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Edição 55

2017.1

JORNAL CONTEXTO UM QUADRO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

CORTES NO ORÇAMENTO P. 20 SEGURANÇA P. 12 CENTRAL PARK P. 10 MOVIMENTO ESTUDANTIL P. 8


EDITORIAL

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TE DI EX PE EN

Orientação: Profa. Dra. Michele Becker e Prof. Dr. Vitor Braga Edição: Daniela Pinheiro Direção de Diagramação: Lucas Moura Projeto Gráfico/Layout: Matheus Brito Capa: Adele Vieira e Clarissa Martins Ilustração da capa: Arianne Macena Reportagens: Andréia Fontes, Allan Jonnes, Antonio Gonçalves, Daniela Pinheiro, Emanuel Andrade, Ethiene Fonseca, Jabson Souza, Thiago Vieira e Yasmin de Freitas Diagramação: Anna Marília Paiva, Camila Oliveira, Cleilson Lima, Junio Tavares, Labely Rairai, Leandro Silva, Lucas Honorato, Luciana Gois, Marcos Henrique e Matheus Fernando Edição de Imagens: John Soares Revisão Geral: Marcel Andrade Melo

UN Você pode estar lendo isso enquanto aguarda em alguma fila da vida, ou pode estar em casa estudando no seu computador, notebook, celular, tablet... ou quem sabe esteja na rua, e tenha se deparado com esse jornal laboratorial produzido por estudantes de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Não! Não foi à toa que você parou aqui. Mas, já que estamos nessa interação, vamos em frente? O nome do nosso jornal é CONTEXTO. Essa é sua quinquagésima quinta edição, e o que nos veio à mente como estudantes de Jornalismo, antes de pensarmos sobre o que produzir, foram perguntas do tipo: Quem são os nossos leitores? Que público estamos querendo alcançar com nossas reportagens? Refletindo sobre essas questões durante nossas reuniões de pauta optamos por adotar o tema ‘Universidade’, e já que estamos na UFS, queríamos que ela fosse o foco do nosso planejamento editorial.


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VER

Afinal, nosso público leitor é formado em sua grande maioria por estudantes universitários. Atrelado a essa informação tínhamos outra ainda mais relevante: as universidades públicas do Brasil vêm passando um dos seus períodos mais críticos. Precisávamos contextualizar os efeitos dos cortes de recursos orçamentários para o ensino superior, mas também enaltecer atividades científicas bem-sucedidas que por insistência e coragem de alunos e professores permanecem ocorrendo. Precisávamos falar do “sonho” de chegar ao ensino superior e de como a universidade estreita seus laços com a sociedade. Parece fácil, como estudante de uni-

DADE

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versidade falar sobre as possíveis demandas de uma instituição, mas não foi uma tarefa simples decidir quais os assuntos seriam enquadrados por nossa equipe de repórteres e quais ficariam de fora. Precisávamos decidir quem ficaria com qual editoria (educação, política, cultura economia...) e, quais seriam as pautas de cada um. Tivemos que decidir naquele momento, em sala de aula, para então dar seguimento as apurações das reportagens. A busca incessante das fontes, o agendamento das entrevistas, a checagem das informações, a produção e revisão dos textos jornalísticos, a escolha das melhores imagens ou dos infográficos que melhor ilustrariam as reportagens e, finalmente, o processo de planejamento gráfico e finalização da edição. O nosso trabalho requer tempo de maturação para que possa ser em-

basado em conhecimento, com responsabilidade e credibilidade. Para isso contamos com a colaboração de dois professores, Michele Becker, de Laboratório de Jornalismo Impresso II, e Vitor Braga, de Planejamento Visual II, que sempre estiveram dispostos a nos ajudar e compreender os percursos e percalços do processo de produção jornalístico.

Você que chegou até aqui, esperamos que siga interessado na leitura das reportagens que foram produzidas com muito esforço por cada estudante que participou e batalhou para que essa edição do Jornal Contexto estivesse pronta e acessível a você, leitor. Boa leitura! Daniela Pinheiro


POLÍTICA

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ATUAÇÃO DOS MOVIMENTOS COLETIVOS

Coletivos: diversas faces, objetivos comuns

THAY ROCHA

Reportagem de Andréia Fontes andreia.fontes@hotmail.com

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epresentar a universidade, as particularidades dos estudantes, seus anseios e perspectivas, se constitui num grande desafio. Com esse propósito surgem os coletivos. Na UFS existem vários deles, que se destacam por seu caráter político, econômico, questões de gênero, religioso e agrário. O “Rua: juventude anticapitalista”, União da Juventude Socialista (UJS), União da Juventude Comunista (UJC), União da Juventude Revolucionária (UJR), Liberte-se, Juventude Conservadora de Sergipe (JCS), União dos Estudantes Livres (UNEL), Associação e Movimento Sergipano de Transsexuais e Travestis (AMOSERTRANS) e o Levante Popular da Juventude (LPJ), que faz a gestão do Diretório Central dos Estudantes (DCE), são alguns exemplos de grupos auto-organizados que buscam atingir um objetivo a partir das suas ideologias. “Cada estudante tem uma particularidade e se coloca em um grupo oprimido. Você pode ser um estudante negro, mulher, LGBT, e a forma de opressão que você sofre na universidade é diferente de um estudante heterossexual, branco, classe média, e todas essas classificações”, afirma Marília Souza, integrante do coletivo “Rua: juventude anticapitalista”. O coletivo “Rua: juventude anticapitalista” é um coletivo nacional de juventude, formado através da junção de movimentos estudantis, buscando ampliar a sua atuação em outras frentes nacionais. Marília Souza, estudante de Jornalismo, integrante do coletivo

e ex-membro do Diretório Acadêmico de Comunicação Social da UFS, ressalta que o objetivo do coletivo é fazer com que as pessoas pensem de que forma seja possível viver sem a opressão capitalista. “A gente é contra o capitalismo e quer que as pessoas se conscientizem, se expressem e se vejam, tudo que elas podem ser sem o capitalismo”, pontua. Em todos os estados brasileiros o “Rua” está presente. Em Sergipe são oito integrantes. O coletivo não possui eleições, mas um grupo de pessoas que se dispõem a ficar como coordenação nacional, indivíduos que organizam as pautas estaduais e as colocam em discussão, além de realizarem outras tarefas, como fazer caderno de texto, formação política. A escolha dos integrantes acontece a cada acampamento nacional, sendo que o primeiro foi feito em 2014 e o segundo em 2017, destaca a estudante. O coletivo não recebe financiamento de partidos, empresas, nem pessoas. Tudo é feito através de campanhas financeiras. Para conseguir arrecadar verba, os integrantes recorrem aos sindicatos. “Não são eles que nos alimentam, a gente faz campanha financeira, fazendo rifa, qualquer coisa, mas não tem financiamento”. Sobre a representação alcançada pelo grupo, Marília pontua que embora não considere que o coletivo representa todos os estudantes, as discussões e debates partem de pautas que sejam de interesses comuns e que tenha a ver com a conjuntura nacional. A maior dificuldade consiste em que as pessoas

ALICE SANTOS

Pedro Cazoy Fontes durante ação do coletivo LPJ

Marília Souza durante II Acampamento Nacional do coletivo, no Rio de Janeiro, 2017.


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REPRESENTATIVIDADE DO DCE É CONTESTADA PELOS ALUNOS

que heterossexuais, pessoas Cis, aquelas que reivindicam ter o mesmo gênero que o que lhe registraram quando nasceram, e LGBT’s se sensibilizam com a causa”, afirma Linda Brasil, uma das líderes do coletivo, ativista LGBT e transfeminista, recém-formada em Letras pela UFS. São realizados pelo grupo debates e projetos que visam conscientizar as pessoas sobre a questão Trans, orientação sexual e identidade de gênero, levando o debate até as escolas por meio do projeto “Educar Trans”. O coletivo Juventude Conservadora de Sergipe (JCS) é formado por 15 pessoas e atua na divulgação do real conservadorismo e da metapolítica, isto é, as funções nas quais a política deve atuar, seja pelo meio virtual ou não. Conforme relata a Direção, o objetivo do grupo consiste em agrupar os conservadores que compreendem que conservadorismo não se limita a uma ideia direitista e liberal, mas transcende todos estes rótulos, buscando assim uma integração para o desenvolvimento pessoal em todas as áreas, seja ela educacional, física ou espiritual, ressalta. O grupo busca sua intensificação a fim de influenciar e estar presente em todas as camadas sociais. “Não nos limitamos à UFS, ela apenas é uma das instituições que estamos presentes e podemos atuar, seja na divulgação do ideal ou no recrutamento. Infelizmente tal instituição está sucateada e destruída visivelmente por meliantes que integram grupos da esquerda, especialmente a liberal”, completa. O coletivo assegura não receber dinheiro público, as ações são possíveis por meio das contribuições internas dos próprios integrantes e tem como principais aspirações a fundação de uma sede física, promoção de cursos em parceria com outras instituições e palestras. As aspirações do coletivo vão além da universidade. “Também estamos buscando e incentivando o desenvolvimento pessoal dos membros para que em breve estes possam exercer funções públicas, ou não, e cargos estratégicos, lembra.

O Diretório Central dos Estudantes (DCE) é uma entidade estudantil, representação máxima dos discentes da Universidade Federal de Sergipe (UFS), composta por uma diretoria e uma parte executiva, formada por oito pessoas. Pedro Cazoy Fontes, estudante de Teatro e colaborador do DCE, afirma que os estudantes se organizam em assembleia, mas não há uma fórmula para a organização das eleições. “A gente chama quem quer participar na construção do DCE, quem tem interesse se organiza por si só e concorre”, pondera. Após cada eleição, a definição dos cargos se dá por meio de conversas unilaterais e/ou bilaterais. “No debate, quem acha que possui mais tempo para executar a tarefa, se coloca à disposição e fica destinada para isso”, reforça. As pautas em comum são originadas a partir das assembleias estudantis, sejam elas ordinárias ou extraordinárias. “Depois disso conversamos com os estudantes para poder fechar o que vai acontecer, por exemplo, ocupações na reitoria, organizadas por estudantes e com representação do DCE e também por coletivos da universidade. Vai de pautas mais simples, como bebedouros, banheiros e portões, até pautas maiores, nacionais. É importante ressaltar que o DCE não fica só na estrutura física da universidade, mas também na estrutura política do estado, do país”, conta o estudante. Para a concretização das ações não há incentivo financeiro ou qualquer outro tipo de benefício público destinado à entidade. “A gente faz totalmente na raça, por acreditar que os estudantes precisam se organizar, trabalhar em conjunto para pedir melhorias”, destaca Pedro. Algumas das ações concretizadas envolvem o crédito negativo do Restaurante Universitário (Resun), pois com o fim dos créditos, o aluno passou a ter direito a quatro créditos emergenciais, proposta já efetivada pelo DCE, na gestão “Por todos os cantos”. As lutas e ocupações também contribuíram para a volta do auxílio-moradia, que havia sido cortado pela universidade. “Outra vitória foi contra a portaria que brecava todas as calouradas e eventos de formatura. A administração dizia que era o estudante quem tinha que pagar a luz, a água, o que é um absurdo em se tratando de uma universidade pública e ela precisa garantir isso pra gente”, diz. O DCE e o alcance de sua representação dividem opiniões. Pedro Cazoy Fontes reitera que o fato de se sentir representado ou não, depende do individual, pois de modo geral a entidade representa todos os estudantes da universidade, independente da forma de pensar de cada um. Por outro lado, alguns estudantes ouvidos divergem dessa opinião. Daniel Santos, aluno de Engenharia Civil, afirma que embora conheça o DCE, ele não se sente representado pelo fato das últimas gestões terem se ausentado muito das reais lutas dos estudantes. Opinião similar à de Viviane Santos, estudante de Secretariado Executivo, que também conhece o órgão, mas não se identifica com os ideais da entidade, atribuindo à sua atuação fraca e distante do alunado. Ana Clécia dos Santos, aluna de Ciências Sociais, ressalta que as eleições são feitas de forma duvidosa e, além disso, a liderança que representa o DCE passa despercebida. “Nunca são vistos, nem sei quem é o atual presidente. É pouco transparente. Desde que comecei o curso nunca vi uma prestação de contas”, completa. A ausência de representatividade ainda foi reforçada por Maquerle Barbosa, estudante de História, que atribui a posição do DCE a uma organização política. “Os que estão lá sempre são vistos em atos políticos, só visam a militância e não as melhorias para os universitários, o que não condiz com a entidade”. pontua.

