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REVISTA DIGITAL

CONECTADOS

NEWS ED.1

ARTIGO

REPORTAGENS Vidas negras importam e não acaba nos trend topics (PG.18)

Setor cultural reinventa-se para sobreviver ao mundo pós Covid-19 (PG. 04)

De corrida em corrida: os entregadores na pandemia (PG.26)

Bússola desconfigurada (PG.38)

RESENHA

O infame clube vitoriano das mulheres livres (PG.39)

COLUNA SC O entretenimento na construção de perspectivas reais (PG.49)


eXPEDIENTE eXPEDIENTE eXPEDIENTE ANA CLARA MARÇAL

Estudante de jornalismo, revisora e repórter

ANA CLARA MARCONDES

Estudante de jornalismo, revisora e repórter

FELIPE SOARES Estudante de jornalismo, repórter e diagramador

LUANA SOUZA Estudante de jornalismo, repórter e diretora do site

CONTATO COMERCIAL EMAIL: contato.conectadonews@gmail.com INSTAGRAM: @conectadosnews

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Conectados News reconhece o mundo como dinâmico, diverso e inconstante. Acreditamos no nascimento diário de novas histórias, acontecimentos e debates. Nosso objetivo é levar a notícia ao maior número de pessoas de uma forma descontraída, acessível, universal e igualitária. Acreditamos no jornalismo como ferramenta indispensável para o exercício da democracia. Temos consciência que através do nosso trabalho não apenas informamos, mas auxiliamos a formar muitas opiniões. Por isso, prezamos pela sinceridade e honestidade. Sabemos que imparcialidade é utopia. Tomamos como dever oferecer ao nosso leitor um repertório diverso de debates para dar-lhe autonomia crítica quanto a suas opiniões. Convidamos você, que de alguma maneira chegou até a gente, a exercer um papel além do de consumidor. Cremos na força da colaboração para nos impulsionar como humanidade. Conectados não apenas no nome. Mas na prática. Por isso, estamos de braços abertos a suas sugestões. Se fazemos jornalismo com tanto amor é porque queremos que vocês se sintam abraçados a cada reportagem que produzimos. A Conectados News é, também, sua casa! Sejam bem vindos!


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SUMARIO REPORTAGENS

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Setor cultural reinventa-se para sobreviver ao mundo pós Covid-19 Corrida contra o tempo em busca da vacina para a Covid-19 Educação na pandemia Saúde mental na pandemia Vidas negras importam e não acabam nos trend topics Quem ama não mata De corrida em corrida: os entregadores na pandemia A Covid-19 intensificou um novo sintoma no mercado de trabalho: o da adaptabilidade A música em tempos de quarentena

ARTIGOS E RESENHAS

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Bússola desconfigurada O infame clube vitoriano das mulheres livres Crime e castigo 1984

COLUNA SUA CARA

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2020 o ano promissor para o Pop O entretenimento na construção de perspectivas reais O poder feminino é a ‘Coisa mais Linda’ Cultura pop em outra patamar, este é ‘Black is King’


Setor cultural reinventa-se para sobreviver ao mundo pós Covid-19 Com o isolamento social, muitos produtores culturais tiveram suas apresentações suspensas por tempo indeterminado e cada um vem se adaptando como pode por Ana Clara Marçal e Luana Souza

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Desde o dia 11 de março, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS), decretou pandemia global do novo coronavírus, a vida como conhecíamos foi ficando distante. A fim de tentar conter o inimigo global, que só no Brasil já fez cerca de 23 mil vítimas fatais (até o dia da produção dessa reportagem), os governos adotaram medidas de isolamento social. Comércio, igrejas, escolas, universidades e outros estabelecimentos tiveram que encerrar o expediente, por tempo indeterminado. Os cidadãos, por sua vez, precisaram atravessar a porta de suas casas sem saber quando o caminho contrário seria permitido. Na vida pós coronavírus, ficar longe de quem se ama é manifestação

de amor. ACALENTADORES Enquanto as janelas são as novas portas para o exterior e o abraço ainda é dado sobre uma tela, cada um tem buscado aconchego onde pode. Livros, músicas, filmes e séries mostraram-se remédios poderosos durante essa quarentena. Eduardo Sahão, 28, músico e integrante da banda Sr. Bonifácio, explica o papel que a música vem desempenhando nesse momento: “A música, atualmente, está sendo um grande alento nessa fase de isolamento social. Ela acaba sendo uma companhia para as pessoas. E, ao mesmo tempo que ela tem a função de divertir, ela tem, também, a função de ser uma reflexão, de alegrar e fazer a gente pensar”. O músico ainda ressalta o reconhecimento que os artistas

vêm ganhando. Músicos, escritores, cineastas, atores e outros produtores culturais estão tendo seus trabalhos cada vez mais consumidos. Ainda assim, o sustento da grande parcela deles é incerto. No dia 22 de abril desse ano, os artistas, assim como os técnicos em espetáculos, foram incluídos no recebimento do auxílio emergencial de 600 reais, criado pelo governo, a fim de tentar fornecer uma proteção financeira durante o enfrentamento da pandemia. Camila Taari, 38, é professora de técnica vocal, canto popular, teatro musical e vocalista do grupo Aruandê. Ela ressalta a preocupação com o sustento da classe artística, principalmente os locais: “As pessoas estão se suprindo muito da arte, da cultura. Mas percebo que esses artistas estão sendo meio que deixados na mão. Não consi-


EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020 go ver como eles vão se manter daqui para a frente, quanto tempo vai durar esse isolamento, como eles vão conseguir sobreviver. Muita gente vive só do trabalho artístico.” Na mesma situação, encontra-se Tiago Marques, conhecido como Palhaço Ritalino. Tiago é artista circense londrinense e formado em Artes Cênicas pela

Universidade Estadual de Londrina (UEL). Desde o primeiro dia da quarentena, a preocupação financeira também o acompanha. Diante da situação, os profissionais da arte se manifestaram pedindo ajuda aos parlamentares na aprovação do Projeto de Lei 1075/2020, que prevê ações emergenciais para

a cultura. A ajuda é fundamental para dar continuidade a vida dos artistas, assim como seus trabalhos. Até o término dessa reportagem, o PL está sendo encaminhado para o Senado Federal. O cenário atual é de incertezas. E, em meio a essa tempestade, cada um vem se reinventando, a fim de buscar seu lugar ao sol.

RISO COMO REMÉDIO

Ritalino na apresentação do espetáculo “Melhor show do mundo...na minha opinião” | Foto: reprodução

Adaptação. O Palhaço Ritalino teve que se reinventar para garantir o contato com seu público e buscar alternativas para seu trabalho. Nesse período de isolamento social, ele criou o quadro Quarentena Talk Show, para dar vazão à criatividade e trazer leveza perante as notícias que surgem a cada dia sobre o novo coronavírus. “A minha tentati-

va com o programa é brincar com o fato de que estamos de quarentena. Mas busco trazer leveza para que as pessoas possam rir um pouco diante de tantas informações sobre a Covid-19”, ele explica. Apesar da interação com o público ser diferente da presencial, uma vez que não há a possibilidade de sentir o feedback da plateia, Tiago se

preocupa com o roteiro de seus vídeos e se suas piadas serão engraçadas. Para isso, ele as testas com a esposa, que participa do quadro em alguns momentos. “Ela ajuda na produção comigo e faz a contrarregragem. Se eu preciso de uma bandeja, água, café, que é entregue ao apresentador, é o bracinho dela que entra”, comentou.

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REPOrTAGEm

EXPANSÃO DAS LIVES

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O cenário musical pós COVID-19 sofreu uma inversão de cenários. Se antes os fãs iam até estádios, teatros e parques para ouvirem sua banda favorita, agora é ela que entra na casa de cada um. As lives cresceram como uma alternativa enquanto os shows ‘presenciais’ tiveram de ser suspensos. A rotina da Camila também mudou. Suas aulas passaram a serem feitas online e todas as apresentações musicais e cênicas tiveram que ser canceladas. “Eu estava com alguns projetos aprovados para esse ano. Com tudo isso, vai ser adiado e ficar para frente. Inclusive a gravação de um disco”, afirmou. Nas lives, ela encontrou uma alternativa para continuar o contato com seu público e rever os amigos, mesmo que através de uma tela. Através do instagram do grupo (@aruandeoficial), três lives já foram feitas. Cada uma contou com a presença de um convidado especial para falar sobre cultura popular e música. Camila ainda comenta que, para artistas locais, tornar as lives uma atividade rentável não é tarefa fácil. “Não fazemos pelo financeiro, não ganhamos nada com isso. É um horário que tiramos do nosso dia, da nossa semana, que, ás vezes, a gente deixa de fazer uma atividade remunerada. Mas é

Camila cantando em uma apresentação do Grupo Aruandê, na Festa Barbada, no Bar Valentino, dia 24 março 2019 | Foto: Allan Puzzy

porque achamos necessário se encontrar, manter o público atualizado, sabendo o que estamos fazendo, propondo”. As transmissões ao vivo também fazem parte da nova realidade da banda Senhor Bonifácio. No dia 23 de abril eles fizeram a primeira live profissional, com equipe técnica e patrocinadores. Eduardo Sahão, baixista e tecladista da banda, conta que não foi tarefa fácil. Eles já haviam feito uma live mais simples, acústica, apenas com a câmera ligada. A do dia 23 revelou-se, segundo a banda, trabalhosa. “Foi uma das primeiras vezes que ficamos

nervosos para subir no palco”, brinca Eduardo. 11 mil pessoas acessaram a transmissão, mostrando uma boa recepção do público. Eduardo ainda conta que tiveram uma arrecadação de 118%. Uma quantidade do dinheiro foi destinada ao Lar Anália Franco, além de ser usada para os custos da transmissão e oferecer um pouco mais de oxigênio a equipe. A próxima live está marcada para essa quinta feira (28), às 20h, no canal do Youtube da banda. Uma parte do dinheiro arrecadado será destinada ao Asilo São Vicente de Paulo.


EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020 LAÇOS ESTREITADOS Em momento temporário de confinamento, os consumidores apertam, cada vez mais, seu laço com a música. Para muitas pessoas, o show ser em casa não impede que se vistam como se fossem sair, como comentou Ana Júlia Oliveira, 21. Ela é estudante e sempre teve uma relação muito próxima com a música. Em quarentena, reflete sobre esse consumo: “Depois do coronavírus, o mundo e as coisas não serão mais os mesmos. Os consumidores serão transformados. As lives são alternativas legais, justamente nesse meio de isolamento que vivemos hoje, para termos um sentimento de companhia, um programa para fazer. Vi até algumas pessoas se arrumando para vê-las”. Ter pelo menos três ingressos comprados de shows que foram cancelados não impediu Tais Piazetin, 31, de aproveitar as sensações que a música desencadeia. Tais é professora e, devido a pandemia, está trabalhando na modalidade home office. Sua relação com a música sempre foi de proximidade. Ela também canta e toca violão, dentre outros instrumentos. As transmissões, logo, mostram-se como uma boa alternativa: “Já que você não pode ir no show, você vê as lives. O gostoso, também, é que eles (músicos) estão mais soltos, conversam mais, falam sobre suas vidas e brincam”. A rentabilidade dessa nova alternativa é, ainda, um campo a ser explorado. Ela comenta

Integrantes da banda Senhor Bonifácio, da esquerda para a direita, Renan Muliterno, Marcelo Celligoi, Eduardo Sahão e Vitor Delallo ; Foto: Fábio Alcover

que, para os artistas com carreira já consolidada, mais ‘famosos’, essa pode sim ser um caminho, pincipalmente por meio dos patrocínios e doações. No outro lado da moeda, os artistas locais e aqueles que cantam em bares, casamentos e formaturas terão que explorar novos territórios virtuais. “Eles deverão procurar novas alternativas. Por exemplo, dar aulas online ou montar um canal. Seriam meios gradativos, demorados para dar retorno, ainda assim. Pelo menos, por enquanto, vai ser complicado”. NOVO NORMAL O novo coronavírus instaurou uma nova realidade. As mudanças estão acontecendo em todos os setores e em todos os lugares do mundo. O setor cultural vem se reinventando na busca de novas alternativas de existência. Sendo assim, o apoio a essas iniciativas tornou-se essencial. Se o consumo aumentou, a relação também deve tender a maior fraternidade. O retorno, mesmo

que virtual, vem ajudando os artistas a renovarem seus galões de oxigênio. O fim do isolamento social é uma incógnita, assim como o futuro pós-pandemia. Alguns artistas vêm adotando o chapéu virtual, que nada mais é do que a compra de um “ingresso”, através de um valor simbólico. Quem tiver interesse em colaborar pode fazer uma doação, no valor que desejar, na conta disponibilizada por eles através de suas redes sociais. SERVIÇO – A Conectados News apoia as iniciativas independentes dos grupos locais. Para conferir o trabalho das fontes que participaram desta reportagem, seguem os links abaixo. Palhaço Ritalino – produção no canal do Youtube e no Instagram (@palhaco.ritalino). Grupo Aruandê - instagram (@aruandeoficial) Senhor Bonifácio – instagram, facebook e Youtube (@ senhorbonifacio)

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REPORTAGEM

Corrida contra o tempo em busca da vacina para a Covid-19 Com o número crescente de casos e mortes pelo coronavírus, pesquisadores correm contra o tempo para encontrar uma vacina eficaz Ana Clara Marcondes e Felipe Soares

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por sua vez, permanecem no organismo e evitam que a doença ocorra no futuro, por meio da A vacina é conhecida pela memória imunológica, chamada humanidade há mais ou menos de imunidade. 200 anos. Considerada uma das A Covid-19 acentuou a desimaiores conquistas da história, gualdade presente entre países é o meio mais seguro de pre- desenvolvidos e subdesenvolvivenção das doenças infectocon- dos, entre aqueles que podem tagiosas, uma vez que, atual- recorrer a um hospital e aqueles mente, é mais fácil prevenir uma que não tem condições de comdoença do que trata-la. prar uma máscara. Entretanto, Elas são os resultados de pes- na corrida por uma “cura”, esquisas intensivas e constituem tamos todos no zero. Nenhum os mais modernos e sofisticados país ou pesquisador tem o que imunobiológicos. Com grande mais precisamos no momento: parte de uma comunidade prote- uma vacina e tratamento eficaz. gida, menor é a chance de con- O que predomina é o desejo de tágio. Se esse número chegar a encontrar algo que altere o de100%, as chances da erradica- senrolar da pandemia. ção são quase que completas. A Enquanto não pudermos confunção das vacinas é estimular o ter o vírus, a vida como conhecorpo na produção de anticorpos cemos não consegue se reestacontra os microrganismos, seja belecer. Por isso, um tratamento um vírus ou uma bactéria. Quan- ou vacina é sinônimo de espedo uma pessoa é vacinada, seu rança para muitas pessoas. O corpo detecta a substância da medo de ficar doente ou perder vacina e produz uma defesa, alguém que ama prevalece. Enchamada de anticorpos. Esses, tretanto, não podemos deixar de

considerar os ganhos inimagináveis que aguardam as empresas que conseguirem uma vacina ou medicamento. De acordo com especialistas, o prazo mais curto para testar um produto é de 12 a 18 meses. O desenvolvimento da vacina contra a caxumba demorou 4 anos, sendo o mais rápido registrado na história. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, informou para os senadores americanos que “vai levar pelo menos um ano e meio para ter uma vacina que possamos usar” contra o novo coronavírus. Muitos tratamentos que estão sendo pesquisados para a Covid-19 são a partir de medicamentos já conhecidos. Desde o reconhecimento de uma substância propícia até o licenciamento de uma nova medicação leva-se em torno de 10 a 15 anos. A fim de encurtar o tempo, muitos pesquisadores estão tentando utilizar fármacos já licenciados para tratamento de outras doenças. Em relação às vacinas, o processo pode ser mais trabalhoso. Pois, para se provar sua eficá-


EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020 cia, ela deve ser administrada no local onde a doença está acontecendo. É preciso esperar por um período indefinido de tempo para verificar se as pessoas que estavam expostas à doença ficaram protegidas. Difere-se de ensaios clínicos para medicamentos, os quais são realizados em ambulatórios ou hospitais, em pessoas já diagnosticadas com a doença. MÉTODOS UTILIZADOS NA PRODUÇÃO DE VACINAS Um dos métodos de produzir vacinas é enfraquecendo ou atenuando o microrganismo, que continua vivo. Exemplo de vacinas desenvolvidas a partir desse método são as de sarampo, caxumba e tuberculose. Outro processo pode ser feito utilizando o patógeno morto, por meio do calor ou substâncias químicas. As vacinas contra a pólio, hepatite A e B são exemplos em que foram removidas as partes do vírus que causam a doença. São vacinas com menos risco de efeitos colaterais, entretanto, é necessária mais de uma dose, visto que apresentam uma resposta imunológica mais leve. Um novo método que está sendo estudado é baseado em nucleotídeos. Os pesquisadores trabalham com a configuração genética do patógeno para produzir proteínas que são administradas como vacina. Então, as células humanas reconhecem esse código genético e começam a produzir as mesmas proteínas, que serão combatidas pelo sistema imunológico. As fases para se obter uma vacina - O chamado “padrão-ouro” são as evidências necessárias

para obter a aprovação de um medicamento. O estudo mais confiável é o ensaio clínico, no qual é acompanhado o comportamento da vacina no corpo humano de forma detalhada. A fase 1 tem como objetivo avaliar a segurança da vacina. Para isso, poucas dezenas de voluntários saudáveis recebem a dose. O processo demora cerca de 3 meses. Se a vacina for considerada segura, segue-se para a fase 2. Na fase 2, o objetivo é avaliar como o sistema imunológico responde se for infectado pela doença e se produz anticorpos. Por isso, as doses são, preferencialmente, administradas em áreas com surtos da doença e

em centenas de pessoas, levando em torno de 6 a 8 meses. Se não houver nenhum problema, parte-se para a fase 3, na qual o estudo é testado em milhares de pessoas, em um período de 6 a 8 meses. Até o momento da produção dessa reportagem, a Universidade Oxford, no Reino Unido, entrou nesta semana em sua fase três de testes clínicos. O processo é considerado um dos mais avançados e promissores, entre todas as pesquisas. A Fase 4 é para identificar se ocorrerá problemas a longo prazo, tanto em segurança, quanto em eficácia. Uma agência regulatória é responsável por revisar os dados e decidir se a vacina

