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O tempo envelhece depressa


ANTONIO TABUCCHI

O tempo envelhece depressa NOVE HISTÓRIAS

TRAD U Ç Ã O NILSON MOULIN


Seguindo a sombra, o tempo envelhece depressa Fragmento pré-socrático, atribuído a Crísias


O círculo C lof, clop, clofete, clopete N uvens Os mortos à mesa Entre generais Yo me enamorédel aire Festival B ucareste não mudou nada C ontratempo

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O cĂ­rculo


“Perguntei-lhe sobre aquele tempo, quando ainda éramos tão jovens, ingênuos, impetuosos, tontos, despreparados.A lgo disso restou, menos a juventude – me respondeu.” O velho professor interrompeu a fala, tinha uma expressão quase arrependida, enxugou apressadamente uma lágrima que se debruçara no cílio, deu um tapinha na testa, como se quisesse dizer que estúpido, queiram desculpar, afrouxou a gravata borboleta com aquela incrível cor de abóbora e disse com seu francês vincado pelo forte sotaque alemão:por favor, me desculpem, me desculpem, eu me esqueci, o título do poema é “O velho professor”, da grande poeta polonesa W islaw a Szymborska, e nesse momento apontou para si mesmo, como se quisesse indicar que o personagem daquele poema de algum modo coincidia com ele, depois bebeu outro calvados, mais responsável por sua comoção do que o poema, e deixou escapar um meio soluço, todos em pé, tentando confortá-lo:W olfgang, não fica assim, continue lendo, o velho professor assoou o nariz num grande lenço xadrez:


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“Perguntei-lhe sobre a foto”, prosseguiu com voz retumbante, “aquela do porta-retratos, na escrivaninha. Eram, tinham sido. Irmão, primo, cunhada, esposa, a filhinha sobre os joelhos dela, o gato nos braços da filhinha, e a cerejeira em flor, e acima da cerejeira uma ave não identificada voando – me respondeu.” O resto não escutou, ou quem sabe não quis continuar escutando, que amável o velho professor do cantão de San G allo, os primos de San G allo são meio toscos, palavras da própria tia-avó ouvidas uma noite na cozinha, criaturas estranhas, são boa gente, mas vivem naquele lugar isolado entre montes e lagos, já o velho professor de San G allo, ao contrário, ela considerava muito agradável, da poesia que escolhera para ler na hora do brinde ele tinha até feito cópias, que delicadeza, e as deixou disponíveis para os convidados sobre a mesa posta, entre doces e queijos, pois, segundo ele, seria a melhor homenagem à memória do avô, “meu pranteado e inesquecível companheiro Josef, em cujo lugar o Senhor devia ter me chamado”. Contudo, ali estava ele, firme e forte, com tantas veiazinhas vermelhas no nariz que o álcool tinha tornado ainda mais evidentes, e entretanto vovó escutava tranquila (ou talvez dormisse)o elogio poético do cunhado ao seu finado marido, porque o aniversário daquela morte, já fazia uma década, era o motivo da solene reunião familiar, os defuntos devem ser lembrados, mas não obstante a vida continua, e a vida que continua merece ser celebrada tanto ou mais que os defuntos, e morram os invejosos, porque família é família, principalmente uma família antiga como

a nossa, que desde o início do século dezenove possuía postos de correio que de G enebra chegavam até o cantão de San G allo, e do lago de Constança até a Alemanha, e da Alemanha até a Polônia, ainda restam gravuras e fotografias, estão todas no álbum de família, daqueles antigos postos de correio nasceu depois a rede de comércio que hoje dá fama à família Z iegler na Suíça e na Europa inteira, os fundadores morreram faz tempo, os herdeiros mais velhos não vão demorar, mas a família continua, porque a vida continua, por isso aqui estamos celebrando a vida que continua, com nossos filhos e netos, concluiu triunfalmente o tio-avô de San G allo. E ali estão eles, os herdeiros de tanta tradição. O gesto teatral do tio-avô de San G allo que declamava o poema com voz comovida parecia dirigir-se exatamente a eles: ao menininho de cachos louros que já usava gravata e à garotinha com o rosto cheio de sardas, ambos ignorando que aquela mão apontava exatamente para eles, e ignorando a memória do desconhecido avô Josef, distraídos que estavam disputando um pedaço de torta de chocolate, e o menino, que levara a melhor contra a irmã, já carregava o sinal da vitória sob o nariz, feito um bigode em um teatro de marionetes, e a última nora, a pálida G reta, tão cuidadosa, com um guardanapo rendado, também de San G allo como o tio-avô, limpou a mancha de chocolate do rosto do menino e sorriu. U m lindo sorriso num rosto florido de leite e sangue, como tinha ouvido certa vez naquela região, talvez não em G enebra, mas em L ugano: leite e sangue. Q ue mistura estranha, a primeira

