Page 1

ISSN 2177-8612

Publicação mensal de marketing aplicado ao esporte

anfitriões do mundo | Celso Schvartzer

#03 | agosto2010

#03 | agosto2010

ENTREVISTA: Celso Schvartzer | A mesa de negócios do pôquer | Estatuto do Torcedor: Óbvio, Desnecessário e Essencial | Polo: glamour e perfeita interação | Allam Khodair, um piloto sustentável | Jogadores com salários milionários: eles merecem tanto? | E MAIS... Capa agosto.indd 1

18/08/10 14:10


Não deixe para decidir seu futuro aos 45 minutos do segundo tempo. ESPM: MAIS DO QUE CONHECIMENTO NO MUNDO DOS NEGÓCIOS. > PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO E MARKETING DO ESPORTE Só uma escola especialista em inovação, e reconhecida pela sua prática de mercado, pode oferecer cursos como o Pós-Graduação em Administração e Marketing do Esporte, em que você aprende a identificar e aproveitar as novas oportunidades na gestão dos negócios do esporte. Você passará a fazer parte de um grupo que lidera as transformações do mundo corporativo. Não espere o final do jogo para valorizar o seu passe. Inscreva-se já.

MBA EXECUTIVO > MASTER > PÓS-GRADUAÇÃO www.espm.br/candidato – candidato@espm.br – (11) 5081-8225

Capa agosto.indd 2

MBA / MASTER /PÓS-GRADUAÇÃO EDUCAÇÃO EXECUTIVA

18/08/10 14:10


Revista Competir Sports Marketing Uma publicação mensal da Editora dos Andes

Publisher Marcos Muanis Rocha Diretora Izabel Muanis Rocha

Caro leitor, Passei o fim de semana do Dia dos Pais no autódromo de Interlagos acompanhando a Itaipava GT3 Brasil. Uma prova gostosa, elegante e principalmente vi-

Redação

brante. Tive o privilégio de acompanhar o Cleber Faria segurar com muita valen-

Editora Daddy Mallagoli – MTB 30.443-SP

tia e competência por mais de quatro voltas o ataque de Chico Serra. Vi ainda,

Repórteres Adriana Reis, Biaphra Galeno dos Santos, Éder

no sábado, a sensacional ultrapassagem de Allam Khodair em Valdeno Brito.

Sguerri, Mariana Sayad, Neto Bach e Oldair Oliveira Colunistas Augusto Nunes, Christian Kittler, Lucia Kouri,

Vendo pilotos defendendo suas posições e brigando palmo a palmo com os

Marco Antonio Siqueira e Wesley Cardia

outros competidores, é estranho pensar que há jogo de equipe em alguns

Colaboradores do Respiro Alexandre Sayad, Ana Lúcia

campeonatos que forçam pilotos a cederem suas posições para outros. Sim,

Severo, Hugo Penteado, Izabel Rocha, Kevin Kraus, Mar-

estou falando de Felipe Massa e de Rubens Barrichello.

celo Copello, Márcio “Teriya” Rebelo, Paulo Bueno, Raíra Venturieri, Sylvio do Amaral Rocha e Zé Helder

Indaguei, ainda, os pilotos sobre duas circunstâncias: o Massa abrir para

Articulista José Francisco C. Mansur

Fernando Alonso e Michael Schumacher não abrir para o Rubinho. São dois pontos antagônicos. Um não vendeu a posição por nada e colocou a vida e

Arte

o orgulho do brasileiro no limite; outro obedeceu a uma ordem de equipe e

Direção de Criação Meu Estúdio (www.meuestudio.com.br)

cedeu seu espaço para seu colega de time.

Ilustrações Meu Estúdio Projeto gráfico Estúdio Guará (www.estudioguara.com.br)

É consenso que um piloto de Fórmula 1 é um funcionário como qualquer outro, está sob ordens de comandantes e deve obedecer. Questão de “profis-

Comercial

sionalismo”. Há quem diga que Massa deveria ter tido, ao longo do campeo-

Comercial

nato, um desempenho suficiente que lhe garantisse manter sua posição. Há

(comercial@competirsportsmarketing.com.br)

ainda quem fale da questão financeira.

Diretor Comercial Roberto Ochiai (roberto@competirsportsmarketing.com.br)

Quanto ao alemão, muitos condenam sua manobra e admiram Rubinho por não tirar o pé; porém, quando perguntei a todos se cederiam suas po-

Assinaturas

sições nas condições dos dois brasileiros, muitas caretas foram feitas... É

assinatura@competirsportsmarketing.com.br

difícil esta decisão.

Impressão InterGraf

Continuo achando que nenhum competidor, em hipótese alguma, deva

Distribuição e logística JJDS (www.jjds.com.br)

ceder suas posições, já que ferem a alma de esportistas e competidores.

Tiragem 12 mil exemplares

A uma pessoa que vive de vitórias, perder por livre e espontânea vontade é inadmissível. Pior: torcedores perdem o tesão e o respeito pelos atletas

Revista Competir Sports Marketing

e até deixam de consumir produtos e serviços que usam a imagem destes

Endereço Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 3189, casa 3,

competidores. Será que essas empresas querem ter suas imagens associa-

sala 01, Jd. Paulistano, 01401-001, São Paulo, SP

das a histórias como essas?

Site www.competirsportsmarketing.com.br E-mail contato@competirsportsmarketing.com.br

Entendo o Massa e o Rubinho e não deixo de respeitá-los. Porém, como brasileiro, fiquei decepcionado.

É proibida a cópia, divulgação ou reprodução do conteúdo ou parte dele sem autorização prévia e formal da Editora dos Andes.

Boa leitura,

2010 Propriedade Intelectual e Direito de Publicação: Editora dos Andes.

Marcos Muanis Rocha

Editorial e expediente.indd 1

18/08/10 14:12


Cartas Como profissional de marketing esportivo, adorei a iniciativa da revista. Estamos precisando de mais opções de leitura para o meio, que seja feita por nós, brasileiros. O layout e artes também estão muito bons, tudo muito simétrico, divertido e com vida.

Kim Galvão – Fagga Eventos (RJ) Muito interessante a matéria sobre o basquete nacional (de junho de 2010). Sou fã do esporte e estava pessimista quanto ao futuro do esporte no Brasil. Vamos acompanhar de perto.

Roberto Castro Prático e direto ao ponto o artigo de Fernando Trevisan sobre a indústria do esporte. Os números são realmente favoráveis ao esporte neste momento.

Maria de Lourdes (MG) A Revista Competir muito me chamou a atenção. Gostei do design e do conteúdo. Impressionante como fazer um tema interessante ficar ainda mais interessante.

Ricardo Amorim (SP)

20 Capa Anfitriões

do Mundo

Gostei da matéria sobre neurolinguística (“Ouro Escondido”, maio de 2010). É um tema realmente curioso e gostaria de saber mais, se possível.

Jorge Belardi (SP)

26

Modalidade Glamour e perfeita interação

C a r ta s e S u m á r i o

Cartas e sumário.indd 2

16/08/10 21:22


10 foto: Eduardo Colesi

38

04

Entrevista Celso Schvartzer

33 31 30 41

13 16 18

foto: divulgação

34 42

Em foco Mesa de Negócios Ponto de vista O que fazer para que mais modalidades esportivas tenham espaço na mídia televisiva aberta? Opinião Estatuto do Torcedor: Óbvio, Desnecessário e Essencial

Finanças Eles Merece Tanto?

Personalidade Piloto Sustentável

45 47

Giro

Raio x Clubes no Vermelho Saúde e bem-estar Esporte Corporativo Marketing esportivo Marcas do Esporte Marketing esportivo Os vencedores são África do Sul e FIFA Carque nas Letras Livros Campeões Gol de placa A magia de Garrincha e o bisonho gladiador de Dunga Perfil João Olavo Soares de Souza

49

Respiro

50 Viagem 52 Literatura 53 Música 54 Menu: Vinhos 55 Menu: Cultura de mesa 56 Fotografia 58 Teatro 59 Cinema 60 Artes visuais 63 Moda 64 Sustentabilidade a g o s t o 2 0 1 0 | 2 -3

Cartas e sumário.indd 3

16/08/10 21:22


Entrevista

Mais rosas, menos espinhos Ex-prestador de serviços do Comitê Olímpico Brasileiro, Celso Schvartzer relata sua experiência com os Jogos Panamericanos no Rio de Janeiro em 2007 e conta o que é preciso fazer para que turistas guardem boas lembranças dos próximos eventos esportivos mundiais no Brasil texto Daddy Mallagoli

Entrevista.indd 4

fotos Eduardo Colesi

18/08/10 14:13


C

elso Schvartzer é hoje diretor de desenvolvimento comercial da Dream Factory, empresa especializada em criação de conteúdos diferenciados. Apaixonado por esportes, trabalhou de 2003 a 2007 com o marketing do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), período em que o Rio de Janeiro recebeu os Jogos Panamericanos. Celso atuou, assim, em um dos momentos mais polêmicos e questionados da história do COB. Administrador de empresas com especialização em marketing, e atualmente cursando mestrado em administração, ele recebeu a Revista Competir para falar sobre a atuação do comitê naquele período, resultados dos planejamentos feitos, a longa atuação de Carlos Nuzman no órgão e expectativas para os grandes eventos que o Brasil receberá, além de seus planos profissionais. Otimista e ponderado, acredita que o Brasil possa, sim, cumprir o papel que o mundo espera dele nos próximos anos; problemas todo mundo tem, mas Celso defende que “é preciso enxergar rosas nos espinhos, e não espinhos nas rosas”.

Revista Competir – Qual seu envolvimento com o esporte? Celso Schvartzer – Tive o privilégio de trabalhar no talvez maior anunciante de esportes do mundo, a Coca-Cola. Ela patrocina o esporte desde 1928, então esse envolvimento talvez não direto com o esporte, mas estando na empresa, acabou despertando minha atenção. Minha última posição lá foi na área de comunicação corporativa e responsabilidade social, e esporte é responsabilidade social; bem gerenciado, bem conduzido, é um instrumento de transformação social inequívoco. Juntar a experiência da Coca na área de promoções com a da área social fez com que eu resolvesse que, dali pra frente, só faria isso. Foram 15 anos de empresa, divididos em dois períodos. Em 2003, saí da Coca para trabalhar no comitê olímpico; tive a sorte, a generosidade do comitê de me chamar, e fiquei de 2003 a 2007 nos Jogos Panamericanos. Espero continuar

trabalhando só com esporte. O cenário é todo favorável e acredito que esporte é tudo de bom – é boa plataforma de marketing, é instrumento de responsabilidade social, de transformação, é sinônimo de saúde, ajuda na disciplina.

Competir – Qual foi sua atuação no Comitê Olímpico Brasileiro (COB)? CS - O COB criou uma agência de marketing chamada Olympo Marketing Licenciamento; era como um departamento de marketing, só que terceirizado. Entrei em agosto de 2003 para cuidar tanto de geração de receitas através de consumidor, do fã do esporte para o Pan, quanto para o COB. Todas as áreas que poderiam ter possibilidade de gerar receita a partir dos espectadores f icaram comigo – bilheteria, licenciamento, concessões. Como a Olympo tinha estrutura reduzida, ajudei ainda na formatação do plano de patrocínio. O Leonardo Gryner, eu e outros parceiros formatamos esse plano de 2004 a 2008. Competir – Qual foi o retorno de licenciamento do Pan 2007? CS - O resultado foi espetacular. Poderia ser melhor? Sim. Foi espetacular porque assinamos cerca de 45 contratos envolvendo nomes do cenário de negócios do Brasil, como Panini, Olympikus, Caixa Econômica Federal. Tivemos uma linha de brinquedos bem sucedida com a Grow – o principal era o mascote Cauê -, brindes de papelaria com a Brindes Pombo. Se você olhar não apenas a quantidade mas a qualidade dos licenciados foi excelente. Poderia ser melhor porque licenciamento depende de comunicação. Se você não conhecer o Mickey, a g o s t o 2 0 1 0 | 4 -5

Entrevista.indd 5

16/08/10 21:27


A Copa favorece muito o turismo, o visitante tem dias livres entre um jogo e outro, pode passear. As cidades têm que se preparar para receber os turistas, capitalizar, evitar a rápida evasão não vai comprar a camisa de um ratinho. No Pan, tivemos deficiência de comunicação antecipada; ela ajudaria licenciados a vender mais, principalmente fora do Rio de Janeiro. Quando o evento chegou, se vendeu muito, mas no Rio. Se você procurasse um boneco Cauê em São Paulo, teria dificuldade em encontrar. Isso ocorreu porque existia desconfiança quanto ao sucesso dos jogos, e a comunicação não foi suficiente para desvendar isso. Houve carência de comunicação positiva antecipada em âmbito nacional. Ainda assim, o mascote, que foi anunciado um ano antes dos jogos, arrecadou em licenciamento cerca de R$ 10 milhões, o que significa movimento de negócios de mais ou menos R$ 100 milhões. Competir – É fato que houve construções desnecessárias para o Pan 2007, hoje subutilizadas. Quem errou? CS - Entre o que se planejou, no início em 2002, ao que houve em 2007, houve correções de rumo. A Arena Multiuso, que hoje é a HSBC Arena, privada, teve que ser construída pela prefeitura porque o consórcio que a construiria com investimentos próprios desistiu. Se olharmos o aproveitamento que elas terão para os Jogos Olímpicos, não dá pra afirmar que foi investimento perdido; talvez tenham sido investimentos antecipados – o Maria Lenk, a HSBC Arena, a reforma do Maracanãzinho. Mas, de novo, a gente sempre acha que poderia haver melhor aproveitamento desses espaços. Não tenho nem dados pra dizer se foi bem ou mal feito, não sou engenheiro. Se a gente for procurar, sempre vai encontrar defeitos. Tem gente que vê espinho entre as rosas, tem gente que vê rosas entre espinhos; se procurarmos espinhos, vamos encontrar todos.

Competir – Qual o papel do governo junto ao esporte? Ele tem cumprido esse papel? CS - A gente sempre espera que o governo faça mais, é natural. Conheço o ministro Orlando Silva, o secretário de alta performance, Ricardo Leyser, e vejo neles pessoas completamente comprometidas com o esporte. A união de governos federal, estadual e municipal é a receita vencedora. Gostaria de ver o esporte mais entranhado nas escolas públicas, de forma mais eficiente, mais clara. Gostaria que tivesse apoio maior para algumas modalidades que ainda precisam de ajuda. Tenho

foto: Divulgação

O Engenhão é uma porcaria? Não. Pode ter sido entregue às pressas, mas não vamos desqualificar a obra; vamos potencializar o que o Engenhão pode ser de bom. O entorno dele não ficou como prometido, mas pode ficar. Os jogos que vêm aí são aceleradores desse processo. Sempre há problemas e duvido que Londres, por exemplo, não vá ter.

C e l s o Sc h va r t z e r

Entrevista.indd 6

16/08/10 21:27


um questionamento pessoal sobre patrocínios que duram muito tempo: é benéfico uma instituição pública ficar patrocinando por 10 ou 15 anos uma mesma modalidade? Não sei... Competir – Quanto o amadorismo na relação esporte-empresa atrapalha investimentos? CS – O ponto vital é a compreensão dessa relação. O patrocinador não tem nenhuma obrigação de desenvolver o esporte; ele está lá para fortalecer sua marca, então quando coloca recursos em uma modalidade, em um evento, ele quer retorno de marketing. Enquanto não houver essa compreensão, a relação é difícil. É muito comum você transferir responsabilidades. Enquanto esse papel

não ficar claro, o que o amadorismo dificulta bastante, não vai ser fácil conseguir patrocínio. E por incrível que pareça, ainda não existe essa compreensão; ainda se espera que patrocinador faça coisas que clubes ou confederações deveriam fazer, e vice-versa. Acredito que a vinda dos grandes eventos vai acelerar esse processo de entendimento.

Pira Olímpica dos Jogos Pan-Americanos Rio 2007

Competir – Longas gestões administrativas no esporte, como a de Carlos Nuzman no COB e do Ricardo Teixeira na Confederação Brasileira de Futebol, são benéficas? CS - Minha resposta será suspeita. Apesar de estar há muito tempo no cargo, acho o Nuzman uma pessoa extremamente moderna, e o fato de os Jogos Olímpicos virem para o Rio está muito ligado à obstinação dele. Desde antes de 2003, eu escutava dele que o Rio ainda sediaria os jogos. É uma pessoa muito sensível e toma medidas para corrigir coisas quando estão erradas, o que é parte do processo. Ele criou a Superintendência de Esportes há um ano e meio porque sentiu que precisava rea g o s t o 2 0 1 0 | 6 -7

Entrevista.indd 7

16/08/10 21:27


forçar a preparação de atletas brasileiros como um todo. Então, está se fazendo um trabalho de base, identificação de novos atletas, o que vai se refletir mais pra frente. Acho que é um líder na questão de sinalizar o futuro, e tem em sua estrutura pessoas competentes que transformam isso em realidade.