THAY ROCHA

ARQUIVO PESSOAL

vejam, a partir do grupo, uma nova alternativa de pensar o capitalismo. “O Rua está nas movimentações políticas que acontecem em Brasília, nos cursinhos populares para a população LGBT, nas periferias, na frente “Povo sem medo”, nos atos da “Marcha das vadias”, nas ações feministas... Toda luta do dia a dia a gente está inserido”, pondera. O Levante Popular da Juventude (LPJ) é um movimento social nacional que possui três vias: o movimento estudantil, a via campesina e a territorial, com cerca de 10 mil integrantes em todo o território brasileiro e presença em 15 municípios sergipanos. Pedro Cazoy Fontes, integrante do coletivo, explica que o objetivo é fazer com que a sociedade perceba a desigualdade de classes que gera opressão, preconceito, miséria e luta de classes, destacando que a mudança só acontece se as pessoas forem se organizando, em conjunto, em movimento. Os eventos realizados pelo coletivo compreendem o plenário municipal e estadual, assembleia estadual, acampamento estadual e nacional. “Tudo isso com a apresentação do movimento na perspectiva de chamar gente e debater as causas atuais. A gente faz estudo das revoluções passadas, revolução russa, francesa, cubana… e também debate a atuação atual, tenta ver onde discute a luta”, pontua. A escolha das lideranças do grupo acontece a partir de conversas e de acordo com a disponibilidade de cada um para resolver as tarefas atribuídas. Além disso, o coletivo consegue verba para se manter através da venda de camisas, bottons, livros, pedágios, campanhas na internet e ajuda dos militantes. “A dificuldade financeira é uma limitação, mas a ideia é despertar consciência, aumentar o nível dos debates”, completa o estudante. O coletivo Associação e Movimento Sergipano de Transsexuais e Travestis (AMOSERTRANS), surgiu em 2014 e conta, atualmente, com dez integrantes. “A gente não preza pela quantidade, mas por pessoas que querem batalhar conosco. A aproximação é bem maior durante o evento “Semana Trans”, já

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Linda Brasil, transfeminista e ativista do coletivo AMOSERTRANS.

Pedro Cazoy Fontes durante ação do DCE


COMUNIDADE

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COMPARTILHANDO O CONHECIMENTO A universidade vai até à comunidade por meio dos projetos de extensão Ethiene Fonseca

ANDREZZADUQUE-ARQUIVOPESSOAL

fonseca.ethiene@gmail.com

Professora Andrezza e alunos do grupo de extensão em saúde do idoso

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“Começamos a selecionar alguns idosos do município e fizemos visitas a eles. Depois, fizemos uma análise da saúde desses idosos e passamos algumas orientações a eles” (Andrezza duque, professora do DTO-UFS)

ngana-se quem pensa que a vida de um professor universitário se resume à sala de aula e aos eventos científicos. Há alguns meses, andar pelos bairros de Aracaju, batendo de porta em porta, passou a fazer parte da rotina da professora Andrezza Duque, do Departamento de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Sergipe (DTO-UFS). A docente, juntamente com um grupo de estudantes da área da saúde, desenvolve, desde outubro do ano passado, um projeto voltado à avaliação das condições sociais e de saúde dos idosos de Aracaju. Na primeira etapa do projeto, trabalhou-se sobre a temática do envelhecimento para que, a partir dessas discussões, os alunos que fazem parte do projeto fossem treinados sobre a parte técnica, como, por exemplo, aprender a forma correta de realizar uma avaliação de saúde. “A partir daí, começamos a selecionar alguns idosos do município e fizemos visitas a eles. Depois, fizemos uma análise da saúde desses idosos e passamos algumas orientações a eles”, complementa a professora. Mas chegar até esse público não tem sido uma tarefa fácil. Por esse motivo, a professora e o seu grupo de trabalho têm visitado várias residências, em diferentes localidades de Aracaju, à procura de pessoas que tenham demanda por esse tipo de atendimento especial. “Primeiro, a gente pegou os dados do IBGE considerando essa população idosa e foi de porta em porta visitando e perguntando se eles queriam participar do projeto. O atendimento oferecido pelo projeto é feito no domicílio dos idosos”, explica a professora. O projeto desenvolvido por Andrezza é conhecido, no mundo acadêmico, como extensão universitária. De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), as atividades de extensão têm, como objetivo, levar à sociedade o conhecimento científico que é ensinado e produzido nas universidades. O conceito de extensão abarca uma série de ações e projetos, compreendendo desde a prestação de

serviços pontuais às pessoas da comunidade externa, até iniciativas que possuem caráter contínuo. Alguns desses projetos chegam a gerar resultados que extrapolam o próprio tempo de duração das ações, como é o caso do projeto ‘Agrônomo na Escola’. Realizado pelas professoras Maria Aparecida Moreira e Hemilly Menezes, ambas vinculadas ao Departamento de Engenharia Agronômica, o projeto tem, como principal objetivo, a construção de uma horta na Escola Estadual Olga Barreto, localizada no bairro Eduardo Gomes, no município de São Cristóvão. “Primeiramente, a ideia é incentivar esses meninos a terem uma alimentação mais saudável. O outro objetivo do projeto é mostrar pra eles o que é Agronomia. Inclusive, a nossa primeira palestra teve como tema ‘O que é a Engenharia Agronômica?’. A maioria dos alunos não sabia. A ideia é também levar conhecimento sobre o curso para que eles possam tomar decisões na hora que forem fazer uma faculdade. Mesmo que os alunos não queiram cursar Agronomia, eles farão essa decisão sabendo como é o curso”, pondera a professora Maria Aparecida. A participação dos alunos do curso de Engenharia Agronômica tem se mostrado essencial na realização desse projeto de extensão, tendo em vista que é responsabilidade deles ministrar as palestras aos estudantes do Colégio Olga Barreto. “A gente quis que os nossos alunos da graduação fizessem as palestras para levar para os alunos do Ensino Médio. Eu e a professora Cida estamos sempre junto deles, mas são os alunos da graduação que preparam as palestras. Eu e ela orientamos, corrigimos, assistimos antes”, explica a professora Hemilly. De acordo com as docentes, a ideia é fazer com que, ao final desses ciclos de palestras, ocorra a instalação da horta no colégio, que possui um espaço amplo, servindo não apenas para o cultivo de hortaliças, mas também para o plantio de frutas. “O diretor teve a ideia de envolver alguns pais e mães de alu-

nos. O objetivo é que a horta sobreviva sem a gente. Lógico que, precisando, a gente vai até lá, mas a horta tem que ter continuidade”, complementa Maria Aparecida. Para as professoras, é de grande importância o envolvimento da comunidade escolar na execução do projeto, pois, para que a horta tenha continuidade após o fim das atividades de extensão, é preciso que as pessoas que participam direta e indiretamente da rotina do colégio tomem gosto pelo manejo das plantas. “Na nossa última conversa, o diretor disse que a escola conta com um funcionário que é técnico agrícola. A gente está propondo orientar esse profissional junto com os pais e alunos para instalarmos a horta.”, planeja Hemilly. A professora Laura Almeida, vinculada ao Departamento de Letras Vernáculas, DLEV, também já realizou projetos de extensão junto a escolas da rede pública. Entre 2013 e 2014, a professora desenvolveu ações de leitura e produção de texto junto aos alunos do ensino fundamental do Colégio Estadual Armindo Guaraná, localizado no bairro Rosa Elze, em São Cristóvão. Os resultados positivos obtidos incentivaram a professora Laura a dar continuidade ao projeto, só que, dessa vez, voltando-se a um público diferente: os detentos do Complexo Penitenciário Dr Manoel Carvalho Neto, localizado em São Cristóvão. “O trabalho com o pessoal da penitenciária foi interessante, porque, além de eles estudarem para fazer o Enem, o tempo em sala de aula contribuiu para diminuir o tempo deles na prisão”, explica a professora. Apesar do interesse dos detentos em participar do projeto, as atividades duraram apenas um semestre. De acordo com Laura, isso se deve, em parte, à falta de alunos extensionistas para auxiliar nas oficinas. “O interesse dos detentos em participar do projeto foi grande, mas não tinha professor suficiente para todo mundo. Aí, tivemos que limitar o número de pessoas que iam participar”, complementa a profes-


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“Primeiramente, a ideia é incentivar esses meninos a terem uma alimentação mais saudável. O outro objetivo do projeto é mostrar pra eles o que é Agronomia. A maioria dos alunos não sabia. A ideia é também levar conhecimento sobre o curso para que eles possam tomar decisões na hora que forem fazer uma faculdade.”

HEMILLYMENEZES-ARQUIVOPESSOAL

(maria aparecida moreira, professora do DEA-UFS)

sora do curso de Letras. Mas nem sempre a iniciativa de realizar projetos de extensão parte dos próprios professores da UFS. Recentemente, a professora Laura foi procurada por alunas estrangeiras interessadas em aulas de português, demanda que deu origem ao seu projeto de extensão mais recente. “As aulas de português acontecem duas vezes na semana, com duração de duas horas. O objetivo é que os alunos sejam aprovados no exame de português para estrangeiros”, pondera Laura. Há seis meses residindo no Brasil, Aurimar Rodriguez, oriunda da Venezuela, encontrou no projeto de extensão da professora Laura uma forma de não apenas aprender a língua portuguesa, como também de se integrar à cultura local. “As aulas não são sempre dentro da Universidade. A gente já foi ao Museu da Gente Sergipana, a um concerto da Orquestra Sinfônica de Sergipe, a uma peça no teatro, fizemos testes com pessoas na rua e no shopping”, relata a aluna sobre a sua experiência com o projeto. A importância da extensão universitária Apesar de atuarem em diferentes áreas de conhecimento, as professoras entrevistadas para essa matéria são unânimes no que diz respeito à importância social dos projetos de extensão: eles são uma forma de levar o conhecimento que se produz na Universidade para as pessoas que não têm acesso. “É importante abrir as portas da Universidade para a comunidade, senão fica só o conhecimento dentro de casa, é preciso extrapolar os muros da universidade”, defende a professora Andrezza, do DTO. Sobre o seu projeto desenvolvido junto à população idosa de Aracaju, a professora salienta que a importância das ações não se limita apenas ao fato de proporcionarem às pessoas da comunidade uma assistência técnica no âmbito da saúde, sendo relevante também para os alunos da UFS que trabalham junto com ela nas atividades.

Por meio do projeto, eles passaram a ter um conhecimento mais aprofundado sobre a realidade da saúde em Aracaju. “Embora, na universidade, tenhamos o conhecimento técnico e científico, nós conseguimos trocar conhecimentos e experiências junto à população. Quando estamos fazendo pesquisa, nós professores ficamos presos no nosso mundinho. Quando rompemos a barreira da universidade, aprendemos muitos mais, pois estamos dialogando com quem precisa”, relata Andrezza sobre a sua experiência enquanto extensionista. Na opinião da professora Laura, a extensão representa o desdobramento das atividades que ela desenvolve como pesquisadora, com um diferencial: na extensão, é possível envolver a comunidade, levando o conhecimento científico a pessoas que estão fora da universidade. “É importante a universidade realizar ações de extensão, pois elas contribuem com as pessoas que estão na própria universidade e atende também as necessidades da comunidade”, complementa a professora do DLEV. Graduada em Letras Vernáculas pela UFS, Viviane Valença afirma que ter participado do projeto da professora Laura junto aos alunos do Colégio Armindo Guaraná foi essencial na sua formação acadêmica. “Eu me encontrei no curso de Letras após ter participado desse projeto. Eu havia participado de outro projeto antes, atuando na formação de professores. Mas trabalhar em sala de aula, com todos os desafios encontrados, foi muito enriquecedor”. Para Edwin Prado, aluno do curso de Engenharia Agronômica, a sua participação no projeto da professora Maria Aparecida e da professora Hemilly despertou o seu olhar para outras questões acerca do papel que desempenhará enquanto futuro profissional. Por meio das ações desenvolvidas no Colégio Olga Barreto, ele pode desenvolver habilidades que dificilmente teria aprendido em sala de aula. “Nós muitas vezes saímos da academia sem a visão de que também atua-

remos como educadores, responsáveis por orientar os produtores nas suas atividades no campo. Precisamos ter postura, oratória e didática, habilidades que facilitam esse tipo de relação. Foi bastante enriquecedor perceber que consegui desenvolver essas habilidades através do projeto”, comenta o aluno. Apesar da importância social e acadêmica da extensão universitária, desenvolver um projeto desse tipo não é fácil: demanda tempo e dedicação dos professores e dos alunos envolvidos, como também a disponibilidade das pessoas da comunidade. Em suas visitas aos idosos, a professora Andrezza encontrou certa resistência das pessoas, que se mostravam receosas em participar das atividades do projeto. “A maior dificuldade que enfrentei foi em relação à execução do próprio projeto. Estar na rua, visitando a comunidade, foi difícil. Talvez se tivéssemos mais recursos, mais apoio, fosse mais fácil. Muita coisa é feita com o dinheiro da gente: as visitas, as camisetas, os folders. A questão financeira é a que pesa mais.”, comenta a professora Andrezza sobre as suas visitas aos idosos de Aracaju. No desenvolvimento do seu trabalho, a professora Hemilly encontra certa dificuldade em lidar com os atrasos nas atividades decorrentes da burocracia da UFS. Todas as ações relacionadas aos projetos de extensão precisam ser cadastradas no sistema da universidade e caso seja necessário fazer alguma alteração, é preciso que a solicitação seja aprovada por vários departamentos, o que torna o processo mais lento. “Essa burocracia é necessária, mas se fosse algo simplificado, acho que não precisaríamos passar por todos esses processos. Como o calendário da escola Olga Barreto e da UFS não coincidem por causa das greves, o calendário do projeto ficou bagunçado e as atividades não ocorreram como previsto. Qualquer atividade que a gente quer fazer tem que cadastrar no Sigaa. É um pouco burocrático.”, relata a professora.

