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Número 5 | Ano 5 | Dezembro 2016

Educação & Sociedade


Editorial Coordenação e Edição Geral do Projeto Prof. Ricardo Duarte Gomes (MTB-DRT 3123) Edição de Fotografia Felipe Menicucci Revisão Geral Ricardo Duarte Gomes Marina Gontijo Foto de Capa Felipe Menicucci Design Gráfico Diogo Rodrigues Redatores Bélit Medeiros Alves Carla Teixeira Deborah Medice Silva Leonardo Pereira Letícia Valério Maria Clara Epifania Marina Gontijo Mirele Moreira Paula Dias Raíra Saloméa Tábatha Valentim Tiragem: 500 exemplares. Distribuição Gratuita Endereço Prédio Fábio Ribeiro Gomes - 2º andar - Campus Universitário Viçosa – MG. CEP: 36570-900 Telefone: 3899-2878 www.com.ufv.br

Nesta Edição, a Revista traz alguns textos produzidos ao longo das disciplinas COM 202 “Jornalismo Interpretativo” e imagens na COM 260 “Fotojornalismo”, nos períodos letivos 2015.2 e 2016.2. Sobre os textos, os alunos foram divididos em duplas de reportagens com pautas sugeridas pelos próprios alunos, que empreenderam um trabalho de investigação jornalística cuidadosa ao longo do período. Coincidentemente alguns textos se aproximaram da temática “Educação & Sociedade” e, assim (nos limites das páginas da Revista), selecionamos alguns textos para compor esta Edição. Os temas nos fazem pensar sobre a complexa relação da Educação com os diversos problemas sociais em que vivemos e que desafiam as gestões e políticas educacionais: a urgência em melhorar o ensinoaprendizagem do aluno, ensinar ética nas relações pessoais, cuidar do aluno em seu grau de deficiência, mas também melhorar as condições da carreira do professor e da infra-estrutura escolar. As reportagens sobre Educação & Sociedade também nos permitem refletir o fazer do jornalista: por qual motivo o trabalho jornalístico seria importante nesses tempos difíceis para a educação e à realidade brasileira? Em geral, jornalistas pouco se perguntam sobre suas práticas na sociedade. Preferem a apuração rasa, pressionada pela notícia à venda, pelos interesses da empresa de comunicação, optando em reproduzir o já tão criticado “jornalismo declaratório”. Assim, proliferam os assuntos que menos importam ao social. Mas onde estariam as melhores histórias? Bem na nossa frente, como diria o professor da Universidade Stanford e jornalista prêmio Pulitzer, Walter Robinson. É só passear um pouco pela cidade e conversar com as pessoas. Robinson ensina que é fácil fazer reportagem sobre corrupção, diante das possibilidades tecnológicas de cruzamento de dados; do constante vazamento de informações que só deixa ao repórter o trabalho de extrair da boca de alguma autoridade a confirmação das informações. O foco do jornalismo investigativo, segundo Robinson, estaria naqueles que não tem voz. Os temas invisíveis na sociedade estariam com eles. Nesta Edição, evasão escolar, bullying, autismo, pedagogias alternativas, inclusão de pessoas com deficiência na escola, mas também os crimes virtuais (entre eles, o tão comum cyberbullying). Dar visibilidade a tais temas ajuda a pensar a relação da educação com a sociedade, assim combinando com o que disse Walter Robinson, em entrevista ao jornal Zero Hora, em outubro deste ano, quando esteve de passagem pelo Brasil: “A democracia não funciona sem o Jornalismo”. Ricardo Duarte Editor

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ÍNDICE 5 O ensino às pessoas com deficiência

8 Longe da Escola evasão escolar

12 Autismo: uma parte do mundo, não um mundo à parte

16 Bullying escolar violência velada

18 O silencioso mundo dos crimes virtuais

22 Pedagogias em contraste nas escolas públicas

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O ensino às pessoas com deficiência por Carla Teixeira e Marina Gontijo

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egundo o Ministério da Educação (MEC), no que diz respeito à educação inclusiva, o foco não deve ser na deficiência, mas sim na acessibilidade. Ou seja, na adaptação dos espaços, dos ambientes e dos recursos que devem ser acessíveis de acordo com a necessidade de cada aluno. No portal do MEC, diz ainda que “não cabe ao aluno se adaptar à escola tal como foi construída”, sendo da escola, o papel de se adaptar para incluir os alunos no meio educacio-

nal em todos os âmbitos, tanto na estrutura física, quanto no ensino e socialização. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência foi instituída em julho de 2015 e tem como objetivo assegurar e promover, de forma igualitária, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais da pessoa com deficiência, visando sua inclusão e cidadania. O 4o capítulo da lei trata dos direitos à educação e assegura a todas as pessoas com deficiência, o direito a um sis-

A importância de proporcionar uma igualdade de oportunidades no social tema de educação inclusivo em todos os níveis durante toda sua vida. As escolas devem, ainda, ter um projeto pedagógico que institucionalize esse atendimento educacional especializado, além de ofertar a educação bilíngue, o português e a libras, uma vez que os tradutores e intérpretes da libras que atuam na educação básica devem, no mínimo, possuir ensino médio completo e certificado de proficiência na libras. De acordo com os resultados parciais do Censo Escolar de 2015 segue crescente o número de matrículas de alunos com deficiência na

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educação básica de ensino. Os dados até agora mostram que existe cerca de 662 mil estudantes com necessidades especiais matriculados nas redes estadual e municipal em todo o país. Em Viçosa, as escolas das redes municipal e estadual de ensino já trabalham com o que se chama de “educação inclusiva”. Na prática isso significa que, mediante a apresentação de laudo médico que comprove deficiência, as escolas precisam aceitar e prestar o apoio necessário a estes alunos. De acordo com a Coordenação da Educação Infantil da Secretaria de Educação da cidade, das 17 escolas, em 2015, três têm sala de recursos na rede municipal. “Posso dizer que não é um trabalho excepcional, mas tem gerado resultados satisfatórios.”, Ana Florinda, coordenadora. A Secretaria de Educação da cidade tem feito pedidos de mais salas de recursos para as escolas porque o número matrículas de alunos com deficiência tem aumentado. A problemática da inclusão vai muito além do simples fato de se colocarem alunos com deficiência nas escolas regulares. Algumas escolas estaduais e municipais de Viçosa contavam até 2015 com os “professores de apoio” ou “estagiários de inclusão”, que têm o papel de acompanhar os alunos e ajudar os professores, mesmo sem formação adequada para exercer essa função. Alguns cursos e oficinas até são divulgados, mas há pouco interesse dos profissionais nesta área. A coordenadora reconhece que o município está trabalhando dentro de suas possibilidades, tentando não deixar o aluno deficiente sem auxílio. A professora Eveline Torres

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Escolas de Viçosa ainda necessitam passar por reformas para adequação à acessibilidade

