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Agenda

BAHIA

Compromisso com o futuro

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Existem três elementos químicos com os quais a Braskem faz questão de trabalhar: tecnologia, inovação e criatividade. Uma nova química começa com novas ideias. Assim pensamos e fazemos todos os dias. Hoje, por conta disso, podemos nos orgulhar do nosso portfólio de produtos que oferece soluções para atender às necessidades da sociedade moderna, gerando novos negócios e novas possibilidades. Ideias que se renovam e contribuem para que o Brasil desempenhe um papel cada vez mais importante na nova química mundial.

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Sumário Apresentação........................................................................................................15 Infraestrutura........................................................................................................18 Isso tem que mudar...................................................................................19 Vantagens..................................................................................................... 20 Desafios e ações propostas para a Bahia......................................21 Conta desigual............................................................................................ 25 A diferença que faz um porto.............................................................. 28 Os dois lados da força............................................................................. 33 Linha direta entre Salvador e a China............................................. 37 Inovação está no nosso DNA..............................................................40 O debate é sempre o melhor caminho...........................................44 Pela abertura dos portos.......................................................................48 Debate quente............................................................................................ 52 Bomba-relógio........................................................................................... 54 ‘Porto é a chave’......................................................................................... 58 Novos caminhos..........................................................................................61 Diferença no preço.................................................................................... 63 Só falta resolver......................................................................................... 65 Infográfico: Gargalos da infraestutura na Bahia........................ 68 Cidade integrada . ..................................................................................... 72 Por uma solução........................................................................................ 76 Carro com moderação............................................................................ 79 Projeto da Paralela ainda indefinido................................................. 82 Haja gargalo!.................................................................................................84 Infográfico: Pontos críticos.................................................................. 86 Via longa e sinuosa...................................................................................88 O jogo dos sete erros.............................................................................. 93 Bairro planejado......................................................................................... 94 PVC bem concreto.................................................................................... 96 Sustentabilidade................................................................................................ 100 Para competir, tem que inovar...........................................................101 Vantagens.................................................................................................... 102 Desafios e ações propostas para a Bahia.................................... 103 Inovar para competir.............................................................................. 106 Novas formas de gestão.......................................................................110 Inovação social............................................................................................113 Pituaçu de energia limpa ......................................................................116

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Inovação para fazer a diferença........................................................ 120 Acarajé exportação................................................................................. 123 Um salto de qualidade............................................................................ 126 Crédito para quem produz................................................................... 130 Pilares sustentáveis................................................................................ 134 Produzir aqui é um desafio.................................................................. 136 Brasil investe pouco................................................................................ 140 Salto no tempo ......................................................................................... 142 Mais apoio para os pequenos............................................................. 144 Infográfico: Inovação faz a diferença............................................. 146 Mais apoio para os pequenos............................................................. 150 A marca da Bahia...................................................................................... 153 Ações conectadas.................................................................................... 156 O fator humano......................................................................................... 158 Agronegócio......................................................................................................... 162 Novo clima na economia....................................................................... 163 Vantagens.................................................................................................... 164 Desafios e ações propostas para a Bahia.................................... 165 O efeito estufa........................................................................................... 168 O impacto no ar que respiramos.......................................................171 Floresta sustentável............................................................................... 175 Verde não é só a cor do dólar............................................................. 178 Bahia é a primeira a monitorar o ar no Nordeste..................... 182 Mais riquezas para a Bahia.................................................................. 184 Madeira com pedigree........................................................................... 188 Planeta sustentável................................................................................ 192 O Brasil no caminho certo.................................................................... 195 Hora de acelerar........................................................................................ 199 Muito além do meio ambiente........................................................... 201 Pacto pela Bahia........................................................................................203 Infográfico: Indústria caminha para o interior............................206 Infográfico: O poder da natureza......................................................208 Brasil não aproveita todo o seu potencial agrícola................ 210 Um futuro promissor.............................................................................. 214 Celeiro do mundo...................................................................................... 215 Olhos bem abertos.................................................................................. 218 Safra baiana.................................................................................................220 Turismo ..................................................................................................................222 Simpatia com atendimento 10...........................................................223 Vantagens....................................................................................................224 13

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Desafios e ações propostas para a Bahia....................................225 O legado da Copa......................................................................................228 Interior de olho no turista da Copa de 2014................................233 Exemplo argentino..................................................................................235 Planejar faz a diferença.........................................................................239 Oportunidade que vale ouro para estados brasileiros..........242 Um bolão de empregos.........................................................................244 Um novo destino.......................................................................................248 É preciso redescobrir a baía............................................................... 251 Chance de ouro..........................................................................................255 Para fugir do jeitinho...............................................................................258 Infográfico: Para a bola rolar redonda na Bahia........................260 Corrida contra o tempo.........................................................................262 Um show de Arena...................................................................................265 Bahia: novo perfil.......................................................................................267 Ataque e defesa........................................................................................269 Yes, you can.................................................................................................272 Realizadores.........................................................................................................276

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Pacto pelo desenvolvimento sustentável

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elo segundo ano, o jornal Correio e a rádio CBN, em parceria com a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), promoveram encontros da iniciativa privada, governos municipal, estadual, federal e representantes da academia para buscar caminhos comuns que levem ao desenvolvimento sustentável da nossa terra. O alto nível das apresentações e a qualidade dos debates mostraram com análises, números e propostas a grandeza dos desafios que a Bahia tem pela frente. O primeiro Agenda Bahia, realizado no auditório da Fieb em outubro e novembro de 2010, já havia demonstrado a importância da criação desse forum que ajudou a colocar a infraestrutura, primordial para o avanço de todos os temas do seminário, como pauta essencial do estado. O debate só cresceu em 2011. Os 42 palestrantes e debatedores se aprofundaram nos desafios de Portos e Mobilidade Urbana, em Infraestrutura; Inovação, em Sustentabilidade; Economia Climática e Industrialização, em Agronegócio; e Copa de 2014, em Turismo. A conscientização e o interesse da sociedade por assuntos antes considerados árduos são provas disso. Não dá para desperdiçar vantagens competitivas e naturais da Bahia em função da precariedade dos meios necessários para alavancá-las. Nosso estado possui uma posição estratégica: tem o maior litoral do país e é a porta de entrada para o Nordeste de quem vem do Sudeste. O crescimento da economia baiana tem se mantido acima da média nacional e responde por 57% das exportações da região. Mas estudos da Fieb mostram que hoje se investe menos de 1% do PIB estadual em infraestrutura. O Agenda Bahia pactuou ações mais que urgentes neste tema. É consenso a necessidade de implantação de infraestrutura moderna que garanta o escoamento da produção para dentro e fora do país, reduzindo o custo das empresas. Para o morador, já passou da hora do investimento em transporte público de qualidade que atenda a Região Metropolitana de Salvador. Exemplo da relevância dos debates no auditório da Fieb: caso o governo federal não libere verbas para modernização, portos

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devem ser privatizados. O governador Jaques Wagner deu prazo, em entrevista ao Correio, de até o final de 2011 para decidir qual será o novo modelo de gestão dos portos da Bahia. O secretário James Correia defendeu a privatização durante seminário. Foi também no Agenda Bahia que o secretário de Transporte de Salvador, José Mattos, e de Planejamento do estado, Zezéu Ribeiro, afirmaram que só faltava uma decisão política para escolher o modal do sistema de transporte público Paralela/ Lauro de Freitas. Na sequência, o governador marcou reunião com o prefeito João Henrique e o ministro das Cidades, Mario Negromonte. Decidiram pela adoção do transporte por trilho. O seminário sobre Sustentabilidade apontou vantagens e prioridades. A Bahia possui cursos universitários de renome em todo o país, o que poderia favorecer um ambiente de pesquisa e inovação. Estão instaladas no estado, com plantas industriais ou sedes, algumas das principais empresas do Brasil. A Bahia tem patrimônio histórico e atrações turísticas reconhecidos em diversas regiões do mundo e uma economia em crescimento, o que facilitaria a inovação e a criação da marca Bahia. No evento, especialistas destacaram que é preciso fortalecer as agendas nacional e regional voltadas para inovação e a promoção de políticas públicas que estimulem as empresas e o governo a aumentar a competitividade, a responsabilidade e inclusão social e a redução do impacto das atividades no meio ambiente. As ações não devem se limitar a grandes empresas. A motivação deve ser estendida para as micro e pequenas, responsáveis por 52% dos empregos do país, segundo o Sebrae. No seminário sobre Agronegócio, o Agenda Bahia trouxe à pauta a necessidade de o estado aproveitar as oportunidades criadas com a realização no Brasil da Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, em 2012. Executivos e especialistas debateram a importância de atrair as atenções para a Bahia de novos investimentos para a transição no estado de uma economia verde. Foi firmado um pacto pela Bahia sustentável, que cria metas para economia climática na região. Outro tema em destaque foi a industrialização no estado. A Bahia tem recordes de safras, mas muitos de seus produtos ainda são importados para outros estados brasileiros, que aumentam suas receitas ao dar maior valor agregado com a agroindustrialização. O último seminário de 2011 trouxe a Copa de 2014 para o tema Turismo. Para os palestrantes e debatedores, a Bahia deve 16

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aproveitar a chance de ser uma das cidades que irão abrigar o Mundial para deixar um legado aos baianos. A qualificação da mão de obra e de empresários, um novo calendário turístico para o estado, a recuperação do patrimônio histórico, cultural e ambiental das principais cidades, especialmente Salvador, e ainda o investimento em infraestrutura e segurança foram alguns pontos apontados para a Bahia atrair e fidelizar os turistas nesse perído. O apoio dos parceiros, que acreditaram na importância dos debates para o estado, foi fundamental para a realização dos seminários. A Petrobras e a Braskem foram os patrocinadores globais do evento, que contou nos painéis ainda com a participação da Coelba, da PDG, da Associação Baiana de Produtores de Florestas Plantadas (Abaf) e da Secretaria estadual do Turismo. Destaca-se, ainda, o apoio de empresas e entidades como Uranus2, GDK, Tecon, Deloitte, Arena Fonte Nova, Itaú e Central do Outdoor. Foram quase dois meses muitos intensos. O Agenda Bahia lotou o auditório da Fieb e mobilizou a agenda de executivos, governantes e acadêmicos. Jornalistas também fizeram um mergulho nesses quatro temas fundamentais para o desenvolvimento baiano e desenvolveram reportagens especiais, ampliando o debate. O resultado está neste livro: a segunda edição do Agenda Bahia deixa à disposição da sociedade um amplo repertório de conhecimentos e pactos importantes para que não se perca a oportunidade que o país e o estado têm pela frente. Se o Brasil é a bola da vez no mundo, a Bahia está com todas as condições na mão para liderar a transformação e o desenvolvimento da região e assumir um protagonismo cada vez mais relevante no país.

Sobre o livro A repercussão dos seminários e debates foi muito além do auditório, multiplicada pelos veículos da Rede Bahia: o jornal Correio, a rádio CBN, o portal de internet iBahia e a TV Bahia. O livro Agenda Bahia, Compromisso com o Futuro, é dividido pelos temas dos quatro seminários de 2011. Em cada um deles está todo o conteúdo publicado no Correio, tanto em reportagens especiais e exclusivas quanto nas palestras e debates. 17

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Isso tem que mudar

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crescimento da Bahia acima da média nacional mudou a face dos principais municípios do estado, em especial a da capital. Em menos de cinco anos, os baianos viram a cidade se transformar e se expandir em outra direção. Sem planejamento, transporte público eficaz e com o aumento da renda da população, o carro tomou conta das ruas, engarrafou as vias em qualquer horário do dia e tirou a paciência de quem mora por aqui. O tema ganhou destaque, no primeiro seminário da segunda edição do Agenda Bahia, nas palestras e debates de executivos, empresários, especialistas e autoridades públicas, que apontaram soluções para a mobilidade urbana da Região Metropolitana de Salvador. Sem metrô e vias exclusivas para ônibus, Salvador tem quase quatro vezes mais automóveis que a média estadual, como mostrou o presidente da Fieb, José de Freitas Mascarenhas, em sua palestra. No seminário, especialistas defenderam um sistema integrado de transporte público em que o pedestre tenha prioridade. Portos, outro tema do primeiro Agenda Bahia, também não acompanharam o desenvolvimento do estado e ficaram defasados. Tanto que a Bahia tem perdido competitividade para outras regiões, como Pernambuco e Santos, que aproveitam essa carência e oferecem portos mais modernos para exportação dos produtos baianos. Neste capítulo, reportagens especiais, palestras e debates fazem um raio-X da infraestrutura do estado em dois pontos essenciais para a economia e o dia a dia dos baianos: Portos e Mobilidade Urbana. Apontam as vantagens da Bahia e as ações que devem ser implementadas para que seus municípios tenham maior destaque no país.

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Vantagens - A Bahia possui posição estratégica. Tem o maior litoral do país e é a porta de entrada para o Nordeste de quem sai do Sudeste. - Crescimento da economia do estado acima da média nacional. - Responde por 57% das exportações do Nordeste. - Segunda maior refinaria do país está na Bahia. - Tem reforço na oferta de energia limpa, com a previsão de inauguração do maior parque eólico brasileiro.

Parque eólico em Brotas de Macaúbas Foto: Mateus Pereira/Secom

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Desafios e ações propostas para a Bahia Mobilidade urbana: - Maior investimento em Infraestrutura no PIB do estado, hoje menos de 1%, segundo a Fieb. - Implantação de infraestrutura moderna que garanta o escoamento da produção para os demais mercados do país e internacionais, reduzindo o custo das empresas. - Política urbana que planeje o transporte público integrado com a cidade e dê prioridade ao pedestre. Mobilidade urbana com ordenamento territorial do município. - Criação de um sistema multimodal integrado de transporte com metrô, trens, ônibus e ciclovias. - Definição do modelo de transporte de massa Paralela/Lauro de Freitas, divulgação do edital e início das obras. - Modernização dos trens do subúrbio. - Políticas que incentivem a redução do uso do automóvel na cidade, com frota atual de 770 mil veículos. - Duplicação e conservação das rodovias. - Ampliação do Aeroporto Luis Eduardo Magalhães, com a reforma do terminal de passageiros, da torre de controle e dos pátios de manobra das aeronaves. - Expansão dos aeroportos do interior do estado. - Investimentos em ferrovias, como a construção da Fiol (Ferrrovia Oeste-Leste), e o no contorno ferroviário de Camaçari, ligando o Polo Industrial de Camaçari ao Porto de Aratu. Aeroporto Luis Eduardo Magalhães precisa de ampliação Foto: Andréa Farias

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Portos - Revisão do decreto 6.620/2008 que regula a construção de novos terminais portuários privados de carga própria e a implementação de modelos de concessões de exploração portuária ao setor privado. - Ajuste na legislação permitirá, segundo os especialistas, avanço da estrutura e gestão eficaz, recuperando a vantagem competitiva em relação a outros estados do país, atraindo assim novos investimentos para a Bahia. - No Porto de Aratu, especialistas identificaram no seminário falta de ligação ferroviária com o Polo de Camaçari e equipamentos ultrapassados, com consequente perda de competitividade. Entre as ações emergenciais apresentadas está a ampliação e modernização das instalações. E a redução do tempo de espera de um navio no porto, que hoje chega a até 30 dias, com prejuízo de US$ 46 milhões por ano, pelos cálculos da Fieb. - No Porto de Ilhéus, há limitação física e equipamentos ultrapassados. Entre as ações apontadas está a ampliação do calado, a adaptação da estrutura para escoar produção de cacau e derivados, por exemplo, e a transformação de armazém em terminal marítimo de passageiro. - No Porto de Salvador, sua limitação física exige ampliação do terminal de contêineres e a adaptação do armazém 2 para terminal marítimo de passageiros. Também se faz necessária a conclusão da Via Expressa Baía de Todos os Santos que ligará o Porto de Salvador à BR-324.

Especialistas defendem modernização no Porto de Aratu Foto: Antonio Saturnino

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Compromissos firmados no seminário - Privatização de portos, caso o governo federal não libere verbas para sua modernização. O governador Jaques Wagner deu prazo, em entrevista ao jornal Correio, até o final do ano para decidir qual será o novo modelo de gestão dos portos da Bahia. - Defesa da privatização dos portos foi feita pelo secretário da Indústria, Comércio e Mineração, James Correia, durante debate, ao lembrar que empresas deixam de investir na Bahia porque a estrutura portuária é precária. “Temos que fazer o que fizemos no setor elétrico. Aliás, esse processo é muitas vezes menor do que a reestruturação feita no setor elétrico”, admitiu James Correia no seminário. - Em debate no Agenda Bahia 2011, os secretários de Transporte de Salvador, José Mattos, e de Planejamento do estado, Zezéu Ribeiro, afirmaram que só faltava uma decisão política para escolher o modal do sistema de transporte público Paralela/ Lauro de Freitas. O governador Jaques Wagner marcou reunião, após o seminário, com o prefeito João Henrique e o ministro das Cidades, Mario Negromonte, para definir o sistema. Decidiram por trilho. - As instalações da FCA (Ferrrovia Centro-Atlântica) são precárias na Bahia, conforme admitiu o presidente da FCA, Marcello Spinelli. No total, são 1.769 quilômetros somente no estado. Os principais entraves, segundo ele, estão localizados em Santo Amaro, Cachoeira, São Félix e no entorno de Camaçari. Marcello Spinelli disse que a FCA, controlada pela Vale, está “empenhada” em resolver essa questão. Trânsito cada vez mais caótico na cidade Foto: Marina Silva

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Observatório baiano - Salvador tem número de automóveis maior que a média nacional para cada 100 habitantes. A média nacional é de 14 carros. A média da capital baiana é de 16,2 veículos. - Em Bogotá, com o BRT, 500 mil pessoas deixaram os carros em casa para usar o ônibus, como lembrou o presidente da Transmilênio, Fernando Paez, no Agenda Bahia 2011. - O Rio de Janeiro, como lembrou José Mascarenhas, presidente da Fieb, em sua palestra, já conseguiu implantar 56 quilômetros de linhas de metrô. Em 12 anos, Salvador tem apenas seis quilômetros, que não estão em operação.

BRT é apontado como uma das soluções para o trânsito na cidade Foto: Divulgação

- A capital da Bahia ainda espera o edital para o começo das obras de Mobilidade Urbana - Existem 21 gargalos identificados pela prefeitura, como citou reportagem do jornal Correio. Mas a própria prefeitura admite que há poucos recursos para acabar com essa situação e promover mais qualidade de vida. - Falta engenharia de tráfego. - Para exportar suas mercadorias, parte dos produtores e da indústria baiana procura portos de outros estados, como Suape, Pecém, Santos, Vitória e até Paranaguá. - No Oeste da Bahia, para escoar a produção de soja, segundo a Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), o produtor paga US$ 100 por tonelada. Para o produtor americano levar o resultado da colheita ao destino gasta US$ 30 por tonelada.

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Conta desigual Se há uma questão que impede um maior crescimento da economia baiana e tira o sono de empresários instalados no estado é a deficiência de infraestrutura. E não é para menos. Para colocar seus produtos nas regiões Sudeste e Sul, onde se concentra boa parte do mercado consumidor do país, a quase 2 mil quilômetros de distância, as empresas têm que vencer desafios de logística inaceitáveis em países desenvolvidos ou até mesmo em outros considerados emergentes, como é o caso do Brasil. Os custos são altíssimos. O problema chega a comprometer resultados que representam importantes vitórias da iniciativa privada. Um exemplo: os cerrados do Oeste ostentam a maior produtividade de soja do mundo - em 2011, está batendo em 56 sacas por hectare. Os Estados Unidos, maior produtor mundial, apresentam rendimento médio de 48 sacas/hectare. No entanto, essa vantagem é, em grande parte, anulada pela precariedade de nossa logística. Para escoar a produção de soja do Oeste, de 3,5 milhões de toneladas em 2011, até o Porto de Aratu, pelo menos 1.500 carretas têm que rodar, durante dias, por cerca de mil quilômetros de estradas mal conservadas, com todos os riscos que isso envolve. Nessa complicada operação, o produtor baiano paga US$ 100/ tonelada. Para o americano, levar o resultado da colheita ao destino sai por US$ 30/tonelada. Na indústria, a situação não é melhor. A planta da Ford em Camaçari, que recebe 40% das matérias-primas que utiliza de estados do Sudeste, gasta com logística o equivalente ao seu custo de fabricação. “Nem o homem nem o que ele produz nasceram para ficar parados no mesmo lugar. Precisamos ganhar consciência de mobilidade, que é tão importante quanto ter consciência ambiental”, diz o engenheiro Luc de Ferran, consultor da indústria automotiva e ex-vice presidente da Ford.

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Ganho na produção

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sacas de soja por hectare é a produção do Oeste baiano

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sacas é a produção média por hectare nos EUA

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A ausência de investimentos afetou todos os portos brasileiros nas décadas de 80 e 90 do século passado. Na década seguinte, a Lei 8.630/93, conhecida como Lei de Modernização dos Portos, implementou processos de concessão das atividades operacionais à atividade privada. Na época, foram fortes as gestões e expectativas do empresariado e de representantes do governo estadual em relação ao que poderia vir a ser, afinal, a saída para a questão. Mas a Bahia ficou de fora. “Em 18 anos de vigência da lei, houve apenas uma concessão, em 2000, para a instalação de um terminal de contêineres. De modo que a solução está na implementação dessas ações, subordinadas tais ações a planejamento de curto, médio e longo prazos. Uma visão integrada das intervenções necessárias, que garanta a viabilidade do processo de expansão do complexo portuário”, observa o coordenador do Comitê de Portos da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Reinaldo Sampaio. Ele salienta ainda que, por conta desse atraso, os portos baianos deixam de receber e operar parte das cargas do estado. Perdem, por exemplo, para os portos de Pecém (CE) e Suape (PE) as exportações de frutas do Norte baiano. No plano de desenvolvimento do Porto de Santos, a economia da Bahia está considerada como área de influência desse porto.

Novo cenário com ferrovia É certo que começa a aparecer alguma luz no fim do túnel. A construção da Ferrovia Oeste-Leste (Fiol) deverá desafogar alguns segmentos econômicos. Um deles é o da mineração, que experimenta novo boom mundial, resultado do aumento da demanda dos emergentes, sobretudo da China. Tanto que a Eurasian National Resources Corporation (ENRC), do Cazaquistão, sexta maior produtora de minério de ferro do mundo, já se antecipou e negocia a compra, por R$ 3,5 bilhões, de 25% da capacidade de transporte da Fiol, para exportar a produção de sua mina de Caetité. Dona da Bahia Mineração, a companhia pretende transportar 19,5 milhões de toneladas de minério/ano por via férrea até o terminal que implantará no Porto Sul, a ser construído em Aritaguá, mas ainda pendente de licença ambiental.

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Perda de competitividade

Porto de Pecém

CE

Confira parte da indústria e dos produtores baianos que buscam outros estados para exportar suas mercadorias pela precariedade dos portos da Bahia

PE

BA

Porto de Suape

Frutas do Norte baiano Produção do Oeste baiano Café de Vitória da Conquista Celulose do Sul baiano

ES Porto de Vitória

Parte da carga do Complexo Industrial de Camaçari

SP Porto de Santos

PR Porto de Paranaguá

No plano de desenvolvimento do Porto de Santos, a economia da Bahia está considerada como área de influência desse porto.

“Nem o homem nem o que ele produz nasceram para ficar parados no mesmo lugar. Precisamos ganhar consciência de mobilidade, que é tão importante quanto ter consciência ambiental” LUC DE FERRAN, consultor da indústria automotiva e ex-vice presidente da Ford

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Foto: Mila Cordeiro /Agecom

Porto de Aratu

9,2

milhões de toneladas é o movimento de três portos da Bahia

A diferença que faz um porto A história econômica recente de Pernambuco pode ser dividida em duas fases bem distintas: antes e depois do Porto de Suape. Mais do que um equipamento eficiente para escoamento da produção do estado, Suape foi planejado como indutor de desenvolvimento, capaz de atrair investimentos de peso em vários setores da economia. Construído dentro do conceito de porto-indústria, Suape já recebeu em sua retroárea (espaço atrás do cais de atracação), desde que foi inaugurado, em 2003, 71 empresas, que vão de estaleiros, têxteis, embalagens, siderurgia, petroquímica , alimentos e indústria automotiva à Refinaria Abreu e Lima, o maior investimento em curso no estado, em torno de US$ 13, 3 bilhões. “O Porto de Suape é um dos mais modernos do país e serve de exemplo. Esse planejamento deve ser aproveitado pela Bahia, que pode fazer aqui o que eles realizaram lá”, analisa Sérgio Faria, professor do Departamento de Transportes da Universidade Federal da Bahia. Segundo ele, há 400 hectares no Porto de Aratu que podem ser destinados à indústria, seguindo o modelo pernambucano.

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infraestrutura Foto: Divulgação

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milhões de toneladas é o movimento apenas do Porto de Suape

O acerto do estado vizinho no que se refere a instalações portuárias fica bem claro quando se compara os números. Enquanto os três portos baianos - Aratu, Salvador e Ilhéus - movimentaram, juntos, em 2010, 9,2 milhões de toneladas, o Porto de Suape, sozinho, registrou 9 milhões. Se somar o Porto de Recife, Pernambuco passa a Bahia. E a tendência é disparar, com os novos empreendimentos. A projeção é de que chegue a 2013 com 30 milhões de toneladas. “Já a partir de agosto, a movimentação terá um impacto ainda mais forte, principalmente quando for implantada nova linha de longo curso vinda diretamente da Ásia”, disse o vice-presidente de Suape, Frederico Amâncio. Dados da Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba) indicam que, em 2010, o Porto de Salvador movimentou 3,4 milhões de toneladas, o segundo melhor desempenho de sua história. Aratu ficou com 5,6 milhões, e Ilhéus, 202 mil toneladas. Apesar das estatísticas oficiais apontarem que Pernambuco vem reduzindo a diferença em relação ao PIB baiano, o vice-presidente

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da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Reinaldo Sampaio, acredita que aquele estado não pode servir de modelo. “Creio que uma coisa importante é não tomar Pernambuco como referência. A Bahia é a sétima economia do país e responde por mais de 50% do comércio exterior regional. O que precisamos é promover ações que assegurem infraestrutura logística voltada para a melhoria dos sistemas de transportes, de energia, comunicação, saneamento e, em especial, do desenvolvimento de um modelo educacional de elevada qualidade, compatível com os desafios do seu futuro”, diz. Seguindo ou não o exemplo de Pernambuco, nos últimos anos, a Bahia mais perdeu do que ganhou investimentos, sobretudo no setor industrial. Cálculos da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais (SEI) estimam o tamanho dessa perda - 3% do PIB industrial, em torno de R$ 1,350 bilhão. No balanço geral, a Bahia perdeu participação no PIB. Antes detentor de 48% do PIB nordestino, passou a ter 32%. E, nacionalmente, saiu da sexta posição para a sétima, segundo dados de 2008 do IBGE. Sua antiga posição foi ocupada por Santa Catarina. A Bahia está com 4,1%, seguida muito de perto pelo Distrito Federal (4,04%) e Pernambuco (3,96%).

Porto de Aratu

Movimentação do porto : 5,604 milhões de toneladas Embarcações: 639 Carga em granéis sólidos: 1,808 milhão de toneladas Carga em granéis líquidos: 3,411 milhões de toneladas Carga em contêineres: Não contém Faturamento: R$ 61,3 milhões

Bahia em números:

População: 14.016.906 Área (km): 564.830,859 Densidade demográfica (hab/km): 24,82 Municípios: 417 PIB (projeção): R$ 137 bilhões Principais cidades: Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Barreiras e Juazeiro

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Interiorizar é a meta da Bahia A Ferrovia Oeste-Leste, um investimento de R$ 7,4 bilhões do governo federal que ligará Figueirópolis (TO) ao Porto Sul, no litoral de Ilhéus, é uma obra que deverá incrementar significativamente a economia baiana, acredita o secretário do Planejamento do estado, Zezéu Ribeiro. Ele salientou que o governo baiano também está trabalhando pela instalação de um estaleiro no Porto de Aratu, o que deverá também contribuir para alavancar a economia estadual. Ao lado disso, Zezéu afirmou que está sendo realizado um grande esforço pela interiorização do desenvolvimento, sobretudo no segmento do agronegócio. “Estamos trazendo 16 grandes agroindústrias para o interior do estado, e mais outras cem indústrias. Nosso foco é fortalecer a estrutura produtiva, agregando valor à produção“, disse. Na área de infraestrutura, o governo informou que entregou 800 quilômetros de rodovias nos primeiros seis meses deste ano e trabalha na recuperação de mais 300 quilômetros de estradas. Ao todo, foram investidos R$ 75 milhões nas obras. Além disso, aeroportos serão instalados nos municípios de Prado, Ibotirama e Mucugê, e recuperados os de Feira de Santana e Ituberá. As obras estão em fase final.

Porto de Suape

Movimentação do porto: 9 milhões de toneladas Embarcações: 1.181 Carga em granéis sólidos: 684.918 toneladas Carga em granéis líquidos: 4,152 milhões de toneladas Contêineres: 3,914 milhões de toneladas Faturamento: R$ 72,5 milhões* * receita total (inclui atividades não operacionais, como a venda de terrenos)

Pernambuco em números:

População: 8.796.448 Área (km): 98.146,315 Densidade demográfica (hab/km): 89,63 Municípios: 185 PIB (projeção): R$ 87,17 bilhões Principais cidades: Recife, Petrolina, Caruaru, Jaboatão dos Guararapes e Garanhuns

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infraestrutura

*

O que a Bahia ganhou

Nos últimos quatro anos, o estado atraiu investimentos, principalmente na área de energia eólica e mineração, que somam R$ 14,9 bilhões, considerando apenas os maiores projetos. Veja as principais empresas abaixo:

Renova Energia: Obras de 14 parques eólicos no Sudoeste baiano geraram um investimento de R$ 1,17 bilhão na sua construção. Bahia Mineração: Prepara-se para extrair minério de ferro em Caetité, a 757 quilômetros de Salvador. O investimento é de R$ 3,8 bilhões nos próximos três anos. Chong Qing Grain Group: Fará um investimento de R$ 4 bilhões voltado à industrialização da soja no Oeste baiano. Veracel: Aplicará R$ 6 bilhões nos próximos três anos para ampliar sua fábrica em uma vez e meia. Desse total, R$ 593 milhões serão para a infraestrutura.

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O que Pernambuco levou

Nos últimos quatro anos, o complexo portuário de Suape já atraiu investimentos que somam R$ 32,4 bilhões, considerando apenas os maiores projetos. Veja abaixo: Refinaria de petróleo: R$ 20,7 bilhões. Início de operação previsto para o segundo semestre de 2012. Petroquímica Suape: R$ 4,9 bilhões, distribuídos em três plantas: PTA, Fios de Poliéster e Resina PET. Montadora Fiat: R$ 3 bilhões, para a produção de 200 mil veículos/ano. Usina siderúrgica: R$ 2,3 bilhões, a primeira laminadora de aços planos do Nordeste. Estaleiro Atlântico Sul: R$ 1,56 bilhão, com geração de cinco mil empregos diretos. 32

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infraestrutura

Os dois lados da força A China está no foco dos interesses da Bahia quando se trata de oportunidades de negócios. E não é para menos: nesses últimos anos, o gigante do Oriente, que se tornou em poucas décadas a segunda maior economia do mundo, passou a ser o segundo parceiro comercial do estado — na frente dos Estados Unidos —, ficando atrás apenas da União Europeia. O governo baiano mantém, inclusive, um escritório em Pequim, a fim de observar de perto as possibilidades de intercâmbio econômico.

1,1 bilhão de dólares foi quanto a Bahia exportou para a China em 2010, bem mais que 2005 (246,3 milhões de dólares)

O interesse maior está na atração de investimentos, com a absorção de tecnologia e geração de empregos e de renda. E também no outro lado: a identificação de nichos para empresas exportadoras baianas. As exportações da Bahia para a China estão em ritmo ascendente. De apenas US$ 246,3 milhões exportados em 2005, a Bahia vendeu para o exterior em 2010 US$ 1,1 bilhão, ou 13,1% de todas as vendas externas do estado no período. Por enquanto, o saldo da balança comercial é favorável à Bahia, registrando US$ 687,4 milhões em 2010. Mas as cifras da importação, que já eram crescentes, devem disparar este ano, por conta não só do aumento da renda interna e do câmbio favorável, mas da agressividade comercial da China que, ao subsidiar insumos e manter os salários em níveis insignificantes, coloca seus produtos nos mercados mundiais a preços baixíssimos. “Precisamos reagir com a mesma firmeza que outros países. Temos 70 mil empregos na área de calçados, que estão sendo ameaçados pelo produto chinês”, reclama o secretário da Indústria, Comércio e Mineração, James Correia. Entre os pontos a serem melhorados está infraestrutura, tema do primeiro seminário do Agenda Bahia 2011. Os gastos com logística encarecem os custos das empresas, reduzindo competitividade. Os portos chineses, por exemplo, são muito bem montados. O crescimento econômico chinês é hoje um impulsionador de consumo em várias partes do mundo, principalmente de matérias-primas, o que favorece a balança comercial brasileira. A Bahia tem se beneficiado em vários segmentos, como algodão e cobre (confira no infográfico).

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infraestrutura

Em 2008, com a crise econômica iniciada nos EUA, houve verdadeiro baque nos preços internacionais do cobre. Foi a atuação da China que salvou a situação. De menos de US$ 4 mil no início de 2009, o metal teve o preço recuperado para US$ 10 mil em 2010 – um recorde. Hoje está em US$ 9,4 mil, na média. Cerca de 20% das exportações da Caraíba Metais, única produtora de cobre do estado e uma das maiores do país, vão para a China. Embora apresente superávit em suas relações comerciais com o país, a Bahia se encontra em posição de desvantagem no que se refere ao valor dos produtos exportados. O carro-chefe da pauta é a celulose, papel e subprodutos, seguidos pelos metalúrgicos, soja e derivados, químicos e petroquímicos. Já a China nos manda, sobretudo, eletroeletrônicos, máquinas e acessórios. Preocupado em agregar valor aos nossos produtos, o governo do estado tem estabelecido que os investimentos na produção de matérias-primas, como a grande esmagadora de soja que a estatal ChongOing Grain pretende implantar no Oeste, a um custo de R$ 4 milhões, contemple a instalação de indústrias, para que o produto final saia da Bahia com preço melhor. Os chineses já manifestaram interesse também em têxteis e nos charutos. Em resumo, em produtos agrícolas e derivados de recursos naturais, que são escassos em seu país. Se a Bahia souber aproveitar, está aí excelente oportunidade de negócios e geração de empregos.

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Reação do dragão

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vezes maior: é essa a conta do custo logístico do Brasil em relação à China

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FONTE: MDIC/SECEX

CHINA

BRASIL

BAHIA

EXPORTAÇÃO Papel e celulose Metalúrgicos Soja e derivados Químicos e petroquímicos Algodão e seus subprodutos Couros e peles Sisal e derivados Minerais Máquinas, aparelhos e material elétrico Cacau e derivados Calçados e suas partes Petróleo e derivados Demais segmentos TOTAL

2009

2010

470.112 280.418 152.964 123.352 27.303 15.990 8.057 1.640 184 72 182 110 640 1.081.024

534.405 225.544 219.672 90.163 60.519 19.375 9.041 3.645 627 236 76 57 1.285 1.164.645

VARIAÇÃO (%) 13,68 -19,57 43,61 -26,91 121,66 21,17 12,21 122,26 240,76 227,78 -58,24 -48,18 100,78 7,74

PARTICIPAÇÃO (%) 45,89 19,37 18,86 7,74 5,20 1,66 0,78 0,31 0,05 0,02 0,01 0,00 0,11 100,00

0

10

20

30

40

50

*

Importações efetivas, dados preliminares

VARIAÇÃO (%)

29.638 12.682 17.861 10.760 5.561 2.778 12.740 706 280.306 373.032

22.479 20.633 15.351 11.614 11.314 10.099 10.028 9.969 365.727 477.214

-24,15 62,70 -14,05 7,94 103,45 263,53 -21,29 1.312,04 27,93

PARTICIPAÇÃO (%) 4,71 4,32 3,22 2,43 2,37 2,12 2,10 2,09 76,64 100,00

COMÉRCIO BILATERAL (BAHIA/CHINA) PERÍODO 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2010 2009

EXPORTAÇÕES 21.406 48.303 60.184 111.488 124.046 246.335 330.017 571.334 594.725 1.164.645 1.081.024

*IMPORTAÇÕES 11.543 31.199 30.075 42.566 114.659 143.220 259.023 405.464 506.640 477.214 373.032

SALDOS 9.863 17.104 30.109 68.922 9.387 103.115 70.994 165.870 88.085 687.431 707.992

0

10

2000

**CORR. DE COM. 32.949 79.502 90.259 154.054 238.705 389.555 589.040 976.798 1.101.365 1.641.859 1.454.056

2001 2002 2003 2004

20

30

40

50

60

70

80

1.200.000

2010

800.000

Tela para microcomputadores Aparelhos de gravação Unidades de discos ópticos Aparelhos de rádio Motores elétricos de corrente alternada Lâmpadas fluorescentes Aparelhos telefônicos Outras máquinas e aparelhos mecânicos Demais produtos TOTAL

2009

400.000

IMPORTAÇÃO*

exportações importações

2005 2006 2007 2008 2009 2010

**VALORES EM US$ 1000 FOB

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Produto chinês ameaça Eliane Os prejuízos causados pela atuação da China são reais para a fábrica de pisos cerâmicos da Eliane, que tem uma de suas plantas instalada em Camaçari. Segundo o diretor industrial da empresa, Otmar Müller, já foram fechadas duas linhas de produção e, um mês atrás, a empresa colocou alguns funcionários em férias coletivas. “Tivemos nossa produção reduzida em 45%”, relatou. A invasão dos pisos chineses começou com o porcelanato polido, piso mais requintado, que tem preço bem inferior ao produzido pelas indústrias brasileiras. Segundo Müller, 98,5% do porcelanato vendido hoje no Brasil vem da China, o que representa a criação de 5.600 empregos naquele país. A valorização do real, que barateou a entrada dos importados, traz efeitos negativos para as indústrias. “Há cinco anos, o metro quadrado do porcelanato vinha da China por R$ 23. Hoje, vem por R$ 15”. Já o brasileiro sai por R$ 25. Outra questão que desfavorece as indústrias é a infraestrutura. “São as más condições das nossas rodovias o que mais impacta”, salienta Müller. Ele fez um relato da situação para o governador Jaques Wagner e o secretário da Indústria, James Correia. “Vamos documentar tudo isso para subsidiar o governo do estado, que defenderá a indústria perante o governo federal”, disse.

*

Diferença no preço

R$ 25

preço cobrado pela indústria brasileira para o metro quadrado do porcelanato

R$ 15

preço cobrado pelo produto chinês pelo metro quadrado do porcelanato

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Linha direta entre Salvador e a China Em 2011, a Bahia assistiu ao primeiro embarque de produtos direto para a China, sem transbordos. A criação da rota, inaugurada pela Braskem, é fundamental para o comércio do estado com a região do mundo que mais cresce em termos econômicos, capitaneada pelos chineses. Isso só foi possível graças à ampliação do Terminal de Contêineres (Tecon) de Salvador, mediante um aditivo ao contrato de concessão celebrado no ano 2000. O berço passou de 210 metros para 377 metros de comprimento, o que permite a atracação de navios de grande porte. Também foram adquiridos mais três portêineres, que se somarão aos dois pré-existentes, reforçado o cais de ligação e transferência e pavimentados 45 metros quadrados do pátio atual, entre outras melhorias. Ao todo, a Wilson Sons investiu R$ 160 milhões na ampliação, além de R$ 20 milhões no Terminal de Vazios, em Porto Seco Pirajá, onde os contêineres utilizados passam por limpeza e reparos antes de serem embarcados com novas cargas. O processo de melhorias só deve estar concluído em 2012. “Vamos recolocar Salvador como um porto extremamente competitivo, capaz de receber qualquer navio de contêineres que aporte na costa brasileira”, promete o diretor executivo do Tecon, Demir Lourenço.

160

milhões de reais: investimento no Tecon de Salvador

Foto: Antonio Saturnino

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O novo Tecon já consegue atrair para a Bahia armadores com rotas no Atlântico Sul, o que até 2010 estava ficando cada vez mais raro. Diante das dificuldades e do custo, os navios passavam batido para portos como Suape (PE) e Pecém (CE). Pelo menos no que se refere à movimentação de contêineres, o estado registrou algum avanço, após 11 anos sem maiores investimentos nessa área. A previsão, por exemplo, é que 30% da safra do algodão em pluma, correspondendo a 2.400 contêineres, seja escoada pelo terminal. Demir Lourenço acredita que com os empreendimentos modernizantes em curso, o terminal terá condições de voltar a funcionar como fator de competitividade para o estado na atração de investimentos. “Durante muitos anos, fomos uma importante ferramenta para o estado nesse sentido. Agora, seremos capazes de reassumir a nossa função de atrair novos projetos para a Bahia”, disse ele. Mesmo com o processo ainda em andamento, o Tecon já apresenta resultados animadores. Em 2010, o movimento de cargas cresceu 18% em relação a 2009. De janeiro a junho deste ano, o crescimento foi de 9% em relação a igual período do ano passado, com perspectivas de melhorar mais, uma vez que a movimentação costuma aumentar no segundo semestre.

“Vamos recolocar Salvador como porto competitivo, capaz de receber qualquer navio” Demir Lourenço, diretor executivo do Tecon

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*

Novo cenário

210

377

30%

2.400

metros: tamanho do berço do porto depois da obra, o que permite a chegada de navios grandes

metros era o comprimento do berço do Porto de Salvador

da safra do algodão em pluma passou a ser escoada pelo terminal

é a quantidade de contêineres para escoar o algodão em pluma

18%

foi o aumento no movimento de cargas no Tecon em 2010

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Foto: Sora Maia

Inovação está no nosso DNA Entrevista com Antonio Carlos Júnior A Rede Bahia promove o Agenda Bahia, em parceria com a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb). O presidente da Rede, Antonio Carlos Magalhães Júnior, um dos idealizadores do projeto, é administrador por formação, professor da Ufba e foi senador pelo estado. Ele defende a importância de reunir os principais atores da economia baiana e formadores de opinião do país para debater o desenvolvimento do estado e apontar caminhos e soluções para a Bahia superar os atuais entraves de infraestrutura, tema do primeiro seminário. Antonio Carlos Júnior conversou com o diretor de Redação do Correio, Sergio Costa, e a editora-executiva de Conteúdo do Agenda Bahia, Rachel Vita, em seu gabinete, na sede do grupo. A seguir, os principais trechos da entrevista. Como o Agenda Bahia pode contribuir para o desenvolvimento sustentável do estado? Nosso grupo tem como missão e valores contribuir para o desenvolvimento econômico, social e cultural da Bahia e acredita na importância de promover debates sobre o que o estado pode e precisa fazer para manter sua liderança no Nordeste, que é incontestável. Mas, nos últimos tempos, tem perdido espaço em termos relativos para Pernambuco e Ceará. As atenções da Bahia inteira se voltam para identificar os problemas do estado e fazer com que ele continue a crescer a taxas acima da média nacional, 40

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tradição baiana desde a década de 70. Novos empreendimentos precisam vir e o primeiro módulo do Agenda Bahia 2011, que discute Mobilidade Urbana e Portos, toca num ponto vital. Infraestrutura é o principal entrave ao crescimento do estado? Nosso porto (de Salvador) ficou obsoleto, e Aratu é insuficiente. Pernambuco e Ceará são dois exemplos. Suape foi uma revolução em Pernambuco, e (o porto de) Pecém contribuiu muito para o crescimento do Ceará. Nós patinamos nesta área, o que deixou um gap de crescimento mais acelerado. O senhor é presidente do maior grupo de comunicação do Norte e Nordeste, líder em praticamente todos os segmentos em que atua, e que se notabilizou também na área de entretenimento. O Agenda Bahia marca um novo tipo de atuação do grupo e o momento da Rede, com a liderança do Correio, a chegada da CBN, no segmento de negócios? Com certeza. Com um jornal líder, que busca debater estes temas importantíssimos, e uma emissora de notícias, como a CBN, estamos mais habilitados a buscar permanentemente o debate para o desenvolvimento do estado. Estamos prestando um serviço à Bahia, exatamente aquele a que nos propusemos na nossa missão e valores. Ganhamos mais força para buscar este objetivo permanente do grupo. O Agenda Bahia tem a vocação de se tornar um fórum natural, um elo, entre empresários, executivos, governo e universidade para debater os caminhos do estado? Somos um meio de veiculação das ideias de todos os segmentos e, como tal, podemos reuni-los para debater e buscar soluções. Somos facilitadores deste processo. Assumimos esta posição de vanguarda e vamos seguir nela. Um segmento que estamos desenvolvendo no grupo é o de eventos de negócios para debater o que a Bahia precisa e melhorar a gestão nos seus mais variados níveis. O Agenda Bahia é o pioneiro destes eventos, que serão multiplicados. O Agenda marca uma fase de maturidade da Bahia para debater seus problemas e suas alternativas acima de divergências políticas e independentemente da cor política de seus atores? Claro. Todos devem tirar suas camisas coloridas da política e buscar o que é melhor para a Bahia e para os baianos. É um dever de todos nós ir para o debate de forma absolutamente aberta, sem preconceitos, sem matizes ideológicos. É um fórum que busca pontos comuns e nós, como rede de comunicação, o empresariado, o governo e a comunidade acadêmica. Temos que nos juntar para 41

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que o produto deste evento seja positivo na busca dos melhores caminhos para o estado no futuro. Para enxergar melhor esses caminhos, o Agenda busca também mostrar as vantagens do estado em relação às outras unidades da Federação. Quais, em sua opinião, são as principais vantagens competitivas do estado? Temos um imenso litoral, uma área agrícola extremamente favorável - em que pese uma área grande de semiárido -, temos rios, uma posição geográfica central no país, colada no litoral. Nós já lideramos o Nordeste, ou seja, temos uma série de vantagens. Mas precisamos usar isso de forma inteligente, melhorando a infraestrutura, a mobilidade e lutar para obter cada projeto de investimento que se dispuser a vir para Bahia. É preciso diversificar a economia. A Bahia era até pouquíssimo tempo um estado monoagrícola, com economia baseada no cacau até o início da década de 70. Se em 30, 40 anos, houve uma revolução na economia da Bahia, ela é um exemplo de que podemos mais. Esse primeiro módulo do Agenda Bahia vai ao ponto nevrálgico para esse desenvolvimento que é a questão da infraestrutura.

“O ponto número um para atrair novos investimentos é porto”

O debate sobre portos abrirá a segunda edição do Agenda. Como o senhor vê a situação dos portos? O ponto número um para atrair novos investimentos é porto. O governo aposta alto no Porto Sul com recursos federais, mas precisa também dar atenção a Aratu e ao Porto de Salvador. Com suas deficiências e limitações, ainda podem melhorar. Precisamos ter várias alternativas para manter um nível desejado de atração de investimentos. A Bahia deu saltos imensos no passado com a petroquímica e a consequente criação do Porto de Aratu, que foi também um indutor. Depois tivemos a indústria automobilística e o papel e celulose. Outras indústrias, inclusive fornecedoras de matéria-prima para estes polos maiores, poderiam ter vindo se não tivéssemos problemas de infraestrutura e alternativas como o Porto de Suape ofereceu em Pernambuco. Outro ponto do seminário é mobilidade urbana, que tem forte relação com infraestrutura. Um sistema mais eficaz reduz custos e aumenta a competitividade. A mobilidade tem dois aspectos importantes: o primeiro é complementar aos portos, para facilitar o trânsito entre a produção e o escoamento. O outro tem a ver com o ir e vir das pessoas. No caso específico de Salvador, temos uma estrutura viária que foi montada na virada dos anos 60 para 70. As grandes intervenções que ACM fez como prefeito, e depois governador, que representaram uma revolução urbana em Salvador. Teve pouca coisa depois disso:

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a (avenida) Luis Eduardo Magalhães, aquele trevo da Rótula do Abacaxi e uma parte da Via Portuária. A população cresceu quatro vezes, o que não foi acompanhado nas intervenções na cidade. Uma decisão acertada como o metrô, por exemplo, acabou tendo uma condução errada. Temos daqui a três anos um evento importantíssimo, a Copa do Mundo, e há uma apreensão grande que não tenhamos um conjunto de mobilidade urbana à altura do que se deseja de uma sede de evento como este. O próprio governo federal demonstrou estar preocupado com o prazo de execução, envolvendo mais de 20 quilômetros de metrô.

“Temos que disputar posições entre os maiores estados brasileiros”

Hoje um outro ponto fundamental para o desenvolvimento é a sustentabilidade. Dentro dela, um tema importantíssimo é a inovação. A Rede Bahia é inovadora? Nos 24 anos do grupo, inovamos muito, criamos coisas novas para a Bahia e continuamos inovando. A inovação está no nosso DNA. O Correio é um exemplo disso. Fizemos uma revolução em termos de jornal que foi inclusive citada pela revista inglesa The Economist como exemplo internacional de inovação. Somos empreendedores e inovadores. E continuaremos assim. Essas ações que estamos fazendo como o Agenda Bahia é outro exemplo disso. A Bahia não pode perder sua posição vanguardista no Nordeste. O senhor não acha que a liderança no Nordeste para a Bahia é pouco? Ela não precisa ganhar mais relevância nacional? Claro. É como a Rede Bahia. Para nós, já não basta ser líder no Nordeste. Temos que buscar mais. A liderança na região, se for bem administrada, vai continuar. Mas temos que disputar posições entre os maiores estados brasileiros. Somos a terceira capital, o quarto colégio eleitoral, temos questões graves, como o semiárido e bolsões de pobreza, mas isso não impede a gente de ir buscar mais. E o momento é este, em que todas as atenções do país estão voltadas para o Nordeste e a Bahia em particular? A parceria para a realização do Agenda Bahia mostra isso. Nossos parceiros estão alinhados com esses objetivos. Buscamos pares que pudessem nos dar suporte técnico e também visão estratégica de negócios: a Fieb, que reúne o empresariado baiano e estuda com profundidade nossa realidade, e a Ufba, da qual me orgulho de ser professor, com a participação da comunidade acadêmica. É preciso ressaltar a participação da Braskem, da Petrobras, patrocinadores globais, e de todos os demais parceiros que tornaram possível a realização de um evento do mais alto nível. O Agenda Bahia, em resumo, é para pensar o futuro do estado.

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O debate é sempre o melhor caminho Entrevista com Luis Eduardo Magalhães Filho O empresário Luis Eduardo Magalhães Filho, sócio-administrador da Rede Bahia, realizadora do Agenda Bahia com a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), aposta no debate para encontrar caminhos que levem ao desenvolvimento sustentável do estado. O jovem executivo acredita que a experiência do Carnaval baiano será fundamental para a organização da Copa do Mundo 2014 em Salvador, mas teme pela mobilidade urbana. Ele conversou, terça-feira, com o diretor de redação do Correio, Sergio Costa, e o editor-executivo, Oscar Valporto, sobre a realização do evento. A seguir, os principais trechos da entrevista. Qual a sua expectativa em relação à segunda edição do Agenda Bahia? Que o evento sirva como um grande palco para o debate de temas relevantes como sustentabilidade, infraestrutura, agronegócios e turismo e que o resultado seja um combustível para o desenvolvimento em vários aspectos de nosso estado. Creio que teremos uma grande oportunidade de aprofundar essas questões. Na primeira edição do Agenda Bahia, tivemos um panorama mais amplo sobre esses assuntos estratégicos. Agora, teremos foco em questões que estão na ordem do dia no estado, como a modernização dos portos baianos, o sistema de transporte urbano em Salvador, as perspectivas do turismo com a Copa do Mundo 2014. A Rede Bahia é líder em praticamente todos os segmentos, é referência na comunicação no Norte e Nordeste e sucesso no entretenimento. O Agenda Bahia marca a entrada do grupo nos eventos de negócios? Certamente. A Rede Bahia já tem uma empresa, a Icontent, com a experiência em organizar eventos de sucesso como o Festival de Verão, que já está na sua 13ª edição, e o Festival de Inverno, que estamos novamente organizando agora em agosto, em Vitória da Conquista. Por outro lado, o grupo também tem uma vocação para produção de conteúdo, demonstrada pela qualidade dos nossos programas de TV - dos telejornais ao Mosaico e o Aprovado -, pelo sucesso do CORREIO, hoje líder em circulação na Bahia e entre os 20 jornais com maior venda no Brasil, e pela evolução da CBN Bahia. Portanto, era natural que a Rede passasse a atuar no setor de eventos de negócios como o Agenda Bahia e creio que o seu sucesso indica que devemos fazer outros investimentos nesse setor.

