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228  |  Iatrogenias, Manifestações Oculares de Doenças Sistêmicas e ... Mecanismo de efeitos colaterais sistêmicos com uso de medicamento oftalmológico Estima-se que apenas 1 a 5% da substância ativa da gota pingada penetram no olho, então cerca de 80% podem atingir a circulação6,7. A pobre biodisponibilidade da maioria dos fármacos obriga ao uso de altas doses nas soluções, aumentando o risco de absorção sistêmica. Cerca de 40% da gota vão direto ao vascularizado aparelho de drenagem lacrimal6,8.

Vias de penetração intraocular para gotas e outras soluções Cerca de 80% do ingrediente ativo que penetra no olho o fazem através da córnea.9 O epitélio corneal é comparado à membrana lipídica que carrega as moléculas não ionizadas, enquanto o estroma atua como estrutura aquosa permeável às moléculas ionizadas; portanto, a quantidade do ingrediente que passa pela córnea depende do balanço dos componentes ionizados e não ionizados3,6. Moléculas dos colírios podem ser absorvidas pelos canais linfáticos da conjuntiva; então, a inflamação e a hiperemia observadas nas uveítes podem aumentar esse efeito9. A esclera permite maior penetração das moléculas hidrofílicas do que a córnea, atingindo o vítreo7,8,10,11, porém a barreira da conjuntiva permite que apenas pequena quantidade do ingrediente chegue até a esclera para conseguir penetrar no olho.

Fatores reguladores da biodisponibilidade ocular Muitos colírios são suspensões nas quais as substâncias insolúveis estimulam as terminações nervosas da córnea. Assim, somados ao olho já inflamado nas uveítes, podem provocar lacrimejamento, eliminando boa parte da substância instilada, diminuindo ainda mais a penetração do fármaco intraocular9. Frequentemente, as soluções são ionizadas com componente salino, permitindo maior penetração pelo epitélio da córnea. As formas em gel permitem maior tempo de contato com a córnea, podendo aumentar a biodisponibilidade ocular12,13. Outros fatores podem interferir na penetração pela córnea, como a concentração do fármaco, o peso molecular (quanto menor, mais penetra), as propriedades eletroquímicas e a taxa de evaporação lacrimal3,14. Alguns colírios são pró-fármacos que permitem melhor balanço entre a passagem através do epitélio e do estroma, aumentando a penetração intraocular, sendo necessária menor quantidade do fármaco, diminuindo a absorção sistêmica e seus possíveis efeitos colaterais. Há melhor penetração do fármaco em córneas com epitélio alterado ou com edema estromal7. É interessante que alguns antivirais só penetram na câmara anterior se o epitélio estiver lesado, o que pode ocorrer, por exemplo, na ceratite herpética. A toxicidade de alguns preservativos no epitélio, hoje muito discutido, se por um lado provoca mais desconforto ao paciente, por outro pode permitir melhor passagem transcorneal devido à ceratite em geral ponteada induzida15.

Iatrogenias  
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