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1ª Edição

Barra Mansa (RJ) Eliana Neri da Silva Carvalho 2013

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FOLHA DE CATALOGAÇÃO

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Dedico este livro à Ordem Divina. “Senhor, que seja feita Sua vontade.”

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Este primeiro livro da trilogia , visa apresentar seus personagens iniciais que são: Padre Zequinha, o casal Lorena e João, e eu, que narro toda a história. O primeiro volume levará o leitor a vivenciar algumas boas aventuras junto com os personagens. A interligação entre eles ocorrerá somente no último volume. Já o segundo livro, entrará de cara no segredo do personagem principal, revelando muitas surpresas. Será um livro de mais respostas e pouco romantismo. O terceiro livro - será um misto de aventuras, surpresas e encontros. Meu agradecimento especial para um personagem que entrará somente no segundo livro e que foi responsável por me dar o fio da meada do segredo do personagem principal, já que toda a história é verídica. Ele já não está entre nós, partiu no ano de 2012 e tenho certeza que está encantando no céu, como nos encantou na terra. Gratidão, Sr. Gomes (o Gominho, da cidade de Dom Viçoso). Gratidão ao meu pai, José Lourenço da Silva, que me acompanhou nas viagens de pesquisas. Ao irmão de meu pai, Francisco Miguel Silva (Tio Chiquinho), que nos acompanhou nas viagens e nos presenteou com as histórias do loroteiro - além de 7


nos acolher em sua casa - e a querida amiga de São Lourenço, Sandra Mara Diniz. A intenção da trilogia não é ditar verdades e, sim, fazer pensá-las. Eliana Neri

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“Aos nove de março de 1946, retiro-me da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Dom Viçoso. Levo indeléveis recordações deste povo, do povo dos Pintos germinamente1 católicos, ao da Serrinha tão nobre, ao da Barra, tão altivos, ao dos Mendanhas, tão bom! A todos, de coração, bênçãos celestiais. Peço ao bom Deus que perdoe aos que me denunciaram impunemente. Peço perdão se não cumpri fielmente com meus deveres de pároco, isto é, se fui negligente aos interesses espirituais do povo. Saindo muito pobre de haveres e riquíssimo de satisfações. Benedito Dei Omnipotentes: Patris, et Filli, ET Spiritus Sancto discendat super nos et maneat semper. Amém.2

Dom Viçoso, 9 de março de 1946. Padre José Joaquim de Sousa.

1 germinamente: termo que foi usado pelo padre e significa “originados” 2 Abençoados sejam por Deus todo-poderoso, Pai e Filho. E que o Espírito Santo desça sobre nós, e permaneça sempre conosco. Amém. 11


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Final de 2011. Luto contra o sono até perder todas as energias, para quando deitar não ficar rolando na cama e meus pensamentos não vaguem; para que não encontre minha verdade e minha dor. Mera ilusão! Mais uma noite me debatendo. Ora acordo virada para os pés da cama, ora para a cabeceira, ora me cubro, ora descubro. Presto atenção no barulho da rua, que já silenciou pelo avançar das horas. Rezo e adormeço em um sono tumultuado. Sonho com o mar, com barcos, piratas e oratórios. As imagens são confusas. Acordo molhada de suor. Já não basta a dor da minha alma, agora voltou o tormento da adolescência, das famosas perguntas: “Quem sou? Para onde vou? O que estou fazendo nesse mundo?” Droga. Já passei desta fase! Não quero mais saber quem sou e já não importa para onde vou. Desde menina, tinha vontade de conhecer o Padre Zequinha, irmão da minha avó Albertina, meu tio-avô. Ele faleceu quando eu tinha 14 anos de idade e isso já faz 31 anos. A vontade se escondeu. Fui me tornando adulta e, agora, ela volta para me atormentar. Pelo menos, a noite passou. Posso me levantar e fingir que está tudo bem, embora meu sorriso verdadeiro tenha secado, como uma folha que cai no outono, após perder seus nutrientes e ser levada pelo vento. Cansada das noites mal dormidas, igual a um copo de café forte, tomo a decisão de ir à 13


busca da verdade sobre a vida do padre Zequinha. Mesmo sabendo que terei que viajar para outras cidades, terei que viajar no próprio tempo, terei que me comprometer e me revelar. Só queria agora um ombro para chorar; alguém que apenas me acalente, que não fique dando conselho e opinião, que apenas deixe que eu sinta minha dor para que ela se transforme em lágrimas. Alguém que compreenda minhas falhas e meus medos. Lorena seria a pessoa ideal para emprestar o ombro amigo. Faz uns doze anos que nos conhecemos e por eu ter alguns anos a mais que ela, acabei me tornando sua confidente. Tínhamos o mesmo gosto para livros e ambas estávamos longe da família. Lorena quis matar seu passado e foi embora. Perdemos o contato. Creio que ela, no intuito de tudo esquecer, acabou matando com isso nossa amizade. Vou resumir o que aconteceu com Lorena, já que troquei os nomes e poucas pessoas conhecem esta história. Ela sentia uma grande mágoa: a expressão do bem não feito e do mal bem feito. João entrou em sua vida como o sol que entra pelas pequenas frestas. Ela, a mulher certa; ele, o homem errado. Ele se tornou o fogo que queima, que destrói e consome. Ela, vitima de seu próprio e cego sentimento. Lorena, mistura de timidez e brasa, que se entrega de corpo e alma a tudo que faz. Com seu coração bom, acredita nas pessoas. Conheceu João quando mudou de trabalho e passava todos os dias em frente à sua casa; era seu caminho. 14


A simpatia de Lorena logo chamou a atenção de João, que sempre dava um jeito de estar na calçada quando ela passasse. Um dia, chegou a lhe oferecer carona e ela recusou. Depois, pediu que uma colega do trabalho contasse seu interesse por ela, que continuou a não dar importância, mas gostava de vê-lo na calçada observando-a. Certo dia, na volta do trabalho, a sandália de Lorena arrebentou. Seguiu descalça para o apartamento onde morava; estava perto. Ao atravessar a rua, João passou de carro. Ela sentiu vergonha por ser vista com as sandálias na mão e os pés descalços. Outra vez, saiu à noite para comprar lanche na carrocinha. Viu João passar, mas fingiu não ver. Na Páscoa, recebeu em seu trabalho uma linda caixa de bombons. Todos ficaram curiosos para saber quem os enviara; nem ela sabia. Em seguida, João ligou para saber se ela gostara. Guardou segredo e comeu o chocolate feliz da vida. Ambos solteiros, foi um ano de João cercando Lorena, como dizem os mineiros: “Comendo pela beirada”. Próximo ao Natal, João ligou, convidando-a para passar com ele. Entretanto, ela falou que viajaria, passaria com a família. Ele tanto insistiu que ela aceitou passar com ele a virada do ano. Uma amiga dele contou que estava muito empolgado, que havia mandado limpar a piscina do sítio onde passariam o ano novo. Medo e excitação rondavam o coração de Lorena, enquanto para João era mais uma para 15


constar em sua lista de conquista. Ele não era bonito; não tinha nada de bonito: era alto, boa postura, sabia se vestir bem. Era bem humorado e charmoso. Ela, de estatura mediana, magra, morena, cabelo na altura dos ombros e um poço de simpatia e carisma. E o principal: era uma presa fácil, estava sozinha e carente. Pior ainda, acreditava em amor e em “seremos felizes para sempre”. .........................................................

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30 de dezembro de 2000. Lorena saiu do trabalho e foi para seu apartamento. Sua mala já estava arrumada e João ligou avisando que a esperaria no portão. Era a primeira vez que se encontravam. Estava cheia de vergonha. Sabia que dormiria com um homem que pouco conhecia, que nada conhecia. Ao mesmo tempo, estava eufórica com a possibilidade de ele ser o grande amor da sua vida. Ele a levou em um restaurante fora da cidade e pediu alguns petiscos. Ela estava sem fome, com a adrenalina em alta. Ele apenas havia lhe dado um beijo no rosto quando se encontraram e depois outro em sua mão. O papo não fluía e ela ficando cada vez mais assustada. Voltaram para o carro e, novamente, João lhe beija a mão. Parecia sem vontade, sem emoção. Ela pensava: “E agora, meu Deus, o que faço? Peço para voltar?” Porém, continuou em silêncio até chegarem ao sítio. João pediu que ela ficasse no carro, que não saísse por causa dos cachorros; eram três. Ele abriu o portão, subiu com o carro a rampa de aproximadamente 20 metros e parou ao lado da casa. Então a beijou na boca com todo ardor de uma pessoa apaixonada. Ela quase ficou sem ar. O coração palpitava e sentia o desejo crescer dentro de seu corpo. Ele passava as mãos pelos seios de Lorena, que gemia baixinho. Entraram na casa pela porta da cozinha. A casa era grande. A família quase não ia lá. Havia 17


dois quartos: um estava trancado, lotado de tranqueiras que não estavam sendo usadas, virou depósito. Sala espaçosa, cozinha grande, um banheiro e duas varandas confortáveis. João usava a casa como motel para economizar. Entraram no quarto que tinha uma cama de casal, uma cama de solteiro, um armário que parecia ser do tempo da avó de Lorena e uma penteadeira também antiga. João a deitou na cama de solteiro e começou a beijá-la incansavelmente. Já não aguentando mais de desejo, despiu-a, possuiu-a e falou baixinho ao seu ouvido: - Agora você é minha mulher. Passaram a virada do ano só os dois, como se fossem Adão e Eva no Paraíso, únicos no mundo. Dali em diante, começaram a se encontrar no meio da semana: à noite, no apartamento de Lorena, e nos finais de semana no sítio da família de João, onde faziam caminhadas e ficavam namorando na piscina. Não iam a barzinhos e não saíam com amigos. Ele não queria que soubessem que estavam namorando. Entretanto, ela não percebia. Lorena, radiante de felicidade, estava amando. Fotografava tudo: aviões no céu, João dormindo, João no banheiro, João caminhando... Era João o tempo inteiro. A vida dela se resumia a João, que passou a dormir todas as noites em seu apartamento. Transavam todas as noites e quando ela menstruava, transavam debaixo do chuveiro. Era paixão e tesão. Ela fazia planos para ficarem 18


