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opinião

ARTISTAS QUE INTERPRETAM SORRISOS

Espetáculo da diversão

FALA PROFESSOR

FALA LEITOR

Profissionalismo, tradição e respeito impulsionam a arte das lonas do circo

Tratar o circo como mera diversão seria um desrespeito. Há uma riqueza de tradições que retrata a incessante luta diária pelo espetáculo, e pela arte de envolver o público a partir de pequenos detalhes visuais e truques sentimentais. É o que tentaremos demonstrar ao longo das correntes páginas, um mundo escondido sob as capas da admiração. Pelas ruelas encontramos diversos artistas. Seja imitando a elasticidade de uma estátua, seja interpretando truques de mágica, animando idosos e enfermos, rubricando desenhos em quadros ou aproveitando objetos para sua apresentação. Todos inspirados em velhos artistas de trupes, nômades em sua origem e que divulgam seu encanto pelas mais variadas praças mundo afora. Fazer circo é um compromisso constante com a diversão. Em contrapartida, enxergamos o circo como empreendimento, visando angariar público e melhorar suas instalações, fazendo com que, nas palavras da atriz Annie

Fratellini, o circo faça escola. Circo, por si, é profissionalismo e prática. A educação circense é voltada à arte de entreter e minimizar a distância entre a timidez e a simplicidade de um

abraço. Não há nada que pague a alegria de uma criança assistindo ao improvável, antes inventado pela televisão através dos desenhos infantis. Não há o que pague o equilíbrio entre a ficção inventada e a realidade circense.

A educação atravessa gerações e ensina desde pequenos os mais delinquentes a se interar com outras histórias, pessoas, e o respeito pelos animais e pelo público enquanto sociedade. Do circo tiramos histórias que levamos para a vida. A superação como marco, a improvisação que possuímos quando acontece o inesperado e a luta por trazer aos outros a capacidade guardada e conquistada ao longo do tempo. Da aprendizagem na lona às peripécias dos palhaços – por natureza figuras misteriosas que amedrontam e emocionam os mais atentos. Das típicas improvisações aos voos com cordas, balanços e histórias incríveis. O circo das motocicletas, dos mágicos, das bailarinas, do fogo e dos golpes com água. De lá, tiramos contos e vontades, e nos sentimos num teatro dos sonhos, venerando cada momento de destreza como o início de uma experiência sem fim. Eriksson Denk

OMBUDSMAN: TRABALHO MERECE MUITOS MÉRITOS

Boas pautas e um olhar diferenciado abastecem um Comunicare alternativo A edição 164 do Comunicare começou bem - com a escolha do tema. As pautas propostas e a diversidade de assuntos resultaram em um ótimo “guia” para quem quiser se aventurar pela cidade e região. Ótimas dicas foram apresentadas. Muito interessante a entrevista com o “Urbenauta” e também a matéria sobre os rachas, em “Política”, para citar dois entre muitos bons exemplos. Problemas com hifenização e vírgulas foram constantes. Sei, por experiência, que estes fatores são difíceis de controlar, mas não podemos relaxar na revisão. Ler novamente o texto, mais que uma vez, ajuda a identificar pequenos deslizes. Acredito também que vale um alerta so-

bre a utilização de nomes de empresas em títulos de matéria que divulgam, mesmo que indiretamente, um serviço ou produto. Isso só deve ser feito quando a empresa é realmente o assunto principal. Da forma apresentada, a matéria perdeu credibilidade. Gostei muito da apuração das informações nas matérias da editoria “Esportes”, pois realmente agregaram valor ao texto. O contrário aconteceu em outras situações, em que a entrevista rendeu frases como “é muito legal” e “é muito bacana”. Vamos lembrar que declarações servem para sustentar uma idéia ou expor uma opinião consistente. Espero que meus colegas jornalistas encarem as obser-

vações como um processo de construção e de constante aperfeiçoamento. O trabalho realizado nesta, e em todas as edições do Comunicare, merece muitos méritos. Conheço de perto o empenho dos envolvidos e garanto - todos os alunos que passam por este laboratório saem da faculdade com muito mais subsídios para trabalhar em uma redação. Parabéns e sucesso a todos os alunos que fazem o Comunicare. Viviane Busato, assessora de imprensa da agência Literal Link, Comunicare 2004 e 2006

entrevista

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A BUSCA PELOS GINASTAS OLÍMPICOS MAIS PREPARADOS ALIADOS A EXERCÍCIOS QUE DESAFIAM A FÍSICA

Cirque du Soleil é destino de ex-ginastas Biotipo exato, facilidade em aparelhos específicos e domínio de outro idioma fizeram Camila Comin ir da ginástica para Circo

“Comunicare contribui para conhecermos mais sobre questões e situações que permeiam nosso cotidiano e não são retratados nos principais meios de comunicação”

“O jornal Comunicare Programas Alternativos nos traz diversas maneiras de aproveitar a cidade desvendando lugares pouco conhecidos do público em geral”

Christian Luiz da Silva, professor de Economia da PUCPR e UNIFAE

Gabriel F. Weihermann, estudante de Administração da UNIFAE

EXPEDIENTE

Jornal Laboratório da Pontifícia Universidade Católica do Paraná

Edição nº165 – Manhã - Junho 2009 PUCPR EDITORES

Rua Imaculada Conceição, 1.155 Prado Velho – Curitiba – PR Reitor Prof. Dr. Clemente Ivo Juliatto Decano do CCJS Prof. Roberto Linhares da Costa Decano adjunto do CCJS Prof. Marilena Indira Winter Diretora do curso de Comunicação Social Prof. Mônica Fort COMUNICARE Jornalista responsável Prof. Zanei Barcellos DRT-1182-07-93 Coord. do projeto gráfico Profª. Queila Regina Souza

Primeira página Armando Sagula Opinião Eriksson Denk Entrevista William Saab Geral/Cidade Gustavo Prestini Educação Jonathan Seronato Esportes Ruann Jovinski Sociedade Rafael Peroni Comportamento Cássio Barbosa Bábylla Miras Meio Ambiente Bruna Gomes Internacional Milena Vicintin Comunicação Luiz Henrique de Oliveira Segurança Daniel Neves

NOSSA CAPA “A foto retrata a imagem de um palhaço, e foi capturada em uma das visitas ao circo Di Napoli. Representa um convite ao espetáculo Comunicare e às apresentações circenses a serem realizadas na divulgação. Foto: Rafael Peroni. Arte: Armando Sagula”

ERRATA: Na última edição publicamos o cargo do estudante Gustavo Pagnocelli como presidente do Centro Acadêmico de Comunicação, quando na verdade este é presidente do Diretório Central Estudantil.

A troca de ginásios por picadeiros. Essa foi a decisão da exginasta e hoje artista do Corteo, um dos espetáculos do Cirque de Soleil, Camila Comin. Apesar de paulista, Camila morou em Curitiba desde os cinco anos, onde ficou até os 23, quando se mudou para Montreal, Canadá, sede da maior companhia circense do mundo. Quando atleta, integrou a seleção brasileira de ginástica. Conquistou medalhas em etapas da Copa do Mundo e foi a duas Olimpíadas, Sidney e Atenas, tendo conquistado na Grécia um honrosos 16º lugar na final do individual geral, prova em que reúne as ginastas que realizam bem todos os aparelhos. Hoje, com o espetáculo em turnê no Japão, Camila enfrenta dez espetáculos em uma semana, rotina tão puxada quanto na época de seleção. Ela discorda do preço dos ingressos no Brasil, mas sabe da responsabilidade que tem de estar num seleto grupo de artistas de ponta que roda o mundo. Comunicare: Como surgiu o convite para entrar no Cirque du Soleil? Camila: O Cirque du Soleil assiste a todas as etapas do campeonato mundial. Eles colocam olheiros para observar as disputas. Esses olheiros analisam os atletas que se encaixam no perfil que o circo precisa. Em 2000, em Sidney, o pessoal do circo me convidou para ingressar, mas naquela época eu ainda queria continuar na ginástica. Em 2004, em Atenas, eu encontrei o pessoal do circo nas Olimpíadas e me sugeriram fazer um teste em São Paulo. Eu fiz e passei. Comunicare: Qual foi o critério usado para que você fosse escolhida? Camila: Antigamente, era mais fácil entrar no circo, pelo fato de que não era uma empresa grande, ou seja, não era tão concorrido. Currículo conta muito, porque dentro do espetáculo, são todos ginastas. A exigência era que o atleta escolhido fosse um ginasta de alto rendimento. Fiz também um teste artístico para mostrar minhas emoções no

Corteo

Divulgação

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Curitiba, junho de 2009

São duas horas de treino para dez shows durante a semana

palco. Saber falar outra língua também me ajudou. Quando eles vão fazer um teste, há um perfil completo, cor de pele, altura, peso, especialidades. O meu ato no espetáculo é trapézio, então o escolhido teria que ser bom nas barras, que é muito similar. Comunicare: Como foi a ambientação dentro do Circo? Camila: No início foi complicado, porque eu passei por uma transição de ginasta para artista. Cheguei a Montreal, recebi a história do show, o que eu deveria representar no espetáculo e o modo como eu demonstraria para o público.

mento, que no Brasil o ginasta não consegue. Comunicare: Há previsão para o Corteo vir ao Brasil? Camila: O Cirque du Soleil tem planos para montar um espetáculo fixo no Brasil. Ainda está em processo de pesquisa, pelo fato de ser um investimento muito grande. O Corteo começou a turnê no Canadá, e depois foi para os EUA, já que todos os espetáculos têm como o primeiro país os Estados Unidos, pelo fato de ser rico e populoso. Depois viemos ao Japão. Vamos à Austrália, Europa e depois disso iremos ao Brasil, provavelmente em 2012.

