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nuria barrios


O tesouro do dragão

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Era uma vez uma menina que saiu voando da China, perseguida por um dragão. O animal abriu suas grandes asas e subiu velozmente pelo céu até alcançar o avião em que ela viajava. Através das janelinhas, examinou o interior para encontrá-la. Alguns passageiros viraram o rosto, cegos pela claridade repentina. Acreditavam que o Sol os deslumbrava, quando na verdade eram os olhos flamejantes do dragão. Ninguém viu os chifres retorcidos dele, as resplandecentes escamas douradas que encouraçavam seu corpo, a coluna eriçada de espinhos. Ninguém viu as enormes patas, esticadas avidamente para a frente; suas garras, grossas e afiadas como lanças, prestes a recuperar o tesouro que lhe havia sido tomado. Ninguém viu aquele ser que parecia uma serpente, que também fora um leão, que também fora um anjo. Ninguém, exceto a menina. O tesouro era ela. O dragão era invisível aos viajantes. Ocupados com o filme projetado nas pequenas telas da cabine, ninguém havia prestado atenção nas nuvens que se formavam desde o início do voo. Apareciam sobrepostas, uma atrás da outra, como soldados ao longo

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do caminho. Só a menina adivinhou que o dragão se metamorfoseava em nuvens para segui-la. Só ela compreendeu que ele a havia descoberto quando, horas mais tarde, eclodiu a terrível tormenta. O dragão açoitou o ar com sua imensa cauda e rugiu de forma tão monstruosa que o céu partiu-se em pedaços. Seu tesouro estava dentro do avião, nos braços de uma estranha. Tomado pela fúria, o animal aumentou de tamanho até inundar o espaço com trevas. Os passageiros se viram presos entre ventos fatais, que avivavam o fogo dos raios e afiavam o chicote dos relâmpagos. Em terra, a tormenta arrancava as árvores e os telhados das casas e lançava os animais pelos ares. Vacas desorientadas sobrevoavam os campos e desapareciam nos redemoinhos que sugavam o que encontravam pelo caminho. A areia se soltava do solo como uma camada de pele queimada e, ao chocar-se com a chuva, densa e forte, voltava a cair. Assim, através da tempestade, a terra se unia ao colérico dragão e negava um espaço para o avião, que rangia no céu, aterrissar. As luzes da cabine se acendiam e se apagavam entre horrendas sacudidas. As crianças começaram a chorar. No começo, os mais velhos tentaram consolá-las, mas a tormenta era tão selvagem que logo se uniram ao choro, acreditando que havia chegado o fim. A menina também chorou, ainda que tenha se esquecido disso. Esqueceu-se dessa viagem, assim como esqueceu-se de sua vida antes de subir naquele avião. Sua primeira vida: as vozes, os rostos, as mãos, o fole rouco das respirações no quarto amplo, o frio das pequenas calças molhadas, os sabores quentes de leite e de arroz, a imobilidade do corpo amarrado, o roçar áspero dos lençóis na cabeça calva por conta das horas intermináveis que permanecera deitada de barriga para cima, a ardência do bumbum avermelhado sempre ao ar, o cheiro de vômito, de alvejante, de fezes…


Tinha se esquecido das grades dos berços em que se abriam e fechavam os olhos das crianças, frágeis coelhinhos num hostil bosque metálico. Tinha se esquecido dos dias e das noites, perdidos em um vazio branco como o teto do grande dormitório coletivo onde permanecera durante seus catorze primeiros meses de vida. Tinha se esquecido de como suas lágrimas fluíam num pranto em coro dolorido e poderoso; de como vibrava seu grito, reproduzido por centenas de gargantas em uníssono; de como a enfermidade sufocava o ar do quarto num denso torpor coletivo. Que importância tem um riacho ao lado do rio caudaloso onde desemboca? Tinha se esquecido de como o sono entrava através do nariz das crianças que dormiam juntas, sem distinguir eu de você, você dele, eu dela, eu de vocês, eu deles. Que importância têm os rios frente à cascata em que se precipitam? Tinha se esquecido de sua vida antes de ser única, quando o eu era nós, um ser formado por infinitas crianças intercambiáveis e com uma identidade compartilhada. Uma criatura sem pais, mas dotada de inúmeros olhos, braços, bocas, orelhas, pernas, bundas, pênis, vaginas e umbigos, que exigia ser alimentada, banhada, atendida. Um deus menino que era todos e cada um. Uma força indiferenciada e poderosa, quimérica e inquietante, que minguava e se regenerava sem descanso. Impossível perceber as ausências: para cada bebê que partia, antes que esfriassem seus lençóis, chegavam outros. Os seres mágicos são invisíveis aos homens, mas se reconhecem entre si. Como a menina não ia ver o dragão que sulcava o espaço junto ao avião se, naquela época, ela já era um ser mágico? Não teve que assurgir em nenhuma janelinha para reconhecer