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REPORTAGEM

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será liberada ou não. As agências responsáveis por esse processo podem requerer outros estudos depois da aprovação e autorização da comercialização de um medicamento. Entre as principais agências de licenciamento estão a Food and Drug Administration, dos Estados Unidos, a Central Drugs Standard Control Organization, da Índia, a National Medical Products Administration, da China e a Agência Europeia de Medicamentos. Tempo X segurança - O maior desafio, de acordo com a Dra. Julie L. Gerberding, vice-presidente executiva da Merck nos Estados Unidos, em entrevista concedida a Maryn Mckenna, para o curso “Jornalismo na pandemia: Cobertura da Covid-19 agora e no futuro” é equilibrar a

capacidade da vacina de oferecer uma proteção rápida e, ao mesmo tempo, ter a certeza de que não gerará danos futuros às pessoas. A segurança só consegue ser comprovada com o tempo, pois outros efeitos colaterais podem aparecer depois e, para isso, é preciso acompanhar um grande número de pessoas vacinadas. Uma das formas de acelerar esse processo são os chamados “teste de desafio” ou “infecções humanas controladas”, onde as pessoas são expostas a doença, a fim de infectá-las intencionalmente. É preciso que os participantes tenham consentimento total e a aprovação de autoridade e especialistas em ética médica. Entretanto, há um enorme debate acerca do assunto e, por

muitos, é considerado algo extremo. FABRICAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO Mesmo com uma vacina produzida em tempo recorde, outros desafios surgem no caminho. Dentre eles, a infraestrutura necessária para a produção, a disponibilidade de matérias-primas, patentes, a distribuição adotada e outros. Um fator preocupante é que as indústrias buscaram reduzir os estoques nas últimas décadas. Muitas delas trabalham com países fornecedores de matérias-primas de baixo custo. No cenário atual, esses países podem optar por restringir a exportação, com o objetivo de manter os produtos para uso interno. Mesmo com o aumento de


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produção, a demanda será muito alta por um tratamento contra a Covid-19, o que fará com que os suprimentos iniciais acabem rapidamente. É algo que o mundo todo precisa e as doses não ficariam prontas para todos ao mesmo tempo. Diante disso, é importante definir quem terá prioridade para receber a vacina. Por enquanto, muitos países estão trabalhando juntos. Mas, e se uma vacina for desenvolvida? Continuaremos todos juntos ou cada país vai lutar por si mesmo? É preciso estabelecer como será a escala de produção para ter uma dimensão de quanto tempo levará para produzir a quantidade de doses necessárias para o mundo todo. Assim sendo, é importante que cientistas e governos trabalhem juntos

para impulsionar o tratamento mais eficaz, visto que há um enorme risco de perder tempo e dinheiro em algo que não traga resultados positivos. Bill Gates, em uma entrevista ao “The Daily Show”, publicada no YouTube em 7 de abril deste ano, anunciou que a Fundação Bill e Melinda Gates construirá fábricas para diferentes vacinas, ainda em fase de testes. Ao todo, serão sete fábricas, mesmo que haja a probabilidade de usar menos da metade. O intuito é reduzir o tempo que seria necessário no futuro. Esperança por tratamento aumenta as notícias falsas - Muitos estudos sobre a Covid-19 estão sendo compartilhados em sites e redes sociais, não em revistas médicas, que trabalham

com um rigoroso processo de revisão de estudos científicos. Isso implica na falta de revisão, avaliando quão confiável e bem feito é o estudo, e gerando diversas reações nos leitores. Desse modo, é importante verificar se o que está sendo publicado é de fato verdadeiro, antes de compartilhar. Alguns aspectos podem ser questionados, a fim de realizar essa verificação. Por exemplo: qual foi o número de participantes e como eles foram escolhidos? Havia um grupo de controle? Ocorreram efeitos secundários? Algum participante morreu? Os objetivos do estudo foram cumpridos? Os participantes que receberam o medicamento teriam melhorado, mesmo se não os recebessem?

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REPORTAGEM

Educação na pandemia No cenário pós-covid, marcado pela dinamicidade, adaptações e apostas tecnológicas, a educação vem enfrentando desafios cada vez maiores Ana Clara Marçal, Ana Clara Marcondes e Luana Souza

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No dia 11 de março deste ano, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou estado de pandemia global do novo coronavírus. Desde então, o cenário tem sido de hospitais lotados e escolas vazias e fechadas. Todos os 26 estados, mais o Distrito Federal, suspenderam as aulas presenciais. O acesso à educação – de maneira universal e com qualidade – sempre foi um desafio no Brasil, país de proporções continentais e múltiplas realidades. A Covid-19, por sua vez, intensificou a transformação digital em todas as áreas. Na educação, esse processo vem acentuando, ainda mais, os desafios do oferecimento de um ensino igualitário. Acesso à internet. Computador. Celular. Ambiente doméstico tranquilo e com um mínimo de conforto para estudar. Esses são artigos essenciais para a educação à distância. Mas, para grande parte das famílias brasileiras, são artigos de luxo. Muitas crianças recebiam- talvez a única- refeição do dia nas escolas, como

aponta a professora Dra. Cassiana Magalhães: “Será que a gente pode dizer que aquelas crianças que têm um lanchinho, uma casa aconchegante, pais saudáveis, pessoas para acompanhar o seu processo de aprendizagem, vão ter o mesmo desenvolvimento, as mesmas condições do que aquelas crianças que não têm todo esse apoio?”. Em um contexto em que muitos estudantes se viram forçados a ajudar a complementar a renda familiar, pensar nos estudos é tarefa árdua. A busca por condições básicas de vida, como uma alimentação de qualidade, luz, água entre outros, tem saltado na frente da educação; desencadeando o abandono dos estudos e o trancamento de matrículas, por exemplo. É o que discute a pedagoga, mestre em Educação e professora colaboradora da Universidade Estadual de Londrina, Juliana Bicalho: “Um dos grandes impactos desta pandemia, no âmbito da Educação, foi mostrar à sociedade brasileira que não tem como afirmar que todos têm as mesmas condições de aprendizagem em uma sociedade na qual o ‘pon-

to de largada’ e o próprio ‘caminhar’ em direção ao objetivo são completamente diferentes entre os estudantes de classes sociais diversas. A Educação deve continuar sendo de acesso universal e, tão importante quanto, precisamos de políticas que garantam que este estudante consiga dedicar-se aos estudos com o devido tempo – e condições – necessárias à aprendizagem efetiva.” TRABALHO DE COLABORAÇÃO Em tempos incertos e em constante mudanças, a capacidade de adaptação torna-se imprescindível. Esse processo, no entanto, exige a colaboração entre sociedade e Estado. Adaptar-se não é fácil quando a vida carece dos recursos básicos, até mesmo para o equilíbrio da saúde física e mental. Enquanto as mudanças da Covid-19 se estendem por tempo indeterminado, a promoção de aulas à distância tem sido utilizada na tentativa de dar continuidade aos calendários escolares e acadêmicos de milhões de estudantes.


EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020 Os desafios são inúmeros externo, corporal, da imagi- boa história, cantar algumas e vão além dos computadores nação. Portanto, não se deve músicas, encontrar sua ture acesso à internet. Juliana expô-las a uma tela de compu- ma. Mas o que temos pedido Bicalho aponta a importância, tador por tempo prolongado, para evitar são aulas virtuais. primeiramente, do Estado É completamente difenesse processo: “O Estado “Cada escola vai encontrar a melhor rente você ter uma turforma. Você pode fazer alguma precisa chegar até aqueles ma de adultos, adolesque não possuem internet, atividade pelo vídeo, contar uma boa centes assistindo aulas, computador e o mínimo de história, cantar algumas músicas, estrutura física. Caso con- encontrar sua turma. Mas o que temos o que já é difícil. Agora, trário, estaremos negligen- pedido para evitar são aulas virtuais”. imagine colocar crianças de 3, 4 anos? O que ciando um dos princípios mais importantes da Educação segundo recomendações da isso tem de sentido para uma brasileira estabelecido pela própria OMS. criança tão pequena? Temos LDBEN 9394/96: o da igualdaCassiana Magalhães é dou- nos questionado sobre isso.” de de condições para o acesEla ainda comenta sobre a tora em educação e especiaso e permanência na escola. lista em educação infantil e necessidade do suporte e traPensado e feito isso, podemos balho de equipe entre as escocomeçar a pensar em outras destaca, nesse contexto, que “temos defendido a manuten- las e as famílias para enfrentar coisas”. ção do vínculo. Cada escola esses tempos: “Estamos tenEDUCAÇÃO INFANTIL Conciliar a infância e a edu- vai encontrar a melhor forma. tando acolher as famílias, no cação escolar das crianças não Você pode fazer alguma ativi- sentido de parceria, mas não tem sido tarefa simples. Com o dade pelo vídeo, contar uma no de assumir a educação a Ilustração: Canva isolamento social, ir ao parque brincar com os amigos, sair na rua para jogar bola ou fazer guerra de balão d’água com a turma são atividades suspensas, pelo menos por enquanto. Preservar e manter essa infância, com a restrição do perímetro de suas casas, tem se mostrado complexo. Ao mesmo tempo em que as crianças, a partir dos 4 anos, precisam já estarem nas escolas, elas também precisam explorar esse ambiente

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REPORTAGEM Ilustração: Canva

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distância para a educação infantil, até para não corrermos riscos de que isso se torne uma realidade num futuro próximo.” ROTINAS MODIFICADAS Com dez anos de profissão, a professora de ensino público da rede municipal, Maria José de Souza, 38, teve que se adaptar a uma nova realidade. Para ela, um dos maiores obstáculos foi encontrar uma maneira de abordar as aulas de educação física para que tanto as crianças quanto os pais entendessem, já que eles auxiliariam os filhos nas atividades. Esse envolvimento da família com as atividades escolares, segundo a professora, fez com que os pais acompanhassem mais de perto a rotina de suas crianças. “As famílias interagiram mais com o ensino, estão acompanhando de perto o aprendizado das crianças,

além de acompanhar, também, o trabalho do professor”. A professora destaca que um dos pontos negativos em relação à adoção do trabalho remoto foi a ansiedade. “Por ser tudo novo, fiquei doente no primeiro mês. Eu não dormia direito e com isso alterou o meu emocional, atacou a minha ansiedade, voltou a enxaqueca muito forte e a síndrome do intestino irritado”. Além de outros fatores, como conciliar o trabalho com os afazeres em casa e acompanhar as atividades escolares dos dois filhos. Maria José procura facilitar a explicação das atividades que ela desenvolve para seus alunos, além de oferecer seu suporte: “Tenho procurado fazer vídeos para eles identificarem que estou acompanhando, mesmo de forma remota. Às vezes eles me mandam áudio

dizendo que estão com saudades da escola, dos amigos, dos professores e, neste momento, eu tento confortá-los transmitindo uma mensagem positiva”. Essa mudança na rotina, devido à Covid-19, fez com que a estudante mudasse alguns critérios em relação à aula virtual, desde a comunicação com os professores até o ensino de algumas matérias, que, como ela destaca, melhoraram: “Entre os pontos positivos nas aulas EAD, estão, por exemplo, o fato de ter as aulas gravadas pelos professores, dando a possibilidade de rever novamente alguma aula, caso apareça alguma dúvida com relação à matéria. Outro fator é o deslocamento até a faculdade, porque eu acabo perdendo tempo no trajeto tendo que pegar dois ônibus e, com


EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020 aulas online, eu posso utilizar esse tempo estudando mais ou descansando”. Com essa demanda online, os trabalhos aumentaram, o que Gabriela acredita ser pelo fato de os professores estarem se adaptando a essa nova forma de dar aula e, de certa maneira, quererem suprir os conteúdos que os alunos não terão presencialmente. Enquanto isso, ela destaca que segue aprendendo a parte teórica dessas matérias, sendo as práticas retomadas no retorno das aulas presenciais. Com essa nova realidade, adotada há três meses, a estudante de arquitetura e urbanismo, assim como a de medicina veterinária, Isabely, sente falta de alguns recursos que a faculdade oferece, como a biblioteca e outros materiais. Apesar de destacar alguns pontos positivos e sentir uma melhora na comunicação com os professores, agora que todos encontraram um caminho de adaptação para as plataformas de aula online, ela sente falta das aulas presenciais. IMPULSIONADORES Seja a distância, seja presencial, a educação e, principalmente, o professor é basilar para qualquer sociedade. Sua capacidade de impulsionar seus alunos (sejam crianças, jovens, adultos ou idosos) profissional e pessoalmente são os antídotos para o combate dos problemas que assolam o país. O reconhecimento de sua importância, no entanto, nem sempre é destacado. Se há

um lado positivo a ser extraído desses tempos de pandemia, para Cassiana Magalhães e Juliana Bicalho, é a maior valorização dos professores. “Ensinar não é para qualquer um e, infelizmente, vivíamos um momento em que as políticas educacionais estavam cada vez mais flexibilizando aquilo que entendemos por ‘ser professor’, com o avanço da compreensão equivocada de que ‘quem possui notório saber, está apto a ensinar. O processo de ensinar e aprender não se restringe ao conteúdo, existe uma série de elementos não visíveis que ocorrem concomitantemente à mediação do conteúdo por parte do professor. Entre ‘o que ensinar’ e o ‘aprender do estu-

dante’ existe uma lacuna que é preenchida por metodologias, métodos, objetivos e instrumentos que tornam possíveis a aprendizagem efetiva”, conclui Juliana Bicalho. Já a especialista em educação infantil, Cassiana Magalhães, explica que “não é fácil ensinar uma criança tão pequena, e eu acho que esse momento da pandemia tem mostrado isso para as famílias: que não é fácil ensinar, não é qualquer pessoa que ensina. Não basta gostar de crianças para ensinar, é preciso aprender, na licenciatura, no curso de pedagogia como ensinar as crianças tão pequenas.” Ilustração: Canva

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REPORTAGEM

Saúde mental na pandemia

A Covid-19 ataca as células humanas, os bolsos, as relações sociais, políticas e, cada vez mais, a saúde emocional da população Ana Clara Marçal e Felipe Soares

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Um estudo feito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) mostrou um aumento de 80% nas ocorrências de ansiedade e estresse entre as 1.460 pessoas, de 23 estados diferentes, que responderam a um questionário entre os períodos de 20 a 25 de março e 15 a 20 de abril. Já os casos de depressão quase dobraram nesses períodos, indo de 4,2% para 8,0%. Desde o início da pandemia, a vida como se conhecia mudou. A incerteza tornou-se a protagonista assim como a constante sensação de ameaça à vida. Junto, vêm sentimentos como ansiedade, depressão, angústia, medo, insegurança e pânico, como explica a psiquiatra e docente do Departamento de Clínica Médica da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Adna de Moura Fereli Reis: “O nível de ansiedade da humanidade aumentou, isso é fato. A sensação de insegurança é muito grande. Não sabemos o que vai acontecer. E essa sensação de não controle sobre as coisas é algo muito ruim. Na verdade, nunca controlamos nada, mas achávamos que controlávamos. Acho que a pandemia trouxe isso muito descaradamente.” A doutora em Ciências da Saúde, especialista em Saúde

Pública e Enfermagem Psiquiátrica e também Coordenadora do Curso de Pós-Graduação Lato sensu em Saúde Mental na UEL, Regina Rezende, também discorre sobre as diversas mudanças que estão surgindo. “As mudanças nas rotinas ocorreram, é fato. Como é a percepção de cada um com as mudanças é a importância. Muitos podem estar se adaptando a elas com criatividade, se reinventando. Outros podem estar em sofrimento pela sua percepção e vivência deste momento. Observamos que as estratégias do autocuidado e autoconhecimento podem auxiliar nas adaptação das mudanças deste período.” Frente ao turbilhão de informações e desinformações que chegam diariamente aos olhos, é difícil manter-se inerte, indiferente. A saúde mental, neste contexto, também mudou. Sentimentos que antes pareciam distantes, para alguns, hoje são recorrentes, como, por exemplo, o estresse. A Profª Dra. Regina Rezende explica que ele é “um desequilíbrio do corpo e mente gerado por estressores durante nosso dia a dia.”. Ela destaca, ainda, que é “importante evitar comportamentos que provocam um falso bem estar, como o abuso na alimentação, uso de álcool entre outras substâncias.” É preciso, assim, atenção para detectar quando esses sen-

timentos extrapolam a linha da ‘normalidade’ e tornam-se transtornos. “A gente tem que olhar o quanto isso tem influenciado no cotidiano. Porque todos nós estamos mais angustiados. Mas isso tem causado sofrimento ao ponto de você não conseguir fazer as suas atividades diárias? Ou não conseguir produzir? Está com raciocínio e sono prejudicados? Nesses casos, vale a pena uma avaliação tanto psicológica quanto psiquiátrica. A gente considera um transtorno quando começa a haver prejuízo de funcionamento desse paciente”, esclarece a Dra. Adna Fereli. DICAS PARA MANTER A SAÚDE MENTAL DURANTE ESSES TEMPOS Quando o novo imperativo é a incerteza, a saúde mental pode parecer cada vez mais desamparada e longe do equilíbrio. Acompanhada a esse cenário, está a necessidade de adaptação, que pode mostrar-se outro processo desgastante, tanto física quanto mentalmente. Pensando nisso, nós, da equipe do Conectados News, conversamos com a psiquiatra Adna Fereli sobre seis dicas que podem ajudar na gestão de nossa saúde mental. 1. Desacelere O ócio pode ser uma ótima oportunidade de autoconhecimento e criatividade. Experimente fazer ‘nada’ por alguns minutos do seu dia.


EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020 2. Cuide do sono Sono de qualidade é fundamental! Evite exposição a telas até 2 horas antes de deitar; evite ingerir bebidas com cafeína a noite, como refrigerantes e café e deixe o ambiente de dormir aconchegante e silencioso. 3. Tente trabalhar com a mente para estar no aqui e no agora Pare e, por alguns segundos, preste atenção apenas na sua respiração. Se os pensamentos divagarem, retorne sua atenção para a respiração. Isso pode ser muito relaxante. 4. Diminua o tempo exposto(a) a informações Escolha uma fonte de informações e faça isso uma vez ao dia. Excesso de informações podem gerar ansiedade e angústia. 5. Diminua o tempo em redes sociais Quanto tempo você tem gastado nessas redes? Troque parte desse tempo por um livro ou pela dica 1. Vale a pena desconectar-se! 6. Faça exercícios, se possível, ao ar livre Exercícios fazem bem ao corpo e à mente. Permita-se passar alguns minutos do seu dia (2030 min) realizando caminhadas, yoga ou outra atividade física. Mas lembre-se de usar máscara! APRENDIZADOS Querendo ou não, o mundo parou por alguns instantes. E, no processo de volta, percebe-se diferenças. A retomada do seu movimento vem acontecendo de maneira gradual e com a certeza de que as coisas não serão como eram. O impacto gerado pela Covid-19 vem apresentando-se como oportunidade para desaceleração. Organização. Homem e Natureza vem renascendo e

redescobrindo a nova existência no mundo pós-covid. É tempo de (re)aprender. Como um dos grandes aprendizados dessa pandemia, a Dra. Adna Fereli destaca “a questão de estar consigo mesmo. Nós temos muita dificuldade no desacelerar e no estar só. Entendemos estar só como solidão. E não é necessariamente isso. Pode ser solitude. Eu posso gostar dessa minha companhia. Estamos tendo a oportunidade de estar conosco como na vida inteira não tivemos. Esse processo de isolamento pode

trazer grandes reflexões e descobertas sobre si mesmo.” Estamos enfrentado situações antes inimagináveis. Corpo e mente sentem novas e velhas sensações. Manter-se consciente do impacto que esses sentimentos geram no dia a dia é fundamental. Perceber qualquer afetação ou incapacidade de realizar as tarefas do cotidiano pode ser o momento de pedir ajuda. Estar em isolamento social não implica passar por todas essa mudanças só. Compartilhe seus sentimentos com amigos, familiares e, se necessário, com profissionais.

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Vidas negras importam e não acabam nos trend topics A educação mostra-se, desde sempre, como o caminho para alcançar a igualdade e reafirmar os direitos da humanidade por Ana Clara Marcondes, versidade Estadual de Londrina Felipe Soares e (UEL), as violências decorrentes Luana Souza do racismo impactam, principalmente, na vida dos jovens. “Tal As incontáveis mortes acomeviolência impacta estudantes netidas pela violência policial contra gros e negras tanto no que se reà comunidade negra ganharam fere às desigualdades, em níveis voz, nas últimas semanas, e leestruturais, quanto às individualivaram os assuntos do genocídio, dades e subjetividades”. da desigualdade, do preconceito Panta ainda esclareceu que e da discriminação aos trend topi“apesar dos importantes avanços cs nas redes sociais. O Brasil, por alcançados com a implementação questões históricas, faz parte dos de políticas de combate ao racispaíses onde o racismo faz muitas mo e a discriminação racial, é nevítimas e acentua as desigualda- cessário desenvolver estratégias des raciais existentes. de enfrentamento do racismo pauEm decorrência da morte de tadas no conhecimento plural, que George Floyd, nos Estados Uni- valorizem tanto os princípios da dos, o mundo prestou solidarie- igualdade, quanto o direito às didade aos negros americanos e ferenças, sendo capazes de desde outros países, como o Brasil. construírem estereótipos racistas As mobilizações que aconteceram historicamente enraizados na esrecentemente, atravessando fron- trutura societária brasileira”. teiras e continentes, explodiram COLETIVO LUIZA MAHIN com uma força nunca vista antes, E UMA EDUCAÇÃO mesmo diante de uma pandemia ANTIRRACISTA causada pela Covid-19. No entanÉ a partir da educação que as to, o combate ao racismo vai mui- ações antirracistas ganham intento além quando o tema chega aos sidade e atingem todas as dimentrend topics e, também, com as sões de uma sociedade, uma vez mobilizações em massa. que faz parte dos processos das A violência contra à comunida- relações sociais construídas ao de negra, indígena, entre outras longo da formação do indivíduo. etnias, evidenciam a grande vul- Desta forma, é necessário entennerabilidade desses povos, prin- der os possíveis caminhos para cipalmente dos jovens. Segundo formar e educar o indivíduo para Mariana Panta, doutora em Ciên- as relações étnico-raciais. cias Sociais e pesquisadora colaO direito à educação para os boradora do Núcleo de Estudos negros foi negado até meados dos Afro-Brasileiros (NEAB) da Uni- anos oitenta. Com a construção

da Constituição Cidadã, houve, na época, atividades, debates e mobilização das organizações negras a fim de incluir no capítulo sobre educação ações visando o combate ao racismo. A partir da promulgação da Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que alterou a Lei nº 9.394/96, firmavam-se novas diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro Brasileira”. Para Maria de Fátima Beraldo, professora e gestora do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (CMPIR) de Londrina, o caminho para a transformação de uma sociedade que tem o racismo como base só é possível por meio da educação. “É preciso investir em uma educação centrada na diversidade e na pluralidade racial, pela qual o Brasil é atravessado, para vislumbrar uma nação de fato democrática, justa e equânime”. Em 2015 ocorreu a primeira Marcha Nacional das Mulheres Negras, em Brasília, com o intuito de denunciar o racismo e a violência. Mulheres negras de Londrina decidiram se unir com o propósito de viabilizar a participação na marcha. Assim, foram realizadas diversas ações para arrecadação do valor necessário. Com ações coletivas, foi possível que algumas delas participassem da mar-

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cha. Uma dessas foi o Sarau das Pretas. Mesmo após atingido o objetivo inicial, elas começaram a questionar a possibilidade de dar continuidade ao sarau, agora como um espaço cultural próprio para a representatividade negra. O projeto teve continuidade e, assim, surgiu a ideia de formar um coletivo. O principal objetivo era unir educação e cultura. Desta forma, nasce o coletivo de mulheres negras Luiza Mahin. O projeto conseguiu apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (PROMIC) em 2018. Fiama Heloisa, jornalista, integrante do coletivo e conselheira do CMPIR, explica que o projeto atual do coletivo, em parceria com o PROMIC, é realizar atividades nas escolas e nos bairros de periferia, sempre levando a temática da mulher negra, em espaços que são permitidos.

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A partir da atividade que é feita nesses locais, é realizada uma curadoria para selecionar os trabalhos com caráter cultural, a fim de levá-los para o sarau. Deste modo, o sarau atua, também, como um espaço para expor esses trabalhos, incentivar a participação e homenagear a mulher ou um ícone negro local ou nacional, sempre buscando mostrar e fortalecer a diversidade negra. Como coletivo, a proposta é sempre agir por meio da educação e da cultura. Fiama esclarece que abordar o tema desde a infância pode trazer dois resultados: “O primeiro é que precisamos falar sobre racismo. As crianças precisam entender que ele existe e que elas não podem ser mais um elo de reprodução. É importante quebrar isso na base. É uma forma de desmontar esse sistema e lutar contra ele”. O segundo resultado possível é que muitas das crian-

ças que participam do programa são negras e elas não se reconhecem como. Um dos problemas é o apagamento da identidade, pois quando não se tem ela bem construída, a criança tende a ver o racismo como um problema distante e não como parte da realidade dela, afetando a forma como ela se desenvolverá e a forma como se relacionará com os outros e com o mundo. O coletivo adapta a forma de abordagem de acordo com o ouvinte, desde crianças até adultos. Por exemplo, com adolescentes e jovens, buscam abordar temas como profissão, inserção no mercado de trabalho, entre outros. Devido à pandemia da Covid-19, as atividades como aulas, feiras e o sarau estão paradas. De acordo com Fiama, o maior desafio é atingir cada vez mais pessoas, visto que, às vezes, restringe-se o contato ao círculo de convívio. “A


EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020 nossa proposta é atingir o maior líticas públicas comprometidas no sociedade com a pandemia, visto número de pessoas possível e, combate ao racismo, assim como que as questões raciais, como deprincipalmente, conversar com a assegurar o cumprimento dos di- núncia de racismo e violência, não ‘galera’ que está na periferia, que reitos e das garantias constitucio- param. Há a necessidade de comestá distante da universidade, dos nais e legais pertinentes à família, bater o racismo, mas sem expor e centros maiores de discussão aca- à criança, ao adolescente, aos sem aumentar a fragilidade da podêmica e política sobre a questão idosos, às populações negra, indí- pulação negra. Esses que já são racial. Eles vivem mais na prática, gena e a outras etnias, especial- vulneráveis e encontram-se ainda sentem na pele o peso do racis- mente quanto à orientação sexual, mais devido à pandemia. mo, o peso da violência policial”. Fiama defende que as polítiidentidade de gênero e liberdade As manifestações que ocupa- religiosa. “Cabe ao órgão propor cas públicas, a educação e a culram as ruas e as redes sociais políticas públicas que promovam tura podem, quando bem-feitas, são apenas um respingo da dor a cidadania e a igualdade nas re- alcançar e mudar a vida dessas com que os negros convivem há lações de homens e mulheres das pessoas. “Se a gente, enquanto anos. Fiama acredita que a po- populações negras, indígenas e coletivo, enquanto sociedade civil, pulação negra “está acostumada outras etnias, prestando assesso- conseguir tocar uma pessoa, concom o extermínio, está acostuma- ria aos órgãos e entidades do po- tribuir para que ela entenda o que da a morrer. Infelizmente, isso já der público e instituições privadas, é ser uma pessoa negra no Brasil, se naturalizou”. No entanto, ela emitindo parecer e acompanhan- no mundo, na sociedade atual, eu defende que esse é o momento do a elaboração de programas e já fico feliz. Pois eu sei que será para colocar um ponto final nisso. projetos desenvolvidos pelo Poder uma pessoa com mais força para A repercussão dos prolutar e que não vai aceitar testos dá mais visibilidacertos tipos de sofrimen“A luta é de todos que de para a causa, mas é to. Atingir, também, as vislumbram uma nação preciso ir além. Por meio meninas pequenas. Ver da educação e através a vontade delas de assudemocrática e justa” da persistência em expor mirem seus cabelos, de o que acontece, podem levar a Público, com a finalidade da pro- se verem bonitas como meninas uma mudança, sensibilizar quem moção da igualdade racial, com- negras. Tudo isso não tem preço. tem poder e quem realmente pode bate ao racismo e efetivação de Plantar essas sementinhas para fazer algo efetivo. “É muito doído ações afirmativas”. que elas floresçam, no intuito de A cidade de Londrina tem, aprover todas essas mortes e não ver construir uma sociedade sem ranada ser feito no sentido contrário. ximadamente, 600 mil habitantes, cismo, sem opressão de gênero, Morrer por simplesmente ser pre- dos quais 200 mil são afro-bra- sem machismo, sem homofobia é sileiros. Segundo Beraldo, a im- a nossa contribuição. A gente está to. Não é crime ser negro”. portância de ter políticas públicas na sociedade, então temos que faPOLÍTICAS PÚBLICAS voltadas para esses grupos é pro- zer algo por ela. Para que ela evoEM LONDRINA No município de Londrina (PR), mover a igualdade racial, uma vez lua e tenhamos um espaço plural, existe o Conselho Municipal da que “cada povo tem suas carac- diverso e amigável para se viver”, Promoção da Igualdade Racial terísticas, sua cultura, seu modo conclui. (CMPIR). O órgão foi criado em peculiar de vida resultado de seu Ainda que o combate ao racis2007, pela Lei municipal 10.185. pertencimento étnico-racial, de mo esteja caminhando e, em alDesde então, representa as comu- sua herança ancestral. Assim, os guns casos, sendo reconhecido, nidades negra, indígena e outras valores civilizatórios necessitam agora, pela sociedade, como um etnias perante os três poderes pú- ser reconhecidos e respeitados problema, é notório ver as mudanpela cultura branca ocidental”. blicos na cidade. ças surgindo. No entanto, como Fiama Heloisa, como conselhei- frisou Fiama, é por meio da eduDe acordo com a professora e gestora de Igualdade Racial do ra do CMPIR, acredita que, no atu- cação e da persistência de expor o CMPIR, Maria de Fátima Beral- al cenário, o maior desafio é con- que acontece, que pode-se levar a do, cabe ao conselho propor po- ciliar as ações de fiscalização da uma mudança significativa.

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Quem ama não mata A violência contra a mulher é uma realidade antiga que vem ganhando novos olhares e vozes, mas a luta ainda é longa e coletiva por Ana Clara Marçal, Felipe Soares e Luana Souza

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O Fórum Brasileiro de Segurança sas, ainda mudos e reprimidos, não ganhando cada vez mais espaço Pública (FBSP) destacou um cres- são poucos, e, ao sair do contexto nas mídias. A realidade, no entancimento de 22% nos casos de femi- da cidade de Londrina para o do es- to, mostra-se muito mais profunda. nicídio no país entre os períodos de tado do Paraná, são ainda maiores. VIOLÊNCIA CONTRA A MUmarço e abril, quando comparados COMO CONSTRUÇÃO Um, em específico, foi o escolhi- LHER ao mesmo período do ano passado. do para marcar o Dia de Combate HISTÓRICA - A violência contra a O Centro de Referência de Atendi- ao Feminicídio no estado do Paraná, mulher é fruto de uma construção mento à Mulher (CAM), de Londrina, instituído pela Lei Estadual de Com- histórica que perpassa as relações por sua vez, relatou queda nos aten- bate ao Feminicídio, sancionada pelo de gênero e poder. É o que explica dimentos a essas mulheres. No en- governador Carlos Massa Ratinho a socióloga, mestre pela Universidatanto, isso não significa uma diminui- Júnior, em 2019. É o dia 22 de julho, de Estadual de Londrina (UEL), doução nos casos de violência toranda em sociologia pela doméstica, como explica a Universidade de São Paulo “A violência contra a mulher é assistente social e gerente do e estudiosa de temas como CAM em Londrina, Lucimar uma construção histórica porque desigualdades sociais, gêneRodrigues da Silva: “temos nem sempre essas relações foram ro, feminismo e pobreza, Lina ciência de que isso pode ter Penati Ferreira. “A violência vistas como violentas” ocorrido pelo fato do agrescontra a mulher é uma conssor estar junto com a mulher trução histórica porque nem data da morte da advogada Tatiane na residência nesse período de pansempre essas relações foram vistas demia, e a mesma ter dificuldades Spitzner, morta (em 2018) pelo ma- como violentas. Primeiro, temos um de sair de casa para ir até o CAM.” rido por esganadura, tendo o corpo reconhecimento da sociedade de Os números de casos de violên- arremessado pela sacada do quar- que algumas formas são formas de cia contra a mulher, estejam eles to andar do prédio onde moravam, violência. Isso está muito relacionacalculados nas estatísticas e dados, em Guarapuava. Casos de mortes do às denúncias que o movimento estejam camuflados dentro das ca- brutais tem sido recorrentes e estão feminista vai construindo ao longo


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Ilustração: Ana Julia Gabas

da história e que o movimento das mulheres vão reforçando através de um slogan que ficou muito conhecido que fala que ‘o pessoal é político’”. Através desse slogan – “o pessoal é político” – entende-se que o que acontecia dentro de casa, não apenas a violência, mas também as desigualdades no trabalho doméstico assim como outros temas, são assuntos políticos e sociais, sendo necessário levá-los para fora das casas e discuti-los como problemas sociais. Lina ainda esclarece que reconhecer a violência contra a mulher como uma construção histórica “também significa dizer que sempre aconteceu. O que a gente tem hoje é um processo de conscientização de que essa violência não é normal, não é aceitável e podemos – e devemos – denunciar esse tipo de agressão e relação.” TIPOS DE VIOLÊNCIA - A Lei Maria da Penha prevê cinco tipos de violência doméstica e familiar, sendo elas a violência física, psico-

lógica, sexual, patrimonial e moral. Pela violência física, “entende-se qualquer conduta que ofenda a integridade ou saúde corporal da mulher.” Já a violência psicológica relaciona-se a “qualquer conduta que: cause dano emocional e diminuição da autoestima; prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento da mulher; ou vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões.” (Grifos retirados da Lei Maria da Penha). Lina Penati ainda ressalta que “a violência psicológica é alimentada diariamente, várias vezes e por anos, sem que outras pessoas consigam visualizar.” Tem-se, também, a violência sexual, que “trata-se de qualquer conduta que constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força”, abarcando o estrupo, o impedimento do uso de métodos contraceptivos ou o forçamento ao aborto, ao ma-

trimônio, a gravidez, entre outros. A violência patrimonial, por sua vez, é “entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazerem suas necessidades.” Por último, tem-se a violência moral, “considerada qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria.” AGRESSORES - Para a socióloga Lina Penati, há uma dificuldade em se estabelecer um perfil de homem violento, assim como o de uma vítima de violência, porque, na maioria das vezes, os agressores não são violentos o tempo todo, sendo recorrente comentários como ‘nunca pensei que ele seria capaz disso, parecia um homem tão gentil’. Lina explica que “o que há são relações que se constroem na violência.”. Ela complementa: “o que temos, na verdade,