“Aqui o atleta tem o reconhecimento que no Brasil não consegue”

Comunicare: Existem mais brasileiros no Corteo? Quantos artistas estão no espetáculo? Camila: Somos 62 artistas no total, sendo quatro brasileiros. Aqui o atleta tem um reconheci-

Comunicare: O Cirque du Soleil tem um nível acima dos convencionais. Por que esse diferencial? Camila: Eles procuram mostrar

A história do Corteo é sobre a morte de um palhaço e o desenrolar de seu funeral. Ao longo do espetáculo, a vida do palhaço é contada de forma poética e mágica, desafiando a lei da gravidade. Todos os passos dele enquanto vivo são representados. Sua infância, suas aventuras, seu trabalho e, finalmente, a sua morte. Todos os conhecidos do palhaço se encontram no momento em que ele está entre o céu e a terra. Ao todo, são 62 artistas no espetáculo. Com Camila Comin, o número de brasileiros é de quatro.

as coisas mais interessantes para o público, porque circo todo mundo já foi. Trapézio todo mundo já viu alguma vez. Então eles escolhem as coisas mais diferentes, com as pessoas mais preparadas, porque aí que está o diferencial do Cirque de Soleil. Comunicare: O teu treinamento mudou muito de ginasta para artista circense? Camila: Mudou basicamente a intensidade. Antes, eu treinava mais e competia menos. No circo é ao contrário. Eu me apresento dez vezes por semana e treino três no máximo, durante duas horas. Não estou em competição com ninguém. Tenho que procurar ter o melhor retorno do público nos shows. Comunicare: Sempre foi seu sonho entrar pra companhia? Camila: Eu assisti o primeiro show quando eu tinha 12 anos. Meu primeiro sonho era ir para as Olimpíadas, o segundo era ir para o Cirque de Soleil. Veio a chance, fiz o teste e passei. Tive a oportunidade de vir pra cá estender um pouquinho mais

minha carreira de ginasta. Tinha acabado de terminar a faculdade. Ou eu ia ser técnica ou eu ia começar outra profissão. Não teve uma melhor oportunidade. Comunicare: O que você acha do preço dos ingressos no Brasil? Camila: Eu acho que 400 reais, eu não pagava. Aqui nos EUA você compra ingresso por 40 dólares. No Brasil, eles fazem o preço de acordo com a moeda americana. Quando O “Alegria” foi para o Brasil, fez um sucesso muito grande. Então, não vale a pena reduzir o valor dos ingressos porque vai ter as mesmas pessoas assistindo aos espetáculos. Se vai lotar com 100 reais e com 400, o mais interessante pra eles é 400. Em qualquer lugar do mundo, os ticktes são vendidos pelo Cirque de Soleil. No Brasil, é vendido pelo banco, então o banco compra os direitos totais de aumentar os ingressos. Comunicare: Como é a sua rotina de férias? Camila: Ficamos em média dois meses em cada cidade. Então minhas férias são durante os intervalo entre uma cidade e outra - tempo que eles têm de mudar toda a estrutura. Então, nesse período, eu posso viajar para qualquer lugar do mundo. Após esses dias, temos um show call, uma chamada, para estar na próxima cidade em tal dia. Comunicare: Quais são seus planos para o futuro? Camila: Meu contrato vence no fim do ano, mas vou renovar por mais um ou dois anos. Depois eu quero abrir uma escola de circo no Brasil. Quero colocar ginastas dentro, mas não para fazer ninguém campeão olímpico. Eu quero que todo mundo tenha a oportunidade de fazer o que eu faço. William Saab Gabriella Oliveira Fernando Levinski


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geral

Curitiba, junho de 2009

IR À ESPETÁCULOS CIRCENCES PODE SER UMA ATIVIDADE PERIGOSA

Correria no circo põe pessoas em risco

educação

QUALIDADE DE ENSINO É PRIORIDADE DE PAIS CIRCENSES

Ética no circo

Profissionais que trabalham no picadeiro dizem que apesar da pouca manutenção dos aparelhos, os acidentes graves são raros visão dos equipamentos é de responsabilidade de quem apresenta o número por isso cada

um tem que fazer a manutenção do seu aparelho, porque aqui a gente tem segundos para mudar

Emanuelle Garollo

sam se estabelecer nas cidades, casos como o ocorrido no Circo Di Nápoli são comuns. “A re-

Profissional revisando a estrutura do circo antes da apresentação

Gabriele Lemes

CRIANÇAS APRENDEM ARTE CIRCENSE DESDE CEDO

Giovana Chaves

O amor pelo circo sobrevive. Tradição e costumes ainda são transmitidos de geração para geração A tradição passada de pai para filho no circo ainda existe, seja por vontade própria ou por influência da família as crianças recebem um treinamento para que no futuro possam realizar os mais diversos números. Cleonice Santuário é uma dessas pessoas criadas dentro do circo, que hoje possui a missão de passar para as suas duas filhas a paixão pela arte circense, Cleonice que é trapezista e transmitiu o amor pelo trapézio para as duas filhas, afirma que a mais velha já treina há algum tempo, no entanto a mais nova demonstrou grande interesse por esse tipo de atividade após ver a mãe e a irmã treinarem. Apesar ter apenas três anos sua mãe montou uma pequena estrutura para a filha começar a treinar desde cedo. Ela afirma que adora vêlas seguindo a sua profissão, pois

Vida difícil no circo se justifica pela paixão

assim nunca sairão do seu lado. Para que uma criança comece a trabalhar em um circo é necessária uma espécie de “ritual de iniciação” cujo objetivo é dar acesso ao conhecimento das artes circenses, e fazer com que se tornem profissionais de sucesso. Na maioria das vezes quem

as ensina são seus pais ou então um profissional mais experiente, que esteja apto a ensinar para a criança tudo o que ela precisa saber para que realize seu desejo de passar alegria as pessoas. Outro exemplo é o de Ivone Pinheiro que já trabalhou como artista de circo e hoje cuida da

de um número para o outro não dá tempo de consertar nada durante o espetáculo”, completa Marlon Oliveira. Quanto à estrutura Orlando “Capataz”, afirma não oferecer perigo a quem assiste porque o material utilizado é de boa qualidade. “A lona e os elásticos são comprados em locais que vende Nathalia e Ashlley voltam da escola e assistem ensaio dos pais material naval, porque é bem resistente e os arames que prendem a lona ficam enterrados a um metro do chão, não tem risco de cair”. Apesar de ser montado por pessoas contratadas na cidade aonde o circo chega, Orlando “Capataz” afirma que não existe técnica para montá-lo. “Para erguer a lona não tem muito segredo, só é preciso força, a gente leva trinta horas para montar e dez horas para desmontar tudo”.

parte de vendas, ela deu o direito de escolha para seus dois filhos. Segundo Ivone se eles quiserem seguir outra carreira não haverá problema algum, porém os meninos garantem que se depender deles continuarão trabalhando ao lado da mãe por muito tempo. Essa transmissão do saber é feita de geração a geração. No aprender e no ensinar está a chave que garante a continuidade desse mundo chamado de circo, em torno disto está uma família estruturada, que tem a missão de passar para frente o que aprenderam. Essas crianças se tornam muito mais que simples artistas, são filhos do circo, que tem seus pais e seus avós como exemplo mesmo sem nunca terem ido a escola. Emanuelle Garollo Gabriele Lemes

Amor no circo O amor pelo circo atravessa fronteiras e pode somente ser substituído outro tipo de sentimento: O de um homem por uma mulher. Foi isso que fez com que Iverson Dadona deixasse um sonho de ser artista de circo para voltar a sua terra natal, São José dos Pinhais e se casar. ”Por mim eu voltava a morar no circo, mas minha esposa não quer mais que eu participe então quando eles vêm pra cá eu passo aqui para matar a saudade”, afirma. Ele fala ainda da lição que o circo trouxe para sua vida. “Aqui é a gente aprende a trabalhar com tudo, aprendi tudo o que sei com eles”, conclui

Artistas de circo preferem escola paga para filhos Ensino público não oferece qualidade adequada para quem deseja estudar e continuar nos circos Tendo uma vida nômade e permanecendo no máximo um mês em um mesmo local, os circenses preferem matricular seus filhos em escolas particulares às públicas, pois segundo eles as escolas privadas têm qualidade de ensino melhor e planos de estudos mais estáveis, o que é essencial para as crianças que viajam junto com o circo. Promulgada pelo presidente Vargas, a Lei nº 301 obriga escolas de todo o país a receber os alunos filhos de circenses. Segundo a lei, “os filhos de artistas de circo, pavilhões e variedades que acompanhem seus pais em excursões pelo interior do país, serão admitidos nas escolas públicas ou particulares locais, mediante a apresentação do certificado de matrícula da escola da última localidade por onde tenham passado”. Para evitar a burocracia ao matricular os filhos na escola pública, a artista do Circo Moscou, perita no manuseio de bambolês, Cecília Dmitriev,

34 anos, prefere matricular a filha Nathalia, 6, em escolas particulares, onde tem mais segurança na qualidade do ensino. O motociclista do globo da morte Braulio Guerreiro, 31 anos, também do Moscou, reclama que as escolas do ensino público são sempre lotadas de alunos e não dão a atenção e educação necessária para as crianças, ainda mais as menores que durante a fase de alfabetização precisam de um estimulo maior. Ao deixar sua filha Ashlley, 4 anos, na escola, Braulio e sua esposa querem ter certeza que a menina estará recebendo toda a atenção para seu melhor desenvolvimento. Segue o mesmo pensamento a equilibrista Andreea Catalina, do Circo di Napoli, que ao chegar em Curitiba foi logo em uma pré-escola particular matricular Yuri, 4 anos. Embora exista um certo preconceito de que os circenses não priorizam o estudo, Luis Munhoz, que há 31 anos vive no circo, afirma que o estudo é uma

Fotos de Laura Schafer

Devido à correria nas apresentações e nas constantes mudanças do circo de uma cidade para a outra, os equipamentos e a estrutura não são revisados com freqüência colocando em risco quem trabalha e quem assiste aos espetáculos. Não são raros os casos de acidentes devido a falhas nos equipamentos, como num acidente ocorrido durante uma apresentação no Circo Di Nápoli, quando estava localizado ao lado da Linha Verde em Curitiba: “O cabo de segurança estourou e passou no meio da platéia não machucou ninguém foi só o susto mesmo, acidentes como esse dificilmente acontecem é falha de quem faz a manutenção no equipamento”, afirma o contra-regra Marlon Oliveira. Apesar da prefeitura e do Corpo de Bombeiros fazerem a vistoria nos circos para que pos-

