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Resistência no

sertão

Em meio a dificuldades, comunidade quilombola tenta manter viva suas tradições afro que são passadas de geração em geração

contexto MOSSORÓ/RN | SETEMBRO DE 2011 | NO 2 | ANO 1 | R$ 9,90

Os idosos de

Parelhas

Cidade seridoense mostra como entrar na melhor idade com saúde e vitalidade

Seu Lunga:Um

rabugento Fomos conhecer o famoso velhinho do Ceará conhecido pelo mau-humor

Ricardo Motta

e sua Outra Face

Deputado e Presidente da Assembleia Legislativa afirma que sempre é possível conciliar família e política

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Os motivos de tanta reza em Juazeiro do Norte

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Melhor Idade

Idosos em Parelhas Contexto foi saber os motivos de tantos "velhinhos" no centro da pequena cidade do Seridó

Resistência negra no sertão

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Em Portalegre na região serrana do Oeste do RN, comunidade negra tenta manter suas tradições históricas com união e coragem

Estilo

Os segredos por tras do Vintage Unir o antigo e o moderno, aliando tecnologia e nostalgia. Conheça o perfil de quem é vintage!

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Afinal, por que Juazeiro reza tanto?

Outra Face Em um bate-papo descontraído o Presidente da Assembleia do RN fala um pouco sobre sua vida na política e fora dela

Religiosidade, dinheiro e turismo movem a maior cidade do interior do Ceará

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(( A mistériosa carta de JK sobre Mossoró – PÁG. 28 Cultura ( ( Museu Lauro da Escóssia: Abandono e esperança – PÁG. 57 Economia ( ( Os novos ventos que sopram – PÁG. 48 Tecnologia ( ( O costume viciante em usar o Google – PÁG. 64 Contexto Indica ( ( Gladis Vivane traz o melhor para ver e ouvir – PÁG. 62 Perfil ( ( Saiba por que “Seu Lunga” é tachado de grosso pelo Brasil – PÁG. 92 História

COLUNAS & PONTOS DE VISTA Pois bem... - César Santos

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DE CONVERSA EM CONVERSA – Esdras Marchezan

34 CONTXTUALIZANDO – Kildare Gomes 46 MINUTO VISUAL – Marcos Garcia 68 SÉRGIO CHAVES – 70

ponto de vista – Alex Medeiros

COZINHA PRÁTICA – Angelina Tavares

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Saúde em ação – Costa Júnior eNTÃO, TÁ! – Neisa Fernandes Style up – Bruno Sá

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rubens lemos filho –

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O desafio

em manter

E cá estamos nós! Após definições de pauta, criação de conceitos, formação de convites a colaboradores fixos ou não, após quebrar estigmas do mercado editorial, sobretudo, o de Mossoró, eis que surge a segunda edição da CONTEXTO, que chega com uma grande responsabilidade: a de manter a excelente aceitação que a primeira edição teve dos leitores em todo o estado e até fora dele. E para isso, muito trabalho e muitas cabeças pensaram esta edição que chega trazendo um sentimento de resistência. Sim! Resistência cultural de um povo diante das adversidades históricas cometidas contra os negros. Muitos desconhecem, mas no estado são inúmeros os quilombos existentes e o repórter José de Paiva Rebouças, juntamente com o repórter fotográfico Cézar Alves, foi até a pequena comunidade do Arrojado, na cidade serrana de Portalegre (Oeste do RN), conhecer, e, acima de tudo, sentir o orgulho, a dignidade e a coragem dessas pessoas em tentar manter laços com sua cultura africana com toque de brasilidade, mesmo diante de tantas dificuldades e do avanço do tal “progresso” que no Arrojado só se ouve falar. Mas as viagens da CONTEXTO não param por ai. Trazemos ainda um perfil de “Seu Lunga” lá de Juazeiro do Norte (CE), onde também estivemos. Nunca ouviu falar de dele? Bem, depois dessa matéria, certamente não irá esquecer sua “fineza” em tratar as pessoas e vai entender suas nobres razões. Nesta edição ainda teremos como convidados o jornalista natalense Alex Medeiros, que traz seu Ponto de Vista e as dicas culturais da “Pin-up” e também editora da Revista Salto Agulha de Natal, jornalista Gladis Vivane, na seção Contexto Indica. Mas não para por ai, a CONTEXTO tem muito mais! Muito mais moda, culinária, bem-estar e, acima de tudo, CONTEÚDO do melhor para você desfrutar! Seja bem-vindo (a) e boa leitura! PAULO SÉRGIO FREIRE Editor

Expediente Contexto é uma publicação de responsabilidade da Santos Editora Editor: Paulo Sérgio Freire (RN 01047JP) Reportagem: Higo Lima, José de Paiva Rebouças, Paulo Sérgio Freire e Izaíra Thalita Fotografia: Cezar Alves Projeto Gráfico e Diagramação: Augusto Paiva Revisão: Stella Sâmia Comercial: Hernegildo Silva e Neide Carlos Marketing: Larissa Gabrielle Araújo Tiragem: 5 mil exemplares Colaboraram nesta edição: César Santos Sérgio Chaves Neisa Fernandes

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Kildare Gomes Rubens Lemos Filho Alex Medeiros

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Angelina Tavares Costa Júnior Bruno Sá Gladys Vivane

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Quer enviar críticas, sugestões, dúvidas ou apenas dar um alô? Envie e-mail para: contextomossoro@gmail.com Fone: (84) 3323 8900 Contato comercial 3323-8914 Email para receber anúncios: augustodefato@gmail.com Endereço: Avenida Rio Branco, 2203 Centro – Mossoró (RN) – CEP: 59.611-400


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A outra face

Ricardo

Motta POR PAULO SÉRGIO FREIRE @freire_ps

FOTOS João Gilberto e Arquivo Pessoal

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C

Casado, pai de três filhos, o presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte – o administrador de empresas, além de ser formado em Direito –, Ricardo Motta, foi eleito para seu sexto mandato como deputado estadual na última eleição. Uma de suas principais marcas de atuação é o contato permanente com as bases eleitorais espalhadas por todo o Estado, o que lhe rendeu o título de Estradeiro. Ricardo Motta exerceu vários cargos na Mesa Diretora da Assembleia Legislativa, dentre os quais 1º vice-presidente e 1º secretário. De fala tranquila, o deputado afirma que é possível conciliar a política com as obrigações de pai e esposo. Atento às novidades do mundo 2.0, usa as redes sociais como Twitter, para divulgar suas ações e um pouco de seu cotidiano. Nesse bate-papo “sem compromisso”, o parlamentar revela um pouco de sua Outra Face.

Eu rezo todos os dias para não decepcionar os meus companheiros deputados, trabalho para elevar a autoestima dos servidores da Assembleia Legislativa e fazer com que a Casa continue a ser um modelo entre as assembleias pelo País."

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QUAL a sensação de assumir a presidência da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte? Vitória e dever cumprido? FOI com muito orgulho que eu assumi a presidência da Assembleia, principalmente eu que participei das Mesas Diretoras nos cinco mandatos anteriores que cumpri aqui na Casa. Fui quarto secretário, primeiro secretário e primeiro vice-presidente. E agora eu chego à presidência. É uma responsabilidade muito grande por ter recebido o apoio de todos os deputados que compõem o Poder Legislativo. Além de tudo isso, tem o saudosismo, uma questão sentimental mesmo, de sentar na cadeira que pertenceu ao meu pai, Clóvis Motta. Portanto, eu tenho muito orgulho e responsabilidade em poder trilhar o caminho que meu pai passou. Eu rezo todos os dias para não decepcionar os meus companheiros deputados, trabalho para elevar a autoestima dos servidores da Assembleia Legislativa e fazer com que a Casa continue a ser um modelo entre

de esposo.

as assembleias pelo País. Além disso, a Assembleia Legislativa é a caixa de ressonância da sociedade norte-rio-grandense, seja no plenário e principalmente nas audiências públicas, e somos parceiros do Governo do Estado em tudo que diz respeito ao crescimento do Rio Grande do Norte. Posso aqui citar os exemplos da Copa do Mundo, do Aeroporto de São Gonçalo e outros temas de relevância.

EU fico muito pouco em casa. Eu saio de casa pela manhã e só volto à noite, geralmente. Eu gosto muito de ficar no meu quarto. O meu quarto é o meu refúgio. Lá eu vejo televisão, tenho minha geladeirinha com água, suco. É onde eu faço meus telefonemas, serve de escritório.

DE QUE forma o senhor concilia sua carreira política e a “carreira” de pai e esposo? EU tive uma certa dificuldade porque eu sempre viajei muito. Eu sou conhecido como o deputado estradeiro. Mas dá para conciliar com um pouco de boa vontade. Minha família – minha esposa Katalina, meus dois filhos Clóvis e Rafael e minha enteada Luana – sofre um pouco com minha ausência, por eu dedicar meu tempo à Assembleia Legislativa. Costumo ser dos primeiros deputados a chegar à Assembleia e dos últimos a sair. E, além disso, eu tenho que viajar nos finais de semana para atender os amigos, os correligionários. Mas sempre dá para conciliar, pegar a família e fazer uma viagem, almoçar... Com um pouco de boa vontade dá para conciliar a vida de político, de pai de família e

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FORAM muitas etapas vencidas (sexto mandato) até chegar ao posto de presidente da Assembleia Legislativa. Que lembranças o senhor guarda das diversas experiências vivenciadas ao longo de sua carreira política? COMO disse, para chegar a presidente da nossa Assembleia, eu trilhei outros cargos na Mesa Diretora, sempre fui parceiro dos meus amigos. Eu tenho essa marca de estar em constante contato com minhas bases políticas, com meus amigos, com meus correligionários. É esse contato que tem servido de base para a construção dos meus mandatos, da minha história na política. EM CASA, o que Ricardo Motta gosta de fazer? Que local da casa é escolhido pelo senhor como aquele cantinho?

O SENHOR possui dois filhos e uma enteada. Qual a grande diferença entre a geração que o senhor criou e a que eles irão criar? É UM mundo completamente diferente. No meu tempo as diversões eram diferentes, eram mais restritas. Hoje, a liberdade é muito maior. Antigamente, para viajar, se fosse levar a namorada, tinha que ir junto com familiares. Hoje, com muita naturalidade o namorado sai com a namorada. Mas, o mais importante disso tudo é manter o diálogo com os filhos. Eu converso muito com meus filhos, nós trocamos ideias. Eu tenho uma enteada de 9 anos, que é mesmo que ser uma filha, nos momentos de lazer, eu a levo. Já os rapazes estão grandes e têm a vida própria deles. VIVEMOS um período intenso de mobilizações pela internet, de valorização de redes sociais e de


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relacionamentos virtuais. O senhor gosta de internet? Onde gosta de “navegar” quando não está a serviço? A INTERNET é um braço importante não só no meio político, mas na sociedade como um todo, dá agilidade à transmissão das informações e aproxima as pessoas. Eu uso o Twitter para divulgar um pouco do meu dia a dia, para me expressar, me informar. Em relação a sites, normalmente acesso blogs e sites de notícia. Agora, falando em navegar, nas minhas horas vagas, quando posso, eu gosto de pescar.

alma me dedicando ao Poder Legislativo e tenho convicção absoluta de que levaremos a bom termo a nossa administração.

O RIO Grande do Norte é um estado peculiar no que concerne a cargos assumidos por mulheres. Temos uma segunda governadora, duas mulheres comandam as principais cidades do RN (Natal e Mossoró) e no Tribunal de Justiça a voz que preside também é feminina. Somos um Estado com visão diferente? Como o senhor vê a inserção da mulher no mercado de trabalho no EsE A MÚSICA? O que o senhor considera boa tado? música? E o que considera música ruim? TEM também a reitora da UFRN, professora ÂngeEU gosto muito de música sertaneja, de forró pé-de- la. O Rio Grande do Norte tem essa peculiaridade de serra, até pelo meu convívio com o meio rural desde valorização da mulher, sobretudo na vida pública, onde, criança. Era o que eu ouvia na fazenda dos meus avôs. diferente do setor privado, a escolha é coletiva, é uma Na verdade, eu só não gosto dessas músicas chulas, de escolha do eleitor. Nós tivemos a primeira eleitora, a duplo sentido, depreciativas e que não acrescentam primeira prefeita. Nísia Floresta, no século passado, em nada à nossa cultura e nem aos jovens. foi contra as amarras que a sociedade tinha do preconceito. O nosso Estado tem este O SENHOR é formado em histórico de pioneirismo, de Administração de Empresas luta das mulheres por seus die em Direito. Por que a esreitos. Na Assembleia, nós tecolha dessas faculdades? mos uma bancada feminina EU estudei Administração bastante atuante, com ação Eu uso o Twitter para tendo em vista que minha fadestacada no nosso plenário. mília era de empresários. E eu Em relação à inserção da mudivulgar um pouco do fiz também Engenharia de lher no mercado de trabalho, é meu dia a dia, para Produção, ligada à Adminisclaro que ainda há muito que me expressar, me tração. Mas, quando eu envese avançar. Por outro lado, é redei na vida pública, comecei inegável o importante espaço informar. Em relação a ver o quanto era importante conquistado pelas mulheres a sites, normalmente o conhecimento do Direito. Por em postos importantes de coisso, já como deputado estadumando e de decisão em granacesso blogs e sites al, resolvi voltar a estudar e des empresas. de notícia” ingressei no curso de Direito, primeiro por necessidade e, deA SUA família tem um hispois, por aprender a gostar. Eu tórico de participação na me sinto realizado com minha formação acadêmi- vida pública. Qual a grande diferença entre as ca. nuances da política atual e as que o senhor observou quando, por exemplo, seu avô foi vereador em NAS horas de lazer, em uma manhã de domin- Natal? go de sol, que programas e lugares o senhor reEU acho que a política de antigamente se fazia com comenda aos leitores da Contexto? mais paixão, até pelos próprios instrumentos de comuEU recomendo a fazer aquilo que gosta. Eu, por nicação disponíveis à época. Hoje, você faz um pronunexemplo, gosto de ficar na minha granja, ficar de ber- ciamento no plenário da Assembleia e, em tempo real, muda ou então de dar uma volta a cavalo. Mas tem um cidadão lá em Pau dos Ferros pode acompanhar. O aqueles que gostam de ir à praia, reunir os amigos ou que é extremamente positivo. Antigamente, a necessijogar futebol. Eu acho que a gente tem que fazer o que dade de aproximação do político com o eleitor era imengosta, independente do que seja, mas que faça com samente maior porque era o meio mais eficaz de consatisfação e com prazer. tato que existia. Antigamente, era mais dedicação, mais paixão, era quase como uma torcida de futebol. As pesO SEU mandato iniciou-se em fevereiro de soas faziam política por paixão, por devoção, por con2011. O que o Rio Grande do Norte deve esperar vicção. Por outro lado, hoje, o cidadão tem mais consdurante seu período como presidente? ciência dos seus direitos, tem mais condições de fiscaPODE esperar dedicação total. Estou de corpo e lizar e de acompanhar as atividades parlamentares.

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pois bem... A outra face

cesar@defato.com

Tudo vai terminar bem O rei­tor Jo­si­van Bar­bo­sa tem uma cer­te­za pa­ra o mo­ vi­men­ta­do ano de 2012: se­rá can­di­da­to à ree­lei­ção na Uni­ver­si­da­de Fe­de­ral do Semi-árido (UFER­SA). Plei­to mar­ca­do pa­ra o mês de abril. Is­so não sig­ni­fi­ca di­zer, po­rém, que ele não possa participar da su­ces­são da pre­fei­ta Fa­fá Ro­sa­do (DEM). A re­no­va­ção do man­ da­to de rei­tor – um di­rei­to na­tu­ral seu – se­rá uma es­pé­cie de car­ta de ga­ran­tia. Ele po­de per­fei­ta­men­te dis­pu­tar as elei­ções ma­jo­ri­tá­rias mos­so­roen­ses, sem per­der o con­tro­le da fer­men­ta­da Ufer­sa. A le­gis­la­ção elei­to­ral per­mi­te. Em 2004, por exem­plo, o en­tão rei­ tor da Uni­ver­si­da­de do Es­ta­do do Rio Gran­de do Nor­ te (UERN), pro­fes­sor Jo­sé Val­ter Fon­se­ca, se li­cen­ciou do car­go pa­ra ser can­di­da­to a vice-prefeito na cha­pa en­ca­be­ça­da pe­lo ex-deputado Fran­cis­co Jo­sé. Pas­sa­ das as elei­ções, sem êxi­to nas ur­nas, Fon­se­ca reas­ su­miu o co­man­ do da ins­ti­tui­ção de en­si­no su­pe­ rior. Nes­se ca­so, o afas­ta­men­to do car­go pa­ra ser can­d i­d a­t o de­v e ocor­r er qua­t ro me­s es an­tes do plei­to, no iní­cio de ju­nho (as elei­ções se­rão rea­li­za­das em 7 de ou­ tu­bro), ou se­ja, qua­se dois me­ses de­pois das elei­ções na Ufer­sa. Pois bem. O ra­ cio­cí­nio e a es­tra­té­gia de Jo­si­van Bar­bo­sa são per­fei­ tos. Ao se jo­gar no ta­bu­lei­ ro da su­ces­são mos­so­ roen­se, o rei­tor fez ador­ mecer a opo­si­ção ufer­sia­ na, o que vem per­mi­tin­do a sua tran­qui­la ca­mi­nha­da pe­la ree­lei­ção. E se não vin­gar a Pre­fei­ tu­ra de Mos­so­ró, ele con­ti­nua­rá ad­mi­nis­tran­do o se­gun­do maior or­ ça­men­to da ci­da­de. Ao fi­nal, tu­do ter­mi­na­rá bem pa­ra o jo­vem, com­ pe­ten­te e am­bi­cio­so (no bom sen­ti­ do) rei­tor Jo­si­van Bar­bo­sa.

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Voo comercial

A Trip Linhas Aéreas abriu linha de negociação para voltar a operar voo comercial a partir do Aeroporto Dix-sept Rosado. Ocuparia o vácuo deixado pela NOAR, que desapareceu com o acidente aéreo quando voava de Recife (PE) com destino a Mossoró. A Trip, que é vista como empresa de médio porte, funcionando com mais de 40 aeronaves, aguarda apenas o incentivo do Governo do Estado para voltar a pousar em Mossoró.

negÓcios & Cia

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Son­da

Mos­so­ró vai ga­nhar uma uni­da­de de fa­bri­ca­ção de son­ da, pe­las mãos do con­sór­cio de um gru­po ame­ri­ca­no com uma em­pre­sa bra­si­lei­ra. O pro­ces­so encontra-se em fa­se de pros­pec­ção. A es­tru­tu­ra já es­tá sen­do mon­ ta­da no pré­dio on­de fun­cio­nou a BJ, à mar­gem da BR-304. O con­sór­cio em­pre­sa­rial vi­sa ex­plo­rar o mer­ca­do de pe­ tró­leo do Rio Gran­de do Nor­te e do País, com fo­co prin­ ci­pal no aten­di­men­to da de­man­da de per­fu­ra­ção de po­ços.

Son­da II

Ou­tro con­sór­cio em­pre­sa­rial, com em­pre­sas ame­ri­ca­na, ar­gen­ti­na e bra­si­lei­ra, já es­tá em solo mossoroense, de­ven­do ini­ciar em bre­ve a fa­bri­ca­ção de pe­ças pa­ra son­das. Trata-se da Lu­fik, instalada à mar­gem da BR-110, saí­da pa­ra Areia Bran­ca. A fá­bri­ca vai su­prir uma de­fi­ ciên­cia no mer­ca­do lo­cal e re­gio­nal.

