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Setembro de 2017

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Foto: Fernanda Tabacow

Cadê o muriqui que estava aqui?

CRBio-04 | Setembro de 2017 | Jornal do Biólogo 

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editorial

Quer sugerir, criticar ou elogiar? Fale com o Jornal do Biólogo: comunicacao@crbio04.gov.br

O que fazemos? O CRBio-04 sempre conviveu com críticas, por parte de alguns profissionais, de ser um órgão meramente arrecadador e que nada faz. Nós, conselheiros, que diariamente lidamos com as responsabilidades e desafios que a gestão do Conselho nos impõe, tínhamos consciência de que essas afirmações não tinham procedência, mas buscamos identificar onde, então, estava o ruído na comunicação. Se o trabalho estava – e continua – sendo feito, por que a percepção de certas pessoas é tão distinta? Pensando nessa e em outras questões a atual gestão do CRBio-04 vem buscando implementar e aperfeiçoar boas ações herdadas das gestões anteriores voltadas à transparência e à aproximação dos biólogos com o Conselho. Queremos não apenas mostrar o que o CRBio-04 faz, mas trazer cada vez mais profissionais para que nos ajudem a fazer, afinal, o interesse em defender a profissão é de todos. Todas as reuniões plenárias do CRBio-04, por exemplo, são abertas a qualquer biólogo que queira acompanhar as discussões. Todos os conselheiros, além, obviamente, dos funcionários, estão sempre à disposição para dialogar e prestar esclarecimentos. Foi assim, recentemente, com um conjunto de profissionais que se organizou por meio de um grupo no WhatsApp e esteve na sede do Conselho para me apresentar uma série de questionamentos. Sentamos, batemos um papo e, desde então, alguns desses biólogos têm se envolvido em reuniões da associação e do sindicato.

Nossos canais de comunicação, digitais e impressos, são outro importante instrumento deste processo. Não apenas para dar ciência do nosso trabalho, mas especialmente para abrir espaço para que os biólogos divulguem suas pesquisas, para que instituições de ensino e entidades divulguem seus cursos etc. Nesta edição do jornal, das seis reportagens, quatro são de biólogos que se “voluntariaram”, que entraram em contato com o Conselho – a partir de uma chamada que fizemos – e disseram: “gostaria de divulgar minha pesquisa”. Aí estão, ocupando um espaço de direito. Por meio do Programa de Apoio a Publicações e Eventos, em 2017 concedemos R$65 mil a 40 projetos. São cursos, seminários, cartilhas que não seriam viabilizados sem o apoio financeiro do Conselho ou que teriam que cobrar inscrições mais caras, restringir o número de participantes, imprimir menos exemplares. Enfim, estes são alguns poucos exemplos do que temos buscado fazer. Outras ações estão caminhando e estão por vir. Tudo apresentado de forma clara em nosso Planejamento Estratégico, disponível no Portal da Transparência do CRBio-04. Esperamos, assim, não apenas mudar a visão de parte do biólogos sobre o papel do Conselho, mas engajá-los em nossas lutas!

CRBio-04 Av. Amazonas, 298 - 15º andar Belo Horizonte - MG - 30180-001 | Telefone: (31) 3207-5000 www.crbio04.gov.br | crbio04@crbio04.gov.br

Diretoria Executiva Presidente: Tales Heliodoro Viana Vice-Presidente: Arlete Vieira da Silva Tesoureiro: Gladstone Corrêa de Araújo Secretário: Evandro Freitas Bouzada

Conselheiros Efetivos: Arlete Vieira da Silva, Bruce Amir Dacier Lobato de Almeida, Carlos Frederico Loiola, Edeltrudes Maria Valadares Calaça Câmara, Evandro Freitas Bouzada, Gladstone Corrêa de Araújo, Helena Lúcia Menezes Ferreira, Mariana Pires de Campos Telles, Renata Maria Strozi Alves Meira e Tales Heliodoro Viana Conselheiros Suplentes: Afonso Pelli, Aneliza de Almeida Miranda Melo, Elias Manna Teixeira, Emilson Miranda, João Gabriel Viana de Grázia, Juliana Ordones Rego, Laiane da Silva Santos, Meriele Cristina Costa Rodrigues Oliveira, Thiago Metzker, Wenderson Francisco de Almeida