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Atividade de extensão na Escola Olga Barreto

Da esquerda para a direita, professora Laura, Myriam, Aurimar e Viviane no teatro


COMUNIDADE

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE FINALIZA OBRAS DO MEMORIAL DA DEMOCRACIA Reportagem : Allan Jonnes Fotos: Eric Almeida

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riada no emblemático ano de 1968, sob os cuidados do Presidente Costa e Silva – que à época cassava por meio do Ato Institucional N° 5 (AI5) os direitos constitucionais de parlamentares contrários ao regime militar ditatorial – a Universidade Federal de Sergipe (UFS) está prestes a inaugurar o seu Memorial da Democracia. Idealizada pelo professor Dr. Fernando Sá (Departamento de História) o projeto da obra – que custou ao Ministério da Educação (MEC) cerca 1,9 milhões de reais – é fruto de uma emenda parlamentar específica para a sua construção. De acordo com Prof. Dr. Jorge Antônio Vieira Gonçalves, chefe da Divisão de Projetos da UFS (DIPRO); órgão responsável pela execução da obra, o investimento contempla a reforma de uma área ociosa de 16.910 m³ e tem também a função de ser um espaço de convívio entre os estudantes, que desde a segunda metade do mês Julho já podem circular pelo local “Acreditamos que o sucesso e a rápida apropriação do espaço pela comunidade acadêmica da UFS deve-se tanto ao atendimento a uma demanda reprimida dessa comunidade por um espaço dedicado à contemplação quanto ao cuidado para com a sua execução. Os esforços foram direcionados para criar um espaço integrador, igualitário, democrático, e com


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uma estrutura urbana dirigida ao enraizamento da memória coletiva e da reflexão” afirma. ESTUDANTES APROVAM A INICIATIVA. Aluna do curso de Farmácia, Ana Paula Barros (20), aprovou a construção do espaço. “Aqui é ótimo, confortável, é mais natural, antes se você quisesse permanecer na universidade quando não estava em sala de aula, precisava ficar caminhando ou então ia pra biblioteca, mas lá também nem podia conversar muito para não atrapalhar os outros estudantes, esse espaço é bastante necessário”, conclui a estudante. Ana Paula Rocha (22) aluna do curso de Letras, confirma a importância da revitalização da área, embora estivesse esperando investimentos em áreas que ela considera mais imediatas, como a ampliação do restaurante universitário. Rocha atenta para a ironia de que a praça leve o nome de Memorial da Democracia logo agora, em que segundo ela já não há mais democracia no país. “O nome memorial dá mesmo a ideia de coisas que ficaram no passado” brinca. Ninguém da equipe da Divisão de Projetos ou da universidade se posicionou à respeito. ERIC ALMEIDA


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COMUNIDADE

ERIC ALMEIDA

MÃOS ESPALMADAS À TODA COMUNIDADE ACADÊMICA.

“A concepção formal da praça partiu de dois princípios: antes de tudo, a constituição de uma centralidade, de um espaço para aglomerações, reuniões, encontros; em segundo lugar, o princípio da diversidade, linhas sinuosas e em diferentes direções, que apontam para a noção de multiplicidade na comunidade acadêmica” (Cleômenes Maia, arquiteto coordenador do projeto)

O projeto urbanístico da reforma foi conceituado e esboçado pelo arquiteto e urbanista César Henrique, professor adjunto do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFS, e desenvolvido sob a coordenação dos arquitetos Júlio Santana e Cleômenes Maia. O monumento central da praça é constituído por três mãos reunidas e espalmadas, e a primeira vista remete a icônica mão espalmada feita pelo arquiteto Oscar Niemeyer quando da construção do Memorial da America Latina. Segundo Gonçalves (DIPRO) de fato o monumento foi livremente inspirado na obra do Niemeyer, e a mão espalmada transformou-se em mãos no plural, representam as mãos acolhedoras da universidade para os mais diversos segmentos da sociedade, mãos que se estendem independente de gênero, cor da pele, camada social, etc. Representam a diversidade. De acordo com Cleômenes Maia, um dos arquitetos responsáveis pelo desenvolvimento do projeto “A concepção formal da praça partiu de dois princípios: antes de tudo, a constituição de uma centralidade, de um espaço para aglomerações, reuniões, encontros; em segundo lugar, o princípio da diversidade, linhas sinuosas e em diferentes direções, que apontam para a noção de multiplicidade na comunidade acadêmica” Reitera o arquiteto.


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A PRAÇA COMO UM ESPAÇO COMUM DE CONTEMPLAÇÃO E CONVÍVIO.

A Alunos aproveitam os espaço para descansar

“As praças funcionam como uma expressão física da esfera pública, é um espaço material onde coexistem pessoas que podem trocar entre si, conversar, discutir, etc. É importante que a gente ocupe esse espaço pra ampliar o que a gente tem dentro da sala de aula, pra transbordar um pouco esses limites, pra discutir esse espaço comum”. ( Greice Schneider, professora do DCOS-UFS)

ERIC ALMEIDA

A Prof. Drª Greice Schneider, do Departamento de Comunicação Social, transferiu uma de suas aulas para o novo memorial. Lá os estudantes reuniram-se à sombra de uma das arvores e convidavam a todos que se aproximassem para participar daquela aula ao ar livre. Para a professora “As praças funcionam como uma expressão física da esfera pública, é um espaço material onde coexistem pessoas que podem trocar entre si, conversar, discutir, etc. É importante que a gente ocupe esse espaço pra ampliar o que a gente tem dentro da sala de aula, pra transbordar um pouco esses limites, pra discutir esse espaço comum”. Para Mariana de Medeiros (19) o memorial é bastante oportuno. A obra está muito bonita e o lugar é agradável, apenas a iluminação noturna ainda é insuficiente segundo a estudante do curso de Relações Internacionais. “A iluminação é até bonita mas não é tão clara, a praça fica um pouco escura e a gente não tem a mesma disposição de ficar por aqui a noite, talvez se fosse mais claro a gente se sentiria mais segura, principalmente os estudantes da noite” disse a estudante. Sobre isto Gonçalves afirma que no contexto geral a iluminação do campus universitário da UFS está além das exigências mínimas descritas pela Associação Brasileira de Normas Tecnicas. No mais ele explica que foram acrescentados outros tipos de iluminação, mais eficientes com uso de lâmpadas LED, a exemplo de postes baixos e iluminação cênica da praça, realçando elementos arquitetônicos e monumentos. Outras tentativas de criar esses espaços de convívio não tiveram o mesmo sucesso. Um dos exemplos é o Centro de Vivência, o local conta com lojas, cafés, restaurantes, livrarias e agencia bancária, no entanto ainda não há um convívio regular e uma permanência da comunidade acadêmica no espaço. O Estudante de Engenharia de Pesca Mateus Ponciano (23), acredita que isso se dá tanto pela localização física do Centro de Vivência – mais afastado do Resun, da Bicen, das salas de aula – quanto também pela atmosfera do local. “Acredito que na praça a aceitação foi melhor porque é um momento que a gente quer distrair um pouco o pensamento daquela zona das didáticas onde ficam as salas, o centro de vivência é fechado também, aqui não, aqui é aberto, é mais diferente”. afirma Ponciano. É preciso também atentar para p fato de que as Universidades Publicas tem por dever servir a comunidade em geral, tanto os discentes, docentes e outros servidores como a sociedade civil por um modo. Desta feita competa ao corpo acadêmico estimular a presença de autores externos à Universidade, promovendo um dialógo com artistas, coletivos de cultura, pedagogos, associação de moradores dos bairros circunvizinhos, etc. Sempre na busca de estreitar os laços entre a instituição com a comunidade, bem como aproveitar mais qualitativamente o espaço do Memorial.


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COMUNIDADE

ERIC ALMEIDA

REPAROS E ACABAMENTOS. A obra ainda não está terminada e é possível que seja inaugurada apenas no próximo ano, quando a universidade completa o seu cinquentenário. Até lá a equipe de funcionários segue com os reparos e acabamentos. De acordo com Gonçalves várias das reclamações que chegam a DIPRO tem a ver com o fato de a obra ainda não estar em sua forma definitiva, uma dessas reclamações é a respeito da acessibilidade para deficientes visuais. Ele afirma que o projeto de acessibilidade da praça está de acordo com a NBR 9050-215, que normatiza acessibilidade a edificações, mobiliários, espaços públicos e equipamentos urbanos e além dos pisos táteis direcionais – já implementados - ainda serão instalados mapas em alto relevo em pontos distintos do memorial, bem como placas informativas ao lado de cada um dos 13 pares de painéis de vidro, replicando em braile o mesmo texto desses painéis. Os textos são citações, frases de escritoras e escritores, historiadores, filósofos e etc. todas elas relacionadas à democracia. Maia afirma que segundo a concepção do projeto no espaço mais central há uma densidade maior de informações e pessoas, onde a reflexão deverá ser estimulada pelo contato coletivo, por outro lado “os percursos dentro da praça são múltiplos, e ao longo desses caminhos as pessoas encontrarão também nesses painéis um motivo, um conceito, uma frase que provoque uma reflexão” explica o arquiteto.

Equipe de funcionários segue com os reparos e acabamentos.


JORNAL CONTEXTO 55

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SOBRE RODAS ELA VAI Revisão: Yasmin Freitas Yasminfreitas.ufs@gmail.com

CADEIRANTES LIFE

Crônica: Daniela Pinheiro danynhapv@gmail.com

É

noite de domingo. Luci sabe que as horas estão se encurtando para a prova que vai acontecer no dia seguinte às nove horas da manhã. Precisa descansar o corpo e a mente. Prepara-se para deitar. Em seu quarto, os pensamentos estão borbulhando – é a chamada insônia moderna. Já são meia noite e dez, quando, então, adormece. O despertador avisa – são seis e meia da manhã, hora de levantar. O percurso até a universidade é demorado. De onde Luci mora até a universidade são trinta quilômetros, parcialmente perto, se não fosse a demora quase que certa, todos os dias para chegar. Luci necessita pegar dois ônibus para chegar ao campus universitário onde estuda, por isso que levanta cedo. Agora já são sete horas, Luci já tomou banho e trocou de roupa, café a mesa, sua mãe logo chama-a para comer. Ao sair de casa se despede da irmã, e pede ajuda a mãe para que a leve até o ponto de ônibus, que fica próximo a sua casa. São sete e quarenta e cinco de uma manhã com tempo chuvoso. Hoje, Luci terá a presença da mãe

para que a ajude a entrar no primeiro ônibus coletivo do dia, mas não é sempre que ela tem esse acompanhamento, prefere assim, sabe que a sua independência também depende disso. Chegando ao terminal ela espera todos descerem e, espera a boa vontade do cobrador para que a auxilie na descida do ônibus, essa situação acontece sempre porque Luci não consegue sair sozinha por causa das escadas que compõem os coletivos, é necessário o cobrador pegar um controle de comando que faça com que essas escadas desçam próximo ao chão para a possível passagem da cadeirante. Luci terá que fazer esse mesmo processo novamente, pois ainda se encontra no meio do caminho. Já são oito e dezessete, ela olha o relógio, sabe que o próximo ônibus ainda vai passar oito e vinte e cinco. Enquanto isso as pessoas olham com olhar de pena, parece que todos têm a sensação de que a pessoa está doente, mas isso já não lhe afeta mais, talvez essa rotina já tenha se tornado de fato rotina na sua vida. Muitas pessoas se aglomeram a espera do ônibus, Luci tem a sensação de que quanto mais ônibus chegam ao ter-