O negócio é voar

Já está pronta a sede da TAM em Mossoró, na Avenida João da Escóssia, próximo à Praça do Rotary. Deverá ser inaugurada agora em setembro, sob comando do em­ presário Bebé Rosado, que controla a Harabello Turismo e a franquia local do Pittsburg.

Novo distrito industrial

O novo distrito industrial na região de Mossoró deverá ser implantado no município de Baraúna. O incentivo é da empresa Mizu, presente com a fábrica de cimento. O projeto urbanístico está sendo elaborado pelo Banco do Nordeste, com apoio da Secretaria de Desenvolvimen­ to Econômico do Estado.


Cultura popular

O “Agos­to Ale­gria”, que se de­sen­vol­veu por to­do mês pas­sa­do e se re­pe­ti­rá to­dos os anos em Na­tal, ex­pres­ sa o res­ga­te e a va­lo­ri­za­ção da cul­tu­ral po­pu­lar. A go­ver­na­do­ra Ro­sal­ba Ciar­li­ni (DEM) fez is­so em Mos­ so­ró, quan­do criou pro­je­tos cul­tu­rais im­por­tan­tes co­mo Au­to e Cor­te­jo da Li­ber­da­de, o Mos­so­ró Ci­da­de Ju­ni­na, en­tre ou­tras ma­ni­fes­ta­ções. Ago­ra, cer­ta­ men­te, fa­rá em to­do o Rio Gran­de do Nor­te, a par­tir da cria­ção da Se­cre­ta­ria Ex­traor­di­ná­ria da Cul­tu­ra, que vem cor­ri­gir as fa­lhas pro­fun­das da ges­tão pas­ sa­da neste segmento.

Empresário ou político, eis o dilema Qual o caminho a seguir: o de político, para dá continuidade à carreira vitoriosa do avô e do pai; ou de empresário bemsucedido? Esse é o dilema do jovem Felipe Maia. Exercendo o segundo mandato de deputado federal, o neto de Tarcísio Maia e filho de José Agripino ainda não se convenceu de que a sua felicidade está na política. A atividade empresarial é mais empolgante para ele. Daí, o democrata não ter se jogado no tabuleiro da sucessão natalense, embora o seu nome não deva ser descartado.

ariano no alto oeste

O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda NELSON RODRIGUES Pensador

A Fes­ta da Li­ber­da­de 2011 vai di­vi­dir bem os pú­bli­cos-al­vos: na Pra­ça de Even­tos, shows de Nan­do Reis e Va­nes­sa da Ma­ ta; na Es­ta­ção das Ar­tes Eli­zeu Ven­ta­nia, ban­das for­ro­zei­ras co­mo Aviões e Sol­tei­rões do For­ró; e no Tea­tro Municipal Dixhuit Ro­sa­do, o Au­to da Li­ber­da­de. Qua­li­da­de in­dis­cu­tí­vel – pa­ra to­dos os gos­tos. On­de vo­cê com­pra o pão? É bom ob­ser­var a pro­ce­dên­cia. Le­van­ta­men­to fei­to pe­lo Sin­di­ca­to da In­dús­tria de Pa­ni­fi­ca­ção de Mos­so­ró, Re­gião Oes­te e Cos­ta Sa­li­nei­ra, apon­ta que 50% da pa­da­rias fun­cio­nam na clan­des­ti­ni­da­de. São as cha­ma­das “gan­ gor­ras” que co­lo­cam os pão­zi­nhos na me­sa, sem fiscalização. Um movimento começa a ganhar força pela preservação cultural do “Alto do Louvor”, área histórica do município alvo da especulação imobiliária. A luta, ainda na fase de organização, é pela transformação da área em “Condomínio Cultural”, preservando estabelecimentos que marcaram época de ouro da noite mossoroense, como o “Vagalume”, “Copacabana”, entre outros. A Prefeitura tem obrigação de se engajar no movimento, elaborando a “Lei do Tombamento” e contemplando a área na revisão do Plano Diretor. O ex-deputado Fernando Gabeira está confirmado como um dos conferencistas do Seminário Novas Liberdades, dentro da Festa da Liberdade, agora em setembro. A vinda de Gabeira oferece uma boa pauta para editoria de política dos jornais. Ele puxou o movimento dos insatisfeitos com o PV, saindo junto com Marina Silva, e deseja disputar a Prefeitura do Rio nas eleições do próximo ano. O mês de setembro será decisivo para o futuro do futebol mossoroense. É que o processo de permuta do Estádio Manoel Leonardo Nogueira estará em fase de conclusão. O negócio promete movimentar alguns milhões de reais e a curiosidade dos desportistas e das autoridades públicas. Todos de olho. A secretária de Infraestrutura do Estado, engenheira Kátia Cardoso Pinto, tem mantido contato permanente com os amigos de Mossoró, principalmente aqueles residentes na periferia que ela conhece muito bem. Kátia não perde a sintonia com os mossoroenses.

Neste mês de setembro, a cidade de Pau dos Ferros, capital alto-oestana, vai receber o escritor, dramaturgo e poeta Ariano Suassuana. O autor de “Auto da Compadecida” e “A Pedra do Reino” é o convidado mais do que especial da segunda edição da Exposição Científica, Tecnológica e Cultural (EXPOTEC). O evento será realizado entre os dias 20 e 23, sob coordenação do IFRN. contexto setembro de 2011

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De conversa em conversa O tempo de amar é hoje Esdras Marchezan*

D Há casos em que basta uma frase e, pronto. A vida se transforma. Fica colorida, renovada, possível.

e súbito veio a pergunta. Já dormia, quando acordou-me com os olhos diante dos meus: – Já disse hoje que amo muito você? – Não, respondi sorrindo. – Pois, eu amo muito você. Falou, sorriu e voltou ao descanso da cama, ao meu lado, com as mãos unidas às minhas, numa força que revelava a busca por segurança. As palavras invadiram mente e coração de tal forma que fiquei insone. Como pode um amor despretensioso assim? Amor em sua plenitude. Espontâneo, sincero, descompromissado. Daqueles de que não se escuta falar em qualquer esquina. Em sua declaração, nada de expectativas, nem espera por alguma resposta. Apenas o querer dizer: eu te amo. Envolvida em meus braços, o mundo parecia mais seguro. Para ambos.

Há casos em que basta uma frase e, pronto. A vida se transforma. Fica colorida, renovada, possível. O fardo acumulado desaparece e ficamos prontos para viver tudo de novo. Amores, paixões, conquistas, sonhos, desilusões, fracassos, até que o ciclo se feche e dê início a outro. Viver é isso: uma constante volta ao começo. Sempre acreditei no amor. Não podemos falar de amor como um elemento único. Ele é plural por natureza. Há amor e amores. Desacredite do amor que cobra, prende e entristece. Isso é outra coisa. Sentia o coração dela bater encostado ao meu peito, enquanto continuava a pensar no que havia escutado e na minha reação. Será que todos ficam assim? Se ficam, compartilham de uma sensação prazerosa e peculiar, restrita a alguns. Aos amados. Minha vontade era continuar abraçado forte a ela, numa tentativa desesperada de mostrar o quanto a amava também, mas há momentos em que até o carinho precisa ter limites. Fui lembrando de quando tudo começou e de como sua chegada mudou minha maneira de entender o mundo. Mudou tudo. E isso, porque nossa história nem é tão longa assim. Pouco mais de quatro anos. Uma prova de que amor não exige tempo como requisito. Ele nasce sem momento determinado. Uma luz rápida no quarto a despertou, e me fez voltar. – Painho, vamos dormir! – Vamos, filha. Papai já disse hoje que ama muito você? – Não, respondeu quase sonâmbula. – Pois, painho ama muito você. Hoje e sempre. Para Maria Luísa.

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* Mestre em Literatura e Interculturalidade pela UEPB e chefe de reportagem do Jornal de Fato Contato: esdrasmarchezan@gmail.com Twitter: @marchezan


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Foto: CĂŠzar Alves

Romeiro observa imagens sacras talhadas em madeira no Centro de Cultura Popular Mestre Noza

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Uma cidade movida pela fé

extremo sul o n o d a z li a c o L unicípio do Ceará, o m Padre Cícero lo e p o d a d n fu chega ao Romão Batista nário primeiro cente a pujança dividido entre ea do crescimento a terra tradição de um forte marcada pela religiosidade

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Higo Lima @higolima

corpo de um homem franzino, chapéu de peão, sentado à sombra do pórtico da cidade de Juazeiro do Norte (CE) é a moldura de um novo Nordeste que se divide entre a aspiração do crescimento econômico (basta evidenciar a industrialização da região e a regressão da mobilidade migratória) e a imagem de um Nordeste ainda arcaico: mesmo vendo a substituição da terra rachada pela malha de asfalto, ainda pena com a mão estendida dos miseráveis e a carcaça do animal morto pela seca. Mas, é um povo que ainda tem na fé a força de refúgio para suportar todas as mazelas recorrentes do calor do semi-árido. Poucas cidades desse pedaço de Brasil refletem tão nitidamente esse paradoxo quanto Juazeiro do Norte. Cercada pelas serras do Vale do Cariri, região do extremo sul do Ceará, a segunda cidade economicamente mais importante do Estado está a 520 quilômetros de distância da capital, Fortaleza, e tem em si todos os desafios de uma cidade com status de capital regional. No entanto, se Juazeiro do Norte é um município importante para o Ceará, é ainda mais para a cultura popular do Nordeste. Hoje, a centenária cidade de Juazeiro desfruta do surgimento de novos bairros que chegam com a pujança dos campi universitários e zonas industriais. Em contrapartida, no mesmo território, a devoção ao Padre Cícero Romão Batista continua atraindo milhões de romeiros que movimentam quase que a totalidade da economia do município. Por sinal, falar em Juazeiro é falar do “Padim Ciço”, como o religioso é popularmente venerado. Os dois surgiram juntos e intrinsecamente constituem uma relação dividida entre a fé e o profano. CONTINUA

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Eram dois sonhos: o primeiro Padre Cícero teve ao receber uma mensagem divina cujo pedido era cuidar daquele povoado humilde ao qual ele teria ido do Crato (sua cidade natal) pela primeira vez apenas para celebrar uma missa de Natal. Tanto atendeu o chamado como depois das recorrentes missões ao lugarejo mudou-se de vez. Lá, acolheu a todos que o procuravam como se encarnasse a função de pai e mentor daquele povo. A comunidade só fora emancipada em 1911, quando, a partir de então, a segunda aspiração seria ver Juazeiro se transformar na segunda cidade do Estado, fato que se concretizaria décadas depois. De acordo com Geraldo Barbosa, estudioso da história da cidade, desde que Padre Cícero se instalou, à época, na ainda comunidade, o lugarejo nunca parou de receber fiéis que vinham de diversas partes do Nordeste em busca da bênção do Padre Cícero. O respeito, que já naquela época se confundia com devoção, tornou a história do padre um misto de credo e incertezas. Uma delas levou a Igreja Católica a excomungá-lo sob a acusação de embuste, quando da boca da beata Maria de Araújo uma hóstia se fez sangue. E é justamente este episódio que oxigena as tensões entre a igreja e a devoção popular. A instituição religiosa já se viu internamente dividida com facções que devotam pouco crédito ao suposto milagre e os pastores ufanistas que embarcam no apelo popular e levantam a bandeira da beatificação. O padre italiano José Venturelli foi encaminhado pelo vaticano a Juazeiro na tentativa de atenuar os ânimos. “Padre Cícero tem uma importância agregadora para a Igreja Católica.

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Porém, acredito que o Vaticano vá esperar acalmar as discussões antes da Doutrina da Fé se posicionar”, opina Venturelli. O atual padre reconhece o carisma de seu antecessor, Padre Cícero, mas critica o apelo comercial e político que a sociedade agrega a sua imagem. “Esses são aspectos ponderados por Roma e vejo de forma negativa a dimensão econômica que dão a Padre Cícero”, complementa. No entanto, quando questionamos ao historiador Daniel Walker como a devoção ao “Padim Ciço” se espalhou de forma tão vertiginosa pelo sertão, ele ressalta a diferença entre a devoção e o Padre Cícero político: “Os devotos dele pouco ou nada sabem do Padre Cícero político. Para eles, o que importa mesmo é o religioso a quem souberam admirar e venerar como um homem santo, caridoso e conselheiro”. Padre Cícero morreu em 1934, aos 90 anos, proibido de subir ao altar para celebrar missa. Quase oito décadas depois de sua morte, o messias do sertão ainda não ostenta um lugar ao lado dos santificados, porém o povo nordestino tratou de ignorar a ortodoxia da Igreja e seguir na sua fé irrestrita ao Padim Ciço. Se lhe falta a glória dos altares, Juazeiro se espreme para acomodar quase 250 mil habitantes e uma incontável quantidade de imagens do Padre espalhadas em cada lar católico, nas repartições públicas e em praticamente todas as lojas do varejo e, soberano, ele abençoa a cidade do alto da colina do horto em uma estátua de 28 metros (a partir da base). A imagem simbólica de Padre Cícero é tão enraizada na memória coletiva de Juazeiro, que “tudo gira em torno dele e é ele quem faz girar tudo. Por isso há tantas coisas aqui (ruas, praças, escolas, prédios comerciais, monumentos) em sua homenagem como prova de reconhecimento e gratidão”, observa Walker. Dessa fé, Juazeiro foi gradativamente se consolidando como cidade e, mais que isso, como um importante destino do turismo religioso.

Fotos: Cézar Alves

Maria das Graças, romeira, roga ao padre Cícero em um relicário

Geraldo Barbosa, estudioso da história de Juazeiro

Padre José Venturelli, administrador do horto


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Religião e economia Há um importante polo industrial do setor de calçados na cidade, mas a principal fonte de circulação de renda é ancorada pelo turismo religioso. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Romaria (SEDETUR) do município estima que 2,5 milhões de fiéis passem anualmente por Juazeiro do Norte. Embora não haja números exatos de quanto o setor injeta na economia local, José Carlos dos Santos, titular da Sedetur, acredita que 75% de todo Produto Interno Bruto (PIB) seja oriundo do segmento. São pousadas, vendedores ambulantes, lojas do varejo e barraqueiros que disputam o melhor espaço para atrair a atenção do visitante. Dona Maria Gonçalves Duarte, 76 anos, há 28 anos tem uma loja de artigos religiosos ao lado da basílica de Nossa Senhora das Dores, um dos principais pontos de adoração, e afirma vender, em média, 150 imagens de Padre Cícero por mês. “Quando é época de romaria, perco até a conta”, complementa. A cidade recebe visita o ano todo. Mas nos meses de fevereiro, julho, setembro e novembro, é quase impossível um lugar vazio nas vielas do roteiro religioso. Dona Maria também é proprietária de uma pousada com 40 quartos e comprova que, nesses meses, a demanda aumenta significativamente: “tomo de conta sozinha da loja, mas em época de romaria eu emprego outras quatro pessoas porque não consigo dá vença”, diz. “A economia da cidade começou a se fortalecer com o varejo de artigos religiosos constituídos de forma artesanalmente e só depois foi se industrializando”, explica o historiador Geraldo Barbosa. Os traços do artesanato e da formalização podem ser encontrados no Centro de Cultura Popular Mestre Noza, uma espécie de cooperativa que abarca 124 artesãos especialistas em arte popular. Cícero Rodrigues (Zumbi), presidente da entidade, diz que as imagens sacras são as mais solicitadas no universo de um milhão de peças expostas na sede. “A associação é automantenedora e vendemos por mês algo em torno de R$ 19 mil em peças talhadas em madeira”. Para receber tanto turista, a cidade vem se transformando num canteiro de obras. O secretário de Turismo do Ceará, Bismark Maia, aponta quase 30 milhões de reais em investimento na cidade. “Estamos construindo o Roteiro da Fé, uma obra que vai estruturar um roteiro de peregrinação integrando igrejas e todos os atrativos turísticos na região central”. Isso inclui um centro de apoio ao romeiro, reforma e interligação das igrejas Basílica de Nossa Senhora das Dores, Capela do Socorro, Salesianos, Franciscanos, Igreja de São Miguel e Matriz, além da sinalização dos principais pontos de visita. Um dos desafios de Juazeiro é também o grande

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entrave do fluxo de turistas motivados pela fé: a estruturação das cidades para recebê-los. Saskia Lima é coordenadora-geral de segmentação do Ministério do Turismo (MTur) e detalha que o setor é responsável por 3,6% da movimentação do turismo brasileiro. Embora não seja uma fatia significativa, o setor já atrai a atenção do poder público, tanto que desde 2009 o MTur criou uma pasta especial na tentativa de estruturá-lo. “São cidades com algum elemento cuja visita é motivada pela devoção, independente do credo. Ainda não temos expressividade para atrair um público internacional, mas a fatia interna de quem viaja com esse intuito é crescente”, garante Saskia. Um levantamento do Ministério do Turismo elenca quase 100 produtos turísticos motivados pela religiosidade, sendo que 176 cidades detêm um forte calendário religioso.

Maria Gonçalves se sustenta da venda de artigos religiosos

Foto: Cézar Alves


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A força das romarias Passaram-se décadas, mas a fé do juazeirense no padre que transgrediu as ordens eclesiásticas parece inabalável. Andar pelas terras de Juazeiro é se deparar com um caleidoscópio de imagens e uma profusão de sons. São romeiros que ocupam todos os espaços vazios da cidade onde possam despejar sua devoção, pedir a bênção ao “Padim” e ainda fazer um pedido, um clamor! No alto da colina, sentada próxima a um dos relicários construído no horto, Maria do Carmo da Silva se concentra na oração enquanto laça uma fita no pequeno gradeado de proteção das imagens sacras. Ela é de Fortaleza e foi pela primeira vez a Juazeiro com a intenção de reforçar o pedido que já havia feito em orações em casa: a liberação da sua aposentadoria. “Tenho 70 anos e o meu processo não anda na Previdência, por isso vim fazer uma fé com o meu Padim”. Assim como ela, milhões de romeiros surgem o tempo todo e de todos os lugares, principalmente do Nordeste. Maria Nunes de Oliveira é outra devota que comprova essa fé que não cessa. Aos 77 anos, ela mantém viva uma tradição de cinco décadas herdada do pai: “ele [o pai] começou ir ao Juazeiro a pé, só com um jumento pra carregar o alimento, isso na época que o meu Padim [padre Cícero] ainda era vivo. Depois começou a organizar pau-de-arara e, mesmo quando ele morreu, não deixei de fazer as romarias”, assegura ela. Dona Maria é de Mossoró e todos os anos conduz um grupo com mais de 50 pessoas para reverenciar Padre Cícero. A demonstração está no esforço das viagens, mas também

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Fotos: Cézar Alves

no agradecimento pelas graças alcançadas. Uma das casas que pertenceu ao padre Cícero foi transformada num memorial com imagens em tamanho real que simulam o dia a dia do religioso. Num entanto, na parede desse memorial pode se deduzir a fonte para tamanha gratidão: todos os espaços de concreto já foram preenchidos com fotos, réplicas de parte do corpo humano, vestido de casamento, convites, diplomas, enfim, cabe tudo que possa retribuir o que devotos acreditam ter sido uma graça alcançada. A Secretaria de Turismo do Ceará acredita que Juazeiro do Norte seja responsável por um quarto do fluxo de turistas no Estado. “A religião divide o Estado em dois: são devotos em busca de São Francisco de Assis, e aí há uma forte procura por pessoas do Maranhão, Piauí e do Pará; na outra metade vem pessoas, principalmente, da Paraíba, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Norte à Juazeiro”, ilustra o secretário Bismark Maia.