Pereira, coordenadora da Unidade Interdisciplinar de Políticas Inclusivas (UPI) da UFV, preside também a Comissão Permanente de Acessibilidade e Inclusão (CPAI), que trabalha com ações relativas à acessibilidade nos três campi da Universidade. Ela também concorda que há um desinteresse dos professores em se especializarem na área. “Eu fui em escolas de graça para dar essa preparação e fiquei esperando na portaria. Já dei vários cursos de capacitação e não há interesse no aprendizado. É muito mais fácil falar ‘isso não é pra mim’. Não precisa de uma capacitação especial para receber esses alunos, precisa de uma metodologia de trabalho. É um processo educativo, não é só trans-

missão de conteúdo”, explica Eveline. A professora diz ainda que a presença do professor de apoio além de constranger o aluno deficiente, pode retirar a responsabilidade dos professores regulares e desmotivar a busca deles por estratégias. A professora Roberta Miranda é pós-graduada em Ensino Especial e trabalha há oito anos com alunos com deficiência. O fato de ter uma irmã com necessidades especiais e cuidar dela despertou em Roberta o interesse em trabalhar com a inclusão. Ela já trabalhou na Escola Estadual Effie Rolfs atendendo alunos com deficiência visual, auditiva e intelectual. Para isso, a professora já fez cursos como braile, libras e sempre busca formas de atualizar a


própria didática. Na E.M. Edmundo Lins estudam crianças e adolescentes de 6 a 15 anos de idade e a inclusão consiste em alunos com deficiência assistirem às mesmas aulas e ocuparem as mesmas salas de aula que os alunos regulares. O atendimento prestado pelas professoras de recursos acontece em horários diferentes das aulas regulares, sendo responsabilidade dos pais e alunos o comparecimento nestes horários específicos. A professora Roberta Miranda conta que são utilizados métodos e materiais condizentes com o tipo de necessidade especial e que é levado em conta o desempenho que esses alunos apresentam em sala de aula. Ainda de acordo com a professora,

há uma carência no que diz respeito aos materiais disponíveis para auxílio dos alunos de inclusão e por isso a escola conta com a ajuda de doações de brinquedos, miniaturas e outros objetos que são utilizados pelos professores de recursos na melhoria da sensibilidade e coordenação motora. O método avaliativo para as crianças da inclusão se difere do método utilizado para os alunos regulares no que diz respeito ao tempo de aprendizado, sendo assim, os alunos são direcionados para as turmas de acordo com a capacidade que apresentam de acompanhar os conteúdos apresentados. Érica Alves é mãe da jovem A.L.A., de 10 anos, aluna de inclusão da rede estadual de ensino, com

laudo médico de atraso mental de 4 anos e déficit cognitivo na coordenação motora. A criança conta com o apoio de professores que a acompanham e prestam atendimento individualizado durante todas as aulas, mas Érica diz que ainda assim existem dificuldades: “as escolas públicas não estão preparadas para receberem os alunos de inclusão. Os profissionais precisam ser mais capacitados para atender esses alunos inclusos. Serem capacitados também no coração, para eles trabalharem com essas crianças especiais como crianças normais que podem se desenvolver, aprender e serem cidadãos iguais aos outros. Cada uma no seu tempo, da sua forma e no seu limite”, desabafa a mãe. Nenhuma criança vive em condições iguais as outras, em termos de estrutura familiar e instrução. “Existem crianças que apanham, que vivem em região de violência, que sofreram abuso sexual e o professor não está preparado para trabalhar com cada um desses aspectos. Essa falta de preparação também se tornou uma justificativa para não se fazer o que deve ser feito.”, explica Eveline Torres. Ela acredita que o principal problema que gira em torno dos profissionais ligados à inclusão, é que a maioria acha que precisa lidar com a deficiência: “Quem tem que lidar com a deficiência é o profissional especialista nisso: fonoaudiólogos, psiquiatras, neurologistas, psicoterapeutas, etc. O professor vai lidar com a criança. E incluir não significa colocar a criança lá. Muito menos colocar uma pessoa de “apoio” que vai virar uma babá.”, diz a coordenadora da UPI.

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Longe da Escola por Mirele Moreira e Raíra Saloméa

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m cima de uma bicicleta, agitado para sair, o jovem A.G. conversa com nossa reportagem. Estávamos no meio de uma das ruas no bairro Cantinho do Céu, em Viçosa, próximo onde mora. A.G. Nos conta que parou de ir às aulas no 1o bimestre deste ano, no 6o ano do ensino fundamental. Ele conta que alguns meninos o batiam e ameaçavam em uma das escolas estaduais da cidade, para onde tinha sido transferido após sua família mudar de bairro. A.G. tem 15 anos e um histórico de aluno indisciplinado. Foi reprovado no 4a ano, lê mal e assume que não gosta de estudar. Seu pai não o mandou de volta para escola porque A.G. está ajudando em casa, trabalhando como vendedor de produtos de limpeza. Desde então, a família perdeu o benefício do programa Bolsa Família e o jovem mora com o pai, dois irmãos e a madrasta, com quem o menino não conversa. A mãe biológica visita poucas vezes no ano. A história de A.G. poderia ser a de muitos jovens pelo País. Segundo um estudo do Instituto Unibanco, publicado pela Agência Brasil EBC, 1,3 milhão de jovens entre 15 e 17 anos deixaram a escola sem concluir os estudos, dos quais 52% não concluíram sequer o ensino fundamental. O estudo reúne dados do IBGE e do Ministério da Educação e, constata ainda que, entre os

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meninos que representam a maioria de evadidos, a principal causa de desistência no ensino médio é a necessidade de trabalhar (63%) e, entre as meninas, a maternidade (35%). Nossa reportagem conversou com o Conselho Tutelar de Viçosa e apurou que foram registrados, somente entre outubro e dezembro de 2015, 32 casos de evasão escolar. Em 2016, entre março e agosto, 22 casos. E esses casos são apenas os que chegaram ao Conselho. As causas da evasão são muitas e perpassam a falta de estrutura familiar, a baixa condição financeira e a situação de violência em que se encontram as comunidades. Apuramos ainda mais informações junto a Coordenadora da Educação Infantil da Secretaria de Educação de Viçosa, Ana Florinda Fontes, e com a Conselheira Tutelar, Michele Amaro de Jesus, para entender melhor esse complexo contexto. É possível, então, segmentar as causas que desencadeiam a evasão nas seguintes categorias: Aluno: segundo a Conselheira Tutelar o desinteresse do aluno está associado ao perfil comum do estudante que evade, em geral indisciplinado e repetente. Quando em uma turma mais nova, revendo o mesmo conteúdo, o desinteresse dele só aumenta. Após várias repetências, o aluno chega numa fase,

entre os 16 e 18 anos, que prefere trabalhar, ao invés de estudar, e ter sua independência (muitas vezes para sustentar o próprio vício em álcool e outras drogas). A conselheira tutelar lista ainda, como mo-


