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Editorial

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biossegurança é um conjunto de normas, medidas e procedimentos utilizados na produção animal que visam prevenir a entrada de doenças infecciosas ou parasitárias e controlar as já existentes em um rebanho. Sem dúvida, quando a biosseguridade é aplicada adequadamente, cumpre seu principal papel de prevenir e preservar a saúde animal. Atualmente, a suinocultura, independentemente do tamanho, localização e situação sanitária, mantém e cumpre protocolos de biosseguridade que são elaborados por veterinários especialistas que buscam promover a saúde e o bem-estar animal. O sucesso ou fracasso de um protocolo dependerá do quanto as pessoas envolvidas estão integradas em todos os processos. A maioria das granjas brasileiras adota um protocolo de biossegurança que pode ser auditado em suas rotinas nos programas de monitoramento, de duas a três vezes por ano. Mas existem considerações importantes em biossegurança que são gerenciadas em duas áreas: externa e interna. A externa tem como objetivo impedir que patógenos entrem no plantel, e a interna, evitar que patógenos se disseminem dentro do plantel. Também é importante considerar o conceito da biocontenção, que visa prevenir que patógenos causadores de doenças sejam disseminados de uma a outra propriedade. Nesse caso, a biocontenção ainda é pouco considerada (cadáveres, dejetos, qualidade dos

animais que se transferem), porém é um importante fator a ser considerado na epidemiologia. Nesta edição, o leitor poderá contemplar o caminho que atualmente se estabelece na suinocultura, que é a medicina preventiva por meio do conceito da epidemiologia, reforçado pela professora Masaio Mizuno em seu artigo sobre biosseguridade e em sua entrevista. Em se tratando de enfermidade, a Dra. Masaio também aborda a importante doença conhecida como PRRS (Síndrome Respiratória Reprodutiva Suína), que embora não esteja presente no Brasil, é muito evidente nos principais países de expressão de produção suína e se trata de uma síndrome com comprometimento respiratório e reprodutivo. Altamente transmissível que causa elevadas perdas econômicas e de difícil controle. Sobre o manejo de inseminar e soltar, pode-se aprender com o relato de campo, a experiência do veterinário Luis Sanjoaquin. Esta edição ainda traz uma completa revisão da 11ª edição do Simpósio Europeu de Manejo de Sanidade Suína (EAPHM-ECPHM), realizada na Holanda, entre 22 a 24 de maio, relatada pelo Dr. Antonio Palomo. Divirta-se e aprenda com os jogos e o teste seus conhecimentos e confira o sumário de pesquisa e as inovações dos informes publicitários. Boa Leitura As editoras

Foto: Organnact


Índice

6 Entrevista

Masaio Mizuno Ishizuka

10 Sanidade

Princípios de biosseguridade na suinocultura no controle de síndrome entérica, com ênfase em salmonelas: Um novo olhar

16 Manejo

Bem-estar na reprodução suína e a prática do manejo inseminar e soltar

20 Sanidade

Síndrome Respiratória Reprodutiva Suína (PRRS)

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Capa

Manejo Bem-estar na reprodução suína e a prática do manejo inseminar e soltar

Revista Técnica da Suinocultura

&cia

SUÍNOS

A Revista Suínos&Cia é destinada a médicos-veterinários, zootecnistas, produtores e demais profissionais que atuam na área de suinocultura. Contém artigos técnicocientíficos e editorias instrutivas, apresentados por especialistas do Brasil e do mundo.


30 Revisão Técnica

Resumo do 11º Simpósio Europeu de Manejo da Sanidade Suína

52 Sumários de Pesquisa 64 Informe Técnico Os desafios da lactação

O papel da vitamina 1,25 D3 Glicosídeo frente aos avanços genéticos da suinocultura Mais do que produtos, produzimos qualidade de vida Avaliação da Concentração Inibitória Mínima (CIM) de um produto natural à base de tomilho, alfarroba e chicória frente a cepas de Clostridium Perfringens

72 Divirta-se

Encontre as palavras Jogo dos 7 erros Teste seus conhecimentos Labirinto

Editora Técnica Maria Nazaré Lisboa CRMV-SP 03906 Consultoria Técnica Adriana Cássia Pereira CRMV - SP 18.577 Edison de Almeida CRMV - SP 3045 Mirela Caroline Zadra CRMV - SP 29.539

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Entrevista

Medicina Veterinária Preventiva: o pilar da produção animal Profa. Dra. Masaio Mizuno Ishizuka Professora Titular Emérita de Epidemiologia das Doenças Infecciosas da FMVZ/USP mizuno@usp.br

A epidemiologista Masaio Mizuno Ishizuka fala sobre biossegurança e recomenda como a suinocultura brasileira pode preservar a saúde de seus planteis

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médica-veterinária Masaio Mizuno Ishizuka é graduada pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), pós-graduada em Matemática (FM-USP) e doutora em Medicina Veterinária (FMVZ-USP), além de ter pós-doutorado em Metodologia de Investigação Epidemiológica, entre outras especializações. Atualmente é professora Titular Emérita de Epidemiologia das Doenças Infecciosas da FMVZ/USP. Nesta entrevista, Dra. Masaio Mizuno Ishizuka aborda importantes conceitos de zoneamento e compartimentação, faz uma reflexão de como o veterinário especialista em sanidade suína deve se reinventar para enfrentar os atuais desafios e aconselha os profissionais da área sobre a importância dos conceitos e do aprimoramento do raciocínio epidemiológico. Confira! S&C: Primeiramente, gostaríamos de agradecer pela sua disponibilidade para essa entrevista e também afirmar que é uma honra para nossa revista ter a senhora como destaque nessa edição. Poderia comentar um pouco sobre suas atividades na suinocultura, atualmente? M.M: Preliminarmente, muito obrigada pela oportunidade. Com relação às minhas atividades atuais voltadas à suinocultura, são duas: a

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primeira tem sido a análise de riscos em diferentes contextos da suinocultura, e a segunda é que tenho me aprofundado em temas de educação continuada em decorrência da preocupação com os grandes desafios que se apresentam nos cenários nacional e internacional, com a emergência e reemergência de doenças infecciosas altamente transmissíveis, transfronteiriças ou transnacionais, como Peste Suína Africana (PSA), Peste Suína Clássica (PSC), Seneca Valley vírus, Diarreia Epidêmica de Suínos (PED) e Síndrome Respiratória Reprodutiva Suína (PRRS). A PSC em razão da ocorrência no norte do Brasil; a febre aftosa, que tem sido objeto de minha atenção em razão da retirada da vacina em bovinos; e as doenças confundíveis (febre aftosa em suínos, estomatite vesicular e doença vesicular de suínos), que poderão complicar sobremaneira a vigilância epidemiológica da febre aftosa. S&C: Atualmente, as exigências do consumidor se fazem presentes em todas as partes do mundo. Temas como bem-estar animal, restrição ao uso de antibióticos e promotores de crescimento estão cada vez mais frequentes. Considera que finalmente chegamos à evidência da medicina preventiva? M.M: O paradigma do século XXI para a produção animal é Saúde-Produção e não mais Produção-Saúde, que teve início em 1980 e já ficou no passado. Medicina Veterinária Preventiva (MVP) já era palavra de ordem na produção animal muito antes de se falar em bem-estar animal. Temos que nos apressar. Por definição, MVP é o conjunto de medidas de profilaxia aplicada a um animal ou pequeno conjunto de animais (granja) e que beneficia apenas o animal ou os animais da granja. Além disso, para a sua aplicação, dispensa legislação. S&C: Acredita que a suinocultura brasileira está no caminho para adotar a biossegurança necessária quanto às medidas de controle e prevenção de doenças? M.M: Ainda não, e assim justifico: conhecendo os desafios atuais, verificamos que as doenças de transmissão oro-fecal, como salmoneloses, colibaciloses e campilobacterioses, apresentam importância sem precedente no comércio internacional.


Entrevista

Na maioria das vezes, manifestam-se como infecções e raramente como doenças, mas alguns sorotipos são importantes em saúde pública, e os mecanismos de propagação revelam que a biossegurança tradicional não é suficiente para enfrentar as salmonelas, acrescentando-se, ainda, as dificuldades de manejo de animais mortos e não abatidos e a respectiva compostagem. É preciso considerar a biossegurança do ponto de vista coletivo, e as medidas tradicionais de biossegurança não são suficientes para mitigar o risco destas patologias no âmbito coletivo. S&C: Como epidemiologista, qual a sua visão para a suinocultura brasileira se manter livre de doenças, como a PRRS? M.M: Existem alguns passos a seguir: 1. Adquirir animais e sêmen de países livres ou estabelecimentos de genética livres de PRSS; 2. Quarentena dos animais no Brasil, incluindo testes pareados para PRRS; 3. No estabelecimento de destino, inicialmente não misturar animais já alojados com os importados; 4. Nos estabelecimentos de produção de suínos localizados em região com desafio de javalis/javaporcos, repensar a biossegurança com relação a cercas e visitantes que tenham contato com caçadores de javalis, principalmente, ou em relação aos próprios caçadores; 5. Na suinocultura do Rio Grande do Sul, cuidados devem ser redobrados, pois o vírus da PRSS já é endêmico entre suídeos silvestres do Uruguai. S&C: Com tantos estudos e trabalhos científicos publicados sobre epidemiologia da PSA e PSC, qual a sua opinião sobre o que mais falhou nos países e nas regiões que hoje padecem com a presença dessas doenças? M.M: Em ambos os casos está comprovado carência em educação sanitária dos criadores; excessiva quantidade de criatórios de subsistência (fundo de quintal) que carecem de medidas de biossegurança; desafio representado por suídeos silvestres que já são identificados como reservatórios e extensas fronteiras secas que dificultam inspeção de bagagem de turistas. No caso de PSC, países ou regiões com ausência de estudos de risco deveriam ter investido na vacinação e progressivamente avançando com medidas de biossegurança. Cuidados entre regiões devem incluir vigilância rigorosa nas fronteiras porque o vírus se dissemina contido não apenas nos animais infectados e no sêmen contaminado com vírus da PSC, mas também em produtos de origem suína refrigerados, congelados ou industrializados, requerendo medidas de biossegurança aplicadas aos caminhões transportadores de suínos, aos motoristas e auxiliares. S&C: Em termos de biossegurança, considera que no momento, e no futuro próximo, as exi-

gências do controle de salmonela mudarão o rumo da suinocultura? M.M: Já deveriam estar implantadas. Os riscos mais importantes não são o homem e os veículos, mas roedores, moscas, aves de vida livre, principalmente necrófagas, cães e gatos, que são os tradicionais “visitantes noturnos” de composteiras. Eles se encarregam de disseminar salmonelas de um estabelecimento de produção para outro. É preciso entender que as medidas não podem estar voltadas para certos sorotipos selecionados de salmonela, mas para salmonelas que contemplam mais de 2.600 sorotipos e infectam indistintamente animais de sangues quente e frio, incluindo marinhos.

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S&C: Poderia comentar o que é compartimentação de propriedades em produção animal? M.M: Este conceito foi introduzido pela OIE (Organização Mundial da Saúde Animal) em 2004. Para falar sobre compartimentação, há que mencionar também zoneamento, embora os dois termos já estão sendo utilizados com igual significado. Compartimentação é aplicado a uma subpopulação animal primariamente definida com base no manejo e práticas de criação relacionadas à biossegurança. Na prática, as considerações espaciais (área geográfica dentro de um país) e de manejo sanitário de bens (animais e produtos derivados), incluindo medidas de biossegurança, são fundamentais na aplicação dos conceitos de zoneamento e de compartimentação. Antes da realização do comércio de animais e seus produtos, um país importador requer que suas condições sejam satisfeitas no que diz respeito à proteção apropriada da saúde dos animais. nº 61/2019 | Suínos&Cia


Entrevista

Para contribuir com a segurança do comércio internacional, o zoneamento e a compartimentação podem colaborar no controle e na erradicação de doenças no território dos países-membros. O zoneamento encoraja o emprego mais eficiente de recursos em certas partes do território de um país, e a compartimentação permite a separação funcional de uma subpopulação de outros animais domésticos ou silvestres pela aplicação de medidas de biossegurança, o que não pode ser alcançado pelo zoneamento. Além disso, em caso de ocorrência de um surto de doença, a compartimentação permitirá ao país-membro obter vantagens dos elos epidemiológicos entre subpopulações, com práticas comuns de biossegurança – a despeito da localização geográfica adversa – que favoreçam intensificar as medidas de controle e manter a continuidade dos comércios interno e externo. O fundamento da compartimentação é a biossegurança.

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2. Entender que seu papel é o de resolver problemas, porque os problemas relacionados com uma doença são imponderavelmente diferentes em razão de influências ambientais, sociais e econômicas, ou seja, ampliar os modos de pensar imaginando diferentes caminhos para solucionar os problemas cotidianos; 3. Maior empenho em habilidades sociais e interpessoais; 4. Inclinação para servir, ou seja, ajudar os outros; 5. Diante de dados colhidos na produção, como indicadores de saúde e de produtividade (zootécnicos), ser capaz de fazer leitura e interpretar essas informações e até tomar decisões cruciais; 6. Inteligência emocional, que é reconhecer e avaliar as emoções de outras pessoas pela compreensão e não pelo julgamento; 7. Conexão e colaboração com profissionais de outras áreas do conhecimento. A cultura geral é importante para o despertar do raciocínio; 8. Gestão de pessoas, cada vez mais necessária no autocontrole e já em vigência pela IN Nº 60 de 20/12/2018; 9. Ser criativo em conectar informações aparentemente diferentes, e ter pensamento crítico, pois envolve raciocínio lógico; 10. Capacidade de resolução de problemas complexos que são indefinidos e novos e requerem elasticidade mental. S&C: Qual sua mensagem baseada na epidemiologia para manter e preservar a saúde animal na suinocultura? M.M: Como nossos profissionais são habilidosos em clínica e patologia, deve-se aprimorar o raciocínio epidemiológico. Clínica, patologia e epidemiologia são procedimentos de diagnóstico, porém em níveis diferentes. O objeto de trabalho do clínico é o animal doente, comparável, metaforicamente, com a árvore doente. O objeto de trabalho do patologista é o animal morto ou partes do animal vivo (soro sanguíneo, material de biopsia) ou morto (exames macroscópico, microscópico e laboratorial), metaforicamente comparável à madeira da árvore doente. O objeto de trabalho do epidemiologista é a população animal, o total de animais doentes e de mortos e o meio ambiente (clima, tipos de criação animal, condições sociais, econômicas e culturais, reservatórios), metaforicamente comparável à floresta, que é o conjunto de árvores sadias, doentes e o meio ambiente onde estão inseridas. O manejo do ambiente equilibra a saúde do rebanho. A biosseguridade é a atuação no meio ambiente do estabelecimento de produção.

“O objeto de trabalho do epidemiologista é a população animal, o total de animais doentes e de mortos e o meio ambiente (clima, tipos de criação animal, condições sociais, econômicas e culturais, reservatórios)”

S&C: Qual sua opinião sobre a compartimentação na suinocultura? Será este o caminho? M.M: Sem dúvida é o caminho. Já temos experiência com compartimentação na avicultura, e esta experiência poderá colaborar acelerando o processo na suinocultura com as devidas adequações. S&C: Quais referências que nos deixaria como reflexão sobre o modelo de como o veterinário especialista em sanidade suína deve se reinventar para enfrentar os atuais desafios? M.M: 1. Pensar em “como fazer” e não “o que fazer”, caso contrário corremos o grande risco de sermos substituídos por robôs. Não se orientar por opiniões ou no “eu acho”, porque quem acha não sabe; Suínos&Cia | nº 61/2019


Entrevista

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Sanidade

Princípios de biosseguridade na suinocultura no controle de síndrome entérica, com ênfase em salmonelas: Um novo olhar Profa. Dra. Masaio Mizuno Ishizuka Professora Titular Emérita de Epidemiologia das Doenças Infecciosas da FMVZ/USP mizuno@usp.br

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profilaxia de doenças infecciosas em população de suínos, no contexto da saúde animal, seja prevenção ou controle, está sempre direcionada para a população de determinada área geográfica, e o requisito fundamental para sua execução é o conhecimento da epidemiologia, neste caso, das doenças transmissíveis. Trata-se da ciência que estuda os mecanismos de transmissão de doenças em populações animais e as medidas de profilaxia que, para sua aplicação, é necessário conhecer o agente etiológico envolvido, o hospedeiro e o meio ambiente. É a habilidade de resolver problemas com consciência, aprendendo em como pensar e não no que pensar para delinear um programa de saúde suína. Algumas definições

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Saúde Animal: conjunto de medidas de profilaxia que tem por objetivo prevenir, controlar ou erradicar infecções ou doença em populações animais de determinada área geográfica. Portanto, beneficia todos os animais de todos os estabelecimentos que compõem a área geográfica (MARTIN, 1987). O planejamento e a execução de programas de saúde animal requerem a existência de amparo legal. Medicina Veterinária Preventiva: conjunto de medidas de profilaxia que tem por objetivo prevenir, controlar ou eliminar infecções ou doenças aplicadas a um animal ou grupo de animais. Portanto, beneficia apenas o animal ou os animais de um estabelecimento de produção ou granja (THRUSFIELD, 2018). Não requer amparo legal. Zoneamento/Regionalização: é a aplicação de um programa de biosseguridade aplicada a uma determinada área geográfica (coletividade de granjas) para encorajar o uso eficiente de recursos. No sentido mais estrito, zoneamento é útil para um país que está enfrentando surtos de determinada doença, pois permite manter as exportações (OIE, 2018) O objetivo da epidemiologia é pragmático, pois fornece dados para a tomada de decisão racional para embasar a profilaxia (prevenção ou controle) de doenças em populações animais. Envolve a otimização da saúde com vistas à produtividade e, não necessariamente, à erradicação da doença. A grande contribuição da epidemiologia é proporcionar informações descrevendo a frequência de Suínos&Cia | nº 61/2019

Dr. Ênio Antonio Marques Ex-secretário Nacional de Defesa Agropecuária do MAPA/Brasil enio.marques@uol.com.br

ocorrência e a distribuição da saúde e doenças/infecções, identificando os fatores que influenciam na ocorrência e severidade da doença nas populações animais e quantificando as inter-relações entre saúde e doença (MARTIN et al 1987). Sem a epidemiologia não há base científica para a prática da saúde animal e, sem esta prática, a epidemiologia torna-se uma ciência acadêmica sem significado (ROSEN, 1972). O foco da clínica é o animal doente e é tal como olhar para uma árvore doente. Seu objetivo é o tratamento. O foco da patologia é uma parte do animal (lesões macro e microscópicas, soro sanguíneos, fragmento de órgãos) com o objetivo de estudar o caminho que um agente de doença percorre no organismo de um animal infectado ou doente. É tal como olhar para a madeira da árvore doente. O foco da epidemiologia é a população constituída por animais doentes, não doentes e o meio ambiente com seus diversos componentes, como clima, natureza do solo, tipos de exploração, vegetação, condições socioeconômicas, outras explorações animais, presença de animais silvestres, etc. É tal como olhar para a floresta constituída de árvores doentes e sadias e considerando os diferentes componentes do ecossistema. Um programa de controle de doenças deve ser bem delineado tanto do ponto de vista biológico (eficácia) como econômico (eficiência). Deve ser também dinâmico para poder evoluir de acordo com as alterações da situação avaliadas pela frequência de ocorrências da doença/infecção, econômica (custo x benefício), política ou socioclimática que requeiram mudança de rumo do programa (HANSON & HANSON, 1983). A IN 60 (Instrução Normativa), de 20/12/2018, estabelece o controle microbiológico em carcaça de suínos em base amostral para análise de Enterobacteriaceae e Salmonella spp. Eventuais resultados positivos (violações) resultarão em: Art. 25. Os abatedouros frigoríficos deverão manter o índice de contaminação por Salmonella spp. não superior ao número máximo de amostras positivas aceitáveis (c) constantes nos Anexo IV e V desta Instrução Normativa. Art. 26. Quando o número de amostras com presença de Salmonella spp. for maior do que


Sanidade

o número aceitável (c) definido nos Anexos IV e V desta Instrução Normativa, considerar- se-á que o ciclo foi violado, e o abatedouro frigorífico deverá identificar a causa, revisar os programas de autocontrole e adotar ações corretivas e preventivas para restabelecer a conformidade em relação a esse agente. Art. 27. Os abatedouros frigoríficos de suínos, quando forem notificados pelo SIF da violação de um ciclo oficial de Salmonella spp., deverão: I. Realizar investigação para identificar a causa da violação; II. Revisar seus programas de autocontrole; III. Apresentar plano de ação com as medidas corretivas e preventivas em até vinte dias a contar da data da notificação; IV. Comprovar ao SIF as ações adotadas e a redução da frequência deste patógeno para o nível aceitável, por meio de registros auditáveis. Resultados laboratoriais positivos (violação) irão resultar em investigação e correções em nível de abatedouro frigorífico (Art. 25 e 26), mas mencione-se que as enterobactérias e salmonelas chegam ao abatedouro frigorífico contidas no intestino de suínos infectados nos estabelecimentos de criação e, portanto, a correção no campo torna-se importante. O Art. 27 permite pressupor que a investigação e o delineamento das medidas corretivas e preventivas concluam que enquanto os estabelecimentos de produção não participarem do processo de mitigação de risco no sistema produtivo, a matéria-prima (suínos de abate) para o abatedouro continuará com quantidade crescente dessas bactérias no intestino. Assim, os estabelecimentos de produção poderão vir a ser objetos de ações de controle por força dos resultados laboratoriais obtidos em amostras colhidas em abatedouros frigoríficos e, em futuro próximo, resultando na possível eliminação de planteis positivos e/ou de carcaças condenadas para exportação (este é um princípio do TQC – Controle de Qualidade Total (DEMING, 1982). Quanto maior a quantidade destas bactérias nos intestinos dos suínos terminados enviados para o abate, maiores serão as oportunidades de contaminação de carcaças nos abatedouros frigoríficos. Por mais eficazes que sejam as medidas de autocontrole no abatedouro frigorífico, maiores serão as possibilidades de se detectar violações, e daí o fato de estarem estabelecidos níveis de contaminação no Art. 25 supra indicado e que poderá reverberar com maior intensidade se considerarmos o Art. 49. Parece lícito pensar em diminuir a oferta de salmonelas e enterobactérias ao abatedouro. Finalmente, pensar na eventual possibilidade de um programa de biosseguridade coletivo envolvendo os estabelecimentos de suínos de determinada área geográfica e, talvez, juntamente estabelecimentos de aves por serem suscetíveis a muitas salmonelas e enterobactérias em comum.

Quanto maior a quantidade de bactérias nos intestinos dos suínos terminados enviados para o abate, maiores serão as oportunidades de contaminação de carcaças nos abatedouros frigoríficos Assim sendo, contaminação e consequente infecção cruzada entre estabelecimentos são inevitáveis. Fundamentos para o delineamento de um programa de biosseguridade com ênfase no controle de síndrome entérica O princípio da epidemiologia que orienta a tomada de decisão é o conhecimento da relação hospedeiro-parasita/agente etiológico, e seu equilíbrio é mantido pelo meio ambiente, que é a principal variável neste equilíbrio. Cada ambiente é peculiar em decorrência de suas particularidades e, razão pela qual, não existem procedimentos padronizados para se delinear medidas de profilaxia. Cada caso é um caso, cada região é um caso. O nosso trabalho é raciocinar/pensar diante de cada situação. Nossas habilidades profissionais requeridas são a capacidade de raciocínio e consciência para resolver problemas. Para resolver problemas temos que avaliar números (quantificar), porque sem dados somos apenas pessoas com opinião (DEMING, 1982). Vamos descrever sobre os agentes etiológicos e hospedeiros que estes são capazes de infectar:

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Como pensar a respeito do agente etiológico (patógeno)? Significa não pensar o que o agente (grande inimigo da produtividade) é capaz de causar, mas como pensar a respeito de sua capacidade de infectar, provocar doença, a gravidade dos sinais clínicos, resistência às condições do meio ambiente e persistência na população para sobreviver e continuamente provocar infecção ou doença. Salmonella spp é um patógeno comum ao homem e animais, amplamente distribuído na natureza, capaz de sobreviver por longos períodos na presença de matéria orgânica e umidade, bem como dessecada. nº 61/2019 | Suínos&Cia


Sanidade

Com mais de 2.600 sorovares, a bactéria é encontrada nos ecossistemas mais remotos e variados (AMARAL et al, 2015). Salmonella spp. é eliminada em grande número nas fezes, contaminando o solo e a água. A sobrevida no meio ambiente pode ser muito longa, em particular na matéria orgânica. Pode permanecer viável no material fecal por longo período (anos), particularmente em fezes secas, podendo resistir mais de 28 meses nas fezes de suínos, 30 meses no estrume bovino, 280 dias no solo cultivado e 120 dias na pastagem, sendo ainda encontrada em efluentes de água de esgoto, como resultado de contaminação fecal (LÁZARO et al, 2008). E. coli pode resistir, em média, 18 dias no verão (CHANDLER & CRAVEN, 1978), e salmonelas sobrevivem por cerca de 130 dias em fezes dessecadas (STEVENS & GRAY, 2013), por mais de 280 dias em solo cultivado adubado com esterco de animais e por 120 dias em pastagens (LÁZARO et al, 2008). Além disso, tem-se como constantes desafios a Lawsonia intracellularis, Isospora suis, rotavírus, Brachyspira hyodysenteriae, além de muitos outros. Por esta razão, não procede pretender controlar cada patógeno em separado ou cada salmonela em separado, exceção feita ao uso de vacina (medida especifica). Assim, agentes de infecções e doenças entéricas apresentam em comum alta resistência às condições do meio ambiente, ou seja, a maioria, senão todos os agentes de transmissão orofecal, apresenta esta característica. Assim, por exemplo, sobrevivem por longo tempo na ausência de parasitismo, com consequente contaminação de tudo quanto encontra pela frente, como mãos, calçados e roupas dos trabalhadores; objetos; fômites; veículos; instalações; frequentadores de composteira e circunvizinhanças dos galpões (exterior do corpo de roedores, artrópodes como

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moscas e baratas, animais de vida livre, incluindo suínos que frequentam granjas, principalmente à noite); e infectam vetores biológicos, como mosca doméstica e mosca do estábulo. Considerar que roedores, moscas, cascudinhos, e outros animais movimentam-se livremente entre granjas de uma mesma região, incluindo granjas de suínos. Como pensar a respeito do hospedeiro? Significa não pensar o que o hospedeiro manifesta com a presença dos agentes etiológicos em seu organismo, mas como pensar a respeito da sua capacidade em hospedar e disseminar tais patógenos. Agentes da síndrome entérica apresentam capacidade de infectar um elevado número de hospedeiros, se não todos os animais de sangue quente e frio. Este conhecimento nos concede autoridade científica para controlar o conjunto de agentes que causam a síndrome entérica em uma população e invalida qualquer procedimento de controle direcionado para um ou alguns poucos agentes etiológicos. Tomando-se apenas as salmonelas como exemplo, verifica-se que infectam mais de 2.600 espécies de hospedeiros de sangue quente e frio (SHIVAPRASAD et al, 2013; FERREIRA & KNÖBL, 2009; EVANS & SAYERS, 2000). Sorovares: dentre as mais de 2.600 sorovares descritas, tem-se a. Espécies específicas para suínos: S. choleraesuis e S. typhisuis b. Espécies não específicas e que têm nos suínos reservatórios importantes para o homem e reconhecidas até a presente data: S. enteritidis e S. typhimuriun e também Agona, Bredeney, Lexington, London, Mbandaka, Panamá e Schwartzengrund. Importância em saúde pública. Assim, é válido planejar um programa de controle de todas as salmonelas potencialmente presentes em certa área geográfica. Como pensar a respeito do meio ambiente?

Salmonella spp é um patógeno comum ao homem e animais, amplamente distribuído na natureza, capaz de sobreviver por longos períodos na presença de matéria orgânica e umidade Suínos&Cia | nº 61/2019

A relação hospedeiro-parasita é modulada pelo meio ambiente nos seus mais diversos componentes, como condições socioeconômicas (pobreza e riqueza, escolaridade), clima, natureza do solo, vegetação, matas (presença de animais predadores, aves silvestres e animais silvestres), natureza da exploração animal (criação de suínos, de aves e bovinos), proximidade de criatórios informais e de subsistência, etc. O equilíbrio existe quando o meio ambiente favorece a produção de suínos, que é objeto do programa, e a suinocultura passa a enfrentar menor ocorrência de doenças e infecções. O meio ambiente desfavorece a produção de suínos quando passa a enfrentar maior ocorrência de doenças e infecções, e o prejuízo se instala. Especificamente, quais fatores podem desequilibrar a suinocultura comercial de determinada área geográfica que pretende planejar um bom programa de biosseguridade?


