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FRATERNO SEMPRE ATUAL, COM O MELHOR DO CONTEÚDO ESPÍRITA A n o

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Jan eiro-Feve re iro

Herculano Ferraz Pires

ISSN 2176-2104

CORREIO

Entrevista

Ele fala sobre as lembranças do convívio com J. Herculano Pires: “A desencarnação de meu pai deixou um grande vazio no movimento espírita”. Págs. 4 e 5.

2014

O possível analfabetismo doutrinário

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omo designar os adeptos que se declaram espíritas mas ignoram os princípios e valores da doutrina? Há os que realmente não se interessam por esse conteúdo. Uma boa parcela, porém, apesar de interessada, procura estudá-lo, mas não o compreende. A proposta de se pensar sobre o assunto vem do pesquisador Marco Milani, que aponta como uma das possibilidades desta dificuldade de assimilação uma questão que vem sendo analisada na área educacional. Muitas pessoas, mesmo possuindo os elementos que as capacitam para ler e escrever, não conseguem interpretar e realizar associações de ideias expressas em um texto. E não são apenas alunos novatos no estudo. A dificuldade pode estar presente em pessoas de qualquer idade. Uma questão relevante para o movimento espírita, que tem como base de sua proposta e estudo a reflexão e o autoconhecimento como recursos para a verdadeira libertação. Não deixe de ler e discutir este assunto! Páginas 8 e 9.

Sanatório Espírita de Brasília A coragem, o idealismo e o entusiasmo do casal que superou a dor e fundou duas frentes de trabalho que marcaram a história do espiritismo no Brasil Central. Leia em Baú de Memórias, na página 7.

Vida em outros planetas As formas de vida são consideradas humanas também em outros mundos e têm a mesma aparência que os humanos terrestres? Esta dúvida pode ser também sua. Leia em Quem pergunta quer saber. Página 13.

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CORREIO FRATERNO

JAneIro - FeVereIro 2014

edItorIAl

nossa hora

Uma ética para a imprensa escrita

e vez

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ais um ano se inicia também para o Correio Fraterno nesta sua primeira edição de 2014. E esperamos que nossas páginas fiquem repletas de boas notícias e de conteúdos úteis que levem você à reflexão, que estimulem a curiosidade e a busca pelo ensino dos Espíritos. Mergulhamos nesta edição na vida e obra de J. Herculano Pires, cujo primeiro centenário está recebendo programação especial da Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires até 25 de setembro, dia de seu nascimento. É com seu filho, Herculano Ferraz Pires, a entrevista desta edição. Como é prazeroso falar de Herculano, de suas lutas, seu pensamento claro e de sua vontade incomparável de divulgação e defesa do espiritismo!

A capa desta edição ficou reservada para um problema sério, trazido pelo articulista e pesquisador Marco Milani. A verdade nem sempre agrada e a de que há uma dificuldade generalizada na população brasileira, no que se refere à capacidade de ler, interpretar e relacionar fatos, chama a nossa atenção para o cuidado na divulgação do espiritismo. Não somente no respeito ao conteúdo como também à forma. Os desafios são grandes. Mas são as tarefas árduas do nosso tempo, que exigem boa vontade, esforço, aferição de valores e dever de estudo para um melhor trabalho. O mundo está ávido por verdades que o despertem do sono materialista para a visão espiritualista libertadora, onde Kardec com suas obras trazidas pelo Alto fez bri-

CORREIO DO CORREIO Iracema Sapucaia Foi com pesar que soubemos, através da última edição do Correio Fraterno (454), do passamento de Iracema Sapucaia. Para nós que trabalhamos na Evangelização Infantil e temos profunda admiração pela autora de Aventuras de Fraterninho, o desenlace causou um sentimento de perda, não por ela que deve estar colhendo no plano espiritual os frutos de seu extraordinário trabalho, mas em função de saber que se fechou um ciclo de vigorosa produção doutrinária dedicada à infância.

No ano de 2012, fizemos um extenso trabalho junto aos evangelizandos do C. E. Joana d’ Arc com base no Fraterninho, personagem que conquistou nossos alunos, principalmente sob a forma de história em quadrinho, editada pela Correio Fraterno. Os artigos em homenagem a ela, bem como o encantador poema de Raymundo Espelho, retratam a importância dessa mulher que soube oferecer à alma da criança o ideal da vivência cristã, de forma criativa, consciente e, sobretudo, desafiadora, proporcionando lazer ativo e reflexões de ordem superior.

em dois artigos, escritos por Allan Kardec e publicados na Revista Espírita, em 1858, estão encerradas as diretrizes que o Correio Fraterno adota como norte para o trabalho de divulgação: • A apreciação razoável dos fatos, e de suas conseqüências. • Acolhimento de todas observações a nós endereçadas, levantando dúvidas e esclarecendo pontos obscuros. • discussão, porém não disputa. As inconveniências de linguagem jamais tiveram boas razões aos olhos de pessoas sensatas.

lhantemente o seu papel. Outros contemporâneos vieram e colaboraram. Agora é a nossa vez. Façamos a nossa parte com muito amor à humanidade que clama por Luz! Boa leitura e bom trabalho a todos. O ano 2014 está apenas começando! Equipe Correio Fraterno Que ela receba na pátria espiritual nossas vibrações de reconhecimento e gratidão pelo bem que espalhou e pela cooperação com Jesus na tarefa de evangelizar os pequeninos. Ivalda Oliveira, Uberlândia, MG Errata - Editores de Kardec Diferentemente do que publicamos na edição 454 (Enigma), o livreiro Edouard Henri Justin Dentu foi quem editou os primeiros livros de Allan Kardec. Publicou em 1857 O livro dos espíritos, Instruções práticas em 1858 e O que é o espiritismo em1859. A editora Didier inicia as publicações dos livros a partir da segunda edição de O livro dos espíritos, em 1860.

Envie seus comentários para redacao@correiofraterno.com.br. Os textos poderão ser publicados também no nosso site www.correiofraterno.com.br

CORREIO

FRATERNO ISSN 2176-2104 Editora Espírita Correio Fraterno cnPJ 48.128.664/0001-67 Inscr. estadual: 635.088.381.118

Presidente: Adão Ribeiro da Cruz Vice-presidente: Tânia Teles da Mota Tesoureiro: Vicente Rodrigues da Silva Secretária: Ana Maria G. Coimbra Av. Humberto de Alencar Castelo Branco, 2955 Vila Alves Dias - CEP 09851-000 São Bernardo do Campo – SP www.correiofraterno.com.br

JORNAL CORREIO FRATERNO Fundado em 3 de outubro de 1967 Vinculado ao Lar da Criança Emmanuel www.laremmanuel.org.br www.facebook.com/correiofraterno Diretor: Raymundo Rodrigues Espelho Editora: Izabel Regina R. Vitusso Jornalista responsável: Eliana Ferrer Haddad (Mtb11.686) Apoio editorial: Cristian Fernandes Editor de arte: Hamilton Dertonio Diagramação: PACK Comunicação Criativa www.packcom.com.br Administração/financeiro: Raquel Motta Comercial: Magali Pinheiro Comunicação e marketing: Tatiana Benites Auxiliar geral: Ana Oliete Lima Apoio de expedição: Osmar Tringílio Impressão: Lance Gráfica

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• A história da doutrina espírita, de alguma forma, é a do espírito humano. o estudo dessas fontes nos fornecerá uma mina inesgotável de observações, sobre fatos gerais pouco conhecidos. • os princípios da doutrina são os decorrentes do próprio ensinamento dos espíritos. não será, então, uma teoria pessoal que exporemos. • não responderemos aos ataques dirigidos contra o espiritismo, contra seus partidários e mesmo contra nós. Aliás, nos absteremos das polêmicas que podem degenerar em personalismo. discutiremos os princípios que professamos. • confessaremos nossa insuficiência sobre todos os pontos aos quais não nos for possível responder. longe de repelir as objeções e as perguntas, nós as solicitamos. serão um meio de esclarecimento. • se emitirmos nosso ponto de vista, isso não é senão uma opinião individual que não pretenderemos impor a ninguém. nós a entregaremos à discussão e estaremos prontos para renunciá-la, se nosso erro for demonstrado. esta publicação tem como finalidade oferecer um meio de comunicação a todos que se interessam por essas questões. e ligar, por um laço comum, os que compreendem a doutrina espírita sob seu verdadeiro ponto de vista moral: a prática do bem e a caridade do evangelho para com todos.