Evasão escolar se vincula a problemas sociais que influenciam no rendimento e no abandono dos estudos tivos comuns de evasão, o quadro de doença não informada à escola; a falta de transporte; e o bullying, principalmente nos casos de gravidez. “Geralmente a menina deixa de ir pra escola antes mesmo do bebê

nascer, por vergonha da chacota dos colegas”, informa. Escola Para Ana Florinda, da Secretaria de Educação, as escolas não são

atrativas. A falta de adequação dos espaços escolares não acompanham a evolução tecnológica e, muitas vezes, não têm equipamentos e mobiliários suficientes. Existe uma grande rotatividade de professores,

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comprometendo a continuidade dos trabalhos. A gestão da escola é fundamental no diálogo com o aluno e famílias. As turmas são muito heterogêneas, pela variedade de idades e interesses dos alunos. “O imediatismo e o consumismo da sociedade atual não combinam com o tradicionalismo da escola”, afirma. Professor Também obtemos a informação de que seria comum professores chegarem ao mercado de trabalho com problemas na formação acadêmica, sentindo-se inseguros ao lecionar e sem didática adequada. Somam-se a isso a desvalorização da profissão, os salários baixos, a falta de incentivos à classe e a alta carga horária de trabalho. A sobrecarga dificulta a dedicação aos planos de aula, enquanto que as turmas muito cheias impedem à adequação necessária para cada tipo de aluno. Muitas vezes o profissional desconhece a situação real do aluno e tem pouca tolerância com indisciplina e adversidades. “Além do conteúdo os professores devem ter um bom relacionamento humano e empatia com os alunos”, completa Ana Florinda. Família A falta de estrutura familiar e a desobediência aos pais se juntam ao alcoolismo, a dependência química e a prostituição, interferindo na conduta dos alunos na escola. Os alunos que sofrem com a falta de diálogo e com a violência familiar são mais propensos a terem problemas escolares. Outros fatores a serem considerados são a transferência de responsabilidade

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dos pais para os filhos mais velhos, que devem cuidar dos mais novos, a situação de reclusão, o desemprego, a marginalização social e a rotatividade de moradia. “Os pais muitas vezes são negligentes frente ao compromisso com os filhos”, diz Ana Florinda. Poder público Soma-se a este cenário a falta de investimentos na Educação Básica e Fundamental, a falta de concursos e de um plano de carreira para

os concursados. Os recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB) poderiam ser melhor direcionados à resolução desses problemas do funcionalismo público. Há, também, ausência de investimentos em quadras, praças de esporte e áreas de lazer para os jovens terem atividades durante o tempo em que não estão na escola. E os órgãos e conselhos responsáveis não estão equipados nem pre-


entrar em contato com a família e promover o retorno do aluno para a escola. Se essas ações não surtirem resultado, os pais ou responsáveis são convocados para uma audiência judicial, uma vez que o Direito à Educação é uma garantia Constitucional.

parados para a demanda. Ações Na Escola Municipal Professor Pedro Gomide Filho, no bairro Santa Clara, existe um quadro de incentivo à frequência do aluno. A turma com o menor número de faltas ganha um dia de filme com pipoca. Também a Secretaria de Educação promove projetos em parceria com outras secretarias municipais, como o Projeto Sanitarista Mirim, Associação Atlética Banco

do Brasil (AABB) Comunidade, Petra, Programa Educacional de Resistência às Drogas (PROERD), Jovens do Futuro e Bom de Bola, Bom de Nota. São firmadas parcerias também com instituições de ensino superior da cidade por meio de palestras e convênios de estágio. “Ações tímidas e sozinhas não conseguem resolver o problema”, reconhece a secretária. Quando ocorre a evasão as escolas devem notificar o Conselho Tutelar, que ficará responsável por

O retorno à escola A decisão de voltar a estudar pode demorar um pouco. Quando jovem, Édina Gomes parou de estudar aos 14 anos porque precisava trabalhar para ajudar a mãe. O tempo passou, ela teve três filhos e, aos dois primeiros, não pode ensinar as tarefas da escola. Hoje, aos 35 anos, ela retornou a 7ª série do EJA para poder ensinar as tarefas ao filho mais novo, de 2 anos: “Estou me sentindo feliz, parece que fica um vazio quando fico em casa ao invés de ir à aula”. Édina estuda na mesma série que a filha, E.G., de 16 anos. Ela também cursa a EJA, pois está em distorção idade-série, atrasada da idade regular. A menina evadiu do 6º ano em 2015 e ficou 2 meses fora da escola. Enquanto isto, o jovem A.G., que você conheceu no início desta reportagem, não quer voltar a estudar. Ele sabe que a escola é importante e faz falta para conseguir emprego, mas não quer voltar para a mesma escola de antes e as outras ficam muito longe, segundo ele, já que não há dinheiro para o ônibus. Ele decidiu que quer ser pedreiro, como o pai, e já quer começar a trabalhar com ele. A.G. diz que seu pai prometeu matriculá-lo em outra escola no ano que vem. “Vamos ver. Eu vou ficar esperando. Quem sabe eu volto?”, desabafa o jovem.

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Autismo: uma parte do mundo, não um mundo à parte por Letícia Valério e Paula Dias Familiares, vizinhos, amigos e a Escola são o ponto de partida para se uma abordagem social diferente sobre o mundo das pessoas com autismo

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edro* e João* (*os nomes desses dois personagens em nossa reportagem foram alterados para garantir o anonimato) têm hoje 11 e 8 anos. Ambos são autistas. João começou a andar quando tinha apenas um ano, mas falava muito pouco até os 3 anos. Estes sinais foram o ponto de partida para a família buscar ajuda profissional. Já o Pedro, demorou a andar, mas teve a fala precoce e aprimorada. A família por vezes pensou no fator genético como uma das causas, mas após tratamentos em Belo Horizonte com o João, o médico quis conhecer o Pedro. A consulta foi praticamente dedicada à leituras das provas e atividades do menino. Após observar a resposta de uma pergunta da prova, o médico observou o avanço intelectual dele para a idade. Assim, o médico diagnosticou o autismo em grau mais leve, quase imperceptível. Na escola, os meninos se saem muito bem. O Pedro frequenta uma escola convencional e se dá bem com a turma. Já o João, por causa da

