhannad e Noor seguiram

quase dobrou nos últimos dez anos.

todas as tradições islâmicas

Mas a motivação não vem só das telas de

na cerimônia de casamento,

televisão. Em contraponto às ideias liber-

arranjado pelo avô do noivo.

tadoras das novelas, as leis impostas por

Teve leitura do Alcorão, sermão e festa.

grupos islâmicos radicais têm ficado cada

Mas Muhannad era um homem diferente

vez mais rígidas. Sexo antes do casamento

para os padrões tradicionais do Oriente

pode render punições pesadas. Daí, o único

Médio. O jovem não se casou virgem — já

jeito de transar é casando. E é o que os

tinha engravidado uma mulher antes de

muçulmanos têm feito. Só que a lei deixa

se comprometer com Noor. Além disso,

uma brecha: recém-casados podem facil-

depois do casório, Muhannad encheu a es-

mente se separar. Alguns casais, então, se

posa de carinho e respeito e a incentivou a

unem em busca apenas de sexo. E, depois

seguir carreira de designer de moda.

de algumas noitadas, pedem o divórcio.

As cenas de amor de Muhannad e Noor,

Além de tudo isso, no entanto, os con-

dois personagens de uma novela turca, che-

flitos na região deixam cada vez mais pes-

garam às telas de 85 milhões de muçulma-

soas na miséria — sem ter como bancar

nos em 2008. Sírios, iraquianos, jordania-

a família, os maridos abandonam suas

nos e libaneses se renderam à história, e

casas. Um motivo bem menos românti-

mais produções semelhantes não param de

co e libertador do que as emocionantes

chegar aos países do Oriente Médio.

cenas de amor das novelas turcas.

Acontece que há uma variação do LDL que, quando engolida por macrófagos, destrói essas células por dentro. Elas se tornam inúteis e morrem. Pior: seus resíduos estreitam ainda mais as artérias. Quem poderá nos defender, então? Dulcineia Saes Abdalla, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, lidera a batalha contra o mau colesterol. Sua equipe criou anticorpos capazes de identificar o LDL modificado e tirá-lo da circulação. O problema é que os macrófagos continuavam engolindo o colesterol, agora com tempero de anticorpos. A solução foi retirar a “aderência” do anticorpo espião, o que evitava que ele também virasse refeição. Mas isso o tornava mais frágil: para protegê-lo, foi criada uma nanocápsula, carregada de remédios que vão direto ao LDL. Na prática, a técnica, testada em ratos, diminuiu em 74% o tamanho da inflamação na artéria. Os humanos aguardam — e agradecem.

FIG. 14 - EB


A SEMENTE PARA O CONHECIMENTO É A EDUCAÇÃO. EDUCAÇÃO: ALIMENTO PARA A VIDA.

PARCEIROS MANTENEDORES


P. 18

11.2016

FIG. 09 - BM

CIVILIZAÇÃO DA UTOPIA

Ao menos é o que parece. Pesquisadores não encontraram vestígios de armas nos 40 sítios arqueológicos descobertos até agora — em cem anos de estudo. Também não

Os indos viveram por 700 anos sem guerras e sem desigualdade — POR CAROL CASTRO

há desenhos representando batalhas. Entre os escombros, ao contrário de todas as civiliza-

á mais de 5 mil anos, cerca

ções já estudadas, não há templos, palácios

de 35 mil pessoas se espalha-

ou qualquer sinal de hierarquia e classes

ram ao longo do Rio Indo, na

sociais. Só o desenho de um homem barbu-

Ásia. Dominaram toda a re-

do, parecido com sacerdotes hindus e mon-

gião do Paquistão, metade do Afeganistão

ges budistas, remete à imagem de um rei.

e parte do oeste da Índia. E viveram bem

Ninguém sabe como os indos acabaram.

por 700 anos. Aprenderam a desenhar e

A teoria mais forte é que o clima mudou e

escrever, drenavam água do rio para os

os rios secaram. Mas ainda há muito a ser

campos, criavam galinhas e ainda desen-

descoberto. Arqueólogos querem desven-

volveram o primeiro sistema de sanea-

dar as escrituras para dar o veredito final

mento básico da história — o esgoto era

sobre como viviam e se organizavam. Até

despejado em drenos cobertos. A civiliza-

lá, dá para sonhar com a ideia de que pelo

ção do Vale do Indo só deixou duas coisas

menos um povo conseguiu prosperar em

de lado: guerras e desigualdade.

uma sociedade justa e sem guerra.

FIG. 10 - EB

NICOTINA DA FÉ

H

“NUNCASABEREI OTAMANHOREAL DOSOFRIMENTO DELE.MASSEIQUE VIOHOMEMMAIS VALENTEDOMUNDO ENCARANDOO PAPELMAISDIFÍCIL DESUAVIDA” Susan Schneider, viúva do ator Robin Williams, que se matou em 2014. A autópsia mostrou que ele tinha demência com corpos de Lewy, uma doença neurodegenerativa.

Seu cérebro só libera dopamina se você acreditar no poder do cigarro, mostra nova pesquisa de psiquiatras ingleses e norte-americanos — POR C.C. A NICOTINA PRECISA DE VOCÊ. Sem a sua crença, seu cérebro não libera dopamina — substância química que dá sensação de prazer e bem-estar. Parte do sistema de recompensa do cérebro, a dopamina faz você sentir vontade de procurar outra vez aquela fonte de satisfação. É ela quem torna o cigarro tão viciante. Mas isso tudo só acontece se você botar fé na nicotina. A descoberta é de psiquiatras ingleses e norte-americanos. Os cientistas deram cigarros a 24 fumantes crônicos e, em seguida, pediram que fizessem um exame de ressonância magnética. Só que avisaram: nem todos os cigarros tinham nicotina. Cada participante sabia o que fumava — com ou sem a substância. Quer dizer, mais ou menos. Os pesquisadores nem sempre contaram a verdade. Ao conferir as imagens, eles perceberam que o cérebro só libera dopamina quando o voluntário acredita ter fumado um cigarro com nicotina. Mesmo que a substância esteja presente, se o fumante não souber disso, o cérebro não produz a sensação de prazer. O contrário também funciona. Ou seja, no fim da história, a verdade é que o vício está apenas na sua cabeça.


P. 19

11.2016

OFICINA COM A BÊNÇÃO DO DEUS BACO Não adianta chorar sobre o vinho derramado. Aprenda a limpá-lo, guardá-lo e — por que não? — abri-lo com um sapato COMO TIRAR MANCHA DE VINHO TINTO? Com mais vinho, acredite! Coloque um pouco de vinho branco imediatamente sobre a mancha e pressione com um pano. Outra saída é aplicar sal e suco de limão. Passar gelo também funciona, evitando que o tecido absorva o vinho. O importante é correr: mancha seca dificulta tudo.

DÁ PARA SACAR A ROLHA COM UM SAPATO?

FIG. 11 - ZK

CONTRA OVERDOSE, USE HEROÍNA Canadá aprova uso da droga para tratar viciados. A medida tenta acabar com os casos de overdose, que aumentaram mais de 60% neste ano POR FELIPE FLORESTI

FIG. 12 - EB

todos. Médicos só poderão prescrever diacetilmorfina, o princípio ativo da heroína, para pacientes que não respondem ao tratamento convencional, com metadona e buprenorfina, outros dois opiáceos. A ideia, que provavelmente seria apelidada de “bolsa-droga” por aqui, segue os moldes do que já é realizado em países europeus, como

Sim. O ideal é que seja um tênis de solado baixo e sem sistema de amortecimento. Encoste o fundo da garrafa dentro do calçado, onde fica o calcanhar, e bata-o contra uma parede diversas vezes. Aos poucos, a rolha vai se movimentando em direção ao gargalo, até se soltar completamente.

Alemanha, Suíça e Holanda. Na clínica Crosstown, em Vancouver, dependentes recebem injeções por até três

O CANADÁ VIVE UMA epidemia

vezes ao dia. A clínica mantém média

de overdoses. Só na província da

de uma overdose a cada 6 mil doses.

Colúmbia Britânica, os casos au-

Nenhuma delas foi fatal, já que todos

mentaram 61% entre janeiro e agos-

foram atendidos sem demora.

to deste ano, em comparação com

É a lógica da redução de danos

o mesmo período de 2015. Até ago-

substituindo a política de guerra às

ra, 488 mortes foram registradas.

drogas. Além de salvar vidas e ti-

Culpa do fentanil, um opiáceo usa-

rar a necessidade de os dependen-

do em analgésicos e que, por ser ba-

tes químicos recorrerem a trafican-

rato, tem tomado o lugar da heroína.

tes, faz sentido economicamente.

Porém, essa droga é quase cem ve-

Em média, cada usuário custa ao

zes mais forte e muito mais mortal.

Estado US$ 16 mil por ano, con-

Preocupado, o primeiro-ministro,

tra US$ 23 mil se fossem deixados

Justin Trudeau, liberou o uso de he-

por conta própria, seja no sistema

roína para viciados. Mas não para

de saúde, seja nas penitenciárias.

COMO CONSERVAR UMA GARRAFA ABERTA? Para preservar as características da bebida, existe uma ferramenta conhecida como “salva-vinho” ou “vacuvin”, um kit composto por uma rolha e uma bombinha. A rolha deve ser colocada na garrafa e depois, com a bomba, o oxigênio lá de dentro é removido o máximo possível.

POR PABLO PERINI, SOMMELIER


P. 20

11.2016

TEMPORADA DE CAÇA AOS COMEDORES DE VACA

Polícia indiana inspeciona restaurantes locais para averiguar vestígios de carne bovina — POR CAROL CASTRO EM HARYANA, um estado no norte da

de 1500 antes de Cristo, quando hinduís-

Índia, policiais da Comissão de Serviço

tas escreveram textos sagrados sobre a

à Vaca (sim, isso existe por lá) passaram

relação do animal com a fertilidade e com

a vasculhar as despensas dos restauran-

Krishna, um dos deuses indianos. Mas a

tes. Há suspeitas de que alguns lugares

proibição não acontece em todo o país,

estejam vendendo bir-

ainda que 80% dos cidadãos sejam adep-

yani — arroz indiano

tos do hinduísmo. Cada estado tem a pró-

vegetariano ou com

pria legislação — e pode ou não autorizar

cordeiro — mistura-

o abate de carne bovina. O consumo de

do com carne bovina.

outros tipos de carne é liberado. No estado de Haryana, a população

a matança de vacas é

local até arranja brigas quando suspeita

proibida, os policiais

que vizinhos tenham matado vacas ou feito

intensificaram a fis-

um despretensioso churrasquinho. Mas as

calização: apreendem

práticas policiais têm gerado polêmica: al-

o material suspeito e

guns comerciantes dizem ter perdido todo

levam para análise.

o estoque de comida, confiscado pela po-

Essa veneração às

lícia. E garantem que jamais venderam ou

vacas surgiu por volta

comeram um bifezinho sequer da mimosa.

Guiné, país próximo à Austrália, em que

“Fazer a análise de populações é muito di-

98% da população vêm de um único gru-

fícil por questões éticas, logísticas e eco-

po migratório. Já Swapan Mallick e David

nômicas”, explica Tucci. “Imagine como é

Reich, da Escola de Medicina de Harvard,

para um pesquisador ir à savana africana

deram uma olhada em 142 populações, e

ou a ilhas remotas no Pacífico para coletar

comprovaram que os aborígenes australia-

sangue e saliva, e então levar as amostras

nos e outras civilizações da Oceania têm a

de volta aos Estados Unidos ou à Europa.”

mesma origem que os demais povos não

Apesar das dificuldades, uma boa olhada

africanos. Por sua vez, Anna-Sapfo

nos genes ainda é o método mais confiável

Malaspinas, do Museu de História

para responder à mais clichê das perguntas:

Natural de Copenhague, fez algo pa-

de onde viemos? “Há alterações aleatórias

recido com 108 genomas da região, e

que surgem e se acumulam no genoma de

as conclusões foram as mesmas.

populações diferentes”, afirma Tucci. São

FIG. 13 - ZK

VOU-ME EMBORA PARA A EURÁSIA

Como naquela região

Pesquisas simultâneas revelam que todos os seres humanos se originaram de um mesmo grupo que saiu da África há 50 mil anos — POR BRUNO VAIANO Sua família acaba de ficar menor. Três es-

“Não é uma coincidência”, afirma

essas diferenças e semelhanças que permi-

tudos genéticos simultâneos conduzidos

Serena Tucci, especialista em genéti-

tem, por meio de truques estatísticos, traçar

por pesquisadores de diferentes institui-

ca e demografia pela Universidade de

o mapa da migração humana pelo mundo.

ções do mundo concluíram que toda a

Washington. “São colaborações internacio-

E por que o Homo sapiens decidiu que

população do planeta se originou de uma

nais que unem instituições de vários luga-

dominar o mundo era um plano razoável?

única migração, que deixou o continente

res do mundo há anos. Alguns participan-

Bem, isso é mais complicado. “Migrações

africano entre 50 mil e 80 mil anos atrás.

tes, inclusive, estão em mais de um estudo.”

costumam ser motivadas pelas condições

A descoberta foi quase um esforço di-

Na genética, a união faz a força. Afinal,

climáticas ou por disponibilidade de comi-

plomático. A equipe de Luca Pagani, do

mais do que recursos financeiros, é neces-

da e água”, diz Tucci. “Mas pode ser que

Biocentro da Estônia, analisou 148 povos.

sário um pequeno exército de cientistas

o desejo de explorar seja intrínseco ao ser

Entre eles, alguns da região de Papua-Nova

para dar conta de analisar o mundo todo.

humano, e isso já é assunto para a filosofia.”


11.2016

Haja fita métrica: pesquisa inédita compara a altura média da população de todos os países do mundo por um século— POR B.V.

HOLANDA IRÃ COREIA DO SUL TIMOR-LESTE GUATEMALA

LETÔNIA

HOMENS QUE MAIS CRESCERAM MULHERES QUE MAIS CRESCERAM HOMENS MAIS BAIXOS

169,4 cm

1906

1916

1926

1936

1946

1956

1966

1976

1986

1996

171,2

173,2

175

176,8

178,5

180,4

181,9

182,5

182,6

182,5

150 cm 100 cm 50 cm

155,5 cm

157,3

159

160,7

162,3

163,9

165,5

167

168,1

168,9

169,8

150 cm 100 cm 50 cm

157,1 cm

159,4

161,8

164,4

166,4

168

169,6

170,9

172,6

173,3

173,6

150 cm 100 cm

HOMENS

50 cm

MULHERES

BRASIL

MULHERES MAIS BAIXAS

MULHERES MAIS ALTAS

HOMENS MAIS ALTOS

1896

142,2 cm

144,7

147,2

149,9

152,8

155,4

157,4

159,1

160,5

161,5

162,3

150 cm 100 cm 50 cm

153 cm

154,5

155,9

157,2

158,4

159,7

160,9

161,2

161

160,6

159,8

150 cm 100 cm 50 cm

140,3 cm

142

143,7

145,5

147

148,1

148,9

149,2

149,1

149,2

149,4

150 cm 100 cm 50 cm

163,2 cm

164,2

165,2

166,3

167,4

168,5

169,5

170,4

171,6

172,7

173,6

150 cm 100 cm 50 cm

150,2 cm

151,3

152,5

153,8

155,2

156,3

157,2

158

158,8

159,7

160,9

150 cm 100 cm 50 cm

INFOMANIA

ALTOS E BAIXOS

Um grupo internacional de cientistas chamado NCD Risk Factor Collaboration analisou 1.472 pesquisas do último século em busca de informações sobre a altura média da população de 200 países. Na Coreia do Sul, as mulheres cresceram 20 cm. Já no Timor-Leste, os homens não saíram do 1,60 m.

P. 21


P. 22

11.2016

MANUAL DA JOGATINA Dos arcades instalados no bar da esquina aos apps viciantes, o recém-lançado Almanaque dos Games (Panda Books) traz fatos e curiosidades a respeito da história dos jogos de videogame. Para saber se você manja tudo sobre games, associe quem são as pessoas reais da primeira coluna que serviram de inspiração aos personagens virtuais:

A

1 BRUCE LEE

SEGREDOSREVELADOS Candidato do Brasil ao Oscar reflete sobre HIV, preconceitos e amor. Mas sem ser brega — POR NATHAN FERNANDES

B

2 ALÉSIA GLIDWELL

SONIC

3

or mais de dez anos, a famí-

que o preconceito e a falta de amor”. E é

lia Schurmann guardou uma

justamente disso que trata o filme. “Hoje,

informação que não era com-

parece que o ódio está chegando com cada

partilhada com ninguém que

vez mais força e o amor está ficando para

acompanhava suas expedições — várias

trás”, diz David. “A ideia é trazer o amor de

delas noticiadas em programas como o

volta, mas não aquele amor brega.”

P

CHELL

(Portal)

Fantástico. Por medo do preconceito, a

Na narrativa, que mistura histórias e per-

primeira família brasileira a dar a volta ao

sonagens, a preocupação do diretor era não

mundo em um veleiro manteve em segredo

enaltecer demais a família, tarefa em que

a condição de saúde da filha adotiva Kat:

teve apoio do roteirista Marcos Bernstein,

ela era portadora do HIV — vírus que ma-

de Central do Brasil. O elenco, que conta

tou seus pais biológicos, em uma época na

com Julia Lemmertz e Marcello Antony, tem

qual o tratamento para a AIDS era precário.

ainda a irlandesa Fionnula Flanagan, que

A história foi contada em detalhes,

participou de séries como Lost e Star Trek.

em 2013, no livro escrito por Heloisa

O filme foi indicado pelo Ministério da

Schurmann, Pequeno Segredo — A Lição

Cultura para representar o Brasil no Oscar

de Vida de Kat para a Família Schurmann,

na categoria de melhor filme estrangeiro. A

e agora poderá ser vista nos cinemas.

escolha gerou polêmica: Pequeno Segredo

Segundo o diretor David Schurmann, filho

concorria com Aquarius, que disputou a

do casal Vilfredo e Heloisa e que já regis-

Palma de Ouro no Festival de Cinema de

trou várias das aventuras em documentá-

Cannes. No tapete vermelho da premiação,

rios, o filme Pequeno Segredo, que estreia

atores e diretores do filme protestaram con-

no dia 10, não é uma adaptação do livro

tra o impeachment de Dilma Rousseff.

da mãe. “Os dois foram feitos em paralelo”,

Questões políticas à parte, o diretor

afirma David à GALILEU. “Meus pais só

David Schurmann acredita que a história

irão ver o filme na estreia, eles não tiveram

de Kat deixará uma mensagem positiva

nenhum contato com o roteiro. E, sincera-

em tempos difíceis. “Isso cria uma rever-

mente, acho que minha mãe só vai conse-

beração do bem, que inspira e nos faz ver

guir vê-lo uma vez.” A previsão faz sentido,

o lado positivo das coisas”, afirma.

C JOHNNY KNOXVILLE + HARRISSON FORD

SHEVA ALOMAR (Resident Evil 5)

D

4 FEI LONG

ANDY SERKIS

(Street Fighter)

5

E MICHELLE VAN DER WATER

NATHAN DRAKE (Uncharted)

F

6 KING BOHAN

MICHAEL MANDO

(Heavenly Sword)

7

G MICHAEL JACKSON (sapatos)

+ BILL CLINTON

DESMOND MILES

(Assassin’s Creed)

(personalidade)

8

H FRANCISCO RANDEZ

VAAS MONTENEGRO (Far Cry 3)

dada a intensidade da história. creveram: “A luta de uma criança contra essa doença é inglória. Mas nada é pior do

LEIA A ENTREVISTA COMPLETA COM DAVID SCHURMANN NO SITE DA GALILEU

RESPOSTAS: 1-D; 2-A; 3-E; 4-F; 5-C; 6-H; 7-B; 8-G

Em uma mensagem de 2006, os pais es-


11.2016

EM ÁGUAS PROFUNDAS

P. 23

O quadrinista Dash Shaw estreia como diretor de animação em filme com vozes de Susan Sarandon e Lena Dunham, e lança HQ sobre cosplayers — POR ANDRÉ BERNARDO A HISTÓRIA DO FILME MY ENTIRE HIGH SCHOOL SINKING INTO THE SEA (MEU ENSINO MÉDIO INTEIRO AFUNDANDO NO MAR, EM TRADUÇÃO LIVRE) É AUTOBIOGRÁFICA?