juntos e ele alimentava seus sonhos, apesar de não querer. Foi um ano de magia e felicidade para ela. Depois, descobriu que enquanto trabalhava, no período da tarde, ele levava outras mulheres para o sítio e, então, ela começou a se afastar. Passava os fins de semana na casa de familiares, sofrendo e tendo febre alta. Ele foi trabalhar em outra cidade e passaram a se ver menos. Ela foi visitá-lo e ele estava em uma boate com amigos. Terminaram e voltaram por várias vezes. Ele pedia um tempo e depois queria voltar. Ela lutava contra o amor que sentia e não conseguia dizer não. Foi mais um ano juntos, só que de infelicidade. Ele nunca quis usar camisinha; sabia que ela tinha dificuldade para engravidar e se aproveitou disso. Ela também não acreditava que pudesse engravidar; suas chances eram quase inexistentes e nem ela queria. Aconteceu. O ciclo menstrual atrasou por dez dias e ela procurou um médico. Quando o médico passou exame para verificação de gravidez ela retrucou: - Doutor, eu estou estressada, com problemas no trabalho. Tenho que engolir um animal todos os dias, tem dia que é sapo, tem dia que é jacaré e tem dia que é até elefante. Minha vida emocional está uma droga, amo um homem que não me ama. Trabalho porque sou responsável pela minha sobrevivência. É só isso. Eu não estou grávida! - Minha filha, eu te entendo. Entretanto, como médico, tenho que proceder assim. Preciso 19


do exame para te medicar. Pode acontecer de você menstruar antes ou enquanto aguarda o resultado do exame, mas é necessário. Lorena foi para seu apartamento pensando que tudo aquilo era loucura, que não poderia contar com João. Ele nunca lhe deu nada, nunca a apoiou financeiramente, nunca a ajudou no apartamento, nem mesmo para trocar uma lâmpada, nem para o conserto do chuveiro. Ela rezou e chorou a noite inteira. Levantou cedo para fazer o exame. Naquele dia, não comeu, não sorriu. Disse que estava com dor de cabeça e cólica. Na data marcada, pegou o exame e abriu no meio da rua. Positivo. Lorena voltou para o apartamento. Parecia que estava vivendo um pesadelo. O que faria, agora que conhecia a verdadeira face de João? Sabia que ele a perseguiria e tornaria sua vida um inferno. E a criança? Como cuidaria dela? Mal abriu a porta do apartamento e se desmanchou em lágrimas. Por um momento, se permitiu sonhar e imaginar a figura de um menino bochechudo chamando-a de mamãe. Chorou como nunca havia chorado em sua vida. Resolveu ligar para João. Ele foi seco; nem uma palavra para tranquilizá-la ou para hostilizá-la. Falou que ia vê-la no dia seguinte à noite em seu apartamento. Chegou por volta das 20 horas. Nem um beijo no rosto. Levou um remédio para ela tomar. Ela resistiu, dizendo que não poderia tomar naquela hora, que estava com viagem e trabalho marcado para o dia seguinte. Ele afirmou que ela teria que tomar, que ele estava lá para certificar que ela 20


tomaria o comprimido. Tirou outro do bolso da calça, que era para amassar e introduzir na vagina, bem no fundo. Lorena viu no olhar de João o que nunca tinha visto antes. Era muita raiva. Então, fez o que ele ordenou, deitando-se. Ele pegou um banco, encostou na quina da parede, sentou e continuou olhando para ela com grande furor. Ela se cobriu, desviou de seu olhar e chorou. Nem um afago, nem um abraço. Dormiu não se sabe por quanto tempo. Acordou com uma cólica terrível; parecia que ia morrer de dor. João continuava sentado com o mesmo olhar. Sentiu medo e achou que fosse morrer. Levantou e tomou um remédio para a cólica. Ele viu, se irritou, xingou-a e foi embora. Ela tinha certeza que morreria. Só que agora, sozinha, também sentiu que não faria diferença. Já tinha feito o pior. Deitou e dormiu. Acordou novamente com a forte dor e foi ao banheiro. Nunca tinha visto tanto sangue, grosso, de cor viva. Era uma vida. Tomou banho e se arrumou para viajar. Não sabia porquê; precisava continuar a viver, embora não quisesse. Parou a viagem inteira em bares, restaurantes e lanchonetes à procura de banheiro. Sempre uma quantidade muito grande de sangue. Ela sobreviveu e convive com as marcas daquele dia e de seu relacionamento com João. Ele apareceu depois de um bom tempo. Ficaram algumas vezes juntos e não falaram sobre o ocorrido. A dor no coração dela era grande. Um dia, chegou no prédio onde morava, uma linda menina de aproximadamente quatro anos de 21


idade. Perguntou-lhe onde estava seu filho, para chamá-lo para brincar. Lorena respondeu que não tinha filho; se tivesse, gostaria que fosse igual à linda menina. Subiu as escadas chorando. Em cima da mesa, havia uma bíblia que era sua única companheira. Num ato de desespero abriu e leu: “Se alguém gerar cem filhos e viver muitos anos, até avançada idade, e se sua alma não se fartar do bem, e, além disso, não tiver sepultura, digo que um aborto é mais feliz do que ele.” Eclesiastes 6-3 .........................................................

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Caro leitor, eu almoçava todos os dias com Lorena, que me confidenciava sua vida. Esse foi o período em que mais escrevi; a maioria das vezes sobre ela e sem que ela soubesse. Cheguei mesmo a rezar para que ela fosse feliz com seu amor, mas nada sabemos da vida e nem sempre o que mais queremos acontece. Por isso, gostaria de seu ombro amigo. Só quem tanto me conhece para me acalentar. Já sofremos juntas algumas vezes e ela me entenderia. O texto abaixo, publicado em duas antologias, foi baseado na história que acabo de contar.

Mais uma História de Amor Machado de Assis já escreveu que as histórias de amor são velhas, como Adão e Eva, e eternas como o céu. Eu não queria acreditar que estava sofrendo por amor. Não queria acreditar que continuava a amar. Não queria acreditar que tinha sido apenas um passatempo. Queria arrancar do meu peito toda a dor, toda lembrança e, o que é pior, a saudade. Senti as lágrimas rolarem pelo meu rosto e pensei: “Estou perdida”. A razão falou mais alto e eu sabia que, para não entrar em desespero, teria que fazer algo, teria que distrair minha mente. Quanto menos pensasse, menos sofreria. 23


Como já era de madrugada, resolvi fazer o que mais me distraía: peguei um livro que comprara e comecei a ler... “Em Uspulá habitava um povo místico, com lendários costumes e características distintas. Um povo que adorava e respeitava a natureza. Conta a lenda que o criador era descrito como um astro sem fim e sem princípio, que criou o céu, a terra, as árvores e os animais. Assim como o Deus da bíblia, ele teria criado o homem e se arrependido depois de ver suas más ações. Então, criou um ser que era meio homem e meio deus, respeitado por todos como um feiticeiro; tinha por companhia a lua e o sol. Considerado o senhor dos poderes sobre a natureza e dos mistérios de rituais religiosos, despertava a inveja no homem comum, que queria testar sua soberania. Então, foi convidado para uma festa e obrigado a pular sobre três fogueiras. Foi bem sucedido na primeira. Ao saltar a segunda, foi invadido por imensa tristeza ao conhecer os sentimentos dos homens. Foi consumido pelas chamas. Sua cabeça, explodindo, produziu o trovão; seus olhos subiram ao céu e se transformaram em estrelas; seu bocejo, o vento. Enquanto suas pernas e braços se transformavam em rios e lagos, sua alma chorava. O povo viveu numa grande penumbra por ter conspirado contra ele. Tomado pela piedade, o ser fez sua alma se transformar numa criança, que ensinou seu povo a distinguir os vegetais e lhes mostrou o uso medicinal das ervas.”

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Parei de ler e refleti:

Assim como na lenda, eu também fui convidada para uma festa, a festa da vida. Fui obrigada a pular milhares de fogueiras, dezenas a cada dia. Em muitas, fui bem sucedida, em outras, fui empurrada e queimada. Percebi que a festa não foi preparada para mim; foi elaborada para que as pessoas se sentissem maiores e me usassem de várias formas. Descobri que tudo acontece por acaso. A pureza da minha alma e a bondade do meu coração cegaram meus olhos. A crença em Deus e nos seres superiores me impediram de ver os seres humanos como realmente são. Estou consumida pelas chamas, pelo rancor e pela mágoa. Quero hoje explodir meu cérebro para não pensar e provocar horror e medo nos olhos alheios. Quero que meus olhos se transformem em chamas apimentadas e queimem quem me olha com desprezo e ironia. Quero que meu sopro seja de um mau cheiro imenso e que eu beije nas bocas que me beijaram e me usaram. Quero que minhas pernas e braços sejam tão fortes que não consigam fugir do meu abraço da morte. E a minha alma ainda chora, ainda sofre. Os povos antigos, para se protegerem, construíam ao redor das cidades enormes muros e portões. Hoje, já não existem muros e portões para fechar as cidades, mas existem muros e portões nos condomínios, prédios e casas. 25


Precisamos criar proteção até para nosso coração. Precisamos proteger nossos sentimentos. Quem já passou pela vida sem uma ferida na alma? Quem? Quem não sonhou? Quem? Quem não sofreu? Quem? Quem não guardou segredos? Quem? Quem não contou segredos? Quem? Quem não chorou? Quem? Quem não amou? Quem? Quem não se enganou? Quem? Então não viveu.

