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ENTREVISTA Bruno

Gonzalez

A Força da intenção Quando o senhor ouve a palavra Aikido, o que lhe vem imediatamente à mente?

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A palavra arte: liberdade dentro de uma estrutura. O aikidoka, tal como o artista, é um artesão num eterno caminhar buscando, sempre conscientizar sua prática, melhorar a compreensão dos princípios que a regem, para poder, assim, se aproximar de um ideal de comunicação: a atitude certa no momento certo.

O senhor se refere a algum sensei em particular? A Christian Tissier, pela ideia discutida anteriormente. Berthold Brecht dizia: «Quem não está disposto a estudar não deve ensinar, o professor deve ensinar a estudar». Em outras palavras, ensinamos melhor aquilo que foi objeto de nosso estudo: Christian Tissier é um pesquisador.

Especialista que desperta muita atenção pela qualidade dos estágios que preside, Bruno Gonzalez, 5º dan, membro do Colégio Técnico da FFAAA, nos explica a base de seus ensinamentos, tal como recebeu de seu mestre sensei, Christian Tissier.

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Sabe-se que o dojo é o lugar privilegiado para a prática do Aikido. O que deve o aluno trazer consigo ao entrar nesse espaço? Tudo depende, evidentemente, da conduta de cada um. Da maneira como vejo a formação, parece-me claro que o dojo é um lugar onde há exigências. Assim, empenho e perseverança parecem-me ser as primeiras qualidades que o aluno deve trazer. Saber escutar, confiar em seu professor (que escolhemos como nosso guia) são fatos primordiais, pois pode acontecer que não compreendamos o que nos foi ensinado; aliás, é possível que só o compreendamos realmente quando tivermos vivido uma experiência sensível, um know-how? Finalmente, o aluno tem uma grande responsabilidade em seu percurso a longo termo, deve permanecer ativo, ou seja, agir de tal forma que, através de suas experiências, seus questionamentos, possa redescobrir o ensinamento que recebeu: tornandose, por sua vez, um pesquisador.


Em outras palavras, refletir sobre sua prática para aplicar o que aprendeu. Não há nada de mais evidente do que exprimir tal enunciado, ao passo que, para colocá-lo em prática, já será bem menos evidente. Por vezes acontece de termos a sensação de descobrir (elucidar) uma técnica, um princípio pela primeira vez, ainda que nosso professor já o tenha demonstrando há dez anos Um célebre ator do Kabuki assim se expressou: «Posso ensinar-lhes o código gestual que significa “olhar a lua”, Posso lhes ensinar este movimento até mesma o do dedo apontado em direção ao céu, mas da ponta do dedo até a lua, será de sua total responsabilidade».

Quais referências ao fundador do Aikido, Morihei Ueshiba, deveríamos manter? «Uma escuta da tradição que não esteja a reboque do passado, mas que podera o presente». Heidegger.

A noção de respeito é muito forte no Aikido. De que forma devemos compreendê-la? Como ela se manifesta? O respeito é uma atitude de abertura, uma qualidade de escuta, aliás frequentemente prejudicada por nossos próprios temores, nossas próprias incertezas. O desafio de nosso trabalho é remover esses temores, para ganhar mais liberdade. Especificamente, trata-se de tentar, através da prática, comunicar-se para educar-se mutuamente. Neste sentido, a prática deve nos tornar cada vez mais respeitosos.

Qual é a razão desta ausência de competição reivindicada pelo Aikido? A competição é geralmente definida pela dualidade, tendo como resultado sua quota de efeitos viciosos, mas não nos esqueçamos de seus efeitos virtuosos. Primeiramente, em uma prática intensiva existem fases de aprendizagem durante as quais é preciso desenvolver seu corpo, sua determinação, sua confiança... tanto para o uke quanto para o tori (nossa futura potencialidade marcial, a credibilidade, a experiência...). Todos nós sabemos que existem relações de dualidade entre alunos nesses períodos. Na verdade tentamos, de certa forma, impor nossa prática com a ideia, de obter um determinado resultado. O que é inevitável, pois nosso estudo se apoia sobre situações de conflito. Num certo nível, em geral, rapidamente percebemos os limites tanto no plano físico quanto no próprio plano de uma nova perspectiva da prática, esta sendo regida, entre outros, por este princípio antropológico: o princípio de economia, da simplificação que faz com que o homem busque otimizar

O sucesso da técnica envolve a eliminação do supérfluo, do inútil.