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são violações baseadas em uma rar questões que estão presentes no estrutura patriarcal, machista, que nosso dia a dia e que, por vezes, não vão construindo estereótipos dos prestamos atenção. Então, quando relacionamentos, do que seria uma essas mulheres se viram necessitamulher e um homem em um relacio- das a ficarem dentro de suas casas, namento, e essas relações também o número de denúncias subiu, não só vão se construindo na base da vio- no Brasil, mas no mundo todo, porque eslência. Então, por vezes, um “O que a pandemia fez, no sentido s a s questões homem que do isolamento social, foi ficaram nunca praticou escancarar questões que estão mais lanenhum tipo tentes. presentes no nosso dia a dia e de violência e, M a s que, por vezes, não prestamos aparentemennão que te, pode se atenção” elas não mostrar pacífiexistam em outros momentos, co, pode desenvolver um relacionamento violento com a sua namorada. mas, talvez, tenha sido o momenIsso porque ali vai se criar uma re- to em que a gente tenha olhado com mais atenção para isso.” lação de possessão, objetificação.” VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA Diante desse contexto de conNA PANDEMIA vívio diário com seus agressores Ficar em casa mostra-se como e da insegurança em ligar para as a opção mais segura contra o novo entidades que prestam serviços de coronavírus. Mas, para muitas muatendimento contra casos de violênlheres, ficar em casa representa cia contra a mulher, algumas ações medo, angústia, dor, vulnerabilidade. foram criadas para que essas mulheTudo, menos segurança. Na compares possam denunciar seus companhia dos seus agressores 24 horas nheiros sem levantarem suspeitas, por dia, a situação tem se tornado como a campanha “Sinal Vermemuito mais densa e complexa. Ao lho contra a violência doméstica”. mesmo tempo em que as mulheres Ação simples, mas de grande sigdenunciam seus agressores, elas nificado. A campanha orienta a vítipreocupam-se com o próximo pas- ma a desenhar um “x” na mão e exiso, e até mesmo em como relatar as bi-lo ao atendente ou farmacêutico, agressões sofridas estando na com- em uma das farmácias cadastradas panhia integral desses agressores. pela campanha. Feito isso, esse funLina enxerga esse momento como cionário irá acionar as autoridades amplificador da denúncia desses ca- competentes para proceder com a sos. “O que a pandemia fez, no senti- denúncia. O objetivo é que as mulhedo do isolamento social, foi escanca- res se sintam seguras em relatar o que está acontecendo sem chamar a atenção de seu agressor. A campanha é nacional e a grande maioria das redes farmacêuticas aderiram. Através de outra ação simples e segura, Marina Fredegotto Ito, administradora de um grupo no Facebook que visa ajudar mulheres da cidade de Londrina e outras regiões próximas, criou uma iniciativa na qual busca oferecer ajuda por meio de uma mensagem-código sobre maquiagens. Ela explica que seu pro-

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pósito é ajudar, nem que seja uma pessoa. “Muitas vezes as mulheres não denunciam seus companheiros justamente por não terem como pedir ajuda sem que eles vejam. Essas mulheres, muitas vezes, são vigiadas, tendo suas redes sociais “controladas” pelos parceiros. Assim, a ideia é que a iniciativa seja uma maneira para que elas possam fazer contato, sem levantar suspeitas, até que a ajuda chegue”. Marina ainda comenta que, além dessa iniciativa, o grupo é um espaço em que as mulheres podem procurar por ajuda, seja qual for a situação. “Recebemos quase diariamente pedidos de ajuda, seja psicológica, de mulheres (cis ou não) em situação de risco (agressão, rua, etc) e outros. Num primeiro momento, identificamos as necessidades urgentes da pessoa, seja conseguir um lar temporário, atendimento médico, psicológico, sejam psiquiatras e advogadas. Tentamos resolver primeiro essas questões. No grupo, estão mulheres maravilhosas que se oferecem para atender e orientar aquelas que pedem ajuda. Nosso trabalho só é possível graças a elas”. Apesar de existirem várias políticas públicas para mulheres em situação de violência doméstica, Ito destaca que é preciso melhorar o trabalho de conscientização e informação para que as mulheres possam conseguir identificar as situações de abuso, visto que, muitas vezes, elas não denunciam por acreditar que aquela realidade de violência é o “normal”. “Nós sabemos que o número de mulheres que sofrem violência


EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020 em nosso país é absurdamente alto, mas o número de denúncias é muito baixo. Quando falamos de políticas públicas em prol das mulheres, estamos falando de um sistema (infelizmente) muito falho e desumano. Há casos de mulheres que procuram ajuda e muitas vezes são tratadas com desrespeito e indiferença dentro dos lugares que estão lá para ajuda-las, se deparando com questionamentos e desconfiança por parte das pessoas que as atendem. Acredito ser de extrema importância a abertura (e boa administração) de centros de apoio e acolhimento a mulheres e crianças em situação de risco”, destacou. Saber que há um espaço, iniciativas e pessoas que estão dispostas a ajudar são uma das formas de combater a violência doméstica. “A ideia é ajudar uma pessoa que esteja em risco iminente, mas também abrir um espaço para mulheres que, assim como eu um dia já estive em situação de risco em um relacionamento, possam se sentirem acolhidas. Não é fácil identificar uma situação de abuso quando se está dentro de um relacionamento, e é mais difícil ainda ter coragem para sair dessa situação. Essa publicação, assim como o Grupo das Minas, é uma tentativa de acolher, orientar e ajudar a maior quantidade de pessoas possível. Acredito que quanto mais as pessoas conseguirem enxergar que existem outros que estão dispostos a ajudar, mais vão ter coragem de procurar ajuda”, ela finaliza. É TEMPO DE FALAR - O Brasil vem evoluindo quando o tema é violência contra a mulher, a exemplo da conquista da Lei Maria da Penha. Mas ainda há um longo percurso para que o combate a esse tipo de violência seja cada vez mais eficaz. Lina relembra o caso da Sandra Mara Curti, servidora pública morta a facadas pelo ex-marido em Londrina, dois

Cartaz da campanha “Sinal Vermelho contra a violência doméstica Foto: internet/divulgação

dias depois de ter o pedido de medida protetiva negado por dois juízes. “A gente não precisa só de lei, de políticas, mas também da sensibilidade do judiciário, e isso, acredito, viria por meio de políticas públicas, para que, de fato, a gente tenha a implementação de ações que protejam essas mulheres. Além disso, a gente precisa levar isso para outros espaços. É preciso falar de violência contra a mulher nas escolas, nos ambientes de trabalho, nas mídias públicas, para que a gente possa falar de um problema que muitas vezes não é tratado com tanta facilidade.” A socióloga ainda finaliza explicando “a violência como a ponta do iceberg. Ela é o que vemos no final, mas temos uma série de relações baseadas em um sistema machista, patriarcal, sexista que constrói uma série de desigualdades e obstáculos para as mulheres, desde relações mais estruturais, até as mais privadas.” CANAIS DE ATENDIMENTO Lucimara Rodrigues, assistente social e gerente do CAM de Londrina destaca que “o município de Londrina conta com uma rede de proteção que irá apoiar e ajudar a mulher a superar essa situação para que a mesma possa viver uma vida sem violência. O CAM oferece atendimento

especializado totalmente gratuito nas áreas de Psicologia, Serviço Social e Orientação Jurídica. Também conta com a Casa Abrigo para acolher as mulheres e seus filhos que estejam sendo ameaçados de morte, além da Delegacia e Vara especializada.” Procure por ajuda. Não sustente o insustentável. É hora de quebrar o ciclo da violência. Denuncie. Abaixo, está uma lista com os canais disponíveis. Por conta da pandemia da Covid-19, eles foram readequados e o atendimento está sendo realizado de forma virtual, através do contato por telefone, WhatsApp e e-mail. SERVIÇO CAM– (43) 3378-0132 ou pelo e-mail cam.mulher@londrina.pr.gov.br Delegacia da Mulher - (Rua Almirante Barroso, 107, Vila Brasil) – (43) 3322-1633 Delegacia de Plantão da Polícia (Avenida Santos Dumont, 422) – (43) 3378-3000 Plantão Casa Abrigo, 153 Vara Maria da Penha – 9 9827-4808 NUMAPE – (43) 3344-0929 ou pelo e-mail numapel@gmail.com Guarda Municipal – 153 Polícia Militar – 190

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REPORTAGEM

De corrida em corrida: os entregadores na pandemia A pandemia da Covid-19 contribuiu para a informalização e a precarização do serviço prestado por essa parcela trabalhista em ascensão na sociedade Ana Clara Marcondes, Felipe Soares e Luana Souza

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Com a pandemia do novo coronavírus, a precarização do trabalho acentuou-se ainda mais, principalmente entre os entregadores de empresas de aplicativo. Em um cenário no qual muitos brasileiros passaram a realizar seus trabalhos de forma remota, outros serviços tornaram-se essenciais na corrida do dia a dia. De acordo com o artigo 3º, inciso XXII do decreto federal n° 10.282/20, os serviços de entrega são considerados atividades essenciais, devido as ações de isolamento social e para o enfrentamento da pandemia. No entanto, no dia primeiro de julho, houve uma paralisação dos entregadores de aplicativos em várias cidades do Brasil. As reivindicações foram por aumento do valor mínimo por corrida, fim dos desligamentos e bloqueios indevidos, fim do sistema de pontuação que distribui as corridas, seguro de vida, acidentes e roubo. Mesmo sendo considerada uma atividade essencial, a modalidade teve aumento de jornada, queda nos rendimentos e, consequentemente, maior risco de acidentes. É o que esclarece o Prof. Dr. Emerson Esteves, do Departamento de Ciências Econômicas da Universidade Estadual de Londrina (UEL). “Devido ao aumento das entregas neste período, o trabalhador aumentou a sua jornada a fim de garantir a renda mensal. Alguns, para ganhar R$60,00 no dia, precisam pedalar de

quinze, vinte ou até mais quilômetros, o que pode aumentar os riscos de acidentes”. Para a Prof. Dra. do Departamento de Ciências Sociais da UEL, da área de Sociologia do Trabalho, Simone Wolff, o cenário atual, ocasionado pela pandemia, acentuou ainda mais a precarização do serviço. “O estado de calamidade pública imposto pela pandemia abriu brecha para aprofundar formas de contratação de trabalho intermitente, tais como empregos de meio período e temporários, subcontratações, projeto ou empreitada etc., que ampliaram a informalidade histórica do mercado de trabalho brasileiro. Com isto, os processos de terceirização, que sempre funcionaram como um artifício para empregar força de trabalho com as mesmas qualificações, mas com salários menores e sem o mesmo nível de estabilidade, são cada vez mais disfarçados na forma de MEI, emprego autônomo ou por conta própria”. As medidas de proteção contra a Covid-19 são tomadas e custeadas pelos próprios trabalhadores. Em relação às empresas, o foco está apenas em orientações. Elas isentam-se das responsabilidades e custos trabalhistas, uma vez que atuam sob o discurso de que os entregadores são empreendedores autônomos. É o que ressalta a professora Simone Wolff. “Além do emprego de força de trabalho mais barata, esta estratégia permite transferir aos trabalhadores custos e riscos trabalhistas, o que significa mais precarização justo no momento em que se faz ainda

mais premente uma tela de seguridade social capaz de protegê-los da crise econômica e do consequente alto nível de desemprego acarretados pela pandemia”. DESEMPREGO Nesse contexto, o trabalho de entregadores de aplicativos aumentou consideravelmente. Afinal, o pão precisa chegar à mesa. Dessa forma, foi necessário encontrar um meio para pagar as contas, alimentar os filhos, a mensalidade da faculdade e outras dívidas que não tem fim. “Como o desemprego aumentou substancialmente, houve uma ampliação da procura por este trabalho de entregadores de aplicativos, o que concorreu para baixar a remuneração das corridas. Isso porque a força de trabalho está sujeita a um mercado de trabalho, que, como qualquer mercado, funciona pela lei de oferta e de procura. Quanto mais entregadores disponíveis, mais barata fica a taxa das corridas”, explicou Wolff. A doutora em Sociologia ainda esclareceu que o desemprego evidencia a chamada “economia de bico”, que são trabalhos informais para complementação de renda e/ou para garantia de renda em períodos de desemprego sazonal. “O problema é que os bicos não entram nas estatísticas de emprego. É, portanto, um trabalho invisível, o que dificulta que as políticas públicas para proteção dos trabalhadores durante a pandemia alcancem eles. Esta normalização da economia de bico coloca uma parcela enorme da população em condição duplamente vulnerável, pois a ausência de víncu-


EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020 lo empregatício deixa esta população à margem das políticas públicas de proteção trabalhista voltadas aos impactos da pandemia, o que força a se exporem ao vírus para garantir a sua sobrevivência. Ou seja, para esta população não existe a opção: a economia ou a vida, mas apenas a de qual risco de vida querem correr: morrer de fome ou de coronavírus”. LADOS OPOSTOS Robson Rodrigues Loriano faz entregas desde 2009. Ele viu neste trabalho uma oportunidade para voltar ao mercado. “Fiquei desempregado na época e trabalhar com entregas foi a maneira mais rápida e fácil para voltar ao mercado de trabalho”. Hoje, ele tem um emprego fixo como entregador em horário comercial e faz alguns extras a noite, folgando aos domingos. Loriano não trabalha cadastrado em aplicativo, mas com algumas parcerias. “Eu optei por ser autônomo, porque os aplicativos sempre puxam para o lado deles e quando você já trabalha direto com o estabelecimento, fica mais fácil para resolver qualquer problema que aparece, seja na entrega, no pedido, no trajeto ou qualquer outro”, afirmou. Diferente de Loriano, Fernando Rezenha trabalha há sete meses como entregador de aplicativos e apontou que o motivo pelo qual optou por este serviço foi a maior liberdade em relação aos horários. Atualmente, ele trabalha com um padrão de horário que se encaixa no dia a dia. Sendo a única fonte de renda, ele trabalha 11 horas por dia e folga uma vez por semana. De acordo com ele, “quanto mais você ficar online, mais corrida você consegue. O que aumenta a pontuação dentro do aplicativo. Isso ajuda”. Rezenha destaca que “algumas taxas são baixas, mas tem outras que são ótimas. Então uma vai compensando a outra”. Ele considera que o maior desafio é sobreviver e relaciona o trânsito como exemplo. “O trânsito é bem complicado. Mas o bom é que não tem pressão, nós definimos nossas próprias metas. Eu não tenho o que reclamar”, contou. O entregador evidencia que algo que poderia ser melhorado é o tem-

po de espera. “O tempo que ficamos esperando o pedido ficar pronto geralmente causa aglomeração de motoboys na frente dos estabelecimentos e é horrível ter que ficar esperando, perdemos muito tempo”. Ele sugere que os aplicativos solicitem o serviço do motoboy quando o pedido já estiver na fase de embalagem, “que é o tempo de chegar, pegar e já sair. E não ter que ficar esperando, porque tem estabelecimento que não deixa entrar, não pode usar o banheiro”. Ele não concorda com todas as pautas propostas pela paralisação. Acredita que “se criar sindicados, leis, terão pessoas tirando vantagem nisso. Se o governo entrar no meio vai piorar para a gente”. De acordo com Rezenha, “algumas pessoas tentaram oprimir quem não concordava [com a paralisação]. Isso fez com que o movimento perdesse toda a razão para mim. Então eu não quis participar”. PLATAFORMAS DIGITAIS ACENTUAM INFORMALIZAÇÃO Diante desse quadro, as plataformas digitais potencializaram e inovaram modos de informalização do trabalho, como explica a docente Simone Wolff. “Neste caso, as principais inovações foram: a transferência de riscos e custos do trabalho para o próprio trabalhador; a dispersão dos trabalhadores juntamente com o controle automatizado da força de trabalho. A dispersão dos trabalhadores é possibilitada pelo fato

de não ser necessário um local de trabalho para realizar as suas atividades, sendo tudo mediado pelas plataformas. Isso dificulta a organização desses trabalhadores em prol de melhores condições de trabalho e direitos trabalhistas, tornando-os ainda mais vulneráveis aos avanços da precarização do trabalho. Contudo, as recentes greves de entregadores de app, no Brasil e em vários outros países, sugere que, mesmo com todas essas dificuldades, eles estão começando a encontrar formas de luta contra este processo”. A conscientização e o apoio da sociedade são importantes para ajudar na causa dos entregadores. Faz-se necessário que as empresas de plataformas digitais reconheçam a sua responsabilidade por essa demanda de trabalhadores que cresce consideravelmente no mercado de trabalho brasileiro. Ilustração: Canva

