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rosana ricalde a beleza e a verdade


o fio de ariadne / 2011 rolo feito com tiras do livro as mil e uma noites 30x30x30cm


ARTE

CONTEMPORÂNEA

De segunda a sexta, das 10 às 19 horas Sábados, das 11 às 16 horas Shopping Cidade Copacabana Rua Siqueira Campos, 143 Sl. 32 (galeria) e Sl. 80 (acervo) Copacabana – Rio de Janeiro +55 21 2236-4670 cosmocopa@gmail.com www.cosmocopa.com Diretores Artísticos Felipe Barbosa e Rosana Ricalde Diretor Executivo Álvaro Figueiredo Gerente Geral Roberta Alencastro Atendimento Bruno Monnerat Acervo e Transporte Teresa Gonçalves Assuntos Gráficos Lin Lima Elenco Alex Topini Edgar Orlaineta Felipe Barbosa Geraldo Marcolini Hugo Houayek Leila Danziger Leo Ayres Lin Lima Louise D.D. Marta Neves Mônica Rubinho Murilo Maia Rafael Alonso Rodrigo Oliveira Rosana Ricalde Sidney Philocreon


vizinhança incomum

sheila cabo geraldo

historiadora e crítica de arte, professora do programa de pós-graduação em artes da UERJ, editora da revista concinnitas e presidente da associação nacional de pesquisadores em artes plásticas.

As fábulas de As mil e uma noites, narradas por Scheherazade, constroem o mapa quadrangular do labirinto com que Rosana Ricalde abre esse ensaio. Assim como no desenho do labirinto, também na imagem subsequente o texto forma o novelo de O Fio de Ariadne − como aquele que, na mitologia grega, a filha do rei Minos oferece a Teseu para que o grego não se perca no labirinto de Creta e vença o Minotauro. As linhas do mapa e os fios do novelo são efetivamente trechos recortados e emendados da coleção de contos populares do Oriente Médio e do sul da Ásia, cuja ardilosa narradora é capaz de vencer a truculência pela força da narrativa e pelo envolvimento nas tramas do texto. Diante dessa intrigante associação feita por Rosana entre o labirinto e os tradicionais contos, impõe-se a pergunta sobre a ordem dessas aproximações. Se a inteligência perspicaz da esposa do rei das terras orientais e a imaginação de Ariadne se identificam enquanto capacidade estratégica na desigual batalha pela sobrevivência, na primeira, e pela liberdade, na segunda, o que é essa aproximação no trabalho que Rosana vem desenvolvendo nos últimos anos? A princípio se poderia concluir que aquilo que constrói essa aproximação passaria, necessariamente, pela negação de um certo pensamento dedutivo, afirmando-se como estrutura que propicia randomicamente diferentes caminhos para a construção de sentido. Assim é que se apresenta como forma-objeto essa esfera-novelo-de-Ariadne cujos trechos, de impossível leitura linear, se enrolam, encadeados na pura aleatoriedade, como a ordem de vizinhança incomum da enciclopédia chinesa descrita por Borges, a que Foucault se refere em As palavras e as coisas, não por acaso um livro que


capa - s/ título / 2011 desenho de conchas sobre papel pintado 21 folhas 100cm de diâmetro

também foi cortado em tiras e remontado na forma de cubos, deixando à mostra trechos de frases e palavras, que se juntam no acaso de um jogo de dados, como na poesia de Mallarmé. Também nas plantas-labirintos, de escala quase gigantesca, as diminutas frases delicada e precisamente recortadas do livro de contos orientais − por si só uma compilação de narrativas que vêm sendo transformadas por sucessivas traduções e publicações −, encadeiam-se na pura lógica dos próprios contos, ou seja, naquela em que, como percebeu Walter Benjamin, um texto chama o outro, que chama o outro, indo, assim, além do texto e construindo, na tessitura labiríntica da narrativa, o envolvimento capaz de amainar toda e qualquer ânsia de destruição, seja decorrente da incapacidade de superação de frustrações do marido-rei ou da mítica impossibilidade da desobediência aos deuses. Rosana faz, nessa ordem de descontinuidade e fluxo, avizinharem-se as trajetórias entrelaçadas do labirinto e as da narrativa sem fim do conto oriental, construindo ela também uma narrativa entrelaçada, sem fim e assintática. É assim que uma frase chama outra, que chama outra. Mas também um labirinto chama outro, que chama outro. É assim, ainda, com as plantas traçadas com frases recortadas do livro As cidades invisíveis, de Italo Calvino, como foram com os “fabulosos” mapas das viagens de Marco Polo, mas também com os muitos mapas celestes e infindáveis mapas dos mares e correntes marítimas, em que os nomes tomam o lugar do não lugar das águas em movimento; afinal, como escreve Foucault sobre Borges, onde senão na linguagem essa aproximação de não associáveis é possível?