Sanidade

Existência de suinocultura e avicultura de níveis inferiores de biosseguridade em relação ao pretendido, criatórios de subsistência, presença de javalis e elevada população de roedores, principalmente rato do esgoto (Rattus norvegicus). Neste sentido, pode-se prever a possibilidade de se instituir zoneamento com vistas às salmonelas, principalmente. Consequentemente, outros agentes de transmissão orofecal têm suas incidências reduzida. Como pensar sobre a cadeia epidemiológica das infecções e doenças que constituem a síndrome entérica? Com base em tudo que foi mencionado, pensar na cadeia de transmissão formada por cinco elos, a saber: a. Fontes de infecção: definido como “animais vertebrados que possuem o agente etiológico no organismo e o eliminam no meio exterior”. São todos os animais vertebrados de sangue quente e frio. Podem ser doentes ou portadores (eliminam o agente etiológico na ausência de sinais clínicos, e reprodutoras são particularmente importantes) ou reservatórios (suínos de vida livre, suínos e ruminantes, roedores infectados principalmente pela S. thiphymurin). Profilaxia: a medida mais recomendada seria a eliminação de todas a s reprodutoras e suínos comerciais infectados identificados por procedimentos laboratoriais (amostragem). Isolamento não procede, e tratamento é antieconômico; portanto, inviável. Obviamente, é preciso considerar quando eliminar. b. Vias de eliminação: definido como “acesso do agente etiológico para o meio ambiente”. São as fezes/excretas. Profilaxia: destinação adequada de excretas em local apropriado e de forma a prevenir a atração de suínos, animais silvestres ou domésticos de vida livre, moscas e roedores (HIMATHONGKHAM et al, 2000). c. Vias de transmissão: definido como meio ou veículo que o agente etiológico utiliza para acessar um novo hospedeiro, aqui incluídos os invertebrados. Representado pelo trabalhador (mãos, calçados, roupas); água; ração; roedores, principalmente Rattus norvegicus, que podem percorrer de 1 a 2 km em busca de alimentos; abrigos (constroem tocas no solo); moscas que podem voar de 2 a 4 km sem vento que as favoreça; baratas; larvas de grãos; suínos mortos durante a produção e inadequadamente manuseados; carreadores (suínos de vida livre, javalis, cães e gatos); equipamentos; veículos e fômites. Profilaxia: higiene dos trabalhadores (assepsia das mãos, limpeza e desinfecção de calçados e roupas limpas), desinfecção (cloração) de água de bebida, prevenir contaminação de ração (na produção, embalagem, armazenamento, transporte e distribuição nos comedouros), controle de artrópodes, tratamento da cama, principalmente em estabelecimentos de frango de corte, manejo rigoroso de composteira para prevenir acesso de

visitantes noturnos (roedores, artrópodes, cães e gatos domésticos ou silvestres), sanitização (limpeza e/ou lavagem e desinfecção) de veículos, equipamentos e instalações d. Porta de entrada: é o “acesso do agente etiológico ao organismo de um novo hospedeiro”. Representada pela boca. e. Susceptível: definido como “novo hospedeiro passível de ser infectado”. Profilaxia: adquirir suínos de reposição de origem idônea, vacinação contra S. typhimuriun e telagem dos galpões para reduzir o acesso de entrada de aves e animais de vida livre. Delineando um programa de controle de síndrome entérica – biosseguridade 1. Delineamento: definição dos objetivos inicial, intermediário e final. Redigir Manual de Procedimentos, o tradicionalmente elaborado por cada empresa e constituído pelos POPs. Objetivo Inicial: introduzir medidas de biosseguridade; Objetivo intermediário: reduzir a morbidade e/ou mortalidade e aumentar a produtividade; Objetivo final ou propósito: melhorar as condições de saúde dos suínos. 2. Execução: Fundamento: planejar sem executar ou executar sem planejar conduz a nada. Fase preparatória: reunir todos os elementos para alcançar o objetivo, como estimativa de custos, seleção de funcionários, atribuir responsabilidades, treinamento dos funcionários e treinamento dos médicos-veterinários em epidemiologia (básica e especial) e em bioestatística. Recomendável que o treinamento esteja alinhado aos princípios modernos de qualidade, incluindo o autocontrole.

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Medidas de biosseguridade são, sem dúvida, a melhor estratégia para diminuir os riscos de introduzir agentes causadores de doenças em um sistema de produção suína nº 61/2019 | Suínos&Cia


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Fase de ataque: aplicação contínua e sistemática dos procedimentos. Implica em uma avaliação periódica para correção de rumos. Fase de consolidação: atingido o objetivo final, ajustar as medidas de biosseguridade para que não ocorra recrudescimento das infecções ou doença. Fase de manutenção: continuidade da fase anterior, porém, integrando ao plano de saúde animal do estabelecimento ou da zona. Avaliação Fundamento: executar sem avaliar é pior que executar sem planejar ou planejar e não executar. Fazer avaliação periódica não apenas realizando provas laboratoriais para avaliação da presença ou ausência do patógeno, mas, principalmente, analisando estaticamente os indicadores de saúde (morbidade e mortalidade), indicadores de produção (peso dos leitões ao nascer, nº de leitões nascidos vivos/porca/ano, nº de leitões nascidos mumificados, natimortos ou fracos/porca/ ano), peso do lote ao abate e conversão alimentar. Os testes estatísticos são bastante simples, como o teste da diferença entre proporções para variáveis Bibliografia 1. AMARAL, A.L.; PELLEGRINI, D.C.S.; TODO, E.C.; COSTA, E.F.; LIMA, G.J.M.M.; KICH, J.D.; SILVA, J.E.; CORBELLINI, L.G.; CARDOSO, M.R.I.; MORÉS, N. Salmonela na suinocultura brasileira: do problema ao controle. Embrapa. Brasília, DF, 2015.

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2. B RASIL. INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 60, DE 20/12/2018. Trata do controle microbiológico em carcaça de suínos e em carcaça e carne de bovinos em abatedouros frigoríficos, registrados no Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (DIPOA), com objetivo de avaliar a higiene do processo e reduzir a prevalência de agentes patogênicos. 3. C HANDLER, D. S.; CRAVEN, J. A. Relationship of soil moisture to survival of Escherichia coli and Salmonella typhimurium. Journal Agricultural Research, v. 29, p. 577-585, 1978. 4. D EMING, W.E. Quality, Productivity and Competitive Position, Massachusetts Institute of Technology. Center for Advanced Engineering Study. 373p, 1982 5. E VANS, S.J.; SAYERS, A.R. A longitudinal study of Campylobacter infection of broiler flocks in Great Britain. Preventive Veterinary Medicine, v. 46, p. 209-223, 2000 6. FERREIRA, A.J.P.; KNÖBL, T. Colibacilose, In Doença das SUÍNOS. Suínos&Cia | nº 61/2019

qualitativas e o teste da diferença entre médias para variáveis quantitativas. Comentários finais Mais importante que fazer, é fazer bem e corretamente. Mais importante que a efetividade são a eficácia e eficiência. Efetividade: diz respeito à aplicação da medida de controle. Por exemplo, a diluição recomendada pelo fabricante de certo desinfetante é 1:500; se for diluído a 1:1000 e aplicar corretamente, certamente a desinfecção estará comprometida. Portanto, a desinfecção não foi efetiva. Eficácia: diz respeito à aplicação correta da medida de controle. Por exemplo, a diluição recomendada de 1:500 foi obedecida pelo produtor e aplicada corretamente. Certamente a desinfecção atingirá seu objetivo de redução da contaminação. Portanto, a desinfecção foi eficaz. Eficiência: de um lado há a conotação de eficácia (se a desinfecção foi eficaz, então foi eficiente), e de outro lado há a conotação da relação custo-benefício. Dois (A e B) desinfetantes de igual eficácia, mas o desinfetante A custa menos. Então o desinfetante A é mais eficiente que o B. Ed. Berchieri Jr, et a.l, Fundacão Facta publ., 2009 7. HANSON, R.P.; HANSON, M.G. Animal Disease Control: Regional Programs. Ammes: Iowa State Univ Press, 1983 8. HIMATHONGKHAM, S.; RIEMANN, H.; BAHARI, S.; NUANUALSUWAN, S.; KASS, P.; CLIVER, D.O. Survival of Salmonella typhimurium and Escherichia coli O157:H7 in poultry manure and manure slurry at sublethal temperatures. Avian Diseases, v. 44, p. 853–860, 2000. 9. LÁZARO, N.S.; REIS, E.M.F.R.; PEREIRA. C.S.; RODRIGUES, D.P. Gênero Salmonella: Características Epidemiológicas e Laboratoriais. Laboratório de Referência Nacional de Cólera e outras Enteroinfecções Bacterianas/Manual do Laboratório de Enterobactérias. FIOCRUZ, outubro de 2008. 10. MARTIN, S.W.; MEEK, A.H.; WILLEBERG, P. Veterinary Epidemiology, Principles and Methods, Iowa State Press, 1987. 11. OIE. Zoning and compartmentalisation. Terrestrial Animal Health Code. Cap. 4.3, 2018. Consultado em 25/04/2019 12. ROSEN, G. The Epidemiologic Revolution. Am. J. Pub. Health, v. 62, p. 1439-41, 1972 13. STEVENS, M.O.; GRAY, J.T. Salmonella Infections in Pigs. In Salmonellas in domestic animal. 2nd ed. Edited by BARROW & METHNER, 2013


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Bem-estar na reprodução suína e a prática do manejo inseminar e soltar Luis Sanjoaquin Médico-veterinário especialista em Produção e Nutrição Animal luissanjoaquin@gmail.com

A

tualmente, a suinocultura busca cada vez mais adotar no sistema de produção um bem-estar animal que se adapte perfeitamente às necessidades das porcas para que possam manifestar ao máximo seu comportamento natural. Baseado neste conceito, há muitos anos na Europa, onde foi decidido adotar esse sistema para oferecer conforto aos animais. O primeiro passo foi promover a adaptação de porcas em grupos, a partir do 28º dia de gestação. Na Espanha, as granjas recém-construídas seguem essas diretrizes desde 1º de janeiro de 2003, e as granjas que já existiam foram se adaptando até à data limite de 31/12/2012. Tanto nas granjas de construção mais recente como nas que sofreram processo de adaptação (as mais antigas), para adotar o bem-estar foram utilizados diferentes sistemas de alimentação.

3. Alimentação no piso com utilização de minibox.

4. Alimentação em gaiolas onde as fêmeas permanecem soltas e entram nas gaiolas para comer. Há liberdade.

1. Alimentação fornecida diretamente no piso com fêmeas soltas: o alimento cai diretamente no piso por meio de um sistema automático de alimentação que contém reservatórios superiores que dosificam a quantidade de ração por indivíduo.

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5. Estações eletrônicas de alimentação.

2. Alimentação com comedouro automático e fêmeas soltas em pequenos grupos: consiste em um sistema em que as porcas recebem alimentação à vontade. Há alimento sempre disponível. Os dois primeiros sistemas foram mais usados na adaptação de granjas antigas e não costumam ser observados em granjas de construção mais recente, enquanto os três últimos sistemas são observados em ambos os tipos de granjas (antigas e novas). Na maioria dos casos, os dois primeiros sistemas são mais adotados em granjas menores, enquanto os sistemas minibox são mais frequentes em granjas maiores e grupos grandes. Como estações eletrônicas de alimentação são mais comuns em granjas de médio e grande portes, a maioria Suínos&Cia | nº 61/2019


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das granjas com mais de 1000 matrizes tem um desses três últimos sistemas citados. Na verdade, os dois primeiros sistemas não são comuns nas granjas maiores, pois é mais difícil ajustar perfeitamente a quantidade de alimento necessário por porca, o que afeta negativamente nos custos e nos dados produtivos. A nossa experiência com esses sistemas mostra que, se trabalhados corretamente, a adaptação ao bem-estar animal passa a ser uma oportunidade, uma vez que melhoramos o bem-estar sem prejudicar os dados produtivos. É importante citar que cada um desses sistemas disponíveis apresenta vantagens e desvantagens, ainda que no presente trabalho nossa ideia não é descrevê-las. Nos últimos anos estão sendo trabalhadas duas novas áreas do bem-estar animal: 1. Gestação coletiva (porcas soltas em uma sala, agrupadas a partir do 28º dia de gestação); 2. Porcas soltas após a inseminação.

do que o sistema de gestação em baia coletiva. As porcas permanecem soltas e alojadas em grupos, desde o momento posterior à inseminação até o momento em que as introduzimos na maternidade alguns dias antes do parto, favorecendo a adaptação ao sistema de partos em gaiolas. No entanto, em função da fisiologia da porca tendo em conta esse modelo, existem importantes considerações a serem feitas: • Transporte espermático e fertilização: ocorrem quando as porcas permanecem engaioladas com este sistema; • Reconhecimento maternal: o organismo da porca deve receber algum sinal do embrião para evitar a regressão do corpo lúteo e a retomada do ciclo. A progesterona, produzida pelo corpo lúteo, é indispensável para a manutenção da gestação; • Implantação: período que se inicia dos 14 a 16 dias de gestação e termina no 18º dia. A porca requer, pelo menos, quatro embriões presentes no útero até o 21º dia de gestação para manter o processo. A capacidade uterina regula o tamanho da leitegada (quantidade de leitões). Ambos os processos ocorrem enquanto as porcas já estão alojadas em baias coletivas, portanto, devemos minimizar ao máximo qualquer ação que cause estresse nas porcas, pois isso pode ser a causa de falhas posteriores na gestação. Qualquer processo que provoque estresse ou mudanças durante estes períodos deve ser evitado. Entre eles, podemos citar os seguintes: • Vacinações; • Aumento de temperatura ambiente: recomenda-se, nesses casos, o uso de sistemas de resfriamento para minimizar tais efeitos; • Mudanças bruscas na alimentação; • Estresse durante o momento da alimentação; • Misturas desnecessárias de animais.

Em relação ao ponto nº 1, na Europa não é difícil encontrar granjas que adotem esse sistema, seja parcial ou totalmente. Esse modelo requer uma série de condições necessárias para o seu bom funcionamento, não havendo dúvidas de que permite à porca em um espaço superior ao que ela ocupa atualmente na maternidade manifestar certos comportamentos de forma mais natural. Ainda assim, trata-se de um sistema que precisa ser discutido de maneira mais profunda e extensiva a respeito de suas vantagens e desvantagens nos diferentes modelos com os quais se está trabalhando. O objetivo deste artigo, entretanto, é discutir o ponto nº 2: soltar as porcas após a inseminação. Como mencionado anteriormente, a demanda social por bem-estar animal é maior a cada ano. É por isso que estamos encontrando cada vez mais esse sistema nas granjas, especialmente nas recém-construídas que pretendem se adequar perfeitamente aos regulamentos atuais de bem-estar animal, ou até dar um passo adiante. Com esse sistema não As porcas permanecem apenas se está buscando a conformidasoltas e alojadas em grupos de com os regulamentos, mas também desde o momento posterior à proporcionar às porcas um comportamento não restritivo durante toda a inseminação até o momento fase de gestação. em que as introduzimos na A maioria das granjas visitadas maternidade alguns dias pela equipe técnica do ThinkinPig (Asantes do parto, favorecendo a sessoria em Suinocultura), em diferentes países que seguem essa filosofia adaptação ao sistema de partos e modelo, tem apenas gaiolas para em gaiolas alojamento das fêmeas no intervalo desmame/cobertura, bem como gaiolas em alguns casos (não todos) para a adaptação de marrãs a elas. Portanto, as únicas gaiolas disponíveis na área de gestação referem-se a esse curto período, após o qual as porcas, uma vez inseminadas, seguem para os chamados parques (sistemas de bem-estar descritos anteriormente), que nada mais são

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Além desses fatos, há outro fator importante denominado fotoperíodo: “uma gestão de fotoperíodo inadequado, associado aos mecanismos mencionados anteriormente, pode aumentar a infertilidade sazonal”. Na Espanha, um período de 6 a 8 semanas de dias longos de fotoperíodo decrescente que ocorre nos meses de julho, agosto e setembro faz com que a porca produza um nível menor de GnRH, o que, por sua vez, resulta em menor produção de LH, FSH e Progesterona. Esse aspecto deve ser levado em consideração, uma vez que o efeito negativo do fotoperíodo, associado à maior interação social e ao estabelecimento de hierarquias em momentos críticos da gestação da porca, pode produzir um efeito muito negativo e aumentar a infertilidade sazonal neste tipo de sistema “soltar as porcas após a inseminação”. Por isso, e como resposta à diminuição da progesterona, devemos evitar os aumentos na temperatura ambiente e os

momentos de estresse e providenciar um aumento na quantidade de ração fornecida às porcas durante o primeiro mês de gestação, tentando contra balancear a diminuição do GnRH, LH, FSH e da progesterona. Nossa equipe técnica visitou diferentes granjas que adotam este sistema e, em todas elas, os resultados obtidos são similares àqueles observados quando as porcas permaneciam no sistema tradicional de bem-estar. Embora seja verdade que na maioria dessas granjas tenha sido necessário rever e alterar aspectos como a temperatura e a alimentação, além de suprimir o estresse das porcas durante os meses de julho, agosto e setembro, já que neste período houve considerável aumento na infertilidade sazonal no sistema “soltar as porcas após a inseminação”. Depois que esses detalhes foram corrigidos, os resultados passaram a ser semelhantes nas granjas de ambos os sistemas.

Dados de granjas que adotam o sistema de soltar as porcas após a inseminação Dinamarca: granjas que pertencem à mesma empresa, com modelos produtivos distintos: 2015

% de Parto

Nascidos Totais

Nascidos Vivos

Nascidos Mortos

Desmamados

Gestação coletiva (bem-estar)

88,7%

18

16,2

1,8

14,1

Porcas soltas após a I.A. (grupo dinâmico)

89,1%

17

15,5

1,5

14

Espanha: dados distintos de granjas que adotam o sistema de soltar as porcas após a inseminação: 18

Granja A: alterações no padrão de alimentação a partir de 2016, período de verão, quando os dias são longos e o fotoperíodo decrescente.

Granja B: alterações no padrão de alimentação entre julho e novembro de 2018, mesma causa de infertilidade estacional que a da Granja A. Observar o importante incremento da fertilidade, no período de julho/novembro de 2017 e 2018, devido ao aumento no padrão de fornecimento de ração.

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Granja C: neste caso foram observados dois eventos específicos, a instalação de sistemas de resfriamento ambiental em 2015, o que diminuiu o estresse das porcas no período de junho a outubro, e o incremento no fornecimento de ração para as porcas em 2017, o que melhorou nesse mesmo período os dados de fertilidade e taxas de parto, não de modo perfeito, mas em níveis aceitáveis na Espanha para esta época do ano.

Bibliografia* 1. https://core.ac.uk/download/pdf/29236201.pdf 2. Reproduction of group-housedsows.PELTONIEMI, O.; BJÖRKMAN, S.; MAES, D.https://www. ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5382509/ 3. Insemination in grouphousing – it Works. https://www.pigprogress.net/Sows/Articles/2018/2/ Insemination-in-group-housing--and-it-works-250071E/ 4. https://www.portalveterinaria.com/porcino/articulos/4409/manejo-de-cerdas-reproductorasen-sistemas-de-bienestar-i.html

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*Observação: o sistema de inseminar e soltar as porcas em seguida é muito novo na Espanha, havendo ainda pouca literatura disponível sobre este assunto. Desse modo, os dados fornecidos são baseados em experiências próprias (veterinários consultores de granjas).

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Síndrome Respiratória Reprodutiva Suína (PRRS) Profa. Dra. Masaio Mizuno Ishizuka Professora Titular Emérita de Epidemiologia das Doenças Infecciosas da FMVZ/USP mizuno@usp.br

I. CONCEITUAÇÃO

PRRS causada pelos arterivírus tipos 1 e 2

apresentam, atualmente, distribuição geográfica cosmopolita, com predominância do tipo 1 na Europa e o tipo 2 na América do Norte e Ásia. PRRS está presente nas maiores regiões de produção de suínos do mundo, com raríssimas exceções. Na Europa, é indene na Suécia, Suíça, Noruega e Finlândia. Na Oceania, é indene na Nova Caledônia, Nova Zelândia e Austrália. Na América do Sul foi descrita no Chile em 2009 e 2013; no Uruguai e Equador, em 2017; e está comprovadamente ausente na Argentina e Brasil e, na América Central, em Cuba e algumas áreas do Caribe.

2005

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

Doença infecciosa viral altamente transmissível dos suínos domésticos e selvagens caracterizada por comprometimento respiratório e reprodutivo, elevadas perdas econômicas e de difícil controle. II. DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA

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Sanidade

2013

2014

2015

2016

2017

07/2018 Caso PRRS no Uruguai, em 2017

Uruguai 2017 A estimativa precisa da prevalência não é atividade fácil, mas em regiões de alta densidade de rebanhos suínos, de 60% a 80% dos rebanhos da região ou do país estão infectados, e o quadro ainda se complica pela reversão de patogenicidade do vírus da vacina viva atenuada. A epidemia ocorrida no Chile em 2013, em criações comerciais, era muito semelhante ao vírus endêmico nos EUA e diferente do vírus do surto de 2009. A erradicação baseou-se em medidas de depopulação de suínos de estabelecimentos comerciais e de criações informais/fundo de quintal (NEIRA ET AL, 2017). Desde início dos anos 1990, suínos e javalis da Alemanha estão endemicamente infectados pela estirpe selvagem de vPRRS e, desde 1994, também são detectadas, com frequência, estirpes norte-americanas de origem vacinal. A proporção de explorações infectadas estima-se em aproximadamente 80%.

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Segundo o OIE, estudo acadêmico de levantamento de vPRRS pelas provas de ELISA indireta e RT-PCR, feito pela Faculdade de Ciências da Universidade da República, foram detectados animais positivos em cinco estabelecimentos localizados nas províncias de Salto e Canelones, nos quais foi diagnosticado PRRS subclínica, possivelmente decorrente de endemicidade da infecção naquele país. A investigação envolveu os estabelecimentos afetados, bem como aqueles que importaram suínos nos últimos 10 anos, e a vigilância continuou nos matadouros. Não concluíram o mecanismo de entrada do vírus. Caso PRRS no Equador O surto com quadro clínico suspeito de PRRS e confirmado laboratorialmente ocorreu em um estabelecimento comercial de ciclo completo localizado em Santo Domingo De Los Tsachilas. Não concluiu o mecanismo de entrada do vírus. Pela observação dos mapas de distribuição geográfica, podemos analisar sob a ótica da variação cíclica e da variação secular de ocorrência de doenças. Assim: Variação cíclica: aquela estudada por um período de tempo inferior a 10 anos e que permite prever epidemias. Se considerarmos, para fins de raciocínio, a epidemia em 2009 na China, as epidemias de 2017 eram previsíveis, exceto a localização. Certamente ocorre em áreas ou zonas de maior risco para introdução do vPRRS, e ocorreu no Chile e Uruguai. nº 61/2019 | Suínos&Cia


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Variação secular: aquela estudada por um período de tempo inferior a 10 anos e que permite avaliar a tendência da ocorrência da doença. Neste mesmo período de tempo, observa-se que o número de casos novos não apresentou grandes oscilações. Tendência à estabilidade. III. IMPORTÂNCIA ECONÔMICA A complexa epidemiologia da PRRS dificulta sobremaneira a estimativa das perdas econômicas. Além das perdas decorrentes da morbidade e mortalidade, há que se considerar também a redução do no de leitões desmamados/ano, que é da ordem de 2 leitões/fêmea. IV. ETIOLOGIA Classificação e características moleculares do vPRRS: vírus pertencente à ordem Nidovirales e à família Arteriviridae. São descritas duas linhagens genéticas conhecidas como genótipos tipo 1 (vírus Lelystad) e tipo 2 (VR-2332), cujos genomas apresentam cerca de 56% de similaridade na sequência de nucleotídeos, porém, diferentes quanto à glicoproteína de envelope. Ambos foram descritos pela 1ª vez em 1990, sendo o tipo 1 descrito na Europa, e o tipo 1 na América do Norte. Dentro de cada tipo são observadas variações na sequência de nucleotídeos. Embora se desconheça a origem do vírus da PRRS (vPRRS), as grandes diferenças entre os dois tipos sugerem que tenham ancestrais que evoluíram independentemente em ambientes ecológica e geograficamente diferentes e possivelmente a partir de reservatórios de espécie não suíno. Cada linhagem possui vários sorotipos, por exemplo o tipo 2 nos Estados Unidos possui 9 linhagens.

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Características do vírus de importância epidemiológica: Infectividade: é a capacidade que um agente etiológico apresenta em entrar no organismo de um novo hospedeiro, instalar-se e se multiplicar ou

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replicar. Foi demonstrado que a ID 50 (dose infectante 50), por vias oral e nasal, foi igual a 105 e 104 partículas virais, respectivamente. Indica alta infectividade. Pela inseminação artificial, a ID 50 foi igual a 104 partículas virais. Obviamente, a ID 50 varia com o tipo de vírus envolvido e a porta de entrada. Em suínos, a ID 50 é menor em casos de infecção por via parenteral, como corte de orelha, cauda e dente, e inoculação de medicamentos e biológicos e menos suscetível a outras portas de entrada. Sorotipos podem variar quanto à infectividade. Patogenicidade: é a capacidade que um agente etiológico apresenta em provocar aparecimento de sinais clínicos. vPRRS apresenta patogenicidade que varia de baixa a alta e pode ser compreendida pela elevada prevalência de infecções apenas até elevada prevalência de casos clínicos, que podem se manifestar sob forma de surtos. Sorotipos podem variar quanto à patogenicidade. Virulência: é a gravidade de um caso de doença. É elevada face não apenas à intensidade dos sinais clínicos, mas também em função da elevada letalidade (nº de mortos entre doentes). Sorotipos podem variar quanto à virulência. Resistência: é a capacidade que o vírus apresenta em sobreviver no ambiente em ausência de parasitismo. Depende da temperatura e umidade. Frágil e rapidamente destruído pelo calor e dessecação. À temperatura entre 25°C e 27°C, desde tempo 0 (zero) a contar da contaminação, não é detectado em materiais como plásticos, aço inoxidável, borracha, maravalha, feno, milho, ração inicial ou brim; vPRRS é termolábil e estável à variação de pH. Os dois tipos não apresentam diferença de comportamento frente à temperatura ambiente. A 4°C sobrevive por 155h; a 10°C por 85h, a 20°C por 27h e a 30°C por 2h. Ação de desinfetantes: facilmente inativado pelos solventes de gordura como clorofórmio e éter. Instável em soluções contendo baixas concentrações de detergentes porque rompem o envelope com liberação de partículas não infecciosas da nucleoproteína, com consequente perda de infectividade. À temperatura ambiente, soluções contendo cloro a 0,03% destroem o vPRRS em 10 minutos;


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contendo iodo a 0,008% destroem em 1 minuto; e amônia quaternária a 0,006%, em 1 minuto. Protocolos de descontaminação envolvendo secagem e fumigação com solução de glutaraldeido e compostos desinfetantes de amônia quaternária clorada inativam o vPRRS em salas de parto e veículos de transporte em condições de clima frio ou temperado. Abaixo, tabela na qual constam as principais classes de desinfetantes. Classe do desinfetante Agente oxidante (Potássio peroxímono-sulfato)

Agente oxidante (Hipoclorito de sódio)

Composto Fenólico

Composto Fenólico

Taxa de diluição

Precauções

1:100

Produto corrosivo: recomendado uso de óculos de proteção de borracha

1:32

Produto irritante em contato com a pele. Propriedade do desinfetante é inativada por materiais orgânicos e reduzido com a utilização de materiais alcalinos (cal) e umidade.

1-2%

Produto corrosivo: recomendado uso de óculos de proteção e luvas de borracha. Propriedade do desinfetante não é inativada por debris orgânicos, sendo melhorada por temperaturas mais altas e reduzida por temperaturas baixas.

1-2%

Produto corrosivo: recomendado uso de óculos de proteção e luvas de borracha. Propriedade do desinfetante não é inativada por debris orgânicos, sendo melhorada por temperaturas mais altas e reduzida por temperaturas baixas.

V. HOSPEDEIROS Suínos domésticos e selvagens são hospedeiros naturais. Entre suínos selvagens criados em sistema free-range, a soroprevalência é bastante

baixa. Nada se sabe sobre a susceptibilidade de outros suídeos, como cateto, javali e babirussa. VI. PATOGENIA O vPRRS entra no organismo dos suscetíveis por diferentes portas, como mucosas nasal, oral, intrauterina e vaginal. A dose infectante varia com a porta de entrada. A replicação inicial ocorre no local em que existem macrófagos para, em seguida, disseminarse para os linfonodos, pulmões e, menos consistentemente, para outros órgãos. Sorotipos de alta patogenicidade podem causar viremia em 12 horas a contar da infecção e, depois de 24 horas, todo o rebanho está infectado com vírus presente em tecidos linfoides e nos pulmões em altos títulos, principalmente em macrófagos alveolares, do tecido linfoide e intravascular. Antígeno do vPRRS ou ácido nucléico viral são observados nos pulmões e nos linfonodos pulmonares; em macrófagos peri e intravascular do coração, cérebro e rins; em menor título, no epitélio nasal, brônquico e alveolar, endotélio, espermátides, espermatócitos e fibroblastos. Geralmente, sinais clínicos e lesões consistentes correspondem ao momento e local com maior título viral, ou seja, nos pulmões e linfonodos, por volta de 7-14 dias pós-infecção. Contrariamente, em natimortos e leitões infectados nascidos a termo, vírus ou seu ácido nucleico são detectados em elevados títulos nos órgãos linfoides, porém, ausentes nos pulmões. A viremia persiste por até 28 dias pós-infecção e nos leitões congenitamente infectados, a viremia persiste por até 48 dias pós-nascimento e raramente até 7 meses de idade. Em leitões infectados congenitamente ou infectados depois do nascimento, o vírus é detectado persistentemente nas tonsilas por até seis meses pós-infecção.

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VII. DIAGNÓSTICO 1. Diagnóstico clínico O diagnóstico é sugestivo de PRRS quando da manifestação de doença reprodutiva em reprodutores e/ou doença respiratória em suínos de qualquer idade. Indicadores de produção em rebanhos acometidos por PRRS clinicamente ativa revelam aumento da taxa de abortamento, nascimento prematuro, natimortalidade e mortalidade perinatal. Entretanto, a ausência de sinais não significa ausência de PRRS. Sinais clínicos de casos de PRRS ocorridos na América do Norte, América do Sul, Europa e Ásia são muito semelhantes. nº 61/2019 | Suínos&Cia


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Foto 1. Hiperemia de dorso, orelhas e pernas

Foto 2. Cianose de orelha

Manifestação clínica depende do rebanho e varia de assintomáticos até casos devastadores. Fatores que influenciam a severidade da doença são a variante de vírus, status imune, suscetibilidade do hospedeiro, infecções intercorrentes e outros fatores de manejo. A doença manifesta-se logo depois da viremia, e a infecção transplacentária resulta em falhas reprodutivas. Como a patogenicidade é variada, tem-se isolamento viral a partir de casos inaparentes até alta ocorrência de casos clínicos de diferentes intensidades de gravidade. Doença ocorre mais frequentemente quando o vPRRS é introduzido em rebanhos sem imunidade, e todos os animais são afetados. PRRS endêmica ocorre em rebanhos quando o vírus ingressa em um rebanho que apresenta imunidade homóloga, e mais frequentemente observada em leitões de creche e em crescimento decorrente da diminuição da imunidade passiva materna e/ou quando da introdução de marrãs e reprodutoras não infectadas ou de sua progênie persistentemente infectada. Como existe intensa variação antigênica, a introdução de uma nova variante em uma população endemicamente infectada pode causar epidemia no rebanho e até mesmo na região.