minal, parece que as pessoas seguem a mesma direção – o mesmo ponto que o seu. Enfim a espera acaba, empurra, empurra... Luci já sabe que aquilo vai ser um pouco constrangedor. Alguém avisa ao cobrador que tem cadeirante para subir. O cobrador olha, parece pensar “Aff, mais uma demora”! As pessoas olham, mas o processo segue. Última parada, a universidade está ao lado, já são oito e quarenta e nove, todos descem do ônibus. Luci também, afinal ela não vai voltar para casa agora, vai fazer uma prova logo em seguida. Luci liga para a Divisão de Ações Inclusivas da universidade, ela tenta ajuda de um acompanhante, esse departamento ajuda pessoas com deficiência para que possam ter o acompanhamento de outra pessoa (estudante bolsista). Consegue falar, o atendente marca, ‘seu acompanhante será esse e, ele te encontra na didática tal, no horário tal’. - Ok! Desliga. – “UFA! Hoje o percurso vai ser mais rápido”. Pensa. Quando Luci entrou na universidade em 2013, as obras de adequação para a acessibilidade ainda estavam acontecendo, e ela tinha muito tra-

balho para se locomover dentro do campus, porque não existiam acessos que viabilizasse a passagem de cadeirantes, os deslocamentos de um lugar a outro na universidade são parcialmente longos, isso dificultava bastante, mas ela quase sempre teve o apoio dos colegas e amigos, que a ajudavam nesses percursos. As obras de adequação para a acessibilidade teve início em 2012. Sim! Antes não existia, meu caro e minha cara... Os cadeirantes tinham que se virar. Por fim, essas obras terminaram em 2014 ao que parece, mas, ainda hoje existem trajetos com buracos, rampas estreitas e em lugares distantes, elevadores que não funcionam corretamente ou não possui gente para ajudar o cadeirante, escadas que contribuem para a invisibilidade dessas pessoas, entre outras coisas que só quem É, quem É cadeirante sabe. Vamos voltar a Luci, porque já está quase na hora da prova. Ela chegou em cima da hora, hoje ela não teve auxílio de ninguém para chegar até a sala de aula, já são nove e três, “que bom, a professora ainda não chegou”!. Não demora muito, a professora chega. É hora!

O acompanhante chega, já são onze e quarenta, o dia já não está mais chuvoso. Luci pede para que o acompanhante a leve até o restaurante universitário, ela almoça ali sempre que tem aula na universidade, o custo para cada estudante é de um real, a comida é boa, dizem que já foi ruim, tempos atrás, mas hoje a qualidade é outra, pelo menos a fila todos os dias para entrar é de encher os olhos, isso parece dizer muito, não?! Almoço concluído, hoje ela quer voltar cedo para casa, já são doze e cinquenta, o acompanhante também já almoçou, ele entrou junto com Luci no restaurante, não enfrentou fila. Volta para casa, o acompanhante a deixa no terminal. Agora é esperar o coletivo que dessa vez ela não sabe a hora que passa, o que ela sabe é que percorrerá o mesmo percurso que a trouxe à universidade. As dificuldades existem, mas dificuldades todos temos, uns mais outros menos, talvez o que mais ela deseje seja isso, que as dificuldades existam para todos, sim! Para todos! E, que todos a enfrentem, porque afinal de contas estamos nesse mundo para ir além, sobre rodas ou não.


CULTURA

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CULTART: ARTE, MÚSICA, CULTURA E MUITA HISTÓRIA PARA CONTAR

Prédio onde está localizada a instituição é tombado pelo Patrimônio Histórico e está no seu centenário Repórter: Emanuel Andrade slash_andrade@hotmail.com

P

ortas altas e largas, extenso corredor de madeira, janelas molduradas com detalhes barrocos, pátio grande sob as mangueiras do quintal. Parece a descrição de uma casa antiga, do período colonial, que não abriga mais nada ou ninguém, mas não é. Trata-se do prédio onde está o Cultart, localizado na Avenida Ivo do Prado, 612, no centro da capital sergipana. O Centro de Cultura e Arte (Cultart) da Universidade Federal de Sergipe (UFS) faz parte da Pró-Reitoria de Extensão (PROEX) da UFS. A instituição é responsável pelos trabalhos que determinam uma ligação cultural, artística e social com as comunidades interna e externa à UFS. O Cultart funciona desde 1980 e além das apresentações de cunho cultural, o espaço do Cultart recebe ensaios e aulas dos cursos de Música, Artes Cênicas e Visuais. Nesse ano o edifício completa 100 anos de história. O local que hoje cede espaço para eventos de cultura e arte, além de exposições, aulas de arte e apresentações musicais, já foi um dia um orfanato e um “Asilo”. Asilo com aspas porque em meados dos anos 20, o conceito de asilo era bem diferente. A ideia era ter um local para transformar meninas, ainda adolescentes em mulheres do lar. Bordar, passar e lavar roupa, cuidar e “ter modos”, essas eram as principais atividades de um asilo na época. Já no ano de 1917, o edifício sediou a escola Barão de Maruim, até o ano de 1950, quando o prédio passou a ser administrado pela Universidade Federal de Sergipe, que usou o espaço para as aulas do curso de Direito. Durante estes ano, figuras conhecidas da sociedade sergipana formaram-se no curso, como o ex-governador Albano Franco, o ex-prefeito João Augusto Gama e a atual senadora Maria do Carmo. Já em 1980, finalmente o Cultart passou a ser sediado no edifício. De lá pra cá no local foram realizadas diversas atividades das áreas de artes, músicas e cultura no prédio. Como o Encontro Nacional de Coros de Sergipe, que

Reprodução de fotografia publicada no jornal

foi promovido do ano 1984 aos anos 2008. Além dos eventos relacionados ao coral, antes do início da reforma do prédio do Cultart, a Orquestra de Sergipe ensaiava regularmente no Edifício, além de aulas de Música da UFS que também serão lecionados no espaço após a reforma. As artes Cênicas não ficam de fora dos projetos que ocorreram no Cultart. “13 noites com Antônio”, projeto de extensão coordenada pelo Doutor Professor Otávio Luiz, é um deles. Com a intenção de exaltar e expor artes relacionadas ao Santo das causas impossíveis, a ação segue a risca a tradição da autoridade divina com o número 13. Veja só: do ano 2000 ao de 2013, foram realizadas 13 exposições anuais com 13 artistas sergipanos, cada uma com sua arte sobre adoração e percepção pessoal sobre o Santo Antônio. Obviamente, em todos os anos o projeto aconteceu do primeiro aos 13 de junho. Em meados de 2009 o Cultart também cedeu por três dias, 2,3 e 4 de de-

zembro, um evento onde apresentações principalmente se voltados para as code diversos cursos realizados na insti- munidades carentes do estado, onde tuição foram apresentados ao público. segundo a mesma há uma grande O projeto intitulado “Feira de Artesana- quantidade de pessoas talentosas, poto” contou com apresentações de ban- rém sem espaço para mostrar seu dom. das sergipanas, corais, além de danças “Você chega na periferia e vê um mondo ventre e balé, todos coordenados a te de gente com muita habilidade pra cursos da UFS. Todos os eventos foram mostrar, mas não tem onde mostrar, infelizmente. O Cultart tem potencial gratuitos e abertos à sociedade. Na coordenação do Cultart desde para ser profundamente importante Março de 2017, a Pedagoga e Artesã para essas pessoas”, lamenta. Maria Angélica Pereira do Nascimento, iniciou o seu trabalho com o Cultart em 2009, ainda como Pedagoga, com o projeto Oficina de Artesanato para Idosos, que durou cinco anos. Fazendo parte do Núcleo de Apoio à Terceira Idade (Nupat), o projeto de extensão consistia em confecção de bolsas feitas por mulheres da terceira idade, visando construir para as senhoras uma atividade dinâmica e criativa com finalidade terapêutica. Para Maria Angélica, o espaço do Cultart pode ter um alcance ainda maior com os projetos de extensão, ARQUIVO/ CULTART

Quinto Encontro de Corais em 1989

Nesse ano o edifício com p l e ta 100 anos de história. O local que hoje cede espaço para eventos de cultura e arte, além de exposições, aulas de arte e apresentações musicais, já foi um dia um orfanato e um “Asilo”. Asilo com aspas porque em meados dos anos 20, o conceito de asilo era bem diferente. A ideia era ter um local para transformar meninas, ainda adolescentes em mulheres do lar. Bordar, passar e lavar roupa, cuidar e “ter modos”, essas eram as principais atividades de um asilo na época.


JORNAL CONTEXTO 55

EMANUEL ANDRADE

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Obras estão previstas para sem finalizadas em fevereiro de 2018

REFORMA DO PRÉDIO Qual a definição de cultura? O que podemos decretar como arte? O que é que determina uma música ser de boa ou de má qualidade? Enquanto a discussão continua e seguimos buscando repostas, o Centro de Cultura e Arte (Cultart) da Universidade Federal de Sergipe (UFS) segue levando ao público sergipano apresentações de dança, música, artesanato e eventos culturais em geral dos mais variados estilos agradando todos os gostos.

E dando continuidade as ações relacionadas ao centenário do prédio do Cultart, foi iniciada em meados junho com previsão para término em fevereiro de 2018, a reforma do edifício do Cultart. O prédio que fez exatos cem anos no dia 8 de julho, tombado pelo Patrimônio Histórico Estadual passará por revitalização das salas de exposição, manutenção e pintura do edifício, reforma dos banheiros e limpeza do espaço do Cultart. Um dos espaços que está no proces-

so recuperação e limpeza é o porão do Cultart, localizado no subsolo do prédio. O local que possui fortes características visuais do período colonial disponibilizará diversas salas onde serão lecionadas aulas, exposições e projetos de extensão. Juntamente com a reforma estrutural, a Pró-reitoria da Universidade Federal de Sergipe pretende trazer mais recursos financeiros para o local. A intenção, segundo Maria Angélica, é que haja uma manutenção permanente do

espaço, visto que o mesmo é histórico e tombado pelo Estado, requerendo atenções especiais que demandam um certo custo financeiro. Atualmente o espaço do Cultart conta com um miniauditório com capacidade para 50 pessoas, 19 salas destinadas a exposições de obras e artesanatos e um peculiar e grande porão, que carrega características da arquitetura colonial, onde há o espaço do almoxarifado e mais salas onde ocorrem aulas de artesanato, teatro, artes visuais e música.

O projeto Cultart “Portas Abertas” tem como objetivo celebrar o centenário do prédio onde a instituição está sediada. Para isso, o grupo formado pelos alunos Andréa Regina de Oliveira Melo (Artes Visuais), Luigi Rafael Oliveira Devids (Desing Gráfico), Luany Santos (Teatro), Rafael Douglas Nascimento Alves (Artes Visuais), Laís Calena Salles Aragão (História), Marília Souza Santos (Jornalismo), e Vitor de Araújo Rodrigues (Desing Gráfico) construíram um acervo com todas as obras e pinturas que já foram expostas no Cultart. A ação que está em estágio de conclusão da restauração e conservação das obras, teve como resultado até o momento mais de 100 peças encontradas e recuperadas pelo grupo. Há obras de artistas locais de todo o país, incluindo peças registradas das décadas de 70 e 80. Luany Santos, participante do projeto, estudante de Teatro em fase de conclusão, destaca a importância da ação e dos seus frutos gerados. “No começo nós buscamos parcerias com alguns professores para apresentarem conteúdos de arte, mas como não foi viabilizada, a gente partiu para o que

EMANUEL ANDRADE

PROJETO CULTART “PORTAS ABERTAS”

Antes da reforma porão estava inacessível

estava viável e tinha grande necessidade que foi a conservação e limpeza dos artefatos, obras e materiais que estavam por aqui e o resultado está sendo muito bom”, afirma. A estudante de teatro relembra também que o Cultart foi peça fundamental na escolha do seu curso, influencia que recebeu ainda no ensino médio. “Ainda em 2005 eu já fiz curso de Teatro aqui. Antes de escolher o que eu queria fazer, eu comecei aqui” Além da atividade principal da restauração e catalogação das obras abrigadas no Cultart, o “Portas Abertas levou a duas escolas municipais do interior do estado, Riachuelo e Japaratuba, a história do prédio do Cultart e todo conteúdo artístico e cultural que foi e é exposto no espaço. Porém, de acordo com Luany Santos, ao iniciar as apresentações para as escolas, foi notado que seria importante primeiramente reestruturar e restaurar as obras e o espaço do Cultart. “A gente não pode abrir as portas do Cultart antes de organizar a casa, nós temos muitas obras aqui, mas antes da limpeza e restauração muitas não estavam em condições de serem apresentadas”, destaca.