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infraestrutura Foto: Márcio Costa e Silva

Na sua visão, qual a principal característica deste evento? A principal é o estímulo ao raciocínio, ao debate de ideias para o estabelecimento das bases para a solução dos problemas. Essa característica me entusiasma porque, apesar das discussões do Agenda Bahia serem mais no campo econômico, também foi a principal característica da ação política de meu pai, o deputado Luis Eduardo Magalhães. Ele achava que o debate era sempre o caminho mais construtivo, sempre capaz de solucionar problemas, de vencer desafios. Fico satisfeito em ver que essa abertura tornou-se uma marca do Agenda Bahia, com a reunião de autoridades públicas, de empresários, de executivos, de especialistas da academia, todos com essa disposição para o diálogo. Como empresário de sucesso, como enxerga as principais vantagens competitivas do estado? A Bahia é quase um país dentro de outro pela sua diversidade. O imenso litoral, o maior do Brasil, e a variedade de climas e solos do estado criam condições para quase todos os tipos de empreendimentos industriais e agrícolas. Temos ainda uma posição estratégica dentro do nosso país, pela proximidade com os polos econômicos do Sudeste, e em relação ao exterior: estamos há sete horas de avião da Europa e dos Estados Unidos. Não podemos esquecer que a Bahia é uma referência para os brasileiros de outros estados e para os estrangeiros: Salvador e o litoral baiano estão entre os principais destinos turísticos do país. Que lições o Carnaval baiano pode emprestar à preparação da Copa 2014? A Copa do Mundo é uma grande prova e nós temos oportunidade 45

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de mostrar nossa capacidade e competência para receber um evento desse porte. Será um momento em que a Bahia e Salvador, particularmente, estarão em evidência para bilhões em todo o mundo. O grande cartão de visita da Bahia é o nosso Carnaval. Durante uma semana, Salvador promove uma festa com mais de dois milhões nas ruas com paz e alegria. O Carnaval revela a vocação da Bahia para o turismo, com a recepção calorosa aos visitantes pelos baianos. Mas revela também a capacidade empreendedora dos baianos pelos negócios que surgem a cada ano, com mais e mais empresas buscando a visibilidade do Carnaval no estado para divulgar seus produtos e suas ações. E também uma capacidade de organização dos órgãos públicos que se unem ao setor privado para organizar uma festa que é elogiada por todos. Quais os pontos que o preocupam em relação à Copa? Em primeiro, segundo e terceiro lugar, em relação ao país, são os estádios. No caso da Bahia, aparentemente, estamos até avançados neste quesito. Aqui, transporte é minha maior preocupação, mas não apenas esta discussão sobre a mobilidade urbana. O aeroporto de Salvador precisa de uma reforma urgente que modernize as operações, inclusive com mais uma pista, e dê mais conforto aos passageiros. Nos últimos tempos, só temos notícias ruins sobre o aeroporto: alagamento e goteiras a cada chuva mais forte, brigas entre taxistas e motoristas clandestinos na disputa por passageiros, invasão da pista por animais. O valor reservado pela Infraero para a reforma é pequeno em relação às necessidades do aeroporto e ao potencial turístico de Salvador. A demora na definição do plano de transporte da cidade para a Copa do Mundo também me inquieta: vejo que em outras cidades as obras de mobilidade urbana já começaram. Temo que Salvador fique para trás.

“Os processos burocráticos ainda são muito lentos e ineficazes, o que atrapalha, e muito, nossa competitividade”

Qual sua expectativa em relação ao legado da Copa do Mundo para Salvador? Essas obras que estamos discutindo são fundamentais para a população de Salvador, particularmente um sistema de transporte público eficiente. Estou otimista que teremos ainda um impacto enorme no setor turístico: pela reforma, mesmo modesta, no aeroporto e no Porto de Salvador, pela instalação de um equipamento moderno como a Arena Fonte Nova em um setor da cidade que precisa ser revitalizado, e pela visibilidade que a Copa dará a Salvador. Também deve ser uma preocupação de nós, do setor privado, e das autoridades públicas de aproveitar o evento para qualificar trabalhadores para o setor de turismo e eventos. É uma vocação da Bahia, mas, para seu desenvolvimento pleno, o turismo precisa de pessoas realmente

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preparadas para receber os visitantes, potencializar as atrações que o estado já oferece e criar novos empreendimentos. Na sua opinião, qual o principal entrave ao desenvolvimento sustentável da Bahia? Acho que os processos burocráticos ainda são muito lentos e ineficazes, o que atrapalha e muito nossa competitividade. Há gargalos evidentes na infraestrutura do estado. Necessitamos da ampliação e modernização dos nossos portos. Queremos a Ferrovia Oeste-Leste para o escoamento da produção do estado. Mas, já que estávamos falando em qualificação, não podemos esquecer que a educação - na verdade, a falta de acesso à educação de qualidade de muitas famílias baianas - também é um entrave ao desenvolvimento. A Bahia, em muitas áreas, é ainda uma grande importadora de mão de obra. Precisamos de profissionais mais qualificados e, para isso, é preciso investimento em educação desde a infância.

“O Agenda Bahia tem esse foco: construir um futuro melhor para o nosso estado com base no debate e no entendimento”

O senhor considera a Rede Bahia inovadora? Em vários aspectos. A Rede Bahia sempre foi pioneira em suas ações. O próprio Agenda Bahia é um exemplo. Fomos um dos primeiros a investir na digitalização das emissoras de TV. Por isso, temos programação própria e com a cara da Bahia. Por isso, promovemos o maior festival anual de música do Brasil. Por isso, reformulamos o Correio e alcançamos a liderança no meio jornal. Por isso, estamos investindo nas plataformas para internet. Estamos sempre buscando novos negócios e oportunidades, além de incentivar a criatividade e a ousadia no grupo. O Agenda Bahia foi concebido para ajudar a buscar soluções para nosso estado. Reúne as grandes forças da nossa sociedade, a começar pela parceria na organização da Rede, que tem os principais veículos de comunicação do estado, com a Fieb, representante do empresariado, e a Ufba, uma das mais respeitadas universidades do país. Temos ainda a participação de gigantes como a Petrobras e a Braskem, da PDG, da Associação dos Produtores de Florestas Plantadas do Estado da Bahia, da Coelba, da Bahiatursa. Recebemos o governador Jaques Wagner e secretários de áreas estratégicas do governo. Como disse no começo, meu pai sempre teve suas posições políticas claras e isso jamais impediu o diálogo com qualquer segmento, mesmo com adversários políticos. E meu avô ACM sempre disse que a Bahia devia estar acima de qualquer divergência. O Agenda Bahia tem esse foco: construir um futuro melhor para o nosso estado com base no debate e no entendimento.

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Foto: Robson Mendes

Pela abertura dos portos Entrevista com Jaques Wagner O governador Jaques Wagner recebeu em seu gabinete o diretor de Redação do Correio, Sergio Costa, a editora-executiva de Conteúdo do Agenda Bahia, Rachel Vita, e a repórter da TV Bahia Camila Marinho para entrevista antes da abertura do seminário Agenda Bahia. Segundo Jaques Wagner, se o governo federal não liberar os recursos que os portos baianos precisam para se modernizar, partirá ainda em 2011 para regime de parceria com a iniciativa privada, criando nova modalidade de arrendamento para o Porto de Aratu. A seguir, os principais trechos da conversa: Governador, no Agenda Bahia 2010, empresários e executivos se mostraram bastante preocupados com a infraestrutura no estado, notadamente a questão dos portos, que avaliam como defasados e ineficientes, e que o governo demora para agir. O que sua gestão está fazendo a respeito? A preocupação deles é saudável, mas acho que estamos vivendo um bom problema. Tivemos uma aceleração muito grande no país que foi ainda maior na Bahia. Crescemos a uma taxa de 7,5%. Temos dois problemas: qualificação de pessoal e melhoria da infraestrutura. Nosso maior estrangulamento está nos portos, o mais grave em Aratu. Temos que correr muito com os investimentos. Estou demandando isso ao governo federal. Caso não tenha capacidade de investir, que nos libere - já que o porto é federal - para fazer alguma forma de concessão, já que não faltará quem queira investir aqui...

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“Na democracia, a melhor proposta é a que surge do confronto de ideias. A sociedade é definitiva e os governos são passageiros”

...Existe, inclusive, um grupo de empresários interessados... Existem vários grupos. Foi feito um estudo pelo grupo Log-In, que é da Vale, e a própria Braskem. Prevê investimentos de R$ 2 bilhões na modernização do porto (de Aratu). Só que a modelagem feita por eles é de concessão, que na lei dos portos brasileiros não existe. O que há é arrendamento. O outro modelo é quando você faz um porto privado. Nossa legislação é amarradora, só admite porto privado para quem tem carga própria. Uma mineradora como a Vale pode ter porto para escoar seu produto e um percentual pequeno de carga de outros. Não vejo por que nós não podemos ter portos privados operando cargas múltiplas. O senhor disse que se não houver investimento federal... ...Investimento federal tem. O Porto de Salvador está duplicando o terminal de contêineres e já está prevista nova ampliação. O Porto de Aratu está muito aquém de sua capacidade, mas temos estudos econômicos feitos para, pelo menos, duas novas ampliações. Visando a Copa, vamos pegar dois armazéns externos do Terminal da França e dar um presente para a cidade. Eles serão abertos para o mar e faremos terminal turístico de passageiros que dê dignidade aos cruzeiros que aqui chegam. Foram investidos R$ 100 milhões no aumento do quebra-mar em Salvador e acabou de se fazer mais 100 metros no berço do porto. Aratu ainda tem dimensões menores que as exigidas e vou levar isso à presidenta Dilma Rousseff. Lógico que com a modelagem atual eu posso fazer um arrendamento, que também tem gente interessada, e ter investimentos. O Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica (EVTE) está pronto e temos um pedido de licenciamento na Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) e na Secretaria dos Portos. Se esses saírem, imediatamente a iniciativa privada começa com os investimentos. Mas, governador, qual seria esse prazo? O senhor disse que ia conversar com a presidente? O prazo está ultrapassado. O senhor acredita que isso possa se resolver ainda este ano? Pode, pode. Tem que se resolver. Se eu buscar a opção que eu falei de concessão, como depende de lei, tem que passar pelo Congresso, tem todo um processo que demora muito. Já existem empresários, que operam no Porto de Salvador, dispostos a um investimento de 600 milhões na área de granéis. E com esse estudo pronto, a gente pode fazer uma licitação. Muitos vão se inscrever. Sou muito mais da iniciativa privada do que ficar esperando financiamento público. Parte da angústia do empresariado diz respeito ao ritmo, considerado lento. No Oeste, há expectativa, com burburinhos 49

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até sobre um movimento separatista, uma vez que o pessoal lá, de alguma forma, não se sente tratado com o devido carinho pelo estado em função de suas riquezas. Para o senhor, a Ferrovia Oeste-Leste pode atenuar esse problema? Respeito essa opinião, apesar de ser contra. Acho que as pessoas pensam assim porque têm a ilusão de que, se o estado fosse menor, teriam menos problemas. Nós temos estados miúdos que têm tanto ou mais problemas do que a Bahia. Tenho estado no Oeste tanto fisicamente quanto levando obras. Temos o projeto de expansão do aeroporto de Barreiras para aviões maiores. O novo aeroporto de Luis Eduardo Magalhães, que está em construção, tende a ser um aeroporto mais de carga e logística. A BR-242, a gente recuperou e a própria ferrovia é um presente para a região, porque eles têm que escoar a produção lá por baixo, por Santos. São erros de infraestrutura que foram feitos ao longo do tempo. Nós estamos fazendo uma ferrovia de 1.100 km. Não é pouca coisa. Outro dia, teve reportagem do Correio, correta, claro, sobre a diferença que um porto faz. É lógico que faz. Quando empresário chega aqui, pergunta logo sobre infraestrutura, dependendo do tipo de negócio dele: exportação, por exemplo. Nós temos o maior mercado do Nordeste. Isso por si só atrai quem quer produzir o que é vendido aqui dentro. Para quem quer trabalhar com exportação, é óbvio que ter um porto todo redondinho (se refere a Suape, Pernambuco) é uma boa coisa. Mas, modéstia à parte, tenho atraído muitos investimentos. Estamos com a espanhola Gamesa aqui em Camaçari e a francesa Alston. Os parques eólicos estão virando realidade.

“O Agenda Bahia é uma iniciativa espetacular, feita na forma da busca de soluções e não de culpados”

O senhor ressalta que a Bahia é a principal economia do Nordeste, é fato, mas, quando examinamos os números, houve perda de posição no PIB para Santa Catarina e de espaço relativo para Pernambuco, que tem pego carona por a Bahia não ter atraído tantos investimentos devido aos nossos problemas de infraestrutura... ...Em relação a Santa Catarina, eu não invejo. Parte do desenvolvimento que teria feito o estado nos ultrapassar - e isso vai depender da época que se examina - foi fruto de uma coisa Foto: Robson altamente danosa à indústria brasileira: o chamado corredor de Mendes importação. Isso vai acabar. Eles dão vantagens fiscais a quem importa pelo porto deles. É um desserviço ao país que só provoca a desindustrialização. A Confederação Nacional das Indústrias (CNI) já se mostrou contra. A presidenta da República também. Logo, logo nós vamos fechar esse canal: sapato importado, carro importado, manufaturado importado ganham vantagens fiscais da ordem de até 7%. É covardia. Não gera quase nenhum emprego. Mas e Pernambuco, que tem crescimento mais acelerado? Pernambuco viveu um período em que suas lideranças não tiveram

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a capacidade de atrair grandes negócios. Aí coincide de vir um presidente (Lula) preocupado com o Nordeste, com o Nordeste todo. Pode ser (ri) que ele tivesse uma paixão um pouco maior por sua terra natal. Tem também um governador que pode ser mais competente - temos uma geração de governadores de muito maior qualidade, com visão mais pública - e que é aliado do presidente. Além disso, ganha de presente um porto público todo preparado. Suape não foi feito agora. Tem investimentos de sete governos pernambucanos. Se fosse hoje, não seria feito. Eu não vou fazer tudo em quatro anos... ... Mas em oito, talvez, não? Se eles estão com uma aceleração maior do que a nossa é porque estavam mais atrasados. Tudo bem, não sou bom samaritano, mas não vou torcer contra Pernambuco, Piauí, Ceará. O país é um só. O que eu posso garantir é que a gente não está parado. Tanto que crescemos 7,5% em 2010. Outro tema da abertura do Agenda Bahia será a mobilidade urbana. Diante da demora pela definição do projeto, dará tempo de tudo ficar pronto para a Copa do Mundo de 2014? Na questão da mobilidade, uns acham que é melhor o pneu, outros acham que é melhor o trilho. Não tenho paixão nem pelo trilho, nem pelo pneu. Tenho paixão pela melhor solução, que deve olhar para 20, 25 anos à frente, e possa superar um problema de todos os baianos, ricos e pobres, que sofrem com o tráfego abarrotado de Salvador. Prefiro demorar mais no planejamento e ser mais célere na execução. Precisamos viabilizar a linha 1 do metrô, que sai da Lapa até Pirajá, e deve ser estendida até Cajazeiras. O fluxo pretendido para o trecho inicial seria praticamente inviável e muito caro ao poder público. A presidenta Dilma, que é o órgão financiador, sempre me demandou que qualquer sistema em Salvador dependeria de uma visão integral e viabilizadora da linha 1. O melhor sistema hoje é integrar com o metrô até o aeroporto. O BRT seria alimentador do sistema. Tudo com bilhetagem única. Estou conversando com o município, de quem é a titularidade, e só espero sinal da presidenta para preparar o edital de licitação e começar as obras até dezembro. Como o senhor vê a realização do Agenda Bahia? É uma iniciativa espetacular. Primeiro, porque vocês (da Rede Bahia) têm uma capacidade de mobilização muito grande. Depois, por não ter o carimbo da oficialidade. Tudo é feito na forma da busca de soluções muito mais do que na forma da busca de culpados. É evento que representa a busca de futuro melhor para a Bahia e os baianos. Na democracia, a melhor proposta é a que surge do confronto de ideias. A sociedade é definitiva, os governos são passageiros.

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Debate quente A infraestrutura entrou na pauta de vários segmentos da sociedade durante o primeiro seminário Agenda Bahia, realizado no auditório da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb). O governador Jaques Wagner, ao discursar na abertura do evento promovido pelo Jornal Correio e a rádio CBN, reconheceu que a falta de infraestrutura, principalmente no setor portuário, acarreta prejuízos à economia baiana, defendeu a implantação de um modal sobre trilhos e disse que o estado planeja levar o metrô para Cajazeiras, num total de 34 quilômetros de linha. De acordo com o governador, além da necessidade de resolver o problema da mobilidade na capital baiana, o aumento do trajeto tem o objetivo de viabilizar financeiramente o próprio metrô. “É preciso que o sistema tenha passageiros, volume transportado, se não a passagem será muito alta”, frisou, salientando que o preço ficaria entre R$ 10 e R$ 12, no caso de o projeto contar só com os seis quilômetros da primeira etapa. Para o secretário municipal de Infraestrutura e Transporte, José Mattos, agora só falta o governador e o prefeito João Henrique sentarem para decidir qual será o projeto para a Avenida Paralela: “A decisão agora é política”. Mais incisivo nas críticas, o secretário da Indústria, Comércio e Mineração, James Correia, comparou a crise do complexo portuário da Bahia à registrada pelo setor energético há alguns anos. “Estamos vivendo um apagão no setor portuário”, afirmou. O presidente da Fieb, José de Freitas Mascarenhas, concordou com o secretário. “O setor privado tem recursos para investir, mas questões institucionais emperram os projetos. É preciso modernizar a legislação. Ninguém quer que o governo perca a sua capacidade de gerir, mas é preciso dar um passo à frente”, acrescentou.

“Temos que fazer andar a primeira parte do metrô, que não pode virar um elefante branco. Salvador merece e precisa de um equipamento eficaz” JAQUES WAGNER, governador da Bahia

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Os presidentes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), Marcio Pochmann e Marcello Spinelli, também defenderam mais investimentos em infraestrutura como a principal alternativa para a Bahia ganhar um novo impulso em seu desenvolvimento econômico. Ainda em seu discurso, o governador disse que iria conversar com a presidente Dilma Rousseff sobre os recursos a serem investidos para a implantação do modal de transporte de Salvador para a Copa. “Eu dependo de financiamento federal, por isso vou a Brasília. Vou conversar com ela sobre a questão central: qual o volume de financiamento com que a gente pode contar. Se tiver financiamento, a minha posição é clara, é metrô com BRT e ônibus.” Caso contrário, o governador buscará uma saída “mais acanhada”.

“O setor privado tem recursos para investir, mas questões institucionais emperram os projetos” JOSÉ MASCARENHAS, presidente da Fieb

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Como avançar?

A Bahia investe menos de 1% do PIB em infraestrutura. José Mascarenhas, presidente da Fieb, defendeu mais recursos para a expansão dos aeroportos do interior, modernização dos portos, recuperação das estradas e investimentos em ferrovias.

Foto: Robson Mendes

Bomba-relógio O presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), José de Freitas Mascarenhas, fez um apelo aos responsáveis pelo planejamento do sistema de transportes de Salvador para que decidam, rapidamente, qual o modelo a ser adotado para enfrentar o caos do trânsito na cidade. “Não existe um só sistema. Todos são úteis e necessários. Não podemos perder mais tempo”, disse ele, em sua palestra no seminário sobre o tema Infraestrutura, logo após a sessão de abertura do Agenda Bahia 2011. Mascarenhas considera o aumento do número de automóveis em circulação em Salvador uma “bomba que está sendo preparada” para a cidade. A média é de 16,2 carros para cada grupo de 100 habitantes, superior à média brasileira, de 14 automóveis/100 habitantes, reflexo direto do aumento da renda, conforme ressaltou. O presidente da Fieb acha que o que falta basicamente em Salvador é planejamento geral. Isso dificulta cada vez mais a 54

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realização de obras necessárias, porque o custo de desapropriação de áreas se torna cada vez mais oneroso. “Ou se planeja e reserva as áreas, ou vamos ter custos altíssimos. É preciso cuidar de Salvador enquanto ainda é tempo”, advertiu José Mascarenhas. Essas áreas devem ser reservadas inclusive para o sistema viário da cidade, já que, segundo alerta Mascarenhas, Salvador não terá viabilidade se não encontrar uma solução para o seu sistema de transportes. Ele lembrou o caso do Rio, que, embora também enfrente problemas, já conseguiu implantar 56 quilômetros de linhas de metrô, utilizando-se ainda de outros modais de transportes. Mas um dos modelos que considera mais eficiente é o do sistema de transportes de Londres, com mais de 402 quilômetros de linhas de metrô, integrados com ônibus, trens e outros modais. Ao se referir à infraestrutura industrial, Mascarenhas abordou a questão dos portos brasileiros, que estão defasados na comparação com os mais modernos do mundo. Nos portos baianos, a situação ainda é mais grave. “Aratu, o nosso porto industrial, está saturado. O tempo de espera de um navio é de até 30 dias”, disse, citando dados da Associação dos Usuários dos Portos da Bahia (Usuport), segundo os quais esse atraso resulta em um prejuízo de US$ 46 milhões por ano. Isso seria suficiente para amortizar a construção de um novo porto, calcula. Apesar de reconhecer a importância do Porto Sul, a ser construído em Ilhéus, ele lembra que o equipamento servirá fundamentalmente para escoar commodities agrícolas e minerais, não atendendo às necessidades da indústria.

“Ou se planeja e reserva as áreas, ou vamos ter custos altíssimos. É preciso cuidar de Salvador enquanto ainda é tempo” 55

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País está perdendo o passo Se o Brasil investisse todos os anos o equivalente a 7% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em infraestrutura, precisaria de 20 anos para chegar à eficiência logística que a Coreia do Sul tem hoje. O cálculo, divulgado no seminário sobre Infraestrutura pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), José de Freitas Mascarenhas, mostra o tamanho da defasagem que existe no Brasil nesse setor.

Como avançar? Presidente da Fieb sugere a revisão do Decreto 6.620/2008, que regula a construção de novos terminais privados de carga própria, e a implementação de modelo de concessões da exploração portuária ao setor privado. A Fieb avalia que esse ajuste permitirá avanço na estrutura portuária, melhoria da gestão e aumento nos investimentos

De acordo com os dados mostrados por Mascarenhas, relativos a 2010, o Brasil investe 2,5% do seu PIB. A Bahia investiu menos de 1%. Para se ter uma ideia, a Índia aplica anualmente 4,8% e a China, 13,4%. Os estudos apresentados consideram que o mínimo para o Brasil crescer seria um investimento de 5% ao ano. Com 3%, mantém tudo como está, mas não avança. “Quem paga essa conta é o produtor, não é o Estado”, observou.

Devido em grande parte às más condições da infraestrutura, o peso do item transportes nos custos de transferência de mercadorias é de 30%, enquanto nos Estados Unidos é de 20%, disse. As estradas também são outro problema. Mal conservadas, suportam pressão maior do que permite a capacidade para a qual foram construídas. Mascarenhas citou a BR-242, por onde a produção de soja do Oeste é escoada. “A Confederação Nacional da Indústria (CNI) está contratando um estudo sobre a infraestrutura do Nordeste, priorizando estradas. Quer saber quais as intervenções necessárias, elaborar um planejamento estratégico e classificar soluções”, informou. A energia tem preço considerado inaceitável pelo presidente da Fieb, tendo em vista os recursos disponíveis no país. Ele criticou a pressão ambiental exagerada em relação aos aproveitamentos hidrelétricos, o que, na sua opinião, está fazendo com que a riqueza do Brasil nessa área se esvaia e o custo fique mais alto. Hoje, o Brasil tem a terceira energia mais cara do mundo. “Os encargos e taxas impactam a competitividade industrial”,

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observou, explicando que 55% do preço do insumo corresponde à geração e 45%, a tributos e encargos trabalhistas. Problema maior da infraestrutura industrial baiana, os portos não estão conseguindo atender à demanda do estado. Mascarenhas disse que a má condição do complexo portuário provocou uma evasão de cargas de 26,2%, só no primeiro trimestre deste ano. Enquanto a Bahia movimenta 40 milhões de toneladas por ano em todo o seu complexo, o porto de Xangai, sozinho, movimenta 500 milhões de toneladas anuais.

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Mobilidade urbana

16,2

14

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402

é o número de automóveis para cada 100 habitantes em Salvador

quilômetros de metrô já foram implantados no Rio

carros por grupo de 100 habitantes é a média nacional

é a extensão do sistema de metrô de Londres

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‘Porto é a chave’ Entrevista com José de Freitas Mascarenhas Dados do IBGE relativos a 2009 indicam que a economia baiana perdeu participação no PIB nacional, caindo da sexta para a sétima posição. Isso é uma tendência? Minha percepção é de que seja uma crise conjuntural, porque a Bahia trabalha muito com commodities e esses produtos foram os mais afetados na crise de 2008/2009. E ainda não temos os números de 2010. No caso da indústria de transformação baiana, eu não vejo isso. Eu gosto de olhar na série, num espaço maior, de 12 meses. E aí não estamos tão ruins, porque a indústria atual está produzindo. O que se pode dizer é que não está havendo acréscimos capazes de manter a posição. Há muito não temos uma grande indústria se instalando no estado. A última foi a Ford. Há uma série de análises sendo feitas, mas quando se olha a infraestrutura, a nossa deficiência em portos, é evidente que se pode perder indústrias. Nenhuma grande indústria vem para fornecer ao mercado local, que não tem escala. Todas vêm para vender para fora e também para importar. Então, porto é a chave nisso.

“O que falta é desenvolver uma política que seja permanente de atração de indústrias, melhorando a competitividade”

O que fazer para atrair novos investimentos? O que falta é desenvolver uma política que seja permanente de atração de indústrias, melhorando a competitividade. A Bahia tem uma economia de um tamanho que, por si mesmo, já é capaz de atrair novos negócios. Mas é preciso melhorar, porque, com a redução dos incentivos, não se tem mais como justificar a vinda de empresas com esse tipo de estímulo. Então, o que se tem a fazer é reduzir o custo de produção, proporcionando infraestrutura, o que resulta em melhoria de custos e de desempenho. O efeito é o mesmo dos antigos incentivos. A Fieb está concluindo um trabalho de planejamento para servir de base a uma política para o setor industrial do estado. Em que consiste esse planejamento? A Fieb foi contratada para fazer esse trabalho para o governo do estado e para a Petrobras. É o Projeto Aliança, que já está concluído e depende agora de análise do governo. Tratase de dar um rumo ao crescimento industrial. Como isso interfere transversalmente com vários elementos e fatores de desenvolvimento econômico. É claro que abrange grande parte da economia. Aí entra energia, infraestrutura, esses elementos que, sem eles, não se pode ter desenvolvimento industrial.

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O que falta para resolver os problemas de deficiência dos portos baianos? O Brasil precisa de portos modernos, porque o país está entre os emergentes e concorre com gente que tem uma infraestrutura portuária muito bem montada, como os chineses e mesmo os indianos. Aqui não se dá importância a isso. Temos tudo, engenharia, empresas, recursos, mas não conseguimos avançar, porque a burocracia estatal nem faz, nem permite que se faça. Na Bahia, estamos num impasse há muito tempo, e aqui é mais grave, porque nossos vizinhos fizeram portos, seja por ação política ou o que for. Esse é o caso de Pernambuco e Ceará. Nossas cargas saem daqui e vão para lá. E a gente continua nesse marasmo. O que temos de mais moderno é o terminal de contêineres, só se tem isso. Aratu está sucateado. Há quem queira investir, mas persiste um impasse institucional. Precisamos de uma política de ação. Um porto bom, por si mesmo, é um fator de atratividade para novas empresas.

“O Brasil precisa de portos modernos, porque o país está entre os emergentes e concorre com gente que tem uma infraestrutura portuária muito bem montada”

Como está reagindo a indústria brasileira, diante da concorrência de outros emergentes mais preparados, principalmente a China? A indústria de transformação no Brasil está perdendo muita substância, perdeu posição relativa na economia do país. O empresário faz o que é necessário para sobreviver. Quando acha que está perdendo competitividade e não tem solução vai produzir na China e exporta para cá. Nós estamos perdendo atividade industrial e ganhando atividade comercial. Quem está salvando o Brasil são os setores básicos, relacionados a recursos naturais, porque isso eles não têm lá. São esses recursos que estão pagando essa perda de substância da indústria. O que nos torna tão vulneráveis em relação à China? A China tem uma situação particular e insuperável, porque fez uma economia que tem parâmetros que ninguém tem. Possui uma poupança inigualável, e é essa poupança que dá capacidade ao país de manter o câmbio que tem, sem precisar de recursos externos. Nós precisamos ter um juro alto para atrair recursos externos. Então, temos um problema macroeconômico mal solucionado. Nossa política fiscal é frágil. Precisaríamos reduzir bastante as despesas para ter capacidade de investimento, sem precisar atrair tantos recursos de fora. Mas, para fazer isso, seria preciso enfrentar um problema político grande, e isso ninguém quer. Então, não é só condenar os chineses, é olhar o que eles fazem, e como fazem. Por exemplo, nessa questão de portos, que culpa eles têm de serem eficientes? Não é só uma questão de não haver democracia, porque há democracias que funcionam, a Suécia, a Noruega. A verdade é que não podemos culpá-los de ser o nosso algoz. 59

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Além de melhorar a infraestrutura, o que mais é possível fazer para tornar o país e o estado mais competitivos no setor industrial? Um caminho importante é a inovação. Aqui, temos o Centro Integrado de Manufatura e Tecnologia (Cimatec) que é considerado o melhor do Brasil. Isso é outro elemento que atrai empresas. Conseguimos fazer lá um centro de referência, não só no treinamento de mão de obra, mas também no desenvolvimento de tecnologia, de criação de novas versões de produtos. Temos ainda o centro dos Dendezeiros, que é mais geral, onde são treinadas cinco mil pessoas por ano na construção civil. Nós temos um lema na Fieb: ninguém deixa de se instalar na Bahia por falta de pessoal qualificado. É só procurar o Senai e fazer acordo para isso. Em síntese, seria uma questão de planejamento? É. Acho que isso é a coisa mais importante que se tem que fazer por esta cidade, enquanto ainda é tempo, porque depois fica impossível. E no meio disso tudo é preciso ter transporte público de qualidade, até para reprimir o automóvel. Inclusive estou advogando que venha um escritório do exterior, para se agregar a um escritório local. Isso para não nos acostumarmos com o que existe no Brasil em termos de política. Aqui, quando se faz alguma coisa, se pensa que está fazendo muito. Mas, se pegarmos cidades mais tradicionais, a qualidade de vida é bem diferente, porque há planejamento. A seu ver, qual o papel do Agenda Bahia na difusão e conscientização da sociedade em relação a essas questões? Acho que o Agenda Bahia tem o mérito de discutir todas essas questões, de lançar para a população esses assuntos. Estamos inteiramente aderentes à questão da mobilidade urbana, considerando que este talvez seja o principal problema da cidade de Salvador hoje. É, inclusive, o primeiro item a ser abordado na abertura dos seminários de nossa Agenda. Essa questão da mobilidade em Salvador eu quero levantar, ao lado da questão dos portos. Porque portos são outro problema. O Brasil precisa de portos modernos. O Agenda Bahia proporciona uma excelente oportunidade para abordar e discutir todos esses temas. Só o sistema de mídia tem condições de fazer isso, de colocar para a sociedade todos esses problemas, como o Agenda Bahia faz.

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Foto: Robson Mendes

Novos caminhos O Brasil está vivendo um momento singular. Desde a grande depressão de 1929, a recuperação econômica do mundo depende dos países desenvolvidos. Mas os Estados Unidos, Europa e Japão não demonstram mais capacidade de liderar a reestruturação. Pela primeira vez, o Brasil e os países que ainda não são desenvolvidos têm que tomar a si esse encargo. A reflexão é de Márcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) do Ministério do Planejamento. Mas, apesar do papel inédito e destacado que atribui ao Brasil e a outros considerados emergentes, ele admite que o país ainda não está devidamente preparado para isso. Faltam investimentos.

Como avançar? Para Márcio Pochmann, o Brasil precisaria investir R$ 43 bilhões, de imediato, para resolver os principais gargalos do seu sistema portuário, entre eles dragagem, construção de acessos terrestres e implantação de equipamentos. Os recursos são para 265 obras. Mas, segundo ele, não seria suficiente ainda para colocar os portos brasileiros entre os mais modernos do mundo

Para ficar somente na questão da infraestrutura, tema do seminário do Agenda Bahia 2011, dia 4 de agosto, do qual Pochmann foi palestrante, a falta de investimentos é um problema muito sério. Ele se deteve na questão da precariedade dos portos, a partir de um estudo realizado pelo Ipea. O Instituto levantou as maiores deficiências dos portos brasileiros, identificando a necessidade de realização imediata de 265 obras, com custo total estimado em R$ 43 bilhões. Os recursos deveriam ser aplicados para eliminar gargalos, como necessidade de dragagem e implantação de acessos por via terrestre. No entanto, o investimento teria de ser bem maior para dotar o país de portos modernos, no nível dos países desenvolvidos e de outros emergentes, como a China e a Coreia. Mesmo reconhecendo que portos obsoletos e outras deficiências de infraestrutura do Brasil elevam o custo de exportação das

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empresas, Márcio Pochmann encarou com reservas a medida divulgada pela presidente Dilma Rousseff de desonerar a folha de pagamentos de quatro segmentos industriais exportadores – calçados, têxteis, móveis e software - como forma de compensar o câmbio desfavorável e o próprio custo Brasil. “É uma primeira experimentação que está sendo feita. A avaliação é de que possa vir a contribuir para suavizar os efeitos do câmbio e dos juros nos custos das empresas”, disse, manifestando o sentimento de que alimenta dúvidas sobre efeitos da medida.

“Cerca de 40% do crescimento mundial depende do Brasil, da Índia e da China”

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Como avançar? Segundo Marcello Spinelli, a integração entre os sistemas é o aspecto mais importante da logística. Ele admitiu que o trecho da FCA na Bahia é precário, mas prometeu solução. “Da produção ao escoamento final, todas as etapas devem estar interligadas para possibilitar a criação de um grande diferencial”, acredita

Foto: Robson Mendes

Diferença no preço O presidente da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), Marcello Spinelli, disse que empresas que têm à disposição estruturas logísticas de qualidade oferecidas pelo estado ou pela iniciativa privada não precisam temer a competitividade. “Pode ter qualquer marco regulatório, o que sobrevive é o preço. E quem tem infraestrutura pode apresentar preços muito atraentes”, afirmou o executivo, em sua palestra no primeiro seminário do Agenda Bahia 2011. No evento, realizado no auditório da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Spinelli afirmou que a ferrovia que dirige, com 1.769 quilômetros de trilhos, integrando o Sudoeste da Bahia ao Porto de Aratu, poderá complementar a Ferrovia da Integração Oeste-Leste (Fiol), a maior esperança dos empresários baianos para acelerar o escoamento de grãos. Ainda em sua primeira etapa de construção, a Fiol vai ligar Ilhéus a Figueirópolis (TO), tendo como zona de influência 49 cidades da Bahia, em um total de 1.100 quilômetros. “Quem diz que a Fiol vai matar a FCA está muito enganado ou não entende de logística. A FCA poderá complementar a nova ferrovia, principalmente no escoamento da produção mineral”, disse Spinelli, que também é diretor de logística da Vale. Em sua apresentação, Marcello Spinelli afirmou que o grande crescimento da Vale, a segunda maior mineradora do mundo, deve ser 63

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creditado à logística da empresa. “O nosso sistema possui 10 mil quilômetros de malha ferroviária (44.853 vagões e 1.059 locomotivas) e 12 terminais portuários”, acrescentou. O executivo informou que a Vale investiu US$ 6 bilhões em infraestrutura e logística entre 2004 e 2010 e vai desembolsar mais US$ 5 bilhões nas duas áreas somente em 2011. “Nossa maior obsessão é alcançar a liderança entre as mineradoras de todo o mundo. E vamos realizar este sonho com muito trabalho e dedicação”. Depois de falar dos números da Vale, Marcello Spinelli apontou alguns gargalos que dificultam o crescimento econômico da Bahia. “Temos problemas com rodovias, ferrovias e aeroportos. É preciso que o governo dê melhores condições para a iniciativa privada investir nesses setores, que são fundamentais para o desenvolvimento do estado”, afirmou.

*

Nos trilhos

1.769

km de trilhos: é o trecho da FCA na Bahia (do Sudoeste ao Porto de Aratu)

Segundo Marcello Spinelli, a integração entre os sistemas é o aspecto mais importante da logística. “Da produção ao escoamento final, todas as etapas devem estar interligadas para possibilitar a criação de um grande diferencial, a vantagem competitiva”, afirmou. Spinelli aproveitou sua palestra para anunciar que a empresa e a Arc Alfa assinaram um contrato para o transporte de minério de ferro entre a região do município baiano de Iaçu e o Porto de Aratu. O acordo prevê o transporte de quase 4 milhões de toneladas até 2016. Segundo Spinelli, para transportar o minério, será construído um terminal em Iaçu.

“Da produção ao escoamento final, todas as etapas devem estar interligadas para possibilitar a criação de um grande diferencial”

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infraestrutura Valporto, Mascarenhas, Wady, Correia e Spinelli Foto: Robson Mendes

Só falta resolver Comuns entre os empresários, as críticas à precariedade e falta de infraestrutura portuária ganharam a chancela do governo estadual no primeiro seminário Agenda Bahia 2011, realizado em agosto, no auditório da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb). Com uma frase de efeito, o secretário da Indústria, Comércio e Mineração, James Correia, resumiu os problemas enfrentados pelo setor que têm causado muitos prejuízos à economia do estado. “Estamos vivendo um apagão no setor portuário, mas as pessoas não percebem porque não apertam o interruptor”, disse, numa comparação com a crise vivida pelo setor energético há alguns anos. Antes da declaração do secretário, o governador Jaques Wagner reconheceu, na abertua do seminário, a ineficiência do complexo portuário e disse que é preciso acelerar as privatizações. “Não importa se é público ou privado, o que deve prevalecer é o interesse da sociedade”. Durante o debate, o presidente da Fieb, José de Freitas Mascarenhas, disse que as demissões de toda a cúpula do Ministério dos Transportes podem acelerar os trabalhos de modernização dos portos. “O fato concreto é que precisamos dar um novo impulso ao setor portuário e não podemos ficar reféns da burocracia que nos causa muitos prejuízos”, afirmou. Depois de lembrar que um dia lutou contra a privatização do setor elétrico e fazer o mea culpa, James Correia disse que grandes empresas às vezes deixam de investir na Bahia porque os portos não atendem à demanda. “Dói no governo ouvir que falta infraestrutura nos portos baianos. É preciso mudar essa situação”, acrescentou.

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Fieb quer legislação mais moderna O que tem a ver as demissões no Ministério dos Transportes com a modernização dos portos da Bahia? Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), José de Freitas Mascarenhas, as duas coisas podem estar interligadas. “A burocracia (para a realização de obras) era muito grande e as demissões podem acelerar os trabalhos”, avalia. De acordo com o presidente da Fieb, o setor privado já demonstrou que deseja contribuir com a melhoria do sistema, mas, como contrapartida, quer uma legislação mais moderna. Na opinião do presidente da Fieb, mesmo com dinheiro, o governo enfrenta dificuldades para executar seus projetos relacionados à melhoria da infraestrutura. “Há muitos órgãos que, às vezes, não se entendem e atrapalham o andamento das obras”.

Mascarenhas: contra a burocracia para realização das obras

Ainda no debate, José de Freitas Mascarenhas disse que os empresários têm projetos e planos. “Eles aguardam apenas o sinal verde do governo”.

Secretário defende privatização dos portos Secretário estadual da Indústria, Comércio e Mineração, James Correia admitiu que algumas empresas deixaram de investir na Bahia porque a estrutura portuária é precária. “Existem empresas de consultoria que desaconselham as instalações (das empresas) quando analisam os nossos portos”, disse o secretário, em sua participação no debate realizado no final da primeira parte do seminário Agenda Bahia 2011, sobre Infraestrutura. Para Correia, o governo tem consciência dos problemas: “Precisamos agir, só isso”. O Porto de Aratu, o maior do estado, também foi citado negativamente pelo secretário. “Recebo reclamações diárias e acho que as soluções para os problemas passam pela modernização da gestão”, afirmou. Segundo James Correia, os portos baianos precisam passar por uma completa reestruturação. O secretário defendeu a privatização. “Temos de fazer o que fizemos no setor elétrico. Aliás, este processo é muitas vezes menor do que a reestruturação feita no setor elétrico”.

James Correia cita perda de investimento Fotos: Robson Mendes

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Privatização é apontada como solução Ex-presidente da Associação Brasileira dos Terminais de Contêineres de Uso Público, Wady Jasmin acredita que somente a privatização pode eliminar a ineficiência dos portos brasileiros. “Existem problemas em todos os portos, mas, na Bahia, a situação é muito crítica mesmo”, avaliou, durante o debate no Agenda Bahia 2011.

Wady Jasmin: ineficiência dos portos brasileiros

Jasmin afirmou que, com a privatização, os portos serão administrados por profissionais especializados. “Temos de acabar com o componente político. O Brasil já perdeu muito nesse setor e, agora, chegou a hora de dar a volta por cima”, acrescentou Jasmin, que também é ex-presidente da Santos Brasil. Wady Jasmin ressaltou que, sem planejamento estratégico, o Brasil não terá condições de competir no mercado internacional. “A concorrência está cada vez mais acirrada e somente os países que conseguem ter eficiência no setor logístico têm sucesso”, disse Jasmin. “A Bahia precisa de portos mais modernos e eficientes para continuar crescendo”, concluiu.

Mais investimento em ferrovia na Bahia Presidente da FCA e diretor de Logística da Vale, uma das mais eficientes empresas do Brasil, Marcello Spinelli disse durante o debate no primeiro seminário do Agenda Bahia que existem muitos gargalos. Ele admitiu que as instalações da FCA são precárias no estado. “Os principais entraves estão localizados em Santo Amaro, Cachoeira, São Félix e no entorno de Camaçari”, afirmou. “Estamos empenhados nisso”, garantiu.

Spinelli: falta de infraestrutura desestimula empresários Fotos: Robson Mendes

Para Spinelli, a falta de infraestrutura desestimula os empresários. “Para levar uma simples carga da Bahia para o Sudeste, os empresários têm muitas dores de cabeça. Os motoristas, por exemplo, não têm compromisso com os horários e as estradas são ruins ou péssimas. Dessa forma, competir com quem a sociedade sustenta é muito difícil”, disse. O sucesso da Vale, empresa que está em 30 países, segundo o executivo, tem um segredo: o conceito integrado de logística, que passa pelo triplé mina-ferrovia-porto. “Com isso, conseguimos preços muito competitivos”, acrescentou. 67

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Gargalos da infraestrutura na Bahia

5,6

milhĂľes de toneladas/2010

Nas últimas dÊcadas, o Brasil deixou de planejar. Essa Infogråfico: Gargalos da infraestutura lacuna, na especialmente Bahia na årea da infraestrutura, cria limitaçþes ao seu desenvolvimento. Portos, estradas, ferrovias e aeroportos não acompanham as necessidades da economia, tanto em termos de capacidade quanto de modernização. Confira o status dos principais investimentos previstos ou em andamento e os gargalos na logística de transportes na Bahia.

201 mil toneladas/2010

Portos A Bahia responde por 57% das exportaçþes do Nordeste. Mas os portos de Salvador, Aratu e IlhÊus são saturados e tecnologicamente defasados. Porto Sul p*NQMBOUBÀŸP Prevista para 2014. p-PDBMJ[BÀŸP Localidade de Aritaguå, em IlhÊus. p*OTUBMBÀÎFT Serå em formato offshore, 3 kms distante da costa. p$BSHBT MinÊrios e soja a serem transportados pela Ferrovia Oeste-Leste.

Textos: SCI FIEB | Ilustraçþes: Bamboo Editora

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3,4

milhĂľes de toneladas/2010

Porto de Salvador

Porto de Aratu p*NQMBOUBÀŸP 1974 p-PDBMJ[BÀŸP Em frente Ă  ilha de MarĂŠ, BaĂ­a de Todos os Santos. p*OTUBMBÀÎFT 3 terminais; de produtos gasosos, de granĂŠis lĂ­quidos; e de granĂŠis sĂłlidos. p.PWJNFOUPEFDBSHBT 5,6 milhĂľes ton./2010, especialmente produtos petroquĂ­micos e veĂ­culos. p/“EFOBWJPT 636 p1SPCMFNBT Falta de ligação ferroviĂĄria com o PĂłlo de Camaçari; equipamentos ultrapassados. p$POTFRVĂƒODJB começa a perder competitividade. p*OWFTUJNFOUPTBÀÎFTFNFSHFODJBJT Ampliar e modernizar instalaçþes; transferir para a iniciativa privada sua gestĂŁo.

p*NQMBOUBÀŸP1913 p-PDBMJ[BÀŸP BaĂ­a de Todos os Santos p*OTUBMBÀÎFT 1 terminal de contĂŞineres e 9 armazĂŠns. p.PWJNFOUPEFDBSHBT 3,4 milhĂľes ton./2010, especialmente carga em contĂŞineres. p/‰EFOBWJPT 746 p1SPCMFNBT Limitação fĂ­sica, equipamentos ultrapassados, problemas de gestĂŁo e interesses conflitantes da iniciativa privada e do setor pĂşblico. p$POTFRVĂƒODJBT Perdeu competitividade e, com isso, cargas para outros estados, principalmente Pernambuco, CearĂĄ e EspĂ­rito Santo. p*OWFTUJNFOUPTBÀÎFTFNFSHFODJBJT Ampliar Terminal de ContĂŞineres; concluir a Via Expressa do Porto de Salvador; adaptar o armazĂŠm 2 para abrigar terminal marĂ­timo de passageiro

Porto de IlhÊus p*NQMBOUBÀŸP 1914 p-PDBMJ[BÀŸP Ponta do Malhado, IlhÊus. p*OTUBMBÀÎFT Cais com baixo calado (10 m). p.PWJNFOUPEFDBSHBT 201 mil ton/2010, especialmente grãos. p/‰EFOBWJPT 49 p1SPCMFNBT Limitação física, equipamentos ultrapassados,

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problemas de gestĂŁo; baixo calado. p$POTFRVĂƒODJBT Perda de competitividade e de importância. p*OWFTUJNFOUPTBÀÎFTFNFSHFODJBJT Ampliar calado; adaptar estrutura para escoar a produção de cacau/derivados; transformar o armazĂŠm 2 em terminal marĂ­timo de passageiros.

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Aeroporto O Aeroporto de Salvador opera próximo do limite, bem como os terminais de Porto Seguro, IlhÊus e Barreiras. À exceção de Salvador, não hå previsão de investimentos nesta årea para a Bahia. Aeroporto de Salvador p0CSBTQSFWJTUBT reforma do Terminal de Passageiros, da torre de controle e dos påtios de manobras das aeronaves. p/ŸPTFSºGFJUP a segunda pista, com extensão de 2,4 quilômetros, descartada pela Infraero. p*OWFTUJNFOUP R$ 45,1 milhþes. p$PODMVTŸP março de 2013.

Rodovias Apenas duas estradas foram concedidas Ă  iniciativa privada: BR-324/116 e BA-093. Investimento global: R$ 2,2 bilhĂľes. Investimentos realizados atĂŠ maio/2011: R$ 250 milhĂľes. Prazo de concessĂŁo: 25 anos. Fatores limitantes: p1PVDBTFTUSBEBTNo Oeste,

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faltam ligaçþes norte-sul, bem como ligaçþes diagonais. p2VBMJEBEFGJDBBEFTFKBS Estradas federais e municipais, principalmente, são mal conservadas. p1PVDBTSPEPWJBTDPNQJTUBTF PVNBJTGBJYBT Apenas BA-099 e BR-324, trecho Salvador-Feira.

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Ferrovia Estado da malha ferroviária: Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) não investe em manutenção e não utiliza linhas operacionais sob sua concessão. Privatização não funcionou: Hoje se transporta menos carga do que antes da privatização. Soluções possíveis: O governo federal pode: desmembrar a

concessão da FCA; realizar nova licitação para Bahia e Sergipe; criar fixar metas por trechos; ou introduzir direito de passagem, pelo qual uma concessionária usa a malha de outra pagando pedágio.

investimento de R$ 6 bilhões; fazer contorno ferroviário de Camaçari, ligando o Pólo Industrial de Camaçari ao Porto de Aratu (20 km de extensão e investimento de R$ 100 milhões).

Ampliar a malha: Prioridades: construção da Ferrovia Oeste-Leste (de Ilhéus/BA a Figueirópolis/ TO), com

Infraestrutura social e urbana Programa Minha Casa Minha Vida reduziu, mas não eliminou, o déficit habitacional na Bahia. Na área de saneamento básico, há grandes carências no interior. Já a questão da mobilidade urbana requer ações urgentes, por conta da Copa de 2014. Destaque para: Conclusão do Metrô de Salvador Entrada em operação da 1ª

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etapa (Lapa – Acesso Norte) e realização da 2ª etapa (Acesso Norte – Pirajá); Requalificar o trem urbano Calçada–Paripe; Duplicar as avenidas Pinto de Aguiar e Gal Costa Objetivo é melhorar o acesso aos estádios de Pituaçu e Barradão, respectivamente;

Transporte de massa Paralela/Lauro de Freitas Definido o modelo (baseado em trilhos, monotrilho e metrô, integrado ao sistema BRT, que alimentará vias de aceso à Paralela), divulgar edital para licitar obra, que será interligada ao metrô Lapa-Pirajá.

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Cidade integrada

Foto: Robson Mendes

Uma nova cidade e um sistema de transporte público, que seja planejado olhando a área urbana como um todo. Foi assim que Fernando Paez, presidente da Transmilênio, sistema de BRT de Bogotá, capital da Colômbia, apresentou a empresa na palestra sobre mobilidade urbana do Agenda Bahia 2011. Segundo Paez, para além do sistema de transporte, a Transmilênio pensou em “um projeto que constrói espaços públicos e que prevê renovação urbana”. A ação do sistema de transporte pode ser traduzida em dados. O sistema BRT é planejado em Bogotá há 10 anos e já realizou intervenções urbanas em mais de 2 milhões de metros quadrados no espaço público. Construiu praças, levou o sistema de transporte para novos espaços e pensou o transporte para os equipamentos que o cercam. Bogotá tem hoje a maior rede de ciclovias da América Latina, com 388 quilômetros, e 1.643 estacionamentos para bicicletas. Sobre a discussão de qual modal usar, metrô ou BRT, na Bahia, Paez é enfático: independentemente da escolha, devem ser integrados. A integração permite ao usuário pagar uma só tarifa e facilita a mobilidade ao redor de toda a cidade.

Como avançar? O presidente da Transmilênio, empresa colombiana, sugere uma rápida intervenção para aproveitar o atual momento. Para Fernando Paez, o sistema do BRT pode ser complementar à linha de metrô já existente. Segundo ele, as ladeiras não são impeditivo para a implantação dos corredores de ônibus exclusivos

O resultado da eficiência, Paez também traduz em números: 500 mil pessoas tiraram seus carros das ruas para andar de BRT. Hoje, os ônibus já andam em 84 quilômetros de corredores exclusivos. A velocidade da viagem caiu em 20 minutos. Sobre Salvador, Paez diz que viu um alto nível de congestionamentos e carros. “A cidade precisa, muito rapidamente, pensar em soluções”, analisa. Eleonora Pazos, presidente da União Internacional de Transporte Público da América Latina, lembra que grandes cidades que tomaram como base o sistema de transporte individual tiveram como consequência direta os 72

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congestionamentos. Questionada sobre o preconceito com o ônibus, Eleonora diz que é preciso uma mudança de imagem. “O BRT não é ônibus, esses veículos podem ser teleguiados, ter arcondicionados, ter um piso baixo. Ele muda o conceito de ônibus que nós temos”, comenta. Bogotá, capital da Colômbia, aliou o planejamento do seu sistema de transporte a um ordenamento estratégico da cidade. Para Fernando Paez, além de um sistema de transporte, é necessário pensar na requalificação da cidade e nas intervenções positivas que podem ser feitas a partir do modelo de mobilidade urbana adotado. “A mobilidade é um direito do cidadão”, afirma Paez. Os exemplos são variados, segundo o executivo. Primeiro, não basta ter apenas uma estação de embarque e desembarque nos ônibus. É preciso pensar nas praças e no entorno dessa região. Outro quesito exemplar no planejamento de Bogotá foi o que Paez chama de multimodalidade, ou seja, não se pensa apenas nos ônibus, mais na integração do pedestre, dos ciclistas e de outros meios de transporte com o Transmilênio. Bogotá registra assim a maior rota de ciclovia da América Latina e não faltam calçadas de qualidade para a mobilidade do pedestre, considerado prioritário. Apesar de só atender 26% da população, não falta planejamento no sistema planejado para o BRT em Bogotá. Segundo Paez, os 84 quilômetros de corredores exclusivos foram pensados para locais que tinham grandes engarrafamentos e fluxo de pessoas. Hoje, um trecho do BRT chega a transportar 45 mil passageiros por hora, o que é considerado uma capacidade de transporte de massa de grande porte. O sistema já está sendo planejado há 10 anos e Paez lembrou que esse plano tem que ser pensado para além de gestões políticas. Atualmente, o modelo se encontra na terceira fase, que terá mais 32 quilômetros de extensão. Ao todo, são oito etapas

“A Transmilênio pensou em um projeto que constrói espaços públicos e que prevê renovações urbanas” 73

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de construção, que totalizam 166 quilômetros de corredores exclusivos dentro da cidade. Hoje, o sistema já transporta 1,7 milhão de passageiros por dia, o que pode ser pouco para uma cidade de 7,2 milhões de habitantes, mas ajudou a retirar 500 mil carros das ruas em quatro anos. “As passagens são pagas antes e o ônibus e a estação estão no mesmo nível. Tudo para agilizar o embarque e desembarque dos passageiros”, justifica Paez.

*

pessoas deixaram os carros em casa para usar o sistema de ônibus

da população de Bogotá anda de carro e 55% usa o transporte público

45 mil

10

84

20

Desafios

Para Paez, Salvador tem que pensar projeto que integre o transporte e as melhorias urbanas. Também deve escolher o sistema de maneira racional para não criar um metrô que fique mais 12 anos sem funcionar

BRT em Bogotá

500 mil 20%

passageiros por hora: é quanto transporta uma linha de BRT

quilômetros é a extensão dos corredores do BRT

anos é o tempo que o BRT vem sendo planejado na cidade

minutos foi a diminuição do tempo de viagem com BRT

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Segurança e conforto Para o gestor, além de fornecer mais velocidade no deslocamento, os ônibus do BRT também precisam oferecer segurança e conforto ao usuário, tendo, inclusive, sistema de refrigeração. Isto, com tarifa de US$ 0,96, que não tem nenhum subsídio do governo. “O dinheiro das passagens deve permitir ao sistema ser autossustentável. Mas aí que temos o impasse da qualidade versus a tarifa. O usuário quer ônibus com mais frequência, mas não quer tarifa mais cara”, comenta Paez sobre o dilema enfrentado por várias cidades. Com os investimentos que foram feitos ao longo desta década, Bogotá tem no sistema Transmilênio 107 estações, sete portais de integração (que integra diferentes tipos de ônibus), sete pátios para ônibus, dois estacionamentos (com 1.094 vagas para carros). Paez ainda lembra que são 18 elevadores nas estações e 16 banheiros públicos. Todo esse sistema é monitorado através de um centro de controle, que permite a comunicação direta entre motoristas e controladores de tráfego. “Regularizamos um sistema que ainda tem 66 empresas informais. São impostos diretos garantidos para mais de seis mil trabalhadores”, explica Paez.

