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Prefeito da cidade de São Paulo Fernando Haddad Secretário de Coordenação das Subprefeituras — SMSP Francisco Macena da Silva Coordenação João Carlos Alves Supervisor Geral de Abastecimento Marcelo Mazeta Lucas Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional de São Paulo Edgar William dos Santos, Presidente Autorizado pelo Centro de Estudos e Pesquisas Josué de Castro

comusan Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional de São Paulo


É com muito prazer que apresentamos esta publicação contendo fragmentos do trabalho desenvolvido por Josué de Castro. Sem a pretensão de causar impacto, o conteúdo nos mostra como este brasileiro de valor inestimável, contribuiu com sua vida e obra na construção do Brasil equânime, na faceta da inclusão e do direito à vida. A Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional, projeto político atual construído coletivamente por militantes, estudiosos e trabalhadores, entre outros, teve como referência os trabalhos, estudos e pesquisas do “cidadão do mundo”, Josué de Castro, que já na década de 40, apontava veementemente com ideias revolucionárias e inúmeras obras, entre elas “Geografia da Fome”, que iluminava o cerne da questão, a fome, que ainda hoje assola mais de um bilhão de pessoas em todo mundo, segundo dados da FAO/ ONU! Josué peregrinou pelo Brasil denunciando a violação do primeiro direito do ser humano relatado em uma de suas obras “... O acesso à alimentação é um direito humano em si mesmo, na medida em que a alimentação constitui-se no próprio direito à vida. Negar este direito é, antes de tudo, negar a primeira condição para a cidadania que é a própria vida”. Os resultados do brilhante trabalho de Josué de Castro deixaram um legado de muitas conquistas já consolidadas em nosso pais, como a Política Nacional de Segurança Alimen-

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tar e Nutricional com vistas à garantia do Direito Humano a Alimentação Adequada e Saudável, a criação da Losan (Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional), a recriação do Consea Nacional, a inclusão da Emenda Constitucional 64, no artigo 6º da Constituição Federal como um dos direitos sociais do cidadão e a criação do Sisan (Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional) para pactuação com estados e municípios. A equipe da Supervisão Geral de Abastecimento se comprometeu com a tarefa de implementar o Programa de Segurança Alimentar e Nutricional na cidade de São Paulo. Para tanto, desenvolve um trabalho intersetorial e com diversos segmentos da sociedade, vislumbrando a oportunidade ímpar de um governo municipal comprometido com projetos que rompam barreiras da exclusão social. O desafio está lançado e convido a todos e todas para a leitura de experiências vivenciadas por Josué de Castro. Que estes fragmentos nos incentivem e aproximem na tarefa de concretizar a política de segurança alimentar e nutricional na cidade de São Paulo!

João Carlos Alves setembro de 2013

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Sumário Apresentação ...............................................................................3 Vida e Obra .................................................................................6 Geografia da Fome – O livro....................................................10 Textos Selecionados: A descoberta da Fome.........................13 Estratégia do Desenvolvimento...............................................19 A Formação Humana................................................................21 Fome e Paz..................................................................................25 Textos Selecionados: Geopolítica da Fome............................27 Outubro de 2003........................................................................29 Agradecimentos.........................................................................30


Vida e Obra Josué de Castro, cidadão do mundo Em 5 de setembro de 1908, nascia Josué Apolônio de Castro, filho único de Manoel Apolônio de Castro e de Josepha Carneiro de Castro, na cidade de Recife. O pai de Josué veio com a família de Cabaceiras, no alto sertão paraibano, durante a grande seca de 1877. Era proprietário de terras e mercador de gado e leite. Josepha Carneiro, também conhecida como “Dona Moça”, era filha de senhor de engenho da zona da mata pernambucana, e tornou-se professora em Recife. Pernambuco, naquela época, não apresentava diferenças consideráveis em relação ao restante do Nordeste brasileiro, ou seja, estagnado economicamente e com sua gente sofrida. A situação agravava-se em consequência das terríveis secas que se sucederam no final do século XIX. Só na grande seca de 1877 a 1879 morreram cerca de 300 mil pessoas. As secas continuaram se repetindo em 1888/89 e 1898/1900, afetando a população trabalhadora do sertão que completava três décadas de latifúndio e padecimentos. Com a produção paralisada e a economia em crise, restou aos trabalhadores desempregados a alternativa de migrarem para outras regiões do território brasileiro. Alguns buscaram a Amazônia e o Centro-Sul onde se desenvolviam as culturas da borracha e do café, respectivamente, enquanto outros permaneceram no Nordeste. Josué de Castro estudou em dois colégios tradicionais do Recife. No primeiro, não se adaptou à rígida disciplina e 6