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vez que ouviu aquela expressão teve uma sensação esquisita, quase náusea, talvez porque tivesse imaginado uma jarra de leite na qual caíam gotas de sangue. E seu pensamento, solto, tinha voltado a uma infância que não era a sua, a um vilarejo perdido no tempo, aos pés das montanhas de um lugar que, naquela cidade onde agora evocavam a memória de um avô Josef que não era o seu e que nem nunca tinha conhecido, chamavam de M aghreb, como se pertencesse a uma geografia abstrata. Quando ela era criança, não sabia que o lugar onde viviam seus pais se chamava M aghreb, eles também não sabiam, viviam e só, e tampouco sabia a avó cuja imagem aflorou da lembrança como de um poço aterrado, que estranho, pois não era a lembrança de uma pessoa, era a lembrança de uma avó de quem lhe haviam contado, ela não a conhecera, como podia se lembrar tão bem de um rosto que nunca tinha visto? E depois lhe veio à cabeça sua mãe, era forte sua mãe, mas também tão fraca, e como era bonita, com aquele perfil altivo e os olhos grandes, e lembrou seu jeito de falar, e o toque antigo, antiquíssimo, porque vinha do coração do deserto onde jamais tinham ousado penetrar os saqueadores árabes que negociavam com os corpos das pessoas, nem os padres católicos, que negociavam com as almas, melhor deixar os berberes em paz, são pessoas que não se deixam negociar. E ao mesmo tempo também quis saber de onde vinha aquela profunda consciência de si mesma que por um instante sentiu aflorar perante o gesto perfeito e decidido com o qual Greta limpava a mancha de chocolate na bochecha de seu filho. D o nada, aquele sentimento vinha

do nada, como sua lembrança que não era de fato uma lembrança, mas a lembrança de uma história, e não era ainda um sentimento, era uma emoção e no fundo nem sequer emoção, eram apenas imagens que na infância sua fantasia construíra, ouvindo as lembranças alheias, mas daquele lugar remoto e imaginário tinha se esquecido depois, e isso a surpreendeu. Por que aqueles lugares de areia dos quais lhe falara sua mãe quando era criança tinham ficado soterrados na areia de sua memória? Os Grands B oulevards, essa era a geografia que pertencia à sua memória, as grandes avenidas de Paris onde seu pai tinha um elegante escritório, um tabelionato com papel florido nas paredes e poltronas de couro, seu pai, famoso advogado de um grande escritório parisiense. N o andar de cima ficava o apartamento onde havia crescido, um apartamento com janelas altíssimas e sancas de gesso, um edifício pensado por H aussmann, em casa diziam sempre assim: é um edifício de H aussmann, e H aussmann era H aussmann, assunto encerrado, mas o que H aussmann tinha a ver com o que ela era? Foi o que se perguntou enquanto Greta limpava a mancha de chocolate do rosto do filho, e aquilo que perguntava a si mesma gostaria de perguntar a todos os convidados daquela festa de família, aquela família tão hospitaleira e generosa que celebrava um avô empreendedor que soube transformar velhos postos de correio numa rentável empresa comercial que agora também pertencia a ela, porque pertencia a M ichel. M as com que propósito tirar da cartola M onsieur H aussmann? Teriam olhado para ela