ECONOMIA

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GESTÃO FINANCEIRA Evolução dos gastos na UFS entre 2004 e 2016

Antonio Gonçalves goncalvesaa@gmail.com

T

odos os anos, acompanha-se discussões acaloradas sobre os gastos públicos no Brasil, principalmente sobre déficits e superávits. Alguns com visão rentista falam somente em diminuir o déficit para equilíbrio das contas públicas, ou seja, diminuição dos gastos dos governos nas três esferas. Outros, com visão mais social, humanitária e desenvolvimentista defendem a expansão do gasto como fator preponderante para o crescimento do país e diminuição das desigualdades e reparação de dívidas sociais históricas. Ataques inconsequentes e sistemáticos aos gastos públicos pelos defensores dos cortes, inclusive em setores fundamentais para o desenvolvimento do país, a exemplo da educação, saúde, moradia e saneamento básico. Por outro lado, também existem grupos que fazem a defesa de gastos nessas áreas de forma veemente, que são encarados e defendidos como investimentos. Portanto, a discussão deveria ser sobre o que são gastos e o que são investimentos. Os gastos e/ou

investimentos são necessários? Nesse contexto sobre o que é gasto ou o que é investimento temos a Universidade Federal de Sergipe (UFS), entidade de ensino superior pública e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), que em quase sua totalidade é financiada por recursos federais destinados à educação. Seu financiamento dar-se pelas transferências diretas via Secretaria do Tesouro Nacional (STN), que garantem o funcionamento, e, em menor valor, por emendas parlamentares que são denominadas contabilmente como “destaques”, porém, de aplicação especifica definida antecipadamente. A outra forma é composta por receitas próprias provenientes de convênios, aluguéis e prestação de serviços. Nos últimos anos, a UFS teve um crescimento expressivo de alunos matriculados, cursos e na ampliação das dependências físicas, principalmente no Campus de São Cristóvão. A Universidade também está presente nas cidades de Aracaju, Itabaiana, Lagarto e Laranjeiras, além de 14 polos de

TERMOS E SIGNIFICADOS LOA – Lei Orçamentária Anual

ORÇAMENTO – Previsão de receitas e despesas

REPASSES – Recursos transferidos pelo Governo Federal DESTAQUES - Recursos de Emendas Parlamentares

RECURSOS PRÓPRIOS – Resun, aluguéis e convênios PESSOAL – Gastos com Funcionários

CUSTEIO - Gastos (água, luz, manutenção, etc.)

CAPITAL – (Obras, construções, equipamentos, etc.)

educação à distância espalhados pelo interior sergipano. Tudo isso foi consequência da expansão das Universidades a partir da metade dos governos de Lula (2003-2010) que incentivou o crescimento das instituições de ensino superior com ampliação de cursos e vagas. Para que pudéssemos mostrar dados com mais realismo e consistência sobre a evolução e a situação financeira da UFS diante da conjuntura atual, pesquisamos no portal da própria Universidade, nas seguintes publicações: Relatórios de Gestão, Prestações de Contas, Anuários Estatísticos e UFS em Números de 2004 a 2016. Detectamos que alguns dados são divergentes de um ano para o outro, o que dificultou um pouco a sistematização da coleta pela necessidade de consultas repetidas, e que isso sirva de alerta para que a Reitoria quando divulgar novos relatórios tenha preocupação com a fidelidade dos mesmos por se tratar de números oficiais. Com os números coletados procuramos o Pró Reitor de Planejamen-

to da UFS, o Prof. Dr. Rosalvo Ferreira Santos, para obtenção de mais dados sobre o financiamento e perspectivas. Analisamos variáveis como: alunos matriculados que passou de 11.338 para 25.838, professores efetivos e funcionários administrativos de 1.769 para 2.944, evolução do número de cursos ofertados, hoje com 113, e evolução das despesas realizadas nesse período. Segundo Santos, quase 75% dos gastos estão atrelados ao pagamento da folha de pessoal, que é uma despesa obrigatória e cresce ano a ano, independente de novas contratações. Quanto aos outros 25% são para gastos em custeio e investimentos. Afirmou ainda que em 2014, devido dificuldades orçamentárias do governo federal, foram estabelecidos alguns cortes no investimento, o que na prática significou uma redução efetiva dos repasses. Em 2005, o Governo Federal, via MEC, e as Universidades Federais do Brasil pactuaram que seriam garantidos, para o pleno funcionamento das mesmas, repasses mínimos sem-

pre acima da inflação do ano anterior como regra geral, seguindo a matriz aluno equivalente para custeio e investimento. Antes desse período, o investimento era de 1% ou 2% do orçamento, porém com a reestruturação e expansão das Universidades Federais (REUNI) chegou a 15 % do gasto anual, o que representou um acréscimo expressivo dos recursos na rubrica capital. Dessa forma, foi possível a construção de prédios, continuação de obras e aquisição de novos equipamentos, principalmente a partir de 2007. Na planilha abaixo podemos visualizar a evolução dos gastos da UFS entre 2004/2016, ressaltando que nesse período houve um acréscimo nos repasses para pagamento das despesas de quase R$ 300 milhões, pois se fosse somente pela inflação acumulada seriam de R$ 3.9 bilhões e não R$ 4,2 bilhões. Segundo o Pró-Reitor, para o aumento da receita auferida pela UFS no período: “tem que considerar como fatores preponderantes a expansão do número de alunos, a criação de novos

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE EVOLUÇÃO FUNCIONÁRIOS X ALUNOS 2004/2016 ANO 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016

PROFESSORES 725 774 841 926 956 930 1023 1069 1156 1345 1420 1455 1479

ADMINISTRATIVO 1044 1053 1068 1066 1158 1159 1127 1171 1177 1306 1478 1483 1465

TOTAL 1769 1827 1909 1992 2114 2089 2150 2240 2333 2651 2898 2939 2944

ALUNOS 11338 11651 12147 14141 15179 17190 20561 23061 24335 24190 24971 24984 25838

Fonte: Relatórios de Gestão - UFS 2004 a 2016


JORNAL CONTEXTO 55

tares sergipanos que proporcionaram um acréscimo, em dezembro/2016, de mais R$ 17 milhões para despesas de capital. Pode-se afirmar que o ciclo de fortalecimento das universidades com incremento anual de recursos acima da inflação está em franco declínio. O pacto de 2005 para expansão foi quebrado, principalmente depois da aprovação da PEC 55, aprovada em 2016, que limita o gasto público a inflação do ano anterior, além dos contingenciamentos que farão parte dos ajustes fiscais. Esses problemas tendem a se agravar cada vez mais nos anos seguintes, porque os investimentos em andamento precisarão ter continuidade e seus custos podem ser maiores do que a inflação. Quanto aos realizados, precisarão de continuidade, bem como as obras finalizadas agora, que precisarão de manutenção e exigirão novas despesas de custeio. Percebe-se ainda muita coisa por fazer, a exemplo de obras e equipamentos para melhor qualificar os cursos. Quanto ao custeio também haverá dificuldades para

“TEM QUE CONSIDERAR COMO FATORES PREPONDERANTES A EXPANSÃO DO NÚMERO DE ALUNOS, A CRIAÇÃO DE NOVOS CURSOS, QUE RESULTOU NO AUMENTO DA RECEITA ALUNO/EQUIVALÊNCIA” (ROSALVO FERREIRA, PRÓ REITOR DE PLANEJAMENTO DA UFS)

ANTÔNIO GONÇALVES

cursos, que resultou no aumento da receita aluno/equivalência”. Continua: “Consideramos mais importante para o funcionamento da Instituição as receitas nas dotações de custeio e capital, porque dá maior grau de mobilidade e autonomia financeira para os gastos da Universidade, já que os gastos com pessoal estão garantidos em lei”. Em 2015, o governo federal estabeleceu um corte nos gastos de capital de 50%, e de 20% no custeio, dessa forma a UFS foi afetada porque previa no orçamento daquele ano R$ 70 milhões em receitas de capital e recebeu somente R$ 34,5 milhões, R$ 15 milhões a menos que o ano anterior, comprometendo diretamente todo o planejamento e as obras em andamento. Quanto ao custeio foi liberada uma parcela a mais para instituições que estivessem com suas políticas de controle e ajustes de gastos adequados às exigências do governo federal, por isso a UFS não sofreu com os gastos nessa rubrica. Já em 2016, houve a liberação de emendas coletivas dos parlamen-

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equacionar, visto que os preços tendem a aumentar e os serviços prestados pela UFS não, por isso é imperioso que soluções sejam buscadas rapidamente, sob o risco de deterioração da Instituição. Outro ponto intrigante e preocupante é a questão salarial dos funcionários, que mesmo com alguns aumentos em determinados momentos do período analisado, existe uma demanda reprimida que tão cedo não terá resolução, quer nos quantitativos necessários para o funcionamento da Instituição, quer em reajustes salariais reivindicados pelas categorias dos servidores. “A minha formação me obriga dizer que investimento é uma variável dinâmica, ela tem sua importância no tempo de maturação, nenhuma universidade vai requerer uma taxa de crescimento de 10% como foi do período de 2007 a 2014 porque já está consolidado. Custeio é o problema”, finalizou o Pró Reitor por acreditar que a questão salarial será resolvida pelo Governo Federal por se tratar de verba obrigatória.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE GASTOS 2004 A 2016 ANO

PESSOAL

CUSTEIO

CAPITAL

TOTAL

2004

102.149.512,00

10.764.137,00

590.000,00

113.503.649,00

2005

116.878.998,51

16.340.167,00

900.000,00

134.119.165,51

2006

130.764.222,75

27.065.699,47

5.844.876,85

163.674.799,07

2007

149.415.264,58

39.910.706,92

15.639.103,89

204.965.075,39

2008

164.808.683,14

38.321.507,87

7.796.530,75

210.926.721,76

2009

190.664.746,28

37.236.615,37

21.625.843,06

249.527.204,71

2010

218.701.810,12

47.048.633,95

40.851.657,34

306.602.101,41

2011

281.682.357,21

70.071.186,61

47.442.830,55

399.196.374,37

2012

304.256.216,20

56.220.246,27

18.023.668,92

378.500.131,39

2013

318.635.506,46

64.977.178,08

46.918.403,87

430.531.088,41

2014

377.103.861,70

75.997.943,71

44.990.402,38

498.092.207,79

2015

419.692.638,36

101.141.799,27

34.519.620,39

555.354.058,02

2016

453.798.428,04

127.217.388,51

53.033.112,85

634.048.929,40

TOTAL

2.878.759.512,09

658.143.206,56

330.841.174,00

4.279.041.506,23

Fonte: Relatórios de Gestão UFS 2004/2016

Prof. Dr. Rosalvo Ferreira Santos – pró reitor de Planejamento UFS


EDUCAÇÃO

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UFS PASSA POR PROBLEMAS DE ESTRUTURA Movimento estudantil e reitoria divergem quanto aos dados dos últimos anos Thiago Vieira th91v@outlook.com

A

pesar do aumento constante nas verbas para auxílio estudantil na Universidade Federal de Sergipe (UFS), tais investimentos ainda não se converteram em melhores indicadores acadêmico, como demonstrado por eventos como a ocupação da reitoria em 2015, demandando soluções para problemas de moradia estudantil, e a convocação para regularização de vínculo para alunos que ultrapassaram o tempo máximo de conclusão do curso. Segundo o último Relatório de Gestão da UFS, relativo ao ano de 2015, as metas no eixo de “Assistência ao Educando de Graduação” foram superadas em 1,9%. Neste eixo estão incluídos auxílio cultura, auxílio esporte, auxílio creche, auxílio moradia, apoio pedagógico, auxílio inclusão, auxílio transporte, auxílio alimentação e moradia estudantil. Porém, em 21 de

julho de 2016, estudantes ocuparam o Gabinete do Reitor reivindicando o recadastramento de um grupo de estudantes que foram desligados do Programa de Residência Universitária e processos melhor estruturados de acesso e manutenção à assistência estudantil. A secretária de finanças do DCE, Nathália Mattos, pede maior transparência da reitoria em relação à verba para o programa, afirmando que “queremos saber para onde vai a verba do PNAES. O que foi apresentado pra gente, ainda que não de forma perfeitamente discriminada, como havíamos solicitado, foi que a verba que seria destinada para a assistência estudantil é usada para outros tipos de bolsas e incentivos, de fins científicos, por exemplo, que são fins legítimos, mas que não devem sair desse fundo. Esse fundo é destinado para estudantes que tem vulnerabilidade

socioeconômica”. Nathália também diz que grandes mobilizações estão sendo feitas para que a verba do PNAES seja totalmente destinada ao seu fim essencial, apoiar a permanência de estudantes de baixa renda matriculados em cursos de graduação presencial universidades federais. O representante do Diretório Acadêmico de Comunicação Social (DACS), Alisson Mota, questiona o uso deste fundo, afirmando que “a verba desviada do PNAES poderia ser usada para diversas coisas, inclusive para construir uma residência universitária, e é destinado para a pesquisa. É importante manter a universidade produzindo conhecimento, mas isso é prejudicial para os estudantes, na medida em que precisam ir atrás de bolsas ou empregos fora da universidade porque não tem assistência”.