tornou-se um aluno rebelde. No segundo, passou a interessar-se pelos estudos graças à influência do educador Pedro Augusto Carneiro Leão, sendo este, segundo Josué, a figura humana que mais influência teve em sua vida “Uma influência discreta, dissimulada, mas no fundo decisiva: a do educador Pedro Augusto Carneiro Leão, mestre insuperável de inúmeras gerações de pernambucanos, possuidor de uma penetração psicológica que lhe dava um domínio tranqüilo sobre a inquieta população de seus jovens alunos. Este grande pedagogo, profundo conhecedor da alma infantil não pretendeu dominar a fera pela força, quebrando-lhe o ímpeto selvagem com castigos, mas captar o seu interesse e desviar sua inquietação para objetivos mais nobres”. O amigo Otávio Pernambucano testemunhou o papel de mediador que Josué exerceu, entre o pai e a mãe que haviam se separado. “Ele e a Velha Moça adoravam-se. Com o Velho Neco toda cordialidade, prosa franca, mas um conflito latente – a mesa ali era farta e lá adiante bem pobre, tudo o que quisesse para si dava-lhe o pai, mas arengava para dar um pouco mais à Velhinha, àquele não era ilícito, mas aí estava o preço que o filho cobrava para aceitar a situação. Desconfiado de ardis, o pai queria saber o que ele fazia do dinheiro, com fundada razão, pois tinha de sobrar de tanto um tanto para a Velhinha, e assim era também depois, da mesada do estudante. Esse contraste entre a abastança por um lado e a miséria pelo outro, foi a constante de toda sua vida, doía, queimava-lhe a pele, deixou-lhe a marca”.

Os pais de Josué queriam que o filho estudasse me7


dicina. Josué iniciou, então, os estudos na Bahia, permanecendo por três anos, tendo concluído a Faculdade no Rio de Janeiro, em 1929, com 20 anos de idade. Durante o período em que estudou na Bahia, dois colegas que moravam na mesma pensão exerceram grande influência sobre Josué: Arthur Ramos e Theotonio Brandão . Ao ver um estudo de Arthur Ramos publicado nas páginas de “O Jornal”, o jovem Josué se sentiu motivado a escrever seu primeiro ensaio, A Literatura moderna e a doutrina de Freud, publicado na “Revista de Pernambuco”. O jovem Josué era extremamente vaidoso e para demonstrar erudição, saía à rua com o mais grosso de seus livros de estudo, conforme relata em seu diário e não via fronteiras sociais nem culturais que não pudessem ser ultrapassadas. Enfim, acreditava em sua inteligência e competência para conquistar o reconhecimento de seu trabalho. “Com Freud fui direto ao estudo da psiquiatria. Encantei-me com o achado que na Psiquiatria eu poderia relacionar a literatura com a medicina”. Aos poucos, o interesse por Freud foi diminuindo e começou a fase da poesia, quando teve publicados seus poemas no Diário da Manhã e na Revista de Antropofagia. Como muitos jovens artistas da época, foi influenciado pela Semana de Arte Moderna, ocorrida em 1922. Os seus inúmeros artigos e crônicas publicados na época de estudante, já revelavam a multiplicidade de interesses: ciência, literatura, pintura, cinema, temas abordados nesse período. 8


Em 1929, viaja para o México chefiando uma delegação de estudantes, por ocasião da posse do Presidente Pascual Ortiz Rubio, ex-embaixador no Brasil, deixando de comparecer na sua colação de grau. O Presidente Rubio, no dia da sua posse é ferido a bala, renunciando ao mandato dias depois. Do México, Josué segue para os Estados Unidos onde faz estágio por quatro meses na Universidade de Columbia e no Medical Center de Nova Iorque. De volta ao Recife, em 1934, o jovem médico e professor casa-se com sua ex-aluna, Glauce Rego Pinto, com quem teve três filhos: Josué Fernando, Anna Maria e Sonia.