Eu diria que é uma autobiografia dramatizada. Usei elementos verdadeiros, é claro, mas procurei alterá-los um pouco para chegar mais perto do sentimento dos personagens. Um verdadeiro êxtase! Procurei captar o espírito do ensino médio em vez de apenas retratar os fatos como eles são. Acredito que seja esse o meu papel como artista: injetar drama e sentimento no que faço, e não simplesmente fazer um relato.

O QUE ACHOU DA EXPERIÊNCIA DE DIRIGIR A ADAPTAÇÃO DOS QUADRINHOS PARA O CINEMA?

Se tivesse que descrevê-la numa única palavra, eu diria que foi incrível! Escrevi o roteiro, montei a escaleta e desenhei boa parte do filme. Na medida do possível, procurei participar de todas as etapas da produção. Mas devo confessar que a animadora principal é Jane Samborski. Ela ficou com as cenas mais difíceis. Além disso, outros profissionais — a maioria deles desenhistas — deram sua contribuição.

DE ONDE VOCÊ TIRA INSPIRAÇÃO PARA ESCREVER SEUS QUADRINHOS? DE ONDE VIERAM AS REFERÊNCIAS PARA SEU NOVO

TRABALHO, COSPLAYERS, POR EXEMPLO?

A inspiração vem dos mais diferentes lugares. No caso de Cosplayers, fui buscar referências na minha juventude, no final dos anos 1990. Eu frequentava convenções de anime e conhecia muitos cosplayers. Pensei: “Por que não criar uma história sobre esse universo?”.

HÁ QUEM DIGA QUE O QUE VOCÊ FAZ NÃO É QUADRINHO, É LITERATURA. QUAL SUA OPINIÃO A RESPEITO DESSA COMPARAÇÃO?

Não sabia que as pessoas diziam isso a respeito do meu trabalho. Bem, o que faço são quadrinhos. Quando alguém pergunta o que faço, respondo que sou cartunista. Ou, ainda, romancista gráfico, quando julgo que isso poderá ajudar a entender melhor o meu trabalho. Às vezes, até chamo de “quadrinho literário”, apenas para distinguir os meus quadrinhos daqueles de super-heróis. No entanto, não me importa muito como as pessoas chamam o que eu faço...

QUAIS SÃO AS DICAS PARA AS PESSOAS QUE GOSTARIAM DE SE TORNAR QUADRINISTAS? Deixa eu ver... Vá em frente. Conte as histórias que só você pode contar. Por favor, não me dê o mesmo de sempre. E siga adiante. Tenha foco e seja engajado.


NOV16

CIÊNCIAEMDIA

O ESPAÇO DA CIÊNCIA BRASILEIRA

INVESTIR EM NO OVAS TECNOLOGIAS É INVESTIR R NA MELHORIA A DA VIDA DO OS BRASILEIRO OS

humanas. É por isso que o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e

O que seria da nossa vida sem tecnologia? E o que seria do nosso país sem inovações? A Torre Atto na Amazônia, por exemplo, permite

Comunicações (MCTIC) investe em novas tecnologias para incrementar estudos e pesquisas brasileiras. Para desenvolver a saúde, educação,

aos pesquisadores compreender as mudanças climáticas globais. O Supercomputador Santos Dumont é um grande aliado nas pesquisas sobre

indústria, agronegócio, comunicações, segurança e a conservação do meio ambiente. Para melhorar a nossa vida.

a interação do vírus Zika com células

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SUPERCOMPUTADOR SANTOS DUMONT Mais potente da América Latina, o supercomputador é capaz de fazer um quatrilhão de operações matemáticas por segundo e acelerar os resultados de pesquisas brasileiras.


ELEMENTAR

DINHEIRO NA MÃO É...

... basicamente ferro e cobre. Saiba do que são feitas as moedas que pesam no seu bolso — POR SHANA SUDBRACK*

MOEDAS

L

ogo que a Olimpíada aca-

Sn

bou, começou a circular a

15

informação de que a moe26

os Jogos estava sendo vendida por até

muito ferro e algum cromo (veja ao lado). A fabricação de moedas e cédulas brasileiras é responsabilidade da Casa da Moeda desde 1694, quando a entidade

29

C

16

S 26

25

C Mn P S

Cu Sn

24

Cr P

14

6

C

25

Fe Si Mn

MOEDA DE R$ 1

NÚCLEO

ANEL

Fe

S

15

MOEDA DE R$ 1

R$ 100 no mercado negro. O material usatanto, era igualzinho ao da moeda comum:

P

6

Fe Cu Mn

da comemorativa de R$ 1 criada para

do na fabricação da moeda especial, no en-

16

50

Ferro mais de 99% Carbono entre 0,06% e 0,08% Manganês 0,35% Fósforo 0,03% Enxofre 0,05% Revestimento de bronze: Cobre entre 86% e 89% Estanho de 11% a 14%

Cr C Si Mn S P F

Cromo entre 16% e 18% Carbono aprox. 0,12% Silício aprox. 1% Manganês aprox. 1% Enxofre aprox. 0,030% Fósforo aprox. 0,040% Ferro entre 80% e 82%

foi criada pelos portugueses que administravam a Colônia a distância. O pro-

26

cesso é sigiloso por questão de seguran-

15

ça nacional (no caso, para que você não

na. Mas algumas etapas são conhecidas.

Cr 16

Em relação à moeda de R$ 1, por exemplo, tanto o aço inoxidável dos núcleos

15

quanto o aço de carbono dos anéis são

26

Quando os núcleos e os anéis chegam à Fe C

pelo processo de cunhagem. Depois, equi-

Mn

pamentos alemães unem e travam as duas

P

acontece em frações de segundo: a prensa

P

6

25

C

S

Si

C

Mn 29

50

Fe Mn Cu Sn

produzidos por diferentes fornecedores.

em ambas as faces da moeda. Tudo isso

Cr

6

C

16

S

25

Si Mn

ninguém sabe exatamente como funcio-

partes das peças e estampam as imagens

P

14

faça seu próprio dinheiro em casa), então

Casa da Moeda, eles são unidos e passam

24

Fe

S

Cu Sn

MOEDAS DE R$ 0,10 E R$ 0,25 Ferro mais de 99% Carbono entre 0,06% e 0,08% Manganês 0,35% Fósforo 0,03% Enxofre 0,05% Revestimento de bronze: Cobre entre 86% e 89% Estanho de 11% a 14%

S P Fe

MOEDA DE R$ 0,50 Cromo entre 16% e 18% Carbono aprox. 0,12% Silício aprox. 1% Manganês aprox. 1% Enxofre aprox. 0,030% Fósforo aprox. 0,040% Ferro entre 80% e 82%

produz 650 moedas por minuto. No final, as moedas são contadas, embaladas e passam por um rigoroso

29

Cu

controle de peso feito por funcionários.

15

Robôs, então, colocam os sacos em cai-

26

S

C

25

Fe Mn

xas, que são organizadas em paletes e enviadas ao cofre, onde esperam até finalmente serem retiradas pelo Banco

Fe

Central e colocadas em circulação.

C Mn

A moeda de R$ 0,05, revestida de cobre, é a que mais sofre com a corrosão

26

P

6

16

*Com reportagem de Cartola Agência de Conteúdo Foto: Tomás Arthuzzi Fontes: Banco Central do Brasil e Casa da Moeda

P S Cu

MOEDA DE R$ 0,05 Ferro mais de 99% Carbono entre 0,06% e 0,08% Manganês 0,35% Fósforo 0,03% Enxofre 0,05% Revestimento de cobre


DOSSIÊ

MUDANÇAS CLIMÁTICAS POR GIULIANA DE TOLEDO

DESIGN FEU

PARA LÁ DE

MARRAKESH O ano de 2016 se encaminha para ser o mais quente da história, e a concentração de dióxido de carbono na atmosfera nunca foi tão alta. É com esse climão que a Conferência do Clima no Marrocos discute neste mês o futuro do planeta NÃO QUE CONSEGUIR erguer

climáticas, o Oceano Pacífico co-

após a entrada em vigor do Acordo

349 quilos não mereça comemo-

bre ano a ano um pouco mais as

de Paris. Criado em dezembro de

ração com rodopios e rebolados,

ilhas e os atóis que formam a na-

2015, o documento conseguiu só

mas o motivo pelo qual o levan-

ção. Em décadas, os 100 mil ha-

no mês passado adesões suficien-

tador de peso David Katoatau

bitantes vão precisar de um novo

tes para passar a valer. De lá para

mostrou seu gingado após pro-

lugar para viver. “Nós não temos

cá, as notícias sobre o clima só pio-

va na Olimpíada do Rio foi muito

recursos para nos salvar”, disse

raram. O ano de 2016 se encami-

diferente do que se poderia pen-

ele, que conhece o problema de

nha para ser o mais quente de que

sar. Apesar do sorriso no rosto

perto, já que a família mora em

se tem notícia desde 1880, quan-

enquanto dançava, ele, que ficou

uma área sujeita a alagamentos.

do a Nasa passou a monitorar

em sexto lugar, queria chamar a

O futuro de Kiribati — e de todo

as temperaturas de toda a Terra

atenção da mídia internacional

o planeta — está em discussão

— o recorde anterior foi de 2015, e

para um problema sério. Seu país,

neste mês, entre os dias 7 e 18, em

antes ainda, de 2014. Quinze dos

Kiribati, está condenado a desa-

Marrakesh, no Marrocos. A COP-

16 anos mais quentes ocorreram

parecer. Por culpa das mudanças

22 é a primeira Cúpula do Clima

no século 21. Vamos dançar?

27


NÓS SEMPRE T O ACORDO DE PARIS ENTRA EM VIGOR NESTE MÊS, APÓS OS PAÍSES-MEMBROS DA

A

Canadá Irlanda

Portugal

Estados Unidos

A

C

F

Í I

C

México

O

Cuba

A L

Â

Resto do mundo

Brasil

México

Índia

Rússia

União Europeia

China

Estados Unidos

I C O N T

Equador

Brasil

Peru

0%

Indonésia

Canadá

Japão

Bolívia

Argentina

50%

100%

Uruguai

ESPIRAL DO CALOR

Estamos perto do aumento de 1,5°C na temperatura média global. Para mostrar o problema, o cientista inglês Ed Hawkins criou gráficos em espiral com dados desde o século 19

1960

No v

Out

Jun

Jul

Ag o

Jun

Jul

Ag o

* Países que ratificaram até a conclusão desta edição | **Dados até março de 2016 | ***Números até agosto de 2016

Ma i

Ma i

t Se

Out

Fev

Abr

Abr

t Se

Jan

r

No v

D

ez

Ma

No v

Fev

r

Out

2016**

Ma

Ma i

t Se

Jan

Ag o

D

ez

Jul

Fev

Abr

Jan

r

1,5°

D

ez

Jun

COMO LER:

2,0°

DAS EMISSÕES GLOBAIS VÊM DESSES 81 PAÍSES

O

Colômbia

1860

PAÍSES JÁ RATIFICARAM O ACORDO

N

T

Veja quem lidera as emissões de gases de efeito estufa no planeta

A

Venezuela

El Salvador Panamá

Mauritânia

E

Jamaica

BLOCO DO MAL

O C

Rep. Dominicana

Belize

Ma

28

Alasca

P

191 81 60%

PAÍSES JÁ ASSINARAM O ACORDO

Groenlândia

N O O C E A

humanidade se supera. Neste ano, o nível de dióxido de carbono na atmosfera atingiu o recorde de quase 410 partes por milhão — medida de CO2 no ar em relação a outros gases. O nível seguro seria de 350 partes por milhão. Isso significa que será mais difícil cumprir a meta do Acordo de Paris, de conter o aquecimento da Terra em até 2°C (de preferência em 1,5°C) acima dos níveis pré-industriais. O esforço oficialmente começa agora. No total, o acordo já foi ratificado por 81 países, responsáveis por 60% das emissões globais. Para que ele entrasse em vigor, era necessária a adesão de ao menos 55 países que representassem 55% das emissões. Então já podemos ficar tranquilos? Na verdade, não. “Se a meta não for adaptada para o nível local, o acordo não vai ser cumprido”, diz Andrea Santos, secretária -executiva do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.


EREMOS PARIS UNIÃO EUROPEIA TEREM RATIFICADO O DOCUMENTO. VEJA QUEM JÁ ADERIU*

Reino Unido

Rússia

Cazaquistão Mongólia Itália

Egito

Japão

C

Líbia

China

Irã

Arábia Saudita

Índia

Níger Chade

A

Argélia

Iraque

P

Síria

Í F I C O

Turquia

Mianmar

Sudão

Filipinas

O

Nigéria Etiópia

Tailândia

C

A

E

O

N

Malásia Indonésia

Rep. Dem. do Congo Tanzânia

O C E A N O

Papua-Nova Guiné

Í N D I C O

Angola

Assinaram o acordo

Austrália

Ratificaram o acordo África do Sul

Indefinidos

ESTUFA EM CONSTRUÇÃO

PEQUENOS NOTÁVEIS

Austrália

Arábia Saudita

Luxemburgo

Estados Unidos

25,22

23,66

22,16

21,02

Guiné Equatorial 28,46

380

Belize

385

29,21

40

Trinidad e Tobago

390

38,84

60

395

Omã

1°C = 1,8°F

34,23

400

80 Toneladas de CO2

Catar

404,07

Quase todo o planeta esquentou em relação à temperatura média dos últimos cinco anos

Brunei

405 Partes por milhão

2010

2012

2014

2016***

0

43,72

2008

54,15

375

62,62

20

2006

TERRA COM FEBRE

Países pouco populosos, mas com grande produção de petróleo, lideram emissões per capita

Kuwait

Nos últimos dez anos, as emissões de dióxido de carbono cresceram muito

-4

-3

-2

-1

0

1

2

3

4

°F

Fontes: CAIT Climate Data Explorer — World Resources Institute, com base em dados de 2014 da International Energy Agency; Ed Hawkins/Climate Lab Book; Nasa Goddard Institute for Space Studies

Noruega

29


QUEM GANHA

MUDANÇA MILIONÁRIA

POVOADO NO ALASCA DECIDE TROCAR DE TERRITÓRIO, MAS QUEM PAGA O CARRETO?

Q

uem disse que as mu-

muitos podem ficar ricos”, escreve o

danças climáticas pre-

jornalista norte-americano, que visi-

cisam ser só um pro-

tou de fábricas de neve a segurado-

blema? Para alguns

ras de áreas sujeitas a queimadas.

setores, são oportunidade de negó-

Para Mariana Nicolletti, gesto-

cios, como mostra McKenzie Funk

ra da Plataforma Empresas pelo

no livro Caiu do Céu — O Promissor

Clima do GVces (Centro de Estudos

Negócio do Aquecimento Global (Três

em Sustentabilidade) da Fundação

Estrelas), recém-lançado no Brasil.

Getulio Vargas, também no Brasil

“A mudança climática costuma

empresas estão atentas a novos ne-

ser formulada como uma questão

gócios, principalmente em biocom-

científica, econômica ou ambiental,

bustíveis e no setor florestal. “Elas

e não como uma questão de justi-

têm se voltado cada vez mais para

ça humana, como deveria ser com

essa agenda positiva, como a gente

mais frequência. Isso também preci-

fala, de oportunidades de negócios

sa mudar. A partir deste momento,

no cenário de emissões restritas”, diz.

CADÊ O GELO?

Banquisa do Ártico, porção de água congelada no oceano, está menor; 2012 foi o pior em 30 anos

2012 1980

Fontes: Nasa; National Snow and Ice Data Center; área medida por satélites nos meses de setembro, quando a banquisa atinge seu tamanho mínimo

Oaquecimentoglobalnãoénecessariamenteruimparatodos; empresasjáencontramoportunidadesdenovosnegócios

Com cerca de 600 habitantes, o povoado de Shishmaref, no Alasca, provavelmente nunca viraria notícia mundo afora se não fosse pelo risco que corre de desaparecer em breve. Em agosto deste ano, os moradores aprovaram nas urnas a realocação do vilarejo, já que a área onde estão hoje, em uma ilha no Estreito de Bering, encolhe dia a dia por um processo de erosão da costa, acelerado pelo aumento do nível do oceano. Além de Shishmaref, outras 30 cidadezinhas do estado norte-americano têm de dez a 20 anos para fazerem as malas antes que fiquem debaixo d’água, estima a ONG The Arctic Institute. Trocar de território, no entanto, não é tão simples quanto votar e simplesmente ir arrumar as trouxas. São necessários US$ 180 milhões para a mudança — verba que ainda não foi liberada. Haja grana: para a realocação dos considerados primeiros refugiados climáticos dos EUA, da Isle de Jean Charles, na Louisiana, já foram investidos US$ 48 milhões no início do ano.

TERRA CONDENADA

Povoado de Shishmaref, no Alasca, fica próximo ao Estreito de Bering, entre os oceanos Pacífico e Ártico

Shishmaref

Ilha de Sarichef

CHEGOU A HORA DA GROENLÂNDIA?

POR ÁGUA ABAIXO

Área da banquisa do Ártico diminui em média 13,4% a cada década

NA CONTRAMÃO DO RESTO DO PLANETA, O PAÍS PROJETA BONANÇA APÓS GELEIRAS DERRETEREM

8 milhões de km2 7 6 5

4,63

4 3

1980

1985

1990

1995

2000

2005

2010

2015

O ANTROPOCENO, a Era do Homem — nomenclatura defendida por geólogos para definir os tempos em que vivemos, com grandes mudanças naturais provocadas pela ação humana —, é a hora de a Groenlândia poder prosperar, após anos e anos com território quase inteiramente coberto de gelo, pouco favorável a atividades econômicas. Ao menos é nisso que acreditam políticos e empresários animados com o fato de que o país não só não vai afundar como ainda vai se erguer


TORTA DE CLIMÃO NOS PRÓXIMOS 40 ANOS HAVERÁ 200 MILHÕES DE REFUGIADOS CLIMÁTICOS

S

abe aqueles sites com final “.tv”? Usado principalmente por páginas de vídeos, o domínio originalmente faz referência ao arquipélago de Tuvalu. Sejamos francos: acessar páginas “.tv” deve ser o maior contato que você já teve com esse país do meio do Pacífico, um dos mais sujeitos a sumir do mapa em breve. Para Tuvalu e outras pequenas nações, o problema é justamente esse: poucos se importam com o seu futuro. Nas cúpulas do clima, a Aliança dos Pequenos Estados Insulares, que tem 44 países-membros, é uma das vozes que tentam gritar mais alto. Até nos países mais ricos, não é fácil nem barato realocar cidades que vão desaparecer (leia à esquerda sobre o Alasca). Mas o custo, claro, é uma questão relativa. O programa da Holanda para reacomodação de populações tem orçamento de US$ 3 bilhões, escreve o jornalista McKenzie Funk no livro Caiu do Céu, “mais do que a soma de tudo o que já foi gasto por todos os fundos de mudança climática internacionais reunidos”. Ao todo, 200 milhões de pessoas terão de se mudar até 2050, segundo o Relatório Stern, encomendado pelo governo britânico. É como se a população inteira do Brasil precisasse se deslocar. Com tudo isso, claro, as economias serão afetadas. Pesquisadores dos EUA calculam queda de 23% no PIB mundial per capita em 2100. Mesmo diante das perdas, porém, investir em programas contra o aquecimento é fundamental, diz Andrea Santos, secretária-executiva do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. “O custo da inação é muito maior.”