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Por uma solução

Galindo, Ilce de Freitas, Paez, Mattos e Zezéu Foto: Robson Mendes

O debate sobre mobilidade urbana, no primeiro seminário sobre Infraestrutura do Agenda Bahia 2011, foi cercado pela expectativa da plateia de que os secretários Zezéu Ribeiro, da Secretaria de Planejamento do Estado (Seplan), e José Mattos, da Secretaria de Infraestrutura e Transporte da Prefeitura de Salvador (Setin), dessem respostas concretas sobre os projetos para a cidade e para o estado, ao menos, até 2014. Mas nada ainda estava definido. Marcos Galindo, diretor de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), foi o mediador do debate e começou fazendo uma contextualização da mobilidade urbana em Salvador. Ele lembrou que a cidade não pode mais pensar em um projeto que ignore a Região Metropolitana. “Tivemos um grande apagão de planejamento urbano desde a década de 50”, avalia Galindo. Galindo lembrou que as intervenções devem ser focadas no transporte coletivo e não no individual, já que a cidade já atingiu a marca de 770 mil veículos em circulação. “Temos um enorme adensamento de Salvador. Como essas pessoas vão se deslocar no futuro se nada for feito?”, questionou o diretor da Fieb. A professora do Departamento de Transporte da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Ilce Marília Dantas Pinto de Freitastambém cobrou planejamento, arrancando aplausos da plateia. “Ter uma política de mobilidade é muito sério. Porque, diferente do que foi discutido no seminário (a questão dos portos baianos), nós não vamos escoar essas pessoas”, resumiu a professora.

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Paralela: falta uma decisão política No debate, o secretário de Infraestrutura e Transporte da Prefeitura de Salvador, José Mattos, lembrou que a cidade tem uma política de mobilidade urbana, desde 2005, que ainda não saiu do papel. Pelo projeto, toda a rede de transporte seria integrada através do metrô, do trem do subúrbio e um possível BRT. Questionado sobre o projeto da Paralela, o secretário criticou a utilização de todos os recursos somente em um modal e não deu prazo para definição da questão.

José Mattos: projeto de mobilidade de 2005 ainda não saiu do papel Fotos: Robson Mendes

“Agora falta uma decisão política. O governador Jaques Wagner e o prefeito João Henrique precisam decidir”, disse. Apesar do governo do estado preferir a combinação dos dois modais (trilho e BRT), o governo federal quer um projeto que fique pronto até a Copa de 2014. “Este é um momento ímpar para Salvador e precisamos eliminar esses pontos críticos”, analisou o secretário. Ele também salientou a importância de chegar com o metrô até Cajazeiras e a revitalização dos trens do Subúrbio.

Indefinição de projetos cria instabilidade A necessidade de criar um sistema de transporte integrado entre Salvador e sua Região Metropolitana. É esta a justificativa de Zezéu Ribeiro, secretário de Planejamento do Estado da Bahia (Seplan), para a intervenção do estado no sistema a ser escolhido. A prefeitura tinha definido pelo BRT, mas o estado quer um projeto mais amplo. Apesar do prazo curto, de olho na Copa de 2014, Ribeiro disse que ainda não há definição sobre o projeto Paralela e responsabilizou a prefeitura pela demora. “A indefinição da prefeitura cria uma instabilidade”, reagiu o secretário. Zezéu: aumentar metrô e integrar os modelos já existentes

Para Zezéu Ribeiro, o modelo deve ser coerente com a nossa realidade. “Até a definição das linhas dos ônibus é bagunçada, ligando tudo que é bairro e com uma fila de ônibus vazios”, diz. Segundo Ribeiro, dois pontos são fundamentais: estender o metrô já existente e integrar os modelos de transporte da cidade. “Não dá mais para fazer obras para o transporte individual”. Ele garante que as obras ficarão prontas para a Copa. 77

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Integração do sistema de transporte Os estudos técnicos e o planejamento devem ser a base para se discutir a mobilidade urbana nas cidades. Para Fernando Paez, presidente do sistema de transporte de BRT, Transmilênio, em Bogotá, Colômbia, o debate sobre o melhor sistema para ser implantado (metrô e/ou BRT) também é importante para a cidade. O especialista afirmou que o modelo de mobilidade deve se basear na multimodalidade, ou seja, deve integrar os diferentes sistemas de transporte que a cidade possa oferecer. “Tem que se considerar o custo e o tempo que as obras vão durar. Para atender com urgência a população da cidade”, analisa. Outra questão é pensar a mobilidade em sincronia com um ordenamento territorial de toda a cidade, levando em conta, por exemplo, escolas e igrejas. E ainda pensar um sistema de transporte que atenda a esse fluxo de passageiros. “É preciso transcender os partidos políticos, com planejamento de anos”. O Transmilênio foi criado há dez anos e está em sua terceira fase de planejamento.

Fernando Paez: urgência nas obras Fotos: Robson Mendes

Transporte público para tirar carro da rua A professora do Departamento de Trânsito da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Ilce Marília Dantas Pinto de Freitas comemorou em ver a mobilidade urbana sendo parte da discussão política nos dias atuais. “Por muitos anos, a mobilidade deixou de fazer parte da agenda política e chegamos neste ponto”, analisou. Ela defende que os novos projetos sobre o tema sejam pensados integrando Salvador e as outras cidades da Região Metropolitana, sem levar em conta somente os prazos e as expectativas com a Copa de 2014. A professora também lembrou que a falta de qualidade dos transportes públicos tem levado as pessoas a se arriscarem nas motos e bicicletas em uma cidade onde não há nenhuma estrutura para isso. Para ela, falta planejamento à cidade, um projeto de transporte com uma política adequada de uso do solo.

Ilce de Freitas criticou a falta de qualidade do transporte de Salvador

“Temos que pensar um sistema de transporte de qualidade, que atraia as pessoas que usam carro. São essas pessoas que vão sustentar o sistema”, diz.

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km: 70% das pessoas trabalham a menos dessa distância de casa

Foto: Evandro Veiga

Carro com moderação Já houve um tempo em que o automóvel era conhecido como carro de passeio. O cidadão podia até ter seu próprio veículo, mas também fazia uso do transporte público e não apelava para o carro, simplesmente, para ir à padaria, cena comum hoje nas grandes cidades. Especialistas consultados pelo jornal Correio admitem que sem transporte público eficaz se torna mais complicado deixar o carro na garagem. Mas, para eles, é possível reduzir o fluxo de veículos nas vias, especialmente para pequenas distâncias. “Cerca de 25% das pessoas trabalham a menos de 2,5 quilômetros de casa e 70%, a menos de 5 quilômetros”, diz Lincoln Paiva, presidente da entidade Green Mobility. Cada motorista pode fazer a sua parte. Ida a lugares próximos de casa, como academia de ginástica e supermercado, que já possuem serviço de entrega, ajuda a desafogar o trânsito. Combinar carona com o colega de trabalho ou da faculdade também elimina um veículo a mais nas ruas. Chefe do Setor de Ciência e Tecnologia em Meio Ambiente da Secretaria do Meio Ambiente de Salvador (SMA), o arquiteto e urbanista Carlos Alberto Querino não tem carro. Usa geralmente ônibus para transitar por Salvador. Táxi só quando há perigo, 79

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devido ao horário ou região. Defensor da redução de veículos nas ruas, Querino, no entanto, admite que há dificuldade em viver sem carro em uma cidade como Salvador. Ele defende, como Paiva, melhor infraestrutura tanto para transporte público quanto urbanística para estimular o uso com moderação do carro. “Ainda não há um investimento em transporte público adequado. Tem que existir o gerenciamento da mobilidade e de projetos que entendam e atendam como as pessoas estão se deslocando”, enfatiza Paiva. Ele cita o exemplo de Curitiba, no Paraná, que começou seu projeto de mobilidade urbana na década de 70, mas hoje é a cidade mais motorizada do Brasil. Para o especialista, o erro de Curitiba foi investir em um único meio de transporte, o Bus Rapid Transit (BRT), não dando para a população a possibilidade de integrar um modal com outro, expandindo o sistema com VLTs, trens, metrôs, por exemplo. Para o especialista, a partir do momento em que o transporte público for de alta qualidade, as pessoas vão perceber que abrir mão do carro vai melhorar a qualidade de vidas delas. Outros investimentos também precisam ser feitos. “Ter boas calçadas é fundamental. O que acontece hoje é que muitos carros acabam estacionando nas calçadas e o pedestre tem que passar pelo meio da rua”, reforça Paiva. Para Querino, só a fiscalização pode resolver essa questão, além da necessidade de se usar tecnologias nos passeios para melhorar a vida do pedestre, como sistema antiderrapante, acesso para os cadeirantes, etc. “A calçada tem que ser vista como o santuário do pedestre”, conta Querino. Projetos de mobilidade urbana, como o da Avenida Paralela, também ajudariam a retirar os carros do trânsito. Para o professor do Departamento de Transporte da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Elmo Felzemburg, o Metrô incentivará o usuário a deixar o carro na garagem. “Só com o transporte de massa rápido, confortável e seguro se conseguirá atrair o usuário do automóvel”, diz. Uma vez que a população possa abrir mão do carro, o próprio bolso também saíra ganhando. A Pesquisa de Orçamento Familiar, do IBGE, no período de 2003 a 2009, feita pelo instituto

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Data Popular, aponta que a nova classe C já paga até 70% mais em prestações mensais para financiar a compra de seu carro. O valor das parcelas de veículos adquiridos por famílias com renda de três a dez salários mínimos passou de R$ 285 mensais em 2003 para R$ 484 ao mês em 2009, fora as despesas com combustível, IPVA, seguro, estacionamento, manutenção... Então, é bom repensar: será que não vale a pena usar o carro com mais moderação?

*

Ação coordenada

25%

das pessoas trabalham a menos de 2,5 quilômetros de casa

26

mil veículos foram retirados das ruas de Washington com carona corporativa

Carona corporativa entre os alunos da Ufba Salvador também tem um projeto para tirar mais carros do trânsito. A ideia é uma iniciativa da professora do Departamento de Engenharia de Trânsito e Geodésia da Universidade Federal da Bahia (Ufba) Cira Pitombo que pretende mapear os alunos da Escola Politécnica que moram próximos uns dos outros e incentivar a carona entre eles.

Carona coletiva em Washington Foto: Divulgação

“São cerca de dois mil alunos. Agora, estamos na fase de mapear essas pessoas para depois começarmos a incentivar a carona entre eles”, informa Cira. O projeto visa a conscientização do usuário do automóvel com o meio ambiente e com o tráfego na cidade. Além disto, Cira acredita que a medida repercuta diretamente no conforto dos alunos. “Precisamos diminuir a nossa flexibilidade e pensarmos mais como uma sociedade”, analisa a professora sobre a cultura do individualismo na sociedade atual. Sobre essa ideia, basta fazer um exercício recomendado pelos especialistas em trânsito. Pare e observe quantas pessoas andam dentre de um carro? Normalmente, uma só. A capital dos EUA, Washington, inovou nessa área de trânsito. Washington desenvolveu projetos de caronas com empresas que têm mais de 100 funcionários, com estímulo fiscal para a nova prática, reduzindo os incentivos fiscais. O resultado: 26 mil veículos foram retirados das ruas e o atraso nas empresas caiu. 81

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Projeto da Paralela ainda indefinido Quando o tema é mobilidade urbana em Salvador, o assunto gira em torno sobre qual projeto será usado na Avenida Paralela. Numa coletiva para a imprensa, no dia 21 de junho, o secretário estadual de Planejamento (Seplan), Zézeu Ribeiro, apresentou o projeto que integra trilhos no canteiro central com o BRT (linhas de ônibus em corredores exclusivos) nas vias que desembocam na Paralela. O prazo que tinha sido dado, na ocasião, de 45 dias para se apresentar o termo de referência (que possibilitará a licitação) ficou apertado. Alberto Valença, diretor executivo da Seplan, disse que, na época, os dados pareciam suficientes, mas não são. “Vamos precisar de mais tempo, chegando aos 60 dias, talvez 90”, comenta. Mesmo sem o projeto final, Valença diz que não foi modificada a previsão de abrir a licitação em dezembro. Ao pensar um sistema que compreenda Salvador e Lauro de Freitas, Valença informa que o governo teve uma visão metropolitana, necessária para essas duas cidades que vivem um processo de conurbação (quando as cidades crescem e não se diferencia onde termina uma e começa a outra). “Também estamos muito defasados em relação a outras capitais. Um projeto de mobilidade que ultrapasse o municipal não pode ser adiado”, observa. Só para a Paralela, o valor da obra pode variar de R$ 2,6 bilhões a R$ 3 bilhões. Para Paulo Ormindo, professor da Ufba de Arquitetura e Urbanismo, o metrô deve atender a demanda da região da Paralela por um período de 40 anos. “Ele não ficará ocioso nos primeiros anos de seu funcionamento, por ser um sistema de transporte modular. Pode começar com comboios de três carros e ir aumentando até atingir seis carros ou mais. Não tenho dúvida que ele é a solução para a Paralela”, acrescenta. Porém, o professor ressalta a importância de se pensar outros pontos da cidade. “Um sistema integrado de transporte para Salvador deve incluir outros modais, como ferrovias tradicionais, VLTs e ciclovias”, diz.

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‘Prefiro andar de ônibus’* Enquanto a maioria dos meus amigos compra seu primeiro carro, fiz outra opção: prefiro andar de ônibus. Percebo que aqui é possível chegar de ônibus nos lugares e no horário certo. Primeiro, não nego que morar na Barra e trabalhar na Tancredo Neves e na Federação facilitem esta minha opção. Porém, conto também com a pontualidade do motorista do ônibus executivo que entre às 7h06 e às 7h09 passa no ponto. Na volta, também: às 12h20. Faço esta opção pela redução de custos no orçamento, mas também por saber que o transporte público de qualidade é real (e ainda quero andar nele em qualquer lugar de Salvador). Por seis meses no Canadá vivi essa rotina: ia para onde queria, com segurança e conforto. Os ônibus e o metrô nunca me deixaram na mão. Por que aqui não pode ser assim? * Luciana Rebouças, repórter do jornal Correio

“Também estamos muito defasados em relação a outras capitais. Um projeto de mobilidade que ultrapasse o municipal não pode ser adiado” ALBERTO VALENÇA, diretor executivo da Seplan

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Haja gargalo! A falta de planejamento e grandes investimentos viários nos últimos 15 anos, o aumento da renda da população e a migração — cerca de 60 mil pessoas todos os anos vêm morar em Salvador à procura de emprego ou até mesmo de melhor qualidade de vida — fazem com que os engarrafamentos sejam tão comuns na terceira maior cidade do Brasil quanto o acarajé, a praia e as festas populares. “Os motoristas de Salvador precisam exercitar a paciência todos os dias porque o trânsito nas principais ruas e avenidas está cada vez mais complicado”, admite Paulo Damasceno, secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, Habitação e Meio Ambiente. Levantamento realizado por técnicos e especialistas em trânsito da prefeitura apontou 21 ‘gargalos’ na cidade (veja infográfico na próxima página), uma das poucas metrópoles ainda sem o metrô. “Temos projetos para resolver todos os pontos críticos da cidade, mas precisamos de verbas para executá-los”, garante Paulo Damasceno. Levantamento sobre o custo das obras ainda não foi finalizado, mas técnicos da prefeitura estimam que seriam necessários cerca de R$ 20 milhões para a execução dos projetos. “São construções de pequenos viadutos, pistas exclusivas, vias alternativas e alargamentos”, diz Damasceno. Sem recursos em caixa para resolver os problemas, o prefeito João Henrique precisa contar com a ajuda dos governos estadual e federal para executar parte das obras. “Há pouco tempo, o governo estadual anunciou sistema misto de transporte, formado por corredor central de veículos sobre trilhos, além do BRT (Bus Rapid Transit) em algumas das principais vias de Salvador, projeto orçado em cerca de R$ 3 bilhões”, disse o prefeito. Do total, R$ 570,3 milhões serão bancados pelo Ministério das Cidades e o restante pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Mobilidade Urbana. Professora e coordenadora do Departamento de Transportes da Escola Politécnica da Ufba, Cira Pitombo avalia que a baixa qualidade do transporte público e o aumento da frota de veículos são os responsáveis pelos engarrafamentos na cidade. “Mesmo fora dos horários de pico, as principais ruas e avenidas de Salvador operam acima de suas capacidades”, lembra Cira.

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Além da falta de investimentos em obras estruturantes, como a construção de viadutos, o crescimento do número de carros e motos em Salvador também contribui para deixar motoristas cada vez mais estressados. Dados do Detran revelam que, em maio de 2005, havia na capital baiana 521.563 veículos cadastrados. Em maio de 2011 (seis anos depois), o número de automóveis era de 748.350 — aumento de 43,4%. Dados sobre motos são ainda mais assustadores: de 40.089 para 87.958 (aumento de 119,4%) no mesmo período. Para Cira Pitombo, o problema dos engarrafamentos somente será resolvido quando os baianos aprenderem a usar o transporte público: “É claro que não é o sistema que temos hoje, mas sim um transporte público de qualidade”. Segundo a professora, no Brasil, os ônibus estão relacionados às pessoas de ‘baixa renda’, ao contrário do resto do mundo.

*

Nó no trânsito

21

pontos críticos foram identificados pela prefeitura: atual situação alimenta o nó no trânsito da cidade

43%

é o aumento da frota de veículos na capital baiana em seis anos

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PONTOS CRÍTICOS

Confira os 21 gargalos identificados pela Prefeitura e as obras necessárias para desafogar o trânsito de Salvador.

3 Viaduto Nilo Peçanha x

Trincheira do Largo do Tanque

Engarrafamentos constantes travam toda a região. Solução: Permitir a circulação de carros em sentido Infográfico: Pontos único no Viaduto dos Motoristas (Largo do Tanque/Península de Itapagipe)

7 Complexo Viário do Imbuí Congestionamentos diários e tendência de travamento em pouco tempo. Solução: Eliminação do retorno no viaduto do Centro Administrativo e obras na avenida Jorge Amado

4 Viaduto Complementar da Rótula do Abacaxi

Crescimento da cidade requer novas intervenções para a região. críticos Solução: Criação de uma terceira pista

8 Viaduto da Rotatória de São Rafael

Pista estreita estrangula o trânsito em uma das regiões mais povoadas de Salvador. Solução: Ligação em desnível entre São Rafael/São Marcos

11 Viaduto da Avenida

l Viá Viário i de d Pituaçu Pit 12 CComplexo

Engarrafamentos causados por pistas estreitas. Solução: Eliminação de dois retornos em nível existentes nessa avenida

A região, perto do viaduto Dona Canô Veloso, é um dos maiores pontos críticos para o trânsito de Salvador. Solução: Construção de um viaduto ligando as Avenidas São Rafael e Pinto de Aguiar, sentido Iguatemi/Aeroporto, além de um túnel ligando as avenidas Gal Costa e Pinto de Aguiar

15 Trincheira da Avenida

Antonio io 1 Viaduto da Avenida Anton 16

Mussurunga

Silveira Martins com rua Tomáz Gonzaga

Um dos trechos mais congestionados de Salvador Solução: Uma articulação em desnível, com a implantação de uma trincheira de ligação direta da Ladeira do Cabula à Avenida Silveira Martins

17

Viaduto no início da Avenida Luís Viana Filho (Paralela)

Engarrafamentos constantes todos os dias. Solução: Interligação da pista da Avenida Paralela (sentido aeroporto/ Iguatemi) com as pistas centrais e de aceso aos viadutos Nelson Dahia e Raul Seixas

3

Carlos Magalhães com a Avenida Juracy Magalhães

2

Pistas não atendem mais a demanda de veículos. Solução: Criação de dois viadutos na região do Parque da Cidade, com ramificação para acesso ao bairro de Brotas

18 Viaduto da Avenida Antonio

4

Carlos Magalhães

(imediações do Shopping Iguatemi)

Cruzamento com semáforos provoca muitos engarrafamentos. Solução: Construção de um novo viaduto de retorno nas proximidades do edifício Capemi, além de passarelas

14

21 Trincheira da Avenida Octávio

16

Mangabeira x rua Artur Machado

(altura do posto de gasolina que fica próximo ao Jardim dos Namorados) Cruzamento provoca engarrafamentos. Solução: Criação de uma trincheira e viadutos de retorno

13 19

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1 Conexão Pirajá X BR-324

2 Trincheira da Calçada

Muito estreito, o viaduto sobre a BR-324 é insuficiente para atender toda a demanda de veículos. Solução: Precisa ser duplicado para facilitar a circulação e acesso dos ônibus

5 Semi-trincheira do

Congestionamentos diários nas imediações da linha de trem. Solução: Rebaixamento das duas pistas do tráfego geral e criação de dois acessos (entrada e saída) até o Largo dos Mares

6 Viaduto da Avenida Paulo VI

Jardim dos Namorados Devido ao crescimento imobiliário da Avenida Magalhães Neto, a expectativa é de saturamento. Solução: Implantação de uma pista (usando parcialmente o desnível do canal do rio Camarugipe) e um viaduto

O ponto crítico é o semáforo do Hiperposto (final da Paulo VI). Solução: Construção de dois viadutos: um no sentido Iguatemi/Itaigara e outro no sentido Itaigara/Rio Vermelho

Boca da Mata

110 Integração da Avenida Orlando

9 Vi Viaduto d t TTamburugy b Parque São Bartolomeu

Retenção de tráfego que afeta toda a região. Solução: Construção de uma via interligando as regiões das Avenidas Paralela e Tamburugy

1

Ár de grande fluxo de veículos e tendência de piorar Área muito nos próximos anos. (em construção pelo estado) m Solução: Ligação da nova pista com a Avenida Orlando So Go Gomes

13 Trincheira da

14 Rótula dos Barris x Dique

(trecho da antiga fábrica da Coca-Cola) A conexão entre as Avenidas Garibaldi e Oceânica que provoca retenção no trânsito. Solução: Implantação de uma passagem em desnível para atender esse movimento

Traçado não atende mais toda a demanda de carros. Solução: Liberação da atual pista para uso exclusivo do corredor de BRT, além da construção de uma ponte e passarelas

11

do Tororó

Avenida Garibaldi

3

Gomes com a Avenida

8

1 12 10

Parque Metropolitano de Pituaçu

9

4

15

7 17 18

19 Viaduto da Avenida

200

Engarrafamentos constantes na região. Solução: Construção de dois novos viadutos paralelos, afastados entre si o suficiente para incorporar a pista exclusiva do BRT e o canal existente no local

6 16 Parque da Cidade

20 Trincheira da Avenida

Anita Garibaldi x Lucaia

5 221

Tancredo Neves x Avenida Magalhães Neto

Engarrafamentos constantes em uma das áreas mais movimentadas da cidade. Solução: Criação de um trecho em desnível (trincheira) interligando nas duas direções a Avenida Magalhães Neto e a pista lateral da Avenida Tancredo Neves

3 9 Pista estreita

Congestionamento Engarrafamento

Viaduto Semáforo

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EDITORIA DE ARTE/CORREIO

Infográfico: Wilton Santos

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Via longa e sinuosa Com aeroportos, rodovias, estradas, ferrovias e portos deficientes e precários, os custos logísticos para os empresários baianos cresceram muito nos últimos anos. Entre 2003 e 2010, somente os gastos com o transporte subiram em torno de 160%, de acordo com informações da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) - apenas para efeito de comparação, no mesmo período, a inflação foi de pouco menos de 55%. O custo logístico brasileiro é de 12% do PIB (o terceiro maior do mundo) e o país investe apenas 0,9% da soma total de suas riquezas em infraestrutura no transporte, contra quase 5% da Rússia, Índia e China, outras nações também consideradas emergentes. “É preciso inverter esta equação rapidamente para o Brasil não perder o bonde da história”, disse o empresário José Albuquerque Oliveira, que exporta frutas para a Europa e os Estados Unidos. Na Bahia, dos quase 28,3 mil quilômetros da malha rodoviária estadual (incluindo rodovias federais e pistas administradas por concessionárias), menos de 300 quilômetros são duplicados, segundo informações da Secretaria Estadual de Infraestrutura (Seinfra) e da Polícia Rodoviária Federal. “Apesar de muitas promessas, as obras de duplicação das principais rodovias que cortam a Bahia ainda não começaram”, disse Junaldo Correia, chefe da 1ª Delegacia da Polícia Rodoviária Federal (Simões Filho). Como a concentração no modal rodoviário é muito grande e as estradas são ruins, os empresários perdem competitividade. “No transporte dos grãos das fazendas até as unidades fabris (beneficiamento), a perda chega a 3%. Isso porque, em geral, os caminhões e carretas não estão nas mesmas condições dos que rodam para os portos. As estradas, na maioria das vezes, são vicinais, sem asfaltamento, e não raramente se encontram em condições precárias. Estradas ruins e ausência de modais como trens contribuem para elevação dos custos de produção”, ressaltou Sérgio Pitt, vice-presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba). Sérgio Pitt disse que a falta de infraestrutura pesa muito no bolso dos empresários. “O custo médio da logística brasileira é

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1,5 maior do que a dos Estados Unidos e duas vezes superior à da China. E, se não bastasse, convivemos com uma excessiva carga tributária”. As constantes reclamações dos empresários e o fato de Salvador sediar a Copa do Mundo pela primeira vez podem transformar esta realidade. Há grandes investimentos previstos para o Aeroporto Internacional Deputado Luis Eduardo Magalhães e para estradas, além da construção de uma das mais importantes obras no país - a Ferrovia de Integração Leste-Oeste (Fiol), que vai passar por quase 50 municípios da Bahia e integrar o estado.

160% Aumento no custo logístico só com transporte para empresários baianos

Foto: Arquivo Correio

Pistas simples O governo estadual promete intensificar as obras de recuperação nas estradas. Somente este ano, segundo a Secretaria Estadual de Infraestrutura, foram recuperados 776 quilômetros de estradas — outros 288 quilômetros estão em obras. “A recuperação de estradas é uma iniciativa válida, mas o que precisamos mesmo é de duplicação das pistas, porque temos registrado, todos os anos, um crescimento de 40% no movimento das nossas rodovias”, disse o inspetor Junaldo Correia.

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Aeroporto terá R$ 100 milhões até 2013 Segundo a Infraero, somente o aeroporto da capital baiana deverá receber investimentos de cerca de R$ 100 milhões nos próximos dois anos. Os recursos serão empregados em obras de infraestrutura, como troca dos elevadores, esteiras e escadas rolantes, ampliação dos sanitários e do número de pórticos para inspeção de bagagens, além da construção de mais um andar do edifício-garagem, ampliando o número de vagas para 2.300 (atualmente, o estacionamento tem capacidade para 1.300 veículos). O superintendente da Regional Centro-Oeste da Infraero, José Cassiano Ferreira Filho, disse que outras obras estão previstas. “Para melhorar o acesso dos passageiros e usuários do estacionamento ao embarque, será construída uma passarela interligando o primeiro andar do edifício-garagem ao terminal. O pátio de manobras também ganhará mais duas posições de estacionamento de aeronaves e uma nova pavimentação, substituindo a atual, de asfalto, por pavimento de concreto”, acrescentou.

2

novas posições de estacionamento no aeroportos

Foto: Arquivo Correio

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Ferrovia deve criar novos polos no estado A maior esperança dos empresários baianos para ampliar a competitividade e as exportações é a construção da Ferrovia de Integração Oeste-Leste, projeto orçado em R$ 6 bilhões - do total, R$ 4,2 bilhões serão investidos apenas em território baiano. A nova linha férrea terá cerca de 1.500 quilômetros, ligando Ilhéus até Figueirópolis (TO). “Após a conclusão da obra, certamente o custo para o transporte de insumos e produtos diversos deve cair e existe uma possibilidade muito grande de implantação de novos polos agroindustriais”, disse Sérgio Pitt.

1.500 kms terá a nova ferrovia que ligará o Oeste ao Leste do país

TOCANTINS Figueirópolis Barreiras

BAHIA Caetité

Infográfico: Morgana Miranda

Cronograma das obras da Ferrovia Oeste-Leste 1ª Etapa: 537 km entre Ilhéus / Caetité Conclusão em 2012 485 km entre Caetité/Barreiras/São Desidério Conclusão em 2013

Vitória da Conquista

Salvador

Ilhéus

Porto Seguro

2ª Etapa: 505 km entre Barreiras/São Desidério/Figueirópolis Conclusão em estudo

*

Competição em baixa

28

mil quilômetros: extensão da malha rodoviária no estado da Bahia

300

quilômetros dos 28,3 mil da malha rodoviária são duplicados

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Total da malha rodoviária da Bahia:

28.284,91 km

Quilômetros duplicados administrados pelo Derba:

Total administrado pelo Estado (Derba):

58,33

18.930 km

Quilômetros duplicados em rodovias federais (Salvador/Feira de Santana):

Total administrado pelo governo federal ou concessionárias:

110

9.354,91 km

Aeroporto Movimento no Aeroporto Internacional Deputado Luis Eduardo Magalhães :

7,7 milhões

de passageiros (2010) Previsão de investimento em obras nos próximos dois anos:

R$ 100 milhões

Fontes: Governo da Bahia, Polícia Rodoviária Federal, Infraero

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Estradas

Infográfico: Morgana Miranda

8,6 milhões

de passageiros (previsão 2011) Voos diários: (150 pousos e 150 decolagens)

300

Estado mapeia estradas com problemas Apesar das críticas de empresários, o secretário estadual da Infraestrutura, Otto Alencar, disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que o governo tem se empenhado para melhorar as condições das rodovias baianas, realizando obras de construção e recuperação em todas as regiões. “Com isso (as obras), a economia só faz crescer”, assegurou. Otto Alencar, que também é vice-governador, afirmou que o governo mapeou os principais problemas das estradas que cortam a Bahia. “Além de contribuir para o escoamento da produção, as estradas pavimentadas que estamos construindo ou recuperando vão facilitar o acesso às cidades, promovendo mais desenvolvimento para o estado”.

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O jogo dos sete erros Os engarrafamentos não têm hora e nem lugar para começar em Salvador. Proliferam pela cidade, testando a paciência de quem está ao volante. Mas, de quem é a culpa? No gráfico, é só seguir os números: são os sete erros mais comuns que resultaram em um trânsito caótico. A professora Cira Pitombo, do Departamento de Transportes da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (Ufba), destaca alguns pontos. “Com poucos fiscais nas ruas e as constantes greves dos agentes, os motoristas agem como se fossem os donos da cidade, parando em filas duplas ou triplas, desrespeitando as faixas de pedestres e dando contramão em locais de grande movimentação”, disse Cira.

Infográfico: Morgana Miranda

1

2

Falta de planejamento no crescimento da cidade: grande crescimento de Salvador nos últimos anos não foi acompanhado por obras de infraestrutura viária. Há obras em construção que, quando inauguradas, devem contribuir para dar mais fluidez ao trânsito

3

Carência de engenharia de tráfego: ruas sem planejamento de tráfego, estacionamento inadequado, sinais quebrados ou desregulados

Dirigir falando ao celular: o uso do aparelho, proibido por lei, desvia a atenção do motorista, reduz a velocidade e pode causar acidentes

5

Falta de regulamentação para carga e descarga: a prefeitura tentou restringir por decreto os horários de circulação dos caminhões e tratores na cidade, mas a Justiça tornou sem efeito a proibição. Com isso, caminhões e carretas fazem carga e descarga em qualquer horário, prejudicando a fluidez no trânsito

Contramão em retornos de grande movimento: os motoristas ignoram a sinalização e fazem manobras irregulares para “ganhar tempo”

4 6 Fiscalização restrita: com poucos fiscais nas ruas, os motoristas fazem o que querem

7 Estacionamentos em fila dupla, curvas ou sobre faixa de pedestre: comum em diversas ruas da cidade, contribuindo para o engarrafamento

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Bairro planejado

O Greenville funciona como um bairro: moradia, serviço e vias, tudo planejado Foto: Divulgação

Quem vive hoje nas grandes cidades busca o máximo de tranquilidade e conforto no dia a dia. É para atender esses clientes que, cada vez mais, surgem bairros planejados dentro de Salvador. A ideia é centralizar, dentro de um grande terreno, apartamentos, equipamentos de lazer (como piscina, brinquedotecas, salão de festas) e as mais variadas opções de serviços. O conceito é de facilidade: se você pode comprar alimentos ou ir à ginástica, na área comercial instalada dentro do seu bairro planejado, para que sair de casa? Um carro a menos de cada morador pode fazer diferença no engarrafamento. Por estar antenada a esse novo conceito de moradia, a maior empresa do setor imobiliário da América Latina, a PDG, lançou o bairro planejado Greenville, em Salvador. O impacto dessa estrutura com 900 mil metros quadrados e com 50% da área total de terreno preservado não é só para os moradores. Segundo Ricardo Telles, diretor de unidade de negócios Nordeste da PDG, ainda há uma preocupação com a infraestrutura. “Um bairro planejado tem como premissa uma ocupação planejada, com ruas adequadas, estacionamentos definidos e o desenvolvimento de vias de acesso. No caso do

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Greenville, já se encontra em fase de projeto a duplicação da avenida Pinto de Aguiar”, disse. Também haverá serviços delivery, como comidas congeladas, entregas rápidas (farmácia, locadora, restaurantes, pizzarias), padaria, floricultura, postagem, etc, que poderão ser facilmente contratados através da Central de Atendimento para Pay per Use e Deliveries que, além de receber e encaminhar ordens, permite avaliar os serviços prestados. Além dessa megaestrutura, o Greenville acredita na conservação ambiental e já assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) garantindo qualidade de vida aos seus moradores. “São previstos nove empreendimentos, sendo que quatro já estão em obras e um em fase de lançamento. Em relação ao meio ambiente, foi feito um TAC com os órgãos competentes e ele está sendo rigorosamente cumprido. Temos uma área de preservação ambiental obrigatória prevista nesse TAC. Mas, além disso, por nossa própria iniciativa, dentro das áreas dos condomínios, sempre preservamos áreas de até 30% do terreno”, disse.

”Um bairro planejado tem como premissa uma ocupação planejada, com ruas adequadas, estacionamentos definidos e desenvolvimento de vias de acesso RICARDO TELLES, diretor Nordeste da PDG

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PVC bem concreto Um novo conceito de projetar e construir casas populares promete acirrar a disputa entre os empresários e reduzir o déficit habitacional do setor, que é de 5,57 milhões de residências, de acordo com dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (Pnad), utilizados pelo Ministério das Cidades para definir os programas que serão executados em todo o país. Com perfis leves e modulares de PVC, preenchidos com concreto e aço, a tecnologia permite a construção de uma casa de 40 metros quadrados (área padrão da maioria dos programas habitacionais financiados pelo governo) em apenas oito dias. No modelo convencional, o prazo é de 50 dias. Além de demorar menos tempo, a tecnologia do concreto PVC traz outras vantagens para os empresários e moradores, segundo informações de Jorge Augusto Bastos, assistente da Diretoria Industrial de Vinílicos da Braskem. “Os empresários têm à disposição um produto sem geração de entulhos e resíduos e que não provoca perda, e os proprietários vão morar em uma casa de fácil manutenção, que não precisa de pintura e conta com 35 anos de garantia”, disse Bastos. Há, ainda, outro benefício, de acordo com estudos técnicos e laboratoriais: imunidade a cupins, mofo, fungos e corrosão. Por enquanto, a tecnologia somente é viável na construção de habitações horizontais, com três pavimentos, no máximo. “Para as construções verticais (quatro ou mais andares), o conceito ainda não é recomendável, por causa dos cálculos estruturais e outras características”, disse Jorge Bastos.

“Os empresários têm à disposição um produto sem geração de entulhos e resíduos e que não provoca perda. Os proprietários vão morar em uma casa de fácil manutenção” JORGE AUGUSTO BASTOS, da Diretoria Industrial de Vinílicos da Braskem

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“Como os preços das duas modalidades de construção (concreto PVC e material tradicional) são similares, o que faz a diferença, na verdade, são os benefícios trazidos pelo PVC”, disse o engenheiro Jorge Resende Albuquerque, sócio de uma empresa que compra e vende terrenos, principalmente nas médias e grandes cidades da Bahia. “O construtor que faz uma casa popular com o subsídio oferecido pelo governo (R$ 50 mil) certamente vai usar material de baixa qualidade. Com o PVC, isso não acontece”. Embora seja uma realidade no Rio Grande do Sul, Espírito Santo e São Paulo - 3 mil unidades foram erguidas dentro dessa modalidade -, as casas de concreto PVC somente agora começam a se popularizar no Nordeste. Na Bahia, a primeira casa construída com o sistema está localizada na sede do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), na Cidade Baixa. Patrocinada pela Braskem, a casa-escritório do órgão possui uma área de 43 m² e utilizou cerca de 73 m² de perfil, 14 kg de concreto armado e 900 kg de PVC. O PVC (policloreto de vinila) é o termoplástico mais utilizado na construção civil e está presente em todas as etapas da obra: tubos, conexões, perfis, fios e cabos até os acabamentos e revestimentos. No ano passado, o mercado nacional de resinas de PVC atingiu cerca de um milhão de toneladas, sendo que 60% da produção total foi destinada para atender ao setor da construção civil e infraestrutura.

* Facilidade

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50

3 mil

60%

dias é o prazo máximo para a construção com modulares de PVC de uma casa com 40 metros quadrados

casas de concreto PVC foram constru��das em três estados: no Rio Grande do Sul, São Paulo e Espírito Santo

dias é o tempo para construção de uma casa de 40 m² com técnica convencional

da produção total de resinas de PVC foi direcionada para construção civil e obras de infraestrutura

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Com o mercado em alta, a Braskem está investindo R$ 1 bilhão na construção de uma nova fábrica de PVC em Alagoas, com capacidade de 260 mil t/ano, o que elevará sua produção para 710 mil toneladas anuais. Maior produtora de resinas termoplásticas das Américas, a empresa está no mercado como fornecedora de matéria-prima para a construção das casas de concreto PVC. Com 31 plantas industriais distribuídas pelo Brasil e Estados Unidos, a Braskem produz anualmente mais de 15 milhões de toneladas de resinas termoplásticas e outros produtos petroquímicos.

Agilidade O sistema de PVC é uma nova maneira de projetar e construir. Desenvolvido no Canadá, já utilizado no Brasil, é industrializado e compatível com qualquer projeto. As instalações elétricas são simples e rápidas. Após a montagem das paredes e antes da concretagem, são montados os circuitos elétricos necessários Utilizado em edificações de até três andares São perfis modulares de PVC, de simples encaixe, preenchidos com concreto e aço

Por ser modular, facilita a administração de materiais, mão de obra e transporte. Além disso, evita desperdício

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Barras de aço são inseridas nas estruturas dos perfis

As paredes são preenchidas com concreto

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As paredes se sustentam entre si, sem a necessidade de um operário para segurá-las

A montagem começa a partir de um dos cantos selecionados. São encaixados todos os módulos da estrutura

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Infográfico: Morgana Miranda

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Para competir, tem que inovar

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uitas vezes a gente nem percebe, mas quase tudo que usamos hoje em dia teve por trás um investimento em inovação. Do celular à máquina de lavar roupa. Do jornal ao carro mais potente e menos poluente. As empresas brasileiras que se destacam dentro e fora do país descobriram que, para serem mais competitivas, precisam de investimentos em inovação - tanto de produtos quanto de processos e gestão. Conseguem assim inovar, reduzir custos e o impacto no meio ambiente, oferecendo um diferencial e ampliando a base de consumidores. Mas, no Brasil, essa prática ainda é restrita e o investimento em inovação considerado baixo na comparação com outros países, como a Alemanha e a China, que a cada dia conquistam novos mercados. A Bahia, apesar dos avanços, como a construção do Parque Tecnológico, ainda precisa investir muito nessa área, segundo especialistas, para ser também mais competitiva e aumentar as riquezas para os baianos. Neste capítulo, há exemplos de ações inovadoras em diversos segmentos da economia brasileira e baiana, citados por executivos de multinacionais, especialistas renomados e autoridades, que apresentaram as vantagens e debateram os desafios que precisam ser enfrentados no estado para o desenvolvimento sustentável da Bahia.

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Vantagens - A Bahia possui cursos universitários de renome em todo o país, o que poderia favorecer um ambiente de pesquisa e inovação. - Estão instaladas no estado, com plantas industriais ou sedes, algumas das principais multinacionais do país. - A Bahia tem patrimônio histórico e atrações turísticas reconhecidos em diversas regiões do mundo e uma economia em crescimento, com índices acima dos registrados pelo país, o que facilitaria a inovação da marca Bahia. - Construção de Parque Tecnológico no estado.

Investimento em inovação gera vantagem competitiva para as empresas Foto: Divulgação

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Desafios e ações propostas para a Bahia - Investimento maior no Produto Interno Bruto (PIB) em inovação. - Fortalecer a agenda nacional e regional para a pauta e promoção de políticas públicas que estimulem a inovação nas empresas e no governo a fim de aumentar a competitividade, a responsabilidade e a inclusão social e também reduzir o impacto das atividades no meio ambiente. - Motivar empresas a dar salto tecnológico na produção.

Cimatec é referência em inovação no país Foto: João Alvarez/FIEB

- Investimento em tecnologias limpas, redução de emissão de resíduos e gases do efeito estufa. - Incentivar e criar cultura de inovação e sustentabilidade também nas micro e pequenas empresas para que sejam mais competitivas no mercado e aumentem participação no PIB. No seminário, o caso da Microsoft foi lembrado como exemplo sobre o potencial de pequenas empresas em um mundo cada vez mais globalizado. - Através da inovação, micro e pequenas empresas, responsáveis pelo sustento de 21 milhões de brasileiros, podem garantir sua sobrevivência ao reduzir desperdícios, ao se tornarem mais produtivas, descobrindo novos nichos. Atualmente, segundo o Sebrae, embora o Brasil seja um dos países mais empreendedores do mundo, a taxa de mortalidade das empresas é muito alta: dos negócios criados, de 22% a 25% fecham as portas em dois anos. - Criação de sistema integrado entre governo, universidades e empresas por melhores resultados e práticas sustentáveis. - Investir na formação de uma nova cultura que valorize o desenvolvimento sustentável. Introdução de disciplinas nas escolas de ensino fundamental que estimulem o desenvolvimento tecnológico e a inovação. Investimento também nas universidades para a formação de profissionais com essa nova visão de mercado. - Acelerar registro de patentes: no Brasil, uma patente leva até nove anos para ser deferida. 103

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- Estimular e investir em linhas de pesquisas que valorizem a inovação. E também na formação de alunos e professores para a inscrição de patentes e análise desses contratos. - Implantação do Parque Tecnológico. - Estimular que as empresas, em seus Departamentos de Recursos Humanos, maximizem ideias inovadoras e originais, que tragam o foco nas pessoas e não apenas em processos rígidos. - A escassez de energia e as mudanças climáticas estão entre os principais problemas a serem enfrentados pelos países nos próximos anos. Segundo os especialistas, nações que dominarem tecnologia e investirem em projetos de inovação sairão na frente e serão muito mais competitivas. - Investimento para criar uma marca Bahia também em negócios, além do entretenimento. A Bahia tem crescimento acima da média nacional e possui grande potencial para atrair novas empresas em diversos segmentos de mercado. - Divulgação de produtos tipicamente Made In Bahia. Investimento em infraestrutura, segurança, urbanismo, cultura, educação permitem a construção e manutenção da marca Bahia. - Ações integradas entre governo, setor privado e sociedade civil para definição de um novo modelo de consumo e grau de produção, visando a sustentabilidade do planeta. - Compromisso dos candidatos a prefeito das principais cidades do país em diminuir os problemas com a mobilidade urbana, que consomem cada vez mais tempo dos cidadãos nos engarrafamentos. E de se inscreverem no programa Cidades Sustentáveis, que poderá mensurar o cumprimento de metas, permitindo o acompanhamento e fiscalização da população. A defesa foi feita pelo Instituto Ethos.

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Competitividade - Produtos inovadores têm até 10 vezes mais valor agregado e reduzem custos de empresas. - Investimentos em inovação geram riquezas. Como exemplo, países como a Alemanha que tem um PIB de US$ 3,5 trilhões (checar) com 85 milhões de habitantes. - Marcas fortes, como lembraram os especialistas no seminário, permitem negociações melhores e ganhos mais altos. Resistem mais às crises e investidas da concorrência de produto ou de outras áreas de investimento. Tendem a liderar e manter-se na liderança. Valorizam o patrimônio da instituição. Pesquisa faz a diferença nas empresas Foto: João Alvarez/Fieb

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Inovar para competir O Brasil está despertando para uma realidade que há muito faz parte da política industrial dos países desenvolvidos e de emergentes: para competir no mercado global, é preciso inovar, criar produtos, melhorar os já existentes, desenvolver novos processos de produção. O Global Innovation Index de 2011 – ranking de uma das maiores escolas de negócios do mundo, a Insead – aponta o Brasil na 47ª posição, ficando atrás, na América Latina e Caribe, do Chile e Costa Rica. O top do ranking é ocupado em 2011 pela Suíça, seguida pela Suécia e Cingapura.

37ª

é a posição do Brasil em produção científica

Nos últimos seis anos, o governo brasileiro tem tomado uma série de medidas para incentivar o desenvolvimento tecnológico e a inovação, criando legislação específica e disponibilizando financiamento para as empresas. A avaliação geral de especialistas é de que ainda é pouco, mas de qualquer forma representa um bom começo para estimular a competitividade brasileira. Até mais importante do que isso, porém, é o surgimento de uma cultura da inovação que, aos poucos, vai se introduzindo nas universidades e no meio empresarial, estabelecendo uma articulação entre esses dois universos. “Antes, um acadêmico brasileiro que fizesse pesquisa para empresas estava ‘vendendo a universidade’. Eram dois mundos separados”, diz Cristina M. Quintella, coordenadora de Inovação da Pró-Reitoria de Pesquisa, Criação e Inovação da Ufba. Segundo ela, agora já começa a haver consciência da necessidade de conectar a pesquisa acadêmica às necessidades do mercado. Rafael Lucchesi, diretor de Educação e Tecnologia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), completa frisando a importância de o Brasil criar a chamada economia da proximidade.

47ª

é a posição do Brasil no ranking mundial sobre inovação. Perde para países como Chile e Costa Rica

“Nas universidades americanas há um enorme estímulo para que os professores busquem viabilizar relacionamentos fora da academia, com empresas que realizam pesquisas. Aqui, há uma lacuna no desenvolvimento de projetos voltados para a pesquisa aplicada, pré-competitivos, que possam ser levados ao chão da fábrica”, analisa. Lucchesi diz que, a fim de contribuir para mudar esse quadro, a Confederação Nacional da Indústria (CNI), junto com o BNDES, está implementando a ação Mobilização Empresarial pela Inovação, com o objetivo de sensibilizar a alta direção das empresas para o desafio de inovar e realizar

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atividades de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D), como forma de tornar a produtividade resultante no motor de uma política de combate à crise econômica. Um levantamento de 2009 realizado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que o Brasil investe 1,13% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em P&D, somados aí investimentos públicos e da iniciativa privada. Isso é muito pouco, se comparado aos países desenvolvidos, que aplicam, em média, 2,28% do seu PIB.

1,13% é o percentual do PIB brasileiro em investimento em inovação

Em consequência, o número de patentes registradas no país é pequeno, e vem crescendo devagar. Em seu último levantamento, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) informou que, em 2008, foram registradas 27.050 patentes, um crescimento de apenas 18% em comparação a 2004. Nos seis primeiros meses de 2011, o instituto contabilizou 15.192 registros, numa contagem parcial. À parte a ainda baixa cultura inovadora, o Brasil se ressente com a falta de políticas públicas de incentivo – o que o governo tem procurado remediar a partir de 2005 – com processos excessivamente burocráticos, problemas jurídicos, pouca demanda empresarial e o que Lucchesi aponta como um “enorme problema de matriz”. “Faltam engenheiros. De cada cem graduados hoje no Brasil, só cinco são da área de Engenharia. Se extrapolarmos para ciências exatas, esse número sobe para dez. Na China, por exemplo, vai para 40 e, na Coreia do Sul, para 25”.

2,28%

é o percentual do PIB de países desenvolvidos em investimento em inovação

Na Bahia, o momento é de construir, diz Cristina M. Quintella. Embora reconheça as dificuldades, ela comemora a existência, ainda incipiente, de uma cadeia produtiva da propriedade intelectual e transferência de tecnologia no país, com reflexos positivos no estado. O surgimento dos Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs), formando uma rede de oito instituições no Nordeste, coordenados pelo NIT da Ufba, vai criando uma estrutura e uma cultura na área. São oficinas de escrever contratos, de apropriação de patentes e prospecção tecnológica – para identificar se as patentes em questão já existem – destinadas a ensinar como fazer. A Ufba conta com um Depósito de Patentes desde 2005, com pessoal treinado nos institutos Fraunhofer, da Alemanha, focados no

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processo de passar os projetos da bancada da universidade para a fábrica. Na Ufba, as principais áreas em destaque são alimentos, fármacos, biotecnologia, petróleo e gás e, entrando agora, tecnologias hospitalares e geociências. Com isso, a Ufba protocolou, em 2010, 20 patentes, número que deverá se repetir em 2011. Isso representa metade das patentes a serem registradas por todas as instituições do estado – cerca de 40. Desde que foi criado, o Depósito de Patentes fez 80 registros.

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universitários escolhem Engenharia, a cada cem graduados, no Brasil

Na Bahia, ainda falta avançar A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia - Fapesb possui, no momento, cinco editais em inovação abertos, disponibilizando um total de R$ 24,7 milhões. É assim, através de editais, que a instituição vem tentando colaborar para reverter a baixa taxa de inovação na Bahia, o que, de resto, é um problema que se repete em todo o país, diz o diretor-geral da entidade, Roberto Paulo Machado Lopes. Ele ressalta que a Bahia, assim como o Brasil, tem avançado muito na produção científica e muito pouco em inovação. Enquanto o Brasil é o 13º país em produção científica, em inovação encontra-se em 47º lugar. Na sua análise, isso decorre, em primeiro lugar, de aspectos culturais, com a reprodução de comportamentos passados nos quais o país teve pouco estímulo à inovação. A Fapesb atua nas áreas de Competitividade Empresarial que, até o momento, firmou 93 contratos com empresas baianas (micro, pequenas e médias) para o desenvolvimento de projetos de inovação tecnológica em produtos, processos e serviços, com geração de patentes; desenvolvimento científico, tecnológico eempreendedorismo, com apoio a 160 projetos; e tecnologia social e ambiental, cujas ações, conforme destaca Machado, são fundamentais para um estado com tamanhas desigualdades sociais como a Bahia. “Já obtivemos algum avanço, mas precisamos crescer e desenvolver mais e com mais rapidez”, alerta.

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Centros para testar produtos Astrônoma, física, química e especialista em ciências moleculares, Cristina M. Quintella conta com 15 patentes registradas, dez das quais já em uso pela Petrobras. A maioria na área de petróleo e gás, especificamente na recuperação de campos maduros, aqueles que, já bastante explorados, exigem técnicas extras para continuar produzindo. A especialista criou tecnologias que contribuem para a sustentabilidade do processo. Cristina condena a velha prática de universidades brasileiras de realizar pesquisas e sair publicando, sem registrar a propriedade intelectual. “Aí, empresas de outros países leem os nossos arquivos, fazem o produto e exportam para cá. Tem que apropriar, fazer registro de software. Só assim se controla quem fabrica e quem vende”, adverte. Ela salienta ainda que pesquisas registradas, mas guardadas nas prateleiras, não servem para nada. Daí a necessidade de ‘habitats’ de inovação para os testes antes de chegar na indústria.

“Nos Estados Unidos, há estímulo para que os professores viabilizem relacionamentos fora da academia, com empresas que realizam pesquisas. Aqui, há lacuna no desenvolvimento de projetos que possam ser levados ao chão da fábrica” RAFAEL LUCCHESI, diretor de Educação e Tecnologia da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

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Novas formas de gestão Depois de adotar a sustentabilidade como “ética de negócios” e de anunciar mais uma fonte alternativa de matéria-prima, a Braskem apresenta números que demonstram o acerto da empresa em apostar no desenvolvimento tecnológico. No ano passado, com exceção do consumo de água (aumento de 1%), os principais indicadores da empresa relacionados à tecnologia e ao desenvolvimento sustentável sofreram reduções substanciais em relação ao ano passado: acidentes de trabalho (-79%), geração de resíduos (-62%), geração de efluentes (-36%) e consumo de energia (-10%). “Para alcançar o equilíbrio social, ambiental e econômico, nós interagimos com os governos, a sociedade civil e as organizações não-governamentais, diferentes atores que também são agentes de mudanças”, disse o diretor de Desenvolvimento Sustentável da Braskem, Jorge Soto, durante palestra de encerramento do Congresso Nacional de Gestão de Projetos. Soto anunciou que, a partir de 2013, a Braskem passa a ter mais uma fonte alternativa de matéria-prima. Além do etanol da canade-açúcar, que dá origem ao plástico verde, a empresa vai utilizar a nafta produzida a partir do plástico reciclado pós-consumo. O produto será fornecido pela Novaenergia, empresa que pretende

Foto: Divulgação

Como avançar? Jorge Soto: investimento permite a Braskem práticas mais sustentáveis. Houve redução, por exemplo, de 62% na geração de resíduos

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montar a sua primeira usina de reciclagem avançada na capital baiana. A Braskem pretende utilizar a nafta ‘reciclada’ na industrialização de polipropileno e polietileno em seu polo industrial de Camaçari. O polo baiano, o maior do país, consome por ano cerca de 6 bilhões de litros de nafta. Para chegar à liderança mundial da química sustentável em 2020, os executivos da Braskem definiram três pilares: operações e recursos cada vez mais sustentáveis, portfólio de produtos cada vez mais sustentáveis e soluções para uma vida mais sustentável. “A escolha tecnológica é determinante para o futuro sustentável de uma empresa”, acrescentou Jorge Soto. O diretor da Braskem lembrou que em setembro de 2010 a empresa deu um passo importante em sua estratégia de crescimento sustentável ao inaugurar no Polo de Triunfo (Rio Grande do Sul) a sua unidade industrial de Polímeros Verdes, a primeira no mundo a utilizar o etanol de cana-de-açúcar para a produção em escala comercial de eteno e polietileno. Segundo Soto, a unidade tem capacidade para produzir 200 toneladas/ano — cada tonelada sequestra até 2,5 toneladas de CO2 que estavam na atmosfera, colaborando na redução do efeito estufa. “Por ter as mesmas propriedades e características do plástico comum, o plástico verde pode ser utilizado para as mesmas funções e atividades, com a vantagem de ser menos poluente”, diz. Para Jorge Soto, as empresas que quiserem adotar a sustentabilidade como conceito “precisam assumir compromissos voluntários, sem demagogia, e atuar com transparência”. “A empresa tem que ter lucro e, ao mesmo tempo, proporcionar a satisfação do cliente. E a Braskem funciona assim porque estamos incorporando cada vez mais os princípios do desenvolvimento sustentável”. Formada em agosto de 2002, a Braskem fechou o ano passado com um faturamento de R$ 34,7 bilhões. Maior produtora de resinas termoplásticas das Américas, a empresa tem 35 plantas industriais distribuídas pelo Brasil, Estados Unidos e Alemanha, além de uma capacidade anual de produção de mais de 16 milhões de toneladas de resinas termoplásticas e outros produtos petroquímicos.