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Curitiba, junho de 2009

Muitas pessoas imaginam que a vida no circo é desregrada, sempre cheia de festa, mas na verdade é o contrário. A educação é bastante rígida e as antigas tradições ainda vigoram. Para namorar as jovens do circo tem que pedir autorização dos pais, o respeito pelos mais velhos rege o comportamento e xingamentos são proibidos diante das crianças menores. O circo é uma grande comunidade patriarcal, onde todos se movem em intensa cooperação e a unidade familiar é preservada. O pai assume o papel de herói mediante seus filhos devido á glória e riscos de sua profissão. Uns cuidam das crianças dos outros, e se tomam no direito de educar se acharem necessário. A confiança é muito importante para os circenses por viverem de uma maneira mais liberal do que a sociedade normalmente vive, sempre viajando pelo país. Quando os mais novos não estão na escola, ou fazendo os deveres de casa, eles aprimoram suas habilidades artísticas, com sua grande família.

das prioridades. Quem trabalha com exercícios físicos têm vida curta dentro do picadeiro, precisando ter uma fonte de renda alternativa, e para isto educação é um requerimento essencial. A maioria dos circenses, e seus filhos, só concluem até o segundo grau. Para realizar o ensino superior é necessário maior estabilidade, permanência em um local por vários anos, e abandonar o que é a paixão deles, o circo. Para a maioria dos artistas de circo viajar pelos país entretendo e divulgando a arte circenses não é só uma profissão ou uma forma de faturar, mas sim um estilo de vida, passado de geração para geração. Porém todos os entrevistados afirmam que se seus filhos decidirem cursar uma universidade terão todo o apoio, mas sabem desde já que suas crianças querem a vida mágica e aventureira dos circenses. Jonathan Seronato Maria Clara Oliveira

NOVA FORMA DE TIRAR JOVENS DA RUA

Circo ajuda a acabar com o trabalho infanto-juvenil O Circo da Cidade é um espaço criado pela Prefeitura de Curitiba em parceria com a Fundação de Ação Social (FAS) e o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) com o objetivo de trazer uma opção para os jovens no seu espaço de contraturno escolar. É uma tentativa de transformar a arte em algo sério, mas que ao mesmo tempo seja divertido. Um método eficiente de acabar com o trabalho infantil. Como o nome já diz, a opção feita pela prefeitura de Curitiba é a utilização de atividades circenses. Localizado no Bairro Fazendinha, na periferia da capital e com cerca de vinte e oito mil habitantes, o bairro abriga uma das sedes do Circo da Cidade. É oferecido para integrantes de programas sociais, como o Bolsa Família, e tem critério para a participação possuir renda máxima de três salários mínimos. O espaço tem capacidade para 200 crianças, de seis a 16 anos de idade. Atualmente acolhe 156. Desenvolve oficinas de trapézio, contorcionismo, monociclo, equilíbrio no arame, palhaço, saltos acrobáticos, mágica; totalizando quatorze modalidades. Há, também, apresentações dos alunos do Circo, de dois em dois meses, para escolas públicas e particulares que quiserem agendar uma visita. . Os espetáculos não são abertos a comunidade, servem para formar elos sociais entre as crianças que assistem, apresen-

tam, e suas respectivas famílias. Para a coordenadora da sede Fazendinha, Sonia Maria Martins da Conceição o projeto, além de tirar crianças de possíveis situações de risco, melhora a auto estima, coordenação motora e diminui a timidez. São quatro professores que desenvolvem as atividades circenses, cada um responsável por determinadas modalidades. Geraldo Alves de Souza, 22 anos, conta que no começo, quando ia ensinar, as crianças demonstravam resistência ao circo, e até mesmo preconceito. Mas com o tempo se foi criando um relacionamento de confiança e elas se permitiram evoluir. O professor de malabarismo Lauro Fernando Monteiro, 23 anos, divide sua experiência como mentor. “É complicado, exaustivo, as crianças tomam muito sua energia, mas também têm muita energia para você consumir. Usar isso com um objetivo ao invés de fazer besteira. É uma satisfação ver um aluno seu fazer o que você faz, e ainda melhor”. O Circo da Cidade é referência de um projeto bem sucedido, que além de despertar a criatividade, revela novos talentos. No terreno onde se encontra a sede do Circo será, futuramente, construído um centro cultural, ambientando ambos no local.

Menina ensaia para apresentação do circo

Jonathan Seronato Laura Schafer Maria Clara Oliveria


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esporte

Curitiba, junho de 2009

sociedade

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Curitiba, 25 de junho de 2009

ESCOLAS DE CIRCO CONQUISTAM ALUNOS COM BRINCADEIRAS E OS TRANFORMAM EM ARTISTAS E ATLETAS “MEUS PRIMEIROS PASSOS NA CARREIRA ARTÍSTICA FORAM COM O CIRCO”

Parquinho de gente grande com seriedade Jovens tentam vida nova no circo

Como foi o seu começo no circo?

Com duas horas de treinos, unindo muita força e técnica, Mariana Hecke mantém a forma e a saúde

no trapézio eu era muito magro, depois senti a diferença no meu corpo”, conta. Segundo os atletas, todas as partes do corpo são muito trabalhadas no circo, no trapézio tronco e braços são as

principais. “Nós fazemos muita abdominal, temos que fortalecêlo, porque concentramos toda a nossa força nele”, afirma. Um outro exercício que também exige muita força, principal-

mente dos braços, é o “tecido”. Quem pratica essa atividade, além de força e resistência, precisa ter muita concentração e bom pre-paro psicológico para não entrar em pânico. “A pes-

Adriana Maestrelli Ruann Jovinski Thyago da Silva

CINETIC JUNTA A FILOSOFIA CIRCENSE COM TÉCNICAS DE EXERCICIOS FÍSICOS PARA DIVULGAR A ARTE O Centro de Investigações e Estudos Integrados ao Circo, Cinetic, desenvolve várias atividades circense, com a visão da arte do circo aliada as técnicas e exercícios da Educação Física. Com dois anos de existência o Cinetic e com aproximadamente 20 alunos, o Centro começou com o professor de Educação Física, Bruno Barth e Eumar Kohler, com o intuito de mostrar um circo mais aberto, tentando sair do circo de tradição familiar e cruzar o conhecimento e a técnica clássica dos picadeiros em outros espaços, criando uma cara nova para as artes circenses. O objetivo do grupo é o ensinamento e treinamento das técnicas e movimentos circenses,

não havendo apresentações fora do ginásio da Universidade Federal do Paraná (UFPR), local de treinamento do grupo. Bruno Barth afirma que a filosofia do grupo é fazer a fusão dos conhecimentos básicos e tradicionais do picadeiro com estudos da Educação Física, aproveitando as artes e englobando tudo em um só espetáculo. “A principal diferença é que buscamos a modernização da metodologia de ensino das atividades circenses, a ideia é aproximar as artes do circo aos saberes da Educação Física, criando uma maior sistematização e fundamentação científica para as atividades. Trazendo como beneficio as artes circenses, au-

mentando sua abrangência e o público com que trabalha ao permitir novos olhares nessa temática”, diz o professor. O grupo trabalha com cursos de extensão e buscam ajudar no preparo físico, as aulas têm quatro etapas, primeiro o aquecimento, depois o condicionamento físico, os aparelhos e por último o tema é livre, o aluno pode escolher o aparelho que mais gosta e pedir ajuda ao professor para aprimorar a sua técnica. O estudante Iury Dias, um dos alunos, afirma que entrou no grupo para praticar atividade física, mas já tinha conhecimento e gostava da magia do circo. “O bom de praticar esse tipo de atividade é que você ganha consciência cor-

Regina conta com muito orgulho a todos. “O circo com o qual resolvi “cair fora” aos 16 anos, era muito simples. Um circo de ciganos. Eu simplesmente fui lá e perguntei: Vocês querem me levar junto?”, afirma a atriz que enquanto esteve na vida circense aprendeu diversos números de picadeiro como contorcionismo, número do fogo, força ca-pilar, dentre outros. Já Thais Gonçalves Campos, 18 anos, estudante, vê no circo a possibilidade de conhecer o mundo. “Eu tenho vontade de fugir com o circo, mas tenho medo de me arrepender. Acho muito interessante a vida de quem mora lá, é uma aventura, sempre viajando e conhecendo pessoas novas”. Segundo a psicóloga Letícia Peretti, 42 anos, é muito difícil afirmar que o fato da pessoa fugir com o circo têm relação com algum problema psicológico. “Eu acredito que sejam pessoas que

‘‘Começei a trabalhar no picadeiro com sete anos de idade.’’ João Carlos, 25 anos, equilibrista e acrobata.

Regina Vogue fazendo o número do fogo

são influenciadas pelas dificuldades do lugar em que vivem e motivadas também pela fantasia que o circo exerce sobre cada um de nós. Essa magia de um lugar lindo, onde todo mundo é feliz”. Um ato mais comum do que se pensa, pois, basta uma pequena busca em circos e si-

“EU NASCI NO CIRCO E VOU MORRER NO CIRCO”

tes na internet para ver e ouvir histórias de pessoas que resolveram mudar de vida, largando tudo para ir embora com o circo. Fatos que envolvem todo o ambiente no qual a pessoa vive e toda a magia circenses.

‘‘Eu sou a quarta geração por parte de pai’’

Priscila Nelida Palacios Ayres, 30 anos, globista da morte e mágica.

Rafael Peroni

Paixão pelo circo mantém artistas nos picadeiros

O circo é uma arte milenar contagiante, fazendo com que as pessoas que trabalham nisso não queiram mais largar. Esse é o caso de muitas famílias, que por gerações vivem dos espetáculos e das viagens pelo Brasil. Uma vida diferente, e no mínimo divertida, que muda o jeito de viver das pessoas. As viagens são constantes na vida do circense, eles rodam o Brasil para apresentar seus espetáculos. Jaime Zanchetin, conhecido como Palhaço Canetinha, 50 anos, confessa que as dificuldades de viagens desgastantes e da falta de conforto compensam depois dos espetáBruno (centro) e seus alunos unem exercícios físicos e circenses culos, ao receber a aprovação do público. “Adoro circo. Tem a poral, sabe como trabalhar com mudança, é tempestade, chuva, seu corpo, que músculos os ebarro, falta luz. Mas tudo comxercícios exigem, as técnicas te Bábyla Miras ajudam nisso”, diz o estudante. Vanessa Otovizc pensa na hora do espetáculo”.

