Page 1

Informativo do Serviço Pastoral dos Migrantes para ações no semiárido paraibano | edição 01 | Janeiro 2013

C

onvivência om o Semiárido


IDENTIDADE CAATINGUEIRA O saber popular construindo conhecimento libertador no semiárido brasileiro Arivaldo José Sezyshta*

O Semiárido Ao lançar a semente de um semiárido viável, produzimos uma mudança paradigmática, do combate à seca para a convivência com as características específicas dessa região, considerando experiências concretas de implementação de tecnologias sociais apropriadas e de intercâmbios realizados com e entre os agricultores, nossos mestres.

O Semiárido brasileiro compreende uma área de 975 mil km², abrangendo 1.133 municípios do nordeste do Brasil e do norte de Minas Gerais. Nessa grande região, predomina o bioma caatinga, com vidas e paisagens que não existem em nenhum outro lugar do mundo. Seu povo historicamente vem resistido a toda sorte de dominação. Nos últimos anos o agrohidro-negócio intensificou sua investida, o que tem exigido maior mobilização social dos sujeitos que fazem a agricultura familiar camponesa, responsável pela produção de 70% dos alimentos que chegam às mesas dos brasileiros, organizandose em redes, a exemplo da Articulação Semiárido Brasileiro - ASA. Isso tem permitido com que o saber popular, articulado ao conhecimento técnico e científico, construído por universidades e organizações, seja decisivo na luta de resistência e na construção de alternativas viáveis e importantes para a região.

As transformações O saber popular respeita o meio ambiente e amplia tecnologias simples de estocagem de água, de sementes, de forragem, de alimento e, sobretudo, de conhecimento. Articulado, fortalece a partilha no lugar da concentração, disseminando as pequenas obras em contrapartida aos projetos faraônicos, valorizando o camponês enquanto sujeito protagonista, portador de direitos, responsável por sua própria libertação, desencadeando outro tipo de desenvolvimento, sustentado e sustentável, que tem por fundamento a participação, a organização, a educação e o empoderamento das pessoas. Politizado, lança a pergunta se seria possível a definição de uma g e o c u l t u r a caatingueira: “assim somos, assim vivemos”, dizem os povos da caatinga. Essa curta definição

pg.02

www.spmnordeste.blogspot.com

permite inferir que não se pode construir processos libertadores sem antes assumir, como ponto de partida, o contexto onde se vive, o chão, o território, a história e a cultura do próprio povo. Nesse caso, o chão é a história de mais de 500 anos de negação. Desde o semiárido paraibano reafirmamos que todas as pessoas são portadoras de direito, que os povos originários têm uma relação sagrada com a terra, o que faz com que o território seja parte constituinte de seu próprio ser. O que deriva disso é a resistência daqueles que não aceitam se submeter a nenhum tipo de opressão e domínio, ainda que sutil, que os priva de suas terras, de sua cultura e de seus direitos, sobretudo do básico e sagrado direito de beber água de boa qualidade. A luta e a mobilização por acesso à água, de uma pequena comunidade de camponeses no cariri ou no agreste paraibano, estão unificadas, real e simbolicamente, à luta de todo o povo do semiárido brasileiro, bem como aos processos de retomada de suas terras por parte dos povos indígenas e quilombolas, e a luta por vida digna das populações excluídas das periferias urbanas, pois o

desenvolvimento só pode ser verdadeiro e sustentável se partir da diversidade, contemplandoa em todas as suas fazes. No caso específico da região da caatinga, estamos exaltando a diversidade dos vários cariris, dos muitos semiáridos, como bioma vivo, com sua produção diversificada, com sua biodiversidade, sua gente viva, saindo do silêncio secular, organizandose para acessar direitos, para que usem da palavra, para que tenham vez e voz e possam dizer o que pensam de si, o que querem para seus povos, o que acreditam ser melhor e mais viável para melhorar sua condição de vida e possam vislumbrar, de fato e de direito, a possibilidade de sair do esquecimento e da exclusão. * Doutorando em Filosofia Politica - UFPB e membro da coordenação do SPM.