Tales Heliodoro Viana Conselheiro Presidente

Jornal do Biólogo Ano XXI - Nº 71 | Setembro de 2017 Produção Editorial: Berlim Comunicação | www.berlimcomunicacao.com.br Jornalista Responsável: Vitor Moreira | Registro: 14055/MG Reportagens páginas 4-5; 7; 10-11: Maria Dulce Miranda | Registro: 20236/MG Projeto Gráfico: Rafael Chimicatti Impressão: 1.500 exemplares

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O que o CRBio-04 faz

Papo com Biólogo: conhecimento e interatividade Evento do CRBio-04 propõe o debate de temas pertinentes a profissionais e estudantes de Ciências Biológicas O Papo com Biólogo é um evento criado na atual gestão do CRBio-04 com o propósito de debater temas pertinentes a profissionais e estudantes de Ciências Biológicas, sempre com a presença de, ao menos, um especialista. Os objetivos são proporcionar um espaço de aprendizado e troca de ideias sobre assuntos que dizem respeito à vivência profissional dos biólogos e, também, aproximá-los do Conselho, reforçando uma premissa do presidente do órgão, Tales Heliodoro Viana. “O CRBio-04 é a casa dos biólogos”. A primeira edição foi promovida em março de 2016, apresentando o tema “Desastre Ambiental de Mariana: o papel dos biólogos na recuperação do Rio Doce”. A palestra foi ministrada pelo biólogo Ricardo Pinto Coelho, mestre em Ecologia, doutor em Limnologia e pós-doc pela Universidade de Montreal. Em um período recente pós-desastre, em que predominava a guerra de informações sobre os reais impactos do rompimento da Barragem de Fundão, Ricardo apresentou dados e informações oficiais dos principais órgãos ambientais do país e comprovou que a situação era muito pior do que a Samarco tentava transparecer.

De lá pra cá foram promovidos outros quatro encontros: “Repensando a gestão ambiental no Brasil e o importante papel do biólogo”, “Criatórios e Manejo de Fauna: desafios e oportunidades”, “Biólogos na Gestão e Controle da Qualidade de Alimentos e Bebidas” e, mais recentemente, “Atuação dos biólogos na área de licenciamento ambiental”. Esta última edição foi conduzida pelos conselheiros Bruce Amir e Thiago Metzker. Os palestrantes iniciaram a apresentação ressaltando a importância dos egressos do curso de Ciências Biológicas possuírem o registro profissional para a atuação e emissão das Anotações de Responsabilidade Técnica (ARTs), particularmente na área de licenciamento ambiental, em que é grande o sombreamento com outras profissões e os respaldos da legislação e do Conselho se fazem essenciais. A palestra seguiu com a apresentação das principais legislações - leis, resoluções e portarias - que regem a atuação do biólogo em meio ambiente e dos principais estudos ambientais de licenciamento e como os biólogos podem atuar em cada um.

Transmissão pela internet Desde sua primeira edição todas as palestras do Papo com Biólogo são gravadas e disponibilizadas na íntegra no canal do CRBio-04 no YouTube: youtube. com/CRBio04bio. Na última edição, entretanto, o evento trouxe uma novidade: atendendo a uma demanda dos próprios profissionais, especialmente daqueles que residem distantes de BH, o Papo teve transmissão simultânea pelo Facebook. Quem acompanhou pela internet pôde não apenas assistir à palestra, mas, também, interagir por meio de perguntas e comentários. A proposta é que todas as edições do Papo com Biólogo, de agora em diante, contem com a transmissão ao vivo. E se você tem alguma sugestão de tema que gostaria que fosse debatido no Papo com Biólogo, mande-nos um e-mail: comunicacao@crbio04.gov.br.