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suas ações com um mínimo de esforço. Nós também temos mudanças de grau que consagram um percurso levando a um resultado: Ter ou não conquistado um grau. Trata-se de um prazo que serve para motivar uma preparação, muitas vezes frutífera, pois ela leva o aluno a abandonar sua atitude de tendência mimética, muitas vezes apropriada quando estamos fazendo um curso. Aliás, aí está, a meu ver, seu interesse primordial. (As mudanças de grau também respondem, evidentemente, à necessidade organizacional de um sistema federal...). Em síntese, as noções de dualidade, de resultado existem na prática. O essencial é ter realmente consciência, saber o que fazer para evitar os efeitos perversos (ego problemático...) que poderiam desnaturar nossa conduta. Parece-me, por exemplo, que a prática do Aikido é, antes de tudo, um processo em que a noção de resultado é ao mesmo tempo subjetiva e relativa. O importante é o processo, o caminhar e a responsabilidade que temos de continuar ativos (com grau ou sem grau). Não vejo atualmente em qual modalidade de competição o Aikido poderia estar, a não ser a realidade da prática que já conhecemos: servir nossas ambições. No entanto, uma introdução à prática competitiva (boxe etc.) pode contribuir para enriquecer nossa conduta como aikidoka; tudo depende do que fazemos dela.

De que forma o combate com a espada está presente na sua prática do Aikido? A prática com a espada é o espírito de decisão, da determinação, do controle: a intenção, ação em sua forma mais pura. Estudar o ken é desenvolver no outro essas qualidades. A meu ver, é o


ENTREVISTA Bruno

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que dá à prática do Aikido uma grande parte de sua potencialidade marcial e de comunicação (a sanção potencial e, pela mesma razão a clemência: o controle). Ou acabamos com a ação, ou essa credibilidade se torna um fator de comunicação, no sentido em que ela contém a natureza da resposta que o parceiro deveria adotar. Uke tem então a escolha de aceitar mais ou menos conscientemente a saída proposta. O trabalho consiste em desenvolver sistematicamente uma construção técnica (a forma), cheia de intenções (o fundo), que funciona qualquer que seja o nível de percepção de uke e para além dos códigos. No estudo, quanto mais o movimento se estende no tempo, mais ele requer comunicação. A dificuldade de uma boa comunicação é a de enviar uma intenção clara (perceptível), credível e estar eficientemente disponível para percebê-la.

O Aikido é um conjunto infinito de técnicas. Em sua opinião, quais são as fundamentais? Aquelas que o aluno deve praticar incansavelmente? Tudo é relativo; pode-se considerar que uma técnica, pelo menos sua abordagem, é fundamental a partir do momento em que ela for relevante no momento para seu progresso, qualquer que seja seu nível. Num primeiro momento, por exemplo, o trabalho de construção é fundamental; talvez seja menos indispensável quando já tiver sido «adquirido»... Com a experiência e o desaparecimento de certos medos, as pri-

oridades de uma ação mudam quantitativa e qualitativamente, liberando, assim, o espírito que não se cristaliza mais sobre esses medos. No entanto, como tudo é passível de ser melhorado — movimentos de estudo, construções ou aplicações — de certa maneira é o que fazemos com a técnica (nossa relação com a técnica) que é fundamental. É bem verdade que no início da aprendizagem, temos à nossa disposição uma ampla gama de técnicas abrindo-nos um largo campo de experimentação que envolve diferentes restrições para resolver... Entretanto, pode-se considerar que num certo nível, esse leque de escolhas se estreita, pois teremos cada vez menos priori-

dades a gerir durante a ação. Então, as respostas se simplificam, até que finalmente se aproximam umas das outras. Por exemplo, pode-se pensar em gerir o ataque yokomenuchi, shomenuchi, ou um atemi, da mesma forma que em certas ações (ikkyo etc). Em suma, o que fará com que uma técnica seja colocada em determinado nível como «mais fundamental» que outra é o número de princípios que serão desenvolvidos, reunidos, para executá-la.