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Foto 3. Abortamento no 1º terço da gestação Suínos&Cia | nº 61/2019

a. PRRS na forma epidêmica Epidemia é uma forma de ocorrência de uma doença ou infecção em determinada área geográfica que ocorre com frequência acima da usual. A 1ª fase de uma epidemia de viremia aguda que perdura por 1 a 2 semanas é caracterizada por anorexia, que dura de 1 a 5 dias, e letargia de 5% a 75% de suínos de qualquer idade. Inicia em uma ou mais fases da produção e rapidamente se dissemina em 3 a 7 dias por todo o sistema de produção na dependência do tamanho e composição do sítio e em 7 a 10 dias para sítios mais afastados. Os animais afetados manifestam linfopenia, febre entre 39°C a 41°C, hiperpneia e dispneia, manchas hiperêmica na pele e cianose de extremidades. A 2ª fase começa antes do término da 1ª fase e persiste por 1 a 4 meses, caracterizada pela presença de sinais de falhas reprodutivas em fêmeas infectadas no 3º mês de gestação, bem como alta mortalidade em leitões recém-nascidos e nascimento de fetos mortos. Quando esses sinais recrudescem, está instalada a infecção endêmica. Em reprodutoras: durante a fase aguda, pode ser observada perda de 1% a 3% da leitegada entre 21 e 110 dias de gestação e considerada

Foto 4. Nascimento de fetos mortos


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como abortamento. Também pode-se observar agalaxia, incoordenação motora e/ou dramática, exacerbação de doenças endêmicas com sarna sarcóptica, rinite atrófica ou cistite/pielonefrite. De 5% a 80% dos nascimentos ocorrem entre 11 e 120 dias de gestação, e a leitegada é composta por leitões de diferentes tamanhos e condição física, variando de fracos a natimortos autolisados ou parcial ou totalmente mumificados. Mortalidade em reprodutoras ocorre de 1% a 4%, principalmente na fase aguda; e algumas vezes associada a edema pulmonar e/ou nefrite/ cistite. As sobreviventes atrasam em voltar à reprodução. Raramente os casos agudos são acompanhados de abortamento e mortalidade de fêmeas, mas quando ocorrem são acompanhados de ataxia, movimento de pedalar e paresia. Em reprodutores: na fase aguda da doença manifestam anorexia, letargia, sinais de comprometimento respiratório (pneumonia intersticial), perda de libido e redução variável da qualidade do sêmen (diminuição de motilidade e defeitos de acrossoma), desconhecendo a interferência na taxa de concepção. O aspecto mais importante é a eliminação do vPRRS pelo sêmen. vPRRS replica-se em fetos de 14 dias ou mais, e a infecção de fetos nos primeiros 2/3 da gestação é bastante rara porque o vírus atravessa a placenta eficazmente apenas no terço final da gestação. Atravessa a placenta e infecta fetos vPRRS, independentemente da virulência. Em leitões lactentes: comprometimento da gestação pode se manifestar tardiamente até o 4º mês; em nascimentos prematuros a mortalidade pode atingir mais de 60% dos leitões, e os nascidos vivos podem manifestar fraqueza, emaciação, hiperpneia, dispneia e membros abertos. Raramente são observados tremores e movimento de pedalar. Em leitões de creche e de terminação: infecção aguda frequentemente caracterizada por anorexia, hiperpneia e/ou dispneia na ausência de tosse pelos arrepiados. Letargia, hiperemia cutânea e diminuição variável no ganho de peso diário, resultando em leitões de tamanhos diferentes. A mortalidade pode atingir de 12% a 20%. Infecções secundárias são meningite estreptocócica, salmonelose septicêmica, doença de Glässer, dermatite exsudativa, sarna sarcóptica e broncopneumonia bacteriana.

endêmico. Os sinais clínicos são semelhantes aos descritos na PRSS epidêmica. As consequências reprodutivas dependem do número de marrãs/reprodutoras infectadas e do estágio da gestação em que a infecção ocorreu. Se um pequeno número de fêmeas é infectado, observam-se abortamentos esparsos, retorno irregular aos estros, marrãs não prenhes e falhas reprodutivas ao final da gestação, com nascimento de leitegada irregular típica de PRRS.

b. PRRS na forma endêmica

a. Lesão pós-natal

Endemia é uma forma de ocorrência de uma doença ou infecção em determinada área geográfica que ocorre com frequência dentro de limites usuais. Uma vez o vPRSS introduzido em um rebanho e superada a epidemia, a endemia se instala em quase todo rebanho infectado; e se manifestam surtos agudos regulares ou ocasionais na creche ou na terminação. Sinais clínicos também são observados em marrãs e em reprodutores de reposição que foram expostos ao vPRSS depois da introdução no plantel

Lesões são similares em suínos de todas as idades. Severidade e distribuição de lesões no organismo do animal variam com a virulência do vPRRS. Lesões macroscópicas são observadas em leitões lactentes e desmamados somente até 28 dias decorridos da infecção experimental nos pulmões e linfonodos. Depois deste período são observadas apenas lesões microscópicas a partir de 7-14 dias da infecção nos rins, cérebro, coração e nos locais de maior concentração viral, como macrófagos peri e intravasculares, útero e testículos.

c. Fatores que afetam a severidade da doença A magnitude da severidade de casos da doença é parcialmente compreendida, e os fatores conhecidos são a variante de vírus, status imune do plantel, susceptibilidade do hospedeiro e infecções intercorrentes. Fatores de manejo como fluxo de suínos, arquitetura das instalações e regulação da temperatura ambiente são mencionados, mas sem muitos detalhes. vPRSS diferem genética e antigenicamente na severidade em provocar lesões e doença respiratória e no comprometimento reprodutivo. vPRRS de alta virulência, quando comparado ao vírus de baixa virulência, sabe-se que resulta em significante maior número de corpúsculos virais nos pulmões e tecidos linfoides, viremia com títulos elevados e de duração mais prolongada, diferenças nas lesões pulmonares, ocorrência de miocardite, encefalite e duração no tempo de eliminação pelo sêmen. Em leitões alojados em galpões com altas concentrações de poeira que podem conter bactérias produtoras de endotoxinas, a doença respiratória é usualmente mais grave. Infecções intercorrentes tornam animais mais suscetíveis ao vPRRS.

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2. Diagnóstico anatomopatológico Lesões macro e microscópicas não são patognomônicas, e leitões abortados ou natimortos não apresentam lesões importantes para fins de diagnóstico. Lesões macroscópicas são de pneumonia intersticial e hiperplasia de linfonodos. Nas fotos de números 5 a 10 estão ilustradas pneumonia intersticial de diferentes fases de evolução, desde aguda até consolidação.

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Foto 5

Foto 6

Foto 7

Foto 8

Foto 9

Foto 10

b. Lesão fetal

perda de fibras do miocárdio e leucoencefalite multifocal. Embora rara, chama a atenção o cordão umbilical muito aumentado de volume (triplo do tamanho normal) e hemorrágico decorrente de vasculite necrosupurativo e linfo-histiocitário.

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Pode-se suspeitar de PRRS quando o nascimento ocorre por volta do 100º dia de gestação e a leitegada é constituída de leitões de tamanhos variados, nascimento de leitões fracos, mortos autolisados e mumificados. Lesões nestes animais são escassas e pouco contribuem para o diagnóstico. Quando ocorrem, são observados cordão umbilical aumentado de volume, edematoso e hemorrágico em leitões abortados e natimortos. Lesões macroscópicas em leitões nascidos vivos infectados e que morrem em poucos dias ou são sacrificados: edema perirenal, do ligamento esplênico e mesentérico, ascite, hidrotórax e hidroperitônio. Lesões microscópicas: leves e não supurativas, inclui arterite segmental, periarterite nos pulmões, coração e rins, pneumonia intersticial multifocal, hepatite periportal, miocardite com Suínos&Cia | nº 61/2019

3. Diagnóstico laboratorial Para fins de adoção precoce de medidas de erradicação de surto em situação de emergência em países até então indenes é preciso um diagnóstico rápido, que pode ser somente clínico e epidemiológico (exemplo febre aftosa em países ou regiões indenes ou já erradicadas) ou às custas de diagnóstico laboratorial pela aplicação de testes laboratoriais de alta sensibilidade (exemplo peste suína africana no Brasil ocorrida em 1978 e prova de imuno-eletro-osmoforese- IEOP -, entre outras), pois assume-se o compromisso tácito de se estar eliminando certo número de animais falso-positivos.


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a. Isolamento do vírus A cinética de replicação do vPRRS varia com o genótipo, mas é isolado em altos títulos por mais tempo em leitões (infecção persistente) do que nos demais suínos; e nos demais atingem pico por volta de 4-7 dias para então declinar, não sendo mais detectado a partir de 28-35 dias da infecção. Em leitões lactentes, desmamados e em crescimento pode perdurar por até 42 dias, e nos reprodutores, por até 21 dias. Vírus infecciosos ou seu RNA podem ser evidenciados nos lavados de pulmões, secreção oral, nas tonsilas e linfonodos por várias semanas após cessada a viremia. Recomendações para envio de amostras ao laboratório: refrigerar a 4°C imediatamente após colheita e enviar ao laboratório dentre de 2448 horas. Linhagem de células para isolamento: vPRRS tipos 1 e 2 replicam-se bem em macrófagos alveolares de leitões (PAM) e em células de rim de macaco (MA-104). PAM são mais sensíveis que o MA devido à presença de receptores para o vPRRS. Isolamento é confirmado por RT-PCR ou pela visualização do antígeno viral intracitoplasmático por provas de Imunofluorescência direta (FA) ou Imuno-histoquímica (IHC) utilizando anticorpos monoclonais específicos (AcMo). Pode ser utilizado também microscopia eletrônica (EM) para visualização das partículas virais em fluido de cultivo celular. b. Detecção do vPRRS Em cortes histológicos de pulmão, tonsila, linfonodo, coração, cérebro, baço e rim podem ser fixados em formalina tamponada neutra a 10% para avaliação microscópica e Imuno-histoquímica. A combinação destes dois procedimentos permite a visualização do antígeno viral no interior do citoplasma. Cortes histológicos de pulmão recém-colhidos durante o pico de replicação viral e congelado podem ser submetidos à prova de FA e, caso seja material colhido e armazenado em laboratório, pode ser submetido à IHC. Ambos os testes podem ser conduzidos com reagentes preparados com anticorpos monoclonais. Material positivo à FA ou IHC deve ser confirmado pelo isolamento ou RT-PCR. Detecção vPRRS na fase aguda: são recomendados soro sanguíneo e tecidos para o teste de PCR. Em machos, o vPRRS está presente no sêmen desde o dia 6 até 92 pós-infecção (média de 35 dias). Não se recomenda pool de soro sanguíneo, sêmen ou swab de sangue. Vigilância para detecção de vírus circulante no plantel: pode-se realizar amostragem a intervalos de 2-4 semanas. c. Detecção de anticorpos Sorologia tem sido amplamente utilizada pela facilidade com que amostras de soro sanguíneo são colhidas. Anticorpos podem também ser medidos em secreção oral.

O diagnóstico sorológico de PRRS é realizado pela demonstração de soroconversão examinando soros colhidos na fase aguda e na fase de convalescença. Pode-se utilizar prova de Imunofluorescência indireta (IFA), vírus neutralização (VN) ou prova de ELISA, calculando a relação S/P, que indica infecção em curso.

RELAÇÃO S/P =

Média da amostra (média da absorbânci ótica) – média do controle negativo Média do controle positivo– média do controle negativo

Sorologia não é instrumento de diagnóstico de PRRS porque não diferencia anticorpos decorrentes de infecção, reinfecção e vacinação. IFA detecta imunoglobulina M (IgM), que está presente no início da infecção (até o 5º dia pós infecção) e persiste por 21-28 dias, e imunoglobulina G (IgG), detectada depois de 9-14 dias da infecção e que persiste por 3-5 meses. d. Imunidade Infecção pelo vPRRS induz imunidade protetora lentamente e é o mecanismo para eliminação da doença em uma população segregada. População segregada: é aquela em que os suínos compartilham o mesmo ambiente e são vacinados com vacina viva modificada sem a introdução de animais novos por um período de 200 dias. A completa eliminação do vírus pela imunidade esterilizante é demonstrada pela ausência de novos casos de infecção quando animais suscetíveis são introduzidos. A vacinação é necessária para induzir imunidade protetora. Qualquer outra vacina, como vacina inativada, vacina de subunidade ou outra que não contenha vPRRS vivo, não é capaz de induzir imunidade eficaz contra o vírus. Resposta imune humoral: é detectada depois de uma semana da infecção e contra várias proteínas estruturais do vírus, bem como contra proteínas não estruturais. Inicialmente surge a IdM, que é substituída pela IgG em 4-5 semanas e que persiste por longo tempo. Parece que a imunidade humoral, uma vez adquirida, permanece por longo tempo no animal. Células B ativamente produzidas e de memória localizam-se em linfonodos, principalmente aqueles que drenam os pulmões e áreas genitais. Baço e tonsilas são os maiores sítios de células B. Anticorpos neutralizantes são aqueles produzidos contra as proteínas estruturais GP4 e GP5 e contra glicoproteínas de envelope GP2, GP3, GP4 E GP5. É controversa a ideia de que anticorpos neutralizantes são responsáveis pelo controle da infecção porque aparecem após a viremia ter cessado, mas é um bom indicador de duração da imunidade. Resposta imune celular: pouco conhecida devido à dificuldade de cultivo de células T em laboratório.

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Imunidade protetora: exposição ao vPRRS atraída pela proteção contra desafios subsequentes. Esta imunidade protetora é devido à indução de células de memória B e T que persistem no organismo do animal após cessada todas as evidências de uma infecção primária. Células de memória B estão presentes antes da viremia se extinguir e são abundantes em tecidos linfoides e, principalmente, nas tonsilas local de persistência do vírus e não apresenta resposta anamnéstica ao desafio. Assim, os suínos revelam, depois de uma infecção, resistência à infecção sem que ocorra alteração dos níveis de anticorpos. Imunidade cruzada: a incrível diversidade genética entre os vPRRS tipos 1 e 2 apresenta significante implicação nas estratégias de proteção imune. Vacinas produzidas a partir de um isolado específico são dependentes do estímulo de imunidade cruzada. Conceitualmente, a especificidade da resposta imune contra um determinado isolado parece impossibilitar a obtenção de vacina eficaz, mas não é o que ocorre. Estudos de proteção cruzada em leitões em engorda revelam significante melhora nos indicadores de saúde, patologia dos pulmões e histopatologia e desempenho dos animais. Em fêmeas reprodutoras observaram melhora no desempenho reprodutivo. A eficácia da imunidade cruzada no campo é de grande importância para a PRRS reprodutiva cujos surtos sabidamente ocorrem em rebanhos com sólida imunidade devido à vacinação sistemática que protege de forma incompleta o nascimento de leitões virêmicos, dando origem a surtos em creche. Diferentemente, a vacinação em surtos em terminados tem resultado em parcial redução da severidade da doença e diminuição das perdas econômicas, fatos que permitem julgar a eficácia da vacinação. Imunidade materna: a infecção em leitões desmamados indica que está associada à perda da imunidade passiva.

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e. Imunização ativa Muitos estudos revelam que a vacinação com vacina viva modificada contra PRRS confere imunidade protetora, os sinais clínicos tornam-se de moderada intensidade e reduz a quantidade de vPRRS eliminado pelos animais. A imunidade conferida por vacinas inativadas apresentam proteção inferior. Com vacinação com vacina viva e inativada ou somente vacina viva em animais já infectados há estimulação na produção de anticorpos neutralizantes. 4. Diagnóstico epidemiológico a. Cadeia de transmissão Fontes de infecção: portadores em incubação, doentes típicos e portadores convalescente (infecção persistente). Suínos&Cia | nº 61/2019

Vias de eliminação: mais consistentemente pela saliva e secreção nasal e, secundariamente, pela urina, fezes, sêmen e leite. Vias de transmissão: contágio direto pela mordedura, arranhadura, ferimento durante brigas, coito. Contágio indireto via aerossóis, fômites, agulhas, cortes (caudectomia e corte de dente), ração, água, roupas, calçados e mãos dos trabalhadores. Vetores mecânicos como artrópodes (moscas e mosquitos), transmissão transplacentária e inseminação artificial. Porta de entrada: mucosa nasal, oral, uterina e vaginal. Suscetíveis e suscetibilidade: decresce com a idade. É maior entre desmamados e menor entre reprodutores. A resistência ligada à imunidade não é comparável à suscetibilidade na ausência de imunidade. Infecção persistente: PRRS aguda evolui para infecção crônica, e os animais recuperados permanecem persistentemente infectados. Este aspecto é de maior importância epidemiológica, qualquer que seja a idade do animal e o momento da infecção. O mecanismo de infecção crônica ainda é desconhecido. b. Transmissão entre os suínos no rebanho Uma vez o vPRRS introduzido em um rebanho, os animais adoecem, restabelecem-se da doença e permanecem por toda a vida como portadores convalescentes, e o vPRRS ali permanece circulando indefinidamente, caracterizando endemicidade. O ciclo de perpetuação do vPRRS se perpetua pela transmissão transplacentária ou pelo contágio direto ou indireto entre leitões quando ocorre mistura de animais de diferentes status imune. c. Transmissão entre rebanhos Pode ocorrer pelo uso de sêmen de reprodutores persistentemente infectados e decorrente de frágeis medidas de biosseguridade, como movimentação de suínos entre estabelecimentos de produção; caminhões contaminados e possivelmente por insetos (moscas e mosquitos). A proximidade entre estabelecimentos tem sido frequentemente mencionada como importante fator de risco, pois estudos têm revelado, nos EUA, que à medida que diminui a distância entre estabelecimentos aumenta a probabilidade de disseminação da doença comprovada pela similaridade das sequências de genes. VIII. PREVENÇÃO E CONTROLE 1. Prevenção Objetivo: interromper entrada do vPRRS em rebanhos negativos e interromper entrada de novos vírus variante em rebanhos já infectados. Medidas: Quarentenário: possuir instalação para


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quarentena e atender protocolo de testes para suínos reprodutores adquiridos para renovação do plantel; Veículos que entram no estabelecimento: sanitização completa (limpeza, lavagem e desinfecção) de veículos de transporte de animais e de insumos; Pessoal (trabalhadores e visitantes): devem obedecer ao protocolo de banho e troca de roupa e calçados ao entrar no estabelecimento; Controle de pragas: mitigar presença de roedores e insetos. Inclui medidas defensivas (estrutural) para minimizar entrada de pragas e ofensivas para destruir as pragas que já estão instaladas no estabelecimento. Filtro de ar: em regiões de alta densidade (estabelecimentos muito próximos), para reduzir riscos de entrada de aerossóis contendo vPRRS e M. hyopneumoniae. 2. Controle Objetivo: limitar efeitos adversos da doença em todas as fases da produção, que inclui mitigação da circulação viral. É tarefa extremamente difícil. Medidas: Aclimatação de marrãs: em estabelecimentos de reprodução, o controle de circulação viral é baseado na reposição do plantel com animais que já tenham desenvolvido imunidade contra PRRS por meio de: (i) contato com animais sabidamente infectados; (ii) exposição intencional ao vPRRS e (iii) vacinação. Obviamente, animais expostos intencionalmente, ou não, devem ser introduzidos no plantel depois de cessada a viremia. Controle do plantel de reprodutores: inclui, inicialmente, aclimatação de marrãs e, adicionalmente (não necessariamente), introdução de medidas de controle direcionada às fêmeas antes da gestação, como imunização ativa (vacina viva modificada para estimular imunidade humoral e celular) e imunização passiva (soroterapia). Reposição do plantel: interrupção temporária por um período de 2-4 meses. Manejo de leitões: evitar mistura de lactentes principalmente nas primeiras 24 horas de vida, descartar animais severamente afetados e manter fluxo “tudo dentro - tudo fora” na creche. 3. Erradicação Objetivo: eliminação do vPRRS da população. Medidas mais recomendada em regiões endêmicas. Medidas: Eliminação do plantel: existem protocolos de população/repovoamento total, população parcial, segregação precoce de desmamados, teste e remoção e encerramento do rebanho. Para se obter sucesso com eliminação, alguns cuidados são necessários, como: (i) reintrodução de animais negativos para PRRS e (ii) repo-

voar com animais que não sejam comunicantes (animais expostos ao risco). Qualquer que seja a estratégia selecionada, medidas de biosseguridade são essenciais para prevenir a reintrodução do vPRRS. PONTOS CONHECIDOS SOBRE PRRS EM SUÍDEOS SILVESTRES O mecanismo de transmissão entre javalis é igual ao dos suínos domésticos. Javalis podem transmitir para suínos domésticos. Sinais clínicos: nem sempre observados, mas, quando presentes, são sinais de anorexia, febre, letargia, depressão e abortamento. BIBLIOGRAFIA 1. ARRUDA, A.G.; SANHUEZA, J.; CORZO, C.; VILALTA, C. Assessment of area spread of porcine reproductive and respiratory syndrome (PRRS) virus in three clusters of swine farms. Transboundary and Emerging Diseases, p. 1-8, 2018. 2. NEIRA, V.; BRITO, B.; MENA, J.; CULHANE, M.; APEL, M.I.; MAX, V.; PEREZ, P.; MORENO, V.; MATHIEU, M.; JOHOW, M.; BADIA, C.; TORREMOREL, M.; MEDINA, R.; ORTEGA, R. Epidemiological investigations of the introduction of porcine reproductive and respiratory syndrome virus in Chile, 2013-2015. PLoS ONE, v. 12, n. 7, 2017. 3. PILERI, E.; MATEU, E. Review on the transmission porcine reproductive and respiratory syndrome virus between pigs and farms and impact on vaccination. Vet Res, v. 47, p. 108, 2016 4. SWENSON, S.L., HILL, H.T., ZIMMERMAN, J.J., et al. Excretion of porcine reproductive and respiratory syndrome virus in semen after experimentally induced infection in boars. J AmVetMed Assoc. 204:19431948, 1994. 5. VALDES-DONOSO, P., ALVAREZ, J., JARVIS, L.S., MORRISON, R.B., PEREZ, A.M. Production losses from an endemic animal disease: Porcine reproductive and respiratory syndrome (PRRS) in selected Midwest US Sow Farms. Frontiers in Veterinary Science, 5(MAY),p.102, 2018 6. ZIMMERMAN, J.J.; BENFIELD, D.A.; DEE, S.A.; MURTAUGH, M.P.; STADEJEK, T.; STEVENSON, G.W.; TORREMORELL, M. Porcine Reproductive and Respiratory Syndrome Virus (Porcine Arterivirus). In Diseases of swine. Ed. ZIMMERMAN, J.J.; KARRIKER, L.A.; RAMIREZ, A.; SCHWARTZ, K.J.; STEVENSON, G.W. 10th ed. WileyBlackwell publish, 1012p. 2012.

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Resumo do 11º Simpósio Europeu de Manejo da Sanidade Suína (EAPHM/Associação Europeia de Manejo Sanitário Suíno ECPHM/Colégio Europeu de Manejo Sanitário Suíno) Antonio Palomo Yagüe Médico-veterinário PhD em Nutrição de Suínos Diretor da Divisão de Suinocultura Setna Nutricion - INZO antoniopalomo@setna.com

INTRODUÇÃO Durante três dias foi celebrada em Utrecht (Tivoli Vreden Brug), localidade holandesa fundada pelos romanos e a quarta cidade em importância dos Países Baixos (300 mil habitantes), a 11ª reunião da Associação e do Colégio de Veterinários Especialistas em Suínos europeus. Precisamente, nessa cidade foi firmado, em 1713, o Tratado de Utrecht, o qual colocava um final na Guerra de Sucessão Espanhola. Participaram da reunião científica mais de mil técnicos de toda a Europa, América e Ásia. O simpósio foi patrocinado por várias empresas, em diferentes modalidades: Ouro (Boehringer Ingelheim, Ceva, Dopharma, GD, Hipra, IDT, MSD, Trow Nutrition, Vetoquinol e Zoetis), Prata (Henke Sass Wolf e Pharmacosmos) e Bronze (Lanxess e Topigs Norsvin), bem como outro grupo de patrocinadores (Anicon, Apha Scientific, Bertin, Biochem, Eco, Elanco, Exopol, Grupo Asis, Idexx, Kemin, Nuscience e PIC). Os media partners do ECPHM foram pig333.com, International Pig Topics e Pig Progress.

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Organizei o resumo seguinte em seções, nas quais foram desenvolvidas as diferentes sessões técnicas, como referência: • Produção de suínos na Holanda • Manejo de sanidade suína 4.0 • Manejo sanitário do plantel & economia • Sessão residentes do ECPHM • Administração de antibióticos no manejo sanitário dos suínos • Doenças virais • Saúde pública veterinária • Suínos com caudas longas • Doenças bacterianas • Bem-estar e nutrição • ASF na Europa • Imunologia e vacinação • Reprodução Suínos&Cia | nº 61/2019

Tivoli Vreden Brug PRODUÇÃO DE SUÍNOS NA HOLANDA (Anton Pijpers – Universidade de Utrecht) A Universidade de Utrecht (fundada em1636), com sete faculdades e dois institutos com 31 mil estudantes e 390 professores em tempo integral, tem uma equipe de 7 mil membros. A produção de suínos concentra-se no sudeste da Holanda, exportando um grande número de leitões e suínos de engorda (Alemanha, Dinamarca, Espanha, entre outros). Entre 1970 e 1995 houve um grande desenvolvimento da suinocultura local, ocasião em que se incluiu um plano de vacinação contra PSC e Aujeszky. Em 1991 ocorreu o isolamento da cepa Lelystad, de PRRS. Entre 1997 e 1998 houve casos massivos de PSC, o que lhes causou um prejuízo de € 1,5 bilhão e deu origem a uma reestruturação da área nos 20 anos seguintes, a qual os levou a uma produção atual de 4 milhões de suínos a menos. A isso se somou uma diminuição no ritmo das pesquisas, a divisão entre organizações e governo, o aumento das resistên-


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cias antimicrobianas, os preços baixos e uma pior percepção da sociedade. Na atualidade, voltaram a união e a cooperação entre as organizações e houve maior consolidação dos últimos cinco anos na estrutura das granjas – com o apoio do governo e do Rabobank, ocorreu uma redução drástica no consumo de antibióticos, melhor conscientização dos produtores e aumento das medidas relativas à prevenção e à biosseguridade. Há uma mudança nas perspectivas da sanidade suína focada agora em sistemas de monitoramento em tempo real, no uso do sistema de armazenamento Big data e na sustentabilidade do setor (respeito ao meio ambiente, economia circular). Em contrapartida, o setor passa também por uma diminuição do interesse dos jovens veterinários na produção de suínos, o que remete a uma reestruturação necessária das necessidades educacionais, bem como a uma nova abordagem ao setor, considerando os anseios da sociedade (não continuidade das famílias de produtores, um papel crucial da economia circular, bem-estar animal, valor agregado das comunidades locais e a possibilidade de focalização em nichos de mercado locais e regionais). MANEJO DA SANIDADE SUÍNA 4.0 Big data na epidemiologia dos suínos (John Berezowski – Universidade de Berna) Big Data é um grande volume de dados, estruturados e não estruturados, que são difíceis de processar usando bancos de dados tradicionais e técnicas atuais de software (4V›s = volume, veracidade, velocidade e variedade). Os dados provêm de várias fontes (data.gov.uk, us.data.gov, european.data.portal, entre outras). Para se ter uma ideia, os dados digitais, em janeiro de 2018 e ao longo de todo o mundo, são registrados em bilhões: população, usuários da internet, redes sociais, dispositivos móveis (www.statista.com). Estima-se que, nos próximos 25 anos, o número de aparelhos conectados atualmente à internet será multiplicado por três (“a internet das coisas”). As dúvidas surgem quando nos perguntamos se os algoritmos podem diagnosticar melhor do que nós mesmos. Na agricultura existem 414 publicações científicas que representam 1% de todos os setores. O processo de Big data começa pela seleção dos dados, pré-processamentos, transformações, modulação e avaliação/interpretação (ex: Netflix™TV, programas de previsão de pedidos do McDonald´s™). Referência de um projeto de Big data na suinocultura suíça (2,5 milhões de suínos abatidos e 6.500 granjas). Altamente descentralizado e fragmentado, com um grande número de pequenos atores independentes. Cinco institutos e centros de pesquisa (cinco pesquisadores principais) par-

ticipam desse projeto. O programa acumula dados de sete anos, coletados de centros de produção, governo, veterinários e frigoríficos, com garantia de confidencialidade em um formato de pesquisa transdisciplinar (epidemiologia, ciência da computação, saúde, informação geográfico-climática) que acumula, entre 2011 e 2017, três milhões de relatórios. 80% do trabalho em Big data é de limpeza e de processamento e interpretação de dados. Isso nos permitirá correlacionar muitas variáveis e suas correlações, de forma eficaz. As lições aprendidas são: a colaboração interdisciplinar é essencial (produtor, veterinário, transporte, abatedouro), a comunicação é crítica antes de começar e durante o processo e trabalhar lado a lado com diferentes atores é fundamental. “Big data is about people”. Dados inteligentes no manejo sanitário (Daniel Berckmans – M3-Biores KU Leuven) Todos os anos, 65 bilhões de animais são abatidos, e a demanda mundial por produtos de origem animal aumentará em 75% até 2050. A saúde animal é o ponto crítico, entre animais e alimentos, dentro da cadeia alimentar. O bem-estar animal está no centro da produção animal para garantir sua eficiência, bem como as questões ambientais, e tudo o que é importante para a sociedade. A valorização do conhecimento tem grande importância econômica. Praticar a chamada Agricultura e Pecuária de Precisão (PLF, na sigla em inglês) é necessário para se obter melhor gerenciamento de sistemas automáticos em tempo real, os quais monitoram o bem-estar, a saúde, a nutrição e os parâmetros produtivos. Um exemplo é a monitoria de infecções por meio da análise do índice de tosse (diminuição do consumo versus estresse respiratório), para a qual são utilizados sensores acústicos e sensores de temperatura. Outro exemplo são os sistemas de monitoria do consumo de água por meio de imagens, as quais permitem a visualização do número e dos horários das visitas aos bebedouros e o tempo de permanência junto a eles. Também é possível monitorar as agressões que ocorrem entre os leitões, por meio de câmeras cinéticas, e se utilizar de sistemas de estimativa de peso em tempo real (Fancom) e de sistemas de detecção do status mental dos animais em tempo real (bem-estar animal: Brave New World ou Admirável Mundo Novo, Real Time Frustration Monitoring ou Monitoria de Frustrações em Tempo Real, BioRICS™Stress Level Monitoring ou Monitoria do Nível de Estresse da BioRICS™). A transmissão de dados consome mais energia do que os cálculos em tempo real, além da diferenciação de quais informações são relevantes e quais os pontos a serem considerados, antes da opção pelo uso do Big data ou do Smart date. Já

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Caso ocorram resultados de PCR negativos, de seis a oito consecutivos, podemos então pensar que o vírus não esteja circulando. Os pool de fluidos são uma boa opção para leitões com três a cinco dias de idade e uma prática adequada para análises semanais. Desenvolvimento e avaliação inicial de um sistema integrado que utiliza fachos de luz de baixa potência transmitidos por meio de bluetooth, sensores e uma plataforma baseada na nuvem para medir concomitantemente o movimento próximo do tempo real de suínos, sêmen, ração, suprimentos, ativos e pessoal em toda a grande rede de produção de suínos dos EUA (Dale Polson – Boehringer Ingelheim)

A cidade das bicicletas a PLF dá aos produtores a chance de saber quais animais precisam de mais atenção e de um manejo ativo (maior interação entre animais e pessoas), o que significa uma produção animal mais sustentável. A implementação da PLF, em nível mundial, precisa de uma colaboração séria entre a indústria, os pesquisadores, os suinocultores e os abatedouros.