Diante da falta de uma residência estudantil no campus, o processo de obtenção de moradia é feito de maneira problemática. Os próprios estudantes precisam se responsabilizar por firmar o contrato com o proprietário de uma residência e o valor do aluguel é repassado diretamente pela UFS aos residentes, muitas vezes com atrasos. Mayara Santos, do Conselho de Residentes, afirma que “a universidade precisa de responsabilizar e construir

uma residência. Em todo o Nordeste, a UFS é a única que não tem residência universitária. Sempre nos dizem que não tem verba, mas é muito mais caro manter o programa como ele é hoje. A relação do residente com o proprietário é direta e a universidade não se envolve nisso”. Mayara relata que constrangimentos com o atraso do pagamento dos aluguéis são constantes. “Quando a bolsa atrasa, quem é cobrado é o residente, que passa por constrangimento,

fica com medo de sair de casa, de abrir a porta”. A questão do suporte ao estudante ganha relevância quando se percebe que o índice de evasão na UFS aumentou centre os anos de 2013 e 2015, ao mesmo tempo em que a universidade expandia a oferta de matrículas. Mayara afirma que“ o que faz o estudante evadir é precisar escolher entre trabalhar ou estudar e se ele tem assistência, sempre vai preferir estudar”.


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O suporte aos estudantes para continuidade nos cursos mostra-se ameaçada pelos cortes no Orçamento da União direcionados ao Ministério da Cultura, que atingiram de forma grave todas as instituições federais de ensino superior no país, por conta da Proposta de Emenda à Constituição número

241, que estabelece tetos de gastos para toda a esfera federal até 2036. De acordo com as principais lideranças estudantis da UFS, neste período difícil, a universidade deve cumprir um papel de resistência. Nathália Matos afirma que “a gente não pode estar aparte do cenário em que vivemos hoje,

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que é um cenário de corte de verbas para a educação. Diversos programas que são frutos de muita mobilização estudantil estão ameaçados com os cortes promovidos pelo atual governo golpista de Michel Temer. É nesse cenário que a gente vai caminhar nos próximos anos e a reitoria precisa ter

um enfrentamento a esse tipo de medida. Não podemos ser coniventes com isso ou aceitar que a educação pague a conta por uma crise que não é nossa, a educação deve ser um caminho para sair dela”. De maneira oficial, a reitoria afirma estar em passo com o espírito dos estudantes.

Federal de Sergipe (SINTUFS), discorda da hierarquia das metas, pois ela atende aos interesses do MEC, em que a educação “deve ser medida tão somente pelo seu desempenho, ignorando a relevância e o impacto disso sobre a sociedade, mais precisamente na capacidade de que o que foi produzido possa ser útil à sociedade”. O modo de avaliar a educação a partir destes indicadores acadêmicos faz com que a universidade “se torne um centro de excelência ilhado das necessidades mais prementes da sociedade”. Entre estas necessidades mais prementes da sociedade está uma melhor educação básica para aqueles que as-

piram conseguir uma graduação no ensino superior. Pedro Leite, diretor do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia (CCET), entende que o foco na melhoria da qualidade do ensino é um fator-chave para aumentar a inclusão de uma parcela maior da sociedade dentre os egressos, porém atenta que problemas educacionais anteriores prejudicam o desempenho dos alunos na UFS. “A gente tem a situação de alunos que chegam aos nossos cursos com deficiências muito grandes. Você tem situações em turmas de Cálculo I em que 1 ou 2 alunos acabam aprovados em uma turma de 50. É um desempenho muito baixo”.

Reitoria apresenta foco na assistência estudantil Reeleita para o período se estenderá de 2017 a 2020, o objetivo principal da gestão capitaneada por Angelo Roberto Antoniolli é a melhoria da qualidade e do desempenho acadêmico. Segundo o Índice Geral de Cursos (IGC) do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), a Universidade Federal de Sergipe figura como a 9º melhor instituição federal de ensino superior do Nordeste, dentre as 45 existentes na região, tendo conceito 4 (de um máximo de 5) junto ao Ministério da Educação e Cultura (MEC) e. A melhoria destes índices é o principal objetivo da próxima gestão da UFS. Outros objetivos, como investimen-

tos em infraestrutura física para ensino, pesquisa e extensão; melhor relação e comunicação da UFS com a sociedade; gestão organizacional e desenvolvimento do pessoal da UFS; melhoria da qualidade de vida e sustentabilidade ambiental; são claramente definidos como secundários para a instituição no Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) para o período que se estende de 2016 a 2020. Porém lideranças institucionais e sindicais divergem sobre as metas definidas pela gestão e como estas serão alcançadas. Lucas Gama, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Técnico-administrativos em Educação da Universidade


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“A universidade tem que começar a se preocupar com uma estrutura paralela, que vá na linha de uma estrutura de reforço”

Para Pedro, essa meta precisa ser abrangida, “trabalhada, coletivizada com a comunidade acadêmica no sentido de construir processos acadêmicos que levem a resultados”. Pedro sugere que a UFS melhore os programas de ajuda pedagógica, “a universidade tem que começar a se preocupar com uma estrutura paralela, que vá na linha de uma estrutura de reforço”. Concordando com a priorização da qualidade e do desempenho acadêmico, Antonio Paixão, diretor do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde (CCBS), afirma que “a principal função da universidade, principalmente uma universidade pública, é oferecer um ensino de qualidade“. Para Paixão, o esforço concentrado neste eixo é necessário para

melhorar o “relativo insucesso” na relação entre o número de alunos que entram e saem da UFS. Entre o período de 2009 a 2015, a taxa de sucesso de graduação na UFS declinou de 52% para 32%, atingindo o número de 30% em 2014. Airton Souza, presidente da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Sergipe (ADUFS), entende que a realização destas metas está diretamente relacionada às condições de trabalho do pessoal da instituição, que “no momento são as piores possíveis”. Os cortes de recursos do governo federal têm feito as condições de trabalho piorarem progressivamente, sobre carregando os professores. “Eu tenho salas com 70 alunos. Qual a condição de trabalho de um professor desse?”.

Poucos professores, porém doutores Em 2011, a UFS dispunha de 1.069 professores efetivos, número que cresceu para 1.490 em 2015, enquanto no período o número de alunos aumentou de 29.266 para 33.021. Isso significa que em 2011 havia 11,24 alunos para cada professor, número que subiu para 14,69 em 2014, decorrente da expansão no número de matrículas, e diminuiu para 12,62 em 2015, em função da contratação de novos professores. Visando a melhoria da qualidade de ensino superior, em 2013 a presidente Dilma Rousseff sancionou a Lei nº

12.863, que torna obrigatória a exigência do título de doutorado para seleção de professores para universidades federais. Exceções podem ser feitas para regiões carentes de profissionais qualificados. Na UFS, isso gerou um quadro de professorado onde a representatividade dos doutores aumentou de 63%, em 2013, para 70%, em 2015; o que resultou na elevação do Índice de Qualificação do Corpo Docente (ICQD) no período de 4,25 para 4,4 (de um máximo de 5). Uma melhora no ICQD representa uma melhor nota no IGC.


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Airton Souza vê esta medida como um descompasso entre as prioridades da UFS, afirmando que o principal foco da UFS é o ensino. “O carro-chefe da universidade, o mote do porquê existe a universidade, é o ensino. E para o cara ensinar ele não precisa ter doutorado. Para ser um excelente professor, você só tem que ter mestrado. Já é suficiente”. Airton afirma que a especialização de Mestre está relacionada ao ensino, “você está apto a dar aulas. E você precisa na sala de aula é de professor, não

adianta você colocar um pesquisador na sala de aula”. Historicamente, vários cursos passam pelo problema de falta de professores. Durante esta gestão, isto aconteceu bastante, segundo os estudantes entrevistados, nos cursos de Geologia e Serviço Social, em que havia número expressivo de disciplinas sem professores. Mayara Santos relata que “no curso de Serviço Social estamos com déficit de 4 professores. São 8 turmas sem aulas e mais de 280 alunos prejudicados, sendo

que essas disciplinas são pré-requisitos e o curso acaba sendo atrasado por no mínimo um ano. Alguns estudantes passam um período vindo do interior todos os dias só pra assistir uma aula e a universidade não se responsabiliza por isso”. As dificuldades para continuidade do curso também se estendem a outras áreas, principalmente ao Restaurante Universitário (RESUN), com falhas na expansão resultante do programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI).

“Se a UFS não aderisse às oportunidades de expansão, nós continuaríamos sendo uma universidade pequena e sem condições de expansão”.

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Expansão em descompasso Para as lideranças estudantis em geral, o RESUN, localizado no campus de São Cristóvão, ainda não atende às demandas dos estudantes. Apesar da reforma e ampliação do pavimento superior, a estrutura física do RESUN não comporta o grande número de alunos e funcionários que almoçam e jantam na universidade, com reclamações sobre a falta de climatização. Nas demais localizações da UFS, a situação é ainda mais precária porque não há restaurantes universitários. Nathália aponta a situação do Hospital Universitário (HU), onde estuda, e dos outros campi. “Para os estudantes, tanto do Hospital Universitário como dos campi dos interiores Laranjeiras, Itabaiana, Glória e Lagarto, não existe restaurante universitário ou qualquer outra ferramenta que forneça preços acessíveis ou isenção a quem deve ser isento”, esclarece. O estudante de Turismo e membro do Conselho de Residentes, Uemisson Gois, também explica que devido ao baixo valor do auxílio-alimentação, depende do RESUN e muitas vezes enfrenta problemas. “Os 400 reais para alimentação, que dividimos para 8 pessoas é utilizado para café da manhã e finais de semana. São 50 reais por pessoa para um mês inteiro e por isto somos obrigados a comer na universidade. Às vezes chegamos pra almoçar e já não tem mais comida, as pessoas que tem diabetes e não podem comer cuscuz às vezes tem que comer porque é só isso o que tem pra jantar, e perder aula também é frequente por causa da fila do RESUN. A fila já está chegando na Didática 6”, prédio que fica a cerca de 400 metros do restaurante. Desde a década passada a UFS engajou-se em um processo de expansão e interiorização, com a ampliação de espaços de ensino e pesquisa na sede de São Cristóvão e abertura de novos campi e polos em diversos municípios do interior de Sergipe. A UFS começou as atividades do campus de Itabaiana em 2006, oferecendo diversos cursos de licenciatura e bacharelado. Em 2009 o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou o campus de Laranjeiras, oferecendo cursos de Arqueologia, Arquitetura e Urbanismo, Dança, Museologia e

Teatro, pelo fato de terem afinidades artísticas, culturais e históricas com a tradição do município. Em 2010 foi inaugurado o campus de Lagarto, especializado na área de saúde, contando com uma proposta pedagógica focada em refletir as necessidades locais. Na gestão atual da reitoria da UFS, Nossa Senhora da Glória ganhou um campus em 2015, apelidado de “Campus do Sertão”, focado em pesquisa agropecuária, realizadas na Fazenda Experimental, junto à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Lucas Gama afirma que a maneira como a UFS se expandiu, principalmente seu processo de interiorização, foi feito de maneira desorganizada, levando à improvisação, como no campus de Nossa Senhora da Glória. “É um campus que não possui nenhuma dotação de infraestrutura física capaz de atender com qualidade não só aos discentes, mas também aos profissionais recém-chegados”. O espaço do campus é cedido pela prefeitura do município, “que não foi projetado para funcionar como campus de uma universidade. Hoje o que nós temos lá são contêineres adquiridos pela reitoria e colocaram ar-condicionado”. Isso seria resultado de uma expansão que colocou a qualidade da mesma em caráter secundário. Somando críticas à expansão, Airton Souza afirma que o modo como ela foi feita levou à deterioração das condições de trabalho. “Professores de Química têm que trazer as coisas de casa para fazer as experiências no laboratório. Isso é condição de trabalho?” Apesar dos reveses, Antonio Paixão considera que a expansão era necessária e foi uma atitude corajosa, principalmente a instauração do Campus do Sertão, pois é algo que dependeu de apoio político instável. Foi preciso ser feito “progressivamente, através de emendas parlamentares, ajuda do governo do estado, ajuda de prefeitura… E no começo todo mundo ajuda. Depois a universidade fica sozinha para resolver os problemas”. Se a UFS não aderisse às oportunidades de expansão, “nós continuaríamos sendo uma universidade pequena e sem condições de expansão.