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como se fosse doida. Minha querida, teria dito Greta (talvez fosse mesmo Greta a lhe dizer), mas o que tem a ver Haussmann, é o maior urbanista francês do século dezenove, refez Paris, você cresceu num dos edifícios planejados por ele, por que Haussmann lhe veio à cabeça? Greta tinha o complexo de morar em Genebra, que, comparada a Paris, considerava uma cidade provinciana, e aquilo talvez lhe pudesse soar como provocação. R ealmente não era coisa para se dizer numa sala de jantar numa festa de família, naquela casa de janelas amplas que se debruçavam sobre o lago, diante daquela mesa em que havia de tudo, poderia ter falado do deserto, mas teriam perguntado o que tinha a ver o deserto, ela poderia ter respondido que tinha a ver por oposição, acontece que vocês, bem diante de vocês, têm um magnífico lago que transborda de água e que tem até um esguicho no meio que lança água na vertical a cem metros de altura, e minha avó ao contrário estava cercada pela areia e quando era criança para pegar uma jarra d’água de manhã tinha de andar até o poço de Al K arib, agora me veio à cabeça até o nome, e precisava andar três quilômetros no escuro para ir e três quilômetros debaixo de sol ardente para voltar com a jarra na cabeça, e vocês não podem saber o que de fato é a água porque têm demais. Era o tipo de coisa a se dizer? E que culpa tinham eles? Talvez pudesse dizer que lhe voltara à cabeça a expressão leite e sangue, de fato monstruosa, na sua opinião, porque quando era pequena sua avó às vezes de noite a levava até o curral e ela olhava fascinada o líquido branco que a avó espremia das

tetas das cabras numa bacia de zinco e depois o carregavam para casa com a reverência devida a um presente divino, mas se naquele líquido cândido tivessem caído gotas de sangue lhe teria parecido monstruoso, ela teria fugido de medo, mas não podia dizer isso, porque não era uma lembrança, era uma fantasia, uma falsa lembrança, ela jamais havia estado naquele curral e assim, fugindo de uma falsa lembrança agora me encontro aqui, nesta família gentil que me abriu os braços com grande afeto, peço desculpas a todos, o que digo não tem lógica, talvez porque olhasse para minhas mãos um pouco mais escuras e a expressão leite e sangue me soou realmente estranha, talvez precisasse de um pouco de ar fresco, no verão, Genebra é mais quente que Paris, há mais umidade, gostei muito da festa, vocês são todos muito amáveis, mas é como se precisasse mesmo de um pouco de ar, faz tempo, quando éramos noivos, Michel me levou até os pastos nos montes, fomos de ônibus, aquele que vai até o último vilarejo, se lembro bem nem são tão distantes, se pego um táxi chego em meia hora, no fundo os pastos não alcançam nem mil metros, Michel já deve ter ido fazer a sesta, diga para não se preocupar, volto antes do jantar.

* * * Fazia muito calor. Perguntou-se como era possível que a mil metros de altitude fizesse ainda mais calor que na cidade. Talvez a cidade sentisse o efeito benéfico do lago, é natural que uma grande bacia de água refresque os ares ao redor.

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Mas talvez fosse a mesma temperatura de Genebra, talvez só ela sentisse o calor, um calor interno como quando a temperatura do corpo, por razões que só o corpo conhece, se torna mais alta do que a do ambiente ao redor. O sol batia forte sobre o altiplano, além disso não havia árvores, só uma imensa extensão de prados, ou melhor, uma pradaria viçosa, faz tantos anos, quando Michel a levou lá em cima pela primeira vez, era primavera, o altiplano estava verde por causa das chuvas de inverno, tinham se conhecido havia pouco, ela nunca estivera na Suíça, eram jovens ou quase, Michel fazia o último ano de medicina, portanto mais ou menos quinze anos antes, porque naquele junho tinha se formado e junto com o diploma haviam festejado também o aniversário dele, vinte e cinco anos. Por um instante pensou no tempo, e no que ele seria, mas foi só um instante porque a vista da planície amarelada capturou de novo seus olhos e pensamentos, era de uma palha curta sobre a qual se caminhava mal, provavelmente o capim tinha sido cortado em junho para a reserva de inverno dos camponeses, pensou que o verde amarelava, e depois sua mente voltou ao calendário, os meses, os anos, as datas, quase quarenta anos, disse em voz alta, isto é, trinta e oito, mas trinta e oito são quase quarenta e ainda não tive um filho. Percebeu que tinha dito aquilo em voz alta, como se falasse para uma plateia inexistente naquela queimada planície amarelada, e em voz alta continuou: por que nunca me perguntei isso antes?, como é possível que uma mulher casada há quase quinze anos ainda não tenha tido um filho e nem se pergunte por quê? Sentou-se no chão, na