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Informações cedidas pela Cúria Diocesana de Campanha em 30/12/11. Cônego José Joaquim de Souza era residente em Carmo da Cachoeira. “Filho de Joaquim Francisco de Sousa e de Deolinda Nery de Sousa, nasceu perto de São Lourenço, aos 31 de dezembro de 1906. Fez seus estudos no Seminário da Campanha e no de Mariana. D. Frei Inocêncio Engelke conferiu-lhe, em Campanha, a Prima Tonsura aos 3 de dezembro de 1936, Ordens Menores aos 4 e 6 de dezembro de 1936, Subdiaconato aos 5 de dezembro de 1938 e Presbiterado aos 4 de dezembro de 1938. Por portaria de 9 de fevereiro de 1939, foi nomeado pároco de Rosário de Dom Viçoso, onde exerce seu paroquiado.” Retirado do Anuário Eclesiástico da Diocese da Campanha – Monsenhor Lefort (1939-1940). Data do falecimento: 16 de dezembro de 1980, em Belo Horizonte; foi sepultado em Carmo da Cachoeira.

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26 de dezembro de 2011. Não estou em busca, estou em fuga. Fujo para o passado por não conseguir controlar e conviver com a dor presente. É uma segunda-feira. Já que estou de férias no trabalho, viajamos para São Lourenço, no estado de Minas Gerais, que possui cerca de 43 mil habitantes. Vou à procura da certidão de nascimento do Padre Zequinha. Começar a busca do zero, do nascimento dele. Ao mesmo tempo, sinto que o resgate não é só da história do padre, mas também da minha história. Nas ruas, calçamento de paralelepípedos, o que para mim é um charme, já que convivo diariamente com ruas asfaltadas. No cartório, fomos informados não constar em seus registros a certidão, que talvez estivesse em Pouso Alto (fundação em 1878) ou em Carmo de Minas (fundação em 1901), cidades mais antigas que São Lourenço (fundação em 1927). Talvez houvesse uma certidão de batismo na igreja, já que algumas são bem antigas e antecedem à fundação de algumas cidades. Nada feito; a igreja foi construída depois. Rica em história, a pedra fundamental da igreja, colocada em 1935, teve como paraninfo Getúlio Vargas, então Presidente da República. Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora Aparecida têm destaque na entrada, nas laterais e antes da porta interna de madeira. E que porta! Belíssima, com vitrais de anjos rosa e azul, pedindo oração e silêncio. 29


Os vitrais de toda a igreja são magníficos. O teto e a cúpula com pintura de anjos, Jesus Cristo sentado e, bem no meio, o cordeiro. Altar e laterais de beleza ímpar, colunas e arcos deixam seu interior glamoroso. Sua pintura externa é branca com detalhes em ocre e siena (tons terrosos) e possui uma gruta lateral que fica aberta para orações. O turismo religioso nesta região é forte em igrejas e lugares para visitação. O povo mineiro é religioso e hospitaleiro. A fé mantém vivos pessoas e lugares. Mas nem só de fé, turismo e comércio vivem os são lourencianos. Como bons mineiros, são ótimos contadores de histórias e “causos”. Sobre uma cavalgada: (Do jeito que me foi contado) “Na Serra do Chapéu, cerca de 45 km a cavalo, entre 40 a 50 pessoas. Levaram colchão, levaram tudo. Acertamos e fomos. Aí, esse amigo nosso, açougueiro, que arrumava a carne: - É... Oceis vão comê coca-cola cum biscoito. - Tenho uma garrafa de café. Eu tenho uma garrafa de café. Peguei um pedaço de carne de porco e um pedaço de carne de boi; moí lá no açougue. A Maria fez pãozão, uma bisnaga daquelas, vou comê um sanduíche, daquele de arrepiá e oceis comendu bolacha e essas porcaria. 30


Chegou lá no meio do caminho onde a gente faz o lanche da madrugada. A gente saía daqui por volta de 7, 8 horas da noite. Numa encruzilhada bem grande, paravam os cavalos, todo mundo sentava no barranco e ia comer. Ah... O açougueiro empresta um cavalo para um amigo e esse amigo, para puxar o saco dele, falou: - Deixa que eu levo sua sacolinha de café. Pode deixar que eu levo. Pôs amarrado na cabeça do arreio, e aquilo foi indo e batendo na canela dele: pô... pô... pô... pô... pô. Ele virou para colocar do outro lado: - Dum lado só dói muito, vou dar um jeito. Virou o trem; no ele virar, a rolha de palha saiu e glup... glup... glup. Rapais do céu, a hora que nóis paramu lá na beira da estrada prá tomá o café, que ele enfiou a mão no emborná, aquele pão dele tava igual um difunto que morreu dentro d’água. Aquilo tava igual bixiga de mortandela de tão grande que tava. Rapais do céu, ele fez inté biquinho prá chorar. Num chorô porque tava mais 44 cavalheiro junto com ele, sinão ele chorava lá no mato. Aí, ele teve que se contentá com o trem que os outros deram prele comer. Ele não tava acostumado... num sei o que deram para ele comer que destemperou a barriga do homem. Destemperou a barriga do homem e ele foi. Próximo da chegada, tinha um roçado e ele: - Acho que vou lá naquele roçado fazer um trem; segura minha mula pra mim. Seguramu a mula dele e nóis lá ia indo a pé. A gente anda a cavalo e dali a pouco tem que andá a pé porque as perna fica dormente, uma desgraça para a circulação vortá né, aí ocê anda um bocado a pé. 31


- Segura minha mula. Eu segurei e ele foi pra trás de uma galha de 3 murici Ele tava cansado, 40 km a cavalo! Juntô e segurô na galha de murici pra levantá. Caiu sentado na merda e não tinha nada pra limpá aquilo, rapais. Ele garrô iguar cachorro a rastá o rabo no roçado e lá, ocê sabe, que alto de serra não dá pasto, lá é campo, é aquelas vassoura; aquilo judiô do rabo dele. Ranhô ele igual um gato, como se tivesse passado um gato no rabo. Na hora que passa, tá bão. Depois é que ele viu o trem. Ainda montou e andou uns 3 km a cavalo. Chegou lá, sentamu num passeinho para esperar o resto da turma. Eles num sabia onde tava o apoio, que era num campo de futebol. Aí, sentamu no passeinho e a mula escapou da mão dele; ele, meio sentado de lado, aquilo que a bunda meio pegando fogo. A mula escapou e entrou numa horta de cana dum ômi e garrô a comê a cana. Ele falava pro filho dele: - Meu fio, socorre aqui que seu pai num tá em condição de levantá depressa. E tiraram a mula. No outro dia, a carne que ele levô, sem geladeira, sem nada, aquilo deu meio de estragá, nóis comeu o churrasco, mas me deu uma dor de barriga. Por causa deu gozá dele e contá pra todo mundo, o castigo pegou ni mim e pegou na hora de ir embora.”

3 murici: árvores e arbustos abundantes nos cerrados, de frutos comestíveis 32


E o “causo” continuou: Aí, da outra vez que nóis fumu, ele levô uma lata de farofa e uma garrafa térmica das grande, de café, sabe. Emprestô novamente um cavalo pra outro amigo que levô a matula. Mais dessa vez, ele fez frango com farofa, nossa.... ficou bão dimais. Naquela lata maior de guardá mantimento. O rapaz que levô a matula foi enroscando pela cerca afora. Depois do Cafundó, no caminho para Nhá Chica, teve uma hora que ele passô por mim e a garrafa de café tava chaque... chaque... chaque. A garrafa garrô a vazá, virô uma lameira danada, garrô a moiá a bota dele. Aí que ele descobriu que o trem tava ruim. Dessa vez foram na cavalgada uns rapazes conhecidos, filhos de amigos. Acho que tinha uns oito minino novo; eles tavam atrapaiados, tudo tonto. Uma hora discutiam, outra hora tavam beijando, uma miséria danada, um num cavalo e outro no outro e andavam abraçados, até melhorá, pra não caí. Precisa ver que narquia. Na Conquista, pegaram a garrafa de café e jogaram no pé do moeirão, no campo de futebol em frente da igreja. Nóis fumos lá na laje e vortemu. Chegamu lá no ponto do almoço: - Ah, agora vou comer uma farofinha e tomar um cafezinho. E eu contei pra ele: - Ocê não vai tomar cafezinho não. Que a garrafa de café sua tá no pé do moeirão. - Ocê bebeu o café e jogou a garrafa fora! Eu mato ocê. - Não. Os pinguço que acabou com sua garrafa de café. 33


- Num credito. - Amanhã, a hora que ocê vortá, óia no pé do moeirão, que a garrafa tá lá. Aí, eu levei guaraná e dei guaraná pra ele. E ele deu uma mão de farofa pra cada um dos cavalheiros. - Ô coração bão, aquele caboco! Estávamos “causos”.

com

um

excelente

contador

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de


No mesmo dia, fomos para Carmo de Minas, que fica a 9 km de distância de São Lourenço. Cidade montanhosa, próxima à Serra da Mantiqueira e conhecida por produzir café de altíssima qualidade. Sua população é de aproximadamente 14 mil habitantes. No cartório, nada foi encontrado na data informada. Fomos orientados a procurar em Soledade de Minas e em Dom Viçoso. Na casa paroquial, nada encontramos referente ao batismo. O funcionário da igreja comentou que, naquela época, os filhos eram logo batizados para não correr o risco das crianças morrerem pagãs. A igreja de Carmo de Minas é grande e espaçosa, por fora de cor cinza médio, com detalhes em branco. Em frente à igreja, bem no meio da rua que separa a igreja da bela e limpa praça, a imagem de um padre, creio que em bronze. Não sei porquê, talvez seja o que chamam de intuição. Registrei em foto a placa: Oferta do povo Pe. Joaquim Gonçalves Cardoso Nascido – Açores – Portugal 04-02-1883 Posse Paroquial 30/11/1919 Falecido 18-09-1940 Carmo de Minas