TANTO MAR

Nível dos oceanos sobe em média 3,4 milímetros a cada ano

84,8

80 milímetros

70

60

50

40

30

20

10

0 1995

2000

2005

22,5 MILHÕES

2010

2015

DE PESSOAS TIVERAM DE SE DESLOCAR POR EVENTOS CLIMÁTICOS DE 2008 A 2015

NOVA PAISAGEM

2002*

2004

2006

2008

2010

2012

2014

-3.540 Gt

-3.000

-3.111,2 Gt

-2.000

-2.470,6 Gt

-1.685,5 Gt

-1.000

-1.176,5 Gt

0

-721,3 Gt

Na Groenlândia, a massa de gelo perde, em média, 281 gigatoneladas por ano

-243,8 Gt

em consequência do aquecimento global. Como se fosse um navio que se livra da carga, a Groenlândia tem subido em média quatro centímetros por ano, à medida que toneladas de gelo derretem — elevação vantajosa, porque é mais rápida que a do oceano. Estudo publicado em agosto aponta que 270 gigatoneladas de gelo derreteram por ano entre 2011 e 2014. A quantidade é equivalente a 110 milhões de piscinas olímpicas cheias de água a cada ano. Boa parte da campanha por mais independência em relação à Dinamarca, aprovada em referendo em 2008, foi baseada nas vantagens vislumbradas no território menos gelado: as geleiras derretem e deixam aparecer terras aráveis, depósitos de minerais e metais inexplorados e facilitam o acesso a reservas de petróleo. Pelo resultado do referendo, o pesquisador norte-americano McKenzie Funk considera a Groenlândia “o primeiro país do mundo criado pelo aquecimento global”.

Fonte: Nasa | *dados da massa de gelo nos meses de abril, de 2002 a 2014; **em 2016, dado até o mês de março

Fontes: Nasa Goddard Space Flight Center; Internal Displacement Monitoring Centre

2016**


A COSTA QUE VAI VIRAR MAR Mesmo que a temperatura da Terra suba somente até o limite estipulado no Acordo de Paris, por causa da elevação do oceano, o Brasil vai ficar com diversas áreas litorâneas debaixo d’água, de acordo com previsões de cientistas

U

m dos indígenas entrevistados no documentário Para Onde Foram as Andorinhas? questiona: “Como vamos saber o tempo da nossa história acontecer se já perdemos os sinais que marcam o tempo?”. O filme, lançado recentemente (assista em vimeo.com/179228552), registra observações de moradores do Xingu sobre o clima: o voo das andorinhas não indica mais a

chegada da chuva, as cigarras que marcavam o período de começar a plantar não cantam mais, a floresta pega fogo porque está seca. “Dentro do Xingu, a temperatura é 5°C menor. O fato é que o clima fora dessas áreas de floresta é muito pior, mas a nossa percepção é grosseira. A denúncia no filme é brutal, mas traz uma denúncia muito mais forte por baixo”, diz Márcio Santilli, sócio-fundador do Instituto

Socioambiental, uma das ONGs responsáveis pela obra. Para o homem branco, se a percepção não é aguçada o bastante, as previsões científicas indicam o futuro do país: parte da costa ficará debaixo d’água mesmo se a meta do Acordo de Paris for cumprida. Mais de 40 milhões de brasileiros podem ser afetados. Além disso, a temperatura subirá em todos os biomas (observe na página ao lado).

RIO, SEU MAR, PRAIA SEM FIM

Litoral fluminense está entre as áreas que mais serão afetadas no país; observe projeção de inundação com um planeta 2°C mais quente

Estação Ecológica da Guanabara

Duque de Caxias Aeroporto do Galeão

NITERÓI Ponte Rio-Niterói

RIO DE JANEIRO Praia do Flamengo

Lagoa de Piratininga

Lagoa de Maricá

Parque Nacional da Tijuca Lagoa Rodrigo de Freitas

Lagoa de Jacarepaguá Lagoa da Tijuca

Copacabana

Leblon/Ipanema Barra da Tijuca

Território atual

32

Fonte: Climate Central


A GENTE PODE MAIS

PAÍS DO FUTURO

Previsões para o clima do Brasil são especialmente preocupantes para a Amazônia; veja como será a situação de cada bioma

ode mandar preparar a faixa: “Brasil, você não fez mais que a sua

ENTRE 2071-2100 25% +5°C a +6°C

+3°C a +3,5°C

+1°C a +1,5°C

0%

0% -10%

mas décadas, aponta relatório do

-25%

-25% -25% a -30%

Observatório do Clima, poderemos

-40% a -45%

erguê-la. Parte da culpa do Brasil no

Temperatura:

obrigação”. Nas próxi-

25%

AMAZÔNIA

P

ENTRE 2041-2070

ATÉ 2040

Projeção de chuva:

DIMINUIÇÃO DO DESMATAMENTO FARÁ O PAÍS CONSEGUIR CUMPRIR METAS

0°C

efeito estufa será mitigada com faciser mais ambiciosas. Só com melhoria no desmatamento, principal fonte de emissões do país, já se devem atingir

25%

CAATINGA

lidade e, por isso, as metas deveriam

-10% a -20%

os objetivos da Conferência do Clima

25% +3,5°C a +4,5°C

+1,5°C a +2,5°C

+0,5°C a +1°C 0%

0%

-25%

-25%

1°C

-25% a -35%

de Copenhague em 2009 (reduzir en-

-40% a -50%

tre 36,1% e 38,9% as emissões até 2020) e do Acordo de Paris (diminuir

25%

37% até 2025 e 43% até 2030). sões de carros e motos, por exemplo, aumentaram 192% de 1994 a 2014,

CERRADO

Daria para fazer melhor. As emis-

-10% a -20%

segundo o Instituto de Energia e

2°C

+5°C a +5,5°C

0%

0%

-25%

-25% -20% a -35%

Meio Ambiente. No período, o nú-

1,5°C

25% +3°C a +3,5°C

+1°C

0,5°C

2,5°C

3°C

-35% a -45%

mero de passageiros de ônibus caiu 20% nas principais regiões metroAcordo de Paris, Márcio Santilli, sócio-fundador da ONG Instituto Socioambiental, defende que o país

0% -5% a -15%

tenha lei que esclareça as obrigações

-25%

3,5°C

25% +2,5°C a +3°C

+1°C

PANTANAL

politanas. Para cumprir melhor o

25%

+3,5°C a +4,5°C 4°C

0%

-10% a -25%

-25%

4,5°C -35% a -45%

de cada setor e de cada estado, conforme o perfil. “A gente tem que se cias perversas, por exemplo, estados disputando empresas com uma espécie de guerra fiscal”, diz.

M.A. NORDESTE*

precaver contra possíveis consequên-

5°C 25% +3,5°C a +4,5°C

+2°C a +3°C 0% -10%

-25%

O BRASIL PROMETE:

DE REDUÇÃO ATÉ 2030*

*Com base na quantidade de emissões de 2005

M.A. SUL/SUDESTE*

43%

+3°C a +4°C

5,5°C

0%

-20% a -25%

6°C

-25% -30% a -35%

25% +0,5°C a +1°C

25% +1,5°C a +2°C

0% -5% a -10%

-25%

25%

PAMPA

37%

DE REDUÇÃO DAS EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA ATÉ 2025*

25%

0%

-15% a -20%

+15% a +20%

-25% -25% a -30%

+35% a +40% 25% +2,5°C a +3°C

+1°C a +1,5°C

+1°C +5% a +10%

+2,5°C a +3°C

0%

0%

-25%

-25%

Fontes: Primeiro Relatório de Avaliação Nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, 2015

*M.A. Mata Atlântica

33


E EU COM ISSO? NOVE PASSOS PARA DIMINUIR SUA COTA DE CULPA NO AQUECIMENTO GLOBAL

30

1.500 vezes o CO2 1.200

Avião* 78,3

PÉ NO CHÃO

As suas férias também têm consequências: a aviação comercial é responsável por cerca de 2% do total global de dióxido de carbono liberado anualmente pela atividade humana. Viaje para destinos próximos.

1.400

Tetracloreto de carbono

900 600 300

Óxido nitroso

até 10.900

Automóvel 126,8

EQUIVALÊNCIA DAS EMISSÕES DE ALGUNS OUTROS GASES DE EFEITO ESTUFA

0

*Média para uma viagem de São Paulo a Paris

34

CUIDE ATÉ O FIM

Ter uma composteira em casa ajuda a aliviar a quantidade de lixo orgânico que enviamos para aterros. Além disso, a decomposição em composteira não libera gás metano, que tem efeito estufa 25 vezes pior que o CO2.

Metano Clorofluorcarbono (CFC)

QUAL É A NECESSIDADE DISSO? Tudo que adquirimos e deixamos de consumir desperdiça toda a energia gasta na sua produção. Livrar-se das emissões geradas não é tão fácil quanto jogar aquele produto vencido na lixeira. Consuma com parcimônia.

Fontes: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Air France; Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação; IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change)

Em 2050, a população mundial será de 9,7 bilhões, conforme a projeção mais recente das Nações Unidas. Para alguns cientistas, ter no máximo um filho será a única forma de garantir recursos para todos os habitantes.

120

71,1 Motocicleta

ENCOLHI AS CRIANÇAS

150

16 Ônibus

É O QUANTO A CARNE BOVINA É MAIS NOCIVA AO CLIMA DO PLANETA QUE A DE FRANGO

QUANTIDADE DE EMISSÕES DE CO2 POR PASSAGEIRO (EM GRAMAS), POR QUILÔMETRO

3,5 Metrô

14,5% 14X

DOS GASES DE EFEITO ESTUFA VÊMDAPECUÁRIA E DA PRODUÇÃO DE LATICÍNIOS

SOZINHO NUNCA

Prefira o transporte público e a bicicleta ao carro como meio de transporte, ainda mais se fizer os deslocamentos sozinho. Se a sua rota só for possível de carro, ao menos diminua o impacto combinando caronas.

g de CO2/passageiro/km

ADEUS, CHURRASCO

Adotar uma dieta vegana — sem produtos de origem animal — é fundamental para salvar o mundo da fome e de impactos climáticos maiores, recomenda a ONU. Se não puder largar a carne, ao menos modere o consumo.

NA VIZINHANÇA

Reflita sobre o custo para o planeta de comprar produtos que viajam quilômetros e quilômetros para chegar até você. Adapte o seu cardápio aos alimentos da estação e da região. Procure também vestir marcas locais.

298

CADÊ MEU LEQUE?

É um ciclo vicioso: o calor aumenta, as pessoas usam mais aparelhos para se refrescar, isso consome energia e libera mais gases que farão o calor piorar. Invista em equipamentos que gastem menos eletricidade.

25

FECHE A TORNEIRA

O derretimento de geleiras significa a perda de importantes fontes de água doce do mundo — falta que, segundo projeções, não será compensada, mesmo com chuvas mais intensas. Será preciso viver com menos água.


G ILUSTRAÇÃO CAMILA MARQUES

CAPA: PARA ONDE VAI O SEU NÚMERO 2 P.36 ENTREVISTA: MARCELO GLEISER P.50

SAÚDE (NÃO) TEM PREÇO P.54

A GUERRA TROCA O CAMPO PELA CIDADE P.60

ENSAIO: A VIDA AMPLIFICADA P.68

ONDAS GRAVITACIONAIS — OS BASTIDORES DA COMPROVAÇÃO P.74


LONDRES Inglaterra 1854

A SUJEIRA SE ACUMULAVA PELAS RUAS DA CIDADE

CORTIÇOS ERAM UMA FORMA COMUM DE HABITAÇÃO ENTRE AS FAMÍLIAS DAS CLASSES TRABALHADORAS

ÁGUA DE BEBER ERA COLETADA EM BOMBAS INSTALADAS NAS RUAS

DEJETOS DAS FOSSAS ERAM RECOLHIDOS E VENDIDOS COMO ESTERCO

Na metade do século 19, a capital inglesa, com 2 milhões de pessoas, mal começava a ter rede de esgoto.

36


ANANINDEUA Brasil 2016

HÁ UM VEÍCULO PARA CADA 4,4 HABITANTES, SEGUNDO O DEPARTAMENTO NACIONAL DE TRÂNSITO (DENATRAN)

AINDA SEM ESGOTO, A CIDADE JÁ COMEÇOU A SE VERTICALIZAR

VÁRIAS FAMÍLIAS COMPARTILHAM POÇOS ARTESIANOS E FOSSAS

EM ALGUNS BAIRROS, O ESGOTO É ESCOADO DAS CASAS DIRETAMENTE PARA VALAS E CORRE A CÉU ABERTO

Hoje, a segunda cidade mais populosa do Pará, com mais de 500 mil pessoas, mal começa a ter rede de esgoto.

37


O BRASIL QUE ESTÁ NO SÉCULO

POR MARCELO SOARES E GIULIANA DE TOLEDO REPORTAGEM NO PARÁ POR GABRIELA AZEVEDO ILUSTRAÇÕES MARCUS PENNA DESIGN JOÃO PEDRO BRITO E FERNANDA DIDINI


Em mais de 40% das cidades do país, a internet já chegou aos celulares, mas não existe rede de esgoto — um atraso de um século e meio

INGLATERRA, 1854. Durante

Brasil, 2016. Em Ananin-

a Revolução Industrial, uma

deua, cidade com mais de

QUE ANO É HOJE? Evolução dos objetivos de tratamento de esgoto em países desenvolvidos

Não são poucos os lugares no Brasil onde o século 19 não aca-

maré de gente migra de áreas

meio milhão de habitantes

rurais para trabalhar na maior

na Região Metropolitana de

cidade do mundo, Londres.

Belém (PA), Marilda Farias

Pela primeira vez na história,

vive com sua família de seis

mais de 2 milhões de pesso-

pessoas numa casa do bair-

as vivem numa mesma cida-

ro Levilândia. Na Rua das

de, muitas delas apinhadas

Américas, onde mora, as ca-

em cortiços. O esgoto corre

sas são cercadas por uma

a céu aberto. Água é buscada

grande vala. O bairro não

com balde em bombas públi-

tem água tratada na torneira.

cas. No início de setembro da-

“Dividimos um poço com a

quele ano, na hoje sofisticada

casa aos fundos da nossa, que

região central do Soho, 500

é da minha nora. A gente usa

pessoas morreram de cólera.

essa água para tudo, até para

A causa foi descoberta pelo

beber. Água mineral a gente

médico John Snow (que sabia

só compra quando dá”, con-

tudo) ao fazer um risquinho

ta ela, que está desemprega-

para cada morto num mapa que

da. Rede de esgoto, nem pen-

virou um clássico da epidemio-

sar. Tudo vai para a rua, a céu

logia. A contaminação veio de

aberto. “Tem dia que a gente

um cueiro de bebê com diarreia,

não quer nem ficar aqui, de tão

jogado numa fossa ao lado de

fedido que fica”, conta Farias.

uma bomba de água na Broad

De acordo com os dados mais

Street. A revelação de que a

recentes do Ministério das

causa das mortes não era o mau

Cidades, o município simples-

cheiro das ruas, como se pensa-

mente não tem coleta de esgo-

va, levou à criação do primeiro

to. Em 2011, nove a cada mil

(leia ao lado). Hoje, dos mais

sistema moderno de saneamen-

habitantes de lá foram parar

de 200 milhões de brasileiros,

to urbano, no final do século 19.

no hospital com diarreia.

apenas quatro a cada dez têm

ATÉ O INÍCIO DO SÉCULO 20 • Remoção dos sólidos em suspensão na água

bou — ainda que coexista com a era do smartphone. Ao menos 2.409 cidades, o que representa 43,2% dos municípios, já têm sinal de internet 3G, mas ainda não possuem rede de esgoto. A falta de saneamento, porém, passou longe das campanhas eleitorais neste ano. E o sanea-

ATÉ A DÉCADA DE 1970 • Tratamento de matéria orgânica e eliminação de organismos patogênicos

mento é atribuição fundamentalmente das cidades, segundo a lei 11.445/2007. “Em todas as grandes cidades brasileiras existem determinados bairros em que

A PARTIR DOS ANOS 1980 • Remoção de nutrientes de bactérias, como nitrogênio e fósforo

ainda estamos efetivamen-

• Aumento dos padrões para extração de produtos potencialmente tóxicos lançados no ambiente

Nacional de Saúde Pública, da

te equiparados ao início do século 20 ou ao século 19 na Europa”, afirma Marcelo Araújo, pesquisador da Escola Fundação Oswaldo Cruz. A comparação não é exagerada. A definição do que é saneamento adequado varia de acordo com o tempo e a tecnologia

acesso ao mais básico padrão,

Atualmente, apenas quatro a cada dez de brasileiros têm coleta de esgoto em rede ligada à sua residência

NA PONTA DO LÁPIS Cada pessoa gera em torno de

1KG

de resíduos sólidos por dia, equivalente a

100L de esgoto.

a coleta de esgoto em redes. O Anuário Estatístico 2015 da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) comparou o serviço em 17 países da região e o Brasil ficou em décimo lugar. Por que isso acontece? Pelo mesmo motivo que acontecia na Londres vitoriana. Nas últimas décadas, houve uma rápida migração de pessoas das zonas rurais para as zonas urbanas do país. Tão rápida que não houve tempo para criar sistemas de sa-

Fonte: Fiocruz

neamento adequados.

39


Não é só em favelas e grotões que isso ocorre. Pense em locais turísticos. A Baía

DESENCANADOS

de Guanabara recebe 18 mil litros de esgoto por segundo. E Ilhabela, ponto nobre do

COMO LER O MAPA

litoral de São Paulo? Só cole-

Tem esgoto

tava 28% do esgoto em 2014. Paraty (RJ), a terra da festa literária mais badalada do Brasil? Zero. Santa Catarina, terra de

6

Não tem esgoto Cidade não informou

alto IDH e da Oktoberfest? Só 17% dos habitantes têm esgoto coletado em rede. A origem da palavra saneamento é o latim: sanum, sadio. Foi na Roma Antiga que surgiram os primeiros sistemas, as cloacas, por onde passavam as águas de drenagem, a

No Norte do Brasil, as longas distâncias entre as cidades, a geografia e a baixa densidade demográfica tornam mais difícil a melhoria do saneamento

água da chuva, o lixo, as fezes e até cadáveres — tudo misturado. Tratamento ainda não era uma preocupação. Levou tempo para se perceber que a falta de saneamento faz com que doenças sejam letais. A diferença entre a Ananindeua do século 21 e a Londres do século 19 é que os ingleses precisaram literalmente colocar a mão no esgoto antes da época em que, sem novas

40

1. ANANINDEUA · PA População com coleta: 0% A segunda cidade mais populosa do Pará aparece em todos os rankings do Trata Brasil como a pior entre as cem maiores do país.

2. SANTARÉM · PA População com coleta: 0% Com quase 300 mil moradores, a terceira cidade com mais habitantes do estado está empatada com Ananindeua em 0% de rede de esgoto.

3 10

3. PORTO VELHO · RO

4. MACAPÁ · AP

5. JABOATÃO DOS GUARARAPES · PE

População com coleta: 2%

População com coleta: 5,5%

População com coleta: 6,6%

A rede existente é antiga, quase toda instalada junto com a construção da ferrovia Madeira-Mamoré, no início do século 20.

Em 2013, segundo o Jornal Nacional, os hospitais atendiam 400 pessoas por dia com doenças relacionadas ao saneamento.