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Geografia da Fome - O Livro Aos 38 anos de idade, Josué de Castro publica sua obra de maior repercussão, Geografia da fome, que foi traduzida em mais de 25 idiomas. Este livro, referência fundamental no estudo do tema, foi reconhecido com o Prêmio Pandiá Calógeras, da Associação Brasileira dos Escritores e com o Prêmio José Veríssimo, da Academia Brasileira de Letras. Assim, Josué explica o objetivo de seu trabalho: “Neste nosso ensaio de natureza ecológica tentaremos, pois, analisar os hábitos alimentares dos diferentes grupos humanos, ligados a determinadas áreas geográficas, procurando, de um lado, descobrir as causas naturais e as causas sociais que condicionaram o seu tipo de alimentação, com suas falhas e defeitos característicos, e, de outro lado, procurando verificar até onde esses defeitos influenciam a estrutura econômico-social dos diferentes grupos estudados. Assim fazendo, acreditamos poder trazer alguma luz explicativa a inúmeros fenômenos de natureza social até hoje mal compreendidos por não terem sido levados na devida conta os seus fundamentos biológicos”. O mapeamento do Brasil, a partir de suas características alimentares, deixou clara a trágica situação da fome no país, que não poderia mais ser atribuída a fenômenos naturais, mas aos sistemas econômicos e sociais que poderiam ser transformados para o benefício da população. A área do sertão nordestino é caracterizada por secas periódicas que levam seus habitantes ao limite da inanição. Esta área é denominada, por Josué, como área de fome epidêmica. Mais do que o clima, o maior problema é a falta de 10


recursos, de meios de transporte e de políticas públicas para a região. Já na região da zona da mata nordestina e grande parte do território brasileiro, a maioria da população sofre de uma fome permanente, com carências na alimentação cotidiana. Denominando este tipo de privação como fome endêmica, Josué também demonstra como a carência de alimentos abriga doenças que se instalam facilmente em organismos enfraquecidos, tais como beribéri, pelagra e raquitismo e de modo mais sutil, a insuficiência de proteínas, minerais e vitaminas se revelam por lassidão, irritabilidade, nervosismo ou falta de apetite. Se a falta total de alimentos constitui uma causa importante da mortalidade, o número é diminuto comparado às debilidades que o regime alimentar defeituoso provoca. Para explicar a fome no Brasil e ações para combatê-la, devemos considerar o desequilíbrio causado pelo crescimento industrial em detrimento da, ainda, estrutura arcaica da agricultura, mais a economia centrada em grupos econômicos estrangeiros. Esta situação se perpetua desde o colonialismo até o atual neo-colonialismo do capital internacional. “É mesmo esta a característica essencial do desenvolvimento econômico do tipo colonialista, bem diferente do desenvolvimento econômico autêntico de tipo nacionalista. O colonialismo promoveu pelo mundo certa forma de progresso, mas sempre a serviço dos seus lucros exclusivos, ou quando muito associado a um pequeno número de nacionais privilegiados que se desinteressavam pelo futuro da nacionalidade, pelas aspirações políticas, sociais e culturais da maioria. Daí o desenvolvimento anômalo, setorial, limitado a 11


certos setores mais rendosos, de maior atrativo para o capital especulativo, deixando no abandono outros setores básicos, indispensáveis ao verdadeiro progresso social”. Com este importante trabalho, Josué de Castro demonstrou ser possível estabelecer uma ciência que teria por objeto de estudo os problemas específicos de países subdesenvolvidos. Ciência esta capaz de explicar a situação real destes países, sem recorrer aos mitos de inferioridade racial, de fatalismo ou de determinismo geográfico. Josué já apontava, também, a necessidade de transformar a estrutura agrária para aumentar a oferta de alimentos, fortalecendo o mercado interno.

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Textos selecionados de Josué de Castro

“Eu sonho sonhos distantes, em barcos ausentes, velozes, ondeantes, paisagens vivas, longe, diferentes. Eu sonho sempre. Sonho… “ [Fragmento de poesia de autoria de Josué escrita em 1928.]