A Lei de Incentivo ao Esporte foi insistência dele, a Lei Agnelo Piva, que estabelece que 2% da arrecadação bruta de todas as loterias federais do País sejam repassados ao COB e ao Comitê Paraolímpico Brasileiro, foi trabalho dele, então enquanto estiver moderno não acho que necessariamente tenha que haver troca. A questão não é muito ou pouco tempo na entidade, mas se está ou não fazendo bem o trabalho. Competir – Qual exemplo o Brasil seguirá para sediar Copa e Olimpíadas: o da África ou o de Londres? CS - Acho que temos informações limitadas sobre o assunto e acabamos opinando por uma C e l s o Sc h va r t z e r

Entrevista.indd 8

16/08/10 21:27


ótica parcial. Não tive acesso em profundidade ao planejamento do comitê organizador para 2016, mas quem está lá são gestores super competentes, auxiliados por consultores internacionais, muitos de Londres. O Rio de Janeiro fez uma candidatura excep-

cional sob todos os aspectos e ganhou por absoluto mérito. O que estiver na alçada do comitê olímpico, com recursos que ele possa gerar, vai acontecer da melhor maneira possível. Por isso o modelo de governos funcionando juntos é o ideal. Mas se qualquer um dos lados não trabalhar bem, isso sai do trilho. Se me perguntar se o planejamento está bem feito, se temos condições de seguir o modelo de Londres 2012, digo que sim, temos. Mas se entre o que você planejou e o que você executou tiver um gap, aí a gente tende a repetir modelos não eficientes, o que espero que não aconteça.

Em determinado momento, especificamente falando dos jogos, não depende só de planejamento. A experiência que o público terá aqui será o termômetro muito importante de sucesso. Você pode planejar fantasticamente uma Copa do Mundo e ela não empolgar, porque a cultura do país não é festiva, as cidades são distantes. E você pode ter um planejamento talvez não tão cuidadoso e ela empolgar. Então há um misto de planejamento bem feito, execução e hábito cultural. O Brasil se apresenta como uma possibilidade espetacular de todo mundo adorar os eventos por nosso estilo de receber. Talvez até algumas falhas possam ser compensadas por isso. Copa do Mundo é um evento muito diferente de Jogos Olímpicos; este acontece em uma cidade, em 15 dias intensivos. A Copa favorece muito mais o turismo, o visitante tem dias livres entre um jogo e outro, pode passear. As cidades têm que se preparar para receber os turistas, aproveitar esse tempo livre e capitalizar esse turista, evitar a rápida evasão.

Competir – Quais seus desafios na Dream Factory? CS – Hoje o projeto mais desenvolvido da empresa, em relação a esportes, é a Maratona da cidade do Rio de Janeiro, organizada por nós em parceria com a Spiridon. A última edição, em 18 de julho, teve 18 mil inscritos. Estamos fazendo um trabalho de internacionalização da maratona e presentes nas cinco feiras de maratonas do mundo.

A Dream Factory anunciou em maio fusão de suas três áreas – esportes, entretenimento e digital. De 2008 até maio, eu estava 100% preocupado com esportes. Agora, temos o Duda Magalhães como diretor geral e eu assumi a direção de desenvolvimento comercial das três. Competir - O que é competir para você? CS - É como diz o filme do COI, chamado “Adversário”: “Você é meu adversário, mas não é meu inimigo. O seu esforço valoriza a minha vitória, e por isso eu honro você”. Isso é maravilhoso, é a essência do espírito olímpico. Ou seja, quanto mais você se esforçar, mais você me obriga a me aperfeiçoar, pra poder vencer você, respeitando o seu esforço. É maravilhoso. E a primeira coisa fundamental para a competição é o respeito a todos que dela participam. ag os to 2010 | 8 -9

Entrevista.indd 9

16/08/10 21:27


Giro

Tênis com design customizado A New Balance lança uma linha de tênis para quem não abre mão da exclusividade. Ao adquirir o modelo CTCWG masculino da marca, o cliente ganha uma customização realizada pelo artista Daniel Zero. “Cada arte é especial, diferente uma da outra”, explica Zero que utiliza a técnica da aerografia, trabalhando com muitas cores e respingos de tintas. A iniciativa surgiu a pedidos dos próprios consumidores ao verem um modelo do tênis customizado nas vitrines. Os pedidos foram tantos que a New Balance lançou esta linha para o modelo CTCWG. A novidade está disponível na loja Eastpak, em São Paulo - www.eastpak.com.br. A customização é feita na hora, seguindo as preferências de cada um, e demora cerca de 40 minutos para ser concluída. O produto tem preço de R$ 199 e a customização é gratuita.

Tecidos inteligentes

A Affiniti Berlan lança o Bio Shape Wave, produto que vem complementar a linha de tecidos inteligentes da empresa. Desenvolvido para os segmentos activewear e underwear, agrega um novo conceito aos tecidos anticelulite, graças ao fio Emana® da Rhodia®. O tecido apresenta ondas micromassageadoras com adequada compressão que proporcionam bioestilumação local em contato com a pele devido aos cristais bioativos que estão presentes no DNA do fio. Ensaios científicos de renomados institutos brasileiros comprovam que, quando ao ser usado durante atividade física, proporciona redução na concentração de lactato, o que contribui para a diminuição da fadiga muscular. Manter o tecido em contato com a pele garante melhoria de sua aparência, com redução dos sinais da celulite, se utilizado continuamente, evitando o progresso da mesma. O tecido não perde sua função após as lavagens, pois seu sistema não se baseia no uso de cápsulas, mas sim no DNA do fio, o que o torna permanente.

Rugby para atletas e torcedores O torcedor brasileiro que gosta de rugby já pode ter a camisa oficial da seleção: a Topper, que no começo do ano anunciou uma parceria inédita com a Confederação Brasileira da modalidade, lança as camisas oficiais do Brasil. Os modelos são confeccionados em poliamida e elastano, tecidos macios e resistentes, que absorvem rapidamente o suor. Também contam com costura reforçada, para evitar rasgos, e sistema de grip na parte frontal. O acabamento apresenta o escudo em formato pach, logo Topper e tira-talão em transfer. Disponíveis nos tamanhos P, M, G e GG, têm preço sugerido de R$ 189,90 cada. A marca apresenta também a linha casual de camisas polo masculina e feminina, desenvolvidas em algodão. A polo feminina tem preço sugerido de R$ 109,90, e a masculina, de R$ 119,90.

Giro

Giro.indd 10

16/08/10 21:39


Street wear FC

imagens: divulgação

O São Paulo Futebol Clube fechou parceria com a Gatto de Rua e lançou as coleções feminina e masculina Casual, com peças de roupas licenciadas com a marca do clube. O objetivo é oferecer aos torcedores peças que sirvam não apenas para ir ao estádio, mas também para passear. Além do São Paulo, a Gatto de Rua já atua na fabricação de produtos licenciados do Santos e da Portuguesa, com linhas Street Wear e peças comemorativas – entre elas, a camiseta “Voltei”, do atleta Robinho ao Santos. Em 2008, o mercado de camisetas para torcedores movimentou mais de 200 milhões no Brasil, segundo a confecção. Os fabricantes de roupas licenciadas pagam cerca de 10% do faturamento com os produtos a título de royalties, que representa perto de 1% da receita total dos times.

Academia para um só

Modelo inovador de academias de ginástica começa a se consolidar no Brasil de-

pois de conquistar Estados Unidos, Canadá, Costa Rica, Irlanda e Israel. Trata-se do conceito “academia studio”, em que o treinamento funcional batizado de “one-onone” consiste da prática especializada de exercícios realizada individualmente, com planejamento de desenvolvimento físico gerenciado por personal trainers. O cliente é atendido sozinho em estúdios individuais, com treinamento específico e detalhado e, ao invés de pagar mensalidade, compra o programa de treinamento com número determinado de sessões. A Fitness Together – www.fitnesstogether.com.br – teve sua primeira unidade inaugurada em fevereiro, em São Paulo, e já se prepara para abrir mais seis. A meta é chegar a 60 delas em cinco anos, e as demais praças primeiramente consideradas como potenciais para franquias são Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte.

Brasileiros na neve

Apesar da quase inexistência de neve, o Brasil tem cada vez mais praticantes de

esportes invernais. Em julho, aproximadamente 60 atletas disputaram, no Chile, o 5º Campeonato Brasileiro Amador de Esqui e a 5ª Copa de Snowboard. Os eventos foram organizados pelas operadoras de turismo Interpoint e Snowtime e pela Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN - www.cbdn.org.br), que faz parte do Comitê Olímpico Brasileiro e representa o país junto à Federação Internacional de Esqui. Os competidores foram divididos em sete categorias de Slalom Gigante de esqui, cinco de Slalom Gigante de snowboard e duas de Slope Style de snowboard, de ambos os sexos. O grande destaque foi o paulistano Alex Siebel, Alex Siebel, 24 anos (foto), que venceu a categoria Aspirantes Masculino com o melhor tempo entre todos os participantes do Campeonato. Como reconhecimento, foi convidado a integrar a equipe brasileira de esqui. Os vencedores receberam medalhas e outros prêmios.

a g o s t o 2 0 1 0 | 10 -1 1

Giro.indd 11

16/08/10 21:39


MOBILE SPORTS TRANSFORME O AMOR PELA CAMISA EM NOVOS NEGÓCIOS PELO CELULAR

+55 11 5506 0352 Anúncio Mowa Sports.indd 1

mowasports.com

contato@mowasports.com 17/08/10 00:31


Em foco

Mesa de negócios Internet e TV promovem o boom do pôquer no Brasil, criando um mercado lucrativo e em expansão texto Oldair de Oliveira

f

oi durante a guerra civil americana

cada vez mais altos, como também empresários,

(1861-1865) que o pôquer alcançou popularidade

que encaram esse boom como um filão para se fa-

nos Estados Unidos e se tornou o jogo de cartas

zer dinheiro. Para se ter uma ideia, dados do Ibope

favorito naquele país. Mas, só a partir do início

referentes a abril deste ano revelam que 838 mil

deste século, com a transmissão de torneios na

internautas brasileiros fizeram apostas em dinheiro

TV e o advento das salas de pôquer online, que

nos sites de pôquer. A pesquisa foi feita com base

essa atividade ganhou o mundo e originou um

apenas nos três endereços mais visitados no País

nicho de mercado cada vez mais lucrativo. No

(PartyPoker, FullTilt e PokerStars) e, trocando

Brasil, nação em que a prática começa a se pro-

em miúdos, indica que esse universo representa

fissionalizar, as boas oportunidades de negócios

2,3% de todos os usuários da rede internacional

atraem não só jogadores, que disputam prêmios

de computadores no Brasil. Em maio de 2009,

a g o s t o 2 0 1 0 | 12 -1 3

Poker.indd 13

16/08/10 21:41


por exemplo, quando esse tipo de pesquisa começou a ser feita, apenas 275 mil pessoas jogavam nestes cassinos virtuais. “É nítido o crescimento do pôquer no Brasil. Existe inclusive um circuito brasileiro em que cada etapa atrai cerca de 600 pessoas por mês. Há dois anos, esse número não chegava a 200 competidores por evento”, lembra Rogério Whitaker, presidente da Federação Paulista de Poker e vice da Federação Paulista de Texas Hold’em. Segundo ele, a divulgação na TV tem contribuído para isso. “Antes, só a ESPN transmitia; agora são uns quatro canais. Até a Band, que é um canal aberto, tem o seu Poker das Estrelas, apresentado por Otávio Mesquita. Tudo que é voltado para divulgação é bom, pois o pôquer precisa disso

Muitos são os negócios que podem ser gerados a

Mas existem outros nichos a serem explorados. Leo

partir do pôquer. Mas o que tem se mostrado mais

Bello é um daqueles que enxergou no jogo uma

lucrativo é o segmento de jogos online. São essas

oportunidade. Formado em medicina pela Univer-

empresas as que mais investem não só em publici-

sidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), começou

dade como nos torneios ao vivo. Dados da consulto-

a praticar nos sites especializados e acabou cam-

ria britânica H2 Gambling Capital mostram que esse

peão paulista e terceiro colocado no Campeonato

filão movimentou, globalmente, cerca de US$ 4,8

Brasileiro, em 2006. No entanto, a grande jogada

bilhões em 2009, alta de 24% frente ao ano ante-

dele aconteceu no ano seguinte, quando escreveu

rior. Só os norte-americanos foram responsáveis por

seu primeiro livro ensinando os incautos a jogar

30% desse montante. As duas maiores empresas

pôquer. O assunto deu tanto pano para manga que

do setor, Poker Stars e Full Tilt, faturaram, segundo

Bello já lançou uma segunda obra e pretende, ainda

estimativas da revista Forbes, US$ 1,4 bilhão e US$

este ano, publicar seu terceiro trabalho, em que

500 milhões, um lucro anual de US$ 500 milhões e

abordará a atividade pelo âmbito dos negócios. “O

US$ 100 milhões, respectivamente.

pôquer oferece ótimas oportunidades para se ga-

fotos: divulgação

para crescer muito mais no Brasil”, ressalta.

nhar dinheiro. Afinal, são 2 milhões de praticantes no País ávidos por consumir de camisetas e bonés a baralhos, fichas e livros”, afirma Bello. Porém, não é só isso. Muitos estão descobrindo que é possível viver de pôquer, e não estamos falando apenas de jogadores. Determinadas operadoras de turismo, por exemplo, começaram a observar que os praticantes viajam muito, dentro do Brasil e para lugares como Punta del Leste e Las Vegas. A partir disso, criaram produtos focados nesse público. Algumas corretoras de valores tiveram a mesma percepção e concluíram que os profissionais que participam dos grandes torneios

Acima, Juliano Maesano (de barba) como

têm o perfil que almejam como clientes. A esses

capitão do time brasileiro de pôquer, em

se somam empresas de eventos, fabricantes de

torneio em maio. À esquerda, a

móveis especiais, além dos profissionais como

concentração de Leo Bello

mes a de negócios

Poker.indd 14

16/08/10 21:41


crupiês, garçons, massagistas, entre outros, que

distribuindo 30 mil. Somente agora começaremos

descobriram no jogo uma fonte de lucro. “Eu

a cobrar uma pequena taxa de envio anual, para

mesmo estou trabalhando para criar um centro

quem quiser receber em casa. Conseguimos nos

de ensino e treinamento, o SuperPoker Training.

manter apenas com a receita dos anunciantes”, diz.

Ali, teremos grandes profissionais que passarão sua experiência para os interessados. Lembrando

Aliás, a Flop nasceu de outro projeto de Maesano,

que ninguém dá aula de como aprender a ganhar

que foi abortado no meio do caminho. De acordo

no bingo ou na mega-sena, porque são jogos de

com o cineasta, em 2006, ele apresentou uma

azar. Estamos falando de uma atividade que exige

ideia previamente aprovada à Rede Bandeirantes:

técnica e teoria”, afirma o escritor e empresário.

um torneio de pôquer real e televisionado, que seria realizado em Puerto Iguazu, na Argentina. Paralela a

Legislação

essa competição, haveria uma mesa com celebrida-

Empreendedor de sucesso, Bello é um dos cria-

des que fariam um dos cinco programas previstos.

dores da Nutzz, empresa que realiza mensalmen-

“Com o receio de ligar seu nome a um jogo, na

te o Brasil Series of Poker (BSOP), campeonato

época, a Band e um patrocinador decidiram acabar

brasileiro da categoria. Mas, o pôquer não é ilegal

com o projeto”, diz. Esse tipo de preconceito con-

no País? Como pode então existir até competição

tinua a existir, mas, com informação, as empresas

oficial? “Dentro do Brasil não existe legislação que

começam a se abrir para o jogo. A própria emissora

proíba o pôquer. O que é contravenção é a práti-

paulista, conforme já ressaltado anteriormente,

ca do jogo de azar, o que não é caso do pôquer,

colocou um programa sobre pôquer no ar. E, para

portanto, não precisa ser proibido. Para vencer

completar a seção de boas notícias, este ano esse

uma partida é preciso técnica, raciocínio, estraté-

jogo de cartas foi alçado ao status de esporte men-

gia e muita habilidade. Sorte conta também, mas

tal, pela Federação Internacional dos Esportes da

é só um dos fatores entre muitos outros”, diz.

Mente (Imsa). Dessa forma, a respeitada entidade atesta que o pôquer é uma prática de habilidade,

Atualmente, o BSOP é realizado pela Confederação

assim como xadrez, dama e go (todos de tabuleiro)

Brasileira de Texas Hold’em, entidade criada para

e o bridge (baralho). É mais uma cartada de mestre

organizar esse tipo de jogo como evento no País.

a ser usada a favor desse jogo, que tem potencial

E, para se defender de possíveis implicações, foi

para atrair muito mais visionários para a sua mesa

contratado o respeitado escritório de advocacia

de negócios. Quer apostar?

do ex-ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior. A cada competição, os organizadores correm atrás de autorizações legais, como alvarás e licenças, assim como em qualquer outro evento. “Ainda existe o preconceito e o desconhecimento sobre o que é de fato o pôquer. Mas não estamos fazendo nada ilegal e demonstramos isso a cada edição. É uma atividade lícita e não uma contravenção”, reitera Bello. E com essa visão, cada vez mais segmentos buscam fazer do pôquer um negócio rentável. O mercado editorial é um deles. No Brasil, além dos sites e blogs que se dedicam à cobertura desse universo, já existem duas revistas especializadas: a Card Player e a Flop. O cineasta e jogador Juliano Maesano é editor-chefe da segunda, criada há três anos e que não é vendida em banca. Segue o modelo norte-americano de publicações entregues À direita, Juliano Maesano em torneio em São Paulo

gratuitamente nos torneios e salões de pôquer. “Começamos com 5 mil exemplares e hoje estamos a g o s t o 2 0 1 0 | 14 -1 5

Poker.indd 15

16/08/10 21:41


Ponto de vista

O que fazer para lidades esportivas mídia televisiva “São muitos os fatores que fazem com que isso

conseguirá aparecer na TV aberta – a não ser que

aconteça. Destaco dois deles que acho os principais.

se utilizem de contatos e influências políticas ou tragam algum anunciante para as emissoras.