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27 de dezembro de 2011. Na terça-feira, partimos para Soledade de Minas, distante cerca de 5 km de São Lourenço. Setenta por cento de sua topografia é montanhosa. Por ela, passa a Estrada Real (tem uma placa ao lado da estação do trem), e sua população está estimada em cerca de 6 mil habitantes. Chegamos às 11 horas. O cartório tinha acabado de fechar para almoço. O jeito era aguardar e, enquanto isso, conhecer a cidade. A estação, trecho final da Maria Fumaça, que sai de São Lourenço (Trem das Águas), guarda características de sua construção inicial e o forro ainda é de esteira trançada. Passamos por uma praça onde foi construída uma gruta, possui a imagem de Maria Rosa Mística. Ouvimos ao meio-dia um som de música sacra que saía da Igreja Matriz e invadia toda a redondeza com sua melodia. A igreja fica no alto de um grande morro e sua cor externa é de um tom de azul bem claro, com uma única torre no centro. Na porta da igreja, uma cortina vermelha e logo acima os dizeres: Hic Est Domus Dei Et Porta Coeli4 No altar, os anjos azul e rosa, uma santa e uma pequena imagem de Jesus crucificado. Um altar gostoso de olhar, uma simplicidade que 4 Esta é a casa de Deus e porta do céu. 36


encanta. Nas laterais internas, algumas imagens como Santa Rita, São Sebastião, São José e outros santos. Próximo da porta, uma imagem grande de Jesus carregando a cruz. Também nada encontramos no cartório e a casa paroquial estava fechada. Decidimos ir para Jesuânia, que fica a 36 km de São Lourenço, sua população em torno de 5 mil habitantes. Para que meu pai pudesse ver alguns parentes. No trajeto nos deliciamos com mais um “causo”. Havia em São Lourenço um homem bastante conhecido pelas suas mentiras. (Escrito do jeito que foi contado).

Esse homem, a gente falava assim: - Ô, vem cá, conta uma mentira pra nóis. - Agora não posso rapaz. O meu canarinho fugiu com gaiola e tudo. O canarinho punha a cacunda na gaiola e batia as asas.” E tem mais:

“Ele foi em Jesuânia buscar bambu e falou.” - Rapaz, aquele bambu gigante lá em Jesuânia, não sei porquê o SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) não compra pra fazer cano! Dá para fazer um aro de bicicleta 18. - Mas que bambu é esse? - Rapaz, você é de lá e não conhece? Rapaz, você precisa ver. Eu fui lá buscar o bambu, parei meu caminhão, carregamos o bambu, parecia até manilha do 37


SAAE. Começou uma ventania, uma chuvarada rapaz. Eu peguei uma lanterna e fui ver se o vento não tocou meu caminhãozinho pro morro abaixo. Peguei e acendi a lanterna. A hora que eu acendi a lanterna, o foco da lanterna acompanhou a ventania de tão forte que era o vento, rapaz. O dia que ele falar uma verdade, cai um braço e uma perna dele. Fica maneta e perneta.” Olha que interessante. Fazia 58 anos que meu pai não via seus primos (dois), por conta de uma bagunça séria de criança. Eles tinham aproximadamente seis anos de idade e meu pai conta a história. “A minha tia foi levar umas costuras para minha mãe fazer; a mãe costurava. Meus primos estavam correndo de um lado para outro. Acho até que eles estavam chupando cana. Naquele corre, corre, eu fui buscar água no fogão a lenha para lavar os pés para ir à escola. No que eu fui, peguei a água para colocar na bacia. Um dos primos veio correndo e bateu a cabeça na caneca de água quente, que derramou. Começou a gritar e chorar, mas não trouxe pânico. A mãe dele não contou para meu tio que era irmão da minha mãe, o que tinha acontecido, por medo que ele ficasse bravo. Então, escondeu do marido. À noite, o menino começou a ter febre, febre e febre alta. O cabelo começou a cair, então ela se viu obrigada a contar.” Assim começou a desavença entre os maridos, o que acabou com a venda da casa dos pais do meu pai, que mudaram para São Lourenço. 38


Meu pai reencontrou os dois primos, graças a Deus bem e com saúde e conversaram bastante sobre a família. Estivemos também nas casas de mais três primos do meu pai. Passamos em uma padaria e compramos biscoito de polvilho e broinha de fubá suado. A culinária mineira é sortida e agradável. Para finalizar as visitas em Jesuânia, fomos na casa da filha dos padrinhos (já falecidos) do meu tio, para comprar o mais delicioso queijo nozinho que já comi até hoje. Meu pai contou que neste sítio, antes de pertencer ao padrinho do meu tio, havia um cruzeiro bem no alto do morro que foi construído há mais de 100 anos. O povo, para ir ao cruzeiro, fazia trilhas na propriedade. O dono não gostava daquilo e queria acabar com o cruzeiro. O povo estava indo muito lá e passava no pasto dele. Então, ele preparou um machado, amolou o máximo que pôde e saiu de casa para derrubar o cruzeiro. Na porta da casa, com o machado nas costas, ele perdeu a visão e nunca mais enxergou. Viveu ainda durante muitos anos em Jesuânia e morreu cego. Com o tempo, o cruzeiro apodreceu e caiu. Depois disso, lavraram a madeira na praça da matriz e colocaram em outro morro. No dia de levar o cruzeiro para outro local, vieram missionários para acompanhar e benzer. Ainda passamos em outra cidade, Olímpio Noronha, para visitar mais um primo do meu pai e sua amável esposa. Lá vivem cerca de 2,5 mil habitantes.

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28 de dezembro de 2011. Pode não parecer verdade, mas em alguns países existe Turismo Cemiterial. Um tanto estranho! Porém, ultimamente, esse tipo de turismo vem crescendo. E muito! Um dos cemitérios mais visitados do mundo, o Père Lachaise, fica na França e recebe anualmente cerca de 2 milhões de visitantes. Mausoléus de celebridades, compositores, escritores, cantores, intelectuais famosos são atrações. Além de construções que são verdadeiras obras de arte. França, Itália, Portugal, Inglaterra e Argentina são alguns países onde a procura é maior. No Brasil, a cidade de São Paulo é a mais desenvolvida no ramo. Visito o cemitério de São Lourenço pela manhã, bem cedinho. Vou orar pelos familiares que ali estão. Os que conheci, os que não conheci e para todas as almas. Como não sei os lugares onde foram enterrados, acendo velas em um único lugar, que é uma capelinha central. Senhor, Permita-me rezar aqui para os meus. Não conheço suas sepulturas para rezar aos seus pés. Que a luz destas velas e do meu amor possam iluminar um pouco mais as almas e demonstrar meu respeito por elas. Procuro escutar o silêncio e escutar meu coração. Continuo querendo entender os homens, Mas como fazê-lo se não entendo a mim mesma? Aqui é o lugar ideal para tentar compreender a ordem de todas as coisas. 40


Mesmo assim, me sinto totalmente ignorante. Apesar de enxergar, não consigo ver. Obrigada, Senhor, Por todos os dias. Obrigada por eu ser perfeita fisicamente, Obrigada pelos meus sentidos, Pelo olfato que me permitiu evitar um acidente, Pelo barulho que me despertou para o presente. Perdão, Senhor, Se não consigo ser uma pessoa melhor. Por tudo que poderia ter feito pelo meu próximo e não fiz. Por tudo que não deveria ter feito pelo meu próximo e fiz. Que sua mão me oriente, abençoe e proteja, Amém. Passando pelos estreitos passeios, pude observar em cima de um túmulo a réplica da Igreja Matriz de São Lourenço, precisando de reparo, mas interessante. A última morada terrestre dos fundadores da Eubiose5, chama atenção pelo obelisco e pelos quatro anjos protetores. Um túmulo bastante visitado é o da cigana Jordelina Nogueira, falecida em 01/10/63. Possui muitas bijuterias, esmaltes, placas de agradecimentos por graças alcançadas, que as pessoas colocam em cima da lápide. Em respeito, tiro uma das minhas pulseiras e deixo junto a tantas outras. (Uma orientação: nunca tirar nada de um cemitério). 5 eubiose: conjunto de preceitos místicos cuja meta principal é a de preparar o homem para uma nova era da vida na Terra a partir de um novo centro civilizatório, supostamente situado no Brasil 41