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MANEJO SANITÁRIO DO PLANTEL & ECONOMIA Aplicações de métodos baseados na população para monitoria e vigilância da PRRS (Síndrome Respiratória e Reprodutiva Suína) em plantéis de reprodução submetidos à eliminação do vírus (Daniel Torrents – Hipra) O objetivo é ter um método analítico que nos permita trabalhar com a prevalência/persistência do vírus da PRRS em nossas granjas de matrizes para classificá-las como estáveis, não estáveis ​​ou livres. Começamos testando 30 leitões, no momento do desmame, por meio de quatro análises mensais consecutivas que, resultando negativas, nos faziam pensar que o vírus não estava presente na granja – com uma prevalência de 10% e 95% de grau de confiança. Mas a baixa prevalência e a eliminação do vírus da propriedade são coincidentes. As técnicas de diagnóstico evoluíram ao longo do tempo, de 2007 até hoje, de tal forma que o uso de fluido analítico de origem sérica foi reduzido, em comparação com o uso de fluidos orais, além de variar o número de amostras por pool, reduzindo-se o tamanho dele quando a prevalência diminui. Recomenda-se realizar verificações semanais de fluidos em leitões no desmame. Suínos&Cia | nº 61/2019

Estamos na quarta revolução industrial dos sistemas automáticos Smart conectados à nuvem e dos sistemas inteligentes CPS (Cyber-Physical Systems). Na produção animal, estes CPS são equivalentes à PLF citada anteriormente. O corpo das plataformas para PLF inclui o controle preciso dos diferentes riscos com todas as tecnologias envolvidas. Utiliza-se o sistema pTRACK com um painel de controle que analisa os diferentes riscos sanitários em cada local produtivo – derivados de fatores como os movimentos de pessoas, animais, veículos (trabalhadores, rações, leitões, animais de engorda, desvios, renovações de plantel). Diferenças entre suinocultores holandeses e belgas com relação aos seus níveis de biosseguridade e ao uso de antimicrobianos no projeto i-4-1 Sanidade (Nele Caekebeke – Ghent University) Estima-se que, em 2050, 10 milhões de pessoas morrerão no mundo devido a resistências antimicrobianas (acima dos 8,2 milhões devidos ao câncer). No Projeto i-4-1 foram selecionadas 30 granjas (granjas de matrizes e leitões), as quais foram acompanhadas por um ano e meio, tendo sido analisados os manejos, os programas de vacinação, os dados produtivos e os estudos de laboratório. O tamanho médio das propriedades belgas foi de 437 porcas (95 a 1550), e o das propriedades holandesas, de 567 porcas (315 a 1600), sendo similar o tamanho da amostra em número de leitões e suínos de engorda. Em termos de medidas de biosseguridade, as ações externas e internas foram superiores na Holanda (73% e 71%, respectivamente), em comparação com os <50% na Bélgica. As principais diferenças foram observadas com relação aos controles preventivos contra parasitas, aves, insetos, saneamento de água potável, vazios sanitários na engorda, mistura de animais de diferentes idades, lavagem de porcas antes do parto.


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Foi analisado um valor, estabelecido como TI (tratamento incidência), que corresponde ao número de animais tratados em cada 200, nas três fases de produção (leitões lactentes, leitões desmamados e suínos de engorda). O TI foi de 10,10; 43,78 e 6,58 na Bélgica contra 1,22; 12,02 e 2,4 na Holanda. As tetraciclinas, polimixinas e penicilinas foram os antibióticos mais utilizados, com uma redução significativa na Holanda frente à Bélgica. Medindo o peso do patógeno respiratório em suínos de engorda para estimar o impacto da doença (Rachel Stika – Iowa State University) O complexo respiratório suíno inclui o vírus da PRRS, o vírus Influenza, o Mycoplasma hyopneumoniae e o circovírus (PCV). O objetivo é medir e caracterizar os patógenos envolvidos em um problema respiratório por meio da coleta de fluidos orais quinzenais analisados ​​por PCR em leitões com 1 a 4; 5 a 8; 9 a 16 e maiores de 17 semanas de idade, cruzando-os com os dados produtivos. Em casos de gripe há diferenças de lucro líquido por suíno: entre € 8,27 e € 15,68/suíno relativos a M. hyopnemoniae; € 3,00 a € 12,00/suíno relativos ao PCV2; € 13,00 a € 16,31 relativos ao vírus da PRRS, com base no diferencial de mortalidade, pior ganho médio de peso diário e margem de lucro sobre o preço de venda. Em quadros mistos de vírus Influenza com PRRSv e/ou M. hyo com PCV as perdas são acrescidas, sendo maiores nos casos de M. Hyo + FLU + PRRS + PCV. Existem muitos fatores que influenciam a gravidade dos quadros simples e combinados, destacando-se como principal fator agravante a alta densidade (+ de 10% a 20% de densidade, a mortalidade aumenta drasticamente).

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Modelagem do efeito da doença respiratória no desempenho da produção de planteis de suínos Farrow-to-finish (María Rodrigues da Costa – Teagasc – Irlanda) As patologias respiratórias têm um grande efeito negativo na produtividade, o que não é totalmente quantificado, sendo geralmente muito variável. Foi realizado um estudo em granjas, na Irlanda (56, correspondendo a cerca de 50 mil criadores, todos em sistema de ciclo fechado, o que equivale a 1/3 da população do país). Neste projeto foram coletados dados sobre o programa de vacinação, monitoria sorológica em suínos de engorda (32 amostras por granja) e abatedouro (média de 162 amostras por granja, mais lesões pulmonares – pleurite, pneumonia e abscessos – analisadas, além de pericardite e outras lesões). O Teagasce-Profit Monitor (ferramenta de análise financeira on-line) contempla os dados produtivos Suínos&Cia | nº 61/2019

das fases de engorda (consumo médio diário, ganho médio de peso diário, taxa de conversão, idade ao abate, mortalidade em leitões desmamados e engorda). 39% das granjas são vacinadas contra Influenza, 43% contra PRRS, 77% contra M. hyo, 9% contra APP (pneumonia por Actinobacillus pleuropneumoniae) e 94,6% contra PCV2, além de 7,1% contra rinite. As granjas são positivas em 78,6% para FLU; 58,9% para PRRS e 78,6% para M. hyo. A dimensão média das propriedades corresponde a 789 porcas (109 a 2498), e o peso médio de abate dos animais é de 104 kg. O consumo médio diário é mais afetado nas granjas positivas para M. hyo e para o PRRSv, e o ganho de peso diário mais a taxa de conversão são mais prejudicados nas propriedades positivas para o PRRSv. O ganho médio de peso diário é penalizado nos leitões – desde o desmame até a engorda – em 18,6 g/dia quando se detecta lesões pulmonares nos lobos cranianos e em 31 g/dia em granjas positivas para o PRRSv. https://doi.org/10.1093/jas/skz163 Ingestão de colostro em leitões: análise dos fatores variantes em 10 granjas comerciais (Catherine Belloc –INRA– IDT) Com as porcas atuais, de alta prolificidade, o peso ao nascer dos leitões diminuiu, assim como a heterogeneidade deles aumentou, e a mortalidade antes do desmame também. Portanto, tomar colostro é essencial para ingerir energia e imunidade. Foram selecionadas dez granjas, com base em sua alta prolificidade e com diferentes taxas de mortalidade de leitões lactentes (baixa, < 11,5 - média e alta, > 15,5). Nesse estudo os leitões foram pesados ao nascer, 24 horas após e no desmame, tendo sido retiradas também amostras de sangue para se analisar os níveis de IgG. Foram 1.000 leitões no total (927 nascidos vivos, 73 natimortos e 9 mumificados). O peso médio ao nascer foi de 1,3 kg (0,470 g a 2,290 kg). O aumento de peso nas primeiras 24 horas foi de 88 g (+ ou - 79 g). A ingestão média estimada de colostro foi de 270 g (202 g/kg de peso vivo). Maior peso ao nascer, mais peso às 24 horas e maior peso no final da lactação, não havendo correlação entre peso às 24 horas e tamanho da leitegada. A mortalidade de leitões lactentes foi < 10%. Se o peso em 24 horas aumenta 50 g, conclui-se que quanto maior a ingestão de colostro, menor a mortalidade. Os requerimentos dos menores leitões são maiores porque eles têm menos reservas corporais e maiores necessidades de termorregulação (maior relação área de superfície corporal/ peso). Os níveis de IgG são influenciados negativamente pelo maior tamanho de leitegada, menor peso ao nascer e adoções/cessões antecipadas.


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Existe uma correlação entre a transferência de imunidade (< 20 mg/mL = 39% vs. 6%> 20 mg/mL) e a mortalidade, bem como com o aumento de peso. Concluiu-se que o ganho de peso às 24 horas após o nascimento é um indicador relevante da ingestão de colostro, que os pequenos leitões têm necessidades especiais e que o ambiente na sala de parto pode continuar a ser melhorado. SESSÃO RESIDENTES DO ECPHM A erradicação bem-sucedida do Mycoplasma hyopneumoniae dos plantéis de suínos noruegueses–10 anos depois (Stine Margrethe Gulliksen) A bactéria Mycoplasma hyopneumoniae foi muito comum em granjas norueguesas até 1994, quando a direção do Serviço de Sanidade Suína Norueguês (Norwegian Pig Health Service) decidiu levar a cabo um plano nacional de erradicação dela, baseado em prevalência sorológica. O programa incluiu um despovoamento parcial de todas as granjas de reprodução positivas, tanto em ciclo aberto como fechado, e o despovoamento total de confinamentos (engordas) positivos, os quais foram reabastecidos com animais negativos. Entre 1994 e 2009 (15 anos) foram testados sorologicamente (tendo por base a presença de anticorpos) 138.635 suínos, de 3.215 propriedades, sendo 4% das amostras individuais e 12,4% de granjas que foram inicialmente positivas. Em 2009 todas as granjas foram declaradas livres de M. hyo, permanecendo assim até hoje (um total de 35.202 amostras de sangue foram analisadas entre 2009 e 2017). As bases da estratégia de controle consideram vários fatores, tais como o controle da importação de animais vivos (negativos), a estrutura comercial adequada das granjas, propriedades de pequeno tamanho relativo, baixa densidade de produção em todo o país e, finalmente, um destacado esforço por parte dos suinocultores, abatedouros, trabalhadores e veterinários. Sob a sombra da peste suína africana (PSA): uma coleção de casos em leitões com hemorragias (Lucía Dieste-Pérez) Dada a suspeita de sinais clínicos compatíveis com a PSA, é importante definir corretamente os sintomas clínicos e as lesões, como hemorragia maciça, diátese hemorrágica, trombocitopenia roxa, petéquias em numerosos órgãos e tecidos, infiltrações nos linfonodos e conteúdos sanguíneos intestinais. Devemos fazer o diagnóstico diferencial frente à septicemia por Streptococcus dysgalactiae

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ssp. equisimilis, Escherichia coli, Streptococcus suis, Staphyococcus aureus, Staphylococcus hyicus ou a combinação de alguns deles. A dúvida surge quando algumas dessas bactérias são isoladas, de tal forma que não fica claro se elas são a primeira causa da hemorragia ou atuam como agentes secundários, sendo necessário chegar ao diagnóstico definitivo do primeiro agente responsável. Impacto da lavagem e da desinfecção das glândulas mamárias na saúde e na performance da porca e do leitão (Alexandra Schoos) Como medida de biosseguridade em muitas granjas na Bélgica, as porcas prenhas são limpas antes de entrar na sala de partos. Em um estudo com 45 porcas, divididas em três grupos (aparelho mamário não lavado, aparelho mamário lavado apenas com água quente, aparelho mamário lavado e desinfetado com uma solução de iodo), mediu-se a carga de contaminação bacteriana no nível da pele de suas glândulas mamárias, na sala de nascimentos não foram encontradas diferenças na mortalidade de leitões, no ganho médio de peso diário e em parâmetros de saúde (diarreias, medicamentos) em nenhum dos três tratamentos, concluindo-se pela necessidade de mais estudos, a serem conduzidos em granjas com diferentes padrões de higiene e diferentes condições de saúde. nº 61/2019 | Suínos&Cia


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Vacinação contra doença do edema como ferramenta para reduzir o uso de antibióticos após o desmame, em uma granja positiva para a Shigatoxina 2e (Susana Mesonero-Escuredo) Cerca de 1.824 leitões desmamados em uma granja com histórico de doença do edema foram divididos em dois grupos: o primeiro com 480 leitões, que consumiram ração contendo colistina, amoxicilina e óxido de zinco; e o segundo com 1.344 leitões, que consumiram ração contendo amoxicilina e óxido de zinco. Este segundo grupo foi dividido em dois, com 672 leitões cada, dos quais o primeiro foi vacinado aos sete dias de idade com Ecoporc™ SHIGA e o segundo permaneceu sem vacinação. Ambos os grupos foram levados até os 63 dias de idade, com base na idade de desmame de 28 dias. Tanto o consumo médio diário, quanto o ganho médio de peso diário e a taxa de conversão alimentar não diferiram significativamente, observando-se uma redução no uso de antibióticos e na taxa de mortalidade. Caso de Listeriose em suínos de engorda, com diarreia hemorrágica e morte súbita (Lukas Schwarz – University of Vienna) A listeriose é normalmente encontrada em processos septicêmicos de leitões lactentes. Em porcas costuma causar abortos, e em leitões lactentes raramente causa encefalite. Em suínos de engorda são descritos casos de enterite hemorrágica e septicemia, causados pela Listeria monocytogenes. A mortalidade, nos suínos de engorda acometidos, alcançou 7,8% (animais pesando entre 40 e 100 kg de peso vivo). A lesão mais característica, na fase de engorda, foi uma grave tiflocolite fibrinonecrótica difusa, cujo tratamento com amoxicilina resolveu positivamente o problema. Neste caso, a Listeria foi isolada da silagem de milho, utilizada como alimento, mas produzida em condições incorretas, contaminada inclusive com 3.000 ppb de desoxinivalenol.

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ADMINISTRAÇÃO DE ANTIBIÓTICOS NO MANEJO SANITÁRIO Administração dos antimicrobianos no manejo sanitário dos suínos (Jaap Wagenaar – Utrecht University) Causas de mortalidade em humanos, estimadas para o ano de 2050: 10 milhões devido à resistência a agentes antimicrobianos (AMR, na sigla em inglês); 8,2 milhões devido ao câncer; 1,5 milhão por causa de diabetes; 1,4 milhão por causa de diarreias; 1,2 milhão por acidentes de trânsito; 100 mil devido à cólera. Em 2015, a OMS (OrganiSuínos&Cia | nº 61/2019

zação Mundial da Saúde), a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e a OIE (Organização Mundial da Saúde Animal, que substituiu, a partir de 2003, a antiga Organização Internacional das Epizootias) adotaram a resolução sobre resistência a antimicrobianos (RAM) em sua Assembleia Geral. Em 21 de setembro de 2016, uma resolução semelhante também foi aprovada na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) em Nova York. A OMS desenvolveu um plano de ação global como um componente do programa One Health. O problema central do referido plano está na quantificação da RAM em humanos, procedentes de animais. A abordagem epidemiológica não nos dá respostas ou sintomas imediatos, além do que os efeitos do uso de antimicrobianos em animais – nos humanos – são de difícil avaliação em função de serem intervenções paralelas. Um exemplo são os plasmídeos de resistência em Escherichia coli, estudados por meio de enzimas beta lactamase de espectro estendido (ESBL, na sigla em inglês) para determinar sua origem (animais, humanos, ambiente, solo, água e alimento). A atribuição de resistência de humanos para humanos é altamente relevante, mas de animais para humanos ocorre apenas entre 1% e10% de alguns genes específicos, associados a granjas e a espécies animais. O uso restrito de antibióticos na produção animal está associado à redução na presença da resistência a antibióticos em animais e há uma pequena evidência sugerindo uma associação semelhante na população humana, especialmente pela exposição direta a alimentos de origem animal. Na Holanda, entre 2007 e 2017, o uso de antibióticos foi reduzido em 67,9% (48% em suínos), especialmente fluoroquinolonas e cefalosporinas de 3ª e 4ª gerações. A biosseguridade, as condições de alojamento e a qualidade dos alimentos, com o envolvimento de veterinários como garantidores da saúde de animais e pessoas, são fatores importantes envolvidos nas mudanças da incidência da RAM, associados a boas práticas governamentais. Uma questão central é como podemos motivar os produtores a mudar sua mentalidade no uso de antibióticos: alguns medicamentos têm um efeito positivo em seus animais e muitos efeitos negativos sobre a saúde humana. O nível de resistência e os resíduos de antibióticos serão barreiras comerciais para exportação/importação, além de condicionar a percepção dos consumidores para suas decisões sobre o consumo de alimentos de origem animal (trata-se de uma responsabilidade corporativa). O primeiro passo seria melhorar a sanidade dos animais, e o segundo seria reduzir a RAM, problema que, se não resolvido, irá aumentar. Por isso que investir na saúde animal é o principal requisito para a redução da incidência de resistências a antibióticos.


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Redução da RAM na prática (Andreas Palzer – veterinário de campo alemão) No dia a dia temos incontáveis notícias sobre o uso/presença de antibióticos nas rações de animais, muitas das quais carecem de base científica, o que significa que a RAM é uma das questões mais importantes para os veterinários europeus, sendo ao mesmo tempo muito diversificada entre países com diferentes sistemas de produção e canais de comunicação. Alguns países são muito restritivos, no momento (Dinamarca, Holanda, Alemanha, França, Espanha, entre outros) e, até o momento, nenhuma ação específica foi tomada. Desde 2011, na Alemanha, o uso de antibióticos veterinários foi reduzido em 57% (27% entre 2011 e 2014 e 30% entre 2015 e 2017). Um dos problemas enfrentados na quantificação dessa redução reside nos termos que usamos para defini-la. Na Europa temos diferentes relatórios sobre o assunto, como o ESVAC (European Surveillance of Veterinary Antimicrobial Consumption ou Vigilância Europeia do Consumo de Antimicrobianos Veterinários), da EMA (European Medicines Agency ou Agência de Medicamentos Europeia): mg/PCU (Population Correction Unit ou Unidade de Correção Populacional) em diferentes classes de antimicrobianos, em 30 países europeus. Em todos os casos, presta-se atenção especial ao uso de fluoroquinolonas de terceira e quarta gerações e de cefalosporinas, as quais mantêm diferentes estratégias terapêuticas entre os países.

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O uso de antibióticos em humanos, com altos índices de resistência, nos faz duvidar das ações precisas a serem tomadas na terapêutica dos animais. Na Dinamarca, o número de infecções por MRSA (Methicillin Resistant Staphylococcus Aureus ou Staphylococcus aureus resistentes à methicilina) em humanos tem aumentado, apesar da redução no uso de antibióticos em animais. Deve-se refletir sobre os contatos de pessoas ao redor do mundo pela interação entre eles, nas viagens internacionais, cada vez mais numerosas, bem como não apenas se referir ao uso de antibióticos, mas também ao grau de RAM de origem animal e o papel dos veterinários de campo no treinamento avançado frente às medidas necessárias para implementar a melhoria da segurança alimentar. A pergunta que fazemos é: como podemos reduzir o uso de antibióticos? - Primeiro seria conscientizar os produtores e os veterinários, explicando o problema à sociedade (o conhecimento é necessário, e a negação não é a opção); - vacinação/prevenção: nos dias de hoje ainda existem diferenças nos percentuais de suínos vacinados em diversos países europeus; além disso, desenvolver vacinas novas e mais eficazes (ex.: Influenza); Suínos&Cia | nº 61/2019

- uso de aditivos alternativos (fitobióticos, ácidos orgânicos, sequestrantes de micotoxinas) e que tenhamos um conhecimento melhor sobre seus mecanismos de ação, suas dosagens e seus padrões produtivos; - usar material genético que tenha um sistema imunológico mais eficaz e linhagens resistentes a certas patologias; - otimizar a alimentação e as condições de alojamento (redução de fatores de estresse); - orientações de manejo dirigidas à detecção – de forma precoce – de animais doentes e/ou atrasados (controle individual dos animais); - uso de técnicas corretas de diagnóstico para um tratamento preciso. Posters • Numerosos trabalhos fazem referência a resistências a antibióticos distintas e variáveis encontradas ao longo dessa última década em diversos países e frente a agentes infecciosos como Escherichia coli, Mycoplasma hyopneumoniae, Actinobacillus pleuropneumoniae, Haemophilus parasuis, Pasteurella multocida, Streptococcus suis, devendo-se conhecer suas sensibilidades. • O uso de antibióticos em porcas e leitões afeta a estabilização da microbiota positiva de ambos. São necessários mais estudos, no futuro, para conhecer com precisão quais antibióticos e que tipo de flora são os mais favoráveis à saúde dos suínos. DOENÇAS VIRAIS Frequência de detecção do circovírus suíno 3 no soro de animais com distúrbios respiratórios e digestivos (Viviane Saporiti – IRTA CreSA) O PCV3 tem sido isolado, em diferentes estudos, de animais com múltiplos distúrbios sanitários. Neste estudo foram analisados 315 soros de suínos com um a quatro meses de idade, com patologias respiratórias e digestivas distintas, bem como de animais saudáveis. Os resultados estão correlacionados com diferentes lesões respiratórias e digestivas, sendo os dados obtidos por extração de DNA, por meio de prova de PCR convencional e por qPCR, e com análise da frequência de detecção pelo teste de Qui-Quadrado ou teste de Fisher. Os resultados do PCR convencional mostraram dados positivos das amostras para PCV3 em 6,2%, 5,5% e 6,6% dos suínos com problemas respiratórios, digestivos (menor frequência e quantidade de vírus nas lesões) e saudáveis, respectivamente. Das 19 amostras positivas para o PCR foram obtidas 15 sequências ORF1 (8 respiratórias,


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3 digestivas e 4 saudáveis), com uma identidade entre elas variando de 97,66% a 100%. A diferença entre este estudo e os anteriores pode estar nos critérios de seleção de sintomas clínicos ena matriz de diferentes doenças infecciosas, assim como em diferentes situações epidemiológicas. Mutações em sítios antigênicos da proteína hemaglutinina após a vacinação contra Influenza (Pia Ryt-Hansen – Seges/Dinamarca) Foi apresentado um caso clínico de Influenza, ocorrido em uma granja de 600 fêmeas, com 29 partos semanais e 32,6 leitões desmamados/ porca/ano, que são a PRRSv tipo 1 e a APP2 positiva. As amostras iniciais foram recolhidas num primeiro surto de gripe, sem vacinação prévia, e a segunda amostragem ocorreu após uma vacinação dupla, em massa, das reprodutoras (dezembro de 2016, fevereiro a abril de 2017 e junho de 2017). As amostras de sangue das porcas foram colhidas duas semanas antes do parto, na 3ª semana e 10 a 12 semanas mais tarde, além da coleta de swabs nasais em diferentes intervalos. Em dezembro foi isolado o H1N1 enzoótico, e nas outras duas amostras isolou-se o H1N2. 73,2% dos leitões tinham anticorpos contra o vírus após a infecção e antes da vacinação. Após a vacinação em massa das mães, 80% dos leitões tinham anticorpos (significativa queda na carga viral após a vacinação e manutenção do vírus em leitões semanas posteriores à mesma). Essa situação se explica pela diferença entre o H1N1 e a infecção pelo H1N2. Com relação à análise dos soros das porcas, antes e depois da vacinação em massa, foram encontradas diferenças na sequência viral, tendo sido identificadas três mutações (três vezes mais diversidade de sequências de nucleotídeos, após a vacinação). Foi identificada também uma ausência de anticorpos de proteção cruzada, com grande diversidade entre as mesmas linhas de HA. A vacinação em massa em reprodutoras aumenta o risco de disseminação do vírus entre as diferentes unidades de produção, além de causar uma redução da soroconversão dos leitões na presença de anticorpos maternos. Impacto da coinfecção do PCV2 no nível de replicação de uma cepa de campo semelhante à vacinal (PRRSV1 - viva modificada) (Julie Eclercy – ANSES/França) Na Bretanha Francesa mais de 50% das granjas são afetadas pelo PRRSv, um vírus altamente instável. As vacinas vivas modificadas têm como características a persistência e a circulação da cepa vacinal. A coinfecção com o PCV2 é comum

Canais para passeios nas granjas de suínos locais, e ela aumenta a patogenicidade do quadro clínico (efeito imunossupressor de PRRSv). O objetivo desse trabalho foi o de estudar a coinfecção entre a cepa do vírus vacinal e a cepa de campo do vírus PCV2, a partir de seis grupos de leitões inoculados com o vírus MLV1 ou com o PCV2, separados ou juntos, frente a um controle negativo. Foram tomadas amostras uma semana após a inoculação e de 35 a 43 dias depois. Não houve diferenças significativas entre os grupos quanto aos sintomas clínicos (febre, ganho médio de peso diário). Houve diferenças significativas no grau das microlesões pulmonares, nos suínos inoculados, mais acentuadas na coinfecção pelo PRRSv + o PCV2. Nas coinfecções com o PCV2 houve um aumento significativo na viremia das cepas semelhantes à MLV1 (aumento na transmissão e tempo de latência reduzido), o que não ocorreu no caso da cepa MLV1 tradicional (transmissão reduzida). Isso significa que o uso de vacinas vivas modificadas não constitui um problema de segurança com relação às cepas de campo.

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Inflamação multissistêmica em leitões de um lote acometido por tremor congênito e suas consequentes deformações (Susanna Williamson – APHA/Reino Unido) Ocorrência em granjas de criação intensiva, de ciclo fechado e com histórico clínico do número de natimortos aumentado em diferentes ciclos de produção, entre julho e outubro, com distúrbios nervosos (tremores e paresia dos membros posteriores) e deformidades congênitas (artrogripose, meningocele e perna estendida). Nas lesões histopatológicas observa-se mielite não supurativa na coluna vertebral, inflamação multissistêmica e nº 61/2019 | Suínos&Cia


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mesmas células de cepas diferentes (recombinação), para as quais existem estudos em quatro países europeus distintos, surge um problema de interpretação, pois algumas cepas vacinais do PRRSV -1 são recombinadas umas com as outras e também com o vírus de campo, resultando em diferentes pontos de corte. Desse modo, conclusões baseadas apenas na ORF5 são errôneas, uma vez que ORF5 corresponde a apenas 4% do genoma, enquanto ORF2/ORF7 corresponde a 21%. Análise de marcadores de resiliência relativos à taxa de aborto em suínos (Lorenzo Fraile – Universidade de Lleida)

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Oudegracht & Torre Dom infiltrações angiocêntricas não supurativas em diferentes tecidos (coração, músculos, fígado, baço, pulmões, rins). Na pesquisa virológica por NGS – PCR foram encontrados PCV3 e peste-vírus suíno atípico (APPV, na sigla em inglês), sendo todos negativos para PRRS e PCV2. O PCV3, desde 2016 no Reino Unido, é encontrado em suínos doentes e saudáveis, o que parece estar ocorrendo no geral, em estudos de diferentes países (EUA, Ásia, DK, Espanha, Itália). A evidência suporta, mas não prova, o envolvimento do PCV3 nos casos de natimortos e artrogripose. A análise da sequência de nucleotídeos ORF5 é suficiente para o delineamento das cepas de PRRSV -1? (Jos Dortmans - GD) O estudo detalhado do genótipo viral da PRRS pode ser realizado por meio da análise de diferentes sequências nucleotídicas (ORF5 - ORF7 - ORF2/ORF7). Quando ocorrem coinfecções nas Suínos&Cia | nº 61/2019

Resiliência é a capacidade de manter os parâmetros produtivos (equilíbrio entre resistência e tolerância) diante de incidências sanitárias. Foi exposto um problema respiratório (Boddicker, 2012) no qual a resposta dos animais a infecções experimentais causadas pela cepa americana do PRRSV revelou possuir um forte componente genético, com herdabilidade sobre a carga viral e ganho médio diário de 0,30 (valor moderado), havendo muitos genes envolvidos no processo. Nos casos de problemas reprodutivos em porcas infectadas pela primeira vez com o PRRSV, o que causa um alto número de natimortos, mumificados e abortos, a resposta é mais complexa e tem efeitos tanto maternos quanto fetais. Neste caso, a resposta dos animais a infecções experimentais tem um certo componente genético e uma herdabilidade muito baixa, também com muitos genes envolvidos. O objetivo deste estudo concentrou-se nos problemas reprodutivos causados ​​pelo vírus em questão, em duas granjas negativas que sofreram uma epidemia (uma de 1.500 reprodutoras, com 30% de casos de aborto, e outra de 300 reprodutoras, com 5% de casos de aborto). Foi realizada uma análise do DNA genômico por meio de PCR direto e HRM-qPCR, com a conclusão final de que existem marcadores moleculares associados ao grau de aborto nos casos da ocorrência epidêmica do PRRSV (GBP5, WUR e MX1). Impacto econômico de um surto do vírus Influenza A, em um rebanho de 1.000 fêmeas (Evelyne Gaillard) A gripe suína é uma doença respiratória altamente contagiosa, que causa perdas econômicas substanciais devido ao alto custo da medicação, retardo do crescimento e penalização dos parâmetros reprodutivos nas granjas onde as porcas são afetadas. Estudo realizado em uma granja de 1.000 fêmeas, em uma área de baixa densidade populacional na Bretanha francesa, onde elas tinham sido imunizadas com uma vacina trivalente inativada,


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mostrou um quadro respiratório em leitoas e em porcas prenhas causado pelo vírus da Influenza A. O quadro clínico causou uma perda de 4 pontos em termos de fertilidade, mais leitões natimortos, seis abortos e mortalidade de porcas, resultando emum impacto econômico de € 18,80/porca, incluindo ainda o custo terapêutico de €10,38. Vigilância ativa do PRRSv em granjas de reprodução, creches e terminações (Jordi Baliellas) O uso de fluidos, processados por meio de provas de RT-PCR, é uma técnica sensível para a monitoria do status de uma granja frente ao PRRSv, além de ser válido do ponto de vista de custo/ benefício. Posters • Numerosos trabalhos apresentados, relativos a diferentes estratégias: vacinação contra o PRRSv, tanto de porcas como de leitões, para reduzir a excreção e o grau dos sinais clínicos, tanto reprodutivos como respiratórios; • Interesse especial nos trabalhos sobre vacinas contra o Circovírus, monovalentes ou combinadas com o PRRSv e/ou Mycoplasma hyopneumoniae, demostrando sua rentabilidade no controle da doença, com diversos protocolos vacinais.