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A Descoberta da Fome “Criei-me nos mangues lamacentos do Capibaribe cujas águas, fluindo diante dos meus olhos ávidos de criança, pareciam estar sempre a contar-me uma longa história. O romance das longas aventuras de suas águas descendo pelas diferentes regiões do Nordeste: pelas terras cinzentas do sertão seco, onde nasceu meu pai e de onde emigrou na seca de 1877 com toda a família, e pelas terras verdes dos canaviais da zona da mata, onde nasceu minha mãe… Esta era a história que me sussurrava o rio com a linguagem doce de suas águas passando assustadas pelo mar de cinza do sertão, caudalosas pelo mar verde dos canaviais infindáveis e remansosas pelo mar de lama dos mangues, até cair nos braços do mar de mar. Eu ficava horas e horas imóvel sentado no cais, ouvindo a história do rio, fitando as suas águas correrem como se fosse uma fita de cinema”. A Baba da Fome “E vi, também, os homens sentados na balaustrada do velho cais a murmurarem monossílabos, com um talo de capim enfiado na boca, chupando o suco verde do capim, e deixando escorrer pelo canto da boca uma saliva esverdeada que me parecia ter a mesma origem da espuma dos caranguejos: era a baba da fome. Pouco a pouco, por sua obsessiva presença, este vago desenho da fome foi ganhando relevo, foi tomando forma e sentido em meu espírito, Fui compreendendo que toda a vida dessa gente girava sempre em torno de uma só obsessão – a angústia da fome. A sua linguagem era uma linguagem que quase não fazia alusão a outra coisa. A sua gíria era sempre carregada de palavras evocando comidas. As comidas que desejavam com desenfreado apetite. A propósito de tudo se dizia: é uma sopa, é uma canja, 14


é pão - pão, queijo - queijo. Era como se essa gíria fosse uma espécie de compensação mental de um povo sempre faminto. De um povo de barriga vazia, mas com a cabeça cheia de comidas imaginárias. É que a comida lhes havia subido à cabeça, como o sexo sobe à cabeça dos impotentes, estes famintos de amor.” “Os mangues do Capibaribe são o paraíso dos caranguejos. Se a terra foi feita para o Homem, com tudo para bem servi-lo, o mangue foi feito especialmente para o caranguejo. Tudo aí é, foi ou está para ser caranguejo, inclusive a lama e o homem que vive nela. A lama misturada com a urina, excremento e outros resíduos que a maré traz, quando ainda não é caranguejo, vai ser. O caranguejo nasce nela, vive dela. Cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fazendo com a lama a carninha branca de suas patas e a geleia esverdeada de suas vísceras pegajosas. Por outro lado, o povo daí vive de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber os seus cascos até que fiquem limpos como um copo. É com a sua carne feita de lama que fazem a carne do seu corpo e a carne do corpo de seus filhos. São cem mil indivíduos, cem mil cidadãos feitos de carne de caranguejo. O que o organismo rejeita, volta como detrito para a lama do mangue para virar caranguejo outra vez. Nesta placidez de charco, identificada, unificada no ciclo do caranguejo, a família Silva vai vivendo, como uma das etapas do ciclo maravilhoso. Cada elemento da família marcha dentro desse ciclo de miséria até o fim, até o dia de sua morte. Nesse dia os vizinhos piedosos levarão aquela lama que deixou de viver, dentro de um caixão para o cemitério de 15


Santo Amaro, onde ela seguirá as etapas do verme e da flor. Etapas cheias de uma poesia que o mangue não comportaria. Parte-se, aparentemente, nesse dia, o ciclo do caranguejo, mas os parentes e os descendentes do morto derramam caridosos as suas lágrimas no mangue, para alimentar a lama que alimenta o ciclo do caranguejo” “Comecei a trabalhar numa grande fábrica e a verificar que os doentes não tinham uma doença definida, mas não podiam trabalhar. Eram acusados de preguiça. No fim de algum tempo compreendi o que se passava com os enfermos. Disse aos patrões: sei o que meus clientes têm. Mas não posso curá-los porque sou médico e não diretor daqui. A doença desta gente é fome. Pediram que eu me demitisse. Saí. Compreendi, então que o problema era social. Não era só do Mocambo, não era só do Recife, nem só do Brasil, nem só do continente. Era um problema mundial, um drama universal”. 1930. “O tema deste livro, Homens e Caranguejos, é a história da descoberta da fome nos meus anos de infância, nos alagados do Recife, onde convivi com os afogados deste mar de miséria. Procuro mostrar neste livro de ficção que não foi na Sorbonne, nem em qualquer outra Universidade sábia que travei conhecimento com a fome. O fenômeno da fome se revelou espontaneamente a meus olhos nos mangues do Capibaribe, nos bairros miseráveis da cidade do Recife. Afogados, Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite e tantos outros. Esta é que foi minha Sorbonne”. 16