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microbiologia

Velho Chico: uma bactéria para chamar de sua Pesquisa busca identificar bioindicador para as águas do São Francisco Thiago explica que atuará com uma metodologia metagenômica, já utilizada com sucesso em estudos internacionais realizados em condições semelhantes. Após a coleta das amostras e filtragem em biomembrana, a água é congelada e levada à centrífuga para a extração do DNA de todas as bactérias presentes. O leitor metagenômico fornece a leitura do material genético de cada micro-organismo e, então, é feita a comparação dessas sequências com o conteúdo disponível em bancos de dados de genes disponíveis. “A partir desse trabalho conseguimos classificar as bactérias até chegar à espécie certa.” A análise metagenômica tem um vasto potencial nos estudos de bactérias. Isso porque a análise do DNA pode ser feita sem necessidade de culturas individuais e também porque supera a análise por características morfológicas. “A utilização da técnica metagenômica pode derrubar barreiras e auxiliar na revisão de diversos estudos que foram feitos anteriormente”, explica Thiago. Encontrando a bactéria certa para indicar a qualidade da água, os processos químicos que são utilizados hoje pelas agências de abastecimento podem ser substituídos por uma análise biológica mais precisa. “Uma água própria para consumo e outra que recebe resíduos industriais podem indicar, ambas, um pH 7, mas isso por si só

João Zinclar

Com quase 640 km² de área de escoamento e 2.700 km de extensão, o Rio São Francisco atravessa sete estados e 507 municípios brasileiros, sendo fonte de recursos para mais de 11 milhões de habitantes, seja no abastecimento, na indústria ou na agropecuária. Por seu caráter primordial, o Velho Chico virou tema de pesquisa de Mestrado do biólogo Thiago Augusto da Costa Silva, realizada no Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) – campus Bambuí, com orientação do professor doutor Gustavo Augusto Lacorte e participação do pesquisador Marcos de Paula Júnior. A proposta da pesquisa é identificar uma bactéria com propriedades bioindicadoras no leito do rio, que seja capaz de indicar se a água é própria para consumo humano ou não. Thiago explica que serão feitas coletas ao longo do curso do rio para se estabelecer uma comparação entre os micro-organismos presentes nos diferentes locais de análise, marcados por ações antrópicas distintas. “O rio São Francisco foi escolhido porque ele é o maior, corta vários estados e, ao longo de seu curso, possui áreas exclusivamente turísticas, agrícolas e industriais”, justifica. A primeira coleta será realizada na nascente do rio, no Parque Estadual da Serra da Canastra, em Minas Gerais. O grande desafio da pesquisa é exatamente encontrar o biondicador do São Francisco. Para isso,

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microbiologia

Os bioindicadores

não significa que as duas são de qualidade. Com o bioindicador, basta avaliar se a bactéria está presente. Representa uma economia de tempo e dinheiro para as análises de água”. Apesar de a pesquisa ter como foco o rio São Francisco, a descoberta do bioindicador pode servir de base para análises em outras bacias hidrográficas e até mesmo como possibilidade de reavaliação de áreas com águas consideradas impróprias para consumo. Com as coletas em fase inicial, a expectativa do biólogo é que os grupos bacterianos estejam definidos dentro do prazo de um ano.

Bioindicadores são espécies, grupos de espécies ou comunidades biológicas cuja presença, abundância ou condição são indicativos de uma determinada situação ambiental (Callisto & Gonçalves, 2002). Os bioindicadores refletem as consequências da ação humana ou de ou fator natural com potencial impactante. É uma ferramenta importante para avaliar a saúde de uma área, comparando uma área impactada e áreas de referência.