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SAÚDE PÚBLICA VETERINÁRIA Efeito da vacinação grupal de marrãs e porcas contra Salmonella typhimurium no controle sorológico e na excreção do agente em porcas e seus descendentes (Linda Peeters) Foi realizado um ensaio com uma vacina viva atenuada – Salmopork™ – aplicada com intervalo de três semanas em porcas (em produção e nulíparas), na dose de 1 ml por via subcutânea e infectando as referidas fêmeas três semanas antes do parto. Houve redução da excreção fecal do agente, sobretudo nos suínos de engorda, entre 18 e 26 semanas de idade, não sendo significativo o efeito nas reprodutoras.

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no nível social como político. Mesmo assim, na Alemanha, o governo ainda não implementou um programa de monitoria devido à necessidade da contratação de muito pessoal e do grande aporte de recursos econômicos. Foi iniciado um projeto denominado MulTiViS, que incluiu 205 granjas comerciais de suínos de engorda no nordeste da Baixa Saxônia, selecionando 36 das 70 variáveis iniciais relativas ao bem-estar. Em 178 delas, a origem dos animais era de uma mesma granja de matrizes, e em 34 outras não se usava antibióticos. A prevalência de lesões pulmonares graves, no referido projeto, foi de 0,04, com mortalidade média de 2,23%. Estudo de intervenção para promover a diminuição do uso de antimicrobianos em granjas de suínos de ciclo completo, sob supervisão veterinária (Pascal Sanders) Realizado em 50 granjas de ciclo completo, nos Países Baixos (Holanda) e na França, entre março de 2015 e janeiro de 2018, colocou em prática uma diversidade de 18 medidas, entre elas a redução do uso de antibióticos. Houve uma divergência de resultados entre as fases de produção, levando à conclusão de que no final do período as taxas de mortalidade em leitões desmamados e suínos de engorda não foram diferentes entre o início e o final do período de redução do antibiótico. Entendendo a dinâmica viral da hepatite e (HEV) em uma granja de suínos de ciclo completo usando modelo de dados experimentais de campo (Morgane Salines) O vírus da hepatite E é zoonótico, sendo reconhecido como um grande reservatório em cidades industrializadas. Sua dinâmica é altamente variável em granjas de suínos, sendo influenciada principalmente por vírus que modulam a resposta imune, o que, segundo estudos estocásticos, favorece a persistência viral e o aumento de sua prevalência em fígados contaminados no abatedouro. Foi demonstrado também que certas práticas de manejo, como sistemas de cessão, adoção e mistura de animais, bem como questões estruturais de granjas derivadas de gestação em grupo e produção de lotes, são fatores que impactam a disseminação do vírus entre os animais.

Avaliação do bem-estar de suínos de engorda utilizando dados produtivos coletados rotineiramente e editados (Julia GrosseKleimann)

Uso da vacinação contra salmonela no topo da pirâmide de produção de suínos do reino unido (Judy Betridge)

O bem-estar na suinocultura adquiriu uma relevância importante nestes últimos anos, tanto

As salmonelas infectam uma grande variedade de animais, além do homem. Reduzir a


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prevalência delas, no nível da granja, ajuda a minimizar a contaminação do abatedouro e aumentar a segurança alimentar da carne e derivados e da saúde pública. Foi estudado o uso de uma vacina contra Salmonella typhimurium deletada, em reprodutoras dentro de uma granja multiplicadora, cuja aplicação reduziu a prevalência dos 38,2% iniciais para menos de 10%. Tendências no consumo de antimicrobianos na produção dinamarquesa de suínos, entre 2014 e 2017 e nos seis primeiros meses de 2018 (Nicolai Weber) O consumo de antibióticos na Dinamarca é controlado por uma base de dados nacional da medicina chamado VetStat, o qual define tanto a dose como a quantidade de agente antimicrobiano necessários para o tratamento de um quilo de peso corporal de suínos (Fundo Levy para o Suíno Dinamarquês), sendo calculado em três grupos: porcas + leitões lactentes, leitões desmamados e suínos de engorda. O valor medido, em toneladas de produto ativo, foi reduzido em 12% entre 2014 e 2017. Mas teve um aumento de 2% na primeira metade de 2018. O consumo total, medido em doses ativas do produto, foi reduzido em 11% nesse mesmo período, havendo também uma redução de 2% no primeiro semestre de 2018. As doses consumidas para produzir um suíno desde o nascimento até a engorda acarretaram em redução de 17% entre 2014 e 2017 e de 6% no primeiro semestre de 2018. Os miligramas de ingrediente ativo consumido para se produzir um suíno, desde o nascimento até o abate, foram reduzidos em 17% entre 2014 e 2017 e em 3% na primeira metade de 2018. Este método de avaliação considera o aumento da produção, bem como as mudanças nas categorias de produção e os tipos de antimicrobianos usados. SUÍNOS COM CAUDAS LONGAS Suínos com caudas longas, a perspectiva da UE (Desmond Maguire – European Commission) Este é um dos principais tópicos de interesse da Comissão Europeia, no seu projeto COM, com o objetivo de melhorar o bem-estar dos animais e a aplicação das Diretivas 98/58/CE, 2008/120/CE e 2016/336, da UE (2017 a2019), focando as medidas de ação padrão. Os requisitos legais determinam que é ilegal cortar as caudas rotineiramente, com exceção da evidência de canibalismo na granja ou de medidas direcionadas a esse respeito (atualmente, de 98,5% a 100% das caudas ainda são cortadas). Foram realizadas auditorias na Holanda, Espanha, Dinamarca, Itália e Alemanha, mas não houve progressos neste sentido desde 1994

(http://ec.euroa.eu/food/audits-analyss/audit_reports/index.cfm). Portanto, um novo plano de ação foi proposto em 2018, com objetivos claros e uma cronologia com critérios de conformidade, evidências de mordidas, riscos assumidos e medidas de melhoria para as granjas. Existem 26 planos de ação, em outros tantos países, com pequenas variações entre eles e que agora estão sob revisão (estabelecidos entre agosto de 2018 e janeiro de 2019, com base no enriquecimento, conforto térmico, competição, status sanitário, limpeza e dieta). Tanto na quantificação dos problemas que surgem, como nos fatores de risco, as informações da indústria têm sido relevantes. Vários países publicaram seus planos de ação (Alemanha, Espanha, Portugal, Dinamarca, Bélgica), com inúmeras práticas de aplicação, sendo necessário aprimorar aquelas que reforçam as ações que estão sendo ativamente discutidas. Também estão sendo realizadas interações com associações veterinárias (FVE, EAPHM, EPHSM e outras associações nacionais) para conhecer seus pontos de vista (feedback). Os veterinários clínicos de suínos são mais conservadores que as associações de veterinários por terem mais medo do canibalismo em sua prática diária, relatando alguns casos onde a incidência é mínima e outros, com práticas semelhantes, onde o problema é grave. Cerca de 1.500 trabalhos técnicos (em granjas) já estão referendados para tratar desse assunto e para manter a cauda dos suínos intacta. A condição é que o projeto COM melhore o bem-estar e não o reduza e que a sua implementação seja gradual – uma oportunidade para os veterinários controlarem os principais fatores de risco –, como a sanidade, as patologias, o meio ambiente, o manejo e o comportamento (não focalizar apenas os materiais de enriquecimento). Programas de formação e treinamento são necessários para todos os atores da produção animal para que se conheça o impacto econômico que pode derivar do problema.

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https://www.eurcaw.eu/en/eurcaw-pigs.htm https://audivisual.ec.europe.eu/en/ video/I-147131 https://ec.europa.eu/food/sites/food/files/ animals/docs/aw_practice_far_pigs_tail-docking É possível manter os suínos com as caudas longas (Nicole Kemper -Universidade de Medicina Veterinária de Hannover) Parte de duas questões: os pré-requisitos necessários para o manuseio, como, por exemplo, a manutenção da mesma banda de produção – e a possibilidade de se manter os suínos alinhados durante toda a sua vida produtiva –, têm a ver com a manifestação dos problemas de canibalismo. As mordeduras de cauda são um problema nº 61/2019 | Suínos&Cia


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6 - Interações sociais entre os suínos que reduzam a concorrência e evitem misturas; 7 - Genética: reações individuais ao estresse e aprofundamento no estudo do comportamento das linhagens. A prevenção passa pela detecção precoce dos sinais clínicos (sucção excessiva, atividade desesperada, lesões auriculares – micotoxinas em porcas), além de um plano de emergência a ser delineado (tratar e separar animais afetados; chamar o veterinário para tratar os episódios de dor, infecção e inflamação; identificar e separar os animais que mordem; verificar todos os fatores de risco – intrínsecos e extrínsecos – e fornecer material para entretenimento dos animais).

Parque Lepelenburg multifatorial (fatores extrínsecos, condições de alojamento, mudanças nas condições sanitárias), tendo sido estimado como de 1% a 5% do custo de produção na UE (EFSA 2007). O período principal, para a prática das mordeduras, concentra-se entre a 11ª e a 14ª semanas de vida. A implementação das seguintes práticas de manejo abaixo são preceptivas:

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1 - Espaço: suficiente para os animais a serem tratados e para a concorrência (pelo espaço, pelo acesso à ração e à agua), estrutura adequada das instalações; 2 - Enriquecimento: combinação de material orgânico (pelets de alfalfa, palha) em quantidade suficientee sem risco sanitário (micotoxinas, Mycoplasma avium); 3 - Condições climáticas: gases, temperaturas altas ou baixas, correntes de ar, sanidade ambiental; 4 - Ração e água são pontos importantes: adequados em termos de qualidade e não devem sofrer alterações bruscas; à disposição em quantidades suficientes; sem desbalanços nutricionais – em termos de macro e micronutrientes – e com ausência de fatores antinutricionais ou toxinas; a água de bebida deve ter qualidade, fluidez e quantidade precisa; 5 - Alterações em termos de sanidade: higiene estrita, biosseguridade com altos padrões (controle de roedores, insetos, pássaros). Considera-se a saúde animal como a chave que controla a resposta imunológica (a questão da alteração nos níveis de lipopolissacarídeos – Munsterhjelm, 2019), o que reforça a necessidade das vacinações, a construção de quarentenários e a redução da pressão de infecção, com instalações adequadas para a prática de vazios sanitários; Suínos&Cia | nº 61/2019

O problema surge quando granjas com alto padrão produtivo passam por quadros agudos de mordedura. O veterinário deverá permitir o corte das caudas se o problema de canibalismo estiver bem documentado, deverá também integrar a equipe de funcionários da granja (incluindo o suinocultor), conduzir os trabalhos compartilhando conhecimento, apoiar o granjeiro e ser otimista, com base em sua experiência na resolução desse tipo de problema. Conclui-se que a manutenção de caudas longas é possível, mas não é fácil, exigindo grandes demandas de manejo e altos riscos econômicos. DOENÇAS BACTERIANAS Transmissão de M. hyopneumoniae por meio do ar em um galpão de engorda (Seth Krantz) O Mycoplasma hyopneumoniae é transmitido muito lentamente. A combinação de análises baseadas em populações, idades a partir do soro, fluidos orais e exsudatos traqueais, juntamente com os sinais clínicos e um estudo epidemiológico, são parte dos protocolos para planejamento de programas de exposição/ aclimatização de marrãs, bem como do controle e da erradicação da bactéria dentro de uma granja. Após a infecção não foi detectado nenhum resultado positivo nos fluidos orais, nos primeiros 35 dias de idade, embora tenham sido detectados níveis elevados (68%) aos 98 dias pós-infecção, por meio de PCR. Por intermédio da prova de Elisa, foram encontrados, neste estudo, lotes positivos aos 56, 81 e 98 dias de idade (13%, 71% e 98%, respectivamente). Os alertas do índice de estresse respiratório ocorrem ao mesmo tempo em que os exsudatos traqueais são positivos e os sinais clínicos de tosse são detectados. Estima-se que para a bactéria infectar todas as baias de leitões negativas, a partir de uma infectada, em um teste com 46 lotes de 28 suínos, sejam necessários cerca de 70 dias.


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consequências de cepas de Escherichia coli ETEC (enterotoxigênica). Surto de diarreia neonatal em um lote de suínos, na Noruega – um relato de caso (Helene Wisloff) Foram descritos casos de diarreia neonatal grave, em leitões com 4 a 5 dias idade), em diferentes granjas na Noruega e na Dinamarca durante a última década, os quais não têm uma etiologia conhecida. Na maioria dos casos trata-se do Enterococcus hirae, cultivado no intestino de leitões afetados (coco Gram + com alta capacidade de auto-aderência). A patogênese dessa bactéria e o seu envolvimento na diarreia não estão bem definidos, sendo necessários mais estudos a respeito.

Rail Avaliação da extensão do Mycoplasma hyopneumoniae (M. Hyo) transmitido das marrãs para as respectivas progênies, em granjas de suínos endêmicas para o M. Hyo na Austrália (Ruel Pagoto) As futuras reprodutoras desempenham um papel essencial na disseminação do M. hyo, considerando que a excreção deles termina entre 43 e 46 semanas após a exposição à bactéria. Em três granjas australianas, nas quais foram extraídos os exsudatos laríngeos de fêmeas nulíparas gestantes e de leitões com 3 a 4 semanas de idade – posteriormente analisadas por RT-PCR –, concluiu-se ser possível que as fêmeas para reposição positivas não tenham excretado a bactéria em sua primeira lactação, ou que os níveis de DNA-M. Hyo não tenham sido detectáveis naquela época.

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Prevalência da diarreia pós-desmame em plantéis dinamarqueses que não utilizam zinco medicinal, tampouco agentes antimicrobianos no desmame, como tratamento (Jens Pete Nielsen) Em muitas granjas, na Dinamarca, a diarreia pós-desmame é evitada com o uso de 2500 ppm de zinco na alimentação durante as primeiras duas semanas após o desmame. A proibição do uso de zinco na União Europeia está prevista para 2022, o que preocupa devido ao possível aumento dos gastos terapêuticos e perdas produtivas. Em um estudo conduzido em sete granjas, que decidiram remover voluntariamente o zinco, descobriu-se que não há distúrbios digestivos após o desmame, o que nos leva a concluir que nem todos os casos de diarreia nas primeiras semanas de vida são Suínos&Cia | nº 61/2019

Desenvolvimento de um estudo de identificação de dose em um modelo animal para a bactéria Streptococcus suis sorotipo 9 (Jobke van Hout) Foi provocada uma infecção experimental em três grupos de leitões (sete animais por grupo) com o sorotipo 9 do Streptococcus suis – inoculado tanto por via oral, quanto por via intratraqueal – em 3 doses diferentes. A maioria dos leitões apresentou distúrbios locomotores e neurológicos, havendo uma mortalidade variável, sem que se encontrasse um efeito dose-resposta claro (dose média de 109 CFU/leitão). A sobrevivência das bactérias nas amídalas foi maior, comparada com a sobrevivência nas fezes (detecções realizadas no jejuno, no íleo e no reto). Avaliação do status da Salmonela em 118 granjas alemãs, de janeiro/2015 a julho/2018 (Kathrin Lillie-Jaschniski) Muitos dos programas de controle da salmonela concentram-se na prevalência sorológica no momento do abate, sendo necessário identificar o grau de circulação e os tipos de bactérias. Foi realizado um estudo em 118 granjas, de onde se coletou amostras por meio de swabs ambientais, em diferentes estágios de produção e em toda a Alemanha (1 214 amostras no total). Em 90% das granjas foi detectado pelo menos uma amostra positiva frente a Salmonella e 28% das amostras foram positivas. Em 53% das granjas foi detectado apenas um sorotipo e nas demais, dois ou mais. A Salmonella typhimurium foi o agente mais frequentemente detectado (77% das granjas) e a Salmonella derby estava presente em 19% de todas as granjas. Com base no local de produção, da maior para a menor prevalência, a classificação foi a seguinte: os leitões, os suínos de engorda e os reprodutores com 48%, 27% e 18%, respectivamente.


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Isso significa que os programas de controle devem começar o mais cedo possível e, se for a partir das reprodutoras, melhor. Primeira descrição de uma coinfecção com Brachispira hyodisenteriae e Entamoeba polecki em uma terminação de suínos com diarreia severa (Joaquim Segalés – CreSA, IRTA-UAB) Em uma engorda de suínos, animais com quatro meses de idade foram diagnosticados com uma tiflocolite fibrino-necrótica severa (necrose difusa da mucosa do ceco e do cólon), com conteúdo muco-hemorrágico abundante. Foi identificada, por meio de PCR, uma Brachispira hyodisenteriae no conteúdo do colón e – por hibridação in situ o protozoário Entamoeba polecki –, cuja patogenicidade ainda não está de todo esclarecida. Posters • Transtornos digestivos: as coinfecções na diarreia neonatal, causadas por Escherichia coli, Rotavírus e Clostridium spp, são frequentes. Numerosos estudos mostram a eficácia de vacinas contra problemas diarreicos neonatais devido a Escherichia coli, associadas a diretrizes de manejo. Infecções mistas em suínos de engorda, por Brachispira hyodisenteriae e Lawsonia intracellularis, são descritas em inúmeros estudos, sendo os tratamentos e as diretrizes de controle priorizados de acordo com a lucratividade. As vacinas contra a Ileíte demonstram um alto retorno do investimento, tanto para a redução dos gastos clínicos e terapêuticos quanto para o valor final dos animais. • Transtornos respiratórios: são muito numerosos os estudos referentes aos programas de vacinação frente ao Mycoplasma hyopneumoniae, ao Actinobacillus pleuropneumoniae e a Pasteurella multocida + a Bordetella bronchiseptica, os quais demonstram o grau de eficácia deles. Alguns trabalhos reafirmam a importância das coinfecções entre o Mycoplasma hyopneumoniae e o Actinobacillus pleuropneumoniae, em numerosos países. • O uso de vacinas específicas frente aos problemas da doença do edema no pós-desmame tem se mostrado eficaz em diferentes condições, desde que haja um diagnóstico prévio preciso. BEM-ESTAR E NUTRIÇÃO Mordeduras de cauda em terminações de suínos que adotam o sistema de criação extensivo – prevalência e fatores de risco (Hanne Kongsted – Aarhus University)

A prevalência de lesões na cauda foi classificada como baixa, média e severa em um estudo realizado em 24 granjas. Nos animais com 20 kg a 50 kg de peso, nas granjas convencionais, a ausência de lesões foi de 23%, em comparação com os 14% das granjas de criação extensiva, denominadas orgânicas. Os fatores de risco associados, tanto em suínos desmamados quanto em suínos de engorda, foram o tipo de produção, os galpões fechados versus galpões abertos, o tamanho do grupo (<100 vs. > 100), a densidade, o espaço para alimentação, o número de comedouros e o tipo de material utilizado como cama. A fase de desmame é muito importante, de modo que influencia a incidência desse tipo de lesão nas fases seguintes. Na produção orgânica, a incidência de lesões também foi menor (suínos querem espaço). A influência de um atraso de 16 horas na provisão de alimentação sólida, na ingestão e no desempenho de suínos desmamados (Sarah de Smet – Ghent University) O consumo de alimentos após o desmame determina a condição da saúde intestinal e os parâmetros produtivos, havendo grande variabilidade no consumo entre os leitões quando eles aprendem a comer seco vs. úmido – características estas derivadas do conjunto de fatores de estresse, associados ao momento do desmame. Nesse ensaio realizado, a ração foi apresentada aos leitões no momento do desmame ou no dia seguinte pela manhã (seis blocos compostos de machos e outros seis blocos compostos de fêmeas). O peso deles foi avaliado na 4ª, 5ª, 7ª e 9ª semanas de idade, além do consumo médio diário e, portanto, a taxa de conversão. Antes do desmame foi apresentado aos leitões uma ração comercial inicial; em seguida, uma ração fornecida entre 4 e 9 semanas de idade – peletizada (6 mm), com 18,5% de PB e 1,19% de Lisina.

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Concluiu-se que um pequeno atraso na provisão da ração promove um consumo maior, visível durante a fase de alojamento na creche (+ 500 g em três semanas). Não houve mudança gradual de ração, mas sim uma passagem direta entre os tipos Inicial e o Seguinte. Foram levantadas algumas dúvidas: a influência nas habilidades de aprendizagem – a qual afeta os níveis de estresse e a estimulação do consumo – por meio do fornecimento de alimentação fresca no 2º dia pós desmame traria um efeito benéfico rápido sobre as circunstâncias de estresse? Não menos interessante foi considerar também a eliminação dos erros nas diretrizes de manejo e nas mudanças de alimentação no pós-desmame. Mais pesquisas são necessárias para adaptar os animais às condições práticas do campo. nº 61/2019 | Suínos&Cia


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Leitões desmamados teriam úlcera gástrica? (Nicolai Weber – SEGES, DK) A úlcera gástrica é uma lesão da parte gastroesofágica do estômago, que se manifesta por meio dos sintomas de suínos pálidos, fezes negras e morte súbita – e também sem sintomas aparentes. Foram estudados entre 10 e 20 mil estômagos por ano. As lesões estomacais foram classificadas como queratinização, erosão e úlcera, fibrose e estenose, às quais foi dada uma graduação de 0 a 10. Os fatores de risco, em suínos de engorda na Dinamarca, são o tamanho das partículas da ração, a forma granulada dela, o sistema ad libitum, a fome, o gênero e as infecções. Foi apontada a necessidade de um equilíbrio, em termos do tamanho de partícula da ração, quando se trata de manter a saúde digestiva, com melhor eficiência alimentar. Suínos com ferimentos graves reduzem seus parâmetros produtivos. A prevalência de úlceras gastroesofágicas em suínos de engorda na Dinamarca, no nível do abatedouro, caiu de 25% para 9% nos últimos anos. A dúvida surge na escassa informação a respeito do assunto em leitões desmamados, para os quais foi realizado um estudo piloto em 10 granjas de alojamento de fêmeas F2. A incidência de lesões encontradas foi de 28% sem nenhuma lesão; 36% com queratinização/erosões; 32% com úlceras e 4% com estenose. Houve uma grande variação entre as granjas. O percentual de consistência do conteúdo gástrico está relacionado com o índice de úlceras, havendo menor conteúdo de fase líquida nos casos mais graves. Mais estudos são necessários para conhecer as características dos leitões ao nascer e os padrões de manejo da granja, como fatores influenciadores.

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• A anemia, tanto em leitões desmamados quanto em reprodutoras, tem surgido de várias maneiras e vem aumentando sua incidência nestes últimos anos. Na Dinamarca, estima-se que 19% dos leitões têm anemia ao serem desmamados (< 90 g/L). As concentrações de hemoglobina vão diminuindo à medida que aumenta o número de partos da porca e que se determina como fator importante o crescimento do número de natimortos, sem que se conheça muito bem os mecanismos precisos dessa observação. Menciona-se a influência da anemia nas contrações uterinas, no momento do parto, bem como sobre a duração dele – hipóxia nos leitões. Nos EUA, o impacto econômico das deficiências de ferro está avaliado em US$ 335 milhões anuais; • Foram mencionadas as intoxicações alimentares (ração e água), tanto por micotoxinas quanto por outros fatores tóxicos. Um exemplo é a morte de leitões devido a altos níveis de nitratos na água de bebida (> 1 mg/ml); • Um estudo conduzido na Espanha demonstrou que o uso de polifenóis em dietas de porcas gestantes não afetou o número de natimortos nem de mumificados, mas sim o número de nascidos vivos totais (hidroxi-tirosil e ácido carnósico); • Certas fontes de cobre, na suplementação de leitões, influenciam na caracterização da microbiota deles; • O uso de probióticos, prebióticos, óleos essenciais e misturas de ácidos orgânicos melhora a morfologia digestiva e modula a microflora e certas funções metabólicas, reduzindo a necessidade do uso de antibióticos e melhorando a eficiência produtiva. IMUNOLOGIA E VACINAÇÃO

Posters • A biosseguridade, tanto interna quanto externa, assim como os diferentes programas e protocolos sobre o assunto, são tidos como essenciais para o controle de doenças – tanto no nível curativo quanto, sobretudo, no nível preventivo (ponto crítico para evitar a entrada de novas cepas virais da PRRS em granjas, segundo vários estudos). Vários trabalhos em diferentes países mencionam a biosseguridade como o primeiro fator a ser considerado nos sistemas de produção livres de antibióticos; • A imunocastração está referendada em vários trabalhos como benéfica com relação ao odor sexual, à qualidade da carne, aos parâmetros zootécnicos eao benefício econômico – ao redordos € 2,12/suíno, em comparação com os animais castrados pelo sistema tradicional –, além do benefício extra relativo ao bem-estar animal; Suínos&Cia | nº 61/2019

Nível de contaminação de seringas usadas para aplicar vacinas em suínos, na Bélgica e na Holanda (Annelies Michiels) As vacinas são produzidas de maneira estéril, mas a sua administração, sob as condições de granja, pode ser feita com seringas contaminadas, o que influenciará a eficácia da administração do produto, além de desencadear possíveis reações locais: abscessos no ponto de inoculação. Foram analisadas 61 agulhas usadas em granjas, das quais apenas 25% tinham baixo grau de contaminação bacteriana (10 UFC/ml), 32% tinham grau intermediário de contaminação (11 a 10 000 UFC/ ml) e 43% delas apresentaram grau de contaminação superior a 10.000 UFC/ml. Da mesma forma, o nível de contaminação das agulhas com fungos e leveduras também foi considerável, com 51%, 38% e 11% dos grupos.


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Resposta imune pós-vacinal (vacina de vírus vivo modificado) contra o PRRS em porcas multivacinadas (Olivier Bourry) Nesse estudo, após a vacinação de 40 porcas com duas doses de vacina viva modificada contra o PRRSv, concluiu-se que a dinâmica da imunidade específica contra o referido vírus é diferente em cada animal, com base no nível de anticorpos medido por meio da prova de Elisa às 4 semanas pós-vacinação, no número de porcas soronegativas às 12 semanas pós vacinação e no nível de anticorpos neutralizantes que aparece às duas semanas pós vacinação, praticamente desaparecendo a partir das 12 semanas pós-vacinação. Efeito da vacinação precoce contra o PRRSv na saúde e no desempenho dos suínos: quanto mais cedo, melhor? (Michele Drigo) Kasteel de Haar A vacinação é a pedra angular do controle das doenças infecciosas, especialmente em granjas de criação intensiva e em granjas situadas em regiões com alta pressão de infecção. A imunização com a vacina Suvaxyn™ PRRS MLV foi avaliada em 636 leitões, vacinados entre 1 e 4 dias de idade, numa propriedade positiva e instável, sem que fossem encontradas reações adversas ou hipertermia – tendo sido obtida uma resposta humoral, 21 dias após a aplicação. Estes leitões vacinados tiveram uma viremia mais precoce do que os leitões não vacinados (14 dias vs. 28 dias), um nível menor de leitões altamente positivos (60% vs. 100%) e uma excreção nasal mais rápida, com um ganho médio de peso diário melhor (entre 30 g e 60 g a mais, em dois controles), e tudo isso em leitões com a presença de anticorpos maternos. Respostas imunes humoral e celular após administração de Mycoplasma hyopneumoniae e bacterinas inovadoras em suínos (Anneleen Matthijs) As vacinas atuais contra o Mycoplasma hyopneumoniae fornecem apenas proteção parcial contra sinais clínicos e lesões pulmonares. Foi desenvolvida uma cepa bacteriana, a F7.2C, que tem capacidade de induzir a produção de uma grande quantidade de anticorpos específicos e resposta de células T (Th1-Th17), sendo, por isso, uma vacina candidata promissora para se estudar no futuro. Avaliação da imunidade transferida contra o FLUv pelo colostro por meio de uma prova de HI em suínos às 3 semanas de idade (Philippe Leneveu)

A determinação dos níveis de IgG em leitões, no nascimento, é o método utilizado para avaliar a transferência via colostro da imunidade das mães para a leitegada. Foram analisados os valores de IgG frente a seis sorotipos diferentes do vírus da Influenza, em dez granjas, tendo sido colhidas amostras de sangue em leitões na 1ª e na 3ª semanas de idade, por meio do teste de inibição da hemaglutinação (HI). O principal critério de variação dos níveis de IgG em leitões às 3 semanas de vida é o título dele no colostro da mãe, de forma que chegam a encontrar até 18% de leitões que, às 3 semanas de idade, não têm nenhuma titulação. Da mesma forma, os leitões adotados que foram transferidos nas primeiras 24 horas de idade têm os níveis mais baixos.

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Avaliação da replicação da vacina contra PRRS, produzida a partir de vírus vivo modificado, nos macrófagos alveolares de suínos (Monica Balasch) Os vírus que compõem as vacinas vivas modificadas são normalmente atenuados em células de linhagem de macacos, enquanto que no caso da vacina Suvaxyn™ PRRS MLV são atenuados em linhagens celulares de hamsters, as quais expressam os receptores suínos CD163. Esse estudo concluiu que esta vacina atenuada, que expressa o referido receptor, replica-se de modo mais eficaz em macrófagos alveolares suínos. REPRODUÇÃO SUÍNA Efeito do nível de IGF-1 no desmame sobre o desenvolvimento luteal e a produção nº 61/2019 | Suínos&Cia


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de 11,5% a 13,2%, e o intervalo entre o desmame e a primeira inseminação foi de 6,7 a 5,8 dias. Os piores valores foram registrados durante o inverno, para natimortos; no verão, para mumificados; e no outono, para o intervalo desmame/cio. Na primavera ocorreu os melhores índices relativos a nascimentos totais, nascidos vivos e mortalidade por lactação. Natimortos e mumificados permaneceram estáveis no período, nas pequenas propriedades, e o índice de mumificados aumentou significativamente nas granjas com mais de 1.500 matrizes. O total de nascimentos e o número de nascidos vivos permaneceu constante, em seu aumento, nos dois grupos de granjas. Uso de um kit de campo para detecção de progesterona (OVU-Check™) para melhorar o manejo das marrãs em uma granja comercial (Marta Jiménez – MSD) Francisco Javier Lobo, Lorenzo Fraile e Antonio Palomo, na ESPHM 2019 de progesterona subsequentes em porcas primíparas (Taehee Han – Universidade de Helsinki) O fator de crescimento da insulina (IGF-1) está relacionado ao desenvolvimento folicular e também dos oócitos nas porcas. Os níveis de progesterona tendem a estar positivamente correlacionados com o diâmetro do corpo lúteo. Os níveis de IGF-1 no desmame não estão correlacionados com o desenvolvimento dos folículos no momento da ovulação e são também negativamente relacionados com o desenvolvimento seguinte do corpo lúteo. Estas conclusões derivam-se de um estudo realizado com 56 porcas primíparas, as quais tinham níveis baixo, médio e alto de IGF-1 no desmame (< 150 ng/ml, 150 a 250 ng/ml e> 255 ng/ ml). O desenvolvimento folicular e a taxa de fertilidade foram semelhantes nesses três grupos de porcas.