www.spmnordeste.blogspot.com

pg.03


O SPM, o P1MC e a Convivência com o Semiárido como prática de Justiça Ambiental José Roberto Saraiva dos Santos* O SPM no Nordeste, vem atuando desde a década de 90, atividades voltadas à educação e recuperação ambiental, protagonismo juvenil, acompanhamento aos migrantes temporários e desenvolvimento local sustentável, sobretudo através da formação e mobilização social para a convivência com o semiárido e o apoio à agricultura familiar camponesa. Tais ações, para garantir resultados e impactos para a transformação dessa realidade, podem ser estruturadas em três eixos estratégicos: - Acesso, controle e gerenciamento da água: acesso das famílias a novas práticas de captação das águas das chuvas para o consumo humano e para a produção; - Segurança alimentar e autonomia produtiva: formação de unidades produtivas familiares diversificadas com base na agroecologia; - Sociedade civil organizada: fortalecimento das associações local, auto-organização das comunidades, ampliando os laços e práticas coletivas solidárias. O P1MC? É mais conhecido como Programa Um Milhão de Cisternas, porém, são atividades que compõem o Programa de Formação e Mobilização Social para a Convivência com o Semiárido da ASA. São ações estabelecidas a partir das dinâmicas locais, fortalecendo a sociedade civil organizada em entidades, de comunidades rurais, que mobilizam e envolvem as famílias capacitadas em gestão de recursos hídricos. Desde que surgiu, em 2003, a AP1MC (Associação Programa Um Milhão de Cisterna), contratou várias organizações da sociedade civil para executar o programa, dentre elas o SPM, o qual entrou neste processo e passou a desempenhar a função de UGM (Unidade Gestora Microrregional) desde 2009, até 2013, como entidade da ASA na Paraíba. Além de mobilizar, cadastrar, estabelecer processos de aprofundamento de saberes locais e saberes universais, o SPM participa da construção de processos que garantem Territórios com

Cidadania, contribuindo para redução da Migração Forçada. O P1MC é um programa que visa atender as famílias de baixa renda incluídas no Cadastro Único do Governo Federal e que tenham o espaço rural como lugar de moradia e sobrevivência e que não tenham acesso à água potável, priorizando sempre, mulheres chefes de família, crianças de 0 a 6 anos, deficientes e idosos, levando em conta, os limites físicos que um idoso no meio rural está submetido. Ao longo de quatro anos o SPM, como UGM, pode atender mais de 2500 famílias no Agreste (Ingá, Mogeiro, Itabaina, Itatuba, Gado Bravo, Fagundes e Salgado de São Félix) e Cariri (Barra de São Miguel, Riacho de Santo Antonio, Caraúbas, Caturité, Congo, São Domingos do Cariri e Barra de Santana), apresentando um resultado significativo na descentralização de abastecimento de água potável para consumo humano. Desta forma não se pode negar que as questões ambientais estão no centro deste programa. Falta ainda reconhecer a centralidade dos princípios de justiça ambiental para a proteção ecológica, a atividade econômica ou mesmo o futuro da democracia brasileira. A importância da noção de justiça ambiental decorre da constatação de que a crescente escassez de recursos naturais e de que a desestabilização dos ecossistemas afetam de modo desigual, e muitas vezes injusto, diferentes grupos sociais ou áreas geográficas (Antônio Augusto, 2009).

Enfim, é perceptível como o programa interage com aspectos comportamentais relacionados à melhoria da gestão ambiental, a geração de renda sustentável e a gestão e autoorganização das comunidades, é profundamente compreensível que é uma ação que vem estabelecer uma relação direta com a construção de uma cidadania mais justa e com a consolidação de estratégias mais inclusivas e democráticas. * Membro da Coordenação Colegiada do SPM-NE Geógrafo/NEACA-UFPE

EXPEDIENTE SECRETARIA DO SPM EM CAMPINA GRANDE End: Rua José Evaristo Barbosa, nº336. Catolé.Campina Grande PB. CEP: 58410-380 Tel: (83) 3331 8000 CONSELHO EDITORIAL Arivaldo José Sezyshta, Darcy Lima e José Roberto Saraiva dos Santos JORNALISTA RESPONSÁVEL Darcy Lima (DRT-PB 2625).

pg.04

www.spmnordeste.blogspot.com

Informativo P1MC  

Publicação do Serviço Pastoral dos Migrantes sobre suas ações no Programa Um milhão de Cisternas e pela Convivência com o Semiárido

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you