Qualidade das águas do Rio São Francisco O Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM) realiza, desde 1997, o monitoramento da qualidade das águas superficiais do estado por meio do Programa Águas de Minas. O trabalho é realizado com coletas trimestrais e a avaliação de 19 parâmetros, tais como alcalinidade total, cobre dissolvido, coliformes totais, cor verdadeira. Além deles, o programa também analisa cinco indicadores: Índice de Qualidade da Água, Contaminação por Tóxicos, Índice de Estado Trófico, Densidade de Cianobactérias e Ensaios de Ecotoxicidade, sendo que os dois últimos são realizados apenas em alguns pontos específicos com potencial de floração e propícios à toxicidade. Os gráficos abaixo apresentam os resultados de dois desses indicadores (IQA e CT) para a Bacia do São Francisco em 2015 e 2016. Os resultados completos podem ser encontrados no site: http://portalinfohidro.igam.mg.gov.br. Frequência de ocorrência dos resultados trimestrais do IQA 3,1%

Bom

3%

Médio

46%

Ruim

27%

38%

3%

Muito Ruim

48%

0,4%

2016

31%

2015

Excelente

Frequência de ocorrência dos resultados trimestrais de Contaminação por Tóxicos

2% 2%

Média

16%

Alta

97%

2016

8%

76%

2015

Baixa

Gráficos adaptados do Resumo Executivo “Qualidade das Águas Superficiais de Minas Gerais em 2016”

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artigo

Situação atual da biodiversidade brasileira André Roberto Melo Silva Biólogo, professor do Centro Universitário UNA e Faculdade FASEH

O Brasil abriga a maior biodiversidade do mundo, mas qual seria uma definição mais abrangente desse conceito? Biodiversidade não é apenas o número de espécies presentes em uma determinada área, parque, reserva, bioma ou país. Leva-se em consideração, também, a diversidade genética, de ambientes e ecossistemas, de relações ecológicas e, até mesmo, a diversidade de culturas humanas de um determinado local. Dos 12 biomas terrestres espalhados pelo mundo, quase a metade, cinco, possuem representantes no Brasil, sem contar os ecossistemas marinhos, de água doce e estuários. Além disso, a riqueza de seres vivos no país é uma das maiores do mundo, representando cerca de 10% das espécies do planeta. E aqui ainda existem milhares de espécies novas a serem encontradas, estudadas e descritas. Considere-se, ainda, o tamanho continental do país, a maior parte do território estar localizado na região tropical, outra parte considerável em uma região de clima temperado, o litoral extenso e a infinidade de rios. Tudo isso também contribui para essa biodiversidade. Por fim, os três grupos humanos do planeta confluíram para o Brasil. Os índios são descendentes de grupos de origem asiática, que provavelmente se dispersaram através do estreito de Bering, colonizando a América. Quatro milhões de negros aqui aportaram tristemente até o século XIX e imigrantes brancos de diversos países da Europa chegaram, fugindo de várias crises do velho continente, e muitos aqui se fixaram. E esse fluxo continua atual, com a chegada de imigrantes da China, Haiti e Síria, entre outros países. Essa inédita e inconcebível mistura que, porém, foi concebida nessas terras do pau brasil, trouxe influências culturais variadas, o que formou e forma essa belíssima e única cultura popular brasileira.

Entretanto, apesar da moderna legislação ambiental e dos esforços de órgãos ambientais e da sociedade, a biodiversidade brasileira está sendo impactada e destruída desde 1500. Várias são as ameaças, como caça, pesca e coletas ilegais, poluição, fragmentação de habitats, queimadas, mineração, introdução de espécies exóticas e novidades como os reservatórios de hidrelétricas e enxurradas de lama provenientes do rompimento de barragens. Porém, a principal ameaça continua sendo a primeira e mais antiga: o desmatamento. A Mata Atlântica já está com 90% da sua área desmatada ou alterada, o Cerrado com quase 50% e a Caatinga e Campos Sulinos sofrendo intensas pressões. A Amazônia e Pantanal são, felizmente, os ecossistemas brasileiros ainda bem preservados. Assim, o mais importante no momento é cuidar e manter o máximo do que restou, com o aumento da fiscalização, criação de novas unidades de conservação, fomento à pesquisa e ações que promovam o uso sustentável da biodiversidade e crescimento econômico compatível com sua conservação. Desse modo ainda é possível preservar parte desta inestimável e ainda desconhecida biodiversidade brasileira.