Envio de artigos Encaminhar por e-mail: redacao@correiofraterno.com.br Os artigos deverão ser inéditos e na dimensão máxima de 3.800 caracteres, constando referência bibliográfica e pequena apresentação do autor.


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Acontece

Uma nova teoria física para a origem e evolução da vida: conflito com o espiritismo?

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m 2013, uma nova teoria para o surgimento da vida1 foi proposta por J. L. England, um jovem físico e professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em Cabridge, EUA. Embora ainda considerada especulativa,2 essa teoria afirma que os seres vivos são sistemas que se aperfeiçoaram na captura de energia do meio ambiente e dissipação na forma de calor. Ela diz também que quando um grupo de partículas sofre ação de uma fonte de energia externa, como o sol, e é capaz de trocar calor com o meio ambiente, o grupo de partículas se ordena de modo a dissipar ainda mais energia para o meio ambiente. Sobre a origem dos seres vivos, ensinam os Espíritos que “a Terra lhes continha os germens, que aguardavam momento favorável para se desenvolverem. Os princípios orgânicos se congregaram, desde que cessou a atuação da força que os mantinha afastados, e formaram os germens de todos os seres vivos. Estes germens permaneceram em estado latente de inércia(...) até o momento propício ao surto de cada espécie.”3 Estaria essa afirmativa em conflito com a teoria proposta por England? Vejamos o que Kardec diz.

Por Alexandre Fontes da Fonseca Kardec em A gênese4 afirma que “as diferentes combinações dos elementos, para formação das substâncias minerais, vegetais e animais, não podem, pois, operar-se, a não ser nos meios e em circunstâncias propícias(...). Mas, desde que as circunstâncias se tornam favoráveis, começa um trabalho de elaboração; as moléculas entram em movimento, agitam-se, atraem-se, aproximando-se e se separam em virtude da lei de afinidades e, por suas múltiplas combinações, compõem a infinita variedade das

substâncias”.4 Percebe-se do comentário acima que na origem dos seres, os elementos aguardavam condições propícias para então inicirem movimentos que os aproximaram entre si para formarem a ‘variedade das substâncias’. A teoria de England, portanto, não conflita com o espiritismo e apenas revela as condições necessárias para as formações em questão. E o elemento espiritual? Não se costuma dizer que o Espírito é um molde do corpo físico? Na verdade, nem o Espírito,

A criação universal A massa etérea, mais ou menos rarefeita, que permeia os espaços interplanetários; esse fluido cósmico que enche o mundo, mais ou menos rarefeito nas regiões imensas, ricas em aglomerados de estrelas, mais ou menos condensado nos lugares em que ainda não brilha o céu sideral, mais ou menos modificado por diversas combinações segundo as localidades da extensão, não é outra coisa senão a substância primitiva na qual residem as forças universais, de onde a Natureza tem tirado todas as coisas. Este fluido penetra nos corpos como um imenso oceano. É nele que reside o princípio vital que dá nascimento à vida dos seres, e a perpetua sobre cada globo segundo sua condição, a princípio no estado latente que dormita ali onde a voz de um ser não o chama. Cada criatura, mineral, vegetal, animal ou de outra espécie – pois há outros reinos naturais dos quais nem mesmo suspeitamos a existência – por virtude desse princípio vital universal, sabe adequar as condições de sua existência e de sua duração. A gênese, capítulo 6, itens 17, 18.

nem o perispírito são moldes absolutos da formação e manutenção do corpo físico. Eles são ‘influenciadores’5 da formação e manutenção do corpo físico, já que não se pode desprezar a ação natural das leis da matéria na dinâmica e formação dos corpos físicos. Dessa forma, vemos que a ciência e o espiritismo se dão as mãos na elucidação da origem e destino dos seres da criação. Referências: (1) J. L. England, “Statistical physics of self-replication”, The Journal of Chemical Physics, vol. 139, art. n. 121923 (2013). http://scitation.aip.org/content/aip/ journal/jcp/139/12/10.1063/1.4818538 (2) N. Wolchover, “A new physics theory of life”, Quanta Magazine, https://www.simonsfoundation. org/quanta/20140122-a-new-physics-theory-of-life/ (3) A. Kardec, O livro dos espíritos (questão 44), FEB, 1995. (4) Item 14, cap. 10, FEB, 1995. (5) A. F. da Fonseca, A. C. L. Leite e C. Torchi, “Reflexões críticas sobre o perispírito e sua influência na formação e manutenção do corpo físico”, Jornal de Estudos Espíritas 1, art. n. 010304 (2013). https://sites. google.com/site/jeespiritas/volumes/Volume-1---2013/ resumo---art-n-010304 Doutor e professor de Física da Faculdade de Ciências da UNESP, em Bauru, SP. www.correiofraterno.com.br


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ENTREVISTA

O genial legado de J. Herculano Pires Por ELIANA HADDAD

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Herculano Ferraz Pires: “Uma das qualidades do meu pai era gerenciar bem o seu tempo”

Como você analisa o trabalho de J. Herculano Pires para o movimento espírita, neste ano em que se comemora o seu centenário? Herculano Ferraz Pires: Se considerarmos apenas os livros que ele escreveu, sempre tendo como bússola as obras de Kardec, podemos afirmar sem medo de errar que ele é um dos mais importantes intelectuais espíritas que estiveram entre nós nos últimos séculos. Herculano sempre foi a voz que se levantou em defesa da doutrina, nunca para denegrir pessoas, mas evitando que ocorresse com o espiritismo o que ocorreu com o cristianismo, que teve as verdades de Cristo adulteradas pelas vaidades ou interesses pessoais dos homens. Creio que a viagem de Herculano Pires de volta ao mundo espiritual deixou um grande vazio no movimento espírita, pois hoje vemos que defender a doutrina contra os novidadeiros muitas vezes é tido como falta de fraternidade. Aproveito para lembrar uma das frases de Herculano Pires, no livro Na hora do teswww.correiofraterno.com.br

temunho, escrito em parceria com Chico Xavier: “Se não mantivermos a ética espírita acima da ética mundana, (...) a pretexto de que no espiritismo o princípio de fraternidade cobre todos os aleijões, estaremos reduzindo a doutrina à condição amoral de uma cobertura para a irresponsabilidade.” Reconhece-se que a obra de Herculano exige interesse, curiosidade pelo aprendizado espírita. Como a Editora Paideia tem percebido o público leitor hoje? É muito agradável sermos procurados por jovens que não conheceram Herculano em vida nos incentivando para continuarmos no trabalho de divulgação e solicitando mais informações sobre sua vida e sua obra. Acreditamos que as novas gerações continuam tendo acesso a Herculano Pires e entendendo a importância de sua tarefa para a divulgação de Kardec. Pela seriedade com que defendeu o espiritismo, dá-se a im-

