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“LEITURAS

ESCRITAS”

por Sara Évora Ferreira & J. C. Jerónimo  

 


2º FESTIVAL INTERNACIONAL DE VÍDEO, PERFORMANCE E TECNOLOGIAS  

O InShadow parte da experiência que foram as quatro edições da mostra de vídeo-dança, Dança sem Sombra. Com o festival InShadow, a Vo’Arte e o São Luiz assumiram em 2009 um novo desafio indo mais longe na criação de um espaço para reflexão sobre o cruzamento das linguagens do corpo e da imagem com a performance e a tecnologia. InShadow sublinha a importância da interdisciplinaridade na criação contemporânea através da apresentação de espectáculos, competição internacional de vídeo, workshops, masterclasses e instalações/exposições. >>>

http://inshadowfestival.wordpress.com

…………………………………………………………………………………………… Programação Ana Rita Barata e Pedro Sena Nunes Organização Vo´Arte Co-produção SLTM ~ Vo´Arte

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INTRODUÇÃO Do tacto e do contacto da relação geram-se formas de criação! Por ocasião da 2ª edição do InShadow – Festival Internacional de Vídeo, Performance e Tecnologias, e a convite da Associação Vo’arte, Sara Évora Ferreira & J. C. Jerónimo, a dupla de criadores do projecto artístico VOLTE-FACE (http://www.volteface.conflitoestetico.com), forneceram em “leitura-escrita” pessoal e desvelada a partilha de visões e reflexões sobre este evento. Imprevisível e singular como o território mágico da atmosfera convergente.

Num dos maiores eventos transdisciplinares de arte contemporânea da actualidade, a dupla criativa fundadora da Conflito Estético – Associação Cultural (http://www.conflitoestetico.com/) acedeu pois a espraiar visões e reflexões para, em expansão de mão-coração, fornecer a sua escrita sobre o festival. Palcos-significados no correr da cortina que se abre ao sentimento-pensamento que se dá ao Outro no conjunto da alquimia relacional, nos espaços da criação transdisciplinar.

O registo desta produção literária encontra-se agora aqui disponível.


“LEITURAS ESCRITAS” por Sara Évora Ferreira & J. C. Jerónimo

// www.conflitoestetico.com


AS SOMBRAS QUE FALAM DAQUELA LUZ Sara Évora Ferreira & J. C. Jerónimo sobre “Shadowlands (Memory Wax)” || Festival InShadow, 07.12.2010

Num tempo em que as  sombras falam daquela  luz que  emana através do espaço das descobertas  –  seja  por  planície,  céu  ou  florestas  –,  este  é  o  espaço  intermédio,  ocupado  simultaneamente  e  num  mesmo tempo pela fantasia e pela realidade.    “Shadowlands” corporiza de forma diligente um palco que desagua no olhar encantado pelo sortilégio  do  trio  de  performers  em  azáfama  de  tropelias;  cruzando  e  entrecruzando‐se,  numa  demanda  espontânea de descobertas por territórios mágicos de sombras vivas.    As sombras voltam para brincar aos corpos, imitando os bichos, através do jogo das mãos, dispensando  pirilampos  pela  plateia,  conquistando  a  sua  agitação.  Corpo,  vídeo,  movimento  e  som  são  os  ingredientes  desta  alquimia  que  introduz  habilmente  os  mais  novos  ao  gesto  contemporâneo,  tão  receptivo  a  englobar  miríades  de  recursos  expressivos.  Ao  que  essas  jovens  gerações  em  formação  reagem com a adesão natural face às liberdades expressivas do movimento. Ver como os corações de  crianças  e  jovens  adolescentes  foram  abrigados  pela  surpresa  desterrada  com  este  espectáculo  para  eles voltado fez pensar no palco como um largo e forte portal de pequenos amores desabrochados em  mãos que se estendem para um abraço afortunado que todos eles tão bem apreenderam.    A viagem prossegue por territórios imaginários onde o prazer face à descoberta feita de espanto e de  surpresa  supera  o  medo  do  não  conhecido.  O  prazer  lúdico  de  descobrir,  através  da  superfície  das  imagens, os tesouros de dentro (que para lá delas residem) e a exuberância exterior que para além delas  se expande.    Num  diálogo  fluído  entre  o  corpo  real  e  o  virtual,  o  gesto  afirma‐se  e  dá‐se  a  conhecer  enquanto  expressão  de  sentimentos,  de  emoções  e  de  intenções.  O  movimento  testemunha  de  causas  e  consequências, transporta a ressonância do significado. Por via desse convite a ver, ouvir, sentir, fazer e  desfrutar,  momentos  há  em  que  se  transborda  na  euforia  do  faz‐de‐conta,  e  noutros,  o  apelo  à  introspecção e ao recolhimento, ao reconhecimento do eu através da intenção significante do outro.    O  roteiro  desta  viagem  conhece‐se  à  chegada.  O  mais  importante  é  esse  permanente  deslindar  partilhado,  com  generosidade  recíproca  e  o  genuíno  enamoramento  pela  criatividade  através  do  espanto. E ilimitados são os horizontes destes territórios onde a luz e sombra vêm para brincar.      