Nosso próximo destino é a cidade de Dom Viçoso, que também fica próxima de São Lourenço e tem cerca de 3 mil habitantes. Estrada em ótimas condições e nosso contador de “causos” nos brinda com mais uma do incansável loroteiro. “Eu tava vindo lá de Dom Viçoso. Quando passei na Serrinha dos Parma, tinha dado uma chuva muito forte. Lá no campo de futebol, tinha uma bola branca. Eu vou fazê uma caridade pra esses meninos. Esse povo daqui é bão, não tem maconheiro, não tem nada, por enquanto. Então, eu vô fazê uma caridade pra eles. Vô pegá a bola lá e entregá na venda, antes que passa um mardoso e roubá a bola das criança. Mas ela tá na frente do gol mesmo! Vô fazê um gol pra mim vê. Eu nunca joguei bola na minha vida memo! Enchi o pé naquilo pra fazer o gol. Aquilo deu um tiro, quase que me rancô a perna. Me jogô dois metro pra riba, rapais, num era bola nada. Era um raio que tinha caído e tinha negado. No eu chutá, ele arreverteu a explodi. Quase que me mata. A troco de uma caridade, quase que eu morri, rapais.” Paramos na estrada para admirar a linda e branca igrejinha lá embaixo, muito distante, no meio de um paraíso da natureza. O caminho é uma estradinha de terra. Cercada por um pasto verdinho, a linda igrejinha branca. Paróquia de Sant’Ana em Dom Viçoso Velho. Grande é minha emoção por estar diante de onde foi realizada uma das missas de sétimo dia de falecimento de minha mãe. Apesar de morarmos no centro da cidade de Barra Mansa no 42


estado do Rio de Janeiro, uma das missas foi realizada na paróquia de Nossa Senhora Aparecida, no bairro onde moramos por mais de 20 anos e onde muitos dos vizinhos são mais que amigos. Meu tio não pôde ir à missa na cidade onde moramos e estava aqui em Dom Viçoso, para entregar um carro para o pároco. Nesta igrejinha e na hora de uma missa, então, pediu que fosse celebrada em nome de minha mãe. Por coincidência, acaso do destino ou obra divina de Deus, aqui é a cidade onde ela nasceu e meu tio, irmão do meu pai, não sabia. Disfarço as lágrimas e lembro-me do e-mail que enviei para amigos alguns dias depois de sua partida. Amigos, O motivo desta mensagem é agradecer a todos que me apoiaram no período que minha mãe esteve doente e, também, aos que estiveram presentes em seu sepultamento, seja de forma física ou espiritual. Quero me desculpar por ter deixado de avisar pessoas muito importantes para nossa família, mas tenho certeza que entenderão pela grande dor e desorientação. Na verdade, não comuniquei para meus amigos mais íntimos, porque eu não queria consolo. Se eu pudesse escolher, teria ficado sozinha com ela, todo o período desde sua morte até o sepultamento, como se ela pertencesse só a mim. Quero me desculpar, também, se por vários momentos no velório, deixei minha mente vagar, como se eu não estivesse ali, ou como se não estivesse acontecendo. Teve uma hora que tive certeza que estava dentro de um sonho muito ruim. Foi quando saí do banheiro e vi os diretores da empresa onde trabalho; 43


senti até alívio! Eles não poderiam estar ali! Mas eles estavam e não era um sonho ruim, era uma realidade ruim. Sou imensamente grata pela homenagem que prestaram à minha mãe. No mais, só tenho que aconselhar que cuidem com carinho de suas mães, que demonstrem todo amor e façam todas as suas vontades. Fiquem bastante tempo perto delas, pois se elas partem antes de nós, a dor é imensurável, mas existe o conforto de ter dado carinho e alegria. Minha mãe fez de mim uma mulher forte e sensível. E apesar de me sentir como um cão vira-lata, que correu atrás do caixão de seu dono e depois ficou sem rumo e sem direção, sei que era vontade dela que eu continuasse minha missão, embora nem eu mesma saiba qual. Cuidem de suas mães. Que Deus abençoe a todos.

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Continuamos pela estrada: um vale rodeado por imensas montanhas de beleza constante. Estamos no verão e os dias são ensolarados e alegres. A cidade, pequena, simples, com ruas limpas, está bem cuidada. Paramos em um bar e perguntamos se sabiam de pessoas idosas que conheceram o padre. Conduziram-me para uma casa ao lado, 44


onde reside Sr. Joaquim, de 90 anos, dona Imídia de 88 anos, e sua filha Maria, nascida em 1944. Fui muito bem recebida e acolhida. Casados há 68 anos, quem realizou o casamento foi o padre, e também o batizado da filha. Faz 14 anos que residem na cidade; antes, moravam na serra (no santo cruzeiro). Plantavam alho, fumo, batata e feijão. No início do casamento, só ficavam sabendo das notícias quando vinham à cidade, onde existia um rádio. Único meio de comunicação. A televisão só chegou ao Brasil em 1950. Apesar do avanço tecnológico, o rádio ainda é um dos mais importantes canais de comunicação, considerado até hoje o meio mais popular e de maior alcance público. Informações sobre a Segunda Guerra Mundial - que iniciou em 1935 e terminou em 1945 só eram conhecidas através do rádio. O casal conta que não conheceu a família do padre e nada souberam quando este foi embora da cidade. Contaram também que mesmo após o término da Segunda Guerra, quando passava um avião na serra... sentiam medo. Fomos à igreja. Nossa Senhora do Rosário no altar e muitos santos sendo homenageados através de suas imagens, Santo Expedito, São Benedito, Santo Antonio e várias outras. Do lado de fora, uma torre central e a imagem de Nossa Senhora do Rosário, bem acima da porta de entrada. Em frente, uma praça arborizada, coreto e algumas pessoas sentadas, conversando. Já passava da hora do almoço e estávamos famintos. Almoçamos em um pesqueiro que fica na estrada. Uma vista abençoada por Deus. Os 45


lagos lotados de peixes que pulavam sem saber que eram o alimento. No céu, as nuvens invadiam o espaço azul, avisando que logo iria chover. O peixe estava saboroso, mas o feijãozinho estava no ponto, cheiroso e apetitoso. Passamos depois na casa paroquial. As páginas do livro tombo foram passadas rapidamente pelo padre, sem trazer novos fatos para minha busca. O cemitério estava fechado. Queria ter rezado para minha bisavó. Não tinha mais o que fazer e o tempo fechou, chuva forte e constante. Já cansados, voltamos para nossa base em São Lourenço. A novidade da noite ficou por conta de comer pastel de ovo no bairro Cafundó e depois passamos na feira livre, para comer mais pastel. A feira começa a ser montada por volta das 22 horas. As primeiras barracas montadas são as que fazem pastel e funcionam durante toda a madrugada. Já é tradição pessoas irem saborear pastel na madrugada. Alguns saem de casa exclusivamente para degustar o pastel da feira; outros saem das baladas e marcam ponto nas famosas barraquinhas. A feira é montada no parque da cidade e, aos domingos pela manhã, é bastante procurada para a aquisição de frutas, verduras, legumes, hortaliças, doces, pães, bolos e muito mais.

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29 de dezembro de 2011. Nosso destino é Carmo da Cachoeira (MG), com média de 13 mil habitantes. Fica 35 km depois da cidade de Três Corações (MG). Já com saudade dos “causos” engraçados, pedimos mais um. “Rapais, na rua lá de casa tá sumindo as placas dos carros, tem gente roubando as placa, rapais. Já sumiu da minha caminhonetinha, do meu fusca. Tão roubando calça Lee no varal. Eu tinha uma cabrita e ela tava meio triste. Eu resolvi comê ela antes que ela morresse. Matei a cabrita. A hora que tirei a barrigada, tinha despertadô, garrafa de coca-cola, quatro praca de carro, calça Lee, lençol, fronha de travesseiro, tinha tudo dentro da cabrita. Por isso que ela tava triste.” Paramos entre as cidades de Lambari e Cambuquira, na fonte do Marimbeiro, para beber água mineral, que é usada para cura pela medicina alternativa. A fonte fica dentro de um jardim fechado, com entrada livre. Possui banheiro feminino e masculino e segurança. A próxima parada foi na venda do Chico, que fica na rodovia Fernão Dias. Um lugar bonito, aconchegante, com lago e enormes peixes, muitos quitutes. Tomamos café e compramos pau-a-pique, que é uma broa de fubá enrolada em folha de bananeira. Chegamos em Carmo da Cachoeira depois das 13 horas. Já tínhamos almoçado na estrada. Não me continha de emoção. Bem no trevo que 47


sai da rodovia para a cidade, um carro de boi que canta insistentemente, do outro lado, um cruzeiro com a imagem de Jesus Cristo com os braços abertos. Fomos direto para a Igreja Matriz. Praça e matriz se fundem para criar um lugar de acalento, em um dos bancos de concreto para descanso na praça, está escrito: Oferta do Cônego José Joaquim de Souza (Pe. Zequinha). Como segurar meu coração dentro do peito e ao mesmo tempo disfarçar tanta emoção contida? Bem sei pelo que minha alma anseia e tenho que cumprir meu propósito sem que saibam. No altar, Nossa Senhora do Carmo, com os pés floridos de singelas florzinhas brancas. Ao seu redor, pintura de anjos infantis e, em cima, uma pomba branca que emite raios de luz dourada. Não consigo me concentrar na oração. Estou bastante ansiosa. Entramos pela lateral da igreja. O lugar onde o padre foi enterrado fica em uma sala à esquerda do portal da entrada, do lado de dentro. A sala estava com grade e cadeado. Pude ver sua lápide em mármore preto; em cima, um vasinho de antúrio, a flor que minha mãe tanto gostava. Na parede, acima da lápide, a foto do padre sorridente. Busco nele os traços da minha avó Albertina. 48


Fomos à casa paroquial, que fica na rua ao lado da igreja; casa de esquina, gradeada e grande, a parte de baixo com acabamento conhecido como bico de diamante e parece destinada à secretaria e atendimento ao público. A parte superior, com certeza, é para acomodação do padre. Aguardamos para sermos atendidos. O Padre André gentilmente se desfez em atenção. Era dia de atendimento; havia algumas pessoas que o aguardavam. Como ele não conheceu meu tio avó - aliás, Padre André é bem jovem - indicou a professora Leonor, que fazia pesquisa sobre a cidade e sua população. Seria ela a pessoa mais indicada para nos ajudar. Esperamos o sacristão retornar do almoço, para abrir na igreja a Sala Padre Zequinha, assim denominada. Na sala, além da lápide, várias telas de artistas plásticos que retrataram um pouco da história de Carmo da Cachoeira. Contendo-me na emoção por conta das pessoas que estavam na sala, ajoelho a seus pés e faço minha oração e meu pedido, apenas em pensamento. Padre, Bem sabe, faz muitos anos que pretendia estar aqui. Vou carregar o peso de não ter vindo quando minha mãe ainda estava viva. Tenho certeza que ela lhe faria um pedido, uma promessa. Não posso nada prometer, além de lhe ser sempre fiel e tratar sua história de vida com maior respeito e carinho. Colocando toda verdade dos fatos, como sempre foi de sua vontade. 49


