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Sem “papas” na língua Desligado das tecnologias e das redes sociais, Ricardo Boechat se destaca como um dos colunistas mais bem quistos do Brasil

"Q

ue pontualidade britânica, hein?”. Foi assim que o jornalista nos recebeu na sede da Bandeirantes, no Morumbi, para um batepapo sobre carreira, família e política. Entre um intervalo e outro de sua cravada rotina de trabalho - Boechat produz a coluna semanal da IstoÉ, apresenta o diário Jornal da Band e dá bom dia aos ouvintes da BandNews FM -, ele nos conta como é possível equilibrar trabalho e convivência em família. Sim, ele consegue dividir seu tempo entre a rotina 220V das redações, seus seis filhos e sua doce Veruska – não necessariamente nesta ordem, é claro. Como foi o começo da sua carreira? Comecei, não vou chegar a dizer que foi por acaso, mas sem ter como foco essa profissão. Eu estava procurando um emprego, e pronto. Cheguei a trabalhar um tempo vendendo livros. Na verdade, vendia aquelas coleções feitas para combate. E andei procurando emprego em outras coisas que apenas me dessem a possibilidade de ter um salário no fim do mês e uma autonomia, que era o que eu procurava aos 17 anos de idade. Acabei batendo no Diário de Notícias por conta de uma indicação - uma bronca, na verdade -, de um cliente em potencial para comprar livros. Ele trabalhava na área comercial do diário e era pai de uma colega minha de escola. Ou melhor, ex-colega, porque naquela época já tinha parado com a escola para poder fazer outras coisas. Eu não tinha mais saco de estudar. Aquela rotina escolar simplesmente não dava mais pra mim. Você queria ter independência econômica, certo? Queria ter independência econômica, queria poder sair de casa. Aquelas coisas que a minha geração aspirava muito mais do que a geração dos meus filhos aspiram. E o pai dessa amiga minha disse “você está fazendo isso sem almejar uma carreira, um horizonte? Você tem que procurar uma coisa onde possa construir um horizonte e tal. Passa lá no Diário de Notícias que eu vou ver se eu te indico pra você fazer alguma coisa por lá”. E eu fui. Fui como teria ido se ele trabalhasse para uma empresa de ônibus e tivesse uma vaga para cobrador. Quando eu cheguei lá, o chefe de reportagem mandou “Fica aí, menino. Vai pegando esses papéis, dá uma olhada e não sei o quê”. Foi me dando tarefas muito elementares, eu fui ficando. Aos poucos, fui me ambientando ao clima da redação – ou não sei se foi a redação que foi se ambientando

a mim, eu era um inútil completo e tal. E dalí começou tudo. Fui chamado para trabalhar como repórter estagiário na coluna do Ibrahim Sued. Fiquei lá 14 anos e aprendi um pouco uma coisa que eu acabei fazendo a maior parte da minha vida profissional que foi coluna diária. E qual foi seu maior desafio nesse começo? O desafio era sobreviver ao dia a dia, ao ambiente que você estava conhecendo. É o mesmo desafio de qualquer pessoa que começa uma carreira. Até as dúvidas em relação se era aquilo mesmo que eu queria. Porque eu não tenho uma relação de paixão com o jornalismo. Eu tenho mais é uma compulsão. Você acha que seria mais feliz em outra atividade? Chego a desconfiar que algumas atividades hoje com quase 60 anos - com mais de 40 de jornalismo -, chego a desconfiar que eu pudesse ser mais feliz, se eu tivesse pendor para isso, sendo músico, por exemplo. Adoraria poder lidar com música. Ou talvez no mercado de artes. Trabalhando em galeria, em museu, trabalhando como curador, como marchand, quem sabe?! As pessoas deveriam acreditar em tudo que lêem? Não, você não tem que acreditar em tudo. Não precisa ir muito longe, às vezes, eu estou no rádio, falo uma coisa que é uma arrematada besteira e eu percebo no dia seguinte. Portanto, a crença cega é uma idiotice, seja em Deus, seja num jornalista - que está muito abaixo do hipotético Deus. Esse questionamento é algo necessário. Bem necessário. Na sua opinão, as pessoas estão mais contestado-

ras, mais conscientes? É difícil avaliar o nível de consciência – chamemos assim. Hoje, você tem alguns bilhões de pessoas acessando informações e eventualmente concordando passivamente com elas ou não. A fração consciente questionadora aumentou muito a partir do contingente maior das pessoas que tem acesso a informação. E claro, também se pode ver melhor aquelas que aceitam sem contestar qualquer versão. Mas outrora, essa parte que aceitava, ou que talvez nem aceitaria, simplesmente nem tinha acesso a informação nenhuma pra podermos fazer essa análise comparativa.­ Mas os jovens eram mais revolucionários, não? Quais jovens? Eu era. Meus amigos eram. Mas a massa que não era, você visualizava como? O Ruy Castro tem uma frase ótima: “Os velhos adoram induzir os jovens a ter saudade do tempo deles”. Havia outros valores, outras utopias, mas elas eram consideradas vividas e combatidas por um pedaço desses jovens. Outro grande pedaço nem sabia o que era utopia, nem sabia o que era tomar uma posição. Claro que eu valorizo as lutas que tivemos e as conquistas que logramos, entendo que elas foram determinantes pra minha geração e pra minha formação. Mas não vou aceitá-las como épicas porque eu acho muito pretensioso. Se você pudesse dar um conselho para os jovens que estão ingressando na comunicação hoje, qual seria? Eu adoro quando me perguntam isso e eu sempre recorro ao mesmo exemplo. E é muito cômodo quando você pode dar a resposta que alguém já deu porque eu acho definitiva.

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