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dificuldade de achar profissionais que o acompanhassem diariamente, foi para outra escola, que encontrou apoio e acolhimento de algumas pessoas acostumadas com situações semelhantes. Segundo Maria, mãe das crianças, o João até hoje ainda apresenta dificuldades com a fala. Já o Pedro, que tem um grau mais brando do transtorno, é muito sentimental, literal, transparente e tem uma audição muito aguçada. “Temos que ser o mais direto possível com ele. Os dois sentem dificuldades extremas quando saem da rotina e as vezes, demoram se entrosar. O trabalho junto ao auxilio profissional e os medicamentos são diários e fundamentais para amenizar esses sintomas e fazer com que eles vivam uma vida normal.”, afirma um dos responsáveis pelos meninos, que preferiu não se identificar. A pediatra Edilene Lopes Drumond diz que o autismo corresponde a uma síndrome comportamental de causa biológicas múltiplas, caracterizada por déficit de inte-

ração social, associado a alteração de linguagem e comportamento. É designado pelo nome de “Transtorno do Espectro Autístico (T.E.A.)’’ que pode ser identificado a partir de alguns sintomas: (a) Déficits expressivos na comunicação verbal e não-verbal, usada para interação social (em crianças mais novas, o jogo lúdico/de faz de conta); (b) Falta de reciprocidade social; (c) Incapacidade de desenvolver e manter relacionamentos de amizade apropriados para estágio de desenvolvimento; (d) Comportamentos motores ou verbais estereotipados ou comportamentos sensoriais incomuns; (e) Excessiva adesão à rotinas e padrões ritualizados de comportamento; (f ) Interesses restritos, fixos e intensos. Os sintomas devem estar presentes no início da infância, mas podem não se manifestar completamente até que as demandas sociais excedam o limite de suas capacidades. Observa-se maior prevalência dessa condição clínica entre o sexo masculino, com média de 4 meninos para cada 1 menina.


Esses pacientes necessitam de atendimento psicológico, terapia ocupacional e fonoaudiologia, além de treino de habilidades sociais e educação especial. Ou seja, uma abordagem multidisciplinar. Quanto mais precoce o início do tratamento, melhor o prognóstico da criança. Assim, é muito importante

o acompanhamento da família, vizinhos, amigos, professores da escola e profissionais dos serviços de saúde. Em relação ao tratamento medicamentoso, este é acessório e não obrigatório, uma vez que nem sempre os sintomas são passíveis de redução pela utilização de psicofár-

macos. Apenas um terço das crianças diagnosticadas com esse transtorno é passível de uma abordagem psicofarmacológica. É importante salientar que essa abordagem não substitui a abordagem multidisciplinar, devendo ser considerada como tratamento complementar. A sua indicação deve ser considerada

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quando alguns comportamentos apresentam perigo evidente para o indivíduo, para outras pessoas ou quando interferem na habilidade de aprender e de se socializar. A psicanalista Nádia Figueiredo, mestre em psicologia, diz que não existe exame laboratorial e nem marcadores biológicos que sirvam de parâmetro para diagnóstico do autismo. O T.E.A. é divido em níveis leves, moderados e severos, incluindo uma variedade de apresentações. As estatísticas sobre o Transtorno sinalizam para um aumento do número de crianças autistas na atualidade, porém estão incluídas nestas classificações estatísticas os comportamentos e sintomas amplos e diversos, inclusive o “autismo leve”.

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Autismo, na verdade, é uma maneira diferente de ser e de fazer as coisas no cotidiano. Para a psicóloga, ele desloca a ênfase da patologia para o trabalho normal das crianças no cotidiano das interações comuns. Cada sujeito tem uma singularidade e isto é o principal a ser trabalhado, pois as práticas giram em torno do funcionamento subjetivo e singular de cada um. Assim, respeitando as singularidades, as formas próprias de ser e fazer, cada criança tem seu tempo e suas maneiras de construir laços sociais e afetivos. Contudo, a participação familiar é base para tais conquistas e avanços, pois auxilia os profissionais a entenderem o funcionamento da própria família. Atender os pais, possibilita escutar deles sobre a

criança e proporciona um espaço para que todos possam falar de suas próprias angústias. Na sociedade, a inclusão começa a partir do momento em que não se tenta “encaixar” a criança autista em um padrão, mas sim dá-lhe espaço para que seu mundo interaja com o social. Muitas vezes o autista resiste ao que esperamos em geral: que todas as crianças aprendam e se comportem como as outras crianças, acessem os mesmos conteúdos e façam uso de métodos padronizados que servem para todos. Maria, mãe das crianças autistas, passa por problemas relacionados ao assunto todos os dias. Ela diz que não há profissionais capacitados, apesar do interesse de algumas pessoas no trabalho com a criança


autista. Mas muitas vezes essas pessoas não sabem como lidar, por falta de preparo, valorização, incentivo financeiro e público. Não se trata de contratar pessoas para ficarem grudadas 24 horas junto das crianças autistas, mas de preparar profissio-

nais que acompanhem as limitações das crianças com dificuldade de interação. Na cidade a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) trabalha com a inclusão de pessoas com variados tipos de necessidades especiais. Também o Laboratório de Estimulação Psicomotora (LEP) do Departamento de Educação Física da UFV, que possui vários projetos de pesquisa e extensão, trabalha com atendimentos individuais e com diferentes grupos, em que os alunos atuam como auxiliares. Poucas escolas estão hoje disponibilizando gente especializada em educação especial para trabalhar no auxílio diário dessas crianças, no convívio com outras em uma mesma sala. Existem espaços escolares com estrutura adequada e sala de recursos, onde os alunos excepcionais frequentam toda a semana em turno diferente. Os trabalhos pedagógicos desenvolvidos nestes espaços preparam esses alunos para desenvolver habilidades, utilizando instrumentos de apoio, facilitando o aprendizado nas aulas regulares. A inquietação do aluno excepcional adia a realização de alguma

atividade, fazendo com que tal atividade seja feita em outro momento, sem deixar de avaliar o aluno no conjunto com os outros. Outro aspecto relevante, é o fato da família sempre presente, que auxilia de forma positiva no crescimento da criança. Foi o que aconteceu com o responsável pelo João, personagem do início desta reportagem. “Um dia na porta da escola, uma mãe me parou e disse: ah, ele que é o João? Meu filho disse que ele grita tanto! Eu respondi que as vezes ele sente um pouco de dificuldade de se expressar e precisa gritar, mas acho que se a professora tivesse explicado isso, seu filho não falaria com você”, afirmou a responsável pelo menino, explicando que certas pessoas ainda não estão preparadas para lidarem com tais situações. Ela diz que não pensa no futuro, se os meninos irão casar ou ter filhos, por exemplo. Mas foca e vive no agora, preocupada com a felicidade deles e torcendo para que a sociedade seja mais tolerante e sensível ao olhar e julgar as pessoas excepcionais. “Só quero um mundo mais regado de respeito, direitos e com menos indiferenças’’, diz Maria.