O fundador do Aikido, Morihei Ueshiba, coloca o ki, a energia, no cerne do Aikido. Como é que devemos compreendrê-lo? Atualmente, tenho uma compreensão mo-destamente «científica». Em resumo, a energia resulta de forças opostas. Fala-se de qualidade da energia, de acordo com a intensidade das forças, das resistências, dos obstáculos que entram em jogo. O que coloca uma força em movimento em nossa prática é a intenção, uma ação do pensamento, como por exemplo: eu quero levantar meu braço. De forma simplificada e operacional, pode-se falar de intenção para energia. Existem fases de aprendizagem durante as quais devemos desenvolver energia. O halterofilista se quiser que seu corpo se transforme, deve desenvolver mais energia; portanto, desenvolver mais a intenção para levantar massas cada vez mais pesadas etc. É a via positiva (produção de experiência, acúmulo de técnicas, de potência; portanto de energia etc). Mais ou menos em paralelo, existe a via

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 A prática com a espada é o espírito de decisão, a determinação, o controle: a intenção, a ação em sua forma mais pura. A meu ver, é o que dá à prática do Aikido uma grande parte de seu

potencialidade marcial



A técnica deve ser conduzida de forma a absorver a energia do parceiro.

negativa (processo de eliminação, de simplificação), o princípio de economia que faz com que nós tendamos a utilizar o mínimo de energia para obter o melhor resultado. A ideia é assegurar que conflitos, prioridades de uma ação diminuam, que a situação que propomos ao uke seja aceita, para não provocar economia, tampouco amplificar tais

conflitos, ou até mesmo para neutra-lizá-los antes que sejam em parte concretizados. E é neste ponto que, a meu ver, a «dimensão filosófica» do ki, da energia, faz em parte sentido. Ouvimos frequentemente falar de harmonização das energias... Concretamente, trata-se de desenvolver, entre outras, capacidades de adaptação, de tal forma a assegurar que situações sejam criadas onde as intenções do uke e tori se oponham o menos possível, ou até mesmo nem um pouco. Comumente, fala-se em utilizar a força do parceiro (sua energia, portanto sua intenção) para executar seu movimento a fim de desenvolver em si mesmo um mínimo de energia, daí o princípio de «não-ação, de não-oposição». Em suma: a atitude certa no momento certo poderia traduzir-se finalmente por energia certa no momento certo. Atenção: pode ser tentador ao ensinarmos, buscar preencher algumas vezes, consciente ou in-

conscientemente, a falta de conhecimento por um discurso abstrato, «pseudomágico»: meu conselho é abster-se e aprofundar suas «habilidades». A abstração é um conceito relativo, em estreita relação com o nível de consciência de cada pessoa. Entretanto, de um ponto de vista teórico e pedagógico, devemos tentar fazer com que esses conceitos se tornem concretos, operacionais e fáceis de transmitir. A melhor maneira é justamente pela prática de nosso ofício.

Na realidade, o Aikido é um budo, um bujutsu, um esporte de combate? É uma jornada, um caminhar marcado por princípios em busca de um ideal de comunicação. Quem fala em caminhar, fala de erros, dúvidas, tentativas etc. Finalmente o Aikido é o que estamos fazendo no presente.

Em que o Aikido o ser humano ? Inicialmente

ele

pode modificar ..............

prepara

um

mate-

rial de qualidade; depois, tal como um escultor, remove o supérfluo. E. Decroux e P. Claudel diziam que: «As artes são semelhantes em seus princípios, mas não em suas obras», « O princípio da verdadeira arte é o de evitar rigorosamente o que é inútil».

O senhor é professor na França e no exterior. Que mensagem o senhor faz questão de transmitir ?

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A importância do rigor técnico: a consciência precisa da técnica e para qualquer que seja a forma. Como é que poderemos nos corrigir se não estivermos em grande parte conscientes daquilo que fazemos? Essa consciência promove, entre outros, o desenvolvimento da visão. As variações, as sutilezas que o professor mostra podem, assim, se tornar mais claras para nós. Nossas próprias experiências (variações) ganham, então, mais sentido, pois tornam-se conscientes; portanto, «ativas», e não fruto do acaso, «em geral». A seguir, muitas vezes, evoco a noção de comunicação da qual falei acima (disponibilidade intencional), para que os alunos abandonem uma prática por vezes um pouco «mecanizada» e/ou muito codificada, em que certa forma de passividade se instala facilmente. O código não deve ser substituído ou empobrecer a comunicação; deve, ao contrário, constituir uma plataforma permitindo desenvolver-se, enriquecer-se no presente. A situação marcial está longe de ser uma situação inócua; parece-me importante que não seja banalizada. Que fique bem claro, é a mim mesmo que, em primeiro lugar, dirijo essas mensagens. Entrevista feita por Albert Wrac’h

Akido Magazine, junho 2011(portugues)  

Conteúdo autorizado por Bruno Gonzales (Federação Francesa de Aikido, Aikibudo e Afins) Créditos: Entrevistador: Albert Wrac’h; Texto e Foto...

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