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O SONHO UNIVERSITÁRIO VIVIDO NA REALIDADE Estudantes chegam à universidade sonhando com a academia, mas sem o devido conhecimento sobre o curso escolhido

JABSON SOUZA

Jabson Souza jabs.souza@hotmail.com

Entrada principal da Universidade Federal de Sergipe.

A

ltos índices de evasão no ensino superior revelam que, por terem que decidir muito cedo pela profissão, jovens nem sempre fazem a opção mais acertada, e terminam por se decepcionar com o curso de graduação. Mas, essa dúvida sobre o que ser quando “crescer” também persegue quem já cresceu. Apesar da felicidade de ingressar no ensino superior, dúvida, ansiedade e medo são alguns dos sentimentos que se confundem na cabeça de jovens estudantes que pisarão pela primeira vez numa universidade. E toda essa angústia tem um motivo. Nem sempre a escolha de uma profissão que deve ser exercida para o “resto da vida” é feita de maneira correta. Entre alguns dos motivos das desistências dos alunos está a falta de conhecimento e orientação sobre a profissão escolhida. Essa falta de informação somada a escolhas cada vez mais precoce, muita das vezes resulta em frustrações e desistências. Drama vivido por Claudia Queiroz e Dayane Andrade que tiveram que rever suas escolhas depois de se depararem com a realidade dos cursos. A primeira concludente em 1994 e a segunda atualmente cursando. Claudia, antes de ser graduada em psicologia na década de 90, tentou o ensino superior outras duas vezes. A primeira tentativa foi aos 16 anos quando optou por fazer arquitetura, “não tinha a menor ideia do que queria para minha vida. Como gostava de de-

senhar, me inscrevi”, afirmou ela, que passou no vestibular, mas não chegou nem a fazer a matrícula quando viu que a grade incluía muitas matérias de exatas. Na segunda tentativa, escolheu letras. “Sempre fui boa em gramática e literatura na escola, mas continuava sem a menor ideia sobre vocação profissional”, acrescenta Claudia, que cursou apenas um ano, pois não era essa profissão que almejava. Por fim, viver no mundo acadêmico abriu muitas perspectivas para a Claudia que ouviu o conselho do Dr. Edgard e foi assistir algumas aulas de Psicologia que ficava próximo do curso de Letras. “Me encantei, parti para o terceiro vestibular e passei. Foi um caminho longo, mas valeu à pena!”, concluiu a psicóloga. Assim como Claudia, muitas pessoas vivem o “Sonho Universitário” sem saber o que esperar da vida acadêmica e do curso que escolheu. Apenas imaginaram que o fato de gostar da profissão, achar que tem afinidade ou ter admiração pelo profissional de determinada área é suficiente para fazer a escolha de qual caminho seguir na graduação. Drama vivido por Dayane, aluna no 8º período de Fisioterapia, que optou pelo curso quando aos 15 anos precisou fazer algumas sessões de fisioterapia e se encantou pela área. Hoje, pensa em mudar de curso. “Logo nos primeiros períodos percebi que o curso não era exatamente o que eu pensava, porém demorei muitos anos para pensar em mudar, pois estava envolvida nas ativi-

dades do curso, quando cheguei ao 8º período tomei a decisão de me afastar totalmente e procurar algo que realmente eu gostasse e me identificasse, hoje penso em fazer turismo ou gastronomia, que são áreas que tenho forte interesse”, afirma Dayane. Claudia e Dayane são dois retratos de épocas distintas, mas de um mesmo Brasil com milhares de jovens indecisos e sem orientação. Para Christian Lindberg, Doutor em Educação, com ênfase em Filosofia da Educação, pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), essa indecisão ocorre por vários fatores como ter que fazer uma escolha precoce ou com poucas informações. “Além disso, há fatores sociais que tendem a influenciar a escolha individual, como aquelas relacionadas às carreiras que trazem maior rentabilidade financeira ou estão na moda. Adiciono uma possível frustração entre a expectativa do ingressante e a realidade do curso, que pode ser de tal forma a ponto de criar um foço enorme. Por fim, não posso deixar de registrar as condições materiais do próprio estudante. Por exemplo, ele fez a escolha do curso em plenas condições, contudo, precisou trabalhar para ajudar na renda familiar”, conclui o professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS). O resultado para tanta indecisão, falta de condições e orientação pode ser observado diretamente nos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Aní-

Claudia e Dayane são dois retratos de épocas distintas, mas de um mesmo Brasil com milhares de jovens indecisos e sem orientação. (Jabson Souza)


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ARQUIVO PESSOAL

ARQUIVO PESSOAL

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“Me encantei, parti para o terceiro vestibular e passei”. Cláudia Queiroz, psicóloga.

sio Teixeira (Inep) ao revelar uma taxa de desistência do curso de ingresso em 2014 de 49%, ou seja, praticamente um em cada dois alunos abandonou ou mudou o curso de origem. O levantamento levou em consideração os alunos que ingressaram em 2010. Apresentado aos dados do Inep, o Ministro da Educação, Mendoça Filho, afirma que “o Censo da Educação Superior reforça a tese de que há uma necessidade muito grande de reforma do ensino médio no Brasil. A mudança, proposta pela Medida Provisória nº 746/2016, terá um impacto direto nos indicadores do ensino superior”, garantiu o ministro reconhecendo que também a falta de orientação contribui para que haja uma desistência significativa dos jovens que ingressam no nível superior, sendo a ausência de orientação vocacional durante o ensino médio um dos agravantes. A posição do ministro sobre o fato da reforma do ensino médio intervir positivamente nos índices da evasão no ensino superior deve ser vista com cautela, pois antecipar a escolha por uma formação profissional pode aumentar os anseios. “A evasão do ensino superior difere de curso para curso e na modalidade que o ensino é ofertado (presencial ou à distância). Contudo, um dos conceitos que domina a reforma do ensino médio é a especialização precoce, quando deliberou que o estudante de ensino médio escolherá um itinerário formativo no 2º ano. Ora, se com

Cabe-nos indagar qual é o papel da universidade para o desenvolvimento econômico e social de uma nação que é marcada por disparidades gigantescas no seu interior? (Jabson Souza)

Christian Lindberg, professor universitário

a perspectiva propedêutica (corpo de ensinamentos introdutórios) existente no atual ensino médio o egresso já tem dificuldades para selecionar a carreira profissional que almeja, imagine como isso pode se agravar com a especialização precoce?”, pontua Lindberg. Reduzir a evasão do ensino superior é um sonho distante que começa a ser revelado por propostas remotas como a apresentada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), adotada pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e Universidade Federal do ABC (UFABC). De acordo com a proposta, os estudantes ingressam em um bacharelado interdisciplinar, com duração de três anos. Dando a ele uma formação geral, independente da profissão que queira seguir. Os alunos fariam estudos clássicos de História, Filosofia, Ética, Lógica, Pensamento Matemático, Cidadania, Política, Saúde e Artes. O universitário também pode antecipar o conteúdo da formação básica da área profissional que pretende cursar posteriormente. Após esse primeiro ciclo, o aluno escolhe uma área de seu interesse ou para nessa formação inicial. É um projeto político-pedagógico que apresenta uma alternativa a atual formatação das universidades, porém deve ser visto com atenção, pois, segundo o Professor Christian, existem questões que precisão ser respondidas como “a universidade brasileira atende aos desafios postos pela contemporaneidade e para a inserção soberana do Brasil no

mundo globalizado? Penso que as repostas extraídas desta questão podem balizar futuras formatações acadêmicas no interior da universidade”, afirma ele. O Sonho Universitário vai continuar vivo em milhares de brasileiros, entretanto, deveria ser revelado antes da desilusão que se apresenta com o conhecer do mundo acadêmico. Porém, pensar uma formatação alternativa para o atual modelo das universidades é algo complexo, que envolve muitos fatores. “A universidade brasileira é recente, tem menos de 100 anos. Por mais que tenhamos algumas das melhores instituições do planeta, como a USP, a UNICAMP e a UFRJ, nossa experiência é nova, se compararmos com outros países. Antes de pensarmos em formatação, devemos responder o princípio político que deve nortear a universidade. Cabe-nos indagar qual é o papel da universidade para o desenvolvimento econômico e social de uma nação que é marcada por disparidades gigantescas no seu interior? Além disso, a universidade também precisa ser inserida na discussão em torno das questões ambientais e da geopolítica internacional. É com base nestas questões, penso, que devemos pensar em uma formatação para a universidade”, concluiu Christian.


SEGURANÇA PÚBLICA

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INSEGURANÇA: UM FATOR PRESENTE NA VIDA DOS UNIVERSITÁRIOS

Placas com telefone de segurança da UFS estão espalhadas pelo Campus, mas não trazem tranquilidade.

A falta de segurança nos campi da UFS tem causado temor entre os universitários, além de prejudicá-los no desenvolvimento de atividades Yasmin de Freitas (yasminfreitas.ufs@gmail.com)

N

Nas rodas de conversa, assembleias, redes sociais ou em pesquisas na internet, quando o assunto é a Universidade Federal de Sergipe, relatos de alunos que já passaram por momentos de tensão e insegurança dentro do campus ou em seu entorno aparecem com cada vez mais frequência, sendo, inclusive, difundidos nos grupos compostos por universitários. Em alguns casos, os universitários alertam aqueles que frequentam o mesmo lugar e podem passar por situação semelhante; outros buscam demonstrar a sua revolta e chamar a atenção daqueles que poderiam trazer alguma solução para o problema. Mas, aparentemente, toda essa mobilização não tem sido o suficiente. No campus de São Cristóvão, onde está localizada a grande maioria dos cursos da Universidade, a insegurança é constante. Os casos de violência ocorridos no local já foram pauta de diversos veículos de comunicação da capital, sem contar os casos mais corriqueiros que são divulgados apenas nas redes sociais dos alunos ou em pequenos grupos. Somado a estes também estão os assaltos no terminal e nas linhas com destino a UFS, que também tem causado temor entre os estudantes que utilizam esse meio de transporte. Lucas de Oliveira, estudante do oitavo período de Ciência da Computação, acha a segurança do campus muito frágil. “A falta de iluminação nos estacionamentos é o mais agravante, tanto para quem sai dos estacionamentos quanto para quem anda pelas vias da entrada da UFS”, aponta o universitário, que ainda acrescenta a falta de seguranças em alguns espaços como outro problema em relação à segurança do local. O universitário também contou que a situação fica um pouco mais complicada quando acontecem eventos na universidade, como a colação

de grau organizada pela Reitoria ou as calouradas, que geralmente acontecem no Centro de Vivência. Isto porque apesar de, teoricamente, ser mais fácil perceber algo pela quantidade de pessoas transitando no local, essa aglomeração também contribui para que pessoas mal intencionadas se infiltrem de forma mais fácil. Lucas, inclusive, relatou um desses episódios: “A aula tinha ido até umas 22 horas. Aí uns colegas chamaram para ir ver a calourada que estava rolando no [Centro de] Vivência. Ficamos lá até por volta de meia noite. Aí saímos eu e um dos colegas, cada qual em seu carro. Vimos na entrada da UFS um movimento estranho de dois Wcaras de moto. Os mesmos atravessaram a avenida com a moto e aparentemente, não posso dizer com certeza, um dos caras estava armado e vinham em direção a entrada da UFS. Ao ver o movimento meu colega e eu aceleramos com força para sair logo da UFS. Mais na frente ao passarmos um pelo outro comentamos pela janela do carro sobre o que tínhamos visto. E os dois tivemos a mesma opinião. Os rapazes na moto estavam planejando praticar assaltos ali na entrada da UFS.” Apesar de nunca ter sido vítima de assalto dentro do campus, o universitário já foi assaltado duas vezes em seu trajeto para a UFS: uma no terminal de integração localizado próximo a UFS, quando saia de uma aula no turno da noite; e outra no terminal Zona Oeste, que fazia parte do seu trajeto da universidade até sua casa, em um sábado à tarde. E embora não tenha atrapalhado o aluno a ponto de lhe prejudicar no desenvolvimento de suas atividades acadêmicas, lhe gerou alguns momentos de tensão e uma mudança em sua postura. O CAMPUS DAS ARTES Conhecido como o “Campus das Artes”, a unidade da UFS em Laranjeiras,