Vanessa Otovicz

Artes circenses com Educação Física

A paixão, ou melhor, a admiração pelo circo leva muitas pessoas a largarem tudo, deixando os familiares para trás para seguir com as trupes circenses. Uma vida de viagens, diversão, aventuras e aplausos que chama a atenção de muitos jovens aventureiros. Jovens esses que encontram nos picadeiros a chance de iniciar uma carreira artística ou de conhecer o mundo através das viagens e assim, tentar mudar de vida. Para Regina Vogue, 64 anos, atriz e empresária, a vontade de ser artista e de trabalhar com arte foram os motivos que a levaram a fugir com o circo. “Quando eu era menininha, eu queria ser bailarina, ser artista de alguma maneira, e minha família nunca me apoiou; na cabeça deles, ser artista naquela época era cair na vida, ser prostituta”. Os primeiros passos da sua trajetória artística foram no circo, fato que

Fernando Dias (Arquivo pessoal)

soa não pode ter medo, precisa se preparar psicologicamente”, diz Aaron Ramathan, que está fazendo aula experimental. O ator de 25 anos já fez algumas oficinas de circo e fez aulas em várias escolas, tudo isso para interpretar um personagem no teatro. “Hoje estava frio, então é mais difícil aquecer o corpo. Tive dificuldades por causa da temperatura, mas gostei muito e vou continuar nas aulas” afirma Os dois trapezistas da escola de circo, Circocan, explicaram que o primeiro passo na formação de um atleta circense, seja ele do trapézio ou não, é ter muita força e resistência, onde todos os exercícios físicos são realizados nos próprios aparelhos que cada artista pretende atuar, para que possam obter um biótipo adequado aos seus objetivos. Após essa fase é que eles começam a aprender as técnicas para que possam executar com perfeição suas atividades.

Rafael Peroni

Força, técnica, concentração e responsabilidade. Segundo a trapezista da Circocan Mariana Hecke Tramontin, 24 anos, estes são os principais pilares do artista circense. Ela começou a treinar em 2007, e hoje comenta que é o melhor exercício físico que poderia fazer, pois os treinamentos circenses não são tão pesados quanto parecem. “É um parquinho de gente grande”, diz Mariana. Formada em Medicina Veterinária na PUCPR, afirmou que começou a atividade apenas para se manter saudável, pois não gostava de treinar em academias. “Eu não queria ter barriga lisa e definida só por beleza. Agora eu tenho um motivo”, ressalta. Ela comentou que os treinos eram muito divertidos. “É mais relaxante, bem diferente daquela tensão de uma ginasta. Teve um dia que até jogamos ‘bets’ com os pinos de malabares”, conta. Assim como Mariana, o advogado Vinícius Bazzaeneze, 22 anos, também treina trapézio e concorda que precisa de muito preparo físico. “Quando comecei

Thyago da Silva

Atividade circense é considerada uma ótima maneira de adquirir preparo físico sem ter que fazer aulas em academias de musculação Corajosos deixam família, carreira e estudos para se aventurarem na vida de espetáculos mundo a fora

Capotinho (à dir.) e Zé Bundão apresentam seu número

Para o trapezista Luiz Ayres, 28 anos, a maior alegria não são os aplausos do público, e sim quando alguém reconhece o seu trabalho após o espetáculo. “A gratidão maior mesmo não são nem os aplausos. É quando acaba o espetáculo e o pessoal te es-

pera aqui na frente só pra te dar os parabéns. Isso pra mim é realmente gratificante”. Já a artista circense Erineide Zanchetini, 40 anos, afirma que o mais prazeroso é poder mostrar a cultura em lugares que a população não tem a oportunidade de conhecer. “O

maior prazer é poder levar a arte pra lugares mais longínquos. Sabe quando o olho brilha?”. Kleber Duarte Nascimento, 28 anos, o Palhaço Capotinho, lembra que já pensou em largar o circo, mas a paixão pelos picadeiros falou mais alto. “O cara não consegue né, quando é de circo, é de circo mesmo. É uma paixão grande”, e aconselha quem pensa em seguir carreira circense. “O conselho que eu dou é pro cara se dedicar mais a arte e seguir em frente”. Apesar de nascer em famílias diferentes, todos esses circenses tem algo em comum: A grande paixão pelo circo e a dificuldade de largar suas atividades em picadeiros e partir para uma vida nova longe deles.

Tarek Omar

‘‘Comecei a trabalhar com um rapaz e ele me indicou o circo’’ Daniel Reis, 49 anos, assistente de palco.

‘‘Eu nasci no circo.Sou a quinta geração da família.’’ Carlos Alfredo Gática, 33 anos, trapezista.


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comportamento

Curitiba, junho de 2009

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Curitiba, junho de 2009

RELAÇÃO ENTRE PALHAÇOS E PACIENTES É DELICADA E EXIGE ATENÇÃO E CUIDADO PROFISSIONAL PARA NÃO PREJUDICAR NENHUM DOS DOIS LADOS

Palhaços quebram a rotina de hospitais levando alegria e humor a adultos e crianças De acordo com médicos e psicólogos, trabalho de animação realizado por grupos de artistas ajuda os pacientes a enfrentar a rigidez do tratamento e o desgaste que ele provoca. Crianças se submetem mais facilmente aos procedimentos hospitalares necessários Dr. Caramelo, o qual conta que logo o clima de festa se instala. “Mas é claro que com os adultos as piadas são um pouco mais pesadas”, brinca. Com os funcionários as brincadeiras também saem naturalmente. Eles gostam das visitas dos palhaços e acabam tendo o trabalho facilitado pelo clima de festa. “Tem criança que grita na hora de tomar a vacina, diz não, e quando a gente chega aceita um pouco melhor a situação”, afirma Rafael Barreiros. Para a criança não restam muitas opções se não aceitar as imposições dos médicos. A psicóloga da Trupe, Evelyse Iwai, explica que o palhaço é a única pessoa que ela pode negar dentro do hospital. “É neles que as crianças extravasam um pouco daquilo que elas sentem por estarem lá”, diz. Essa forma de aliviar a tensão e a alegria que os palhaços trazem para os leitos são de grande ajuda no tratamento. O Dr. Carlos Eduardo Araújo, que trabalha no setor de oncologia do Hospital Pequeno Príncipe, gosta de ver a baderna da Trupe e explica: “Esse trabalho deles é fundamental, porque quando a criança é tirada de casa, já existe uma piora. O uso do humor influencia positivamente a recuperação”.

“O uso do humor influencia positivamente a recuperação”

Atrás do nariz Para funcionar, a Trupe da Saúde conta com o suporte de outros funcionários, como a psicóloga Evelyse Iwai. Ela realizou um projeto de pesquisa sobre a influência das visitas nos pacientes, e se reúne com todos os palhaços uma vez por semana para que sejam debatidas as questões que surgem durante as visitas. Por ser um trabalho que en-

volve situações delicadas, mesmo os palhaços podem precisar de algum tipo de auxílio, já que criam laços de afetividade com os pacientes em estágios avançados de alguma doença. Além disso, eles também estudam como melhorar a interação com pessoas, corrigindo possíveis deslizes na hora de tratar alguém que está num quadro delicado. Márcio Ballas, que interpreta o palhaço João Grandão, participou em São Paulo do Doutores da Alegria, um projeto semelhante ao da Trupe e reforça a questão da delicadeza na interação dizendo que não basta pensar no número que será apresentado. “Você tem que saber que está num lugar difícil e que precisa tomar muito cuidado com o que vai falar, porque você não sabe o que a pessoa vai sentir”, explica. Márcio Ballas também participou da ONG (Organização NãoGovernamental) “Palhaço sem Fronteiras” (confira mais na entrevista ao lado). Outra questão que mereceu uma maior atenção foram as fantasias dos palhaços. No início do projeto, eles usavam perucas espalhafatosas e muita maquiagem, mas isso foi trocado por elementos mais sutis. Essa mudança teve como objetivo aproximar o palhaço dos pacientes, humanizando a relação. Junto com a suavização dos aparatos veio a adoção de um estilo mais improvisado, que também facilita a aproximação. O trabalho da Trupe da Saúde não é pago pelos hospitais, mas os palhaços recebem uma remuneração do próprio Projeto. Esse pagamento se deve ao fato de serem artistas profissionais, além de garantir que as crianças recebam as visitas semanalmente, já que os vínculos criados entre eles não podem ser negligenciados. Os recursos para a manutenção do projeto vêm do patrocínio privado e estatal, através da Lei Rouanet de incentivo à cultura. Guilherme Gaspar

Retorno às origens O circo de hoje já não é tão glamuroso como o de algumas décadas atrás, ou pelo menos é o que se ouve por aí. Muitos circos enfrentam dificuldades financeiras e junto com a decadência da arte circense, também estariam entrando em extinção os palhaços. No entanto, Rafael Barreiros, que interpreta além do Dr. Goiaba, o palhaço Alípio, diz que sempre foi alardeado o fim do circo. “Desde os tempos dos nossos avôs eles já falavam que o circo estava em decadência e que ia acabar”, comenta Barreiros. “Porém, o palhaço representa o ridículo de sua época, se reinventando sempre e por isso, nunca será extinto” Ben-Hur Pereira, o palhaço Bem, é um estudioso da arte clownesca e conta que os primeiros palhaços que chegaram ao Brasil no século XIX, não fizeram muito sucesso. Para reverter essa situação, mudaram a sua linguagem, passando a ser mais fanfarrões e a utilizar maquiagens mais pesadas, coloridas e espalhafatosas. Essa linha do palhaço pastelão, entretanto, tem sido deixada de lado pelos artistas atuais. Nesta mudança, em busca do modelo mais tradicional, até o nariz vermelho, sua marca registrada, foi deixado de lado, assim como o excesso de maquiagem e a linguagem exagerada, que foram substituídos por pouca ou nenhuma pintura facial e pela arte do improviso.