ócio e administrador da Editora Paideia, responsável pela Fundação Maria Virginia e José Herculano Pires, no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, Herculano Ferraz Pires lembra especialmente para o Correio Fraterno passagens importantes de seu pai, J. Herculano Pires. Na família, no jornalismo, no movimento espírita, um homem de futuro, de intelecto brilhante e coração caridoso, que marcou a reencarnação numa vida repleta de atitudes éticas e certeiras, que deixaram exemplos e saudades. Neste ano, em 25 de setembro, será comemorado o primeiro centenário de J. Herculano Pires, o escritor, jornalista, poeta, professor e filósofo que encontrou na doutrina dos espíritos as respostas para todos os seus anseios, delas fazendo o grande objetivo de sua vida: instigar a descoberta da fé raciocinada nos corações repletos de dogmas e desiludidos pela desinformação. Foi por isso que Herculano lutou, enfrentou desafios e defendeu destemido a necessidade da divulgação da visão libertadora do espiritismo para uma vida serena, marca dos novos tempos, a Era do Espírito. pressão de que Herculano falava realmente o que pensava. Ele era muito bravo? Todos que tiveram a oportunidade de conviver com Herculano Pires sabem que ele possuía um humor muito especial e não costumava perder a paciência com facilidade. Há um fato que ilustra bem o seu senso de humor: Minha mãe era filha de fazendeiro que trabalhava com plantação de café. Com a crise do café, meu avô perdeu praticamente tudo. Quando nos mudamos para a casa que hoje é a sede da Fundação [na Vila Mariana], a rua era sem asfalto, na ‘periferia’ de São Paulo. Meu pai estava na janela observando a paisagem, como fazia para descansar enquanto escrevia, e viu uma vaca descendo a rua passando na frente de casa, sem ninguém a conduzindo. Imediatamente gritou para minha mãe: – Bi, corre aqui. É urgente! – Minha mãe subiu correndo as escadas, preocupada. Chegando no quarto, meu pai a chamou até a janela e mostrou:

– Está vendo aquela vaquinha? Está como eu, procurando a fazenda do seu pai até hoje. Minha mãe deu risada e respondeu, se divertindo: – Você não tem trabalho!? Como era o pai Herculano? Sinto muitas saudades dele! Ele realmente, antes de tudo, era um grande amigo. Quando éramos crianças, ao voltar do serviço, quase sempre nos trazia pequenos brinquedos que os camelôs dos anos cinquenta produziam para vender no centro de São Paulo. Quando crescemos, tínhamos liberdade e confiança para pedir seus conselhos nos mais variados problemas. “O importante é não esquecer de resolver o problema com muita calma e coragem” – ele sempre ressaltava. Tenho em minha lembrança uma passagem que me faz rir sempre que a recordo: Minha mãe, como é natural, tinha uma grande preocupação com nossa formação escolar. Eu não fui um dos mais estudiosos da família, e nos meus oito anos (aproximados) estava no meu


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ENTREVISTA quarto quando meu pai chegou. Minha mãe o chamou, pedindo que ele sondasse o movimento lá dentro, que parecia um tiroteio infernal. Ela disse, então: – Zequita, veja se este menino está estudando! Como vai se sair bem na escola? Meu pai parou para prestar atenção e percebendo ao longe minha brincadeira respondeu: – Bi, mas o que você quer que ele faça? O quarto dele está sendo invadido, pela janela, pelos índios peles-vermelhas. Ele tem que se defender! Rindo e aproveitando o momento de descontração, disse: – Tem razão, eu não tinha percebido. Como Herculano conseguiu escrever tanto sobre o espiritismo? Tinha muito tempo ou sua produção seria o desdobramento de seu próprio trabalho como jornalista? Uma das qualidades de meu pai que gostaria de ter adquirido era a de gerenciar bem o seu tempo. O que não era possível realizar conforme planejado, ele incluía na programação seguinte. No seu diário, pude verificar o cuidado que ele tinha em programar horas de estudos para cada matéria que achava necessário se aperfeiçoar. Creio que dessa forma conseguiu realizar muitas atividades, que não eram remuneradas, apesar de não ter nenhuma renda que lhe garantisse a sobrevivência da família, que não era pequena. Para termos uma noção de sua capacidade de dividir seu tempo, basta lembrar que ele era jornalista dos Diários Associados, repórter da Assembleia Legislativa, traduzia as obras de Kardec, escrevia suas obras literárias (além das obras filosóficas e doutrinárias, romances, poesias e artigos para jornais e revistas), presidiu o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo e o Clube dos Jornalistas Espíritas de São Paulo, dentre outras atividades. Herculano chegava a se sentir desesperançado? O que movia a sua fé? Qual era a sua principal característica? Minha mãe respondeu, em entrevista para a USE de Rio Claro – que se encontra no site da Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires – que Herculano tinha uma fé imensa, certeza absoluta da ajuda de Deus nos momentos mais difíceis. Quando mudamos

para São Paulo ele ficou durante dez meses desempregado. Ela conta que não demonstrava, mas estava ficando desesperada. Depois de empregado, minha mãe comentara com ele que não sabia se era “uma felicidade ou uma infelicidade casar com alguém com tanta fé em Deus”. Sempre que nos lembrávamos desta passagem de nossas vidas dávamos muitas risadas. Ele realmente vivia de acordo com suas crenças e não com a preocupação de atender a normas ou regras da sociedade criada pelos homens. Em monografias filosóficas, Herculano tem a evidente proposta de esclarecer sobre a contribuição do espiritismo para o desenvolvimento da filosofia, em especial no tocante ao sentido da existência

a serenidade, que serviu como base para sua tese na USP. O acervo de J. Herculano Pires está na Fundação Maria Virgínia e J. Herculano Pires. Há ainda material inédito? Acreditamos que perdemos alguns materiais, porém graças à iniciativa do meu irmão espiritual Antonio Carlos Molina, diretor executivo da Fundação, e minha mãe, a organização desta documentação foi iniciada em 1995. Foram localizados vários originais para serem editados. Minha mãe publicou alguns, através da Editora Paideia e outros foram autorizados para publicação em outras editoras. Não tenho conhecimento de nenhum livro doutrinário ou filosófico ainda inédito. Sei de alguns romances e estamos estudando a sua publicação.