palha eriçada. Se tivesse sido combinado, um acordo com Michel, faria sentido, mas não havia sido por vontade deles, apenas aconteceu, um filho não tinha vindo, assunto encerrado, e ela nunca se perguntou a razão, aquilo parecia normal, como parecia normal crescer numa linda casa dos Grands Boulevards, como se aquele elegante apartamento parisiense fosse a coisa mais natural do mundo, mas não era, não existe a coisa mais natural do mundo, as coisas existem como você quiser, se pensar nelas e se quiser, aí é possível guiá-las, caso contrário andam por conta própria. De acordo, pensou, mas então o que é que dirige tudo? Havia alguma coisa que dirigia de fora aquela espécie de enorme respiração que percebia ao seu redor?, o capim que se torna feno e que na mudança da estação vai ficar verde novamente, aquele dia sufocante de final de agosto que ia morrendo, e a velha avó da casa de Genebra por quem de repente sentiu um grande carinho e o tio-avô de San Gallo, que bebia muito e lia poesias, pensou em sua gravata borboleta desatada e nas veias vermelhas no nariz e lhe vieram lágrimas aos olhos, e quem sabe por que viu a imagem de um menino que, pela mão da mãe, volta de uma feira do interior, a feira acabou, é domingo à noite e o menino carrega um balão amarrado no pulso, segurando-o orgulhoso feito um troféu e de repente, pfff, o balão murcha, alguma coisa furou o balão, talvez o espinho de uma sebe? Sentiu-se como aquele menino que de repente se via com um balão vazio nas mãos, como se alguém o tivesse roubado, mas não, o balão ainda estava lá, tinham somente retirado o ar de dentro. Então era assim, o tempo era ar e ela

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o tinha deixado escapar por um buraquinho minúsculo que não tinha percebido? Mas onde estava o furo? Não era capaz de vê-lo. V oltou a pensar em Michel, naqueles primeiros anos em que ele passava quase todo o tempo no laboratório, voltava tarde da noite, cansadíssimo, era gostoso esperá-lo até meia-noite e comer um pouco de espaguete feito na hora, Michel estava em busca de um remédio que salvasse as crianças de uma doença terrível, e isso era bonito, mas por que salvar crianças abstratas, se entre elas não estava o filho deles? Nítidas na lembrança voltaram aquelas noites, os noturnos de Chopin tocando baixinho, Michel às vezes propunha um disco de música berbere, dizia que o ritmo dos tambores acalmava seu cansaço e inquietude, mas ela não suportava os tambores, depois iam para a cama naquele pequeno apartamento que dava para uma praça sem muita graça de Paris e se amavam com um amor intenso, mas daquele amor jamais havia nascido um filho. E por que o porquê se perguntava justamente ali, naquele lugar que não lhe pertencia, naquela planície desolada envolta no calor de agosto? Talvez porque Greta, dois anos mais jovem que ela, tinha produzido dois filhos magníficos? Pensou exatamente nesta palavra: produzido, e se arrependeu, parecia uma palavra obscena, mas ao mesmo tempo intuiu sua verdade íntima, que é a verdade da carne, pois o corpo produz e a carne se reproduz a si mesma, transmitindo-se, enquanto está viva, com os humores vitais que a circulam por dentro, quando existe água, o fluido amniótico que dentro da placenta nutre a minúscula testemunha que

recebeu a transmissão da carne. A água. Pareceu entender que tudo dependia da água e não pôde deixar de se perguntar se o que faltava a seu corpo era água, se ela também não poderia escapar do destino de sua gente que durante séculos tinha lutado contra o deserto resistindo à areia que tudo cobre e depois teve de render-se e ir para outros lugares, e agora onde antes viviam seus antepassados os poços estavam tapados, somente dunas, sabia disso. O pânico tomou conta dela, seu olhar se perdeu naquela planície amarela em cujo horizonte um sol demasiado vermelho começava a declinar. E naquele momento viu os cavalos.