Em primeiro lugar, acredito que os resultados das seleções nacionais ou representantes individuais do

Na prática, somente vai para a TV aberta o que gera

País nas competições internacionais fazem com que

interesse da população. Esses esportes terão que

a TV aberta se interesse pela modalidade em ques-

buscar projetos de marketing inovadores, criativos

tão; resultados chamarão a atenção do público. O

e com objetivos de alavancar as modalidades junto

segundo fator tem relação com o poder de consu-

à população, para buscar espaço na mídia de mas-

mo do nicho em questão, que fará com que em-

sa. Esse é o caminho: aumentar a importância da

presas que possuem produtos voltados para esses

modalidade, graças ao planejamento realizado e,

outros esportes, e para o público deles, anunciem

assim, poder negociar espaços na mídia de massa.

na mídia televisiva aberta, a permitir a produção e transmissão de determinadas modalidades.”

Virgílio Neto

A tendência em geral é crescer os esportes de nicho, com grande poder de diferenciação, graças aos públicos de interesse das modalidades, que interessa

Gerente da kievsports, agência de gestão e marketing

aos canais fechados. Caminho sem volta para esses

no esporte, e diretor de comunicação da Confederação

esportes distantes da mídia é fortalecer a modalida-

Brasileira de Rugby

de, tanto no aumento de praticantes, como criando projetos de marketing esportivo que saiam do óbvio.

“Para que os esportes que estão fora da TV

É preciso trabalhar duro para crescer e não

aberta ganhem espaço nas emissoras, Confede-

achar que a TV aberta é o único meio para isso.

rações, Federações e clubes de cada modalidade

Esse é o desafio!”

terão que fazer uma grande reflexão pelo modelo de negócio criado. Sem departamentos de ma-

Amir Somoggi

rketing estruturados e, principalmente, planeja-

Diretor da área Esporte Total da empresa de auditoria e

mento de suas estratégias futuras, dificilmente

consultoria Crowe Horwath RCS

O q u e f a z e r p a r a q u e m a i s m o d a ­l i d a d e s e s p o r t i va s t e n h a m e s p a ç o n a m í d i a t e l e v i s i va a b e r ta ?

Ponto de Vista.indd 16

16/08/10 22:45


que mais moda­ tenham espaço na aberta? “Temos que mudar nossa cultura.

Um ótimo exemplo é o golfe que, nos Estados Unidos, movimenta mais de US$18 bilhões por

O futebol brasileiro é uma indústria que movi-

ano, é jogado por 30 milhões de americanos e

menta milhões e claramente a TV aberta lucra

mais de 78% dos jogos são realizados em cam-

muito com isso. Por outro lado, existe uma

pos públicos. Aos executivos dos grandes canais

questão cultural que faz com que os brasileiros

de televisão eu deixo uma pergunta: será este um

tenham grande preferência pelo futebol.

bom negócio?”

Para mudar esta cultura, de forma natural, preci-

Rodrigo Righetti

saríamos de séculos.

Diretor de criação da Righetti Brand Solutions

O governo deveria desenvolver dois planos de ação distintos, mas que atuassem de formas

“No país em que se respira futebol, fica cada vez

concomitantes: obrigar, através de projetos de

mais difícil conseguir espaço para outros esportes

leis, os canais de televisão a destinar parte de sua

na televisão. Para conseguir espaço na mídia,

grade a outros tipos de esporte; e fazer com que

essas modalidades terão que se profissionalizar;

as crianças de classes sociais menos favorecidas

terão que ter grandes marcas associadas a seus

- a grande maioria brasileira - tenham contato

campeonatos e confederações para se fortalecer

com modalidades tidas como “elitizadas”, desfa-

e ganhar visibilidade, transformando-se em opor-

zendo o mito de que o único esporte ao alcance

tunidade de negócios.”

do brasileiro seja o futebol e formando novos e talentosos atletas.

Evandro Ariki Sports Content Manager da Mowa Sports

Desta maneira, em longo prazo, os “novos” esportes serão introduzidos na cultura brasileira, a audiência cresce, os canais de televisão lucram e a iniciativa privada valoriza os profissionais que, por sua vez, ganham mais. a g o s t o 2 0 1 0 | 16 -1 7

Ponto de Vista.indd 17

16/08/10 22:45


Opinião

Estatuto do Torcedor: óbvio, desnecessário e essencial “O Estatuto do Torcedor é óbvio. E viva o óbvio! É como se fosse um documento a favor da luz elétrica e da água encanada” texto José Francisco C. Mansur

f

oi assim que o jornalista Juca Kfouri1

tivesse todo o interesse em tomar as medidas

definiu a Lei 10.671, de 15 de maio de 2003, que

necessárias para fazer do seu “produto” algo

veio a ficar conhecida como Estatuto do Torcedor.

mais atraente ao público, o que lhe renderia

O Estatuto do Torcedor é óbvio porque teve a finalidade de assegurar direitos básicos em favor de “toda pessoa que aprecie, apoie ou se associe a qualquer entidade de prática desportiva do País e acompanhe a prática de determinada modalidade esportiva” (definição de torcedor – art. 2º do Estatuto). Como é o caso do direito de acompanhar uma competição esportiva que tenha regras públicas e transparentes. Como o direito do torcedor à segurança nos locais de realização dos eventos esportivos. Ou o direito ao acesso ao ingresso, com a maior antecedência e comodidade possíveis. Ou, ainda, o direito de acompanhar uma com-

maiores lucros, sem a necessidade de ser obrigado a isso por Lei.

De outra parte, a relação entre o torcedor e o promotor do evento esportivo é, indubitavelmente, uma relação de consumo, portanto, regulada pelo Código de Defesa do Consumidor – Lei 8.078 de 11 de setembro de 1990 – , existente treze anos antes do Estatuto do Torcedor. Um instrumento reconhecido no Brasil e no exterior como uma lei tecnicamente bem elaborada e eficiente, ou seja, aquilo que, a grosso modo, se costuma dizer tratar-se de uma “lei que pegou”.

petição na qual a arbitragem seja independente e imparcial.

Portanto, poderíamos afirmar, bastaria aplicar o já existente Código de Defesa do Consumidor a

Tudo óbvio, como mostram os exemplos acima.

tudo o que diga respeito à relação de consumo

Como seria óbvio esperar que o próprio res-

estabelecida entre o torcedor que acompanha o

ponsável pela organização do evento esportivo

evento esportivo no local, ou mesmo através da

E s ta t u t o d o T o r c e d o r – Ó b v i o , De s n e c e s s á r i o e E s s e n c i a l

Estatudo do torcedor.indd 18

18/08/10 16:26


,

sua transmissão pela TV, rádio, internet e etc, e

de mesa”, comuns em décadas passadas, pas-

não haveria necessidade da criação de uma lei

saram a fazer parte do folclore nacional.

própria para regulamentar a relação de consumo no esporte.

O torcedor sabe que pode comprar o ingresso com antecedência e em lugares distintos da

Seria, assim, o Estatuto do Torcedor uma lei des-

cidade, tanto que usa expediente nos grandes

necessária, uma vez que as leis existentes antes

eventos, faltando apenas incutir esse hábito

de sua entrada em vigor já garantiam os direitos do

para jogos menores.

consumidor que esta nova pretendeu assegurar. Da mesma forma que, ao entrar no estádio, Mas a prática mostrou que o Estatuto, na verda-

depara-se com uma série de itens de seguran-

de, apesar de óbvio e desnecessário, acabou se

ça – monitoramento, ambulância e etc – e já os

constituindo como uma Lei Essencial.

enxerga com naturalidade, mesmo sabendo que

Essencial porque, antes dele, muitos dos promotores de eventos esportivos resistiam em enxergar o óbvio – como resistiram ferozmente nos dias que se seguiram a sua entrada em vigor, ameaçando com a paralisação de campeonatos e outras tantas bravatas e reações até certo modo infantis. Foi a aplicação prática do Estatuto do Torcedor que despertou em muitos promotores de eventos esportivos a consciência de que, além do torcedor, os próprios clubes seriam os grandes beneficiados com a melhoria das condições do evento esportivo; poderiam realizar mais e melhores receitas a partir de um produto transparente, seguro e, enfim, de boa qualidade. Muitos já absorveram esse conceito e a fatia das receitas obtidas pelos clubes com vendas de ingressos atualmente é muito maior do que antes de 2003, quando a Lei 10.671 foi criada.

falta ainda melhorar o policiamento das áreas externas, ponto que ainda merece evolução da legislação e das práticas das autoridades. Muita coisa mudou a partir da entrada em vigor do Estatuto do Torcedor. Ele se torna essencial na medida em que não poderíamos regredir ao estado anterior, devido a alguns de seus aspectos já estarem incutidos nas práticas esportivas realizadas no Brasil – mesmo considerando-se que, como todo trabalho humano, seu texto apresente falhas naturais e pontos que podem ser melhorados.

Não enxergar a importância e os resultados obtidos a partir do Estatuto é tentar negar o óbvio, tornando tal esforço desnecessário. Essencial é que a sociedade nunca deixe de exigir que sejam colocados em prática os conceitos que estão escritos como sendo seus direitos, seja para a melhoria das condições do esporte, seja para o bem comum.

O Estatuto do Torcedor teve o mérito de inserir no consciente coletivo do torcedor brasileiro

José Francisco C. Mansur é Advogado Sócio de AMVO –

alguns conceitos e características que não eram

Ambiel Manssur e Viera de Oliveira Advogados – e Professor

corriqueiros antes de sua validação. As “viradas

de Legislação do Curso Marketing Champion da ESPM.

1 - Prefácio ao livro Estatuto do Torcedor Comentado dos Autores Carlos Adriano Pacheco e Roger Stiefelman Leal, São Paulo, Marco, 2006, pg. 7 a g o st o 2 0 1 0 | 18 -1 9

Estatudo do torcedor.indd 19

18/08/10 16:27


Capa

Anfitriões do mundo

Após a escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas, inicia-se uma corrida contra o tempo para que o País forme e prepare profissionais para receber e bem atender gente de todo o mundo texto Adriana Reis, Biaphra Galeno e Marcos Muanis

a nfitr iões do mu ndo

Capa.indd 20

16/08/10 21:46


o

Presidente da Confederação Brasileira

Em serviços mais fáceis de mensurar, como o

de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, afirma que

oferecido em hotéis e restaurantes, há iniciativas

o País tem três problemas para a realização da

tímidas. Para recepcionar os cerca de 600 mil

Copa do Mundo no Brasil: aeroportos, aeroportos

turistas durante a Copa, segundo estimativas da

e aeroportos. Tanto o presidente quanto a mídia

Embratur, e os que virão para as Olimpíadas, o

destacam o caos aéreo, as construções dos está-

Governo Federal lançou iniciativas junto a empre-

dios e as discussões para decidir em qual Estado

endimentos ligados ao turismo. O programa Bem

e, por conseguinte, em qual arena será realizada

Receber, criado pelo Ministério do Turismo, Se-

a abertura da Copa 2014. Falta, no entanto, olhar

brae e Instituto de Hospitalidade, tem como obje-

para um fator talvez mais importante do que

tivo desenvolver a competitividade das empresas

estádios multifuncionais e voos sem atrasos: a

de turismo e, em suas ações, promove oficinas,

capacitação do capital humano.

treinamentos, visitas e assistência técnica, e elaboração de guias e manuais aos funcionários

Competições do porte de uma Copa mobili-

desses estabelecimentos.

zam pessoas e, obviamente, consideráveis recursos financeiros. A Value Partners Brasil

O programa Bem Receber Copa, variante do ori-

Ltda, que atua no ramo de consultoria empre-

ginal, visa à capacitação de 306 mil profissionais

sarial, realizou uma pesquisa para o Ministério

do turismo até 2013. “Há alguns meses, o Minis-

do Esporte e calcula que o País fature mais

tério do Turismo firmou parceria com a Fundação

de R$ 180 bilhões somente com a Copa do

Roberto Marinho para ministrar cursos de inglês

Mundo.

e espanhol, via internet, para capacitação de 30

A análise aponta ainda que, até 2014, sejam gerados 332 mil empregos diretos e 381 mil temporários. O Brasil pode superar essa estimativa e multiplicá-la em longo prazo se souber bem atender os turistas que aqui vierem. Como? Entendendo suas necessidades, oferecendo tratamento personalizado e fornecendo o que querem na hora que querem. Mas para atingir esse nível de tratamento, é preciso treinar a população, e a grande questão é identificar qual a função do Estado e o que cabe à iniciativa privada nesse contexto.

mil profissionais que terão contato com turistas”, afirma Álvaro Bezerra de Mello, presidente nacional da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH). O Sebrae disponibiliza em seu site guias do programa direcionados aos cargos de camareira, cozinheiro, garçom, governanta, maitre, mensageiro e recepcionista. Em formato PDF, trazem sessões como as de “informar ao hóspede sobre os serviços do hotel” e “atender clientes, segundo os padrões de etiqueta social”. A Associação de Bares e Restaurantes (Abrasel), junto ao Ministério do Turismo, criou o programa Copa na Mesa, com a finalidade de preparar funcionários de bares e restaurantes a darem informações relacionadas ao turismo de suas respectivas cidades. Ricardo Bartoli, presidente da Abrasel São Paulo, destaca outras ações do a g o s t o 2 0 1 0 | 2 0 -2 1

Capa.indd 21

18/08/10 14:24


material didático via internet (e-learning) por dois anos. O programa tem implementação do Instituto IBEU e apoio da Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil e de empresas como Microsoft, Intel, Ford e Motorola. Nota-se que há certa preocupação, mas a percepção é de que as autoridades estão trabalhando com pouca vontade. Treinamento mais efetivo seria fundamental, com aulas presenciais e provas. Além de comer e dormir, o turista se diverte e faz compras, e um turista que sai satisfeito é um propagandista barato e eficiente. Magic Paula, ex-jogadora de basquete e, atualmente, diretora do Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa, no município de São Paulo diz que “precisamos ter um planejamento adequado, responsabilidade com a utilização dos recursos públicos e aproveitar o momento para fortalecer a estrutura esportiva do País e construir um modelo de gestão para os próximos vinte anos. Podemos deixar um grande legado, uma nova cultura esportiva para e aproveitar este momento para desenvolver uma estrutura sólida para o futuro.” A análise, perfeita, restringe a Copa do Mundo e as Olimpíada a esportes; o Brasil precisa fazer programa: “O Copa na Mesa visa o cadastra-

bonito também fora dos jogos.

mento de ambulantes que ficarão em volta dos estádios e arenas desportivas, além de distribuir

Álvaro Bezerra relembra uma questão importan-

pacotes de informação, com a melhor forma de

te envolvendo os Jogos Olímpicos de Pequim:

abordagem aos turistas”, afirma.