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inovação

Colhendo os frutos

Arquivo pessoal

Primeira patente da Unimontes permite coleta de folhas e frutos da macaúba

anos, quando o Núcleo de Propriedade Intelectual da Unimontes – Ágora – estava sendo implantado. No começo de 2017, a pesquisadora recebeu uma negativa do Instituto, com a justificativa de que já existia uma ferramenta semelhante. "O professor Dario Alves de Oliveira e a gestora em Ciência, Tecnologia e Inovação Dra. Roseli Aparecida Cardoso Vieira e Medeiros, do Ágora da Unimontes, me ajudaram na elaboração do recurso contra o indeferimento, solicitando ao INPI a revisão da decisão." Uma nova resposta, dessa vez positiva, veio recentemente, fazendo do coletor desenvolvido por Francine a primeira patente da Unimontes. Ainda não há prazo para que a ferramenta chegue ao mercado, mas a estimativa é que o preço inicial seja de R$ 50,00.

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Arquivo pessoal

Durante seu Mestrado na Universidade Estadual de Montes Claros, a bióloga Francine Souza Alves da Fonseca investigava os padrões de ataque de insetos em frutos da macaúba, planta tradicional do Cerrado, quando se viu diante de um problema. Por ser uma planta de grande porte, que atinge até 20 metros de altura, e com acúleos no tronco, a coleta dos frutos por escalada era inviável. A alternativa era trabalhar com os frutos que caiam, o que não satisfazia as necessidades da pesquisadora. “Na queda o epicarpo pode se romper e causar a oxidação da fruta, além do risco de invasão de micro-organismos”, explica. A solução, então, foi criar uma nova ferramenta. O projeto desenvolvido por Francine consiste em uma lâmina em forma de foice, com corte específico na lateral. “A foice permite que folhas e frutos sejam coletados sem causar danos à planta”, ressalta. O coletor ainda conta com uma haste montável de bambu com conexões de canos PVC, que é ajustável e presa por parafusos sextavados e aperto borboleta. “A ferramenta é feita de material resistente e possibilita trabalhar com árvores de até 12 metros. Os ajustes são seguros para quem vai manusear e também permite o transporte em carro de passeio, com montagem em campo”. O pedido de patente ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) foi feito há nove

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Mastofauna

Tecnologia a serviço da biodiversidade Dronequi é o novo aliado na preservação do muriqui-do-norte dos muriquis-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), também popularmente conhecidos como mono-carvoeiros, espécie endêmica da Mata Atlântica classificada como “criticamente em perigo” na Lista Vermelha da IUCN – último estágio antes de ser considerada extinta na natureza. A estimativa mais atual dá conta de 900 indivíduos em 12 populações, mas o biólogo afirma que há um grande risco desses números estarem superestimados. “Em função da febre amarela pode ter havido perdas que ainda desconhecemos. Em populações de bugios, por exemplo, há registros de diminuição de 80% no número de indivíduos. Considerando uma espécie tão ameaçada quanto o muriqui, perder dois indivíduos já causa grande impacto”, relata Fabiano.

Theo Anderson

Há até bem pouco tempo o termo era completamente estranho à maioria da população. Hoje é difícil encontrar alguém que nunca tenha visto ou não conheça um drone. E a depender dos avanços tecnológicos e das variadas aplicações que estão surgindo para os pequenos veículos aéreos, a tendência é que o equipamento passe a fazer, cada vez mais, parte do nosso dia a dia: já existem empresas utilizando drones em monitoramentos de segurança, levantamentos topográficos e até na entrega de pizzas. Foi exatamente observando a popularização dos drones que o biólogo Fabiano Rodrigues de Melo percebeu que a ferramenta também poderia ser útil em suas pesquisas de campo. Desde 1999, Fabiano desenvolve um trabalho de preservação