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A Covid-19 intensificou um novo sintoma no mercado de trabalho: o da adaptabilidade Desemprego, avanço tecnológico, novas demandas profissionais, novos ambientes de trabalho e a certeza da constante mudança são outros indícios de que o coronavírus não ataca apenas o corpo humano por Ana Clara Marçal e Ana Clara Marcondes

Acordar. Tomar banho. Café. Deslocar até o trabalho. Almoçar. Fim de expediente. Deslocar de volta para casa. Tarefas domésticas. Jantar. Dormir. Essa é a rotina de muitas pessoas. Ou melhor, era. Pensar na rotina atual é mais complicado. Talvez seja algo semelhante a: acordar. Tomar banho. Responder e-mails enquanto toma café. Ir para o escritório improvisado em casa. Tempo de lazer, atividades domésti-

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cas e profissionais misturados. O mercado de trabalho sempre sofreu mudanças com o decorrer dos anos. Com a Covid-19, no entanto, elas ganharam maior velocidade. Soma-se a isso o contexto de crise, tanto econômica, quanto política, e de saúde. O resultado é um cenário incerto, dinâmico, marcado por alterações na estrutura do trabalho, pelo desemprego, pelo surgimento de novas demandas e agravamento da ansiedade, estresse e medo. TRABALHO REMOTO Enquanto o isolamento social continua, o home office tem aumentado cada vez mais. Junto ao seu crescimento, está a discussão quanto a preferência ou não por essa modalidade, assim como seus pontos positivos e negativos. Um dos maiores desafios, nesse contexto, tem sido a delimitação do tempo e espaço de trabalho. Se antes ele era delimitado

pela empresa e sua estrutura, hoje vive-se 24 horas dentro do ‘novo’ ambiente de trabalho. Jaqueline Ferrarezi é graduada e mestra em Administração pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), com foco em Gestão de Organizações e Sustentabilidade, e, desde 2017, atua como professora. Atualmente, ela é docente na UEL, Unopar e Unicesumar. Ela analisa as consequências do trabalho remoto: “hoje perdemos totalmente essa delimitação. Com o home office, você está no seu trabalho o tempo todo. E isso gera uma carga mental de pressão muito maior. Muitos sofreram com queda de produtividade por não conseguirem encontrar um caminho do meio para esse gerenciamento (entre espaço e tempo de trabalho). Outros aumentaram muito a carga de estresse.” Além disso, tem-se, ainda, as limitações da estrutura física, a necessidade de se ter


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um espaço confortável e ilu- pode ser adaptado e reinven- ca, equipamentos, água, etc, minado, com boa conexão de tado de maneira a executar também tem de repensar as internet, calmo, e bons equi- o trabalho de outras – talvez formas de controle e acompapamentos - como computa- melhores – maneiras. A análi- nhamento de seus funcionádores, determinantes para um se se concentrará muito mais rios, de modo a evitar os riscos bom exercício e desempenho no resultado final. “Foi um ga- de não cumprimento dos prano trabalho. Por outro lado, nho a nível de criatividade e zos, desvio do planejamento o home office pode implicar, de um pensamento mais ana- e garantia de uma comunicatambém, em ganho de tempo, lítico e reflexivo sobre o traba- ção alinhada e assertiva entre toda a equipe, uma vez que se subtraem as horas gas“Foi um ganho a nível de criatividade mesmo à distância. Pensar em trabalho tas no trânsito. e de um pensamento mais analítico e Jaqueline ainda remoto, levando em reflexivo sobre o trabalho, sobre a consideração o ceressalta que o trabalho à distância pode nário volúvel atual, é execução daquela tarefa. Saímos um (re)pensar a estrutufavorecer o maior pouco do automático.” ra de trabalho, anaexercício de autonomia e desenvollisar os benefícios e vimento, uma vez que “você lho, sobre a execução daquela debater os desafios. NOVOS COTIDIANOS acaba sendo o gestor da rea- tarefa. Saímos um pouco do automático.” Leticia Helen Beluco Teixeilização das suas atividades.” As organizações e os em- ra, técnica administrativa da Se na empresa ou organização o trabalhador recebia um pregadores, por sua vez, ao Coordenação de Aperfeiçomaior controle na execução de mesmo tempo em que ameni- amento de Pessoal de Nível suas tarefas, na própria casa, zam os custos do seu sistema, Superior (CAPES) da UEL, esse processo de produção de manutenção, energia elétri- passou por uma grande mu

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“Quando se está no horário de lazer e chega um e-mail, por exemplo, você tem que responder na hora por medo das pessoas falarem que você não está trabalhando direito em casa ou deixando de lado o serviço.”

não está trabalhando direito em casa ou dança na rotina de traba- deixando de lado o serviço. lho. Antes, era bem agitada. Trabalhando em casa eu sinFicava das 8h às 22h na uni- to que faço muito mais do que versidade, pois trabalhava até fazia presencialmente e levo as 18h e, depois, tinha aula mais tempo, já que em casa no período noturno. Ela afirma eu tenho apenas um notebook que “no começo da pandemia e no trabalho eu tinha todas tudo pareceu meio bagunça- as máquinas necessárias à do, tinha dias que ficava des- disposição”, contou Leticia. Para ela, algo positivo foi de a hora que acordava (8h) que, em casa, ela consegue até umas 19h sem parar de trabalhar em casa. Como eu ter um foco maior: “presentrabalho com pagamentos, no cialmente eu tinha muitas começo teve-se muita pressa interrupções e acabava perpara pagar algumas contas dendo o ‘fio da meada’”. Mas muito importantes e, por isso, uma das perdas foi o contato tive umas jornadas extensas. com os colegas de trabalho: Depois do primeiro mês, eu “eu sinto falta de tomar aquele fui conseguindo ajeitar meus cafezinho no fim do expedienhorários e criar uma rotina de te e bater um papinho rápido. Às vezes me sinto muito sozitrabalho”. Os horários de trabalho e nha”, concluiu. Em home office, Claudinea lazer ficaram difíceis de serem separados: “Às vezes os dois Angélica dos Santos, pedagose misturam, por mais que ga da UEL, trabalha no Labovocê tenha separado horários ratório de Tecnologia Educaexatos para um e para outro. cional (LABTED) do Núcleo Quando se está no horário de de Educação à Distância lazer e chega um e-mail, por (NEAD) com cursos de formaexemplo, você tem que res- ção para docentes e alunos ponder na hora por medo das da universidade, assim como pessoas falarem que você acompanhando e orientando

os alunos dos cursos na modalidade EAD. Sua rotina de trabalho não sofreu grandes alterações. “Antes eu trabalhava em horário comercial e, eventualmente, no período noturno. Durante o trabalho remoto, não houve muitas alterações, pois, como o meu trabalho depende do computador, continuo o atendimento aos alunos, com os cursos de capacitação e reuniões online”. Sendo uma pessoa mais caseira, ela não sentiu tanto impacto no dia a dia. “Tenho mantido uma rotina parecida com a presencial, porém, em alguns dias, tenho necessidade de estender mais o trabalho. Neste caso, busco compensar no outro dia trabalhando menos. Mantenho minhas atividades de lazer como sempre. Não sou de sair de casa, então não senti diferença”. No entanto, assim como Leticia, ela sente falta de estar em um ambiente de trabalho rodeada de pessoas. Ela destaca, por fim, que o home office trouxe uma economia com a alimentação em casa e com o combustível. Mas lamenta


EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020 pelo aumento de desemprego e perdas salariais que muitos sofreram. PROFISSIONAL DO FUTURO No contexto marcado pela incerteza e pelas mudanças, a capacidade de adaptação faz-se essencial. Para isso, é preciso, ainda, desenvolver o autoconhecimento, “se explorar ao máximo”, como comenta a professora e mestra em Administração, Jaqueline Ferrarezi: “Somos criados socialmente para escolhermos uma única coisa. Mas não precisamos ser uma coisa só. Delimitamos muito nossa capacidade escolhendo uma única coisa. Lógico, temos que ter um norte. Mas, quando criamos um plano de carreira, um planejamento pessoal e profissional, o fazemos pensando em uma coisa só. E se ocorrer qualquer tipo de desconstrução no meio disso tudo fica difícil, porque eu não me explorei ao máximo ao longo do processo para identificar algo em que eu seria tão boa quanto, até melhor, fazendo. Uma das formas de nos prepararmos é ampliar nosso olhar sobre as nossas capacidades. Explorar.” Mais do que nunca, é preciso conceber o aprendizado como um processo contínuo, uma vez que os trabalhos existentes atualmente vão se modificando e deixando de existir, na mesma medida em que novos vão surgindo. Se a tecnologia substituiu algumas profissões no decorrer dos anos, ela também impulsio-

nou o surgimento de novas, antes inimagináveis. Muitas ainda surgirão. Sendo assim, algumas habilidades vem se destacando, para além das competências técnicas. É o caso da inteligência emocional, da resiliência, da linguagem e comunicação assertiva, assim como a capacidade de conhecer suas aptidões e habilidades para criar estratégias e planejamentos. Jaqueline Ferrarezi destaca, sobretudo, a capacidade e o exercício de formação do próprio conhecimento: “Estamos muito acostumados a pegar o conhecimento de história e aplicar. Mas qual é o seu próprio conhecimento? Não nos questionamos sobre isso, nem fazemos muito para desenvolvê-lo.” ENTREVISTA DE EMPREGO O primeiro emprego/estágio é marcante. Antes, é preciso passar pelos processos seletivos e as entrevistas. Essa fase pode ser motivo de ansiedade, medo, estresse e insegurança. A professora e mestra em Administração, Jaqueline Ferrarezi, destacou três pontos que podem auxiliar esse processo e oferecer maior segurança àqueles que o vão enfrentar pela primeira vez.

1. Conheça a empresa onde você vai fazer a entrevista. Pesquise sobre ela, sobre o entrevistador, assim como as áreas de atuação, até mesmo para que você possa adequar sua linguagem. Nunca vá para uma entrevista no escuro; 2. Entenda a descrição da vaga para a qual você está se candidatando. Conheça as exigências que ela requer e se prepare para isso. Conhecendo bem a descrição da vaga você pode até confirmar se vai de encontro ao que você também deseja. Entenda o que a empresa espera de você e o que você espera dela. 3. Compreenda a finalidade das diferentes etapas, atividades ou provas do processo seletivo. Estude-o e entenda o que a empresa quer desenvolver em cada etapa.

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A música em tempos de quarentena Independente do gosto musical, cada pessoa tem uma trilha sonora favorita que embala os acontecimentos da vida, sejam eles alegres ou não

por Felipe Soares e Luana Souza

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Entre os dias tristes e felizes, ela está lá. A música faz parte de nós. É ela quem embala a trilha da ‘vida’. Podemos ouvi-la tocando nas ruas, em carros, celulares, eventos, em nossa rotina caseira, e, principalmente, neste momento de pandemia do novo coronavírus. Muitos mudaram suas rotinas e tiveram que se reinventar. Mas a música continuou presente. Para muitos indivíduos, é impensável realizar alguma atividade sem uma playlist. E temos uma para cada momento: desde tomar banho, café da manhã, percurso para o lugar que devemos ir e, por aí vai, embalando nossos compromissos. Com a pandemia da Covid-19, entre escolas e universidades fechadas e home office, houve um aumento significativo de assinaturas nas plataformas de streaming e consumo de lives no YouTube. Segundo uma consultoria feita pela Counterpoint Research, serviços como Spotify, Apple Music, Amazon Music, entre tantos outros, alcançaram cerca de 394 milhões

de assinantes neste período, o que revela um aumento de 35% em comparação ao ano anterior. Segundo estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras instituições de pesquisas, os dados apontam que a qualidade mental tem melhor desempenho quando é necessário fazer tratamentos que envolvam música. Com ela, nós sentimos diversas emoções, positivas e negativas. E o cérebro é o responsável por causar esses sentimentos, uma vez que produz substâncias que podem ajudar na redução de estresse

e ansiedade, por exemplo. De acordo com a musicoterapeuta e psicóloga, mestranda em Ciência da Reabilitação, Gislaine Moreira Matos, a música impacta o ser humano de forma positiva ou negativa, sendo capaz de provocar emoções em nosso cérebro. “Como a música é um dos es-


EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020 Para os ouvintes, “a música tímulos que mobiliza o cérebro A ARTE COMO REFÚGIO como um todo, podemos dizer Segundo a psicóloga e es- tem o poder de evocar memóque ela pode mobilizar todas pecialista na área de aprendi- rias e eliciar emoções, isso poras emoções. A interpretação zagem, Mariana Laís Batista, que música, emoção e cérebro da música acontece no hipo- com a pandemia, os casos de se conversam. Estudos aponcampo, onde também então ansiedade e estresse aumentam que a música pode despernossas memórias afetivas. Por taram, deixando o indivíduo tar emoções em seus ouvintes, isso, ao ouvir uma música, ra- em estado de “alerta”, algo que pidamente interpretamos como antes era vivido apenas em al- gerar prazer, diminuir o estresboa ou ruim, nos remetendo a gumas situações específicas. se, reduzir níveis de ansiedaalgum momento vivido. Assim, “Indica-se sempre buscar au- de, estimular a comunicação, a música, quando tem significa- xílio de profissionais de saúde aumentar a autoestima e autodo, sentido e que faça parte da quando a ansiedade e o es- expressão, além de promover a identidade sonora da pessoa, tresse geram sintomas físicos e reflexão sobre as novas sensapode ser um estímulo que pro- psíquicos. Algumas mudanças ções”, elucidou Batista. duz endorfina, serotonina e do- na rotina e novas práticas e há- MUSICOTERAPIA NA SAÚDE pamina. Mas tamA musicotera“A música permite que a criança bém, pode ser um pia é uma ciência estímulo negabrinque, dentro de nós; que o que busca tratar tivo, no qual irá monge dentro de nós reze, que o os pacientes atraproduzir hormônios do estresse, jovem dentro de nós dance e que o vés da música. A como por exem- herói dentro de nós supere todos os musicoterapeuta Gislaine Moreiplo, a adrenalina, obstáculos, ou quase todos” que é quando a ra Matos explica (Don Campell). pessoa ouve por que essa ciência um período múé uma área do conhecimento sicas que a desagradam, que bitos também podem ajudar”. com base epistemológica em Mariana também apontou não trazem significado e que conjunto com teorias e práticas não faz parte da história de vida que o aumento na procura pelas artes, de modo geral, fez (métodos, técnicas e procedida pessoa”. Dessa forma, não é todo tipo com que muitas pessoas vol- mentos) que estuda o efeito de música que leva à redução tassem a resgatar antigos hábi- do som no organismo. “É uma de estresse ou ansiedade. Uma tos e gostos artísticos, os quais profissão da área da saúde que pesquisa realizada pela Trends aprenderam do zero ou apri- atua desde a prevenção até o in Cognitive Sciences revelou moraram essas habilidades, tratamento e reabilitação de que as músicas que possuem principalmente durante o iso- doenças ou mal-estar biopsiletras podem reduzir a perfor- lamento, utilizando-se da arte cossocial, utilizando as experimance mental. Em contraparti- como entretenimento (desde ências sonoras musicais (sem da, trilhas instrumentais podem as artes visuais, música e dan- objetivos musicais, mas para dar um grande salto na produ- ça). “Focalizando na música, promover alguma mudança estividade individual, podendo tenho acompanhado, em redes trutural, funcional ou de padrão variar de pessoa para pessoa. sociais, como os artistas tem Portanto, os benefícios da mú- se reinventado para chegar até de conectividade neuronal) ”. sica são inúmeros, podendo seus públicos, e como novos Dessa forma, o paciente não ajudar na concentração, me- artistas tem tirado os planos do precisa conhecer sobre as músicas mória, humor e atenção. papel”, disse.

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ou algum instrumento musical. “Basta que a pessoa goste de música para que, assim, o musicoterapeuta possa interagir e proporcionar possibilidades sonoro musicais para tratar ou reabilitar”, esclareceu Matos. Essa ciência tem apresentado grandes benefícios na prevenção de várias doenças, tratamentos de saúde em geral, e ainda mais neste tempo de isolamento social ocasionado pela pandemia da Covid-19. “A musicoterapia pode trazer benefícios como abrir canais de comunicação (TEA, afasias, etc), mobilizar movimentos motores (lesões como o AVC), produzir hormônios e neurotransmissores para tratar ansiedade, depressão e outros. Pode auxiliar, também, na redução de dor e no tratamento de hipertensão. Além disso, a musicoterapia tem sido muito eficaz na reabilitação de pessoas infectadas [pela Covid-19], com sequelas de problemas respiratórios”, explicou a musicoterapeuta Gislaine Matos. No cenário da pandemia, muitos indivíduos procuram por músicas mais “relaxantes”, como apontou a pesquisa da plataforma de streaming de música e podcast, Spotify. De acordo com o serviço, que realizou a pesquisa entre os dias 19 e 25 março, os ouvintes procuraram, neste período, por músicas mais acústicas e menos dançantes. A busca por “Yoga e Meditação” cresceu em 366% durante uma semana. Músicas desse gênero podem

EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020 ajudar muito nesse período de isolamento, como explica Matos. “Na quarentena, podemos fazer uso da música como recurso tranquilizador, para relaxar e auxiliar na meditação, por exemplo. Mas também podemos usar para melhorar o foco e a concentração no trabalho ou estudos”. DICAS Devido à essa pressão do momento de pandemia que estamos vivendo, Mariana Batista deu algumas dicas sobre como diminuir os níveis de estresse e ansiedade ocasionados pela falta do convívio social. Para a psicóloga, um dos meios mais importantes é a conversa, o estar presente mesmo que através das telas. Usar da tecnologia para aprender algo novo ou aprimorar o que já se conhece, manter uma vida saudável, cuidando do sono e da alimentação, praticar exercícios físicos e de respiração, visto que são muito importantes e tem efeitos positivos na saúde. Ela alerta, também, para o cuidado com o excesso de informação e orienta a busca por fontes seguras e confiáveis, principalmente quando o assunto é sobre a pandemia. A série documental “Explicando”, episódio “Música”, da Netflix, mostra como funciona a nossa mente e qual o trabalho que ela de-

sempenha no processo de recuperação em danos cerebrais. A musicalidade que temos é algo biológico e em constante evolução. Assim, a música pode ser usada para aprendizagem, para o desenvolvimento de sentimentos reprimidos, lembranças profundas e na conexão com o outro. Observando o poder que a música possui e a sua universalidade, pode-se aprender o verdadeiro significado do que é ser humano e seu processo de cura e sociabilidade. Abaixo, deixamos uma playlist preparada para vocês, com músicas selecionadas por toda a equipe do CN. Em momentos felizes ou tristes, de esperanças ou descrenças, que tenhamos nossas músicas nos motivando a dançar e seguir em frente, embalando um dia após o outro.