Shadowlands MEMORY WAX | SUÉCIA / SWEDEN  FICHA ARTÍSTICA / CAST  Coreografia / Choreography : Miguel Azcue & Johanna Jonasson (Memory Wax / La Macana) Intérpretes / Dancers : Alexix Fernandez, Caterina Varela, Miguel Azcue Música / Music : Yann Tiersen, René Aubry, Jon Brion Edição de Música / Music Design : Johannes Burström Desenho de Luz / Light Design : Imre Zsibrik

 

   

 


JOGO DE MÁSCARAS Sara Évora Ferreira & J. C. Jerónimo sobre “A espessura da visão” (Os Espacialistas) || Festival InShadow, 07.12.2010

Na cena contemporânea, a máquina e o artifício funcionam como uma espécie de arcabouço do qual a  arte pode emergir. A apropriação do espaço, o estabelecimento de novas veredas encerra em si mesmo  um  campo  de  possibilidades  mas,  simultaneamente,  o  peso  de  uma  responsabilidade  que  advém  da  busca  solícita  de  um  efectivo  acontecer  (ou  melhor  ainda,  de  um  fazer  acontecer).  Assim  sendo,  as  formulações  acerca  do  pensamento  estético  convivem  a  par  e  passo  com  o  desafio  de  encontrar  em  torno  da  manifestação,  um  qualquer  ponto  de  reflexão  sobre  a  linguagem  num  locus  de  discussão  possível, gerado entre as partes e intervenientes.    “A  grande  mala  de  espaços”  carregada  pelos  Espacialistas,  na  performance/instalação  que  nos  apresentam, decorre de ausências de objecto, desgarrando‐se de paradigmas artísticos que nos fazem  eventualmente apreciar a obra mais pela sua potencialidade do que pela sua representação. Eclipsando  por detrás das máscaras o significado que lhe é subtraído, antes convidando os participantes incautos à  “arena” onde serão alvo de silencioso escrutínio digitalmente fotoregistado.    Público‐alvo,  de  facto,  um  alvo  sob  a  mira  dos  disparos  obsessivos  dos  olhares  alheios,  anónimos  e  imperscrutáveis.  Plateia  alvejada  por  saraivadas  de  flashes,  distribuídos  indiscriminadamente  a  partir  do balcão, a coberto da “grande máscara”. Aturdido pela espessura ocular da espera pelo que não vem,  o  público,  ele  mesmo,  a  instalação  inadvertida  sob  o  pretexto  da  iniciação  ocultista  à  arquitectura  criativa quando de súbito a argamassa do desconforto sufocante transpira o bafejar claustrofóbico do  constrangimento inesperado e que impera contrariar.    No fundo do poço, um braço rompe a membrana, depois outro, interrogando a clausura do tempo que  não  passa,  sob  o  bombardeio  sonoro  de  estalidos  roufenhos,  num  revés  dos  próprios  postulados,  verborreicos  de  caracteres  num  preenchimento  de  espaço  de  uma  qualquer  folha  de  papel  branca  e  vazia.  Legando  à  audiência  o  olhar  em  volta  à  procura  de  respostas,  e  quedando‐o  repleto  de  uma  leveza de nada, zonza e derribada.     Ao  abraçar  esta  virtualidade  estabelece‐se  esta  imaterialidade  de  uma  síntese  pouco  luminosa  do  fenómeno  estético,  no  qual  o  objecto  não  mais  existe  senão  no  exacto  e  frívolo  instante  da  “interactividade” em tempo real, onde os leitores são os lidos. Lidos em obsessiva cópia retratada, no  decorrer  do  acto,  como  que  em  penitência  da  mediatização  do  sistema  produtivo  e  mercantil  das  sociedades em face da “carne” exposta ao degredo comunicacional.         