“Um problema presente naqueles jogos, não somente nos hotéis, foi a comunicação entre

Outra iniciativa é o projeto piloto do +Unidos,

funcionários – e os cerca de 100 mil voluntários

grupo de responsabilidade social corporativa que

– e os turistas; não houve treinamento para que

reúne 150 empresas americanas atuantes no

os chineses recebessem pessoas vindas de di-

Brasil, e o United States Agency for Internatio-

versas partes do mundo. Poucos falavam inglês

Magic Paula: planejamento e

nal Development (USAID), que tem por objetivo

e quase todos os cardápios eram escritos com

responsabilidade permitirão o

ministrar cursos de inglês a jovens (entre 13 e

ideogramas chineses”. A China perdeu dinheiro

fortalecimento da estrutura espor-

18 anos) em desvantagens sócio-econômicas

com essa atitude; um local que não aproxima o

no Rio de Janeiro. Iêda Novaes, diretora corpo-

público/cliente, não gera experiências significa-

rativa em São Paulo da BDO – multinacional de

tivas. Bezerra completa lembrando que o Brasil

auditoria, conselhos fiscais e consultoria – afirma

receberá turistas de toda a América e Europa:

tiva do País

que a ideia não se limita à Copa do Mundo e às Olimpíadas: “Este é um projeto de sustentabilidade, porque o objetivo principal é o treinamento desses jovens para a língua inglesa para que, depois, eles possam ser integrados às empresas participantes do +Unidos”, expõe. A primeira turma conta com vinte alunos, que receberão

“O grande desafio das iniciativas pública e privada para potencializar a circulação desse público – e, consequentemente, aumentar os gastos desses turistas no território brasileiro – está ligado aos roteiros

a nfitr iões do mu ndo

Capa.indd 22

16/08/10 21:46


de viagem. Devem ser criados atrativos para que o turista não fique apenas nas cidades onde vão acontecer os jogos e competições. O intuito é aproveitar essa oportunidade para divulgar regiões desconhecidas pelo público internacional. No mínimo, um bilhão de pessoas ao redor do mundo verão tudo o que será feito aqui; é uma ocasião valiosíssima e devemos aproveitá-la”. Daí a necessidade de estender o treinamento dado a profissionais de turismo e gastronomia a outros setores do comércio.

realizou apenas um treinamento de dois dias em sua sede, algo claramente feito às pressas. Já os Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, são um exemplo bem sucedido de organização: houve quatro anos ininterruptos de preparação. O sucesso das competições está diretamente ligado à capacidade que as cidades têm de preparar seus habitantes. O maior investimento que pode ser oferecido é imaterial. A organização da Copa do Mundo e Olimpíadas são oportunidades únicas do desenvolvimento do conceito de cidadania para a população brasileira”. Dalpozzo completa afirmando que “o risco de entregarmos um atendimento ruim é de duplo fracasso – duplo porque o estereótipo do Brasil no exterior é de ter um povo gentil e alegre por natureza, então o risco é de dupla decep-

Marco Dalpozzo, professor em gestão de pes-

ção. Esta é uma oportunidade que não pode

soas e gestão de mudança do MBA em gestão

ser perdida, e esse resultado depende muito

de esporte da Trevisan, defende que o papel do

de todos nós. Os interesses de entidades es-

Estado é o de desenvolver e planejar parcerias e

pecíficas devem ser postos de lado em nome

ações diretas para formar a mão de obra: “Ela é

de uma ação conjunta e orquestrada que ga-

necessária desde já para construir as obras rela-

ranta o sucesso”.

cionadas aos eventos, e qualificar os operadores nas áreas de serviços (públicos e privados) para

Marca Brasil

garantir um atendimento world class aos turistas

Eduardo Muniz, sócio consultor da Top Brands,

e pessoas envolvidas com os eventos. Falta,

define o ponto em que o Brasil está e oportunida-

ainda, a qualificação de base. É preciso desenvolver escolas técnicas e inovadoras no uso da tecnologia, para que possamos formar pedreiros, mecânicos, eletricistas, soldadores, garçons, motorista de ônibus, de táxi, recepcionistas, supervisores, gestores de equipe. Não é uma agenda difícil, mas precisa ser extremamente eficiente, e o tempo é escasso”.

des para desenvolver sua marca: “Quando debatemos sobre a imagem do Brasil em outros países, características como alegria e descontração aparecem muito fortemente. Porém, organização e profissionalismo nem sempre surgem com tanta convicção. O processo de construção de uma marca se dá pelas experiências que o público alvo tem em todas as manifestações desta marca (ou pontos de contato). Mesmo que tenhamos instalações adequadas, arenas esportivas bem concebidas, processos logísticos eficientes (o que já é um grande desafio), o relacionamento estabelecido

fotos: divulgação

pelos brasileiros junto aos turistas será de suma

Aprender com o passado

importância para a percepção construída pelos

Kátia Rúbio, professora da Escola de Educação

eventos e pelo País em geral. Neste espectro,

Física e Esporte da USP com pós-doutorado

coloco desde aspectos comportamentais, como

na Universidade Autônoma de Barcelona, na

cordialidade e pró-atividade, até questões técni-

Espanha, acredita que a forma como o Pan-

cas como idioma (ao menos inglês e espanhol) e

Americano de 2007 foi conduzido deve ser es-

conhecimento de soluções práticas para proble-

quecida: “Foram gastos R$ 3,5 bilhões para um

mas previsíveis. Certamente, não se trata de algo

orçamento inicial, elaborado pelo Comitê Olímpi-

simples de ser mensurado”, explica. É o intangível

co Brasileiro (COB), de R$ 800 milhões. O COB

negligenciado pelos poderes público e privado. a g o s t o 2 0 1 0 | 22 -2 3

Capa.indd 23

16/08/10 21:46


fotos: Eduardo Colesi

Muniz completa: “Seria importante estabelecer dois momentos para este processo. O primeiro seria anterior à realização dos eventos, no qual os organizadores poderiam se apoiar nas experiências de eventos anteriores, levantando aspectos mais relevantes na opinião dos turistas, e estabelecer processos e métricas de avaliação para aprimorar estes pontos, evoluindo gradativamente seu desempenho. O segundo seria após a realização dos

dos esportes, de novas oportunidades. Em longo prazo, o País não constará das listas de destinos que oferecem excelência na prestação de serviços e isso seria uma pena; trata-se de um mercado que movimenta altos valores no mundo inteiro”.

eventos, conduzindo uma pesquisa de percepção junto aos turistas que vieram ao Brasil. Teríamos o

Outra indústria que pode oferecer melhorias ao

claro conhecimento da percepção criada e poderí-

Brasil melhorias é a educacional. Fernando Tre-

amos definir como melhor explorá-la futuramente

visan, diretor da Escola de Negócios Trevisan,

nas relações internacionais”.

afirma que o setor educacional ainda engatinha no oferecimento de programas voltados para a

Iniciativa privada

indústria do esporte: “Isso é provável reflexo da

É difícil mensurar qual parcela de responsabilida-

falta de profissionalização do setor. Há pequenos

de cabe ao estado e à iniciativa privada, a cerca

avanços apenas no ensino de idiomas. É preciso

do treinamento dos brasileiros. Como empresá-

também capacitar as pessoas em atendimento

rios têm possibilidade de ganhos por conta dos

de qualidade, afinal vão lidar diretamente com o

jogos, devem estar prontos para atrair capitais

público estrangeiro. Esse pessoal deve ser ge-

que não viriam sem os ‘megaeventos’ e podem

renciado preferencialmente por profissionais com

ajudar o País a se estabelecer como um destino

especialização em gestão esportiva, o que ainda

do turismo internacional. A professora da ESPM,

é muito incipiente no País”, alerta. É preciso,

Clarisse Setyon, defende que “a iniciativa privada

portanto, abrir os olhos e iniciar investimento no

deve ser a responsável por essa preparação do

capital humano imediatamente. Mais do que não

Treinamento mais efetivo, com

capital humano.

fazer feito durante os eventos, o Brasil precisa

aulas presenciais e provas, é

mostrar ao mundo que não é terra de bananas e

fundamental para garantir bom

de futebol somente.

nível de atendimento aos turistas

Errar nestes eventos pode afastar o Brasil, que demorou a ser palco mundial a nfitr iões do mu ndo

Capa.indd 24

16/08/10 21:46


O que é Competir para você? "Competir é ganhar. E ganhar nem sempre é chegar em primeiro. Eu não corro pra competir, eu corro para dar o melhor de mim. A melhor competição é aquela que você trava com você mesmo." Mário Roma, ciclista, diretor da Roma Comunicação.

Categorias: Empresa Privada Instituição Esportiva Instituição Pública Inclusão Social Mídia www.competirsportsmarketing.com.br www.premiocompetir.com.br contato@competirsportsmarketing.com.br

Anúncio Competir_ed03.indd 1

17/08/10 00:33


Modalidade

Glamour e perfeita interação texto Mariana Sayad

Mais do que uma disputa entre jogadores, a competição no polo ocorre entre animais controlados por seres humanos. Transmissão de jogos pela TV busca mais divulgação, mas investimento e patrocínio ainda são tímidos g l a m o u r e p e r f e i ta i n t e r a ç ã o

Polo.indd 26

16/08/10 21:49


foto: divulgação

o

ito cavalos montados por jogadores

munidos de um taco e um único objetivo: acertar uma pequena bolinha de 78 milímetros de diâmetro para o gol. No Brasil, o esporte ainda não é muito conhecido e nem tem tantos adeptos; apesar disso, está entre os quatro melhores do mundo. Na Inglaterra, o esporte é tão forte que existe a Copa da Rainha, onde a própria monarca é quem entrega o prêmio. E a nossa vizinha Argentina é considerada a melhor da atualidade. A questão topográfica favorece muito devido às regiões mais planas, ao contrário da do Brasil. Além disso, a cultura do campo é muito mais forte, onde a maioria dos argentinos sabe andar a cavalo, e se torna muito fácil e acessível criar estes animais. O polo exala beleza e glamour, e talvez por isso carregue o estigma de ser considerado um esporte apenas para pessoas com alto poder aquisitivo. Mas, afinal, quanto custa manter um time de polo? Esta resposta depende do handicap dos jogadores – quanto mais alto, maior o investimento. “Antes era muito caro, por isso, ninguém começava a praticar, era coisa de família. Hoje, já se pulverizou, há times de todos os níveis e, quanto mais baixo o handicap, mais acessível o custo”, explica o instrutor Carlos Figueira de Mello, o Calão. Cada um dos quatro jogadores de um time leva para o campo cerca de oito cavalos, ou seja, 32 por time, e é preciso ter um taco diferente para cada animal por causa de seu tamanho. Cada jogador é responsável pelo transporte de seus respectivos animais, assim como o tratador que aquece o cavalo antes de entrar em campo. Além disso, deve-se estar munido dos acessórios e equipamentos de segurança, chicote e botas. Segundo Carlos Alberto Neves, a manutenção de um time pode variar entre 200 e 800 mil reais por mês, dependendo do nível de competitividade: “Os altos custos já começam nas compras dos animais, que têm preços variando entre 5 mil reais e 1 milhão de dólares”, explica. Mas prova de que o fator econômico não é mais um obstáculo é a Hípica Paulista. Lá não é preciso levar nada pra começar o treino; é possível pegar tudo emprestado, das botas ao cavalo. a g o s t o 2 0 1 0 | 26 -2 7

Polo.indd 27

16/08/10 21:49


A modalidade também carrega o peso de ser “passada” de pai para filho, como se apenas essa herança desse o direito a praticá-la. Não é uma regra, mas é muito comum os praticantes serem influenciados pela família. “Existe um mito de que todo o jogador pertence à classe alta da sociedade. A maioria deles é formada por pessoas de pouco poder aquisitivo, mas apaixonada por cavalos e pelo esporte”, diz o praticante Luiz Paulo Martins Bastos. Segundo o instrutor Calão, é aconselhável começar a praticar ainda criança. “O ideal é iniciar já aos dois anos a taquear uma bolinha. O aprendiz tem que se acostumar com o taco e, a partir dos três anos, a montar o cavalo. Com cinco é que se em cima do animal”, explica. Por isso, a família

1970 por ser muito plana, o que torna o custo da

pode significar um diferencial tão importante: os

construção dos campos mais acessível, e por ser

filhos veem os pais jogando e logo se interessam.

uma região de pouca chuva.

Atualmente, a cidade de Indaiatuba (interior de

Com ótimos esportistas, o Brasil sofre com o baixo

São Paulo), onde está localizado o Clube Helve-

número de espectadores e praticantes. Estima-se

tia, é o lugar mais desenvolvido para a prática do

que haja cerca de 60 equipes nacionais, sendo a

esporte. É considerado um dos mais importantes

metade delas localizada na região de Indaiatuba.

da categoria no mundo, com cerca de 40 campos

Esta barreira começa a ser ultrapassada com a

de polo. Esta cidade foi escolhida na década de

transmissão de jogos pelo Canal Rural; ele trans-

fotos: arquivo pessoal

começa efetivamente a bater na bola com um taco

Entendendo o esporte O principal objetivo do jogo é marcar gol no time adversário. Um campo tem em média 275 m de comprimento por 140 m de largura e mais a zona de segurança. O gol tem 7,30 m de largura com duas balizas laterais. Um time de polo é formado por quatro jogadores, sendo dois atacantes, um meio-campo e um responsável pela defesa. Há dois árbitros montados a cavalo e um fora do campo que intercede em caso de impasse entre os juízes. Cada partida dura no máximo 90 minutos, divididos em seis períodos de sete minutos cada, tendo três minutos de intervalo entre um e outro. O cavalo deve ser trocado em cada um destes períodos para evitar o desgaste do animal e a queda de rendimento do jogador. Sua regra básica é: ao taquear a bola, o jogador cria um percurso, que desenha uma linha imaginária, e nenhum outro jogador pode cruzar esta linha. Simples? Os campeonatos são divididos por handicaps, ou gols, que é a forma de classificar os jogadores. Uma vez por ano, ocorre reunião entre os membros da comissão de handicap, que avaliam o desempenho dos jogadores como um todo durante a temporada. No Brasil, as notas do handicap vão de -1 até 10 e, a partir disso, os torneios são qualificados. Por exemplo, a Copa Moroni tem uma categoria de oito gols (ou handicaps). Isso significa que a soma dos handicaps dos quatro jogadores de uma equipe não pode ultrapassar oito. No Brasil, disputam-se campeonatos de até 26 handicaps, enquanto em outros países, onde o esporte é mais difundido, há torneios de até 40.

g l a m o u r e p e r f e i ta i n t e r a ç ã o

Polo.indd 28

16/08/10 21:50


mite a Tríplice Coroa, composta pelos torneios

veículos de comunicação direta e, praticamente,

Aberto do Estado de São Paulo, Copa Moroni e

exclusiva entre o patrocinador e os praticantes.

Aberto do Helvetia. “Estamos tornando o polo mais conhecido, assim como os atletas e os times”, diz

Como se espera, o fato de ser pouco popular dificul-

o gerente de conteúdo da emissora, Julio Cargnino.

ta a captação de patrocínio; apesar disso, grandes

“Sabemos que este primeiro ano será mais com-

marcas já descobriram seu potencial. Um exemplo

plicado, mas nosso objetivo é que em dois anos se

é a Mitsubishi Motors, que há três anos realiza uma

conquiste mais público”, prevê.

copa que leva seu nome: “Por ser pouco divulgado,

fotos: arquivo pessoal

a presença da marca endossa o crescimento do es-

Acima, o praticante Luiz Paulo, que defende que não é preciso ser da alta sociedade para ser praticante

Para auxiliar os novos espectadores, o Canal Ru-

porte e aumenta sua valorização”, explica a gerente

ral fez uma série de programas sobre as regras,

de marketing da empresa, Flavia Molina. “Uma

os times e outras informações importantes para

somatória de características chama atenção para o

entender o polo. “Toda quinta-feira, a emissora

polo; uma delas é atingir um nicho de mercado não

transmite um programa só sobre a modalidade,

muito explorado formado por um público antenado

e os primeiros foram focados na parte didática”,

e com um gosto bem estilizado”, completa. “As

explica o Presidente do Clube Helvetia, Pedro

transmissões dos jogos pelo Canal Rural atraem um

Bordon. “Teremos ainda que fazer vários progra-

público maior, aumentam a exposição da modalida-

mas para elucidar mais; esperamos, com isso,

de e, com isso, faz crescer o número de patrocina-

aumentar o número de fãs e interessados”, diz.

dores”, conclui Luiz Paulo.

A entrada do Canal Rural na transmissão dos

Os maiores patrocinadores deste esporte focam

jogos, que é o primeiro a fazê-lo, pode gerar novas

em campeonatos, por isso, existem muitas equipes

perspectivas ao esporte. Até então, o polo contava

que são mantidas dentro de uma estrutura familiar,

com as revistas do Clube Helvetia e do Clube São

ou seja, algum membro da família dos jogadores é

José Polo, esta última disponível também on line

que financia o time. Outro exemplo muito comum

- saojosepolo.com.br. Elas ainda são importantes

é um jogador ser o patrocinador da própria equipe.

de polo: “É preciso ser apaixonado por cavalos e pelo esporte”

Como é difícil conseguir um patrocínio que arque com todas as despesas do time, muitos jogadores têm outras carreiras paralelas ao polo, e isso cria uma peculiaridade: profissionais e amadores jogam na mesma categoria. “O que difere um jogador profissional de um amador é que o primeiro recebe pra jogar”, explica Luiz Paulo. A empresa Polo UK tem uma equipe que leva seu nome. Entre os quatro competidores, está Gustavo Garcia, conhecido como GG. Ele joga polo desde os doze anos. “Morava em um condomínio em Franca (interior de São Paulo) na frente de um clube de polo, o que facilitou meu contato com o esporte. Mas o que mais me ajudou foi o fato de um tio jogar; ganhei dele uma égua e foi o ponta-pé inicial. Comecei a treinar três vezes por semana, me apaixonei pelo esporte e passei a ir todos os dias”, relata. “O retorno que o esporte possibilita para nossa marca é muito grande”, diz Carlos Alberto Neves, da Polo UK. “O Brasil tem hoje um reconhecimento e respeito internacionais, pois daqui saem vários atletas que jogam ao redor do mundo”, finaliza. a g o s t o 2 0 1 0 | 28 -2 9

Polo.indd 29

16/08/10 21:50


Marketing Esportivo

Os vencedores são África do Sul e FIFA foto: Wesley Cardia

texto Wesley Cardia A Copa do Mundo acabou. O Brasil não ganhou.