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Bullying escolar

uma violência velada e suas consequências

por Tábatha Valentim

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bullying é um tipo de violência caracterizada por uma agressão repetida e intencional com determinada vítima, podendo ser física, verbal ou até mesmo sexual. Ele é um fato social presente nas relações interpessoais há bastante tempo, mas só começou a ser estudado a partir da década de 1970 na Suécia e na Dinamarca, ganhando visibilidade depois de pesquisas realizadas na Noruega que relacionaram o suicídio de crianças e adolescentes com esse tipo de violência. Os dados na época eram alarmantes e estimularam as discussões sobre o assunto até os dias de hoje. Um dos ambientes onde mais se percebe casos de bullying seria a escola. Nela se encontram as diferenças e as intolerâncias. O problema extrapola os limites da escola e deve ser também uma preocupação da família, apesar da escola ter o dever de oferecer suporte emocional às vítimas, evitando que aconteça a violência, ao invés de simplesmente deixar de enxergar a existência de casos. A professora Valléria Gripp, da rede pública de ensino há 30 anos e vice-diretora de uma escola estadual no município de Caiana/MG, acredita que o maior problema entre a escola e a violência seria a omissão. Os casos de bullying são sem-

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pre “abafados” e não há uma discussão sobre o problema. Segundo ela, numa cidade pequena do interior podem existir inúmeros interesses políticos e econômicos envolvidos na hierarquia da escola e a prática da violência, na maioria das vezes, acontece partindo de alunos que são filhos dessas pessoas influentes na cidade. A omissão aconteceria na tentativa de evitar que a escola perca possíveis apoios políticos na resolução de seus problemas institucionais, além de evitar a exposição dos casos à supervisão pedagógica do Estado. A professora Ana Beatriz da Silva, também da rede pública estadual, conta que é muito comum os professores tentarem resolver os casos antes de levar à direção da escola. Segundo dados da Unicef, 80% dos alunos do ensino fundamental de escolas de vários países ao redor do mundo já sofreram bullying e que, em sua maioria, as situações acontecem em sala de aula. Em 2009, o Portal Educacional realizou a pesquisa “Bullying no ambiente escolar”, a primeira no país sobre o assunto, que reuniu o depoimento de 5.168 alunos. Cerca de 70% deles contaram já ter presenciado uma agressão e 30% vivenciou pelo menos uma. Em um marco na história da educação, no dia 06/11/2015, foi sancionada a lei 13.185 que estabelece a criação do Programa de Combate à Intimidação Sistemática, que obriga as escolas a adotarem

medidas de prevenção ao bullying. Esse programa seria responsável por capacitar os professores e equipes pedagógicas para prevenir a prática, dar assistência psicológica e jurídica às vítimas e agressores. Diversas modalidades de agressão foram lembradas pelo texto, como o cyberbullying, quando a violência e os ataques são feitos nas redes sociais. As escolas devem fazer campanhas educativas, capacitar professores e a comunidade em geral. As professoras Ana Beatriz da Silva e Valléria Gripp são mães de alunos que já passaram por esses problemas e acreditam que recorrer a uma lei mais severa para punir os agressores deve ser o último recurso ou seria o indicado para casos mais radicais. Segundo elas, todas as escolas deveriam contar com um aparato psicológico não só para os alunos, mas também para os professores, para que eles saibam lidar com a situação e também tenham alternativas para resolvê-la. Além disso, esse apoio também deveria se estender aos pais, para que exista uma comunhão entre escola e família que envolva o aluno para que ele não sofra nenhuma consequência grave no futuro. E são exatamente essas alternativas que esse novo projeto de lei traz para tornar viável a solução do problema. A jovem Paula Oliveira da Silva, 19 anos, foi vítima de bullying na escola desde os 5 anos até os 12,


quando já estava no ensino fundamental. Ela era aluna de uma escola particular, com uma sala relativamente pequena e começou a sofrer agressões muito cedo por conta do divórcio dos seus pais. “Naquela época, ter pais divorciados era muito difícil. Eu fui a primeira da sala a passar por isso. Como se não bastasse aguentar o problema em casa, também sofria na escola”. Ela diz que a escola tentava ajudar, chamava os pais dela para ficarem próximos, mas nunca resolvia, porque Paula era vista como o problema, não os agressores. “Quem era diferente naquele meio? Eu. Por isso que eu é que precisava de me tratar, eu é que precisava de ter os pais chamados na escola e nunca ao contrário.” Várias vezes Paula quis sair da escola, mas a mãe achava inaceitável o fato de precisar recorrer a isso por conta de algo que não era do interesse de nenhuma outra criança ou professor. Em vista disso, Paula conta que fez acompanhamento psicológico até os 15 anos, e os traumas sofridos con-

tribuíram para que ela se tornasse uma pessoa tímida e reclusa, e que só agora, que já está na faculdade, é que isso tem melhorado. Assim como Paula, várias outras vítimas e também os agressores, sofrem com as consequências dessa violência não só no momento em que ela ocorre, mas também no futuro. A psicopedagoga Tatiane Castro explica que os agressores dedicam muito de seu tempo a importunar as vítimas, o que pode ser considerado uma exteriorização de um problema social ou familiar que sofre, e que acaba resultando em falta de atenção nas aulas e consequentemente um baixo rendimento escolar. Além disso, em alguns casos, quando essa perseguição extrapola todos os limites do respeito, esse agressor pode ser identificado como uma pessoa com “desvio de conduta”, ou seja, quando ainda não possui idade para ser classificado como um psicopata ou um sociopata. São nessas questões que o bullying mostra sua face mais gra-

ve e deve ter ainda mais atenção da escola, da família e da sociedade, pois a forma com que o problema público interfere na vida da vítima é ainda pior. No caso dessas vítimas, as consequências são, em geral, mais marcantes e também preocupantes. Além de afetar o desempenho escolar, o problema pode alcançar a esfera social e afetiva dos relacionamentos, devido a um medo constante da repetição do fato. Também são comuns casos de isolamento, abandono escolar, depressão e, como muitas vezes já foi noticiado pela mídia ao redor do mundo, suicídio e homicídio. A vítima não suporta sua condição de submissão e enxerga na morte (sua ou de quem pratica a violência) a única saída para o fim do problema. Tatiane diz, ainda, que uma das coisas que mais muda negativamente na vida dessas pessoas é que elas se colocam como vítimas em qualquer situação. “Elas não sabem se defender e só procuram se relacionar com pessoas que mantenham elas nessa condição de vítima.”