CNindica desvestindo a moda “O Desvestindo a moda, é um podcast que visa compreender a moda sob diferentes identidades e formas de consumo. Essa iniciativa surgiu quando percebi que precisava mostrar para as pessoas que convivo, que moda é relevante, ela não é só vestuário. Para compreender a moda, temos que buscar na sociologia, história, ciência, entre tantas outras áreas, porque a moda é um fato social total. Acredito que pelo podcast posso trazer discussão sobre moda, a partir de diversas esferas e dentro do que posso, democratizar o conteúdo de moda.” Thaynara Junqueira, idealizadora e criadora do projeto

SE7ECast “Amante de cinema e televisão, tire os olhos da telinha por uns minutinhos e venha bater um papo sobre nossos filmes e séries favoritos! O SE7ECast é onde rola o debate fim de sessão com muitas dicas de entretenimento e, claro bom humor. Apresentado pela estudante de Jornalismo Lara Bridi, o SE7ECast tem episódios semanais voltados para a resenha de filmes ou uma simples conversa sobre assuntos voltados a TV. Disponível no IGTV e principais plataformas de Streaming.” - Lara Bridi, idealizadora e criadora do projeto.

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ARTIGO

Bússola desconfigurada por:

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Luana Souza

as minhas resoluções de Ano Novo, apontei em direção ao Norte. Estava pronta para encarar os novos desafios que este ano traria, os obstáculos que, muito provavelmente, tirariam o meu sono, mas seriam desafiantes. No entanto, para alcançar a direção inicial, deparei-me com contratempos, curvas e uma nova rota repentina. A bússola precisa do campo magnético. Só funciona assim. A vida, para seguir conforme o planejado, precisa estar em ordem, ou, ao menos, favorável. Para mim, ela atua assim. Sempre gostei de seguir planos. Por outro lado, compreendo que nem tudo funciona como planejamos. A chegada de um vírus, ainda no final de 2019, e que ganhou proporções drasticamente absurdas neste ano, fez com que a minha bússola, inicialmente configurada para o Norte, parasse de funcionar. Tudo parou de funcionar. Ela apontava para várias direções. Estava desnorteada. Nada era mais favorável. Seguir conforme o planejado certamente não era mais uma opção. Não adiantava acompanhar os pontos cardeais. A bússola estava desconfigurada. Foi preciso adaptar-se à uma nova rotina. Seguir por um caminho desconhecido e sem orientação. Neste percurso, encontrei desbravadores prontos para ajudar a seguir o meu caminho com menos pesar e angústia. E esperava ajuda-los também.

Por outro lado, deparei-me com pessoas menos solidárias. Cada um por si, eles disseram. Notei que continuavam egocêntricos e, com esse vírus, nada aprenderam. Não lhes caíram a ficha que para seguir rumo ao caminho inicial, a união era a solução. Tentar buscar um caminho sozinho é uma missão impossível. E, neste tempo, egoísmo. Esse vírus me fez perceber o quanto é necessário olhar para o mundo do outro, e, se possível, tornar o percurso menos dolorido. Estou trilhando um caminho por meses e sem perspectiva da chegada final. Muitos me encorajam e dizem que logo tudo estará resolvido, que surgirá uma luz que iluminará o meu trajeto. Enquanto isso, sigo desbravando curvas de sentimentos ora tão angustiantes a ponto de me derramar, ora normais. Mas normalidade já é algo que perdeu o sentido. Com esse vírus, acredito não ser a única a viver experiências que nem se quer esperava viver ou seguir outras rotas inimagináveis. Mudar minhas resoluções, fazer novos planos, traçar um percurso até então desconhecido. Enquanto minha bússola segue desconfigurada, enquanto percorro por rotas, viro a direita e a esquerda, pulo obstáculos, enfrento a dor, a angústia, reflito sobre quem somos e sobre quem não devemos ser depois dessa pandemia. Enxergar que precisamos mudar é a maior lição que a Covid-19 nos ensina.


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CN indica o que elas pensam? O podcast semanal “O que elas pensam?” é um espaço de diálogo entre duas mulheres que debatem política em suas múltiplas dimensões. Afinal, “lugar de mulher é onde ela quiser”, inclusive, nos locais de poder e também falando sobre eles.” - Isabella Alonso e Franciele Rodrigues, idealizadoras e criadoras do projeto

podchef mastercast Ideias, risadas e uma pitada de “vamo vê o que dá”. São os ingredientes de dois amigos que, no final, apresentaram ao mundo um papo bem feijão com arroz. Prazer, somos o Podchef Mastercast! Um podcast dedicado a comentar tudo sobre o Masterchef Brasil, com um toque de descontração e bom humor. Seja bem vindo!” - Victor Assis e João Gabriel Mariucci, idealizadores e criadores do projeto

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RESENHA

O infame clube vitoriano das mulheres livres Ana Júlia Gabas era impedida de exercer cargos profissionais “O infame Clube Vitoriano das Mulheres e políticos, sendo restrita apenas aos afazeLivres” é um livro de ficção que reúne contos res domésticos. escritos por diversos autores brasileiros, orÉ nesse cenário em que se passam as ganizados por Valquíria Vlad e Karine Ribeiro. histórias do livro. Mesmo sendo ficcionais, toNa temática da obra, as histórias são, na verdos os contos retratam muito realisticamente dade, cartas enviadas ao Clube das Mulheres a censura sofrida pela mulher e, ao mesmo Livres, uma coluna de jornal que publicava os tempo, o desejo de liberdade de um sistema relatos de mulheres fortes, livres e sonhadoque a repreende. Uma característica geral ras. As quais buscavam quebrar os padrões das histórias é que, para romper os padrões socialmente estabelecidos a elas na Inglatere atingir esse aspecto de liberdade, a mulher ra vitoriana do século XIX. tem que se vestir ou se passar por um hoA Era Vitoriana é o período da história inmem. Somente assim, ela pode assumir os glesa em que a rainha Vitória governou, ennegócios da família, tre 1837 e 1901. “Não se chega à liberdade, à justiça, ao tocar um instrumento Essa época concedeu à In- hosana sem o sofrimento, sem a dúvida do musical que não fosse o designado para uma glaterra o títucaminho, sem o risco do erro. (...) Que as lo de país mais próximas gerações de mulheres, de todas as dama, livrar-se da murico e poderoso sociedades futuras, perseverem na batalha tilação dos corpetes espremendo as costedo mundo, já por igualdade de direitos e justiça”. las e sentir o vento em que foi marcada seu rosto ao correr livremente por um campo pelo desenvolvimento econômico e industrial, aberto. além das conquistas coloniais imperialistas. Ao ler os relatos na coluna do Clube das No âmbito da política social, era um período Mulheres Livres, a coragem e a bravura eram conservador, de rígidos valores morais, com transmitidas de mulher para mulher, de adulta o surgimento do estereótipo do inglês cortês, à jovem discípula da autonomia, inspirandocristão e de “família tradicional”. -as a seguir tal exemplo. Ao finalizar o livro, a O fato do país ser governado por uma fiDama, codinome para a mulher responsável gura feminina não significou um avanço nas pela produção e criação da coluna no jornal, questões sociais em que as mulheres estadeixa uma mensagem: “Não se chega à libervam inseridas, uma vez que seu papel era dade, à justiça, ao hosana sem o sofrimento, apenas o de manutenção dos valores de dosem a dúvida do caminho, sem o risco do erro. mesticidade. O ideal feminino erguia-se sob a (...) Que as próximas gerações de mulheres, rotulação de guardiãs da moral familiar, o que de todas as sociedades futuras, perseverem significava ser uma mãe, mulher e filha exemna batalha por igualdade de direitos e justiça”. plar para o homem, patriarca da família. Ela

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Foto: Editora Wish

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“O infame Clube Vitoriano das Mulheres Livres” é um livro de ficção que reúne contos escritos por diversos autores brasileiros, organizados por Valquíria Vlad e Karine Ribeiro. Na temática da obra, as histórias são, na verdade, cartas enviadas ao Clube das Mulheres Livres, uma colu-

na de jornal que publicava os relatos de mulheres fortes, livres e sonhadoras. As quais buscavam quebrar os padrões socialmente estabelecidos a elas na Inglaterra vitoriana do século XIX. A Era Vitoriana é o período da história inglesa em que a rainha Vitória governou,


entre 1837 e 1901. Essa época concedeu à Inglaterra o título de país mais rico e poderoso do mundo, já que foi marcada pelo desenvolvimento econômico e industrial, além das conquistas coloniais imperialistas. No âmbito da política social, era um período conservador, de rígidos valores morais, com o surgimento do estereótipo do inglês cortês, cristão e de “família tradicional”. O fato do país ser governado por uma figura feminina não significou um avanço nas questões sociais em que as mulheres estavam inseridas, uma vez que seu papel era apenas o de manutenção dos valores de domesticidade. O ideal feminino erguia-se sob a rotulação de guardiãs da moral familiar, o que significava ser uma mãe, mulher e filha exemplar para o homem, patriarca da família. Ela era impedida de exercer cargos profissionais e políticos, sendo restrita apenas aos afazeres domésticos. É nesse cenário em que se passam as histórias do livro. Mesmo sendo ficcionais, todos os contos retratam muito realisticamente a censura sofrida pela mulher e, ao mesmo tempo, o desejo de liberdade de um sistema que a repreende. Uma característica geral das histórias é que, para romper os padrões e atingir esse aspecto de liberdade, a mulher tem que se vestir ou se passar por um homem. Somente assim, ela pode assumir os negócios da família, tocar um instrumento musical que não fosse o designado para uma dama, livrar-se da mutilação dos corpetes espremendo as costelas e sentir o vento em seu rosto ao correr livremente por um campo aberto. Ao ler os relatos na coluna do Clube das Mulheres Livres, a coragem e a bravura eram transmitidas de mulher para mulher, de adulta à jovem discípula da autonomia, inspirando-as a seguir tal exem-

plo. Ao finalizar o livro, a Dama, codinome para a mulher responsável pela produção e criação da coluna no jornal, deixa uma mensagem: “Não se chega à liberdade, à justiça, ao hosana sem o sofrimento, sem a dúvida do caminho, sem o risco do erro. (...) Que as próximas gerações de mulheres, de todas as sociedades futuras, perseverem na batalha por igualdade de direitos e justiça”. Há em um dos contos, ainda, simbólica menção sobre o grupo das sufragistas. O movimento pelo sufrágio (voto) feminino foi a primeira manifestação feminista exigindo reformas sociais e econômicas no século XIX, ou no contexto do livro, no fim da Era Vitoriana inglesa. As sufragistas, de fato, seguiram o anseio da Dama e perseveraram na batalha por igualdade, iniciando o movimento feminista, que engloba mulheres de todo o mundo. Foi graças à luta dessas mulheres e de muitas de outras gerações, que atualmente livros sobre essa temática podem ser publicados e discutidos abertamente. É por causa delas que hoje escrevo esse texto e posso exercer o meu direito como mulher. Mas ainda há muito o que conquistar. Afinal, a luta nunca acaba quando se nasce mulher.

Ficha técnica Autor: organizado por Valquíria Vlad e Karine Ribeiro Editora: Wish Ano da obra: 2019 Páginas: 176

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Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski por Ana Clara Marçal

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Fiódor Dostoiévski Foto: reprodução/internet

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xistem crimes justificáveis, que podem ser cometidos - por pessoas ‘extraordinárias’ - para elevar a humanidade? É esse o questionamento que perpassa toda a narrativa singular construída por Dostoiévski. Publicado em 1866, o romance do escritor e jornalista russo é leitura indispensável. Uma das características que mais gosto da obra é o aprofundamento psicológico que cada personagem tem. Suas individualidades e vivências anteriores são fundamentais para a construção e análise da psicologia humana. Assim como a descrição dos ambientes, ações e questionamentos internos, fazendo-nos mergulhar dentro da Rússia do século XIX. Qual é a história do livro? (Fica tranquilo(a) que essa resenha não contém spoiler) A história gira em torno do jovem intelectual, na casa dos 20 anos, Ródion Ramanovich Raskolnikov. Pobre, mora em um quartinho sem ventilação e qualquer iluminação na cidade de São Petersburgo. Praticamente em condições de subvida. Para tentar sobreviver, penhora alguns dos poucos itens que possui de uma senhora usurária que maltrata a irmã mais nova. Pelo olhar de Raskolnikov, acabar com a sua existência seria um favor para a sociedade. Assim o faz. Planeja matar a velha a machadadas e ficar com seu dinheiro. Um aspecto interessante do livro é que, até o momento do crime, os passos do jovem parecem levá-lo cada vez mais perto da ação. Como se o destino estivesse lhe ajudando, confirmando o que deveria fazer. Tanto que, pouco antes da noite marcada para o assassinato, ele encontra a irmã da velha na rua, conversando com um homem e falando que não estaria em casa na noite seguinte. Perfeito! Assim Raskolnikov eliminava qualquer variável dessa complexa equação. O que ele não espe-


rava era que a irmã fosse aparecer no momento do crime. Agora ele teria que matá-la também. Mas não tinha nada contra sua existência. Achando que o crime resolveria seus problemas, não previu que, após o ter cometido, entraria em estado febril e em delírio. Mesmo dizendo não se arrepender do feito, o jovem passa a viver uma vida de castigo, medo, angústia, delírio, sufoco, vergonha, responsabilidade, culpa e amor. Os questionamentos filosóficos, sociais e morais existentes nos diálogos das personagens e nos seus próprios pensamentos são interessantíssimos! Durante as mais de 500 páginas da obra, temos um jovem sufocado, afundando nas próprias concepções, segredos, ideais e, por mais que fique cada vez mais sem oxigênio, recusa-se a tentar subir para respirar. Mantém-se firme na sua visão de que a morte da velha fora um presente para a sociedade. Mas, e a irmã: também seria melhor tirar-lhe a vida? Isso pegara-o de surpresa! Paro com a história por aqui, antes de deixar escapar algum spoiler. Mas, uma coisa te garanto: Crime e castigo vale a leitura. Vai me dizer que você não quer saber se Raskolnikov vai recuperar sua paz de espírito? Vai acabar confessando? Ficou ou não com o dinheiro da velha? Tem muita coisa a ser saboreada nessa narrativa. Vale lembrar que o romance tem muita pitada da própria vida do Dostoivéski. Mas eu não vou contar em que aspecto porque assim vai ficar fácil demais para você adivinhar o futuro do jovem Ródion Ramanovich Raskolnikov. Capa do livro Foto: reprodução/internet

Ficha técnica Autor: Fiódor Dostoiévski Editora: Martin Claret Ano da obra: 1866 Ano de edição: 2019 Páginas: 586

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1984

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Baseado numa realidade distópica, o livro de George Orwell, ‘1984’, conta sobre uma sociedade regida pelo totalitarismo, onde o controle do pensar é a base de tudo. Apagar o passado é fundamental, no presente nesse tipo de regimento social para o controle do futuro. Por conta do passado aniquilado por ideologias políticas, as manipulações de discursos, diálogos meritocráticos, alienação da população e o ultraconservadorismo tornam-se as veias pulsantes desta trama. O autor dá o ponta pé inicial, contando sobre o cotidiano Winston Smith, homem de meia idade que trabalha em um dos departamentos do Ministério da Verdade. Pertencente a uma engrenagem muito maior, Winston passa questionar sobre sua existência e sobre tudo está ao redor. Na cidade de Londres, onde se passa a história, tudo e todos são vigiados e controlados pelo Grande Irmão (Big Brother) através das teletelas. “Até na moeda os olhos [do Grande Irmão] perseguia a pessoa. Nos selos, nas capas dos livros, em bandeiras, em cartazes e nas embalagens – em toda parte” (1984, p.38). Ou seja, o Grande Irmão te escuta, sabe onde você está e com quem está, não há saída. O controle sobre os pensamentos da população é o pilar principal do Partido. Quem pensasse de forma contrária ao Grande Irmão, era levado pela Polícia das Ideias e punido. O lema adotado pelo Partido desde sua instauração era em “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força.”, e estava sempre ligado a imagem do Grande Irmão que tudo