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Ações que beneficiam a empresa e o meio ambiente A redução de emissão de efluentes e resíduos da Braskem, por exemplo, é consequência de campanhas internas que estimulam a criatividade dos funcionários, um investimento em inovação e a reutilização de materiais. Para reduzir os efluentes, a Braskem criou um grupo multidisciplinar para melhorar o sistema de drenagem, identificando pontos com grande vazão. No que diz respeito à eficiência energética, entre 2005 e 2009, a empresa investiu R$ 77 milhões na melhoria do processo produtivo, tais como eficiência de caldeiras, fornos e válvulas redutoras de pressão, dentre outros equipamentos. Outra medida adotada é a utilização de cisternas de plástico para reaproveitar a água da chuva e a ampliação da reciclagem de produtos plásticos ou recuperação energética neles contida. A empresa também combateu o desperdício de energia com um projeto que, entre outras coisas, faz com que o calor gerado em reatores seja transferido à água quente e o produto utilizado para aquecer outros reatores, eliminando assim o consumo de vapor. Para diminuir os acidentes de trabalho, a empresa ampliou o número de manutenções dos equipamentos e de palestras educativas para seus colaboradores. Com relação aos resíduos, a unidade de Petroquímicos BásicosBA desenvolveu um projeto de aproveitamento do resíduo (lama) do tratamento de água e incorporação na fabricação de blocos cerâmicos à base de argila. Com o projeto, 1.765 toneladas de resíduos deixaram de ser encaminhadas para aterro sanitário.

“A escolha tecnológica é determinante para o futuro sustentável de uma empresa” JORGE SOTO, diretor de Desenvolvimento Sustentável da Braskem

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Inovação social Promover o desenvolvimento tecnológico e a inovação de forma rápida e eficiente é condição imprescindível para alcançar a competitividade e o crescimento. No Brasil e, em especial, no Nordeste, tão importante quanto isso é estimular o desenvolvimento social, lançando mão de todo o conhecimento tecnológico disponível e da criatividade para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Foi esse o caminho escolhido pela professora de Química Djane Santiago de Jesus, do Instituto Federal da Bahia (Ifba), vencedora do Prêmio Inovação Social da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) em 2010, na categoria Tecnologia Social Regional. Nacionalmente, ela obteve a segunda colocação. O começo do trabalho foi simples. Em 2003, intrigada com a notícia de que o governo do estado estaria cogitando incluir a pipoca na merenda escolar, Djane começou a refletir sobre o baixo valor nutricional desse alimento e em alternativas de produtos locais. Logo veio à mente o licuri, pequeno coco encontrado em todo o sertão nordestino e vendido in natura ou descascado em feiras populares da região, como ajuda na subsistência de famílias carentes. Como não havia nenhum trabalho sobre os nutrientes do licuri, a pesquisadora partiu para as análises. Descobriu que a polpa do produto era rica em cálcio, magnésio e betacaroteno; e a amêndoa, além de cálcio e magnésio, continha cobre, zinco e selênio, em quantidades semelhantes à castanha-do-pará. Em resumo, um alimento de primeira, altamente nutritivo. Catar os coquinhos, ou o licuri, é parte da renda de muitas mulheres sertanejas, como em Caldeirão Grande, de pouco mais de 12 mil habitantes, no Centro-Norte da Bahia. Ali, essa é a principal atividade econômica de mais de 80% da população feminina. Djane se aproximou das comunidades e convenceuas a mudar o método de trabalho. Em vez de catar o licuri, que caía da palmeira, em meio a fezes de animais e todo tipo de sujeira, passaram a colher, como em toda atividade extrativista. Foi implantada assim a primeira tecnologia - o Programa Colhedores de Licuri. Logo surgiu outra dificuldade, a secagem e a quebra do coco.

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Catar o licuri é fonte de renda de parte das mulheres sertanejas. Em Caldeirão Grande, cidade 80% com 12 mil habitantes, licuri representa 80% do salário da população feminina

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Novos processos Djane pesquisou os nutrientes do licuri, pequeno coco, e descobriu que era altamente nutritivo e mudou o método de trabalho da comunidade Polpa:

Amêndoa:

Cálcio Magnésio Betacaroteno

Cálcio Magnésio Cobre Zinco Selênio

Casca

Ifba desenvolveu um modelo simples de secadora solar para acelerar a secagem e aprimorou uma máquina para criar até 600 quilos do licuri por hora Passou a colher em vez de catar no chão, muitas vezes sujo de fezes de animais

Criaram novos produtos, como barra de cereais

Foram formadas cooperativas. Mulheres que ganhavam R$ 27 hoje recebem R$ 127

R$ 127 R$ 27 Antes das cooperativas

Hoje

Licuri hoje é usado na merenda escolar da região e em pratos refinados na Praia do Forte

Para secar, o produto era depositado no terreiro das casas, ao sol, sem a menor condição de higiene. O processo demorava de um a dois meses. Gastando R$ 150, o Ifba desenvolveu um modelo simples de secadora solar, que permitia a secagem de um a dois dias. Quanto à quebra, feita a golpes de pedra, foi mecanizada. O sertanejo tinha uma máquina que fazia o trabalho, mas esmagava as amêndoas. Mais uma vez entrou em cena o Departamento de Mecânica do Ifba. Com base nesse protótipo, professores criaram uma máquina capaz de quebrar até 600 quilos de coco por hora, preservando a amêndoa.

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reais é quanto foi gasto para desenvolver secadora solar

Infográfico: Morgana Miranda

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As mulheres, que até 2005 ganhavam, em média, R$ 27 por mês, produzindo de 10 a 20 quilos de amêndoas por semana, hoje recebem em torno de R$ 127 mensais. Foram desenvolvidas aplicações culinárias para o licuri, desde a barra de cereal a doces, licores, conservas, licuri caramelizado e outros. Já há fornecimento regular para restaurantes de cozinha mais sofisticada, em Praia do Forte . “O licuri é uma espécie de avelã brasileira”, diz Djane.

Prefeitura adota novo produto na merenda escolar

Como avançar? Projeto conta com 16 associações. Inovação mudou a vida de uma região

O projeto formou a Cooperlic - Cooperativa de Produtores e Beneficiadores de Licuri - que conta com 16 associações. A atividade abrange um universo de 960 famílias, somente na região de Caldeirão Grande. A prefeitura local adotou a barra de cereais e outros produtos do coquinho na merenda escolar e a cooperativa vem trabalhando para difundir os novos produtos em outros municípios da região do estado. O desenvolvimento da nova máquina de quebra do licuri foi bancado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que destinou R$ 127 mil ao Projeto Licuri. Hoje, há 20 dessas máquinas na região. Duas últimas dificuldades ainda persistem, a comercialização e o desenvolvimento da embalagem, de custo mais alto. Até agora, os produtos estão sendo comercializados em saquinhos plásticos. De sua parte, Djane Santiago já começa a investir os R$ 500 mil do prêmio que ganhou da Finep para replicar o trabalho em outros municípios, uma exigência da instituição. Já está em Boa Vista do Tupim, Antonio Gonçalves e, em breve, iniciará as atividades em Serrolândia.

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Foto: divulgação

Pituaçu de energia limpa Salvador este ano ganhará mais um equipamento verde. O Estádio de Pituaçu, que gasta 358 mWh por ano, o equivalente ao consumo de 525 residências, ganhará placas de energia solar: o equipamento vai gerar quase o dobro do que é gasto para iluminar os jogos de futebol. O novo sistema terá capacidade de 640 mWh/ anual e permitirá economia aos cofres públicos. Nem o estádio nem a Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia precisarão pagar conta de luz.

Como avançar? Estádio terá placas de energia solar que vão gerar quase o dobro do que é gasto em Pituaçu

A iniciativa é uma parceria da Coelba com o governo do estado e fará de Pituaçu o primeiro estádio verde do país. O investimento é de R$ 5,5 milhões, sendo R$ 1,7 milhão do governo e o restante da Coelba, que estima inauguração para dezembro de 2011. A energia solar será arrecadada durante o dia e distribuída para a rede da Coelba, que a aproveitará em outras regiões da cidade. Durante a noite, por exemplo, a concessionária de energia retribui a energia que o estádio precisar. Isto porque não é possível armazenar essa energia elétrica. Dessa forma, o estádio deixa de ter contas de luz mensais e contribui com a geração de energia renovável, acrescenta Ana Christina Mascarenhas, assessora técnica de eficiência energética do grupo Coelba/ Neoenergia. O Estádio de Pituaçu é apenas um dos projetos da Coelba na área de sustentabilidade. O Programa de Eficiência Energética reúne

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ações com o objetivo de racionalizar o uso da energia elétrica. Entre eles, o Nova Geladeira Coelba, através do qual já foram trocadas mais de 93.300 geladeiras usadas por famílias de baixa renda. Ana Christina lembra que as geladeiras velhas, junto com lâmpadas de energia incandescente, podem representar até 70% das contas de energia. Se o consumidor tem uma conta de R$ 100, por exemplo, é como se ele gastasse R$ 70 só com esses dois equipamentos. “Quando fazemos a troca, a conta de luz reduz consideravelmente. Entregamos uma geladeira com selo Procel (menor consumo), que representa um gasto de 23 kWh, quase o de uma lâmpada”, acrescenta. Não há uma idade estipulada para a geladeira ser trocada, mas o cliente deve fazer parte da tarifa social e estar com as contas em dia. “Em um dia de divulgação dessa campanha em comunidades carentes, chegamos a distribuir 30 geladeiras”, conta a assessora. O programa ainda visa impacto positivo no meio ambiente. Como as geladeiras têm um gás chamado CFC, que destrói a camada de ozônio, a Coelba manda o equipamento para São Paulo, onde uma empresa faz a regeneração do gás e permite o seu reuso, não agredindo o meio ambiente. Por causa desse projeto, pioneiro no Brasil, a Coelba ganhou em 2007 o reconhecimento de Projeto Exemplar na comemoração dos 20 anos do Protocolo de Montreal. “A ONU nos treinou nessa questão de retirar o CFC para o reuso e ficou impressionada com o volume de geladeiras às quais demos a destinação ambientalmente correta”, ressalta Ana Christina. Para o presidente da Coelba, Moisés Sales, o pedido de várias comunidades, de líderes de bairros e de prefeituras do interior para que a concessionária leve seus programas de eficiência energética para mais pessoas é um bom retorno de como as iniciativas estão sendo bem aceitas pelos baianos. “Nossos programas são voltados para a eficiência energética, porque acreditamos que o uso racional da energia é a melhor forma de proteger o meio ambiente. E sempre construímos redes de energia, desenvolvemos projetos e os executamos para terem o menor impacto ambiental possível”, analisa Moisés Sales.

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Os projetos de eficiência energética da Coelba Projeto Geladeira Nova

93.300

A Coelba constatou que refrigeradores velhos são responsáveis por até 70% das contas de luz. Para receber novo equipamento, é preciso ter cadastro na tarifa social de energia e no cadastro único de programas sociais do governo federal e consumir menos de 70k Wh/mês.

geladeiras foram trocadas entre 2006 e o primeiro semestre de 2011

70,5

Vale Luz Proporciona a adequação do consumo dos clientes de baixa renda à sua capacidade de pagamento. Também compra materiais recicláveis como garrafas pet e jornais desses clientes, que recebem descontos na conta de luz. Foram concedidos mais de R$ 71 mil em descontos.

toneladas de materiais recicláveis já foram arrecadados, o equivalente a R$ 17,6 mil em descontos

Programa Energia Verde

10,68

Os clientes residenciais de energia elétrica com consumo maior de 100 kWh/mês podem fazer doações de R$ 3 a R$ 7. A verba é revertida para conservação da Mata Atlântica no Corredor Ecológico Monte Pascoal – Pau Brasil, em Porto Seguro.

hectares é a área reflorestada pelo programa, o que equivale a 10,5 campos de futebol

Caminhão Educação com Energia

R$ 1,5 milhão

É um projeto de educação itinerante que visa disseminar informações sobre eficiência energética em escolas públicas e privadas. Outro objetivo é qualificar professores para se transformarem em multiplicadores nas escolas.

já foram investidos na iniciativa, que tem como meta atender 20 mil estudantes

Etiqueta Procel/ Inmetro de Eficiência Energética Para prédios comerciais, de serviços e públicos. Segue as mesmas características adotadas para a etiquetagem de eletrodomésticos de baixo consumo e objetiva incentivar a elaboração de projetos que aproveitam ao máximo a capacidade de iluminação e ventilação natural das construções, levando a um consumo menor de energia elétrica.

AaE

é a variação das etiquetas do Selo Procel, sendo A as edificações com o melhor desempenho no consumo de energia elétrica

Infográfico: Morgana Miranda

“Nossos programas são voltados para a eficiência energética porque acreditamos que o uso racional da energia é a melhor forma de proteger o meio ambiente” MOISÉS SALES, presidente da Coelba

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Material reclicado em troca de descontos Outro projeto de eficiência energética da Coelba é o Vale Luz. Através desse programa, a concessionária leva um caminhão em 12 diferentes bairros de Salvador, de 15 em 15 dias, para comprar materiais recicláveis que são revertidos em descontos na conta de luz. Na Bahia, o Vale Luz já beneficiou, desde 2007, 395 clientes e recolheu 70,5 toneladas de resíduos, o que equivale a R$ 17,6 mil revertidos em descontos na conta de luz dessas famílias. “O sucesso foi tanto que já encomendamos um outro caminhão, com o objetivo de atendermos 24 bairros a partir de janeiro”, adianta Ana Christina Mascarenhas, assessora de eficiência energética da Coelba/ Neoenergia. Outro programa é o Energia Verde, voltado aos consumidores de classe média. Os interessados doam os eletrodomésticos usados para a Coelba e têm direto a um bônus, que varia entre R$ 240 e R$ 500, a depender do equipamento. Ana Christina acrescenta que, em contrapartida, o cliente da Coelba faz uma doação mensal entre R$ 3 e R$ 7, para ajudar no reflorestamento da Mata Atlântica. Só na Bahia, a Coelba já replantou 10,68 hectares, o que equivale a 10,5 campos de futebol.

Recicle sua conta de luz Saiba quais os materiais recicláveis que podem ser vendidos no caminhão da Coelba e quanto se ganha de desconto na conta de luz a cada quilo. Tabela de preços Produtos

Valor por kg

PET

R$ 0,70

Sopro branco

R$ 0,60

Sopro colorido

R$ 0,55

Papelão

R$ 0,15

Papel branco

R$ 0,20

Papel misto

R$ 0,10

Jornal

R$ 0,10

Revistas

R$ 0,10

Latinha de alumínio

R$ 1,60

Ferro

R$ 0,10

Plástico duro (cadeiras, engradado, botijão de água mineral)

R$ 0,60

Balde e bacia

R$ 0,25

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Inovação para fazer a diferença As descobertas de óleo de excelente qualidade na camada do pré-sal colocaram a pesquisa tecnológica em um patamar ainda mais alto na agenda da Petrobras. Desde 2002, a companhia vem aplicando o equivalente a 1% de seu faturamento em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D), e boa parte desses recursos nos últimos anos tem se destinado à nova fronteira exploratória. O percentual poderia parecer até modesto em uma empresa de outra área, mas não no segmento de energia, no qual o faturamento costuma ser bastante elevado. Tanto assim que, de 2008 a 2010, as aplicações em P&D totalizaram US$ 2,6 bilhões. No Plano de Negócios para o período 2011-2015 , a soma de recursos chega a US$ 4,6 bilhões. “Estamos num patamar superior ao de outras empresas de energia e entre as cinco que mais investem no mundo. A maioria investe de 0,4% a 0,5% de seu faturamento”, assinala o gerente geral de Gestão Tecnológica da Petrobras, Oscar Chamberlain. Com uma vasta experiência na exploração de óleo em águas profundas e ultraprofundas, a companhia está preparada para o pré-sal, uma vez que a tecnologia já está dominada. O desafio

Foto: Divulgação

Como avançar? Petrobras investe 1% do faturamento em Pesquisa & Desenvolvimento, quase o dobro das empresas de energia

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agora é produzir de forma mais rápida e com menos custos, recuperando o óleo de rochas arenosas a profundidades que podem chegar a quatro mil, cinco mil metros, ou mais, a partir da lâmina d’água. A estratégia tecnológica adotada segue três direcionamentos - expansão dos limites, diversificação dos produtos e sustentabilidade. Os resultados são claros, diz Chamberlain. Para cada descoberta do pré-sal, desenvolvem-se novas tecnologias de recuperação de petróleo. Não é de hoje que a Petrobras é reconhecida como uma das empresas mais inovadoras em óleo e gás, independentemente dos estudos com vistas à exploração da camada do pré-sal. Um levantamento feito pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) coloca a estatal no topo da lista das 50 empresas que mais fizeram pedidos de patentes no Brasil entre 2004 e 2008: 388 registros. Chamberlain salienta que isso se deve ao relacionamento intenso com universidades e instituições de pesquisa distribuídas por todo o país. São cerca de cem instituições, que integram redes temáticas debruçadas sobre desafios tecnológicos específicos, nas quais foram investidos este ano US$ 460 milhões. “Isso permite que a Petrobras tire proveito da inteligência de nossa academia para obter respostas a problemas e desafios que se apresentam na nossa indústria. Tem também permitido trazer para o Brasil laboratórios altamente preparados” , diz. Para o executivo, todo esse esforço vai desaguar em um excelente resultado: o Brasil caminha para se posicionar como um polo mundial de energia.

“O Brasil caminha para se posicionar como um polo mundial de energia” OSCAR CHAMBERLAIN, gerente geral de Gestão Tecnológica da Petrobras

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Sustentabilidade ambiental: estratégia da Petrobras Maximizar a eficiência energética e reduzir a intensidade de emissões de gases é um dos objetivos estratégicos da Petrobras. Para isso, a empresa vai investir US$ 976 milhões, no período compreendido entre 2010 e 2015. Só em projetos diretamente relacionados à eficiência energética foram investidos R$ 404 milhões, de 2006 a 2010, com economia de até 2.740 barris de óleo por dia. A meta para 2015 é reduzir a intensidade energética nas operações de refino e na operação das usinas termelétricas em 10% e 5%, respectivamente; reduzir em 65% a intensidade da queima de gás natural em tocha nas operações de exploração e produção; reduzir a intensidade de emissões de gases de efeito estufa nas operações de exploração e produção, de refino e na operação das usinas termelétricas em 15%, 8% e 5%, respectivamente. Os dados estão no Relatório 2010 da empresa, que também apresenta as ações da Petrobras para tornar mais eficiente o uso da água em suas instalações. Em 2010, o volume total de reuso da água na companhia chegou a 17,6 bilhões de litros. Nas plataformas de produção, mais de 1,3 bilhão de litros de água do mar foram dessalinizados para uso nas unidades marítimas de produção, no ano passado. Na área de refino, estão previstos novos projetos de reuso de efluentes, que permitirão uma economia anual adicional de 13,5 bilhões de litros de água, segundo o Relatório. Ao todo, o investimento da companhia na área ambiental em 2010 ultrapassou R$ 2,4 bilhões – em torno de R$ 457 milhões a mais que em 2009.

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Eficiência

13,5 bi

de litros de água é a economia prevista nos novos projetos de reuso de efluentes na área de refino

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Acarajé exportação Quem nunca pensou em viajar e levar um acarajé para aquele amigo que deixou a Bahia e sente falta do quitute? Foi de olho nessa demanda do mercado que o empresário Ubiratan Sales inovou e criou o acarajé para exportação, que é vendido congelado. “Foram oito meses de pesquisas e testes para encontrar a fórmula certa para o produto”, diz. Como Sales, outros baianos também estão conquistando o mundo com seus projetos inovadores.

Foto: Robson Mendes Pesquisa permitiu exportação ao aumentar tempo de validade do acarajé

O empresário do acarajé conta que a fórmula, ou a receita, foi desenvolvida a partir de experimentos com diferentes tipos dos já tradicionais ingredientes e análises em laboratórios para aumentar a validade do produto. “Já temos uma produção média de três mil unidades, mas chegaremos em nove mil ainda este ano”, acrescenta. A ideia de Sales segue um conceito simples: inovar. A inovação torna uma empresa mais competitiva e se dá a partir de mudanças no produto, no processo de fabricação, ou no modo

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organizacional, ensina a supervisora de Inovação e Acesso a Tecnologia do Sebrae Bahia, Márcia Motta Suede. “Mesmo que não seja uma mudança radical, é importante inovar”, ressalta. Para a especialista, é preciso que pequenas e médias empresas também saibam que podem inovar e que não precisam fazer muito investimento para isso. Ela exemplifica que boas práticas de fabricação são elementos de uma empresa inovadora e, às vezes, não é necessário investir em tecnologia para isso. No começo de 2011, os estudantes Rafael Guimarães e Vinícius Cal trouxeram para casa um prêmio de US$ 100 mil para desenvolver sua ideia inovadora: uma grua automatizada. A máquina é usada na construção civil e tem como objetivo transportar materiais pesados para os andares em construção. A inovação é que os estudantes de Engenharia Mecatrônica pensaram em um sistema de contrapeso móvel, em vez do fixo, usado nas máquinas atuais. Dessa forma, os pesos ficam mais equilibrados, evitando acidentes. “Quando os operadores estão deslocando a carga acontece o desequilíbrio. Com a grua automatizada, esse peso vai se deslocar de acordo com o local em que ele deve ficar e fornecer o equilíbrio da grua”, explica Cal. O projeto teve o apoio da Incubadora de Negócios Unifacs, local onde os alunos estudam, e surgiu há três anos com base na observação de acidentes em obras de engenharia civil. O projeto venceu a competição internacional James McGuire Global Business Plan Competition, da Laureate International Universities. “Já fizemos a patente do produto nos EUA e em mais 27 países. Planejamos vender dentro da comunidade europeia”, comemora Cal. Ele acrescenta que também foi importante todo o plano de negócios que eles desenvolveram para ganhar o prêmio, apresentando a viabilidade econômica do produto. Uma grua hoje tem capacidade média de carregar uma tonelada de carga e custa R$ 180 mil. O projeto desenvolvido pelos estudantes vai permitir carregar cinco toneladas e custar R$ 200 mil. “Hoje, não se avalia apenas o produto na hora em que se pensa em inovar. Se avalia, principalmente, o mercado potencial”, analisa Cal. Luiz Jordans Ramalho transformou o resíduo de própolis, resultado da produção apícola (mel de abelha), em uma bebida

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energética inédita no mercado. Resultado de dois anos de pesquisa, projetos e investimentos em maquinários, Ramalho desenvolveu essa ideia depois que ganhou o Edital Senai Sesi de Inovação 2009. “Era um desperdício jogar no lixo um produto que é considerado um antibiótico natural”, lembra. O empresário já tem 20 anos no mercado de apicultura, localizado no município de Barra do Choça. Para ele, essa experiência será positiva na distribuição e comercialização do produto, inicialmente no estado. “Devemos lançar o Energiapis (nome da bebida) em setembro”, conta. A previsão é que uma embalagem de 300 ml seja vendida por R$ 5. “Às vezes, o pequeno empresário tem uma ideia e não consegue chegar a lugar nenhum. Nesse ponto, foi fundamental ter ganho o prêmio”, lembra Ramalho.

Robô ensina na escola

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países têm patente de equipamento criado em universidade baiana

A Física pode ser massacrante para os alunos, mas aprender com a prática deixa tudo mais fácil. Foi com esse objetivo que o sócio-diretor da LDR Robótica, Ramon Luz Santos, lançou o kit robótico educacional, onde alunos conseguem montar circuitos nos robôs. Com a redução de custos, Santos os levou para a sala de aula e para lojas de brinquedos. “Conseguimos montar um produto que se tornou mais acessível. Se, antes, esses robôs custavam acima de R$ 3 mil, hoje ficam entre R$ 80 e R$ 1.200”, comemora. Para ele, o grande diferencial foi ter montado robôs que atingem todas as classes: antes era restrito às classes A e B.

Roupa íntima especial O consumidor pode não saber sobre o material usado nas suas peças íntimas, como sutiã, calcinha e cuecas, mas a maioria delas é feita de material sintético. A empresária Érica Rosa da Silva, sócia da Pétalas Lingerie, em Vitória da Conquista, resolveu inovar no material e fazer peças a partir da fibra de bambu. “É um material ecologicamente correto. Ele não agride nem a natureza, nem o corpo, possibilitando que as pessoas transpirem melhor através dessas roupas”, conta. Apesar de já existente no país, ninguém usou o tecido para fazer esse tipo de roupa e Érica aposta nesse diferencial para conquistar clientes.

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Um salto de qualidade Em gestação há quase dez anos, o Parque Tecnológico de Salvador começa, enfim, a virar realidade. Está marcada para novembro a inauguração do TecnoCentro, o prédio principal do complexo, localizado na avenida Paralela, destinado a abrigar centros de pesquisas, incubadoras e empresas de base tecnológica com a parceria de universidades. A Petrobras terá seu próprio centro de pesquisas, assim como outras empresas e instituições que já firmaram compromisso ou se encontram em negociações para esse fim.

O TecnoCentro abrigará centros de pesquisa, incubadoras e empresas de base tecnológica Foto: Divulgação

Onde quer que se instalem, os parques tecnológicos costumam proporcionar um salto na produção de riquezas e no desenvolvimento da área. E é isso que se espera que aconteça em Salvador. A se concretizar o que foi planejado, o salto em questão poderá proporcionar uma transformação comparável àquelas ocorridas com a implantação do Polo Petroquímico de Camaçari, nos anos 70, ou da Refinaria Landulpho Alves, nos anos 50. Mas com um diferencial inédito na Bahia, o de agregar os valores do desenvolvimento sustentável e da pesquisa científica, estimulando a formação de profissionais e de empregos qualificados. Para atrair empreendimentos para o Parque, o governo do estado vem negociando uma parceria com o fundo Burrill & Company, líder global no investimento em empresas ligadas sobretudo à biotecnologia, produtos farmacêuticos e diagnósticos. Outras negociações já haviam sido iniciadas bem antes, com empresas de outras áreas. 126

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O Parque Tecnológico de Salvador terá como áreas prioritárias Biotecnologia e Saúde, Energia e Ambiente, Tecnologia da Informação e da Comunicação, além de Cultura e Turismo. Na área de Energia, a Petrobras já está investindo R$ 25 milhões na implantação do Centro de Tecnologia em Energia e Campos Maduros, projeto em parceria com a Universidade Federal da Bahia (Ufba). Os campos maduros são áreas de produção já exploradas há muito tempo, que necessitam de tecnologias especiais para manter a produtividade. O centro da Petrobras terá quatro núcleos: Recuperação Especial de Petróleo, Ensaios Orgânicos e Inorgânicos, Núcleo de Metrologia (com a participação do Instituto Baiano de Metrologia e Qualidade, o Ibametro) e dois laboratórios de amostra petrofísica. O prédio terá 5.800 metros quadrados, com cinco pavimentos. A Portugal Telecom Inovação Brasil já confirmou compromisso de se instalar no Parque, com um centro de pesquisa e desenvolvimento de softwares nas áreas de telecomunicações e tecnologia da informação. Desde que veio para a Bahia, em 2008, a Portugal Telecom Inovação já capacitou 60 engenheiros e pretende ampliar esse número para 150 profissionais. Também o Instituto Federal da Bahia (Ifba) confirmou a implantação dos Laboratórios de Certificação de Equipamentos Médicos, com recursos de R$ 1 milhão aprovados pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Serão dois laboratórios para realizar os ensaios previstos nas normas brasileiras e internacionais que tratam dos dispositivos de proteção contra raios-X para fins de diagnósticos médicos. Outra iniciativa é a implantação do Instituto Brasileiro de Toxinologia do Semiárido, voltado para os estudos de venenos e toxinas de origem animal, vegetal e microbiana, incluindo o desenvolvimento de fármacos. O projeto tem parceria com a Universidade Estadual de Feira de Santana e dará ênfase a doenças degenerativas, dentre outras. A expectativa é de que a produção de moléculas derivadas de toxinas animais produzidas no Instituto possibilite a transferência de novos compostos para a indústria farmacêutica. Será criada ainda uma incubadora, inicialmente focada na área de saúde, que, segundo a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação do estado (Secti), já conta com cerca de dez empresas interessadas. A ideia, frisa a Secti, não é atrair apenas grandes 127

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empresas para o Parque, mas também estimular a geração de novas empresas. “O Parque Tecnológico vai atrair empresas de base tecnológica e estimular a inovação. Com isso, a Bahia vai dar um salto de produtividade, gerando empregos qualificados, aumentando a competitividade das empresas locais e fomentando a pesquisa em nosso estado”, acredita o secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação, Paulo Câmera. Os primeiros passos para que a Bahia tivesse um Parque Tecnológico foram dados em 2002, com a realização de um estudo para apontar soluções que dinamizassem a economia de Salvador. Hoje, o empreendimento é considerado fundamental para a diversificação da economia do estado, a criação de empregos qualificados e o aumento da capacidade de inovação regional.

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Investimento

5.800

metros quadrados terá o Parque Tecnológico, que contará com 5 andares

“O Parque Tecnológico vai gerar empregos qualificados em nosso estado ” PAULO CÂMERA, secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação

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Ampliação do Cimatec: mais seis mil alunos por ano De olho na ampliação dos seus horizontes, a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) quer transformar o Centro Integrado de Manufatura e Tecnologia (Cimatec) em um centro de referência internacional, até o final do próximo ano, com a ampliação da estrutura física do prédio onde funciona a entidade, no bairro de Piatã. Embargadas desde o começo de 2009, as obras do Cimatec foram reiniciadas depois que o Ibama autorizou o projeto. Unidade do Senai, o Cimatec atende quase 12 mil alunos por ano em cursos que vão da aprendizagem industrial a pós-graduação e mestrado. A unidade coloca à disposição dos interessados 1.100 vagas por ano de cursos gratuitos de qualificação profissional e, com a ampliação da unidade, outros seis mil alunos por ano terão oportunidade de frequentar o Cimatec. O projeto de ampliação prevê a construção de auditório para mil pessoas, biblioteca especializada em informação tecnológica e um Núcleo de Educação a Distância. No início de agosto, o Cimatec deu mais um passo para a sua expansão, com projeto piloto para a instalação da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii). Para o diretor regional do Senai – BA, Leone Peter, a criação da Embrapii é importante para fortalecer o setor industrial do Brasil. “É uma iniciativa relevante e necessária para dar suporte ao esforço de inovação de todo o setor industrial brasileiro. Uma das saídas que o país tem é investir em inovação. Essa é a resposta do governo para esse desafio estratégico”, afirmou Leone Peter.

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Foto: Márcio Costa e Silva

Crédito para quem produz Entrevista com José Sérgio Gabrielli O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, anunciou o lançamento em Salvador o programa Progredir, uma espécie de feirão do crédito, em que seis grandes bancos, em parceria com a Petrobras, vão financiar a cadeia de fornecedores da empresa. Gabrielli esteve em Salvador para apresentar o plano de negócios da Petrobras até 2015 e visitou a redação do Correio, onde conversou com o diretor de Redação, Sergio Costa, e a editora-executiva de Conteúdo do Agenda Bahia, Rachel Vita. Do plano de investimentos da Petrobras, que prevê US$ 225 bilhões nos próximos cinco anos, US$ 9,8 bilhões são para a Bahia. Os empresários baianos acharam pouco, esperavam mais... Dez bilhões de dólares! Quem é que está fazendo investimentos semelhantes aqui para a Bahia? Dos US$ 45 bilhões a serem investidos no Nordeste, US$ 10 bilhões para a Bahia são a maior fatia da região? O investimento da Petrobras é onde você vai usar o dinheiro, não é onde você vai comprar o produto. Você pode ter compras maiores do que isso. Tem muita indústria na Bahia que produz para São Paulo, para a Bacia de Santos, de Campos, pode produzir daqui para a refinaria do Maranhão, para a refinaria do Rio de Janeiro. Nós não gostamos de fazer essa divisão geográfica porque ela não mostra de onde vem o produto e para onde vai o produto. Quando se fala de US$ 45 bilhões para o Nordeste é o dinheiro que será investido na região – US$ 9,8 bilhões na Bahia. 130

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“Por que esta comparação com Pernambuco? Essa briga entre Pernambuco e Bahia é um absurdo. Pernambuco está em outra fase”

A maior parte do dinheiro do Nordeste está na Bahia? Não. A maior parte do Nordeste está na refinaria de Pernambuco, que será concluída agora. A refinaria da Bahia é a segunda maior da Petrobras. Nosso maior déficit hoje está no Norte-Nordeste e Centro-Oeste. São 450 mil barris diários entre a capacidade de refino e demanda nessas regiões. As novas refinarias em Pernambuco, Rio Grande Norte, Ceará e Maranhão são onde não temos nada ainda. Destes US$ 45 bilhões, quanto vai para Pernambuco? Não sei. De cabeça, não sei. Por que esta comparação com Pernambuco? Essa briga entre Pernambuco e Bahia é um absurdo. Pernambuco está em outra fase, implantando uma refinaria, como nós fizemos aqui há 60 anos. O que a Bahia poderia fazer para participar mais da cadeia de produção? Nós temos muitos poços em terra na Bahia. São mais de dois mil produzindo quase 48 mil barris. Essa é uma área que pode desenvolver e pode crescer. Acabamos de inaugurar um laboratório de elevação artificial que simula uma parte do processo de produção. Para a atividade de perfuração você tem toda a parte mecânica, toda a parte física, tem toda a infraestrutura. Na área de exploração, na Bahia, tem uma possibilidade grande em toda a costa de desenvolver estaleiros navais, seja para a construção de navios mais complexos, como sondas, seja para a construção de navios mais simples, barcos de apoio, ou até mesmo fazer estaleiros para manutenção, conserto e reformas. O que falta, então? Dinamismo dos empresários e disposição para assumir riscos. Os empresários estão muito acostumados a ser empreiteiros, a ter encomendas de obras públicas, o que diminui seus riscos. Para a indústria de petróleo é preciso assumir riscos. Nós garantimos que vamos comprar. Mas não podemos garantir que o cara vai ganhar. Quando se fala na exploração do petróleo na camada pré-sal, todos imaginam sempre uma coisa muito grandiosa, mas sabemos que há espaço para pequena e média empresas. Quais são as oportunidades para eles? Uma sonda de perfuração é um equipamento caríssimo, sofisticadíssimo, que custa entre 600 e 700 milhões de dólares. Uma sonda tem algumas centenas de sistemas. Na ancoragem, por exemplo, tem motores. Os motores têm parafusos, os parafusos precisam ser pintados ou precisam ter arruelas, juntas. E você 131

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pode saber quantas juntas vamos precisar. Essa microempresa que faz juntas não precisa ter contato conosco. Nós fizemos agora um programa fantástico chamado Progredir. Ele junta o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, o HSBC, o Santander, o Itaú e o Bradesco. Eles concordaram em fazer um programa com a Petrobras em que o contratante, para fazer um equipamento para o qual a empresa vai pagar 100 milhões, pode pegar 50 milhões nos bancos que a Petrobras garante o pagamento. E os outros 50 milhões? Ele pode passar para o fornecedor de motor, para o fornecedor de válvulas e assim por diante até o quarto nível, sem precisar ter contrato com a Petrobras. Com isso, a gente espera atingir até 250 mil empresas. Que tipo de empresa o senhor identifica aqui na Bahia que possa participar desse sistema? Nós temos fornecedores de umbilicais, por exemplo. São equipamentos que ligam e transmitem impulsos elétricos para controlar a válvula no fundo do mar. Nós temos produtores de lâminas para perfuração, de válvulas e de juntas. Várias coisas podem ser feitas. E eles são fornecedores não apenas para o investimento que será feito aqui na Bahia, mas no Brasil.

“Na área de exploração, na Bahia, tem uma possibilidade grande em toda a costa de desenvolver estaleiros navais”

O país investe 1,15% do PIB em inovação enquanto a China investe o dobro. Como o senhor vê essa questão? O que falta para o país ter mais vantagem na competição lá fora? Não posso falar no genérico desta maneira. Posso falar especificamente na cadeia de suprimentos que por si só já é um mundo. Nós estamos investindo US$ 1,3 bilhão por ano em pesquisa e desenvolvimento. Não é pouca coisa. Aqui na Bahia, nós saímos de um investimento com as universidades de US$ 17 milhões para 100 milhões, nos últimos cinco anos, na constituição de redes com as universidades baianas. Estamos num esforço enorme no sentido de chamar as empresas para entrar nesse processo. Não há desenvolvimento tecnológico sem universidade, sem empresa e sem quem garanta investimento durante o prazo da investigação. É preciso combinar as três coisas. E isso nós estamos trabalhando ao mesmo tempo. Que tipo de pesquisa a Petrobras pretende fazer na Bahia no Parque Tecnológico? Hoje nós temos 1.978 pesquisas diferentes aqui com as redes com as universidades. O Parque Tecnológico terá foco nos campos de petróleo de terra e nos campos maduros. E no campo de pessoal? Como a Petrobras, que tem esse plano de investimento gigantesco, vê essa questão e o que faz para 132

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atrair e reter talentos? A Petrobras hoje tem 52% dos seus trabalhadores com menos de dez anos na empresa, 46% têm mais de 20 anos. Temos aí duas gerações. O grande desafio hoje é fazer com que essa geração mais experiente passe seu conhecimento aos mais novos, que tem mais formação básica, mas a experiência mão na massa é do pessoal mais antigo. A transição aí é fundamental. Os novos chegam com seu conhecimento e tal, mas os mais antigos é que sentem o cheiro do petróleo, sabem ouvir as máquinas, têm a sensibilidade, a experiência vivida. Não antevemos nenhum grande problema de recrutamento. Nos últimos concursos da Petrobras, oferecemos duas mil vagas e tivemos 349 mil inscritos. Neste atual, oferecemos 580 vagas, temos 174 mil inscritos. Vemos problemas de recrutamento para a cadeia produtiva. Montamos 12 mil turmas para treinar 280 mil pessoas até 2014. Nós já treinamos 79 mil para a cadeia produtiva e temos 700 mil inscritos. No Prominp, é isso? Exatamente. O Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural envolve 70 instituições de ensino e treinamento. Desde o pedreiro ao mecânico, ao eletricista, ao soldador, ao operador de guindaste, ao engenheiro especialista em 3-D, ao especialista em corrosão, ao detalhista de projeto, ao físico de estruturas em balanço. São 720 ocupações. É o maior programa de treinamento do mundo. A presidente Dilma Rousseff acompanha mais de perto a Petrobras do que o presidente Lula? Tem alguma diferença entre eles nesse sentido? A presidente Dilma foi oito anos presidente do Conselho de Administração da Petrobras. Ela sentava todo mês conosco. Ela conhece a Petrobras por dentro. Isso não lhe dá mais conhecimento para cobrar... ...O Conselho continua funcionando. O ministro Guido (Mantega) é o presidente do Conselho, a ministra Miriam Belchior faz parte do Conselho, o ministro (Édson) Lobão tem representante, os militares têm o seu, estão lá o Luciano Coutinho, o (Jorge) Gerdau, o Fábio Barbosa, eu, o Sergio Quintela... E o pau quebra lá, não? Todo mês o pau quebra. O Conselho é muito ativo, claro, e para a governança da empresa isso é muito positivo (risos).

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Pilares sustentáveis Com 35 unidades espalhadas por três continentes (28 no Brasil, 5 nos Estados Unidos e 2 na Alemanha), a Braskem trabalha com três pilares relacionados à inovação para alcançar a liderança mundial da química sustentável em 2020: operações e recursos cada vez mais sustentáveis, portfólio de produtos cada vez mais sustentável e soluções para uma vida mais sustentável. “Os investimentos em inovação são a principal alternativa para enfrentarmos e superarmos os nossos concorrentes”, disse o presidente da Braskem, Carlos Fadigas, em sua palestra no segundo seminário Agenda Bahia. De acordo com Carlos Fadigas, os resultados operacionais registrados pela empresa demonstram que a Braskem está certa em priorizar a inovação. “Os produtos lançados nos últimos três anos foram responsáveis por 12% da nossa receita em 2009”, afirmou. Para aumentar esse percentual, a empresa investe em tecnologia. “Temos 220 pesquisadores e 400 patentes registradas”. Fadigas disse que os resultados das pesquisas desenvolvidas com o termoplástico, o principal produto fabricado pela Braskem, já fazem parte do dia a dia das pessoas. O executivo também apresentou dados que demonstram que a inovação tecnológica e a sustentabilidade caminham juntas na Braskem. “Em relação a 2009, conseguimos no ano passado reduzir acidentes de trabalho em 79%, a geração de resíduos em 62%, a geração de efluentes em 36% e o consumo de energia em 10%. Esses resultados são excelentes, ainda mais se levarmos em consideração que há fundos que só compram ações de empresas comprometidas com a sustentabilidade”, lembrou. Os funcionários da empresa, segundo Fadigas, trabalham para oferecer produtos que satisfaçam as necessidades da sociedade, considerando os aspectos sociais, econômicos e ambientais. “Mas é preciso deixar claro que às empresas cabe gerar o lucro para não comprometer o futuro”. Segundo o executivo, a Braskem deu mais uma demonstração em sua estratégia de crescimento sustentável ao inaugurar no Polo de Triunfo (Rio Grande do Sul) a sua unidade de Polímeros Verdes, a primeira no mundo a utilizar o etanol de cana-de134

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Foto: Marina Silva

açúcar para a produção em escala comercial de eteno e polietileno. Essa unidade tem capacidade para produzir 200 toneladas/ ano — cada tonelada sequestra até 2,5 toneladas de CO2 que estavam na atmosfera, colaborando na redução do efeito estufa. De acordo com Fadigas, o crescimento populacional, a escassez de energia e as mudanças climáticas serão os principais problemas a serem enfrentados pelos países nos próximos anos. “As nações que dominarem a tecnologia e investirem em projetos de inovação serão muito mais competitivas”, disse. Segundo ele, com a globalização, todos os países sabem o que é preciso fazer para avançar. “Não existem mais mistérios, os problemas e as soluções estão à vista de todos. O Brasil precisa apenas fazer o dever de casa para se tornar um país cada vez mais competitivo no cenário internacional”.

Desafio

Pensando no futuro, Carlos Fadigas disse ainda que pretende se aproximar das instituições de ensino superior para atrair pesquisadores integrados com as demandas da indústria química. “A Braskem não tem expertise em universidade, mas sabe muito bem o que o mercado precisa neste momento”, afirmou o executivo.

Carlos Fadigas comparou o Brasil com a Alemanha para demonstrar que os investimentos em inovação geram riquezas: “Com 85 milhões de habitantes, a Alemanha possui um PIB de US$ 3,5 trilhões porque exporta tecnologia. As commodities que o Brasil vende para o exterior são importantes, mas o país precisa investir mais em inovação se quiser chegar a uma grande potência mundial”

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Novo uso do plástico

Novas embalagens para produtos tradicionais : Modernização, redução do peso e desperdício Sacaria de café: Substituição da juta com ganhos na conservação do produto Máquinas de lavar: Menor custo e peso, substituição do aço do gabinete e tampa das máquinas de lavar roupa Caixas hortifrutícolas : Redução do desperdício e da contaminação de vegetais Silos flexíveis : Custo mais baixo e instalação mais rápida para armazenamento de grãos

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Produzir aqui é um desafio Entrevista com Carlos Fadigas Carlos Fadigas, presidente da Braskem, a maior petroquímica das Américas, fez a apresentação no dia 24 de agosto, no Agenda Bahia 2011. Antes, o executivo de 41 anos conversou com o diretor de Redação, Sergio Costa, e a editora-executiva do Agenda Bahia, Rachel Vita, sobre inovação - um dos temas do evento -, o momento econômico do Brasil e do mundo e os investimentos na Bahia, o mais recente deles a atração da Basf para a criação do polo acrílico em Camaçari. Fadigas acredita que o Brasil fez seu dever de casa nos últimos 16 anos para equilibrar a economia, mas corre o risco de entregar um mercado pronto para os concorrentes, se não tomar cuidado com sua indústria. A seguir, os principais trechos da entrevista. Qual o papel da Bahia para a Braskem em sua estratégia de conquistar a liderança na petroquímica? O polo petroquímico da Bahia é o maior do Brasil e importantíssimo para a Braskem. Um passo importante foi dado semana passada com a definição da Basf para conduzir a implantação do polo acrílico, que vai atrair novas empresas para consumir o produto da Basf (ácido acrílico). O polo é inédito no Brasil: o país tem hoje uma importação grande de ácido acrílico (usado

Foto: Divulgação

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na produção de superabsorventes), mas passará a produzir na Bahia. Em que medida o polo acrílico pode influenciar na balança comercial do estado? A Bahia passa a ser exportadora. Um produtor nacional para abastecer diversos estados, principalmente os do Sudeste. Mas o ideal é que consiga atrair outros produtores para avançar e servir cada vez menos o produto básico e cada vez mais o produto acabado. No Agenda Bahia 2010, Manoel Carnaúba, vice presidente da Braskem, disse que o estado poderia perder novos investimentos por falta de infraestrutura, entre eles, o polo acrílico. Com o anúncio da vinda da Basf, o que mudou? Estou alinhado com os comentários de Manoel. Materialmente, não mudou nada. O Porto de Aratu precisa melhorar bastante. A Braskem é uma grande usuária. Felizmente, isso não foi impeditivo para a vinda da Basf. A gente espera criar, a partir desse fato, um dinamismo que possibilite ao próprio governo obter arrecadação que possibilite esses investimentos. Começamos a inverter esse ciclo. Com o investimento, vem a fase de construção, a movimentação de fornecedores de mão de obra, uma dinâmica que dá condições ao governo para fazer os investimentos no porto, ou buscar o caminho com o governo federal para permitir que os usuários invistam os recursos necessários. O governador Jaques Wagner, em entrevista ao Correio, acenou positivamente na direção de uma abertura dos portos a uma parceria com a iniciativa privada, embora houvesse problemas no modelo. Houve algum avanço nesse sentido? Houve avanço no diálogo, no debate e na discussão, mas ainda não houve um avanço na identificação de um modelo. O tema portos tem esse cruzamento. É preciso alinhar interesses entre a visão do governo federal, a do estado e a das empresas que se dispõem a participar desse processo e dar mais eficiência ao porto. Nesse aspecto, tem ainda uma coexistência a ser encontrada entre as empresas que querem trabalhar como operadores logísticos e as que usam a infraestrutura e estão dispostas a participar, como é o caso da Braskem, mesmo que esta não seja sua atividade-fim. Parceria, então, deve ser o caminho? Acreditamos que sim, mas é complicado encontrar esse modelo que atenda a todos. Apesar de estarmos num governo do PT federal e num governo estadual também do PT, tem a lógica da 137

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administração federal, preocupada com a competitividade da infraestrutura brasileira em criar um modelo que sirva para outros portos também. A Bahia, embora pense alinhada, tem como foco principal a melhoria do Porto de Aratu e a criação do Porto Sul. E as empresas operam numa lógica mais econômica. A nova planta de eteno verde virá para a Bahia? Não está definido. Temos pelo menos uns três projetos que a gente visualiza para a frente. Um deles, de polipropileno verde. Temos desejo de fazer um polo integrado com usina de etanol de PE. E também um outro para a produção de PET. Temos desejo que aconteçam próximo ao nosso Polo Petroquímico. Vai depender do avanço dos estudos. Mas temos uma simpatia muito grande por trazer um desses projetos para a Bahia. O Brasil fez o seu dever de casa, passou a ter um mercado doméstico finalmente grande, com a inclusão ao consumo de novas parcelas da população. O governo federal precisa estar atento, porque senão nós vamos entregar o nosso mercado interno para países desenvolvidos que esgotaram o seu mercado interno. Eles estão vindo agora com um modelo parecido com o modelo brasileiro e a indústria nacional pode ficar com o pior de dois mundos: conviveu 16 anos com o ajuste fiscal e, no momento em que seu mercado floresce, quem se beneficia dele, por uma questão de câmbio, é o produtor externo.

“O ideal é que consiga atrair produtores para avançar e servir cada vez menos o produto básico e cada vez mais o produto acabado” CARLOS FADIGAS, sobre o polo acrílico em Camaçari

Esta crise mundial representa para a Braskem oportunidade para a expansão dos negócios, já que ela pretende ser líder? A primeira prioridade da Braskem é o investimento no Brasil. Temos um compromisso enorme com a cadeia de plástico no país com 10 mil transformadores de resina em produtos. Ainda que possa haver oportunidades neste cenário, nosso foco é assegurar que o Brasil continue sendo um bom lugar para investir e criar novas indústrias. O Brasil está fazendo duas novas fábricas neste momento, em Alagoas e no Rio Grande do Sul, e tem planos de construir outras unidades. Daí também porque ficamos satisfeitos de atrair a Basf para investir na Bahia neste momento. Dito isso, vamos estar atentos às oportunidades. Isso quer dizer que vocês estão com mais cautela nos investimentos neste cenário? Houve alguma revisão de custos e investimentos da empresa em função da crise mundial? Não. O que muda é que a cada ano a gente revê o plano de longo prazo. Isso é uma questão de disciplina, independentemente do cenário estar melhor ou pior. O Conselho vê nossa visão dos próximos cinco anos e os investimentos são aprovados depois de discutir essa visão ano a ano. É possível que, diante desta

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Pesquisa

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é o número de patentes registradas pela Braskem

“Inovação não é só importante para a Braskem, mas para a indústria brasileira como um todo”

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crise, a Braskem fique mais rigorosa na hora de aprovar novos investimentos. Queremos saber se esse investimento tem uma robustez maior e que, ainda que o cenário piore, possa ter retorno do quer for investido. Na parte externa, se surgirem oportunidades, temos como vantagem o porte que a Braskem tem hoje. Trabalhamos muito para ter uma empresa brasileira com porte suficiente para isso. Temos a vantagem de ter equipes dedicadas e atentas às oportunidades. Presidente da maior petroquímica das Américas aos 41 anos, seu exemplo é, por si mesmo, emblemático de inovação. Como a Braskem vê e cuida dos talentos dentro da companhia? Formação de pessoas é uma prioridade absoluta na Braskem e no grupo Odebrecht. Faz parte da responsabilidade de cada um e especialmente dos líderes. Acredito que conseguimos formar um grupo forte de pessoas, alinhados com os princípios e valores da empresa e, mais do que isso, com conhecimento da empresa e relacionamento interno. O jovem formado aqui, quando assume uma posição de gerência, de direção, de vice-presidência, tem uma série de vantagens como o trânsito enorme aqui dentro, por ter convivido profissionalmente com todo mundo e circulado por vários setores, o que dá um conhecimento enorme da empresa e um alinhamento de cultura. Qual o peso da inovação para a Braskem? Inovação não é só importante para a Braskem, mas para a indústria brasileira como um todo. Na área petroquímica, estamos investindo. Temos ativos em plantas piloto, em laboratórios, investimentos dedicados à inovação e tecnologia que atingem mais de 330 milhões de dólares. A Braskem tem mais de 400 patentes registradas, sete plantas piloto, onde você testa antes de entrar em produção industrial, tem dois centros de tecnologia. O que é feito é um alinhamento constante entre as áreas de negócio. Cada uma delas aponta onde precisa melhorar em tecnologia. Com essa definição, a área de inovação e tecnologia corporativa usa infraestrutura que citei e trabalha nessas fronteiras. É necessário um equilíbrio entre o cientista, de pensamento mais aberto, com o homem de linha, responsável pela unidade de negócio que, em contato com o mercado, sabe o que vai agregar valor para a empresa ou não. É preciso ligar imediatamente esse conhecimento em geração de riqueza e em benefício de todo mundo.

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Brasil investe pouco O Brasil ainda investe muito pouco em inovação. Somando o investimento público e privado, o país destina 1,15% do seu PIB, o que, comparado aos padrões internacionais, é considerado pouco, segundo o presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento de Empresas Inovadoras (Anpei), Carlos Eduardo Calmanovici, um dos palestrantes do 2º seminário do Agenda Bahia - Sustentabilidade. Calmanovici exemplifica que a China já investe cerca de 2% do PIB em inovação, e os países desenvolvidos, em torno de 2,5% do PIB. Além desse cenário já positivo, a meta da China é alcançar os 2,5% de investimentos do PIB em inovação até 2015. “Ou seja, nós (o Brasil) temos ainda um caminho longo pela frente, pois o nosso PIB é pequeno, se comparado às outras economias, e a nossa porcentagem de investimento é ainda mais baixa”, critica. O presidente da Anpei falou sobre a importância de se trabalhar de forma integrada: as empresas, o governo e as universidades. “Precisamos do sistema todo trabalhando para termos um melhor resultado”, alertou. Outro ponto de destaque para Calmanovici foi sobre a relação da competitividade e da sustentabilidade. “Como conciliar essas duas forças? Elas parecem conflitantes, mas não são”, confirma. Para o especialista, é exatamente através da inovação que é possível competir sendo sustentável. “Tem que criar uma lógica nova para conseguir esta interseção”, analisa. Ele acredita que as estratégias sustentáveis são a nova forma de se fazer negócios e as divide em três eixos. O primeiro deles é que a sustentabilidade estimula a inovação, com isso, as empresas pensam em novas soluções para atender ao bem-estar das pessoas e que respeitem o meio ambiente. “Antecipamos tendências, com tecnologias limpas, emissão de resíduos zero, dentre outros”. Outro eixo de atuação é que a sustentabilidade agrega valor ao negócio, por permitir desenvolver produtos diferenciados e porque a sociedade passa a enxergar as empresas de forma diferenciada, por serem ambientalmente responsáveis. O terceiro e último eixo exposto por Calmanovici se apoia no fato 140

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Desafio - Motivar as empresas para darem o salto tecnológico necessário - Fortalecer a agenda nacional para pauta e políticas públicas que estimulem a inovação empresarial necessária - Envolver o governo, a universidade e as empresas em um sistema comum

Foto: Marina Silva

de que a sustentabilidade aproveita as matérias-primas renováveis e alternativas e que isso agrega até dez vezes mais o valor do produto. “No nosso último congresso da Anpei de 2011 tivemos mais de 80% dos trabalhos apresentados sobre inovação com foco em sustentabilidade. É algo que já está acontecendo no país e é visível”, comentou. Para Calmanovici, isso indica que as empresas que são inovadoras estão no caminho da sustentabilidade. “Hoje, 2% do faturamento dessas empresas é gasto com sustentabilidade, o que já é bastante significativo”, comemora.