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hist贸ria Sob a 贸tica de 30 contexto setembro de 2011

JK


Em 6 de agosto de 1955 Meu caro Mota Neto, Guardo ainda magnífica impressão da visita que fiz à progressista e culta cidade de Mossoró. Não posso conter as repetidas emoções que aí experimentei, ao contato da gente laboriosa e na contemplação das belas paisagens que as planícies e as pirâmides de sal mais embelezam. É, realmente, Mossoró uma oficina de trabalho constante, cujos resultados transpõem as fronteiras do município e contribuem para o fortalecimento das indústrias de todo o país. Dentro dessa colmeia se erguem as chaminés de suas fábricas, movimentadas por seus operários compreensíveis e capitães de indústria, que oferecem aos habitantes e consumidores de outras regiões os produtos e as matérias-primas tiradas de seus campos agrícolas e do seu subsolo, prodigiosamente rico. As extensas salinas estão a reclamar a iniciativa dos homens progressistas, como a cera de carnaúba, o algodão, o gesso e a semente de oiticica reclamam um aproveitamento mais racional com a sua industrialização no próprio centro de produção. Isto permitiria a atividade de uma multidão de trabalhadores, como impediria a evasão de rendas que viriam enriquecer o município e o Estado. Você, a quem me acostumei a estimar, desde a nossa passagem pela Câmara Federal, ainda é moço e animado de confiança nos destinos de nossa terra. Ao lado do jovem prefeito Vingt Rosado, cujo dinamismo de perto admirei, e do deputado  Dix-huit Rosado, herdeiro, como seu irmão, das virtudes cívicas de Jeronymo Rosado, que se refletiram, também, na realidade varonil do saudoso governador Jeronymo Dix-sept Rosado Maia, muito pode fazer pela vitória de nossa campanha democrática. Essa convicção se fortaleceu no meu espírito na troca de ideias que tive com o nosso digno candidato a governador, deputado Jocelyn Vilar, que me pôs a par do movimento que se está procedendo no Rio Grande do Norte e, principalmente, na Zona Oeste, cujo centro mais importante é a cidade de Mossoró. Esse município não poderia mentir ao seu passado de baluarte da liberdade, submetendo-se às imposições extemporâneas de forças ocasionais no cenário político do país. Os atuais líderes da democracia em Mossoró - e você é um deles - apenas repetiram o gesto altivo dos abolicionistas de 1833. Sei que foi a sua residência transformada no centro de reação contra os falsos defensores do brio e da dignidade do povo potiguar. Nesse centro - sei também - que se reuniram na mesma harmonia de pensamento, políticos e patriotas da estirpe de Lucas Pinto, Vingt Rosado, Rodrigues de Carvalho, Francisco Brasil de Góis, Dix-huit Rosado e Francisco Amorim, formando uma verdadeira trincheira de defesa democrática, culminando com a feliz e vitoriosa de Jocelyn Vilar ao governo do Rio Grande do Norte. A minha disposição de atender as aspirações dessa região já tive o ensejo de expor em comícios realizados aí e em Areia Branca, acentuando, principalmente, que o porto de Areia Branca, o sexto do país em volume de exportação, será a minha primeira preocupação, na série de obras a serem realizadas, no que se refere ao Rio Grande do Norte. Esse mesmo compromisso assumi em conversa que tive com o deputado Jocelyn Villar, cujos propósitos de servir a sua terra são idênticos aos meus. Recomende-me a todos os correligionários e receba um afetuoso abraço do JCB/ Juscelino Kubitschek"

Uma carta pessoal até então desconhecida e atribuída ao famoso presidente mostra como Juscelino Kubitschek enxergou Mossoró na época de sua visita como candidato ao cargo maior da República no ano de 1955

O

texto da carta transcrita nesta reportagem promove uma verdadeira viagem no tempo. É também uma carta que possui uma história paralela sobre como a mesma veio a público. Composta por 56 linhas datilografadas, a carta possui a assinatura meio apagada de um dos homens mais importantes da história política brasileira, o ex-presidente Juscelino Kubitschek ou JK. Datada de 1955, esteve guardada por 56 anos como um documento de apreço familiar, de grande valor afetivo e de admiração à figura de JK. Não se sabe por que algo tão relevante ficaria recluso ao conhecimento de poucos e por isso, não se pode ter a certeza (a menos com pesquisas minuciosas) de que em mais de cinco décadas alguém não tivesse, em algum momento, feito referência a esta carta. A verdade é que não havia qualquer menção a mesma nem contexto setembro de 2011

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na coleção Mossoroense, nem nas edições semanais de O Mossoroense do ano de 1955, o que a torna ainda mais especial. A referida missiva veio despertar o interesse de ser registrada e levada a público, efetivamente há poucos meses, através da iniciativa do jornalista Woden Madruga, do jornal Tribuna do Norte, que tendo acesso à carta, tratou de reconhecer sua importância e valor e por isso, fez o registro do seu conteúdo na coluna que assina no impresso. Mas o jornalista não explicava detalhes sobre ela. O acesso e o trajeto realizado após a publicação da carta feita pelo jornalista, curiosamente não levaram a nenhum familiar do ex-deputado Mota Neto a quem o documento foi endereçado, mas sim, ao encontro do economista e poeta mossoroense Maia Pinto. Há trinta anos Maia Pinto erradicou-se na capital potiguar e volta esporadicamente a Mossoró para rever amigos e familiares. Em um desses momentos mostrou, pela segunda vez, a missiva de JK a Mota Neto para que fosse levada a público, agora pela CONTEXTO. “Vocês são o segundo veículo a publicála”, garante Maia. A carta lhe pertence, pois foi enviada pelo próprio Mota Neto ao pai de Maia Pinto – Antônio Pinto – em 1955 para que registrasse o nome de Lucas Pinto, seu irmão e comerciante que na época em Mossoró fez parte da comitiva para receber o então candidato à presidência JK, que estava em visita à capital do oeste. Junto da carta, Maia Pinto guarda uma das fotos de família que mostra seu pai, Antônio Pinto, o tio Lucas Pinto e os primos João e José Pinto posando ao lado de JK e João Goulart, que formavam à época a chapa de candidatos a presidente e vice na coligação PSD-PTB nacional e PR no Estado. A visita de JK a Mossoró e Areia Branca está registrada no Jornal O Mossoroense daquele ano, da-

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Comitiva dos empresários aos candidatos: Antônio Pinto, João Goulart, Juscelino (centro), Lucas Pinto, José Pinto e João Pinto (esq.) Comício realizado na Praça Vigário Antônio Joaquim, em Mossoró, no dia 4 de julho de 1955 (dir.)

tado de 10 de julho de 1955 com a manchete “Vivamente aclamados em Mossoró e Areia Branca os candidatos Juscelino Kubitschek e João Goulart”. A matéria jornalística mostrava o itinerário dos candidatos que contou com “Recepção no Aeroporto Dix-sept Rosado, Corso automobilístico, Visita à cidade de Areia Branca, jantar regional na ADP e comício na praça Vigário Antônio Joaquim”. “Tinha treze anos de idade quando JK fez essa visita a Mossoró e é difícil para uma criança nessa idade ter uma ideia do significado de uma visita dessas. Mas, recordo-me da movimentação de meu pai para estar nessa comitiva. Anos depois ao me deparar com essa carta nas coisas antigas de meu pai, busquei sempre guardá-la como um documento de valor emotivo, familiar, muito importante que ela tem. Tornei-me fã de JK que para mim é o maior estadista desta república”, explica Maia Pinto. Para um historiador que busque na carta os indícios de um documento verdadeiramente histórico quase nada há como ser comprovado. Nem se tem informações sobre onde esteja a carta original, a que pertenceu ao próprio Mota Neto, já que Maia Pinto guardou uma cópia dessa original. Mas, não é enquanto documento histórico que ela se mostra mais relevante e sim, enquanto conteúdo, pelo ineditismo e detalhes de informações contidos no texto que mostram as impressões e informações que o JK teve da cidade de Mossoró em sua visita no ano de 1955.


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O visionário O professor Emanuel Bráz, do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte e atual diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (FAFIC), considera relevante o relato de JK na carta. “Juscelino se mostra um conhecedor da região. A carta deixa evidente o contato que ele tinha com os políticos daqui e por isso consegue fazer uma leitura real do que é Mossoró naquele momento e de como a cidade deveria projetar-se”, reforça Emanuel. A personalidade de JK como homem visionário que era, surge em alguns trechos da carta, especialmente quando analisa as atividades econômicas e sugere iniciativas que venham a ampliar o número de empregos na região. Num contexto mais

amplo daquele momento no Brasil, JK consegue perceber a necessidade de o país dar um salto qualitativo, saindo da concepção oligárquica dos coronéis e ruralista para elevar o Brasil a uma posição mais industrial, urbana, moderna. Segundo Bráz, JK pensava propostas ousadas para o país naquela época visando um salto em sua economia. “Na carta, JK fala da necessidade de um apoio maior à economia da região e por saber que o porto do sal tinha peso nas exportações, enquanto candidato experiente, ele já se mostra disposto em atender as ‘aspirações da região’ se eleito. Não é à toa que seu lema – 50 anos em 5 – muda a realidade brasileira”, completa. Mas, para o professor, essa visão demonstrada por JK na carta sobre Mossoró como cidade polo, não é novidade. “Imagine se um homem que projetou uma cidade como Brasília no meio do nada, para ser uma das maiores cidades do mundo, para o século XXI, não conseguiria ‘ler’ Mossoró e se informar sobre a cidade. Além de ser visionário, JK era prático e sua gestão de presidente demonstrou isso”, afirma Emanuel.

Baluarte da Liberdade Vingt Rosado, Mota Neto e JK em almoço na antiga ADP

Rosados na política Outra informação que pode ser retirada do conteúdo da carta e analisada sob o contexto político da época são os nomes de políticos da cidade e da região citados por JK e que o ajudaram a fazer uma leitura promissora da cidade. “Um homem de formação médica como JK tinha cultura, ele reconhecia a intelectualidade de sua época”, ressalta Bráz. Juscelino cita o nome do já falecido governador Jerônimo Dix-sept Rosado, Dix-huit Rosado e Vingt Rosado, que além de representarem a classe política local, eram sinônimos de homens de grande cultura e intelectualidade. “É importante perceber que Mossoró busca se projetar culturalmente em âmbito nacional desde essa época. Em 1955 a família Rosado já tinha o poder na cidade, estavam estabelecidos desde 1948 como grupo político e vão investir na criação de estruturas com perspectiva de cultura – bibliotecas e museu e diferentes eventos culturais – para que a memória fortaleça esse poder. Não se pode negar o grande estadista que foi Dixhuit, sua visão de mundo e de sua cultura. O próprio JK reforça quando se refere a Mossoró como ‘baluarte da liberdade’”, afirma Bráz.

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“Esse município não poderia mentir ao seu passado de baluarte da liberdade, submetendo-se às imposições extemporâneas de forças ocasionais no cenário político do país”. Olhando o passado através das palavras de JK na carta é possível perceber a intenção de mostrar a cultura local e projetar a cidade como terra da liberdade por causa do abolicionismo de 1883, cinco anos antes da Lei Áurea. Para o professor Emanuel Bráz, a carta reflete um contexto histórico significativo que demonstra um dos momentos mais divulgados da história mossoroense, que é o abolicionismo. “As forças reacionárias às quais se refere a carta resgata um contexto político e histórico dos que não aceitavam o fim da escravidão, ele quis reforçar o intento da cidade em ir contra essa realidade”, analisa. As impressões sobre a pequena cidade de Mossoró reforçaram em JK a ideia de um país que necessitava ser impulsionado, modernizado. No Rio Grande do Norte, Juscelino estaria mais duas vezes em campanha naquele mesmo ano (em Caicó, Natal e Santa Cruz), mas depois de eleito não esteve mais de forma presencial na capital oestana. Hoje, o registro dessa vinda está bem guardado no museu municipal em 14 fotos e em publicações jornalísticas, porém nenhum deles mostrou JK e seu pensamento sobre a cidade como na carta enviada por ele a Mota Neto. Uma relíquia de família, que não mais se perderá, sem registros de sua existência. POR: IZAÍRA THALITA

FOTOS: MANUELITO/CEDIDAS PELO MUSEU MUNICIPAL DE MOSSORÓ


Ponto de Vista Filme triste

O

Alex Medeiros*

s brotinhos da Jovem Guarda dançavam de rostos colados o sucesso “Filme Triste” que tocava nos rádios na voz do Trio Esperança, formado pelos irmãos Mário, Regina e Evinha. Era uma versão de Romeu Nunes para o hit americano “Sad Movie”, de J. D. Loudermilk, o mesmo cara que havia composto“RoadHog”equeRobertoCarlos transformou no arrasa-quarteirão “O Calhambeque”. No contexto da canção, em que uma garota flagra seu namorado com a melhor amiga dentro do cinema, o filme em cartaz se torna triste pela interferência daquele namoro clandestino de adolescentes. Não há indicação de que o filme dentro da música era com um roteiro triste, mas desde então a canção me vem à lembrança quando o assunto versa sobre algum filme de enredo ou desfecho tristes. E é para falar de filmes tristes que escrevo esta crônica. Para dividir com os leitores um exercício de memória sobre as cenas marcantes no cinema, aqueles instantes da dramatização quando a atuação dos atores provocam em nós pelos eriçados, engasgos inusitados e vazamento involuntário de água, cloreto de sódio e albumina. Eu testemunhei e experimentei, aos 20 anos de idade, em 1979, o que agora cientistas da Universidade da Califórniacomprovaramcomembasamentos técnicos. Os pesquisadores Robert Levenson e James Gross concluíram num meticuloso estudo que a cena mais triste da história do cinema aconteceu no filme “O Campeão”, dirigirido em 1979 por Franco Zeffirelli, com John Voigt, o pai de Angelina Jolie,deprotagonista.Ofilmefoiumremake de um original de 1949, do diretor Mark Robson, baseado em romance de Lardner Anel, com o então jovem Kirk Douglas no papel de um ex-lutador de boxe que tenta nocautear seus demônios do cotidiano trabalhando como zelador de cavalos. Separado, se divide também entre o alcoolismo e um filho menor que cria sem a presença da mãe. A cena em que o garotinho T.J. chora sobre o corpo do pai morto, depois que este participa de uma épica e violenta luta de boxe, superou centenas de outras cenas retiradas de mais de 250 filmes selecionados pelos cientistas na pesquisa realizada com 500 voluntários convidados para assistirem e analisarem as imagens disponíveis. Eu estava prestes a completar 20 anos e fui

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ao extinto Cine Rio Grande, na Avenida Deodoro, em Natal, para ver “O Campeão” em seu segundo dia de exibição. A grande presença de público no primeiro dia foi noticiada nos jornais. No boca-a-boca dos ambientes escolares e nas rodas de amigos no bairro em que eu morava ou na calçada da loja Discol, comentavam-se a enorme quantidade de gente saindo do cinema enxugando lágrimas, alguns sem condições de esconder o choro. As resenhas da imprensa nacional, com comentários na TV, indicavam que o sofrimento no ringue seguido da morte do personagem de Voigt vinha causandocomoçãopelomundo.Eosbrasileiros de norte e sul choravam também no escurinho do cinema. Aquela imagem de John Voigt esticado no leito do ginásio, com o pequeno Rich Schroder tentando desesperadamente fazê-lo acordar, rompeu os limites entre ficção e realidade no peito dos espectadores de todas as línguas. Era o idioma da emoção criando a torre de Babel das lágrimas. Durante 2 minutos e 51 segundos,aobradocineastaFrancoZeffirelli, quejáhaviafeitoomundochorar–emdoses menores – com “Romeu e Julieta”, “Irmão Sol, Irmã Lua” e “Jesus Cristo de Nazaré”, amolece coração e mente dos mais resistentes dos machões. Lembro com clareza o som lacrimoso nas poltronas do térreo e do primeiro andar do velho Cine Rio Grande. Muitos poderão dizer que choraram mais com “Ghost”, “Titanic” ou mesmo com o desenho de O Rei Leão, invoquem até os clássicos tais como “E o Vento Levou...” e “Assim Caminha a Humanidade”. Filmes tristes existem para todos os gostos e desgostos, mas eu concordo com a pesquisa da Universidade da Califórnia e coloco minhas lágrimas de jovem como testemunhas retroativas. E digo mais: nenhuma cidade, igual a Natal, registrou in loco o fenômeno emotivo daquela cena de “O Campeão”. Na sessão de 1979 que agora lembro e divido com os leitores da revista Contexto, um enorme lençol branco foi aberto nas dependências do cinema. Levado por um grupo de jovens das elites natalenses, hoje todos cinquentões, que gritavam para o público: “Podem chorar à vontade, hoje tem lenço pra todos”. Os primeiros a usar as pontas do tecido foram os próprios gaiatos, desmanchados em soluços.

*Jornalista, escritor e blogueiro. Edita há 24 anos uma coluna diária com notícia e opinião e mantém na Web o blog www.alexmedeiros.com, repleto de artigos, crônicas e curiosidades sobre futebol, cinema, quadrinhos, política, ciência e comunicação.


cul tu ra

Há pelo menos uma década, a maior parte do acervo do Museu Histórico Lauro da Escóssia está dentro de caixas esperando uma adequação e reforma

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eplorável. É assim que o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), Lemuel Rodrigues, define a situação do Museu Histórico Lauro da Escóssia, que há pelo menos uma década está com seu acervo encaixotado à espera de uma reforma. Segundo ele, o Ministério Público deu um prazo, no início deste ano, exigindo que a Prefeitura realizasse a obra até dezembro. “Eu não acredito que essa obra saia, pelo menos nos próximos oito meses”, ataca o historiador. Para Lemuel, o projeto não é prioridade para o Município, que “não tem feito nada pelo patrimônio público cultural”. “O que a Prefeitura faz

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são políticas de eventos”, complementa. De acordo com ele, a temática cangaço é a que mais atrai gente para Mossoró e, ainda assim, o Município não investe no museu. “Sinto-me angustiado ao ter que levar alunos lá e só encontrar uma exposição muito pequena, que só existe devido à bravura de Maria Lúcia Escóssia”, afirma, se referindo à diretora. O ex-presidente e fundador da SBEC, Paulo Gastão, pensa que nem Mossoró, nem outra cidade, podem ficar com uma instituição dessas sem funcionar. “Acho que perdemos nós, que estamos aqui, e aqueles que por informação de outras pessoas não vêm à cidade por achar que o museu está fechado”, disse. Ele doou todos os seus equipamentos de radioamadorismo, colecionados ao longo de 15 anos, para o museu, incluindo algumas peças que vieram da Europa, como o manipulador de telegrafia utilizado na segunda guerra mundial. Agora, lamenta por saber que está tudo encaixotado. O presidente do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP), escritor Clauder Arcanjo, disse que a situação do museu deixa uma lacuna muito grande na cidade. “Enquanto instituição, torcemos para que o Município nos devolva esse espaço e que insira-o dentro de uma programação cultural e educacional”, sugeriu. Jerônimo Dix-sept Rosado Maia Sobrinho, diretor executivo da Fundação Vingt-un Rosado, disse estar muito preocupado com o acervo. “Se não fosse a dedicação de Maria Lúcia Escóssia, não sei como estaria o nosso museu”, lamentou, lembrando que foi o seu pai, historiador Vingt-un Rosado, quem teve a iniciativa de criar o órgão, com o apoio do então prefeito Jerônimo Dix-sept Rosado Maia.