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MIB/Divulgação

Mastofauna

Translocações e manejo

Um dos desafios para a manutenção de números mais confiáveis é a dificuldade de contato por terra: a espécie habita as áreas de copa das árvores em regiões, muitas vezes, de mata muito densa e sem acesso. Fabiano conta que, em suas pesquisas, foram realizadas diversas experiências exitosas com sobrevôos de helicóptero. Na Serra do Brigadeiro, na Zona da Mata mineira, foram identificados quatro novos grupos de muriquis. O custo, porém, inviabiliza o uso recorrente do recurso. Foi diante de todo esse contexto, então, que surgiu o dronequi. Em parceria com a Fundação Biodiversitas e apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza a ONG Muriqui Instituto de Biodiversidade (MIB), da qual Fabiano é um dos fundadores, adquiriu um drone com duas câmeras de alta resolução de imagem e sensibilidade ao calor para realizar o monitoramente da espécie. O equipamento foi desenvolvido pela Storm Security, que também está responsável pela implementação de um software que auxiliará na busca e identificação dos indivíduos. Um primeiro teste, bem-sucedido, já foi realizado no Parque Estadual do Ibitipoca, onde atualmente são conhecidos apenas dois machos e uma fêmea, recentemente translocada para a região (leia mais no box). “Com a nova tecnologia conseguiremos dar um importante passo na melhoria de nossas perspectivas de busca de novos indivíduos. Se conseguirmos identificar cinco novos muriquis que ainda não eram conhecidos já será um grande avanço. Mas temos uma meta ousada de encontrar ao menos cinco novas populações, com 30 indivíduos”, detalha Fabiano.

Em janeiro deste ano a equipe do MIB realizou o resgate e translocação da Esmeralda, uma fêmea de muriqui-do-norte que se encontrava isolada em um pequeno fragmento de Mata Atlântica no município de Ferros, próximo de Itabira. Esmeralda foi levada para a Mata do Luna, uma área de floresta que pertence à Reserva do Ibitipoca e onde habitam dois machos da espécie. O resgate foi coordenado pela bióloga Fernanda P. Tabacow, diretora financeira do MIB. Além do apoio da Boticário, a ação teve um aporte financeiro significativo da Reserva do Ibitipoca, por meio de sua gestora de projetos, Brittany Berger. Várias instituições também apoiaram a iniciativa, como o IBAMA-MG, UFV, UFG e o IEF. Fabiano explica que, entre os muriquis, são as fêmeas que migram entre grupos. “A Esmeralda, por enquanto, está na periferia dos machos, mas eles já se encontraram. A expectativa, agora, é pela reprodução”, pontua. A ação de manejo faz parte das metas previstas no Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Muriquis, publicado em 2011. Se bem-sucedida – o biólogo diz aguardar a confirmação da gravidez para comemorar –, essa será a segunda translocação de sucesso de muriquis-do-norte. Em 2007 uma equipe multidisciplinar liderada pelo Centro de Estudos Ecológicos e Educação Ambiental e pelo IBAMA, com coordenação de Fabiano, conseguiu realizar a captura de uma fêmea isolada e translocá-la para a RPPN Mata do Sossego. De lá pra cá ela já teve quatro filhotes. O mais velho, um macho, provavelmente já é pai. Fabiano explica que são diversos os fatores que dificultam a manutenção e reprodução dos animais em cativeiro. “Os muriquis são de grande porte, levam de cinco a sete anos para chegar à idade fértil, têm gestação de sete meses e meio e um único filhote a cada três anos”. Ainda assim, o biólogo explica que a manejo de indivíduos em áreas de semicativeiro pode ser uma excelente oportunidade. “Existem quatro cativeiros com muriqui-do-sul hoje, no Brasil, com indivíduos que se reproduzem frequentemente. Temos todo o know-how para fazer com que isso ocorra também com o muriqui-do-norte.”