“FATALMENTE SAIO QUE NEM UM DOIDO OLHANDO PARA TODOS OS LADOS PARA VER SE VEJO ALGUM MOVIMENTO ESTRANHO” (LUCAS OLIVEIRA)


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“DEPOIS DO ASSALTO, MINHA ROTINA DIÁRIA EM RELAÇÃO A MINHA IDA PRA UNIVERSIDADE MUDOU. TINHA QUE PEGAR MOTO TÁXI, MESMO MORANDO PERTO, CHEGAVA ATRASADA MAS AULAS, SAIA MAIS CEDO DELAS. EU TINHA MEDO DE IR PRA UNIVERSIDADE” (RISONEIDE DOS SANTOS)

cidade localizada a 20 quilômetros da capital, também já foi alvo de críticas quanto à segurança. Poucos guardas monitorando o local, falta de controle no acesso ao campus e falta de preocupação com a segurança dos alunos, professores e demais profissionais que ali transitam são alguns dos problemas não só deste como dos outros campi. Além disso, o espaço localizado na cidade histórica também já foi alvo de inúmeros assaltos. Vinícius Rodrigues, arquiteto e urbanista recém-formado, relata que, mesmo com estes problemas, durante os cinco anos em que frequentou o campus, sentia-se mais inseguro no seu entorno. “Apesar de a edificação ser aberta à comunidade e não haver controle de acesso, o sentimento de insegurança vinha da porta para fora, principalmente quando precisava sair da cidade após as 19h”, conta. Os relatos de assalto aos ônibus intermunicipais (meio de transporte utilizado pelo arquiteto em boa parte da sua graduação) e também na cidade, além de despertar insegurança entre os universitários, também atrapalhava o desenvolvimento de algumas atividades do curso, que é integral. “Havia aulas em que o horário de término era às 19h e foram inúmeros episódios em que o professor precisava terminar a aula beirando às 18h devido à insegurança pela qual a cidade emanava. (...) Em algumas atividades de extensão que eram planejadas para acontecer fora da universidade, de modo a integrar ainda mais comunidade e universidade, eram ceifadas ou até mesmo prejudicadas pela falta de segurança”, relata o arquiteto que já teve atividades de extensão barradas pela Polícia Militar devido à periculosidade presente em alguns pontos turísticos que pretendiam visitar. Em 2014, devido a onda de violência presente na cidade, ocorreu uma greve de iniciativa dos próprios

alunos. Neste momento, a prefeitura interveio, colocando escoltas policiais nas redondezas do campus. Porém, segundo Vinícius, foi uma medida provisória, tomada apenas para amenizar o problema. “Os policiais ficavam apenas em determinado turno e não era diariamente. Apenas nas sextas-feiras eles ficavam próximos ao Campus e, mesmo assim, não éramos escoltados no trajeto que fazíamos até o Campus. Depois de algum tempo, os policiais não iam mais e tudo voltou ao estágio anterior, além de a prefeitura ter emitido nota pública afirmando que o problema da violência na cidade era motivada pela presença dos estudantes e da própria universidade, exacerbando ainda mais a prática recorrente de termos sido sempre alvos da insegurança e da falta de compromisso da administração pública para com a segurança no centro histórico de Laranjeiras”. O CAMPUS DA SERRA Inaugurado em 2006, o Campus Prof. Alberto Carvalho, localizado em Itabaiana (58 quilômetros da capital sergipana), também apresenta problemas relacionados à segurança, tanto no interior do campus quanto em seu entorno. Risoneide dos Santos, formada em Química Licenciatura, conta que já foi assaltada em seu trajeto da universidade para casa, mas que também já passou por situações de insegurança dentro do campus. A facilidade do acesso ao campus aparece como um dos fatores que proporcionam essa sensação de insegurança. “Não me sentia segura, porque lá era muito aberto, entrava quem quisesse, então por mais que eu conhecesse muita gente, sempre tinha aqueles que entravam lá pra fazer qualquer coisa”, confessa Risoneide. Esta situação parece ser ainda mais grave, por-

que, segundo a ex-universitária, apesar de ter uma quantidade de seguranças que ela considera regular, estes não atuam, pois estão ali para “proteger apenas o patrimônio da Universidade”. A unidade de Itabaiana conta com câmeras de segurança em áreas como os corredores dos departamentos, próximo a biblioteca e a sala de computação. Segundo Rosineide, o campus conta com seis guardas por turno - dois que circulam pelo campus e os outros quatro distribuídos nas portarias, sendo dois em cada. Mas, mesmo com estas medidas de segurança, professores e alunos já foram vítimas de assaltos dentro do campus. A itabaianense relatou o caso de uma professora, que teve aparelhos eletrônicos furtados da sua sala; bem como de um colega que teve sua moto furtada. Em ambos os casos, ela disse que as câmeras não foram o suficiente, já que não intimidou o rapaz que se passou por aluno e entrou na sala da professora, e as imagens de monitoramento não foram fornecidas para o universitário quando o mesmo fez a solicitação. Risoneide estudava no turno da tarde, mas também assistia aulas pela manhã. Ela contou que por ser um campus pequeno, era normal conhecer muitas das pessoas que por ali transitavam e foi por este motivo que ela se sentiu ameaçada quando um rapaz que nunca tinha visto dentro do campus começou a seguir ela e uma amiga. “Era umas seis horas da noite (...) e a gente percebeu que esse cara sentou próximo da gente e ficava encarando, encarando, encarando. Aí a gente saiu, foi pra outro lugar, pra área onde tem a lanchonete que é mais movimentado e esse cara foi atrás da gente (...) pra onde a gente ia, ele ia atrás. A gente chegou pro guarda que tava na guarita, falou a ele e ele disse ‘vou ficar observando, não posso tomar nenhuma ati-

tude’, porque querendo ou não o cara não tinha de fato feito nada com a gente, mas poderia ter acontecido”, relata a ex-universitária. Estes acontecimentos afetaram o seu desenvolvimento no curso, bem como o seu psicológico. O CAMPUS DA SAÚDE O Campus Universitário Professor Antônio Garcia Filho, também conhecido como o “Campus Saúde”, localizado em Lagarto (81 quilômetros de Aracaju), reúne oito cursos da área da saúde: Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina, Nutrição, Odontologia e Terapia Ocupacional. Para Nayara Rezende, estudante do quinto período de Medicina, a parte externa do campus - mais especificamente, uma ladeira que faz parte do trajeto dos alunos e dá acesso a UFS - traz mais insegurança do que as dependências do campus. A jovem disse que nunca soube de assaltos dentro do campus, mas conhece muitas pessoas que foram assaltadas na avenida que dá acesso à universidade, um local mais distanciado da cidade. “Normalmente ocorre em ondas... Numa semana ocorrem vários assaltos, aí depois fica cerca de um mês tranquilo e assim sucessivamente. Eu poderia até falar que essa insegurança muito ocorresse por conta da iluminação que é um pouco precária nessa avenida, mas a maioria dos assaltos ocorrem pelo dia mesmo”, conta. Devido a essa constante insegurança em um local que faz parte do trajeto dos alunos, eles decidiram tomar uma providência. “Nós já enviamos ofício pra aumentar o policiamento nos arredores. Melhorou o policiamento, mas a polícia não pode entrar no campus também pra fazer ronda lá dentro”, relatou a universitária. Porém, mesmo após tal medida, o local ainda causa apreensão entre os alunos, pois a

polícia não está nas ruas a todo o momento, fazendo com que pessoas mal intencionadas se aproveitem dessa ausência para assaltar, principalmente, os universitários que por ali transitam. Diferentemente dos alunos de outros campi da UFS, Nayara não reclama da quantidade de seguranças. Segundo ela, é uma boa quantidade, sendo que, normalmente, tem um ou dois guardas em cada prédio. Porém uma característica se iguala ao campus de Itabaiana: “os guardinhas que tem lá não podem nos defender, somente o patrimônio público”, aponta a estudante de Medicina. A universitária reside em Itabaiana e se desloca todos os dias para Lagarto através do ônibus da associação de universitários de sua cidade. O ônibus a deixa na entrada do campus, porém isso não a livra do perigo, já que há um prédio anexo onde, às vezes, são realizadas algumas de suas aulas. Por se localizar além dos muros do campus, os estudantes precisam transitar por esta avenida com pouca segurança, deixando-os um pouco apreensivos. O que pode ser considerado um diferencial no campus de Lagarto é que as demandas dos alunos parecem ser mais atendidas do que nos demais. Nayara relatou dois episódios em que os alunos se mobilizaram, através de ofícios, e conseguiram resultados positivos - e em um tempo considerado regular, quando levado em consideração que estamos tratando de iniciativa pública. O primeiro episódio, já citado, diz respeito ao aumento do policiamento nos arredores do campus. E o segundo foi a colocação de muros no campus, que não existiam até o ano passado. A universitária relata que os estudantes ficavam apreensivos lá dentro, pois a falta de muros e a existência de mais de uma portaria facilitava o acesso ao campus; mas após a solicitação dos universitários, hoje, o campus está todo murado.


INFOGRÁFICO

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O “REAL” JUBILAMENTO

Entenda o processo de Jubilamento e como regularizar o seu vinculo acadêmico Júnio Tavares tavaresjest19@gmail.com

Leandro Gomes leepgsilva@gmail.com

A

Marcos Henrique polimfotos@gmail.com

Universidade Federal de Sergipe, por meio da Pró-reitora de Graduação, divulgou no último dia 08/06, um edital convocando os discentes de graduação presencial enquadrados no Art. 296, “Os estudantes regularmente matriculados em cursos de graduação da UFS que, no momento da aprovação destas Normas, Já tenham extrapolado o prozo máximo estabelecido para integralização curricular e os que não terão condições de concluir no prazo máximo, devido ao reduzido número de créditos cursados”. Este chamado público tem por objetivo regularizar os vínculos acadêmico daqueles que não cumpriram ou não cumprirão o prazo máximo para a conclusão de seus cursos. Os alunos convocados deverão comparecer, portando documento de identificação com foto e CPF, nos horários e locais especificados, para entre-

O aluno é considerado “PréJubilável”  quando não se encaixa na condição de Jubilável e a CH Pendente é maior que a CH Média por semestre letivo multiplicada pelo número de semestres  restantes.  A  CH Média  é calculada considerando a razão entre a CH Total do curso e o Prazo Padrão para Conclusão do curso em semestres.

O CICLO DO JUBILAMENTO

Exemplo: Um aluno que em 2017.1 possui pendência em 1500 horas e seu prazo para Conclusão é 2017.2. 1 - Se o Calendário Acadêmico atual é 2017.1 e o prazo para conclusão do aluno é 2017.2, o numero de semestres restantes é igual a 2.

2 - Considerando que a CH Total de Curso é 2.850h e o Tempo Médio do Curso é de 8 Semestres, a CH Média por Semestre é = 2850 divido por 8 = 356h

3 - Assim, como a CH Pendente de 1500h é maior do que 356h multiplicado por 2 (712h), o aluno é “Pré-Jubilavel”

1.  

Documento oficial com foto + CPF

4.

Por fim, será concedido um novo prazo para se formar

Atenção no prazo e local especificadoo para entregar o termo assinado

2.  

3.

A matricula deve ter sido deferida em 2017.1

gar o termo de regularização de vínculo devidamente assinado. Somente poderão participar do Cadastro Específico os alunos com matrícula curricular deferida em 2017.1, será atribuído um período curricular inicial, correspondente ao maior nível da estrutura curricular em que pelo menos 75% da carga horária correspondente a todos os componentes curriculares obrigatórios. Será concedido um Prazo Ampliado da Conclusão do Curso, definido como o prazo padrão de conclusão, deduzidos os níveis correspondentes ao período inicial atribuído, acrescido de uma unidade. Nos períodos letivos posteriores à adesão ao Cadastro Específico, será cancelado o vínculo do aluno que não apresente condições de concluir o curso dentro do Prazo Ampliado, mesmo cursando a carga horária máxima, por período letivo, permitida para o seu curso.

Jornal Contexto 55  

Edição 55 do Jornal Contexto produzido pelos estudantes de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe

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