Foto: Reprodução/ Internet

Por Felipe Soares

via e sabia. Após a revolução e instauração do Socing – regime adotado pelo Partido – o planeta havia se redistribuído em três grandes impérios, sendo a Ocêania, o maior de todos, era integrado pelas antigas Américas (Central, Norte e Sul), Austrália, parte do sul da África e a Inglaterra. A Eurásia, segundo maior, era formado pela Europa, Rússia e pequena parte Ásia, e a Lestásia, a menor, incorporado pela China, Japão e parte da Índia. Dentro do livro, os impérios sempre estiveram em guerra, principalmente a Ocêania contra as demais, para disputar o território central e norte da África. A sociedade da “oceânica”, onde acontece o desenvolvimento da história, é bem dividida em hierarquias e aparelhos governamentais regidos pelo Partido. O autor faz a denominação de forma bem irônica no livro, sendo que os nomes são totalmente contrários as funções. Por exemplo, o Ministério da Verdade era responsável pela falsificação de documentos e tudo que fizesse referência ao passado. Esse setor tomava como base, a partir do Grande


Irmão, a teoria de que “quem controla o presente, controla o passado. Quem controla o passado, controla o futuro”, por isso a aniquilação e falsificação de documentos referentes a história antes da revolução. Havia, também, o Ministério da Paz responsável pela guerra contra as outras nações, o Ministério da Punjança (ou Riqueza) responsável pela fome e economia totalmente distorcida, e por último o Ministério do Amor que cuidava da população, monitorando seus movimentos e pensamentos através da Polícia da Ideias. A população também era categorizada e dividida. Havia os Proletas, a base e força de trabalho que compunha 85% da população, o Partido Externo que compunha 13% e era com uma classe média dos tempos atuais e a Elite do Partido que era de 2% ligados as veias ideológicas e autoritárias do Socing. A partir do momento que Winston passa a se questionar sobre tudo a sua volta, principalmente as coisas relacionadas a antes da revolução e a proibição do livre pensar, o rapaz se encontrou em um dilema. Sabendo que haveria punição, caso fosse descoberto através das suas expressões faciais, ser visto escrevendo em alguma coisa, a Polícia das Ideias e o Grande Irmão iriam saber que havia se voltado contra o regime, logo sendo expurgado, tendo todo seu histórico dizimado, como se não houvesse existido. Na cidade Londres, onde se passa a história, o pouco contato humano era essencial para o controle da sociedade, pois se não houvesse conversas tidas como intelectuais, a não as corriqueiras do dia a dia, mais fácil era a dominação. O’Brien trabalha no mesmo prédio que Winston e através de uma única troca de olhares, ele passou a ser para Winston a luz no fim do túnel para se libertar do regime, a garota que via como inimiga torna-se sua amante as escondidas, pois o afeto não era permitido, o intuito dos casamentos dentro do regime era somente para procriação, sem laços afetivos. Dessa forma o amor, traição e desconfiança movem a trama até a última página.

A obra faz paralelo, quase que perfeito com muitas das questões do século XXI. Como por exemplo, a privacidade e vigilância constante por meio dos aparelhos de comunicação, a manipulação dos discursos políticos, a falsificação de dados e informações, o controle sobre a história, a formação da base social através do medo de se rebelar contra governos, conservadorismo em essência e outros assuntos muito pautados hoje em dia. O intuito de George Orwell neste livro foi, como a liberdade de pensamento é importante para a formação da pessoa humana, da pessoa política e como a história é essencial para a construção de um futuro melhor e menos ditatorial.

1984 THE BIG BROTHER IS

WATCHING

YOU! Ficha técnica

Autor: George Orwell Editora: Companhia das Letras Ano da obra: 1948 Ano de edição: 2009 Páginas: 416

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A

por Felipe Soares

2020 O ANO PROMISSOR PARA o POP 46

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o: Felip

Ilustraçã


EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020 Mesmo nesse período tão difícil que estamos passando, ouvir música pode nos levar a outros universos e nos trazer certo aconchego no meio desse turbilhão de coisas. Com a maioria da população estando isolada em casa, o consumo de materiais sonoros aumenta ainda mais. E é justamente por isso que a indústria do entretenimento musical não para suas produções. Além disso, esse momento de distanciamento social abre portas para ouvir bandas e cantores antes jamais conhecidos e, desta forma isso acaba gerando momentos prazerosos para as rotinas que ficaram mais monótonas do que nunca. Então aqui vai algumas dicas de cantores e álbuns para você curtir e sair do tédio durante esse tempo de isolamento social. Nomes como Katy Perry, Dua Lipa, The Weeknd, Lady Gaga e Adele são os mais visados para lançamentos de álbuns e singles futuros. Começando por Dua Lipa com o lançamento de ‘Future Nostalgia’. Um álbum que teria seu lançamento para meados de abril, após vazamento das faixas, se antecipou, e foi um grande sucesso. A cantora bateu recordes com suas ‘tracks’, dentre elas ‘Break my heart’, que ficou em 2° lugar nas principais plataformas de streamings musicais. E foi recebida com grandes aplausos de críticos. Seu álbum deu aquele ‘up’ no pop mundial, com uma pegada dos anos de 1990 e recebeu nota máxima nas principais revistas especializadas no assunto. A NME, uma das mais conceituadas revistas de entretenimento, deu conceito 5 para o para o álbum de Dua Lipa e o classificaram como ‘powerful pop perfection’. No álbum ‘After Hours’, de The Weeknd, o cantor trouxe um visual descrito pelos críticos como psicodélico e que foi inspirado em filmes mais escuros como ‘Fear loathing in Las Vegas’, de Terry Gilliam do fim

dos anos 90. Suas músicas seguem o mesmo padrão estético utilizado nessa era. O single ‘Heartless’ foi o primeiro ser lançado para a promoção do álbum e entrou para o Hot 100 da Billboard dos Estados Unidos. ‘Blinding Lights’, segundo single do álbum, foi sucesso e entrou para mesma lista que o primeiro lançamento, permanecendo por mais tempo. No Metacritic, site que reúne as principais críticas ao redor do mundo dos conteúdos de entretenimento, recebeu nota 83 de 100, fazendo com que o álbum seja muito bem visto e requisitado de maneira muito boa no mercado. Então se você é fã e curte músicas com essa pegada pop de anos 90, Dua Lipa e The Weeknd são uma ótima indicação. Já com um estilo de soft pop, temos Katy Perry para não ficar de fora! Com quatro singles lançados em 2019, a cantora também liberou mais dois em 2020. ‘Never worm white’ foi o single para o anuncio de sua primeira gravidez e ‘Daisies’, que teve estreia no dia 15 de maio, mostra como está sendo o processo para a cantora. Reunindo os últimos lançamentos, os fãs esperam um álbum novo da cantora ainda este ano, com um estilo bem diferente e mais calmo do que seu álbum ‘Witness’ que trazia um estilo mais dance. Agora se você gosta de pop dance e está sem saber o que escutar, Lady Gaga é ótima para solucionar seus problemas. Após sumiço do cenário musical, voltou com tudo em 2020. Depois do álbum ‘Joanne’ (2014), Gaga deu seu revival no mundo pop com o single ‘Stupid love’, lançado em fevereiro desde ano. O álbum chamado de ‘Chromatica’ (2020) logo foi anunciado e fãs foram a

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coluna tilos musicais, mas afinal para que serve a música e como ela pode nos ajudar? Estudos feitos por psicólogos e psiquiatras nos Estados Unidos, apontam que escutar música, independente do gênero, diminui o estresse, ansiedade, ajuda no combate ao Alzheimer e atua na liberação de hormônios com a endorfina, dopamina, serotonina e ocitocina, já que estão, diretamente, ligados ao nosso cérebro e aos nossos sentimentos. A música serve como terapia, ela salva vidas e une aquilo que o mundo tenta separar. Por mais que essa quarentena esteja sendo difícil é importante nos cuidar mentalmente, escutar música é saúde, é cuida de si. Por isso, fique em casa, lave as mãos e ouça muita música!

Ilustração: es

Felipe Soar

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loucura. O segundo single do álbum é ‘Rain on me’, com parceria de Ariana Grande, foi um dos feats mais esperados dessa nova era da cantora. Lançado em 22 de maio, ‘Rain on me’ vem emplacado nas paradas mundiais, tanto nos Estados Unidos como na Europa. Com o single, Gaga alcançou o posto de hit internacional mais ouvido pelo Spotify Brasil, tendo 822 mil plays em 24 horas, feito esse alcançado, somente, por Taylor Swift com “Look what make me do”, do álbum ‘Reputation’ com 622 mil plays. O sexto álbum de estúdio de Gaga foi lançando nessa sexta-feira e conta com 16 tracks, tendo parcerias com Elton John e BlackPink. Com um visual totalmente futurístico, Lady Gaga fez uma fusão entre seus álbuns ‘Born this way’ e ‘ArtPop’ em questões de estilo musical. O ‘Chromatica’ traz um pop dance que jamais seria apresentado no cenário da música atual. Com trilhas instrumentais construídas para ser transições entre as músicas, elas remetem a trilhas de filmes de fantasia misturadas a batidas pop do início aos anos 2000, o novo álbum de Gaga traz certa nostalgia para os amantes do eurodance da época. E é ótimo para fazer uma faxina, dançar sozinho no meio da sala ou cantar no chuveiro, vai da sua imaginação. E para encerrar temos Adele, que ainda não lançou um álbum novo, mas é ótima cantora e esbanja talento. Suas músicas passam por vários estilos musicais indo do R&B, Soul music até o Pop, fazendo o que poucos cantores fazem. Seus últimos singles são perfeitos para um fim de tarde, após uma boa leitura acompanhado de um café. Uma dica: vale a pena investir! Adele já ganhou vários Grammy’s por seu talento inexplicável. Até que o álbum novo venha a ser lançado estando previsto para setembro deste ano, o que nos resta no momento é ouvir suas músicas dos álbuns anteriores e apreciar tal talento. Falamos de artistas, músicas, es-


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O entretenimento na construção de perspectivas reais Por Felipe Soares

Foto: Reprodução/ Internet

Nos últimos dias, acompanhamos inúmeros protestos ao redor do mundo contra o racismo. A hashtag Black Lives Matter está sendo usada desde a morte do americano George Floyde, assassinado por um policial branco, no estado de Minnesota, em Minneapolis (EUA). Junto ao Movimento Negro, artistas do mundo todo se mobilizaram para aumentar, ainda mais, a voz da causa. Cantores como Beyoncé, Jay Z, The Weeknd, Childish Gambino (Donald Glover), SZA e muitos outros foram em suas redes sociais pedir justiça por Floyd, por todos os negros dos Estados Unidos e do mundo inteiro. No Brasil, o #BlackLivesMatter também está sendo apoiado pelos artistas nacionais. O Movimento Negro do país ganhou um engajamento muito forte depois do assassinato do menino João Pedro, de 14 anos, no Rio de Janeiro. Assuntos como representatividade e privilégio branco vem se destacando entre os temas mais comentados nas redes sociais. Artistas como Tais Araújo, IZA, Lele,

Lázaro Ramos, Emicida, Criolo e muitos outros usaram suas mídias sociais para enfatizar o debate. Pessoas brancas, mesmo não possuindo lugar de fala, abriram seus perfis, dando visibilidade aos trabalhos feitos por pessoas pretas no país. As consequências dessa abertura foram muito positivas, uma vez que livros como ‘Pequeno manual antirracista’ e ‘Olhares negros. Raça e representação’, das escritoras Djamila Ribeiro e Bell Hocks, respectivamente, esgotaram nas lojas virtuais. Muita gente vem estudando sobre o assunto e vestindo a camisa para ajudar na luta contra o racismo. A relação do negro com o mundo do entretenimento já é bem difícil historicamente. Foi em 1910 que tivemos a primeira produção de um longa-metragem feito e roteirizado por um homem negro. Injustamente desconhecido, Oscar Micheaux empenhou um papel fundamental no cinema afro-americano, no auge da segregação racial no país. Oscar foi diretor de 42 filmes ao longo de três décadas. Através deles, Micheaux aborda questões raciais e tenta esclarecer aos afro-americanos sobre o racismo. Oscar Micheaux era filho de ex-escravos e nasceu em 1884, em Illinois. Aos 17 anos, mudou-se para Chicago, onde começou a trabalhar como carregador. Anos mais tarde, tornou-se proprietário da sua própria produtora de filmes e editora de livros, a Micheaux Film and Book Co. Mesmo recebendo ameaças de grupos supremacistas brancos da época, amigos empresários ajudaram-no a manter-se firme. Seu primeiro longa-metragem lançado foi ‘Whithin Our Gate’ (Dentro de nossas portas), em 1925.

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Foi nessa mesma época que a primeira mudentro dessa indústria. Ela vem oferecendo lher negra pisou em um palco, na França, para referenciais, junto de suas histórias, capazes se apresentar. Josephine Baker, durante sua de transformarem o mundo que a gente já cocarreira, chegou a ser considerada a cantora nhece, desde o audiovisual, até a música. mais bem paga de toda a Europa. Mesmo soO que há de especial em tudo isso é termos frendo ataques raciais e vivendo com os olhanegros contando essa situação vivida e prores maldosos de grande parte da sociedade, tagonizada na própria pele. Como exemplo, Josephine mostrou seu exímio talento nos paltem-se o ‘The Birth of a nation’ (Nascimento cos da Broadway e do mundo. de uma nação), dirigido e contado pela persBaker teve um passado conturbado. Copectiva de um homem negro. A partir de histómeçou a trabalhar para ajudar sua mãe, aos rias contadas através da concepção do povo 8 anos de idade, limpando a casa e negro é que se constroem narrativas cuidando de crianças nas casas menos estereotipadas, trazendo de brancos ricos da cidade de mais experiência da realidade. St. Louis. Parou de estuDessa forma, fazem-se prodar e fugiu de casa, aos duções sob outros pon13 anos, para trabalhar tos de vista. como garçonete em A representativium restaurante. Em dade é importante 1919, juntou-se ao para a desconstruJones Family Band e ção da história do saiu em turnê. Com povo negro. Filmes, o tempo, aprimorou como ‘The Black Panseu talento na dança ther’ (Pantera Negra), e casou-se com Willie foram grandes sucessos Baker, do qual mantede bilheteria justamente ria o nome pelo resto da por isso. Crianças, jovens vida. Após ajudar as troe adultos, por muito tempo, pas francesas no repasse cresceram vendo Superman, de informações, durante a Capitães América e outros heSegunda Guerra, Josephiróis brancos. Quando olharam Foto: Reprodução/ Marvel ne voltou para os Estados para a tela do cinema e se reUnidos, em 1950, para apoiar o Movimento conheceram, sentiram como se fizessem pardos Direitos Civis, participando de manifestes disso. Eu senti isso. tações e boicotando clubes segregacionistas. O próprio filme traz a desconstrução do que Em 1963, Baker participou da marcha a Waé a África. Por anos, nos foi passada a visão de shington, ao lado de Martin Luther King, e foi pobreza, guerra e extrema miséria. Em Panteuma das oradoras naquele dia. ra Negra vemos o outro lado, a visão cultural Assim como Oscar e Josephine, muitos de um continente rico em tradições milenares outros deram a cara a bater contra o racismo e totalmente moderno. A indústria audiovisual na sociedade e no mundo do entretenimento. percebeu a necessidade disso, tanto que, ao Hoje, ainda que pouco, temos pessoas pretas final de ‘Avengers: End game’, vemos o Capique exercem a representatividade com êxito. tão América (Chris Evans) passando o escudo O entretenimento tem um papel fundamental para seu companheiro Sam Wilson (Anthony na criação do imaginário humano, e o racisMackie), o Falcão, ao invés do seu amigo de mo vem sendo abordado com mais frequência infância, Bucky (Sebastian Stan).


EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020 Nas entrelinhas, logo confirmado pelos diretores da saga, entenderam que o novo Capitão América precisava ter a cara da América. Uma América do povo negro. Na área musical, atualmente, temos Beyoncé como nome de peso dentro do cenário pop, e com um talento que resultou em inúmeros prêmios e reconhecimento no mundo todo. A cantora sempre foi ícone de representatividade, desde o início de sua carreira, e engajada em causas sociais. No seu último álbum, Lemonade (2016), trouxe, nas letras, críticas ao governo e as corporações policiais, além de falar abertamente sobre o racismo, também tratado no single ‘Formation’. A cantora se consagrou ainda mais na sua apresentação no Coachella, em 2018, que estava lotado da juventude negra norte-americana. No cenário nacional, IZA, hoje, é referência. A cantora é super engajada em causas sociais, principalmente das favelas do Rio de Janeiro. Atualmente, é embaixadora na ONU e ícone de representatividade para as meninas pretas do país. Ganhadora de prêmios nacionais e internacionais, é ponto de referência para muitas meninas que olhavam para a TV e pouco se reconheciam. Emicida é rapper, ativista e crítico das políticas públicas para os moradores das favelas brasileiras. Em suas músicas, o rapper faz críticas férreas contra o racismo e segue sendo um ponto de partida para os pretos de todo o país. Hoje temos filmes, séries e músicas que retratam e relatam o racismo sofrido na pele do preto no mundo todo. Para você entender um pouco mais sobre a participação dos negros no meio do entretenimento, nas lutas raciais e em questões de representatividade, preparei algumas dicas de filmes e séries.

TODO MUNDO ODEIA O CHRIS (EVERBODY HATES CHRIS) A série de televisão americana é baseada em experiências conturbadas do comediante Chris Rock durante sua adolescência. Ela mostra as perspectivas de como foi ser cria-

do em um ambiente racista, entre os anos de 1970 a 1985, tanto no período da escola, quanto no dia a dia com a família. A série aborda como o racismo é enraizado nos ambientes do cotidiano, como todos da família passaram por essa situação e como isso chega aos filhos. Grande parte do elenco é negro e a série trata o assunto de forma leve e descontraída. Ótimo programa para ver com a sua família em um fim de tarde de domingo.