Ele realmente vivia de acordo com suas crenças e não com a preocupação de atender normas ou regras da sociedade criada pelos homens” humana. Você saberia dizer por que ele escolheu a serenidade para defender sua tese na USP? Em seu diário, conforme nos informa Jorge Rizzini no livro J. Herculano o apóstolo de Kardec, Herculano conta: “(...) que em 26 de abril de 1935 vira a serenidade fluir sobre a cumeeira das casas, na cidadezinha de Cerqueira César [SP]... Neste dia perguntei por que motivo não somos serenos, mas inquietos, e muitas vezes até mesmo tumultuosos. Nesse mesmo dia resolvi descobrir o segredo da serenidade.” Teve a ideia de escrever um romance O serenista, porém não realizou esta tarefa. Dez anos depois escreveu um ensaio com o nome A busca da serenidade. E a realização de seu objetivo da busca da serenidade se completou em 1966, com a criação da obra O ser e

Como era a biblioteca pessoal de Herculano. O que ele lia? A Fundação preserva a biblioteca de Herculano em seu antigo quarto. Ele tinha preferência por livros filosóficos, doutrinários, por pesquisas parapsicológicas e fazia questão de estar sempre atualizado. Sua profissão de crítico literário dos Diários Associados o obrigava a ler quase todo tipo de literatura. Além da biblioteca, livros, documentos, o que mais compõe o acervo do casal na Fundação? Parte dos móveis utilizados por eles está lá. Temos também gravações de áudios, de palestras do tempo em que o Grupo de Estudos funcionava na garagem, gravações originais dos programas No limiar do

amanhã, que Herculano produziu, dirigiu e apresentou durante mais de três anos, todos sábados, e outras gravações. Herculano se comunicou com a família no dia de seu falecimento? Realmente, no dia de seu falecimento ocorria uma reunião na garagem de casa, seguindo o planejamento anual de reuniões de estudo, acompanhada de uma reunião mediúnica. Quando meu pai estava no hospital, um médium recebeu duas mensagens: uma anunciando a chegada de Herculano no mundo espiritual e outra, do próprio Herculano. A princípio os familiares não quiseram ler as mensagens, pois achávamos muito cedo para qualquer comunicação. No almoço de domingo, quando todos estávamos reunidos, minha tia insistiu para que as lêssemos. Após a leitura não tivemos dúvidas de que ele era o autor. É mesmo verdade a história de que Herculano teria sido em outras vidas irmão de Léon Denis, contemporâneo de Kardec em Portugal, como o poeta Alexandre Herculano? Não tenho nenhuma informação que venha confirmar o sonho de meu pai de que fora em outra encarnação irmão de Léon Denis. Quanto ao caso de ele haver sido o poeta Alexandre Herculano, essa teoria surgiu depois da publicação de uma entrevista feita por Jorge Rizzini, em nossa casa, durante uma noite em que os dois estavam conversando. Rizzini propôs ao meu pai responder a algumas perguntas, cujas respostas somente seriam publicadas após 40 anos de seu falecimento [publicada na edição de agosto de 2012 do Correio Fraterno]. Em uma delas, meu pai disse que acreditava ter nascido em Portugal, em uma encarnação passada, ter sido um jornalista que teve problemas com a igreja católica e que tivera que se exilar na França. Analisando as respostas do meu pai, o Rizzini concluiu que ele fora Alexandre Herculano, porém meu pai não o confirmou. O ponto positivo desta afirmação de meu pai, sobre sua vida em Portugal na mesma época de Kardec, na França, é que descarta a possibilidade de criarem o mesmo problema com Chico Xavier, afirmando ser ele a reencarnação de Kardec. www.correiofraterno.com.br


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JAneIro - FeVereIro 2014

coIsAs de lAUrInHA

Por tAtIAnA BenItes

Pelespírito L

aurinha chega do centro espírita muito empolgada com o que aprendeu lá. A professora mostrou que, além do nosso corpo físico, temos também o corpo espiritual, e pediu que fizessem uma pesquisa para a semana seguinte. laurinha já voltou pensando no que poderia fazer. – Mãe, hoje nós aprendemos lá no centro que temos vários corpos, sabia? – e como é isso, filha? – É como se a gente fosse uma coisa com várias camadas, ué! – Ah, entendi. Mas, laurinha, não é bem assim. laurinha foi para o quarto e começou a pensar em como poderia mostrar isso para os colegas na

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próxima aula. escreveu em um papel e colou em uma camiseta. e foi mostrar a sua mãe. – Mãe, já sei como vou fazer o trabalho! – como? – indagou ela. laurinha estava com a camiseta com a palavra colada na frente. É assim: – Pessoal, nosso corpo tem carne, pele, pelespírito e espírito. eu estou com essa camiseta porque vocês estão vendo, além do meu corpo, essa minha pelespírito, que é mais fina e é a roupa do meu espírito. – laurinha dá uma pausa e continua – Agora podem bater palmas.... eeeeeeeee – e ela mesma bate palmas.

– entendeu, mãe? – entendi e achei muito interessante, mas você falou pelespírito em vez de perispírito, que é o correto. – Ah, mãe, vamos combinar que quem errou foi quem inventou essa palavra, né? É muuuuuito mais fácil pensar que é a pele. Pele + espírito é igual a PelesPÍrIto. – É, laurinha, mas quando estamos encarnados os dois estão ligados: corpo espiritual e corpo físico. o perispírito, portanto, não é uma camada do corpo físico. e peri quer dizer em volta, ao redor. Peri + espírito = ao redor do espírito. – tá bom, mãe, entendi. Posso então agora brincar com a Aninha de correr peri o jardim???

Nos livros Tem espíritos no banheiro? e Tem espíritos embaixo da cama?, de autoria de Tatiana Benites, você encontra outras aventuras de Laurinha (Ed. Correio Fraterno).


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JANEIRO - FEVEREIRO 2014 O BAÚ DE MEMÓRIAS PODE SER FEITO POR VOCÊ! Envie para nós um fato marcante sobre o Espiritismo em sua cidade. Ele pode ser publicado aqui nesta seção. E-mail: redacao@correiofraterno.com.br.

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BAÚ DE MEMÓRIAS

Sanatório Espírita de Brasília Histórias de superação Da REDAÇÃO

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e estivesse ainda em funcionamento, em abril, o Sanatório Espírita de Brasília estaria completando 48 anos de fundação. Porém, nos 26 anos em que esteve ativo deixou sua história fortemente marcada na lembrança, principalmente dos que acompanham há mais tempo o movimento espírita. O casal Lauro de Freitas Carvalho e Amélia de Sousa, ao fundar o Sanatório, tinha um conhecimento singular sobre o assunto. Conheceram-se em Palmelo, GO. À época, ele, paciente, ela, enfermeira. Ambos haviam chegado àquela ‘cidade espírita’ em busca da cura para seus complicados problemas de saúde, pouco conhecidos pela medicina convencional. Lauro, por força de seus problemas de saúde, era aposentado do Banco do Brasil. Encontrou no Sanatório Eurípedes Barsanulfo diagnóstico e tratamento eficaz para o processo obsessivo que o acometia, comumente confundido com doença mental. Amélia, enfermeira desempregada, dez anos antes de Lauro, aportara na cidade levada por insistente dor de cabeça que tratamento algum dera conta de aliviar. “Lauro teve um prolongado e difícil tratamento no Sanatório de Palmelo, que naquela época, estava iniciando as atividades” – lembra Raymundo R. Espelho, um dos fundadores do jornal e da Editora Espírita Correio Fraterno. “Ao se mudarem para Brasília, já casados, Lauro e Amélia, muito trabalharam na divulgação da doutrina e no tratamento daqueles que necessitavam de cuidados médicos e espirituais. Fundaram o Sanatório Espírita de Brasília e a Livraria Espírita Brasil Central (LEMBRA), editora e distri-

buidora, que foi por cerca de quinze anos a maior distribuidora de livros espíritas no Brasil” – afirma Raymundo Espelho. Aristides Coelho Neto, amigo de Lauro e Amélia, recorda que o que nunca faltou ao Sanatório e à LEMBRA foram dificuldades financeiras. “Mas coragem, idealismo e entusiasmo também não faltavam aos dois, considerados por todos como missionários do espiritismo”. “O embrião do Sanatório Espírita foi

A doutrina espírita é tesouro imenso (…) em razão do fenômeno da obsessão, tão frequente nos distúrbios mentais” a garagem de uma casa alugada, na cidade satélite de Taguatinga. E nos lançamos à luta, sem tréguas” – conta Lauro Carvalho. “Conseguimos adquirir, do Governo do Distrito Federal, uma área em setor apropriado, próximo ao centro de Brasília, de 22.500 m² e construímos as primeiras etapas da obra projetada, totalizando quatro pavilhões, com 2.200 m²”. Lauro ainda se recorda: “Exaustivas campanhas foram empreendidas, no intuito de sensibilizar a população de Brasília para o empreendimento.