Boa parte do esgoto é despejada no mar, em valões que correm pela areia da praia e tornam a água imprópria para banho.

VAMOS POR PARTES Em proporção ao número de municípios, o Sudeste e o Centro-Oeste são as regiões do Brasil com mais cidades que têm rede coletora de esgoto.

NORTE 60

cidades não informaram

55

têm rede de esgoto

NORDESTE 139

cidades não informaram

453

têm rede de esgoto

SUDESTE 319 41

não têm cidades não rede de informaram esgoto

Sudeste

334

não têm rede de esgoto

1.161

não têm rede de esgoto

epidemias letais com que se preocupar, um

Consulte como está sua cidade em GALILEU.GLOBO.COM

Fonte: Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento 2014 (Ministério das Cidades); Ranking do Saneamento 2016 (Instituto Trata Brasil)

1.301

têm rede de esgoto


Quase 3 mil cidades brasileiras não têm rede de esgoto. Veja as dez piores entre as mais populosas

homem com apelido de Jack começou a afiar o bisturi no distrito de Whitechapel. Os primeiros túneis da rede de

2

4 7

1

8

esgoto foram inaugurados em

6. MANAUS · AM

7. BELÉM · PA

Quanto coleta: 7,1% População com coleta:si9,9% Otaeptatur cuscid Alguns magnitio condomínios odiore et di têm cum estação endae. Ipiditas de esgoto quodi utparticular. laceptas Em nonse julho voluptur deste ano, acienducit uma delas explodiu, faceptatia ferindo es incietpessoas reheniendi que faziam verovidunt um churrasco. quam si

População com coleta: 12,7%

epidemia de cólera descoberta

Pesquisa da UFPA estima que seriam necessários R$ 2,5 bilhões para dar água tratada e coleta de esgoto a toda Grande Belém.

começou no final do século 19.

1865, uma década depois da por John Snow. O tratamento Já em vários pontos do Brasil, especialmente no Norte, o problema é extremamente atual (observe no mapa ao lado). “Até mesmo as capitais, como Porto Velho (RO), Belém (PA) e Macapá (AP), possuem indicadores vergonhosos, algumas delas com quase 0% de coleta e tratamento dos esgotos”, diz Édison

9

Carlos, presidente executivo

5

da ONG Instituto Trata Brasil.

TAMANHO

É DOCUMENTO Devido às características do serviço, é mais rápido expandir o abastecimento de água do

8. TERESINA · PI

que a coleta de esgoto. Foi o

População com coleta: 19,1% No ano passado, a prefeitura da capital do estado culpava o governo federal pela situação, por ter passado anos sem investir em saneamento básico.

Brasil nas últimas três déca-

9. JUAZEIRO DO NORTE · CE

SUL 36

cidades não informaram

CENTRO-OESTE 354

têm rede de esgoto

31

cidades não informaram

156

têm rede de esgoto

População com coleta: 21,1% Para diminuir a falta de saneamento na região foi lançada, em 2013, a Carta do Cariri, que incentiva obras para evitar a poluição de mananciais.

10. RIO BRANCO · AC

794

não têm rede de esgoto

279

não têm rede de esgoto

População com coleta: 21,2% Além da falta de rede coletora de esgoto, a capital do Acre carece de água encanada. Apenas 50,2% da população é atendida com água em casa.

que ocorreu na maior parte do das. O desafio aumenta com o tamanho das cidades: quando elas são pequenas, porque não há escala suficiente para o serviço; quando elas são grandes, porque é muito caro atender direito tanta gente. No Norte, as distâncias, a geografia e a baixa densidade demográfica tornam tudo ainda mais difícil. “Em cidades distantes, como na região Amazônica, as soluções de saneamento serão necessariamente por sistemas individuais ou minissistemas coletivos, mas mesmo esses são fundamentais para proteger a saúde das pessoas e a natureza”, diz Édison Carlos. O economista Carlos Saiani, pesquisador da Universidade Federal de Uberlândia, aplicou ao ritmo de expansão do acesso à água e da coleta do esgoto a mesma régua usada pela ONU para verificar o atendimento das metas de desenvolvimento do

41


milênio: reduzir pela metade, até 2015, os déficits de aten-

Falta de contrato com empresas de esgoto é mais comum nas cidades menores. Dos 3.828 municípios com menos de 20 mil habitantes, 60,7% não têm rede coletora

dimento registrados em 1990. De acordo com o levantamento, quase todos os estados conseguiram cumprir a meta no atendimento de água, exceto cinco. Todos os que faltaram estão no Norte: Rondônia, Amapá, Acre, Pará e Amazonas. No tocante ao esgoto, foi o contrário. Apenas cinco estados, com economias mais fortes, atingiram a meta: Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Ainda assim, no caso dos gaúchos isso ocorreu, em grande parte, por meio do uso rural de fossas sépticas — sistemas de tanques que tratam quimicamente os dejetos. TRANCOS E BARRANCOS

empresa de esgoto. Outras 248

O despacho de dejetos para

delas (6,5%) simplesmente

rios, lagos ou mar ainda era

não deram informações.

comum entre 4% dos brasi-

o Programa de Aceleração do

A porcentagem da população que tem esgoto melhorou. Só que melhorou mais onde já estava melhor

Crescimento (PAC).

2010*

O Nordeste, segundo o estudo, foi a região que mais rapidamente evoluiu no período. Isso ocorreu devido a uma série de políticas públicas, incluindo

“Em alguns aspectos, o saneamento tem evoluído ade-

1,34%

quadamente; em outros, abaixo do desejável, o que reflete, em grande parte, a própria rea-

Como a população se vira

leiros em 2010. Nas microci-

nesses casos? A melhor pis-

dades da Região Sudeste, a

ta que se tem vem do Censo

mais rica do Brasil, isso che-

2014**

de 2010, última vez em que

gava a quase 9% dos habitan-

2,81%

o Instituto Brasileiro de

tes (confira no gráfico à direita

Geografia e Estatística (IBGE)

a situação de cada estado).

Norte 7,94%

4,7%

bateu à porta de todos os bra-

“Os micromunicípios, que

sileiros para perguntar quem

são maioria no Brasil, não têm

eles são e como vivem.

escala para operar um siste-

Nessas cidadezinhas, quase

ma de esgoto”, afirma Rafael

metade da população (47%)

Terra, pesquisador de políticas

informou ao Censo que usava

públicas da Universidade de

fossas rudimentares para elimi-

Brasília. Como solução, novas

nar seus dejetos. Ou seja: eles

tecnologias para propriedades

iam para a terra, sem qualquer

individuais têm sido desenvol-

tentativa de tratamento. Isso

vidas. Em São Carlos (SP), a

acontecia principalmente nos

Embrapa criou há poucos anos

os índices de saneamento es-

municípios menos habitados do

uma fossa biodigestora que não

tejam compatíveis com a quali-

Centro-Oeste (78%), do Norte

polui os lençóis freáticos. O lí-

(58%) e do Nordeste (54%).

quido resultante pode ser usa-

lidade socioeconômica do país, com os déficits regionais e históricos”, diz Alceu Segamarchi Júnior, secretário nacional de

Nordeste 11,53%

9,14%

Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades. “Não

Sul

se pode falar em desenvolvimento sustentável sem que

13,81% 9,4%

dade pretendida”, afirma.

Centro-Oeste

Entre as 5.570 cidades bra-

55,8%

Outros 13% diziam usar

do como fertilizante e o siste-

fossa séptica, solução comum

ma pode ser construído com

em áreas rurais, onde as pro-

equipamentos que se compram

contrato com empresa de es-

priedades ficam tão distantes

em lojas de ferragens.

goto. Geralmente são municí-

umas das outras que é muito

“Faz mais sentido tratarmos

pios muito pequenos, pobres

caro levar o encanamento de

e reusarmos todo o esgoto no

e pouco populosos, no inte-

uma casa a outra. Isso é bas-

local [onde ele é gerado]”, afir-

rior. Das 3.828 cidades com

tante comum nas microcida-

ma Molly Winter, diretora da

menos de 20 mil habitantes,

des da Região Sul (28,4% de

ONG norte-americana Recode,

60,7% declararam ao Sistema

suas populações), muitas delas

em palestra em um evento da

Nacional de Informações so-

emancipadas na explosão de

série TED (assista em youtu.

criação de novos municípios

be/2Brajdazp1o). A organização

ocorrida nos anos 1990 e na

incentiva sistemas que trans-

primeira década deste século.

formem dejetos em adubo.

sileiras, pouco mais da metade (52%) nem sequer tem

bre Saneamento, do Ministério

42

das Cidades, que não tinham contrato com

46,5%

Sudeste Fontes: *Censo; **SNIS


O PAÍS ESTÁ NA FOSSA Formas precárias de descarte de dejetos, como fossa rudimentar e vala, ainda são comuns em diversos estados do Brasil; veja como a população se vira em cada local

REDE DE ESGOTO

FOSSA RUDIMENTAR

FOSSA SÉPTICA

NÃO TINHAM

OUTRO TIPO

RIO, LAGO OU MAR

VALA

É a maneira mais adequada de coletar dejetos. É caro e trabalhoso fazer uma rede, por isso são menos comuns nas zonas rurais.

Não há qualquer tentativa de tratamento dos dejetos, que são lançados diretamente em um buraco na terra, sem isolamento.

Os dejetos passam por filtragem antes de chegarem à natureza. É adequada a zonas rurais, onde o resultado pode virar adubo.

É basicamente isso mesmo, as pessoas disseram ao Censo que não tinham esgoto em casa. Em 2010, isso era mais comum no Piauí.

A criatividade do brasileiro não conhece limites. Em alguns estados, parcela pequena da população citou outras formas de descarte.

Acontece principalmente em favelas, por improviso. Os problemas da Baía de Guanabara na Olimpíada vieram daí.

É o famoso esgoto a céu aberto. Ocorre, em geral, em áreas irregulares e expõe os moradores a diversos tipos de doenças.

% DA POPULAÇÃO

100

75

50

25

0 AC

AL

AP

AM

BA

CE

DF

ES

GO

MA

MT

MS

MG

PA

Fonte: IBGE, Censo 2010; os dados refletem a média do uso de cada modalidade nos municípios do estado

PB

PR

PE

PI

RJ

RN

RS

RO

RR

SC

SP

SE

TO


O CHEIRO DO MUNDO Compare o acesso da população a sistemas que separam dejetos do contato humano

LEGENDAS Porcentagens da população que usa algum tipo de instalação para isolar excrementos 81 - 100% 61 - 80% 41 - 60% 21 - 40% 1 - 20%

Fonte: Banco Mundial, 2015

CAMINHO DAS ÁGUAS O abastecimento de água é mais eficiente no Brasil do que a coleta de esgoto; observe a porcentagem da população atendida COMO LER O GRÁFICO Água encanada

77,81%

79,08%

Esgoto

79,62%

79,46%

79,64%

80,85%

45,43%

46,45%

47,95%

47,93%

48,12%

48,33%

2001

2002

2003

2004

2005

2006

44

Fonte: IBGE, Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios, 2001-2009 e 2011-2014

81,45%

82,19%

82,93%

51,15%

52,51%

52,58%

2007

2008

2009

83,58%

84,41%

83,96%

84,53%

55,02%

57,16%

58,16%

57,62%

2011

2012

2013

2014


CADÊ O NOSSO URBANISMO?

Winter defende inovações

ro ao Ministério das Cidades.

desse tipo inclusive para os

Guarujá (SP), onde 65,1% da

EUA, que, ao contrário do que

população tem rede de esgo-

se pode pensar, não dá desti-

to, por exemplo, abriu mão de

no correto aos seus dejetos em

R$ 8 milhões aprovados pelo

todas as cidades. “Cinquenta

governo federal para a remoção

igada ao Ministério da Saúde, a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) é referência na história do saneamento brasileiro. A instituição estuda questões importantes de saúde pública, como o vírus da zika. GALILEU conversou com o engenheiro Marcelo Araújo, pesquisador do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fiocruz, localizada no Rio de Janeiro.

por cento dos municípios [dos

de 242 palafitas instaladas em

EUA] autodeclaram jogar esgo-

cima de um mangue na praia

to puro ou parcialmente trata-

de Santa Cruz dos Navegantes.

do em vias navegáveis”, diz ela.

As casas suspensas lançam os

Quanto à coleta em si, os nú-

dejetos diretamente na nature-

meros são mais animadores.

za. O projeto previa também a

Segundo o Banco Mundial,

instalação das famílias em ou-

99,5% da população norte-a-

tros locais com saneamento e a

mericana conta com fossa ou

recuperação ambiental da área.

rede de esgoto (veja no mapa ao

S e g u n d o a S e c re ta r i a

Por que o saneamento ainda é um desafio tão grande em 2016? As cidades brasileiras cresceram muito nas últimas décadas, com a migração do meio rural para o urbano. Isso foi bastante intenso no Brasil e em alguns países da Ásia e da América Latina. Não houve tempo de criar uma estrutura de saneamento adequada. Na Europa ocorreu o mesmo, mas foi há 120, 150 anos, na primeira Revolução Industrial.

grandes cidades, mesmo em São Paulo, a metrópole mais rica do país, grande parcela da população não tem seu esgoto e seu lixo coletados adequadamente.

lado o status de diversos países).

Municipal de Habitação, o va-

O problema está mais perto do que parece então? O grande problema está no planejamento urbano. As cidades deveriam crescer com base em projetos em que os bairros fossem criados com infraestrutura de saneamento, mesmo que a habitação em si não fosse ideal. Mas o mínimo necessário é acesso à água potável e integração à rede de esgoto. A fossa séptica é adequada à região rural, mas não funciona em áreas de alta densidade, como as favelas. A fossa pode contaminar o solo e invadir os lençóis freáticos, transformando os corpos hídricos das regiões urbanas em valas de captação de esgoto não tratado.

L

A falta de saneamento tem “endereço”? Todo mundo acha que os problemas de saneamento do Brasil estão só no Nordeste. Não é verdade. Menos de 40% da população brasileira tem acesso a esgoto coletado e tratado. O abastecimento de água potável atinge basicamente 90% da população, em todas as regiões, inclusive no Nordeste. Mas mesmo nas

“Mesmo em São Paulo, a metrópole mais rica do país, grande parcela da população não tem esgoto e lixo coletados adequadamente”

lor teve que ser devolvido por-

E OS PREFEITOS? Para chegar a universalizar o

que a conta ficou muito mais

esgoto, existem vários proble-

Há sete anos, a cidade esti-

mas a ser superados. Quatro

mava desembolsar R$ 1,8 mi-

deles são determinantes nos

lhão para poder fazer a obra,

municípios do Brasil. O primei-

agora, seriam R$ 22 milhões.

ro é dinheiro mesmo. Em 2014,

Atualmente, o custo total “se-

o governo estimava que seriam

ria próximo de R$ 30 milhões,

precisos R$ 304 bilhões para

o que, diante da crise atual do

levar água e esgoto a todos

país com reflexos nas cidades,

os brasileiros até 2033. Esse

impossibilita a prefeitura de

valor já foi corroído pela in-

oferecer a contrapartida”, diz

flação, mas é comparável a

a secretaria por meio de nota.

11 anos de Bolsa Família e a

Mas de onde, então, pode vir

mais de quatro vezes o orça-

dinheiro para obras que o PAC

mento inteiro do Programa de

não consegue cobrir? De acor-

Aceleração do Crescimento

do com Segamarchi Júnior, o

(PAC) para saneamento.

Plano Nacional de Saneamento

cara que o previsto em 2009.

Em 2009, o governo Lula

Básico, de 2013, “prevê investi-

anunciou R$ 70 bilhões para

mentos de outras fontes, além

obras de saneamento pelo

de recursos do governo fede-

PAC. O problema: muitas das

ral”. As fontes podem ser or-

obras emperraram. Várias an-

ganismos internacionais como

dam lentamente — caso de

o Banco Mundial, mas não só.

Ananindeua — ou simplesmen-

Em agosto, o jornal O Globo

te pararam. “A má qualidade

publicou a notícia de que o

dos projetos apresentados e a

governo Temer quer conver-

burocracia para acessar os re-

sar com os estados para pri-

cursos têm sido gargalos difí-

vatizar ações de saneamento.

ceis de superar até hoje”, afirma

O Trata Brasil disse ver “com

Édison Carlos, do Trata Brasil.

bons olhos” a possibilidade.

“Muitos dos projetos que foram

Outros discordam. Para espe-

apresentados no PAC 1 precisa-

cialistas, ainda que não faça

ram sofrer aditivos técnicos e

muita diferença para o cidadão

financeiros acima do esperado,

pagar a conta para uma estatal

e isso atrasa obras até hoje.” Ou

ou uma empresa privada, é jus-

seja: a conta só aumenta.

tamente onde mais se precisa

Na falta de dinheiro para fa-

de saneamento que as pessoas

zer obras, há prefeituras que —

menos têm condições de pagar

por mais contraditório que isso

por ele. “Uma empresa priva-

pareça — até devolvem dinhei-

da vai querer ter lucros. Não


há mágica em relação a isso”,

rente a 2014, a gestão diz que

diz Marcelo Araújo, da Fiocruz.

implantou rede de esgoto para

Em regiões pobres, a pró-

20 mil dos seus 500 mil ha-

pria existência de uma rede de

No Brasil, o tempo médio para projetar e aprovar obras de saneamento é de dois anos

bitantes — ou seja, para 4%.

esgoto próxima às casas não

Ocupação acelerada também

é garantia de que os morado-

é o que nota a líder comunitá-

res conseguirão usá-la. A obra

ria Eliana Rocha na sua vizi-

de ligação da residência à rede

nhança. Há sete anos morado-

precisa ser paga pelo cliente

ra do bairro Jardim Canaã, em

— isso sem falar na conta que

Itaquaquecetuba, Grande São

passará a chegar todos os me-

Paulo, ela não para de ganhar

ses. Por isso, o Trata Brasil cal-

vizinhos. “Tem muita gente fu-

cula que há grande ociosidade

gindo do aluguel em São Paulo

receitas maiores e condições

nas redes do país. Mais de 3,5

e vindo para cá”, diz ela, que,

mais adequadas”, diz.

milhões de pessoas poderiam

em casa, só bebe água de chuva

O quarto grande problema

conectar suas casas nas cem

filtrada. Precavida contra estia-

é o tempo de planejamento.

maiores cidades, mas não o fa-

gens, tem estocados, em garra-

O tempo médio para projetar

zem, conforme estudo de 2015.

fas PET e tonéis, 3 mil litros,

e aprovar obras do setor é de

O segundo problema na

vindos de chuva recolhida em

dois anos. Ou seja, só o plano

universalização do esgoto é o

calhas e baldes espalhados pelo

vai demorar metade do man-

planejamento. Segamarchi diz

pátio e também de uma caixa

dato de um prefeito, para fazer

que às vezes até existe dinhei-

comunitária abastecida com

uma obra cara e longa, que vai

ro para mandar para a prefei-

caminhão-pipa pela prefeitura.

“para baixo da terra” e vai atra-

tura, mas ele não é usado por-

Apesar de irregular, sem

palhar o trânsito. “O que falta é

que o município não possui

água encanada e sem esgoto,

vantagem política”, diz Dayana

equipes técnicas qualificadas.

a área do Canaã é negociada

Colocando em números: segun-

no mercado informal. Um ter-

do a Pesquisa de Informações

reno custa até R$ 25 mil. Em

Básicas Municipais feita pelo

uma volta pelas ruas de terra

IBGE em 2014, em nada me-

— a maioria sem nome, já que

nos do que 26% das cidades os

não existem oficialmente —, é

Tem água

responsáveis pela área da saú-

fácil encontrar moradias em

Não tem água

pena. “Nossos estudos apon-

de tinham menos do que o en-

construção, como a de Josélia

Governo não sabe

tam que há um ganho na pro-

sino superior completo. Muitas

Rodrigue. Para economizar, há

dutividade do trabalhador pela

vezes, o dinheiro não chega

dois anos ela trocou o Brás,

redução das ausências ao tra-

porque os projetos são repro-

no centro da capital paulista,

vados simplesmente por serem

com saneamento, pelo Canaã,

mal preenchidos. Quando pas-

onde mora com o marido, três

sam, há obstáculos na execu-

filhos, genro e nora.