“Precisamos do sistema todo trabalhando para ter um melhor resultado”

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Foto: Marina Silva

Como avançar? Segundo Carlos Tadeu, 1/3 da população mundial não conhece nenhuma fonte moderna de energia. Para ele, o Brasil deve investir em novas políticas públicas de incentivo a práticas inovadoras e também na formação de engenheiros. “As micro e pequena empresas têm grande capacidade de inovar. Não podemos esquecer o exemplo da Microsoft, que começou assim”, lembrou

Salto no tempo A necessidade de avançar sempre transformou a Petrobras em exemplo para o mundo quando o assunto é inovação na área de petróleo e gás. O desenvolvimento da empresa nesse setor teve início com a descoberta de grandes reservas na Bacia de Campos, nos anos 70, e agora caminha para um novo e ousado patamar, a exploração de óleo na camada do pré-sal, a quatro mil metros de profundidade ou até mais. Para explorar os poços da Bacia de Campos, a companhia teve de desenvolver tecnologia para exploração em águas profundas. Os antigos mergulhadores, que só podiam descer com segurança a até 300 metros de profundidade, foram substituídos por equipamentos de robótica, o que permitiu chegar a três mil metros de profundidade. Explorar o óleo das rochas do pré-sal exige um novo padrão tecnológico - e é o que a Petrobras está criando, através de seu Centro de Pesquisa (Cenpes), hoje o maior do Hemisfério Sul, e de parcerias com universidades e institui��ões de pesquisa em todo o Brasil e também no exterior. Em palestra no seminário sobre Sustentabilidade com Foco em Inovação do Agenda Bahia 2011, o presidente do Cenpes, Carlos Tadeu Costa Fraga, disse que ainda em 2011 a estatal começará a

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utilizar um equipamento para separar o óleo da água no fundo do mar, o que hoje é feito no convés das plataformas. Também está sendo estudada uma nova forma de perfuração, sem tubulações, através da utilização de laser para destruir as rochas. Outra linha de pesquisa se debruça sobre o uso de nanopartículas para mudar as características das rochas e facilitar a exploração, permitindo que esses nanomateriais possam transmitir informações. Há também interesse em veículos teleguiados para inspeção do fundo do mar. Até mesmo centros de produção no fundo do mar, operados remotamente e com segurança a partir de salas de controle em terra, estão sendo planejados. Sonho? Fraga diz que não. “Tudo isso pode estar acontecendo dentro de dez anos ou até menos”, acredita, lembrando o desenvolvimento vertiginoso que se observa na área de informática. “Nossa ambição é mudar radicalmente a forma de produzir em águas profundas”, declara. Ele diz que a Petrobras tem como visão desenvolver uma nova geração de tecnologia no Brasil. Como aconteceu com a tecnologia criada para a Bacia de Campos, hoje um padrão mundial.

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Diferença

1,2 bi de dólares é o que a empresa investe em inovação

Mix se diversifica com as energias renováveis A Petrobras também caminha em outra direção. A diversificação no mix de produtos da companhia faz parte de sua estratégia de crescimento e, desse modo, as pesquisas em torno de outros tipos de energia estão na linha de frente da companhia. “Do mesmo jeito que a idade da pedra não acabou por falta de pedra, a idade do petróleo não vai acabar por causa do petróleo”, brincou Carlos Tadeu Costa Fraga, presidente do Centro de Pesquisas da Petrobras, o Cenpes. “Por isso, temos a obrigação de trabalhar na transição de energias sustentáveis”, completa. A empresa aposta em biocombustíveis, gás-química, entre outras fontes. Fraga destacou o potencial do Brasil e da Bahia quanto à produção de energias de fontes renováveis de origem fóssil. Ele lembrou que foi na Bahia que o petróleo foi descoberto no Brasil e onde se instalou a primeira refinaria planejada, observando que o estado tem grande vocação para óleo e gás e energias renováveis. 143

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Foto: Arisson Marinho

Mais apoio para os pequenos O Sebrae firmou uma parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o financiamento de máquinas a micro e pequenas empresas, dentro do seu programa de tecnologia e inovação, o Sebraetec. O apoio vai se somar à consultoria já prestada pelo Sebrae às empresas de pequeno porte, com vistas a estimular a competitividade e garantir sua sobrevivência. “O Sebrae analisa a linha de crédito mais adequada, faz o estudo de viabilidade que será encaminhado ao BNDES, facilitando assim o acesso ao crédito para empresas que precisam de máquinas para inovar”, explicou Ênio Duarte Pinto, gerente de Inovação e Tecnologia do Sebrae. Segundo Ênio, embora o Brasil seja um dos países mais empreendedores do mundo - ocupa o topo do ranking de empreendedorismo dos países do grupo G-20 - tem um alto índice de mortalidade de empresas. Entre 22% e 25% dos negócios criados fecham em dois anos. Isso porque boa parte deles surge por necessidade, isto é, são iniciativas de pessoas que se sentem sem opção e empregam todo o seu capital numa pequena empresa, em vez de resultar da identificação de oportunidades concretas. “Ao contrário do grande empresário, quando um pequeno empreendedor ‘quebra’ fica endividado, com o nome ‘sujo’, enfim, compromete-se como pessoa física e deixa em dificuldades toda a sua família, já que a maioria dos pequenos negócios é empreendimento familiar. A dimensão humana desse quadro é muito grande”, comentou Duarte Pinto.

Desafio Em vez de estimular novos negócios, tornar os que já existem inovadores e sustentáveis, de modo que possam competir no mercado e garantir sua sobrevivência. A maioria deles é representada por empreendimentos familiares. Nada menos do que 52,2% dos empregos no país são gerados por micro, pequenas e médias empresas

R C = L (Receita - Custo= Lucro) Para gerente do Sebrae, a fórmula é turbinada quando a empresa é inovadora: ela se torna mais produtiva, reduz desperdício, descobre novos nichos e tem mais cliente. Esse conjunto de ações resulta em aumento de lucratividade.

Para mitigar esse quadro, o Sebrae oferece consultoria através dos agentes locais de inovação, que fazem diagnósticos e, quando necessário,

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aproximam os pequenos empresários de fornecedores de serviços tecnológicos. O Sebrae subsidia em até 90% o investimento, e ainda parcela os 10% que cabem ao Como empreendedor. avançar? Criar cultura da inovação e de sustentabilidade nas micro e pequenas empresas, que costumam avaliar que apenas as grandes precisam dessa prática. Para convencê-las, é preciso mostrar que inovação é essencial para a sobrevivência do negócio: a receita aumenta e há redução de custos. O Sebrae fornece consultoria e pode promover aproximação com fornecedores de serviços tecnológicos

Apesar de haver alguma resistência, a procura tem aumentado - a meta para 2011 é atingir 20 mil atendimentos. A maioria está interessada em reformular o produto, para aumentar a qualidade, baixar custos e torná-lo mais competitivo. No item custos, uma das práticas mais recomendadas é a adoção de programas de eficiência energética há segmentos, como padarias, açougues e cerâmica em que a energia pode representar até 50% dos custos. Em parceria com o Inmetro e a ABNT, o Sebrae orienta o empreendedor sobre como cortar significativamente esses gastos.

Grau de inovação baixo O Brasil é o país com mais empreendedores no grupo do G-20: entre 13% e 14% da população têm negócios por conta própria, média que, depois da crise de 2009, subiu para 18%. Enquanto isso, a maioria dos países desenvolvidos do grupo - Reino Unido, França, Alemanha, Japão e Itália – está no final do ranking como os que contam com o menor percentual de empreendedorismo. A notícia parece boa para o Brasil - e é - não fosse por um detalhe. Nem todos os que optam por abrir uma empresa no Brasil o fazem por oportunidade, ou seja, por haver identificado um novo nicho de negócios. Pelo contrário, em boa parte das vezes, a iniciativa é baseada na necessidade e considerada uma solução temporária, até que seja encontrado um emprego fixo. Por causa disso, o grau de inovação nas micro e pequenas empresas no Brasil é muito baixo, o que dificilmente permite sua sobrevivência por um período maior. “O grande desafio não é estimular novos pequenos negócios. É tornar os já existentes inovadores, sustentáveis”, disse Ênio Duarte. A atenção às empresas de pequeno porte, salientou o executivo, é fundamental para a economia do país, já que essas respondem por 52,2% da geração de empregos, embora, devido à sua fragilidade, sejam responsáveis por apenas 20% do PIB. Nas economias mais desenvolvidas, esse percentual chega a 55% das riquezas do país. 145

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Inovação faz a diferença tecnologia. Ela é mais que isso e está presente no dia a dia de todos. No trabalho, em casa ou nos momentos de lazer. Pode fazer a diferença em campos que vão da comunicação entre os indivíduos à marca de uma empresa. Inovação é atalho para a sustentabilidade. Qual sua opção: inovar ou estagnar?

Sociedades que inovam tendem a se perpetuar. Sociedades que não inovam definham e terminam atropeladas pelas demais. Nas últimas décadas, a globalização propiciou a aceleração do progresso técnico, que faz a diferença na vida das empresas e das pessoas. A inovação costuma ser associada à

Infográfico: Inovação faz a diferença Por que as 6:00 AM

empresas inovam?

Para se diferenciar das demais Para serem mais competitivas Para ampliar lucros Para se tornarem sustentáveis Para se perpetuar Para resistir a crises Em decorrência de avanços no conhecimento Para se adaptar a mudanças de mercado Para se adequar a mudanças de percepção, como novos conceitos ambientais ou de comportamento

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7:15 AM

As várias faces da inovação Nas empresas, a inovação pode assumir várias formas. As mais comuns são: INOVAÇÃO DE PRODUTO OU TECNOLÓGICA Ocorre quando se introduz no mercado produtos ou serviços novos ou significativamente melhorados. É comum em segmentos nos quais é importante a diferenciação em relação à concorrência. Exemplos: IPod; Wii; Post-it

INOVAÇÃO DE PROCESSO Quando se implementa novos (ou melhorados) processos de produção ou de logística, com principal finalidade de reduzir custos ou prazos. Exemplos: layout novo em uma fábrica; melhorias adicionadas por novo software

INOVAÇÃO ORGANIZACIONAL Implementação de novos métodos organizacionais na prática da empresa. Exemplos: nova política na gestão de vendas; novas práticas decorrentes de parcerias externas; novas práticas de prestação de serviços INOVAÇÃO DE MARKETING Quando novos métodos de marketing resultam em melhorias do design do produto ou de sua embalagem. Exemplos: nova embalagem de chocolate que mantém sua qualidade nos pontos de venda com temperatura quente

Fonte: Fieb Arte: Bamboo editora Textos: SCI FIEB | Ilustrações: Bamboo Editora

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Veja se sua empresa é inovadora A inovação pode ocorrer tanto ao acaso quanto por meio de uma ação planejada. Esta é a razão mais comum. Algumas pistas para verificar se você atua em uma empresa inovadora.

Se preocupa em oferecer produtos ou serviços diferenciados

A empresa ouve os clientes

Adota práticas de gestão modernas

Pauta-se por princípios sustentáveis, especialmente quanto à redução de desperdícios

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Focaliza mercados maiores em vez de menores

Investe na qualificação do trabalhador

Acompanha as novi novidades do mercado em que atua

Faz coisas diferentes ou faz as mesmas coisas de formas diferentes

Não pratica nem permite que seus fornecedores pratiquem agressões ao meio ambiente ou aos direitos do trabalhador

Investe em tecnologias que melhorem a satisfa satisfação dos clientes

Textos: SCI FIEB | Ilustrações: Bamboo Editora

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9:45AM

A inovação estå no dia a dia A inovação estå presente em todos os nossos momentos, mesmo quando não percebemos. Alguns exemplos:

p&NDBTB Ao acordar, usamos creme dental com efeito clareador; utilizamos uma superducha; colocamos calçado com novo material sintÊtico; usamos o novo tablet; assistimos TV com tecnologia LED 3D; utilizamos sacola reciclåvel nas compras

p/PUSBCBMIP O computador tem o HD embutido no monitor; usamos Post-it para recados; nos comunicamos pelo blackberry; utilizamos redes sociais para alavancar a marca da empresa

p/PMB[FS Encontramos os amigos no facebook; enviamos torpedos pelo celular; ensaiamos passos de dança no Wii; vamos a baladas embalados pelas músicas de Lady Gaga

Fonte: Fieb Arte: Bamboo editora

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Mais apoio para os pequenos

Reinaldo Sampaio, Calmanovici, Fadigas, Carlos Tadeu, , Telma e Armando Foto: Marina Silva

O ciclo de três palestras programadas para a primeira parte do seminário sobre o tema Sustentabilidade, com foco em Inovação, do Agenda Bahia 2011, foi encerrado com o debate Como a Inovação Pode Transformar a Economia da Bahia e do País. Os palestrantes concordaram que há poucas empresas brasileiras inovadoras, a maioria está atrasada em relação às suas concorrentes de outras partes do mundo e é preciso andar rápido para não perder competitividade. Mediado pelo vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Reinaldo Sampaio, o debate contou com a participação dos três palestrantes - Carlos Tadeu Costa Fraga, presidente do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), Carlos Eduardo Calmanovici, presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), e Carlos Fadigas, presidente da Braskem. Participaram ainda o coordenador do Fórum de Inovação da Fieb, Armando Neto, e a diretora de Fortalecimento Tecnológico da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, Telma Cortes. Embora reconheçam o atraso do país nessa área, os debatedores concordaram que o Brasil oferece muitas oportunidades em desenvolvimento tecnológico. É que, ao lado do porte do país, da diversidade e da riqueza, ainda há muito a ser feito. As empresas ainda não estão maduras, mas as medidas de estímulo que vêm sendo tomadas pelo governo foram bem recebidas por todos os debatedores. Apesar disso, eles concordaram que ainda não são suficientes. Uma das questões a serem atacadas, disseram, é a formação de recursos humanos.

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Lentidão nos processos

Calmanovici: nove anos para definição de patente

Carlos Eduardo Calmanovici, da Anpei, vê o ambiente macroeconômico do país desfavorável para investimentos, especialmente em inovação, que envolve um alto grau de risco. Ele reconhece que o governo vem tentando estimular o desenvolvimento tecnológico, mas diz que é preciso mais, até porque inovar se tornou uma exigência. Calmanovici considera que o registro de patentes no Brasil é um entrave. Hoje, uma patente leva até nove anos para ser deferida. A Anpei está lutando para aumentar o número de examinadores do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) para 300. Nos Estados Unidos, são cerca de seis mil e, na China, nove mil.

Falta de pessoal Ao contrário do dirigente da Anpei, o presidente da Braskem, Carlos Fadigas, acha que o Brasil possui hoje boas condições econômicas para investir em inovação. Na sua opinião, esse investimento deve passar pela preparação de recursos humanos, principalmente de engenheiros, com as universidades criando mecanismos que confiram a esses profissionais uma visão de desenvolvimento sustentável. A Braskem, disse ele, tem o objetivo de formar 500 engenheiros por ano para a indústria petroquímica, além de manter um diálogo com várias frentes e estabelecer parcerias com outras empresas para o desenvolvimento do produto. Fadigas: visão sustentável para engenheiros

Longo caminho As políticas adotadas nos últimos anos pelo governo no campo da inovação trouxeram algum avanço para o país, mas ainda é preciso que os resultados alcançados sejam aplicados no processo produtivo, disse o presidente do Centro de Pesquisas da Petrobras, Carlos Tadeu Costa Fraga. No debate, ele assinalou que o mais importante no processo é “a aplicação do conhecimento gerado e não a geração do conhecimento“. Para Fraga, há um grande caminho ainda a ser percorrido até que as políticas traçadas pelo governo se reflitam de fato nas empresas e contribuam para torná-las mais modernas e competitivas. Carlos Tadeu: aplicação do conhecimento Fotos: Marina Silva

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Inovação desde o ensino fundamental Para criar um ambiente propício ao desenvolvimento tecnológico e à inovação no país é preciso criar uma cultura. Isso passa pela educação, via a introdução científica nas escolas de ensino fundamental. É o que defendeu, no debate, a diretora de Fortalecimento Tecnológico da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), Telma Cortes, que representou o secretário Paulo Câmera. Ela disse que o governo do estado tem feito a sua parte, através do Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica (Inovatec) e dos editais para pesquisadores e bolsistas lançados pela Fapesb, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia. Telma: criação de uma cultura de inovação

Momento de oportunidades Para o superintendente do Instituto Euvaldo Lodi (IEL) e coordenador do Fórum de Inovação da Fieb, Armando Neto, Brasil e Bahia apresentam muitas oportunidades na área de inovação, porque há muito a ser feito. Ele lamentou, porém, o fato de o país não estar preparado, com exceção das grandes empresas. “Precisamos introduzir o DNA da inovação nas médias e pequenas empresas”, observou. Armando Neto advertiu os médios e pequenos empresários sobre a urgência de tomar a inovação como algo prioritário. Conforme preveniu: “É preciso inocular esse ‘vírus’ do bem em nossas empresas”. Armando: introduzir DNA de inovação nas pequenas e médias empresas Fotos: Marina Silva

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Foto: Arisson Marinho

A marca da Bahia O publicitário Sergio Amado, presidente da Ogilvy Brasil, disse ontem que a “Bahia precisa ser mais bem cuidada” se quiser ter uma marca forte e que possa gerar retorno proporcional aos atributos naturais do estado. “Temos belas praias, clima favorável, cidades que encantam os turistas, mas não vejo vontade política para transformar isso em uma marca”, disse o publicitário, que comanda a terceira maior agência do país.

Desafios

Na opinião de Amado, a marca Bahia “não pode ficar atrelada apenas ao Carnaval”. “Estamos perdendo turistas e investimentos para cidades como Fortaleza e Recife porque não há investimentos públicos em infraestrutura”, avalia. O presidente da Ogilvy afirmou que “fala com muita dor” dos problemas de Salvador e da Bahia. “Tenho uma filha e três netos que moram aqui, sou baiano, estou sempre aqui, mas não posso me omitir em relação aos inúmeros problemas da nossa capital e do nosso estado”.

Para Sergio Amado, Salvador deve aproveitar a Copa de 2014 para ter o seu legado. “Temos pouco mais de 50 quilômetros de litoral, um patrimônio histórico reconhecido mundialmente e muitas atrações turísticas. O problema é que a cidade não oferece segurança, o trânsito é um dos piores do Brasil, as ruas e avenidas estão sujas e esburacadas”, afirmou. Segundo Amado, a hora é de unir forças pela cidade. “As marcas Bahia e Salvador, que têm força e apelo popular impressionantes, voltarão a ter um grande destaque e poderão ser ‘vendidas’ com muita facilidade”, disse

Durante a sua apresentação, Sergio Amado disse que disciplina e investimentos constantes são fundamentais para a sustentação de uma marca. “Construir uma marca não é apenas um desejo”, lembrou. Em seguida, citou como exemplos diversas empresas cujas marcas têm valor de mercado superior aos seus patrimônios.

Para Amado, a marca Bahia “vem sofrendo abalos”. “Ou temos um projeto para a marca Bahia, apoiado pelo governo, ou não temos nada. O projeto para a marca Bahia deve ser um projeto de estado, não um projeto de governo”, disse Amado, durante a sua palestra no Agenda Bahia 2011. Em sua apresentação, o publicitário citou como

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exemplo o caso da Colômbia na divulgação do café produzido no país. Segundo Sergio Amado, o governo definiu um investimento anual de US$ 25 milhões para divulgação do produto no exterior, o que tornou o café colombiano uma referência de qualidade no exterior. “Apesar de o Brasil produzir um café de melhor qualidade, nunca conseguimos comercializar o produto com os preços da Colômbia. Para se sustentar uma marca são necessários disciplina e investimentos constantes, como o governo colombiano vem fazendo”, explicou Amado. Segundo o publicitário, os recursos tangíveis para construção da marca de um estado, ao contrário do que acontece com produto convencional, que se baseia em pilares como preço e serviço, estão centrados em recursos como infraestrutura, segurança, urbanismo, cultura, educação e oportunidades para as pessoas e para quem investe e quer viver no estado. “Não adianta fazer comunicação sem termos infraestrutura. A marca deve oferecer uma realidade maior do que as expectativas criadas. A Bahia precisa corrigir as questões estruturais para oferecer o melhor produto a seus investidores”, avalia. O publicitário também destacou que a capital baiana tem muitos problemas que influenciam negativamente a consolidação de sua marca. “O trânsito aqui é caótico, a cidade está suja, as ruas e avenidas estão esburacadas”, disse. Apesar das críticas, Sergio Amado destacou que a capital baiana ainda é bem percebida em diversos aspectos como personalidade, confiança e fidedignidade. “Uma marca para ser consolidada demora muito tempo, pelo menos 20 anos. É preciso esquecer o passado e ter vontade política”.

“Para se sustentar uma marca são necessários disciplina e investimentos constantes”

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Como exemplo de construção de marca com sucesso, Amado trouxe como case a experiência de Porto Rico que há 50 anos conseguiu construir o seu posicionamento e se tornou um dos grandes destinos turísticos do mundo. “Nesse caso, a experiência foi um sucesso, porque o estado fez o trabalho dele primeiro, preparando a infraestrutura. Depois desse trabalho, foi fácil para a comunicação construir a outra parte”, disse Amado. A campanha para lançamento do projeto, criada pela agência Ogilvy, trouxe o músico violoncelista Carlos Casals para a campanha de lançamento do país como destino turístico, o que despertou o interesse da mídia internacional e, rapidamente, o país se tornou um dos principais destinos turísticos da América. Para comemorar os 50 anos de sucesso do roteiro turístico, a agência retomou a campanha, agora trazendo Elliott Erwitt, um dos mais famosos fotógrafos americanos.

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Planejamento estratégico

Conhecer o público-alvo : A empresa precisa saber quais os desejos e necessidades dos seus consumidores. Ser um bom produto: Para que isso ocorra, é preciso investir em tecnologia, inovação e adequação à realidade dos locais onde o produto será comercializado. Investimentos em comunicação: A construção da imagem de uma marca requer disciplina e investimentos constantes em publicidade, porque o produto precisa estar em evidência para mostrar os seus diferenciais.

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Ações conectadas As responsabilidades sociais empresariais não podem se esgotar em ações individuais, já que essas ações sozinhas não irão operar o tamanho das mudanças que a sociedade necessita. Foi com esse enfoque que o presidente do Instituto Ethos, Jorge Abrahão, abriu a palestra Responsabilidade Social Empresarial: Experiências em Inovação para a Sustentabilidade, durante o Agenda Bahia 2011. Como Abrahão defendeu durante toda a sua exposição avançar? que os empresários e a sociedade pensem em - Jorge Abrahão defendeu ações para transformá-las em políticas públicas, planejar avanços e ações em porque só assim elas terão o alcance desejado. cada área de atuação das empresas, Abrahão também apresentou exemplos de projetos concretos já desenvolvidos pelos grupos de trabalho no Instituto Ethos. Um deles é o Conexões Sustentáveis São Paulo Amazônia, que mostra para os consumidores paulistas o impacto do seu consumo em outra região do país.

como para os clientes, funcionários, meio ambiente. - Ampliar a atuação para além da área verde, que é a mais visada pelas empresas atualmente - Implantar ações para ampliar a integridade e transparências nas empresas

“Percebemos que a carne que consumíamos em São Paulo contribuía para o desmatamento na Amazônia, a mesma coisa com a madeira. Ao mostrarmos isso para os consumidores, e com a adesão dos supermercados, conseguimos mudar esses hábitos de consumo”, comentou o especialista. Porém, as ações não devem ser desenvolvidas apenas na esfera verde. “Muitas empresas atuam apenas no pilar verde e acabam esquecendo as ações de integridade e de transparência”, avalia. Por causa disso, o Instituto Ethos desenvolveu três plataformas de atuação: a inclusiva, a verde e a responsável. “Por inclusiva, entende-se questões como a erradicação da pobreza, tida como prioritária. Queremos também dar acesso a condições dignas de vida”, elenca Abrahão. O Instituto Ethos aposta nas mesmas práticas dentro da própria instituição. Um dos modelos é ninguém na entidade ter um salário 14 vezes maior que o funcionário que ganha menos. “A desigualdade é um dos problemas mais graves. Temos uma pesquisa que demonstra que, independentemente do país ser pobre, ou ser rico, o que gera problemas sociais é a amplitude dessa desigualdade”, analisa Abrahão. Para ele, enquanto não

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encararmos esta questão, o Brasil terá muitos problemas para enfrentar, como os de violência. Outro convite que o presidente do Ethos fez foi para as cidades se inscreverem no programa Cidades Sustentáveis, que irá obter compromissos dos candidatos nas próximas eleições e mensurar o cumprimento dessas metas em indicadores, permitindo a toda a população acompanhar e fiscalizar seu desempenho político. “Hoje, em São Paulo, gastamos uma média de 2 horas e 43 minutos no trânsito diariamente. Os candidatos à prefeitura terão que se comprometer a diminuir o problema da mobilidade urbana e serão cobrados por isso”. Abrahão ressaltou que o Instituto Ethos é responsável por incentivar e animar processos, mas não pelos próprios trabalhos que são desenvolvidos pelas empresas que estão associadas ao Instituto. Hoje, o Ethos é composto por 1.437 associados — 9% no Nordeste.

Foto: Arisson Marinho

Desafio O presidente do Instituto Ethos, Jorge Abrahão, avalia que deve-se aumentar a repercussão das políticas sociais, para ele, o maior desafio do poder público. E ainda repensar o modelo de consumo e o grau de produção, considerados insustentáveis para o Instituto Ethos

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O fator humano Um debate marcado por divergências de ideias: foi assim que se encerraram as discussões do seminário de 24 de agosto do Agenda Bahia 2011. Enquanto alguns especialistas acreditam que a inovação e a sustentabilidade já são processos em prática no país, houve quem discordasse e acreditasse que ainda não se colocou processos de inovação em prática porque o pensamento está engessado em processos rígidos, como são os industriais.

Sergio Costa, Caramelo, Gondim, Bezerra e Cristina Foto: Arisson Marinho

O debate foi mediado pelo diretor de Redação do jornal Correio, Sergio Costa, que questionou o que falta para uma terra como a Bahia, tão cantada em criatividade, avançar nessa questão da inovação. Também foi alvo do debate o custo dos produtos mais sustentáveis, ou seja, se seria possível a população de baixa e média renda fazer uso deles. Nesse ponto, o assessor de sustentabilidade do grupo Coelba/Neoenergia André Gondim ressaltou como a Coelba usa os programas sustentáveis para favorecer a população mais carente do estado. O arquiteto Antônio Caramelo focou sua apresentação no uso dos materiais sustentáveis e como é possível economizar. Bezerra, com uma explanação mais filosófica, falou sobre a necessidade de se atingir um nível mais alto de ideias inovadoras. Já Cristina Quintella, da Ufba, apresentou ideias na área acadêmica. “E também somos um jornal que inovou”, reforçou Sergio Costa, no final do debate. O Correio alcançou em agosto de 2011 a média de 60 mil exemplares por dia e está entre os 20 maiores jornais do país.

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Resultado provado em casa

Caramelo: investimento vale a pena

O arquiteto Antônio Caramelo comentou que ouvia as pessoas falarem sobre obras sustentáveis, mas foi ao partir para a prática que comprovou que o investimento em materiais verdes vale mesmo a pena. O arquiteto começou a construção de um escritório sustentável que, segundo ele, terá retorno em dois anos. Suas contas de luz diminuirão e o gasto com água também. “Tem gente que diz que a implantação de uma obra sustentável custa 10%, 15% ou até 20% a mais. Para mim, não estava claro e resolvi começar a fazer para ver quanto custa”, contou sobre a obra do seu escritório. Para Caramelo, esse tipo de material também pode alcançar a população de baixa renda, à medida que as pessoas forem aderindo a eles e seus preços caírem por causa do aumento de produção. Caramelo ainda foi enfático ao defender que a sustentabilidade é uma questão de atitude e apostou na formação de novos profissionais na área, contratando 50 estagiários. “Tem que se fazer alguma coisa, com atitudes agora, que melhorem o planeta”, ponderou.

Um novo papel para empresas Para o assessor de sustentabilidade do grupo Coelba/ Neoenergia André Gondim, as empresas precisam cumprir o seu papel com relação às questões sustentáveis e a Coelba já atentou para esta demanda há alguns anos. A empresa fez em 2011 investimento de R$ 1,3 bilhão, sendo que metade desse recurso é destinada a melhorias no sistema e ao uso eficiente da energia elétrica.

Gondim: consumo de energia adequado Fotos: Arisson Marinho

“As pessoas me perguntam por que queremos que os baianos consumam menos energia. Mas só queremos é que as pessoas consumam a energia de forma adequada”, alertou Gondim. Ele enumerou vários programas da Coelba, como a troca de geladeiras usadas por geladeiras novas, que chega a reduzir até 70% a conta de luz de famílias carentes, e o Vale Luz, que tem recolhido material reciclável e dado descontos na conta de luz como contrapartida. A Coelba também tem o primeiro projeto de Pesquisa e Desenvolvimento de Sustentabilidade no setor elétrico para buscar soluções na diminuição dos riscos de 22 processos da empresa.

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‘Inovação é gente’ Para o diretor-executivo do Gad’Innovation, Charles Bezerra, o Brasil ainda está em um estágio muito baixo nos avanços de processos de inovação e mais sustentáveis. “Por causa da Revolução Industrial, nos acostumamos aos processos rígidos, a um pensar industrial. As pessoas querem pensar e não conseguem, porque o poder está nos processos”, analisou. Para o executivo, é necessário ter coragem para se pensar algo novo e desbloquear a mente. “Inovação é gente. Tem que colocar os setores de Recursos Humanos para pensar como maximizar essas pessoas para ter ideias originais e isto é uma revolução cultural”, ponderou. Para Bezerra, o atual estágio em que estamos está comprometido e a sociedade ainda não entendeu que é através das questões e do diálogo que se chega a novas ideias. “Já se pensou até em certificar as empresas como inovadoras. Se inovação tem a ver com o futuro, como vamos avaliar essas companhias no presente?”, criticou.

‘Ainda somos analfabetos’

Bezerra: estágio muito baixo em inovação Fotos: Arisson Marinho

Cristina: financiamento em tecnologia

A coordenadora de Inovação da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Cristina Quintella, começou sua exposição dizendo que , quando o assunto é inovação, ainda somos analfabetos no geral, sendo semianalfabetos quando se trata da academia. “Temos um lapso, porque temos uma ideia, registramos a patente, mas não sabemos e não temos incentivos para colocar em prática depois”, analisou Quintella. Para a coordenadora, os incentivos em inovação estão no empreendedorismo individual, mas quando se trata de transferir tecnologias, os baianos ainda deixam muito a desejar. Para Quintella, é preciso olhar para a tecnologia com preocupação para as estruturas e os financiamentos. A coordenadora também ressaltou as deficiências da própria academia, quando se deparou com alunos sem saber escrever patentes, ou analisar aspectos mais burocráticos, como contratos. “Tem que aprender a colocar a patente, fazer um relatório. Eu tenho fé no nosso estado, que ele vai dar a volta por cima”, ponderou Quintella.

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Novo clima na economia

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m 2012, as atenções do mundo estarão voltadas para o Brasil, onde será realizada a Conferência das Nações Unidas Sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio + 20. O terceiro seminário do Agenda Bahia 2011 debateu ações essenciais para o país e, sobretudo, para o estado baiano trilhar um caminho responsável na transição para a economia verde. No debate Bahia + 20: Por uma Agenda Sustentável, os especialistas defenderam a definição de metas para que o estado seja vanguarda e aproveite as oportunidades criadas com a Rio+20 e outros grandes eventos esportivos a fim de atrair novos investimentos e promover seu crescimento. Crescimento com planejamento para um desenvolvimento sustentável. Neste capítulo, sobre o seminário Agronegócio, com foco em Economia Climática e Industrialização, reportagens especiais, palestrantes e debatedores mostram o que está sendo feito e pensado no país e no mundo para reduzir as emissões de gases do efeito estufa, os impactos no meio ambiente e, assim, proteger o planeta. Foram apontadas ainda as oportunidades com o agronegócio e a agroindustrialização.

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Vantagens - Clima, solo e recursos hídricos favoráveis na Bahia à agricultura de diversas culturas, com potencial para aumento da produção. - Recorde de safras. - Amplo território para a interiorização da agroindustrialização. - Posição geográfica estratégica para o escoamento da produção e exportação do que é produzido e fabricado no estado. - Um dos territórios com maior área de florestas plantadas do país. - Ciclo de colheita de eucalipto mais de sete vezes superior que outras regiões do mundo. - Os 6,3 milhões de hectares plantados captam 200 toneladas de CO2 por hectare ao ano. No Brasil, as florestas plantadas absorvem 1 bilhão de toneladas de carbono. A Bahia já é responsável por 14% desse total de sequestro de carbono.

Floresta plantada contribui para sequestrar carbono Foto: Divulgação

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Desafios e ações propostas para a Bahia Economia climática: - Definição de metas e compromissos na Bahia para uma agenda sustentável de transição para economia verde. - Definir ações sustentáveis tanto em empresas, no governo e na sociedade civil que visem equilíbrio econômico, social, cultural e ambiental. - Aproveitar as oportunidades que serão criadas com a Rio + 20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, para criar diretrizes em relação à essa questão no estado. - Comprometimento com a redução dos gases do efeito estufa. - Estímulo à gestão ecoeficiente: repensar engenharia de processos, reduzir consumo de insumos, reutilizar materiais no próprio processo e reciclar e gerar produtos para outras cadeias do negócio. - Estimular negócios gerados pela economia verde: entre produtores, fornecedores e consumidores a fim de adotar melhores práticas sustentáveis. - Investimento em inovação para redução dos impactos dos processos industriais no meio ambiente. - Definição de um novo padrão ideal de consumo diante da escassez de recursos naturais no futuro. - Incentivar energias limpas e produtos orgânicos. - Definição de padrão mínimo de sustentabilidade para construções na cidade, com adoção de modelo de certificação. - Estímulo à produção e distribuição de produtos verdes baianos, durante a Copa de 2014, em estabelecimentos como hotéis, restaurantes e comércio. - Estímulo à agricultura familiar.

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- Tratamento do lixo e dos resíduos. Definição de prazos ou premiação por performance para as administrações públicas solucionarem a destinação final dos lixões das cidades. - Investimento na mobilidade urbana e no transporte público sustentável, com o incentivo, inclusive, de combustível verde nos ônibus que circulam pela cidade, especialmente os do BRT. - Respeito às normas e requisitos nacionais e internacionais para consolidação em um mercado sustentável, criando vantagem competitiva.

Industrialização: - Investimento em infraestrutura para criar um canal de ligação eficaz entre produção e distribuição. - A interiorização da agroindustrialização permitiria a geração de empregos em outras regiões do estado, a manutenção da sua população em sua cidade natal, reduzindo a pressão nos grandes centros e estimulando a economia de outros municípios baianos. Atualmente, há grande concentração industrial (41,7%) na Região Metropolitana de Salvador. - Resolver gargalos no escoamento da produção, para reduzir custos das empresas, aumentando a competitividade da indústria e do comércio baianos. - Criação de linhas alternativas para estimular produtos sustentáveis a fim de agregar maior valor à cadeia produtiva baiana.

Bahia bate recorde em safra, mas sofre com infraestrutura Foto: Alberto Coutinho/ Agecom

- Investimento na rastreabilidade dos alimentos, com a indicação de sua procedência, para atender a essa nova exigência de mercado. - Divulgação na comunidade internacional desses produtos para aumentar a confiança e estimular a venda em novos mercados. - Estimular o crescimento da área plantada na Bahia para aproveitar o aumento na demanda mundial por alimentos. No Brasil, há a mesma área plantada desde 1984. - Aproveitar a demanda crescente mundial por alimentos. Pra

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especialistas, o Brasil pode ser o celeiro do mundo e maior exportador. A Bahia também pode ser beneficiada, já que bate recorde de safras. - Estimular a criação de frigoríficos adequados para estocar e conservar os produtos. - Aproveitar a nova demanda mundial por biocombustíveis. O Oeste baiano ganha maior importância nesse cenário com a soja. - Incentivar com políticas públicas e infraestrutura eficaz a industrialização no estado. A Bahia bate recorde de safras, mas exporta parte de seus produtos para serem industrializados em outras regiões do país, que ganham mais com o valor agregado desses produtos. - Revisão da decisão da Advocacia Geral da União sobre a proibição da venda de terras a estrangeiros. - Aproveitar as oportunidades de investimento da China.

Compromissos firmados no seminário - Criação de metas e compromissos para aproveitar as oportunidades da Rio + 20 e desenvolver na Bahia uma agenda sustentável. Definição de um pacto no estado rumo à economia verde. - Aproveitar as oportunidades criadas também com os grandes eventos esportivos a fim de atrair novos investimentos e promover o crescimento da Bahia com desenvolvimento sustentável. - Assumir metas e prazos para a redução de emissão de CO2. - Necessidade de investimento em infraestrutura. Secretário de Agricultura, Eduardo Salles, admitiu que a falta de investimentos nesse setor é um dos entraves para a industrialização.

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O efeito estufa Parece pouco, mas os efeitos foram devastadores. Nos últimos 140 anos, a temperatura média do planeta aumentou 0,76° C, de acordo com o mais recente estudo divulgado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, entidade que reúne cerca de 2.500 cientistas e técnicos de vários países. Os resultados dessa variação climática são impressionantes, com milhares de mortes causadas por inundações, secas, tempestades e ondas de calor, além da redução na oferta da água potável, elevação do nível dos oceanos e mudanças na produção dos alimentos. “Além dos componentes naturais, como erupções vulcânicas e as tempestades, o desmatamento acentuado e o uso desordenado da terra também são responsáveis por essas catástrofes e pelo aquecimento global”, explica Thelma Krug, pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e exsecretária de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente. Segundo Luís Gilvan Meira Filho, pesquisador visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), para sair da ‘zona de risco’, o mundo teria de diminuir as emissões de gás carbônico dos atuais 7,5 bilhões de toneladas por ano para 2,2 bilhões de toneladas. Seguindo esse cálculo, o custo para fazer a redução – e dar mais tranquilidade ao planeta – seria de US$ 50 a US$ 60 por cada tonelada de CO2 retirada da atmosfera. “Não faltam conhecimentos científicos para resolver os problemas relacionados, o que falta é vontade política”, disse Thelma Krug, que construiu sua carreira acadêmica nos Estados Unidos. Segundo a especialista, combater o aquecimento global requer “enormes investimentos, que também podem se constituir em oportunidades”, mas, de forma geral, “os governantes pensam apenas em custos”. “O fato é que precisamos de empresas que evitem desperdícios e sejam conscientes do ponto de vista socioambiental. Somente com a conjunção desses e outros fatores, como o uso da energia limpa, por exemplo, é que vamos melhorar a qualidade de vida”, diz. Na opinião da pesquisadora, o aumento da fiscalização e as campanhas educativas lançadas pelo governo e entidades não-

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governamentais têm dado resultados. “O Brasil assumiu muito mais compromissos de forma voluntária do que outros países em desenvolvimento ou desenvolvidos. Temos problemas, é claro, e o desmatamento está entre eles, mas o fato concreto é que há mais consciência por parte dos empresários e da população”, disse Thelma Krug.

A pecuária na polêmica

18%

Estudo divulgado pela Agência de Agricultura e Alimentação da ONU mostrou que a pecuária é responsável por pelo menos 18% das emissões de gases causadores do efeito estufa

O impacto seria maior do que o setor de transportes, segundo a pesquisa

As emissões de gases do efeito estufa são causadas pelo processo digestivo dos animais, dos dejetos do rebanho e, em especial no Brasil, das queimadas que abrem espaço para criações

Entre os gases procedentes do esterco do gado, a FAO cita o óxido nitroso (N2O), que tem quase 300 vezes mais GWP, Potencial de Aquecimento Global, do que o CO2

Especialistas apontam como solução uma pecuária mais sustentável, com recuperação de áreas de pastagem, técnicas de manejo, alteração de dietas e administração consciente de áreas de criação a partir de sistema integrado lavoura-pecuária-florestas

GWP do N2O GWP do CO2 O estudo ganhou repercussão no mundo, com campanhas inclusive de redução de consumo de carne

Mas a FAO prometeu rever a comparaçao a partir de uma contestação do setor: a entidade teria contado, no caso dos transportes, apenas a queima de combustíveis, enquanto na pecuária o cálculo levou em consideração a produção de fertilizantes, abertura de campos, emissões da digestão dos animais e veículos de fazendas

Infográfico: Morgana Miranda

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De acordo com Osvaldo Soliano, professor da Unifacs e diretor do Centro Brasileiro de Energia e Mudança do Clima, o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis ampliam a concentração de gases na atmosfera, principalmente o CO2 e o metano. “A responsabilidade histórica pelo aquecimento global é dos países desenvolvidos, mas a sociedade precisa se conscientizar e fazer a sua parte”, disse. Para Thelma Krug, os países desenvolvidos têm que adotar outras providências: “Se isto não acontecer, vamos enfrentar e conviver ainda com mais catástrofes”. Dentro desse contexto, Osvaldo Soliano disse que a economia de baixo carbono, uma expressão que ganhou força na comunidade internacional nos últimos anos, deve ser incentivada. “As empresas precisam investir em inovação e apresentar soluções tecnológicas para frear o aquecimento global”, diz. Assim como um jogador que faz um gol contra e depois garante o título para a sua equipe no último minuto da partida, o setor do agronegócio é, ao mesmo tempo, o vilão e o herói na história do aquecimento global. “O aumento da temperatura é provocado principalmente pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento”, disse o professor Osvaldo Soliano, da Unifacs. “Embora tenha melhorado muito nos últimos anos, o desmatamento é uma prática muito utilizada pelas pessoas envolvidas na cadeia do agronegócio”, afirmou. A pecuária tem grande parcela nessa cadeia (confira gráfico). O Brasil está em 4º lugar no ranking dos países que mais emitem gases de efeito estufa na atmosfera — os EUA e a China são, respectivamente, o primeiro e o segundo colocados. Luís Gilvan Meira Filho faz um alerta: “A longo prazo, o problema é muito mais sério, porque envolve o aquecimento global e vai afetar a agricultura, etc. É preciso diminuir emissões de gás carbônico”.

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O impacto no ar que respiramos Uma boa notícia para a população de Salvador: em 98% do tempo, o índice de qualidade do ar da cidade tem se mantido bom. “Por causa dos ventos que vêm do mar, a condição de Salvador no que se refere à dispersão de partículas é excelente”, atesta Eduardo Fontoura, gerente de monitoramento do ar da Cetrel, empresa de Proteção Ambiental do Polo de Camaçari, que monitora o ar. Mas a dádiva da natureza tem um custo, e não só para os baianos, mas para todo e qualquer ser humano que consuma produtos industrializados – ou seja, a grande maioria da humanidade. É que, para manter o estilo e a qualidade de vida a que o homem se acostumou e que não consegue mais dissociar do seu dia a dia, as indústrias precisam produzir – e, em maior ou menor grau, muitas delas emitem gases e partículas poluentes que, para

Foto: Divulgação

Como avançar? Para especialistas, a inovação nos processos de produção e de logística das empresas pode contribuir para frear o aquecimento global

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serem conservados em níveis toleráveis, têm que ser tratados com tecnologias especiais. “É um investimento necessário para tornar o processo sustentável, já faz parte do negócio. Trata-se de um item do processo produtivo”, diz Fontoura. O custo desse item varia de acordo com o segmento industrial. Os que exigem mais investimentos nessa área são siderurgia, química e petroquímica e metalurgia e mineração. Para produzir aço, combustíveis, os mais diversos tipos de plásticos, tintas, vernizes e uma infinidade de materiais presentes em praticamente tudo que nos rodeia é necessário investir no controle da qualidade do ar. Nas grandes e médias cidades, independentemente de haver ou não indústrias no perímetro urbano, o preço a pagar vem das emissões dos veículos alimentados por combustíveis fósseis, isto é, a gasolina, o óleo diesel e o GNV, principalmente por causa do enxofre produzido. O etanol, vindo da cana-de-açúcar e de outras fontes vegetais, não produz enxofre. “Isso tem um custo econômico alto em termos de faltas ao trabalho por doenças respiratórias associadas à má qualidade do ar, perda da qualidade de vida e mortes”, comenta a engenheira especializada em Custo Ambiental e de Saúde Simone Miraglia, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A especialista cita estudo realizado em São Paulo, na década de 1990, sobre o impacto da poluição do ar na saúde da população. “O resultado obtido, de 28.212 anos de vida perdidos e vividos com incapacidades, anualmente, demonstra a importância econômica da poluição do ar. Traduzido em unidade monetária, o resultado foi de US$ 208.884.940. Esses resultados proporcionaram um valor preliminar e subdimensionado do ônus das doenças promovidas pela poluição do ar, uma vez que o trabalho abrangeu apenas um segmento da população”, observa. Atualmente, Simone participa de um estudo sobre a qualidade do ar em seis capitais brasileiras – São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife. Belo Horizonte e Curitiba.

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Entenda o que é uma economia de baixo carbono É uma nova vertente que busca o crescimento econômico com o mínimo de impacto no ecossistema. Isso significa que, ao produzir um novo produto, seja utilizada toda a tecnologia e inovação para reduzir seu impacto no ambiente ao longo de toda a cadeia produtiva, diminuindo as emissões de CO2, o consumo de água, a utilização de combustíveis fósseis, entre outros. Quais as vantagens para as empresas em investir em baixo carbono? As empresas que investirem em novas tecnologias para redução do seu impacto ambiental no planeta serão também pioneiras em identificar novos riscos e oportunidades decorrentes da alteração do clima, o que gera reconhecimento e ganhos de competitividade a longo prazo, apontam os especialistas. Quais as obrigações do Brasil perante a economia de baixo carbono? Apesar de não ter uma meta estabelecida no Protocolo de Kyoto, assim como todos os países em desenvolvimento, como a Índia e a China, o Brasil instituiu, em 2009, a Política Nacional de Mudanças Climáticas, que estabelece como meta a redução das emissões nacionais de gases de efeito estufa entre 36,1% e 38,9% até 2020.

Outras metas brasileiras: - Redução de 80% dos índices anuais de desmatamento na Amazônia Legal em relação à média verificada entre os anos de 1996 a 2005 - Recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas - Ampliação do sistema de integração lavoura-pecuária-floresta em 4 milhões de hectares - Expansão do plantio de florestas em 3 milhões de hectares

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Empresas investem na redução de gases No Brasil, há exemplos de empresas que investem em processos mais sustentáveis. A Braskem, por exemplo, desde 2007 começou a medir a emissão de gases do efeito estufa. Até 2010, tinha reduzido em 13,6% a emissão desses gases. O resultado foi alcançado graças a investimentos em eficiência energética, a descontinuidade de algumas operações que eram intensivas em emissões e a outras melhorias operacionais. Com a troca de máquina em 2011, a expectativa é uma redução ainda mais sensível na emissão de CO2 dos processos dos produtos. A Petrobras reservou até 2015 investimento de US$ 976 milhões em projetos de eficiência energética e redução de emissões de gases do efeito estufa. O objetivo é reduzir em 65% a intensidade da queima de gás natural em tocha nas operações de exploração e produção; reduzir a intensidade de emissões de gases de efeito estufa nas operações de exploração e produção, de refino e na operação das usinas termelétricas. As empresas do setor de florestas plantadas, de papel e celulose, também investem em tecnologia e preservam o meio ambiente ao absorver o carbono em alta quantidade. O setor estima que as florestas absorvem 200 toneladas de carbono ao ano por cada hectare. Há ainda a preservação de 50% das áreas de fazenda.

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Floresta sustentável Em meio à derrubada ilegal de árvores e queimadas que acontecem em todas as regiões do Brasil, há um alento na Bahia em relação à preservação ambiental: o Projeto Floresta Sustentável, um dos vencedores do Programa Petrobras Ambiental 2010, está instalando um novo centro de visitantes na Reserva de Sapiranga, em Mata de São João. A unidade tem três módulos, onde serão desenvolvidas atividades de educação ambiental e gestão da reserva. Relatório de 2010 (os números de 2011 não foram fechados) da Organização das Nações Unidas (ONU) revelou que, apesar de o Brasil ter diminuído sua área desmatada, o país ainda liderava o ranking no mundo. A queda mais acentuada aconteceu a partir do início deste século, quando o Brasil passou de 2,9 milhões de hectares anuais desmatados para 2,6 milhões. A Indonésia, também apontada pela ONU como ‘campeã’ em desmatamento, registrou uma redução ainda maior do que a brasileira - passou de 1,9 milhão de hectares de florestas desmatadas para cerca de 500 mil hectares por ano (a partir de 2000). O novo centro na Reserva Sapiranga possui uma sala de vídeo, duas salas de aula, biblioteca, oficinas de artesanato, cozinha, loja para venda de peças artesanais, mudas e outros produtos. A estrutura da unidade, construída em madeira de eucalipto, também oferece acesso para cadeirantes e sanitários adaptados para portadores de deficiência física. Além do novo centro de visitantes, o local tem um viveiro com 600 m² de área interna, com sistema de irrigação e capacidade para produzir até 100 mil mudas a cada três meses. “Nossa intenção é produzir para outras regiões da Bahia e até para outros estados do Brasil”, comentou Biase Seabra, coordenador de produção. Segundo Álvaro Meirelles, coordenador técnico, o Floresta Sustentável será executado até dezembro de 2012 e vai envolver as comunidades de Sapiranga/Tapera, Barreiro e Pau Grande. “Nosso objetivo é recuperar 90 hectares de áreas degradadas remanescentes de Mata Atlântica para formar um corredor ecológico”, afirmou. Meirelles disse, ainda, que cerca de 700 pessoas estarão envolvidas nas ações do projeto de

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Foto: Divulgação

Como avançar? conservação ambiental. No total, a Petrobras deverá investir R$ 2,5 milhões para realizar todas as obras necessárias ao funcionamento do projeto. Álvaro Meirelles afirmou que todos os participantes serão estimulados a trabalhar com mais de um tipo de cultura, de forma associada à vegetação nativa. “Queremos restaurar áreas degradadas de Mata Atlântica em trecho de Área de Preservação Permanente do rio Pojuca, conservar o ambiente da reserva de Sapiranga, promover a educação ambiental e fomentar atividades de geração de renda compatíveis com a conservação ambiental”.

Preservação da reserva, plantação de mudas, educação ambiental e desenvolvimento econômico da região

As pessoas das comunidades envolvidas com o projeto vão receber cursos de aproveitamento dos recursos naturais para atividades artesanais, de produção de mudas de vegetais nativos, formação de sistemas agroflorestais e de ecoturismo. Meirelles ressaltou que o projeto de conservação ambiental também vai promover o desenvolvimento econômico da região e melhorar a qualidade de vida das comunidades, de modo sustentável. “Ninguém pode mais falar em desenvolvimento sem dar plenas oportunidades para as pessoas que moram, muitas vezes, em comunidades afastadas dos grandes centros urbanos”, disse o coordenador técnico do projeto.

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Localizada a 2 quilômetros da Praia do Forte, uma das maiores atrações turísticas da Bahia, a Reserva Ecológica Sapiranga é formada por quase 600 hectares. Com a conclusão do novo centro, os organizadores do projeto esperam ampliar o número de visitantes na região.

*

Conservação

2,5

milhões de Reais é o total que a Petrobras deverá investir no projeto

700

pessoas estarão envolvidas em ações de conservação ambiental

lugar: apesar de ações de preservação, o Brasil lidera ranking de desmatamento

100

mil mudas serão produzidas a cada três meses na reserva

2,6

milhões de hectares são desmatados no país, segundo a ONU

“Nossa intenção é produzir para outras regiões da Bahia e até para outros estados do Brasil” BIASE SEABRA, coordenador de produção do projeto

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Verde não é só a cor do dólar Economia verde é uma expressão cunhada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para juntar, numa mesma atividade, produção eficiente e de alta performance, preocupação social, redução de danos ao ambiente e uso consciente e sustentável dos recursos naturais. Não é fácil. E o agronegócio, altamente impactado pela aceleração das mudanças climáticas no planeta, tem um papel ímpar na condução do desafio proposto por essa nova ordem mundial. Para Clarissa Lins, diretora executiva da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), a economia verde não está relacionada apenas ao meio ambiente e aos meios de produção. Ela lembra a importância dos direitos trabalhistas e da inclusão social responsável, que devem ser desenvolvidos junto com as outras práticas. A cultura de cana-de-açúcar pode ser um dos exemplos para a economia verde no Brasil, já que ela traz rentabilidade atrelada aos biocombustíveis, ou seja, energia limpa, e pode avançar nas questões trabalhistas. A especialista também vê um grande potencial do país nesse setor, com a possibilidade de desenvolver vários exemplos de sucesso. Outra cadeia que Clarissa exemplifica são as florestas plantadas. “Tem que apostar em certificação e demonstrar para todos que a empresa está agindo corretamente e que esta atitude vai ser melhor para a gente”, pondera. Outras estratégias que também precisam ser mais utilizadas, segundo Clarissa, são os investimentos em ferramentas de transparência e em relatórios de sustentabilidade. Pesquisadora do Centro de Estudos Integrados sobre Meio Ambiente e Mudança Climática - Centro Clima/ Coppe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Carolina Dubeux concorda com a visão de Clarissa de que o Brasil não perdeu o bonde da economia verde. “Surgiu há pouco tempo, mas parece que a economia brasileira já entendeu o recado e começou a se mexer”. Carolina diz que a economia fica cada vez mais verde à medida em que aumentam os níveis de produção e reduzem seus impactos ao meio ambiente. Ou seja, a produção vai aumentando com menos consumo de capital natural por unidade produzida, ou até mesmo

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com o aumento desse estoque, com menos poluição e mais bemestar. Portanto, para a pesquisadora, o país está indo na direção certa. “Resta saber se o passo é adequado, quais os setores que estão na vanguarda, quais estão mais devagar e o que deve ser feito para dinamizar esse processo. É certo que reduzindo o desmatamento, desenvolvendo técnicas agrícolas amigáveis ao meio ambiente e ao clima, em particular, como o plantio direto, a integração lavourapecuária, a fixação biológica de nitrogênio, entre outras, o Brasil já contribui sobremaneira para o clima e para sua própria economia”, resume Carolina.

