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hamlet eo filho do padeiro mem贸rias imaginadas


De conversa em conversa! Hospital psiquiátrico: pacientes pintam, esculpem; são – à sua maneira – felizes. Um repórter entrevista um “louco varrido”. O homem deslumbrava visitantes com suas esculturas fantásticas, em recém-inaugurada exposição. “É difícil esculpir?”, perguntou o jornalista. “Fácil”, disse o “louco”. “Ficando calmo, o resultado é melhor.” “Calmo eu sei, mas como é fazer melhor?” “Você pega uma pedra grande. Pensa em alguém: veja essa pessoa na imaginação, inteira. Olhos fechados, do jeito que só você vê! Escultura não é retrato – quem faz retrato é a câmera. Você é artista. Imagina, pega o martelo, o cinzel, e tira da pedra tudo que não seja essa pessoa! Joga fora o resto e só deixa na pedra esse alguém!” É fácil ser artista: basta ser louco! É fácil ser louco: basta ser artista. “Escreva sua biogra�a!”, sugeriu Talia Rodgers.1 Valeria a pena esculpir esta pessoa? Modelar coerências na pedra impura e excessiva da minha vida, moldar contornos do homem, supondo-se que tenha tido sentido a trajetória? Jogar fora “o resto” e descrever o que penso que sou ou tenha sido? Biogra�as dão ideia de missão cumprida. Eu, ao contrário, a cada novo �m, recomeço. “Caminhante: o caminho não existe – faz-se ao caminhar!” 2 – faço veredas, atalhos. Quero mais. Sou 1  Editora da Routledge, de Londres. 2  Antônio Machado, poeta espanhol.

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excessivo, demasiado. Seria incômodo falar de mim: no que faço, importa o feito, não o fazedor. Talia havia publicado três livros meus – lembrou que, neles, feito e fazedor se misturam. Para que melhor se entendesse o meu teatro, seria útil que eu desvelasse minha vida do meu jeito, não tintim por mais tim, pingos nos is, mas histórias, fatos e feitos. A�nal, quem sou? Sirvo pra quê? Instruções de uso – bula. O Teatro do Oprimido, de onde veio, pronde vai? Está nos quatro ângulos do mundo, mas onde cresceu criança? Eu achava imoral: Narciso mirando-se no espelho, belo, querendo-se mirado. Presunção e água benta. Vaidade. Recusei. Mesmo dizendo não, comecei a conversar com minhas irmãs, Augusta e Aída, e, de conversa em conversa, histórias foram voltando à vida. Comecei a ver a igreja da Penha pedra, rochedo onde me batizei aos onze anos, suportando água benta na cabeça, fugindo do sal na boca. Meu pai perdeu a hora de me batizar bebê e só abriu brecha no trabalho quando foi padrinho de um sobrinho: “Batizam-se os dois, �ca mais barato o padre”. “Deus há de entender a demora”, con�rmou minha mãe: sabia o que dizia quando falava do Céu e da Terra. Foi subindo no meu coração ternura imensa pelas personagens que voltavam a bailar comigo. Senti cheiros da infância, música de vozes, gosto de pão, manteiga derretida. Não madalenas proustianas: marias bentas, barrigas de frade, sonhos, quindins de iaiá. Senti ternuras até por mim, vejam só! Nem sei se mereço… Tomei decisão solene e me disse: “Autobiogra�a tem que ser póstuma: não escrevo! Mas, se escrevesse, como seria? Como se escreve biogra�a?”. Memória é invasora – lembrando-se uma, escura, mil assanhadas querem ser lembradas, invejosas. É contagiosa: lembrados lembram. Ciumentas, vaidosas: querem aparecer, estrelas. Memória vagabunda, detalhe, pensa merecer manchete e foto. Memórias são como nós, iguais. Eu fugia, espavorido: memórias me acordavam no meio da noite, sacudiam no �m do dia, soprando no ouvido: “Conta aquela: vão gostar, não duvido…”.


Procurei compreender, na tela trêmula, a trêmula vida: família, companheiros, amigos, inimigos – que os tive, mais do que merecido! Procurei contar meu teatro, sua gênese: nada de intimidades. Personagens importantes passaram de raspão: não denunciei ninguém. Não é meu feitio. Mudei nomes, pessoas, personagens. Os fatos são verdadeiros mas não aconteceram iguais ao meu jeito de contar: estilo existe! Juntei gentes numa só, poucas dividi em muitas; contei antes o que veio depois e, depois, o que nem veio… mas podia. Quando os aconteceres são incontestes, aí sim, vai nome e sobrenome; endereço, fax, telefone; cep, dna e cpf; e-mail, impressões digitais, retratos falados e tudo o mais. Juro dizer verdades, não meço sinceridades: coração grande muito abriga! Não juro verdade inteira, fria, solene: impossível. Memória e imaginação são inseparáveis siamesas, não univitelinas: parecem-se com poréns, que pena: uma loira, outra morena! Quem sou eu pra divorciar quem Deus mandou casar? Ele sabe o que faz, linhas entortadas. Espero que vocês gostem e, se perguntarem: “Será verdade?”, saibam: foi. A vida até agora tem sido como confesso aqui: não sei o que vem por aí.

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Hamlet e o filho do padeiro  

Introdução da autobiografia de Augusto Boal, publicada pela Cosac Naify em abril de 2014