Os Espacialistas no Teatro  A ESPESSURA DA VISÃO | PORTUGAL FICHA ARTÍSTICA / CAST Os Espacialistas : Luís Maria Baptista, João Cerdeira, Diogo Castro Guimarães, e Sérgio Serol


A PRESENÇA QUE SE TORNA NO QUE É Sara Évora Ferreira & J. C. Jerónimo Sobre “Loop Me” (YiLab./Su Wen-Chi) || Festival InShadow, 08.12.2010

Vivemos num momento no qual os suportes tecnológicos encerram e definem isso mesmo: o momento. Constrói‐se e  desconstrói‐se um arquétipo que reconstrói os sistemas de sentido através do instante procriado em redes múltiplas,  independentes,  que  compõem  uma  trama  indecidível  de  significações  e  não  uma  estrutura  convencional  de  significados.  As  noções  de  espaço‐tempo  esboroam‐se  e  daqui  resulta  um  advento  potencial  que  emerge  das  possibilidades infindas características da linguagem.     Em “Loop Me” move‐se um ciclo que se repete do eu a si mesmo em presença e na ausência da duplicação, replicação e  imitação  do  próprio.  Exercício  ensimesmado  de  uma  rotina  programada  para  repetir  a  série  de  comandos  físicos  necessários até que sejam cumpridas as condições necessárias que (re)assegurem a integridade de um eu, debelada e  reatada circularmente.    O que nos apercebemos é do surgimento de inúmeras reflexões, nos diferentes campos da intervenção, que confluem e  oscilam entre o presente e o ausente, o físico e o virtual, o constante e o impermanente. Se relação existe neste domínio  é  a  do  sujeito  consigo  mesmo,  e  de  si  mesmo  com  a  máquina.  Surgem  dúvidas,  especulações,  interferências  e  influências  dessa  relação  “conectada”  nos  comportamentos,  nos  movimentos  que  são  capazes  de  espelhar  os  novos  rumos das linguagens humano‐computacioniais, em veículos de um “eu mediatizado”, dentro de um contexto que se  adensa num dilema egocêntrico ou tecnocêntrico.    Os retro‐actos alimentam o motor de explosão num teste de oposição ao fluxo do corpo abstracto e concreto, realizado  ao vivo sobre a coerência do circuito habitado do eu para verificar a resistência do seu condutor descarnado.    Há  um  diálogo  prévio  entre  o  corpo  e  a  máquina,  reflexo  de  si  mesmo  num  acordo  de  sentidos  à  flor  da  pele.  Construindo elos de auto‐contenção, de contemplação própria onde criador e criatura são conduzidos à esfera única do  pessoal mas transmissível nos papéis que se invertem em, no fim de contas, tentar descortinar quem comanda e quem é  comandado.    O corpo como matéria‐prima é em si mesmo um convite à criação. O fenómeno físico em confluência dissolvida com o  virtual,  em  pigmentos  de  luz  una,  causam  a  impressão  de  reciprocidade,  da  forma  que  se  repete  e  pela  qual  se  entrecruzam olhares e sensações pelo simples facto de a presença torná‐la o que é.    Orbitando o rigor de uma cadência hipnótica para revelar se a corrente gerada sob condições artificiais irá rebentar o  fusível para testar a integridade do sistema composto pelo binómio mente‐corpo, culminando num dilúvio digital cuja  reverberação impele a experiência visceral.    A trajectória elíptica do eu em torno de si mesmo expõe‐se na sua agudeza extrema, testemunho irreprimível cujo eco  ressoa na intimidade de cada qual; a lembrar‐nos dessa agitação do ser ou não ser total, uno e auto‐identificado, e cujas  raízes estão implantadas  bem no cerne do nosso tempo.    Fazer  poesia  com  os  gestos,  falar  com  as  atitudes,  permitir  o  auto‐aprisionamento  de  se  expandir,  tentar  juntar  as  partes dispersas do próprio ser. A metamorfose dos sentimentos que vão da quietude ao movimento e se transformam  de dentro para fora. Pelo gesto. 