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meio ambiente

Economia ambiental e ecologia: o que há em comum? Tese de bióloga aponta dificuldades nas relações entre as duas áreas

Uma bióloga fazendo pesquisa no departamento de Economia? Essa foi a grande questão enfrentada pela doutora em Economia pela UnB Carolina Tavares da Silva Bernardo. Com graduação em Ciências Biológicas e mestrado em Ecologia, ela decidiu se dedicar a uma pesquisa interdisciplinar que unia sua área de origem à Economia. A tese “Economia Ambiental e Ecologia: A proximidade se limita ao prefixo?” investiga as semelhanças e as diferenças entre os dois campos de conhecimento. A maior semelhança entre a Economia Ambiental e a Ecologia é o fato de ambas serem sistemas complexos que buscam a preservação dos ecossistemas. Mas a conclusão de Carolina Bernardo é que existem mais diferenças do que similaridades entre as duas áreas. Isso porque as bases conceituais são distintas: “enquanto a Ecologia tem uma visão biocêntrica, a Economia é antropocêntrica”, explica. Ou seja, existe, sim, um diálogo entre a Economia e a Ecologia, mas repleto de ruídos que dificultam a comunicação. Um dos problemas é a

falta de entendimento dos conceitos dos ecólogos pelos economistas e vice-versa. Estudos de valoração, por exemplo, tem metodologia fundamentada em rigorosas teorias de raiz econômica. Segundo Carolina, porém, o método por vezes não é considerado quando os ecólogos realizam esse tipo de pesquisa. “O resultado é a publicação de artigos, que podem vir a servir de alicerce para políticas ambientais, baseados em fundamentos teóricos e empíricos equivocados, que podem desencadear mais degradação do que conservação.” Pelo outro lado, os economistas também fazem mau uso de conceitos ecológicos como estabilidade do ecossistema, resistência e resiliência. Em uma análise dos impactos da poluição de um ambiente na oferta de peixes, por exemplo, a má utilização dos conceitos pode levar à conclusão de que, em determinado intervalo de tempo, a diminuição de peixes é menor do que deveria ser. “É um prejuízo tanto ambiental quanto econômico.”

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meio ambiente

Escala temporal é maior diferença conceitual entre as áreas

Economia

30 anos

ecologia

Século

À procura do meio-termo O melhor caminho para se alcançar a excelência em gestão ambiental é um meio-termo entre os interesses da Economia Ambiental e os da Ecologia, o que poderia auxiliar, inclusive, na implantação de uma legislação ambiental mais eficaz. Na tese, Carolina lança um olhar para políticas como o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, o Código Florestal e o Projeto de Lei da Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais. A conclusão da bióloga é de que as leis ainda são fracas e repletas de incoerências entre si. Por outro lado, Carolina avalia que as mudanças previstas no Novo Código Florestal, sancionado em 2012, caminham para a junção de interesses econômicos e ecológicos. O primeiro Código, de 1965, era considerado muito rígido. A antiga lei previa, por exemplo, que na Amazônia os proprietários de terra deveriam destinar 80% da área como reserva legal e nenhum tipo de atividade econômica podia ser realizada nesse local. O mesmo acontecia com as áreas de preservação permanente ligadas à preservação de cursos d’água. O novo Código traz algumas modificações, como a permissão para exercer atividade econômica sustentável tanto nas áreas de preservação permanente quanto nas reservas legais. “A lei anterior era tão rígida que 90% dela não era cumprida. A atual legislação trouxe instrumentos para fazer com que os proprietários de terra cumpram a lei. Traz benefícios tanto privados quanto sociais”, conclui. Arquivo pessoal

Separadas pelo tempo

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#CRBIO04

Suas fotos no CRBio-04 Diariamente o CRBio-04 publica, em seu Instagram, fotos enviadas por biólogos e amantes da natureza. Envie a sua também, utilizando a hashtag #CRBio04. Ela pode ser a próxima a aparecer no Instagram, no site do Conselho e aqui neste espaço!

Ricardo Souza Dias

Murilo Vasconcelos

Fechamento Autorizado. Pode ser aberto pela ECT. Remetente: Conselho Regional de Biologia - ª Região Av. Amazonas,  - º andar Belo Horizonte - MG CEP: ­€‚-‚‚ƒ

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Impresso Especial „/‚‚† - DR/MG DEVOLUÇÃO GARANTIDA

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CORREIOS

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Fechamento autorizado. Pode ser aberto pela ECT.

Jornal do Biólogo 71 set/17  
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