a beleza e a verdade / 2003 prumo de pedreiro cromado onde foi gravada de um lado a palavra beleza e do outro a palavra verdade. 3x3x8cm


Walter Benjamin percebeu que os contos compilados de Scheherazade têm a estrutura que ele descrevera quando estudou a narrativa barroca, ou seja, um não acabamento essencial, que os coloca em consonância com a narrativa aberta. Para Benjamin, é assim que os contos concentram uma plenitude de sentido, que possibilitam uma profusão ilimitada de associações, um movimento infinito, que também é um perene ativar da memória, voluntária ou involuntária. No livro de Calvino, que Rosana também corta em tiras, Marco Polo é o narrador que conta a Kublai Klan histórias sobre cidades que supostamente rememora. Sobre Zora escreve: Essa cidade que não se elimina da cabeça é como uma armadura ou um retículo em cujos espaços cada um pode colocar as coisas que deseja recordar: nomes de homens ilustres, virtudes, números, classificações vegetais e minerais, datas de batalhas, constelações, partes do discurso.

Como um processo também rememorativo, Rosana refaz com o discurso recortado de Calvino os mapas das cidades das quais certamente quer guardar algo: Lisboa, Atenas, São Paulo, Nova York, Rio de Janeiro. Mais do que relembrar o que viveu, entretanto, apresenta em suas plantas rendilhadas das cidades concretas, visíveis, como as próprias cidades, os espaços vagos a preencher com as experiências, as memórias, os desejos de cada um, espaços que, como em Proust, desordenadamente e em fluxo, são as zonas invisíveis de cada cidade. Rosana constrói, assim, para além do discurso utópico de Marco Pólo, verdadeiras cidades heterotópicas.


atrás da liberdade / 2010 dicionários de diversas épocas e idiomas onde a palavra liberdade foi retirada – e com essas palavras retiradas foi feito um desenho.


sem tĂ­tulo / 2011 desenho sobre papel pintado 21 folhas


sem título / 2011 série de pinturas redondas sobre madeira - mapas celestes imaginários diâmetros :30cm / 40cm/60cm 70cm/80cm/90cm/100cm


sem tĂ­tulo / 2011 sĂŠrie de pinturas redondas sobre madeira - mapas celestes imaginĂĄrios


as mil e uma noites / 2009 labirinto feito com tiras do livro as mil e uma noites. colagem sobre papel. 150x150cm


a invenção da solidão / 2001 livros de diversos autores que em algum momento tratam da solidão abertos em caixa de madeira com tampa de vidro, desenhos automáticos são feitos sobre o vidro, deixando a mostra apenas o trecho que fala da solidão.


os 7 mares, 2010 fotografias da areia de 7 praias, utilizando moldes infantis para fazer esculturas na areia. 20x30cm cada foto

conchas, 2010 desenhos de conchas em diversas cores sobre papel vegetal sobreposto, montagem em backlight. 50x100cm


sem tĂ­tulo / 2011 desenho de conchas sobre papel pintado 21 folhas


Rosana Ricalde Niterói - RJ 1971 Reside e trabalha em Rio das Ostras, RJ - Brasil

Formação Bacharel em Gravura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - Escola de Belas Artes Exposições individuais 2011

A Beleza e a Verdade - Galeria Cosmocopa, Rio de Janeiro; O Llivro das Questões - Baró Galeira, São Paulo.

2009 O Navegante - Galeria Arte em Dobro, Rio de Janeiro; Mundo Flutuante - Galeria Baró Cruz, São Paulo; O Percurso da Palavra - Centro Cultural Banco do Nordeste, Fortaleza/CE; Palavras Compartilhadas - SESC São Paulo, SESC Pernambuco, SESC Paraíba, SESC Tocantins. 2008 Palavras Compartilhadas - SESC Paraná, Mato Grosso do Sul, Maranhão, Ceará e Brasília; Mar de Papel - Galeria 3+1, Lisboa/Portugal; 2007 Cidades Ocultas - Galeria Arte em Dobro, Rio de Janeiro; Jardines Móviles (parceria com Felipe Barbosa) - La Casa Del Lago - Universidad Autônoma de México, Cidade do México/México; 2006 Todos os Nomes - Galeria Amparo 60, Recife/PE; Horizonte Azul - Galeria Mínima, Rio de Janeiro. 2005 Móvel Mar - Galeria Casa Triângulo, São Paulo; Poesia DES-Regrada - Castelinho do Flamengo, Rio de Janeiro; 2004 Palavra Matéria Escultórica - Museu de Arte Contemporânea de Niterói, Niterói; Programa de Exposições Centro Cultural São Paulo, São Paulo; Exercício da Possibilidade - Centro Universitário Maria Antônia, São Paulo; 2003 Casa de Cultura da América Latina, Brasília/DF; Insola(R)ções - Solar Grandjean de Montigny, Rio de Janeiro; 2002 Centro Cultural Oduvaldo Vianna Filho - Castelinho do Flamengo, Rio de Janeiro; 2001 Vento Contentamento - Galeria do Centro de Artes UFF, Niterói; Verba Volant, Scripta Manent - Espaço Maria Martins, Rio de Janeiro. Últimas coletivas 2011