Mais tarde, percebemos que havíamos incorrido numa séria ingenuidade: a ideia de construir e manter Lauro Carvalho: “Durante todo o tempo de um hospital espírita funcionamento do Sanatório, mantivemos a em Brasília, sem ter coerência da instituição com os ideais espíritas” o dinheiro corresponcos convencionais. A par de todas as difidente. Mesmo assim, as primeiras unidades culdades enfrentadas para se manter o Sada obra foram erguidas, e o Sanatório conatório, a principal era a ausência de uma locado em funcionamento, com a capaciautêntica terapia espírita, o que nos forçava dade inicial de vinte leitos, posteriormente a essa nem sempre tranquila relação com a aumentada para o dobro, por onde passaequipe técnica. ram mais de Seis mil pacientes.” A importância de se considerar a existência do espírito Durante todo o tempo de funcionamento do Sanatório, mantivemos a coerência da instituição com os ideais espíritas. Todos os dias pacientes, funcionários e dirigentes se reuniam para a prece matinal. O sábado era dedicado ao estudo, à semelhança do que fazíamos em Palmelo, por recomendação do sr. Jerônimo Candinho, espírita e grande benfeitor da cidade. Aos domingos tínhamos à tarde a leitura comentada dos livros de André Luiz, psicografia de Chico Xavier. Para ministrar esse estudo, além dos dirigentes, convidávamos pessoas de fora, que o faziam de muito boa vontade. Os trabalhos de desobsessão eram realizados duas vezes por semana, com os pacientes presentes. Outro ponto em que mantínhamos vigilante atenção era a questão da medicação equilibrada, ministrada ao pacientes, evitando-se a impregnação, muito comum nos hospitais psiquiátricos em geral, o que nos valia alguns confrontos com os médi-

Uma experiência a ser considerada Hoje vê-se que é praticamente inviável a criação e manutenção de um hospital espírita, principalmente de pequenas dimensões. Mesmo assim, quando alguém nos indaga sobre o assunto, sempre dizemos: pense em termos de terapia espírita dos doentes mentais. Se você for capaz de fazer ou definir algo que se refira ao tratamento do doente mental de forma diferente, absorvendo tudo isso que o espiritismo nos esclarece, já terá feito uma grande coisa, maior talvez do que instalar alguns leitos a mais para tratar os enfermos mentais e reproduzir a terapia viciada e alienante de sempre. A doutrina espírita é tesouro de imenso valor. Um legado à humanidade capaz de influir positivamente em todos os setores da vivência humana. Pelo que toca à saúde mental, é, talvez, o setor que mais tem a ver, em razão do fenômeno da obsessão, tão frequente nos casos dos distúrbios mentais.” Texto enviado por Arsitides Coelho Neto e adaptado ao Correio Fraterno. www.correiofraterno.com.br


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esPecIAl

Analfabetismo doutrinário Por MArco MIlAnI

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a obra O evangelho segundo o espiritismo, capítulo 17, item 4, Allan Kardec afirma que o verdadeiro espírita pode ser reconhecido por sua transformação moral e pelo esforço que faz em domar suas más tendências. Nessa passagem, o codificador sinaliza a aplicação prática dos aspectos comportamentais esperados do espírita, para o qual os princípios doutrinários lhe fazem “vibrar as fibras que nos outros permanecem mudas; em uma palavra: foi tocado no coração, e por isso a sua fé é inabalável”. Assim, o verdadeiro espírita busca se transformar porque conhece a sua realidade espiritual e consegue compreender as consequências de seus atos diante de um contexto natural regulado pelas leis divinas. Nesse sentido, a motivação para o autoaprimoramento é o conhecimento de si mesmo e das relações naturais presentes no processo evolutivo do ser, conforme apresentados no corpo teórico espírita. Logo, o verdadeiro espírita conhece os princípios doutrinários e age coerentemente com a cosmovisão espírita. Kardec ainda sinaliza diferentes graus de compreensão e aplicação dos conceitos espíritas ao se referir àqueles que apenas creem nas manifestações dos desencarnados e àqueles que, além de crer, vislumbram e compreendem as consequências diretas e indiretas dessas relações entre os mundos visível e invisível. E como se poderia designar os adeptos que se declaram espíritas, mas demonstram ignorar os princípios e valores doutrinários? Bastaria se declarar espírita para assim ser reconhecido pelos demais participantes www.correiofraterno.com.br

desse grupo? É uma questão interessante e que envolve muito cuidado para não ferir suscetibilidades. Modernamente, existe um conceito utilizado na área educacional para designar a situação na qual uma pessoa, mesmo possuindo os elementos que a capacitam a ler e escrever, não consegue interpretar e realizar associações de ideias expressas em um texto. Tal situação é denominada de analfabetismo funcional e não está restrita às pessoas com poucos anos formais de estudo. Há quatro níveis de alfabetismo, desde o nulo (analfabeto) até o grau pleno (alfabetizado sem restrições). Conforme o Instituto Paulo Montenegro – IPM, vem aumentando a quantidade de brasileiros que não sabem ler e escrever plenamente. Em 2012, cerca de 65% das pessoas que completaram o ensino médio e 38% dos universitários eram alfabetizadas com restrições, ou seja, apresentavam dificuldades na plena interpretação escrita e associações de ideias e conceitos. Em 2002, esses dados eram de 51% e 24%, respectivamente. Ora, se essa é uma situação gravíssima detectada na sociedade brasileira, inclusive em cursos superiores, por que ela também não poderia se reproduzir no movimento espírita? Analogamente a uma pessoa supostamente alfabetizada que não consegue compreender adequadamente um texto, pode-se aplicar esse mesmo conceito a um adepto do espiritismo que não consegue compreender plenamente os princípios e valores doutrinários. É possível conceber, portanto, uma situação de analfabetismo funcional doutrinário em diferentes graus.

Não se pode esconder ou fingir que esse contexto não existe, sob o falso discurso da caridade, pois que esta não é caracterizada pela omissão, mas pela ação construtiva. É a identificação dos pontos frágeis a serem melhorados e a discussão séria voltada ao fortalecimento da compreensão doutrinária que favorecerão a formulação de propostas educacionais eficazes para as casas espíritas. Será que, com um índice de analfabetismo funcional tão expressivo, a simples disseminação de programas padronizados de ensino doutrinário voltados para um público plenamente alfabetizado e para todas as regiões do país é pertinente? Como identificar e ajudar o analfabeto funcional a compreender os fundamentos do espiritismo? Será que muitos analfabetos doutrinários estão assumindo a tribuna para di-

vulgar o espiritismo? São questões a serem respondidas com ponderação. O Ministério da Educação do Brasil e muitas instituições de ensino possuem profissionais debruçados sobre o problema do analfabetismo funcional e existem algumas propostas para a respectiva solução, mas todas elas passam pela melhoria do ensino de base, ou seja, foca-se nas novas gerações e não na atual. Fica a sugestão para todos os dirigentes das casas espíritas e das entidades federativas para refletirem sobre como essa questão influencia a divulgação e a compreensão dos princípios doutrinários ao público adulto. Incentivemos o desenvolvimento de verdadeiros espíritas e não de aparentes adeptos. * Economista e professor universitário. Diretor do Departamento do Livro da USE Regional SP.