Projeto de adequação

A luta pela adequação da antiga cadeia pública de Mossoró ao projeto do museu se estende desde 2001. No Relatório das Atividades para Revitalização do Museu Histórico “Lauro da Escóssia”, emitido em 2003, a diretora Maria Lúcia Escóssia reclamou da demora na concretização do projeto, feito pelo museólogo Hélio de Oliveira. Ele fez a classificação genérica de todo o acervo do museu e guardou tudo para protegê-lo da reforma e ampliação que nunca foram feitas. Desde esse tempo, tudo continua embalado sem que a população tenha acesso. Nesse tempo, o projeto arquitetônico desenhado pela arquiteta Michely Frota também foi entregue. A proposta era levar a exposição fixa para o andar

superior do prédio e, no andar térreo, deixar o setor administrativo, uma lanchonete e salas para exposições itinerantes. No entanto, de acordo com o historiador Geraldo Maia, o Ministério Público exigiu a implantação de um elevador para permitir a acessibilidade e isso teria travado o andamento do projeto. A própria arquiteta confirmou essa exigência, mas negou que tenha sido esse o impeditivo.

Mudança no projeto

“O museu nunca esteve fechado”, explicou a atual gerente de cultura de Mossoró, Clézia Barreto, explicando que a sua revitalização dependia de R$ 1,5 milhão do Governo Federal que nunca foi liberado. Mesmo assim, ela informou que o projeto foi redefinido e que será realizado com recursos próprios. “Minha batalha tem sido resolver esse impasse que já dura mais de oito anos”, disse. Clézia lembra os investimentos que a Prefeitura tem feito como o Memorial da Resistência, o Corredor Cultural e outros, para mostrar a importância que vem sendo dada ao patrimônio cultural no município. O novo projeto, modificado pela mesma arquiteta, apenas inverte as posições iniciais, deixando a exposição fixa no térreo e a parte administrativa e os salões para eventos itinerantes no andar superior. A única perda foi a lanchonete que não será mais construída. “Estamos priorizando as exposições”, disse Clézia. O secretário do Desenvolvimento Territorial e Ambiental de Mossoró, arquiteto Alexandre Lopes, esclarece que a mobília da parte administrativa já foi comprado e os expositores estão sendo construídos, sob-medida, no próprio local. Sobre a parte física do prédio, ele explica que não será feita uma ampliação, mas uma grande manutenção na estrutura do prédio. Ele estima gastar entre R$ 300 mil e R$ 400 mil na estrutura física e implantação do novo mobiliário. “Alguns locais ganharão vidro para evitar a entrada de insetos e morcegos”, acrescenta. No dia 19 de agosto último, a arquiteta Michely Frota e a engenheira civil Kalline Pinheiro estiveram no prédio definindo os últimos detalhes da reforma, que só sairá depois da aprovação no Orçamento Municipal para 2012. “As pessoas confundem o público com o privado, achando que é só chegar, comprar o material e fazer. No serviço público é preciso vencer o processo burocrático”, argumenta Alexandre Lopes. contexto setembro de 2011

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* Planta baixa do anteprojeto atualizado da reforma do Museu Municipal

Do prédio ao museu De acordo com o historiador Geraldo Maia, o antigo prédio da Câmara Municipal e Cadeia Pública de Mossoró teve a sua construção iniciada em 1878, pelo juiz municipal Manuel Hemetério Raposo de Melo, e foi inaugurado em 8 de abril de 1880. O prédio foi construído em dois andares, ficando no térreo os porões, celas e alojamentos para o Corpo de Guarda e no andar superior a Câmara Municipal, inaugurada em 14 de abril do mesmo ano. O prédio ficou famoso por ter sido palco para a sessão magna da Libertadora Mossoroense, ato de libertação dos escravos em 30 de setembro de 1883, e o primeiro voto feminino da América do Sul, protagonizado por Celina Guimarães em 1928. Foi também numa de suas celas que ficou detido o cangaceiro Jararaca, em 1927, quando do ataque do bando de Lampião a Mossoró. Em 1982, tornou-se a sede da Biblioteca e do Museu Municipal, que tinham sido criados no ano de 1948 pela iniciativa do historiador Vingt-un Rosado, com apoio do então prefeito Jerônimo Dix-sept Rosado Maia. Atualmente, o museu abriga o mais rico acervo da região nos campos da Mineralogia, Paleontologia, His-

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tória e Arqueologia Indígena, além de mais de 50 mil peças avulsas que fizeram a história da cidade desde a sua fundação.

A Guardiã Maria Lúcia Escóssia trabalha no museu desde 1984, dois anos depois da transferência do acervo para o prédio atual. Sobrinha do patrono, Lauro da Escóssia, ela se tornou uma espécie de guardiã do acervo e memória viva para pesquisas na instituição. Assumiu esse ofício já aposentada, mesmo assim, todo o seu amor e memória pertencem ao museu, tanto que se emociona ao falar sobre isso. Na direção do órgão desde 2000, ela vem emprestando sua resistência em nome da história de Mossoró, ganhando o reconhecimento de pesquisadores e historiadores locais. Sobre a situação atual do museu, diz apenas que tem muita esperança de vê-lo revitalizado. “Nunca desistirei”, garante.

POR: JOSÉ DE PAIVA REBOUÇAS

FOTOS: CÉZAR ALVES COM MANIPULAÇÃO DE AUGUSTO PAIVA


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me lhor ida


A ‘tal genética’ de Parelhas Um dado curioso do IBGE mostra que os idosos que residem no centro de Parelhas compõem uma população importante e numerosa no coração da pequena cidade. CONTEXTO mostra, a partir de suas histórias, as razões socioculturais para um envelhecimento com saúde

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ma estátua com dois homens disputando corrida de cavalos emparelhados, uma prática comum dos vaqueiros, é o monumento que chama a atenção dos que chegam à entrada principal da cidade, indicando o nome do lugar que conquista pelo belo visual. A cidade de Parelhas, na região oriental do Seridó potiguar (a 256km de Natal e 242km de Mossoró), cercada pela paisagem da Serra do Boqueirão e banhada pelo rio Seridó, transmite aos seus visitantes uma tranquilidade típica das cidades pequenas. Os idosos, especialmente no Centro da cidade de Parelhas, demonstram vitalidade e não passam despercebidos. A constatação feita a olho nu pode ser reforçada pelos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). No último censo demográfico de 2010, divulgado neste ano, o Centro de Parelhas aparece como o terceiro bairro no Rio Grande do Norte com maior índice de envelhecimento – relação entre o número de idosos com mais de 65 anos e a população jovem na faixa etária de 0 a 14 anos – tendo à frente apenas os bairros de Petrópolis, em Natal, e o Centro de Mossoró. As razões para a concentração de uma população envelhecida mais no Centro de Parelhas logo são explicadas pelos próprios idosos que residem no arrabalde. Conta a história da cidade que em 1856, Sebastião Gomes de Oliveira e Cosme Luiz, moradores das redondezas, fizeram a promessa de construir uma capela consagrada a São Sebastião, se lhes fosse concedida a graça de escapar de um surto de cólera, e depois de desaparecida a peste, a capela foi construída originando, consequentemente, o surgimento de várias casas ao seu redor e a formação da vila que, mais tarde, originaria a cidade.

Somente em 26 de novembro de 1920, o povoado de Parelhas foi elevado à categoria de vila, tendo sua freguesia, criada no dia 8 de novembro, de 1926. Por força da Lei n° 630, o povoado foi desmembrado do município de Jardim do Seridó tornando-se município.

Histórias de vida Diante de uma concentração significativa de idosos surge, naturalmente, a curiosidade de encontrar os personagens desse envelhecimento. Dona Irene Virgílio é uma das moradoras antigas do Centro de Parelhas, reside à Rua Bernardo Sena e avista a igreja matriz de São Sebastião do portão de casa. Na sabedoria dos seus 92 anos, com muita disposição e lucidez, enquanto realiza seus bordados de cunho religioso, lembra à origem rural, a mudança da família para a cidade e de quando o Centro era o maior bairro de Parelhas. Na mesma casa herdada dos pais, Irene Virgílio casou e criou seus três filhos e hoje é ponto de encontro dos netos e de toda a família. Mas, apesar dos muitos anos na cidade, os costumes da fazenda, da vida típica do seridoense, permanecontexto setembro de 2011

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ceram vivos nela, especialmente na alimentação que inclui os alimentos de milho, em especial a paixão por canjica, os doces caseiros, as comidas regionais como panelada e o sabor dos queijos de produção artesanal. Até hoje, mesmo com a idade que tem, ela se orgulha de não ter restrições alimentares. “Sempre comi de tudo, não tenho nenhuma dieta e minha saúde é ótima”, afirma. Parte dessa disposição e boa saúde ela credita à vida tranquila que leva em Parelhas, ao clima agradável da cidade (no inverno chega a ter temperaturas de até 15°) e à genética do seridoense. Esta última, uma razão bem relevante quando recorda que seus pais viveram muitos anos e uma das tias, Francisca Virgílio, viveu até os 103 anos. “No Seridó os idosos vivem muitos anos”, justifica a partir de sua própria ciência, ou seja, a vivência e a observação. E enquanto relata as vantagens de viver tantos anos desde que com saúde, Irene Virgílio dá outras dicas pessoais do que contribui para um envelhecimento saudável. Ela prepara a mesa para uma das atividades cotidianas mais prazerosas do seu dia: Jogar dominó com a sua vizinha e parceira de apostas, Ana Azevedo. Na conversa com dona Ana, 88 anos, percebe-se que a saúde e a vitalidade não são exclusivas da amiga Irene. A octogenária, que era comerciante antes da aposentadoria, também tem no sangue ‘a boa genética’. Seu pai levou uma vida lúcida até os 106 anos. Mas, ela explica que ajuda a manter a boa disposição e a saúde do corpo e da mente com as partidas de dominó e de baralho com a vizinha Irene, realizando caminhadas e tomando cafezinho, sua bebida preferida.

Aonde se vai, andando pelas ruas do Centro de Parelhas, mais idosos são encontrados em suas tarefas cotidianas e dão testemunho de como envelhecer bem. Muitos são cativos na feira de produtos orgânicos realizada no Centro da cidade aos sábados e às segundas-feiras, onde tudo o que se pode comprar de mais saudável está à disposição. Josefa Maria Santinho, 72, frequenta a feira e é personagem conhecida na cidade. Viúva, mãe de doze filhos, não para em casa: vai às compras, realiza pagamentos, participa ativamente dos movimentos de Igreja e de trabalhos sociais, atua como membro da diretoria da Cooperativa Agrícola de Parelhas e não dispensa o bom forró nos finais de semana. “Ando muito por esta cidade, vou a todo lugar a pé”. Josefa Maria também tem a ‘tal genética’ que Dona Irene Virgílio já ressaltou, pois suas duas irmãs viveram uma centena de anos cada. “Acho que o segredo é viver sem pensar nas dificuldades. Se a gente não pensar que tem limitações, elas não aparecem”, explica. Severo Pereira conta que ocupa a maior parte de suas horas confeccionando os tapetes e acredita que é mais que um trabalho, uma verdadeira terapia. Ele e a esposa Francisca Floriano da Silva, 81 anos são casados há 61 anos, têm filhos, netos e bisnetos, mas vivem sozinhos na casa, por opção. Não acreditam que a idade avançada tenha de lhes impedir a independência. Por outro lado, eles realizam atividades que ocupam a mente, o que acaba contribuindo para uma longevidade mais saudável. “Realizamos muitas tarefas juntos, desde as tarefas domésticas. Vamos principalmente à igreja e passemos pelas praças”, completa Francisca. Fotos: Cézar Alves

Irene Virgílio e amiga Ana Azevedo na sua atividade diária: jogo de dominós

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Josefa Maria Santinho: O segredo é viver sem pensar nas limitações

Severino Pereira com a mulher Francisca Floriano fazem atividades para ocupar a mente


Seu Biró: alegria e nostalgia numa vida tranquila no abrigo

Paralelo: o abrigo de idosos

Foto: Cézar Alves

Um pouco mais distante do Centro, no bairro Ivan Bezerra, em Parelhas, com uma das vistas mais privilegiadas da cidade, foi criado, há onze anos, o Lar do Idoso Guiomar Virgílio. O espaço amplo e convidativo lembra as grandes casas alpendradas que permitem aos idosos internos as conversas em cadeiras de balanço, assistir à missa na TV, ou do lado externo, contemplar um jardim com bancos de alvenaria e uma fonte com a imagem de Nossa Senhora. Entre os internos do Lar do Idoso, o que tem idade mais avançada é Manoel Inácio Bezerra, o “Seu Biró”, 91 anos. Ele chegou ao abrigo depois que a esposa faleceu e sem ter tido filhos, foi encontrado morando sozinho em sua casa e passou aos cuidados da institui-

ção. É alegre, participa das festas do abrigo e de maneira descontraída apelidou todos os funcionários, arrancando risadas dos visitantes. Mas, alimenta uma nostalgia de quem já teve mais independência, de quem perdeu as pessoas queridas e hoje está sozinho no mundo. Para seu Biró a palavra abrigo não faz parte do dicionário. Ele diz que a morada na “vila”, onde tem seu quarto repleto dos objetos de estima, tem um atendimento bom e lhe permite fumar o cachimbo “que é de Lei” na sua rotina. Se depender de sua disposição e alegria, Seu Biró será mais um dos muitos idosos a alcançar o centenário, na paisagem tranquila de Parelhas.

Maiores índices de envelhecimento por bairro no RN em 2010

Panorama da vida longa

Índice de Bairro

Município

Envelhecimento

Natal

114

Centro

Mossoró

116,15

Centro

Parelhas

104,8

Tirol

Natal

97,7

Manoel Tomaz

Currais Novos

Petrópolis

95,7

de Araújo Central

Acari

94

Centro

Janduis

93,6

Riacho Centro IBGE/2011

de Santana

92,1

A população brasileira envelhece e vive mais do que há dez anos. Os dados sobre a população revelados no último censo demográfico realizado pelo IBGE em 2010 dão conta de mais de 20 milhões de idosos. Para se ter uma ideia desse crescimento da população envelhecida em 1900, a expectativa de vida em ambos os sexos era de 33,5 anos e em 1940 apenas 4% da população tinha mais de 60 anos de idade. Há um crescimento da participação relativa da população com 65 anos ou mais, que era de 4,8% em 1991, passando a 5,9% em 2000 e chegando a 7,4% em 2010. Se as projeções não falharem, nos próximos quatorze anos, a população idosa levará o país que atualmente está na décima sexta posição a ficar entre os dez primeiros no ranking de nações com população mais velha no mundo. POR: IZAÍRA THALITA contexto setembro de 2011

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ConTXTextualizando Dedilhando as ‘coisas’ da vida...

U

KILDARE GOMES*

m bom papo na calçada com os amigos acompanhado com uma partida de dominó. Os ambientes já não são os mesmos e o território confortável da comunidade local também não pertence à realidade na qual está inserida a cultura de um jogo tradicional nas calçadas. É na atualidade que os jogos modernos proporcionam o novo dimensionar da realidade e ao desterritorializá-lo impulsiona novos ares em territórios virtuais comuns, mas longe do corpo que produz o pensamento da aventura. Assegura o pensamento popular: “Se de novo não se morre, de velho não se escapa”. E como a expectativa de vida dos seres humanos tem aumentado consideravelmente é de se imaginar que o planejamento para a velhice deva ocorrer enquanto está se vivendo. A parafernália tecnológica bem que possibilita esse planejamento digital, sem muita profundidade, claro. Escrever um livro com editor eletrônico, jogar paciência, palavras cruzadas eletrônicas, e até um variado número de jogos eletrônicos em rede tem possibilitado o ócio criativo e divertido para a melhor idade. Mas aprender a manipular uma máquina moderna pode trazer, na idade maior, os desafios não alcançados na idade menor. E isso desafia consideravelmente um sistema intelectivo que desabrochou em plena era da máquina de datilografia. Equipamento quase (i) móvel que forçava carregar assessórios para o dedilhar das letras. Todos os itens de produção analógica posicionavam-se no setor externo das sensações da escrita; dentro mesmo da máquina, a fita que possibilitava a formatação da cor e a margarida que impunha a força dos formatos com relevo para impressão das letras. Entre o dominó e a margarida resta apenas a organização sequencial da lembrança de um tempo que ficou velho demais para servir a realidade. E O QUE FAZER COM O MELHOR DA IDADE? A aposentadoria que chegou mais

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cedo destinou mais tempo para curtir o “novo marujo” que navega por outras (cyber)ondas. O que ocorre é que um número sempre crescente de pessoas “jovens há mais tempo” estão desenvolvendo suas habilidades para aceitar o novo. Foram esses mesmos que resistiram a TV em cores e o controle remoto, mas não desistiram de reclamar que a fórmula eletrônica desenvolvida pela tecnologia não acompanhava o seu raciocínio analógico, e a remota onda do controle saía sempre do controle dos jovens aposentados. E bem que depois de tanta juventude a melhor idade está decidida em apresentar os seus dotes digitais. Muitos se inscreveram nas redes ditas sociais, e, claro, ainda se garantem no bate papo da esquina como o grande sábio em desvendar a nova realidade virtual. A resistência no trato com os caixas eletrônicos para recebimento da aposentadoria foi um desafio vencido a duras penas. O voto eletrônico rechaçado frente ao romântico ato de escrever o nome dos candidatos ou candidatas de sua preferência. E o termômetro que esquecera o mercúrio? Tantas coisas que os “jovens há mais tempo” decidiram aderir para chegar na melhor idade... Essa população no RN, segundo dados pesquisados pelo IBGE, entre o sexo masculino e feminino –, chega a ocupar pouco mais de 313 mil, na faixa etária compreendida entre 60 e 84 anos. Ótimos números para se navegar! A Organização Mundial da Saúde (OMS) já assegurou que até 2025, o nosso país será o sexto do mundo com o maior número de pessoas acima de 60 anos. Falta-nos estudo, sobra-nos desinformação. Oh! Vontade que temos de ficar velhos, mas ainda não sabemos como. Só queremos chegar na linha que cruza a juventude com os “jovens há mais tempo” ainda com feições de criança. É uma tecnologia ainda desconhecida para uma sabedoria não explorada. E haja paciência, digital, de preferência.

* Jornalista (PB 4830JP) e professor do Curso de Comunicação Social da UERN Email: kildare.gomes@gmail.com contexto setembro de 2011

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e ner gia

A força dos ventos Crescimento do setor eólico brasileiro tem refletido, diretamente no estado do Rio Grande do Norte; que será líder no país até 2014; ao todo 79 parques instalados em várias partes do seu território O potencial eólico brasileiro cresceu vertiginosamente em menos de dez anos e já supera o hidroelétrico. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estima que o país tem capacidade para gerar até 300 GW, bem acima da hidroeletricidade (261 GW). Numa comparação, o potencial eólico nacional seria 30 vezes o de Itaipu, a maior usina geradora de energia do mundo, com potência para 14 mil MW. Outro fator positivo é que o custo da energia eólica também já é menor do que o da energia elétrica obtida em termelétricas a gás natural. O Brasil é o 12° mercado mundial que mais atrai investidores e a estimativa é que nos próximos dois anos suba duas posições. O Rio Grande do Norte, que apresenta as melhores condições de instalação, foi quem mais cresceu nos últimos três anos, tornando-se a bola da vez. Hoje, existem três parques eólicos1 em operação em território potiguar, mas outros 79 serão implantados até 2014. Serão 62 até 2013 e mais 17 até 2014, totalizando 82 usinas de vento em atividade. Isso deixará o RN na ponta da geração de energia renovável superando o atual líder, Ceará. Ainda em 2012, o RN se tornará autossuficiente na geração de energia. Para que tudo isso aconteça, serão feitos investimentos de R$ 10 bilhões, sendo R$ 8 bilhões para os parques em andamento e R$ 2 bilhões para os novos empreendimentos do último leilão de A-3 e reserva de energia. A geração de energia envolve projetos da Espanha, Portugal, EUA e Alemanha. Já a fabricação de equipamentos tem participação, também da Alemanha e Espanha, além da Argentina, Dinamarca e Índia. Acesso O prazo para que os potiguares passem a usufruir desse potencial de energia é dezembro de 2012 para os projetos do Leilão de 2009, e setembro de 2013 para o Leilão de 2010.