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as ervas e os arbustos que cresciam entre as brilhantes escamas amareladas. Ela sabia que a tempestade não era senão o dragão, que rodeava o avião com seu corpo e o sacudia para quebrá-lo e recuperar seu tesouro, que era ela. Sabia que não eram relâmpagos que açoitavam o avião, mas o dragão, que afundava as garras e cravava os dentes na pele de aço para perfurá-lo e recuperar seu tesouro, que era ela. Sabia que não era o vento que batia nas asas do avião, mas o dragão, que as golpeava com as patas para arrancá-las e recuperar seu tesouro, que era ela. Sabia que não eram trovões que enlouqueciam os passageiros, mas os bramidos do dragão, enfurecido porque haviam lhe roubado seu tesouro, que era ela. Ela sabia que o dragão lhe havia sido destinado como guardião desde seu nascimento. Sabia, mas tinha se esquecido, se é que se pode chamar de esquecimento guardar parte de si em um quarto fechado e sem chave. Se isso é esquecimento, então a menina tinha se esquecido de tudo. Também do dragão. Tinha se esquecido do dragão. Também tinha se esquecido do lamento dele. O som mais triste que jamais se tinha ouvido. Quando o animal viu que seu tesouro se afastava, a pérola escondida em sua garganta explodiu em mil pedaços e da goela escapou um gemido terrível. Os passageiros, aterrorizados, confundiram aquele grito com o ulular do vento, mas a menina sentiu que algo se rompia também dentro dela e seu coração ficou apertado. A sensação de ruptura não desapareceu até que o dragão se precipitou na imensa noite escura e as trevas abafaram seu lamento. Então, acalmou-se a tormenta, detiveram-se os ventos, extinguiu-se o fogo dos raios e emudeceram os trovões. O avião parou de tremer e apagaram-se as luzes vermelhas que ordenavam manter


apertados os cintos de segurança. O céu ficou em silêncio, enquanto no interior da cabine explodiam os gritos de alegria. Quando o dragão desapareceu, a menina se separou definiti­ vamente do deus menino de quem descendia. Deixou de ser parte daquele imponente todo formado por inumeráveis bebês intercambiáveis e se transformou em Nix. E com seu novo nome chegaram dois braços, duas pernas, dois olhos, duas orelhas, uma boca, um pai, uma mãe, uma irmã, um lar, uma cama onde, recostada, escutava com muita atenção a história de sua mãe: – Por que o dragão tinha uma pérola na garganta? – Todos os dragões têm uma. Essa pérola é a fonte de poder deles. – E por que ela explodiu? – Porque o dragão não conseguiu recuperar o tesouro. E, quando a pérola se rompeu, o dragão perdeu a força e desapareceu. – Talvez a pérola tenha entalado e ele parou para tossir. – Isso é impossível. A pérola ficava sempre dentro dele. – Talvez tenha ido embora porque estava cansado. – Os dragões nunca ficam cansados, são capazes de percorrer a Terra sem parar uma só vez. Eu acho que ele compreendeu que você, que era o tesouro dele, já não lhe pertencia. E contra isso não podia lutar. – Por isso foi embora? – Sim, por isso. – E o que eu fiz quando ele foi embora? – Ficou dormindo com um sono suave e profundo, e não acordou até chegarmos em casa. – O dragão morreu? – Não sei, filha. Nix olhou a mãe, pensativa:

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– Não morreu, eu sei porque era meu dragão. Não morreu, mas se perdeu de mim e ficou sem a pérola. Tenho muita pena do dragão, mamãe. A mulher ajeitou com suavidade a longa franja que se enredava nas pestanas da filha. – Ele sofreu muito ao se separar de você, mas também não foi fácil para você se separar dele. Durante os primeiros meses que passou em casa, você não disse uma palavra; quando por fim começou a falar, sua voz estava rouca e assim permaneceu por longo tempo, como se a explosão da pérola na garganta do dragão também tivesse machucado sua garganta. Nix tocou no pescoço enquanto pigarreava. – Eu também tinha uma pérola aqui? – Não, crianças não têm pérola na garganta. – Nem mesmo eu? – Nem você. – Mas às vezes fico rouca. – Só quando grita. – Mamãe, eu queria ter uma pérola na garganta. Pequenininha. A mãe a apertou entre os braços: – Você é uma pérola pequenininha. E agora dormir, que é muito tarde. Boa noite, filha.


Alfabeto dos passaros - primeiro capítulo