Já a África do Sul, uma país que até 16 anos atrás

Duas seleções que nunca haviam vencido dis-

era banido de eventos esportivos internacionais

putaram a final. A Espanha levou a taça. Os

por conta do Apartheid, pode mostrar ao mundo

Bafana-Bafana, donos da casa, se esforçaram. O

que bela e competente nação ela é. As matérias,

uruguaio Forlán foi eleito o melhor atleta. O públi-

colunas e opiniões contra a realização de eventos

co se comportou com civilidade nunca vista. E os

desse porte em países em vias de desenvolvi-

vencedores foram África do Sul e FIFA.

mento são intensas. Aqueles, no entanto, que puderam ver o resultado do esforço africano, a

Os fanáticos por futebol dirão que a Fúria foi a

alegria em receber os turistas, os estádios impe-

grande vitoriosa. Ela foi apenas a Campeã da

cáveis e uma quantidade desprezível de inciden-

Copa; do torneio de futebol. Todos os outros que

tes para um acontecimento desse porte, sabem

já perceberam que a Copa do Mundo é muito

que não haveria dinheiro que pudesse obter o

mais do que uma competição esportiva concor-

resultado de RP proporcionado pela Copa do

darão que, do ponto de vista de organização de

Mundo à África do Sul.

um mega evento, a FIFA está no topo do pódio. E para aqueles que entendem que a Copa ultrapas-

A Copa ultrapassou as fronteiras de maior compe-

sou há muito tempo o terreno do futebol, a África

tição esportiva do mundo para se transformar no

do Sul foi a campeoníssima no quesito relações

maior evento de congraçamento entre as nações

públicas.

e no mais importante acontecimento de relações públicas que um país pode almejar. A África do

A FIFA, a cada nova Copa, expande seus do-

Sul foi competente ao compreender a grandio-

mínios e cuidados a fim de ter o maior controle

sidade da oportunidade e transformá-la em um

possível da organização do evento. Acredite,

agente que reformulou o entendimento do mundo

leitor: para quem vai à Copa com os olhos de um

sobre seu país após 64 jogos de futebol e mais de

observador do evento em si, desde a disposição

30 bilhões de espectadores com a atenção volta-

dos banners dos patrocinadores nos aeroportos,

da ao que ali ocorria.

até o espaço aéreo sobre os estádios, percebe que o comando da FIFA visa fazer da competição

O Brasil tem uma chance única na história. Se

um acontecimento impecável. E ela tem 99,99%

usarmos os três grandes eventos de 2013 a 2016

de sucesso. Essa organização dá aos patrocina-

(Copa das Confederações, Copa do Mundo e

dores a tranquilidade de saber que aquilo que

Olimpíadas) para inserir o país e seu povo no rol

foi adquirido será entregue até o último detalhe.

de nações sérias e merecedoras de confiança e

Nem que tenham que prender as lindas loiras que

respeito, o caminho para o primeiro mundo ficará

faziam marketing de emboscada de uma cerveja

mais próximo do que jamais esteve.

concorrente da patrocinadora oficial. Essa organização garante à FIFA um faturamento de mais de

Wesley Cardia é consultor de marketing esportivo e Diretor

4 bilhões de dólares com o evento.

da Maestro Marketing.

M a r k eting e sp ortivo

Mkt Esportivo_wesley.indd 30

16/08/10 21:54


Marcas do Esporte texto Marco Antonio Siqueira Quando o assunto flutua entre esporte e marca, é

pela percepção dos próprios consumidores, no

comum dissertar sobre as marcas no esporte, ou

caso torcedores. O que pensa toda a indústria a

seja, marcas do mercado corporativo que elege-

respeito de um clube tem um peso indiscutível.

ram esta plataforma de comunicação. Normal-

Relações com a imprensa, investidores, federa-

mente, fica faltando um olhar estratégico sobre

ções, parceiros, funcionários e assim vai.

as marcas do esporte. Sim, o principal patrimônio das grandes organizações esportivas é a marca.

Engana-se quem pensa que acabou. É preciso olhar

Inclusive na visão do próprio mercado.

ainda mais longe. A reputação de um clube perante a comunidade ou, em última instância, toda a so-

Não chega a ser uma novidade. Nos últimos anos,

ciedade, tem cada vez mais relevância. Palavrões

caiu sobre nós um dilúvio de informação sobre a

como ética, transparência, sustentabilidade ganham

importância das marcas como fator de diferencia-

espaço. Sem esquecer do comportamento social e

ção e competitividade. Por que no esporte seria di-

esportivo dos funcionários, leia-se dirigentes, atletas

ferente? Pensando bem, o que são grandes clubes

e, mais uma vez, torcedores. Cenários que impac-

de futebol senão poderosas marcas esportivas?

tam de forma tão silenciosa quanto abrangente, no presente e futuro de uma marca esportiva.

Jogadores são ativos, claro, os quais mal se tem tempo de contabilizar. Gerações de craques ou

Ficam de fora os estádios – para a sorte de

pernas-de-pau. Times campeões ou rebaixados.

muitos. As áreas sociais foram igualmente omi-

Dirigentes que parecem eternos, mas um dia se

tidas – para alívio das finanças. Todo patrimônio

vão.Treinadores então, nem se fala. Mas o que

palpável foi esquecido, não por acaso. Ainda que

permanence? A marca.

apresentem (quase) indiscutível valor comercial e contábil, sem marcas fortes seriam elefantes

Tão intangíveis quanto subjetivos, os ingredientes

brancos, bem menos dóceis do que aqueles que

essenciais na construção de marca na indústria do

a África do Sul acabou de dar à luz.

esporte se assemelham ao que acontece em outros setores, com algumas particularidades. O tamanho

Uma boa e uma má notícia para nossos gestores

da base de fãs e, essencialmente, seu grau de

esportivos. Primeiro, a boa: grande parte destes

afinidade com o clube estão, sem dúvida, entre

fatores são controláveis, ainda que complexos.

os principais – e mais óbvios – atributos. Legiões

Em outras palavras: tem jeito. A má notícia é que

de admiradores formadas ao longo de décadas,

temos um grande caminho a percorrer. E pouco

embaladas por grandes conquistas e ídolos, sem

tempo. Simbora!

dúvida, são pontos-chave deste processo. Fatores que impactam diretamente no valor comercial dos

Marco Antonio Siqueira - www.marketingesportivodeverda-

principais ativos de marketing dos clubes.

de.blogspot.com - é radialista e publicitário, sócio-diretor da Zebra Marketing Esportivo e diretor da ABRAL (Associação

Mas a imagem da marca não é somente formada

Brasileira de Licenciamento). a g o s t o 2 0 1 0 | 3 0 -3 1

Mkt Esportivo_marco antonio.indd 31

16/08/10 21:52


Anuncio_Rev_Competir_Ago10.indd 1

08/07/10 16:36


Saúde e bem-estar

Esporte Corporativo foto: Ivan Padovani

texto Christian Kittler Hoje há uma grande dicotomia, e ruído, em torno

Portanto, gerenciar bem seu dia é a grande

do tema bem-estar nas empresas. A pressão por

questão. É preciso se disciplinar para excluir os

resultados e a competitividade nunca foram tão

tomadores de tempo que nada agregam, pedir

fortes; por outro lado, já está mais do que provado

ajuda se concluir que as tarefas no trabalho ou

que trabalhadores com bem-estar físico e mental

em casa estão além da capacidade produtiva,

é que conseguirão trazer os resultados almejados.

e colocar você na sua própria agenda, separar

O que fazer então se as demandas aumentaram –

meia hora que seja para cuidar da sua saúde em

sejam de trabalho ou de qualidade de vida – mas o

alguma atividade física.

dia permanece com ‘apenas’ 24 horas? Atualmente, há uma boa conscientização por Recentemente realizamos um trabalho na empre-

parte das empresas – e desejo por parte das

sa Syngenta para valorizar com os colaboradores

pessoas – para equacionar melhor as demandas

a importância da qualidade de vida. Tinha certo

da vida moderna com qualidade de vida, mas os

receio quanto ao nível de aceitação das pessoas

mecanismos ainda não são muito precisos. Isso

para nosso projeto, porém fui surpreendido pelo

faz parte da evolução.

interesse. As pessoas precisam desses alertas e respondem bem aos estímulos que este tipo

Um caminho é trabalhar o esporte e a atividade

de proposta oferece – mudar os hábitos para ser

física de uma forma bem abrangente para melho-

mais saudável e produtivo.

rar o bem-estar. O fator preventivo é muito importante e, no final da cadeia, você verá que poupará

Parece um clichê, mas o fato é que empresas são

grandes recursos ao diminuir faltas por doenças,

realmente movidas por pessoas, e elas têm que

por exemplo. Ao investir na qualidade de vida, a

estar motivadas e se sentindo bem, e isso passa

produtividade aumenta - já está comprovado que

necessariamente pela adoção de hábitos saudá-

a atividade física melhora a oxigenação no cére-

veis, como a prática de alguma atividade física.

bro - o ambiente de trabalho fica mais agradável e há mais disposição para todas as outras tarefas.

Entretanto, como sair do ciclo vicioso de estresse

Por que não mudar se o que lhe espera é muito

e falta de tempo e mudar os hábitos? A coisa mais

melhor do que você tem hoje?

democrática existente no mundo é justamente o fato de que todos nós temos 24 horas – como você administra seu tempo é que faz a diferença brutal.

Christian Kittler é triatleta e CEO do Grupo Ativo. a g o s t o 2 0 1 0 | 32 -3 3

Saude e bem estar.indd 33

16/08/10 21:55


Finanças

Eles merecem tanto? texto Éder Sguerri

q

uando se pergunta para um menino

o que ele quer ser quando crescer, provavelmente

salários, se dão o retorno devido aos clubes e às empresas que os patrocinam.

vai responder que quer ser jogador de futebol, com a pura inocência de achar que o esporter

Segundo a revista France Football, o maior salá-

garantirá diversão para sempre. Quando fica um

rio entre os jogadores da modalidade, contando

pouco mais velho, quer ser jogador de futebol

patrocínios e a remuneração do clube, é o do

para ser famoso e, quando já entende tudo o que

argentino Lionel Messi, que recebe 33 milhões de

envolve o mundo fora dos campos, passa a afir-

euros anuais, seguido pelo inglês David Beckham,

mar tal coisa porque quer ser rico.

com 30,4 milhões, e Cristiano Ronaldo, de Portugal, que recebe 30 milhões do Real Madrid e dos

Os altos salários que os atletas do futebol rece-

patrocinadores, como a Nike. Só dois brasileiros

bem são atraentes, ainda mais se comparados

aparecem na lista dos 20 mais da revista francesa:

com o resto da população mundial que, em mé-

Kaká, em quarto, com 18,8 milhões de euros, e

dia, recebe bem menos do que os milhões de

Ronaldinho, em sexto, com 17,2 milhões.

reais, euros ou dólares que enchem os cofres dos ídolos esportivos. Com isso, a dúvida que

No Brasil, os valores não chegam a tanto, mas

sempre surge em discussões sobre os elevados

os clubes gastam, e muito, com salários dos

montantes é se os jogadores merecem esses

profissionais do futebol. “Os times brasileiros

E l e s m e r e c e m ta n t o ?

Salario Jogadores.indd 34

16/08/10 22:00


Clubes e empresas gastam rios de dinheiro com atletas e suas imagens. A quem questiona se o investimento vale a pena: retornos se transformam em oceanos milionรกrios a g o s t o 2 0 1 0 | 34 -3 5

Salario Jogadores.indd 35

16/08/10 22:00


utilizam 47% da sua receita com a remunera-

produtos ligados a ele e ao Corinthians. Foi o que

ção de atletas e comissão técnica”, diz Carlos

o diretor de comunicação da Nike Brasil, David

Aragaki, um dos sócios da Casual Auditores

Grinberg, afirmou para a revista Exame, em maio

Independentes, empresa que faz a auditoria

de 2009: “Houve um aumento de 50% na procu-

dos maiores clubes nacionais.

ra da camisa do Corinthians, superando todas as expectativas da empresa”.

Para pagar valores astronômicos, os clubes fazem uma série de análises sobre cada joga-

“Em casos como o do Ronaldo, o gasto com

dor, tanto dentro como fora de campo. O diretor

contratação foi superado com receitas de patro-

financeiro do Corinthians, Raul Corrêa, afirma

cínios e publicidade bem como com receitas de

que “o ideal é ter uma análise multidisciplinar

bilheteria. O Flamengo é outro clube que viu suas

(esportiva, financeira e mercadológica) para a

receitas de bilheteria bater recorde em 2009 com

contratação de um atleta, mas na prática é a

a dupla Adriano e Vagner Love”, afirma Aragaki.

busca pelo desempenho esportivo que determina a decisão, não se esquecendo da necessidade de atender a uma verba orçamentária e à imagem pública do jogador”. Assim, o que o jogador fizer em campo é o que mais importa; porém, sua imagem fora dele ajudará e muito no retorno financeiro que o clube terá. Para chegar perto dos valores europeus e atrair jogadores famosos, os clubes brasileiros estão fazendo novos tipos de transações com apoio de terceiros, como é o caso de Ronaldo e Roberto Carlos, no Corinthians, e de Robinho, no Santos. Empresas ligam sua imagem a esses jogadores e ajudam os clubes a pagar os seus salários. Com o sucesso dentro de campo, todo mundo ganha

Falando de outro Ronaldo, o Cristiano, o Real Madrid fará um investimento total (transferência e salários) de 156,4 milhões de euros. É difícil afirmar se conseguirá o retorno disso; porém, o clube merengue já teve sucesso com Beckham e Zidane: captou muito mais do que o valor gasto com assinatura de novos contratos de patrocínio, merchandising e venda de direitos. O português é uma aposta alta, mas o Real Madrid pagou para ver.

fora dele: jogador, clube e empresas. Ronaldo, Cristiano e Kobe Bryant: vendas milionárias dos clubes compensariam altos salários

Assim aconteceu com o Fenômeno, no Corinthians. O jogador chegou ao clube bem acima do peso, desacreditado pela maioria das pessoas, mas levou patrocínios e público aos estádios, apenas pelo seu desempenho e histórico de pessoa que vence todos os obstáculos que a vida proporciona. Salário de 300 mil reais por mês mais 80% dos 11 milhões que Bozzano e Banco Panamericano pagaram ao clube. Muito?

Só que o jogador pode não dar certo para o clube. Não joga bem, não é bem recebido pela torcida, tem problemas graves na vida pessoal. “Todo investimento gera riscos. Caso o retorno esportivo não apareça, há espaço para emprestar o atleta para outro clube, para que o jogador recupere seu melhor futebol ou eventualmente uma transação definitiva”, analisa Raul Corrêa. Essa não é uma característica exclusiva do futebol. Kobe Bryant, astro do basquete norteamericano, assinou seu último contrato com o Los Angeles Lakers em abril de 2010. O valor: 83,5 milhões de dólares por mais três anos. Ele é o segundo jogador na história da NBA a receber esse montante; o primeiro foi Michael Jordan. Segundo a revista Forbes, Kobe é a 14ª

Quando entrou em campo, Ronaldo superou mais

celebridade que mais ganha dinheiro no mun-

uma vez as expectativas, jogando bem, fazendo

do. Entre os esportistas, é a segunda maior,

gols e aumentando ainda mais a procura pelos

só ficando atrás de Tiger Woods. Se Bryant dá

E l e s m e r e c e m ta n t o ?

Salario Jogadores.indd 36

16/08/10 22:00


fotos: divulgação - Nike

retorno para o Lakers? Desde sua chegada ao

te ligada à avaliação dos resultados alcançados.

time, em 1996, são cinco títulos nacionais e a camisa do time é mais vendida da NBA nos

“Sem dúvida, o futebol é um grande negócio e

Estados Unidos, China e Europa.

necessita dos jogadores para poder ampliar receitas. Clubes que não pagam bons salários, em

Quanto ao merecimento desses salários, Aragaki

geral, têm baixo desempenho esportivo e acabam

acredita que “quando se define uma remuneração,

tendo redução nas receitas com patrocínios, bi-

considera-se o histórico e as perspectivas de gera-

lheteria e venda de camisas, entre outros”, finaliza

ção de benefícios, por parte daquele profissional”.

Raul Corrêa. É o esporte cumprindo uma máxima

Naturalmente, a resposta para isso está diretamen-

da economia: fatura alto quem investe alto.

Os maiores salários do futebol somados aos ganhos publicitários, segundo a revista France Football: Jogador

Clube

em €

Lionel Messi

Barcelona

33 milhões

David Beckham

Los Angeles Galaxy

Cristiano Ronaldo

Real Madrid

30 milhões

Kaká

Real Madrid

18,8 milhões

Thierry Henry

Barcelona

Ronaldinho

Milan

17,2 milhões

Carlos Tevez

Manchester City

15,4 milhões

Zlatan Ibrahimovic

Barcelona

14,5 milhões

Frank Lampard

Chelsea

14,2 milhões

Samuel Eto’o

Internazionale

13,8 milhões

Didier Drogba

Chelsea

Carles Puyol

Barcelona

12,8 milhões

Wayne Rooney

Manchester United

12,6 milhões

Michael Ballack

Bayer Leverkusen

12,2 milhões

Fernando Torres

Liverpool

11,7 milhões

Steven Gerrard

Liverpool

11,5 milhões

John Terry

Chelsea

11,4 milhões

Xavi Hernandéz

Barcelona

Gianluigi Buffon

Juventus

10,6 milhões

Francesco Totti

Roma

10,1 milhões

30,4 milhões

18 milhões

13 milhões

11 milhões

a g o s t o 2 0 1 0 | 3 6 -3 7

Salario Jogadores.indd 37

18/08/10 15:03


Raio x

Clubes no vermelho

Finalizado mais um ano de gestão dos clubes com base nos balanços de 31 de dezembro de 2009 e publicados no mês de abril de 2010, verifica-se que a maiora deles está no vermelho

a

penas três times conseguiram en-

premiações foi significativa, visto que o clube

cerrar o ano com superávit; os demais ficaram

de Parque São Jorge conquistou o Campeonato

com déficit (82%).

Paulista e a Copa do Brasil, e planos como o Fiel Torcedor e licenciamentos e franquias também

Dos superavitários, temos:

trouxeram bons resultados. Já a tradicional venda

Sport Clube Corinthians Paulista

de atletas, praticada por todos os clubes, não foi a

R$ 5.825 mil

principal fonte de receita do clube em 2009.