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Equívocos que atrapalham a interpretação de textos

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LIVROS & CIA. Instituto Lachâtre Tel.: (11) 4063-5354 www.lachatre.com.br

• Confundir Jesus como Deus

Vida e obra de Allan Kardec de Edson Audi 122 páginas 21x23cm

• Entender de maneira dogmática ‘a vontade Deus’ nas mínimas coisas • Aceitar a obsessão como processo aleatório e isento de responsabilidade • Conceituar ‘ação e reação’ semelhante à lei de Talião • Achar que Deus castiga ou premia quem quer que seja • Entender que ser espírita é ser perfeito • Aliar o espiritismo a ideias salvacionistas • Incorporar o negativismo como norma (a felicidade não é deste mundo) • Isentar-se de responsabilidade no presente por achar que aqui se está apenas de passagem • Aceitar como correto o conceito de alma gêmea • Generalizar situações particulares, não respeitando a universalidade dos ensinos dos espíritos

Editora Comenius Tel.: (11) 2537-8973 www.editoracomenius.com.br Dona Anália, a amiga das crianças de Rita Foelker 24 páginas 21x29 cm

(Redação)

Editora EME Tel.: (19) 3491-7000 www.editoraeme.com.br Além da convivência de Eurípedes Costa do Nascimento 200 páginas 15,5x21,5 cm

Dicas para melhorar a leitura • Vale a pena criar o hábito da leitura e perceber o prazer que ela proporciona. Quanto mais se lê, mais cultura e fluência se adquire.

tamente para ajudar na compreensão do texto.

• se encontrar dificuldade de entendimento num texto, leia-o novamente. Procure resumir mentalmente cada parágrafo e assimilar a ideia que ele passa. • seja curioso, investigue as palavras que ainda não conhece. Você vai perceber que muitas delas derivam de outras já de seu conhecimento.

• A atenção às referências mitológicas, geográficas, históricas do texto é fundamental para sua melhor interpretação.

• Mesmo no lazer há maneiras de incrementar o vocabulário, com palavras cruzadas, caça-palavras, ou mesmo estimulando-se em pensar em antônimos e sinônimos.

• como toda ciência, o entendimento da doutrina espírita requisita o estudo contínuo e aprofundado por parte daqueles que queiram entendê-la.

• Procure ler o texto de forma dinâmica, interagindo com o texto e acompanhando o encadeamento das ideias de quem escreve.

• ler sobre outras áreas do conhecimento ajuda a entender melhor os fundamentos da própria doutrina e a refletir sobre suas proposições.

• não esqueça de considerar a pontuação. ela existe jus-

(Redação)

Editora Correio Fraterno Tel.: (11) 4109-2939 www.correiofraterno.com.br Amor maior de L’Lino psicografia de Michell Paciletti 344 páginas 14x21 cm

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MosAIco “Quando se tem noção da diferença básica entre espírito e matéria, é fácil compreender-se o fenômeno.”

todas as coisas e todos os seres. Desde que nascemos até morrermos, a nossa própria vida individual é uma constante mudança.”

“Deus, a suprema consciência, não nos criou do barro da Terra, mas da luz das estrelas.”

“A filosofia é a captação livre da realidade que nos dá uma livre concepção do mundo. o materialista não é livre, pois está preso à ideia fixa de que tudo é matéria.”

“o mandamento do amor ao próximo deve ser colocado em plano racional, livre das ameaças opressivas e do emaranhado das conveniências imediatistas.”

“A vida só tem sentido quando serve de preparação para vidas melhores.”

“Temos que mostrar que o amor a Deus, a mais elevada força de amor existente na Terra, não é feito de medo e terror.”

“o cientista pode não acreditar em deus, mas se não obedecer às suas leis — que estruturam toda a realidade — nada poderá fazer.”

“não é com sermões tecidos de palavras mansas e palavrório emotivo, nem com piedade fingida, bênçãos formais do profissionalismo religioso, promessas de um céu de delícias ao lado de ameaças de condenações eternas que podemos despertar os homens para uma vida mais elevada.”

“Não se deve temer no suicídio o suposto castigo de Deus, mas as consequências naturais do ato de violação de um processo vital.” “temos de compreender a dinâmica da natureza, tanto para viver como para morrer.”

“O anseio dos adultos, de se parecerem jovens, torna-os geralmente excêntricos, portanto desajustados. A regra é uma só, para

Seleção: Raymundo Espelho. Do livro educação para a morte, Herculano Pires , Correio Fraterno, 2005.

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leItUrA

À procura de Deus Por elIAnA HAddAd

“Deus é para mim como seria um profundo problema de mecânica celeste para uma criança que está aprendendo a somar.” Hermínio Miranda, Os procuradores de Deus.

As obras de Hermínio Miranda na editora Correio Fraterno

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produção literária de Hermínio* Miranda retorna a estas páginas por dois motivos: primeiro pelo carinho do Correio Fraterno com o autor, que desencarnou em 8 de julho de 2013 e que completaria no último 5 de janeiro 94 anos; segundo porque estamos preparando para este ano a edição de seu primeiro livro, Os procuradores de Deus, lançado em 1967 (edição Calvário) e resgatado pelo diretor e fundador do Correio Fraterno, Raymundo Espelho, em um sebo paulista em 2010. Nem Hermínio tinha um exemplar. Ficou feliz com a proposta editorial do Correio Fraterno de relançar a obra, por sua atualidade sobre a história espiritual da Humanidade e a contribuição de Kardec para a vinda do consolador prometido. Mostrou-se interessado e logo manifestou seu desejo: “Vamos dar uma ‘escovada’ na obra”. Seu pedido fazia sentido quanto à necessidade da atualização da ortografia. Mas o que o autor queria era reler os conceitos e rever afirmações que fizera como iniciante espírita cinquenta anos atrás. Pela coerência que Hermínio sempre manteve consigo mesmo, Os procu-

radores de Deus é obra impecável. Infelizmente, por suas naturais limitações físicas pela idade avançada, o projeto seguiu em ritmo mais lento, não havendo tempo de lançá-lo enquanto ele ainda estava encarnado entre nós. A previsão é que seja lançado no segundo semestre deste ano. Os procuradores de Deus deve encantar o leitor ávido por informações e histórias espirituais que Hermínio tão bem apresenta em seus fiéis relatos sobre mediunidade e importantes buscas que empreendeu, num contexto rico que faz com que mergulhemos no âmago das nossas origens e melhor compreendamos as nossas destinações. Enquanto a obra está sendo cuidadosamente preparada, a editora Correio Fraterno tem a alegria de ter em seu catálogo livros consagrados do autor, leituras imperdíveis para quem gosta de estudar e se emocionar com a teoria e prática espíritas. Vale ressaltar ainda o especial apreço de Hermínio com toda a equipe do Correio, que recebia uma injeção de ânimo para suas tarefas a cada contato com o amigo e escritor. É da editora Correio Fraterno seu último livro publicado (2012): O que é fenômeno anímico?