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2014 para os projetos do leilão de 2011. A energia gerada no RN vai para o Sistema Interligado Nacional (SIN) no Ambiente de Contratação Regulada (ACR) das estações coletoras de energia (subestações e linhas de transmissão).  O processo de distribuição depende dessas linhas de transmissão, mas segundo a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, o Governo Federal, sabendo da necessidade de ampliação das linhas de escoamento de carga, licitou em 2010 e 2011 reforço no sistema de subestação de transmissão, tendo como ganhadora a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF), que se comprometeu a concluir o processo sem prejuízo do cronograma fixado para início de operação dos Parques Eólicos.  Leilão de A-3 Depois de liderar os leilões de A-3 e reserva de energia em 2009 e 2010, o RN ficou na terceira posição na última venda pública, com 17 projetos aprovados, atrás do Rio Grande do Sul (26) e Bahia (18). Ainda assim, o Estado ficou à frente do Ceará (11), mantendo a projeção de liderar o setor antes da Copa do Mundo de 2014.


Eólica será tão importante quanto o petróleo Para o coordenador de Energia do RN, José Mário Gurgel, os parques eólicos ganharão uma dimensão tão importante quanto à exploração de petróleo do território potiguar. Segundo ele, nenhum outro setor teve potencial para investir R$ 10 bilhões em menos de quatro anos. Sem falar, que ainda falta muito para que o potencial do Estado seja superado. “Por enquanto, estamos explorando as terras do continente (onshore), mas quando esse potencial se esgotar, os projetos se expandirão para o mar (offshore) e, mais uma vez, levamos vantagem por termos um mar de baixo calado em toda a nossa costa marítima”, completa. De acordo com o diretor da Agência Internacional de Cooperativas de Promoção e Defesa da Economia Social, Roberto Coelho, apenas 1,74% da energia consumida no Brasil vem de origens limpas, o que mostra que o setor ainda vai crescer muito. Desafios Com tudo isso, o modelo de exploração da energia eólica ainda não satisfaz, financeiramente, os estados produtores. Em Agosto, a Assembleia Legislativa do RN promoveu audiência pública sobre mudanças deste modelo que, por enquanto, beneficia apenas os grandes grupos econômicos. A preocupação, segundo a Assembleia, é compartilhada pelo representante da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) que defende a distribuição de impostos para compensar os Estados produtores. Outro problema tem a ver com o custo desta energia. Embora seja gerada de forma mais barata, o consumidor brasileiro ainda paga a terceira energia mais cara do mundo. Os proprietários das terras onde estão sendo instalados os parques eólicos recebem atualmente cerca de 0,87% do preço da energia adquirida pelo governo.

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CURIOSIDADES Energia Eólica Denomina-se energia eólica a energia cinética contida nas massas de ar em movimento (vento). Seu aproveitamento ocorre por meio da conversão da energia cinética de translação em energia cinética de rotação, com o emprego de turbinas eólicas, também denominadas aerogeradores, para a geração de eletricidade, ou cataventos (e moinhos), para trabalhos mecânicos como bombeamento d’água A primeira turbina eólica comercial ligada à rede elétrica pública foi instalada em 1976, na Dinamarca. Atualmente, existem mais de 30 mil turbinas eólicas em operação no mundo.

POR: JOSÉ DE PAIVA REBOUÇAS

FOTOS: CÉZAR ALVES COM MANIPULAÇÃO DE AUGUSTO PAIVA

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Atual líder O Ceará é pioneiro e líder nacional no setor eólico. Atualmente, o estado possui 14 parques do Proinfa (Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia) totalmente instalados, gerando 500,93 MW, além dos três primeiros, localizados em Mucuripe, Aquiraz e Taíba, com capacidade de 17,4 MW.


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Fotos: Cézar Alves

pre ser va ção 54 contexto setembro de 2011


A resistência de Arrojado

Comunidade encravada no sertão potiguar , que vive em meio à pobreza e esquecimento do poder público, é exemplo de quilombo que tenta manter suas origens históricas através da manutenção de laços familiares e preservação de sua cultura afro-brasileira

))

JOSÉ DE PAIVA REBOUÇAS @jottapaiva

Vozes cansadas entoam no centro da capela, pronunciando uma canção de sabedoria popular. Um pandeiro e um violino inacabado, faltando uma corda e ganhado de doação, são usados para dar o acompanhamento, mesmo desritmado, da liturgia que também não segue o diapasão. O instrumento de cordas, comum aos grandes consertos, torna-se, neste ritual em particular, um mero representante sonoro, substituindo o que deveria ser um violão ou outro utensílio musical. O ritmo vem dos passos miúdos que se arrastam no chão de cimento cru. Os bancos afastados abrem espaço no pequeno retângulo cristão. De frente para o altar de alvenaria povoado pelos santos devotados, os mestres João Velho (pandeiro) e Francisco Vieira (violino) definem o traçado da dança de São Gonçalo do Amarante, padroeiro da comunidade e dos costumes. As contraguias, Alaíde e Joana, dirigem as dançadeiras no baile medieval. Duas fileiras emparelhadas, divididas pelas cores, vermelho e azul, das fitas que enfeitam os vestidos brancos cosidos por elas próprias, iniciam, no primeiro instante, um jogo circular, de ida e volta, costurando os pares, fazendo com que os mestres e seus subsequentes acabem indo para o final das colunas e, consequentemente, sendo impulsionados, por etapas, novamente para frente. Em poucos instantes, a primeira formação se refaz e a dramatização reinicia repetindo o ciclo. A manifestação organizada e compartilhada pelos sete pares – dois homens e doze mulheres – é como a representação da vida dos quilombos do Engenho Novo e Arrojado, localizados há cinco quilômetros de Portalegre, na região serrana do Rio Grande do Norte. Os casamentos consanguíneos mantiveram vivo o mesmo grupo familiar originário dos escravos livres ou fugidos, vindos de outros estados, como a Bahia, há várias gerações. Na genealogia, o grau de parentesco entre os pares é tanto que até eles se confundem ao se explicarem. contexto setembro de 2011

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A vida

Joana Ribeiro de Bessa (acima) e Joana Ricarte da Conceição (as Joanas) em suas atvidades cotidianas

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A situação desse povo vem mudando aos poucos nos últimos anos, mas no rosto ainda estão às marcas do sofrimento de uma vida rural. Quase todas as casinhas são de construção simples e antiga, com cômodos estreitos, potes e fogão à lenha. Porém, a maioria já possui televisão, geladeira e outros aparelhos eletrônicos. As estradas foram recentemente arrumadas, mas há bem pouco tempo eram apenas veredas difíceis até para quem anda a pé. O trânsito é praticamente exíguo. Muitos preferem caminhar e, aqui e acolá, uma motocicleta chama a atenção das lavadeiras com seu estranho jeito de bater a roupa. Os homens são mais fechados e tímidos. As mulheres bem enfeitadas nos cabelos e unhas. Essencialmente agricultores, falam sobre isso o tempo inteiro. Bastante receptivos, gostam de contar histórias e rir das lembranças antigas. Os de mais idade são basicamente semianalfabetos, embora muito inteligentes para questões como a matemática. As meninas começam a namorar, na maioria das vezes, por volta dos 15 e 16 anos. Quase todas foram mães por essas idades. As mais velhas tiveram entre nove e dez filhos, já as mais novas, uma média de seis partos. 


Quadrilha da poesia quilombola Joana é mãe de Gecileide, que é casada com Nilo, que é irmão de André, que é casado com Joana. Gecileide é filha de Joana, que é filha de Antônia, que criou Gecileide. Por isso, Gecileide, tornouse irmã de Joana e tia de seus irmãos. Esse emaranhado de relações incomum que piora ainda mais quando se tenta entender, não ocorre apenas neste galho da grande árvore genealógica que forma as comunidades de Engenho Novo e Arrojado. As mais de 80 famílias que povoam os recônditos daquela Serra têm a mesma origem nas famílias Ricarte, Bessa, Calixto e Conceição. É comum no quilombo a prática da endogamia, união entre pessoas da mesma família. Embora não haja uma obrigação cultural para que os membros da comunidade se amasiem entre si, no Engenho Novo e Arrojado isso parece ser um processo natural. Uma das histórias mais singulares aconteceu com os primos Tatiane Bessa Ribeiro e Antônio Ribeiro de Bessa. Embora sua família seja do Arrojado, ela nasceu em São Paulo. Seus pais são uma das poucas famílias que migraram para o Sudeste à procura de oportunidades. Apesar da distância, eles sempre mantiveram contato com os quilombos nas muitas viagens que fizeram para o Nordeste. Aos 19 anos, Tatiane veio passar um mês na casa dos tios (Antônio e Ilma) e dessa viagem começou um namoro com o primo Antônio Francisco Ribeiro de Bessa. A visita de um mês durou um ano e rendeu um casamento. Casados há seis anos, vivem em São Paulo, mas numa casa construída no quintal do pai dela.

Mestre João Velho comanda a dança de São Gonçalo Durante a reportagem não foi identificado nenhum caso de deficiência genética que possa ter sido provocada pela consanguinidade. De acordo com a doutora em genética e professora da UEPB, Silvana Santos, em qualquer comunidade com alto grau de consanguinidade espera-se que de 7 a 13% dos habitantes sejam afetados por deficiências causadas por doenças genéticas.

As Joanas Joana Ricarte da Conceição se chamava Joana Ribeiro de Bessa, mas quando criança foi emprestada pelo pai Agenor ao tio Francisco Ribeiro, que só tinha nove filhos e precisava completar os dez para garantir uma ajuda financeira do governo, durante um ano de seca. O problema é que seu Francisco já tinha uma filha chamada Joana Ribeiro de Bessa que era mais velha. Conquistado o objetivo, as vidas das meninas seguiram como antes, a confusão só se instalou quando Joana, a mais nova, precisou votar e foi informada que já tinha votado. É que seus documentos continuavam com a filiação de Francisco e não de Agenor. Demorou muito para que ela explicasse o que estava acontecendo e precisou chamar a prima-irmã para provar que elas eram duas. Ainda assim, todo ano de eleição era a mesma coisa. Joana, a afetada, só resolveu mudar de nome quando precisou se aposentar, aos 55 anos, e foi informada que já estava aposentada. A história é contada com graça na comunidade, menos quando as duas estão juntas.

Problemas étnicos Na serra de Portalegre existem quatro comunidades quilombolas e, embora sejam praticamente da mesma família, há divergências étnicas entre eles. Os moradores de Engenho Novo e Arrojado1 (considerada uma só comunidade) realizam suas atividades culturais à parte das comunidades de Pega, Lajes e Sobrado, e vice-versa. Os conflitos são apenas no campo intelecto-cultural, mas possui uma marca bem definida. É no Arrojado onde, segundo seus moradores, tudo começou. Como também é deles o “primeiro São Gonçalo do Amarante: o verdadeiro”, afirma dona Alaíde Maria da Conceição, de 85 anos. contexto setembro de 2011

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O que sabem os mais velhos Raimundo Ribeiro de Bessa: o mais antigo do Arrojado

Quilombos no RN De acordo com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), existem 21 comunidades quilombolas reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares no Rio Grande do Norte e outras 10 em processos de regularização. Segundo os antropólogos André Garcia Braga e Thiago Leite Barros a maior parte da história das comunidades está preservada na memória de seus integrantes, que guardam os episódios da fundação e toda a organização genealógica do grupo. Em alguns Quilombos, a forma coletiva de se produzir ainda é preservada. As roças e os pastos não têm cerca, sendo as áreas destinadas a estas atividades de posse coletiva, sem um proprietário único. Na comunidade de Jatobá, em Patu, há documentos das terras pertencentes aos fundadores. Um trabalho conjunto realizado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) conseguiu resgatar parte da história do local que se formou há gerações. Sem esses documentos que destaca, inclusive, o desenho de uma árvore genealógica, toda a história dos antepassados se resumiria às lembranças de dona Ducília de Aquino, de 81 anos, matriarca do povoado. Ao contrário de Engenho Novo e Arrojado, no Jatobá as famílias são mais mestiças. Alguns têm peles tão alvas que nem parecem negros. Eles também não preservam a endogamia.

Antônio e Maria, pais de Maria da Conceição, que era conhecida na comunidade como Taxica, são apontados como alguns dos mais antigos a chegarem ao quilombo. Os descendentes de escravos, Joaquim Miguel e Francisca Simplício, introdutores da dança de São Gonçalo, também são lembrados. Agenor Ricarte de Bessa, de 83 anos, pai de Joana, diz que seu avô, José Ricarte, trabalhava em um navio e, quando deixou o ofício, foi morar em Quixadá (CE), casando-se com uma prima. Ele não sabe dizer se foi os seus avôs ou já seus pais, João e Maria Ricarte (primos), que migraram para a serra de Portalegre. Afirma apenas que já nasceu no Arrojado. Agenor casouse com a prima Antônia Ribeiro de Bessa, a grande matriarca do São Gonçalo, falecida há três anos, com 79 de idade. Seu Raimundo Ribeiro de Bessa, de 92 anos, irmão de Antônia, é um dos mais antigos sobreviventes do Arrojado, assim como sua esposa-prima Maria Ribeiro de Bessa. Com o olhar cheio de passado, Raimundo não tem certeza das origens, mas não se esquece do sofrimento, que, aliás, é um fato comum entre os mais velhos. A vida opressora é que deixou marcas irreparáveis. As perguntas dirigidas a ele, assim como a todos os de mais idade (que são muitos), só são respondidas mediante sua repetição e a resposta é sempre monossilábica. Com tudo isso, há mais nostalgia do que tristeza nesse povo. A preservação da família e da cor negra, como num rito tribal, vai além do medo e do preconceito.

Quilombolas do RN Boa Vista dos Netros – Parelhas* Sibaúma – Tibau do Sul* Macambira – Lagoa Nova Sítio Moita Verde – Parnamirim Negros do Riacho – Currais Novos Sítio Grossos – Bom Jesus* Sítio Pavilhão – Bom Jesus*

3.524 comunidades espalhadas (Estimativa)

Jatobá – Patu* Aroeira – Pedro Avelino*

1.711

Engenho Novo/Arrojado – Portalegre Sítio Lajes – Portalegre

257

Sítio Pega – Portalegre Sítio Sobrado – Portalegre Gameleira de Baixo – São Tomé Nova Descoberta – Ielmo Marinho* Baixa do Quinquim – Touros Geral – Touros Bela Vista do Piató – Assú *Em processos de regularização de Territórios Quilombolas pelo Incra

comunidades reconhecidas

processos abertos

Capoeira – Macaíba*

Picadas – Ipanguaçu

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NO BRASIL

Acauã – Poço Branco*

130

96%

delas vivem em situação de vulnerabilidades social

mil famílias (aproximadamente)


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tes de escravos de Manoel e Raymunda. A história desse povo, que começou com a liberdade de um escravo há 144 anos, ganhou mais um personagem seis gerações depois: o mestiço, José Armando Figueiredo de Almeida, que no dia 6 de agosto estava com 20 dias de nascido. Ele é filho de Damiana, tetra-neta de Manoel, e Criano Figueiredo Resende, branco chegado de outra comunidade rural.

PRESERVAÇÃO

Sandra da Silva e Fernando de Aquino com o filho Isaac

A história silenciosa

dos ancestrais de Jatobá Estudo realizado pelo Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) aponta que os moradores da comunidade negra de Jatobá são descendentes de Manoel e Raymunda, escravos pertencentes a Joaquim Teixeira Dantas, proprietário de terras no Patu de Fora, município de Patu (RN). Manoel era filho da escrava Vicência e casado com Raymunda: índia, “pega a dente de cachorro e a casco de cavalo”, conforme expressam as narrativas orais. Em 1867 foi assinada a Carta de Liberdade de Manoel, que continuou morando com a família nas terras de seu antigo dono. No final do século 19, os membros da família foram se distribuindo por diversos sítios da região. Posteriormente, no início dos anos de 1920, João Luiz de Aquino, filho de Joaquina, uma das filhas de Manoel e Raymunda, comprou um “pedaço de terra” no sítio Atenas (Patu), como estratégia para fugir das armadilhas do sistema formal pós-abolição. A compra da terra se tornou marco na trajetória de parte da família, que conseguiu se unir. João Luiz leva com ele seus parentes juntando, na terra, descenden-

Sandra da Silva e Fernando de Aquino, pais de Isaac, outro quinto-neto de Manoel, são membros da associação do quilombo de Jatobá e, junto com a presidente Maria José de Almeida, lutam pela regularização fundiária da propriedade para que as famílias possam receber os benefícios dos quais têm direito. Jatobá, com 17 famílias, e Acauã, com 56, no município de Poço Branco, são as únicas comunidades do RN que contam com Decreto Presidencial que declarou as duas de interesse social para fins de desapropriação, faltando agora somente a titulação das terras.

Damiana e Criano seguram o filho José Armando, penta-neto do fundador da comunidade

Mitos e lendas De acordo com os antropólogos do Incra, André Garcia Braga e Thiago Leite Barros, entre os habitantes dos municípios em que se encontram as comunidades, ouve-se que os quilombolas são feiticeiros. Ele explica que tudo não passa de mito e que no RN algumas famílias são praticantes do catolicismo ou são membros de alguma igreja evangélica. “A prática de curandeirismo, como as realizadas por benzedeiras, representam o sincretismo da religiosidade popular muito comum em todo interior do Brasil”, afirma. Outro mito é o de que os quilombolas são “preguiçosos” e/ou “vagabundos”. “Essa visão preconceituosa provavelmente tem a ver com o racismo, aliado ao preconceito em relação aos pobres e os trabalhadores rurais. Esse discurso é normalmente proferido por proprietários cujas terras incidem nos territórios quilombolas”, alerta.

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Entrevista – Alexandro Reis*

*Diretor do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro da Fundação Palmares

“O grande gargalo ainda é a situação fundiária” QUAL a importância das comunidades quilombolas para o brasil? As comunidades quilombolas representam parte da história do país e de sua construção civilizacional. O processo de escravidão trouxe muito desgosto para pessoas e para a cultura do Brasil, por outro lado, nos legou essa construção social importante. O estado brasileiro precisa efetivar toda uma ação de preservação e garantia de melhoria de vida e cidadania, porque o quilombo não pode ser visto apenas como um espaço de resistência e refúgio de ex-escravos. COMO uma comunidade quilombola é reconhecida? Os membros da comunidade se reúnem e nessa reunião deve ser lavrada a Ata de reconhecimento, que será enviada à Fundação Palmares, acompanhada de documentações que identifique a comunidade e registro fotográfico e, a partir disso, é emitida a certidão de autodefinição.

comunidades foram tituladas em todo o Brasil, somente 0,12% de todo o território nacional. A principal dificuldade é a falta de estrutura de trabalho no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). TODAS as comunidades quilombolas são muito pobres? Existem 1.711 comunidades reconhecidas no Brasil, reunindo uma média de 130 mil famílias. Infelizmente, o que é uma vergonha, a maioria das comunidades, pelo menos 96% delas, vive em situação de vulnerabilidades social, faltando os principais serviços básicos.