Rodrigues, técnica em sanea-

TORNEIRA FECHADA Total de municípios com e sem serviço de água, por região

mento ambiental do Instituto Federal do Pará (IFPA), que critica a demora de Ananindeua em investir em saneamento.

2000

É difícil e caro, mas vale a

balho, melhora a educação das

1750

crianças, que crescem mais saudáveis e distantes da possibilidade de contrair doenças cor-

O Canaã, segundo a pre-

conforme a mesma pesquisa,

feitura, está numa fila de 184

apenas três a cada dez fun-

áreas que aguardam regulariza-

cionários têm ensino superior

ção — a rede de esgoto da cida-

completo. O problema do sa-

de atende 64,6% da população

universalização do saneamento

neamento passa também pela

total. Sem resolução da situa-

cortaria quase 7% do atraso es-

(falta de) educação.

ção legal, informa a administra-

é a escala. Ananindeua, por

ção, a Sabesp, responsável pelo saneamento, não fará obras.

serviços”, diz Édison Carlos, do

1259

Trata Brasil. Segundo estudo

1000

feito em 2014 pelo instituto, a

colar no país. “Há uma melhora também no valor dos imóveis,

750

O terceiro grande problema

relacionadas à ausência desses

1500

ção. Em um terço das cidades,

além do turismo.”

exemplo, cresceu depressa e

Segundo Marcelo Araújo,

demorou para começar a in-

da Fiocruz, os municípios que

vestir em saneamento. “[A ci-

melhor atendem seus cidadãos

dade] tem 72 anos e cresceu

com água e esgoto são os de

mais de 450% nos últimos 25

médio porte. Eles não têm o

anos. É uma explosão demo-

volume de habitações irregula-

Hepatite A. Leptospirose. A lista

gráfica”, avalia o secretário de

res das metrópoles e têm esca-

de doenças causadas pela falta

Saneamento e Infraestrutura,

la suficiente para valer a pena

Osmar Nascimento. Depois

o investimento. “São cidades

da última informação ao

com uma economia mais vi-

Ministério das Cidades, refe-

brante, onde a prefeitura tem

Fonte: SNIS

Centro-Oeste

Sul

Sudeste

Nordeste

Norte

250

500

PIRIRI Diarreia infecciosa. Disenteria. Amebíase. Ascaridíase. Febre tifoide. Esquistossomose. Cólera.

de saneamento cabe numa letra dos Titãs. Sem nenhum surto de cólera no país desde 2004, a pior de todas é a mais comum:


E A FILA AUMENTA... Cada R$ 1 investido no fornecimento de água limpa e esgoto economiza R$ 4 que seriam gastos para tratar doenças, segundo a Organização Mundial da Saúde

Incidência a cada 100 mil habitantes

MAPA DA HEPATITE A

RR

AP

AM

PA

MA PI

PE

AC

10,1 - 153

2,1 - 6

CE PE

RO

BA

MT

RN PB AL SE

TO

GO

GO MG

MS SP

MG

ES

MS SP

RJ

PR

ES

RJ

PR SC

SC

RS

Consulte como está seu estado em GALILEU.GLOBO.COM

MA PI

AL SE

BA

MT

PA

RN PB

TO

RO

AP

AM

CE

6,1 - 10

0-1

6,1 - 10

1,1 - 2

2,1 - 6

0-1

10,1 - 56

2014

2014

RR

1,1 - 2

É transmitida pela urina de animais, como ratos, onde não há saneamento.

A infecção do fígado é causada por água e comida contaminadas.

AC

Incidência a cada 100 mil habitantes

MAPA DA LEPTOSPIROSE

RS

Fonte: Datasus (Ministério da Saúde)

Fonte: Datasus (Ministério da Saúde)

3.279

2.859

2.745

2.679

2.321

2.274

2.017

1.472

1.298

1.122

867

645

699

752

616

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

2013

2014

PAC

Governo Lula 4.159

1999

5.347

4.301

1997

1998

4.900

8.109

1994

1996

8.570

1993

6.878

8.361

1992

1995

8.263

1991

Plano Real

Governo Collor 10.780

1990

12.896

15.233

1988

1989

15.842

1987

17.975

1986

Redemocratização 17.438

24.009

1984

1985

24.606

1983

26.240

1982

28.746

1981

32.319

1980

1979

35.795

MORTE NA INFÂNCIA Total de crianças com menos de 5 anos mortas por diarreia ou infecção intestinal no Brasil


FALTA TRABALHO SUJO Cidades tratam pouco o seu esgoto; conheça as dez piores entre as mais populosas LEGENDAS Metros cúbicos (1.000 litros) tratados por habitante no

4

município em 2014 0 - 26 m3 26,1 - 52 m3

7

52,1 - 78 m3 78,1 - 104 m3

1. ANANINDEUA · PA

2. GOVERNADOR VALADARES · MG

Quanto trata de esgoto coletado: 0% O município da Grande Belém não tinha rede coletora até o levantamento, logo o número de tratamento também é zero.

Quanto trata de esgoto coletado: 0% A cidade de quase 280 mil habitantes coleta quase todo o seu esgoto (97,4% da população tem o serviço), mas não trata nada.

1

104,1 - 130 m3 130,1 - 156 m3

3

3. PORTO VELHO · RO Quanto trata de esgoto coletado: 0% A capital já não é um exemplo em coleta: 2% dos moradores são atendidos. Do pouco coletado, nada tem tratamento.

2

8. MAUÁ · SP

4. SANTARÉM · PA Quanto trata de esgoto coletado: 0%

Consulte como está sua cidade em GALILEU.GLOBO.COM

10

Desde que foi feito o levantamento, a cidade começou a testar, em 2015, suas primeiras estações de tratamento.

8 9

5. SÃO JOÃO DE MERITI · RJ

6. NOVA IGUAÇU · RJ

7. BELÉM · PA

Quanto trata de esgoto coletado: 0% O município da Baixada Fluminense coleta o esgoto de 48,9% da população, porém, não trata nenhuma parcela.

Quanto trata de esgoto coletado: 0,05% Também na Baixada, a cidade trata os dejetos de uma fração mínima. Há coleta para 45,1% dos moradores.

Quanto trata de esgoto coletado: 2,3% A Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa) coleta esgoto de 12,7% da população e trata uma parte pequena.

6 5

9. ITAQUAQUECETUBA · SP Quanto trata de esgoto coletado: 3,7% Dos dejetos coletados de 64,6% da população da cidade, na Região Metropolitana de São Paulo, pouco chega a ser tratado.

Fonte: Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento 2014 (Ministério das Cidades); Ranking do Saneamento 2016 (Instituto Trata Brasil)

Quanto trata de esgoto coletado: 2,7% A cidade do Grande ABCD, apesar de ter rede de esgoto que atende 90,1% da população, tem baixo índice de tratamento do material coletado.

10. BAURU · SP Quanto trata de esgoto coletado: 3,8% Existe coleta para 93,6% dos habitantes do município do interior paulista. Uma estação de tratamento está em construção.


a diarreia, grande responsável pela mortalidade infantil.

GATO E RATO “A médica me disse que é da

“O indicador básico de sa-

água”, conta Camila Dias en-

neamento é a mortalidade de

quanto levanta a blusa e dei-

crianças por diarreia com me-

xa à mostra a pele da barriga,

nos de 5 anos”, diz Marcelo

cheia de manchas vermelhas

Araújo, da Fiocruz. “Esse é o in-

e esbranquiçadas. “É dessa

dicador mais importante, usado

água que a gente toma banho”,

no mundo inteiro. As crianças

diz ela, que mora em uma pa-

são mais sensíveis a essas do-

lafita do bairro Santa Cruz

enças. Os idosos também, mas

dos Navegantes, no Guarujá.

eles podem ter várias outras

A água vem de um “gato”,

doenças mortais. Na criança é

instalação irregular feita com

mais fácil detectar a causa.”

mangueiras que serpenteiam

Ainda em 2009, a Orga-

por debaixo dos casebres de

nização Mundial da Saúde

madeira da favela. Quase to-

considerava a diarreia a segun-

das as casas têm uma bom-

da maior causa de morte infan-

ba que leva a água até caixas

til no mundo. Matava mais do

instaladas nos telhados. De

que a soma de Aids, malária e

lá, ela segue encanada para

sarampo, embora seja de fácil

as torneiras, os chuveiros e

tratamento. O problema é que

as caixas de descarga.

esse tratamento depende de

Para a filha Maria Clara, de

água limpa. E água limpa de-

6 anos, Camila não dá de be-

pende de saneamento.

ber dali: busca água encanada

Somente 40% do esgoto coletado no Brasil, que já é pouco, passa por tratamento para retornar à natureza

RUMO AOS 70 Superado o primeiro desafio básico, a coleta do esgoto, é a hora do segundo, o tratamento — padrão de saneamento buscado até a década de 1970 em países desenvolvidos. Apenas 40% do esgoto

JOGA FORA NO LIXO Municípios com e sem coleta de lixo, por região

Ao pegar diarreia infecciosa,

na casa de uma tia. A menina

não raro de vírus e bactérias

corre pelas tábuas de madeira

que vêm do contato com fezes,

que ligam sua casa às vizinhas

o organismo da criança perde

alheia ao risco que está lá em-

rapidamente líquidos e eletróli-

baixo: uma mistura de lama de

tos, o que pode levar à falência

mangue com dejetos que caem

Tem coleta de lixo

dos rins e, então, à morte.

diretamente dos vasos sanitá-

Não tem coleta de lixo

das filhas teve a forma hemor-

diarreia em 2011, consumindo

rágica, a mais grave da doen-

R$ 314 mil do SUS, segun-

ça. “A gente também vê rato,

do estudo do Trata Brasil. E,

mas aqui eu tenho gato”, diz a

mesmo assim, nem todos os

aposentada que vive na comu-

casos chegam aos hospitais —

nidade desde 1994, quando

portanto, não entram nas es-

“ainda era limpa a água” e “ti-

tatísticas do Datasus, sistema

nha caranguejo no mangue”.

do Ministério da Saúde que

“Agora tenho muita vontade

coleta os números de aten-

de sair daqui e comprar uma

dimentos no país. Marilda

casinha. Fico apreensiva de

Farias, cuja história conta-

a água de uma enchente um

mos no início da reportagem,

dia levantar essa casa”, conta.

por exemplo, se automedica.

“Mas na Pouca Farinha [ape-

“Muitos moradores nem as-

lido do bairro, atribuído a um

sociam as doenças que têm à

antigo morador que cobrava em

falta de saneamento, porque

farinha a travessia de barco até

para eles aquilo já virou uma

Santos], a população se une.

coisa normal”, destaca Edna

Aqui é uma favela, mas é fa-

Cardoso, líder de projetos so-

miliar. Não tem bandido nem

ciais do Trata Brasil.

gente se drogando.”

ção como para a sua operação posterior, que pode ser complexa e cara, refletindo-se nas tarifas”, diz Segamarchi Júnior. De volta a Ananindeua, o universitário Rafael Reis, que vive no bairro do Icuí, conta os trocados para comprar água mineral em verões intensos, quando seca o poço artesiano de onde sua família de seis pessoas bebe água. “Há 21 anos, desde quando nasci, esse bairro está do mesmo jeito. E já era assim antes de mim”, diz ele. A prefeitura informou à GALILEU que pretende terCentro-Oeste

t i ve ra m i n te r n a d o s co m

vista da implantação da esta-

Sul

é de dengue, desde que uma

Sudeste

tantes da cidade, 904 es-

ples coleta, tanto do ponto de

Nordeste

zinha Ciglei Moraes, o medo

mais complicada do que a sim-

Norte

reia. A cada 100 mil habi-

2000

Perto dali, na palafita da vi-

outra ponta da estatística, o “O tratamento é uma etapa

1750

com o tratamento da diar-

logo depois, com 32%. Já na Distrito Federal trata 100%.

1500

dos quebrados, pneus furados.

Governo não sabe

1259

sileiras, a que mais gasta

Pará: 16%. O Maranhão vem

1000

levisão, garrafas PET, brinque-

pior índice do país está no

750

cem maiores cidades bra-

mais recentes disponíveis. O

500

rios, ao lado de carcaças de te-

do em 2014, data dos dados

250

Ananindeua é, dentre as

coletado no Brasil era trata-

minar as obras de saneamento em dois anos. Com alguma sorte, até se formar, Reis poderá ver seu bairro che-

Fonte: SNIS

gar ao século 20.

49


POR ANDRÉ JORGE DE OLIVEIRA

SOBRE PEIXES DESIGN MAYRA MARTINS

E FÍSICA 50


MARCELO GLEISER LANÇA LIVRO QUE MISTURA RELATOS DE PESCARIA COM REFLEXÕES A RESPEITO DA ESSÊNCIA ELUSIVA DA VIDA, DO UNIVERSO E DAS TRUTAS “PARA A TRUTA que não peguei e a equação que não resolvi.” É com essa dedicatória inusitada que começa o mais novo livro de um velho conhecido dos brasileiros que gostam de ciência. Publicado pela Editora Record, A Simples Beleza do Inesperado revela um outro lado do físico teórico Marcelo Gleiser — o de alguém que sempre leva uma vara de pesca na mala quando viaja o mundo para participar de conferências científicas. Nos últimos anos, desbravar rios e lagos paradisíacos à procura da truta perfeita tornou-se um dos maiores prazeres na vida de Gleiser. “A pesca é o símbolo de nossa integração solitária com a natureza e nós mesmos”, disse à GALILEU o pesquisador e autor de mais de dez obras de divulgação científica, entre elas sucessos como A Dança do Universo e A Ilha do Conhecimento. Tudo começou em uma tarde de primavera, enquanto caminhava com a esposa, Kari, pela praça central da Faculdade de Dartmouth, instituição de ensino e pesquisa norte-americana em que leciona desde 1991. O casal notou um grupo de oito pessoas brandindo varas compridas de maneira bastante enfática, como se fossem maestros regendo uma orquestra. Depois, descobriram que aquilo era a turma de pes-

ca fly do professor Rick Hamel, um mestre da modalidade que consiste em usar duas linhas e isca artificial, movimentando-as constantemente para atrair os peixes. Kari deu ao marido a matrícula no curso como presente de aniversário, na esperança de que o hobby pudesse distraí -lo da extenuante rotina acadêmica. “Deixa de pensar só em trabalho, vai te fazer bem”, ela disse na época. Mas a experiência de pescar nas águas geladas do Rio Connecticut, que corre logo ao lado de onde mora com a família, em Hanover, ou em lagos ingleses e rios gaúchos mexeu muito com Gleiser. Ele foi transportado de volta à infância no Rio de Janeiro da década de 1960, quando pescava em Copacabana. Desde que retomou a prática, tem aprendido bastante com os peixes. Uma truta que fisgou e perdeu no Rio Grande do Sul o fez lembrar de seu primeiro amor. “Estava tão apaixonado que sufoquei a moça, que fugiu corrente abaixo tentando livrar-se do meu anzol”, escreveu. Já um salmão que, antes de uma pescaria, pulou como quem não quer nada de um rio no vilarejo de Durham, na Inglaterra, o fez refletir sobre presságios, coincidências e as simples belezas repentinas. “É isto que deve ser celebrado: a breve sincronia entre a minha vida e a do salmão.”

51


A simples beleza do inesperado é um de seus escritos mais pessoais até agora. De onde veio o ímpeto de contar essa história e por que ela lhe pareceu promissora para um livro? ca minha que, acredito, seja a busca

No livro, a pesca é descrita como uma espécie de ponte com seu eu menino. Qual foi o impacto que revisitar a infância causou na vida do Marcelo Gleiser adulto e cientista?

de todos: por uma vida produtiva,

Foi algo muito profundo. O menino,

apaixonada, inserida na comunidade

é claro, representa a minha (a nossa)

em que vivemos. Mas também — o

essência mais pura, aquela que es-

mais importante — uma vida ciente

quecemos que existe quando viramos

de que nós somos criações cósmicas,

adultos e a vida nos carrega em dire-

pertencentes a um universo do qual

ções que nem sabemos quais são. O

somos parte essencial. O livro usa

menino é a âncora que nos remete a

minha procura por sentido de forma

quem somos nas profundezas do nos-

simbólica, explorando nossa relação

so ser. A pesca é o portal dessa busca,

com as grandes questões da existência

o símbolo de nossa integração solitária

e nossa dependência e relação com o

com a natureza e nós mesmos.

Simples Beleza é um relato de uma bus-

nosso planeta-mãe, a Terra e todas as suas criaturas.

Como foi a experiência de escrever de maneira bem mais solta e em um estilo notavelmente mais intimista? Foi uma experiência muito gratificante. Não foi o caso de sentar e escrever o livro em apenas um ano. Esse projeto começou anos atrás e foi crescendo à medida que fui fazendo minhas viagens para vários países e conforme fui me descobrindo como pessoa, como explorador do mundo, tanto do mundo externo quanto do interno.

52

Você não come carne há anos, mas admira a pescaria. Já enfrentou dilemas éticos sobre o sofrimento que o anzol inflige ao peixe? Quem ler o livro certamente encontrará a resposta a essa pergunta… É um dos pontos centrais da narrativa.

A SIMPLES BELEZA DO INESPERADO

Marcelo Gleiser Editora Record 196 páginas R$ 39,90

Trutas e salmões lhe ensinaram muitas coisas. Quais considera as lições existenciais mais marcantes que a pesca proporcionou a você? A importância de nos darmos tempo, de abrirmos um espaço em nossas vidas para estarmos sós, junto a nós mesmos e à natureza, de onde viemos e à qual pertencemos. As lições de sabedoria que aprendi observando o mundo natural foram muitas: ficar atento ao ritmo das coisas, ao ritmo da vida, não forçar a barra demasiadamente, aprender a respeitar que tudo


mas também têm muito em comum. Elas sempre se mantêm na tentativa de explorar nossa relação com o mundo natural, do qual sabemos e entendemos tão pouco. Ambas as áreas nos lembram o quanto não sabemos das coisas, além, é claro, de também nos

Você compara a pesca com a pesquisa. Quais são as semelhanças entre um cientista e um pescador?

ensinarem (ou pelo menos deveriam nos ensinar) a ser mais humildes.

Os dois têm de lidar com o inesperado: o cientista não sabe aonde a pesquisa irá levá-lo; o pescador lida com o inesperado não sabendo o que vai acontecer no fim da linha. Ambos buscam conhecer um mundo ao qual têm acesso limitado. O cientista, o mundo desconhecido além da ilha do conhecimento; o pescador, o mundo das águas onde habitam os peixes, que são criaturas profundamente diferentes de nós. Tanto um quanto o outro fazem uso de instrumentos para poder explorar um mundo que lhes é desconhecido. O cientista usa seus telescópios e seus detectores, enquanto o pescador, apenas a linha e o anzol. Ambos contemplam o mundo, suas propriedades e o nosso lugar nele imbuídos de um

PESCADOR MAESTRO

Gleiser conheceu a pesca fly com Brad Pitt no filme Nada É para Sempre. Exige movimento constante da isca artificial, que simula insetos para atrair os peixes

profundo senso de mistério.

tem seu tempo. O respeito absolutamente fundamental pela vida, em todas as suas manifestações. O desprezo pelas classificações, pelos rótulos que colocamos nas pessoas e nas coisas, como se elas fossem apenas aquilo e não algo muito maior. A humildade de aceitar que todas as formas de vida têm o direito de viver, que não somos

O que é mais complicado: dominar a arte sutil da pesca fly ou explorar os meandros ocultos da física quântica? As duas coisas são bastante complicadas, mas profundamente gratificantes. Cada qual possui as próprias técnicas e objetivos, que lhes são particulares,

superiores a nada nem a ninguém; a humildade de aceitar que o inesperado delimita nossas vidas, que temos pouco controle sobre o que vai acontecer. Celebrar a surpresa. Viver o momento da maneira mais intensa possível.