‘MAPPAMUNDI’ - Museu Colecção Berardo; Ya sé leer - Centro de Arte Contemporaneo Wilfredo Lam La Havana - Cuba; 2010 Arsenal - Galeria Baró, São Paulo; 3°Prêmio CNI-SESI Marcantonio Vilaça para as artes plásticas - MAM RJ, MAC USP; O Lugar da Linha - MAC Niterói, Rio de Janeiro; Novas Aquisições 2007-2010 Coleção Gilberto Chateaubriand - MAM RJ; 2009 Obra Nome - Cavalariças Parque Lage - Rio de Janeiro; Nova Arte Nova, Centro Cultural Banco do Brasil - São Paulo; 2008 O Contrato do Desenhista - Plataforma revólver, Lisboa/Portugal; Entre Oceanos / 100 Anos de Aproximação entre Japão e Brasil - Memorial da América Latina, São Paulo; Sessão Criativa Brasil / Japão 2008 - Museu Municipal de Kawasaki, Kawasaki/Japão;


2007

2006

2005

2004

2003

Superfícies Minimales - Galeria Goran Govorcin Contemporary, Santiago de Compostela/Espanha; Nova Arte - Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro/RJ e São Paulo; V Bienal de Arte e Cultura de São Tomé e Príncipe, São Tomé/São Tomé; Eko Susak 2008 / Festival Internacional de ecocultura, Ilha de Susak/Croácia; Parangolé: Fragmentos desde los 90 en Brasil, Portugal y España - Museu Pátio Herreriano, Valladolid/Espanha; Entre a Palavra e a Imagem - Museu da Cidade de Lisboa - Portugal / Centro Cultural Vila Flor, Guimarães/Portugal; Novas Aquisições 2006-2007 Coleção Gilberto Chateaubriand - Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro; Entre a Palavra e a Imagem - Fundação Luis Seoane, A Coruña/Espanha; Primeira Pessoa - Itaú Cultural, São Paulo; 10 +1 Geração da Virada - Instituto Tomie Othake, São Paulo; Um Século de Arte Brasileira - Coleção Gilberto Chateaubriand - Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo - Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro; É Hoje/Mostra da Coleção Chateaubriand - Santander Cultural, Porto Alegre/RS; In site 05 - trienal internacional (em parceria com Felipe Barbosa), San Diego/Estados Unidos // Tijuana/México; Limite como potência - MNBA, Rio de Janeiro; Homo Ludens - Itaú Cultural, São Paulo; Amalgames Brésiliens - 18 artistes contemporains du Brésil - Musée del L’hôtel-Dieu de Mantes-la Jolie, Mantes-la-Jolie/França; Projéteis de Arte Contemporânea - FUNARTE, Rio de Janeiro / Carreau du Temple - Espaço Brasil, Paris/França; Trienal Poligráfica de San Juan, San Juan/Porto Rico; Perfil de uma coleção - coleção Randolfo Rocha - Centro Cultural Usiminas, Belo Horizonte/MG Coletiva do Programa de Exposições - Centro Cultural São Paulo, São Paulo; MAD 03 - 2° Encontro Internacional de Arte Experimental de Madri (trabalho em parceria com Felipe Barbosa) Madri/Espanha; Palavra Extrapolada - Mostra SESC Latinidades - Sesc Pompéia, São Paulo; Ponto de fuga || Área livre - Memorial da América Latina, São Paulo; Palavras + - SESC Copacabana, Rio de Janeiro; Repentes Visuais - Mostra SESC Latinidades, São Paulo.

Residências Artísticas 2008 São Tomé e Príncipe - V Bienal de Arte e Cultura; Ilha de Susak, Croácia - Eko Susak; 2005 Roterdam, Holanda - Perambulações. Prêmios Prêmio CNI-SESI Marcantonio Vilaça - III edição. Coleções públicas Coleção Coleção Coleção Coleção

Gilberto Chateaubriand, Museu de Arte Moderna - Rio de Janeiro; Fundação Patrícia Phelps de Cisneiros; Museu de Arte moderna Aluísio Magalhães MAMAM - Recife PE; Sesc Nacional.


ARTE

CONTEMPORÂNEA

Shopping Cidade Copacabana Rua Siqueira Campos, 143 – Slj. 32 (galeria) e Slj. 80 (acervo) Copacabana – Rio de Janeiro (estacionamento no local) +55 21 2236-4670 – cosmocopa@gmail.com

www.cosmocopa.com

Cosmozine # 8 Rosana Ricalde - A beleza e a verdade  

O Cosmozine #8 "A beleza e a verdade", mostra individual de Rosana Ricalde, texto de Sheila Cabo.