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Evolução no desempenho reprodutivo de granjas espanholas nos últimos 10 anos e previsão para 2020. Impacto do tamanho da granja (Carlos Piñeiro – Pig CHAMP Pro Europa) Neste estudo, realizado na Espanha em 260 propriedades e com 255.386 porcas, entre 2009 e 2018, as granjas foram analisadas de acordo com o seu tamanho (granjas com menos de 500 porcas, granjas com mais de 1.500 porcas e todas elas). O índice de nascidos totais, nesse período, variou de 12,4% a 15,3%; o de nascidos vivos variou de 11,4% a 13,7%; o índice de natimortos variou de 0,9% a 1,2%; e o de mumificados, de 1,0% a 2,3%. A mortalidade durante o período de lactação foi Suínos&Cia | nº 61/2019

Os níveis de progesterona em porcas são variáveis, dependendo do seu estado fisiológico, podendo ser usados para determinar o estágio do ciclo reprodutivo em que elas se encontram. Foram coletadas amostras de sangue de 48 porcas nulíparas de uma mesma granja multiplicadora, as quais foram destinadas a três granjas comerciais, sem que tivesse sido detectado o cio delas aos 8 meses de idade. Seus níveis de progesterona, para um estudo de ciclicidade, foram avaliados por colorimetria por meio um kit de Elisa imunoenzimático (Ovu-check™). 79,2% das amostras analisadas apresentaram níveis muito baixos de progesterona (< 2,5 ng/ml), indicativo da ausência de atividade do corpo lúteo, havendo, portanto, a possibilidade de elas nunca terem ciclado. Apenas 20,8% das amostras tinham níveis séricos de progesterona elevados (> 5 ng/ml), indicando, nesses casos, a presença de corpos lúteos ativos e, portanto, a possibilidade de que a não detecção do cio tenha ocorrido devido a falhas no manuseio. Diferenças na taxa de retorno ao cio e no número total de leitões nascidos, causadas por variações nas técnicas de inseminação artificial realizadas por pessoas (Alexander Grahofer – Universidade de Bern) Foi realizado um estudo, em uma granja de 240 matrizes, com uma taxa de repetição de cio no último ano da ordem de 16,8%, além de uma alta variação nas repetições entre as diferentes bandas de produção. Foi analisada a eficiência na prática de inseminação entre dois funcionários, de modo que um deles atingiu uma taxa de repetição de 7,1%, enquanto o outro, de 22,8%. Concluiu-se então que o tempo e a atenção dedicados à inseminação artificial são fatores cruciais para a obtenção de índices de fertilidade e prolificidade corretos.


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Exame transabdominal de porcas por meiode ultrassom para melhorar a reprodução – um caso de campo (István Makkai)

Suplementação pré-parto por meio da água de bebida reduza natimortalidade (Pieter Langendijk)

Em uma granja com 1.800 fêmeas, na Hungria, são realizados exames ultrassonográficos dos ovários de porcas de dois grupos genéticos e etários diferentes. O desmame é realizado nas manhãs das quintas-feiras, e o estudo começa no domingo anterior pela manhã, com a leitura do scanner de 4,5 MHz a cada 4 horas, até o momento da ovulação. Foram encontradas diferenças significativas no comportamento reprodutivo das linhagens genéticas, de modo que 76% das porcas de uma delas ovula na manhã da segunda-feira, enquanto apenas 10% da outra linhagem o faz. As porcas de uma terceira linhagem obedecem a um período intermediário, o que significa que o intervalo de desmame das três linhagens genéticas é diferente. Portanto, devemos levar em conta tanto o protocolo de detecção do cio quanto o momento de inseminação, dependendo da linha genética utilizada, para obter as melhores taxas de fertilidade e prolificidade.

A maioria dos leitões nascidos mortos é potencialmente viável, morrendo, porém, por asfixia durante o parto. A suplementação de água de bebida previamente ao parto, por meio de um sistema a ser patenteado, aumenta os níveis de oxigênio dos leitões ao nascer e melhora o índice de nascidos vivos, além de melhorar a ingestão de colostro por parte deles, o que contribui para um maior vigor no nascimento. Esse sistema não melhora significativamente o consumo total de agua, por parte da porca, previamente ao parto (10 a 15 litros/dia). Posters • A aplicação de altrenogest em porcas entre o 109º e o 111º dias de gestação, na dose de 20 mg, favorece um percentual maior de elas parirem na data prevista, sem se adiantarem (61,3%vs. 42,7% entre o 115º e o 116º dias).

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nº 61/2019 | Suínos&Cia


Sumários de Pesquisa

Efeito de diferentes fontes e níveis de ferro na dieta de porcas sobre o status do ferro em leitões neonatos Yan Li a, Weiren Yang a *, Donghua Dong a, Shuzhen Jiang a, Zaibin Yang a, Yuxi Wang b Department of Animal Sciences and Technology, Shandong Agricultural University, Taiwan, 271018, China b: Agriculture and Agri-Food Canada, Lethbridge Research Centre, PO Box 3000, Lethbridge, AB T1J 4B1, Canadá *: autor correspondente: wryang211@163.com a:

E

ste estudo foi conduzido para determinar os efeitos da suplementação dietética materna de quelato de glicina ferroso (Fe-Gly) e mono-hidrato de sulfato ferroso (FeSO4H2O) no peso relativo de órgãos, conteúdo de ferro nos tecidos, glóbulos vermelhos (RBC) e concentração de hemoglobina (HGB) e hematócrito (HCT) no sangue, bem como ferritina (Fn), ferro sérico (SI) e capacidade total de ligação de ferro (TIBC) no soro de leitões recém-nascidos. Quarenta e cinco porcas (Landrace × Large white, de 3 a 4 parições média, sem diferenças significativas no peso vivo) foram distribuídas aleatoriamente em 9 tratamentos (n = 5 porcas / tratamento): controle (dieta basal sem suplementação de Fe), dieta basal suplementada com 50, 80, 110 ou 140 mg Fe / kg – na forma de Fe-Gly – e dieta basal suplementada com 50, 80, 110 ou 140 mg Fe / kg – na forma de FeSO4H2O. Os leitões neonatos (n = 45) foram utilizados para determinar o peso relativo de órgãos, o conteúdo de ferro nos tecidos e os índices bioquímicos sanguíneos. Comparado com o grupo controle, o peso relativo do baço e do rim foi significativamente maior (P < 0,05) nos grupos Fe-Gly. O conteúdo de ferro no fígado, baço, rim e fêmur também se mostrou aumentado (P < 0,05) nos grupos Fe-Gly. Ainda nos grupos Fe-Gly, os RBC (dias 1 e 21), HGB (dias 1 e 21) e HCT (dias 1 e 21) sanguíneos, a Fn (dia 1) e o SI (dias 1 e 21) aumentaram significativamente (P < 0,05), mas o TIBC (dias 1 e 21) sérico diminuiu (P < 0,05). Além disso, o peso relativo renal, o conteúdo de ferro no fígado, baço, rim e fêmur, o RBC (dia 1) e a HGB (dia 21) sanguíneos e o SI (dia 1) aumentaram (P < 0,05) nos grupos Fe-Gly, em comparação ao tratamento com o FeSO4H2O.

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Suínos&Cia | nº 61/2019

Foram observadas respostas lineares e quadráticas referentes ao peso relativo renal, ao teor de ferro no fígado, baço, rim e fêmur, aos glóbulos vermelhos (dias 1 e 21), HGB (dias 1 e 21) e HCT (dias 1 e 21) no sangue total, ao SI (dia 1) e TIBC (dias 1 e 21), nos grupos Fe-Gly (P < 0,05). Nesse mesmo grupo também se observaram respostas lineares e quadráticas relativas à Fn (dias 1 e 21) e ao SI (dia 21), enquanto que essas mesmas respostas, referentes ao peso relativo do baço, ao HCT (dia 1), à Fn (dia 1) e à TIBC (dias 1 e 21) foram observadas nos grupos FeSO4H2O (P < 0,05). Esses achados sugerem que o Fe-Gly suplementado no nível de 110 mg / kg na dieta de porcas – neste experimento – é superior a outras formas de suplementação, com base na concentração de HGB, peso relativo dos órgãos, conteúdo de ferro nos tecidos e índices bioquímicos sanguíneos de leitões. 1. Introdução O ferro é reconhecido como um dos mais importantes oligoelementos necessários para o crescimento e a saúde dos animais. A anemia por deficiência de ferro é prevalente em leitões porque os níveis de ferro no nascimento são baixos e a quantidade de ferro no leite das porcas é insuficiente para atender às demandas de crescimento rápido (Svoboda e Drabek, 2005). Os leitões apresentam baixo consumo de ração e têm baixa taxa de crescimento e maiores chances de anemia e diarreias por deficiência de ferro se não forem suplementados com ele de modo oportuno e efetivo. A suplementação de ferro inorgânico em porcas gestantes e lactantes é uma prática comum na suinocultura para prevenir a anemia por deficiência de ferro em leitões. No entanto, a absorção e a atividade do ferro inorgânico são prejudicadas pelo antagonismo existente entre oligoelementos e macroelementos (Umbreit, 2005), de acordo com a atribuição internacional não comercial sem derivativos 4.0 (licença CC BY-NC-ND 4.0 / http:// creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/). Estudos sugerem que os ferro aminoácido quelatos têm as seguintes vantagens: estabilidade molecular, alta eficácia biológica, benefícios nutricionais, efeitos antiestresse e redução da excreção, quando comparados ao ferro inorgânico (Ettle et al., 2008; Ma et al., 2012; Wu e cols., 2013). Henry e Miller (1995) relataram que as fontes de ferro quelatadas ou proteicas apresentam uma eficiência biológica relativa de 125% a 185%, em comparação com o sulfato ferroso (FeSO4).


Sumários de Pesquisa

O quelato ferroso de glicina (Fe-Gly) é uma preparação de ferro eficaz para uso humano, especialmente em alimentos infantis (Fox et al., 1998). Layrisse et al. (2000) demonstrou que a suplementação com alimentos que continham Fe-Gly apresentou uma taxa de absorção de ferro corresponde ao dobro em comparação à taxa de absorção de ferro dos alimentos que continham mono hidrato de sulfato ferroso (FeSO4H2O). No entanto, há pouca informação sobre os efeitos da suplementação de dietas de porcas com diferentes níveis de Fe-Gly e FeSO4H2O no estado nutricional de leitões recém-nascidos. Então, este estudo teve como objetivo determinar a adição razoável de ferro orgânico ou inorgânico em dietas de porcas, investigando os efeitos da suplementação dietética materna com níveis variados de Fe-Gly e FeSO4H2O – do 86º de gestação ao 21º de lactação – sobre o status nutricional de ferro nos leitões neonatos.

Uma amostra composta de dieta basal foi retirada para analisar o conteúdo de ferro usando espectrofotometria de absorção atômica com chama (TAS990, Purkinje General Instrument Co. Ltd, Pequim/ China). A concentração real de ferro (analisada) foi de 68,35 ± 1,32 e 63,54 ± 2,01 (média ± DP) mg / kg para as dietas de gestação e lactação, respectivamente. Os premixes de Fe-Gly e FeSO4H2O de grau alimentício foram misturados – respectivamente – com 100 kg de milho triturado. A pré-mistura foi então combinada nos níveis apropriados com as dietas básicas descritas anteriormente para compor as dietas experimentais. Tabela 1. Ingredientes e composição dos nutrientes das dietas basais (base ar seco) Item

Gestação

Lactação

Ingredientes, % Milho

35,60

35,09

Trigo

30,00

34,00

2.1. Cuidados no uso de animais

Farelo de soja

14,00

17,00

Os animais foram tratados e manuseados de acordo com as diretrizes para o cuidado no uso de animais de laboratório elaboradas pelo Instituto de Pesquisa em Nutrição Animal da Universidade Agrícola de Shandong e pelo Ministério da Agricultura da China.

Farelo de trigo

14,26

4,00

Óleo de soja

1,00

2,00

Farinha de peixe

0,00

2,00

Calcário

1,00

1,00

Fosfato dicalcico

1,00

1,00

Sal

0,40

0,40

Glicose

0,00

1,00

Monocloridrato de l-lisina

0,40

0,27

Dl-metionina

0,15

0,11

L-treonina

0,19

0,13

Premix

2,00

2,00

100,00

100,00

2. Materiais e métodos

2.2. Aditivos ferrosos O Fe-Gly de grau alimentício (99,0%, Tanke International Group, Guangzhou/China) utilizado no experimento é composto por duas moléculas de Gly (glicina) ligadas a um cátion ferroso para formar um composto de anel duplo heterocíclico. O teor de ferro desse Fe-Gly é de 14,75%. O teor de ferro do mono-hidrato de sulfato ferroso (FeSO4H2O, 98,5%, Zeweier Feed Co. Ltd, Nanning/ China), utilizado no experimento, é de 29,84%. 2.3. Animais, delineamento experimental e dietas Quarenta e cinco fêmeas (Landrace × Large White, de 3 a 4 parições) foram utilizadas no experimento, a partir de 86 dias de gestação até o 21º dia de lactação. Os tratamentos foram arranjados em delineamento inteiramente casualizado, e as matrizes foram divididas – aleatoriamente – em nove tratamentos (5 porcas / tratamento): controle (dieta basal apenas, sem suplementação de Fe), dieta basal suplementada com 50, 80, 110 ou 140mg de Fe / kg dieta – na forma de Fe-Gly – e dieta basal suplementada com 50, 80, 110 ou 140 mg de Fe / kg – na forma de FeSO4H2O. A dieta basal consistia em milho-trigo-soja, formulada para atender ou exceder aos requisitos nutricionais do NRC (1998) para porcas gestantes e lactantes, sem suplementação de ferro (conforme a tabela 1).

1

Total

53

Níveis de nutrientes, % 2

Energia líquida , MJ/kg

13,14

13,73

Proteína bruta2

15,31

16,82

Ca2

0,76

0,86

0,62

0,61

1,10

1,10

0,70

0,70

0,73

0,73

0,21

0,21

68,35

63,54

Fósforo total Lisina

2

2

Metionina - Cisteina Treonina

2

Triptofano

2

Fe , mg/kg 3

2

Pré-mistura fornecida por kg de dieta: vitamina A, 7.000 UI; vitamina D, 32.100 UI; vitamina E, 36 UI; vitamina K3, 1,70 mg; vitamina B1, 5,00 mg; vitamina B2, 2,00 mg; ácido pantotênico, 10,00 mg; niacina, 20,00 mg; vitamina B6, 1,80 mg; vitamina B12, 0,02 mg; colina (cloreto de colina), 800 mg; D-biotina, 0,08 mg; ácido fólico, 1,0 mg; 5,0 mg de Cu como CuSO4H2O; 50 mg de Zn como ZnSO4H2O; 25 mg de Mn como MnSO4H2O; 0,14 mg de I como KI; 0,23 mg de Se como Na2SeO3. 2 Valores calculados de acordo com as tabelas de composição de alimentos e valores nutritivos vigentes na China (Xiong et al., 2011). 3 Valores analisados. 1

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2.4. Instalações, alimentação e manejo No início do experimento as porcas gestantes foram alimentadas individualmente, em baias (180 cm x 120 cm) com piso de concreto, equipadas com calha de cimento e bebedouro tipo tigela. Elas foram alimentadas duas vezes ao dia (6h e 16h) durante o período de gestação, do 86º dia de gestação até o parto esperado, totalizando 28 dias. Cada porca recebeu 2,8 kg de ração no dia 1 do experimento, sendo a quantidade de alimento aumentada em 0,2 kg a cada cinco dias, até que a oferta de ração para elas fosse de 3,6 kg / dia, no 4º dia antes do parto esperado. Durante três dias antes do parto esperado, cada porca foi alimentada com 3,4 kg de ração por dia. Aproximadamente uma semana (107º dia de gestação) antes do parto esperado, as porcas foram transferidas da sala de gestação para a sala de parto, onde também foram alimentadas individualmente. As porcas tiveram livre acesso à ração e permaneceram com suas leitegadas durante todo o período de lactação. Ao longo de todo o período experimental, as porcas tiveram livre acesso à água. Os leitões tinham livre acesso à água e ao leite materno de suas mães. Uma injeção (via intramuscular) de ferro dextrano (100 mg Fe / leitão) foi administrada no 3º dia de idade deles.

54

2.5. Coleta e processamento de amostras Os leitões de cada leitegada foram pesados imediatamente após o nascimento. Um leitão, cujo peso ao nascer estivesse próximo do peso médio da leitegada, por leitegada foi selecionado e sacrificado no nascimento, após a pesagem. Para cada tratamento foram selecionados e designados dois leitões machos e três fêmeas. O tórax e a cavidade abdominal foram imediatamente abertos após a confirmação da morte de qualquer leitão do experimento, e o coração, fígado, baço e rins foram removidos e pesados. O peso relativo do órgão (peso do órgão [g] / peso vivo do corpo [kg]) foi determinado, de acordo com Lu et al. (1996). Coração, fígado, rins, baço e fêmur foram coletados e armazenados imediatamente, a 20°C, até a análise das concentrações de ferro. Amostras de sangue (5 ml) foram coletadas em um tubo de ensaio contendo anticoagulante (EDTA) da veia cava superior de um leitão por leitegada – no nascimento e no 21º dia de idade, para análise imediata de glóbulos vermelhos (RBC), concentração de hemoglobina (HGB) e hematócrito (HCT). Aproximadamente 10 ml de sangue foram coletados em tubos não heparinizados, os quais foram centrifugados (D-37520, Kendro, Alemanha) a 1.500 x g, por 10 minutos, e o plasma resultante foi imediatamente armazenado a 20°C, até a sua análise. Suínos&Cia | nº 61/2019

2.6. Determinação do conteúdo de ferro nos órgãos dos leitões Todas as amostras de órgãos foram desidratadas a 65°C, de acordo com AOAC (2005) e uniformemente moídas, utilizando-se um almofariz/ pistilo; daí as amostras de órgãos foram digeridas por meio de um sistema de digestão por micro-ondas (modelo MDS-81D, CEM Corp., Matthews, NC/EUA), de acordo com o método descrito por Armstrong et al. (2004). Água ultrapura e solução padrão de ferro foram usadas como padrões de referência para o branco de método. Os teores de ferro foram analisados por espectrofotometria de absorção atômica com chama. 2.7. Determinação dos índices bioquímicos sanguíneos Índices de sangue total (glóbulos vermelhos ou RBC, concentração de hemoglobina ou HGB e hematócrito ou HCT) foram medidos por meio do uso de analisador hematológico automático (KX21, Sysmex, Japão), de acordo com as instruções do fabricante. O ferro sérico (SI) e a capacidade total de ligação de ferro (TIBC) foram determinados por meio do uso de kits de ensaio (Nanjing Jiancheng Bioengineering Institute, Jiangsu/China), e a ferritina sérica (Fn) foi analisada por meio de kits ELISA (Bioleaf Biotech Co. Ltd, Shanghai/China). 2.8. Análise estatística Os dados foram referendados por meio de análise de variância unidirecional (ANOVA), usando o procedimento SAS 9.2. Os efeitos do suplemento Fe-Gly ou FeSO4H2O foram determinados pela utilização de um teste de contraste entre os tratamentos [Controle vs. Fe-Gly], [Controle vs. FeSO4H2O], [FeSO4H2O vs. Fe-Gly]. Contrastes polinomiais ortogonais foram utilizados para a determinação das respostas lineares e quadráticas relativas aos níveis de Fe para os tratamentos Fe-Gly ou FeSO4H2O. A significância das diferenças entre os tratamentos foi testada utilizando-se os testes de múltiplas faixas de Duncan. Todas as declarações de significância foram baseadas na probabilidade de P < 0,05. 3. Resultados 3.1. Peso relativo de órgãos Os efeitos da suplementação materna de diferentes fontes e níveis de ferro no peso relativo de órgãos de leitões recém-nascidos são mostrados na Tabela 2.


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Tabela 2. Alterações no peso relativo de órgãos de leitões recém-nascidos quando as matrizes foram alimentadas com dietas suplementadas com diferentes fontes e níveis de Fe (n = 5) Item

Adição de níveis de Fe, mg/kg

Coração

Fígado

Baço

Rins

Peso do leitão ao nascer, kg

0

6,91

24,09

1,06b

7,36b

1,31a

50

6,98

24,91

1,16ab

7,57ab

1,39a

80

7,01

24,98

1,20ab

7,72ab

1,44a

110

7,00

25,51

1,25a

7,90a

1,48b

140

6,98

25,53

1,26

a

7,90

1,46ab

50

6,91

24,48

1,12ab

7,46ab

1,34a

80

6,88

24,65

1,16ab

7,57ab

1,39a

110

6,94

24,91

1,19ab

7,57ab

1,40a

140

6,96

24,95

1,21ab

7,60ab

1,38a

0,845

0,069

0,259

0,053

Controle

Fe-Gly2

FeSO4H2O2 MEE*

Peso relativo dos órgãos1, g/kg

0,239

a

Valores de P Controle vs. Fe-Gly

0,581

0,222

0,035

0,037

0,026

Controle vs. FeSO4H2O

0,914

0,403

0,065

0,238

0,193

Fe-Gly vs. FeSO4H2O

0,474

0,376

0,225

0,046

0,047

Fe-Gly

Linear Quadrático

0,683

0,175

0,016

0,009

0,028

0,846

0,394

0,051

0,033

0,075

FeSO4H2O

Linear Quadrático

0,741

0,346

0,029

0,180

0,175

0,908

0,643

0,092

0,397

0,355

Fe-Gly = quelato ferroso de glicina FeSo4H2O = mono hidrato de sulfato ferroso a,b Valores médios dentro de uma coluna, sem um sobrescrito comum, diferem significativamente (P < 0,05). 1 Determinado de acordo com: peso relativo do órgão (g / kg) = peso do órgão (g) / peso vivo (kg), Lu et al. (1996). 2 Fontes de Fe.

55

* Modelagem de Equações Estruturais (SEM, na sigla em inglês): técnica multivariada usada para analisar a covariância de observações (McIntosh et al., 1996).

Comparado com o controle, as dietas experimentais com Fe-Gly aumentaram significativamente o peso relativo do baço (P = 0,035) e o peso relativo dos rins (P = 0,037) dos leitões recém-nascidos. Além disso, os leitões dos grupos suplementados com Fe-Gly tiveram um peso relativo renal significativamente maior (P = 0,046) do que os dos grupos suplementados com FeSO4H2O. O peso relativo do baço apresentou aumento linear (P = 0,016), e o peso relativo dos rins demonstrou aumentos lineares (P = 0,009) e quadráticos (P = 0,033) nos leitões que receberam níveis crescentes de Fe-Gly nas dietas. Além disso, o peso relativo do baço dos leitões aumentou linearmente (P = 0,029) com o aumento da quantidade de FeSO4H2O adicionada nas dietas. Não houve diferença significativa (P > 0,05) entre os 140 mg / kg do grupo Fe-Gly e os 110 mg / kg do grupo Fe-Gly, no peso relativo dos órgãos. 3.2. Conteúdo de Fe nos órgãos dos leitões A Tabela 3 mostra os efeitos do conteúdo de ferro nos tecidos dos leitões recém-nascidos

quando as porcas são alimentadas com diferentes fontes e níveis de ferro. À medida que o conteúdo de Fe-Gly das dietas aumentou, houve aumento significativo do conteúdo de ferro no fígado (P < 0,001), baço (P = 0,002), rins (P = 0,014) e fêmur (P = 0,001) dos leitões, em comparação ao controle. Já os leitões dos grupos suplementados com FeSO4H2O, comparados aos leitões dos grupos Fe-Gly, apresentaram aumento significativo no conteúdo de ferro do fígado (P < 0,001), rins (P < 0,001), baço (P < 0,001) e fêmur (P = 0,002). No entanto, não houve diferença significativa em termos de conteúdo de ferro orgânico entre os grupos FeSO4H2O e o controle. O aumento na quantidade suplementada de Fe-Gly na dieta das porcas fez crescer – linearmente – o conteúdo de ferro no coração (P = 0,030), fígado (P < 0,001), baço (P < 0,001), rins (P < 0,001) e fêmur (P <0,001) dos leitões e aumentou também - quadraticamente o teor de Fe no coração (P = 0,010), fígado (P < 0,001), baço (P < 0,001), rins (P < 0,001) e fêmur (P <0,001). Não houve diferença significativa (P > 0,05) entre a suplementação de 110 mg / kg e de 140 mg / kg nos grupos Fe-Gly. nº 61/2019 | Suínos&Cia


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Tabela 3. Diferenças no teor de Fe em leitões neonatos quando as matrizes são alimentadas com diferentes fontes e níveis de Fe (n = 5) Adição de níveis de Fe, mg/kg

Coração

Fígado

Baço

Rins

Fêmur

mg/kg

mg/kg

mg/kg

mg/kg

mg/kg

0

100,04

373,12c

605,37c

112,51c

40,35c

50

104,70

394,63bc

632,91b

120,40c

43,14ab

80

108,15

419,27b

656,03ab

132,71bc

45,26a

110

112,78

447,22ab

672,43a

147,70ab

46,13a

140

111,77

464,36a

694,01a

156,23a

46,25a

50

102,35

377,36c

607,44c

114,42c

41,63c

80

101,71

372,82

613,89

c

117,90

42,48ab

110

102,61

376,85c

611,30c

116,74c

42,02ab

140

100,46

374,76c

614,24c

117,7c

42,95ab

MEE*

6,567

8,678

11,601

7,671

2,277

Controle vs. Fe-Gly

0,115

< 0,001

0,002

0,014

0,001

Item Controle

Fe-Gly1

FeSO4H2O1

c

c

Controle vs. FeSO4H2O

0,786

0,759

0,397

0,493

0,207

Fe-Gly vs. FeSO4H2O

0,064

< 0,001

< 0,001

< 0,001

0,002

Fe-Gly

Linear Quadrático

0,030

< 0,001

< 0,001

< 0,001

< 0,001

0,010

< 0,001

< 0,001

< 0,001

< 0,001

FeSO4H2O

Linear Quadrático

0,922

0,870

0,299

0,469

0,177

0,940

0,968

0,584

0,743

0,392

Fe-Gly = quelato ferroso de glicina FeSo4H2O = mono hidrato de sulfato ferroso Valores médios dentro de uma coluna, sem um sobrescrito comum, diferem significativamente (P < 0,05). 1 Fontes de Fe. * Modelagem de Equações Estruturais (SEM, na sigla em inglês): técnica multivariada usada para analisar a covariância de observações (McIntosh et al., 1996). a,b,c

56

3.3. Parâmetros fisiológicos sanguíneos dos leitões Os efeitos dos parâmetros fisiológicos do sangue de leitões neonatos, quando as matrizes são alimentadas com diferentes fontes e níveis de ferro, são apresentados na Tabela 4. Comparado com o controle, os leitões dos grupos Fe-Gly apresentaram um aumento no índice de RBC (P = 0,005 no dia 1; P = 0,005 no dia 21), na concentração de HGB (P = 0,023 no dia 1; P = 0,009 no dia 21) e no HTC (P = 0,001 no dia 1; P = 0,032 no dia 21). Em comparação com os grupos suplementados com FeSO4H2O, os grupos que receberam Fe-Gly tiveram aumentos significativos na concentração de eritrócitos (P = 0,015 no dia 1) e de HGB (P = 0,021 no dia 21). Em termos de parâmetros fisiológicos do sangue não houve diferença significativa entre os grupos FeSO4H2O e o controle. À medida que os níveis de Fe-Gly aumentaram, houve aumento linear no índice de RBC (P < 0,001 no dia 1; P = 0,001 no dia 21), na concentração de HGB (P < 0,001 no dia 1; P = 0,001 no dia 21) e no HTC (P < 0,001 no dia 1; P = 0,002 no dia 21). Da mesma forma, aumentar a quantidade de Fe-Gly suplementar nas Suínos&Cia | nº 61/2019

dietas aumentou quadraticamente o índice de RBC (P = 0,003 no dia 1; P = 0,004 no dia 21), as concentrações de HGB (P < 0,001 no dia 1; P = 0,005 no dia 21) e o HTC (P < 0,001 no dia 1; P = 0,010 no dia 21) dos leitões. 3.4. Índices bioquímicos sorológicos dos leitões Os índices bioquímicos sorológicos analisados quando as matrizes são alimentadas com diferentes fontes e níveis de ferro estão demonstrados na Tabela 5, adiante. Comparado com o controle, a ferritina sérica (Fn) (P = 0,047 no dia 1) e o ferro sérico (SI) (P = 0,014 no dia 1; P = 0,041 no dia 21) aumentaram significativamente nos leitões. Já a capacidade total de ligação do Fe (TIBC) (P = 0,041 no dia 1; P = 0,044 no dia 21) diminuiu significativamente nos grupos Fe-Gly. Comparado com os grupos suplementados com FeSO4H2O, o aumento do SI (P = 0,047 no dia 1) dos leitões foi significativo nos grupos suplementados com Fe-Gly. Com o aumento dos níveis de Fe-Gly nas dietas experimentais, os índices Fn (P = 0,018 no dia 1; P = 0,015 no dia 21) e SI (P = 0,005 no dia 1; P = 0,015 no dia 21)


Sumários de Pesquisa

Tabela 4. Alterações nos índices sanguíneos fisiológicos de leitões neonatos quando as matrizes são alimentadas com dietas contendo diferentes fontes e níveis de Fe (n = 5) Item

Nível de adição de Fe, mg/kg

Controle

dia 1

dia 21

RBC, 1012/L • HGB, g/L • HCT, %

RBC, 1012/L • HGB, g/L • HCT, %

0

3,75c

80,80c

32,78c

3,83

85,00b

34,56b

50

3,99bc

90,20bc

34,06bc

4,02

94,40ab

35,52ab

80

4,16ab

95,60ab

34,98bc

4,13

100,80ab

36,58ab

110

4,29a

104,60ab

36,60a

4,22

106,60a

38,18a

140

4,30a

106,40a

36,74a

4,23

107,40a

38,20a

50

3,89bc

89,20bc

33,72bc

3,96

91,00ab

35,20ab

80

3,95

92,40

bc

34,18

4,07

ab

92,00

35,66ab

110

4,00bc

93,80ab

35,04ab

4,10

94,60ab

36,52ab

140

4,03bc

95,80ab

35,36b

4,13

96,20ab

36,64ab

MEE*

0,218

5,763

0,850

0,248

5,254

1,018

Controle vs. Fe-Gly

0,005

0,023

0,001

0,005

0,009

0,032

Fe-Gly1

FeSO4H2O1

bc

ab

Controle vs. FeSO4H2O

0,081

0,282

0,080

0,228

0,148

0,215

Fe-Gly vs. FeSO4H2O

0,015

0,086

0,089

0,415

0,021

0,137

< 0,001

< 0,001

< 0,001

0,001

0,001

0,002

Fe-Gly Quadrática

0,003

< 0,001

< 0,001

0,004

0,005

0,010

FeSO4H2O Linear

0,050

0,148

0,021

0,165

0,103

0,092

FeSO4H2O Quadrática

0,141

0,359

0,075

0,375

0,266

0,249

Fe-Gly Linear

Fe-Gly = quelato ferroso de glicina FeSo4H2O = mono hidrato de sulfato ferroso RBC = glóbulos vermelhos HGB = concentração de hemoglobina HCT = hematócrito a,b,c Valores médios dentro de uma coluna, sem um sobrescrito comum, diferem significativamente (P < 0,05). 1 Fontes de Fe. * Modelagem de Equações Estruturais (SEM, na sigla em inglês): técnica multivariada usada para analisar a covariância de observações (McIntosh et al., 1996).