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O silencioso mundo dos crimes virtuais por Leonardo Pereira e Maria Clara Epifania Entre spams e softwares corrompidos, criminosos fazem uso de informações pessoais para aplicar golpes em usuários da internet Os desdobramentos da internet ainda são ocultos para grande parte dos usuários. A rede de computadores é como um oceano a ser descoberto, e como tudo que é desconhecido gera curiosidade, muitos internautas acabam não sabendo dos perigos que correm e tornam-se presas fáceis nas mãos de criminosos. Quando navegamos pela internet, somos reféns dos chamados “motores de busca”, entre eles, o mais famoso, o Google. Porém, ao contrário do que muitos pensam, tais mecanismos de busca não são capazes de mostrar tudo o que

existe na rede mundial de computadores, pois mostram apenas o que há na superfície deste oceano, ou seja, uma parte muito pequena do que realmente é a Internet. Essa outra parte da internet é conhecida como “Deep Web”, e é nesse território perigoso que o risco de contaminar-se com um vírus ou ter o computador invadido por hackers e crackers é muito maior. Até o momento no Brasil, cerca de 94,2 milhões de pessoas estão usando a internet, sendo que 45% delas acessam as redes sociais diariamente. Estes números tendem a aumentar. E esse grande fluxo de pessoas e informações no meio virtual ajuda a disseminar cibercrimes. De acordo com os dados disponibilizados pelo Bitdefender, a cada 15 segundos, um brasileiro é vítima de fraudes com documentos roubados ou informações furtadas

na rede. Só em 2012, 28 bilhões de pessoas foram prejudicadas, o que custou 16 bilhões de reais ao país. É possível manipular as pessoas virtualmente de diversas formas. As maneiras mais comuns disso acontecer são através do phishing (conversas ou mensagens falsas com links fraudulentos), spam (mensagens enviadas sem o consentimento do usuário) e malwares (softwares maliciosos instalados sem permissão do usuário, como vírus). As ameaças à segurança através da rede foram responsáveis por inúmeros roubos de identidade, fraudes financeiras, difamação e humilhação pessoal. Spams, vírus e spywares geram sérios problemas e uma violação de segurança pode provocar danos irreparáveis à uma pessoa ou empresa. Os roubos de informações são hoje um negócio lucrativo e, em geral, controlado pelo crime organizado. Um número crescente de modelos de crimes cibernéticos sofisticados, incluindo o surgimento de empresas fan-

O criminoso faz uso de ferramentas novas que facilitam a aplicação dos mais diversos tipos de golpes”. Carlos Goulart, doutor em ciência da computação

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tasmas, se utiliza de ferramentas e serviços de vendas para iniciar ataques através da rede, em vez de simplesmente vender as informações obtidas dos ataques. A SaferNet Brasil é um canal gratuito que oferece orientação de forma pontual e informativa para esclarecer dúvidas sobre crimes virtuais, ensina formas seguras de uso da Internet e também orienta crianças, adolescentes e pais que vivenciaram situações de violência on-line como humilhações, intimidações, chantagem, tentativa de violência sexual ou exposição forçada em fotos ou filmes sensuais. O site possui um serviço de denúncia contra crimes virtuais no qual um psicólogo com treinamento adequado, atende, orienta e encaminha denúncias ao governo quando necessário. Segundo o professor Carlos de Castro Goulart, do Departamento

de Informática da UFV, quando se fala em crimes virtuais, a ameaça é tão real quanto os crimes que acontecem fora das redes de computadores. “O criminoso faz uso de ferramentas novas que facilitam a aplicação dos mais diversos tipos de golpes. A maioria desses golpes são antigos, mas a internet confere uma nova roupagem a esses crimes, e essa novidade aliada muitas vezes à falta de informação, a curiosidade e o descuido de certos usuários, acabam possibilitando o criminoso de realizar o golpe”, diz o professor. E foi um descuido que levou a mestranda em Fisiologia Vegetal pela UFV, Adriana Starlino, a passar por um momento de tensão ao ter todos os seus arquivos pessoais bloqueados no próprio computador. “Foi uma sensação horrível, todos os dados da minha pesquisa estavam no computador. Se eu não conseguisse recuperá-los, parte do

meu projeto teria que ser refeita desde o início”, desabafa Adriana. Tudo começou quando Adriana recebeu um e-mail da sua agência bancária confirmando a compra de um aparelho eletrônico em um site de vendas. “Eu achei que fosse verdade, pois havia feito uma compra no mesmo site algumas semanas antes. Fiz o download da suposta nota fiscal, mas na verdade estava instalando um vírus super perigoso. Quando liguei o meu notebook no dia seguinte, não conseguia abrir nenhum arquivo. Aparecia uma mensagem de bloqueio. Entrei em desespero e recorri a um amigo que trabalha com manutenção de computadores. A minha sorte foi que ele conseguiu fazer um backup e recuperar os meus arquivos”, explicou ela. O que aconteceu com a estudante Adriana foi basicamente um Ransomware, só que em propor-

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ções menores. O vírus é um tipo de malware que restringe o acesso ao sistema infectado e cobra um valor de “resgate” para que o acesso possa ser reestabelecido. Um exemplo deste tipo de malware é o Arhiveus-A, que compacta arquivos no micro da vítima em um pacote criptografado. Para acessá-los novamente, o programa exige um código, só liberado mediante o “resgate”. “É preciso pagar uma quantia em dinheiro para reaver os arquivos infectados. Na maioria das vezes, as vítimas pagam e ainda não conseguem recuperar e só aí percebem que foram vítimas de um crime”, explica Carlos Goulart. “É muito importante manter um programa de antivírus atualizado, não instalar programas desconhecidos, não abrir e-mails suspeitos, salvar os arquivos em locais seguros e que seja de difícil acesso para outras pessoas”, salienta o doutor em Ciência da Computação. No âmbito judicial, solucionar tais crimes é difícil, pois as penas são frágeis e não há estrutura para cumprir tal lei já que no Brasil não existem peritos em informática e aparelhos eletrônicos tecnológicos suficientes para a demanda. De acordo a professora Ana Paula Pessoa Brandão Chiapeta, do Departamento de Direito da UFV, a crença na impunidade faz com que as pessoas usem as redes sociais para injuriar, difamar e caluniar. Fenômenos como a vingança pornô são propagados de forma incansável, já que a pena de seis meses que pode ser revertida em trabalho comunitário não intimida os criminosos. Os crimes virtuais são esqueci-

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Não há um clamor público por respostas do Estado porque não tem sangue. O brasileiro se manifesta por crimes de sangue e não por outros crimes”. Ana Paula Chiapeta, especialista em Direito Público

dos quando a pauta é o tema violência. Para a professora, “não há um clamor público por respostas do Estado porque não tem sangue. O brasileiro se manifesta por crimes de sangue e não por outros crimes”. Dessa forma, é preciso que a população seja informada sobre os efeitos do mundo virtual, sobre responsabilidade e as consequências de seus atos nesse meio comunicacional. O aspecto preventivo é função da segurança pública, mas o Brasil busca focar na repressão, que raras vezes resulta em eficientes resultados. Essa mesma dificuldade da Justiça e até mesmo da própria sociedade em dar atenção a crimes que acontecem no âmbito virtual, foi o que levou a mãe de uma vítima que preferiu não ter a sua identidade revelada, a transferir o filho para outra escola. A mãe conta que descobriu que o filho, de 12 anos de idade, estava sendo vítima de cyberbullying. “Alguns dos colegas da sala dele criaram um perfil falso no Facebook e compartilharam montagens de fotos que menosprezavam e humilhavam o meu filho. Foi difícil até mesmo para conseguir provar para a escola que eram pessoas de dentro da sala que tinham feito aquilo. Dei todas as fotos para a polícia e fiz um Boletim de Ocorrência. Também procurei a