São Paulo Futebol Clube

São Paulo - O São Paulo Futebol Clube apresen-

R$ 426 mil

tou redução no superávit de 2009 se comparado a 2008, pois sua receita com venda de atletas foi

Clube Atlético Paranaense

menor do que em 2008 e, adicionalmente não teve

R$ 10.571 mil

a receita com a lei de incentivo ao desporto nesse ano. Todavia, apresentou crescimento expressivo

Corinthians - Contribuíram fortemente para seu

nas receitas de publicidade e patrocínio e na

resultado positivo o aumento das receitas de direi-

arrecadação de jogos. Outro destaque foram as

tos de transmissão de TV, patrocínio e publicidade,

receitas de aluguel de seu estádio, que também

principalmente pela estratégia de marketing adota-

cresceram significativamente, principalmente

da na vinda de jogadores como Ronaldo e Roberto

por conta dos camarotes e cadeiras cativas. O

Carlos, que atraiu patrocinadores com bom retorno

aumento das receitas com o aluguel em 2009,

financeiro. O clube também verificou aumento na

se comparado ao ano anterior, pode significar a

bilheteria, seja pelo aumento de público por conta

não dependência do clube para com o aluguel do

desses jogadores, seja pelo aumento efetivo no

estádio aos demais clubes. Há que se verificar se

preço dos ingressos. Finalmente, a receita com

esse fato se manterá nos próximos anos.

Clubes no v er mel ho

RaioX.indd 38

18/08/10 16:19


Atlético Paranaense - O Clube Atlético

significativas foram verificadas com parcerias e

Paranaense verificou aumentos em sua receita

nas contingências com ações cíveis e trabalhistas.

principalmente com transferências de atletas, televisionamento, bilheteria, e do seu programa

Dos clubes que fecharam no vermelho, chama

de associado denominado “sócio furacão”, tendo

a atenção o Clube de Regatas Vasco da Gama,

outros destaques também com camarotes, centro

pois, embora tivesse em 2009 um déficit de R$

de treinamento e publicidade em camisa. Por outro

1.745 mil, não foi nada comparado ao de 2008 –

lado, o clube também conseguiu diminuir suas

R$ 276.814 mil. Isso ocorreu porque, em 2008,

despesas de 2009 em relação a 2008. Pode-se

o clube com nova gestão passou a registrar em

destacar a redução nos gastos com salários e

seu balanço todas as contingências fiscais, cíveis

encargos, imagem, serviços terceirizados contrata-

e trabalhistas que não figuravam anteriormente,

dos pelo clube, viagens e hospedagens. Reduções

com impacto direto no resultado daquele ano. a g o s t o 2 0 1 0 | 3 8 -3 9

RaioX.indd 39

18/08/10 16:19


Agora ficou fácil se dar bem na copa de 2014.

O curso MBA Gestão e Marketing Esportivo oferece qualificação para profissionais na área de gestão, marketing e comunicação esportiva, desde 2002, em parceria com a Brunoro Sports Business.

SP - Rua Bela Cintra, 934 • (11) 3138 5200 RJ - Rua Primeiro de Março, 33 • 11º andar • (21) 2223 0863

São Paulo

www.trevisan.edu.br • twitter.com/_Trevisan_

Ribeirão Bonito

GRADUAÇÃO

anuncio_210x275_esporte.indd 1

|

PÓS-GRADUAÇÃO

|

MBA

|

Rio de Janeiro

CURSOS E TREINAMENTOS

|

IN COMPANY

29/4/2010 09:49:40


Craque nas Letras

Livros campeões sobre esporte, marketing esportivo,

Essa seção apresenta os melhores livros os ou não – garimpados nos sites de campeonatos e competições – lançament editoras brasileiras e estrangeiras texto Lucia Koury

iro, tem uma lista e escritor radicado no Rio de Jane Luís Pimentel é um craque baiano. Jorna ca. No publicados sobre esporte, humor e músi editora – Myrrha – com mais de 20 livros das letras de futebol, reúne um timaço de craques livro Paixão e Ficção – Contos e causos ndo Arma , Blanc Aldir o: ol. E só tem craque mesm para contar histórias de paixão ao futeb , Renato Casé el Rafa , de Andrade, Mario Filho, Nani Nogueira, Flávio Augusto Falcão, Jeferson ações ilustr ez e Zico, além do próprio Pimentel, com Maurício Prado, Reynaldo Velinho Alvar ia de leitura! de outro cracaço, o Amorim. Uma delíc ha, 128 páginas, R$ 25 Myrr ra Edito , ISBN 978- 85-8 9125 -74-7

Records reúne lo XXI, a edição 2010 do Guinness World Celebrando a primeira década do sécu cada dia 100 entre os recordistas, um recorde para os principais recordes da década, os Top os da história. eis”, alguns dos recordes mais duradour do ano e ainda apresenta os “inquebráv ro, 290 páginas, R$ 74,90 ISBN 978-85-00330 -88-9, Editora Ediou

Maria de gestão do esporte brasileiro, a autora Euza No livro A participação das mulheres na nos cargos eres mulh de as de inserção e permanência Paiva Gomes analisa e interpreta as form carreira. na er que enfrentaram para ocupar e se mant diretivos e revela os desafios e barreiras s órgãos da am 63 dos 813 cargos mapeados nos vário A pesquisa revelou que as mulheres ocup m a manter em média 40 anos e são graduadas; tende administração esportiva (7,7%). Elas têm aliadas à ia etênc comp e sua persistência, dedicação os cargos para os quais foram eleitas por ulino, mas masc ascender num meio predominantemente paixão. Conhecem as dificuldades para modernização hecida e não hesitam em se engajar na não desistem de ter sua capacidade recon m a entrada do novo nas instituições. de normas gerontocráticas que ainda barra 160 páginas, R$ 25 ISBN 9788 57812005 4, Editora Quar tet, Comentários para esta seção podem ser

enviados para craque@outrasletras.co

m.br.

aag go osst to o 22001100 || 441-4 0 -4 1

Craque nas letras.indd 41

18/08/10 15:05


Piloto

Personalidade

texto Neto Bach

t

udo começou em 2007, quando Khodair,

ocasião. “Lógico que minha atitude isolada não

através de um amigo, conheceu a ONG Iniciativa

ajudaria muito, mas a principal intenção era mul-

Verde – organização que tem como compromis-

tiplicar essa ideia, aproveitando a importância do

so compensar emissões de Gases do Efeito Estu-

assunto”, comenta.

fa (GEE) emitidos por atividades do homem e que, através do programa Carbon Free, incentiva

A iniciativa deu certo. Com apenas três anos

pequenas mudanças de comportamento indivi-

de trabalho voltado para a qualidade de vida,

dual e também corporativo. Sempre antenado

Allam Khodair se firmou como o “piloto verde”

aos problemas ambientais, o piloto se empolgou

e a Stock Car como uma categoria sustentável.

com a possibilidade de fazer algo inédito no

O planejamento para os próximos anos é am-

automobilismo nacional. Então, se uniu ao pro-

pliar essa responsabilidade social, e neutralizar

incentivou a Stock Car a buscar

jeto tendo como primeiro objetivo tentar neutra-

todo o carbono gerado pelos carros na disputa,

rótulo de modalidade sustentável

lizar tudo o que seu carro e equipe poluíam na

bem como reciclar todo o resíduo sólido resul-

Khodair: o “piloto verde”

p i l o t o s u s t e n táv e l

Alam Khodair.indd 42

16/08/10 22:18


sustentável Em uma época que o mundo volta os olhos para o meio ambiente, a palavra sustentabilidade não tardaria a chegar às pistas de automobilismo. O precursor neste caso foi o piloto de Stock Car Allam Khodair tante de cada etapa. E para que essa meta se

momentos difíceis, já que o esporte é muito caro e

concretize, os organizadores criaram, através

a Stock Car ainda estava por evoluir”, desabafa.

da CM Capital Markets, o projeto de inventário de emissões de GEE, que apurou o impacto das

O piloto viveu momentos de incerteza. Durante três

atividades da Stock Car com relação ao aque-

anos seguidos perdeu seu patrocinador principal e

cimento global. Após o levantamento, todos os

teve que se dedicar integralmente para substituí-lo,

carros da Copa Caixa Stock Car passaram a uti-

o que resultou em muitas noites sem dormir e falta

lizar Etanol Esso, combustível que, comparado

de produtividade nas corridas. “Como eu me pre-

a gasolina, emite 90% menos gases causadores

ocupava mais com a busca por novos patrocina-

do efeito estufa, como enxofre e metano. Para

dores, acabava por ter um mau desempenho nas

Khodair “esta foi uma forma de fazermos o bem

pistas. O que é péssimo, pois em uma categoria

para o planeta. E sem sermos hipócritas, para

tão competitiva, estar 100% focado ainda pode ser

nossa imagem também”.

pouco”. Mas como dedicação e trabalho invariavelmente trazem resultado, não demorou muito para

No comando da carreira

Khodair conquistar seus objetivos.

fotos: Luca Bassani

Como ser ecologicamente correto não é garantia de resultados na pista, e talento não é o suficiente

Em 2006, encontrou na Speed Sports, empresa

para arrecadar fundos, Allam Khodair procurou

de marketing esportivo, uma parceira na busca e

nos estudos o suporte necessário para alavancar

manutenção dos patrocinadores. No ano seguinte,

sua carreira. Formado em administração de em-

conquistou o apoio da Blausiegel (Blau) Medica-

presas pela Faculdade Armando Álvares Penteado

mentos, o que resultou em um casamento perfeito.

(FAAP), hoje, aos 29 anos, iniciou pós-graduação

Juntos há quatro anos, obtiveram em 2009 seus

em marketing e comunicação na Faculdade ESPM,

melhores resultados, com duas vitórias na Stock

na expectativa de também se consolidar como

Car e o quarto lugar na classificação geral. Como

empresário e evitar as dificuldades que enfrentou

não poderia deixar ser, este ano, a meta é “levar o

com a falta de patrocínio, há alguns anos. “Quan-

carro da Blau Full Time (Peugeot) ao título da

do iniciei na Stock Car, tive três anos bem compli-

Stock”, diz confiante. O primeiro passo já foi dado

cados em termos de resultados. Por isso o trabalho

ao vencer a etapa de Curitiba. Meta mais que

fora da pista tinha que ser duplicado. Passei por

possível para um piloto sustentável. a g o s t o 2 0 1 0 | 4 2 -4 3

Alam Khodair.indd 43

16/08/10 22:18


Sua marca poderia estar aqui. Categorias:

ANUNCIE comercial@competirsportsmarketing.com.br


Gol de Placa

Qualquer cidadão do País do Futebol se emociona com a leitura da sublime descrição dos minutos iniciais do jogo entre o Brasil e a Rússia na Copa de 1958, publicada pelo jornalista Ney Bianchi na revista Manchete Esportiva: 

A magia de Garrincha e o bisonho gladiador de Dunga texto Augusto Nunes “Monsieur Guigue, gendarme nas horas vagas,

Foram os três minutos mais deslumbrantes da

ordena o começo da partida. Didi centra rápido pra

história do futebol, concordam há 50 anos todos os

direita: 15 segundos de jogo. Garrincha escora a

torcedores de todos os países. Nas arquibancadas

bola com o peito de pé: 20 segundos. Kuznetzov

do estádio em Gotemburgo, homens, mulheres e

parte sobre ele. Garrincha faz que vai para esquer-

crianças de olhos azuis e cabelos louros tinham

da, mas não vai, sai pela direita. Kuznetzov cai e

a expressão de quem via um filme de Charles

fica sendo o primeiro João da Copa do Mundo: 25

Chaplin. Os jogadores russos acompanhavam o

segundos. Garrincha dá outro drible em Kusnetzov:

balé incomparável com cara de quem vai pedir um

27 segundos. Mais outro: 30 segundos. Outro. Todo

autógrafo. Os craques a caminho da imortalidade

estádio levanta-se. Kuznetzov está sentado, espan-

bailavam sem sobressaltos. “O futebol brasileiro é

tado: 32 segundos. Garrincha parte para a linha de

alegre, feliz, como o povo brasileiro”, comoveu-se o

fundo. Kuznetzov arremete outra vez, agora ajudado

artilheiro francês Just Fontaine. Era.

por Voinov e Krijveski: 34 segundos. Garrincha faz assim com a perna. Puxa a bola para cá, para lá e

Se em vez de Kuznetzov houvesse um Felipe

sai de novo pela direita. Os três russos estão espar-

Mello, os três minutos deslumbrantes não che-

ramados na grama, Voinov com o assento empinado

gariam a 10 segundos. O bisonho gladiador da

para o céu. O estádio estoura de riso: 38 segundos.

Seleção de Dunga acabaria com a humilhação no

Garrincha chuta violentamente, cruzado, sem ângu-

primeiro drible de Garrincha. Na segunda tentati-

lo. A bola explode no poste esquerdo da baliza de

va, acabaria com o próprio Garrincha.

Iashin e sai pela linha de fundo: 40 segundos. A platéia delira. Garrincha volta para o meio de campo,

Augusto Nunes é jornalista.

sempre desengonçado. Agora é aplaudido.” “A torcida fica de pé outra vez. Garrincha avança com a bola. João Kuznetzov cai novamente. Didi pede a bola: 45 segundos. Chuta de curva com a parte de dentro do pé. A bola faz a volta ao lado de Igor Netto e cai nos pés de Pelé. Pelé dá a Vavá: 48 segundos. Vavá a Didi, e este a Garrincha, outra vez a Pelé, Pelé chuta, a bola bate no travessão e sobe: 55 segundos. O ritmo do time é alucinante. É a cadência de Garrincha. Iashin tem a camisa empapada de suor, como se já jogasse há várias horas. A avalanche continua. Segundo após segundo, Garrincha dizima os russos. A histeria domina o estádio. E a explosão vem como o gol de Vavá, exatamente aos três minutos.” a g o s t o 2 0 1 0 | 4 4 -4 5

Gol de placa.indd 45

16/08/10 22:20


Perfil

Jo達o Olavo Soares de Souza Perfil.indd 47

16/08/10 22:25


Nascido no interior de São Paulo, João Olavo Soares de Souza, ou Feijão, como é conhecido, começou a praticar tênis aos nove anos. Determinação e disciplina fizeram o jovem atleta, hoje com 23 anos, conquistar títulos e participar de competições também no exterior. Com três patrocinadores, Feijão pretende jogar ainda muitos sets em sua carreira. Afinal, Wimbledon é o limite! Nome

Filme

João Olavo Soares de Souza

Meu Nome não é Johnny, Avatar e Tropa de Elite Livro

Nascimento

27 de maio de 1988 em Mogi das Cruzes, São Paulo

Bernardinho – Cartas a um jovem atleta, de Bernardinho, Editora Elsevier

Esporte e categoria

Prato

Tênis, Profissional

Arroz, feijão, batata frita e bife.

Altura e peso

1,93 m, 92 kg

Cidade brasileira

Rio de Janeiro Cidade estrangeira

Horas de treino

30 horas semanais

Londres, Roma e Nova York Família é...

Ricardo Acioly

Meu porto seguro; se não fosse a ajuda de todos da minha família, não sei se estaria onde estou

Patrocinadores

Estudos

Amil, Asics e Wilson

2º grau incompleto

Local onde treina

Se não fosse atleta...

Centro de Treinamento da AMIL, Rio de Janeiro, RJ

Seguramente trabalharia com o esporte em outra área

Técnico

Desde que idade/ano pratica o esporte

Desde os 9 anos de idade, 1997

Ídolo no esporte

Títulos

Guga Ídolo na vida

Minha mãe e minha avó paterna

Principais competições de que participou

Um sonho

Todos os Grand Slams e Masters Series de Madrid e Miami

Ser um dos melhores jogadores de tênis do mundo e poder ajudar bastante a minha família

fotos: Hedeson Alves

Seis títulos como profissional no Brasil e dois na Colômbia, além de um vice-campeonato também na Colômbia

Perfil

Perfil.indd 48

16/08/10 22:25


Viagem 50 // Literatura 52 // MĂşsica 53 // Menu - Vinhos 54 // Menu - Cultura de mesa 55 // Fotografia 56 // Teatro 58 // Cinema 59 // Artes visuais 60 // Moda 63 // Sustentabilidade 64

Respiro-Capa.indd 1

16/08/10 22:29


Viagem

Paraíso da aventura pertinho de São Paulo texto Raíra Venturieri

Natureza exuberante e atrações em cachoeiras fazem da paulista Brotas um dos destinos mais atraentes e acessíveis para quem procura ecoturismo radical

d

evido à proximidade da capital paulista e às multiplas opções de

nunca havia praticado o rafting, inclusive eu, e

esportes de aventura, Brotas é a primeira cidade citada quando se pergunta a um

posso afirmar que 100% dos iniciantes termina-

paulistano qual é o melhor destino de ecoaventura na região. Mas tamanha fama

ram o tour mais cansados e felizes do que espe-

não se dá apenas graças à curta distância da capital, de 250 km. Brotas pode

ravam. Devido às fortes águas do rio Jacaré-Pe-

desbancar até destinos mais longínquos, com o delicioso rafting (o carro-chefe

pira, é necessário um grande esforço ao manejar

dos esportes ali) pelo Rio Jacaré-Pepira, boia-cross em um trecho mais calmo do

os remos para alinhar o bote no caminho certo. O

mesmo rio, canyonismo em algumas das dezenas de cachoeiras da área, seis cir-

frio na barriga a cada queda e os espirros gelados

cuitos de arvorismo, entre outras modalidades de deixar a adrenalina nas alturas.

da água sob o normalmente ensolarado calor de Brotas são as maiores recompensas.

periência do rafting começa já na sede da agência que comercializa o passeio.