“não é só agindo sobre o corpo dos flagelados, roen-


do-lhes as vísceras e abrindo chagas e buracos em sua pele, que a fome aniquila a vida do sertanejo, mas, também, atuando sobre seu espírito, sobre sua estrutura mental, sobre sua conduta social. Nenhuma calamidade é capaz de desagregar tão profundamente e num sentido tão nocivo a personalidade humana como a fome” Prefácio Geografia da Fome - 1946 “o maior absurdo de nossa sociedade é termos deixado morrer centenas de milhões de indivíduos de fome num mundo com capacidade quase infinita de aumento de sua produção e que dispõe de recursos técnicos adequados à realização desse aumento”. Em 1963 escreveu “Nunca se falou tanto sobre a fome no mundo. É um assunto que está na ordem do dia. Parece até que antigamente a fome não existia e que esta calamidade só veio ao mundo no século XX. Mas esta é uma falsa impressão.” “Na realidade, a fome sempre existiu perto da riqueza e da abundância. O que é novo no mundo é a consciência que os povos famintos têm da realidade social e da sua condição, e a impaciência que estes povos famintos experimentam para se libertar de sua fome e de sua miséria.” “Foi a tomada de consciência dos povos ditos subdesenvolvidos – povos famintos – diante das desigualdades sociais e dos desequilíbrios econômicos do mundo, que colocou o problema da fome na ordem do dia da imprensa mundial tanto falada como escrita, das reuniões plenárias dos congressos, dos discursos políticos, dos grandes encontros interna17


cionais.” “Um dos fatores mais constantes e mais reais das terríveis tensões sociais reinantes é o desequilíbrio econômico do mundo, com as desigualdades sociais que dele nascem.” “A desigualdade econômica é a causa fundamental de inúmeras outras formas de desigualdade entre os grupos humanos, atribuídas comumente aos fatores raciais ou climáticos. “Esta nova filosofia de ação parte das seguintes premissas: a fome é a expressão biológica do complexo do subdesenvolvimento econômico e a luta contra a fome se expressa, em última análise, na luta contra o subdesenvolvimento.”

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Estratégia do desenvolvimento “O problema do subdesenvolvimento não é exclusivo ... é um problema universal, que só pode ter soluções igualmente em escala universal. Viver na opulência num mundo em que 2/3 estão mergulhados na miséria, não é apenas perigoso, é crime. A tensão social na qual se vive hoje é, na maior parte das vezes, o produto desta conhecida injustiça social... a explosão psicológica dos povos explorados, não é menos perigosa do que a explosão atômica.” “não podemos viver num mundo partilhado por 2/3 que não comem e, tendo consciência das causas de sua fome, se revoltam, e 1/3 que come bem – às vezes demais – mas que já não dormem com medo da revolta dos 2/3 que não comem”. “...A tarefa é imensa, mas impõe-se pela urgência. Assistiremos nos anos futuros, ou à integração econômica do mundo, ou à desintegração física do planeta. A paz depende mais do que nunca do equilíbrio econômico do mundo. A segurança social do homem é mais importante do que a segurança nacional baseada nas armas... A luta contra o subdesenvolvimento far-se-á durante muito tempo num regime de penúria, pelo que é necessário planificar para organizar esta penúria de forma a obter o máximo de benefícios em matéria de desenvolvimento. Isto implica, antes de mais nada, uma nova consciência política mundial de que o problema do subdesenvolvimento é um problema comum a todos os países do mundo.” 19


“...os países subdesenvolvidos desconfiam muito dos capitais especulativos que não são dirigidos no sentido do interesse do desenvolvimento global, mas do interesse setorial de certos produtos e certos grupos que recolherão os benefícios. Os investimentos devem ser feitos em obediência a verdadeiros planos de desenvolvimento econômico, concebidos em função do interesse dos povos que vão participar na realização destes planos.” “Outro aspecto importante na estratégia global é o da fixação dos limites entre as obrigações dos países receptores de capitais de reinvestir os benefícios em seu próprio desenvolvimento e elevar o nível de consumo de suas populações. Cada país deve ter o direito de estudar o problema à luz de sua situação social e estabelecer as normas compatíveis com a tolerância biológica e psicológica da sua massa humana...aliás, quem diz planos diz disciplina em matéria de desenvolvimento e esta disciplina impõe regras às quais devem obedecer as duas partes.” “Na estratégia de desenvolvimento não podemos limitar-nos a conceber planos a curto prazo, mas também a fazer prospectiva, ou seja, planificação a longo prazo. Isto não quer dizer que se deva fazer profecias ou vaticínios, mas a análise prospectiva que permite estabelecer os futuros possíveis e desejáveis, e trabalhar para construí-los...”