*

Sequestro de carbono

Infográfico: Morgana Miranda

OS EFEITOS DO CLIMA NO NORDESTE

6

Diminuição das chuvas no Nordeste

22,5 mm por dia até 2100

milhões de hectares é a quantidade aproximada de florestas plantadas do país PERDAS AGRÍCOLAS

200

toneladas é a quantidade de CO2 que essas florestas sequestram por ano

25% REDUÇÃO NO SETOR DO MILHO Menos

14%

desse sequestro é feito pelas florestas da Bahia

REDUÇÃO NA CRIAÇÃO DE BOVINOS

R$ 1,5 bilhão por ano

RETROCESSO À PECUÁRIA DE BAIXO RENDIMENTO

15%

REDUÇÃO DA ÁREA PLANTADA até 2050

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Inovação é uma necessidade De acordo com estudos, ocorrerá um aumento da temperatura no Nordeste, com a redução das chuvas na região. Com essas mudanças, serão necessários ainda mais recursos voltados para a inovação tecnológica no setor agrário. Para Carolina Dubeux, da UFRJ, “isto vai requerer investimentos adicionais, porque não somente vamos precisar aumentar nossa produtividade, mas também desenvolver sementes mais resistentes, o que requer investimentos em modificação genética ou mesmo a introdução de novos cultivos mais adequados às novas condições climáticas que vão ocorrer no futuro”, explica. Para a pesquisadora, o que se tem no país são economias mais ou menos verdes e, nelas, setores mais ou menos verdes. Ela comenta sobre o desenvolvimento do setor sucroalcooleiro que, em grande parte, já é muito verde, com alta produtividade, com oferta de produtos amigáveis ao clima como o álcool e o bagaço para a geração elétrica. “Mas ainda há muito o que fazer”, conclui.

6 árvores

sequestram ciclo do eucalipto antes de ser cortado

Fonte: Abaf

Ciclo do Eucalipto

1 tonelada de CO2

em 7 anos

Infográfico: Morgana Miranda

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Busca pelo equilíbrio nas culturas Para o presidente da Associação Baiana das Empresas de Base Florestal (Abaf), Leonardo Genofre, a procura pelo equilíbrio é necessária e lembra a existência do ‘zoneamento ecológico econômico’, em que se analisa quais as culturas potenciais a serem desenvolvidas em cada município baiano. O zoneamento é uma iniciativa do governo do estado, que até o final de 2011 deve entregar o relatório com a análise do Litoral Norte e do Extremo Sul da Bahia. Um dos objetivos é equilibrar as demandas de terra para a produção de alimentos e outras culturas que formam o agronegócio. “Estamos atentos a inúmeros fatores. Nos preocupamos com a diversidade nos municípios, com o tempo de ocupação das florestas plantadas, seu manejo e temos um diálogo constante com a sociedade civil”, diz Genofre. O presidente da Abaf ressalta a importância das florestas plantadas no sequestro de carbono. Segundo Genofre, seis árvores plantadas são responsáveis por retirar uma tonelada de CO2 do meio ambiente em sete anos (o equivalente ao ciclo do eucalipto antes de ser cortado). “Hoje, temos em torno de seis milhões de hectares com florestas plantadas no país, que captam 200 toneladas de CO2 por hectare ao ano. A Bahia já é responsável por 14% desse sequestro”, exemplifica. Genofre reforça a importância dessa madeira ser certificada, ou seja, obedecer todos os critérios sustentáveis que respeitam o meio ambiente. Na Bahia, as empresas associadas à Abaf trabalham com dois selos: o internacional Forest Stewardship Council (FSC) e o selo brasileiro conduzido pelo Inmetro, Certificação Florestal (Cerflor). Outra janela de oportunidades para o Brasil é a realização do encontro Rio +20 em 2012 aqui. Por ser o país-sede, Clarissa Lins acredita que o Brasil pode aproveitar para mostrar suas experiências bem-sucedidas e discutir inovação, modelos de cidades e energia limpa. “Temos que mostrar que somos uma economia emergente e aberta a essa nova economia (verde)”, acrescenta a diretora da FBDS.

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Foto: Andrea Farias

Como avançar?

Bahia é a primeira a monitorar o ar no Nordeste

Estação monitora emissão de CO2 e outros gases poluentes, como monóxido de carbono

A capital baiana é a primeira cidade no Norte e no Nordeste e a segunda no país a realizar o monitoramento da qualidade do ar, um requisito para todas as sedes da Copa do Mundo de 2014. A primeira estação de monitoramento foi instalada em 2010 na avenida Luís Viana Filho (Paralela). De acordo com o governo estadual, até o final de 2011, a Bahia contará com uma rede de monitoramento para emissão de CO2, além de outros parâmetros, a exemplo de monóxido de carbono (CO), ozônio (O3), partículas inaláveis (PI), entre outros. A rede será composta por nove estações fixas e uma móvel. Desse total, cinco já estão em operação, localizadas nas avenidas Paralela e Juracy Magalhães Júnior (Lucaia), Campo Grande, Dique do Tororó e na sede da Secretaria de Planejamento (Seplan), também na Paralela. Iniciativa da Cetrel, a rede é resultado de um investimento de cerca de R$ 25 milhões. A população tem acesso aos dados sobre a qualidade do ar através de um totem com monitor de LED. Além disso, os resultados estão disponíveis, em tempo real, nos sites da Cetrel e do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema). A rede é controlada pela Braskem.

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O governo também assinou convênio com a Petrobras para possibilitar a medição de opacidade (fumaça preta) emitida por veículos movidos a diesel. Essa medida permite verificar se há a queima completa do combustível e, portanto, emissões mais baixas de CO2. A iniciativa integra ações do Plano de Controle de Poluição Veicular (PCPV) para a Bahia. Em sua primeira etapa, o PCPV contemplará os municípios de Salvador e os localizados em sua Região Metropolitana, além das cidades de Barreiras, Ilhéus, Juazeiro, Vitória da Conquista e Feira de Santana. O secretário do Meio Ambiente, Eugênio Spengler, disse que a medição é uma das ações previstas no PCPV, cujo objetivo principal é subsidiar a elaboração de programas e projetos voltados à melhoria da qualidade do ar nos grandes centros urbanos do estado. “Vamos identificar os tipos de poluentes lançados na atmosfera para escolher as ações ambientais que devemos desenvolver, tendo em vista a qualidade do ar”, avaliou. No PCPV da Bahia, foram relacionados alguns efeitos gerais provocados pelos principais gases gerados na combustão dos combustíveis fósseis. Segundo a Secretaria, estudos epidemiológicos têm demonstrado correlações entre a exposição aos poluentes atmosféricos e os efeitos de mortes causadas por sintomas respiratórios (asma, bronquite, enfisema pulmonar e câncer de pulmão) e cardiovasculares, mesmo quando as concentrações dos poluentes na atmosfera não ultrapassam os padrões de qualidade do ar vigentes. Os mais vulneráveis são as crianças, os idosos e as pessoas que já apresentam doenças respiratórias.

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Mais riquezas para a Bahia Responsável por 24% do Produto Interno Bruto (PIB), 37% das exportações e 30% dos empregos gerados na Bahia, o setor agropecuário aposta na industrialização para agregar valor às cadeias produtivas, reduzir a migração para os grandes centros urbanos e acabar com uma contradição que trava o desenvolvimento do setor e o crescimento do estado. “Estamos entre os maiores produtores de laranja, guaraná e algodão do país e não possuímos indústrias de processamento. Temos de partir para a agroindustrialização porque, definitivamente, a Bahia não pode ser mais apenas produtora e exportadora de matéria-prima”, admite o secretário estadual da Agricultura, Eduardo Salles. Para alavancar o processo industrial no estado, o diretor da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) e diretor executivo da Associação Baiana de Produtores de Florestas Plantadas (Abaf), Wilson Andrade, defende incentivos fiscais e investimentos em tecnologia. “Precisamos de um polo moveleiro e de fábricas para processar o milho e o algodão, por exemplo. Não adianta ter uma indústria isolada, precisamos fabricar produtos com alto valor agregado e isto somente vai acontecer quando implantarmos polos para vários setores”, defende. A Bahia tornou-se um dos mais importantes polos de produção de celulose do Brasil com o crescimento da área de florestas plantadas na região. Andrade afirmou, ainda, que o trabalho do governo estadual para atrair novas indústrias é importante. “Tudo o que for feito para trazer empregos e gerar divisas para o nosso estado terá o apoio dos empresários”, finalizou. No Oeste baiano há recordes de safras, mas a produção muitas vezes é industrializada fora do estado (confira gráfico). Para dar mais impulso à agroindustrialização da região foi assinado protocolo de intenções para construir um complexo industrial em Barreiras. O presidente da empresa Chongqing Dragonfly Oil, Hu Junlie, lançou recentemente a pedra fundamental da indústria Universo Verde, braço direito da empresa chinesa no Brasil - um 184

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investimento de R$ 300 milhões. Com capacidade para triturar 1,5 milhão de toneladas de soja por ano, quase 42% da produção anual da safra 2010/2011. Em Luis Eduardo Magalhães, outro setor ganha fôlego com a industrialização. A avícola Mauricéa vai abater inicialmente em sua unidade 150 mil frangos por dia e gerar 2 mil empregos diretos. “Nosso objetivo é verticalizar as cadeias produtivas, criar empregos e melhorar a qualidade de vida no campo”, afirmou Eduardo Salles. A Agroindústria do Vale do São Francisco (Agrovale) é uma das maiores empregadoras privadas da Bahia, com 4.360 funcionários. “Se a nossa empresa não estivesse funcionando em Juazeiro, muitos desses funcionários seriam obrigados a deixar a cidade para trabalhar em outros municípios ou até mesmo em outros estados”, lembra o diretor da Agrovale e também presidente do Conselho Nacional da Agroindústria (Coagro), Carlos Cavalcante Farias. “Além de gerar riquezas para pequenas e médias cidades, a agroindustrialização contribui para reduzir o inchaço nas metrópoles. Exerce um papel fundamental na redução das desigualdades sociais e nos índices de violência”, avalia Cavalcante. Segundo o presidente da Coagro, no entanto, a Bahia somente vai conseguir agregar valor à sua produção “quando investir em industrialização”.

“Além de gerar riquezas para pequenas e médias cidades, a agroindustrialização contribui para reduzir o inchaço nas metrópoles, as desigualdades sociais e os índices de violência” CARLOS FARIAS, presidente do Conselho Nacional da Agroindustria (Coagro)

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O DESTINO DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA BAIANA Café Leite Safra Bahia 1,2 bilhão de litros

Cacau Safra Bahia 142,8 toneladas

Indústrias instaladas

Área plantada 563.526 ha

Leitissima - Produção de leite Jaborandi

Indústrias instaladas

Destino da produção A Bahia importa 400 milhões de litros de leite por ano, pois há um défict entre produção/ consumo

Safra Bahia 2,2 milhões toneladas Área plantada 137 mil ha

Indústrias instaladas

Indústrias instaladas

Sara Lee - Torrefação de café - Salvador

Destino da produção

Destino da produção

Consumo no mercado interno e venda para o mercado do Sudeste, principalmente São Paulo

Soja

Milho

Safra Bahia 3,1 milhões toneladas

Safra Bahia 2,2 milhões de toneladas

Indústrias instaladas Não há indústrias implantadas*

Destino da produção Exportado para Alemanha e China e parte para São Paulo. Com a instalação da fábrica chinesa Universo Verde, 42% da produção será processada na Bahia

30% é processado na Bahia e o restante é encaminhado para países da América do Sul, principalmente

Área plantada 779,9 mil ha

Área plantada 12.198 ha Indústrias instaladas

Existe uma unidade industrial em construção

50% é processado na Bahia e o restante vai, in natura, para outros estados, especialmente Ceará, Pernambuco e Minas Gerais

Destino da produção Consumo in natura no mercado interno e alguns estados do Nordeste

Manga (São Francisco) Safra Bahia 472 toneladas

Safra Bahia 100 mil toneladas Área plantada 12 mil ha Indústrias instaladas

Área plantada 29.194 ha Indústrias instaladas Não há indústrias implantadas*

Não há indústrias implantadas*

Destino da produção

Destino da produção

30% é vendido no mercado interno e o restante é exportado para Europa e EUA

30% é vendido no mercado interno e o restante é exportado para Europa e EUA

Banana Safra Bahia 1 milhão de toneladas Indústrias instaladas Não há indústrias implantadas*

Destino da produção

Consumo in natura no mercado interno e alguns estados do Nordeste

Algodão

Mel / Pólen Produção

Safra Bahia 1 milhão de toneladas Área plantada 260,8 mil ha Indústrias instaladas

Safra Bahia 4 mil toneladas por ano Indústrias instaladas Unidade de Beneficiamento de Pólen - beneficiadora de pólen - Canavieiras Volume processado: 72 toneladas/ ano

Não há indústrias implantadas*

Destino da produção

Destino da produção

Consumo no mercado interno e outros estados, principalmente Piauí e Ceará

38% é vendido na Bahia e 62% é exportado para Indonésia, Coreia do Sul e China FONTE: SECRETARIA ESTADUAL DE AGRICULTURA E AIBA

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Destino da produção 40% é vendido na Bahia e boa parte do restante é encaminhado para Sergipe

Safra Bahia 266,7 toneladas

Coringa - Processadora de Milho Luis Eduardo Magalhães Volume processado: 300 mil toneladas Avícola Mauricea – Produção de ração Local Luis Eduardo Magalhães Volume processado: 300 mil toneladas

Destino da produção

Brasfrut - Processadora de laranja, produção de sucos Rio Real Volume processado: 100 mil ton/ano de laranja

Cebola

Indústrias instaladas

Uva (São Franscisco)

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Safra Bahia 987,8 mil toneladas Área plantada 71.876 ha

Há várias fábricas, como Chocolate Ibicaraí, Itacaré e Amma com processamento de chocolate e de amêndoa de cacau

Área plantada 1,016 milhão ha

Laranja

Fonte: Secretária Estadual de Agricultura e Aiba

EDITORIA DE ARTE/CORREIO

Infográfico: Wilton Santos

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Para secretário, legislação limita investimento Para o secretário Eduardo Salles, há um entrave para ampliar a agroindustrialização na Bahia. Parecer da Advocacia Geral da União (AGU), divulgado no ano passado, limita a venda de terras brasileiras a estrangeiros ou empresas brasileiras controladas por estrangeiros. Segundo o parecer, as empresas que têm esse perfil estão impedidas de comprar imóveis rurais com mais de 50 módulos - o tamanho varia entre 250 e 5 mil hectares, conforme a região. O advogado-geral da União, Luís Inácio Lucena Adams, alegou que entre as motivações da medida estão as recentes valorizações de commodities agrícolas, a escassez mundial de alimentos e a tendência de ampliação do mercado de biocombustíveis. Segundo ele, a decisão segue exemplo de outros países que impõem limites à compra de terras. Mas, para o secretário, essa decisão “trava os investimentos na agropecuária do estado”. Segundo Salles, cinco grandes empresas querem investir “milhares de dólares e euros” na Bahia, mas não o fazem por causa da legislação.

Polo Petroquímico mudou a economia baiana Diretor da Abaf, Wilson Andrade lembrou que a instalação do Polo Petroquímico de Camaçari, na década de 70, é um exemplo de uma verticalização industrial bem-sucedida. “O governo, grupos estrangeiros e empresários brasileiros tiveram todas as condições para realizar seus investimentos”, afirmou. Wilson Andrade disse, ainda, que os portos e as estradas que cortam a Bahia funcionam de forma precária. “O governo precisa resolver esses dois grandes gargalos para que os empresários tenham um estímulo a mais”. O otimismo demonstrado pelo secretário Eduardo Salles (Agricultura) em relação ao processo de industrialização do agronegócio reflete apenas parcialmente o pensamento de Wilson Andrade, um dos diretores da Federação das Indústrias do Estado da Bahia. “A iniciativa privada está disposta a participar de todo o processo, mas o governo precisa investir em infraestrutura e dar segurança jurídica às empresas”, afirmou.

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Madeira com pedigree Trocar o cimento, o ferro e a água por madeira certificada é uma das atitudes sustentáveis que a indústria da construção civil pode colocar na sua agenda. A madeira certificada tem origem responsável, sem agressão ao meio ambiente, e tem na Bahia um forte potencial. Segundo o presidente do Sindicato das Indústrias do Papel, Celulose, Papelão, Pasta de Madeira de Papel e Artefatos de Papel e Papelão no Estado da Bahia (Sindipacel), Jorge Cajazeira, o estado conta com a maior produtividade do mundo. Enquanto o eucalipto leva de 21 a 30 anos para amadurecer em outras regiões do planeta, na Bahia a mesma árvore leva de 5 a 6 anos para poder ser utilizada. “Nos EUA, grande parte das casas já é construída usando a madeira. Aqui no país tivemos um aumento, mas ainda está mais ligado à parte estética, como fachadas”, analisa Cajazeira. O presidente do Sindipacel diz ainda que falta na Bahia um incremento da cadeia produtiva da madeira, com a instalação, por exemplo, de serrarias e fábricas para a construção de portas, pilares e outros materiais. “Há uma boa oportunidade de negócios nessa área. Já que, em Salvador, em cada esquina tem uma obra”, lembra. Cajazeira acredita que não há mais resistência dos engenheiros e arquitetos em adotar a madeira na construção, mas reitera que falta estrutura para atender a demanda do produto. “Os preços também não são um empecilho, porque o que vejo são os empresários dizendo que o cimento e os outros materiais subiram. Como temos a disponibilidade da madeira no local, ela só iria baratear o custo para a construção civil”, assegura. Hoje, a Bahia já responde por 658 mil hectares de área plantada de eucalipto, situada no Sul do estado, o que representa 25% do total da produção de todo o país. Segundo Cajazeira, a maior parte do produto ainda é destinada à exportação de papel e celulose. “Somos o setor que mais contribui para as exportações na Bahia, passando a petroquímica”, reforça. O estudo Madeira - Uso Sustentável na Construção Civil, desenvolvido pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), reforça o uso da madeira certificada. De acordo com o texto, é essencial que os empresários prestem atenção não apenas na qualidade da madeira mas, principalmente, na sua origem. Para eles, o primeiro passo seria

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Fotos: Divulgação

As florestas plantadas são responsáveis pelo sequestro de carbono na atmosfera, ajudando a reduzir o aquecimento global e o desmatamento. Essa madeira certificada tem sido usada na construção civil. A Bahia tem a maior produtividade de eucalipto do mundo

fornecer informações aos empresários, o que motivou o estudo. Outra medida: “Adotar políticas de compras responsáveis, restringindo a aquisição de madeira de desmatamento e de fontes ilegais ou desconhecidas”. O diretor executivo da Associação Baiana de Produtores de Florestas Plantadas (Abaf), Wilson Andrade, acrescenta que esse estudo é referência no país e que a intenção da entidade é realizar a mesma pesquisa na Bahia. “Este é um programa muito intenso que mostra como a madeira deve ser utilizada de forma sustentável. A Abaf já está conversando com a Ademi-BA e com o Sinduscon-BA para montar o mesmo programa no estado”, comenta. Apesar de a entidade não ter dados sobre o uso da madeira na construção na Bahia, Andrade lembra que a quantidade de madeira utilizada pela construção civil não é pequena. Em São Paulo, o setor chega a utilizar 70% da madeira na área da construção.

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O diretor da Abaf lembra ainda que, além das diferentes regiões da Bahia que plantam eucalipto, o estado também se destaca no programa de consórcios, quando se planta a floresta em conjunto com outras atividades. É possível fazer isso com mais de 15 atividades, como grãos, mamona e até aumentar o espaçamento entre as árvores, possibilitando a pastagem de bois. “A conveniência do consórcio é que se alia uma safra de curto prazo com uma de longo prazo (como o eucalipto)”, analisa Andrade.

Fonte renovável com redução do efeito estufa Além de ser um produto de fonte renovável, o uso da madeira na construção civil também reforça o papel que as florestas plantadas têm no meio ambiente: reduzir o aquecimento global com a retirada do gás carbônico (CO2) da atmosfera. São as florestas que captam esse gás, que contribui com o efeito estufa, e devolvem ao meio ambiente o oxigênio. Segundo estudo da Abaf, as florestas se constituem numa maneira racional e econômica de reduzir os 28 bilhões de toneladas/ano de CO2 que são jogados no ar do planeta, fruto da queima de combustíveis. “Atualmente, o maciço de florestas plantadas no Brasil absorve um bilhão de toneladas/ano de CO2, e mais de 10% desse sequestro é absorvido pelas florestas plantadas da Bahia. Estima-se que o sequestro de carbono pelas florestas baianas seja da ordem de 120 milhões de toneladas/ ano”, informa.

Jorge Cajazeira: madeira certificada para construção civil Foto: Divulgação

Andrade conta ainda que as empresas também têm outro papel fundamental na preservação da mata natural. “Na Bahia, cerca de 350 mil hectares que pertencem às empresas são áreas preservadas”, acrescenta. E isso é possível pelo salto que o setor vem dando no quesito de tecnologia que, segundo o diretor da Abaf, tem permitido o avanço da produtividade, ou seja, plantar mais em um menor espaço de terra. “Para o maior desenvolvimento do setor, ainda iremos investir cerca de R$ 10 bilhões nos próximos 10 anos. É uma área com potencial de crescimento de 7% ao ano”, acrescentou o diretor da Abaf.

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Solo e clima baiano permitem maior produtividade A introdução do gênero Eucalyptus no Brasil ocorreu no início do século XIX, com evidências de que as primeiras árvores teriam sido plantadas em 1825, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Até o início do século passado, o eucalipto foi plantado com a finalidade de ornamentação ou para servir de quebra-ventos, pelo seu extraordinário desenvolvimento. Na Bahia, o eucalipto encontrou o seu habitat. A sua produtividade média no país é de 44 m³/ hectare/ano, mas as condições favoráveis de solo e clima permitem que no estado ele apresente a maior produtividade do país e do mundo, atingindo até 65 m³/ hectares/ano. Hoje, a madeira de eucalipto serve para uma série de finalidades. Além do uso tradicional, como lenha, estacas, carvão vegetal, celulose e papel, chapas de fibras e de partículas, há uma forte tendência em utilizá-la para outros fins, como a fabricação de casas e móveis. Quando se considera o território nacional, o eucalipto ainda não corresponde a 1% da área de florestas plantadas, o que garante que não há uma concentração desse tipo de floresta. As empresas também têm que obedecer uma legislação que não permite que mais de 20% do território municipal seja ocupado com essa atividade.

“Na Bahia, quase 350 mil hectares que pertencem às empresas são áreas preservadas” WILSON ANDRADE, diretor da Abaf

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Planeta sustentável Diante do grande crescimento populacional registrado nos últimos anos, o diretor-presidente da Veracel, Antonio Sergio Alipio, disse que as pessoas e as empresas terão de adotar a ecoeficiência para atender toda a demanda pelo consumo. “Teremos de repensar a engenharia dos processos produtivos, reduzir o consumo de insumos, reciclar e reutilizar os materiais”, afirmou o executivo, em sua palestra no terceiro seminário do Agenda Bahia 2011, no auditório da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb). De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), em outubro, o mundo atingiria a marca de 7 bilhões de pessoas. “O nosso grande desafio é conservar a qualidade de vida e, ao mesmo tempo, deixar para as gerações futuras um planeta mais sustentável”, disse Antonio Alipio, que também é presidente da Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas (Abraf). Antonio Alipio lembrou que os 7 bilhões de habitantes do planeta precisam de uma infraestrutura básica para viver com dignidade. “Todos necessitam de lazer, transporte, água, alimentos, moradia, educação, emprego e renda”. Ao mesmo tempo, a explosão demográfica traz muitos impactos negativos. “Vamos conviver mais com lixo, poluição, aquecimento global, degradação ambiental, refugiados ambientais e desigualdades sociais”, afirmou. “É evidente que os desafios são muito grandes, mas, como sou otimista, acredito que o mundo pode melhorar em todos os aspectos. Temos de fazer a nossa parte, isso é o mais importante nesse momento”. Como exemplo de contraste social, Antonio Sergio Alipio lembrou que entre 2 e 3 bilhões de pessoas em todo o mundo têm na madeira a principal ou a única fonte de energia em suas residências. “Isso é inacreditável, ainda mais se levarmos em consideração as grandes transformações tecnológicas registradas nas últimas décadas”, acrescentou. Na opinião do presidente da Veracel, o setor de florestas plantadas no Brasil é um exemplo de sustentabilidade. “No nosso país, 100% do papel produzido vem de florestas plantadas. É importante lembrar também que o plantio de árvores é a melhor alternativa para fazer o sequestro de CO2”, disse Alipio.

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Como avançar?

- Buscar gestão ecoeficiente: repensar engenharia de processos, reduzir consumo de insumos; reutilizar materiais no próprio processo e reciclar e gerar produtos para outras cadeias do negócio; - Floresta de alimentos é oportunidade para a Mata Atlântica, com o plantio de inhame, mandioca, palmito juçara e também produção de mel de abelhas nativas; - Estímulo à agricultura familiar nas florestas de eucalipto

Foto: Robson Mendes

O diretor-presidente da Veracel deu mais dois exemplos de sustentabilidade do setor para os participantes do Agenda Bahia 2011 – o tema do seminário foi Agronegócio. “Depois de muitas pesquisas, conseguimos reutilizar 40% da água empregada na fabricação de celulose e de papel e somos autossuficientes em energia elétrica, o que significa que trabalhamos de forma consciente e equilibrada”.

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Indústria florestal

100%

do papel produzido no Brasil vem de florestas plantadas

40%

da água usada pela Veracel na fabricação de papel e celulose são reutilizadas

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Como gerenciar ecossistemas

1 Medir, gerenciar e mitigar riscos e impactos. 2 Melhorar a tomada de decisões, assegurando a avaliação

corporativa dos ecossistemas para quantificar riscos e oportunidades de negócios.

3 Inovar o desenvolvimento de novos mercados, com foco

em serviços para o ecossistema e em produtos e tecnologias ecoeficientes.

4 Estimular fornecedores e compradores a adotar melhores práticas.

5 Parcerias para discutir problemas locais. 6

Promover regulamentação atual e flexível para a proteção dos ecossistemas.

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O Brasil no caminho certo Entrevista com Antonio Sergio Alípio O diretor-presidente da Veracel e presidente da Abraf, Antonio Sergio Alípio, acredita que o país está na trilha certa do desenvolvimento sustentável. Natural de Santos, o engenheiro florestal formado pela Universidade Rural do Rio de Janeiro aposta no diferencial competitivo brasileiro da indústria florestal para superar a crise econômica mundial e para contribuir com o fortalecimento de uma economia verde, que reduza os efeitos do aquecimento global. Alípio conversou com o diretor de Redação do Correio, Sergio Costa, e a editora-executiva de Conteúdo do Agenda Bahia, Rachel Vita. Com o crescente envolvimento das empresas na necessidade de construir uma economia sustentável, o senhor acredita que é possível realmente contribuir para a redução do efeito estufa na Terra? Sem dúvida nenhuma. Vamos atingir agora em outubro (2011) a marca de sete bilhões de pessoas no planeta. Segundo a (revista) National Geographic, essa criança, o sétimo bilionésimo habitante do planeta, tem grandes possibilidades de nascer na Índia. Seremos sete bilhões que precisam de alimentação, de água, de moradia, educação, emprego e renda. Tudo isso impacta diretamente no ambiente, gerando lixo, poluição, efeito estufa, aquecimento global, degradação. As empresas podem contribuir, sim, nos seus processos, mas existe uma outra questão maior do que esta, que é de como essas sete bilhões de pessoas vão encarar o seu consumo. O que a Índia, a China, o Brasil, a América Latina querem? Ter um padrão de qualidade de vida de país desenvolvido, ou seja, padrão de consumo norte-americano, europeu. Isso significa que, se o modelo for o mesmo, teremos sete bilhões objetivando os mesmos padrões de consumo que trouxeram os resultados que todos sabem. A industrialização foi importante, mas trouxe também o efeito estufa. Ou seja, além das empresas, nós temos um grande desafio, que é o crescimento populacional e o estabelecimento de um novo padrão de consumo. O senhor fala na criação de uma nova cultura? A relação é mais ou menos assim: a Europa, os EUA, o Japão representam 20% da população mundial e consomem 80% da produção. Imagine se os outros 80% de habitantes mantiverem o mesmo nível de consumo dos 20%. Não há água que dê

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conta, nem alimento, papel, nada. Isso tudo cria impactos que serão dirigidos para o meio ambiente. Vamos ter que trabalhar dentro das empresas, mas também num modelo de educação sobre a necessidade de criar novos padrões de consumo. Qual a contribuição da indústria florestal neste cenário? A primeira coisa é que 100% do papel e da celulose produzidos no Brasil vêm de florestas plantadas para essa finalidade e estão sendo colhidas para essa finalidade. Diferentemente de outros produtores no mundo, que ainda têm nas suas florestas nativas fontes de suprimento para essa produção. Empresas como a Veracel são autossuficientes na geração de energia elétrica, usando resíduos de nossa produção que são orgânicos e, por consequência, renováveis. O excedente de energia gerada, que nós vendemos para o grid nacional, é capaz de abastecer uma cidade de 400 mil habitantes. Na Veracel, 85% de nossos resíduos são transformados em fertilizantes orgânicos, 50% usados no plantio de nossas florestas e a outra metade supre o mercado regional para a produção agrícola. Outra característica importante, do ponto de vista ambiental, é que temos toda a nossa produção de celulose transportada por via marítima. Isso significa redução do volume de carretas transportando a produção por nossas estradas e da emissão de CO2. E, por fim, o plantio de florestas é a melhor forma de fazer o sequestro de CO2. Você produz a muda, planta a árvore - que ao crescer sequestra CO2 -, esse CO2 é transferido para a produção de papel e continua estocado no papel que é reciclado. Ou seja, não é devolvido ao meio ambiente em forma de queima. É um ciclo muito sustentável de produção e um exemplo de economia verde.

Foto: Andrea Farias

“Nós temos um grande desafio que é o crescimento populacional e o estabelecimento de um novo padrão de consumo”

Existe a possibilidade do sequestro de carbono se transformar na atividade principal da indústria florestal? Se você considerar esta questão do ponto de

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vista da humanidade, eu diria que é já. O que falta ser feito para reverter esse quadro complicado da mudança climática, principalmente no Brasil? Tudo começa com o estabelecimento de acordos internacionais que se traduzem em políticas públicas. Por exemplo, cada país já assumiu suas metas de redução de emissão de CO2 na linha do tempo. Estamos discutindo, neste momento, o novo código florestal. Cheio de polêmicas, não? Como tudo que é complexo e visa beneficiar a sociedade como um todo. A discussão por si só já é positiva, diante do quadro atual para um código produzido na década de 60, quando o planeta vivia uma outra realidade. Sua nova versão traz uma discussão sobre os serviços ambientais. É preciso que as sociedades se conscientizem que, de alguma forma, elas precisam remunerar os serviços ambientais, criar incentivos à preservação do meio ambiente e esta é uma questão que já está clara para a maioria. Quando o cidadão faz um despejo seletivo do seu lixo está dando contribuição importante para a preservação do meio ambiente. O senhor acha que o Brasil está no caminho certo? Sem dúvida. O país tem know how, tem expertise, tem gestão na área florestal. Mas, ao mesmo tempo, a gente sabe que a maior parte das contribuições para o aumento do efeito estufa vem do desmatamento de florestas nativas. Como é o caso no Norte, especificamente na Amazônia. O Brasil tem compromissos internacionais de redução desse desmatamento. Para nós, parece uma questão óbvia, mas temos que lembrar que há uma população muito grande vivendo no entorno dessas florestas e que o desenvolvimento ambiental não pode estar dissociado de desenvolvimento social. Muita gente vive da - ou próximo à - floresta. No Agenda Bahia de 2010, a Veracel assumiu a vanguarda da necessidade de adoção do ICMS verde na região do Sul baiano, como forma de incentivar o desenvolvimento e a preservação. Em que pé está esse projeto? O debate avançou, mas ainda não temos estabelecida no estado da Bahia a criação do ICMS ecológico, que estimula, através de uma melhor distribuição do imposto, ações de conservação e preservação ambiental dos municípios e para o desenvolvimento urbano, como coleta seletiva, aterros sanitários, educação ambiental nas escolas. Diversas ações são contempladas, além da preservação de área nativa. O projeto está em vias de ser aprovado pela Assembleia. 197

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Hoje, apenas meio por cento do território baiano tem florestas plantadas. A Veracel pretende aumentar sua participação em florestas no estado? Estamos em processo de licenciamento ambiental para duplicar nossa fábrica no Sul da Bahia, o que significará também um aumento da base florestal plantada e o consequente aumento da área preservada no Sul da Bahia, pela relação de um hectare plantado para um preservado que eu falei no início. A duplicação da fábrica será acompanhada da duplicação da área plantada? Não. Nossos ganhos de produtividade florestal obtidos nos últimos sete anos não exigem isso. Podemos produzir de forma mais sustentável, exigindo menos da terra. Vamos dobrar a produção industrial, mas não vamos dobrar a produção florestal.

“Com relação a florestas plantadas, o Brasil tem vantagem em relação aos nossos concorrentes”

Vamos falar então de oportunidades. O que a Bahia pode fazer em meio à crise para se diferenciar e crescer? Quando a gente fala em florestas plantadas, o Brasil tem uma vantagem grande em relação aos nossos concorrentes internacionais. A Bahia, em particular, tem um posicionamento no país bastante importante e interessante. Nossa produção de madeira em média é em torno de 40 metros cúbicos por hectare por ano. É o indicador. O ciclo de colheita é em torno de sete anos. Na Escandinávia, tradicionais produtores de celulose e papel, a produtividade é de cinco metros cúbicos por hectare num ciclo de 35 anos. Nós já saímos com uma vantagem comparativa muito grande. Evidentemente, que temos outras desvantagens: o chamado custo Brasil e o consumo reduzido aqui e o custo de logística para transportar o produto até a Europa. Temos tecnologia, capacidade empreendedora, gestão e equilíbrio. E a Bahia pela produtividade, que é 20% ainda maior que a do Brasil: são 50 metros cúbicos por hectare. Quando o senhor fala que o consumo da Europa de papel é seis vezes maior que o do Brasil, o que faz diferença nesta conta? Quando falamos de consumo de papel, nos referimos a três tipos: os papéis sanitários (papel higiênico, lenços, fraldas, guardanapos, etc), o papel de imprimir e escrever, e os especiais, que são os de revistas, livros, jornais. Em qualquer um desses segmentos, o fator preponderante é poder aquisitivo e cultura. No Brasil se lê menos que na Europa e nos EUA. Ainda temos outras prioridades. A mesma coisa acontece na Índia e na China. O consumo de papel é um forte indicador do grau de desenvolvimento do país. Nosso consumo relativamente baixo indica um gap de desenvolvimento.

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Hora de acelerar O Brasil pode dar um impulso à sua agenda ambiental e conseguir implementar negócios sustentáveis. A avaliação é do consultor em Gestão Ambiental Claudio Langone, coordenador da Câmara de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Copa de 2014 do Ministério do Esporte. “O Brasil estará sendo observado por todo o mundo”, disse ele, ao falar em sua palestra sobre Economia Verde: Novas Maneiras de Fazer Negócio, no Agenda Bahia 2011. “A discussão é se conseguimos acelerar e pular alguns passos em torno dessa dinâmica”, questiona. Entre fins de maio e início de junho de 2012, o país vai abrigar a Rio+20, conferência mundial para discutir as questões ligadas à economia verde e ao desenvolvimento sustentável. Esse é o primeiro dos grandes eventos a serem realizados no país nos próximos cinco anos: em 2013, haverá a Copa das Confederações, seguida da Copa do Mundo, em 2014. Em 2015 será a vez da Copa América e, em 2016, a Olimpíada.

Desafios

- Desenvolver transporte público, com combustível verde - Dar destinação final ao lixo das cidades - Definir qual padrão ideal de consumo - “No Minha Casa Minha Vida, o governo incentivou a construção de energia solar. Mas, ao mesmo tempo, deu isenção para chuveiro elétrico”, criticou

Langone chamou a atenção para duas questões básicas que o Brasil ainda não resolveu: a da mobilidade nas grandes e médias cidades e a questão da destinação final dos resíduos.

Foto: Robson Mendes

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“Estamos vivendo quase um colapso, não só nas grandes cidades, mas também naquelas situadas nas regiões metropolitanas e as de porte médio, devido ao aumento da frota de carros particulares a um nível que a própria indústria automobilística não vai mais conseguir vender carro, se mantido esse padrão”. A solução óbvia para isso, acentuou Langone, é o investimento em transporte público. E aí ele vê uma oportunidade para o país e para a Bahia - avançar em termos de sustentabilidade. “Vamos usar diesel no novo transporte público ou mudar para o biodiesel, que não é poluente?”, indaga. Na questão dos resíduos, especificamente da destinação Como final do lixo urbano, ele sugeriu a criação de normas regulatórias - por exemplo, até 2014, nenhuma avançar? cidade brasileira poderá ter lixão - ou premiação - Investir no transporte por performance. Isso aconteceria, de acordo público sustentável com a sugestão, mediante a criação de linhas de - Estabelecer prazos para que as administrações públicas solucionem a financiamento especiais do BNDES para projetos questão dos lixões das cidades sustentáveis de destinação final do lixo. - Estimular negócios gerados pela economia verde - Incentivar energias limpas e produtos orgânicos

Langone citou Pituaçu, em Salvador, como exemplo do que deve acontecer nos 12 estádios que estão sendo reformados ou construídos. O uso da energia solar adotado por Pituaçu deve ser copiado pelos outros estádios, que estão triturando o próprio entulho e reutilizando na obra.

O especialista disse que as construções devem seguir um padrão mínimo de sustentabilidade e, para isso, o Brasil adotou um modelo de certificação. Na área de promoção dos produtos brasileiros resultantes da economia verde, como os orgânicos, Langone vê excelentes oportunidades. Para aproveitá-las, ele acha que o Brasil deverá determinar que sejam vendidos e também oferecidos em hotéis, restaurantes e lojas, indo desde produtos de higiene a alimentos e até a cachaça usada para fazer a caipirinha. “Temos que aproveitar essa janela de oportunidades, porque haverá um público já acostumado a consumir esses produtos e a pagar mais por isso”, disse.

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Muito além do meio ambiente Desafios - As empresas devem ter postura sustentável de acordo com padrões nacionais e internacionais - Divulgar relatórios de sustentabilidade e trabalhar com transparência - Aproveitar potencialidades do país, respeitando o ambiente

Ser uma empresa sustentável não é apenas ter uma postura de cuidados com o meio ambiente, mas também envolve preocupações com a questão social, com o atendimento aos clientes, aos fornecedores, análise dos concorrentes, dos bancos e seguradoras, dentre outros critérios. Na sua apresentação, Sustentabilidade e Responsabilidade Social Corporativa nas Empresas, o vice-presidente da Câmara de Comércio Internacional (CCI) e presidente da Comissão de Desenvolvimento Sustentável e Energia da CCI, Marcelo Vianna, lembrou que os cuidados com a sustentabilidade já mudaram muito nos últimos anos. Segundo ele, antigamente, quando uma grande empresa comprava um terreno, inclusive no meio da floresta, se preocupava mais com o tamanho do que com o impacto ambiental. “Hoje, temos uma visão diferente do que é este controle ambiental”, alerta.

Foto: Robson Mendes

Marcelo Vianna revela que as empresas hoje são mais cuidadosas em emitirem seus relatórios de sustentabilidade e os consumidores também estão mais atentos sobre os produtos e serviços que estão contratando. Porém, os cuidados também se dão dentro das empresas. Também consultor, Vianna lembra que, recentemente, uma empresa alemã queria comprar produtos de uma empresa brasileira, mas uma ONG, também alemã, chamou a atenção da companhia para um fato: a empresa brasileira estava vinculada ao trabalho escravo. Conclusão, o negócio não foi fechado. “Eles compravam carvão de uma carvoaria em que homens, mulheres e filhos ajudavam a carregar carvão”, conta Vianna. Dentro dos procedimentos internacionais, uma empresa não pode contratar crianças, o que se configura como trabalho infantil e escravo. Nesse ponto, Vianna chama a atenção que as normas e os

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padrões postos são internacionais e as empresas brasileiras precisam seguir essas regras para competir no mercado global. O especialista também lembra que há outras exigências das instituições financeiras signatárias dos Princípios do Equador, que prevê o atendimento e cumprimento de normas e padrões ambientais. Um exemplo é se a empresa seguir padrões sustentáveis ela pode conseguir de 10% a 20% de descontos em um financiamento. “Os bancos são corresponsáveis pelo dinheiro que estão emprestando e, por isso, as empresas têm que cumprir legislações nacionais e internacionais”, afirma Vianna. Atualmente, 67 instituições bancárias de 23 países são signatárias desse acordo.

“Os bancos são corresponsáveis pelo dinheiro que emprestam e, por isso, as empresas têm que cumprir legislações”

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Retorno imediato

67

instituições bancárias de 23 países são signatárias do Princípio do Equador

20%

é o percentual que uma empresa pode ter de desconto em financiamentos, caso seja sustentável

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agronegócio Sergio Costa, Leonardo Genofre, Claudio Langone, Antonio Alípio e Marcelo Vianna Foto: Robson Mendes

Pacto pela Bahia Os quatro debatedores que encerraram o seminário Agenda Bahia 2011 do dia 14 de setembro têm a mesma opinião: a Rio+20 (Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável), que será realizada em 2012 pode beneficiar a Bahia se o estado, a sociedade civil e os empresários souberem aproveitar as oportunidades. Respondendo a uma pergunta do moderador Sergio Costa, diretor de Redação do Correio, Antonio Sergio Alipio, diretorpresidente da Veracel, Leonardo Genofre, presidente da Abaf, Marcelo Vianna, vice-presidente da Câmara de Comércio Internacional, e Claudio Langone, diretor da Paradigma, afirmaram que a Bahia precisa aproveitar as oportunidades que serão criadas pela Rio+20 e por outros grandes eventos esportivos. “Essa é uma oportunidade rara, talvez única, para a Bahia atrair novos investimentos e dar um grande salto em seu desenvolvimento”, disse Antonio Alipio. Para Claudio Langone, nesse momento devem ser apresentados projetos que têm condições de serem identificados nessa transição para a economia verde. O debate Bahia + 20: Por uma Agenda Sustentável, visou iniciar uma discussão no estado sobre ações que poderão ser apresentadas na Rio+20. Marcelo Vianna defendeu que a Bahia precisa diagnosticar os seus problemas e resolvê-los. Leonardo Genofre lembrou que o estado tem grande potencial de resposta ao sequestro de carbono, reduzindo o impacto do efeito estufa, através das florestas plantadas. Langone concluiu que neste momento é necessário avançar. 203

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Chance para a Bahia ser protagonista Presidente da Abaf, Leonardo Genofre afirmou que a Bahia precisa assumir o papel de protagonista para aproveitar as oportunidades que a Conferência Rio+20 vai proporcionar ao Brasil. “É preciso reunir as cadeias produtivas, o estado, a sociedade civil e definir metas e compromissos. Sem isso (a Bahia) não vai para lugar nenhum”, afirmou. Genofre também defendeu investimentos em infraestrutura no estado e disse que os pequenos produtores precisam participar dos projetos de desenvolvimento sustentável como parceiros. “Preservar (o meio ambiente) não é algo apenas para entrar no mercado internacional, mas um negócio em si”, disse. Segundo o presidente da Abaf, “o sucesso da Bahia precisa vir à luz”. “O estado precisa mostrar a sua cara. A Bahia pode ter posições e diretrizes próprias em relação ao desenvolvimento sustentável”, acrescentou. Em sua opinião, os eventos esportivos e a Rio+20, que serão realizados no Brasil nos próximos anos, vão colocar o país em uma posição de destaque. “Temos de aproveitar esta oportunidade”.

Genofre defendeu investimentos e metas

Mais valor sustentável para os produtos Diretor da Paradigma e coordenador das Câmaras Sustentáveis da Copa de 2014 do Ministério do Esporte, Claudio Langone afirmou que a Bahia precisa agregar valor à cadeia produtiva para ganhar mais respeito na comunidade internacional. “O que serve para a Bahia serve para o Brasil. Estamos em um processo de transformações muito rápidas. Ou conseguimos nos antecipar às tendências ou vamos de carona”, observou. Para ele, a Bahia é um estado “muito pujante” no país. E deve criar linhas alternativas para se destacar no cenário internacional, especialmente neste momento de discussão da Rio+20. “No cacau, por exemplo, como podemos agregar valor? Com comércio justo, sendo bom e orgânico. Vale também para fruticultura, etc”, revelou.

Langone: Bahia deve se antecipar às tendências Fotos: Robson Mendes

Segundo Claudio Langone, que foi vice-ministro do Meio Ambiente, faltam “projetos interessantes” sobre desenvolvimento sustentável: “Em vez de projetos, convivemos com uma frota que emite muita poluição”.

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Atenção às pequenas e médias empresas Outro participante do debate, Marcelo Vianna disse que as empresas precisam seguir os requisitos nacionais e internacionais para se consolidar no mercado sustentável, que está cada vez mais competitivo. “Não existe meio-termo. Ou a empresa é sustentável ou não é”, disse Vianna, que é vice-presidente da Câmara de Comércio Internacional (CCI). Segundo Marcelo Vianna, as pequenas e médias empresas precisam receber uma atenção especial das autoridades.

Vianna: regras internacionais para ser sustentável Fotos: Robson Mendes

“O Brasil e a maior parte do mundo não são feitos de grandes empresas”, acrescentou o executivo, que também é presidente da Comissão de Desenvolvimento Sustentável e Energia da CCI. Vianna disse, ainda, que a Rio+20 vai abrir muitas oportunidades no Brasil. “As empresas que estiverem preparadas certamente vão colher resultados excepcionais, porque seremos observados por empresários e chefes de Estado de vários países”, disse Vianna. “A alternativa, portanto, é investir em produtos sustentávels”.

Tecnologia a favor do meio ambiente O diretor-presidente da Veracel, Antonio Sergio Alipio, afirmou, durante o debate, que a Rio+20 é a grande oportunidade para o Brasil reafirmar ao mundo que tem tecnologia, expertise e eficiência em gestão ambiental. “Temos problemas de infraestrutura, é verdade, mas, ao mesmo tempo, sabemos trabalhar com muita eficiência a questão ambiental”, afirmou.

Alípio: grande oportunidade com a Rio + 20

Alipio também disse que os setores público e privado precisam operar em conjunto para identificar os caminhos que devem ser seguidos. “A sociedade evoluiu muito e as exigências são bem maiores do que há alguns anos. Quem tem metas a cumprir e deseja um mundo melhor para as próximas gerações precisa estar sintonizado com esta nova onda”, disse o diretor-presidente da Veracel, empresa que investiu US$ 1,2 bilhão para implantar a sua unidade na Bahia. Segundo Antonio Sergio Alipio, os eventos internacionais que vão acontecer no Brasil até 2016 vão “mudar a cara” do país. “Quem souber surfar nessa onda de empreendimentos vai se destacar muito”, lembrou. 205

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Indústria caminha para o interior Infográfico: Indústria caminha para o interior

A indústria na Bahia ainda é espacialmente concentrada, com maior incidência na RMS. Aos poucos, porém, regiões como o Oeste, Extremo Sul, Sul do Estado e Feira de Santana atraem importantes investimentos.

Oeste Baiano (Barreiras e Luis Eduardo)

3,9%

Centro Industrial de Aratu Simões Filho/Candeias Empresas dos ramos químico, plástico, têxtil, metal-mecânica, alimentos, metalurgia

Juazeiro

2,7%

Centro Industrial de Subaé Feira de Santana – Empresas dos ramos metalúrgico, embalagens, borracha, alimentos, bebidas

Feira de Santana

5,5%

RMS

Recôncavo

41,7%

9,1%

Centro Industrial de Barreiras

Vitória da Conquista

3,4%

Empresas dos ramos de alimentos, bebidas e processamento de grãos

Litoral Sul (Ilhéus-Itabuna)

4,4%

Polo Industrial de Camaçari Principais empresas: Ford, Caraíba, Braskem

Centro Industrial de Ilhéus

PIB industrial por região do estado

Sedia o Polo de Informática. Tem também empresas de alimentos, bebidas, borracha e de telecomunicações

Principais polos industriais instalados

Textos: SCI FIEB | Ilustrações: Bamboo Editora

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eias s xtil,

Bahia (2008) PIB por atividade econômica

63,4% 8,5%

Comércio e Serviços

28,1%

Indústria Agricultura e Pecuária

ia

Uma breve história do tempo 1950

1967

1978

1982

Refinaria Landulpho Alves (Madre de Deus)

Centro Industrial de Aratu (Simões Filho /Candeias)

Polo Petroquímico (Camaçari)

Caraíba Metais (Dias D’Ávila)

2001

2005

2007

Complexo Ford (Camaçari)

Veracel (Extremo Sul)

Duplicação da Bahia Sul (Extremo Sul) Fonte: Fieb Arte: Bamboo editora

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O PODER DA NATUREZA As fábricas e o ser humano, através da respiração, liberam CO2 no ar, que é um dos gases responsáveis pelo aquecimento global As árvores promovem o sequestro de CO2, ou seja, elas o devoram, utilizam-no para se nutrir e, assim, diminuem a poluição do ar

Infográfico: O poder da natureza

3,85

É o suficiente para neutralizar as emissões anuais de um ônibus que trafega

TONELADAS / ano

libe

ra

10

s ab

MIL METROS

de floresta Atlântica, por exemplo, sequestram, de dióxido de carbono, cerca de

or ve

CO2

O2

16

libera

oxigênio

QUILÔMETROS/dia

O PODER DO HOMEM Protocolo de Kyoto é um acordo internacional, assinado em 1997, de combate ao efeito estufa e também criou formas de desenvolvimento sustentável para proteger o meio ambiente. Países como o Japão e integrantes da União Europeia têm obrigação de reduzir as emissões de gases prejudiciais à atmosfera, como CO2, em 5,2%, entre 2008 e 2012. Esses países podem comprar de países em desenvolvimento crédito de carbono, certificados para pessoas ou empresas que reduziram a emissão desses gases nocivos ao planeta

Pela convenção:

1

CRÉDITO DE CARBONO

=1

TONELADA DE CO2

84

PAÍSES ASSINARAM O ACORDO

P

Os ass aco rat ale eco am afe

Infográfico: Morgana Miranda

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Hoje, o maciço de florestas plantadas no Brasil absorve de CO2

1

BILHÃO DE TONELADAS/ano

e mais de 10% desse sequestro é absorvido pelas florestas plantadas da Bahia

10%

Estima-se que o sequestro de carbono pelas florestas baianas seja da ordem de

120

MILHÕES DE TONELADAS/ano

Por que as florestas são consideradas os pulmões do mundo? Cada árvore, além de retirar o gás carbônico de circulação, libera oxigênio. Para processar a energia solar, ela precisa da água, captada no solo pelas raízes. E, ao transpirar, grande parte da água que ela retirou da terra é bombeada para a copa e evapora através das folhas. É isso que traz aquela deliciosa sensação de frescor nos locais arborizados

!

!

POLÊMICA

POLÊMICA Os Estados Unidos assinaram tarde o acordo e não ratificaram, alegando que a economia americana seria afetada

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Apesar de não fazer parte do acordo, o Brasil instituiu, em 2009, redução das emissões de gases de efeito estufa entre 36,1% e 38,9% até 2020.

A China está no bloco dos países em desenvolvimento, desobrigados de reduzir a emissão. Junto com os Estados Unidos, ela lidera a produção de gases prejudiciais

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agronegócio

Brasil não aproveita todo o seu potencial agrícola Ao analisar o futuro do agronegócio brasileiro frente a outros grandes produtores mundiais, o economista Alexandre Mendonça de Barros, diretor da consultoria MBAgro, previu que o país vai ter grandes oportunidades no mercado internacional a médio e longo prazos. “Já estamos nos tornando o maior saldo comercial agrícola do mundo”, frisou. Os maiores déficits nesta área são do Japão, China e Índia que, de resto, não têm mais como aumentar significativamente sua produtividade, muito menos a área plantada. Apesar disso, Mendonça de Barros - que abriu o terceiro seminário do Agenda Bahia2011 com a palestra Crise Mundial e seus Efeitos nos Mercados Agrícolas e na Industrialização - disse que o Brasil não tem usufruído de todo o seu potencial na área agrícola, proporcionado pela presença, aqui, de terra, água e sol em abundância, os atributos mais relevantes para a agricultura. Segundo ele, a área plantada no país é praticamente a mesma desde 1984. Não houve ampliação de área, apenas de produtividade, lembra Mendonça de Barros, o que significa um grande potencial de crescimento. Mesmo assim, disse o economista, ainda persiste o desafio tecnológico nas áreas de fronteira agrícola - que não contam com variedades de grãos e outros produtos adequados ao clima e às condições locais – e a falta de infraestrutura, especialmente de portos. “É preciso ter logística, é preciso ter porto. Tem que estar antenado, conectado com o resto do mundo para aproveitar nossas vantagens comparativas”, alertou. As críticas sobre a falta de logística se estenderam à Bahia que, na sua avaliação, tem uma situação geográfica excelente para o escoamento da produção, uma grande base florestal no Sul do estado e uma boa produção de soja, milho e algodão no Oeste, além de um dos maiores rebanhos bovinos do país. Com isso, o estado já tem alcançado indiretamente um bom nível de industrialização na área de grãos, já que o milho e a soja, comercializados como ração para produtores de frangos e suínos, transformam a proteína vegetal em animal. “A cadeia 210

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agronegócio

de proteína animal tem um mercado consumidor forte. Isso está na mão”, destacou. No caso da pecuária, Mendonça de Barros salientou que falta formar a cadeia de carne vermelha, e aí o problema está nas dificuldades de abate, devido à falta de frigoríficos no estado e no Nordeste. Mas o desafio maior está na atração da indústria têxtil para agregar valor à produção de algodão. Ele lembrou que fabricantes do mundo inteiro se deslocaram para a Ásia, principalmente para a China, devido ao câmbio desvalorizado, às taxas de juros muito baixas e à mão de obra barata, o que torna a competitividade daquele país imbatível. “O Brasil é atualmente um país para produzir jeans, um item que ainda sobrevive”, observou. Assim, disse ele, Bahia e Brasil deverão seguir na posição de fornecedores de algodão para os mercados asiáticos e de importadores do produto final.