Fotos: Durval Ramos

A Trupe da Saúde é um grupo de palhaços de Curitiba que invade o ambiente silencioso e triste dos hospitais para visitar e alegrar os pacientes. A equipe conta com dez atores profissionais que chegam abraçando os funcionários e fazendo brincadeiras com quem passa pelos corredores. Antes mesmo de entrar no hospital, as crianças se aproximam para brincar. A presença da trupe quebra a rotina melancólica dos pacientes e traz um pouco de diversão para quem tem que passar a maior parte do dia deitado numa cama. Nem os acompanhantes e familiares ficam de fora na brincadeira. Luzia Oliveira, mãe de Beatriz, 4 anos, internada no Hospital Pequeno Príncipe, diz que sua filha conta para os parentes que ligam sobre a algazarra que os artistas fazem. “A brincadeira quebra a rotina e ajuda a passar o tempo”, explica a mãe. Os integrantes da Trupe se vestem como uma caricatura de médico, mas com mais cores e o infalível nariz vermelho de palhaço. Nos bolsos eles carregam vários brinquedinhos que vão distribuindo pelo hospital. “Eles são uma forma de manter a relação de alegria com as crianças mesmo quando não estamos, porque ela lembra da bagunça que fizemos”, comenta Rafael Barreiros, o Dr. Goiaba. Entrando de quarto em quarto, eles despertam curiosidade de quem ainda não recebeu a visita, e algumas crianças vão se aproximando timidamente deles para participar. Mesmo os adultos vão ficando curiosos e pedem para serem atendidos. “Às vezes eles dizem que não tem criança no quarto e a gente brinca ‘ainda bem! Não aguento mais criança’”, comenta Frank Sousa, o

Palhaços brincam e fazem a alegria de pacientes e acompanhantes em hospitais

PARA VOLUNTÁRIO, PALHAÇO DEVE TRANSFORMAR REALIDADE DAS PESSOAS

Palhaço Bem em apresentação

PESSOAS NÃO BUSCAM AJUDA POR VERGONHA, DIZ PSICÓLOGA

Palhaços viajam pelo mundo para levar alegria a Coulrofobia: medo de palhaço atinge locais atingidos por guerras e de extrema pobreza crianças e adultos e já virou doença Formado em Publicidade e Marketing, Márcio Ballas decidiu largar tudo para viver como o palhaço João Grandão. Participou de projetos como o Doutores da Alegria, que traz o palhaço para dentro de hospitais, e o Palhaço sem Fronteiras, que leva artistas para áreas de conflito e pobre-za, como a Albânia durante a Guerra do Kosovo e as favelas de Madagascar, onde esteve. Destas experiências, Ballas conta como é difícil para um palhaço manter o riso diante de realidades tão duras.

Comunicare - Além de trabalhar em hospitais, você esteve, como palhaço na Albânia durante a Guerra do Kosovo, e nas favelas de Madagascar. Como o palhaço vê essas situa-

ções mais críticas? Ballas - Tanto nos hospitais quanto no campo de refugiados ou nas favelas de Madagascar, a situação é complicada. Apesar disso, o palhaço tem esse olhar pra vida e para aquilo que está bom. É como se deixasse de lado aquilo que está ruim, mas sem esquecê-lo. É olhar para o que está lá e transformar aquele momento em um momento divertido, alegre e agradável. Claro que você percebe a densidade dos lugares, mas esse é um pouco o trabalho do palhaço: transformar ao menos por um pequeno momento a realidade dura daquelas pessoas. Comunicare - Nestes muitos anos trabalhando como palhaço, teve algum momento em

Ballas: palhaço em Kosovo

que você se sentiu abalado? Ballas - Quando você chega no hospital e vê que a criança não está mais lá e virou estrela é um dos momentos mais duros. Mesmo que a gente seja palhaço, tem

uma relação. Se, de repente, ela não está mais lá, você fica um pouco abalado. Balança um pouco, mas faz parte do trabalho. No Sem Fronteiras é diferente, já você vai sabendo que a situação é bem dura e você não é pego de surpresa. Na minha primeira viagem, para a Albânia, quando a gente saiu de um campo de refugiados, as crianças ficaram ajudando a gente a arrumar tudo, até irmos embora. E depois foram correndo atrás da van. Assim que fomos embora e eles ficaram lá pra trás e a gente viu eles correndo e dando tchau, deu uma certa tristeza. Você pensa “a gente vai embora, mas eles continuam aqui, nessa realidade dura”. Essas horas são difíceis. Cássio Barbosa Durval Ramos

Embora sejam vistos como símbolo de alegria, nem todo mundo vê graça em palhaços. Algumas pessoas chegam ao ponto de temê-los, não podendo sequer ver uma gravura ou a foto de alguém fantasiado. Quando este medo torna-se excessivo, recebe o nome de coulrofobia. Apesar de ser menos conhecida do que as demais fobias, como de altura ou de andar de avião, a coulrofobia é bastante comum, principalmente entre crianças e adolescentes, mas pode ser que persista durante a idade adulta. É o caso da desenhista Letícia Sayuri, 21 anos, que desde criança sofre com o medo de palhaços. “Não me lembro desde quando, mas sempre tive medo. Se eu sei que vai ter um palhaço em algum lugar,

já não vou. Nem para acompanhar meu irmãozinho”, conta. Os coulrofóbicos – como são chamados as pessoas que têm medo de palhaço – assim como Letícia, normalmente trazem este medo da infância, e, no geral, são originados após algum trauma. No caso da desenhista, a fobia surgiu devido à sua excessiva timidez. “Quando eu ia ao circo e eles interagiam com a plateia, eu morria de medo de ser escolhida. Ficava nervosa, suava frio e sentia vontade de sair correndo”, relembra. “Se fazem alguma dinâmica no trabalho e convidam um palhaço, eu já fico nervosa”. Segundo a psicóloga especialista em medos Neuza Corassa, a atitude de Letícia é comum de quem sofre de algum tipo de

fobia. “A pessoa vai se esquivar de situações que lhe obriguem a estar com palhaços. Se sabe que vai encontrar um, ela vai evitar ao máximo de ir para aquele lugar”, afirma a psicóloga. “Os principais sintomas de fobia são a sudorese, taquicardia e, em alguns casos, tremedeira”. Além disso, ela comenta que não é comum que coulrofóbicos procurem ajuda, já que só veem necessidade de acompanhamento médico quando se veem obrigados a encarar aquilo que temem. “A maioria das pessoas não procura apoio psicológico por sentir vergonha e por conviver bem com o medo. Ir ao circo não é algo fundamental como dirigir ou andar de avião”, comenta. Durval Ramos


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meio ambiente última hora

Curitiba, junho de 2009

ARTISTAS CIRCENSES AFIRMAM QUE É MAIS FÁCIL PARA O GOVERNO PROIBIR DO QUE FISCALIZAR

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Curitiba, junho de 2009

PERÍODICO MENSAL DO CURSO DE JORNALISMO DA PUCPR RECEBE TÍTULO DE MELHOR DO ESTADO

Circenses criticam proibição de animais Comunicare ganha Sangue Novo pela 9ª vez

Denuncie! A lei que proíbe a manutenção, utilização e apresentação de animais em circos ou espetáculos assemelhados no município de Curitiba entrou em vigor em 25 de outubro de 2007. Foi criada pelo vereador Jair Cezar a partir de inúmeras denúncias por parte de ativistas e defensores dos animais. A fiscalização é feita principalmente através da população, por não existirem ficais suficientes. As denúncias podem ser feitas através de órgãos públicos como Polícia Federal, Polícia Civil, Policia Ambiental, Ibama e Linha Verde. Este último é disponível nacionalmente através do número 0800-618080, tanto em caso de maus tratos a animais silvestres, exóticos, domésticos e domesticados. Em Curitiba o número do Ibama é (41) 3360-6100.

os artistas, quanto aos animais. O transporte inadequado, a restrição de espaço e de contato social com outros animais da mesma espécie, a alimentação, a falta de acompanhamento veterinário e de um biólogo, o adestramento e treinamentos abusivos, são os principais fatores que fizeram com que essa lei fosse criada. Uma lei federal de proibição de animais em circos e espetáculos foi aprovada pela Câmara dos Deputados, no dia três de junho deste ano, mas ainda passará pela Comissão de Constituição e Justiça e voltará para a Câmara, para uma nova votação, já que o texto original não previa a proibição do uso dos animais e sim o registro dos mesmos. Se for aprovada, passará pelo Senado e então os circos terão o prazo de oito anos para encaminhar seus animais a parques, zoológicos, santuários e outros. Importante lembrar que rodeios e vaquejadas, não entram nessa lei de proibição. Existem dois conceitos de

Circo Di Napoli: espetáculo sem animais também agrada ao público

bem-estar animal desenvolvidos pelos teóricos Barry Hughes em 1976 e por Donald Broom, em 1986. Para Hughes, é o estado de completa saúde física e mental, em que o animal está em harmonia com o ambiente que o rodeia, em outras palavras, é o que o animal sente. E já para Broom, é a capacidade do animal em se adaptar ao seu meio ambiente.