O PROCESSO é demorado? Não. Dura em torno de 20 a 45 dias.

COMO se define as políticas públicas de valorização e estruturação das comunidades negras? A partir do reconhecimento da comunidade pela Fundação Palmares é que se definem essas políticas. Os municípios e estados que tenham comunidades quilombolas reconhecidas recebem 50% a mais de recursos em alguns de seus serviços básicos, como merenda escolar e programas de saúde.

QUAL a maior dificuldade nesse processo? O grande gargalo ainda é a situação fundiária. Apenas 188

OS NEGROS têm preconceito com brancos?  O ser humano é, por si só, preconceituoso.

A doutora do quilombo

conseguir um financiamento estudantil. Felizmente, eu consegui”, disse Eliane que hoje, no quarto período, é estagiária do Conselho Regional de Engenharia (CREA).

O nível de escolaridade na comunidade quilombola está entre os piores do país. Conforme a Fundação Palmares, a maioria não passa do ensino fundamental, geralmente abandonando entre o 1º e o 4º ano. Mas no Arrojado, a jovem Eliane Ricarte Leandro, de 23 anos, é uma grande exceção. Ela será a primeira pessoa da comunidade a se formar numa faculdade e no curso de Direito. Eliane começou a estudar aos 7 anos a quatro quilômetros de sua casa, indo para a aula a pé todos os dias até os 12 anos. Com 18, terminou o ensino fundamental, mas ficou grávida e teve de parar os estudos por um ano. Quando voltou a frequentar a escola já morava no sítio Genipapeiro. Mas todo dia pegava um ônibus deixando a criança com sua mãe, Gecileide Ricarte, filha de Joana de Agenor. No último ano do ensino médio, disse à mãe que queria cursar Direito numa universidade particular. Passou no primeiro vestibular que prestou e veio morar em Mossoró. “Minha mãe pegou as economias e adiantou três mensalidades da faculdade e ficamos torcendo para

O educador e a advogada Eliane é noiva de Erismar Calixto, educador físico contratado do Estado e professor de capoeira. Embora sejam primos distantes, o namoro dos dois começou com um telefonema errado em 2009 e tem previsão de se estender até quando ela concluir o curso superior. Atual protetor da história e cultura da comunidade, Erismar sonha, junto com a futura esposa, prestar assistência às famílias carentes, na tentativa de amenizar suas dificuldades. Ele espera servir de exemplo para as dezenas de primos e primas que ainda estão na serra.

Eliane e Erismar: protetores do quilombo do Arrojado

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contexto

indica

Filme

Gladis Vivane*

Twitter: @gladisvivane

Livro

Comprei recentemente e estou lendo "Alceu Penna e as garotas do Brasil", do Gonçalo Júnior, editora Amarilys. É uma biografia ricamente ilustrada do desenhista Alceu Penna, que fez sucesso com a coluna “As garotas” nas páginas da revista “O Cruzeiro”. O livro conta toda a trajetória do artista mineiro e traz desenhos maravilhosos – alguns inéditos. Você também descobre muitas curiosidades interessantes, como por exemplo, saber que foi Alceu Penna quem vestiu Marta Rocha para o concurso de Miss Universo em 1954 (aquele das polegadas a mais no quadril). Além disso, é muito rico em informações sobre publicidade, moda, jornalismo, design e comportamento dos anos 30 aos 70 no Brasil. Para quem tem interesse por assuntos relacionados à imprensa, propaganda e moda, é um prato cheio!

Estou um pouco ausente das salas de cinema ultimamente. Quem faz a programação certamente tem checado meus horários e colocado os filmes que me interessam nos horários mais inapropriados, tipo 14h hahaha. Um dos últimos que vi e gostei foi a comédia italiana 'Mine Vaganti' ('O primeiro que disse' em português), de 2010, direção de Ferzan Ozpetek. O filme conta a história de Tommaso, um rapaz descendente de uma rica e tradicional família do sul da Itália. Ele resolve revelar que é gay durante um jantar de família, mas é surpreendido pelo irmão mais velho, que sai do armário antes dele. Além de ser uma história divertida, tem a assessoria de Giorgio Armani nos figurinos. Visualmente é um filme bem charmoso, e tem aquele humor italiano que eu adoro.

Televisão

Adoro séries de TV, e atualmente estou gostando muito de Mad Men. É uma série da HBO, do mesmo roteirista de 'Família Soprano', e já ganhou vários Globos de Ouro. Mad Men mostra o mundo da publicidade na década de 60. A história gira em torno da Sterling Cooper, uma grande agência de publicidade da Madison Avenue, em Nova York. A fotografia é incrível e o figurino é o melhor que já vi em séries de TV. Só pelo charme do protagonista – o todo poderoso da publicidade, Don Draper – já valeria a pena ver. Mas o enredo é uma delícia e mostra os primeiros passos da propaganda nos EUA, e como ela vendeu o american dream. Muito bom pra quem curte um humor pouco óbvio e coisas com estética retrô.

Passeio cultural

Vou indicar um lugar aqui da minha cidade que eu amo: o Café Salão de Nalva Melo, lá na Ribeira. Sempre que viajo tento encontrar algum lugar parecido, mas nunca vi nada similar em outra cidade ou país onde estive. O Café Salão é um misto de salão de beleza, café, bar, mostra de arte, cinema e espaço musical. Graças ao (bom) gosto da dona, a decoração é uma coisa linda, que faz a gente viajar. É também um símbolo de valorização da Ribeira e de uma parte da cidade que pouca gente luta para manter. É onde me sinto realmente em Natal. E é o único lugar onde você pode cortar o cabelo tomando uma cerveja bem gelada e escutando uma boa música. Não é incrível? (eis o site do salao http://www.cafesalao.com/)

PLAY-LIST DA GLADIS Tristeza e pé no chão (Clara

Nunes) – composição de Armando Fernandes, para o LP 'Clara Nunes' de 1973. A interpretação de clara nessa música é muito forte, e me emociona demais. É impressionante como ela dominava o palco, tinha uma postura muito firme, uma energia forte, mas era ao mesmo tempo muito delicada e feminina. Eu fico hipnotizada vendo os vídeos de Clara Nunes, e acho essa música a mais magistral de todas.

*Gladis Vivane é Jornalista, editora da revista Salto Agulha de Natal/RN

• A deusa dos orixás (Clara Nunes) • You know i'm no good (Amy Winehouse) • Let's Get it on (Marvin Gaye) • Mi Confesion (Gotan Project) • C'era uma volta (Nina Zilli) • Preciso me encontrar (Cartola) • Santa Morena (Jacob do Bandolim) • O fio da comunicação (Andréia Dias) • Outro dia (Dusouto)

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tec no lo gia 66 contexto setembro de 2011


Pesquisa no Google! Especialist as chamam atenção pa exagerada ra a depend dos serviço ência s da internet substituir fu , ao ponto de nções impo rtantes do c otidiano

T

estamos sendo obrigados a depender dela para basicamente quase tudo: ir à agência bancária? É apenas uma opção se você não optar pela comodidade de fazer a transição em casa, apenas com um clique no computador. Isso vai mais além. A gama de serviços ofertados por empresas completamente focadas na internet é crescente. Em Mossoró, por exemplo, dois amigos resolveram se associar e fundar uma loja de vendas de livros apenas pela internet. E daí surgiu a Sr. Leitura! “Tínhamos apenas o intuito de ven-

ransposição da vida para a virtualidade. O mundo contemporâneo tem vivido uma veloz modificação da realidade ocasionada pelas tecnologias, sobretudo impulsionada pela internet. Até recentemente, conseguíamos estabelecer um limite, ainda que tênue, entre os estar “on line” e o estar “of line”. No entanto, essa fina barreira parece ter se quebrado à medida que cada vez mais estamos completamente inseridos num processo de virtualização da vida. Ou seja, há uma relação estreita do nosso cotidiano com o que pode ser chamado de necessidade inerente de internet. Isso porque contexto setembro de 2011

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der uns livros nossos do acervo pessoal, e por isso criamos apenas um blog, mas a ideia deu tão certo que estamos com um site e já estamos com cadastro nas editoras para podermos revender títulos. O diferencial é que tanto temos obras em sebo como livros novos e ainda entregamos em casa”, explica Romário Martins. Se há quem venda apenas pela internet, logo há também quem só leia conectado. Essa modalidade de ciberleitores é crescente e tem atraído a atenção das editoras que já começam a amadurecer aplicativos para livros digitais. No Brasil o mercado ainda é pequeno, tanto que uma pesquisa realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) aponta que o número de livros lançados ou vendidos em formato digital, em 2010, foi tão pequeno que sequer pode ser comparado às vendas de livros tradicionais. Estudar! Alguém consegue imaginar a possibilidade de estudos sem a mediação do professor? Pois a função de orientação do docente vem sendo muito comum aos estudantes que buscam cursos rápidos, e com a possibilidade de estabelecer o seu cronograma. Foi pelo que optou a assistente social Samara Freitas quando se cadastrou numa rede social (livemocha. com) cujo intuito é o ensino-aprendizagem de idiomas. São dezenas de opções de línguas com a oportunidade de interagir com nativos e ainda ensinar a língua materna a outros. Embora haja a comodidade, os educadores criticam o excesso dessa modalidade de ensino porque “a função do professor não pode ser subestimada muito menos substituída pelo conhecimento repassado por terceiros de forma despreparada”, alerta a educadora Dulcinéia Magalhães. Nos últimos anos, a psicologia vem realizando estudos focados nas consequências do excesso de dependência da virtualidade. Um estudo realizado pela universidade americana de Oxford atribui às redes sociais parte desse fenômeno e diz mais: elas têm ocasionado uma crise de identidade na medida em que há um exibicionismo viciante, alterado, inclusive, uma nova viação neural no cérebro. A lógica é simples: a necessidade de acompanhar o perfil na rede social tem excluído o homem das relações reais. E essas relações exigem cuidados porque a internet tem oferecido todos os tipos de serviços, alguns, não tão seguros. Na área da saúde, por exemplo, o Conselho Regional de Medicina alerta para a prática de busca de informações sobre saúde na internet. “Com a busca de conteúdo facilitada pela internet, muitos apostam na comodidade e jogam um assunto. Logo se autoconsultam e, o que é ainda mais grave, também se automedicam”, pondera Marcos Lohan, que defende uma tese de mestrado em enfermagem sobre saúde pública. O sintoma da dependência pode até passar despercebido, mas observe quantas vezes por dia você faz uma busca no Google. A doentia fixação pela rede foi

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diagnosticada com o nome “distúrbio de adição à internet”, que diz respeito à falta de limite com que uma pessoa está conectada, tendo, inclusive, dificuldade em se sentir fora da rede. Somente nos Estados Unidos, estima-se que entre 6% a 10% dos aproximadamente 189 milhões de americanos usuários de computador padecem do mal. E esse percentual pode levantar um alerta entre nós, uma vez que o acesso à rede está cada vez mais ramificado. O instituto de pesquisa Ibope Nielsen Online já diagnosticou que o internauta brasileiro está passando mais tempo diante do computador. Em março, o volume de horas médias por usuário passou das 66 horas, um aumento de 6,6% sobre fevereiro. Isso já significa uma média de duas horas e vinte minutos, em média, todos os dias conectados. Esse percentual praticamente triplica no caso dos que trabalham diretamente conectados. Daí, a síndrome alerta para outro sintoma: o da verificação. Quando o usuário tem o vício de em curtos intervalos de tempo verificar se chegou mensagem nova ou foi atualizado algo na sua rede social. Isso vale também para a caixa de e-mail. O problema parece estar longe da solução e depende muito mais do controle individual. Se verificados os números do Ibope, houve um crescimento anual de 14% no número de usuários de internet no trabalho e nos domicílios. De acordo com o levantamento, o total de usuários ativos em casa e no trabalho chegou a 43,2 milhões até o mês de março deste ano. POR: higo lima

ilustração: augusto paiva

6% a 10% dos americanos usuários de computador padecem do uso excessivo da internet

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o total de usuários ativos em casa e no trabalho chegou a 43,2 milhões até o mês de março deste ano


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MARCOS GARCIA


SérgioChaves sergiodefato@gmail.com

Mais uma

E chegamos com a segunda edição da revista Contexto, contando com uma equipe sempre competente. Excelente o material de José de Paiva Rebouças sobre as comunidades quilombolas existentes no Estado, colunas, assuntos dos mais diversos e a certeza de uma leitura rica. Isso é Contexto. Boa leitura e até a próxima!

Novas Liberdades A Prefeitura Municipal de Mossoró, através da Secretaria da Cidadania, anunciou as atrações do 11º. Seminário Novas Liberdades, que acontece de 20 a 24 de setembro na UnP/Campus Mossoró. O Seminário, que terá como tema “Liberdade: uma conquista, um direito”, contará na sua abertura com a palestra “Redes Sociais e Liberdade de Expressão”. Na quarta (21), o cientista social Anivaldo Padilha fala

sobre “Liberdade Religiosa”. Na quinta (22), o exdeputado e jornalista Fernando Gabeira fala sobre “Cidades Sustentáveis”. Na sexta (23), Gustavo Bernardes, da Coordenadoria Nacional dos Direitos LGBTs fala sobre “Direitos Homoafetivos são Direitos Humanos”. No sábado (24), os participantes assistem à apresentação do Auto da Liberdade, no Teatro Dixhuit Rosado.

O enlace de Talliana & Luiz Gustavo

Talliana e Luiz Gustavo, casantes de setembro

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Os casais Milton Marques de Medeiros/Zilene Conceição Cabral Freire de Medeiros e Luiz Manoel Bernardino de Sena/Nilza Elena Robottom Sena convidam para a cerimônia de casamento de seus filhos Talliana e Luiz Gustavo, no próximo dia 10 de setembro, às 20h25, na Catedral de Santa Luzia. Após, os noivos recebem no Requinte Buffet com delícias e serviço assinado por Socorro Paiva, produção da Master Eventos e animação de Paulo José e sua big band e da banda Bakulejo. Talliana veste modelo exclusivo da Maison Fátima Carlos.


Entrevista

Miss Universo 2011 Pela primeira vez o Brasil sedia o mais importante concurso de beleza do mundo, o Miss Universo. O evento, que neste ano comemora 60 anos de história, acontece no próximo dia 12 de setembro no Credicard Hall em São Paulo com representantes de 89 países. As candidatas já se encontram no Brasil para uma série de eventos e o concurso será transmitido ao vivo pela Band.

SOBE A Ficro 2011. A Feira Industrial e Comercial de Mossoró e Região Oeste superou todas as expectativas, com negócios da ordem de R$ 25 milhões e número recorde de participantes.

DESCE A segurança em Mossoró. Assaltos, constrangimentos e violência contra as vítimas estão acontecendo com mais frequência. O número de assassinatos assusta. E o policiamento como anda? Lembrem-se senhores: segurança é direito do cidadão e dever do Estado.

Rápidas A Festa da Liberdade, que acontece entre 29.09 e 1º.10, já está com sua programação fechada. Vanessa da Mata é a atração da Praça de Eventos na quinta (29), enquanto Aviões do Forró se apresenta na Estação. Na sexta (30), Nando Reis e Reynaldo Bessa fazem show na Praça, enquanto Calcinha Preta se apresenta na Estação. Brasas do Forró encerra o evento no sábado (30), na Estação. Para alguns, Nando Reis será a grande atração da Festa. O seu novo show foi destaque no Festival de Inverno de Garanhuns/PE, em julho último. Promete. O Auto da Liberdade, com direção do grande João Marcelino, continuará com apresentações no Teatro Dix-huit Rosado. No dia 30, o Cortejo da Liberdade toma conta das ruas da cidade. Temos que concordar que o trânsito de Mossoró está cada vez pior. Bem que a Gerência de Trânsito poderia promover uma campanha com a população visando alertar os motoristas para situações que poderiam favorecer um melhor fluxo no trânsito local. Fica a dica! Com um ágio de 228%, o Consórcio Inframérica venceu o leilão da concessão do Aeroporto de São Gonçalo do Amarante, realizado na BOVESPA, em São Paulo, no último dia 22. É o primeiro aeroporto do país a passar por este processo. Os próximos serão os de Brasília, São Paulo (Guarulhos) e Rio (Galeão). Promessa de estar pronto para a Copa de 2014. A corrupção é um mal que assola o país e que precisa ser extirpado o mais breve possível. O sistema de loteamento político existente no Brasil e que guia as escolhas para cargoschave da administração pública é a principal causa do mal. Honestidade e ética são valores que deveriam permear a vida de todo político. Sonhar não custa nada.

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SérgioChaves

Cobertura de Eventos

O Coquetel da Carmem Steffens – 04/ago/2011 – 04/ago/2011

Jean Carlo e Sânzia Fernandes

Fátima Santos, Ione Câmara, Maria José Frota e Ana Lopes

Doris Vânia e Gabriela

Aline Ferreira e a equipe CS

Georgiano Azevedo

A Festa do coiffeur Jaílson Fernandes– 10/ago/2011

Joelma, Jaílson e Juliana Fernandes

Marcília e Jair Pereira

Angélica e Isadora Fonsêca

Luciére Pinheiro, Vaninha Vale e Lúcia Porcino

Jaílson Fernandes recebendo Melina e Fátima Carlos

Os 8.5 de Francisco Ferreira Souto Filho – 06/ago/2011

Edith e Soutinho

Zilene e Milton Marques

D. Manolita e Daniela Maia

Edith recebendo Singride e Edmur Filho

Fátima, Tâmisa e Togo Ferrário

O Baile da Reverência – 20/ago/2011 – Kiko’s Eventos

Felipe Caetano, o idealizador do baile

Guia e Edgardo Benavides

D. Odete e a prefeita Fafá Rosado com a aniversariante

Célia e Zélia Macedo

Ione e Nílson Brasil

Silvana e Segundo Paula

O Chá Colonial de d. Ivone Lopes – 22/ago/2011 – Requinte Buffet

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Marise, Fátima, Conceição e Maria do Carmo Maia Pinto

Mary Simone e Lúcia Rosado

Wellington e Conceição Fernandes

Delvaí, Delvaneide, Dulce e Delvaní Valdes de Murilo


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leveza de ser

Vintage

A arquiteta Manu Albuquerque incorpora uma pin-up moderna

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Para entender é preciso entrar no mundo de pessoas que vivem o hoje, mas que passam horas em busca de coisas de outras épocas

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IZAÍRA THALITA @Izairathalita

estética anos 40 do Café Salão de Nalva Melo em Natal, a geladeira General Motors amarela e reformada do publicitário Odilan Araújo, a forma pin-up de arrumar os cabelos da arquiteta Manu Albuquerque, o vestido “bonequinha de luxo” da educadora Ana Saker, as calças de alfaiataria do tempo dos vovôs do fotógrafo e publicitário Mathews Aires. O que acabamos de citar, para muitos, não passa de lugares, coisas, pessoas que se expressam através de seus gostos e da moda. No entanto, há mais: O comum entre eles é o incomum dos tempos modernos – que hoje observa mais o futuro do que o passado e o presente. Nisso, todos eles podem se considerar diferentes, pois eles defendem um estilo que remete à predileção por um tempo que já passou, mas que deixou um rastro de beleza. – Eu sou vintage! Afirma sorridente a educadora Ana Rita Saker, quando se depara com o tema desta reportagem que tem a difícil tarefa de explicar modos e formas de viver de pessoas como ela, de estilo Vintage.

