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ENCONTROS E DESPEDIDAS

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A Rodoviária de BH é um local de chegadas apáticas e de despedidas que provocam lágrimas. Documentos são perdidos e isqueiros encontrados por: Ana Lúcia Figueiredo, Daniele Ferreira, Hélio Monteiro e Wilton Melo

bagagem vestem seus coletes amarelos e, repentinamente, os alto-falantes liberam informações introduzidas com o clássico “atenção, senhores passageiros...”. A rodoviária é um local feito de múltiplos “vai e vens”. Tem quem parte para Ponto Chique, em Minas Gerais; quem retorna de Sítio do Quinto, na Bahia. A viagem mais longa partindo do terminal é para a capital de Rondônia, Porto Velho, com mais de 3.500 quilômetros de estrada. Localizada na Praça Rio Branco, no Centro, a rodoviária atende a uma demanda de aproximadamente 17 milhões de passageiros por ano. Sua construção demorou menos de dois anos para se concluir, abrindo as portas em março de 1971. A ousadia e grandeza da obra acabou lhe rendendo o prêmio

da 1ª Bienal de Arquitetura daquele ano. Nomes como Walter Machado, Fernando Graça, Francisco Santos e Luciano Passini faziam parte do grupo de modernistas que estavam à frente do projeto.

Feira da Variedade

De vestido azul, sandália de couro e com duas sacolas de viagem, a dona de casa Neide Rodrigues Guandalin, 44, chegou à rodoviária às 8h10 e partiria para Jaíba, Minas Gerais, apenas às 18h. “Estou vindo de Rezende. Do casamento do meu filho”, revelava satisfeita e com ótimo humor para enfrentar as quase dez horas de espera para voltar para casa. Enquanto a desejada hora de

Divino Advincula

“Bem-vindo a Belo Horizonte”, é o que anuncia a placa azul escura de letras brancas no desembarque do terminal rodoviário. O aviso, pendurado no meio do saguão, passa desapercebido pelos passageiros. Rostos amassados, cabelos despenteados e pés inchados abandonam os ônibus e se perdem no meio da multidão. A Rodoviária de BH é um lugar de despedidas que provocam lágrimas e de chegadas apáticas. Por lá, as pessoas cortam cabelos, tomam banho, tiram dinheiro e escondem chicletes mastigados nas cadeiras. Documentos são perdidos e isqueiros encontrados. O movimento do terminal começa a ser desenhado logo pela manhã. Taxistas estacionam seus carros em fila indiana, carregadores de

A democracia de um terminal se dá com os diferentes tipos que compõem o lugar. “Pessoas educadas, mal-humoradas, super coloridas”.


Divino Advincula A rodoviária de Belo Horizonte, conta com 320 funcionários para cuidar das 40 mil pessoas que passam por lá diariamente.

batons, sombrinhas e grampos de cabelo. No setor de Achados e Perdidos, documentos se misturam com bolsas, malas, carteiras, agendas, óculos, chaves e exames médicos.

Ana Lúcia Figueiredo

embarcar não chega, na falta do que fazer, há quem explore o folheto de ofertas das Casas Bahia, quem tira uma soneca desajeitada na cadeira ou apenas olha o nada enquanto enrola, compulsivamente, uma mecha de cabelos nos dedos. O terminal rodoviário é um local de contradições. Na loja de celular, os aparelhos dividem a vitrine com ursos de pelúcia. Binóculos e despertadores se misturam com os variados tipos de fumo da tabacaria. A placa do jardim com os dizeres “Não me arranque” jaz amassada pelos cantos da Praça Rio Branco. Enquanto isso, diariamente, vendas de passagens clandestinas são feitas aos gritos no entorno do terminal. Curiosidades ficam a mercê de olhos mais atentos. Em uma das revistarias, a nudez de Elba Ramalho, Simony, Hortência do Basquete e Denise Drummont, nas páginas da revista Playboy, estão avaliadas em R$ 99,90 cada uma. “Essa é para colecionadores”, destaca o vendedor. Já na loja ao lado, com a promoção pague uma, leve duas, a Fran do BBB e a musa de carnaval Jéssica Maia saem por apenas R$ 8,50. Nos banheiros do terminal rodoviário, mocinhas esquecem

Pouco Pudor

A Rodoviária é um lugar onde as pessoas se promovem sexualmente. Mensagens explícitas feitas à mão estampam as portas dos banheiros. As palavras formam um mural aos moldes da seção Relax dos classificados, porém, com menos pudor. Os anúncios ofertam sexo dos tipos selvagem e avassalador. Segundo a recepcionista que trabalha no balcão de informações do terminal Rosângela Linhares de Moura, 42, constantemente aparecem pessoas que pedem informações relacionadas ao assunto. “Muitos homens pedem indicações de motel e aproveitam para perguntar onde podem encontrar travestis na cidade”, revela. Como todo local público, o terminal também é sinônimo de espaço democrático, já que abriga uma diversidade de pessoas. Cada uma delas de idades, locais e estilos diferentes. “Aqui dá gente de todo tipo: estressados, super educados,