53


T

O

O

S O

P U

D

M

R

?

JUÍZES DISCUTEM SE ESTADO DEVE COMPROMETER O MINGUADO ORÇAMENTO DA SAÚDE PARA FORNECER TRATAMENTOS DE ALTO CUSTO A PACIENTES COM DOENÇAS RARAS


POR MARÍLIA MARASCIULO DESIGN FERNANDA DIDINI

EDIÇÃO THIAGO TANJI

FOTOS TOMÁS ARTHUZZI

55


A VITÓRIA DO ADVOGADO paulista Aurélio Galina contra o vírus da hepatite C completou três anos neste mês. A doen-

É MUITO GRAVE, DOUTOR?

Estudo da Interfarma calcula o número de ações judiciais na área da saúde registradas em 2015 em quatro estados brasileiros

ça, que ataca o fígado, é transmitida por sangue contaminado e, em geral, não provoca sintomas — Galina descobriu

MINAS GERAIS

7.468

possuir o vírus quando tinha 21 anos, ao tentar doar sangue, e acredita ter sido infectado

RIO DE JANEIRO

12.700

em uma transfusão quando ainda era bebê. Foram necessários três processos na Justiça para garantir que o Sistema Único de Saúde (SUS) custeasse a terapia do advogado,

RIO GRANDE DO SUL

27.579

que hoje tem 38 anos. Na época, a prática ainda últimos anos, porém, o número de ações judiciais contra o sistema público para obtenção deravelmente: só no estado de

te de Minas Gerais com doença

de um medicamento para tra-

renal crônica tenta obter o cus-

tar um único paciente ultrapas-

teio de um remédio que ainda

sa o gasto com remédios para

não foi registrado pela Agência

todo o resto da população.

Nacional de Vigilância Sanitária

Em setembro, o debate do

(Anvisa). Os ministros enten-

papel do sistema público de

deram que o julgamento desses

saúde e o questionamento dos

casos tem repercussão geral:

limites entre o direito indivi-

após a conclusão do processo,

dual e o coletivo chegaram a

que ainda não tem data para

um capítulo decisivo quando

ser finalizado, os magistrados

o Supremo Tribunal Federal

de todo o país utilizarão a de-

(STF) deu continuidade a um

cisão do STF como referência

julgamento para decidir se o

em episódios semelhantes.

Estado deve fornecer medica-

Há também a dificuldade em

mentos de alto custo não pre-

estabelecer como exatamente

vistos nas listas do SUS ou

as determinações da Justiça

mesmo sem registro no país.

devem ser cumpridas. Os go-

CADA CASO É UM CASO?

não era comum no país. Nos

de tratamentos cresceu consi-

Em alguns municípios, o preço

SÃO PAULO

27.840

São Paulo, o número quase dobrou entre 2010 e 2015, ano em que foram registradas mais de 75.587 TOTAL

27 mil ações. Essas ações todas são respaldadas pelo Artigo

direito de todos e um dever do Estado. Até o fim de 2016, a estimativa do Ministério da Saúde

paciente ou depositar o valor

dois casos cujas decisões estão

diretamente em sua conta. Por

em aberto e chegaram à última

serem decisões de última hora

instância da Justiça brasileira.

e de cumprimento imediato, é

O primeiro é o de uma paciente

difícil negociar descontos com

do Rio Grande do Norte, que re-

as empresas fornecedoras.

quer o acesso a um medicamen-

O problema é que nem sem-

to para hipertensão arterial pul-

pre o dinheiro sai apenas do or-

monar não disponível no SUS.

çamento do SUS. A decisão do

No segundo caso, uma pacien-

juiz pode bloquear os recursos das prefeituras, dos estados ou da própria União: em um caso

CHECK-UP MUNDIAL Gastos de saúde por habitante e modelo de cobertura Planos de saúde privados

Sistema público

recente, um juiz de Guarulhos,

Gasto por habitante

município da Grande São

ESTADOS UNIDOS

US$ 9.403

CANADÁ

US$ 4.641

é de que o gasto com processos desse tipo consuma até R$ 7 bilhões dos cofres públicos. O problema é que esse valor corresponde sozinho a

medicamento para repassar ao

A discussão foi motivada por

196 da Constituição Federal, que determina a saúde como

vernos podem tanto comprar o

Paulo, obrigou a União a usar verbas de publicidade para fornecer um remédio importado de alto custo a uma paciente. Mas a judicialização da saúde

Realiza cobranças para exames e consultas

FRANÇA

US$ 4.508

REINO UNIDO

US$ 3.377

ESPANHA

US$ 2.966

também pode afetar recursos

quase 6% do orçamento previsto para a saúde neste ano — que já é menor do que o do ano passado. De acordo com a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), com o dinheiro utilizado em 2015 para atender às demandas judi-

Deve-se optar por plano privado ou cobertura pública

CHILE

US$ 1.749 Basta estar no Brasil para ser atendido

BRASIL

US$ 1.318

ARGENTINA

US$ 1.137

ciais, seria possível construir cem hospitais com 300 leitos, montar 2 mil equipes de saúde da família ou construir

56

Conta com um seguro obrigatório para quem está empregado

COLÔMBIA

2,5 mil Unidades de Pronto Atendimento.

Fonte: Dados OMS/2014

US$ 962

LIÇÃO COLOMBIANA Em 2010, o país também registrou uma alta nos processos judiciais relacionados à área da saúde. A situação era, em parte, motivada por esquemas de corrupção, com desvio de dinheiro nos planos privados. Isso levou a uma reformulação do sistema, com ampliação e atualização da cobertura dos procedimentos médicos.


que seriam aplicados em outros serviços do Estado, como infraestrutura, transporte público e saneamento básico.

SE ORGANIZAR DIREITINHO... Embora a Constituição preveja a saúde universal, há uma lei que determina quais tratamentos são disponibilizados pelo SUS, de acordo com cada doença. Para entrar na lista, os medicamentos e procedimentos são aprovados pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no

SUS

(Conitec),

do

Ministério da Saúde. Nela, especialistas analisam os pedidos realizados por pacientes ou médicos. Entre os critérios está a necessidade de comprovar que não há alternativas com menor custo e que a tecnologia utilizada no tratamento é satisfatória tanto para a saúde do usuário quanto para o sistema público. Segundo Silvana Nair Leite, professora do Departamento de Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o processo de análise não cos-

explica o advogado, que hoje

GASTOS DO MINISTÉRIO DA SAÚDE com compra de medicamentos por ações judiciais R$ 2 BILHÕES

lhas de gestão: o medicamento está na lista, é considerado

R$ 1,5 BILHÃO

da Interfarma, o SUS não incorpora a maioria dos medicamentos mais modernos.

ideal para o paciente, mas, por atrasos na entrega, está em fal-

R$ 1 BILHÃO

ta no sistema. “Ficamos quase

Nos últimos três anos, até julho de 2015, o governo barrou

cinco meses sem receber meR$ 500 MILHÕES

dicação básica, já que compra-

56,3% dos 199 pedidos de incorporação. Dos 80 medica-

municípios para baratear os

R$ 0 16 20

15 20

14

20

13 20

12 20

11

20

10

a maior parte é formada por

mos em conjunto com outros 20

mentos que entraram na lista,

situações semelhantes à dele. Há também casos de fa-

tuma demorar. O problema é que, de acordo com os dados

atua na defesa de pessoas em

custos”, afirma Vanderlúcia Lobo, secretária de saúde de

produtos que já existiam há

caixava nos critérios para obter

Iguatu, cidade de 100 mil ha-

pelo menos 15 anos — apenas

um remédio prescrito para a se-

bitantes no Ceará.

13 deles tinham menos de cinco anos de mercado. Mas nem todo medicamento que faz parte da lista do SUS é automaticamente fornecido aos pacientes. O advogado Aurélio Galina, por exemplo, não se en-

NOS ÚLTIMOS TRÊS ANOS, O GOVERNO FEDERAL BARROU 56,3% DOS 199 PEDIDOS DE INCORPORAÇÃO DE NOVOS MEDICAMENTOS

gunda tentativa de tratamento,

Nesses casos, o Estado deve

embora a substância estivesse

fornecer o tratamento imedia-

na lista do SUS. “Meu médi-

tamente, e o ideal seria que o

co tinha uma proposta de me

paciente nem precisasse entrar

manter estável e preservar

na Justiça para ter acesso à co-

meu fígado até que descobris-

bertura. “Pode ser uma

sem a cura para a doença”,

doença rara ou uma hi-

57


pertensão. Se é direito, se existe

tema: os recursos são finitos

tratamento e se ele é aprovado,

e é impossível oferecer me-

não há o que questionar”, afirma

dicamentos caros para todos

a professora Leite. “Podemos

os cidadãos. “O fornecimento

até entender o motivo para o

de tratamento é sempre uma

atraso, como licitações demo-

escolha política. Ao optar por

radas, mas o paciente não pode

um tratamento, o Estado deve

ficar sem o medicamento.”

pensar se há possibilidade de

TUDO A TODOS?

garantir o acesso a pelo menos metade da população: se

Os remédios que estão fora

não, cria-se uma desigualda-

da lista elaborada pelo SUS

de”, explica a advogada Marcia

são os que mais geram con-

Bueno Scatolin, vice-presi-

trovérsias na queda de braço

dente do Instituto de Direito

entre a Justiça e o Estado. “Na

Sanitário Aplicado (Idisa).

maioria das vezes, o cidadão

Mais complicados ainda são

quer um ‘plus’ no tratamen-

os casos em que os remédios

to”, afirma a professora Maria

nem sequer foram registrados

Stella Gregori, da Faculdade

no Brasil. Em 2014, dos 20 me-

de Direito da Pontifícia

dicamentos mais requisitados

Universidade Católica de São

ao Ministério da Saúde (confi-

Paulo (PUC-SP). O problema

ra box na página ao lado), cin-

é que isso desestabiliza o sis-

co não possuíam registro na

SAÚDE UNIVERSAL (MAS NEM TANTO) Como o serviço universal público é insuficiente, as empresas privadas e os planos de saúde também contribuem para promover tratamentos médicos. E isso causa mais bagunça quando há ações judiciais para requisição de tratamentos ou remédios: um usuário de um convênio pode processar a empresa, mas as regras seguem a lógica do direito do consumidor. Ao aderir a um plano, existe uma lista de procedimentos e tratamentos determinados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Se o plano de saúde se recusa a cobrir um procedimento estabelecido no contrato, o paciente pode processar a empresa. Quando esse não é o caso — o que ocorre com frequência —, o cidadão costuma recorrer ao SUS, inflando ainda mais o sistema público.

Anvisa. Todos eram aprovados pela Agência Europeia de Medicamentos e 18 tinham o aval da FDA, a agência sanitária dos Estados Unidos. Mas cada instituição conta com critérios próprios de avaliação: a norte-americana segue uma lógica de mercado e considera que, se o remédio não for eficiente, será naturalmente eliminado. Já a Anvisa costuma ser mais cautelosa e requer comprovação da eficácia do novo produto em relação aos já existentes. Durante a análise do processo realizada em setembro no STF, Luís Roberto Barroso e Edson Fachin, dois dos três ministros do Supremo que já votaram, declararam ser contra o fornecimento de medicamentos não registrados no país, exceto em casos de eficácia comprovada ou demora da Anvisa — um ano ou mais — para a realização da análise dos remédios. Já para o ministro Marco Aurélio Mello, o SUS deve fornecer produtos importados, desde que tenham registro em outros países e que não existam similares no Brasil. Teori Zavascki suspendeu o julgamento ao pedir mais tempo para analisar a questão, restando oito votos para a decisão finalmente ser chancelada. Ainda não há previsão para uma nova sessão. A cautela para o veredito também tem a ver com a pressão da indústria farmacêutica para a aprovação dos tratamentos. “Algumas empresas estrangeiras sabem que é difícil registrar medicamentos no Brasil, então entendem que é mais fácil orientar o médico a conseguir o acesso pela via judicial. Às vezes, os brasileiros servem como cobaias para ensaios clínicos com as novas drogas”, critica a professora

58

Silvana Nair Leite. Essa brecha no sistema e o aumento


de ações judiciais podem fa-

de público britânico. “O siste-

O TRATAMENTO VALE O CUSTO?

Os dez medicamentos que mais geraram gastos ao Ministério da Saúde em ações judiciais em 2014 são utilizados, em sua maioria, para o tratamento de doenças raras

cilitar fraudes, como a revela-

ma de saúde confronta o que

da pela Operação Asclépio em

é o ideal e o que é o possível.

junho deste ano. No esquema,

E não é um sistema definido,

46 pacientes exigiram um

todo dia surgem tratamentos

medicamento utilizado para

novos”, diz Fernando Campos

baixar o colesterol importa-

Scaff, professor de Direito

do dos Estados Unidos, ainda

Civil da Faculdade de Direito

sem registro no Brasil. O pro-

da Universidade de São Paulo.

blema é que algumas daque-

A falta de definição do pa-

las pessoas nem sabiam das

pel de cada governo tam-

Reduz a destruição dos glóbulos vermelhos e as complicações da Hemoglobinúria Paroxística Noturna (HPN), uma doença rara que causa formação de coágulos.

ações judicais. O prejuízo da

bém complica o processo.

CUSTO: R$ 213.729.849

Secretaria Estadual de Saúde

Em tese, segundo o presi-

de São Paulo foi estimado em

dente do Conselho Nacional

R$ 9,5 milhões e o caso pode

de Secretarias Municipais

levar ao indiciamento de 13 médicos de sete municípios, além de representantes de uma

INVESTIMENTO MILIONÁRIO Custos para compra dos remédios R$ 9.390.385

R$ 13.791.347

R$ 19.741.553

R$ 30.018.513

R$ 25.405.348

R$ 41.747.322

R$ 72.487.013

R$ 64.488.738

R$ 167.647.191

“TRAZEMOS O SEU REMÉDIO EM 24 HORAS”

R$ 213.729.849

empresa norte-americana.

Laronidase

Alfalglicosidase

Elosulfase alfa

Lomitapida

Alfagalsidase

daram medicina nem foram

Idursulfase

zer escolhas se eles não estu-

Galsulfase

“Não podem ser os juízes a fa-

Eculizumabe

mais um desafio para o Estado.

Betagalsidase

estarem nas mãos de um juiz é

Inibidor de esterase

sistema, o fato de as decisões

so está no caso do tratamento para o vírus HIV, incorporado na lista do SUS após pressão e ações judiciais da sociedade. O aumento no número de

ECULIZUMAB

processos, no entanto, também chama a atenção para fragilidades do planejamento governamental. “O gasto do Estado com a saúde pública responde por 1,7% do PIB, é muito pouco”, afirma Mauro

GALSULFASE Fornece a enzima galsulfase a pacientes com doenças metabólicas hereditárias que não a produzem. Entre os sintomas da enfermidade estão dificuldades de movimentação e tronco curto.

CUSTO: R$ 167.647.191

Junqueira. Com um orçamento de R$ 2,90 por habitante ao dia, é impossível garantir tratamentos de alto custo para os cidadãos. Para piorar, o governo federal encaminhou ao Congresso uma proposta de emenda à Constituição de li-

IDURSULFASE

Além das particularidades do

ra Leite. O maior exemplo dis-

É utilizada para tratar a síndrome de Hunter, doença hereditária que afeta principalmente os homens e causa dificuldade para respirar e andar.

CUSTO: R$ 72.487.013

mite de gastos públicos para os próximos 20 anos: a saúde pública perderia R$ 680 bilhões de investimentos durante essas décadas. Saúde pode até não ter preço, mas custa caro.

ALFAGALSIDASE

eleitos para decidir o que fazer com o orçamento da saúde”,

de Saúde, Mauro Junqueira,

disse o ministro Barroso du-

a saúde deveria ser dividida

rante a sessão de setembro do

da seguinte forma: a atenção

STF. “O Poder Judiciário não

básica seria dever dos muni-

tem capacidade de ter conheci-

cípios, procedimentos de mé-

mento minucioso das questões

dia complexidade ficariam a

de saúde”, afirma a professora

cargo dos estados e os trata-

Gregori. “Os pedidos são cau-

mentos de alto custo seriam

telares ou liminares porque en-

de responsabilidade do poder

volvem a vida do cidadão.”

federal. Mas são justamente

Com dificuldades seme-

os municípios que recebem

lhantes, alguns países, como

o maior volume de processos

a Inglaterra, criaram núcleos

judiciais. “Vemos absurdos,

específicos para avaliar casos

como determinações de im-

de judicialização da saúde.

portação de um medicamento

O Instituto Nacional para a

em 24 horas pelo município.

Saúde e a Excelência Clínica,

Quem conseguiria fazer isso?

criado em 1999, é responsável

Acho que nem o presidente da

por avaliar o custo-efetivida-

República”, destaca Junqueira.

de das opções de tratamentos.

Para os especialistas, a judi-

Nele, representantes da socie-

cialização em si não é um gran-

dade, como pacientes, médi-

de problema para a saúde. “Não

cos e a indústria farmacêutica,

é uma ciência exata, nenhuma

decidem o que deve ou não ser

lista dá conta de tudo que pode

oferecido pelo sistema de saú-

acontecer”, explica a professo-

O medicamento bloqueia o aumento da bradicinina, substância que provoca inchaços no corpo. É indicado para o tratamento de angioedema hereditário.

CUSTO: R$ 64.488.738

BETAGALSIDASE Repõe a enzima alfagalactosidase, que ajuda a decompor uma substância responsável por obstruir os vasos sanguíneos, especialmente nos rins, coração, sistema nervoso e pele. Indicado para pacientes com a doença de Fabry.

CUSTO: R$ 41.747.322

ELOSULFASE ALFA Repõe enzima necessária para decompor uma substância que pode se acumular nos ossos e órgãos, causando dificuldade de respirar e caminhar, olhos turvos e perda auditiva. É utilizado no tratamento da síndrome de Morquio A.

CUSTO: R$ 30.018.513

LOMITAPIDA Utilizado no tratamento de uma doença genética que eleva drasticamente os níveis de colesterol.

CUSTO: R$ 25.405.348

ALFALGLICOSIDASE Inibe a enzima responsável por quebrar os carboidratos, diminuindo a quantidade de glicose no sangue. Utilizado para tratar diabetes.

CUSTO: R$ 19.741.553

LARONIDASE Repõe a falta da enzima alfaliduronidase, responsável por destruir substâncias que, se acumuladas, causam disfunção de células, tecidos e órgãos.

CUSTO: R$ 13.791.347

INIBIDOR DE ESTERASE Repõe os níveis da proteína que inibe a esterase, substância que causa inchaços no corpo.