O melhor dos melhores A expressão Vintage surgiu nas vinícolas inglesas e era usada para identificar a melhor produção de vinho de uma determinada safra, ressaltando, sobretudo, a sua idade. A palavra “Vintage” – de Vint Age – era usada também para identificar e referenciar o Vinho do Porto de melhor qualidade. No entanto, saiu do meio restrito dos enólogos para designar também o que há de melhor na moda, na decoração e mobiliário, na produção musical e cultural de outras décadas que com o passar dos anos permaneceram como “clássicos” ou adquiriram um reconhecimento e que hoje são recolocadas no mercado de consumo atraindo um público bem informado e seletivo. Ter um estilo Vintage é gostar de reunir objetos e acessórios que remetam a outras décadas, porém, com um leve toque de modernidade. O que nos remete à ideia de ser um produto “antigo” são as linhas, cores, formatos, a origem e estampas de produtos como roupas, acessórios de moda ou mobiliário, mas que são usadas nos dias de hoje de maneira atualizada com as novas informações dessas áreas.

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Foto: Divulgação

Caçadora de relíquias O piso brilhoso em vermelho e branco que remete aos anos 40 no prédio do Café Salão da cabeleireira Nalva Melo no bairro da Ribeira em Natal estava por baixo de um piso mais moderno. Quando Nalva descobriu sua existência, não mediu esforços para recuperar o piso original que depois mostrou-se de uma beleza rara em termos de arte decor. Mas o piso não é, nem de longe, a única referência que se encontra de um tempo que já passou. As cadeiras, mesas, o balcão e os objetos decorativos dispostos pelo prédio estão por toda a parte e todos têm uma história de “amor à primeira vista” que só pode ser explicada por ela. Ou ao menos pelos que sabem o prazer de encontrar aquele objeto perfeito para compor e dar mais brilho à sua vida. Com detalhe: os objetos de Nalva são obtidos em feiras populares, brechós, em lojas de usados ou foram doadas do acervo pessoal de alguém que sabia da predileção de Nalva por coisas “aparentemente velhas”. “Pra muita gente,

Uma pin-up moderna Os cabelos em tom de ruivo já denotam a ousadia e feminilidade da arquiteta natalense Manu Albuquerque. Ela foi uma das muitas pessoas indicadas pela cabeleireira Nalva Melo como sendo de um estilo vintage nos nossos dias e por se inspirar nas pinups americanas (1) para compor o seu visual. E não é só isso. A arquiteta também gosta de comprar objetos para decorar sua casa e espaços para seus clientes. Ela, juntamente com Nilberto Gomes, foi a responsável pela reforma no Café Salão e conta que, além de gostar e

são coisas velhas. Mas para mim, são peças especiais, relíquias”, explica a cabeleireira Nalva Melo. A cabeleireira confessa que a sua vida é Vintage. “Cada móvel e peça tem sua história. Mas tenho no salão uma cadeira que é da maior estima. A cadeira que me deu o diploma de ‘Socióloga urbana’ e é a peça mais antiga do Café Salão, com mais de cem anos. A cadeira de barbeiro que já troquei várias vezes seu estofado onde recebo as clientes. Foi um presente de um casal amigo e quando eu vi, não acreditei”, lembra Nalva.

pesquisar sobre decoração Vintage, buscou inspirarse na história do próprio bairro e nas atividades culturais do lugar para fazer as mudanças necessárias. “O próprio lugar é inspirador e guarda a beleza do passado”. Para celebrar o novo momento do Café Salão, Manu chegou a fazer um ensaio fotográfico que lembrava as divas consideradas ideais de beleza e sensualidade dos anos 40 e 50. “A referência estética das pin-ups me agrada pela feminilidade. O ensaio mostrou o quanto eu gosto do corte de cabelo, da maquiagem e das roupas das décadas de 40, 50 e 60”, completa Manu.

Foto: Cézar Alves

Objeto de desejo

Odilan e sua GM reformada: o charme do AP

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Do outro lado da cidade de Mossoró, o publicitário Odilan Araújo mostra com orgulho um dos seus “achados” que dão um charme especial ao seu pequeno apartamento. Uma geladeira amarela da General Motors com design anos 50 que consumiu menos do que pagaria por uma geladeira nova, mesmo depois de reformá-la por inteiro. Por gostar de designer, passou a comprar alguns objetos com ar mais retrô para decorar o apartamento. Quando decidiu comprar uma geladeira queria algo mais antigo e encontrou o modelo em uma loja de geladeiras usadas. “Fiz a reforma, comprei as peças e dei uma diferença na decoração”, explica Odilan, que sempre compra peças para adaptar a sua decoração pessoal. Mas ressalta que busca o retrô visando uma adequação ao seu estilo moderno. Além da geladeira, ele tem um rádio antigo, porém adaptado com a tecnologia atual. “Gosto do design retrô, mas gosto de ter tecnologia de ponta. Se a pessoa souber equilibrar os dois vai dar um charme especial ao ambiente”, explica.


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Como ‘Audrey Repburn’. Ou seria Jack O? A ingenuidade transposta para as telas dos filmes americanos pelas atrizes Audrey Hapburn, Vivien Leigh, Grace Kelly e a sensualidade das belas Rita Hayworth, Ava Gardner, Gina Lollobrigida e Marilyn Mooroe são ícones dos anos 50. Ao mesmo tempo, o sinônimo de elegância americano era a primeira-dama Jack Kennedy, depois, Onassis. É remetendo a essa década que a educadora Ana Rita Saker busca a inspiração para o seu estilo de vestir. O vestidinho preto, mais curto relembra a atriz Audrey em Bonequinha de Luxo. O cabelo elegantemente preso em coque e o colar que mistura pérolas e flores em metais, aliados aos óculos estilo Jack O. “No estilo vintage, o importante é ousar usando criatividade e elegância, respeitando o que cai bem a cada um, criando um visual único com charme e estilo. Eu consegui identificar o meu estilo fazendo referência ao ar menininha dos anos 50, mas é claro que reinvento e também uso a criatividade”, explica Ana.

Falar de moda vintage é com o fotógrafo Mathews Aires. Estudioso do assunto, ele garante que esse é um dos assuntos que mais gosta e quando se refere ao Vintage defende a palavra estilo porque para ele, diferente de moda que sempre vai e volta apresentando tendências e elementos de outras épocas, um estilo é permanente e revela a capacidade que a pessoa tem de identificar o que lhe cai bem. “Moda passa, mas o estilo fica. O meu estilo é o de misturar anos 50, 60 e 80 de uma forma que me cai bem e que me sinto bem”, explica Mathews. Pessoalmente, Mathews garimpa muitas peças em brechós. “Tem coisas atemporais e há uma profundidade nisso, saber escolher peças que sejam adequadas ao seu estilo exige pesquisa, cultura e informação. Porque por mais que a peça seja antiga seu uso será novo. Cada pessoa que pegar uma mesma peça poderá usá-la de forma diferente”, afirma.

Foto: Cézar Alves

Foto: Cézar Alves

Foto: Divulgação

Ana Rita Saker: inspiração nos anos 50

Calças de vovô e tênis

Sustentável leveza: reaproveitar e reutilizar Ao falar de estilo Vintage é imprescindível falar de um segundo conceito que vem atrelado a este modo de vida, que se fala muito nos dias de hoje, mas que para quem curte objetos de outras épocas é uma agradável consequência: o da sustentabilidade. Personalidade, estilo, sustentabilidade e a empolgação de todos os que falaram de suas descobertas são motivos suficientes para gostar do/de ser Vintage. Certamente fica uma pontinha de vontade de aderir. E você, não?

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Mateus Aires: "Moda passa, estilo fica"


Cozinha Prática Um laboratório chamado cozinha

C

Angelina Tavares*

ozinha é uma verdadeira alquimia. Mas para vocês lucrarem com os resultados desse laboratório é preciso saber algumas técnicas de preparo ou a forma de armazenamento, pois, não feitas corretamente podem colocar em risco os componentes presentes nos ingredientes, já que a maioria deles é sensível a fatores como calor, oxigênio e luz. Para evitar que eles escapem enquanto você frita um bife, va-

le a pena aplicar alguns truques simples que interferem nesses processos químicos e físicos. Comprar acessórios para cozinha não é nada divertido né? Mas para fazer um bife suculento é preciso usar uma frigideira perfeita. O ideal é que seja de inox ou de ferro bem grossa, porque mantém a temperatura alta e quando você joga um filé resfriado nela, a carne perde líquidos e nutrientes. O lado mais importante é preservar a umidade, que resulta em maciez e muito mais sabor. Vamos para pequenos truques no nosso laboratório...

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Dicas d Dica 1que

você s Me sm o o tenham leitores nã anela, vauma boa p plano B. mos para o

ciar uma Para ama o cochão carne (tip de dentro, duro, chã use o suco músculo) o abacaxi da casca d ão papaya, ou do mam , eles têm e pasmem rde. Essas que ser ve egam enzifrutas carr judam na mas que a s cadeias quebra da as do alidas proteín que de s fi mento. Ma lógio: se re olho no mpero por deixar o te minutos, é mais de 30 e seu bife possível qu arne moívire uma c da.

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m ? Coma be r uma dieta a ç e m o c Dica 2manter a forma? Pensanduomeams dicas. is são s funciona alg to e n u e g e m li S Tentando . a , e d fisiiros a com saú ólicos e/ou erika Mede b H ta e ta m is n s e emagreç o io it ic efe nções com a nutr produzem nar suas fu e io u rc q o s p De acordo te ro n p ou ingredie ficos à saúde, além de alimentos ené nal e m efeitos b ate tradicio m to , s ológicos co e rd ve roxas, is básicas. nal: Folhas ilha, uvas io rv c e n , o fu nutriciona lh a e d e uma sala então verm Sugestão d , maçã, brócolis, pim a. reja eite de oliv tomate ce colesrte com az u g io e ir níveis de d n o e v re molh p m colón, s ira dares você ta, mama e is e la ta a s p ró e p s e e õ d a ix de opç cer como trointestin Com esse m e certos tipos de cân nções gas fu s a ra d . o lh da co o qualifica cemia, me terol e o ris alimentaçã trole da gli n a o m c u o r n o p a ajud ptem apetite e o outros. Bom

* Personal Chef, formada pela Universidade Potiguar / E-mail: angelina_cheff@hotmail.com / (84) 8852-5488


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Vitrine contexto

Alex Moacir

Bruno Ricarte

Caby da Costa Lima

Cláudia Regina

Clézia Barreto

DJ Juninho

Dorgival Dantas

Eveline Soares

Francinaldo Rafael

Francisco Queiroz

Helder Cavalcante e Michelson Frota

Ivanaldo Fernandes

Ludimila Amorim e Jiokonda Rocha

José Carlos

Joseildo Rodrigues

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Ficro 2011

Josivan Menezes

Karine Severo

Lívio Barreto

Mairton França

Marcio Mota, Roberta Lana e Vitória Roberta

Mariana Cardoso

Marta Patrícia

Priscillianna Godim

Roberta Falcão

Rosalba Ciarlini

Sanny Silveira

Shirley Targino

Silveira Júnior

Toinho Pitéu e Rútilo Coelho

Weber Siqueira Xaves

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Saúde em Ação E aí, devo alongar ou não? Costa Júnior*

VOCÊ SABIA

?

Teste a interação de pequenas partes do corpo com a mobilidade do todo: de pé, incline o tronco para frente com os joelhos eretos e tente tocar os pés com a ponta dos dedos das mãos, perceba a distância que alcançou, em seguida volte para a posição de pé e role com vigor uma bola de tênis do calcanhar até próximo aos dedos durante 1 minuto, em seguida teste novamente e compare a distância alcançada com a anterior. Pessoas com muita escoliose podem não sentir grande diferença, mas na maioria dos casos há um aumento considerável na amplitude de movimento. Esta pode ser uma estratégia de treino.

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Bem, acredito que a primeira pergunta é: qual o SEU objetivo em alongar? Segundo algumas pesquisas o alongamento intenso e de longa duração (mais de 30 segundos) interfere na produção de força, o que prejudica o treinamento, além de não prevenir lesão para o treino do dia. Faço uso de uma frase de Gray Cook (renomado fisioterapeuta): “Avaliar flexibilidade como fator de risco de lesões é inconclusivo, porque flexibilidade não é orientada para o movimento, e tem a intenção de discutir o remédio (alongar o músculo tenso) sem discutir o problema (porque o músculo está tenso em primeiro lugar?). Precisamos levar em consideração outros fatores: movimento, sistema nervoso, fáscia, etc...”. Acrescento que: flexibilidade é uma valência treinada no alongamento que se desenvolve a longo prazo (por dias ou meses) e, diferente do alongamento, pode sim ser fator de prevenção de lesão, sendo inconclusiva pelo simples fato de existir outros motivos que devem ser avaliados também. No esporte de alto rendimento, assim como em muitas tarefas diárias, a capacidade de se mover com a máxima amplitude e eficiência representa em muitas situações menor risco de lesão e maior desempenho. O que se deve investigar é o que está levando a pouca mobilidade: se é um músculo tenso, uma contração muscular excessiva, falta de aprendizagem motora ou tudo isso junto e a partir daí traçar estratégias de correção se houver correção. O que vale lembra é que “alongar” em algum momento da vida ativa pode ser a peça mais importante de seu treino, porém não pode ser a única estratégia para aumentar amplitude de movimento e prevenir lesões.

Tome nota:

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Para não interferir em seu treino, monte com o educador físico ou fisioterapeuta uma estratégia para treinar flexibilidade em outro momento do dia; Existem métodos para avaliar a mobilidade que podem indicar estratégias mais eficientes para melhorar a qualidade do movimento e a prevenção de lesão, um dos mais eficientes é o método FMS desenvolvido pelo já citado Gray Cook, procure em sua cidade um profissional habilitado e faça uma avaliação; Valorize o treino da técnica do movimento, seja qual for a modalidade que pratique, este irá te ajudar a desenvolver uma coordenação motora mais eficiente e assim potencializar os resultados com mais segurança.

* Educador Físico (CREF: 1014g/RN) e Coordenador Técnico da Academia Biofit / Twitter: @costa_fit


entãotá... Neisa Fernandes

neisaflima@yahoo.com.br

Sol de primavera...

O mês mais florido do ano chegou e podemos aproveitar para refletir um pouco sobre o que já fizemos durante o ano, refletir de verdade. Setembro nos traz uma sensação boa, vontade de gritar para o mundo que chegamos até aqui, que tudo está bem e que pode melhorar ainda mais. Sabe aquele mês de se dar uma segunda chance? Se­ tembro é um mês onde pode florescer uma vontade imen­ sa de aceitar as pessoas, mesmo aquelas que você critica, acha baixo astral e por que não tentar se reaproximar de

quem te magoou ou que você tenha magoado? Ah, qual é... Setembro é isso, meu povo. Sabe a parte da música que diz “Quero ver brotar o perdão onde a gente plantou...” Então é isso! Não se arrepender, pois o ano já está pertinho de acabar e o que importa é que o mês “marlindo” de todos os meses do universo está aí para a gente ser (mais) feliz e permitir tudo que vier de bom, não fugir de absolutamente nada e recomeçar. Outra música, outra verdade, muitas flores. Então tá!

Foto: Cedida

Foto: Arquivo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

Liliana Almeida, musa do meu amigão Otávio Ferreira Júnior, feliz e de idade nova! ‘Twittencontro’ Apodi e seus organizadores: Anna Oliveira, Júnior Soares, Ramonyer Morais e Rokátia

Os ‘lovelindos’, Erasmo Carlos (Tio Colorau) e Christianne Alves sempre juntinhos

Foto: Alex Costa

PRONTO,

Marcelo Gomes e Tereza Laíse oficializaram a união em Natal e aproveitaram para batizar seu príncipe, Benjamim

FALEI!

Foi um sucesso o 1º Twitter Encontro na cidade de Apodi. Galera compareceu em peso. Parabéns à turma que organizou. Parabéns aos mais novos grávidos do pedaço: Jonas Curió e sua bela Roberta e Jerônimo Leonardo Rosado e minha amiga Glenda. Muitas felicidades aos amigos. Mossoró, conhecida como “Capital

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Foto: Arquivo pessoal

As Bárbaras, Pinto e Montenegro. Carne e unha

da Cultura”, confirmou mais uma vez porque recebeu esse título. A 7ª Feira do Livro”, ocorrida em agosto, foi bastante movimentada. Os expositores comemoraram. Uma das festas mais organizadas que rolou durante a Festa de Santana, foi a Noite Branca, na Pousada Céu Azul. Os amigos Fred Costa, Rafaela Clemente, Wilson Bezerra e Deise Costa reuniram uma turma linda. Fica a dica aos organizadores do tradicional “Baile dos Coroas”, que anda deixando a desejar em termos de

Todos de branco porque era Noite Branca em Caicó: Caline Fonseca, Liana Araújo, Hyago Mateus, Ruanna Sales Foto: Cezar Alves

Durante a Ficro, encontro de grandes: João Marcelino, Sebastião Couto, Luciano Neto e Bernadino Mendes

organização e atrações. Está agendada para dezembro a exposição de caricatura do meu amigo Túlio Ratto, a Caricatto. Ainda não está definido o local, mas o “ratton” prometeu avisar em seu twitter e pelo blog da sua Ana Paula (anacadengue. com.br) O “Agosto da Alegria” foi uma grande iniciativa do Governo do Estado, atrações como Jorge Aragão, Antônio da Nóbrega e Paulinho da Viola levaram o público à loucura. Muito bom.


RIR PARA NÃO CHORAR “A história mico da minha vida aconteceu dentro de um ônibus da Jardinense,numaviagemCaicó-Natal,em um Domingo do ano de 98. Estávamos voltando para Natal, eu e meu primo nesse ônibus. Ele sentado na janela, eu no corredor. Viagem longa e cansativa, já eram umas 10hs da noite e o ônibus entrando em Natal. Eu cochilando, com meu cotovelo encostado no braço da cadeira, doida pra chegar em casa. Quando vai se aproximando a parada de Neópolis (eu só ia descer no Machadão), e uma mãe, que ia descer lá, se levanta da poltrona dela com uma menina de uns 5 anos de idade nos braços que não paraaava de chorar, e vai buscar a bagagem dela que estava exatamente em cima da minha poltrona. E a mãe lá em pé, a criança se esgoelando, eu sonolenta encostada no braço da cadeira... E eis que: a menina vomita em cima da minha cabeça. Mas vomita muuuito. Nesse momento, meu primo começa um rinchadeiro besta, chamando ainda mais a atenção de TODO o ônibus, que se

DIGA AÍ

vira pra observar a cena. Eu estava de camiseta folgada, e como eu estava sentada, formou umas dobras... Eu em estado de choque só vendo pedaço de feijão, macarrão... Tudo preenchendo as dobras da minha camiseta. Daí a mãe (mooorta de vergonha) pega um pano sujo de vômito (sim, a menininha já tinha vomitado na viagem) e passa na minha cabeça. Não me pede desculpas. Quando ela pega a bagagem, eis que a menininha... Blllaarrgh... DE NOVO na minha cabeça. Logo em seguida a cena era: a mãe descendo do ônibus, meu primo a rinchar, alguns passageiros solidários, outros enjoando, outros rinchando também... e eu? “Passada”: rindo pra não chorar! Constrangimento foi quando desci do ônibus, que nenhum táxi queria me levar pra casa. Só um, que com muita cautela, me posicionou dentro do carro estrategicamente, evitando que eu melasse tudo. E as desculpas da mãe? não tive... Será que ela vai ler esse artigo?” (Themis Nóbrega, Arquiteta) (Themis Nóbrega, Arquiteta)

Queríamos saber o que as Redes Sociais trouxeram de positivo e de negativo para o mundo e eles nos deram suas opiniões.