Secretaria de Educação e dei queixa da direção da escola, que não estava tomando as devidas medidas com o caso do meu filho”, relata a mãe da vítima. Hoje, a mãe do estudante diz que com a mudança de escola, tudo se normalizou. “É importante os pais terem atenção com o que acontece nos celulares e redes sociais dos filhos. A gente costuma achar que não tem perigo, mas na realidade é um perigo silencioso”, finaliza. Para o professor Henrique Moreira Mazetti, do Departamento de Comunicação Social da UFV – que leciona disciplinas da área de Cibercultura – quando se fala em crimes virtuais existe uma espécie de “pânico moral” sobre o assunto, ou seja, uma reação exacerbada a respeito de desvios de conduta, que supostamente são capazes de ameaçar a ordem vigente. “A internet gera de fato uma ansiedade a respeito das coisas que acontecem no espaço virtual, o que não significa necessariamente que essa ansiedade sempre vai corresponder à práticas obscuras. As práticas crimi-


nosas existem de diversas maneiras e em diversos contextos e nesse sentido, é interessante pensar a internet não como um rompimento, diferente da vida cotidiana, mas algo que está presente como parte do nosso dia a dia”, afirma Henrique. “As pessoas possuem um imaginário da internet como uma terra sem lei. Mesmo possuindo poucas leis que se aplicam de fato no meio virtual, é importante pensar em um controle e formas de se prevenir”, completa. Sem a prevenção dos crimes cibernéticos, o número de pessoas que caem nesses golpes crescem a cada dia. A empresária Jaqueline Lopes de Oliveira Lima Pinheiro é mais uma vítima que mesmo tomando cuidado e precauções, caiu

em um golpe. Ela havia feito um plano com uma empresa telefônica em uma loja física, passando seus dados e contatos. Dias após a compra do plano, recebeu um e-mail de um suposto funcionário da loja pedindo para que ela confirmasse alguns dados e passasse seus dados bancários. “Em meio a um dia cheio de trabalho e reuniões, eu não hesitei em passar meus dados, pois só queria colocar o pacote que comprei em funcionamento”, disse Jaqueline. Porém, no fim do dia, ao conversar com o marido, percebeu o erro que havia cometido. “Na mesma hora que percebi o que tinha feito, cancelei o cartão e liguei para a empresa telefônica relatando o ocorrido”. A conectividade sem preceden-

tes da era da Internet trouxe um imenso benefício social e econômico, mas também introduziu inúmeros novos desafios. Em um mundo totalmente conectado, as ameaças à segurança na Internet continuam a evoluir com mais rapidez do que as proteções mais avançadas. Enquanto leis específicas para o mundo digital não são criadas, aparelhos e métodos tecnológicos são pouco aplicados na solução dos crimes virtuais, a medida mais importante no momento é a prevenção. Ter cuidado com a proteção dos computadores, não acessar sites suspeitos ou abrir arquivos duvidosos e, principalmente, ter cautela quando dados pessoais ou bancários são solicitados, mesmo que aparente ser livre de suspeitas.

Os 10 golpes mais comuns na rede Roubo de identidade e senha

Máquina-Zumbi

Os criminosos virtuais se apoderam das informações pessoais para fazer compras online ou realizar transações financeiras indevidamente.

Os criminosos usam ferramentas chamadas botnets. São redes de computadores que, uma vez infectados, passam a ser controlados a distância.

Pedofilia

Espionagem Industrial

Internautas criam sites ou fornecem conteúdo relacionado ao abuso sexual infantil. O criminoso pode se passar por um usuário de redes sociais para manter contato com a vítima.

Transferência de informações sigilosas de uma empresa para o concorrente. Dispositivos móveis como HDs facilitam esse tipo de crime.

Falsa Identidade Quando alguém omite ou mente sobre suas características com o objetivo de levar vantagem. É comum acontecer em redes sociais.

Copiar ou reproduzir músicas, filmes, livros, artigos sem autorização do autor. Também é pirataria uso de softwares que são oferecidos por empresas, mas o usuário instalou sem pagar por eles.

Phishing Scan

Estelionato

O golpe tem como objetivo roubar dados cadastrais e financeiros de usuários de internet que são fisgados por mensagens de e-mails.

Calúnia ou Difamação Divulgação de informações, muitas vezes mentirosas, que podem prejudicar a reputação da vítima. Esse crime se tornou comum com a popularização das redes sociais.

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Pirataria

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Ocorre quando o criminoso engana a vítima para conseguir uma vantagem financeira. Geralmente acontece em sites de compras e vendas.

Discriminação Divulgação de ofensas e discursos de ódio relacionados ao preconceito de raça, cor, etnia, religião e condição sexual.

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Pedagogias em contraste O desafio do ensino-aprendizagem nas escolas públicas por Bélit Medeiros Alves e Deborah Medice Silva O contexto educacional e os contrastes de duas metodologias de ensino que se fundamentam em teorias diferentes

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anto o método e a estrutura atual quanto a história educacional do Brasil tem atravessado crises. Muitos questionam a “educação bancária” praticada tradicionalmente nas escolas, por não abranger a dialogicidade e não ampliar a subjetividade dos alunos. Os métodos alternativos de ensino-aprendizagem são reconhecidos por instigarem a vontade de aprender, mas alguns desses métodos são desenvolvidos em poucas escolas de nível básico e fundamental, em instituições que muitas vezes só suportam um número pequeno de alunos. Diferente das “escolas de massa” que atendem a grandes demandas e utilizam métodos mais tradicionais, essas escolas pequenas podem trabalhar com métodos com abor-

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dagem mais humanista, centrando a educação na pessoa como um todo, não apenas nos seus aspectos cognitivos. Entendem que a responsabilidade da educação é tanto do estudante (em sua capacidade de aprender sozinho) quanto do professor. O professor Edgar Coelho, do Departamento de Educação da UFV, explica que “o processo educativo ensino-aprendizagem tem duas vias, quem ensina aprende e quem aprende ensina, é um movimento”. Para a professora Bethânia Geremias, do mesmo Departamento, os métodos alternativos buscam maneiras de renovar a interação nas salas de aula, trazendo outras formas de selecionar e trabalhar o conteúdo. Segundo ela essas pedagogias “pensam na construção do conhecimento, nessa elaboração, onde o aluno é um sujeito fundamental, ativo, onde ele está participando”. Dentro do segmento alternativo existe a pedagogia Waldorf, criada pelo filósofo Rudolf Steiner em 1919. Esse método é fundado com base na Antroposofia, do gre-

go “conhecimento do ser humano” que prega o conhecimento do homem e do universo como um todo. Nas dinâmicas dessa pedagogia há a integração simultânea do desenvolvimento físico, espiritual, inte-