Desafios

-A Bahia tem posicionamento geográfico, clima e solo espetaculares. Mas precisa, segundo Alexandre Mendonça de Barros, construir uma logística para ter a ligação entre produção e escoamento -Apesar de ter rebanho relevante, o estado possui poucos frigoríficos -Fruticultura será grande diferencial no mundo. A Bahia pode aproveitar essa oportunidade

Foto: Marina Silva

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agronegócio

Grãos em alta O milho, a soja e outros grãos negociados em Bolsas vão permanecer com preços altos ainda por muito tempo. E a causa não é apenas o aumento do consumo mundial, mas, em grande parte, o surgimento de uma nova demanda, a dos biocombustíveis derivados daqueles produtos. A previsão é do economista Alexandre Mendonça de Barros, da MB Agro, que há anos se dedica à análise da economia agrícola no mundo. Ele abriu o terceiro seminário do Agenda Bahia 2011, com palestra sobre o tema Crise Mundial e seus Efeitos nos Mercados Agrícolas e na Industrialização. O especialista enumerou os fatores que desaguaram no ciclo de alta dos preços das commodities agrícolas a partir de 2008. O crescimento da população mundial, hoje em cerca de sete bilhões de pessoas, com previsão de chegar a nove bilhões dentro de nove anos, é uma delas. Mais do que isso, a taxa de urbanização - isto é, de pessoas que deixam o campo e vão morar nas cidades - tem crescido em todo o mundo, notadamente na Ásia, o que muda o perfil do consumo de produtos alimentares. “As pessoas não mudam só de ambiente, mudam também de hábitos, de dieta. Está comprovado que essa dieta vai na direção da proteína animal, do frango e dos suínos, que não são mais do que milho e soja usados nas rações”, comentou. Além disso, há um fator novo, os biocombustíveis. Em 2011, 120 milhões de toneladas de milho - quase um sexto da produção mundial - serão utilizados pelos Estados Unidos para a produção de etanol, segundo o economista. “Cada vez que um americano acelera seu carro está indo embora uma asa ou uma coxa de frango”, comparou. A cana-de-açúcar, principal fonte de etanol no Brasil, não sofre grande competição com o milho. Mas o país utiliza soja para a produção de combustível. O cálculo é de que 10% da produção queime nos motores brasileiros. “O Oeste baiano ganha também por isso uma grande importância pela safra de soja”, disse Mendonça de Barros. Segundo ele, o uso de parte do grão para combustível não é 212

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milhões de toneladas de soja são esmagadas para combustível no Brasil

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milhões de toneladas serão transformadas em biocombustíveis nos EUA

60

milhões de toneladas é quanto produz o Brasil, terceiro maior produtor

agronegócio

*

Produção de biocombustível

problema, porque sobra o farelo, “uma proteína vegetal que vira proteína animal e dá ao país uma boa competitividade”. Por fim, a desvalorização do dólar, provocada pelo mau desempenho da economia americana, gerou mais um novo fator de alta e também de volatilidade dos preços. Com a moeda fraca, diversos investidores que têm dólar começaram a procurar ativos com potencial para subir naquela moeda. Com isso, os fundos de investimento diversificaram o seu portfólio, investindo nas bolsas de mercadorias. “Não tem nada a ver com agricultura, é um investimento especulativo”, disse. Foi assim que, quando eclodiu a crise de 2008, os preços dos grãos dispararam em Chicago. Com a quebra do banco Lehman Brothers, fundos saíram da Bolsa e o preço da soja despencou. Enfrentar esse novo cenário é um desafio a ser encarado pelos produtores brasileiros, disse o economista. Por suas excelentes condições para a agricultura e o nível alcançado pelo agronegócio, ele acha que o Brasil tem uma grande responsabilidade na produção de alimentos para o mundo. Mas o especialista lembra que a área plantada no Brasil é a mesma de 1984 e a precária infraestrutura atrapalha a competitividade. “Aí a gente percebe por que o Brasil não ganha tanto nos mercados”, alerta.

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agronegócio

Um futuro promissor

Foto: Marina Silva

Quinta geração de produtores de cacau, Diego Badaró buscou diferencial no campo e hoje colhe frutos em mercados internacionais. “O grande segredo do chocolate está no cuidado com os grãos”, acredita Badaró, sócio da Amma Chocolates, em palestra durante o Agenda Bahia 2011. O empresário apostou também na produção orgânica para obter um produto de ponta presente em restaurantes de Paris e de Nova York. Para Badaró, os investimentos no cacau baiano ainda são muito pequenos e ele exemplifica o que seria ideal. “Se investissem US$ 1 bilhão poderiam gerar 100 mil empregos e preservar mais de 100 mil hectares de floresta na região”, estima. Isso porque a lavoura cacaueira tem na floresta o seu habitat natural e convive perfeitamente com a vegetação. Presente também no seminário, o secretário de Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária (Seagri), Eduardo Salles, garantiu, após palestra de Badaró, que o governo vai investir R$ 6 milhões em programa para pesquisar uma solução definitiva para a vassoura-de-bruxa na região cacaueira. “Corremos atrás da agroindustrialização da região e já inauguramos três indústrias. Mas também avançamos na questão da pesquisa”, disse.

Desafios - Agregar valor ao cacau na transformação do fruto em chocolate para a Bahia exportar o produto final - Investir mais na lavoura cacaueira para preservar a floresta, já que o cultivo tem que ser realizado na mata nativa - Pesquisar técnicas de resistência às doenças, como vassoura-de-bruxa, para não perder as plantações, como na década de 90

Badaró ainda reforça que é necessário o investimento para o país transformar o cacau em produto final. “A lavoura que hoje movimenta US$ 410 milhões tem potencial de US$ 2 bilhões se transformar o cacau em produto final”, diz.

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agronegócio Vicente Mattos, Diego Badaró, Pedro Tassi, Fernando Vieira, Castro Neves e Eduardo Salles Foto: Marina Silva

Celeiro do mundo Preocupação com a infraestrutura atual da Bahia para, a partir de uma melhora dessa situação, as empresas começarem a se interessar mais na agroindustrialização do estado. Esse foi o principal ponto discutido no debate Estratégias para a Industrialização Vitoriosa. O mediador Vicente Mattos, vicepresidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), iniciou o debate lembrando que o estado vive uma oportunidade ímpar, com recorde de safras e crescimento econômico, mas precisa industrializar para agregar mais valor aos produtos. Mattos perguntou ao secretário da Agricultura, Eduardo Salles, um dos debatedores, o que falta à Bahia para deslanchar nesse setor. Salles admitiu que é preciso mais investimento em infraestrutura. Mas o governo aposta no georeferenciamento para buscar indústrias para cada região. Questionado por uma pergunta da plateia, Salles não soube explicar por que o estado não tem um polo têxtil, já que bate recorde em algodão. O ex-embaixador do Brasil na China Luiz Augusto de Castro Neves alertou para o investimento em tecnologia: “O Brasil pode se transformar no celeiro do mundo. Devemos aproveitar as vantagens comparativas e investir em nossas necessidades”. Para o secretário Eduardo Salles, outra questão tem prejudicado o desenvolvimento em todo o país: a proibição de venda de terras aos estrangeiros. “A Bahia está perdendo milhões de dólares neste setor da agroindústria”, disse. Também participaram do debate Fernando Vieira, economista do BNDES, Pedro Tassi, presidente da Ciob, e Diego Badaró, presidente da Amma Chocolate. Nas próximas páginas, detalhes do debate.

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agronegócio

Busca de oportunidades Diego Badaró, sócio da empresa de chocolates finos Amma Chocolates e cultivador de cacau, avalia que a Bahia precisa agregar valor ao cacau e implantar fábricas para desenvolver produtos finais, como fez com o cultivo da soja. Para ele, a China não é uma ameaça, mas uma oportunidade. Em março de 2011, Badaró esteve em viagem com o secretário da Agricultura, Eduardo Salles, na China. Outra novidade é o Salão do Chocolate, referência na França. “Ano que vem, em julho, Salvador receberá pela primeira vez o Salão. É a nossa oportunidade de mostrarmos aos investidores estrangeiros que temos, aqui na Bahia, o melhor cacau do mundo”, diz. Badaró: construção de novas fábricas para industrializar o cacau Fotos: Marina Silva

Rastrear os alimentos Fernando Antonio Batista Vieira, economista do BNDES, informou que o banco tem um grande interesse em conceder financiamentos às pequenas empresas que trabalhem com o agronegócio. “Agregar valor e modernizar se refletem no valor final desses produtos”, ponderou. Para o economista, questões de inovação, como a rastreabilidade dos alimentos, que indica de onde veio aquele produto, são novas demandas dos consumidores que necessitam de investimentos por parte dos empresários. Vieira também lembrou que o BNDES tem linhas especiais para as empresas que têm um pressuposto de sustentabilidade e preservação com o meio ambiente. Fernando Vieira: inovação para atender ao novo consumidor

Sem vergonha de commodities Para o ex-embaixador do Brasil no Japão e na China Luiz Augusto de Castro Neves o país tem que saber como aproveitar as oportunidades e minimizar os riscos quando se trata da China. “Podemos nos transformar, com uma boa dose de otimismo, no celeiro do mundo”, acredita. Segundo ele, o Brasil não deve ter vergonha de exportar alimentos, como no tempo em que se achava que essa era uma característica de países subdesenvolvidos. Neves ainda deu o exemplo de uma empresa na Finlândia, pioneira na área de florestas plantadas, exportadora de madeira: “Hoje, ela é a madeireira Nokia, que produz madeiras e outros produtos, como celulares, mundialmente conhecidos”. 216

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Castro Neves: minimizar riscos com a China

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agronegócio

Pela interiorização da indústria baiana A Bahia tem enorme potencial na área do agronegócio, mas as empresas ainda exportam daqui apenas a matéria-prima. É essa a visão do empresário Pedro Tassi, presidente do Centro das Indústrias do Oeste Baiano (Ciob). Segundo ele, o estado tem condições naturais especiais para o plantio, mas falta a “integração do estado” para favorecer a interiorização da indústria. Tassi exemplificou com uma situação enfrentada por ele na véspera do evento.

Tassi: integração do estado para exportar melhor

“Quando saio de Barreiras para Salvador de avião preciso pegar um voo até Brasília e depois outro para cá”, disse. Foi consenso entre todos os debatedores, inclusive o secretário Eduardo Salles, que falta infraestrutura, principal fator de entrave para os negócios no estado. Tassi elogiou os projetos da Secretaria da Agricultura para incentivar a agroindustrialização entre os pequenos empresários, mas fez uma ressalva: “A Bahia tem potencial para ser maior, mas precisamos de uma política estruturante, e não só para a região Oeste, mas para todas as outras”.

Restrição a estrangeiro: perda de recursos O secretário da Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária (Seagri), Eduardo Salles, disse que a Bahia vive recordes de safras em diversas culturas e que o governo do estado se preocupa em como e em que áreas podem ser incentivadas a agroindustrialização. “Estamos entre os quatro maiores produtores do país na maioria dos produtos agrícolas”, informa.

Salles: infraestrutura é um dos entraves para agroindustrialização Fotos: Marina Silva

O secretário admitiu que entre os entraves para a industrialização está a infraestrutura precária, mas ressaltou outro ponto: a proibição da venda de terras a estrangeiros. De acordo com Eduardo Salles, a Bahia perde investimentos por conta de uma decisão da Advocacia Geral da União (AGU), em vigor desde agosto de 2010. “Hoje, o país e a Bahia são a bola da vez nessa área de alimentos, e perdemos investimentos nos setores da laranja, papel e celulose, soja, etc. Milhões diariamente”, disse. Salles também contou que existe uma empresa de papel e celulose que deseja investir 3 bilhões de euros na Bahia, mas o negócio não avança por causa dessa insegurança jurídica. 217

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agronegócio

Olhos bem abertos Para muita gente, o socialismo de mercado praticado pela China, que tem levado o país a crescer durante muito tempo a taxas de 10% ao ano, é um modelo, no mínimo, intrigante. Afinal, como um país socialista se insere no mercado com tanto sucesso, importando de todos os cantos do planeta, agregando valor e exportando para o mundo inteiro?

Oportunidades - Exportação de commodities minerais e agrícolas - A China quer investir em outros setores, como siderurgia e bens de consumo. “Deve vir uma montadora de automóveis para cá”, disse - Para empresas brasileiras na China, Castro Neves citou o exemplo de gaúchos que abriram, em uma província, uma fábrica de calçados: “Lá, tem nove churrascarias, Centro de Tradições Gaúchas e até chinês tomando chimarrão”

Para o ex-embaixador do Brasil na China e no Japão Luiz Augusto de Castro Neves não há enigma a decifrar: quando se trata de negócios, a China é a-ideológica e pragmática. “A China percebeu como ninguém o fenômeno da globalização como um fato da vida. O que eles praticam é o mais deslavado capitalismo”, disse ele, em palestra no terceiro seminário do Agenda Bahia 2011, sobre o tema China: Oportunidades e Ameaças.

Diferentemente do Brasil, cuja estratégia industrial está voltada para o aumento do consumo, a industrialização chinesa foi quase toda dirigida para fora. Por isso, apesar dos enormes volumes produzidos, ainda há déficits em seu mercado interno. Essa política procura integrar cadeias produtivas da Ásia e de países de outros continentes. Há setores, como a indústria automobilística, que utilizam produtos fornecidos por mais de 10 países diferentes. Castro Neves vê a China como uma economia mais aberta que a do Brasil e muito mais competitiva. As acusações de concorrência desleal e a recente imposição de barreiras a alguns produtos chineses, na sua opinião, são herança do início da industrialização brasileira, que nasceu sob o signo do protecionismo. “Na China, há 42 empresas brasileiras operando e a guerra fiscal entre as províncias para atrair investimentos estrangeiros é feita abertamente. Nos anos 60, nem a Coreia nem a China possuíam indústria automobilística. Hoje, os dois têm marcas próprias.” “Eles vão com força. Antes, a presença brasileira era maior do que a da China no Brasil. Hoje, isso se inverteu”,

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agronegócio

Foto: Marina Silva

revelou. Ele salientou que o segredo da China não está apenas nas taxas de juros baixos, na moeda superdesvalorizada em relação ao dólar, na mão de obra barata e em uma carga tributária que é a metade da brasileira. Está principalmente na infraestrutura que o país conseguiu implantar. Castro Neves disse que excelentes estradas, portos, aeroportos e toda uma infraestrutura moderna para atender ao comércio internacional fazem a diferença. “A ação da China no mercado internacional foi benéfica para o Brasil. Elevou os preços das commodities e de bens de capital. Isso permite a modernização do parque industrial brasileiro”.

O ex-embaixador do Brasil na China e no Japão também cobrou mais investimentos em infraestrutura: “De forma geral, a situação da Bahia é semelhante à do Brasil, mas o estado precisa resolver os seus problemas para ampliar as possibilidades de crescimento”. De acordo com ele, os dois ‘freios’ para o crescimento sustentável do Brasil na opinião Ameaças de empresários e economistas (infraestrutura - Infraestrutura chinesa: portos, precária e a mais alta carga tributária do ferrovias, aeroportos, estradas e mundo) são, no sentido inverso, os principais parques industriais eficazes pilares que transformaram a China na - Carga tributária: metade da brasileira - Cópia de peças e dos produtos. Castro Neves segunda maior economia do mundo.

contou uma história que ilustra a situação. Brasileiro queria comprar o carro Muralha da China, mas tinha receio de não achar peça no Brasil quando retornasse ao país. Um vendedor disse: “Não se preocupe. É só o senhor procurar uma loja da Toyota. As peças, por uma incrível coincidência, são iguais”

Para o embaixador, o Brasil não deve encarar a China como uma ameaça, tampouco apenas como uma oportunidade. A seu ver, trata-se de um parceiro comercial importante quando os interesses dos dois países convergem para o mesmo ponto. Fora disso, há de tornar-se competitivo para fazer frente aos produtos chineses. O embaixador entende que essa é a grande lição: investir na competitividade é a única saída. Os efeitos diretos da China no Brasil? “Foram bons e maus. Os maiores perdedores foram os setores protegidos. No geral, nos beneficiamos muito. O Agronegócio foi o grande vencedor”, avalia.

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Safra baiana Agrícola Agrícola

Ranking nacional Ranking nacional 1º 1º 2º 2º 3º 3º 4º 4º 5º 5º 6º 6º

Produto Produto Coco, Manga, Cacau, Mamão, Guaraná, Coco, Manga, Cacau, Mamão, Guaraná, Sisal, Mamona, Maracujá Sisal, Mamona, Maracujá Laranja, Algodão, Banana, Cebola, Borracha, Laranja, Algodão, Banana,Palmito Cebola, Borracha, Dendê, Limão, Marmelo, Dendê, Limão, Marmelo, Palmito Mandioca, Feijão, Pimenta do Reino, Goiaba Mandioca, Feijão, Pimenta do Reino, Goiaba Café, Abacaxi Café, Abacaxi Uva, Fumo, Tomate, Batata, Sorgo, Uva, Tomate, Batata, Sorgo, Alho,Fumo, Amendoim Alho, Amendoim Soja, Castanha de Cajú, Maçã, Urucum Soja, Castanha de Cajú, Maçã, Urucum

Pecuária Pecuária

Posição no Posição ranking enoefetivo ranking e efetivo 1ª 1ª (2,14 milhões) (2,14 milhões) 2ª 2ª (2,7 milhões) (2,7 milhões) 3ª 3ªmi) (3,8 (3,8 mi)

Segmentos Segmentos Caprinocultura Caprinocultura Ovinocultura Ovinocultura Bovinocultura (Leite) Bovinocultura (Leite)

5ª 5ª (2,1 milhões) (2,1 milhões) 9ª 9ª (13,5 milhões) (13,5 milhões) 9ª 9ª (10,5 milhões) (10,5 milhões)

Suinocultura Suinocultura Avicultura Avicultura Bovinocultura (Corte e Leite) Bovinocultura (Corte e Leite)

Fonte: IBGE/PAM, ABA, ABS, FNP e Adab Fonte: IBGE/PAM, ABA, ABS, FNP e Adab

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Simpatia com atendimento 10

O

sorriso e a simpatia são vantagem quando se joga em casa. Mas, para avançar no ataque e fazer um gol nessa Copa, a Bahia precisa, além das obras de infraestrutura, qualificar e profissionalizar o turismo em todo o estado. Essa foi a conclusão do seminário Agenda Bahia, tema Turismo, voltado para o Mundial de futebol, que reuniu empresários, governo e acadêmicos no auditório da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb). A escolha de um destino, lembram os especialistas, passa pela beleza natural do lugar, por seu patrimônio histórico, mas o turista quer também se deslocar sem problemas pela cidade e ser bem recebido - com segurança. Apenas o ‘jeitinho’ não funciona para quem chega de fora e tem um mundo de opções para escolher. O governo do estado garantiu que possui projetos e que os prazos serão cumpridos. A prefeitura apresentou, pela primeira vez, no seminário o Plano de Desenvolvimento Integrado Sustentável, mas afirmou não ter verba para executá-lo. Durante o debate, que reuniu os representantes da área de Turismo, o secretário Domingos Leonelli sinalizou que poderá colaborar com o município em Salvador. Mas os especialistas alertaram para um detalhe: com menos de mil dias para os jogos, nesse segundo tempo do jogo, o cronômetro não para de rodar. E o tempo é curto para aproveitar a chance de ouro de ter grandes eventos (o outro, a Olimpíada) no mesmo país. Neste capítulo, confira o que foi debatido e apresentado como solução para a Bahia se consolidar como um dos principais destinos turísticos do mundo.

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Vantagens - Localização privilegiada, com a maior baía tropical do Brasil. - Forte apelo cultural, ecológico e histórico. - Potencial para atrair mais cruzeiros, eventos esportivos e turismo de negócio. - 45 mil leitos hoteleiros de padrão internacional. - Malha aérea diversificada com conexão com outras regiões e com alguns países. - Cinco Centros de Convenções.

A beleza natural da Praia do Forte tem forte apelo turístico Foto: Divulgação

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Desafios e ações propostas para a Bahia - Aproveitar grandes eventos esportivos, que acontecerão no país até 2016, como estratégia para alavancar novos negócios, empreendimentos e modernização da infraestrutura no estado. - Implementação do terceiro ciclo do Turismo, proposto pela Secretaria de Turismo do estado, com investimento em inovação, qualificação e incremento da economia regional através do estímulo a toda a cadeia produtiva do turismo.

Arena Fonte Nova: uma das poucas obras para a Copa em andamento Foto: Evandro Veiga

- Investimento na capacitação da mão de obra e do empresário de todos os segmentos envolvidos com o turismo. - Estimular nos destinos turísticos áreas de produção em diversos segmentos, como agricultura e artesanato, para abastecer com produtos Made in Bahia as redes hoteleiras, bares e restaurantes e comércio dessas regiões. Porto Seguro, por exemplo, segundo a Secretaria do Turismo, tem 40 mil leitos e é um município que importa todo alimento que abastece a cidade. - Planejamento das obras e cumprimento dos prazos para a Copa de 2014. - Promover o turismo pré e pós Copa com pacotes que possam fidelizar o turista. - Aproveitar cidades com potencial turístico para ampliar os roteiros no estado. - Estimular o desenvolvimento cultural e a criação de uma herança esportiva. - Investir em turismo de negócio e eventos: turistas desses segmentos gastam sete vezes mais do que turistas de lazer. - Investimento na ampliação e modernização dos aeroportos do estado. - Ampliação de rotas da aviação regional para estimular o turismo em regiões distantes da capital baiana, como prevê a Secretaria do Turismo do estado.

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- Implantação do projeto Turismo Náutico para a Baía de Todos os Santos com ações em 17 cidades baianas. - Equipar as praias com infraestrutura para o banhista e reformar os pontos turísticos, como Pelourinho e Elevador Lacerda. - Reurbanização da Feira de São Joaquim até 2014, como prevê a Secretaria do Turismo do estado. - Requalificação do terminal da Companhia de Navegação Baiana, no Comércio, para atender passageiros que se deslocam pelas ilhas e cidade baianas e ainda o turista dos cruzeiros. - Dar sobrevida aos equipamentos que serão construídos para a Copa, evitando que fiquem sem utilidade após o evento. - Copa é teste para realização de outros grandes eventos na cidade.

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Compromissos firmados - Renovação em dezembro de 2011 do decreto de isenção do ICMS do diesel para aviação regional, anunciada pelo secretário de Turismo do estado, Domingos Leonelli. - O secretário Domingos Leonelli sinalizou em ajudar a prefeitura no Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável. Claudio Tinoco, presidente da Saltur, admitiu que a administração municipal não tem recursos e nem capacidade de endividamento para implantar o projeto, orçado em R$ 455 milhões. - Apesar dos atrasos, Domingos Leonelli garantiu que as obras vão cumprir os prazos para a Copa. Baía de Todos os Santos: novo roteiro turístico Foto: Robson Mendes/Arquivo Correio

- Está em estudo a distribuição de tablets para taxistas, que servirão de tradutores pessoais e para tirar dúvidas com turistas, garantiu o secretário especial para Assuntos da Copa do Mundo, Ney Campelo. - Criação de selos e certificados para identificar os profissionais qualificados na Copa, defendeu Campelo. - O presidente da Trip, José Mario Caprioli, garantiu que até 2013 a companhia fará 60 pousos e decolagens no estado. Atualmente, o total é de 42. Entre os novos destinos está Barreiras, no Oeste baiano. - Preço do ingresso na Arena Fonte Nova custará R$ 39, de acordo com o presidente da Arena Fonte Nova, Dênio Cidreira.

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O legado da Copa A Bahia quer aproveitar a realização de sua primeira Copa do Mundo para impulsionar o turismo, recuperar e ampliar a sua rede hoteleira (principalmente em Salvador), modernizar o seu sistema viário, gerar milhares de empregos, requalificar a mão de obra e resolver definitivamente alguns problemas crônicos que atrapalham o desenvolvimento do estado. Os principais são o aumento da criminalidade e a falta de infraestrutura, ainda mais com o atraso nas obras da mobilidade urbana da cidade. Segundo a Secretaria Estadual do Turismo, somente nos meses de junho e julho de 2014, quando será disputado o Mundial, cerca de 700 mil pessoas chegarão à capital baiana, o que representa um acréscimo de mais de 300 mil visitantes em relação aos números atuais para o período. Com um nível de exigência maior do que os turistas que visitam a cidade durante o Carnaval, por exemplo, a Copa de 2014 terá um papel fundamental na qualificação de Salvador como destino turístico, de acordo com o secretário do Turismo, Domingos Leonelli. “Acredito que o maior legado da Copa será o investimento no capital humano, ou seja, na capacitação de nossos trabalhadores”, afirmou. Segundo ele, mais de 20 mil pessoas devem participar de algum curso de qualificação profissional nos próximos três anos nas áreas de atendimento e recepção. Para o presidente da Saltur (empresa de turismo da prefeitura), Claudio Tinoco, os investimentos em mobilidade urbana, ampliação e modernização do Aeroporto Internacional Deputado Luis Eduardo Magalhães e a construção da nova Fonte Nova são os principais pilares da participação de Salvador na Copa. “É lógico que a sensação atual é de indefinições e atrasos, que, se continuados, poderão comprometer o desempenho geral do Brasil e das cidades que vão sediar o evento”, admitiu. Mesmo com o atraso nas obras para melhorar a infraestrutura de Salvador, Tinoco disse que a prefeitura tem projetos para impulsionar o desenvolvimento da capital. Entre eles, a reestruturação do sistema viário de Salvador, sinalização visual, limpeza urbana, iluminação, aumento do número de vagas de estacionamento no centro da cidade e revitalização da orla. Professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal

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Belezas do país (diversidade natural) Conhecer o país

Insegurança e criminalidade

Clima (sol e calor)

Idioma

*!%@

Povo alegre

Salvador é 4ª cidade-sede mais conhecida

A Bahia atrai: 19% dos turistas da Europa

1º Rio de Janeiro 68%

9% dos turistas

2º São Paulo

44%

3% dos turistas

3º Brasília 4º Salvador

25% 8%

norte-americanos sul-americanos

Perfil do turista na Copa da África do Sul (2010):

86% 69%

45%

com formação superior

Gasto, em média, excluindo a passagem

se hospedou em hotéis formais

Cidades visitadas

com idade entre 25 e 34

R$ 11.412

Dias de permanência no país

3,8 17,6

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Motivos para não vir à Copa

Motivação para vir à Copa em 2014

Fontes: Fundação Getulio Vargas, Ministério do Turismo, Sebrae e Prefeitura de Salvador

Turismo em jogo

Rede Hoteleira Nordeste (em mil leitos) Bahia

47

Ceará

27

Rio Grande do Norte

19 15

Alagoas

14

Pernambuco

9

Paraíba

8

Maranhão

6

Sergipe Piauí

4 Estados com o maior número de leitos (em mil)

Rio de Janeiro

87 Paraná

56 São Paulo

52 229 Infográfico: Morgana Miranda

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da Bahia (Ufba) e coordenador do Observatório da Copa do Mundo, Marco Aurélio Filgueiras Gomes não está tão otimista em relação ao legado que a competição vai deixar para a cidade. “Até agora, só duas coisas lembram que Salvador será uma das sedes da competição, a construção da Fonte Nova e um projeto para melhorar a mobilidade urbana. O resto está atrasado ou simplesmente não existe”, afirmou. De acordo com o professor, é preciso que as autoridades envolvidas pensem em um legado em termos de necessidades dos habitantes da cidade, e não necessariamente soluções apenas para contemplar os jogos. “O ideal seria que essas obras recuperassem o Pelourinho, a orla, que deixassem um centro para a formação de atletas, que resolvessem definitivamente o grave problema do transporte urbano, que mudassem o aspecto degradante do Comércio e de outras áreas da cidade”, avalia Marco Aurélio Gomes. Com um perfil de visitantes bem definido, formado principalmente por homens com idade acima de 40 anos, pertencentes às classes A e B, a Copa do Mundo deve garantir o incremento de R$ 900 milhões na economia de Salvador, segundo estimativas do governo estadual. Esse montante será distribuído na cadeia produtiva do turismo, que compreende 52 elos que vão desde a hotelaria a bares, restaurantes e vendedores ambulantes. Para facilitar a comunicação com os turistas, o governo promete desenvolver dois programas muito utilizados durante o Carnaval: Guias e Monitores e o Disque Bahia Turismo. “Durante a Copa, os serviços funcionarão 24 horas por dia, em seis idiomas, que serão definidos de acordo com os jogos que serão realizados em Salvador”, disse Domingos Leonelli. Hoje, o serviço oferece três idiomas (inglês, espanhol e português), com média de atendimento de 1,5 mil pessoas por mês.

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A força dos terreiros para atrair turistas A prefeitura de Salvador aposta na força do candomblé para atrair mais visitantes durante a realização da próxima Copa do Mundo. Segundo informações da Saltur, dez terreiros serão incluídos no roteiro turístico da cidade e colocarão à disposição das pessoas os seus acervos, memoriais, artesanato e trabalhos desenvolvidos com as comunidades locais. Entre os terreiros escolhidos estão o da Casa Branca, o Ilê Odô Ogê e o Ilê Axé Jitolu. Segundo o presidente da Saltur, Claudio Tinoco, os terreiros de candomblé serão ‘vendidos’ em campanhas nacionais de publicidade, além de promoções em feiras e workshops em vários países. “O inventário que nós fizemos mostra que os terreiros podem oferecer aos visitantes muitas opções gastronômicas, imagens, cultura e história”, disse Tinoco. Os terreiros préescolhidos têm acessibilidade e infraestrutura para atender à demanda gerada pelo fluxo turístico. Os terreiros serão inseridos no roteiro turístico da cidade, através de guias, agências e peças promocionais que serão confeccionadas em português, inglês e espanhol. A prefeitura também pegou carona na beatificação de Irmã Dulce. “Queremos criar um ‘corredor da fé’, integrando o Largo de Roma (onde estão as obras sociais da religiosa) e a Igreja do Bonfim”, disse Tinoco. Cultura, fé e gastronomia para atender o turismo religioso na Bahia Foto: Arquivo Correio

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Hotéis se mobilizam, mas ocupação preocupa Apesar das promessas, a menos de mil dias para a abertura do principal campeonato de futebol do mundo, apenas a construção da Arena Fonte Nova e algumas obras no setor hoteleiro lembram que Salvador será uma das sedes da próxima Copa. Com investimentos previstos de R$ 4,7 bilhões até 2014, a rede de hotéis da cidade deve ganhar mais 11,8 mil leitos, ampliando em 25% a estrutura do estado (47 mil leitos atualmente). No entanto, na contramão do poder público, que comemora os investimentos e a ampliação do número de leitos, empresários do setor hoteleiro temem prejuízos no futuro. Nos últimos dois anos, por exemplo, dois tradicionais hotéis de Salvador encerraram as suas atividades: o Salvador Praia Hotel e o Hotel da Bahia. “A chegada de novos empreendimentos preocupa, porque o setor já trabalha com uma ocupação média de 67% e todos estão temerosos de que este percentual possa cair depois da Copa”, afirmou Sílvio Pessoa, presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares da Bahia. A preocupação de Pessoa é endossada por um estudo do Hotel Invest que aponta, com novos empreendimentos, a ocupação deverá ficar abaixo dos 64% porque o aumento na oferta de leitos será muito superior à demanda de turistas na cidade, que tem crescido menos de 5% ao ano.

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Interior de olho no turista da Copa de 2014 Há expectativa de que a Copa em 2014 atraia mais de 600 mil turistas estrangeiros para o Brasil durante os 30 dias de evento. Como fazer esses visitantes saírem das cidades-sede para conhecer outros destinos turísticos nos arredores? O Ministério do Turismo (Mtur) e a Embratur farão encontros para montar roteiros para destinos-satélite: cidades com potencial para prorrogar a estada dos turistas nos estados. Segundo dados apresentados por Pedro Costa, presidente do Convention Bureau Salvador, na Copa do Mundo 2010, na África do Sul, os turistas visitaram em média quatro cidades e passaram 17 noites no país. Para o Brasil alcançar um resultado semelhante, ou melhor, a coordenadora-geral de regionalização do Mtur, Ana Clévia Lima, diz que é preciso pensar destinos de fácil acessibilidade. “Se tiver uma estrada razoável, um voo curto, que leve o turista em 50 minutos para o interior, é possível promover o destino”, diz Ana Clévia. A especialista cita o exemplo de Lençóis, na Chapada Diamantina, que, apesar de se localizar a 412 quilômetros de Salvador, conta com um voo semanal que pode levar e trazer os turistas em 40 minutos. Em favor de locais como Lençóis, Ana Clévia lembra que pesa a diversidade e o encanto do turista com a natureza. A intenção do Mtur é que sejam contemplados atrativos dos segmentos cultural, histórico, gastronômico, ecológico, de aventura e litorâneo. O secretário de Turismo do estado, Domingos Leonelli, acredita que o principal papel do governo é no plano da infraestrutura. “O que precisamos é captar mais voos regulares para o interior, como o de Lençóis, que agora sairá às quintas e aos domingos”, reforça Leonelli sobre o voo da Trip Linhas Aéreas que aumentou a frequência. O secretário ainda lembra que medidas já em vigor, como a redução do ICMS do combustível para as aeronaves, contribuem ainda mais para incrementar os voos regionais com destino ao interior da Bahia. Sobre as ações para a Copa, Dionísio Martins, professor aposentado da Escola de Administração da Ufba e representante do Hotel de Lençóis, localizado na cidade de mesmo nome, conta que o Mtur, a Associação Brasileira da Indústria Hoteleira 233

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(Abih) e o Sebrae têm realizado cursos de qualificação na cidade. “Lençóis está se preparando para a Copa e para o futuro. Há uma expectativa muito grande em torno da Copa”, acrescenta Martins. Quando começa a descrever os potenciais da Bahia, o diretor de Produtos e Destinos da Embratur, também baiano, Marco Lomanto, lembra das regiões que prometem prender o turista por mais tempo no estado, como Porto Seguro, Morro de São Paulo, Lençóis, o Recôncavo Baiano e o Litoral Norte. A proposta da Embratur é oferecer novos produtos como a Reserva da Jaqueira, em Porto Seguro. Na visitação a essa reserva indígena, os turistas poderão dormir nas tribos, aprender a pescar e a usar o arco e flecha.

Lençóis: voo semanal percorre 412 quilômetros em 40 minutos

Foto: Tatiana Azeviche / Setur

Bahia precisa de mais voos regionais O presidente da Trip Linhas Aéreas, José Mário Caprioli, diz que o governo do estado e a sociedade baiana perceberam a importância da aviação regional, fundamental para o desenvolvimento do turismo no interior da Bahia. Ele lembrou que o próprio secretário do Turismo, Domingos Leonelli, reconheceu que mais de 50% do turismo dentro da Bahia é feito pelos próprios baianos. “Temos planos de expansão e queremos fazer de Salvador um centro de distribuição da aviação regional”, diz Caprioli. Fernando Ferrero, diretor da Bahiatursa, acrescenta que o foco do estado é trabalhar com companhias que tenham aviões com 50 a 70 lugares, como a Trip, a Azul, a Avianca e a Passaredo.

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Exemplo argentino Saber usar a língua estimula novos contatos. A fluência, somada à simpatia e ao esforço, gera negócio. E estimular esta consciência de capacitar pessoas é um dos desafios do setor de Turismo para a Copa 2014, tema do quarto seminário Agenda Bahia 2011, realizado no dia 27 de setembro. O repórter Marcelo Sant’Ana acompanhou na Argentina a realização da Copa América, em julho. Embora com exigências muito menores às do Mundial, o evento argentino fornece exemplos. Nos bares ou restaurantes, inclusive fora das áreas badaladas, era comum ser atendido em inglês ou português, além do espanhol. O serviço de internet sem fio (WiFi) também foi um diferencial comum em restaurantes e hotéis, porém restrito às três maiores sedes: Buenos Aires, Córdoba e Mendoza - todas com mais de 1 milhão de habitantes, como Salvador, onde é raro o serviço. Foto: Divulgação

Como avançar? Metrô Buenos Aires tem seis linhas, com 52 km. Tarifa é 1,1 peso. Puerto Madero: bairro decandente foi revitalizado e passou a abrigar grandes empresas e bons restaurantes. O estádio é um dos símbolos do país

Foto: Marcelo Sant´ana

Foto: Marcelo Sant´ana

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“O governo buscou mostrar essa importância, mas a qualificação foi mais individual de cada negócio”, contou Julio Paunero, gerente de hotel na Recoleta, bairro nobre da capital, Buenos Aires. “Temos costume de receber turistas e sabemos dessas preocupações”, disse Valeria Baca, recepcionista de hotel duas estrelas no centro de Córdoba. Para a economia nacional, o volume de receitas geradas é pequeno, porém há impacto no âmbito local. “Além do dinheiro do turista, registramos aumento de gastos dos moradores. E, no geral, esse movimento acontece no período de jogos, e não apenas no estádio. Outro benefício é a exposição da cidade, que atrai turistas futuros e não entram nos dados oficiais”, defendeu o presidente do comitê organizador local, José Meiszner. Para servir melhor ao turista que virá a Salvador na Copa 2014 e após o Mundial, também deve-se pensar em aeroporto e transporte público, como metrô, táxi e linhas de ônibus. Cinco das oito cidades da Copa América tinham entre 700 mil habitantes (La Plata) e 240 mil (Jujuy) e o transporte foi satisfatório. Em Buenos Aires, com três milhões de habiantes (e 15 milhões, contada a Grande Buenos Aires), seis linhas de metrô facilitavam o deslocamento. Os ônibus, embora antigos, têm linhas organizadas. Em Córdoba e Mendoza, o táxi virou melhor meio de transporte. O preço: quase metade do cobrado em Salvador.

*

Gol de placa

1 bi

de dólares: quanto a Copa movimentou na Argentina

52

km: extensão das seis linhas de metrô de Buenos Aires

0,44

de reais: valor da passagem do metrô na capital argentina

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Boa organização fora dos estádios O turista na Copa América tinha opções além do futebol, como devem ser os grandes eventos. Nas ruas, as cidades-sede promoviam variados espetáculos gratuitos em pontos turísticos, especialmente em dias de jogo, quando havia também festas oficiais do torneio nas ruas, com telões transmitindo os jogos. Panfletos sugeriam bares e hotéis, pontos turísticos na cidade e regiões vizinhas e de como usar o transporte público para ir ao estádio. Com o slogan de A Copa mais Digital de Todos os Tempos, o comitê local investiu na interatividade com páginas exclusivas nas redes sociais, promoções na web e por celular. O policiamento também se destacou e não houve briga em qualquer jogo. Como problemas, os voos cancelados devido às cinzas do vulcão chileno Puyehue, o péssimo atendimento das companhias e o não funcionamento do sistema WiFi nos estádios.

Política tirou cidades e definiu verba A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, usou o discurso de interiorizar a Copa América para afastar rivais políticos: duas das três maiores cidades pagaram o preço. Buenos Aires teve só a final, mas sem o apelo após a eliminação dos donos da casa e nenhum investimento federal. “Há jogos, mas não podemos vê-los”, chiou o arquiteto Cristian Jimenez. Já Rosário nada teve, embora seja a terceira mais populosa e cidade natal de Messi, o craque do torneio. Com quase 1 milhão de habitantes, perdeu pra Santa Fé, 350 mil. La Plata Estádio: reinauguração custou cerca de US$ 200 milhões Foto: Divulgação

Já La Plata, afinada com Kirchner e a 52 quilômetros da capital, teve verba municipal e federal para a maior obra: o estádio Único. “O clima está lindo”, elogiou o estudante Juan Bracelargue. Também foi público o investimento de US$ 21 milhões no estádio Bicentenário, em San Juan. No total, seis das oito sedes eram aliadas do poder federal. A política definiu o destino de quem fez turismo por esporte. E para onde foi essa grana. 237

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Impacto em toda a cadeia do turismo O impacto econômico direto da Copa América gerou uma receita de 488,3 milhões de pesos (R$ 208 milhões), de acordo com cálculo do governo argentino. A conta da Subsecretaria de Desenvolvimento Turístico inclui os ingressos e a média de gastos por turista no período. Pelos dados oficiais, foram 701.284 turistas-torcedores, com gasto médio individual de 696,39 pesos (R$ 298,92). A estada média dos turistas argentinos foi de um dia, enquanto os estrangeiros ficaram três noites. “Ficamos muito felizes. Os últimos dez meses foram de trabalho e sonhos, que é a melhor maneira de chegar ao objetivo”, disse o presidente do comitê organizador, José Meiszner. Embora sem dados oficiais, a estimativa é que a competição tenha movimentado perto de US$ 1 bilhão, dobrando os números da edição anterior, na Venezuela, em 2007. Essa quantia incluiria turismo, gastronomia, transporte, direitos de mídia, comércio e patrocinadores, além de produtos oficiais e marketing. O maior número de ingressos vendidos foi em La Plata, sede recordista com seis jogos: 176.685. Em seguida, Córdoba, com 176.276 entradas vendidas em quatro partidas.

Dobro A Copa América, que tem proporções muito menores do que a Copa do Mundo, atraiu 701.284 turistas com gasto médio de R$ 298,92. Os estrangeiros ficaram, em média, três noites na Argentina

Foto: Alejandro Pagni / AFP

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Planejar faz a diferença Um povo que prima pelo planejamento e que já aprontou as obras para a Olimpíada de 2012, antes do prazo previsto. Essa é Londres, capital da Inglaterra, que agora vive o momento de fazer testes, simulações e os últimos ajustes para dar a largada para o evento esportivo em julho de 2012. Mas se engana quem pensa que os ingleses se preocuparam apenas em estruturar pontualmente e adequadamente todos os projetos da Olimpíada. Londres foi além ao projetar um evento esportivo que deixasse um legado para a cidade, sem esquecer das questões sustentáveis e de desenvolver melhorias sociais para regiões antes abandonadas. Hoje, a capital londrina é um exemplo, apontam os especialistas. A cidade escolheu construir o Estádio Olímpico de Londres em uma região pobre, em antigo terreno industrial, que se tornou canteiro de obras e trouxe investimentos para todo o seu entorno. John Alexander Harold Auton, sócio-diretor da consultoria Deloitte, que realizou estudo sobre a Olimpíada de Londres, lembra que eventos dessa natureza podem provocar a reconstrução de uma cidade, como é o caso de Barcelona, que se transformou em grande centro de turismo e multiplicou por dez o número de visitantes que passou a receber dez anos após os jogos. “O país-sede do evento fica de 30 a 40 dias diretos na exposição da mídia internacional de diversos países e recebe entre 500 mil e 800 mil turistas”, acrescenta Auton sobre as razões do fluxo turístico crescer após o evento esportivo. O especialista cita ainda os exemplos de Sydney, na Austrália, onde as taxas de ocupação dos hotéis cresceram após as Olimpíadas de 2000 e a de Atlanta, que também proporcionou bom retorno para essa região dos EUA em 1996. Quando questionado sobre o Brasil e como ele acredita que o país se sairá na Copa do Mundo de 2014, Auton avalia que a população herdará mais que um metrô, um BRT (corredores exclusivos para ônibus) ou uma arena esportiva. “O maior legado será para as pessoas envolvidas com o evento, como voluntários, o setor turístico, o comércio, policiais, que terão que desenvolver a língua inglesa e aprender como tratar os turistas

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estrangeiros e nacionais”, lembra Auton. A Copa de 2014 foi o tema de Turismo do seminário Agenda Bahia 2011, que aconteceu no dia 27 de setembro. Para o consultor, é inadmissível que um país que tem o turismo como uma das principais fontes de renda ainda não tenha preparado seus profissionais para falar fluentemente o inglês. Para Auton, a população e a mídia brasileira parecem estar preocupadas apenas com os investimentos públicos, como o orçamento para os estádios, intervenções em vias públicas e gastos com obras de infraestrutura. Porém, grandes empresas já poderiam estar captando patrocínios e os empresários já poderiam estar mensurando o impacto que o evento terá para serviços, comércio e indústria brasileira. “O mesmo cenário aparece em Londres. Embora as pessoas percebam que a Olimpíada pode ser boa enquanto negócio, elas não fizeram uma avaliação de quais seriam os riscos ou os benefícios do que pode acontecer”, pondera. O estudo da Deloitte aponta que 42% dos empresários do Reino Unido não acreditam que o evento irá aumentar a demanda por seus produtos e

Como avançar? Londres decidiu construir a Cidade Olímpica em antigo terreno industrial que tinha virado um lixão a céu aberto. Com a recuperação, houve a atração de novos investimentos, revitalizando a área. A Cidade Olímpica (primeira foto) é do tamanho de Veneza, na Itália, e não tem estacionamento. Equipamentos, como parque aquático, já foram entregues Fotos: Divulgação

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serviços. Apenas 19% acreditam que possa haver crescimento nas vendas. Auton acrescenta que mesmo com setores que não se movimentaram para o evento, o Brasil dificilmente perderá a Copa do Mundo de 2014. “O brasileiro é dinâmico e tem autossuficiência para fazer um evento desse porte”, diz.

Pesquisa aponta investimentos no Brasil Pesquisa Brasil, Bola da Vez, realizada pela Deloitte com 96 organizações, revela que o Brasil deverá contar com investimentos na ordem de R$ 100 bilhões decorrentes da preparação para a Copa de 2014. As três atividades com maior potencial para recebimento de investimentos são indústria da construção, transporte aéreo e infraestrutura aeroportuária e turismo, hotelaria e lazer, áreas que necessitam de modernização e ampliação de suas estruturas. As cidades-sede que precisam de mais investimentos para conclusão dos projetos em atendimento às normas da Fifa são Rio de Janeiro e Salvador, segundo a pesquisa. O estudo aponta ainda os benefícios gerados em outros países com grandes eventos esportivos. Na Alemanha, por exemplo, que sediou a Copa do Mundo de 2006, houve acréscimo de 8 bilhõesde euros no Produto Interno Bruto (PIB) no período 2003-2010, a geração de 50 mil novos empregos e grande atratividade para turistas (52 mil espectadores, em média, por partida, e 800 milhões de euros gastos pelos visitantes). O Brasil pode também se beneficiar muito, mas precisa investir para coher os frutos. A Deloitte é uma consultoria que nasceu no Reino Unido e oferece serviços de auditoria, consultoria, assessoria financeira, gestão de riscos e consultoria tributária em diversos países. Em 2011, completou 100 anos no Brasil. Quando chegou, em 1911, a Deloitte se instalou no Rio de Janeiro, para auditar as companhias ferroviárias britânicas, e daqui não saiu mais. Hoje, são mais de 11 escritórios no país e 4.500 funcionários. A empresa renova seu propósito em auxiliar seus clientes brasileiros e estrangeiros que atuam na adoção das melhores práticas de negócios e em seus processos de internacionalização. Outro papel da consultoria no Brasil é apoiar o investimento, estrangeiro ou local, viabilizar as melhores oportunidades naquela que já se tornou a sétima maior economia do mundo. 241

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Oportunidade que vale ouro para estados brasileiros Com obras atrasadas, denúncias de superfaturamento e troca de acusações entre empresários, políticos e ambientalistas, o Brasil pode perder a grande oportunidade de dar um salto em seu desenvolvimento com a realização da Copa do Mundo (2014) e dos Jogos Olímpicos (2016, no Rio). O alerta é de Dan Epstein, diretor de Sustentabilidade e Regeneração dos Jogos de Londres, que acontecem em 2012. “O Brasil tem tudo para deixar um grande legado para os próximos 50 anos com a realização dessas duas competições, mas eu ainda não vi as evidências disso”, afirmou Epstein, na palestra de encerramento do Congresso Nacional de Gestão de Projetos, evento realizado em Salvador. “A palavra-chave para o sucesso é planejamento. Foi isso que fizemos em Londres. Observamos os erros e acertos de outros países e transformamos a cidade em um centro urbano sustentável”, afirmou. De acordo com Dan Epstein, a cidade olímpica é do tamanho de Veneza (Itália) e foi construída em uma área pobre, degradada e periférica. “O que se via em toda a área da cidade olímpica era lixão a céu aberto, rio poluído e ferro velho por todos os lados. Durante as obras, demolimos 240 prédios, reciclamos 80% do material de forma inteligente e sustentável, limpamos o rio e erguemos novas edificações”, acrescentou. Há 15 anos trabalhando com sustentabilidade, Dan Epstein disse que grandes eventos esportivos, como o Mundial e os Jogos Olímpicos, são importantes para “repensar as cidades”. “As projeções apontam que o mundo terá 9 bilhões de pessoas em 2015 e o consumo vai explodir. Como vamos administrar isso sem planejamento?”, afirmou. Dan Epstein ressaltou que Londres também foi afetada pela crise econômica mundial, mas os preparativos da capital inglesa para sediar os Jogos Olímpicos “ficaram à margem dos problemas que provocaram a quebra de muitas empresas e instituições financeiras”. “De uma hora para outra, perdemos R$ 3 bilhões que a iniciativa privada iria investir em algumas obras. Mesmo

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assim, conseguimos fazer tudo o que estava planejado e entregamos a cidade olímpica com um ano de antecedência, cumprindo tudo o que estava no contrato e sem aumentar o orçamento”, garante. Um dos principais problemas de mobilidade urbana nas grandes cidades brasileiras, o trânsito mereceu uma atenção especial por parte das autoridades inglesas. “Temos trens e ônibus com energia limpa. Nosso parque olímpico sequer tem estacionamento, porque não queremos que os visitantes usem carro em Londres durante a competição. Projetamos dezenas de quilômetros de ciclovias e queremos que esse modal persista por longo prazo”, disse Epstein.

Dan Epstein: planejamento é essencial Foto: Almir Santos

De acordo com o diretor de Sustentabilidade e Regeneração dos Jogos de Londres, foram definidos como prioridades conceitos de sustentabilidade: emissão zero de carbono, produção zero de lixo, água limpa, transporte sustentável, biodiversidade, baixo impacto ambiental, apoio às comunidades locais, acesso, emprego e negócios, saúde, bem-estar e inclusão social. Na opinião de Dan Epstein, a sustentabilidade “custa só um pouco a mais e este pouquinho trará, no futuro, muitos benefícios, a começar por pessoas mais felizes e saudáveis e menos gasto com energia”. Em um recado direto para os governantes brasileiros, Epstein disse que as obras executadas para o Mundial e os Jogos Olímpicos precisam ter um olhar voltado para o futuro. “Não adianta deixar um legado de infraestrutura que ninguém mais vai usar, temos de evitar os elefantes brancos. Precisamos pensar em maneiras inteligentes de utilizar isto depois”.

“Não adianta deixar um legado de infraestrutura que ninguém mais vai usar” DAN EPSTEIN, diretor dos

Jogos de Londres

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Um bolão de empregos Um estudo realizado pela Fundação Getulio Vargas em parceria com o Sebrae identificou 653 oportunidades de negócios em nove segmentos da economia baiana, antes, durante e depois da Copa do Mundo, em Salvador. O Mapa de Oportunidades para as Micro e Pequenas Empresas das Cidades-Sede foi realizado nas 12 capitais que abrigarão jogos e levanta não só as oportunidades, mas também as dificuldades encontradas e as ações sugeridas. A Copa de 2014 foi o foco do tema Turismo do seminário Agenda Bahia 2011, realizado dia 27 de setembro, uma realização do jornal Correio e da Rádio CBN, com apoio da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb). Os segmentos identificados pelo estudo da FGV/Sebrae como de grande potencial para a geração de oportunidades de negócios, e não só na capital, mas em boa parte também no interior, foram: construção civil, tecnologia da informação, madeira e móveis, têxtil e vestuário, turismo, produção associada ao turismo (artesanato), comércio varejista, agronegócios e serviços. O levantamento identifica uma série de profissões e atividades que terão destaque nesse período. As dificuldades estão relacionadas ao atendimento dos requisitos para que as empresas tenham acesso à contratação, já que a Fifa estabelece uma série de normas e exigências para isso. As empresas que quiserem se candidatar têm que ter documentação geral e específica em ordem, e certificações de qualidade para cada setor, dentre outras exigências. Foram formados grupos temáticos para estudar e discutir o assunto em cada segmento, com participação de diversos órgãos e entidades. Individualmente, o Sebrae está focando sua ação na capacitação da gestão, técnicas de vendas e abordagem para micro e pequenas empresas do estado. As exigências não visam apenas atender à Fifa, mas também ao próprio visitante. “O cliente europeu, principalmente, valoriza o comércio justo, quer conhecer a origem e a mão de obra utilizada em cada produto”, observa Michelangelo dos Santos Lima, gestor do Projeto Sebrae 2014. Por isso, ele salienta que não basta apenas querer começar um novo negócio ou levar a

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empresa a participar de licitações; é preciso estar preparado. Para os organizadores da Copa em Salvador, há ainda a decisão de aproveitar o evento para alavancar a marca Bahia, já que o estado tem uma identidade e uma cultura muito fortes. A ideia é dar uma ‘cara’ de baianidade aos produtos da terra, de frutas, a bebidas, roupas e eventos de lazer, conferindo-lhes a marca Bahia. Para cumprir seu objetivo, o Sebrae está lançando mão até de ferramentas não convencionais no meio empresarial, como jogos eletrônicos. Na Feira do Empreendedor, realizada entre 4 e 8 de outubro de 2011, o órgão montou um estande com o jogo Desafio 2014, em que os participantes identificavam os setores mais promissores para a pré-Copa, Copa e pós-Copa, ajudando a estruturar uma atividade e a regularizá-la, dentro de critérios de sustentabilidade e de gestão eficiente, com apoio do Sebrae. Durante a Copa, as atividades ligadas à oferta de produtos e serviços deverão se concentrar nas áreas que o GT de Qualificação – grupo de trabalho que funciona na Secretaria Estadual para a Copa do Mundo (Secopa) - passou a chamar de os Sete Pontos Mágicos. São os locais onde haverá maior circulação de visitantes e, por isso, serão alvo de atenção especial dos organizadores. Nesses pontos, as atividades ligadas ao turismo, fornecimento dos mais variados produtos e serviços estarão em grande destaque. Michelangelo Lima prefere não fazer estimativas sobre o número de empregos e ocupações a serem gerados pela Copa na Bahia. Mas lembra que as oportunidades não se limitam ao evento de 2014: antes, em 2013, haverá a Copa das Confederações e, nos dois anos seguintes, a Copa América e a Olimpíada.

