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múltiplas funções e significados. O fato de se abordar uma melodia típica brasileira com materiais “não exclusivamente” nacionais já denota uma releitura, uma outra fala, uma voz não própria, a favor de um discurso próprio-autêntico. Ao separar as duas falas, ou dois sujeitos e sua interação estrutural, vozes explicitamente codificadas, entendo-os como signos ideológicos que também podem ser considerados, a princípio, como signos neutros, na medida em que podem cumprir função ideológica, servindo aos mais diferentes ideais e apresentando diferentes representações da realidade, que se transformam no processo dialógico comunicacional. Bakhtin salientou ainda a importância da comunicação na vida cotidiana, ao considerar que é nesta esfera que “a conversação e suas formas discursivas se situam” (BAKHTIN, 2006, p. 37). Os signos percebidos caracterizam o falar ideológico do compositor e sua inserção dentre os modernistas brasileiros da época. Villa-Lobos assegura que um elemento tradicional brasileiro dialogue com o elemento estrangeiro de “igual para igual”, situando, dessa maneira, o seu tempo e posicionamento sócio-artístico. Esses signos tornam-se o meio pelo qual o locutor interioriza a realidade na qual está inserido e, assim, transforma a realidade conforme a sua compreensão (consciência). A estruturação ouvida “[é] tecid[a] a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios” e que “ser[á] sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais” (BAKHTIN, 2006, p. 41). Cada um daqueles signos está, a sua maneira, transformado e pode ser considerado sinônimo de transformação social da cultura musical brasileira para o mundo. Essas considerações demonstraram como materiais musicais distintos, a princípio, podem conformar um discurso dialético pertinente ao seu tempo e atual como arte. Podem contribuir com a percepção de um Villa-Lobos como agente consciente do seu ofício, não agindo apenas guiado pela sua própria intuição, mas estudando e interagindo com seus contemporâneos estrangeiros, participando ativamente da formação de uma cultura musical brasileira-ocidental. Permite, também, uma compreensão do texto da música a partir do seu próprio texto, ao se denotar não uma influência, não um tom unicamente nacional na sua música, mas uma interação entre esses elementos, uma transformação e apropriação dos materiais utilizados, convergindo para a caracterização do discurso próprio e original de Villa-Lobos. Além de procurar, mesmo neste ensaio não desenvolvendo outros conceitos teóricos, compreender a interação da música brasileira com a música universal simplesmente como Música, que de fato é a característica da música ocidental (MENDES, 2007, p.127).

CONGRESO INTERNACIONAL DE PIANO - La música latinoamericana para piano

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Congreso Internacional de Piano  

Congreso Internacional de Piano "La música Latinoamericana para piano" 18 al 21 de Noviembre de 2010 Buenos Aires Argentina

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