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A Formação Humana “Na minha opinião, uma das mais altas prioridades para o terceiro Mundo é a formação humana, a formação de homens responsáveis e capazes de por em ação esta estratégia global...é necessário preparar este tipo de homem....” “Nesta nova cultura, a ciência e a técnica terão certamente um grande papel a desempenhar, mas elas não podem ser as únicas componentes desta cultura. Existem muitos outros valores que são igualmente importantes. É preciso não esquecer que ciência não é sabedoria. A ciência é o conhecimento. A sabedoria implica o conhecimento e o juízo. E sobre este ponto – o do juízo dos valores – estamos muito longe de possuir uma idéia clara das hierarquias dos fatores a serem acionados para construir uma estratégia global do desenvolvimento que não separe o econômico do humano, mas que, pelo contrário, considere o homem, os grupos humanos, toda a humanidade, como objetivo final do desenvolvimento… É esta nova ótica do desenvolvimento – a do ensino, da educação e da formação humana- que deve constituir o investimento prévio e seguramente o mais rentável para desencadear o impulso do desenvolvimento...” “A simples transferência de cultura – isto é, as utopias de exportação em matéria de educação – jamais podem pôr à disposição um meio de formação de tipos de homens de que o Terceiro Mundo tem necessidade para desenvolver a sua economia num sentido humano que respeite as raízes culturais destes povos. Cada vez se pergunta com mais insistência se desenvolver-se significa desumanizar-se, nesta frenética busca de riqueza, de acordo com a fórmula preconizada 21


pelo Ocidente de maximizar os lucros em vez de maximizar as energias mentais que enriquecem com mais rapidez a vida dos homens e podem dar-lhes muito mais felicidade. Procurar encontrar o meio de integrar os valores científicos e tecnológicos no patrimônio dos valores representativos de outras civilizações não ocidentais – eis o único meio de desenvolver o mundo com equilíbrio, e não sob o signo perigoso de uma dominação que provoca em toda parte a revolta. Uma educação que liberte o homem, eis ao que aspiram os povos do Terceiro Mundo. E isto supõe uma pedagogia de liberdade que os liberte da dominação da Natureza, mas também da dominação de outros grupos humanos – de todos os tipos de dominação. Quer isto dizer que é preciso educá-los para se libertarem econômica, política e espiritualmente. Ora, o que se fez até agora nos países do terceiro mundo está muito longe de atingir esses objetivos. Até hoje, a cultura representa, nestes países, um privilégio, um prolongamento dos outros privilégios das minorias dominantes.” “Na maioria dos países em via de desenvolvimento, não se alcança sequer a cifra de 1% de jovens que têm acesso à universidade, e a universidade nestes países, é, em geral, um simples aparelho de repetição de uma falsa cultura de importação em que são formadas as elites… Sai-se destas universidades com uma mentalidade pré fabricada para aceitar e defender o status quo gerador destes privilégios que é necessário defender a todo custo, mesmo pagando o preço do subdesenvolvimento e da servidão nacionais. Trata-se, pois, de um tipo de cultura eminentemente antidemocrática. […] Ministrar um tipo de educação popular seria desencadear um movimento irreversível de transformação social, ao qual se 22


oporiam as minorias dominantes, hostis às idéias de reformas educacionais válidas. Os verdadeiros reformadores dos métodos de ensino de numerosos países subdesenvolvidos são vistos como elementos perigosos, subversivos da ordem estabelecida, perigosos para a manutenção destas democracias sem povo, em que um punhado de homens deve tudo saber e tudo dirigir, e as massas devem tudo ignorar e obedecer sempre.” “Face à crise aguda que atravessa o Ocidente, sempre centrado sobre uma economia de guerra, somos levados a pensar que é necessário conceber, para os países novos, uma formação humana centrada fundamentalmente sobre uma economia de paz. Mas, para aí chegar, será preciso mobilizar a opinião pública com métodos modernos de comunicação de massa, capazes de criar uma cultura de massa dinamizada por uma ideologia de igualdade. Esta mobilização da opinião pública só se pode fazer utilizando meios de intercomunicação, que são muito diferentes dos métodos de informação unilaterais pelos quais os informadores não deixam filtrar à massa senão os conhecimentos e as idéias que interessam ao grupo dominante...” “O subdesenvolvimento é uma forma de subeducação. De subeducação, não apenas do Terceiro Mundo, mas do mundo inteiro, para acabar com ele, é preciso educar bem e formar o espírito dos homens, que foi deformado por toda parte. Só um novo tipo de homens capazes de ousar pensar, ousar refletir e de ousar passar à ação poderá realizar uma verdadeira economia baseada no desenvolvimento humano e equilibrado. 23