CUSTO: R$ 9.390.385


A GUERRA DA ESQUINA 60

POR JULIANA CUNHA

EDIÇÃO CRISTINE KIST


ESQUEÇA AS DISPUTAS TRAVADAS POR SOLDADOS CAMUFLADOS EM TRINCHEIRAS NO MEIO DO MATO — HOJE, AS GRANDES CIDADES É QUE VIRARAM PALCO DE CONFLITOS PERMANENTES E, MUITAS VEZES, SILENCIOSOS

ESCULTURAS DIEGO DE PAIVA

61

DESIGN RODOLFO FRANÇA

FOTOS TOMÁS ARTHUZZI


A

IDEIA de conflitos pontuais, com duração e inimigos bem delimita-

dos, está dando lugar a um novo conceito de guerra urbana, permanente e contra inimigos difusos, muitas vezes internos. Essa é a tese por trás do livro Cidades Sitiadas (Boitempo, 512 págs., r$ 89), do urbanista britânico Stephen Graham, que acaba de ser lançado no Brasil. “Durante a Olimpíada, vi fotos de soldados da Força Nacional no meio da praia enquanto as pessoas passeavam, faziam turismo. Pensei que essa seria uma bela imagem para o meu livro”, diz Graham. “A polícia não estava ali para coibir delitos, mas para controlar uma área. Parte-se do pressuposto de que determinadas regiões da cidade estão controladas pela polícia enquanto outras estão controladas por outras forças, como o tráfico, no caso

62

CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ O urbanista Stephen Graham conta que, durante a Olimpíada do Rio de Janeiro, viu imagens de soldados na praia enquanto os cariocas e os turistas tomavam sol.

do Rio de Janeiro, ou por uma

em espaços determinados está

iraquianas. O objetivo não era

entidade fantasmagórica cha-

enfraquecida desde a Guerra

mada de ‘os imigrantes’, no

Fria, quando Rússia e Esta-

caso de algumas cidades eu-

dos Unidos mantiveram um

ropeias.” Para o professor da

conflito de 45 anos com pou-

Universidade de Newcast-

cos elementos de uma guerra

“SORRIA”

le, “a polícia se transformou

tradicional. Segundo Graham,

Os conflitos contemporâneos

em um exército permanente-

embora ainda haja zonas de

ocorrem antes em edifícios,

mente mobilizado, que está

conflitos mais ou menos tra-

estações de metrô e distritos

constantemente ganhando e

dicionais, há uma predominân-

industriais do que em cam-

perdendo o controle de deter-

cia de guerras urbanas e dis-

pos abertos, selvas ou deser-

minadas áreas da cidade”.

persas, como a guerra civil da

tos. “Talvez seja a primeira vez

A concepção de que guer-

Síria e a insurgência do Boko

desde a Idade Média em que

ras seriam eventos com co-

Haram na África, para citar

a geografia das cidades domi-

meço, meio e fim, divididas

dois conflitos em andamen-

na as discussões em torno da

entre inimigos e aliados, civis

to. “A Guerra do Iraque tam-

guerra, da geopolítica e da se-

e militares, e que ocorreriam

bém tem um componente ur-

gurança”, afirma Graham. Em

bano fundamental. Os Estados

seu livro City War Zones (Zo-

Unidos utilizaram uma estra-

nas de Guerra nas Cidades,

tégia que eu chamo de ‘urbicí-

em tradução livre), Sultan Ba-

dio’ para acabar com a infraes-

rakat, pesquisador da Univer-

trutura das principais cidades

sidade de York, na Inglater-

conquistar a cidade ou combater grupos específicos nela, mas fazê-la morrer”, diz.


gios de anonimato. O escritor inglês Charles Dickens tentou

MAISDAMETADEDA HUMANIDADEESTÁ ESPREMIDAEM2,8% DASUPERFÍCIEDE TERRAFIRMEDO NOSSOPLANETA

capturar o espírito dessas metrópoles cheias de gente que mal conhecemos com personagens quase planos, que se sucediam como passantes que vemos de dentro de um trem Já o francês Stendhal escreve em O Vermelho e o Negro sobre um sujeito que tenta levar uma vida simples no campo, mas a intromissão dos vizinhos provincianos o faz retornar a Paris: “Vou procurar a solidão e a paz campestre no único lugar onde elas existem na França, num quarto andar que dá para os Campos Elíseos”, diz o personagem, deixando claro que os ideais de privacidade e de não interferência nos assuntos alheios só eram possíveis nas metrópoles. Hoje, no entanto, os governos se voltam contra essa ideia das cidades como reservas de privacidade. “Há uma proliferação global de projetos de vi-

ra, afirma que “as guerras já

sa a ser investigar suspeitos

gilância altamente tecnófilos

não são travadas em trinchei-

e impedir que eles contreti-

que buscam mapear, rastrear

ras e em campos de batalha,

zem seus planos. Dessa for-

e identificar as pessoas, esta-

mas em salas de estar, esco-

ma, vivemos um constante

belecer padrões de comporta-

las e supermercados”. Ao dizer

estado de emergência, e pre-

mento indispensáveis para que

isso, ele não se refere apenas

julgar quem são as potenciais

suas ações sejam previstas”, ex-

ao local físico dos conflitos,

ameaças passou a ser o obje-

plica Graham. Entre esses me-

que deixou de ser um cam-

tivo central”, afirma. Para fa-

canismos estariam câmeras de

po de batalha, mas à milita-

zer essa predição de riscos, as

segurança, dispositivos de re-

rização do cotidiano, à noção

polícias e os governos têm de

conhecimento facial, vigilância

de uma vigilância permanen-

se voltar contra uma caracte-

de comportamentos na inter-

te contra ameaças que devem

rística antes vista como in-

net, técnica de impressão digi-

ser não derrotadas, mas eter-

trínseca às grandes cidades: o

tal, procedimentos de controle

namente administradas.

anonimato de seus habitantes.

de multidões, documentos de

Para Barakat, o terrorismo

Na perspectiva dos escri-

identificação biométricos e sis-

e a lógica da repressão preven-

tores europeus do século 19,

temas como o britânico e-Bor-

tiva estariam no cerne dessa

as grandes cidades eram refú-

ders, que busca coletar infor-

mudança. “Prevenir ataques se tornou uma função prioritária da polícia. Seu papel deixa de ser prender pessoas que cometeram um crime e pas-

63


64

SAÍDA DE EMERGÊNCIA O programa britânico e-Borders quer coletar informações sobre todos os turistas que chegam ao país. O projeto ainda não saiu do papel por conta de dificuldades técnicas, mas o governo tem esperança de lançá-lo em breve (veja no box ao lado).

mações de todas as pessoas

cosmopolitismo e a heteroge-

que entram e saem do país e

neidade, além de algum grau

bater esses dados com listas

de desorganização. Já o proje-

de suspeitos de terrorismo.

to dos grandes subúrbios traria

“São tentativas de concretizar

uma vontade de “formar comu-

o sonho militar de onisciên-

nidades políticas baseadas na

cia em uma escala urbana, em

certeza e na simplicidade”. “Não

entrada de cidadãos britânicos

tempos de paz”, diz Graham.

coincidentemente, a construção

de origem paquistanesa. Essa é

É justamente esse desejo de

desses bairros residenciais nos

uma das maneiras de estabele-

onisciência que leva Graham

Estados Unidos surge conco-

cer práticas de fronteira dentro

a classificar o urbanismo mili-

mitantemente ao fortalecimen-

dos espaços dos Estados-nação,

tar como um movimento anti-

to da ideia de família nuclear

que antes eram vistos como

cidades. “Em última análise, ele

e de um Estado igualmente

unitários”, explica Graham.

pretende acabar com as gran-

nuclear”, diz Graham.

Na Europa, alguns urbanistas já

fronteiras nacionais já não garantem homogeneidade. “As categorias de dentro e fora estão sendo relativizadas. Os Estados Unidos, por exemplo, querem criar regras diferentes para a

des cidades da forma como as

A tentativa de separar as pes-

usam o termo “orientalismo dos

conhecemos. O que o urbanis-

soas segundo “perfis de risco”

bairros pobres” para falar sobre

mo militar prevê são grandes

seria, de certa forma, uma res-

como as periferias de cidades

amontoados urbanos seme-

posta a um mundo em que as

como Paris têm sido tratadas

lhantes a um subúrbio americano, mas não grandes cidades”, diz. Para Graham, são características das cidades a fluidez, o


Mãos ao alto Urbanismo militar em cinco exemplos práticos

1

SISTEMAS DE CONTROLE DE PESSOAS O projeto e-Borders, do governo britânico, pretendia fazer uma checagem completa de todas as pessoas que entrassem e saíssem das fronteiras do país, conferindo se seus nomes apareciam em listas de procurados de mais de 30 agências governamentais e usando algoritmos e técnicas de mineração de dados para identificar indivíduos com “condutas hostis”. Lançado em 2007, o programa inicialmente foi criticado por controle excessivo e por ferir a lei de livre trânsito dentro na União Europeia, mas no fim deu errado por motivos puramente técnicos: a empresa de segurança contratada para fazer o serviço não conseguiu completar a tarefa. O e-Borders custou cerca de 830 milhões de libras e há projetos de retomá-lo com uma nova empresa.

como territórios estrangeiros, com políticas de isolamento territorial e de serviços. MERCADO LIVRE

2

DRONES ARMADOS Desde 2002 os Estados Unidos usam drones armados em países do Oriente Médio. O objetivo, no entanto, é que esses mecanismos se tornem um aparato de guerra contínuo, automatizado e autônomo, capaz de identificar alvos de risco e atirar para matar sem interferência humana.

3

ORIENTALISMO DOS BAIRROS POBRES Em cidades como Paris, o planejamento estatal trabalha para conceituar projetos habitacionais de massa da periferia (os chamados banlieues) como reservas “quase periféricas”: conectadas, porém distantes do centro da cidade. Essa tentativa de distanciar os periféricos e de transformar imigrantes (mesmo os legalizados) em cidadãos de segunda categoria faz com o que o governo adote medidas de repressão policial diferenciadas nessas áreas, mais ou menos como acontece nas favelas brasileiras.

4

5

CAMPOS PRISIONAIS URBANOS Para Graham, as políticas israelenses de bloqueio de cidades usadas contra os palestinos foram copiadas pelos Estados Unidos na guerra contra o Iraque. Ele afirma que o cerco israelense a Gaza desde que o Hamas foi eleito, em 2006, transformou um denso corredor urbano com 1,5 milhão de pessoas em um grande campo prisional onde tecnologias de radar e direcionamento foram desenvolvidas para fazer um bloqueio permanente da vida urbana palestina.

ATAQUE À INFRAESTRUTURA URBANA Graham explica que ataques ao fornecimento de água e energia vêm sendo usados há anos para controlar centros urbanos. A Rússia, por exemplo, ameaça cidades europeias com a interrupção do fornecimento de gás, enquanto as forças norte-americanas e israelenses trabalham de modo sistemático para “desmodernizar” sociedades urbanas por meio da destruição de sua infraestrutura — foi essa a estratégia adotada em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano e no Iraque desde 1991. Esses governos substituíram a guerra total contra cidades pela destruição das áreas responsáveis pelo abastecimento de água e energia. Para isso, foram inclusive desenvolvidas bombas especiais que dispersam fios de grafite para provocar curtos-circuitos em estações de eletricidade.

conflito tenha começo e fim estabelecidos”, explica Graham. Segundo o autor, as táticas

Segundo Graham, existe uma

de uma guerra urbana incluem

espécie de efeito bumerangue

monitoramento aéreo, insta-

entre os conflitos externos e a

para treinar tropas que depois

lação de unidades especiais,

repressão interna. Mecanismos

serão destinadas à “guerra ur-

buscas de casa em casa, de-

testados em guerras “de verda-

bana de baixa intensidade” nas

tenção em grande escala, pon-

de” posteriormente passariam

favelas, como foi dito pelo en-

tos de checagem e trincheiras

a ser incorporados pelas polí-

tão ministro da Defesa Nelson

para monitorar, controlar e res-

cias locais para tratar de confli-

Jobim quando o país enviou os

tringir a movimentação de pes-

tos internos. Nos Estados Uni-

primeiros soldados, há alguns

soas, evacuação de territórios,

dos, por exemplo, o Pentágono

anos. “O termo ‘guerra de bai-

tentativa de buscar informan-

mantém um programa de re-

xa intensidade’ ou ‘guerra de

tes locais, interrupção de servi-

venda de equipamentos mili-

quarta geração’, cunhado há al-

ços como luz e internet e o uso

tares usados para as polícias

guns anos, ilustra bem como

estaduais e municipais. Já no

guerra e paz não são catego-

caso brasileiro, a presença do

rias mutuamente excludentes.

país em uma missão de paz das

Há níveis de guerra distintos,

Nações Unidas no Haiti serve

e pouca expectativa de que um

65


ostensivo de atiradores de elite e drones não tripulados. Elas incluem ainda o apagamento da diferenciação entre civis e militares ao considerar que todos os membros de determinado grupo são riscos potenciais. Se em nações economicamente desenvolvidas o militarismo urbano se mobiliza sobretudo contra o terrorismo, em países como o Brasil a tática se volta para os suspeitos de sempre. “Talvez a diferença principal entre esse fenômeno aqui e na Europa seja que lá se trata de uma nova tática para um novo problema, que é o terrorismo e a percepção dos imigrantes como ameaça. Já aqui esses mecanismos de segurança se voltam contra quem a polícia sempre se voltou: os mais pobres e os negros”, explica Erminia Maricato, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e autora do livro Para Entender a Crise Urbana (Expressão Popular). A implementação das Unidades de Polícia Pacificadora (upps) no Rio de Ja-

66

PARA TUDO A professora Emilia Maricato explica que o trânsito muitas vezes é usado como mecanismo de contenção social. Um exemplo seria um projeto de lei que prevê a aplicação de multa para pedestres que bloquearem as ruas sem autorização do órgão competente.

neiro seria o melhor exemplo

a Copa e a Olimpíada, é justi-

de urbanismo militar à brasi-

ficar a adoção de medidas de

leira. “Ali vemos todos os in-

vigilância. Ataques terroristas

gredientes: a tentativa de con-

também são aproveitados pelos

trolar o fluxo de moradores, a

governos como pretexto”, afir-

lógica de conter um território

ma a professora. “As pessoas se

dentro da própria cidade, uma

tornam menos críticas nessas

socioespacial desigual e tensa”,

guerra de longa duração con-

ocasiões, além de terem um en-

diz. “A ideia é deixar os traba-

tra um inimigo difuso, o isola-

tendimento equivocado de que

lhadores pobres o mais longe

mento de toda uma população

‘quem não deve não teme’ e de

possível das vistas e do conví-

periférica”, diz Maricato.

que esses mecanismos só se-

vio com as elites. Mas não tão

O medo e o risco de um ata-

rão usados contra bandidos,

distantes assim, para que con-

que iminente seriam ingre-

que bandido é sempre o outro.”

sigam cumprir suas funções

dientes fundamentais para

to-chave para entender como essa questão opera no Brasil. “Existe um padrão de segregação residencial e uma maneira de lidar com o transporte público que refletem uma ordem

como porteiros, empregadas

que medidas de controle fos-

CADA UM NA SUA

sem aprovadas. “A gente sabe

Mas a lógica de militarização

Maricato cita a forma como

que uma das funções dos even-

não está presente apenas em

o transporte público e o trân-

tos internacionais hoje, como

aparatos tecnológicos e na po-

sito são utilizados como me-

lícia — a própria forma de or-

canismos de contenção social.

ganização das cidades é afe-

“Isso a gente vê todos os dias,

tada por ela. Para Maricato, a

com a precariedade intencio-

mobilidade urbana é um aspec-

nal do transporte, mas tam-

domésticas, babás e diaristas.”


Brasil na vanguarda Desde os anos 1990, geógrafos e sociólogos brasileiros afirmam que o mundo estaria passando por um processo de “abrasileiramento” ao incorporar elementos como condomínios fechados e segurança privada

UM EXEMPLO EXTREMO de divisão do espaço urbano brasileiro por motivos de segurança são os condomínios Alphaville, em São Paulo, uma tentativa de criar bairros planejados e privatizados de alto padrão que incluem serviços e moradia. Nesses locais, é formada uma espécie de comunidade autossuficiente, onde o pertencimento de

seus habitantes é construído a partir do poder aquisitivo. Urbanistas também indicam como a precariedade intencional do transporte público e a falta de serviços para os pobres transformam os bairros ricos brasileiros em lugares quase inacessíveis aos outros cidadãos. Outro exemplo extremo de urbanismo militar à brasileira são as Unidades de

Polícia Pacificadora, as UPPs. “Elas naturalizam o fato de que o poder público não tem domínio sobre uma grande parte do território das cidades e cria uma lógica de exceção ao implementar procedimentos muito distintos daqueles usados em outras regiões da cidade”, explica Erminia Maricato, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

domínios que funcionam quase como ilhas e os mecanismos de segurança privada, foram se generalizando pelo mundo.” bém acontece como medida

Talvez as cidades brasileiras

Para a professora Marica-

de exceção quando os ônibus

sejam um exemplo negativo do

to, o problema do discurso do

da periferia deixam de circu-

que acontecerá no futuro com

medo é que ele funciona: “As

lar pela zona sul do Rio de Ja-

centros urbanos que embarcam

pessoas até podem achar essas

neiro, por exemplo, ou quando

agora no fenômeno descrito por

medidas de contenção um pou-

as autoridades de trânsito de-

Graham. “Desde os anos 1990,

co extremas, mas como resistir

liberam sobre a legitimidade

geógrafos e sociólogos brasilei-

a elas diante de ameaças cons-

de uma manifestação popular”,

ros já apontavam o fato de que

tantes?”. A chave para frear o

diz. Um exemplo disso seria o

o mundo estava vivendo uma

fenômeno de militarização das

Projeto de Lei nº 325/2016,

‘onda de brasilização’”, afirma

cidades, segundo Graham, está

do senador Pedro Chaves

Rodrigo Ghiringhelli de Aze-

na substituição do medo pela

(psc-mt), que prevê a aplica-

vedo, professor de Sociologia

valorização das coisas que não

ção de multa de r$ 3.830,80

da puc-rs e membro do Fórum

consideramos familiares. “A

para pedestres que bloquearem

Brasileiro de Segurança. “Com

base do urbanismo militar está

o trânsito sem autorização do

o acirramento das desigualda-

na demonização do outro, seja

órgão competente. Para os or-

des e da cultura do medo, fe-

do imigrante, seja do periféri-

ganizadores de manifestações,

nômenos que aqui vemos há

co”, diz. “Devemos responder

a multa seria três vezes maior.

tempos, como a lógica dos con-

com doses cada vez maiores de valorização das diferenças, precisamos entender que essas diferenças dão vida às nossas cidades”.

67


TUDO É LUZ Exoesqueleto brilhante de camarão 10x

FOTOS WALDO NELL

DESIGN JOÃO PEDRO BRITO

TEXTO ANDRÉ JORGE DE OLIVEIRA

68


S

BRILHO E

C

R

E

T

O

Fotógrafo usa microscópio para revelar a beleza oculta de um fenômeno curioso que faz as estruturas biológicas ficarem brilhantes após absorção de raios de luz


BEBIDA QUE PISCA Colônia de diatomáceas coletada em amostra de água 40x

WALDO NELL NÃO É O PEQUENO PRÍNCIPE, mas para ele o essencial também é invisível aos olhos. Tanto que, para explorar esse mundo secreto e fascinante, o fotógrafo sul-africano que vive no Canadá tratou de comprar um microscópio óptico e, desde então, se propôs a fazer uma série de experimentações. Ele coloca qualquer coisa sob as lentes, de penas de pavão a tecidos de seres vivos. O ensaio fotográfico que estampa estas páginas, um dos mais bonitos de Nell, capta o encanto luminoso e escondido da autofluorescência — fenômeno pelo qual determinados compostos de estruturas biológicas emitem brilho próprio depois de absorverem a luz de alguma fonte externa.