A feira dos casamentos Traduzido por Hermínio C. Miranda. O fio condutor da história é a sociedade russa imperial – quarenta anos antes da Revolução Comunista. No enredo, os interesses e as intrigas que cercam o casamento estabelecem trama que atinge os corações dos personagens e do leitor, nos seus mais nobres sentimentos. J. W. Rochester, psicografado por W. Krijanowski O que é o fenômeno anímico? Baseado nas narrativas de emocionantes histórias de vida de espíritos encarnados e desencarnados, o autor faz suas deduções apoiado na ciência espírita, na ânsia de levar o leitor mais além. São fenômenos tantas vezes comentados, mas em raras oportunidades de forma tão esclarecedora.

O que é o fenômeno mediúnico? Ideal para um primeiro contato com o tema, nesta obra o fenômeno mediúnico é explicado de forma prática, considerando seu contexto na dinâmica da história das religiões, dos povos e dos seres humanos. Para quem deseja aprofundar-se no tema, o autor propõe rica bibliografia ao final da obra.

* Após a desencarnação do autor, a Correio Fraterno passa a grafar o nome Hermínio com acento, obedecendo as regras de acentuação para paroxítonas terminadas em ditongo. www.correiofraterno.com.br


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cUltUrA & lAzer Acesse a Agenda Eletrônica Correio Fraterno e fique atualizado sobre o que acontece no meio espírita. Participe. www.correiofraterno.com.br

CARTA ENIGMÁTICA DO CORREIO

Elaborado por Tatiana Benites e Hamilton Dertonio, especialmente para o Correio Fraterno

ENIGMA

Qual foi o nome que Kardec deu a O evangelho segundo o espiritismo, em sua primeira edição?

Congresso Estadual de Goiás A Federação Espírita do Estado de Goiás realiza de 1 a 4 de março, no Centro de Cultura e Convenções de Goiânia e no Lar Espírita Francisca de Lima, o 30º Congresso Espírita do Estado de Goiás. O evento, que contará também com programação para crianças e jovens, terá palestras com Adeilson Salles, Otaciro Rangel, Alberto Almeida, Rossandro Klinjey, Sérgio Lopes, Haroldo Dutra, Simão Pedro e Divaldo Franco. http://comunicafeego.wix.com/congressoespiritago

MAR

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qualquer hora, em qualquer lugar

Curso para Evangelizadores MAR Será realizado de 1 a 4 de março, no Instituto de Difusão Espírita, de Araras, SP, o 29º Curso para Evangelizadores. Há hospedagem gratuita. Informações: www.pedagogiaespirita.net.br. Fone: (19) 3541-5215 (à noite).

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Veja em: www.correiofraterno.com.br

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15º Congresso Espírita Colombiano A Confederação Espírita Colombiana e a Federação Espírita de Bolívia realizam, entre os dias 21 e 24 de março, o 15º Congresso Espírita Colombiano, que terá como tema -homenagem os 150 anos de O evangelho segundo o espiritismo. O evento acontece no Centro de Convenções Cartagena de Índias e conta com a presença dos expositores Divaldo Pereira Franco, Fabio Villarraga Benavides, Carmen Cardona Fuentes, Victor Madero Jirado, Axel Rhenals Turriago, Jorge Berrio Bustillo, Andres Cubillos, entre outros. http://www.confecol.org/programa_congreso.pdf

___ ______ _ ___ __ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _. Do livro Cartas do coração, LAKE

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Educação e Espiritualidade De 17 a 20 de abril acontecem no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, 2º Congresso Internacional de Educação e Espiritualidade e o 5º Congresso Brasileiro de Pedagogia Espírita. Com expositores convidados do Brasil, Estados Unidos, França, Argentina, Portugal, Equador e Canadá. Organização: Associação Brasileira de Pedagogia Espírita. Informações: www.educacaoespiritualidade.com.

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Resposta do Enigma: Imitação do evangelho. seguindo orientações de seu editor, didier, Allan Kardec alterou posteriormente o nome para O evangelho segundo o espiritismo, uma obra que viria desenvolver os tópicos religiosos do primeiro livro da codificação: O livro dos espíritos. Leia mais no site: www.correiofraterno.com.br

Seminário Círculo de Estudos Arte e Espiritismo Dia 7 de março, das 19:30h às 21:30h. Local: Alameda Cabral, 300, Curitiba, PR. Coordenação: Setor de Artes da Federação Espírita do Paraná. http://www.feparana.com.br/evento.php?cod=2326

Solução do Caça-palavras

Café com fé mãe, também quero café! mas você é muito nova para tomar café!

O papai falou que tudo que a gente quer consegue com café!

Com fé, laurinha!

Com A fé!


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QUEM PERGUNTA QUER SABER

Vida em outros mundos Por izabel vitusso

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ntes de mais nada é preciso lembrar que o perispírito é o envoltório que reveste o espírito e que se torna mais etéreo à medida que ele se depura e se eleva. Conquanto a matéria do perispírito não seja tão compacta como a do corpo físico, e possa se modelar à vontade do espírito, o item 56 de O livro dos médiuns assinala que “com pequenas diferenças quanto às particularidades e exceção feita das modificações orgânicas exigidas pelo meio no qual o ser tem que viver, a forma humana está sempre presente entre os habitantes de todos os globos. Pelo menos é o que dizem os Espíritos. Essa é igualmente a forma de todos os Espíritos não encarnados, que só têm o perispírito, seja qual for o grau de evolução em que se achem.” Muitos detalhes sobre a vida em outros mundos foram publicados na Revista Espírita, publicada entre 1858 a 1869. Na edição de 1858, volume 3, Allan Kardec comenta sobre a adaptação a outros mundos. “Por um simples raciocínio que muitos outros fizeram antes de nós, chegamos a concluir pela pluralidade dos mundos, raciocínio este confirmado pela revelação dos Espíritos. Realmente eles nos ensinam que todos esses mundos são habitados por seres corpóreos apropriados à constituição física de cada globo, que entre os habitantes desses mundos, uns são mais e outros menos adiantados que nós do ponto de vista intelectual, moral e mesmo físico.”

As formas de vida são consideradas humanas também em outros mundos e têm a mesma aparência que os humanos terrestres? Giancarlo Germani, por e-mail. Também a edição de março de 1858 da Revista Espírita traz a informação de que em Marte a vida é inferior à da Terra. Esse registro corrobora a longa nota de rodapé, inserida na questão 188 de O livro dos espíritos, de abril de 1857, que informa

também ser Júpiter o mais avançado dos planetas do sistema solar. “Seus habitantes têm corpos de conformação semelhante à terrena, mas de maior leveza; deslocam-se roçando ao solo, sem fadiga (como os peixes e as aves); na morte, os corpos não são

submetidos à decomposição pútrida: dissipam-se; alimentam-se de frutas, plantas e emanações nutritivas do meio ambiente; expectativa de vida: cerca de quinhentos anos (quase não há doenças). A infância dura apenas alguns dos nossos meses.” Respondendo a perguntas de convidados e do público, no programa Pinga Fogo, da extinta TV Tupi, em 1971, o médium Chico Xavier enfatiza: “Dentro das minhas possibilidades tenho visto criaturas irmãs desencarnadas carregando fenômenos semelhantes àqueles que presidem nosso corpo físico. Allan Kardec em determinado tópico de O livro dos médiuns fala sobre a forma dos seres em outros planetas. Emmanuel em O consolador também afirmou que não podemos esperar de outros planetas formas físicas absolutamente iguais a do nosso globo terrestre... Mas estamos numa época de indagações oportunas de maravilhosas pesquisas do gênero humano das quais Camille Flammarion [astrônomo], na França,foi um grande e inesquecível pioneiro.” O evangelho segundo o espiritismo, capítulo “Há muitas moradas na casa do meu pai” também salienta que: “a constituição física dos globos em nada se assemelham; a bem da verdade, esses mundos contêm elementos químicos que desconhecemos; de consequência, os seres racionais que os habitam também têm corpos constituídos de matéria muito diferente da nossa, se bem que todos guardam a aparência humana.”