As cachoeiras

Antes de partir para o rio, o grupo assiste à uma divertida aula sobre como ma-

Quem não tem muitos dias livres e quer fazer

nejar o remo, onde se segurar, quais os comandos que o instrutor de cada bote

render a estadia em Brotas pode pipocar de carro

dá durante a descida e o que fazer se cair na água.

entre as cachoeiras que se localizam em fazendas a cerca de 20 km do centro da cidade, como

Todos seguem por um ônibus até a margem do rio, de onde parte o passeio. Lá,

a Fazenda Cassorova. Para entrar é cobrado um

atividades de integração, que medem o equilíbrio e a concentração dos parti-

day-use, de R$ 20 por pessoa, que permite que o

cipantes, servem para quebrar o gelo. Quando fui, a maioria dos participantes

visitante explore todas as atrações da proprieda-

imagens: Arquivo pessoal

Na minha primeira visita a Brotas, decidi começar pelo mais tradicional. A ex-

r espiro

Respiro - Viagem.indd 50

16/08/10 22:49


A natureza preservada e adaptada para a aventura faz de Brotas um destino obrigatório para os moradores do eixo Rio-São Paulo

de. Essa fazenda é a mais especial devido à Ca-

A natureza preservada e adaptada para a aventura, aliada à simpatia de uma

choeira Cassorova, uma das dais bonitas da cida-

cidadezinha de cerca de 20 mil habitantes e à facilidade de acesso, faz de

de, com 60 metros de queda acessíveis por trilha

Brotas um destino obrigatório para quem mora no eixo São Paulo – Rio. Há

de 200 metros na natureza. É perfeita para banho

passeios e hospedagens para todos os gostos e bolsos – mas especialmente

e atividades de aventura, como canyonismo (sem-

recomendados para quem procura uma cama bem confortável, para descan-

pre acompanhado de instrutores e pago à parte)

sar depois de um dia intenso de trilhas, escaladas, rafting, arvorismo...

e a tirolesa mais divertida de Brotas: a Superfly, na qual o aventureiro percorre 500 metros com vista deslumbrante de frente e de braços abertos, como se realmente voasse a 100 metros do solo. Também é pago à parte e pode ser contratado em uma das agências no centro da cidade.

O caminho das pedras Para ir para Brotas com tudo agendado – hospedagem, passeios e até jantar – você pode contratar um pacote fechado. Eles costumam ser bem

Na Fazenda Cassorova fica também a Cachoei-

em conta. A EcoAção (14-3653-8040; ecoacao.com.br) tem um pacote

ra dos Quatis, com 46 metros de altura e trilha

para final de semana com duas noites em pousada econômica, rafting

de 1,5 km pela Mata Atlântica nativa. Além de

completo, duas ecotirolesas, boia-cross e day-use no Parque Aventurah.

conhecer as quedas d’água e as opções de es-

Custa R$ 207 por pessoa em acomodação dupla. Consulte também a

porte, o visitante conta também com a estrutura

Brotas Aventura (0800-7713463 e 14-3653-8000; brotasaventura.com.

do local, que possui duas piscinas, lanchonete e

br ), que oferece rafting e floating com cachorro, para que o dono possa

restaurante. Por isso, é também uma boa pedida

levar seu bichinho até no passeio.

para quem viaja com crianças. Para ir por conta própria e escolher a programação lá mesmo a dica é se Para aproveitar o clima gostoso do interior, vale

hospedar no Brotas EcoResort (11-3035-1902 e 0800-7227022; brotase-

a pena se programar para ir à cidade quando

coresort.com.br; a partir de R$ 340 para o casal). É uma boa opção para

houver uma quermesse. Há o carnaval de rua

quem pretende curtir o hotel, já que possui piscinas, quadra, fazendinha e

(pequeno se comparado a carnavais mais tra-

divide espaço com o acampamento Peraltas.

dicionais do interior paulista), a Festa do Milho em março, o aniversário da cidade em 3 de

Se você viaja sem crianças e não faz questão de luxo, vai curtir a Pousada

maio, festas juninas em junho e julho, Festa

das Araras (14-3653-8032; pousadadasararasbrotas.com.br; a partir de

Folclórica em agosto e a Festa da Padroeira

R$ 120 para casal), bem pertinho do centro e com bom custo-benefício:

Nossa Senhora das Dores, repleta de atrações

é charmosa, com quarto confortável, piscina e café da manhã caprichado.

durante dez dias em setembro. a g o s t o 2 0 1 0 | 5 0 -5 1

Respiro - Viagem.indd 51

16/08/10 22:49


Literatura

Subliteratura em dois tempos

texto Kevin Kraus

1º tempo Um dos artistas mais controversos e polêmicos do século XVIII, William Blake (1757 - 1827) influenciou gerações de poetas, pintores e músicos. Ungido pela exuberância da poesia de Blake, Jim Morrison, vocalista do alucinado e infernal The Doors, destilou em suas letras traços sinistros da obra do poeta: “A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria”. Em O Casamento do Céu e do Inferno (1793), “livro profético” e talvez um dos mais acessíveis, Blake escreve uma série de ‘Provérbios do Inferno’ que passam pela religião, instituições sociais, psicologia e política. Muitas dessas máximas podem escandalizar até hoje - “A prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela impotência” - mas, divertidas e cheias de controvérsia, agitam o marasmo do mundo politicamente correto em que vivemos. Para aqueles que ao acordar precisam de uma palavra “transpiradora”: “O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade”.

2º tempo Nascido na primeira década do séc XX, John Fante começou a publicar seus rabiscos na década de 30. Seus romances, rejeitados e considerados malditos, só começaram a ser publicados na década de 80. Arturo Bandini, alter ego de Fante, principal personagem da maior parte de suas histórias, reflete as agruras e percalços dos imigrantes italianos na Califórnia. Escritor dedicado a essa minoria, descreve o pós-guerra nas ruas empoeiradas de Los Angeles. Autor emotivo e visceral que busca atravessar seus personagens com humor e dor, ternura e ridículo. Monstro da subliteratura, mestre do molestado Bukowski, é leitura obrigatória para aqueles que procuram conhecer melhor a América esquecida por Deus percorrida pelo miserável e grande Arturo Bandini. Ciclo Arturiano: Pergunte ao Pó, Espere a Primavera, Bandini, Sonhos de Bunker Hill e Rumo a Los Angeles. Outras Obras: A Oeste de Roma, O Vinho da Juventude, 1933 Foi um Ano Ruim. Kevin Kraus é professor e tradutor. r espiro

Respiro - Literatura.indd 52

16/08/10 22:32


Música

Anedotário musical (histórias – quase – reais)

c

texto Zé Helder

urioso como certas músicas foram feitas. Certa vez, vi em uma en-

sem nenhum equipamento de amplificação. Era

trevista o ex-beatle Paul McCartney contando como havia composto uma das

no gogó que tinham que se fazer ouvir. Quando

canções mais famosas e executadas do mundo, Yesterday. Ele disse que havia

foram gravar o primeiro disco, o técnico de grava-

sonhado com a música, acordou e a compôs. Simplesmente isso. Quando ele

ção colocou os dois diante de um sensível micro-

contava que foi dessa maneira, as pessoas não se conformavam. Esperavam

fone Neumann, de fabricação alemã. Para testá-

que ele dissesse que ficou meditando solitário no Himalaia até atingir a ilumina-

lo, pediu que cantassem, e eles o fizeram do jeito

ção, quando teve a divina inspiração para compor.

que estavam acostumados a fazer, mandando um verdadeiro tsunami vocal frente à delicadíssima

Mais lúdico do que isso foi o que ocorreu com o mestre Pixinguinha, assíduo

cápsula do microfone. O técnico entrou na sala de

frequentador da Whiskeria Gouveia, no Rio de Janeiro (e só Deus sabe de quan-

gravação comentando: “Vocês cantam alto, né?”,

tos outros botecos). Em uma ocasião, estava o nosso querido compositor em um

ao que Tonico e Tinoco agradeceram pensando

estado razoavelmente, digamos, etílico, quando aparece um sapo na sua fren-

tratar-se de um elogio, quando o técnico comple-

te. Pixinguinha resolveu testar a pontaria com seu revólver calibre 32 no pobre

tou: “Pois vão cantar alto assim na p...!”.

bichinho. Para o azar do sapinho, o teste foi um sucesso. Mas imediatamente Pixinguinha foi acometido de um profundo arrependimento, e quis compor para

E a genial Chiquinha Gonzaga, já no final de sua

o falecido. Essa história acabou rendendo a polca Pula Sapo.

longa e conturbada vida, ao ser perguntada se continuava a compor como antes, respondeu:

Na música caipira, então, são fartas as histórias. Ou, com o perdão do trocadilho,

“Qual o que, agora só descomponho!”

o que não farta é história. A dupla Tonico e Tinoco, por exemplo, como outras tantas nesse tempo de vacas magras, se apresentava em circos, no picadeiro,

Zé Helder é músico.

a g o s t o 2 0 1 0 | 52 -5 3

Respiro - Musica.indd 53

16/08/10 22:35


Menu - Vinhos

Vinho & Futebol p

texto Marcelo Copello

ra quem acha que “casta france-

dores, narinas e palatos são tão sensíveis quanto zonas erógenas e os suspiros

sa” é apenas uma “gaulesa recatada”, aí vai

proporcionados pelo nobre fermentado soam em alto volume. Outros passeiam

um pouco de cultura!

pelas lojas de vinho como se circulassem em um sex shop, fantasiando prazeres proibidos. Para estes, as revistas especializadas em vinho deveriam trazer

Já cantei e decantei a riqueza e complexidade do

um pôster central mostrando uma bela garrafa em foto grande, com rótulo e,

vinho tantas vezes quantos de seus goles tomei.

hummm, contra rótulo! Cada foto de garrafa é lida como uma ilustração do Kama

Esta bebida fascina legiões de seguidores, que

Sutra. Afinal tanto o manual indiano, escrito no século IV pelo sábio e nobre

projetam no líquido a sua imagem, fazendo valer

Vatsyayana, quanto este livro são manuais de prazer...

a máxima do romano Plínio, in vino veritas. Para muitos degustar soa como um esporte. O time de futebol poderia ser esPara alguns, vinho é uma religião. As adegas

calado com o gigante Chardonnay no gol, untuoso, ocupando todo os espaços.

são santuários onde pronunciam os nomes dos

Atrás, uma defesa sólida com líbero Malbec e os zagueirões Tannat e Carménè-

châteaux e safras baixo e com e sacralidade de

re, no passa nada! Um meio de campo bem entrosado com Cabernet Franc,

uma prece. Decorar os nomes dos 1er Cru Classé

Merlot, o camisa 10 Cabernet Sauvignon, que chuta com as duas, e mais atrás

equivale a saber os dez mandamentos, e maldizer

na marcação Petit Verdot. No ataque, o “rompedor” Shiraz, e os alas bem li-

um grande vinho incita reações dignas da inquisi-

geiros Moscato e Alvarinho. No banco, as armas secretas do treinador: o ponta

ção espanhola.

Sauvignon Blanc entraria sempre fresquinho no segundo tempo para cruzar para as cabeçadas explosivas de Champagne; ninguém sobe como ele! Este plantel

E a doutrina báquica seria passada para as pro-

deixa qualquer adversário tonto!

les. Dá até para imaginar as pessoas batizando seus filhos com nomes de uvas. Os trigêmeos franceses seriam Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e a menina Merlot. O tio Gewürz e tia Traminer, teriam Chablis (que delícia de priminha!) e o primo – Petit Syrah, que desde cedo já fez sua opção sexual, foi apelidado pelos amiguinhos de Petit “Será”. O vinho também pode ser erótico, proporcionando prazeres quase sexuais. Para muitos degusta-

Marcelo Copello - mcopello@mardevinho.com.br – é editor do site Mar de Vinhos.

r espiro

Respiro - vinhos.indd 62

16/08/10 22:39


Menu - Cultura de mesa

O legado da Santíssima Trindade paulistana

c

texto Alexandre Le Voci Sayad

omecei a prestar atenção no que como porque tive um pai que

encarava o almoço de domingo como uma maneira de explorar a São Paulo

evidência. Um capricho que não deixou dúvidas que o chef acompanhou cada instante do preparo.

que vivíamos há vinte anos; cada refeição não era só a comida, mas o ambiente, o papo com o chef e, sobretudo, a novidade. A última é a marca

José de Alencar de Souza é talentoso e simpático.

da cidade até hoje.

Fica doze horas por dia na cozinha, despela e prepara a base de tomate diariamente; não congela mo-

Fui convidado a revisitar um dos locais mais frequentados à época: o elegante

lhos. Orgulha-se de uma mesa de azeites e temperos

Santo Colomba. Junto com o Saint Germain e o Saint Peter’s Pier, formavam

que mantém perto do fogão. Sabe que a cada sema-

uma espécie de santíssima trindade da gastronomia tradicional paulistana, nos

na um prato deve sair melhor que outro, assim como

Jardins. É o único que ainda vive, sob a batuta do Alencar, chef autodidata que

cada mês e cada estação têm suas características,

preserva na cozinha algo que, hoje, faz a diferença numa espécie de massifica-

melhores carnes e frutos – por isso, a sugestão do

ção gastronômica afobada que a cidade vive: o tempo.

chef, que segui, tem valor e não soa como um dever burocrático. Que emoção retornar ao Santo Colomba!

O tempo parou no Santo Colomba e essa é uma excelente notícia. O ambiente é sofisticado como poucos: embuia nas paredes e no bar, que veio do Jockey Clu-

Detesto nostalgia; vivi de fato uma nova experiên-

be do Rio em 1977. Ao ser recebido, o mâitre logo estranha: “ você nunca veio

cia, a começar pelas três horas – uma eternidade

aqui; conheço todos os clientes”.

- que passei lá dentro. Os sabores que experimentei e o ambiente que encontrei tecem o verdadeiro

Um couvert de pães frescos, sardella tradicional e uma espécie de pesto suave.

sentido do “clássico”: algo que deve ser preser-

Um Bloody Mary corretíssimo, feito por alguém que tem a cultura de bar. Som

vado na cidade, em nome de um tempo em que

de piano ao vivo. Fui remetido a uma outra São Paulo.

vivíamos mais humanamente.

Entre pato, carneiro e frutos do mar, as especialidades da casa, experimentei os

Alexandre Le Voci Sayad é educador, jornalista e um aventu-

dois últimos e me surpreendi; carne tenra, preparo artesanal, frescor, sabores em

reiro na cozinha. a g o s t o 2 0 1 0 | 5 4 -5 5

Respiro - Cultura de mesa.indd 55

16/08/10 22:39


Fotografia

É ou não é?

Primeira Parte r espiro

Respiro - Fotografia.indd 56

16/08/10 22:41


a

texto Marcio “Teriya” Rebelo

seara da popularidade, do reconhecimento e do culto pessoal talvez seja o cerne de todos

os males de nosso comportamento... Artistas são, por conformação física e mental, egocêntricos e irascíveis (não me excluo dessa pecha!). Cabe à esta tribo responsável pelo que o mundo vê, admira, detesta, discute e em última instância assimila como “A ARTE”, construir de maneira clara, límpida e honesta seus limites. Farei breves comentários sobre duas imagens iconográficas da fotografia contemporânea: “O Beijo”, de Robert Doisneau e “Soldado Caindo”, de Robert Capa. Quanto ao beijo, foi uma foto encomendada pela revista Life em março de 1950, realizada em abril e publicada na edição de junho deste mesmo ano. Pois bem: até a metade dos anos 1980, a imagem passou despercebida pelo grande público, sendo comentada apenas nos círculos mais restritos da fotografia. Quando nesta época a imagem foi comercializada em formato pôster para venda ao público, Doisneau prontamente saiu em declarações afirmando a espontaneidade da cena e o instantâneo da imagem – obviamente, para quem conhece os artifícios da publicidade e, principalmente neste instante histórico, da comunicação de massa tanto nos Estados Unidos como no resto do mundo, o valor desta afirmação foi grande no apelo de venda das reproduções da imagem e de outras do próprio autor... Então, em 1993, um casal francês, acreditando na afirmação de que a foto havia sido um instantâneo em frente à Prefeitura de Paris, resolveu arriscar e processar Doisneau por utilização não autorizada de suas imagens... Que baita problema! O grande fotógrafo Doisneau (compartilho com o adjetivo!) teve que, humilhantemente, desmentir-se e confessar que contratou dois modelos, pagos com 500 francos na época, para que posassem para a fotografia! Resultado: a ação contra Doisneau foi considerada incompetente! Ufa, que sorte, não? Nada disso... A modelo resolveu acionar Doisneau, pleiteando parte dos lucros sobre a venda dos pôsteres... Resultado desta pendenga: ação considerada incompetente por haver se passado 43 anos, o prazo para uma queixa deste mérito na França. Que sorte, novamente! Sorte ou não, temos uma esperança: o modelo contratado não quis se juntar à sua colega na ação por achar que havia sido corretamente pago na época da foto. A fúria com a qual, às vezes, nos movemos na direção ao reconhecimento, à fama e ao lucro nos leva, inevitavelmente, à atitudes no mínimo amorais. Decidi me afastar definitivamente da publicidade como parte do meu esforço de tentar correr atrás da minha consciência e da minha alma negociada. Quanto à história da foto de Robert Capa, “Soldado Caindo”, deixemos para a próxima edição...