“ Hoje o homem é o dinossauro do século XX, e a comparação não é descabida, porque vocês podem ver nos museus os esqueletos dos dinossauros, e poderão constatar vendo seus esqueletos, que se tratava de um animal muito grande, com a cabeça muito pequena: pensava pouco, como o homem do século vinte.”

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Fome e Paz “Não se chegará jamais à paz com um mundo dividido entre a abundância e a miséria, o luxo e a pobreza, o desperdício e a fome. É preciso acabar com esta desigualdade social. O mundo tem recursos suficientes para nutrir uma população muito mais densa do que a população atual. A natureza não é ingrata, ela tem recursos suficientes, ela é boa, ela é generosa. Aqueles que não têm sido muito generosos são alguns grupos humanos que se apoderaram dos recursos naturais e fizeram uma divisão destes recursos de forma injusta e ilegal...vivemos num mundo de abundância em meio à miséria.” “Quanto ao modo como devemos agir, nós ainda não sabemos. Mas é preciso começar a agir. E isto é necessário, pois não temos uma grande esperança nos homens da política, nos políticos. Talvez porque o problema já tenha saído de suas mãos! Quando se perguntou a Einstein porque se iniciou a construção da bomba atômica com relativa facilidade, quando encontramos tanta dificuldade para o seu controle, ele respondeu que talvez tenha sido porque a política é muito mais difícil do que a física. Então, como a política é tão complicada, comecemos pelo mais simples, pela ação dos homens de ciência.” “Há dois caminhos à nossa frente: o caminho do pão e o caminho da bomba. É preciso escolher rápido. Eu quero simbolizar pelo caminho do pão, este da justiça social, para 25


dar pão a todas as pessoas do mundo, evocando o banquete da terra para os dois terços que estão à margem, que não recebem senão em alguns intervalos algumas migalhas da mesa dos ricos. É preciso que nosso mundo nos integre verdadeiramente. Eu acredito que já é passado o tempo em que as pessoas pobres podiam se conformar segundo a frase das Escrituras: “aos pobres é reservado o reino dos céus”. Agora, devemos pensar que aos pobres deve também ser reservado o reino da terra, pois a terra é para todos os homens e não só para um grupo de privilegiados. E se não trabalharmos por toda a parte com energia, para nos desviarmos do caminho da bomba, seremos uma vez mais expulsos da terra, perderemos não apenas o reino dos céus, mas também o reino da terra.” Na expressão de Josué de Castro no trabalho Fome como Força Social – Fome e Paz: “Acalmar a fome do mundo é a política mais sadia para aplacar a fúria guerreira que sopra neste momento, como uma terrível tempestade, sobre a superfície deste mundo ameaçando-o com um novo tipo de erosão: a erosão total da magnífica obra humana que as sucessivas civilizações esculpiram sobre a terra.”

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Textos Selecionados (Geopolítica da Fome) 1 – A história da humanidade tem sido, desde o princípio, a história de sua luta pela obtenção do pão nosso de cada dia. Parece, pois, difícil explicar e ainda mais difícil compreender o fato singular de que o homem – este animal pretensiosamente superior, que tantas batalhas venceu contra as forças da natureza, que acabou por se proclamar seu mestre e senhor – não tenha até agora obtido uma vitória decisiva nesta luta por sua própria subsistência. (Capítulo 1 – O Tabu da Fome) 2 - Foram fatores de natureza econômica especial que esconderam aos olhos do mundo feias tragédias como a da China, onde durante o século XIX, cerca de 100 milhões de indivíduos morreram de fome, por falta de um punhado de arroz, ou como a da Índia, na qual 20 milhões de vidas humanas foram destruídas por esse mesmo flagelo, nos últimos 20 anos do século passado. (Fome e Imperialismo Econômico) 3 – Nessas especulações sobre a fome mundial dois tipos de teorias aparecem que, a nosso ver representam verdadeira ameaça para o futuro da humanidade, por isso que falseiam a realidade social do problema: as que tentam provar que a fome coletiva é um fenômeno natural e irremediável e as que apresentam como única salvação o controle forçado da natalidade, para retardar o crescimento da população do mundo. (Abundância e Mesquinhez da Natureza) 4 – Muito mais grave do que a erosão da riqueza do solo que se processa em câmara lenta, é a violenta erosão da riqueza humana, é a inferiorização do homem provocada pela 27