Carla Forte Maiolino Molento é médica veterinária, com mestrado em Ciências Veterinárias e doutorado em Zootecnia, professora de bem-estar animal e coordenadora do Labea (Laboratório de Bem-estar Animal), ambos na UFPR (Universidade Federal do Paraná). Para a professora “não há como compatibilizar a manutenção de

animais numa situação de circo com uma qualidade de vida minimamente aceitável. Por vários fatores, a situação do animal em circo se caracteriza pela legislação de crimes ambientais, no que tende a atos de abuso, crueldade e maus tratos”. O Circo Di Napoli atualmente não trabalha com animais e um dos responsáveis pelo circo, Humberto Paulino Pinheiro, garante que o circo é independente dos animais: “O diferencial, é o estilo do nosso circo, trazemos artistas de fora e não trabalhamos com animais”. O circo conta com artistas da Romênia, Rússia, Senegal, entre outros. Alguns anos atrás, o Di Napoli possuía outro circo, de mesmo nome, que trabalhava com animais. Humberto afirmou que o circo tinha veterinário, os animais recebiam boa alimentação e tinham espaço (uma fazenda) e mesmo assim todos os animais foram doados. Bruna Oliveira

CASOS RECENTES MOSTRAM QUE A LEI ESTÁ SENDO CUMPRIDA

Animais circenses retornam para ambiente correto Depois de anos de apresentações muitos animais circenses vêem sua rotina chegar ao fim com a lei de proibição do uso de animais em circos e espetáculos. Os circos vêm investindo em artistas e substituindo os animais, que são destinados para locais considerados mais adequados, onde recebem um bom tratamento e podem descansar. Um dos últimos casos de animais circenses que tiveram sua “aposentadoria” foi a da aliá (elefante do sexo feminino) chamada de Bambi, que não apresentava sinais de agressão e estava só de passagem por Curitiba. Mas apesar de não estar sendo utilizada em espetáculos pelo Circo Moscou, a manutenção de animais já é considerada crime e

Bruna Oliveira

A lei municipal de proibição do uso de animais em circos e espetáculos generalizou os circos, como se todos maltratassem os animais. Os artistas circenses reclamam que isso sujou a imagem deles e que é mais fácil para o governo proibir ao invés de fiscalizar. Já os defensores de animais, sejam veterinários ou não, dizem que é impossível o animal ter uma boa vida no circo. O vereador Jair Cezar, criador da Lei Municipal que proíbe animais em circos em Curitiba, afirmou que não existem condições para o governo fiscalizar os circos, tanto pelo financeiro, quanto por falta de fiscais. Então a proibição seria a única “saída” para garantir o bem-estar dos animais circenses. O público dos circos, os próprios artistas circenses, entre outros, não entendem o porquê da proibição do uso de animais nos circos. Não conter lesões corporais não é sinal de que o animal está bem tratado. Além disso, a “rotina” circense é estressante e exaustiva, tanto para

Anderson Shimizu

De acordo com regras de bem-estar, geralmente os circos não têm estrutura física e financeira adequada para manter animais Alunos se sentem recompensados pelo esforço ao receberem a 14ª edição do prêmio dado pelo Sindicato dos Jornalistas do Paraná

Leoa Elza brinca no zoológico

a aliá acabou sendo apreendida pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Hoje Bambi vive em um santuário de animais em Atibaia, interior São Paulo com uma companheira. A leoa Elza, foi apreendida

em situações precárias na cidade de Antonina, aproximadamente um ano atrás, onde teve suas garras retiradas e seus dentes aparados. Foram encontrados junto a Elza mais quatro leões nas mesmas condições. Dois machos foram para um zoológico de Volta Redonda no Rio de Janeiro, e duas fêmeas foram para Pomerode, Santa Catarina. Elza acabou ficando sem destino, mas devido a sua interatividade com o público, ficou no zoológico de Curitiba. Lucyenne Popp é médica veterinária e chefe de serviço de clínica veterinária do Passeio Público de Curitiba, e defende a idéia de que independente de agressões, os animais não podem ser utilizados em apresentações

e espetáculos devido à grande carga de estresse e ridicularização gerada nesses ambientes. Já Luis Ayres responsável pelo circo Hermanos Ayres, é dono de um chimpanzé chamado Yuri, que foi utilizado em espetáculos durante muitos anos. Ayres afirma que o animal vivia normalmente sem apresentar nenhum sinal de estresse, além de contar com um veterinário sempre a disposição e com o carinho da família. Mas depois da aprovação da lei, Ayres decidiu afastar Yuri dos picadeiros, e hoje o animal vive em uma fazenda da família e não faz mais apresentações. Anderson Shimizu Giovana Luersen

O jornal Comunicare, do curso de jornalismo da PUCPR, acaba de ser escolhido como o melhor jornal laboratório do Paraná entre os realizados pelos cursos de Jornalismo de todo o estado durante o ano passado. Esta é a nona vez que o Comunicare vence a competição. O prêmio é concedido pelos profissionais de jornalismo paranaense, por meio do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Paraná, Sindijor. Os estudantes além de terem contato com a prática do jornalismo são beneficiados no mercado de trabalho. A quantidade de prêmios que o Comunicare conquistou valoriza o currículo. Ao todo o jornal ganhou 15 prêmios. Quem contribuiu para a conquista do Sangue novo, como a

aluna de Jornalismo Tatiana Olegário, enfatiza que o Comunicare é uma experiência ótima. E que o prêmio é o resultado de um ano inteiro de dedicação.

“O prêmio é o resultado de um ano inteiro de dedicação” Mas, segundo Tatiana, o esforço nem sempre tem retorno. “Nós vemos as pessoas jogando fora nosso jornal. Porém, ver que

profissionais da área estão valorizando nosso trabalho é muito bom”, diz. Para ela , é importante ter o reconhecimento do Sindijor. “Manter a qualidade do jornal é uma questão de honra, já que o Comunicare está sempre vencendo concursos”, enfatiza a aluna. A coordenadora do Sangue Novo 2009 e ex-presidente do Sindijor, Aniela Almeida, afirma que o prêmio é o reconhecimento do que os alunos fazem dentro da universidade. “O jornal laboratório é um dos importantes re-quisitos do Ministério da Educação, e as universidades que o fazem devem ser premiadas”, diz. Para a produtora e repórter Nadja Mauad, a participação em um jornal laboratório tão premiado ajuda no currículo. Ela se

graduou pela PUCPR e participou da produção do Comunicare. “O jornal coloca você em contato com o público, e você aprende a preservar as fontes que consegue.

“Manter a qualidade do jornal é uma questão de honra” Aprende também o que é notícia e o que não é”, afirma. Segundo ela, é fundamental a prática do jornal impresso porque ele faz a

universidade ver que vale a pena investir no aluno. Também porque o editor chefe impõe prazos e insiste na melhora constante dos textos. “Quanto mais você se aprofunda em uma pauta, maior é possibilidade de se encontrar um furo de reportagem. E isso é o que faz você ser jornalista”, declara. A aluna da PUCPR Thaís Fernanda Skodowski, também passou pelo Comunicare e hoje trabalha como estagiária da RICTV. Ela diz que o jornal tem identidade própria e que é diferente porque possui pautas criativas. “O prêmio é o reconhecimento de noites perdidas, brigas e choros”, finaliza. Ana Carolina Baú Milena Vicintin Viviane Prestes


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última hora comportamento

Curitiba, junho de 2009

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Curitiba, junho de 2009

GRUPO MOSTRA QUE A CULTURA CIRCENSE TAMBÉM EXISTE FORA DO PICADEIRO

FALTA DE APOIO FINANCEIRO É O PRINCIPAL PROBLEMA DOS CIRCENSES

Curitiba cria coordenação só para circos Novo espaço cultural incentiva palhaços

NOVO CIRCO SUBSTITUI A TRADIÇÃO FAMILIAR

Durval Ramos

Arte circense contemporânea não se limita ao picadeiro

Contato com outras artes moderniza espetáculos

O novo circo incorpora o teatro, a dança, a ópera. As atrações anteriormente separadas, agora são conectadas por um personagem principal qualquer. Assim, o espetáculo inteiro forma uma narrativa. A sociedade mudou e isso teve reflexo no circo, que é uma arte popular. A artista de circo Marilene Queirolo afirma que a atual forma de fazer o espetáculo despreza os valores tradicionais. Ela ex-

plica que antes as atrações eram independentes e os números mais difíceis. A artista ressalta que “hoje, as apresentações são parecidas e o artista principal não atua sozinho. Ele tem um corpo de baile que o ajuda na execução das acrobacias”. Segundo Marilene, os artistas tradicionais eram mais bem preparados, pois treinavam 8 horas por dia e sabiam todas as atrações. “Eles participavam da montagem

e da iluminação, tocavam instrumentos, tinham aulas particulares de música e de posicionamento no palco”, conta Marilene. Para o pesquisador de circo e mestrando em atividade física e saúde da UFPR, Bruno Barch, o contato com outras artes fez o circo se atualizar. Ele acredita que a arte circense tem que se desenvolver e evoluir para atender aos novos públicos. Mas, Barch defende que deve haver uma junção do circo clássico com o novo. “A arte circense é uma mescla de costumes antigos com a inovação. Uma interpretação do mundo em forma de arte”, afirma. O jornalista e escritor de livros sobre circo, Luis Andrioli, acredita que o novo circo é uma roupagem bem elaborada do modelo tradicional. Segundo ele, os espetáculos contemporâneos perderam a relação humana e a vivacidade do velho circo. Para Andrioli a perfeição estética é cansativa. “A arte circense é a que tem mais liberdade. Mas, o novo circo acabou com isso quando colocou o improviso dentro do roteiro”, diz. Milena Vicintin

não têm incentivo. Almeida garante que não tem mais o apoio de ninguém. “Hoje em dia você paga tudo”, afirma. O gerente conta que o circo tirou a meia entrada para estudante nos finais de semana por falta de suporte municipal. A demora para a liberação dos documentos é um dos reflexos da falta de comprome-

ESPETÁCULOS POR 72 PAÍSES EM 75 ANOS

roupas produzidas pela avó, já Nathália prefere montar e adaptar as fantasias que compra em brechós. O figurino e a maquiagem são uma grande característica dos palhaços, mas não adianta apenas ter uma fantasia apropriada se a pessoa não souber como repassar a arte, como tratar a platéia, marginalizando assim a profissão do palhaço. “Tem que pesquisar, descobrir, estudar os palhaços”, diz Felipe Ternes. Outro preconceito que o grupo luta contra, é o de que o palhaço é uma arte menor, que o clown é um palhaço e arte superior. “Muitos consideram que o clown é um palhaço mais refinado,mais importante, mas a única coisa que muda é o nome”, diz Milene, conhecida também como palhaça Sombrinha.