Loop Me YiLab. / SU WEN-CHI | TAIWAN FICHA ARTÍSTICA / CAST

Conceito Artístico e Coreografia / Artistic Concept and Choreography : Su Wen-Chi Intérprete e Design de Palco / Dance and Stage Design : Su Wen-Chi Som / Sound : Chang Yung-Ta Imagem / Image : Yeh Ting-hao Desenho de Luz / Lighting Designer : Su Wen-Chi, Chen Yi-Chung Técnico de Luz / Lighting Executor : Liu Po-Hsin Design de Figurino / Costume Design : Arco Renz Administrador de Produção / Administrator Manager : Sun Ping Assistente de Administração / Administration Assistant : Chen Tzu-Yin Produção / Production : YiLab., Pampas Pro. Taiwan, Gu-Ling Street International Theatre Festival Parceiros / Supporting Partners : Kobalt Works / Arco RENZ, Belgium; Computer Sound Lab. TNUA, Taiwan; Center for Art and Technology, TNUA, Taiwan; Department of New Media Art, Taiwan Agradecimentos Especiais / Special Thanks : Klaus Ludwig, Anita Mathieu, i/o Lab. Taiwan


A BELEZA ATERRADORA DA INTIMIDADE Sara Évora Ferreira & J. C. Jerónimo sobre “Private Spaces” (Resistdance/Silke Z.) || Festival InShadow, 10.12.2010

Numa reciprocidade pela qual se entrelaçam olhares e sensações, os corpos ressoam, reverberam, na tentativa limite  de chegar a si. O próprio palco é feito tela e pigmento de indiferenciada comunhão, presentes no arcabouço pelo qual se  revela o grito. A performance toda ela uma composição que se oculta por detrás do momento de agonia reflectido nas  faces de dois mártires rumo ao seu destino: o corpo ausenta‐se, o bulício surge. Uma poética visual que se estrutura no  arranjo e no tempo em que o silêncio e o som promovem a descontinuidade de estímulos (inter)pessoais.     Num duelo pela reivindicação do espaço da própria existência, “Private Spaces” de um binómio, masculino e feminino,  que se repulsa e se atrai. Confrontam‐se e confrontam‐nos com a crueldade da exposição daquilo que está socialmente  restrito aos olhares intrusos. Paradoxalmente, o almejado contacto com o outro afigura‐se a real ameaça que impele a  resolver esse dilema quando se busca estreitar a proximidade e simultaneamente se sente a necessidade imperiosa de  conservar a distância.     A linguagem radica num jogo existente de proximidade, distância, controlo e o impulso criativo. Todos eles, um código  velado de acesso ao interior do aparato corporal, do aparelho emocional, os seus componentes e a língua “nativa” do  corpo  em  expressão.  Uma  existência  que  dificilmente  se  dá,  de  facto,  pelo  agir  limitador  dos  corpos  em  busca  destemperada de unificação. Sob o prisma de quatro paredes, o corpo, para além de matéria e instrumento, torna‐se  meio, espaço, condição – em condicionantes mútuas de resolução. É como uma combinação entre as penumbras e uma  vontade líquida de existir.     Intensamente dramático, no manifesto e no latente, o lugar da irrefutabilidade da ausência angustiante contrasta com a  proximidade  excessiva  que  ameaça  invadir  a  integridade,  corromper  e  devorar.  Num  derradeiro  impasse,  ser  reconhecido através do olhar de outrem e confirmar a própria existência através da sua voz, vale tanto ou nada como o  toque que se impõe e se esquiva. O espaço privado é um lugar vazio, povoado de desespero pela promessa da invasão  de um calor, tão apaziguador como potencialmente abrasivo.    Tudo o que se encobre soçobra afinal, expondo‐se à liturgia da nudez translúcida, e revela o interior venoso pulsante,  um árido bater de asas sobre o apertado mundo deserto povoado de olhares estranhos, de signos e sonhos de planetas  distantes, de pesadelos de colisões entre corpos celestes, luminosos, fascinantes e aterradores.    E juntos aqui nos achamos. Com eles, eles, em nós, sós, num ambiente, ar, temperatura, clímax, que a obra configura e  faz digladiar. Uma espécie de simulacro de tantos outros passíveis simulacros, no qual a relação se detém. Os sentidos  são  simulados  a  partir  de  “vitrais”  projectados,  construídos  a  partir  de  um  (outro)  mundo  digital.  Um  contexto  que  é  compartido,  partilhável  com  indivíduos,  todos  nós,  que  buscam  a  interacção  num  sistema  que  afinal  se  descobre  possível, mutável, adaptável, interactivo, num discurso pleno de alternativas a tantas convenções estabelecidas.     Dentro  deste  compartimento,  as  circunstâncias  são  discutidas  e  colocam  o  público  e  intérpretes  nos  vértices  do  questionamento.  Uns  e  outros,  afinal,  interpretadores  –  réplica  legítima  de  um  pergaminho  no  qual  se  reescreve  a  beleza aterradora da intimidade que evoca, provoca, suscita e deflagra movimentos que se declaram inseparáveis do  repertório comum ao ser(‐se) humano. 