“As redes sociais para quem precisa de propaganda rápida é uma ótima saída, é informação por segundo, existindo uma interação maior, entre as pessoas estejam onde estiverem e é ‘on line’, (risos) na hora!! O que traz de ruim a meu ver é a questão do mau uso, como a utilização de vírus, e a dependência que causa em algumas pessoas, que chegam a ficar viciadas na ‘Time Line’ e esquecem do mundo real! Meu conselho é: usar com moderação!

(RAMONA LUZ) Empresária

DEU NO TWITTER!

1 @lu_ubarana

“Acordei, mas minha coragem continua dormindo.” (Luciana Ubarana)

2 @lilinha_

“Neste fim de semana aprendi mais sobre o amor ao próximo... Não me ama?? PRÓÓÓXIMOOOOOO!!” (Liana Araújo)

3 @MayaraMixtura

“Contagem regressiva para a Copa 2014: Faltam 3 anos, 12 estádios e 1 seleção!!!” (Mayara Amorim)

4 @maxrevoredo

“Movimento dos bugueiros e taxistas agora na roberto freire acho q tao pedindo a volta do sol” (Max Revoredo)

5 @tati_bernardi

“Um milhão vezes zero é zero. Ou seja: não coloque sua intensidade onde não tem nada.” (Tati Bernardi)

6 @DimitriaLira

“a maioria das pessoas que conheço vive muito desatenta de estar vivendo.” (Dimitria Lira)

7 @larigabi

“Tão proibindo até naftalina dizendo q faz mal à saúde. Se forem proibir tudo q faz mal à saúde, que proíbam o amor não correspondido, pq né.” (Larissa Gabrielle)

8 @andremiranda79

“Por mim, a despedida deveria fazer as pazes com a felicidade.” (André Miranda)

“Inegavelmente as redes sociais aproximaram as pessoas, hoje é possível interagir com amigos que moram longe ou que não vemos há muito tempo. As redes sociais são ferramentas de comunicação bastante versáteis. E é largo o espectro de possibilidades positivas que as redes sociais trouxeram: compartilhamento de informações, conhecimentos, interesses e esforços em busca de objetivos comuns. E elas tanto aproximam as pessoas como são úteis no processo de construção da imagem de uma marca ou empresa, em complemento as ações tradicionais, e as ajudam a se conectar com seus públicos e novos públicos. São importantes nas redes sociais o relacionamento, a interatividade e o engajamento. Como a internet não tem controle, é um ambiente anárquico, o lado negativo das redes sociais é a superexposição a que as pessoas se submetem e o consequente mau uso delas por gente com más intenções. E aí há todo tipo de maldade: uso indevido de informações e fotografias, postagens mentirosas, spams, pornografia, pedofilia, ataques a pessoas e instituições etc.”

(Jener Tinoco) Publicitário contexto setembro de 2011

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styleup

Bruno

brunospinheiro@hotmail.com

Verão com

cores Já há algum tempo ouvimos falar em color blocking, mas nada se compara à invasão que a tendência dos blocos de cores teve nos últimos desfiles de moda no Brasil todo. E não foram só as passarelas que mostraram incansavelmente a mistura de cores, os previews de marcas de calçados e acessórios para o verão 2011-2012  também estão cheios de peças para misturar e transformar o look em color blocking total.

Nas fotos, destacamos alguns looks em color blocking Verão 2012, verão com muitas cores, sedas, crochê, listras, saias longas, uma estação ousada, leve e chique, em contraste uma paisagem seca, nude, opaca, dando um sentido de liberdade. A tendência consiste em misturar cores contrastantes e para isso é necessário que você tenha uma boa ideia de como fazê-lo antes de se produzir, pode até simplesmente copiar os looks mais bacanas de revistas, celebridades ou desfiles de moda, isso ajuda bastante a não errar. Ouse, brinque com as cores quentes, mas com cautela. Ficam as dicas da Style Up!!

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Gaby vem com look total Farm para Officiale e sandália Arezzo


Thaís Araújo usa vestido Toli color blocking total e calça sandália Arezzo

Gabriela Lira veste blusa seda Basthianna, colete cores crochê Lix, cinto Afghan para V.hall, short jeans Jolie by loja Closet e sandália Arezzo!

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Bruno

Thaís veste calça cor Animale, blusa Ateen e sandália Arezzo

Gaby usa vestido Lix, calça cor Toli e sandália Arezzo

Ficha técnica

Thaís veste saia e blusa Farm para Officiale, bolsa e sandália Arezzo e cinto estampa mini by loja Closet

Edição de moda: Bruno Sá. – Styling: Luis Henrique Azevedo. – Beleza hair e make Up: Mario Souza. Modelos: Gabriela Lira e Thaís Araújo (Tráfego Models) – Fotos: César Alves. Agradecimentos: Officiale, Arezzo, Prisma, Toli, V.Hall e Closet.

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seu Lun ga

Ele só não gosta de pergunta idiota

A

No meio do amontoado de ferro-velho, Seu Lunga divide o dia entre a tentativa de ver o tempo passar e suportar o assédio dos que insistem em lhe perguntar besteira; conheça mais sobre o homem cuja tolerância é zero

lguma vez você já foi corrigido porque cumprimentou alguém com um simples “Ola!”? Caso sua resposta seja um não, aconselhamos que leia essa reportagem até o final para descobrir que durante toda sua vida você cometeu um dos maiores erros de relacionamento. Isso porque o personagem que nos ensina a forma correta de cumprimentar o próximo é também o interlocutor de vários outros “causos” que se espalharam pelo Brasil devido à sua fama de intolerante às perguntas bestas. Certamente já deu pra deduzir que estamos nos referindo ao “Seu Lunga”, ou simplesmente o “homem mais bruto do mundo”, como ele popularmente ficou conhecido. Que a reputação de Padre Cícero reina em Juazeiro do Norte, cidade cearense localizada a 520 quilômetros da capital Fortaleza, disso ninguém tem dúvidas. No entanto,

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Seu Lunga entre as quinquilharias do seu ferro-velho, em Juazeiro do Norte (CE)

exatamente na Rua Santa Luzia, uma das principais vias do comércio daquela cidade, a principal atração dos turistas passa longe da devoção ao “Padim Ciço”. Eles querem mesmo é encontrar o ponto comercial famoso na cidade por vender ferro velho, roupas usadas e todo tipo de quinquilharia que couber na sucata do comerciante Joaquim Santos Rodrigues, 83. Na grande maioria das vezes, o principal interesse não é fazer uma compra, mas atestar a real brutalidade de Seu Lunga e ainda aproveitar a oportunidade para, propositalmente, fazer uma pergunta idiota. “Ora, eu tô aqui na minha sucata e o cabra chega e me pergunta: Seu Lunga, essa antena [de televisão] é pra vender? Veja se tem cabimento uma coisa dessas! Se essas coisas fossem pra eu dar, aqui num era um comércio”, disse ele no primeiro exemplo para nos provar que o título de “homem bruto” é um equívoco. Na verdade, justifica Seu Lunga, as pessoas é que insistem em fazer perguntas idiotas: “dizem que eu sou bruto, mas eu sou é esclarecido: sei escrever, sei as quatro operações de conta, converso com juiz, prefeito e ainda discurso em velório e aniversário”, aponta ele, como se essas fossem grandes competências capazes de explicar sua pouca paciência para a “ignorância” alheia. Então, de onde surgiu a fama de mal-humorado? As pessoas que trabalham nas proximidades do comércio de Lunga confirmam que, de fato, a simpatia dele é curta, porém a raiz de onde sua fama se espalhou tão rapidamente pelo Brasil é outra. De acordo com Cícera Rodrigues Camilo, a segunda filha mais velha de Seu Lunga, a culpa pela disseminação é dos cordéis que começaram a circular pela cidade nos anos 80 trazendo histórias relacionadas a ele. Logo as publicações se multiplicaram e ganharam versões nos shows de piadas dos humoris-

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tas cearenses, parte deles oriundos da região do Cariri, onde está situada Juazeiro. Um dos primeiros cordelistas a transcrever os causos foi Abraão Batista, que por sinal está proibido pela Justiça do Ceará de mencionar Seu Lunga na narrativa dos seus cordéis. “Esse homem é um professor, uma pessoa esclarecida e mesmo assim fez isso com meu pai. Hoje todo mundo debocha dele por causa dessas mentiras que Batista começou a escrever”, desabafa Cícera. Se os livretos de cordéis imortalizaram as respostas de Seu Lunga, na internet elas se disseminam numa velocidade imensurável. Uma busca no Google apresenta mais de 820 mil links relacionados a ele, além de quatro perfis (falsos, obviamente) no microblog Twitter (em um deles há mais de 23.300 seguidores) reproduzindo perguntas óbvias e respostas nada amigáveis. Devido à idade avançada e ao abuso dos visitantes, a família composta por 14 filhos, sendo que 12 ainda estão vivos, sempre mantém um parente vistoriando o comércio de Seu Lunga. “A gente fica por aqui porque sempre aparece um engraçado pra curtir com a cara do meu pai. Só pra você ter uma ideia, os guias turísticos trazem comitivas de gente pra vê-lo. Enchem essa calçada e ainda acham engraçado essa pouca vergonha”, diz Cícera. Temperamental, a filha de Seu Lunga não nega a genética e já denuncia seguir com a irritabilidade herdada do pai. Tanto que para esta reportagem o fotógrafo (César Alves) até conseguiu um diálogo com Seu Lunga, mas não obteve o mesmo sucesso com a filha, quando ela avistou os fleches da câmera. “O que você quer fazendo fotos do meu pai? Olhe, se isso for pra sair em revista de imoralidade, a história não vai dar certo”, ameaça ela, fazendo referência à reportagem publicada na edição de julho da Revista Playboy.


Cotidiano Como um legítimo homem do sertão, Seu Lunga começa o dia antes do sol aparecer, mas só abre o ferrovelho por volta das 8h e permanece até o final do dia, às 17h. Isso de segunda a sexta-feira, porque aos sábados o expediente é reduzido pela metade (até meio-dia), já que no restante do final de semana a família se refugia num sítio na zona rural de Juazeiro. Ele, a filha Cícera e a esposa Carmelita Rodrigues Camilo, 84 anos, com quem é casado há seis décadas, moram na principal rua da cidade (em frente à Praça do Memorial Padre Cícero), em uma casa com muro alto que os filhos mandaram construir para diminuir o assédio. No ferro-velho, Seu Lunga passa boa parte do tempo mexendo e mudando as quinquilharias de lugar, quando não está atendendo as tietagens. Visitar Seu Lunga é apostar na sorte de encontrá-lo em dias de “bons amigos”, situação na qual ele ainda conversa, declama poesia, pousa para foto e até opina sobre tudo: política, economia, comportamento etc. Em contrapartida, quando o homem se irrita, não tem quem consiga um segundo de sua atenção. Quando questionado pela sua condição de celebridade, ele solta o verbo na resposta: “Olhe, isso é uma pouca vergonha! O cabra parece num ter o que fazer e vem pra cá com conversa de foto... Um dia desse a moça me perguntou se eu achava que era tão importante quanto meu ‘Padim Ciço’. Dá vontade do caba num responder um absurdo desse, a pessoa vem me comparar com Padre Cícero”.

Às vezes, brando CO vulcão de grosserias de Seu Lunga sempre cessa quando lhe é pedido que declame uma poesia. Mulher e natureza são as temáticas mais comuns aos seus versos, que confessa não saber quantas obras já compôs. “Seu Lunga, o senhor já escreveu quantos poemas?”, perguntou um dos visitantes e ele respondeu: “você acha mesmo que eu vou contar?”, sem nem olhar para quem o questionou, ele começou:

nidades por vontade própria. Antes do ferro-velho ele já atuou na agricultura, era proprietário de uma banca de cereais no mercado da cidade e até candidato a vereador. “Foi um louco que tem aqui que resolveu usar o nome do meu pai pra ver se conseguia votos”, diz a filha, sem deixar que Seu Lunga escute a conversa porque “ele chega a passar mal de tanta raiva quando falam nisso”, adverte. Os vizinhos da rua desmentem o mito de brutalidade, mas não tergiversam de que a paciência de Seu Lunga realmente é frágil. “Ele é um grande conversador de causos, tem uma memória muito boa, mas a conversa não vai adiante se fizer uma pergunta ou um comentário besta”, diz um senhor que garante dividir o banco da praça nos dias em que Seu Lunga resolve sair de casa. Antes de nos despedirmos da personalidade viva mais famosa de Juazeiro do Norte, apostamos numa última pergunta para fazer agrado a Seu Lunga: “O senhor conhece Mossoró, terra de Santa Luzia, Seu Lunga?” e a resposta veio depois de um intervalo silencioso (enquanto olhava fixo para uma prateleira cheia de ferrovelho) quando ele soltou: “meu filho, você não tinha nada mais importante pra fazer lá não? Pergunta besta essa sua!”. Cada intransigência de Seu Lunga é o suficiente para arrancar gargalhadas da pequena plateia que se aglomera na calçada do ferro-velho. Como se ainda não estivesse sido o suficiente, um turista (e curioso) se despede de Seu Lunga com um simpático “Até mais, Seu Lunga”. Não teve jeito! Foi a deixa perfeita para ele soltar mais uma das suas explicações: “quem disse que eu vou ver esse sujeito de novo? Ora, a pessoa num sabe mais nem se direcionar ao outro porque num existe essa história de ‘Ola!’, ‘Até mais’ e agora ainda inventaram o ‘valeu’... O certo é “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”... e pronto!” POR: higo lima

ilustração: augusto paiva

“A mulher pra ser bonita Precisa ser alta e bela Tendo o corpo desenhado, morena cor de canela, Mas os rapazes da ribeira Tão tudo louco por ela” A autoria das poesias até pode ser questionada. Não a sua arte, porque a prosa também é um trunfo para tirálo do mau humor. Detentor de uma oratória recheada de metáforas, Seu Lunga também, vez por outra, profere discursos em velórios e aniversários. “Há trinta anos fui ao enterro de Antônio Fininho (um de seus amigos), e lá comecei uns dizeres (o seu discurso), quando terminei de falar eu contei 15 pessoas chorando”, relembra ele com vaidade. Ele não aceita convite, só vai a essas sole-

Livretos de cordéis que iniciaram a fama de Seu Lunga

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Rubens Lemos Filho* Impaciência e mau humor

Alguns acham humor negro, brutalidade, mau humor. A resposta curta, imediata e seca é a delicada maneira de espantar a burrice, a picaretagem, a provocação, ou mesmo a chatice.''

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Seu Lunga para mim era uma lenda. Suas respostas imediatas e de pontaria genial traduziam um personagem ao estilo Pantaleão, de Chico Anysio, com a acidez tomando a vaga da fantasia. Eis que a vida me revela a verdade de Seu Lunga, aqui tão bem descortinado na Contexto. Ele é a certeza perfeita de que o verbo rasgado, libertado como numa chicotada, é a prevenção de um ataque cardíaco diante da imbecilidade expansiva. Seu Lunga existiu em outros brasileiros famosos. Começo pelo melhor texto melancólico da história do país, o cronista Antônio Maria. A noiva aflita, apaixonada e numa encruzilhada, mandou-lhe uma carta, que ele publicou dando. Primeiro o pedido de socorro: – Senhor Antônio Maria, amo meu noivo Asdrúbal, mas não sei se devo casar com ele, pois só tem três dedos na mão direita... Imperturbável, Antônio Maria, de tantos clássicos com Dolores Duran, respondeu pelo jornal: – Que bobagem noiva aflita, o amor vence qualquer barreira. Olhe para a mão esquerda do Asdrúbal. Se tiver sete dedos, dá no mesmo: ora, são dez. E não esqueça de perguntar ao seu sogro ou à sua sogra qual dos dois escolheu o nome do seu lindo noivo... Governador de Minas Gerais, eleito em 1982, Tancredo Neves terminava seus despachos no Palácio da Liberdade, mais bonito de todos no país, quando o neto de um velho correligionário o procura, angustiado. O ajudante-de-ordem explica que o governador está prestes a ir embora, cansado, mas a calejada raposa mineira reconhece a voz trêmula do jovem e manda que entre no gabinete. Com aquela velha cara de quem nunca teve raiva na vida, pede que o rapaz, de seus 25 anos sente e lhe explique o motivo de tamanha angústia: – Go-Governador, é que eu tenho um problema urgente e de última hora: a minha mulher vai entrar em trabalho de parto, ganhar neném e eu não tenho um tostão para pagar o parto.

Com a frieza que a fisionomia bonachona enganava, Tancredo ainda sentado, foi falando, pausadamente: – Meu jovem, querido, sou amigo do seu avô, de toda a sua família, mas ponha-se no meu lugar: - Se você, que já sabia da gravidez há nove meses não sabe o que fazer, imagine eu, que estou sabendo agora. Carlos Lacerda, brilhante víbora nacional, andava escanteado pela Ditadura que ajudou a construir conspirando. Deputado federal foi ironizado por um colega: – O nobre deputado Lacerda pode se dedicar a outras atividades, logo ele, que agora está tão desocupado. Escreva não aqueles brilhantes e odientos editoriais, faça obras de ficção. Num rasgo de raciocínio, Lacerda deu-lhe de volta: – Humildemente, aceito a sugestão. Vou fazer obras de ficção, a primeira é a biografia de Vossa Excelência! Alguns acham humor negro, brutalidade, mau humor. A resposta curta, imediata e seca é a delicada maneira de espantar a burrice, a picaretagem, a provocação, ou mesmo a chatice. Comigo já aconteceu. Faz alguns anos. Cortava o cabelo à máquina zero. Assim fiz e corri estressado como sempre para votar. Encontro um dos caboclos mais chatos que Nosso Senhor Jesus Cristo inventou de projetar e sacudir justamente em Natal: Apressado porque estava trabalhando, o cumprimentei rapidamente driblando-o como Messi a qualquer mortal. Ou pelo menos imitando. Mas todo chato é marcador implacável. Ele, então, segura meu braço, me irrita com um tapinha nas costas e a pergunta idiota: – Passou no vestibular? E eu, contando até 3.677, relaxo, faço uma expressão piedosa e dou a ele a resposta como se fosse a manchete do fim do mundo: – Você não sabe fulano? É quimioterapia! Eu tô com câncer terminal... Nem olhei para trás e fui cumprir meu dever cidadão. Grosseria? Não, minha flor, é impaciência mesmo. Viva Seu Lunga. Viva.

* Rubens Lemos Filho é jornalista desde 1988. Foi repórter e editor dos principais veículos de comunicação de Natal, secretário de Estado de Comunicação Social e hoje é coordenador de Comunicação Social da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte / Twitter: @RubensLemos, e-mail: r.lemosfilho@uol.com.br


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Revista Contexto Ediçao 2