Marcio “Teriya” Rebelo foi fotógrafo de publicidade por 26 anos, presidente da ABRAFOTO (Associação Brasileira dos Fotógrafos de Publicidade) e membro da Comissão de Fotografia da Secretaria Estadual da Cultura. Hoje, dedicado a trabalhos mais autorais, sua obra une fotografia, cinema, música, artes plásticas e literatura. a g o s t o 2 0 1 0 | 5 6 -5 7

Respiro - Fotografia.indd 57

16/08/10 22:41


Teatro

Paul Cézanne Medeia mata os f ilhos, 1879-1882 Aquarela

decide matar suas duas crianças. Em seu entendimento da situação, ao ver os cadáveres, Jasão teria a mesma perda que ela sentiu na traição. A queda do herói acontece quando ela descobre que Jasão está com outra, o que desencadeia uma série de acontecimentos até o assassinato dos filhos. Ao mesmo tempo, a rejeição sofrida pela personagem gera uma identificação – que não exclui a barbaridade do ato – e provoca uma catarse em quem a assiste. Isso porque Eurípedes trata de problemas humanos atemporais,

A tragédia de Medeia

o

texto Paulo Bueno

s gregos costumavam mostrar em suas tragédias os principais pro-

como rejeição, traição, vingança e preconceito.

Mesmo com quase 2.500 anos, a identidade criada por Medeia é tão forte que Chico Buarque e Paulo Pontes adaptaram a história para o Rio de Janeiro na década de 70, com o nome Gota d’Água. Medeia aqui se chama Joana, casada com o sambista Jasão, autor da canção que dá nome ao espetáculo. Ao ser traída, ela mata os dois filhos e suicida-se. Na montagem original, de 1975, Bibi Ferreira fez a personagem principal, dirigida por Gianni Ratto. Assim como Gota d’Água, foram várias recriações da história pelo mundo. O dramaturgo Jean Anouilh transformou Medeia num drama francês em 1946.

blemas humanos. Até hoje, Medeia é tema de teses acadêmicas de psicologia.

No ano seguinte, outra versão de Medeia estreou na

O autor Eurípedes, quando escreveu o texto no ano 431 a.C., abordou a rela-

Broadway, com direito a uma paródia dessa monta-

ção dos gregos com a mulher. Ela era submissa, oprimida, submetidas a uma

gem nos anos 50. O cineasta dinamarquês Lars von

educação rígida e sofria preconceitos. Medeia é a voz feminina da época que-

Trier, diretor de Dogville, adaptou a tragédia para a

rendo se libertar das amarras da sociedade, tanto que o rumo da história está

televisão nos anos 80. Nos cinemas, ela aparece no

nas mãos da protagonista.

filme Jasão e os Argonautas, de 1963, só que aqui são retratados apenas os feitos de Jasão com a sua

Dois fatos caracterizam o herói das tragédias gregas: a queda e a catarse. Me-

esposa Medeia, ainda sem os filhos.

deia, ao ser traída pelo seu marido Jasão, vive um conflito entre o amor dos filhos e a vingança. Para demonstrar a dor que sentiu por ter sido trocada, ela

Paulo Bueno é jornalista, ator e locutor.

r espiro

Respiro - Teatro.indd 58

16/08/10 22:52


Cinema

O encantar do cinema texto Sylvio do Amaral Rocha

e

le dirigiu mais de 500 filmes, construiu o primeiro estúdio de cinema

e acreditou que o cinematógrafo não servia somente para retratar a realidade. Descobriu que as fotografias animadas poderiam, sim, encantar as pessoas. Filho de um industrial bem sucedido, George Méliès é o pai do cinema. Embora não gostasse de trabalhar na fábrica da família, foi lá que aprendeu a construir máquinas, aptidão fundamental para o seu futuro como cineasta. Méliès sempre se envolveu com as artes. Desde pequeno fazia desenhos e caricaturas. Depois de uma viagem a Londres, começou a se apresentar como ilusionista e mágico. Quando seu pai se afastou da fábrica, usou parte de sua herança para comprar, em 1888, o célebre teatro Roubert Houdin, berço da mágica moderna. Convidado pelos irmãos Lumière para assistir à primeira sessão de cinema, percebeu que o advento poderia ser útil à sua profissão. Começou a reproduzir cenas do cotidiano e, no fim de 1896, ao registrar o trânsito na Place de l’Opéra, sua câmera emperrou e demorou um minuto para voltar a funcionar. O resultado foi surpreendente: como num passe mágica um homem virou uma mulher, um ônibus virou um carro fúnebre, pessoas que vinham, agora iam. Um truque fantástico! No mesmo ano, fez o primeiro filme de ilusão da história: Escamotage D’une Dame Chez Robert Houdin. Viagem à Lua, de 1902, é seu filme mais famoso e o mais caro produzido até então: cientistas desenham um foguete e vão para o espaço. Depois de terem uma noite com sonhos magníficos, acabam arrumando confusão com os Selenitas, os habitantes da Lua, e têm que fugir. O filme ainda hoje maravilha os espectadores. O sucesso foi tamanho que a fita foi pirateada pelos norte-americanos e o retorno financeiro foi um fiasco. No cinema, Méliès se encontrou. Acreditava ser a arte perfeita, onde todas as formas artísticas poderiam fluir. Com o desenvolvimento das técnicas narrativas e o lado comercial se sobrepondo ao artístico, o público foi perdendo o interesse pelo cinema desenvolvido por ele. Desiludido, queimou parte de seus filmes. O cineasta passou por um período difícil, vendendo brinquedos em uma barraca dentro de uma estação de trem. Foi redescoberto quase duas décadas depois por um jornalista que fez uma grande retrospectiva de sua obra. Apesar disso, Méliès morreu pobre, em uma casa em Paris cedida pela sociedade de cinema francês, em 1938. Sylvio do Amaral Rocha é diretor da Confraria Produções e professor de cinema. a g o s t o 2 0 1 0 | 5 8 -5 9

Respiro - Cinema.indd 59

16/08/10 22:53


Ar tes Visuais

A pequena Louise Bourgeois texto Izabel Rocha

e

Cela, 1990-3

Maman, 1999

m 31 de maio de 2010 o mundo se despediu de Louise Bourgeois.

ge uma questão crucial, motivo de toda sua criação

Aos 98 anos, a artista morreu em decorrência de um enfarte, na cidade de

artística: como que em uma família de classe média

Nova York, EUA.

francesa uma professora podia ser a peça principal “A razão é que minha mãe tolerava isso, e esse é

minhava intimamente pelos diversos materiais, desde o mármore até a borracha,

o mistério. Como ela podia? E qual o papel que eu

passando pelo bronze, tecido e espelho. A sexualidade, agressividade, o foco no

tinha nesse jogo? Eu era o peão. Sadie deveria es-

corpo humano e nas questões de proteção eram temas essenciais em seu traba-

tar lá como minha professora e, na realidade, você,

lho. Sua construção de objetos em diferentes fases teve sempre como inspiração

mãe, estava me usando para não perder de vista o

seus primeiros anos de vida.

seu marido. E isso é abuso infantil”.

O motivo de seu estímulo: Sadie Gordon Richmond. A moça, introduzida na família

A pequena Louise, que supostamente deveria es-

Bourgeois como a professora de inglês de Louise e sua irmã Henriette, não só per-

tar junto com sua mestra para estudar, acompa-

maneceu nesse cargo por dez anos, como era amante de seu pai. E é aqui que sur-

nhava o casal de amantes durante suas relações

imagens: reprodução

de um jogo? É a própria escultora quem responde: Uma das mais importantes personalidades das artes visuais da atualidade, ca-

r espiro

Respiro - Artes visuais.indd 60

16/08/10 22:54


“Minha infância jamais perdeu sua magia, jamais perdeu seu mistério e jamais perdeu seu drama. Toda a minha obra nos últimos cinquenta anos, todos os meus temas, foram inspirados em minha infância.” Casal, 2001 Quarto vermelho (criança), 1994

Destruição do pai, 1974

sexuais. Sem entender o que realmente faziam, a futura artista assistia a tudo

cada de 90, Quartos Vermelhos, em 1994, e suas

de perto. Seu pai e sua professora. Estariam eles brigando? Ou se divertindo? Se

conhecidas Aranhas, como a que está no Museu de

matando? Essas questões, essas visões, imagens do bárbaro, são o reflexo de

Arte Moderna de São Paulo, cujo tema traz um du-

uma experiência traumática, símbolo de todo o seu processo criativo.

plo significado: o primeiro, a aranha enquanto guardiã, defensora; o segundo, a representação da mãe.

Enquanto estudava matemática na Sorbonne e artes na École du Louvre e na École des Beaux-Arts, dentre tantas outras, Louise preparava-se para se tornar

Louise Bourgeois deixou um legado incrível, e

uma artista. Costumava dizer que todos os dias tentava abandonar o seu passado.

suas memórias, registradas em suas obras, man-

Ou aceitá-lo. Como não conseguia conviver com ele, o passo seguinte foi se tornar

têm viva a figura de uma menina que soube,

uma escultora. Foi na maturidade que enfim sentiu-se livre. Livre porque transpor-

depois de grande, materializar seus traumas em

tava o sentimento de raiva com o qual convivia para a escultura que criava.

objetos de imenso valor.

E criou as obras Punhal de Criança, de 1947, e Destruição do Pai, em 1974. Escul-

Izabel Rocha é historiadora de arte, professora e produtora

turas de casais acompanhariam toda a sua carreira; e ainda a série Celas, na dé-

cultural. a g o s t o 2 0 1 0 | 6 0 -6 1

Respiro - Artes visuais.indd 61

16/08/10 22:54


ANUNCIO_CHACARA_210x275mm.indd 1

4/13/10 2:39:01 PM


Moda

Moda e Arte

s

texto Ana Lúcia Severo

erá que moda é arte? Muitas pessoas, entre estudiosos, amantes e

de 1990 aposta em uma cartela de cores neutras,

simples curiosos, já debateram sobre o assunto, sobre moda ser ou não uma

na silhueta enxuta e em uma estética bem clean.

forma de arte. Para isso, a maioria das pessoas que entra nesta discussão parte

A alfaiataria e as linhas arquitetônicas tornam-se

do significado das duas palavras: segundo o dicionário Houaiss, “arte é a habi-

seus principais representantes, pois valorizam as

lidade humana de colocar em prática uma ideia através do uso da matéria” e

formas, o acabamento e a modelagem. Naquela

“moda, o estilo predominante no modo de vestir, viver, falar etc”. Quem afirma

época, os destaques eram a estilista alemã Jil

que moda é arte, baseia-se no fato de que esta expressa as emoções, a cultura

Sander e o austríaco Helmut Lang, à frente de

e a história das pessoas através de seus valores estéticos. Enquanto o surgi-

marcas que levaram seus nomes.

mento (e o desenvolvimento) do conceito de moda é menos abstrato, integra o uso de vestimentas aos contextos político, econômico e social. Assim, um não é

O Minimalismo revisitado de hoje já veio se mos-

necessariamente o outro.

trando nas passarelas desde 2005 e 2006, com a marca Chloé e a estilista Stella McCartney. Agora,

A questão é que inúmeras manifestações artísticas vêm influenciando a moda

os principais nomes são: Francisco Costa para a

ao longo dos tempos. E um ótimo exemplo, já que se trata de uma tendência

Calvin Klein, Prada, Narciso Rodriguez, os japo-

para o próximo verão, é o Minimalismo. Ele descreve um conjunto de movimen-

neses Rei Kawakubo e Comme des Garçons. Por

tos artísticos e culturais – especialmente nas artes visuais e na música – em que

aqui, Glória Coelho traduz como nenhum outro as

o trabalho é reduzido às suas formas mais fundamentais. Nas artes plásticas,

formas arquitetônicas em seus looks. Mas, para

surge após o ápice do Expressionismo Abstrato nos Estados Unidos (no final da

o verão de 2011, percebemos traços minimalistas

década de 1960), marcando uma mudança no eixo artístico mundial da Europa

na Maria Bonita, Forum Tufi Duek e Huis Clos.

para aquele país. Mesmo quem não tem muita afinidade com itens Na moda, a tendência minimalista aparece em oposição a todo o exagero dos

clássicos poderá se arriscar nesta tendência

anos 1980, tais como ombros marcados, cores fortes, brilhos. Assim, a década

com peças que prometem ser hits da temporada, como saias em couro ou shorts de alfaiataria aliados às boas e simples camisetas brancas. Ou simplesmente usar uma peça de silhueta mais ajustada com outra em uma cor bem marcante. E lembrar-se que, principalmente em moda, “menos é mais”. Sempre.

Ana Lúcia Severo é jornalista com especialização em Marketing, Merchandising e Mídia de Moda, pela Esmod de Paris. Foi responsável pela Coluna de Moda Masculina no site Meninas da Moda e colabora com o Modalogia. a g o s t o 2 0 1 0 | 6 2 -6 3

Respiro - Moda.indd 63

16/08/10 23:53


Sustentabilidade

Agradeço aos bichos e as plantas por mais essa refeição... texto Hugo Penteado

n

o Natal de 2009, recebemos a visita de uma amiga americana e,

que os humanos. Comer carne demais só serve

nas refeições, ela fazia um agradecimento sui generis: “Agradeço aos bichos

para produzir bolo fecal que apodrece e conta-

e as plantas por mais essa refeição. Agradeço também ao planeta, que nos

mina nossos corpos, cuja capacidade digestiva

acolheu”. Os Estados Unidos são, sem dúvida, um país cheio de contradições,

é de apenas 40 gramas de proteína animal a

como o nosso, mas com um capital social gigantesco. Minha amiga com essa

cada quatro horas. Ou seja, a decisão de comer

frase lembrou como estamos vivos graças a todas as formas de vida. Embora

carne em demasia, além de devastar a natu-

nossas refeições fossem vegetarianas, havia ovos, leite e seus derivados. É

reza, só serve para produzir bolo fecal inútil e

comovente lembrar que tudo na nossa mesa vem da natureza – e é triste reco-

contaminação corporal e doenças. Não parece

nhecer o quanto ignoramos isso, ou menosprezamos.

ser uma decisão inteligente.

Ao não comermos carne, decidimos proteger o meio ambiente. O consumo

Onde mais podemos encontrar decisões nada

de carne é potencialmente dez vezes mais devastador para a natureza que o

inteligentes? No hábito de não comer alimentos

dos vegetais. Isso mostra que o problema da “finitude” planetária não está

vegetais crus. As plantas produzem todas as vi-

apenas relacionado à nossa intenção suicida de aumentar continuamente

taminas que são antioxidantes para se protege-

populações e o consumo, mas a nossos hábitos. Já que somos muitos, talvez

rem do fato de estarem fixas no meio ambiente.

com a mudança de hábitos e um novo modo de produção e consumo, com

Sem as vitaminas produzidas pelas plantas,

ênfase na eficiência e na distribuição, conseguiríamos levantar o padrão de

morreríamos. Mas as vitaminas são moléculas

vida de todos sem causar o tão temido colapso do planeta já em curso. Bas-

muito voláteis, basta colocar no fogo e elas de-

ta lembrar que das 2 milhões de espécies conhecidas por nós, homens, já

saparecem, basta espremer uma laranja e elas

extinguimos em décadas 140 mil, e esse é o maior processo de extinção da

somem. O ideal é comer alimentos crus e ser

vida dos últimos 65 milhões de anos. Muita ingenuidade achar que a extin-

vegetariano ou, se não consegue, comer pouca

ção não se voltará contra os causadores.

carne. Bom para saúde, bom para o planeta, bom para a sociedade.

Nos vegetarianos, a ausência de B12, única vitamina que vem da carne, é fácil de ser corrigida – mas para os ovolactovegetarianos, essa dificuldade inexiste. Comer carne em demasia é um hábito medieval, porque somos onívoros (saliva alcalina, pouco ácido clorídrico no estômago e intestino longo) e não somos carnívoros (saliva ácida, muito ácido clorídrico no estômago e intestino curto). Os carnívoros conseguem digerir dez vezes mais carne do

Hugo Penteado é ecoeconomista.

r espiro

Respiro - Sustentabilidade.indd 64

17/08/10 00:14


Não deixe para decidir seu futuro aos 45 minutos do segundo tempo. ESPM: MAIS DO QUE CONHECIMENTO NO MUNDO DOS NEGÓCIOS. > PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO E MARKETING DO ESPORTE Só uma escola especialista em inovação, e reconhecida pela sua prática de mercado, pode oferecer cursos como o Pós-Graduação em Administração e Marketing do Esporte, em que você aprende a identificar e aproveitar as novas oportunidades na gestão dos negócios do esporte. Você passará a fazer parte de um grupo que lidera as transformações do mundo corporativo. Não espere o final do jogo para valorizar o seu passe. Inscreva-se já.

MBA EXECUTIVO > MASTER > PÓS-GRADUAÇÃO www.espm.br/candidato – candidato@espm.br – (11) 5081-8225

Capa agosto.indd 2

MBA / MASTER /PÓS-GRADUAÇÃO EDUCAÇÃO EXECUTIVA

18/08/10 14:10


ISSN 2177-8612

Publicação mensal de marketing aplicado ao esporte

anfitriões do mundo | Celso Schvartzer

#03 | agosto2010

#03 | agosto2010

ENTREVISTA: Celso Schvartzer | A mesa de negócios do pôquer | Estatuto do Torcedor: Óbvio, Desnecessário e Essencial | Polo: glamour e perfeita interação | Allam Khodair, um piloto sustentável | Jogadores com salários milionários: eles merecem tanto? | E MAIS... Capa agosto.indd 1

18/08/10 14:10

http://revistacompetir.com.br/pdfs/ed03  

http://revistacompetir.com.br/pdfs/ed03.pdf

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you