Private Spaces (The P.S. Project)

SILKE Z. / RESISTDANCE | ALEMANHA / GERMANY FICHA ARTÍSTICA / CAST

Conceito Artístico / Artistic Concept : Silke Z. Coreografia / Choreography : Silke Z. Intérpretes / Dancers : Caroline Simon [B] & António Cabrita [PT] Realização / Film Directing : André Zimmermann Dramaturgia / Dramaturgy : Silke Z. & André Zimmermann Director Técnico / Technical Director : Niko Moddenborg Vídeo / Video : Jan Hanten & André Zimmermann Cenografia e Desenhos de Luz / Stage and Light Design : Ansgar Kluge Som / Sound : Christian Azadi & André Zimmermann Supervisão / Supervision : Rudi Kamminga (Grand Theatre Gronnigen [NL]) Produção / Production : Katja Steinbach Assistente de Produção / Production Assistance : Irena Vujicic Gestão / Management : Mechtild Tellmann


PESADELOS SELVAGENS DE MÁQUINAS ANCESTRAIS Sara Évora Ferreira & J. C. Jerónimo sobre “Metropolis Video Danza” (Carlos Dittborn Calejas/ Rosita Nillinsky) || Festival InShadow, 11.12.2010

Emergindo das entranhas de metal, moldados na revolução das rodas dentadas, peça a peça: braços, mãos  e  pernas,  desfilam  sobre  o  tapete  rolante  das  linhas  de  montagem,  vomitados  em  catadupa  imaculados  bem‐falantes do dialecto funcional como peças devolvidas à nascença à própria máquina que através delas  pode funcionar.      “Metropolis Video Danza” integra narrativamente som, imagem e movimento para nos dar uma perspectiva  sobre  a  sociedade  na  óptica  do  poder  enquanto  uma  escala  de  hierarquias  desumanizantes.  Nela  os  seus  agentes não são mais do que máquinas movidas pelo instinto de poder, até à deformação total da completa  dominação sobre os outrora seus semelhantes.     Os  seus  produtos  e  produtores  vão  saídos  das  linhas  de  montagem  com  os  seus  corpos  e  mentes  pré‐ fabricados, uniformizados e marchando sincopadamente ao ritmo da ordem estabelecida, sem outro desejo  interno para além do ordenado a partir do exterior: o desejo de aplacar o cio de apropriação materialista, e  de  esterilizar  qualquer  dos  demais  desejos  dissonantes  proibidos  que  sejam  marginais  a  esse  sistema.  O  corpo  e  a  mente  auto‐matizados  operam  em  circuito  fechado,  drenados  de  vontade  própria,  e  que  perpetuam  o  sistema  de  escravidão  onde  estão  encerrados,  produzindo  eles  também  outros  tantos  objectos, seres e comportamentos massificados.    Produção  em  massa  de  autómatos  pré‐formatados  de  espíritos  moldados  para  o  frenesim  da  competição  que lhes exige ser o mais forte, o mais influente, o mais corrupto e manipulador, o progressivamente mais  desumano mestre de marionetas que vai ascendendo na escalada dos degraus da grande pirâmide social até  pertencer ao grupo restrito dos que urdem a mecânica do globo no concílio das sombras. A voracidade da  dominação não encontra limites abatendo‐se sobre a Natureza e os Homens para privá‐los da sua expressão  essencial e forçá‐los ao artificialismo de leis corruptas sob a alçada de omnipresentes e omnipotentes vozes  de comando.    