Issuu on Google+


tradução Érico Assis

2


3


36


a casa número dezessete era mencionada apenas em voz baixa pelos

vizinhos. Conheciam bem os frequentes sons de gritaria, portas batendo e objetos quebrando. Mas numa abafada noite de verão, outra coisa aconteceu, algo bem mais interessante: a aparição de um grande animal marinho no gramado em frente à casa. No meio da manhã, todos os vizinhos já haviam notado a misteriosa criatura de respiração suave. Naturalmente, a cercaram para olhar melhor. “É um dugongo”, disse um garotinho. “O dugongo é um mamífero herbívoro raro e em extinção que vive no Oceano Índico, da ordem Sirenia, família Dugongidae, gênero dugong, espécie D. dugon.” Mas nada daquilo explicava como ele havia chegado naquela rua, que ficava a pelo menos quatro quilômetros da praia mais próxima. Fosse o que fosse, os vizinhos estavam bem mais preocupados em cuidar do animal encalhado, com baldes, mangueiras e toalhas molhadas, como haviam aprendido com os salvadores de baleias na tv. Quando o jovem casal que vivia no número dezessete enfim surgiu para ver a cena, com olhos turvos e confusos, o primeiro impulso deles foi de raiva e recriminação. “Você está de brincadeira?”, gritavam um para o outro, e também para alguns vizinhos. Mas essa reação logo deu lugar a um espanto silencioso quando se deram conta do absurdo da situação. Não havia nada que pudessem fazer a não ser ajudar no trabalho de resgate, ligando os irrigadores

37


e chamando um serviço de emergência apropriado, se é que isso existia (questão que eles debateram longamente, sem paciência, um tirando o telefone da mão do outro). Enquanto aguardavam os especialistas, os vizinhos se revezaram em afagar e confortar o dugongo, falando com seu olho de lento piscar – que lhes parecia estar tomado por uma tristeza profunda –, colocando o ouvido contra sua pele quente e molhada para ouvir algo baixinho e distante, mas ainda indescritível. A chegada do caminhão de resgate foi uma interrupção quase indesejável, com luzes laranjas piscantes e operários de macacões amarelo-fosforescente ordenando que todos saíssem de perto. A eficiência deles era impressionante: tinham até um tipo especial de guindaste e uma banheira grande o bastante para acomodar um mamífero de alto-mar dos grandes. Em questão de minutos já haviam transportado o dugongo para o veículo e ido embora, como se lidassem com esse tipo de problema a todo instante. Naquela noite os vizinhos ficaram impacientes, zapeando pelos canais de notícias atrás de alguma menção ao dugongo. Não encontrando nada, concluíram que o fato não era tão notável quanto a princípio pensaram. O casal do número dezessete voltou a discutir, desta vez sobre o conserto do gramado. A grama que ficara sob o dugongo estava agora inesperadamente amarela e morta, como se a criatura tivesse ficado ali por anos, e não por horas. Aí a discussão se voltou para algo totalmente diferente e um objeto, talvez um prato, estilhaçou-se na parede. Ninguém viu o garotinho, com uma enciclopédia de zoologia marinha na mão, sair pela porta da frente de casa, andar até a marca do dugongo e deitar no meio dela, os braços para o lado, olhando para as nuvens e as estrelas, esperando que ainda demorasse até seus pais notarem que ele não estava no quarto e saírem bravos e gritando. E como foi curioso quando eles enfim apareceram, sem fazer barulho, com delicadeza. Como foi estranho que a única coisa que ele sentiu foram mãos carinhosas erguendo-o e levando-o de volta para a cama.

38


39


96


97


Shaun Tan é singular. É um artista de histórias curtas, mágicas e perfeitas, muitas vezes sem palavras. São, na verdade, sonhos que se pode trazer para o mundo da vigília, este em que vivemos, iluminando-o. São tramas que Kafka poderia ter contado, caso gostasse um pouco mais da vida. Shaun Tan cria beleza a partir das pequenas coisas e também daquilo que nunca existiu, mas que nem por isso é menos real. Inventa enredos inesquecíveis que, acredite, vão deixar sua vida um pouco mais mágica.

neil gaiman tradução érico assis


Contos de lugares distantes - Ressaca