70

ÍCONE: IconfactoryTeam / the Noun Project


O HIDROZOEIRO Autofluorescência detectada em tecido de hidrozoário 20x


CONÍFERAS TAMBÉM BRILHAM Substância fluorescente na agulha de pinheiro-silvestre 4x


FAZENDO ALGAZARRA Excitação ultravioleta em alga da ordem Desmidiales coletada na água da floresta canadense Green Timbers

60x

73


ASTROS DA

ASTRO

FÍSICA POR THIAGO DE ARAÚJO

FOTOS TOMÁS ARTHUZZI

DESIGN MAYRA MARTINS

74


LIVRO CONTA A HISTÓRIA DO TRIO DE CIENTISTAS QUE DEU INÍCIO À JORNADA EM BUSCA DAS ONDAS GRAVITACIONAIS — A SINFONIA DO COSMO QUE EXPLICARÁ OS GRANDES MISTÉRIOS DA ASTRONOMIA

dois buracos negros que há mais de 1 bilhão de anos colidiram no espaço à velocidade da luz — foi esse o som captado por aqui. E é a história dessas cinco décadas que serve de pano de fundo para o livro A Música do Universo , da cientista Janna Levin, lançado em setembro pela Companhia das Letras. “Seria apenas um livro científico sobre buracos negros, mas a razão de escolher esse caminho de escrever sobre o LIGO foi perceber que havia ali uma grande história: insana, maluca e maravilhosa”, diz Levin à GALILEU. E os protagonistas dessa história maluca são um trio de físicos que “abalou

75

as estruturas” da ciência a partir dos anos 1960. Como em uma banda, cada um deles representou um personagem distinto, com personalidade e talento característicos.

ÀS 6H51 DO DIA 14 DE SETEM-

A BANDA

BRO DE 2015, O UNIVERSO

Filho de um médico comunista e de

“tocou a sua música” para o homem

uma atriz, Rainer Weiss fugiu com

pela primeira vez. Quer dizer, não

sua família da Alemanha nazista

foi bem isso. Na verdade, por bi-

na década de 1930. Nos Estados

lhões de anos o espaço seguiu e se-

Unidos, tomou gosto pela música

gue tocando a própria trilha sonora,

e dedicou-se à missão de acabar

mas foi só há pouco mais de um

com o chiado das canções de seus

ano que a humanidade conseguiu

discos preferidos. Matriculou-se no

escutá-la pela primeira vez e com-

MIT para estudar engenharia acús-

provar aquilo que o cientista ale-

tica, mas terminou a carreira aca-

mão Albert Einstein (1879-1955)

dêmica no departamento de física,

previu há cerca de cem anos: a exis-

onde, em 1972, concluiu a constru-

tência de ondas gravitacionais.

ção de um pequeno detector de on-

A “sinfonia” tocada pelo universo

das capaz de identificar todas as

foi ouvida por alguns poucos segun-

frequências dos sons fundamentais.

dos nas duas sedes do Observatório

O experimento demonstrou que

de Ondas Gravitacionais por

era possível construir aparelhos

Interferometria a Laser (LIGO,

sensíveis o bastante para captar

na sigla em inglês) nos Estados

ondas gravitacionais. Mas, para

Unidos. Mas as cinco décadas an-

que isso acontecesse, os detecto-

teriores à descoberta astronômica

res precisariam ser bem maiores

mais expressiva deste século foram

do que aqueles que Weiss era ca-

tão ruidosas quanto o estrondo de

paz de montar em seu laboratório.


PERGUNTASFREQUENTES Quase tudo que você precisa saber sobre o LIGO (porque tudo é muita coisa)

76

OQUEÉOLIGO? O Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferometria a Laser (LIGO, na sigla em

Enquanto isso, o barbudo e

lembra Weiss, que na época já

boêmio Kip Thorne cuidava da

era conhecido entre os colegas

própria carreira na costa oes-

por seu detector de ondas.

te. Ele vinha de Utah, onde vi-

Durante a conversa, começa-

veu com a família em uma co-

ram os planos para a construção

munidade mórmon até que a

de um grande interferômetro

mãe, doutora em economia, re-

de ondas gravitacionais.

solveu romper com a igreja lo-

Thorne se ofereceu para tocar o

cal. Thorne se encantou pela

projeto no Instituto de Tecnologia

astronomia ainda na infân-

da Califórnia, mas se recusava a

cia, e acabou se especializan-

fazer tudo sozinho, e Weiss, en-

do em física teórica e astrofísi-

tão, acabou sugerindo o nome do

ca pela Universidade Princeton

britânico Ronald Drever. “Uma

e pelo Instituto de Tecnologia

pessoa que eu não conhecia, com

da Califórnia (Caltech). Em

quem nunca tinha me encontra-

1970, aos 30 anos, já conta-

do, mas que eu começava a per-

va com uma ampla produção

ceber que era muito inteligente”,

acadêmica sobre estrelas, bura-

diz Weiss. Embora desde cedo de-

cos negros e, claro, ondas gra-

monstrasse possuir um gênio difí-

vitacionais. Foi o interesse por

cil, Drever era, de fato, brilhante:

todas essas áreas que o fez cru-

bolsista em Harvard e com traba-

inglês) foi desenvolvido para explorar o campo da astrofísica por meio da detecção de ondas gravitacionais, conforme previsto pela Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein.

QUANTOCUSTOU? Desde o início da construção dos laboratórios, em 1994, até este ano, foram investidos cerca de US$ 1,1 bilhão, com financiamento da Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos.

zar o caminho de Rai Weiss, em 1975, durante uma reunião do comitê da Nasa em Washington. Embora ambos estivessem interessados no estudo das ondas gravitacionais, a primeira impressão ao se conhecerem não foi das melhores. “Fui buscar Kip no aeroporto de Washington. Pensei: ‘E essa, agora?’. Ele tinha cabelos longos e oleosos. Usava gravata. Munhequeiras. Um doido completo. Para mim, era só uma figura muito engraçada — como eu também devia parecer a ele”, afirma Weiss em um trecho do livro A Música do Universo. O estranhamento inicial foi superado após uma discussão, que adentrou a madrugada, sobre a gravitação e suas possibilidades de estudo. “Fizemos um esquema gigantesco numa folha de papel, com todas as áreas no estudo da gravidade. Onde haveria um futuro ali?”,

OLHA A ONDA Captadas no ano passado, as ondas gravitacionais comprovam a Teoria da Relatividade de Einstein

De acordo com a Teoria da Relatividade, a presença de matéria ou energia causaria uma deformação na geometria do espaço e vice-versa. Imagine uma cama elástica. Se você coloca uma bola de gude sobre ela, a bolinha se move em linha reta. Mas se trocar a bola de gude por uma de chumbo, ela causará uma deformação na cama elástica. Colocadas várias bolas de gude no mesmo espaço da bola de chumbo, elas serão afetadas

pela curvatura da cama elástica — efeito causado pela gravidade, segundo Einstein. Esse aspecto causa, inevitavelmente, perturbações no espaço, que se propagam por meio das ondas gravitacionais. Esses fenômenos são resultado de alterações não só no espaço como no tempo. A “canção” registrada pelo LIGO em 2015 é produto de uma mudança espacial, a colisão de dois buracos negros, que aconteceu há 1,3 bilhão de anos.

Sede 1 Hanford/WA


relação de Drever, conhecido pelo

COMOFUNCIONA?

ONDEFICA? O LIGO tem duas sedes nos Estados Unidos: uma em Livingston, na Louisiana, e outra em Hanford, no estado de Washington.

Espelhos nas extremidades dos dois eixos são arranjados de modo que reflitam repetidas vezes um poderoso feixe de laser pelo sistema. O instrumento é delicado o suficiente para captar a distorção que uma onda gravitacional provoca no tecido do espaço-tempo.

QUALÉOTAMANHO? Cada um dos laboratórios do LIGO foi projetado com dois braços de 4 quilômetros que formam um ângulo de 90 graus entre seus eixos. Além dos observatórios de detecção de ondas gravitacionais, o projeto científico conta com o apoio de dois centros de pesquisa — um no MIT e outro

Sede 2 Livingston/LA

no Instituto de Tecnologia da Califórnia, ambos localizados nos Estados Unidos.

temperamento difícil, com o resto da equipe começou a degringolar antes de o dinheiro chegar. O escocês defendia que um interferômetro cientificamente viável poderia ser entregue na base do talento e da habilidade experimental, e Weiss discordava, o que causava uma queda de braço diária. Quando a liderança do projeto foi retirada do trio e repassada a outra pessoa, o também professor Rochus Vogt, as coisas pioraram de vez. Vogt simplesmente não tinha paciência para os arroubos de Drever. “Vogt vivia gritando com ele. Um dia eu disse: ‘Por que você não vai embora quando ele fizer de novo?’. Drever respondeu: ‘Posso fazer isso?’. Não dava para acreditar como Ron era ingênuo”, lembra Peter Goldreich, colega dos dois no Caltech. No fim, Drever acabou sendo dispensado. Ele seguiu tendo um laboratório no Caltech,

lhos na área de ondas gravitacio-

mas jamais pôde retornar ao proje-

nais desenvolvidos na Escócia,

to que levantaria voo apenas anos

onde já tinha projetado e cons-

depois da sua expulsão.

truído o próprio interferômetro,

77

ele foi convidado para integrar

O observatório de Hanford, erguido no início da década de 1990,

o projeto em 1978. Em 1983, de-

levaria 21 anos para registrar, no

pois de alguns anos de resistência,

final de 2015, a sua primeira de-

Drever finalmente assumiu suas

tecção de ondas gravitacionais.

funções em definitivo no Caltech. Na mesma época, o MIT de Weiss trabalhava separadamente em alguns outros conceitos e em outro protótipo. Coube a Thorne ser a “ponte” para a união de esforços. E formou-se assim o trio de cabeças pensantes que posteriormente foi batizado de “A Troika”. Foi também nessa época que o projeto ganhou um nome: LIGO.

O SONHO ACABOU?

MEU DESTINO É SER STAR

Quem foram os cientistas responsáveis pela comprovação da existência das ondas gravitacionais

RAINERWEISS BERLIM (ALEMANHA)

Cientistas de outros países tam-

29/09/1932

bém investiam pesado na tentativa

ESPECIALIDADES:

de captar as ondas gravitacionais, mas ninguém tinha mais dinheiro, estrutura e ideias do que o power trio de físicos. Um protótipo de 40 metros foi erguido no Caltech e, no início dos anos 1990, o grupo de cientistas foi ao Congresso dos Estados Unidos pedir US$ 200 milhões para finalmente colocar o observatório de pé. Mas a

Física, gravitação experimental e medições cósmicas. LEGADO:

Weiss foi um dos precursores de dois campos fundamentais da física moderna: a caracterização das medições de radiação cósmica e a observação e análise das ondas gravitacionais.


KIPSTEPHENTHORNE

Nesse meio tempo, Thorne já tinha trocado o laboratório por Hollywood — ele escreveu textos técnicos inclusive para o fil-

LOGAN, UTAH (EUA)

me Interestelar. Ronald Drever,

01/06/1940

o mais rebelde do trio, sofre de demência e vive em uma casa de

ESPECIALIDADES:

Astrofísica e física gravitacional.

repouso na Escócia. Da Troika original, somente Weiss ainda coloca a mão na massa de tem-

LEGADO:

Thorne deu ênfase à astrofísica relativista e à física gravitacional, com destaque para temas como buracos negros e estrelas. Tornou-se conhecido dentro e fora da comunidade científica por defender que os “buracos de minhoca” possibilitariam a realização de viagens no tempo.

pos em tempos. Ele supervisiona, sempre que possível, os dois túneis de concreto do observatório, com 4 quilômetros de comprimento e 18 mil metros cúbicos de puro vácuo, tanto em Livingston quanto em Hanford.

A HORA DO SHOW Para a autora de A Música do Universo, a detecção das ondas gravitacionais foi um momento tão

sado é apenas o começo de uma

importante quanto aquele em que

longa empreitada científica cujo

Galileu Galilei utilizou um teles-

sucesso é difícil de prever. Na

cópio para observar imagens am-

teoria, a colisão de estrelas de

pliadas do céu e, consequentemen-

nêutrons ou a explosão de su-

te, do espaço, em 1609. “Quando

pernovas também poderão, um

Galileu olhava para o Sistema Solar

dia, ser captadas, e isso valeria

com um telescópio, ele teve con-

até mesmo para o Big Bang, que

dições de dizer ‘nós não estamos

aconteceu há 13 bilhões de anos.

no centro do Sistema Solar’, e isso

Porém, isso depende do avanço

exerceu total impacto sobre quem

tecnológico dos detectores de

somos no mundo”, afirma.

ondas — além dos dois equipa-

O choque de buracos negros

mentos nos Estados Unidos, há

captado pelo LIGO no ano pas-

um instrumento em operação na Itália, outro no Japão e mais um a ser concluído até 2024 na Índia. “Fiquei apaixonada pela his-

RONALDWILLIAMPRESTDREVER

tória dos cientistas e por aquilo que estavam tentando atingir”, conta Janna Levin. Mas como,

PAISLEY (ESCÓCIA)

afinal, a “música” formada pe-

26/10/1931

las ondas gravitacionais poderia ser explicada? “Echoes”, do Pink

ESPECIALIDADES:

Estabilização de lasers e experimentos de interferometria para a detecção das ondas gravitacionais. LEGADO:

Pesquisas desenvolvidas por Drever nos anos 1960 e 1970 foram fundamentais para o desenvolvimento dos interferômetros instalados nos laboratórios do LIGO, equipamentos sensíveis o bastante para a captação de ondas gravitacionais.

Floyd, seria uma boa sugestão de

78

comparação aos ouvidos humanos. É uma canção com duração enorme, de 23 minutos, completamente caótica, cheia de ritmos diferentes, o que torna impossível prever a melodia a seguir. “Ela expressa a diversidade em termos de ondas gravitacionais no universo”, afirma Odylio Denys de Aguiar, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O cosmo, afinal, também é rock and roll.


CURTO-CIRCUITO

POR DOUGLAS UTESCHER*

QUADRINHOS

POR DOUGLAS UTESCHER*

MUNDO CÃO As publicações do paulista Murilo Martins exalam nobreza. Tanto em Eu Sou um Pastor Alemão como em Eu Era um Pastor Alemão, as características reservadas à notória raça canina se fazem presente. Lealdade, responsabilidade e elegância são o norte do personagem desses quadrinhos com pinta aristocrática, que Murilo chama mui apropriadamente de “novelas pictóricas”. Com o linguajar rebuscado reservado aos tipos mais cavalheirescos de cachorros, o leitor acompanha a trajetória de Cão, um pastor-alemão

QUADRINHO MOSTRA A DURA ROTINA DE PASTOR-ALEMÃO E LEVA LEITOR A REFLETIR SOBRE O PRÓPRIO DIA A DIA

muito preocupado em manter seu rebanho unido e a salvo dos lobos. Se na primeira HQ ele consegue exercer sua função com maestria, já não se pode usar o mesmo adjetivo na segunda história, na qual Cão se vê às voltas com lobos selvagens e precisa aprender a recuperar seus instintos primordiais. Apesar de se passar no mundo animal, a história diz muito respeito aos seres humanos, nos fazendo refletir sobre o valor que damos ao trabalho. O traço limpo e quase geométrico de Murilo Martins remete a um Chris Ware mais condescendente com o

EU ERA UM PASTOR ALEMÃO Murilo Martins 74 páginas, R$ 24,90 polenlivros.iluria.com

leitor. Tudo reflexo de seu primeiro trabalho, Love Hurts, obra mais pessoal, que ganhou o Prêmio Angelo Agostini de melhor lançamento independente em 2012. As obras atuais podem não trazer as reflexões sobre o amor da primeira, mas nos fazem questionar: se o mundo nos força a fazer parte de um rebanho, os obedientes são as ovelhas ou aqueles que pensam que estão no comando reproduzindo ordens sem questionar? *Criador da editora e loja Ugra Press

79


PANORÂMICA FOTO EZEQUIEL BECERRA

Ardente como a fúria de um vulcão: localizado na cidade de Cartago, na Costa Rica, o Turrialba entrou em erupção no dia 20 de setembro e expeliu uma nuvem de cinzas

80


que chegou a quase 4 mil metros de altura, espalhando partículas de rochas e gases pelo ar. O país da América Central tem cinco vulcões ativos em seu território.

PESQUISA: Franklin Barcelos FOTO: AFP/Getty Images

81


ULTIMATO DECIDIU DIMINUIR SEU IMPACTO NO PLANETA E, DE QUEBRA, AINDA SE ALIMENTAR MELHOR?

PARA FAZER A DIFERENÇA AGORA QUE VOCÊ LEU A REVISTA, SAIA DO SOFÁ

QUER CRIAR CRIANÇAS SEM ESTEREÓTIPOS E ENSINAR-LHES REPRESENTATIVIDADE?

GOSTARIA DE SABER MAIS SOBRE ESGOTOS E LUTAR POR MELHORIAS NO SANEAMENTO?

LER SOBRE AS GUERRAS NA ÁFRICA O MOTIVOU A APOIAR OS DIREITOS HUMANOS?

A ENTREVISTA COM MARCELO GLEISER O INSPIROU A PESCAR OS MISTÉRIOS DO COSMO?

Das emissões brasileiras de CO2, 66% provêm de atividades agropecuárias.

A cada dois conflitos que estouram no mundo, um deles ocorre em algum dos 54 países africanos.

PRETA PRETINHA

Sucesso entre educadores e psicólogos, o ateliê reproduz a diversidade social com bonecas negras, orientais, muçulmanas, entre outras. Há também cadeirantes e amputadas. pretapretinha.com.br

SÓ + 1 MIN. Aconteceu em outubro, mas não coube na revista

RESPONSA

Recém-lançado, o aplicativo (apenas Android) mostra em um mapa hortas comunitárias, feiras e restaurantes com alimentos orgânicos perto de você. Funciona em todo o país. consumoresponsavel.org.br

MAPA FANTASMA

Em palestra do TED, o pesquisador Steven Johnson descreve como o médico John Snow foi genial ao descobrir as causas de uma epidemia de cólera na Londres do século 19. is.gd/T3RtdU

FIASCO Nossos sentimentos a quem tinha um Samsung Galaxy Note 7 e, a esta altura, já está pagando a primeira prestação de um novo celular. Após aparelhos pegarem fogo, a produção do modelo foi encerrada e ninguém mais deve utilizá-lo.

Faça seus planos: um novo estudo diz que o máximo que um humano atual pode viver é 115 anos.

HUMAN RIGHTS WATCH

ONG criada em 1978 para denunciar abusos e violações dos direitos humanos em mais de 90 países. É possível doar pelo site da instituição, que não aceita dinheiro de governos. hrw.org

MAIS FIASCO O Facebook lançou o serviço Marketplace para usuários fazerem negócios. No primeiro dia, já precisou se desculpar. Anúncios de drogas, armas, serviços sexuais e até de filhotes de porco-espinho passaram pelo filtro.

SANEAMENTO JÁ

Campanha da Fundação SOS Mata Atlântica com mais de 40 organizações coleta assinaturas em uma petição exigindo esgoto tratado e água limpa em praias e rios. saneamentoja.org.br

PRA LÁ DE BAGDÁ O ministro iraquiano dos Transportes, Kadhem Finjan al-Hamami, afirmou que há 7 mil anos o povo sumério, que habitou a região, já lançava naves espaciais. Não parou por aí: ele também atribuiu a eles a descoberta de Plutão.

QUESTIONE A REALIDADE Curso online gratuito na edX oferecido por Gleiser e colegas de Dartmouth. Legendado em português, mescla física e filosofia para explicar a natureza. Começa em 31 de janeiro. bit.ly/2dIn5Vl

BEM-VINDO Falando no nosso querido Plutão, um novo planeta anão foi descoberto no Sistema Solar pela Universidade de Michigan. Muito prazer, 2014 UZ224. O corpo está a 13,6 bilhões de quilômetros de distância do Sol.


Galileu NOV16