* * * A manada era de uma dezena de cavalos, talvez mais, quase todos com pelo cinzento, alguns malhados. Porém, um pouco à frente dos outros, pescoço teso em pose altiva como se fosse o chefe do bando, havia um garanhão negro que raspou a terra com o casco e relinchou. Não estavam muito distantes, não mais que duzentos ou trezentos metros, mas não tinha reparado e só quando olhou para eles teve a impressão de que eles também olharam para ela e foi aí que o garanhão relinchou mais forte, e como se a troca de olhares constituísse um sinal de entendimento, os cavalos se mexeram ondulando no ar trêmulo daquela tarde quente, o garanhão sacudiu a crina, relinchou ainda mais forte e partiu a galope arrastando a manada atrás dele. Ela via que eles avançavam, incapaz de se mover, percebendo que o espaço

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da vasta planície havia falseado a perspectiva, estavam mais distantes do que pareciam, ou então levavam tempo demais para se aproximar, como certas cenas de cinema em que os movimentos se realizam mais lentos, quase líquidos, como se os corpos fossem dotados de uma graça oculta que um estranho sortilégio nos vai revelando. Avançavam assim, os cavalos, com aquela escansão fluida que às vezes o sono nos dá, como se navegassem pelo ar, mas seus cascos tocavam a terra porque atrás deles se levantava uma espessa cortina de poeira que daquele lado encobria o horizonte. Avançavam mudando suas posições, ora em fila indiana, ora abrindo-se em leque, ora dividindo-se como se cada um tivesse uma meta diferente e, enfim, reunindo-se em uma fileira compacta, enquanto a cabeça e o pescoço de cada um seguiam o mesmo ritmo, a mesma cadência, até que se abriam de novo em leque, como uma onda feita de corpos. Por um momento pensou em fugir, mas entendeu que não podia. Virou-se na direção dos animais e permaneceu imóvel, mantendo as mãos cruzadas na frente dos seios como se tivesse de protegê-los. Naquele momento o cavalo negro freou sua corrida plantando os cascos na poeira, com ele parou todo o bando, como se a batuta de um maestro houvesse decretado uma pausa naquele misterioso balé sem música, mas era apenas um intervalo, isso percebeu claramente. Olhou-os e esperou, não estavam a mais do que dez metros de distância, podia ver bem seus grandes olhos úmidos, os focinhos que pulsavam ofegantes, o suor que brilhava nas garupas. O cavalo negro levantou a pata direita, como fazem os cavalos no circo

quando o espetáculo equestre começa, deixou-a suspensa no ar por um instante, e depois partiu com ímpeto começando a girar ao redor dela, e girando, seus cascos escavaram no terreno um círculo exato, e então, como se fosse um sinal combinado, todos os outros cavalos se puseram a seguilo, primeiro trotando depois galopando com mais e mais intensidade, marcada pela velocidade que ditava o garanhão, como um carrossel cujos freios quebraram e roda enlouquecido. Assim, observava-os correndo ao seu redor, num círculo cada vez mais rápido, a tal velocidade que quase não havia mais espaço entre cavalo e cavalo, apenas um muro de cavalos convertidos em um só cavalo, o perfil ininterrupto de um cavalo cuja cabeça recomeçava com uma cauda e cuja cauda era uma cabeça, e os cascos, levantando uma nuvem de poeira que os envolvia, ressoando sobre o terreno árido lhe pareceram o som de tambores de um lugar do qual não tinha lembrança, mas que sentiu com absoluta nitidez, e por um instante viu mãos que batiam na pele dos tambores, a música que chegava a seus ouvidos saía do solo, como se a Terra sacudisse, sentiu isso, antes de chegar aos ouvidos subia dos pés para as pernas, o tronco, o coração, o cérebro. Entretanto os cavalos giravam em círculo, cada vez mais rápidos, tão rápidos quanto seus pensamentos, que também se transformaram num círculo, um pensamento que pensava a si mesmo, deu-se conta de que estava pensando que pensava, nada mais, e naquele momento o chefe do bando, do mesmo modo repentino como desenhara o círculo, rompeu-o com um afastamento brusco que parecia subtrair-se às

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leis da natureza, desenhou uma tangente de fuga arrastando atrás de si toda a manada e em poucos instantes os cavalos se afastaram a galope. Ela permanecia ali, olhava o luzir das palhas suspensas na poeira que brilhavam à luz do pôr do sol, pensou que devia continuar pensando que não pensava em nada, sentou-se vasculhando com os dedos entre a palha eriçada, buscando a terra, o sol estava desaparecendo e a luz alaranjada já tinha alguns reflexos de índigo, daquela altura o horizonte era circular, era a única coisa em que conseguia pensar, que o horizonte é circular, era como se o círculo desenhado pelos cavalos tivesse se dilatado até o infinito transformando-se no horizonte.

Clof, clop, clofete, clopete


O círculo, conto de "O tempo envelhece depressa", de Antonio Tabucchi