dos leitões aumentaram linearmente, embora tenha sido observada uma diminuição linear (P < 0,05) da TIBC sérica deles nos dias 1 e 21. Além disso, o aumento da quantidade suplementar de Fe-Gly nas dietas aumentou quadraticamente o índice SI (P = 0,015 no dia 1), mas a TIBC sérica no dia 1 (P = 0,027) e no dia 21 (P = 0,047) diminuiu quadraticamente. Ainda nesses grupos, as quantidades adicionadas de Fe-Gly – de 110 mg / kg e de 140 mg / kg – levaram a resultados semelhantes. Nos grupos FeSO4H2O houve aumento linear no índice Fn dos leitões (P = 0,027 no dia 21) e um decréscimo linear (P < 0,05) da TIBC sérica deles nos dias 1 e 21. 4. Discussão 4.1. Peso relativo de órgãos dos leitões O peso relativo dos órgãos tem sido usado como um indicador da função deles (Lu et al., 1996). Além disso, o crescimento e o desenvolvimento fetal dependem inteiramente do suprimen-

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to materno de nutrientes, incluindo elementos minerais-traço (Van Saun, 2008). Pesquisas anteriores haviam demonstrado que os níveis de nutrientes maternos têm efeitos significativos sobre o peso hepático e renal da progênie (Pond et al., 1986). Condeaguilera et al., 2011 observou que um aumento no peso relativo dos tecidos viscerais poderia melhorar a ingestão nutricional necessária porque os tecidos viscerais são metabolicamente mais ativos do que os tecidos da carcaça. No presente estudo, o peso relativo do baço e dos rins dos leitões foi significativamente maior nos grupos suplementados com Fe-Gly - em comparação com os grupos que receberam o FeSO4H2O –, o que pode ser um indicativo de que as porcas gestantes necessitem fornecer uma nutrição mais elaborada para o desenvolvimento dos tecidos viscerais de suas leitegadas. 4.2. Teores de ferro nos tecidos dos leitões Yu et al. (1994) descobriu que as concentrações de ferro no fígado e no baço tinham uma nº 61/2019 | Suínos&Cia


Sumários de Pesquisa

Tabela 5. Alterações nos índices bioquímicos séricos de leitões neonatos quando as matrizes são alimentadas com dietas com diferentes fontes e níveis de Fe (n = 5) Item

Nível de adição de Fe, mg/kg

Controle

dia 1

dia 21

Fn, ng/mL • SI, mg/L • TIBC, mmol/L

Fn, ng/mL • SI, mg/L • TIBC, mmol/L

0

106,83

110,06b

321,23a

113,30

121,49

311,38a

50

113,91

119,84ab

312,36ab

120,58

129,07

301,53ab

80

117,28

124,49a

304,83ab

125,35

134,52

295,80ab

110

121,23

128,81a

296,25bc

131,50

138,04

289,42a

140

122,47

129,82a

294,79c

133,54

139,25

287,36b

50

110,81

113,51ab

317,90ab

118,48

124,34

306,67ab

80

114,41

116,18

ab

312,39

123,48

127,81

302,36ab

110

117,05

120,47ab

307,26bc

124,52

130,70

299,43ab

140

118,02

122,88a

303,29bc

129,09

134,51

296,66ab

MEE*

6,447

5,500

7,886

6,304

5,779

6,657

Controle vs. Fe-Gly

0,047

0,014

0,041

0,072

0,041

0,044

Fe-Gly1

FeSO4H2O1

ab

Controle vs. FeSO4H2O

0,159

0,218

0,111

0,081

0,238

0,112

Fe-Gly vs. FeSO4H2O

0,346

0,047

0,103

0,399

0,136

0,096

Fe-Gly Linear

0,018

0,005

0,007

0,015

0,015

0,013

Fe-Gly Quadrático

0,061

0,017

0,027

0,051

0,051

0,047

FeSO4H2O Linear

0,076

0,080

0,015

0,027

0,083

0,036

FeSO4H2O Quadrático

0,213

0,220

0,051

0,091

0,223

0,117

Fe-Gly = quelato ferroso de glicina FeSo4H2O = mono hidrato de sulfato ferroso Fn = ferritina sérica SI = ferro sérico TIBC = capacidade total de ligação do ferro a,b,c Valores médios dentro de uma coluna, sem um sobrescrito comum, diferem significativamente (P < 0,05). 1 Fontes de Fe. * Modelagem de Equações Estruturais (SEM, na sigla em inglês): técnica multivariada usada para analisar a covariância de observações (McIntosh et al., 1996).

58

correlação significativa e positiva com os níveis de ferro na dieta de ratos. O conteúdo de ferro nos tecidos dos leitões aumentou significativamente com o aumento dos níveis de Fe-Gly nas dietas das porcas, no presente estudo. No entanto, como o teor de FeSO4H2O das dietas das porcas aumentou no mesmo nível, não houve aumento significativo do teor de ferro nos tecidos. Este resultado pode fornecer evidências de que o Fe-Gly tem maior eficácia biológica do que o FeSO4H2O. Além disso, os relatórios indicaram que a alimentação de uma fonte de ferro orgânico para porcas prenhes poderia aumentar as reservas fetais de ferro (Close, 1999). Spruill et al. (1971) demonstrou que as dietas de gestação com altos níveis de ferro resultam em um aumento leve, mas não significativo, na transferência placentária de ferro, medida pelo conteúdo de ferro no fígado de leitões recém-nascidos. Na nossa pesquisa, o conteúdo de ferro no fígado, rins, baço e fêmur também aumentou significativamente nos grupos de leitões Fe-Gly, em comparação com os grupos de leitões FeSO4H2O. Esse achado é consistente com estudos anteriores (Yu et al., 2000; Feng et al., 2007, 2009). Esses Suínos&Cia | nº 61/2019

resultados podem ser atribuídos ao fato de que o Gly possui uma estrutura similar ao HGB e desempenha um papel importante na síntese do heme. Além disso, o Gly, como um transportador de ferro para a célula-alvo, tem especificidade, na teoria (Wei et al., 2005). Quando a quantidade de aditivo Fe-Gly excedeu 110 mg / kg, não houve aumento significativo no teor de ferro dos órgãos dos leitões. Isso pode significar que o conteúdo de ferro nos leitões já era suficiente com a suplementação de 110 mg / kg de Fe-Gly no grupo e que o fornecimento de mais ferro não levaria à obtenção de melhores resultados. 4.3. Parâmetros fisiológicos do sangue de leitões Níveis baixos de hemoglobina (HGB) e hematócrito (HCT) baixo estão associados à anemia (Kals et al., 2016). No presente estudo, a adição de Fe-Gly à dieta de porcas aumentou significativamente as RBC, a concentração de HGB e o HTC de leitões recém-nascidos, estando esses resultados de acordo com os achados de estudos anteriores


Sumários de Pesquisa

(Peters e Mahan, 2008; Wang et al., 2014). A única exceção foram os grupos de altas doses (110 mg / kg e 140 mg / kg), e esse achado pode ser explicado pelos mecanismos homeostáticos de regulação do ferro desenvolvidos pelo organismo, que incluem circuitos homeostáticos complexos e moléculas especializadas para regular os níveis de ferro (Yu et al., 2000). A concentração de HGB nos leitões pode ser aumentada tanto pela suplementação de altas doses de ferro para porcas prenhes, o que aumenta as reservas fetais de ferro, quanto pelo aumento do nível de ferro nas dietas fornecidas às porcas durante a lactação, o que aumenta o teor de ferro do leite. Além disso, os leitões podem adquirir ferro ao consumir as fezes das porcas (Brady et al., 1978). Uma concentração de 100 g de HGB / L indica um teor adequado de ferro para um organismo, 80 g / L é considerado o limite para o início da manifestação da anemia e 60 g / L indica anemia severa (McDowell, 1992). Quando a dosagem de Fe-Gly nas dietas experimentais foi de 110 mg / kg, a concentração de HGB dos leitões recém-nascidos ultrapassou os 100 g / L, no presente estudo, o que indicou uma concentração adequada de HGB. 4.4. Índices bioquímicos de soro de leitões Os índices séricos de ferro (SI) e de ferritina (Fn) e a capacidade total de ligação do ferro (TIBC) são importantes indicadores bioquímicos que refletem o status de ferro no organismo dos leitões (Gottschalk et al., 2000; Ferreira da Silva et al., 2004; Zhang et al., 2017). A principal proteína de armazenamento de ferro é a Fn, que diminui em animais com anemia (Bradley et al., 2004). O ferro sérico - o ferro combinado com transferrina no soro - tem sido utilizado para a medição qualitativa da biodisponibilidade de suplementos de ferro (Ferreira da Silva et al., 2004). A capacidade total de ligação do ferro é a quantidade máxima de ferro que a transferrina pode combinar em 100 ml de soro, valor esse que aumenta com a anemia (Smith et al., 1984). Quando Fe-Gly foi adicionado às dietas de porcas, Fn e SI aumentaram significativamente no soro dos seus leitões, e a TIBC diminuiu significativamente. No entanto, os efeitos benéficos da suplementação com FeSO4H2O não foram significativos. Spruill et al. (1971) relatou que a alimentação com dietas ricas em ferro durante a gestação poderia aumentar os níveis de SI. Yu et al. (2000) descobriu que o ferro ligado a um complexo de aminoácidos poderia aumentar os níveis sanguíneos de SI. Ambos os achados estão de acordo com os resultados do presente estudo, podendo ser explicados pelo fato de que o ferro inorgânico

é absorvido quando sua pós-coenzima se combina com aminoácidos ou outras substâncias para formar sais quelatos. O ferro quelato de aminoácidos, que é a principal forma de ferro absorvida pelo organismo, pode ser assimilado diretamente, evitando a competição com outros minerais (Close, 1999). Portanto, aminoácidos quelatatos têm um valor biológico mais alto. O presente estudo também descobriu que os níveis séricos de Fn, SI e a TIBC variaram linearmente à medida que a quantidade de suplementação de Fe-Gly foi alterada, mas as diferenças entre os grupos de 110 mg / kg e 140 mg / kg não foram significativas. Esse achado pode ser explicado pelo fato de que a absorção de ferro é ajustada de acordo com as demandas do organismo (Morgan e Oates, 2002). O tamanho da amostra foi pequeno no presente estudo, sendo necessários, portanto, mais estudos para confirmar os resultados atuais. 5. Conclusão De acordo com a concentração de HGB dos leitões e levando-se em consideração o peso relativo dos órgãos, os teores de ferro nos tecidos e os índices bioquímicos do sangue, a dose adequada de Fe-Gly na dieta das porcas foi de 110 mg / kg, no presente estudo. No entanto, quando o FeSO4H2O foi suplementado a 140 mg / kg, a concentração de HGB dos leitões HGB não ultrapassou 100 g / L. O delineamento de mais estudos, nesse sentido, se faz necessário para a determinação da quantidade adequada de FeSO4H2O na dieta de porcas em gestação que possa atender às exigências nutricionais de ferro de seus leitões neonatos. Como a anemia ferropriva é um problema comum e prejudicial aos leitões, esses achados podem ser utilizados também para melhorar as práticas de manejo na suinocultura.

59

Conflitos de interesse Os autores declaram que não há interesse financeiro concorrente no trabalho descrito. Reconhecimento Os autores gostariam de agradecer a Weiren Yang, Donghua Dong e Zaibin Yang pela excelente assistência técnica. Os autores agradecem Shuzhen Jiang e Yuxi Wang pela revisão do manuscrito. Este estudo foi apoiado por fundos do Sistema de Pesquisa Agrícola da Província de Shandong/China (Projeto Nº SDAIT-08-05). nº 61/2019 | Suínos&Cia


Sumários de Pesquisa

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Sumários de Pesquisa

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61

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© 2018, Associação Chinesa de Zootecnia e Medicina Veterinária. Produção e hospedagem por Elsevier B.V. em nome da KeAi Communications Co., Ltd. Este é um artigo de acesso aberto, sob a licença CC BY-NC-ND (http://creativecommons.org/ licenses/by-nc-nd/4.0/). nº 61/2019 | Suínos&Cia


Sumários de Pesquisa

Uso de minerais orgânicos na alimentação de porcas: efeitos sobre a sua longevidade e o desempenho das leitegadas Roberto BAREA1, Alain Bourdonnais1, Antonio PALOMO YAGÜE2 Novus Europe SA/NV, Rue Neerveldstraat 101-103, B-1200 Bruxelles, Belgique 2 Université Complutense de Madrid, Avda. Puerta de Hierro, s/n., 28040 Madrid, Espagne roberto.barea@novusint.com 1

U

m total de 82 granjas UPL comerciais foram utilizadas em 24 meses de estudo. Cerca de 124 mil porcas foram divididas em três tratamentos, de acordo com a fonte dos minerais orgânicos recebidos (27 granjas, com 1.532 matrizes por grupo): 1) 100 de ppm Zn; 25 ppm de Cu; 45 ppm de Mn,como formas inorgânicas (INORG) - 2) mesmo nível de INORG, mais 50% de reposição com minerais orgânicos complexados com aminoácidos e peptídeos (ORG) - 3) 50 ppm de Zn; 10 ppm de Cu; 20 ppm de Mn, como quelatos – nos quais os metais estão ligados à metionina hidroxi-análoga (CHAM). No geral, os minerais CHAM reduziram significativamente a taxa de mortalidade das porcas em comparação com os INORG (-15,0%) e os ORG (-6,3%), (P <0,01). O percentual de porcas mantidas até a terceira parição foi maior nas fêmeas do grupo CHAM (73,93%), em comparação às do grupo INORG (67,18%) e do grupo ORG (70,69%), (P <0,01). Além disso, no grupo CHAM houve redução significativa do número de natimortos em comparação com o grupo INORG (-41,4%) e com o grupo ORG (-11,1%), (P <0,01). Assim, o número de leitões desmamados foi significativamente maior para as porcas do grupo CHAM, em comparação às dos grupos INORG e ORG (+0,6 e + 0,3 – respectivamente – P <0,01). Este estudo mostrou que estes quelatos (nos quais os metais estão ligados à metionina hidroxi-análoga) aumentaram a taxa de retenção das porcas e o seu desempenho reprodutivo. A estratégia “reduzir e substituir”, aplicada a esses minerais quelatos, permite a redução da taxa de inclusão de minerais orgânicos em dietas de porcas.

62

Introdução A longevidade das porcas é um componente essencial para a produtividade e o desempenho econômico na produção animal. Assim, a taxa de reposição da porca tem um grande impacto sobre a rentabilidade da suinocultura, estimada em cerca de 15% da renda total (Gruhot et al., 2017). Procedimentos relacionados a problemas reprodutivos e maternais são responsáveis ​​por cerca de 40% da vida útil da porca (Badouard et al., 2013). Os oligoelementos Zn, Cu e Mn desempenham um papel essencial na integridade dos tecidos – como a formação óssea – e na manutenção da integridade esquelética (Rucker et al., 1998). Eles também têm função imunológica, ajudando a combater o estresse oxidativo (Garait, 2006). Geralmente, esses oligoelementos são trazidos na forma mineral inorgânica. Fontes orgânicas de oligoelementos – que resultam da complexação de um metal por uma molécula orgânica – são cada vez mais utilizadas. O processo de quelação melhora a biodisponibilidade do metal, protegendo-o de antagonismos Suínos&Cia | nº 61/2019

no trato digestivo e facilitando sua absorção e uso metabólico (Kirchgessner & Grassman, 1970). O objetivo deste estudo foi avaliar se a suplementação com quelatos de Zn, Cu e Mn – nos quais os metais estão ligados a duas moléculas de metionina hidroxi-análoga – pode melhorar a produtividade e a saúde das porcas, além do tamanho e o desempenho de seus leitões, em comparação com fontes de oligoelementos inorgânicos e orgânicos. Material e métodos O estudo foi realizado em um total de 82 granjas UPL comerciais, na Espanha, por 24 meses. Aproximadamente 124 mil porcas foram divididas em três tratamentos, dependendo da fonte de oligoelementos recebidos (27 granjas com 1.532 porcas por grupo): 1) 100 ppm de Zn, como ZnO; 25 ppm de Cu, como CuSO4; 45 ppm de Mn, como MnO (INORG) - 2) mesmo nível de INORG, mais 50% de reposição com minerais complexados por aminoácidos e peptídeos (ORG) - 3) 50 ppm de Zn; 10 ppm de Cu; 20 ppm de Mn, sob a forma de minerais quelatos ligados à metionina hidroxi-análoga* (CHAM). A genética das porcas (Topigs, PIC e Hypor DanBred) foi dividida em partes iguais entre os três tratamentos experimentais. Além disso, a localização geográfica das granjas foi uniformemente distribuída entre os grupos, nas regiões de Aragão, Catalunha, Castilla-Leon, Castilla-La Mancha, Murcia, Galicia e Andaluzia. Todas as dietas foram formuladas com base nas tabelas de ingredientes alimentares FEDNA, sendo as recomendações nutricionais adaptadas às necessidades das diferentes genéticas. Os sistemas de alojamento dos animais avaliados foram semelhantes durante os períodos de gestação (sistemas de alojamento em grupo) e de lactação. A análise estatística foi realizada utilizando o procedimento SAS 9.1 GLM (SAS Institute, Inc., Cary, NC/USA) e considerando os efeitos do esquema e da gama de classificações. Nenhuma covariável foi utilizada. Para todas as análises, a criação foi considerada a unidade experimental. As probabilidades foram consideradas estatisticamente significativas no limiar de P ≤ 0,05. * MINTREX®, da Novus International, Inc., St. Charles, MO/EUA Resultados e discussão O desempenho e a longevidade das porcas, além dos resultados por leitegada, são apresentados na Tabela 1. Os minerais quelatos totais CHAM diminuíram significativamente a taxa de mortalidade das porcas em comparação com os grupos INORG (- 15,0%) e ORG (-6.3%), (P <0.01). O percentual de porcas de terceiro parto mantidas em produção


Sumários de Pesquisa Tabela 1. Desempenho e longevidade de porcas e resultados por leitegada, por fonte de micronutrientes recebida INORG1

ORG1

CHAM1

ETR2

P3

28

26

28

Desempenho e longevidade das porcas Número de propriedades

87,24

-

-

a

87,44

0,18

< 0,01

b

Taxa de parição, %

86,49

Taxa de renovação, %

48,55

46,14

46,00

0,27

< 0,01

Taxa de mortalidade, %

8,48

7,69

c

7,20

0.14

< 0,01

Taxa de refugagem por problemas de aprumo, %

18,61

Porcas em produção no terceiro parto, %

b

ab

a

b

a

b

14,93

14,85

0,20

< 0,01

c

67,18

b

70,69

a

73,93

0,23

< 0,01

Número de nascidos totais/leitegada

14,36

14,35

14,36

0,03

0,99

Número de natimortos/leitegada

1,23

0,81

c

0,72

0,02

< 0,01

Número de nascidos vivos/leitegada

13,02

a

a

b

b

Resultados por escopo a

b

13,41

13,50

0,04

< 0,01

Número de desmamados/leitegada

c

11,53

b

11,87

a

12,12

0,04

< 0,01

Taxa de mortalidade pré-desmame, %

11,42

11,43

10,18

2,13

0,85

b

a

INORG: fontes de oligoelementos inorgânicos; ORG:complexos de oligoelementos com aminoácidos e peptídeos; 1 CHAM: oligoelementos quelatos com metionina hidroxi-análoga; 2 ETR: desvio padrão residual do modelo; 3 P: valor do nível de probabilidade. 1 1

aumentou no grupo de fêmeas alimentadas com CHAM (73,93%), mais do que no caso das porcas alimentadas com INORG (67,18%) e com ORG (70,69%), (P <0 , 01). Além disso, no grupo CHAM houve redução significativa no número de leitões natimortos em comparação com os grupos INORG (-41,4%) e ORG (-11,1%), (P <0,01). Assim, o número de leitões desmamados foi significativamente maior nas porcas que receberam CHAM do que naquelas alimentadas com INORG e ORG (+0,6 e + 0,3, respectivamente, P <0,01). Estes efeitos positivos significativos do CHAM são apoiados pelos resultados de outro estudo, que compara o desempenho de porcas que receberam essas fontes de oligoelementos quelatos com minerais inorgânicos (Zhao et al., 2012). Neste caso, a suplementação com os referidos oligoelementos – quelatos ligados à metionina hidroxi-análoga – aumentou o desempenho reprodutivo das porcas, melhorou a taxa de retenção delas e reduziu a taxa de refugagem devido a problemas de aprumo. Além disso, o número total de leitões nascidos vivos aumentou. Como resultado, em comparação com outras fontes inorgânicas e orgânicas, o uso de quelatos ligados à metionina hidroxi-análoga melhorou a utilização digestiva e a biodisponibilidade dos oligoelementos, ao mesmo tempo em que otimizou o metabolismo das porcas e o crescimento dos leitões. Conclusão Esta observação mostrou que o uso de minerais quelatos ligados à metionina hidroxi-análoga aumentou a taxa de retenção das porcas e melhorou o seu desempenho reprodutivo, além de aumentar o tamanho e melhorar o desempenho das leitegadas. A estratégia “reduzir e substituir”, aplicada a esses minerais quelatos, permitiu reduzir a taxa de inclusão de micronutrientes na dieta de porcas.

Referências bibliográficas 1. BADOUARD, B. ; BOULOT, S. ; COURBOULAY, V. Les pratiques de réforme diffèrent‐elles dans les élevagesconduisant les truies gestantes engroupe? Journ Rech Porci v. 45, p. 77‐78. 2013. 2. GARAIT, B. Le stress oxydantinduit par voiemétabolique (régimes alimentaires) ou par voiegazeuse (hyperoxie) et effet de laGliSODin®. Thèse de doctorat p. 197. Univ. Joseph Fourier, Grenoble 1, France. 2006. 3. GRUHOT, T. ; CALDERON DIAZ, J.A. ; BAAS, T.J. ; DHUYVETTER, K.C. ; SCHULTZ, L.L. ; STALDER, K.J. An economic analysis of sow retention in a United States breed-to-wean system. Jour Swine Healt Prod v. 25, p. 238246. 2017. 4. KIRCHGESSNER, M.; GRASSMANN, E. The dynamics of copper absorption. In: Trace Elements Metabolism in Animals, v. 01, p. 277-287. (C.F. Mills ed.), Livingstone, Edinburgh. 1970. 5. RUCKER, R.B.; KOSONEN, T.; CLEGG, M.S.; MITCHELL, A.E.; RUCKER, B.R.; URIU-HARE, J.Y.; KEEN, C.L.Copper, lysyl oxidase, extracellularmatrixproteincrosslinking. Ame Jour Clin Nutr v. 67, p. 996S-1002S. 1998. 6. ZHAO, J.; HARRELL, R.; GREINER, L.; ALLEE, G.; KNIGHT, C. Chelated trace minerals support sow reproduction. Feedstuffs. June, 4. 2012

63

nº 61/2019 | Suínos&Cia


Informe Técnico

Os desafios da lactação Fêmeas magras, hiperprolificidade, baixa produção de leite e grandes leitegadas são alguns dos desafios da fase mais importante das matrizes suínas Fabrício Santos Nutricionista da divisão de suinocultura na Agroceres Multimix

A

evolução genética que temos observado nos últimos anos fez com que fêmeas em lactação se tornassem altamente produtivas, com alto número de nascidos totais e nascidos vivos. Atualmente, observamos granjas comerciais com 36,17 desmamados/fêmeas/ano (Agriness, 2018), chegando até 40 desmamados/ fêmea/ano (Decoux, 2017), em situações de manejo e produção na Europa.

Assim, como poderemos alcançar o número de 40 desmamados/fêmea/ano ou mantermos essa produtividade? Levando em consideração alguns dados europeus, uma das alternativas seria trabalhar as melhorias das nossas condições sanitárias, assim como nas instalações, ambiência, manejo de leitões de baixo peso, manejo na maternidade, bem como trabalhar para reduzir a mortalidade na lactação, nossos controles de dados e informações geradas e, não menos importante, a alimentação da fêmea na lactação.

64

Entretanto, em nossas condições de ambiência, instalações, manejo e alimentação, observamos, na maior parte do ano, que nossas fêmeas em lactação são desafiadas por diversos fatores, tais como altas temperaturas; estresse calórico influenciando no consumo ad libittum (Renaudeau et al, 2012); consumo de alimentos de baixa qualidade nutricional ou, muitas vezes, rancificados, já que dietas de lactação normalmente utilizam altos níveis de óleos e gorduras; dietas e ingredientes contaminados por micotoxinas, que podem alterar a resposta imune dos animais, sendo uma

possível abertura para desenvolvimento de infecções; enfermidades, como problemas de cascos e reprodutivos, que são as principais causas de descarte destes animais (Henman, D. 2006); além de um manejo ineficiente da alimentação, limpeza e desinfecção das instalações, fazendo com que nossas fêmeas lactantes sejam constantemente desafiadas, podendo afetar sua produtividade. Todas estas situações citadas acima podem provocar alterações no sistema imune dos animais, ocasionando alterações metabólicas e fisiológicas, tendo como principal consequência a diminuição na produção e qualidade do leite das matrizes (Sauber et al. 1999), e podendo causar baixo peso da leitegada ao desmame, aumento da mortalidade na maternidade, maior necessidade de mães de leite na maternidade e maior gasto com mão de obra. Desta forma, o que podemos fazer para minimizar esses impactos? Devemos investir em instalações, ambiência, melhora no manejo na maternidade, melhorias sanitárias, biosseguridade e treinamentos, porém, muitas vezes, essas medidas não são tomadas pelos produtores, cabendo à nutrição uma alta parcela na solução desses desafios. Muitas das soluções associadas à nutrição estão relacionadas ao adensamento das dietas com lisina, energia, entre outros nutrientes, na tentativa de suprir um baixo consumo de ração; no entanto, muitas vezes, sem grande efeito, pois estes animais já estão sofrendo alterações comportamentais e fisiológicas pela ativação do sistema imune. Assim, suplementações devem ser feitas no sentido de amenizar os desafios e respostas provocadas pela ativação do sistema imune, evitando que nutrientes que antes seriam utilizados para produção de leite sejam utilizados para combater estas respostas de ativação do sistema imune. Diante desta observação, cabe ao suinocultor encontrar uma solução capaz de promover melhor consumo das matrizes, com melhora na integridade intestinal e maior produção de leite, resultando em animais mais saudáveis e, consequentemente, maior ganho de peso dos leitões. Uma solução que a Agroceres Multimix já possui.

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Informe Técnico

O papel da vitamina 1,25 D3 Glicosídeo frente aos avanços genéticos da suinocultura Dr. Eduardo Raele Médico-veterinário Gerente Técnico NutriQuest Technofeed tecnico@technofeed.com.br Co-autores: David Gavioli, Gabriela Nagi, Rodrigo Pereira Souza

O

momento do parto e os primeiros dias pós-parto têm sido um grande desafio para os avanços genéticos obtidos pela suinocultura na última década. Isto porque há um aumento gradual e sistemático do número de leitões nascidos por fêmea a cada ano, e esta melhoria acaba levando a sérios problemas subsequentes, como o aumento da variabilidade de peso dos animais, com consequente redução do peso médio de desmame; aumento da natimortalidade; aumento na taxa de mortalidade dos primeiros dias pós-nascimento; dificuldade do recém-nascido em mamar o colostro da própria mãe, uma vez que os partos se tornam mais longos e as leitegadas mais numerosas; além de uma necessidade cada vez maior de intervenções químicas ou mecânicas para auxiliar a fêmea no processo de parição. Todos esses problemas transformam o parto e suas consequências em um campo fértil para estudos e busca de soluções de manejo e nutrição, visando aproveitar ao máximo os benefícios dessa melhoria genética. Dentre os aspectos nutricionais relacionados com o parto, alguns nutrientes são de extrema relevância, como o cálcio, os carboidratos e as vitaminas, em especial a vitamina D3. Isto porque muito de seus efeitos metabólicos estão associados à fisiologia do parto quando esta vitamina se ativa no organismo na forma de 1,25 Dihidroxivitamina D3 ou calcitriol. Os efeitos do calcitriol no organismo são referidos como clássicos, associados ao metabolismo, absorção e reabsorção dos minerais,

como o cálcio e o fósforo, e, consequentemente, auxiliando no papel do cálcio no mecanismo de contração uterina (Norman et al., 2012). E como efeitos “não clássicos”, associados com os receptores de 1,25 Dihidroxivitamina D3 ou VDR, presentes em mais de 90% dos tecidos do corpo e que, dentre outros aspectos, regulam a ação de hormônios relacionados com o metabolismo de glicose, com o crescimento e a diferenciação celular e com a reprodução, como a ocitocina, também com papel intrínseco no momento do parto e ejeção do colostro (Jang et al., 2019; Rosen et al, 2012). Além do calcitriol, a fração ativa da vitamina D3 (1,25 Dihidroxivitamina D3) pode ser encontrada em algumas plantas na natureza, como a Solanum Glaucophyllum, com alta disponibilidade dessa vitamina na forma de glicosídeos solúveis e que são prontamente absorvidas e utilizadas pelos mamíferos (von Rosenberg et al., 2007), aves (Bachmann et al., 2013) e também suínos (Fox & Care, 1979). Neste sentido, a utilização da vitamina D3 em sua forma bioativa na nutrição animal pode ser um complemento importante para o metabolismo da vitamina D3 em momentos de alta necessidade desse nutriente pelo animal, uma vez que a vitamina D produzida pelo organismo (via 7 D-hidrocolesterol) ou suplementada na forma de colecalciferol via alimentação é inativa e dependente de um processo de dupla hidroxilação no fígado e nos rins para se tornar metabolicamente ativa e, mesmo cumprindo esta rota metabólica, o

65

Tabela 1 – Nível de cálcio e calcitriol em diferentes espécies suplementadas com uma fonte de vitamina 1,25 Dihidroxivatima D3 glicosídeo Trabalho

Gavioli et al, 2019

Bachman et al., 2013

Grupo (mg/L)

Teste

Estatística

1,25(OH)2D3

Controle

SE

P*

Cálcio parto

8,93

8,33

0,23

0,067

1,25(OH)2D3 parto¹

54,38

50,76

1,88

0,283

Cálcio desmame

9,79

9,23

0,15

0,021

1,25(OH)2D3 desmame¹

47,35

46,08

2,78

0,958

Cálcio

259

195

-

0,050

1,25(OH)2D3

30

24

>0,100

* Teste Kruskal-Wallis para médias não paramétricas com diferença (P ≤ 0,05) e tendência de diferença (P ≤ 0,10). ¹ Dados não publicados até o momento. nº 61/2019 | Suínos&Cia


Informe Técnico

Tabela 2 – Tempo de duração do parto, incidência de distocia e uso de ocitocina durante o parto de acordo com o uso ou não de 1,25 Dihidroxivitamina D3 natural Trabalho

Grupo (mg/L)

Gavioli et al, 2019 (100 g/ton)

Chile, 2016 (250 g/ton) Alemanha, 2014 (50 g/ton) Tailândia, 2007 (50 g/ton), 2014

Teste

Estatística

1,25(OH)2D3

Controle

SE

P*

Tempo de parto (h)

3:59

5:33

16,6

0,018

Partos distócicos (%)

12,0

30,0

-

0,064

Uso de ocitocina (%)

5,7

31,1

-

0,001

Tempo de parto (h)

2:30

2:35

-

NS

Partos distócicos (%)

3,0

3,8

-

NS

Uso de ocitocina (%)

2,2

3,0

-

NS

Tempo de parto (h)

3:32

4:44

-

0,010

Tempo de parto (h)

3:30

5:30

-

0,001

Tempo de parto (h)

2:45

3:35

-

0,050

* Teste Kruskal-Wallis para médias não paramétricas com diferença (P ≤ 0,05) e tendência de diferença (P ≤ 0,10). organismo tem um nível máximo de ativação dessa vitamina determinando um platô no organismo para a 1,25 Dihidroxivitamina D3 (Goff and Horst, 1995), que só pode ser suplantado a partir da administração dessa substância diretamente para o animal. Em estudo recente realizado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) em uma granja de ciclo completo em Minas Gerais, avaliou-se a suplementação de 100 g dessa fonte natural de 1,25 Dihidroxivitamina D3 glicosídeo para fêmeas pré (a partir dos 85 dias de gestação) e pós-parto (até o desmame), em dois ciclos reprodutivos

66

subsequentes, permitindo a avaliação da dinâmica do parto e dos níveis séricos de cálcio, fósforo, ferro e de vitamina D3 nas formas de 25(OH)D3 e de 1,25(OH)2D3 durante o parto e no desmame. Os resultados indicam um aumento do nível sérico de cálcio durante o parto e no desmame, sem, contudo, os níveis séricos de 1,25(OH)2D3 sofrerem alterações (Tabela 1). Resultados similares já haviam sido verificados em aves por Bachmann et al. (2013) para o aumento de cálcio e manutenção do nível de 1,25(OH)2D3 séricos, quando utilizou-se a vitamina D3 natural para estes animais.