Cartas de baralho no teto, roupas de palhaço, acessórios de mágicos, fotos antigas e um grande coringa fazem o diferencial do Jokers Pub Café, localizado na rua e no bairro São Francisco. Os motivos da decoração circense vêm da adoração do seu dono, o empresário Sandro Daniel Tavares, pelo tema. Este possui ainda outro bar na cidade, o Circus Bar, que foi o precursor do Jokers Pub Café e apresenta a mesma temática. Destinado a um público entre 25 a 35 anos, o Jokers se destaca pela ambientação. “Apesar de viver de passado, o bar é bem futurista”, ressalta o barman João Luiz Botelho, 27 anos, que trabalha na casa desde sua abertura, em 2001. Todo o acervo do local foi doado pela família Queirolo, estabelecida em Curitiba desde 1930 e que permaneceu em atividade até o final da década de setenta. Por esses cinquenta anos, a família viajou por todo o Paraná,

para suas apresentações, fazendo história no mundo circense. O símbolo da família é o palhaço Chic-Chic, cujas roupas e acessórios encontram-se em exibição no salão principal do estabelecimento, o Salão Irmãos Queirolo. Segundo o barman João Luiz, a decoração do bar proporciona as pessoas mais velhas que vivam novamente momentos de sua infância. “O Jokers resgata os detalhes e as sensações de algo que há anos era tão comum, mas que agora está cada vez mais escasso”, afirma. Ele conta também que muitos membros dos Queirolo eram clientes fiéis do bar e que, ainda hoje há um descendente que ainda frequenta o estabelecimento. Para o público, não é comum entrar em um bar, nos dias de hoje, que é decorado com roupas, peças, cartas e fotos de circo. “A princípio, o cliente se surpreende um pouco, pois o circo antigo ficou no passado, mas muitos

Bábylla Miras Vanessa Otovicz

Cada espetáculo tem apresentações diferentes e inéditas

Bábylla Miras

apoio municipal para circos locais e para aqueles que vêm para a cidade. O proprietário de um circo itinerante gasta o equivalente a R$ 35 mil quando se instala em uma cidade (ver infográfico). O administrador do Circo di Napoli, Márcio Almeida, explica que os circos que vêm de fora também

palhaço, para sair do estereótipo que palhaço é coisa que atinge apenas o público infantil e atingir, também, um público mais adulto. Nos espetáculos os artistas contam com o envolvimento da plateia para deixar a apresentação mais dinâmica e animada. “É preciso ter a interação dos que estão no palco com os que estão na plateia”, diz Nathália. Uma das apresentações do grupo é o Cabaré dos Palhaços, que tem sempre a presença de algum artista circense de fora. Na casa existem oficinas, que são abertas ao público, público esse que geralmente tem envolvimento e conhecimento das artes circenses, ou frequentam mais por curiosidade, para melhorar a comunicação ou desestressar. Os figurinos dos palhaços são diferentes em cada apresentação, cada palhaço fica responsável pela sua roupa, Milene tem suas

Vanessa Otovicz

a novos projetos e editais menos restritos. A falta de um setor específico dificultava o trabalho dos profissionais de circo. A quantia destinada pela prefeitura para projetos circenses é de R$ 280 mil. No entanto, os editais não são abertos com freqüência, de acordo com Camila. Além disso, ainda falta

Os palhaços Eliezer Brock, Rafael Barreiros, Nathália Luiz, Milene Dias, Felipe Ternes, Silvestre Neto, formam o grupo responsável pelo espaço cultural Cia dos Palhaços. O estabelecimento foi aberto em março deste ano, e é utilizado para fazer apresentações, pesquisas, oficinas, espetáculos em geral, debates, palestras e shows de improviso sempre focando no desenvolvimento da figura do palhaço e da arte circense fora do picadeiro. Rafael Barreiro afirma que a ideia do grupo é mostrar que os espetáculos não existem apenas no circo, e que eles buscam desvincular a imagem de que palhaço é só para criança. No Milena Vicintin grupo cada palhaço tem a sua Viviane Prestes personalidade, suas características, tentando sempre inovar e criar linguagens próprias, por isso a importância da pesquisa e do desenvolvimento da figura do

timento com a área. “Faz três semanas que eu estou esperando o meio ambiente entregar os papeis”, diz Almeida. A dificuldade em obter informações sobre a área circense provocou um atraso na implantação da coordenação. Crisanto Mendes afirma que é complicado encontrar até mesmo dados simples. Ele ainda explica que o novo setor quer renascer uma arte quase extinta em Curitiba. Os artistas locais confirmam que o circo está desaparecendo. Mas, Camila ressalta que as pessoas estão voltando a se interessar pela arte circense. Por isso, para ela, é importante resgatar essa cultura.

Circo Garcia: sete anos e ARQUITETURA MODERNA E DECORAÇÃO DE CIRCO SE ENCONTRAM EM BAR NO CENTRO DE CURITIBA meio sem apresentações Saiba Circo Temática circense é o atrativo do Jokers Pub Café Este ano o Circo Garcia completaria 81 anos. Fundado em 1928, ele foi forçado a encerrar suas atividades em dezembro de 2002 por problemas financeiros. É conhecido por ter sido um dos quatro maiores circos do mundo. Percorreu toda a Ásia, África e América latina e teve 186 profissionais de diversas nacionalidades. Foi um dos primeiros circos do Brasil a utilizar a tecnologia de raios laser em suas apresentações. E o primeiro do mundo a conseguir a reprodução de animais em cativeiro. Ex-gerente e locutor do Circo Garcia, Ari Rabelo passou quase 30 anos dedicando-se à vida circense. Segundo ele, o Garcia era um circo completo, e esse era o seu diferencial. Rabelo afirma, entretanto, que é difícil manter uma empresa com despesas a preço de dólar. Além disso, em tempos de crise financeira no país, a cultura é a primeira coisa a ser cortada. Diz também que depois da proibição de apresentações com ani-

mais, perdeu-se a grande força de seus espetáculos. “Infelizmente o circo é o elo mais fraco da corrente, porque animais continuam a ser exibidos em rodeios. Para o governo é muito mais fácil proibir do que fiscalizar”, enfatiza. A ex-bailarina e contorcionista Rosangela Timoteo Carneiro, que deixou o Circo Garcia antes de seu fechamento, lembra dos bons tempos. “Toda semana a gente dava um jeito de fazer festa!”, brinca. Rosangela tinha pais e irmãos trabalhando no Garcia. E Ari Rabelo, que entrou no circo “movido por uma paixão”, como ele mesmo afirma, casouse e também viu toda a sua família exercer a arte circense. Na locução da última apresentação do Circo Garcia, Rabelo optou por se despedir com um convencional “até o próximo espetáculo”. “Naquela hora eu já estava sentindo saudades do circo. E o povo também”, afirma.

Ana Carolina Baú

O dia 27 de março é definido como o dia do Circo. A data foi escolhida em homenagem ao palhaço brasileiro Piolin, que nasceu neste dia, no ano de 1897. Os primeiros vestígios de artes circenses foram encontrados na China, há 5.000 anos, naquele tempo os movimentos das acrobacias, do equilibrismo e do contorcionismo eram implantados no treinamento dos guerreiros. A arte circense também está representada nas pirâmides do Egito, com pinturas de malabaristas, na Índia, onde o número de contorções e saltos fazem parte dos espetáculos sagrados, e também na Grécia, pois a contorção era uma modalidade olímpica.

Milene faz maquiagem no local

O “detetive” é uma das atrações

Adriana Maestrelli

As atividades ligadas ao circo têm agora um departamento próprio. A separação da área circense das outras artes gerou boas expectativas aos artistas locais. Estes enfrentam a falta de apoio e de verba para os projetos. Os circos itinerantes esperam mais facilidade para o funcionamento dos espetáculos na cidade. (Ler mais na pág. 15). Segundo o gestor público e coordenador do novo departamento, Crisanto Mendes, o mercado exigia um setor para circo. No entanto, não houve mobilização dos profissionais da área. A artista de circo Camila Cequinel afirma: “Fiquei sabendo dessa nova coordenação por boatos”. Os circenses locais esperam maior representação da classe, estímulo

Bábylla Miras

Administradores querem mais agilidade na liberação de documentos e incentivos dos órgãos municipais para entrada na cidade Oficinas, pesquisas e palestras são alguns dos meios que a Cia dos Palhaços usa para desenvolver e dar credibilidade a arte circense

Roupas de palhaço a mostra no Salão Irmãos Queirolo

elogiam”, explica Leonardo do Amaral, 35 anos, gerente do estabelecimento. Há sete anos no cargo, ele afirma que o público é bem eclético. Eles recebem desde empresários, trabalhadores que vão para um happy hour, até jovens que procuram uma “balada”. “Estudantes de Tu-

rismo e Jornalismo, por exemplo, vem muito aqui”, afirma. Pessoas de escolas de circo, artistas de rua são convidados para mostrarem seu trabalho e serem as atrações. Adriana Maestrelli Ruann Jovinski


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comunicação segurança

Curitiba, junho de 2009

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Curitiba, 25 de junho de 2009

ORGÃOS PÚBLICOS FECHAM OS OLHOS PARA AS LESÕES E ACIDENTES EM CIRCOS

MÁGICA E MÍDIA ONLINE: PARCERIA E CONCORRÊNCIA NO MERCADO DE TRABALHO

Popularização da internet afeta mágicos Artistas circenses ignoram riscos e medos

Mágico Johnny, 32 anos de carreira, iniciou na magia apresentando-se para familiares e, com o tempo, profissionalizou-se. Hoje em dia, ele realiza shows para empresas e em festas infantis. “No meu primeiro espetáculo, eu estava muito nervoso, fui empurrado ao palco, tropecei, as pessoas riram e acabei aliviando toda tensão daquele momento. O mágico deve ser natural em seu show”.

Majore Ribeiro

Concentração

Mágico Delfus

Delfus trabalha como mágico desde 1975. Em um de seus primeiros espetáculos esqueceu a roupa, atrasando o inicio do show. Com 40 anos de carreira, Delfus se apresenta preferencialmente em festas infantis. Ele afirma que é necessário ao mágico manter a concentração durante um espetáculo.