OLHOS QUE CONDENAM (WHEN THEY SEE US) É uma minissérie de quatro episódios, produzida pela Netflix, que conta a história de quatro jovens negros presos, em 1989, por um crime acontecido no Central Park, em Nova York. Eles são pegos em meio a uma confusão, no centro da cidade, onde uma mulher branca é agredida e fica em uma situação de risco de vida. Levados à delegacia, os meninos são coagidos pela polícia, separadamente, a fim de admitirem o crime. Essa história fala sobre o aspecto do racismo nos Estados Unidos e mostra como isso era usado contra a população negra da periferia da cidade. Mesmo com o fato de serem pegos sem nenhuma prova, não se conhecerem e os seus depoimentos originais não baterem, a polícia faz de tudo para encerrar o caso. Mas a história não para por aqui. Vale a pena você assistir para entender, nos mínimos detalhes, como tudo aconteceu e qual foi o desenrolar dessa história verídica.

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coluna ADVINHA QUEM VEM PARA O JANTAR (GUESS WHO’S COMING TO DINNER) Em formato de comédia, o filme traz uma crítica ácida sobre os relacionamentos interraciais, que começaram a ser mais comuns na década de 1960. Joey (Katherine Houghton) e John (Sidney Poitier) se conhecem em uma viagem para o Havaí, ficam completamente apaixonados e decidem se casar. Ambos são de classe média e muito elegantes. Mas John é negro e teme a recepção da família da moça. Joey tenta acalmá-lo dizendo que seus pais são liberais e que isso não seria um problema. Na prática, isso não acontece e a família da moça tem que dançar conforme a música para levar esse relacionamento sem grandes problemas.

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PANTERA NEGRA (BLACK PANTHER) Pantera Negra é o primeiro filme da Marvel Studios protagonizado por negros. A produção, de 2018, é cheia de referências históricas, valorizando as particularidades culturais africanas e produz uma quebra dos estereótipos dados à África durante sua história. As personagens mulheres têm papeis equivalentes ao do protagonista e são fundamentais para o

desenvolvimento da narrativa. O filme é estrelado por Chadwick Boseman, Lupita Nyongo, Michael B. Jordan, Danai Gurira entre outros. É cheio de representatividade e emoção, do começo ao fim. CARA GENTE BRANCA (DEAR WHITE PEOPLE) Cara Gente Branca traz em seu enredo aquela cutucada no Status Quo. Um grupo de quatro estudantes negros vão enfrentar os desafios de estudar no fictício Ivy League College enquanto estudantes brancos organizam uma festa com temática negra, deixando-os furiosos. Em 2017, a trama virou uma série da Netflix estrelada pela atriz Logan Browning. A série já está na sua terceira temporada e, até o momento, a Netflix não se manifestou sobre o cancelamento ou sobre uma possível renovação. Cara Gente Branca é uma comédia ácida e que vale muito a pena de ser vista. Questões de representatividade, direitos igualitários, local de fala e aceitação do corpo negro são trabalhados durante toda a produção, sem contar com o desenrolar da história, das risadas e romances que surgem durante a trama, te deixando de queixo caído.

Espero que vocês aproveitem essas dicas, estudem sobre os assuntos levantados e se aprofundem. Se seu local de fala não é esse, ouça com atenção o que os movimentos têm para dizer, vista a camisa e nos ajude no que for necessário. O protagonismo dessa história é NOSSO, mas precisamos da sua ajuda!


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O PODER FEMININO É A

‘COISA MAIS LINDA’ Por Felipe Soares O entretenimento, de modo geral, tem o poder de construção e desconstrução de grandes narrativas. O emolduramento de personagens é muito importante, principalmente, quando se trata de narrativas reais. Como venho dizendo nas minhas últimas publicações, o audiovisual traz temas de urgência da sociedade, desde críticas aos sistemas de governo, preconceitos e lutas por direitos iguais. Estão se tornando o foco principal. A série ‘Coisa mais linda’ é um belo exemplo. A história envolta das vidas de Malu Carone, Adelia Araújo, Lígia e Thereza Soares mostra o quão forte é o poder feminino unido. Na década de 1960, quando o Brasil batia na tecla do que era ou não aceitável para as mulheres, Malu e Adelia decidem mostrar o contrário. Com vidas totalmente opostas, elas se tornam amigas e abrem um clube chamado Coisa mais linda, na cidade do Rio de Janeiro. Na época, era assegurado por lei que mulheres não podiam abrir seu próprio negócio sem o consentimento e assinatura de seus maridos, ou pais para as moças solteiras. O fato de ser mulher já era uma barra, ainda mais tendo que depender de homens para seguir com sonhos e projetos. Com o cônjuge desaparecido, Malu falsifica a assinatura do marido e consegue abrir o clube com a amiga. No entanto, Malu é obrigada a fazer acordos com pessoas complicadas com a lei.

Foto: Reprodução/ Netflix

Adelia, por ser negra, era pior. Em uma sociedade carioca cheia de “bacanas”, o que lhes faltavam era respeito. A personagem vivida por Pathy de Jesus, mostra seu potencial e não abaixa a cabeça para nada. Adelia e Malu eram o apoio uma da outra. Lígia era cunhada de Thereza, ambas amigas de Malu. Cada uma com suas diferenças e semelhanças ao mesmo tempo. Malu é uma personagem em construção durante a série. A paulistana sempre foi criada tendo o bom e o melhor. Sonhadora, Maria Luiza sempre mostrou e deixou claro o que queria para seu futuro, a liberdade. Adelia era empregada, batalhadora e moradora de favela no Rio de Janeiro. Com uma filha pequena, nunca deixou nada faltar dentro de casa, principalmente, seu sorriso. A vida de Adelia não era fácil. Sem estudo, a única opção que lhe sobrara era o serviço de empregada. Assim como Malu, nunca abaixou a cabeça para ninguém e não deixava homem nenhum controlar sua vida. Parecida com Adelia, mas de um mundo totalmente oposto, temos Thereza. Redatora em uma revista importante da cidade do Rio, Thereza tinha sua postura firme e era irredutível quando as opiniões sobre assuntos femininos eram feitos por machistas. Fazendo críticas ao patriarcado dentro da revista, Thereza sabia que seu destino era tomado pela liberdade de estar com quem quisesse, quando quisesse e na hora que quisesse. Thereza é uma personagem forte em relação a liberdade da mulher

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na sociedade. E por fim, temos Lígia. Melhor amiga de Malu e cunhada de Thereza. Lígia sempre teve o sonho de ser cantora, no entanto, seu marido a proibia dizendo que isso “era coisa de vagabunda”. Vivendo com o sonho abafado pelo marido, Lígia decidiu então ser a esposa perfeita. Mas Malu, Adelia e Thereza não se conformaram e fizeram questão de mostrar que ela precisava ir mais longe com seu sonho. O posto de dona de casa não cabia a ela. Foi a partir daí que a vida de Lígia mudou, percebendo que o sonho que tinha era maior que a si mesmo. Com agressões por parte do próprio marido, a personagem interpretada por Renata Vasconcellos, prefere mais uma vez, tentar esquecer seus projetos e voltar ao posto de esposa perfeita. Durante a primeira temporada, Lígia não sofre uma ou duas, mas várias agressões físicas e psicológicas por parte de seu esposo. Suas amigas sempre estão por perto dando o apoio e o suporte necessário, reforçando que ela precisava pedir “o desquite” (nome dado ao divórcio na época). O roteiro e a direção da série são baseados nessa história. No decorrer dos episódios, é possível notar o crescimento e amadurecimento de todas elas. A série brasileira consegue mostrar com precisão o que o apoio feminino pode causar dentro da sociedade. As personagens conseguem te cativar a ser como elas. Fortes, independentes, autossuficientes e mais do que tudo, sonhadoras. E esse tipo de narrativa é o que mostra o quão forte e poderoso é o poder feminino quando trabalhados juntos. Quantas pessoas, quantas mulheres são alcançadas por esse tipo de narrativa através da indústria do entretenimento? Quantos homens não têm que engolir seco ou ser empurrado goela abaixo o seu machismo enraizado, sendo obrigado a refletir sobre suas atitudes e seu modo de ver as coisas? É preciso que se construa mais narrativas de mulheres fortes. São temáticas urgentes. A sociedade precisa disso. São coisas que precisam ser discutidas e não adianta fugir, porque uma hora ela vai bater na porta novamente. Óbvio que a indústria do audiovisual visa o dinheiro, a popularidade, o sucesso de suas produções, mas ela também entende que esses são temas necessários e que através deles pode se mudar as gerações futuras começando por agora. Por mais que essas histórias sejam configuradas em anos passados, não significa que a luta

ficou lá. Outra série que fala muito sobre o poder da união feminina é ‘As telefonistas’, da Netflix. Alba, Carlota, Angeles e Marga têm essa mesma função, de mostrar que a força, a união, a determinação e a liberdade são os princípios da luta pela igualdade. Precisamos passar a viver fora da caixa, pensar fora dela e ver o que está acontecendo fora das telas de streamings, entendendo que a luta é real. A questão de representatividade dos movimentos, de pessoas e lutas é para o agora. Os streamings estão produzindo mais conteúdo sobre as lutas antirraciais, as lutas do feminismo, críticas aos governos do mundo todo para chamar a atenção. O poder feminino não é para uma parte da população em específico, é para todos. Certa vez, a historiadora Lilia Schwarcz disse que “quanto mais diversos nós formos mais nós teremos a aprender e a evoluir como humanidade”. Por mais difícil que seja, aprender e se desconstruir de alguns “costumes herdados” é necessário para a evolução da sociedade, o seu crescimento como cidadão e como pessoa. Eu não estou aqui para tomar a frente de nada, ou assumir um protagonismo de algumas de vocês. Muito pelo contrário, o intuito desta coluna é mostrar o quão forte vocês são e como isso tudo é lindo. Creio que tenho muito a aprender com vocês ainda. Se de alguma forma, vocês (mulheres) se sentiram ofendidas ou que eu tenha escrito algo errado, estou a disposição para consertar meus erros. Vocês mulheres, são fortes, donas de si, inspiradoras e maravilhosas. Acredito que o mundo do entretenimento tem muito a ensinar, mas nada que bons livros e vivências reais não nos ensinem mais. Obrigado por tudo mulheres.


EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020

CULTURA POP EM OUTRO PATAMAR, ESTE É O

‘BLACK IS KING’ Por Felipe Soares Na última semana de julho, o álbum visual de Beyoncé, ‘Black is King’, foi lançado no Disney+. Dirigido pela cantora, ‘Black is King’ traçou um paralelo entre o contemporâneo e a antiguidade, entre o que acham sobre a cultura africana e o que ela realmente é. Beyoncé fez questão de manter o direcionamento do álbum encima da história de Rei Leão, para que houvesse um outro contexto, além do que havia criado. Traçando esses caminhos, a artista acrescentou diálogos de exaltação a cultura africana e, ao mesmo tempo, chamando a atenção de pessoas negras, que foram criadas longe de sua cultura matriz e que sofrem preconceitos por mantê-la viva até hoje.

O álbum seguiu a sequência de músicas do álbum sonoro, ‘The Lion King: the gift’, criado para o live action do filme da Disney. Todo colorido, ‘Black is King’ foi construído para trazer essa perspectiva entre as tradições africanas e a modernidade do século XXI. Ao todo, o álbum visual conta com 17 faixas, estando todas conectadas entre si. Logo de cara, a música ‘BIGGER’ abre o álbum. Ela trata sobre o sentido de permanecer a algo muito maior do que se vive. Que não somos somente versículos da bíblia, mas a palavra viva, e que também somos uma imagem muito maior daquilo que nos moldaram para ver. - “Let black be synonymous with glory. Welcome back” (“Que o preto seja sinal de glória. Bem vindo de volta”). - Um começo bem forte, mas com uma construção de cena calma

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e tranquila, como o começo de um processo de encorajamento para uma caminhada longa. Em seguida, temos ‘FIND YOUR WAY BACK’. O próprio nome se faz autoexplicativo: “Encontre seu caminho de volta”. Em trechos de passagens entre as músicas, Beyoncé introduz a próxima faixa falando sobre aspectos históricos e, até mesmo, sobre a história do Rei Leão e de exaltação a cultura africana. Especificamente nesta, a cantora fala sobre a construção da história e como ela molda o futuro do jovem. ‘DON’T JEAULOUS ME’ tem um ritmo mais dançante, entretanto, o paralelo que falei no início entre o antigo e moderno, se destaca aqui. As danças, as misturas entre as línguas de matriz africana e as vestimentas tomam ainda mais forma. A faixa de ‘NILE’ fala mais sobre o processo de negação da beleza que há em todo o descendente africano, e que, quanto mais escura for a pele, mas doce será, e que, quando se provoca as dores desse povo, mais difícil será de arrancar as raízes. Mostrando que tem saída, não há como torná-los separados e distintos. Beyoncé faz questão de mostrar o processo de confusão causado quando o negro era trazido para a América e colocado em uma cultura que não é a sua, sendo que gerações depois, eles não saberiam qual era o seu lugar, de fato, no mundo. “No final eu não sei qual é a minha língua materna. E se eu não posso me expressar, não posso pensar. E se eu não posso pensar, não posso ser eu mesmo. Se eu não posso ser eu, nunca me conhecerei. Tio Sam, conte-me uma coisa, se eu não me conheço, como você me conhece?”, termina a faixa do single ‘Nile’. O próximo é ‘MOOD 4 EVA’, contando sobre a espreitada dos inimigos que não nos reconhecem como povo legítimo. Mesmo mantendo-se bem arrumado para conseguir mais um dia de vida, acabou o momento de se nivelar aos demais, é preciso quebrar tabus a partir de agora. A faixa destaca que a era do medo acabou e ninguém mais pode apagar o brilho do povo negro. A música também traz referências aos can-

tores e ativistas negros, como Michael Jackson, Prince e Nelson Mandela. Jay-Z, que faz participação na música, termina dizendo que “nem sempre é uma batalha, mas uma conversa”. As faixas seguintes ‘JA ARA E’ e ‘ALREADY’, são sobre se reconhecer, manter a cabeça erguida onde não te querem, mostrar que você está ali e ali ficará. Duas faixas engrandecendo a beleza e o poder do “rei” que vive em cada um. ‘WATER’ é sobre força, vontade de chegar o mais longe que puder e ser inspiração para os que ficaram. “Nós sempre fomos maravilhosos. Eu nos vejo refletidos nas coisas mais sublimes do mundo. O negro é rei. Éramos a beleza antes que soubessem o que era beleza”, diz Beyoncé na faixa de ‘BRON SKIN GIRL’. O álbum visual ainda tem as faixas de ‘KEYS TO THE KINGDOM’, ‘OTHERSIDE’, ‘MY POWER’, ‘SPIRIT’ e encerra com ‘BLACK PARADE’, single lançado em meados de julho e que não estava integrado no álbum sonoro. “Seria um mundo melhor para nós se reis e rainhas percebessem que sermos iguais, compartilharmos espaços, ideias, valores, forças, fraquezas, nos equilibramos. É o jeito que nossos ancestrais faziam as coisas e esse é o jeito africano. A realeza em você está aí para que seja uma benção para os outros. Para você viver um legado que os outros admirem e encontrem esperança, força e cura.”, termina uma mulher dizendo. Fotos: Reprodução/ Disney+


EDIÇÃO N°1 - SETEMBRO 2020 Beyoncé já vem nesta mudança de caminho desde o álbum ‘LEMONADE’ (2016), no qual também fazia referências aos ancestrais africanos e a cultura do povo negro norte-americano. Esse álbum visual foi muito aclamado após o lançamento e críticos ao redor do mundo deram notas muito altas para o projeto assinado por ela, e que, por sinal, são muito merecidas. Críticos até disseram que “não há mais espaço para uma simples produção da cantora, ela chegou a outro nível”, “Projeto visual incomparável, impecável do começo ao fim”. “Beyoncé está em outro patamar da cultura pop”, acrescentou um crítico do The New York Times. A era do pop de entretenimento comercial talvez tenha acabado para a cantora, no entanto, a mudança de foco como uma cantora negra, influentemente forte no ramo da música, provavelmente fez com que sentisse a necessidade de tornar isso ainda maior nas lutas contra o racismo nos Estados Unidos e, principalmente, no mundo. Beyoncé conseguiu construir uma linha argumentativa excelente sobre o negro na história, unindo música, futurismo, audiovisual, cultura e moda, de forma nunca vista antes. De forma bem simples, Black is King não é para os ativistas mais velhos, é para as crianças e jovens que estão a procura do seu lugar no mundo. O álbum visual é para formar e dar vida ao passado que foi apagado entre as gerações, Black is King é para a construção do futuro e é muito mais que estampa de oncinha e pompas hollywoodianas.

Fotos: Reprodução/ Disney+

Ficha técnica

Direção: Beyoncé Knowles-Carter, Kwasi Fordjour e Emmanuel Adjei Disponível em: Disney+ Ano: 2020 Gênero: Álbum visual musical (Baseado na obra The Lion King: the gift) Duração: 85 minutos

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Notícia acessível, descontraída, universal e igualitária

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REVISTA CONECTADOS NEWS - EDIÇÃO N°1  

A equipe Conectados News reuniu nesta versão digital, todas as reportagens, artigos, resenhas e coluna sobre cultura pop e sociedade, desde...

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