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FOI ASSIM

Minha mão atravessou o chão Por PAULO HENRIQUE FIGUEIREDO

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eus avós e meus pais eram espíritas e médiuns. Sempre gostei muito de ler e me lembro que um dia, ainda bem moleque, eu estava na cama e abri um livro. Minha mãe me chamou, virei e me apoiei no chão para levantar. Foi quando minhas mãos passaram pelo piso e eu fiquei flutuando. Surpreso, tentei chamar por meus pais, mas o som não saía. Era como se eu tivesse falando num lugar sem ar. Tomei um susto muito grande e, depois, consegui me levantar. Corri até a cozinha e fui falando: “Mãe, mãe, mãe...”. E contei apavorado o que havia ocorrido. E ela respondeu-me calmamente: “Ah, você só saiu do corpo. O seu pai também sai, eu, seu irmão, todo mundo aqui sai do corpo...”. Então não havia novidade. E fui criado naturamente nesse ambiente.

disse: “Ah é? Deve ser o preto-velho que se comunica no centro.” Nada era surpresa. Quando você convive naturalmente com esses fenômenos, a mediunidade torna-se parte da vida, do seu cotidiano, e sem mistérios.

Em casa aconteciam coisas ‘estranhas’. Às vezes os objetos sumiam e apareciam... Um dia, também, jantávamos na casa da minha avó. Tinha um bufê na sala, daqueles antigos. Enquanto a gente estava conversando à mesa, o vaso começou a andar.

Todo mundo parou, viu o vaso se movimentando. Quando ele parou, voltamos a conversar e continuamos a comer. Outra vez, entrei na casa da minha avó e vi um senhor negro sentado na sala. Tomei um susto, corri para avisar e minha avó

Esta história foi contada por Paulo Henrique Figueiredo, de São Paulo, como palestrante no ciclo de encontros que a Fundação Herculano Pires & Maria Virgínia vem realizando desde setembro do ano passado, em homenagem ao centenário de J. Herculano Pires (25 de setembro 1914). Confira esta e outras palestras no site www.herculanopires100anos.com.br/encontros/ paulofigueiredo

VOCÊ SABIA?

A inspiração de Léon Denis no camarote

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influência da música em nós é muito maior do que se imagina e reveste-se das mais diferentes formas. O médium e filósofo Léon Denis, considerado um dos principais continuadores do espiritismo após a morte de Kardec, relata: “Quando eu tinha que fazer uma conferência em uma grande cidade, por mais de uma vez aconteceu dirigir-me, na véspera, à noite, a algum teatro lírico. Lá, escondido no fundo de um camarote, completamente isolado, eu me desinteressava de tudo o que se passava na sala ou no palco, para me deixar embalar pela obra musical. Sob a ação combinada dos instrumentos e das vozes, uma onda de ideias crescia em meu cérebro, um desabrochar de pensamentos e de imagens surgia das profundezas do meu ser. E, nesses momentos, eu determinava o meu tema com uma riqueza de matérias, uma profusão de argumentos, uma abundância de formas e de expressões que eu não poderia ter encontrado no silêncio e que nem sempre se apresentavam em minha memória no momento oportuno. Os sons graves e profundos agem sobre nós de tal maneira que o melhor de nós mesmos se exterioriza. A alma se desprende e sobe até as fontes vivas da inspiração.”

Fonte: O espiritsmo na arte, de Léon Denis, Lachâtre, 1994.

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DIRETO AO PONTO

A verdade que liberta Por UMBERTO FABBRI

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esus sem sombra de dúvida é nosso libertador. Não como muitos pensam, na figura do senhor das guerras, que viria para atuar em questões políticas. Na realidade, sua proposta é muito mais abrangente. Em seus ensinamentos, reuniu com maestria a simplicidade o poder de síntese e a verdade iluminadora. Sabia da dificuldade de nosso entendimento, seus irmãos mais novos, mas não se deteve frente à nossa ignorância, que sabia ser passageira e compreensível, dentro do patamar evolutivo em que nos encontramos. Na expressão “encontrareis a verdade e ela vós libertará”1 notamos um belo exemplo de simplicidade, profundidade e objetividade em seus ensinamentos. Para encontrar algo precisamos querer, ir ao encontro, estar abertos e atentos, enfim, buscar… No caso da verdade a situação não é diferente. Mas o que seria a verdade? Para muitos filósofos a verdade é uma questão de ponto de vista. No dicionário podemos encontrar como definiçoes: estar de acordo com os fatos ou a realidade, ou ainda ser fiel às origens ou a um padrão. Enfoques mais antigos incluíam ao termo o sentido de fidelidade, constância ou sinceridade em atos, palavras e caráter. Assim, ‘a verdade’ pode significar o que é real ou possivelmente real dentro de um sistema de valores.

Quem ama verdadeiramente sabe usufruir das riquezas com justiça e bondade” Enquanto a metafísica, a lógica e a filosofia discutem sobre a verdade, cada um de nós, de certa maneira, também concebe a ‘sua’ verdade na subjetividade das experiências, crenças e capacidade de percebê-la. Poderemos nos enganar se buscarmos

a verdade somente nos aspectos materiais. Ou, ainda mais triste, se nos julgarmos donos absolutos dela. Assim agem os que não aceitam opiniões contrárias, os que estão fechados em suas distorcidas concepções do mundo e dos outros.

Quando observamos o Universo, suas criaturas e as leis harmoniosas que regem a vida de forma perfeita e justa, identificamos como verdade absoluta o amor de Deus, base de tudo o que existe. Dentro deste aspecto, poderíamos entender que se o amor está na base de tudo, ele é a verdade. O que está de acordo com a afirmação de Jesus, de que seremos libertos pela verdade. Afinal, o que poderia ser mais libertador do que o amor? Quem ama serve e prossegue sem se prender, não aguarda elogios, reconhecimento ou gratidão. Faz o bem pelo simples prazer de ver a felicidade do outro. Encontra na falta de entendimento do semelhante oportunidade bendita de trabalho e semeadura. Semeia, mas não se prende pela colheita, pois entende que tudo pertence a Deus. Dirige, mas não busca o domínio tirano e escravacionista sobre as consciências, pois admite que o outro possa crescer, mesmo que por escolhas diferentes das suas. Quem ama verdadeiramente sabe usufruir das riquezas materiais com justiça e bondade, pois já reuniu dentro de si mesmo a certeza de que só há uma verdade absoluta: o amor, a lei maior que a tudo governa e abriga. 1- João 8:32. Profissional de marketing, Umberto é orador e escritor brasileiro, morando atualmente na Flórida, EUA.

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