Gráfico 1 – Performance reprodutiva de fêmeas ao parto em diferentes estudos com a vitamina 1,25 Dihidroxivatima D3 glicosídeo

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Informe Técnico

Este estudo brasileiro também observou uma ação do produto sobre o tempo de duração dos partos e suas intercorrências, com uma redução no tempo de parto das fêmeas sob ação da vitamina D3 natural bioativa em torno de 100 minutos e com redução na prevalência de partos distócicos e no uso de ocitocina. Estudos similares já haviam sido realizados na Alemanha, Tailândia e Chile com fêmeas sob a ação da mesma 1,25(OH)2D3 glicosídeo, na qual observou-se redução do tempo de parto (Universidade de Munique - Alemanha; Granja comercial - Tailândia) e redução do uso de ocitocina e intervenções manuais (Granja Comercial - Chile) (Tabela 2). O mesmo estudo realizado no Chile também aponta uma melhora no número de leitões natimortos com o uso da 1,25(OH)2D3 glicosídeo a partir de 85 dias de gestação, reduzindo em mais de 50% a natimortalidade em relação ao grupo controle. Esses resultados foram similares aos obtidos pelo estudo da Universidade Estadual de Londrina, que também trabalhou com a suplementação dessa vitamina a partir dos 85 dias de gestação, mas obteve uma melhora na condição de natimortalidade apenas a partir do segundo ciclo subsequente de utilização da vitamina, conforme aponta o gráfico de comparação dos experimentos. É interessante ressaltar também que, em ambos os experimentos, houve aumento no número de nascidos vivos após o primeiro ciclo de utilização da vitamina (Gráfico 1). Outro aspecto relevante é a importância do colostro e dos pontos críticos associados à sua ingestão mínima necessária para a garantia de uma proteção passiva adequada em leitegadas de fêmeas com muitos leitões. Estratégias de manejo, bancos de colostro, rotação de leitões após o nascimento e outras medidas tentam minimizar o problema e garantir o mínimo de ingestão de colostro pelo leitão da própria mãe antes da uniformização das leitegadas. Este também é um aspecto que apresentou melhora considerável com a suplementação da vitamina 1,25(OH)2D3 no experimento realizado no Brasil, resultando em um aumento da ingestão de colostro, mensurado indiretamente a partir da metodologia de Le Dividich et al. (2005), na qual pesa-se o leitão ao nascimento e com 24 horas de vida e se estabelece uma relação entre este peso e a ingestão de colostro provável. Em ambos os ciclos estudados no trabalho, houve melhora na ingestão voluntária de colostro pelos leitões de fêmeas sob ação da vitamina bioativa (Gráfico 2). Certo é que a condição do parto e suas consequências podem ser fundamentais para a produtividade de uma fêmea que pare muitos leitões. A vitamina D3 natural mostrou-se, em muitos trabalhos, altamente eficaz para auxiliar algumas dificuldades observadas durante o parto. Entretanto, um problema complexo como este exige soluções

Gráfico 2 – Ingestão de colostro em diferentes ciclos reprodutivos com o uso ou não da vitamina 1,25 Dihidroxivatima D3 Glicosídeo

complexas em que se associam manejo, sanidade e nutrição para que os efeitos desse e de outros aditivos nutricionais possam ser explorados em sua totalidade para que tenhamos soluções cada vez mais completas para a fêmea suína moderna. Referências 1. Bachmann, H., Autzen, S., Frey, U., Wehr, U., Rambeck, W., McCormack, H., Whitehead, C.C., 2013. The efficacy of a standardised product from dried leaves of Solanum glaucophyllum as source of 1,25-dihydroxycholecalciferol for poultry. Br. Poult. Sci.54, 642–652. 2. Fox, J., Care, A.D., 1979. Effects of hydroxylated derivates of vitamin D3 and of aqueous extracts of Solanum malacoxylon on the absorption of calcium, phosphate, sodium, potassium and water from the jejunum of pigs. J. Endocrinol. 82, 417–424. 3. Identification and characterization of mRNAs and lnc RNAs in the uterus of polytocous and monotocous Small Tail Hansheep. La Y, Tang J, He X, Di R, Wang X, Liu Q, Zhang L, Zhang X, Zhang J, Hu W, et al. Peer J. 2019; 7:e6938. Epub 2019 May 23. 4. Goff,J.P., Horst, R.L. 1995. Assessing adequacy of cholecalciferol supplementation in chicks using plasma cholecalciferol metabolite concentrations as an indicator. J. Nutr. 125(5):1351-1357. 5. Rosen, C. J., Adams, J. S., Bikle, D. D., Black, D. M., Demay, M. B., Manson, J. E., et al. (2012). The non skeletal effects of vitamin D: an Endocrine Societys cientific statement. Endocr. Rev. 33, 456–492. doi: 10.1210/er.2012-1000. 6. Le Dividich J, Rooke J, Herpin P, 2005. Nutritional and immunological importance of colostrum for the newborn pig. J AgricSci (Camb) 143: 1-17.

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nº 61/2019 | Suínos&Cia


Informe Técnico

Mais do que produtos, produzimos qualidade de vida Dr. Antonio Roberto Bacila Médico-veterinário Organnact–Curitiba/PR bacila@organnact.com.br

F

ormei-me no ano de 1974 em Medicina Veterinária pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), e em 1992 dei o 1º passo na busca por soluções inteligentes e eficazes que proporcionassem uma vida melhor, com comodidade e bem-estar, para os animais e as pessoas que cuidam deles.

Em meados de 1993 percebi que minhas ovelhas perdiam muitos resíduos de alimentação nas fezes e que, portanto, algo deveria ser feito para que tais perdas não se prolongassem. Preocupado com esta situação, conversei com meu tio bioquímico, Prof. Dr. Metry Bacila, que me aconselhou a administrar leveduras para as ovelhas. A partir deste momento, nascia o nosso primeiro produto. Em 1993 a levedura ainda era algo novo e após diversas pesquisas sobre o produto, passei a fornecer para minhas ovelhas. Notei que, após o uso, houve uma considerável redução de perdas daqueles resíduos nas fezes e, assim, decidi montar um laboratório para fabricar produtos com leveduras. A partir desta base nasceu uma ampla linha de produtos que foi desenvolvida para atender às necessidades de ruminantes, cães, gatos e equinos.

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Por meio de uma rede de distribuição com abrangência em todo o território nacional, o Gru-

po Organnact, empresa da qual sou diretor-presidente, cresceu e hoje marca presença em mais de 20.000 pontos de vendas espalhados pelo Brasil, garantindo o conforto e a satisfação do consumidor. A Organnact é um dos mais respeitados laboratórios veterinários do Brasil e há mais de 20 anos investe para desenvolver e aprimorar soluções que levem mais saúde e bem-estar aos animais e, por consequência, mais qualidade de vida às pessoas que interagem com eles. Considerando o grande sucesso da linha de produtos e observando as necessidades do mercado, há aproximadamente 6 anos iniciei os estudos para o desenvolvimento de produtos destinados a suínos e aves. Estes produtos são compostos, principalmente, por prebióticos e ácidos graxos de cadeia média advindos do óleo de coco. Conheça os principais componentes dos nossos produtos: Prebióticos: carboidratos não digestíveis, como a parede celular de leveduras, são classificados como oligossacarídeos complexos, representados, principalmente, por glucanos, frutoligossacarídeos (FOS) e mananoligossacarídeos (MOS). Estes compostos possuem a propriedade de se ligarem à fímbria das bactérias patogênicas e inibirem a colonização do trato gastrintestinal por microrganismos indesejáveis (SILVA, 2000). Atuam em todas as fases da vida, inibindo a colonização destes microrganismos no trato gastrintestinal, como E. Coli e salmonelas, e contribuindo positivamente para a saúde intestinal dos animais (GIBSON & ROBERFROID, 1995). Estes aditivos são capazes de melhorar a digestão e absorção de nutrientes, afetando positivamente o desempenho (SPRING, 2000). Diversas pesquisas apontam ainda que os prebióticos atuam também de forma benéfica sobre o sistema imune do hospedeiro, pois estimulam a produção de citocinas, a proliferação de células mononucleares, a fagocitose macrofágica e a indução da síntese de grandes quantidades de imunoglobulinas (YASUI & OHWAKI, 1991; MACFARLANE & CUMMINGS, 1999; SPRING, 2000). Dados relevantes mostram que os produtos de manano podem trazer bons resultados

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Informe Técnico

mesmo quando utilizados em períodos críticos na produção de suínos (leitões durante o período de creche e em porcas durante o final da gestação e lactação). Alguns trabalhos relataram que a suplementação da dieta da porca com MOS dietético nas últimas 2-3 semanas de gestação e durante a lactação melhorou a taxa de crescimento dos leitões (O’QUINN et al., 2001; NEWMAN et al., 2001; PETTIGREW et al., 2005). Além dos benefícios em desempenho por meio da manutenção da saúde intestinal e do suporte aos mecanismos de defesa, o uso de medicamentos pode ser reduzido durante o período pós-desmame com o uso da suplementação de MOS. Esta alternativa possibilita saúde, segurança e produção de carne suína de qualidade para o consumidor (HALAS & NOCHTA, 2012). Referências 1. BERGSSON, G., J. ARNFINNSSON, Ó. STEINGRÍMSSON, and H. THORMAR. Killing of gram-positive cocci by fatty acids and monoglycerides. APMIS 109:670-678, 2001. 2. GIBSON, G. R.; ROBERFROID, M. B. Dietary mudulation of the human colonic microbiota: introducing the concept of prebiotics. J. Nutr., v. 125, p. 1401-1412, 1995. 3. HALAS, Veronika; NOCHTA, Imre. Mannan oligosaccharides in nursery pig nutrition and their potential mode of action. Animals, v. 2, n. 2, p. 261274, 2012. 4. KABARA J. J. Vrable R. Antimicrobial lipids: Natural and synthetic acids and monoglycerides. Lipids. 12:753-759, 1977. 5. MACFARLANE, G.T.; CUMMINGS, J.H. Probiotics and prebiotics: can regulating the activities of intestinal bacteria benefit health? BMJ, London, v. 18, p. 999-1003, 1999. 6. NEWMAN, K.E.; NEWMAN, M.C. Evaluation of mannan-oligosaccharide on the microflora and immunoglobulin status of sows and piglet performance. J. Anim. Sci. 79 (Suppl.1), 189, 2001. 7. O’QUINN, P.R.; FUNDERBURKE, D.W.; TIBBETS, G.W. Effects of dietary supplementation with mannan oligosaccharides on sow and litter performance in a commercial production system.J. Anim. Sci. 79 (Suppl.1), 212, 2001. 8. PETTIGREW, J.E.; MIGUEL, J.C.; CARTER, S. Bio-Mos in sow diet; performance response and economics.

Óleo de coco (ácido láurico): a associação destes aditivos com o ácido láurico, um ácido graxo saturado de cadeia média presente no óleo de coco (53%), aumenta a eficiência no controle de alguns patógenos, como a Salmonella enteritidis, ao promover a acidificação intracelular e, por consequência, a inativação de enzimas (VIEGAS, 1991; KABARA, 1977; SUN et al., 1998; VASUDEVAN et al., 2005). BERGSSON e colaboradores (2001) atribuíram o efeito antimicrobiano destes componentes a alterações na permeabilidade de membrana e perda dos constituintes celulares das bactérias. Dessa forma, estes aditivos, ao modularem a resposta imune, beneficiam os animais frente a desafios sanitários e contribuem para um melhor desempenho zootécnico. In Biotechnology in the Feed Industry: Proceedings of Alltech’s 21th Annual Symposium; Lyons, T.P., Jacques, K.A., Eds.; Nottingham University Press: Nottingham, UK, pp. 213-220, 2005. 9. SILVA, E. N. Probióticos e Prebióticos na Alimentação de Aves. In: CONFERENCIA APINCO DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA AVICOLAS, 2000, Campinas. Anais... Campinas: FACTA, p. 242-251, 2000. 10. SPRING, P. The effect of dietary mannanoligosaccharides on cecal parameters and the concentration of enteric bacteria in ceca of Salmonella – challenged broiler chicks. Poult. Sci., v. 79, p. 205-211, 2000.

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11. SUN, C. Q., C. J. O’CONNOR, S. J. TURNER, G. D. LEWIS, R. A. STANLEY, and A. M. ROBERTON. The effect of pH on the inhibition of bacterial growth by physiological concentrations of butyric acid: Implications for neonates fed on suckled milk.Chem. Biol. Interact. 113:117–131, 1998. 12. VASUDEVAN, P., M. PATRICK, M. NAIR, T. ANNAMALAI, M. DARRE, M. KHAN, AND K. VENKITANARAYANAN. In vitro inactivation of Salmonella Enteritidis in chicken cecal contents by caprylic acid. J. Appl. Poult. Res. 14:122–125., 2005. 13. VIEGAS, C. A., and I. SA-CORREIA. Activation of plasma membrane ATPase of Saccharomyces cerevisiaeby octanoicacid.J. Gen. Microbiol.137:645–651., 1991. 14. YASUI, H.; OHWAKI, M. Enhancement of immune response in Peyer’s patch cells cultured with Bifidobacterium breve. J DairySci, Champaign, v. 74, n. 4, p.1187- 1195, 1991. nº 61/2019 | Suínos&Cia


Informe Técnico

Avaliação da Concentração Inibitória Mínima (CIM) de um produto natural à base de tomilho, alfarroba e chicória frente a cepas de Clostridium Perfringens

D

entre os agentes etiológicos causadores de gastroenterite em suínos, Clostridium e Escherichia coli ocupam papel de destaque, sendo considerados os mais importantes agentes bacterianos causadores de diarreia em leitões neonatais globalmente. Na suinocultura, o impacto das doenças causadas por Clostridium está geralmente associado com quadros de diarreias (de leve a grave) e aumento da taxa de mortalidade nas diferentes fases de produção. (FAIRBROTHER, 2011),

O Clostridium perfringens está entre os microrganismos com maior abrangência de toxinas, as quais possuem grande importância na quantidade, grau de toxicidade e letalidade (SONGER, 1997). Essas substâncias são altamente tóxicas e fatais, e podem ser classificadas como exotoxinas (toxinas extracelulares) de polipeptídios relativamente instáveis. O C. perfringens é caracterizado por ser uma bactéria em forma de bastonete, formadora de esporos semiterminais e microaerófilos, sobrevivendo assim em ambientes com pouca quantidade de oxigênio (BROOKS et al., 2010). As cepas de C. perfringens são semelhantes em aspectos bioquímicos e físicos de suas colônias e se diferenciam pelas estruturas antigênicas das toxinas presentes, sendo as cepas divididas em cinco tipos (A, B, C, D e E) devido à presença das quatro principais exotoxinas responsáveis por causar enfermidades, que são: alfa (α), beta (β), epsilon (ε) e iota (ɩ) (SMITH, 1979; NIILO, 1980; BEER, 1988; PENHA et al., 2005).

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Clostridium perfringens tem ampla ocorrência no trato intestinal de suínos e está diretamente relacionado como causa de enterotoxemias, principalmente pela detecção das exotoxinas α (tipo A) e α e β (tipo C) (SONGER e UZAL, 2005; VIEIRA et al., 2008). Avaliação laboratorial Um produto natural à base de tomilho, alfarroba e chicória foi avaliado no laboratório de microbiologia da Universidade Estadual de Londrina (PR) para verificação da Concentração Inibitória Mínima (CIM) frente a 12 cepas de Clostridium perfringens. Os valores de CIM foram determinaSuínos&Cia | nº 61/2019

Fabrizio Matté Consultor Técnico - Vetanco/Brasil fabrizio@vetanco.com.br

dos pelo método de microdiluição, de acordo com o documento M07-A9 publicado pelo Clinical and Laboratory Standards Institute (CLSI, 2012). O produto foi solubilizado em solvente apropriado e diluído em diferentes concentrações para a avaliação da CIM. As bactérias foram cultivadas nos meios de cultura apropriados, a 37oC durante 24 horas, e posteriormente diluídas em solução salina (0,9%) até obter-se a concentração de 106 células/ml. Em placas de microdiluição, foram diluídos 50% das suspensões bacterianas e 50% do composto em diferentes concentrações, diluído em meio de cultura apropriado. A cultura foi então incubada em jarra de anaerobiose com Gaspak (BD) a 37oC por 24 horas e o crescimento bacteriano avaliado quanto à turbidez. Para o ensaio com C. perfringens foram testadas concentrações de 0,039 a 5 mg/ml (0,0039 a 0,5%). Como controles de esterilidade foram utilizados Caldo Mueller-Hinton (MH, Difco®) e MH contendo extrato; e como controle de viabilidade e crescimento celular, bactéria inoculada em MH. Após 24 horas de incubação a 37°C, a CIM foi definida como a menor concentração de agente antimicrobiano que inibiu o crescimento bacteriano visível. Todos os ensaios foram realizados em triplicata, no mínimo em três ocasiões diferentes. Cepas bacterianas Todos ensaios de atividade antibacteriana foram realizados utilizando cepas bacterianas (patogênicas e não patogênicas) de referência, doadas pelo Instituto Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro, Brasil), e isolados bacterianos, provenientes de suínos, pertencentes à coleção do Laboratório de Bacteriologia Básica e Aplicada da Universidade Estadual de Londrina (Departamento de Microbiologia, Centro de Ciências Biológicas). Resultados O produto natural à base de tomilho, alfarroba e chicória demonstrou atividade antimicrobiana frente a C. perfringens, apresentando a CIM abaixo da dose de uso (0,1 a 0,2%) para as 12 cepas avaliadas, conforme apresentado na Tabela 1.


Informe Técnico Tabela 1 - Valores de Concentração Inibitória Mínima (CIM) do produto natural à base de tomilho, alfarroba e chicória frente aos isolados de Clostridium perfringens. Isolado

Produto Natural (mg/ml)

CP1

0.312 (0,031%)

CP2

0.312 (0,031%)

CP3

0.156 (0,015%)

CP4

0.156 (0,015%)

CP5

0.156 (0,015%)

CP6

0.156 (0,015%)

CP7

0.156 (0,015%)

CP8

0.156 (0,015%)

CP9

0.156 (0,015%)

CP10

0.312 (0,031%)

CP11

0.156 (0,015%)

CP12

0.312 (0,031%)

Conclusão Os resultados das Concentrações Inibitórias Mínimas do produto natural à base de tomilho, alfarroba e chicória demonstraram que este possui atividade antibacteriana contra as 12 cepas de Clostridium perfringens, apresentando-se como uma alternativa à redução do uso dos antimicrobianos químicos.

Bibliografia 1. BEER, J. Infecções e intoxicações por Clostridium perfringens. In: (Ed.). Doenças infecciosas dos animais domésticos. São Paulo: Ed. Roca, 1988. v.2, p.234-250. 2. BROOKS, G.F.; CARROLL, K.C.; BUTEL, J.S.; MORSE, S.A.; MIETZNER, T.A. Infecções Causadas por bactérias anaeróbicas. In: (Ed). Microbiologia Médica. 25.ed., Inc: The McGraw-Hill Companies, 2010a. Tradução: Porto Alegre: Artmed, 2012. Cap. 21, p. 171-172, 273-279. 3. NIILO, L. Clostridium perfringens in animal disease: a review of current knowledge. The Candian Veterinary Journal, v.21, p.141-148, 1980. 4. PENHA, M.D.L.; BALDASSI, L.; CORTEZ, A.; PIATTI, R.M.; RICHTZENHAIN, L.J. Detecção dos genes das toxinas alfa (α), beta (β) e épsilon (ε) em amostras de Clostridium perfringens isoladas de bovinos pela reação em cadeia da polimerase (PCR). Arquivo Instituto Biológico, v.72, n.3, p.277-281, 2005. 5. SMITH, L.D.S. Virulence factors of Clostridium perfringens. Reviews of Infectious Diseases, v.1, n.2, p.254-260, 1979. 6. SONGER, J. G. Clostridial Diseases of Animals. In: (Ed.). The Clostridia: Molecular Biology and Pathogenesis. Cap. 10, p.153-169. 1997 7. SONGER, J.G.; UZAL, F.A. Clostridial enteric infection in pig. Journal of Veterinary Diagnostic Investigation, v.17, p.528536, 2005. 8. VIEIRA, A.A.S.; GUEDES, R.M.C.; SALVARANI, F.M. SILVA, R.O.S.; ASSIS, R.A.; LOBATO, F.C.F. Genotipagem de Clostridium perfringens isolados de leitões diarreicos. Arquivo Instituto Biológico, v.75, n.4, p.513-516, 2008. 71

nº 61/2019 | Suínos&Cia


Divirta-se

Encontre as palavras A prática da medicina preventiva aplica-se para proteger populações e rebanhos de doenças infecciosas, as quais, quando presentes, trazem danos e perdas irreparáveis. No diagrama ao lado vamos encontrar as palavras que são frequentemente usadas neste contexto: BIOSSEGURIDADE BIOSSEGURANÇA EPIDEMIOLOGIA HOSPEDEIRO PROFILAXIA PORTADOR PATÓGENO PREVENÇÃO SAÚDE SUSCEPTÍVEL 72

A U F D K S P B E P C W B X M F C H C H P B F T Z T P V J U

Jogo dos 7 erros

Suínos&Cia | nº 61/2019

H H Z S M W K T X L V Q N H N P X N D B L V R G W R J U H Y

P R C U J A H V S J B P M V O S Z Y Y V I C E V A F U H G H

Y C G S N Q F C W U N O K R G S A G F C J X W F Q C N T T B

F E R C H Z S F T N M I T N T A P B S F N F T C S D B G F V

R X B E B W A G Z Y K A H M V Q S E W R B D V D E E I V V G

D Y M P G X Z K A B D J G K R W E F D D T E V X F X O F C T

C D T T V E C P Q O U U F J F P D T Q E F S H S R Z S C X R

S F J Í F P B L R T J P D L C O X R Z G I R B Z G I S D S F

Q G K V C I M O T C A K S P E I C D X H X R N A T J E X E C

H H O E D D J U R R P L A I D U F C R T S B O B H G G S R X

N L L L X E H G Y D S M Q O X Y R X V R U N K H V F U E F D

K P S A S M T R P X K N W Y S T T S Y E G H U N B D R W V E

L H A W Z I V D L Z H Y R U W R G E H W F Y N J N S A A B S

U N Q S A O R X I S M B T R Q E V W G D D J H M J A N Z H Z

N M U E P L G Z J E R G Y T A W B Q F H S U G K M Q Ç Q Y W

T O I D L O K W N W B V U W Z Q H A R N X M V L I E A X U P

V P P R O G L S Y A W T I R Y A Y Z T K V K C O O S E E A Q

X H R F K I P A B Q R C O Q H S U P V I I I D I L A R T N W

Z N B O I A O Q V F V R P E J D J L B G K L X U K Z Ó B M E

A K C G F L A U F B Z D L A M F N M N V M O S P P G P H K D

S L X Y U I R J E L C X K F N G M K O C J P E U E X O N I G

D F Z H H H L N S N V Z J S K H K I P X N L P N K F L J P H

G D A U Y F D A Z O H H H D U J I U L Z Y Q O T J V K M O J

J S L J G S W G X J K Q G H I K O J K A B A K F H U J U L U

K R A I T Q X T C I M S F G P R E V E N Ç Ã 0 T B N M I I Y

Y W J Ú F E Z V D R A T A L Y B K F R F T C H C N M N K K T

R Q H O D T Q F W T T R S J P N L T T E J D N R M K B P M R

E U G L D E O C A B I O S S E G U R I D A D E X V I H L N E

F P F P E O U D I F E V Z K G V U B I C G X Y E F L Y O J C


Divirta-se

Teste seus conhecimentos A profilaxia de doenças infecciosas em população de suínos, no contexto de saúde animal, seja na prevenção ou no controle, está sempre direcionada para determinada área geográfica, e o requisito fundamental para sua execução é o conhecimento da epidemiologia, neste caso, das doenças transmissíveis. Trata-se da ciência que estuda os mecanismos de transmissão de doenças em populações animais e as medidas de profilaxia que, para sua aplicação, é necessário conhecer o agente etiológico envolvido, o hospedeiro e o meio ambiente. Vamos testar seus conhecimentos sobre epidemiologia assinalando Verdadeiro (V) ou Falso (F) para as alternativas abaixo: ( ) Saúde Animal é o conjunto de medidas de profilaxia que tem por objetivo prevenir, controlar ou erradicar infecções ou doenças em populações animais de determinada área geográfica. (

(

(

) Medicina Veterinária Preventiva é o conjunto de medidas profiláticas que tem por objetivo prevenir, controlar ou eliminar infecções ou doenças aplicadas a um animal ou grupo de animais. ) Zoneamento/Regionalização é a aplicação de um programa de biosseguridade aplicada a uma determinada área geográfica (coletividade de granjas) para encorajar o uso eficiente de recursos. No sentido mais estrito, zoneamento é útil para um país que está enfrentando surtos de determinada doença, pois permite manter as exportações (OIE, 2018). ) Sem a epidemiologia não há base científica para a prática da saúde animal e, sem esta

prática, a epidemiologia torna-se uma ciência acadêmica sem significado (ROSEN, 1972). ( ) O foco da patologia é uma parte do animal (lesões macro e microscópicas, soro sanguíneo, fragmento de órgãos) cujo objetivo é estudar o caminho que um agente de doença percorre no organismo de um animal infectado ou doente. (

) O foco da epidemiologia é a população constituída por animais doentes, não doentes e o meio ambiente com seus diversos componentes, como clima, natureza do solo, tipos de exploração, vegetação, condições socioeconômicas, outras explorações animais e presença de animais silvestres.

(

) Um programa de controle de doenças deve ser bem delineado tanto do ponto de vista biológico (eficácia) como econômico (eficiência). Porém, o econômico, neste caso, apresenta pouca importância no contexto.

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Labirinto O inverno e as mudanças bruscas de temperaturas são cruciais ao leitão recém-nascido. Vamos ajudá-lo a encontrar sua área aquecida com temperatura adequada.

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Divirta-se

Encontre as palavras

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Jogo dos 7 erros

Teste seus conhecimentos ( V ) Saúde Animal é o conjunto de medidas de profilaxia que tem por objetivo prevenir, controlar ou erradicar infecções ou doenças em populações animais de determinada área geográfica. ( V ) Medicina Veterinária Preventiva é o conjunto de medidas profiláticas que tem por objetivo prevenir, controlar ou eliminar infecções ou doenças aplicadas a um animal ou grupo de animais. ( V ) Zoneamento/Regionalização é a aplicação de um programa de biosseguridade aplicada a uma determinada área geográfica (coletividade de granjas) para encorajar o uso eficiente de recursos. No sentido mais estrito, zoneamento é útil para um país que está enfrentando surtos de determinada doença, pois permite manter as exportações (OIE, 2018). ( V ) Sem a epidemiologia não há base científica para a prática da saúde animal e, sem esta prática, a epidemiologia torna-se uma ciência acadêmica sem significado (ROSEN, 1972). ( V ) O foco da patologia é uma parte do animal (lesões macro e microscópicas, soro sanguíneo, fragmento de órgãos) cujo objetivo é estudar o caminho que um agente de doença percorre no organismo de um animal infectado ou doente. ( V ) O foco da epidemiologia é a população constituída por animais doentes, não doentes e o meio ambiente com seus diversos componentes, como clima, natureza do solo, tipos de exploração, vegetação, condições socioeconômicas, outras explorações animais e presença de animais silvestres. ( F ) Um programa de controle de doenças deve ser bem delineado tanto do ponto de vista biológico (eficácia) como econômico (eficiência). Porém, o econômico, neste caso, apresenta pouca importância no contexto.

Labirinto

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