O pedido, faço em memória de minha mãe, e, também, por vontade minha. O senhor sabe o calvário que é ser um alcoólatra e o que a bebida faz com a vida dos seres humanos que insistem em não buscar ajuda dos Alcoólicos Anônimos, médica e psicológica. Meu irmão carrega esse fardo e venho humildemente, de joelhos, lhe pedir que interceda junto a Nossa Senhora do Carmo, para que ele aceite o fato, busque ajuda e deixe o vício. Amém. Gostaria de ter sentado no chão e conversado de forma casual, como se meu tio-avô estivesse também ali sentado. Eu não estava sozinha e as pessoas não entenderiam, pensariam que enlouqueci. Eu, no lugar delas, pensaria o mesmo. Ainda não tenho certeza de estar em perfeito juízo. A verdade é que a morte muda alguns conceitos que temos enraizados em nosso âmago. Então, rezei uma Ave-Maria, um Pai Nosso e fomos à procura da professora Leonor. Daquele momento em diante, parece que uma janela abriu dentro da minha mente e comecei a perceber o que passava além de sua vidraça. A entender que jamais conseguiremos mudar as pessoas, por mais que nossa vontade seja grande, seja verdadeira e seja para o bem dessas pessoas. As pessoas só mudam se a vontade for “delas”. E como piedade do padre, de minha mãe, de Nossa Senhora do Carmo ou de Deus, chega às minhas mãos, para me dar paz de espírito, a Oração da Serenidade. 50


Oração da Serenidade Concede-me, Senhor, A serenidade necessária para aceitar as coisas que eu não posso modificar. Coragem para modificar as que eu posso e sabedoria para distinguir umas das outras, vivendo um dia de cada vez, aceitando as dificuldades como um caminho para alcançar a paz, considerando, como Tu este mundo pecador como ele é e não como eu gostaria que fosse, confiando que endireitarás todas as coisas se me render à Tua vontade, para que eu possa ser moderadamente feliz nesta vida e sumamente feliz Contigo na eternidade. Bendito o dependente que procura Irmandade do AA (alcoólicos anônimos).

a

Aprofessora Leonor nos atendeu prontamente. Sua imagem me remeteu ao personagem principal do livro O Pequeno Príncipe, porém em versão feminina. Seus cabelos brancos, na altura dos ombros, corpo miúdo, olhos azuis, fala tranquila e fina como de uma menina. Tive a sensação de estar perto de uma criatura fantástica, com a doçura do Pequeno Príncipe. Gosto de relacionar pessoas reais com personagens fictícios, além da história de Saint-Exupéry ser de importante mensagem. A professora Leonor disse ter conhecimento de fatos ocorridos na vida do Padre Zequinha. Mas 51


preferia que eu ouvisse de pessoas que o conheceram e tivessem convivido com ele, pois o depoimento dessas pessoas seria muito mais intenso do que se ela mesma relatasse. Então, nos levou ao comércio de Beth e Paulo. O casal nos recebeu em sua casa. Ficamos sabendo que o padre realizou o casamento deles em 1977. Beth, com emoção envolvente, nos confidenciou: “Se tem o lar dos idosos, se tem o hospital, se tem uma casa paroquial decente, o povo agradece a ele. Quando ele foi construir o hospital, não teve apoio de políticos. O povo começou a falar: - O senhor é louco. Onde já se viu, Carmo da Cachoeira não tem estrutura para ter hospital. Aqui, quando uma pessoa fica doente, as cidades de Três Corações e Varginha ficam pertinho. Ele respondeu assim: - Pra quem tem carro é. Eu não estou construindo hospital para rico! Estou construindo para pobre. O lar dos idosos, ele lutou com Dom Othon para ganhar o terreno. Dom Othon deu o terreno; ele construiu o hospital e o lar dos idosos. A casa paroquial não era onde é hoje. Antes de ele construir uma casa paroquial decente, o Bispo e outros padres que vinham para cá ficavam hospedados na casa do povo. A casa paroquial não era digna de receber as pessoas; era uma casa muito ruim e muito pequena. Então, ele vendeu o terreno onde era a antiga casa paroquial e comprou o terreno onde está construída a nova. Para isso, o Paulo viajou com ele de combi para Ribeirão Preto, para que ele pegasse a assinatura de dois herdeiros do terreno. Dois herdeiros moravam em Ribeirão Preto e dois herdeiros em Carmo da Cachoeira. 52


Quando ele adoeceu e precisou ir para Varginha, eu e minha mãe fomos arrumar a mala dele. Não tinha pijama para pôr na mala. Minha mãe perguntou para a Mariinha, que trabalhava para ele: - Mariinha, cadê as roupas do Padre Zequinha? A Mariinha respondeu assim: - O que o padre ganha, ele dá para os outros. Minha mãe veio aqui na loja do meu irmão. Abriu a loja, pegou pijama, pegou cueca, viu o que ele não tinha e colocou na mala para ele poder internar. Outra vez, ele ganhou um envelope. Era uma doação, mas não abriu, colocou no bolso. Encontrou-se com uma pessoa pobre, a quem deu o envelope. A pessoa levou e quando o abriu e viu que a quantia era muito grande, voltou para devolver. - Padre, eu não posso aceitar. Vim devolver. E o padre disse: - Não me interessa quanto. Se eu dei, está dado. Pode ficar. Ele foi um padre assim. Todo mundo tem defeito e qualidade. Para nós, o Padre Zequinha é considerado um santo. Ele chamava todo mundo de senhor e de senhora. Eu era a dona do Sr. Paulo. Quando ele foi para Belo Horizonte, ele falou: - Eu não posso chamar o Sr. Paulo para ir comigo, porque a dona dele está nos dias de ganhar bebê. Lembro que quando ele foi fazer o lar dos idosos, eu voltava da escola onde trabalhava e o via de chapeuzinho de palha, com pá de pedreiro. Ia ajudando, fazendo, pegava junto no batente. Nossa... ele era muito, muito especial!”

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Leonor: “Paulo, você tem alguma informação sobre a areia que ele tirava no rio para construir? - Não, não tenho. Eu o acompanhava muito na igreja durante os dias e nas viagens. Na época, eu estudava à noite.” Segundo a professora Leonor, em suas pesquisas, foi-lhe contado pelos agricultores que voltavam ao entardecer das roças, que viam o padre na beira do rio, tirando areia para ser usada no dia seguinte, na obra, para economizar. Paulo: “Toda semana, ele saía e ia até Três Corações, Varginha ou Campanha. Na volta, pegava água na cidade de Cambuquira, enchia os garrafões de água mineral e trazia. Ele não tomava água de Carmo da Cachoeira de jeito nenhum; dizia que a água era contaminada. Não tinha a Copasa (tratamento de água).” Tenho, neste momento, a intuição que o padre buscava da água da Fonte do Marimbeiro, por onde passamos pela manhã, sem saber que a mesma era visitada toda semana pelo padre, no período que ele viveu em Carmo da Cachoeira. Paulo foi o primeiro Ministro da Eucaristia pela Diocese de Campanha (MG). No ano de 1970, o Padre Zequinha foi para Campanha, pedir autorização ao bispo D. Othon para que Paulo 54


pudesse lhe ajudar na igreja a distribuir a comunhão, entre outras coisas. O bispo autorizou. Em 1972, teve o primeiro curso para Ministro da Eucaristia em Varginha: foram Paulo e mais duas pessoas de Carmo da Cachoeira. Portanto, Paulo foi o primeiro Ministro da Eucaristia da Diocese de Campanha. Ficou de 1970 até 1980, quando Padre Zequinha faleceu, o período depois da morte do padre, que Carmo da Cachoeira ficou sem pároco, e, também, ajudou o próximo pároco, que foi o Padre Nunes. Paulo: “No dia que ele faleceu, recebi um sinal dele. Eu morava na fazenda e fiquei sabendo que ele estava muito ruim e foi levado para Belo Horizonte. Eu estava fazendo almoço e percebi um estalo na porta do armário. Parece que deu umas batidas. Ele morreu 10 horas da manhã. Foi a hora que senti o sinal.” Beth: “A cidade morreu junto. Foi colocada uma música muito triste na igreja, para dar aviso da morte dele. Foi um baque para a cidade inteira. Ele pediu para ser enterrado na igreja, foi um pedido dele. Ele queria ser enterrado em cima, perto do altar. - Eu quero ficar juntinho de Nossa Senhora do Carmo e juntinho do Santíssimo. Mas lá em cima não tinha como. Então, foi enterrado próximo à porta da entrada, no lado 55


esquerdo, onde hoje é a Sala Padre Zequinha. Ele era muito querido. Ele era tão santo, que era o confessor do Clero. Para ele ser confessor do Clero, tinha que ser uma pessoa muito ungida e muito pura. Ele era uma pessoa humilde demais da conta. Ele não sabia falar não para as pessoas. Ele nunca fez questão de coisas materiais. Muitas vezes também, ele se sentia mal, pois tinha problema de glicose. Era diabético e, para agravar, ele bebia. A alimentação dele era muito, muito ruim. Ele era um padre que não se alimentava direito. Teve uma vez que o Paulo teve que invadir a casa paroquial. Deu o horário da missa a fomos para a igreja. Na igreja, o povo todo esperando e ele não aparecia. Batemos na casa paroquial e nada. O Paulo pulou o portão e, por sorte, a porta da cozinha estava aberta. Quando entramos, ele estava desmaiado no chão. Chamamos o médico correndo. Aquilo foi um estado de debilitação dele, porque o padre não pensava nele hora nenhuma. Todo dia ele celebrava missa. Tinha pessoas que não queriam aquela missa; queriam uma missa especial para a ocasião; então, ele celebrava duas missas. Uma coisa que o deixou magoado, inclusive nós também ficamos, porque o vimos chorar, foi a inauguração do hospital. Foi uma festa política e não teve um muito obrigado pra ele. Ele ficou magoado com a falta da placa de agradecimento ao bispo D. Othon Mota. E em uma missa ele falou: - Eu não faço questão, porque eu fiz esse hospital para pobre. Os ricos não precisam, mas pelo menos deveriam ter colocado um placa, um agradecimento para o Sr. Bispo. Porque se não fosse o Sr. Bispo, nós não teríamos o hospital que temos hoje. 56