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lectual e artístico dos estudantes, com o objetivo de desenvolver indivíduos livres, integrados, socialmente competentes e moralmente responsáveis As escolas Waldorf têm uma estrutura diferente das demais. Divididas por setênios, essas escolas trabalham com etapas evolutivas do humano em períodos de sete em sete anos. No primeiro setênio (0 a 7 anos de idade), a criança manifesta toda sua vontade por meio de atividades corporais. No segundo (de 7 a 14 anos), a criança passa a se manifestar por meio do espiritual, expressando-se através da imaginação. No terceiro setênio (14 a 21 anos) o jovem entra em uma nova relação com o mundo, seu desenvolvimento espiritual se torna independente e a vida passa

a ter significações próprias. Nesta pedagogia, a criança começa a ser alfabetizada a partir do segundo setênio, pois o método entende que esse é o momento em que a criança já está com a expressão corporal desenvolvida e ela começa a se manifestar por meio do anímico. A crítica à esse método vem muitas vezes sobre esse aspecto da alfabetização tardia. Em Viçosa existe a escola Jardim Florescer, um jardim de infância Waldorf que atende crianças que estão no primeiro setênio. Por trabalhar com uma pedagogia diferente e estar em âmbito rural, localizada no bairro Violeira, a escola hoje trabalha com 11 crianças. O Jardim tem turmas de maternal, jardim de infância e complementação artística. Durante esse primeiro

setênio as crianças não são alfabetizadas e os educadores focam no desenvolvimento do corpo físico da criança. Os educadores entendem que seria mais importante vivenciar e desenvolver primeiro esses sentidos para depois partir para alfabetização. Segundo a professora Lícia Sarrapio, do Jardim Florescer, nesse primeiro setênio um dos objetivos seria internalizar o cotidiano nas crianças. Elas vivenciam contato com a natureza, trabalhando um ritual cotidiano diferente. Todos os dias as crianças fazem as atividades na mesma hora, repetindo a cada semana, como por exemplo, fazer pão todas as terças. Esse ritual semanal também se estende para as histórias mensais que são contadas repetidas vezes, além das

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festas sazonais e estações do ano. Este ritmo permite as crianças viverem de forma completa todos os acontecimentos. As crianças fazem trabalhos manuais do jardim de infância até os outros setênios, protagonizando o fazer. Após formada em Pedagogia, Lícia explica que foi preciso fazer um curso de quatro anos e meio para poder trabalhar com a pedagogia Waldorf. Segundo ela “numa escola, diferente das escolas que eu já tive contato, a professora da educação infantil é muito valorizada, não tem diferença de salários”. Além disso a criança se desenvolve de forma diferente quando vivencia essa pedagogia, principalmente no primeiro setênio. De acordo com as professoras da escola, uma criança que experimenta a educação a partir desse método acaba se tornando muito expressiva, com coordenação

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e outros aspectos físicos muito bem desenvolvidos. Procurando difundir a pedagogia Waldorf em Viçosa, a professora Sarah Santana idealizou a escola Jardim das Andorinhas. A instituição ainda não começou a funcionar, mas o objetivo será tentar trabalhar com o método Waldorf não só para um grupo pequeno de crianças. A professora também relata que, por meio de imagens e contos de fadas, muito utilizados por essa pedagogia, os educadores tentam apresentar para as crianças representações verdadeiras, evitando histórias que não apresentam um sentido humano real. Sarah contou que “os educadores trazem essa proposta acreditando que a criança, como todos os adultos, traz uma missão de vida, então que essa pedagogia ajude a criança a passar suas barreiras de desconfiança para que ela

Bonecos da pedagogia Waldorf desconstroem ideias e padronizações pré-estabelecidas possa despertar intensamente seus dotes”. Ela explica que não existe uma preocupação com a alfabetização nessa fase porque há a necessidade de criar e imprimir valores e ritmos saudáveis que vão permitir que criança vá buscar toda a cognição do mundo com solidez. Escola tradicional A professora Bethânia acredita que “o que diferencia principalmente os métodos alternativos do tradicional é a relação mais horizontal entre aluno e professor, é uma relação em que é estabelecido mais diálogo e práticas interativas”. Existem professores que trabalham em escolas que atendem a


grandes demandas e buscam mesclar o método tradicional com práticas alternativas de participação do aluno, diminuindo um pouco o processo vertical professor-aluno. Segundo o professor de Sociologia, Bartomelio Martins, da Escola Estadual Doutor Raimundo Alves Torres (Esedrat), existe a necessidade de uma estrutura física educacional que permita ao professor atender as demandas dos estudantes. De acordo com ele, os professores muitas vezes enfrentam “salas de aula com um excessivo número de alunos, a desvalorização do trabalho docente, principalmente na perspectiva econômica, onde professores das redes públicas e privadas têm diferenças salariais que acabam desequilibrando a qualidade do trabalho, e a falta de atenção maior do Estado para as escolas em suas especificidades e realidade que

todas têm em particular”, explica. Alguns alunos e profissionais da área de ensino parecem sustentar uma cultura de que a qualidade do professor está relacionada com a grande quantidade de conteúdo repassado. Segundo o professor Arthur Meucci, do Departamento de Educação da UFV, o professor por vezes é criticado quando tenta trazer didáticas diferentes para a sala de aula. Há, de acordo com a professora Bethânia, uma cristalização desses conceitos educacionais já que o profissional se depara com a pressão de políticas educacionais e avaliações nacionais que exigem que ele se torne um ditador de conteúdo. Então, muitas vezes o professor deseja a mudança, mas acaba sofrendo porque “os outros colegas não querem, não tem uma estrutura ou um momento para planejar a aula coletivamente”, explica a pro-

fessora. Assim, o problema não está somente naquele que tem a vontade de ministrar aula. Por outro lado, uma escola com infra-estrutura repleta de grades (parecida com um presídio), aliada a ideia do estudante como um ser passivo no processo de ensino-aprendizagem, seriam componentes que desmotivam o aluno a estudar. Além disso, a relação muitas vezes distante com a escola cristaliza no estudante a dispersão e pouco interesse durante as aulas. O estudante Samuel Paixão, do 2º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Effie Rolfs, considera que o professor tem o papel de ajudar o aluno a querer estar na escola. “Tem professor que dá aula de motivação, pergunta o porquê de a gente estar na escola e quais são os nossos objetivos lá. Isso é muito bom porque vai para a nossa cabeça e vamos refletindo”, relata.

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“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda” Paulo Freire 26

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“O saber que não vem da experiência não é realmente saber” Lev Vygotsky PH Rolfs

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Revista PH Rolfs - Educação e Sociedade - Dez'2016  
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