Neste  cenário  distópico,  as qualidades do  ser  humano são  as  primeiras a  definhar  fazendo de  “Metropolis  Video  Danza  um  testemunho  que  apresenta  uma  sucessão  alegórica  sobre  o  exercício  da  coação  física,  psicológica  e  espiritual  através  da  economia,  religião,  política  e  da  desinformação.  Trata‐se  de  um  ciclo  através  do  qual  se  abdicam  tanto  das  escolhas  como  do  próprio  corpo,  da  liberdade  de  ser  único;  mas  também da capacidade e da oportunidade de fruir com os outros, de ser e estar mais vivo. 


Metropolis Video Danza CARLOS DITTBORN CALLEJAS | CHILE | 30’  FICHA ARTÍSTICA | CAST Coreografia e Interpretação / Choreography and Interpretation: Colectivo de Danza Contemporanea Rosita Nillinsky Interpretação / Interpreters: Daniela Pizarro, Alejandra Maturana, Carolina Sánchez, Macarena Rubio Realização Audiovisual / Audiovisual Direction: Cinemadiccion Audivisual Production Realizador / Director: Carlos Dittborn Callejas Produção Geral / General Production: Raul Rodrigo Vanegas Direcção de Arte / Artistic Direction: Carmela Silva Música Original / Original Soundtrack: Pedro Santa Cruz Direcção de Fotografia e Câmara / Photography and Camera Direction: Alejandro Carrasco Câmara | Camera: Diego Pequeño Assistente de Direcção | Direction Assistant: Roberto Baeza Maquilhagem | Make-up: Loreto Díaz de Valdés


SOBRE & CONTACTOS  

 

A

Vo’arte

é uma associação cultural sem fins lucrativos que tem como principais objectivos a promoção e a

divulgação das artes, apoiar e produzir projectos artísticos multifacetados, e ainda fomentar o intercâmbio e a colaboração entre artistas, a formação e a investigação artística, tanto a nível nacional como internacional. >>>

http://www.voarte.com || voarte@voarte.com

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A

Conflito Estético – Associação Cultural é uma associação sem fins lucrativos, sedeada em Lisboa.

Cria, desenvolve e divulga projectos artísticos no campo das artes literárias, visuais, audiovisuais e de palco, em Portugal e nos países lusófonos. Tem como missão constituir-se como uma plataforma comunicante entre artistas, ideias, linguagens, visões, manifestações, ética e estética alicerçadas nos princípios da responsabilidade cultural. Tem-se afirmado na actualidade como um pólo criativo no panorama artístico e como um impulsionador de energias no circuito da arte contemporânea e de intervenção, com propostas pertinentes, inéditas e originais. Pretende contribuir para a criação do valor positivo da mudança social através da arte.

>>> http://www.conflitoestetico.com || info@conflitoestetico.com


“LEITURAS

ESCRITAS”

por Sara Évora Ferreira & J. C. Jerónimo  

 


"Leituras Escritas" por Sara Évora Ferreira & J. C. Jerónimo (InShadow 2010)  

A convite da Vo’arte, e no âmbito da 2ª edição do Festival InShadow, Sara Évora Ferreira & J. C. Jerónimo, a dupla de criadores do projecto...

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