E não foi o Sr. Bispo, foi ele, o Padre Zequinha. O bispo doou o terreno porque o padre lutou para isso. No hospital, assim como no asilo e na casa paroquial, ele trabalhou pesado como servente de pedreiro, com chapéu de palha, todo sujo e ajudando. Não tinha um dia que ele não ia na obra visitar e ajudar os pedreiros. Uma coisa que me marcou muito foi que ele morreu no dia 16 de dezembro e no dia 24 eu fui fazer uma visita ao ginecologista em Lavras. O médico falou que estava tudo bem e que a criança estava em posição de nascer, que poderia nascer a qualquer hora. Eu estava em casa quando a bolsa rompeu e fui para Lavras. O médico falou que achava que a criança tinha virado e seria necessário uma cesariana. Então, conversei em pensamento com o Padre Zequinha. Naquela noite, o médico não saiu do hospital e, além de mim, fez mais três cesarianas. Até hoje sempre converso com ele e, algumas vezes, temos até algumas briguinhas saudáveis.” O casal tinha uma pessoa para atender e eu não quis mais tomar o tempo deles, já que me comprometi voltar outras vezes a Carmo da Cachoeira para continuar a pesquisa. Paulo e Beth são pessoas responsáveis por manter viva a memória do padre e de seus feitos, por mais de 30 anos após sua morte. Possuem o álbum de casamento e fotos antigas que contam a história da cidade. Foi um relato inspirado e comovente. Fiquei sabendo também que o padre construiu uma casa para Mariinha, a senhora que o acompanhou desde a cidade de Careaçu, antes de ele vir para Carmo da Cachoeira. Ela cuidava da casa 57


paroquial e do padre; hoje, mora na casa os familiares dela. Ele construiu a casa para que Mariinha não ficasse desamparada. Em seu sepultamento, meu tio-avô teve a presença de seu amigo Monsenhor José do Patrocínio Lefort e de dezenas de sacerdotes para a celebração da missa, além de uma multidão estimada em duas mil pessoas. Ainda em estado de estarrecimento por conta de informações tão relevantes e reveladoras sobre a nobreza de caráter e atitudes de meu parente, sentindo leveza de espírito, a incansável professora Leonor ainda me levou na casa de Dona Dionísia. Uma senhora de 95 anos de idade, com uma vida comunitária atuante e intensa, nos recebe em sua casa simples e humilde, onde abre as portas de seu lar e de seu coração. Ela me conta que é uma mulher solteira e casta. Quase sem enxergar, com as pálpebras cobrindo praticamente todo o olho, ela nos recebe em sua sala, descreve que o padre brincava com todo mundo, sempre alegre e satisfeito. Ele sempre preocupado comigo, perguntava: - Você tá bem? Tá bem? Não tá faltando nada não? Na época, Dionísia criava duas crianças, dois sobrinhos, pois os pais tinham morrido. Cuidou deles, eram doentes, mas nada faltou para eles. Ela trabalhou em casa de família e também lavou roupa para fora. - O Padre Zequinha foi muito bom. Ele tinha muito dó dos pobres, ele fez o asilo. - ela dizia. 58


Sobre o asilo, ela conta que o padre foi viajar e ordenou aos pedreiros que dessem prosseguimento na obra. Parece que o prefeito da época quis acelerar para quando o padre retornasse da viagem, a obra estivesse adiantada, e orientou aos pedreiros que colocassem as portas de entrada do asilo viradas para o morro. Quando retornou da viagem, o padre pediu que as portas fossem fechadas, que a entrada seria voltada para a frente da cidade, que ali os idosos mereciam dignidade. Expõe também que a Mariinha, que cuidava do padre, era muito nervosa, brava e que, algumas vezes, ele mandava recado para que Dionísia fosse conversar com ela. - Hoje cedo, já falei nele. Rezo para ele, peço muita força e paz, e para ele me ajudar. Dionísia é um encanto e tem uma memória fabulosa. Além de nos presentear com sua história de vida, ela narra suas visões. A primeira é sobre uma bola de fogo ou mãe de ouro. Ela estava na janela de sua casa; já passava das 22 horas. A bola veio correndo do alto e chegando perto desapareceu. Deve ter acontecido há 50 anos. Outro fato deve ter sido há uns 40 ou 30 anos, ela não se lembra bem. Voltava para casa depois de 22 horas, juntamente com algumas crianças que a acompanhavam e vinham cantando rezas, alegres, quando viu aquele clarão vindo do santo cruzeiro. Era a Mãe Rainha e as estrelas atrás, correndo, correndo. Vinha bem depressa. Então, Dionísia mostrou para as crianças, que ficaram olhando as estrelas caindo, caindo. Neste 59


exato momento, sua cunhada, que tinha uma contenda com ela por causa da herança da casa de seus pais, a aguardava armada e foi ao seu encontro com um punhal. As crianças mostraram a santa para a cunhada de Dionísia, que desistiu de feri-la ou matá-la e voltou para sua casa. A santa também retornou para o santo cruzeiro. Esta história foi lembrada há pouco tempo quando a professora Leonor deu para Dionísia uma camisa do Santuário Mãe Rainha com a imagem da santa peregrina e a mesma, na hora, reconheceu quem tinha salvado sua vida. Ela se lembra com carinho de seus pais, de seu irmão e orienta que temos que ter amor primeiro pela família. Conta que sua mãe também via estrelas grandes a passar pelo céu. Na infância, tinha medo de Mula Sem Cabeça, Saci Pererê e do Dia das Almas. O povo era mais caridoso porque tinha medo de morrer e virar corpo seco. Que, em Carmo da Cachoeira, o cemitério já foi mudado de lugar por duas vezes, mas que nunca viu nada. Ficou só no medo. No alto de seus 95 anos, ela ainda queria nos servir um café. Então, pedi que rezasse por mim, me abençoasse, para que eu pudesse seguir viagem para São Lourenço. E que numa próxima oportunidade eu retornaria a Carmo da Cachoeira e tomaria o café. Ela ficou muito satisfeita por eu pedir a oração e a fez com total desprendimento. Deixamos a professora Leonor em casa. Agradecemos imensamente e retornamos para São Lourenço. Posso dizer que o dia foi surpreendente.

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30 de dezembro de 2011. Sexta-feira. Depois de visitar e conhecer tantas cidadezinhas acolhedoras em busca do resgate da história do meu tio-avô, é hora de relaxar e deixar todas as informações e fatos tomarem consistência em minha mente. Para que eu possa me organizar e programar para a continuação da busca, ou da fuga de mim mesma, e da verdade que me assola: a dor pela falta da minha mãe. Já que estou de férias, resolvo curtir minha cidade natal, São Lourenço. Saio por volta das 9 horas e passo pela Aldeia Vila Verde. Uma vila de chalés, bem no centro da cidade, no calçadão que separa o Parque das Águas. São em torno de 66 lojas que comercializam tricô, crochê, artesanato, doces, lanches, brinquedos, pinturas em geral e roupas para bebês e adultos. O que mais me diverte são as camisas de malha com dizeres diversos e engraçados. Do outro lado da rua, charmosas barraquinhas também de artesanato. A pé, sigo para a Rua Venceslau Brás, onde moramos antes de mudarmos de cidade. A casa ficava bem nos fundos do terreno e, na frente, tinha um quintalzão enorme. Hoje, está tudo diferente, com grandes casas ocupando todo o lote. Não consegui identificar. Fiquei em dúvida. Será esse ou aquele lote? Todos os lotes que eram vagos, agora, estão com moradias. Se as casas das ruas onde moramos se transformaram, as das ruas paralelas continuam do mesmo jeito de quando eu tinha cinco anos 61


de idade. Recordei por onde eu e minha irmã passávamos para ir comprar pão; o comércio no mesmo lugarzinho, do mesmo jeitinho. A casa onde uma tia, que quase não víamos, pois tomava conta do lugar, era caseira, tinha uma fonte com um sapo grande e a boca enorme aberta. Não sei porquê, mas aquele sapo atraía a minha atenção. Talvez pelas histórias de príncipes que se tornaram sapos por conta de algum feitiço mágico, a famosa imaginação infantil. Hoje, não mais acredito em príncipes e nem mesmo em sapos. Outras construções que não mudaram e que me encantavam pela beleza, com quatro colunas na frente e de ar misterioso, a Eubiose. Ao seu lado, outra casa, também com quatro colunas e um pequeno jardim harmonioso.. Fecho e abro os olhos para ter certeza que não voltei no tempo. Subo pela Rua Ledo, onde na esquina fica mais uma casa que me causava deslumbramento na infância. Aliás, duas casas: a com as colunas que citei na esquina de baixo e, na esquina de cima, um castelinho que, até hoje, brinca com meu imaginário. Antes da Rua Venceslau Brás, moramos nesta rua, em uma das casas que fica entre as duas construções que admirava e sonhava conhecer por dentro. A cidade cresceu muito; algumas casas permanecem intactas e iguais há mais de quarenta anos, quando partimos de São Lourenço. Depois do almoço, vou para o Parque das Águas. Creio que faz mais de 10 anos que não o visito; sua beleza é impar e incontestável. Realizo um grande desejo: conhecer a Ermida Senhor Bom Jesus do Monte. Toda vez que fui ao parque, 62


sua entrada estava fechada. A Ermida é o maior patrimônio religioso, histórico e cultural da cidade. Em seu interior, bem na frente do altar, está a primeira foto do Santo Sudário, tirada em Turim, na Itália, onde se encontra o original. Sua escadaria é grande e larga. Por cima dos degraus, as árvores e os cipós foram trançando e se enroscando, formando um caminho sombreado. Por fora, a Ermida é de cor branca. Apenas um meio círculo em cima da porta, ao redor de um minúsculo vitrô e uma estrela amarelo ocre. Em cima desse meio círculo, nos cantos e ao redor do pequeno vitrô, a data de 1903, na cor azul cerúleo forte. Na lateral direita de quem sobe, ao lado da igreja, escondido entre as folhagens, um sino entre duas colunas quadradas de cor branca. Uma visão poética no silêncio da tarde. Após sua entrada no lado esquerdo, debaixo da escada, uma pintura da ermida toda em branco e um caminho curvilíneo levando a outra capela e seguindo adiante. No altar, uma mesa de madeira, cuja base é o tronco de uma árvore. Do lado direito da foto do Santo Sudário, as imagens de Santo Expedito e de Jesus Cristo; do lado esquerdo, mais duas imagens. Acima, um meio círculo com a imagem de Jesus crucificado e, de fundo, o céu azul. Nas paredes laterais do altar, à esquerda, uma pintura da Santa Ceia e Jesus lavando os pés de seus discípulos. Do lado direito, uma pintura que lembra o sermão da montanha. Nota-se que as pinturas foram executadas por um profissional de grande sensibilidade e conhecimento técnico. 63