fome e pela subnutrição. (A Fome e a Erosão do Potencial Humano) 5 – O objetivo deste livro é estudar o terrível fenômeno da erosão que a fome está provocando no homem e na civilização. Erosão que ameaça remover e apagar de vez, da superfície da Terra, toda essa gigantesca obra humana esculpida pelo trabalho árduo de centenas de sucessivas gerações. Se a humanidade não puser em prática, com urgência, em escala universal, medidas capazes de entrave à ação corrosiva da fome, dentro em breve serão desmoronadas e arrastadas pela poeira do tempo todas as criações do engenho humano. (A Fome e a Erosão do Potencial Humano) 6 – Chegamos, então, ao ponto crucial do nosso ensaio, que é aquele em que tentaremos demonstrar que não é a superpopulação que cria e mantém a fome em certas áreas no mundo, mas que é a fome que origina a superpopulação. (A Fome – Causa da Superpopulação) 7 – A fome constitui um fenômeno de extrema variabilidade. No emaranhado e policromo desenho da fome universal, podemos divisar surpreendentes matizes; desde os mais impressionantes, da fome total, da completa inanição, transformando suas vítimas em verdadeiros espectros vivos, até os tipos mais discretos das fomes ocultas ou específicas, atuando sorrateiramente, quase sem sinais aparentes. (Os matizes da Fome) 8 – Poucos fenômenos têm interferido tão intensamente na conduta política dos povos, como o fenômeno ali28


mentar, como a trágica necessidade de comer; daí, a viva e crua realidade de uma Geopolítica da Fome. (Prefácio da 1ª Edição) 9 – Certamente, em alguns trechos deste livro o leitor poderá sentir certa paixão nas palavras do autor, mas é a paixão pela verdade, que é a poesia da ciência. Paixão pelos problemas humanos em sua totalidade e em sua universalidade. (O Homem Acima dos Partidos) 10 – O primeiro de nossos objetivos é demonstrar que a fome apesar de constituir fenômeno universal, não traduz uma imposição da natureza. Estudando a fome em diferentes regiões da Terra, poremos em evidência o fato de que, via de regra, não são as condições naturais que conduzem os grupos humanos à situação de fome, e sim certos fatores culturais, produtos de erros e defeitos graves das organizações sociais em jogo. (A Fome – Praga fabricada pelo Homem) Outubro de 2003

“Vou ficar aqui. JOSUÉ DE CASTRO está, com um atrevimento que merece sucesso, atravessando uma mata cheia de encanto e de mistério confuso. Chegando do outro lado, deixou, nas pegadas, a picada que a marcha fará uma estrada real. Volumosa é a sua tarefa. Desejo intelectual onde a imaginação pouco colabora: Muito livro para ler, muito mundo para ver, muito escuro para clarear. Este é um livro que anuncia dedicação digna de um homem que ama o seu País sabendo a verdade.” (Luiz Câmara Cascudo) 29


Agradecimentos:

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Anna Maria de Castro Centro de Estudos e Pesquisas JosuĂŠ de Castro


Diagramação Gustavo Torrezan Capa Gustavo Torrezan a partir de fragmento de desenho de Luciana Camuzzo Organização João Carlos Alves e Marcelo Mazeta Lucas Revisão Fátima D’Agostino e Luciane Buk Tipografia Minion Pro Impresso em Papel offset branco 90g/m2 2013


A equipe da Supervisão Geral de Abastecimento se

comprometeu com a tarefa de implementar o Programa de Segurança Alimentar e Nutricional na cidade de São Paulo. Para tanto, desenvolve um trabalho intersetorial e com diversos segmentos da sociedade, vislumbrando a oportunidade ímpar de um governo municipal comprometido com projetos que rompam barreiras da exclusão social.

O desafio de romper as barreiras está lançado e

convido a todos e todas para a leitura de experiências vivenciadas por Josué de Castro.

Que estes fragmentos nos incentivem e aproximem

na tarefa de construir a política de segurança alimentar e nutricional na cidade de São Paulo!


Josué de Castro - pensamento e trabalho