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Oportunidade

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é o número de segmentos que serão mais demandados pela Copa na Bahia

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ATIVIDADES EM DESTAQUE Turismo Serviços de emissivo e receptivo para agências de viagens Serviços de condutor Guias de turismo Restaurantes e estabelecimentos de bebidas, lanchonetes e similares Serviços relacionados com patrimônio cultural e turístico

Comércio varejista Mercadinhos, armazéns Lojas de vinhos, cafés especiais, destilados, chocolates Comercialização de óculos solar Produtos para cabelo, mão, pele, guardanapos, papel toalha, papel higiênico Artigos recreativos e esportivos

$ Agronegócio

Tecnologia da Informação

Cultivo de cacau, de café Aquicultura Fabricação de conservas de frutas e legumes Fabricação de biscoitos e bolachas, chocolates e confeitos Fabricação de aguardentes e outras bebidas destiladas

Assistência técnica Manutenção e suporte, operaçãoprojeto e implantação Aluguel de infraestrutura de TI Soluções integradas de software Serviço de certificado digital

Construção civil

Madeira e decoração

Revestimento em pisos e paredes Pintura Alimentação industrial, Fornecimento de vigas e estacas, Proteção patrimonial e vigilância

Acessórios e ferragens Acrílicos Ferramentaria Madeira Material de iluminação

Têxtil e vestuário Fabricação de tecidos de malha Design e decoração de interiores Fabricação de artefatos de madeira, palha, cortiça, vime e material trançado Fabricação de produtos de papel, cartolina, papel-cartão e papelão ondulado para uso comercial e de escritório Comércio atacadista de artigos de vestuário e acessórios

Produção associada ao turismo Comercialização de artesanato em argila, fibras, fios de algodão, madeiras, cascas, sementes e tecidos, de bijuterias Biojoias Artigos de decoração Artes plásticas e cênicas

Serviços - Marketing esportivo, jornalismo esportivo, - Locação de material para evento esportivo, - Escolas de esportes -Serviços de impressão -Representação comercial de jornais, revistas e outras publicações

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Fonte: Sebrae e FGV Infográfico: WIlton Santos EDITORIA DE ARTE/CORREIO

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Sete pontos mágicos

A Secretaria municipal do Turismo mapeou os chamados Sete Pontos Mágicos, onde haverá maior circulação de turistas. Nesses locais, a oferta de produtos e serviços será maior. Muitos deles ainda precisam de obras de recuperação para atrair e fidelizar o turista.

Barra: Porto da Barra, Cristo, Museu Hidrográfico, Farol da Barra e Fortes. Pelourinho: símbolo da cidade que precisa ser recuperado Foto: Divulgação

Baía de Todos os Santos: Ilhas de Maré, dos Frades e de Bom Jesus dos Passos se destacam pela beleza. Avenida Contorno: Solar do Unhão, Elevador Lacerda, Bahia Marina, Forte de São Marcelo e Mercado Modelo. Centro Histórico: Praça Castro Alves e as ladeiras do Pelourinho, com grande acervo de cultura e história. Península de Itapagipe: Basílica do Bonfim, uma das mais conhecidas igrejas da Bahia. Itapuã: Lagoa do Abaeté e suas lavadeiras , ícone da cultura local em um dos bairros famosos da cidade. Dique do Tororó: Fica no entorno da Arena Fonte Nova e encanta com as imagens dos orixás.

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Um novo destino Se depender do governo do estado, dentro em breve a Baía de Todos os Santos não será mais a mesma. Já na época da Copa, a área estará funcionando como um grande centro náutico, atraindo não só um grande fluxo de visitantes, mas também de moradores de Salvador e redondezas. É com esse objetivo que a Secretaria do Turismo da Bahia vem trabalhando com o governo federal e empresas privadas, inclusive internacionais. Com recursos do Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur) nacional e incentivos para atrair investimentos, o projeto busca criar uma infraestrutura completa de turismo náutico na maior baía do Brasil. Entre os principais alvos estão Itaparica, Madre de Deus, Santo Amaro, Nazaré, Maragogipe e São Francisco do Conde. “A Baía de Todos os Santos tem uma óbvia vocação para a náutica e o fato de Salvador ser uma das cidades-sede da Copa vai implementar ainda mais esse potencial”, acredita o secretário de Turismo do estado, Domingos Leonelli. Para a implantação de infraestrutura, o estado conta até agora com US$ 84 milhões de financiamento do Prodetur, dos quais R$ 42 milhões correspondem à contrapartida do Ministério do Turismo. A Bahia arcará com 10% da parte que cabe ao ministério, R$ 4,2 milhões. Os recursos serão aplicados na implantação e requalificação de atracadouros, terminais náuticos e hidroviários, recuperação do patrimônio histórico-cultural de localidades próximas - a exemplo da Escola Agrícola de São Francisco do Conde e do Museu Wanderley de Pinho, em Candeias - qualificação profissional e empresarial. Nessa área, a ideia é promover a fabricação de barcos esportivos e equipamentos, além de artesanato local. Leonelli disse que outra ideia é implantar um SAC Náutico para agilizar a expedição de documentação ligada ao setor, o rastreamento de embarcações através de chip eletrônico e a implantação da polícia de patrulhamento marítimo. Além disso, está sendo feito um esforço para a atração de investimentos privados para a instalação de marinas, bases de charters e receptivos turísticos.

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Desafios -Fazer com que o projeto use toda a área de influência da Baía de Todos os Santos -Atrair investimentos privados na qualidade e volume necessários para transformar a Baía de Todos os Santos em um novo vetor de desenvolvimento econômico -Capacitar mão de obra em todos os segmentos envolvidos e implementar todo o projeto até a Copa de 2014 -Estimular áreas de produção em destinos turísticos para abastecer a rede hoteleira e o comércio com alimentos e artesanato, por exemplo, incrementando a cadeia produtiva do turismo

Foto: Marina Silva

“Vamos redescobrir a Baía de Todos os Santos como um espaço turístico”, aposta o secretário. Ele calcula que 17 municípios do entorno da baía e proximidades serão beneficiados com o incremento do turismo em toda a área. Em Salvador, um ponto que receberá maior atenção no projeto, segundo Leonelli, é a Feira de São Joaquim. Ali, tudo será reformado. A velha São Joaquim ganhará visão privilegiada para o mar, o que hoje não ocorre, já que os imóveis do local foram construídos de fundo para a baía. Toda a infraestrutura básica será instalada e o comércio ordenado. Está ainda nos planos a requalificação do terminal da Companhia de Navegação Baiana, no Comércio, que passará a ter mais estrutura para atender passageiros que se deslocam para ilhas da Baía, Forte São Marcelo, Morro de São Paulo, Cachoeira e Maragogipe. Leonelli disse que o governo está fazendo uma pesquisa para integrar economicamente as áreas turísticas da Bahia, estimulando a produção agrícola e industrial. Com isso, pretende 249

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fazer com que a população nativa aproveite ao máximo os benefícios do turismo. Hoje, há destinos na Bahia em que todos os alimentos vêm de fora. Para o secretário, não é admissível, por exemplo, que restaurantes e hotéis da Praia do Forte comprem peixe de outros estados.

“A Baía de Todos os Santos tem uma óbvia vocação para a náutica. O fato de Salvador ser uma das cidadessede da Copa vai implementar ainda mais esse potencial” Foto: Jota Freitas / Setur

Foto: Divulgação

Como avançar? A Feira de São Joaquim vende de tudo, mas em condições caóticas. Pelo novo projeto da secretaria, a feira terá box para a venda dos produtos e restaurante com vista para o mar

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Foto: Rita Barreto/Setur

É preciso redescobrir a baía Entrevista com Domingos Leonelli Palestrante no evento Agenda Bahia 2011, o secretário do Turismo, Domingos Leonelli, procura conter o exagero quando fala das potencialidades do setor na Bahia “Sou um velho socialista”, brinca. Evita polêmica com a prefeitura ao falar sobre a situação das praias, do Pelourinho e do Elevador Lacerda, mas se entusiasma ao falar da reforma da Feira de São Joaquim e da revitalização da área voltada para a Baía de Todos os Santos. A seguir, os principais trechos da conversa com o diretor de Redação, Sergio Costa, e a editora-executiva do Agenda Bahia, Rachel Vita. A Copa está chegando e tem muita atração turística em Salvador, como o Elevador Lacerda, as praias, o Pelourinho, com a situação indefinida. Vai dar tempo de resolver? O governo do estado tem uma atuação limitada em relação a essas intervenções. Sabemos que é área de atuação da prefeitura... Do ponto de vista do Turismo, investimos em infraestrutura, de 2007 a 2011, em torno de R$ 158 milhões, distribuídos principalmente em reurbanização de áreas turísticas, como é o caso de Morro de São Paulo, Imbassaí, estrada Itacaré-Camamu. Em Salvador, temos investido na recuperação de prédios históricos cerca de R$ 20 milhões, como o Palácio Rio Branco e a Igreja do

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Rosário dos Pretos, no Pelourinho. Em curso, investimentos para recuperação da Feira de São Joaquim, de mais R$ 50 milhões. Embora responsabilidade da prefeitura, não preocupa a situação desses cartões-postais como atrativos para Salvador? Preocupa. Nos ícones da cidade, o que temos (governo) algum acesso nós procuramos apoiar e investir. Outros temos maior dificuldade, pois são coisas específicas da prefeitura, como o Elevador Lacerda. Embora o governo do estado tenha sempre se colocado à disposição da prefeitura de Salvador, como fizemos no Carnaval da Bahia. Tenho observado alguns esforços por parte da prefeitura, mas ainda é pouco para a promoção que o destino Salvador precisa. Mas tem havido conversas com a prefeitura? Tem havido as conversas necessárias. Agora, cumprimento de acordo às vezes é mais complicado. Só trato tudo por escrito. Mas são coisas pequenas, não há dificuldade com a prefeitura. O senhor acredita que esses símbolos citados terão uma imagem positiva em 2014? As praias vão poder oferecer mais do que isopor, o Elevador Lacerda estará funcionando e o Pelourinho, recuperado até a Copa? Quero deixar bem claro que diálogo com a prefeitura não é exercido pela nossa secretaria, mas sim pelo governador, através de relações institucionais. Sou um cumpridor de decisões. Tenho receio que algum registro que eu faça possa se chocar com outras iniciativas em curso. Por exemplo, o governador designou o chefe de gabinete dele para acompanhar de perto o Pelourinho.

“Porto Seguro tem 40 mil leitos e não produz nada. Toda a cesta de consumo é importada. Na Praia do Forte, 85% do pescado vem de fora”

E em relação à sua secretaria? Já destinamos R$ 10 milhões para a orla de Salvador. Há um trecho entre o Largo de Amaralina até o antigo Clube Português. São recursos do Turismo em obras executadas pela Conder. Mas, como essas obras dependem da prefeitura, tivemos que esperar um ano para retirar uma barraca para o passeio se completar. Temos recurso semelhante para seguir até perto de Patamares. Não sou eu quem executo, mas eu consigo os recursos. A única intervenção que está sob minha coordenação direta é a Feira de São Joaquim. E quando essa obra estará pronta? Ah, se Deus e todos os santos e orixás nos ajudarem, até o início de 2014. Vamos melhorar muito a vida dos feirantes e dos baianos. Dividimos a obra em quatro grandes etapas. Nessa 252

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primeira etapa, saem quase 400 feirantes. Nós conseguimos um galpão da Codeba, que fica ao lado, e mais um estacionamento. Iremos ampliar a feira. Parte dos feirantes vai trabalhar ali no galpão bem organizado. A feira vai ser um novo ponto turístico de Salvador. Pelo projeto, além de reurbanizar a feira, haverá também restaurantes... Vamos abrir o espaço para o mar. Hoje, nem os feirantes aproveitam isso. O que é fundo do mar vai virar de frente para o mar. Vamos dragar também aquele canal para melhor aproveitar para o turismo náutico. Teremos mais saveiros operando ali, uma marina para receber escunas e turistas que queiram chegar por mar. Além da Feira de São Joaquim, quais são os projetos prioritários para a secretaria? Cidade da Música, Terminal Náutico... Essa é minha batalha praticamente perdida. Lamentavelmente... Tínhamos um sonho de transformar o Parque de Exposições na Cidade da Música, compreendendo a vocação principal da cidade de Salvador e potencializando essa vocação para incluir Salvador nos grandes shows internacionais e ter um espaço para nossas atrações que têm peso internacional. Qual o principal obstáculo? A ideia de transferirmos o Parque de Exposições para Feira de Santana, transformando Feira em grande polo agropecuário também. Mas parece que há muita resistência nessa área. E o Terminal Náutico? Já foi feita licitação pública e acho que este ano o terminal terá suas obras iniciadas. É modesta, mas vai transformar o antigo Cais da Baiana em um ponto melhor para os baianos embarcarem para Mar Grande e uma área específica e ampliada para o turismo náutico. Estará articulada com a abertura para o mar, do Armazém 1, para a estação de passageiros para os cruzeiros. Há investimento de R$ 85 milhões na Baía de Todos os Santos. Será um distrito turístico-cultural. Redescobrir a Baía de Todos os Santos com um turismo moderno. É uma área atualmente pouco trabalhada. Os recursos são para todo o seu conjunto de patrimônio histórico, preservação ambiental, em atracadouros, marinas, na qualificação profissional e na capacitação empresarial. O turismo será reestruturado com a visão que temos hoje do terceiro salto do setor na Bahia: inovação, qualificação e integração econômica, que eram os déficits principais do turismo que encontramos na Bahia. A herança deixada, que proporcionou 253

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o segundo salto do turismo, foi positiva. Mas faltam essas questões. Depois do Pelourinho não tivemos outra inovação turística importante, não havia qualificação e também havia desintegração entre parques hoteleiros e economias regionais. Como fazer isso? Porto Seguro tem 40 mil leitos e não produz nada. Toda a cesta de consumo é importada ou de fora de Porto Seguro ou da Bahia. Na Praia do Forte, 85% do pescado vem de Alagoas, Sergipe e Pernambuco. O que se pretende é mapear essas regiões para integrar a economia turística com as das cidades? O turismo tem que ser um indutor do desenvolvimento econômico. Em Ilhéus, por exemplo, o governo construiu uma fábrica de chocolate. No Litoral Norte, começamos a implantar o sistema produtivo agrícola e de artesanato para o parque hoteleiro. A estruturação do Turismo Náutico veio acompanhada de estímulo de incentivos fiscais para implantação de fábricas de barcos esportivos e de estruturas esportivas na Bahia. Damos isenção de ICMS para importação de embarcações de recreio ou esportes adquiridas para uso exclusivo para charter de turismo náutico. Turismo náutico não é só a regata, mas o mais importante são as bases fixas, onde a pessoa vem aqui e também faz iatismo com barcos alugados. Estamos dando também isenção na produção de peças e componentes ligados à náutica.

“Taxista que se dispuser a dominar mais uma língua, principalmente o inglês, vai ter estímulo e vantagem na renovação da frota ou do veículo”

E qual a expectativa em relação a turistas? Nós já superamos a expectativa de 8 milhões de turistas para 2010. Fechamos com 9 milhões. Tenho muita parcimônia em chutar dados. Salvador recebia um milhão de turistas no Carnaval. Fizemos uma pesquisa que apontou que não chegamos a 480 mil turistas, se considerar o turista que está a mais de 100 quilômetros e passa mais de 24 horas em seu destino. Qual será o legado da Copa? O principal legado será a qualificação profissional. É o que vai nos permitir atravessar a Copa, deixar saudades nos turistas. Transformar os turistas que vierem pra Copa em fregueses permanentes. Se conseguirmos servir bem, transformar o sorriso do baiano em profissionalismo, isso é o que vai fazer o turista voltar. Vai nos permitir a fidelização da clientela, como dizem os novos técnicos do setor. Eu como um velho socialista digo: fazer bem à freguesia. Trazer freguesia nova, boa e permanente (risos).

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Chance de ouro Doutor em Gestão Esportiva e professor da Universidade de São Paulo (USP), Claudio Rocha disse que o país que consegue sediar uma Copa do Mundo pode organizar qualquer outro grande evento. “As exigências para organizar o Mundial são muito grandes e envolvem obras gigantescas, que vão da construção de um metrô ou de um estádio à ampliação de aeroportos, de um simples alargamento de pista à instalação de uma sofisticada rede de transmissão de dados”, explica. Crítico da falta de planejamento do Brasil para cumprir as obras prometidas à Fifa, o professor afirmou que os megaeventos são importantes para testar a capacidade organizacional dos países. “Os grandes eventos têm data para começar e isto, de alguma forma, ajuda a ‘driblar’ o jeitinho brasileiro de deixar tudo para a última hora”. De acordo com Claudio Rocha, por uma “feliz coincidência”, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos serão realizados em sequência no Brasil. Desafios -Melhorar a imagem do Brasil -Promover o turismo pré e pós-jogos -Dar sobrevida aos equipamentos. Os estádios não podem se transformar em elefantes brancos -Usar a Copa como estratégia para alavancar grandes negócios e empreendimentos -Modernizar as cidades com potencial turístico -Fazer da Copa o evento que vai possibilitar a realização de grandes obras de infraestrutura -Estimular o desenvolvimento cultural -Criar uma herança esportiva

“Temos que aproveitar essa chance. E aprender com o exemplo de países como os Estados Unidos, que planejaram as duas

Foto: Marina Silva

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competições muito bem, comercializaram pacotes turísticos antes, durante e depois dos eventos e ainda passaram para a iniciativa privada a administração da Vila Olímpica, estádios, ginásios e muitos outros equipamentos utilizados pelos atletas”. O professor citou o calendário para lembrar que os brasileiros deixaram “tudo para a última hora”. “O Brasil foi escolhido para sediar o Mundial de 2014 no dia 30 de outubro de 2007. Naquela data histórica, faltavam 6 anos, 7 meses e 14 dias para o início do Mundial. Agora, faltam apenas 2 anos, 8meses e 17 dias (informações com referência no dia 20 de setembro de 2011)”, ressaltou Rocha. Doutor em Gestão Esportiva, Claudio Rocha acredita que a falta de planejamento das autoridades brasileiras vai provocar aumento nos custos das obras previstas para a Copa do Mundo. Para ele, o valor inicial já está bem acima dos padrões de outros países. “A Alemanha gastou US$ 7,7 bilhões para organizar o campeonato e no Brasil a competição não vai sair por menos de US$ 14 bilhões”, afirmou. “A falta de infraestrutura, os desvios de verbas e a ganância ajudam a explicar esse aumento de quase 100%”, avalia. Depois de sua participação no evento, ao ser indagado se acredita na possibilidade de o país cumprir as metas estabelecidas no caderno de encargos encaminhado à Fifa, Claudio Rocha foi cético. “Sinceramente, não. A Copa será aqui, não tem jeito, mas muitas obras prometidas ficarão apenas na promessa”. Apesar das críticas, o especialista acredita que o Mundial vai deixar um grande legado para o Brasil. “Certamente, vamos estimular a prática de esportes entre os jovens e adolescentes, melhorar o parque hoteleiro e o turismo e também a infraestrutura aeroportuária”. Claudio Rocha citou outro exemplo positivo de país que aproveitou um megaevento (Olimpíada) para se reposicionar perante o mundo. “A Austrália era conhecida por ser um país muito distante e exótico. Depois da Olimpíada, passou a ser citada como um país moderno, de tecnologia de ponta”, afirmou o especialista.

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INVESTIMENTO NA COPA Custos dos países na Copa, de acordo com a Fifa (em bilhões de dólares)

2002 Coreia/Japão 7

1994 Estados Unidos 5,6

2006 Alemanha 7,7

1998 França 2,9

2010 África do Sul 5,2 Quanto os países orçaram e quanto gastaram nos Jogos Olímpicos (em bilhões de dólares) 2000 – Sydney (Austrália) Valor estimado: 3,1 Valor gasto: 6,9 2004 – Atenas (Grécia) Valor estimado: 1,7 Valor gasto: 15 2008 – Pequim (China) Valor estimado: 1,61 Valor gasto: 42 (25 vezes mais)

Bom exemplo Sydney 2000 expandiu os benefícios do turismo para outras cidades autralianas com pacotes antes e depois da Olimpíada Teve 1,6 milhão de turistas internacionais 2,9 bilhões de dólares australianos de receitas do turismo Turismo: 44,6% do impacto econômico Oportunidade Brasil 2014/2016 Aproveitar cidades com potencial turístico para ampliar os roteiros turísticos Investir também em turismo de negócos: turistas de convenção gastam sete vezes mais do que turistas de lazer

FONTE: CLAUDIO ROCHA

Fonte: Claudio Rocha Infográfico: Wilton Santos

EDITORIA DE ARTE/CORREIO

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Para fugir do jeitinho O que está sendo investido na melhoria dos aeroportos brasileiros ainda é muito pouco. A avaliação é do presidente da Trip Linhas Aéreas, José Mário Caprioli, um dos palestrantes do seminário. De acordo com ele, enquanto o Brasil tem 350 aviões comerciais operando, apenas uma empresa nos Estados Unidos trabalha com o dobro de aeronaves. Além disso, a média de viagens que o brasileiro faz por ano ainda é muito inferior à de outros países. O índice é de 0,34 viagem por habitante, enquanto o Canadá, por exemplo, realiza 2,69 viagens por ano. “Hoje, temos um crescimento na aviação brasileira maior do que o da China, já acumulando 21%. Mesmo assim, ainda estamos engatinhando na área”, explica. Só para ter ideia do potencial do setor, cerca de 200 milhões de passageiros por ano ainda viajam por ônibus em trajetos distantes, que poderiam ser realizados de avião. Na avaliação de José Mario Caprioli, também presidente do Conselho Consultivo do Sindicato Nacional das Empresas Aéreas, o Brasil está com 30 anos de atraso na aviação regional. Enquanto na década de 80 o país contava com 350 municípios atendidos por voos, hoje

Desafios

-Investir mais nos terminais, nos pátios e no melhor aproveitamento do espaço aéreo ao mesmo tempo -Incentivar e possibilitar a aviação regional, através da adequação dos aeroportos no interior do país -Estabelecer regimes especiais de tributação para aviação regional -Aumentar o número de rotas no país, que teve um decréscimo nos últimos 30 anos

Foto: Marina Silva

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existem em torno de 140 cidades servidas. Por que o Brasil se descapilarizou? O problema é que hoje não existem muitas rotas troncais, que poderiam atender comunidades distantes e comunicar o país. Para atender bem uma cidade de 100 mil habitantes, Caprioli explica que seriam necessários três voos por dia. “O Brasil está muito distante disto”, analisa. Mesmo com problemas, a aviação tem avançado e o presidente da Trip atribui isso a três fenômenos: a ascensão da classe C no país, o acesso ao crédito e o barateamento da tarifa dos aviões. Com a diminuição do valor das passagens, Caprioli acredita que a aviação regional poderá expandir ainda mais. O executivo usa dois exemplos para justificar sua tese. Nos Estados Unidos, existiam 330 rotas na aviação regional em 1995 - em 2005 esse número passou para 1.600 rotas, sendo o transporte aéreo regional americano responsável por um terço das atividades no setor. Na Europa, enquanto existiam 24 rotas regionais em 1995, dez anos depois esse número saltou para mais de 1.900, atendendo bem aos deslocamentos dentro do continente. Hoje, quando o assunto é o Brasil, a pedra no caminho da aviação regional se chama infraestrutura e Caprioli explica que são necessários investimentos em diferentes áreas (como o pátio, o terminal de passageiros, a possibilidade de movimentação dos voos por hora), mas todos eles planejados e conectados. “Aqui na Bahia, temos um voo previsto para Barreiras que não pode operar por problemas com o combate a incêndios na região”, diz. Caprioli prometeu implantar uma nova rota Barreiras-Salvador em até seis meses. A Trip atende hoje 21 estados, com 85 destinos diferentes (sendo 10 deles na Bahia) e 450 voos diários. A previsão é aumentar para 100 destinos até 2013.

* Números do céu

31

42

350

65

60

140

milhões de passageiros usaram avião em 2004

milhões de passageiros embarcaram em avião em 2010

pousos e decolagens feitos pela Trip na Bahia atualmente

pousos e decolagens: previsão da Trip no estado em 2013

era o número de rotas no Brasil em 1980

é o número de rotas atualmente no país

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Para a bola rolar redonda na Bahia Confira o que precisa ser feito para que os pontos turísticos tradicionais do estado batam um bolão na Copa de 2014 Praias

Infográfico: Para a bola rolar redonda na Bahia

Atualmente sem barracas, a prefeitura pretende realizar uma requalificação urbana e ambiental nas praias de Salvador. Segundo a prefeitura, já foram realizadas obras no trecho Jaguaribe/ Itapuã

Pelourinho

T

Estão previstas obras de iluminação; restauração de monumentos; reforma da Primeira e Terceira Igrejas do Carmo; reforma do Elevador do Taboão; construção de um centro de referência da cidade de Salvador, com toda a história e cultura da cidade; reforma das fontes na região e obras mais detalhadas como a reforma dos retábulos da Catedral Basílica de Salvador, mas não há data para começar

P c n

Elevador Lacerda

Estava prevista a reforma, assim como dos planos inclinados Gonçalves, Pilar e da Liberdade. Porém, o plano da prefeitura era reforma mediante a privatização dos meios de transporte, o que já foi condenado pela opinião pública

S

Dique do Tororó

Com a implantação da Arena Fonte Nova na região, a prefeitura acredita que haverá uma requalificação natural do entorno, mas informou que irá estabelecer um plano de intervenção com os comerciantes, por exemplo

Mercado Modelo

Como o centenário do Mercado será no próximo ano, estão previstas ações de requalificação, ampliação do estacionamento, mas com integração do projeto ao novo terminal de passageiros que será construído pela Codeba no armazém 1 e 2 do Porto de Salvador

Lagoa do Abaeté

Não está prevista nenhuma intervenção da prefeitura que atribuiu responsabilidade da área ao Inema e à Conder

Na

Rio Vermelho

Não está incluso nos gastos orçamentários da prefeitura, mas ao arrecadar mais recursos, o plano é transformar a área em um polo gastronômico de Salvador

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Farol de Itapuã

Recuperação das calçadas

Igreja do Bonfim e seu entorno

Construção do Corredor da Fé, que prevê a reforma do Largo de Roma e recuperação do Memorial de Irmã Dulce até a Igreja do Bonfim; recuperação urbanística da orla entre a Ponta de Humaitá e a Ribeira

Farol da Barra

Recuperação urbanística do trecho entre o Porto da Barra e o Farol; intervenção viária para criar áreas de estacionamento para os ônibus turísticos, por exemplo; recuperação do Forte de Santa Maria; Recuperação do entorno do Farol da Barra

Turismo náutico Projeto do governo do estado busca criar infraestrutura para turismo náutico na maior baía do Brasil

Clube

Estaleiro

Terminal hidroviário

Marina

Porto Municípios Atracadouro Santo Amaro São Francisco do Conde Cachoeira Ilha Cajaíba

Candeias

São Félix

Camaçari Saubara Madre de Deus

Ilha de Maré

Maragogipe

Simões Filho

Iha dos Frades

Salinas da Margarida

Itaparica

Salvador

Veracruz Ilha Carapeba

Canal de Salvador

Nazaré

Jaguaripe

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Corrida contra o tempo Para os quatro participantes do debate Como Grandes Eventos Esportivos Podem Transformar um Destino Turístico, ainda é preciso investir muito para garantir o sucesso da Copa de 2014 na Bahia. Além do atraso na execução dos projetos, outro dado foi apontado pelos debatedores para reforçar a ideia de que muitas propostas deixarão de ser realizadas: a falta de dinheiro. “A prefeitura de Salvador não tem mais capacidade de endividamento”, afirmou o presidente da Saltur, Claudio Tinoco.

Rachel Vita, Claudia Baggio, Caprioli, Tinoco e Leonelli Foto: Marina Silva

Bem-humorado, o secretário Domingos Leonelli afirmou que os atrasos podem ocorrer em projetos do governo e classificou como “aceitável” uma obra não ter começado após um ou dois anos do seu anúncio. “Muitas empresas que participam das licitações recorrem, a Justiça às vezes demora muito para decidir, enfim, o setor público enfrenta muitos problemas”. Logo no início do debate, que teve como moderadora Rachel Vita, editora-executiva do Agenda Bahia, Tinoco apresentou projeto de US$ 455 milhões para o turismo de Salvador. Leonelli sinalizou com a possibilidade do estado contribuir para que as obras incluídas no projeto da prefeitura sejam realizadas. “Esta parceria com a prefeitura é importante para Salvador, é importante para o turismo”, afirmou. O presidente da Trip Linhas Aéreas, José Mario Caprioli, e a diretora da área de Corporate Finance da Deloitte, Claudia Baggio, também participaram do debate.

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Endividada, prefeitura busca parceiros O que falta à prefeitura de Salvador para executar obras e dar mais dinamismo ao setor turístico da capital baiana não são ideias ou projetos, mas dinheiro. Foi o que disse o presidente da Saltur (empresa de turismo do município), Claudio Tinoco, durante o debate no último seminário do Agenda Bahia 2011.

Tinoco apresentou plano de turismo para Salvador

Tinoco reconheceu que três símbolos turísticos de Salvador, o Elevador Lacerda, as praias e o Pelourinho têm muitos problemas operacionais. “A prefeitura não possui mais capacidade de endividamento e, sozinha, não vai resolver esses e outros problemas”, afirmou. Durante o debate, Claudio Tinoco apresentou pela primeira vez o Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável no seminário. “São projetos que, se executados, vão transformar Salvador em uma cidade muito mais moderna, acessível e dinâmica”. No total, os projetos incluídos no plano estão orçados em US$ 455 milhões.

Leonelli: obras terão prazos cumpridos Embora agisse com diplomacia durante todo o debate, o secretário Domingos Leonelli disse que a prefeitura não trata o turismo como prioridade, ao ser perguntado por Claudio Tinoco se trocaria o projeto da Baía de Todos os Santos pelo programa da prefeitura para toda Salvador. “A prefeitura não pode considerar importante (o turismo) e colocar só R$ 2 milhões no orçamento. Ninguém pode realizar nada sem dinheiro”.

Leonelli cobrou mais verba da prefeitura Fotos: Marina Silva

Segundo o secretário, embora com atrasos, as obras previstas para o Mundial serão realizadas. Leonelli disse que o governo estadual está trabalhando para aproveitar todas as oportunidades proporcionadas pelo Mundial. “Estamos atraindo muitas empresas e oferecendo linhas de financiamento para a construção de novos hotéis e renovação de muitos outros equipamentos”, afirmou. O secretário adiantou que irá renovar a redução no ICMS dos combustíveis de aeronaves na Bahia.

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Copa gera muitas oportunidades Uma pesquisa concluída recentemente pela Deloitte aponta que as maiores oportunidades geradas pelos dois grandes eventos esportivos que serão realizados nos próximos anos no Brasil (Copa, em 2014, e Jogos Olímpicos, em 2016) estão basicamente concentradas na construção civil, infraestrutura aeroportuária, turismo, hotelaria e lazer. “Temos que aproveitar esta oportunidade que é única no país”, afirmou Claudia Baggio, diretora da Deloitte, no debate. “Para bons projetos, teremos bons investidores”, acrescentou. Claudia afirmou que a globalização e a concorrência tornaram os investimentos “sem destino certo”. “Quem oferecer segurança jurídica, infraestrutura, linhas de financiamento e souber negociar leva uma grande vantagem”, disse a especialista.

Claudia Baggio: bons projetos têm bons investidores

Em um dos momentos mais descontraídos do debate, Claudia Baggio foi muito aplaudida pela plateia ao afirmar que tinha “adotado” a Bahia como sua segunda casa. “Adoro esta terra, nos últimos dez anos vim aqui umas sete ou oito vezes. E sempre quero voltar”.

Gargalo nas cidades médias baianas Depois de anunciar mais uma rota da Trip Linhas Aéreas de Salvador para Lençóis, a mais conhecida cidade da Chapada Diamantina, o presidente da empresa, José Mario Caprioli, disse que, ao contrário do que muita gente pensa, os 30 dias da disputa da Copa do Mundo “não serão suficientes para salvar nenhum hotel ou empresa”. “O que vai ficar é a reverberação das experiências, serão 30 dias de experimento. Se tratarmos bem os turistas, eles vão voltar”, afirmou. Caprioli acrescentou que a nova rota para Lençóis demonstra a intenção da Trip em ampliar a sua participação na Bahia. “Também queremos voar para Barreiras e outras cidades, mas, sem infraestrutura, não dá”. Segundo o presidente da Trip, a aviação regional pode resolver o gargalo na malha aérea do estado. “A Bahia é bem servida nas grandes cidades, mas tem problemas nos pequenos e médios municípios”.

Caprioli: turista bem tratado retorna Fotos: Marina Silva

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Um show de Arena Mais de um ano antes de começar a Copa do Mundo 2014, a Arena Fonte Nova já deverá estar funcionando a pleno vapor. E não será com jogos de futebol, pelo menos não apenas com isso. O espaço será aproveitado para variados tipos de eventos, dentro do que se considera oportunidades ex-Copa. São shows, festivais de música e eventos afins, organizados dentro do clima de espera dos jogos, numa espécie de “esquenta” para o grande acontecimento. Como a expectativa é de que a Arena Fonte Nova fique pronta em 15 meses, a programação deverá começar no primeiro trimestre de 2013. Os eventos, porém, não se limitarão aos meses que antecedem a Copa. Idealizada como um espaço multiuso, inspirada na Amsterdã Arena e em outros empreendimentos do gênero apontados como dos mais modernos e bem-sucedidos do mundo, a nova Fonte Nova deverá funcionar os 360 dias do ano. Além de grandes eventos, haverá restaurante, quiosques de alimentação, lojas de artesanato, museu, espaço para fóruns, esportes radicais, seminários e festas privadas.

Como avançar? -Flexibilidade para mudança de cenário. Projeto permite mix de eventos com perfis bem diferentes, como shows internacionais e esportes radicais. -Qualificar a população do entorno a fim de promover a inclusão social e a integração à Arena

“A Arena será um centro integrado de turismo, negócios, entretenimento e esportes, capaz de dar um novo impulso ao turismo baiano”, resume o presidente da Arena Fonte Nova, Dênio Cidreira.

Foto: Evandro Veiga

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Os estudos realizados até agora com vistas ao aproveitamento do espaço apontam a possibilidade de realização de 80 eventos, em média, por ano, disse o executivo, em palestra sobre o assunto no quarto seminário do Agenda Bahia 2011. Um esboço de programação já foi traçado, seguindo a experiência da Amsterdã Arena, mas com um toque “tropicalizado”, como ressaltou Cidreira. “Todo o projeto está estruturado para grandes shows. Haverá uma flexibilidade enorme para mudar de cenário, de futebol para música”, explicou. “O legado para o turismo da cidade vai começar antes da Copa”, promete. A Arena foi pensada não só para turistas. A ideia é integrar a população no dia a dia do novo espaço, potencializando o seu aproveitamento. Fruto de uma Parceria Público Privada (PPP) entre o governo do estado e o Consórcio Arena Fonte Nova (formado pela Odebrecht e OAS), o projeto funcionará como uma iniciativa privada por 35 anos, de acordo com o contrato.

“A Arena será um centro integrado de turismo, negócios, entretenimento e esportes, capaz de dar um novo impulso ao turismo baiano”

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Foto: Evandro Veiga

Bahia: novo perfil Alternando críticas e elogios à infraestrutura turística, o presidente do Salvador Convention Bureau, Pedro Costa, afirmou durante a sua palestra no Agenda Bahia 2011 que os investimentos previstos para a cidade até o início da Copa do Mundo vão mudar o perfil da primeira capital brasileira. “Até agora, já estão confirmados R$ 45 milhões em obras no aeroporto, R$ 200 milhões no porto e mais R$ 2,4 bilhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que serão aplicados em vários projetos”, disse.

Desafios - Melhor qualificação da infraestrutura dos principais roteiros turísticos - Atração de capital estrangeiro - Surgimentos de novos negócios - Criação de espaço para receber turistas no Porto de Salvador

“Com tantas carências no Brasil, é evidente que sempre vai haver dificuldade de liberação de verbas. Mas nós temos que ousar”

De acordo com Costa, em torno de 150 eventos estão confirmados em Salvador no ano que vem - em média, cada encontro terá 1.200 participantes. “Nossa visão está voltada para médio e longo prazos. Em 2012, por exemplo, estaremos realizando eventos captados em 2004”, disse o presidente do Convention Bureau, uma fundação de direito privado sem fins lucrativos, composta por todas as instituições que integram o trade turístico da Bahia, além do governo estadual e da Saltur. Para Pedro Costa, a Bahia possui todas as condições de se transformar em um dos principais roteiros turísticos do mundo. “Temos localização privilegiada, clima favorável, malha aérea diversificada, 45 mil leitos e cinco grandes centros de convenções”, acrescentou. “Além de todos esses detalhes, que são muito importantes, possuímos um forte apelo cultural, ecológico e histórico. Nada supera a marca da baiana do acarajé”, acredita. Em sua palestra, Pedro Costa afirmou que, nos últimos cinco anos, a Bahia realizou 440 eventos, dos quais 118 internacionais. “Esses eventos atraíram quase 600 mil pessoas e geraram uma receita de US$ 700 milhões”.

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Depois de elogiar as belezas naturais da Bahia, Pedro Costa afirmou que o estado precisa investir mais em infraestrutura para transformar seus principais roteiros turísticos em verdadeiras opções de lazer e entretenimento. “O que não dá para aceitar é o Porto de Salvador, por exemplo, funcionando precariamente, sem as mínimas condições para atrair turistas que fazem cruzeiros. Lá (no porto), quando chove, ninguém consegue sair do navio e desembarcar com tranquilidade no terminal de passageiros, a não ser que queira tomar um banho”, disse o presidente do Convention Bureau. Pedro Costa disse ainda que a falta de recursos não pode servir de desculpas para que as obras não sejam realizadas na cidade. “Com tantas carências no Brasil, é evidente que sempre vai haver dificuldade de liberação de verbas. Mas nós temos que ousar, temos de pensar e projetar o futuro, não podemos viver apenas de ilusão e de maquiagem”. Na opinião de Pedro Costa, a Copa do Mundo também vai oferecer a oportunidade para Salvador realizar obras importantes para oferecer mais opções de lazer aos turistas. “Não temos uma grande casa de espetáculos, não temos um bom restaurante com capacidade para mais de 300 pessoas, não temos segurança nos parques”, afirmou. “É preciso ter em mente que o turista que vem a uma Copa do Mundo é muito mais exigente do que aquele visitante que quer apenas curtir o Carnaval, por exemplo”, avalia o presidente do Convention Bureau.

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Terra firme

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mil dólares: receita com eventos em 2005

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mil leitos hoteleiros com padrão internacional

mil dólares: receita com eventos em 2010

Centros de Convenções

eventos já programados para a Bahia na Copa

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turismo Sergio Costa, Dênio, Marco Aurélio, Leonel, Campelo e Pedro Galvão Foto: Evandro Veiga

Ataque e defesa Um debate acalorado em que o poder público se defendeu tentando argumentar que já está realizando as obras e programas de qualificação para a Copa 2014 e a iniciativa privada e a academia questionando onde estão sendo realizadas essas ações. Mediado pelo diretor de Redação do Correio, Sergio Costa, o debate encerrou o Agenda Bahia e contou com a participação de Dênio Cidreira, presidente da Arena Fonte Nova, Marco Aurélio de Filgueiras, coordenador do Observatório da Copa de 2014 da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Leonel Leal, gestor municipal da Copa 2014, Ney Campelo, secretário para assuntos especiais da Copa do Mundo (Secopa), e Pedro Galvão, presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagem (Abav-BA). As primeiras perguntas do debate expressaram as preocupações dos torcedores do Bahia com a nova casa do time. Queriam saber quanto custará o ingresso e até mesmo qual o nome que terá a nova Arena. Galvão também recebeu aplausos quando expressou as suas preocupações com a realização da Copa na Bahia. Para o Verão 2011/2012, o presidente da Abav já reforçou que não há o que mostrar aos turistas, que não encontrarão barracas, ou banheiros, ou a mínima estrutura nas praias de Salvador. Costa questionou Leal sobre os programas desenvolvidos pela prefeitura para a qualificação da mão de obra e quantas pessoas estão sendo atendidas. Porém, Leal não soube especificar o dado. Já Campelo reforçou que não bastará o baiano ser hospitaleiro, terá que mostrar eficiência. 269

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Preço do ingresso: R$ 39 Durante o debate, o presidente da Arena Fonte Nova, Dênio Cidreira, respondeu às perguntas da plateia. Nesse momento, a preocupação principal, especialmente dos torcedores do Bahia que estavam presentes, foi em relação ao preço do ingresso, qual será o nome do estádio e quais as chances de o Vitória também assinar o contrato para jogar no novo campo. Cidreira contou que os ingressos estarão na média de R$ 39, que manterá o nome Arena Fonte Nova, mas ainda não há estimativa se o Vitória irá assinar o contrato. Outra preocupação, esta do gestor, é sobre a liberação dos recursos: “Está mais lenta do que se esperava”. Mas, até agora, nada de atrasos.

Dênio Cidreira falou sobre liberação de recursos

Quem pagará esta conta? O coordenador do Observatório da Copa de 2014 da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Marco Aurélio de Filgueiras, lembrou uma frase dita pela ministra do Planejamento, Mirian Belchior, que não tem ideia de quanto custará a conta da Copa no Brasil. “Mas sabemos quem vai pagar esta conta, não é?”, provocou o acadêmico. Pela dimensão dos recursos públicos que estão sendo investidos, Filgueiras disse que não cabem apenas preocupações se dará tempo para as obras ficarem prontas, mas, principalmente, se elas estão sendo devidamente executadas. Ele também lembrou que o Observatório foi o primeiro a ser criado no país.

Marco Aurélio: preocupação com execução das obras

Plano diretor para a Copa Apesar das críticas ao atraso de projetos e obras, o gestor municipal da Copa 2014, Leonel Leal, garantiu que a prefeitura está agindo. Citou como exemplo cursos de qualificação profissional, como o promovido pela Associação Brasileira da Indústria Hoteleira (Abih-BA), que certificou profissionais com mais de 200 horas de curso. “Entendo que, com a proximidade da Copa, as preocupações afloram e parece para a sociedade que nada está sendo feito. Mas a prefeitura já preparou um plano diretor da Copa”, garantiu. Ao ser questionado sobre o legado para outras áreas, Leal disse que “a Copa não vai resolver todos os problemas da cidade”.

Leonel: Copa não vai resolver todos os problemas Fotos: Evandro Veiga

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Tradutor pessoal para todos os taxistas O secretário da Secopa, Ney Campelo, criticou durante o debate os programas de qualificação que estão sendo promovidos pelo governo federal, como o Olá Turista, que teve mais de 80% de desistência ao tentar ensinar inglês aos taxistas a distância. “Não pode ser com qualquer programa”, falou. Ele ressaltou que a Bahia não vai resolver todo o problema de qualificação até 2014 e contou sobre estratégias do governo, como a distribuição de tablets para todos os taxistas.

Campelo: certificação para cursos de formação

Os computadores portáteis servirão como tradutores pessoais para os motoristas tirarem dúvidas e se comunicarem com os estrangeiros que pegarem seu carro. Outro ponto ressaltado pelo secretário é a necessidade de se investir em selos e certificações, para que o turista possa identificar os profissionais que foram qualificados. “A Bahia será referência em receber bem. Mas não podemos confundir o jeito hospitaleiro do baiano com eficiência”, acrescenta.

Um grande legado, ou um ‘negado’ Para o presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagem (Abav-BA), Pedro Galvão, a Copa 2014 pode proporcionar a vinda de turistas para os próximos 50 anos, mas também pode se “transformar em um grande negado”, caso o turista fique com uma má impressão. Um dos principais tópicos discutidos por Galvão foi a qualificação dos profissionais no setor turístico. “Não queremos o brother, nem para o (turista) estrangeiro, nem para o nacional”, ressaltou Galvão sobre a informalidade do baiano ao tratar os visitantes.

Galvão cobrou qualificação no turismo baiano Fotos: Evandro Veiga

A infraestrutura também não deixou de ser lembrada por Galvão. “Entramos no Verão (2011/2012) sem ter o que oferecer aos turistas. A prefeitura tirou as barracas, mas nem um banheiro colocou nas praias”, criticou. Galvão também reclamou sobre a infraestrutura e disse que é preciso mais hotéis. “O setor hoteleiro não gosta que eu diga isto, mas teremos dez vezes mais turistas e estamos perdendo o time da história”, diz.

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Foto: Evandro Veiga

Ações Prefeitura e estado prometeram qualificar taxistas com cursos de inglês para receber bem o turista na Bahia

Yes, you can Ainda em 2011 será aberta em Salvador uma série de cursos da iniciativa pública e privada para preparar profissionais que vão atuar durante os jogos da Copa 2014. Haverá capacitação em diversas áreas, cuja demanda foi identificada durante workshop realizado na cidade. O treinamento se dirige sobretudo aos profissionais ligados diretamente à Copa que servirão em aeroportos, porto e rodoviária, taxistas, baianas de acarajé, transporte público, guias turísticos, pessoal de hotelaria, restaurantes, museus e na Arena Fonte Nova. Serão dezenas de cursos. Os interessados passarão por uma seleção com base nos critérios de qualificação da Fifa. “A ideia é fazer uma parceria com a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para possibilitar a certificação, com a expedição de um selo para grandes eventos”, explica o secretário estadual de Assuntos para a Copa, Ney Campelo. Campelo diz que, em certas áreas, não haverá maiores problemas. É o caso dos guias e monitores. Além dos voluntários a serem recrutados pela Fifa, o estado conta com cerca de 500 que já atuam no Carnaval. “Vamos preparar esses guias como pessoal adicional. Todos têm experiência em um 272

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grande evento. Afinal, o projeto da Copa prevê de 60 mil a 70 mil turistas na Bahia e, no Carnaval baiano, são mais de 1 milhão de pessoas”, compara o secretário. Entre os projetos previstos no programa de qualificação da Secopa há o que pretende treinar ex-jogadores de futebol para atuar no estádio, fazendo o receptivo dos atletas e gerenciando o grande público. “É um ambiente que eles conhecem e, além disso, um meio de reinseri-los de alguma forma na antiga profissão”, acredita Glávia Betim, coordenadora de qualificação da Secopa. Outro projeto prevê a formação de jovens, idosos e deficientes físicos para atuar em organização e orientação em vários setores, como foi feito nos Jogos Pan-Americanos do Rio. Ambulantes, baianas de acarajé e taxistas terão cursos voltados para a sensibilização sobre a importância do evento Copa, com noções de hospitalidade, turismo e também idiomas. Já estão em andamento alguns treinamentos, salienta Leonel Leal Neto, gestor do Escritório Municipal da Copa. Em hotelaria, a Escola Virtual dos Meios de Hospedagem, através da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (Abih-BA), qualifica profissionais de hotéis, pousadas e albergues de Salvador. Outra iniciativa que ele destaca é o treinamento em primeiros socorros. A Secretaria Municipal de Saúde vai qualificar profissionais da rede hoteleira, bares e restaurantes em atendimento de emergência cardiovascular, o tipo mais frequente de ocorrência em Copas do Mundo. Para Paulo Tavares, consultor em hotelaria da Deloitte, há muito o que fazer, para ficar apenas nos hotéis. “As grandes cadeias hoteleiras do mundo têm um processo de capacitação interna, que vai desde pessoal de recepção a restaurante e gestão. Atender bem em hotel é hoje um padrão no mundo inteiro”. Ele diz que no Brasil há ainda empresários de médio porte que veem a capacitação de funcionários como um gasto, e não um investimento. O consultor acentua que há projetos disponíveis, como os da Abih. E linhas de crédito do BNDES para isso. “É preciso ter visão mais proativa, mais coragem, ir atrás das oportunidades dispostas no mercado. Elas estão aí, na mão. Este é um momento único para criar uma estrutura sólida”, alerta. 273

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Curso especial para jovens Para a consultora de turismo Eliana Maia, a Copa é uma grande oportunidade para incluir socialmente as minorias, em especial os jovens em situação de risco. A convite do consórcio Arena Fonte Nova, ela vai voltar a pôr em prática o Trilha Jovem, um programa premiado pela Unesco, desenvolvido entre 2005 e 2009 pelo Instituto de Hospitalidade (IH). Criado pela Fundação Odebrecht, que depois atraiu vários parceiros, o IH foi pioneiro no país na formatação de normas de certificação profissional para o setor de turismo. Hoje, essas normas estão com a ABNT. O Trilha Jovem oferece 540 horas/aula para alunos da rede pública, que recebem noções de turismo e são estimulados a escolher entre três eixos – alimentos e bebidas, agências de viagens e hospedagem. Feita a escolha, têm 80 horas de prática em empresas do segmento eleito, sob supervisão dos professores do curso. A tecnologia está sendo adaptada para atender a Copa. A intenção é dar prioridade a jovens que vivem no entorno da Fonte Nova.

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Praia Berimba

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Pelourinho - Salvador

Carnaval da Bahia

Além do sol, das praias, do azul do mar, do verde das montanhas cortadas por rios

Lavagem do Bonfim - Salvador

e cachoeiras, a força da história. O vigor e a diversidade de uma cultura viva. O sorriso de um povo que gosta e sabe receber bem. O verão do Brasil começa aqui. A Bahia é muito mais.

Praia de Itapuã - Salvador Berimbau e fitas do Senhor do Bonfim

Morro de São Paulo - Costa do Dendê

Baía de Todos-os-Santos

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Capoeira - Farol da Barra

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Realizadores A Rede Bahia A Rede Bahia é um grupo empresarial formado por 15 empresas, sendo seis emissoras de TV afiliadas à Rede Globo, uma TV local, quatro emissoras de rádio, jornal, portal de internet, empresa de eventos e uma produtora de vídeo. Maior grupo de comunicação do Norte e Nordeste, a Rede Bahia atua dentro e fora do estado, com um alto padrão tecnológico e contribuindo intensamente para o desenvolvimento econômico, social e cultural da Bahia.

O CORREIO Jornal líder de circulação na Bahia e no Norte e Nordeste, o Correio assumiu lugar de destaque na imprensa nacional pelo seu crescimento expressivo a partir do fim de 2008, quando foi implantado um novo projeto editorial e gráfico. A partir daí, conquistou prêmios nacionais e internacionais de jornalismo e artes gráficas. A inovação é a sua principal característica. Foi através dela que ampliou sua participação no mercado baiano e nordestino de leitores e tornou-se o veículo com crescimento mais expressivo e sustentado do país nos três anos que se seguiram à sua reforma. Uma evolução acompanhada por sua versão online e que, com a proposta da criação do Agenda Bahia, mostra-se totalmente alinhada com a missão e os valores da Rede Bahia, da qual faz parte, de contribuir para o desenvolvimento socioeconômico e cultural do estado.

A CBN Informação precisa e isenta, notícias 24 horas por dia, pluralidade de opiniões e análise crítica do que está por trás dos fatos. Este é o conceito do jornalismo praticado pela rádio CBN, que atua em Salvador, no dial 100,7 FM, com programação local de alta qualidade. Presente nas principais cidades brasileiras, a rádio CBN, pioneira no modelo all news, destaca em sua programação assuntos políticos e econômicos da Bahia, do Brasil e do mundo, além de abordar temas relevantes como comportamento, cultura, esportes, saúde e variedades. Como consequência da sua alta credibilidade jornalística, foi eleita, pelo décimo ano consecutivo, a rádio mais admirada do Brasil (Pesquisa Veículos Mais Admirados, categoria Rádio, edição 2009, realizada pela Troiano Consultoria de Marca).

Expediente Rede Bahia - Presidente: Antonio Carlos Magalhães Júnior Sócio-administrador: Luís Eduardo Magalhães Filho Superintendente: Dante Iacovone Diretoria: Luiz Alberto Albuquerque, Paulo Sobral , João Gomes, Maurício Fonseca e Carlos Magalhães Correio - Diretor: Wilson Maron Diretor de Redação: Sergio Costa Editor-executivo: Oscar Valporto Editora-executiva de Conteúdo: Rachel Vita Comercial: Leonardo César Marketing: Alessandra Lessa, Gisele Padovan, Aline Pimentel, Alice Ribeiro Produção: Monica Cohen e Viviane Anchieta Edição: Rachel Vita Textos: Luiz Francisco, Luciana Rebouças, Marcelo Sant’Ana, Maria José Quadros e Rachel Vita Revisão: Socorro Araújo Projeto gráfico e diagramação: Morgana Miranda Federação das Indústrias do Estado da Baia (Fieb) - Presidente: José de Freitas Mascarenhas Diretor Executivo: Roberto de Miranda Musser Superintendente de Comunicação Institucional: Maurício José Alves de Castro Coordenador de Comunicação Institucional: Cleber Laudelino Leal Borges Superintendente de Desenvolvimento Industrial: João Marcelo Alves Economistas da Superintendência de Desenvolvimento Industrial: Carlos Danilo Peres Almeida, Marcus Emerson Verhine e Mauricio West Pedrão

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Este livro foi impresso utilizando a família tipográfica Prelo, nas variações book, bold, black e slab black, em papel reciclato

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Livro Agenda Bahia 2011