Armários guardam malas e segredos. indiferentes, muito coloridos”, explica Helena Ferreira, 21, caixa do banheiro feminino. A prova de que muitos apressados passam pelo local se dá com o recado afixado na parede do guarda-volumes, que termina em várias exclamações: “Urgente é tudo aquilo que você não fez em tempo hábil e quer que eu faça em tempo recorde!” O guarda-volumes oferece aos usuários espaços de sobra. Com preços que variam de R$ 6 a R$ 16 por


Cine Trash

Dentro de um terminal, algumas histórias começam, outras se encerram. “Existem pessoas que se matam, caindo no desembarque. Outras que se jogam embaixo das rodas dos ônibus”, diz o carregador autorizado Fernando José Carvalho, 31. Em alguns momentos, os passageiros vivenciam cenas dignas de filmes trash. “Uma noite, entrou um rapaz, vindo da rua Guarani, pedindo por socorro, com uma faca nas costas. Me parece que era acerto de contas. Sorte foi que o Samu chegou a tempo”, relata Jussara Aparecida Rodrigues, 34, que trabalha na limpeza. O terminal rodoviário foi o lugar onde uma família americana esqueceu seu caçula. E por cinco dias foi a casa de um casal de paulistas, pais de bebês gêmeos. Recentemente, um rapaz de 26 anos foi preso em flagrante por ter escondido dentro da cueca o controle que abria uma das geladeiras que mantinham sucos e refrigerantes. Alarme falso de bomba fez com que todo mundo abandonasse o prédio. No saguão, pessoas que não tem dinheiro pedem ajuda para regressarem às suas cidades natais.

Sentimental demais

A rodoviária é um local de desabafo. Dentro dos elevadores, as pessoas falam da falta de dinheiro e das saudades de lares distantes. Nos bares e restaurantes, as atendentes se tornam psicólogas diante de tantos relatos de amores imperfeitos, sempre na companhia da cerveja gelada e de

uma linguiçinha frita. “Às vezes, não sei o que fazer, tem pessoas que até choram”, conta Luciana Maria Vicente, 38 anos, atendente de bar. As mulheres que frequentam o restaurante Cortina D’água simpatizam com colares de pérolas e blusas vermelhas. Já o perfil masculino é do tipo que engole apressadamente a cerveja quando o time adversário faz um gol. Diariamente, são atendidos cerca de 350 pessoas que almoçam no local. Nessa levada, muito amor platônico rende quilômetros de estrada. E, embora a chance das pessoas se encontrarem novamente num terminal seja pequena, tem quem fuja da regra e aposta as fichas no amor. – Como conta a gerente do restaurante, Geralda Vasconcellos, sobre um casal que se conheceu no local. “Eles sempre estavam almoçando no mesmo horário. Só tivemos notícias de que eles tinham se casado depois que trouxeram a filha aqui para a gente conhecer”. Outro inesquecível caso de amor vivenciado no terminal foi de uma jovem deficiente visual, que conheceu um rapaz de São Paulo pela internet, também portador da deficiência. Com a ajuda do serviço prestado pelos controladores, os dois se encontraram, trocaram algumas palavras e saíram de táxi para explorar a capital mineira. “Vai saber para onde que esse taxista levou os pombinhos”, insinua em risos Micelene Soares, 32, assessorista.

Despedida

As paredes do terminal rodoviário são locais de recados diversos, que podem coibir, “Proibido permanecer na escada”; informar, “Senhor leiturista da Cemig: procurar a chave na loja 120 (Tabacaria). Obrigado!”, ou procurar, “Foragido.

Ana Lúcia Figueiredo

hora, teve quem já colocou partes de computadores, televisão e até mesmo um fogão. “Toda semana, tem um senhor que guarda queijos e goiabadas vindos do interior”, conta Daniel dos Santos, 34, operador de caixa. E não para por aí, a coleção tem desde passarinhos de gaiola, tartarugas, filhotes de arara e até feto humano. “Um dia começamos a sentir um mau cheiro. Achamos que era carne podre, que já tava lá há um bom tempo. Abrimos o armário e encontramos um feto enrolado no pano. Possivelmente, de alguma mulher que abortou na região e não tinha lugar para se desfazer do corpo”, conta.

Objetos ficam abandonados no saguão.

Homicídio qualificado, Ricardo Leonel Lima, vulgo ‘Nem’. Denuncie 0800 300 197”. É neste espaço tão plural, que amanhece com as pegadas de All Star rebeldes e adormece com as passadas de botinas empoeiradas, que o lavrador Izaias Domingos de Oliveira aguardava a hora de partir para Poté, Minas Gerais. Veio para a capital encontrar com a família que não via há 30 anos. “Trabalhava numa fazenda e em pouco tempo já estava em outra. Nessas mudanças, perdi os endereços, telefones”, relembra. Seus irmãos conseguiram encontrálo por meio de contatos feitos com os donos das fazendas por onde Izaias passou. “Foi muito bom, ele viu a tia dele, conheci meus primos, tomei uma pinguinha”, completava, com bastante animação, o filho, Anderson Ferreira de Oliveira. Pouco antes de entrar no ônibus, durante a troca de abraços com os irmãos, um sorriso sutil aparecia no rosto do lavrador, “segura as pontas aí, que o Natal não vai demorar chegar”.


Retrato da Rodoviária de BH