Johnny, 32 anos de carreira, a internet realmente atrapalha ao revelar os truques, mas cabe ao profissional fazer seu show se tornar interessante, “O mágico precisa ser ator, cômico, trabalhar e mexer com as emoções do público, o truque é importante, mas só fica bacana se aliado com uma ótima presença de palco”. Johnny também vê lados positivos no mundo online, a partir do momento em que este é utilizado como um grande aliado do trabalho dos mágicos. “Podemos divulgar nosso trabalho, deixarmos nosso contato e termos até site próprio. Nesse sentido a internet nos ajudou e bastante”, ponderou Johnny. Quem acaba permanecendo alheias as questões levantadas com o surgimento da internet são as crianças, que se fascinam com o trabalho dos mágicos e despertam menos interesse em sites e na busca por respostas para o que é visto durante as apresentações. “As reações das crianças a um truque, mostram o porquê deste não ser revelado”,

Para aqueles que trabalham em circo, a falta de segurança no picadeiro é ignorada. A taxa de acidentes em espetáculos é alta. Segundo funcionários do Circo Moscou, há pelo menos um artista lesionado no final de cada apresentação. Ainda assim, os acidentes são ignorados pelos orgãos públicos. As entidades regionais não possuem nem estatísticas sobre as ocorrências. A Polícia Militar afirma que: “Neste ano não houve nenhuma

Leticia Paris

Mágico Johnny

Assim como em muitas outras atividades profissionais, o mundo da magia sente o impacto da popularização da internet. Mesmo com alguns pontos positivos, como a divulgação do trabalho dos profissionais, a web é motivo de criticas na medida em que é usada para revelações de diversos truques de mágica. Deste modo, considera-se necessário uma readaptação por parte dos profissionais desta área. As revelações de truques são comuns em toda a web através de vídeos e de sites destinados ao ensino gratuito de magias, o que atrapalha as atividades dos mágicos. Diante desta si-tuação, os profissionais da área precisam inovar e readaptar seus shows para que não se perca a credibilidade. “Algumas pessoas usam a internet de maneira errada revelando truques. É necessária uma readaptação de nossa par-te”, afirma o mágico Delfus, que, com 40 anos de atividade, ressalta a importância de se manter o segredo em seus truques. Já de acordo com o mágico

Johnny utiliza lado cômico em seus shows para entreter o público

concluiu Delfus, antes do inicio de seu show voltado para crianças, realizado no SESC da Avenida Sete de Setembro. Apesar de apresentações destinadas para o público infantil, os adultos também se divertem durante a realização dos números de magia. Francilene César, fo-noaudióloga, 45 anos, levou sua filha ao show de Delfus e fez um apelo contra a revelação de truques, já que, segundo ela,

o segredo é o grande encanto da mágica. “O que fascina na mágica é o encanto, o segredo, é mudar uma realidade. Quando posso le-vo minha filha assistir a shows de mágicas, acho maravilhoso. Ela e eu somos fãs de magia. Acredito ser uma sacanagem re- Wesley e seu filho Willy velarem os truques. Isso tira o encanto das crianças”, afirmou. Luiz Henrique de Oliveira Leticia Paris

MÁGICOS EM DESTAQUE NA TV IMPULSIONAM VENDAS

Lojas de Mágica dependem da mídia para aumentar o público interessado em seus produtos e serviços As lojas de produtos especializados em mágicas recebem um número razoável de visitas em Curitiba, mas estas, ainda se mostram dependentes de uma maior divulgação de trabalhos relacionados à magia pela mídia. Quando um mágico tem seu trabalho em maior ênfase na TV, ou um programa destaca a mágica como tema, ocorre um aumento direto na procura pelos produtos e serviços do gênero. O sócio proprietário da Magic Center, loja especializada em artigos de mágica do Shopping Cidade, Luimar Szczepanskl, deixa claro a importância da mídia no comércio destes artigos. “A mídia (diversas) tem

Leticia Paris

Luiz Henrique de Oliveira

Naturalidade

Maior interesse é de jovens

um papel preponderante no auxilio ao comercio de mágicas. Sempre que há um evento na cidade ligado a mágica, só pelo

fato de aparecer nos jornais e na TV, como noticia do evento, já esquenta o nosso mercado”. Alguns frequentadores das lojas especializadas do ramo confirmam tais afirmações, revelando, que o começo de seu interesse por este universo devese a influencia direta dos meios de comunicação. “Comecei a gostar de mágica ao assistir na TV e numa festa de aniversário, gosto bastante de aprender truques.”, afirma Lucas Grossel, 11 anos, que costuma comprar artigos de magia em uma das lojas especializadas em truques. Outro exemplo é o estudante Gabriel Gonçalves, de 20 anos, “Comecei devido a influencia da

TV, assistindo o Mister M, passei a me interessar por fazer magias. Tenho costume de apresentar os truques que aprendo para meus familiares e amigos.” afirmou. Para o proprietário da Magic Center, o futuro das Lojas de Mágica está diretamente ligado aos sonhos e a ilusão que apenas estes produtos conseguem vender. “Imaginar um futuro ruim e sem perspectiva para a mágica é imaginar um fim para a ilusão. Vejo o futuro para o mercado de mágicas e brincadeiras, com os olhos de uma pequena criança o sonho não irá acabar” finalizou. Luiz Henrique de Oliveira Majore Ribeiro

ocorrência de acidentes em circos de Curitiba.” Entretanto, a artista Cecília Dimitriev do Circo Moscou, está “encostada” como autônoma pelo INSS devido à lesão que sofreu há poucas semanas em Curitiba. Wesley Souza, 35 anos, nasceu em uma família de trapezistas, já exerceu várias funções no circo e atualmente segue a tradição familiar. Aos 12 anos, o artista já havia quebrado o braço e a clavícula. “Como no karatê e no judô a maior medida de segurança em um circo é a técnica, no meu caso aprender a cair”, afirma. O número do “homem-aranha” é um dos menos seguros, já que os artistas vão para o alto e não há nenhuma rede de proteção. Semanas atrás, o trapezista perdeu um companheiro de picadeiro que estava no Circo Crohnos na Argentina, “Ele caiu, quebrou o pescoço e morreu”,

conta. A tendência na maioria dos acidentes que envolvem altura é que o artista caia com a cabeça no chão, causando lesões graves e levando até a morte. Recentemente, alguns artistas têm usado equipamentos de rapel em suas apresentações, mas são chamados de amadores pelos circenses tradicionais. Segundo Wesley as estruturas de circo estão cada vez mais precárias, “Cada dia o trabalho em circo é mais arriscado, ninguém investe em estrutura”, lamenta. Para o artista o segredo da segurança está no trabalho em grupo. “Eu mesmo dependo do aparador (companheiro do trapezista), o pessoal do globo da morte, depende dos outros integrantes, de quem faz a manutenção, e assim por diante”. Bruna Covacci Daniel Neves

Fotos: Daniel Neves

Aumento no número das revelações de truques na web faz os profissionais readaptarem suas apresentações para mantê-las atrativas “Assim como qualquer outra profissão, a minha também oferece riscos”, diz Wesley Costa, trapezista que trabalha no Circo Moscou

Artista aprendendo a fazer o exercício do homem aranha

UM DOS NÚMEROS MAIS ESPERADOS E ARRISCADOS

DI NÁPOLI TRABALHA SEM ALVARÁ

Considerado um dos eventos mais fascinantes e perigosos do circo, o globo da morte exige muito do profissional. Os treinos iniciam primeiro com bicicletas para que o equilíbrio seja dosado e distribuído de maneira certa. “Com dois anos de dedicação extrema torna-se possível praticar, mas,eu já estou me apresentando há sete e mesmo assim não escapo de machucados e lesões”. Diz Bráulio Guerreiro, 32 anos, que nasceu em família circense. Ele comenta que já quebrou perna e braço, mas mesmo assim não largaria esse número, já que a adrenalina sentida é algo inesquecível. Qualquer deslize na preparação da estrutura pode ser fatal, por isso, revisar o equipamento é algo necessário. Se a base de ferro estiver fora do lugar, tudo pode vir a desabar,

O Circo di Napoli ficou um mês localizado próximo ao terminal da Fazendinha e aguardou um documento de liberação para permanecer neste local. Durante um mês, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente ficou de mandar a documentação, enquanto isso, os artistas continuaram trabalhando na ilegalidade como a maioria dos outros encontrados na cidade. O circo fica cerca de um mês em cada local, o di Napoli está para partir da cidade. A demora para sair o documento pode estar ligada a questões ambientais. O local é considerado área de preservação. Denílson Santos, da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, comentou que não há lei que trate sobre circos em áreas de preservação. Já o órgão Estadual IAP – Instituto Ambiental do Paraná – assegura que o caso

Paixão e adrenalina superam todos Descaso público causa os riscos dentro do globo da morte irregularidade em circos

Braulio, fazendo alguns reparos no globo da morte

causando um grande acidente. Os equipamentos de segurança são os mesmos que o de motocross, mas a estrutura do globo também precisa estar sempre em manutenção. “Quanto mais motos utilizadas maior é a manuten-

ção com o globo”, diz artista do circo Moscou. Ele e seus companheiros estão no Guines Book de 2008, com o recorde de seis motos em um globo da morte. Gabriela Hoff

se enquadra no Sistema Nacional de Unidades de Cnservação, - Decreto Federal nº 6.515 de 22 de julho de 2008. Onde, indica no Art n°04, que delimita a área de atuação da preservação ambiental, e as atividades que podem acontecer ou não acontecer nesta. O dilema todo se reflete em uma grande briga política entre o Governo Estadual e o Municipal. Cada um diz que não é responsabilidade sua e prossegue o empurra empurra. Enquanto isso, para famílias inteiras que vivem do circo é mais fácil trabalhar na ilegalidade do que esperar a liberação adequada. Prova disso, é que entre todos os circos presentes na cidade, apenas o Moscou está com Alvará e de acordo com a da Prefeitura. Milena Vicentin Bruna Covacci


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Curitiba, junho de 2009

cidades

A VIDA E O ESPETÁCULO. O CIRCO É COMO UMA CIDADE

Conheça cada canto de um circo completo

Além dos espetáculos diários, o circo também possui uma estrutura para manter dezenas de famílias vivendo nele normalmente

Comunicare Circo  

Edição 165 - Junho de 2009 Jornal Laboratório da PUCPR