Ainda no altar, embaixo da imagem de Jesus, há uma porta discreta onde está escrito: “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará, e sairá, e achará pastagem.” (João 10-9). A sensação de estar naquele lugar sagrado é de paz. Não dá vontade de sair; a vontade que dá é fechar os olhos e respirar o ar de profunda fé e religiosidade. A ermida permanece, mas o tempo não. Decido desfrutar das outras atrações que o parque tem e colocar meus sentidos para saborear a bela tarde de verão. Fontes de águas minerais, lago, trilha, lanchonetes, restaurante, lojas, muitas árvores, muito verde, muitas flores, muitos pássaros. Os patos do lago vêm comer em nossas mãos. Apesar de ser proibido dar comida aos animais, os turistas não resistem a aproximação dos patos, que acabam ganhando pedacinhos de pão. Já os macacos gostam mesmo é de banana. Alguns pais acabam dando a fruta de seus filhos para eles. Sentei em um dos bancos que balançam para descansar um pouco e observar as famílias, namorados, crianças, esportistas e turistas. A energia que circula é de grande alegria, contentamento e admiração. Ouvi um barulho no gramado atrás do banco. Fiquei atenta! Poderia ser cobra, já que tem tantas árvores e animais. Para minha surpresa, o animalzinho mostrou a cabeça um tanto curioso, mexeu as orelhinhas e 64


voltou de onde tinha saído. Consegui pegar a câmera e tirar uma foto de sua leve saída. Era um tatu mirim, branco e bonitinho. Paisagem exuberante, paro em frente à gruta de Nossa Senhora dos Remédios, lugar de devoção e oração, onde os fiéis acendem velas, levam flores e placas de agradecimento por graças alcançadas com o uso das águas milagrosas (água mineral). Resolvo caminhar na outra parte do parque, onde se encontra o jardim japonês, as quadras e ducha de água mineral para banho. Até que o adiantar das horas me faz retornar para a casa onde estou hospedada.

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31 de dezembro de 2011. Sábado. Hoje é aniversário do meu tio-avô Padre Zequinha: 105 anos. Admiradora da obra do grande pintor catalão Salvador Dali, descubro que em São Lourenço existe a Fundação Cima’s, entidade filantrópica. O professor Cima foi amigo pessoal de Salvador Dali e possui um museu com acervo de pôsteres assinados pelo próprio Dali. Na entrada da fundação, um muro alto revestido com pedra São Tomé. A oxidação forma figuras nas pedras que lembram paisagens completas, folhagens e raízes diversas. Só o muro já é uma atração. Por sorte, o próprio professor Cima nos recebe, com uma simplicidade e gentileza encantadoras. Ele nos oferece o café sólido, que são quadradinhos pequenos, e nos conta que os criou depois de longas viagens de carro onde parava para saborear um cafezinho. Para agilizar a viagem e parar menos, desenvolveu o café sólido, que tem o sabor forte de café solúvel, mas é açucarado e gostoso. Comento que o que me atraiu foi o museu sobre Dali. Ele nos leva ao andar superior e nos mostra as figuras assinadas e dedicadas a ele. Por conta de um paciente que estava sendo aguardado, ele não pôde ficar muito tempo conosco. Ficou tempo suficiente para nos deixar à vontade e contou que foi tratar as manchas nas mãos de Dali, que lhe pagou com pôster de sua obra e também explicou o significado de várias obras do pintor. No museu, várias fotos do professor com o pintor. 66


Além do museu, a fundação possui a réplica da curiosa “Boca da Verdade”. A original se encontra no átrio da Igreja de Santa Maria In Cosmedim (Roma). Na réplica, possui um texto explicativo da origem de sua lenda. Ainda na fundação, existe uma cápsula do tempo, feita de granito negro e em forma de um retângulo perfeito, que guarda várias coisas de nosso tempo e um enorme cristal rosa da Amazônia. Deverá ser aberta no ano de 2126. A lenda reza que a Boca da Verdade tem em torno de 1600 anos de história. Um juiz que não assumia sua responsabilidade nas condenações, fazia com que os acusados colocassem a mão dentro da Boca da Verdade. Um mármore com um rosto esculpido, com chifre, algo nada agradável de se olhar, e um buraco no lugar da boca. Se o juiz achava que o acusado era culpado, fazia um sinal para cortar a mão do mesmo com uma espada afiada. É o último dia do ano. Apesar de eu ser uma pessoa bastante alegre, não é um dia tão alegre para mim. Faz seis meses que minha mãe partiu e não é fácil viver sem ela. Não demonstro, mas a dor é cortante e indizível. Tanto que o combinado era passarmos a virada do ano no show da Praça Brasil, comemorando e estourando espumante. Eu até me arrumei, mas não rolou. Começou a bater uma angústia, uma tristeza tão grande que achei que ia acabar estragando a festa de todos. Decidi passar sozinha, em casa, me desmanchando em lágrimas e pedindo desculpas à minha mãe por não conseguir me controlar.

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01 de janeiro de 2012. Ano Novo. Não acordei com a esperança do recomeço, da renovação, das promessas de um tempo melhor. Nem me lembrei da simpatia que eu e minha mãe fazíamos todos os anos na virada. Tomar espumante e comer 12 uvas, guardar 12 caroços em um papel laminado dentro da carteira, para atrair prosperidade durante os 12 meses do ano. O dia que saiu da UTI, no hospital, ela disse: - Estou passando a responsabilidade para você! Está por sua conta. Não entendi o que ela quis dizer. Ela não estava bem, ficou vários dias na UTI, antes e depois da cirurgia. Não dizia coisa com coisa. O médico falou que logo passaria. E passou, mas a frase ficou registrada em minha memória. Toda vez que estou prestes a desmoronar, lembro-me de suas palavras e busco forças para “dar conta”. Jamais imaginei que São Lourenço fosse uma cidade tão mística. Estou redescobrindo a cidade e há muito mais do que sempre imaginei. Por mera curiosidade, aproveito a tarde de domingo para visitar, na Praça Helena Jefferson de Souza, o templo da Sociedade Brasileira de Eubiose. No templo grego, um educado senhor nos orienta que a Eubiose é de caráter cultural e espiritualista, que visa aprimorar o ser humano em sua forma física, espiritual e mental. Seu fundador pregou que a cidade de São Lourenço é a “Capital Espiritual do mundo no terceiro milênio”, pois se trata de um centro de irradiação de poderosas energias cósmicas. 68


02 de janeiro de 2012. Segunda-feira. Uma semana inteira longe de casa. Já é hora de retornar. Na volta, paramos no cartório da cidade de Pouso Alto. Estava confiante que encontraria a certidão de nascimento do padre lá. Também nada. Tudo o que aconteceu durante esses dias de férias só serviram para aumentar a vontade de decifrar o mistério que cerca a vida do padre Zequinha. Resolvo voltar o mais rápido possível para São Lourenço e Carmo da Cachoeira, assim que puder, a fim de continuar a investigação. O café forte da decisão permanece em meu paladar desde aquela manhã, após mais uma noite mal dormida.

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“No dia 23 de fevereiro de 1939, cheguei de Silvestre Ferraz, acompanhado do Revmo. Pe. Joaquim Gonçalves Cardoso, dos seminaristas: Candido Silva, Antonio Prime Rodrigues e mais pessoas amigas, éramos ao todo 28. Como era de costume, o Revmo. Pe. Joaquim Gonçalves Cardoso leu a portaria que me nomeava Cura de Rosário. Era uma quarta-feira de cinzas, 23 de fevereiro de mil novecentos e trinta e nove, quando tomei posse da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Dom Viçoso. No mesmo dia, possuí a Certidão de Posse às costas da Portaria, sendo testemunhas Nestor Galvão Ferrer e José Augusto do Nascimento. Logo na primeira via, enviei a Certidão à Câmara Eclesiástica de Campanha.”

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Já em casa, depois de uma semana viajando, Lorena volta aos meus pensamentos. Na época, não entendia - e continuo não entendendo - o que uniu Lorena a João. Apesar de ela ter passado dos 30 anos de idade, mantinha a essência de sonhadora e romântica. Acreditava no bem e na felicidade. Não tinha uma beleza de chamar atenção, mas era bonita, tinha medidas proporcionais. Nunca se descuidava do peso e frequentava semanalmente o salão de beleza. Era alegre e bem humorada. Já João era um debochado, sem responsabilidade. Sua aparência, apesar de limpa e bem vestida, não me era agradável. Tinha pernas compridas, finas e era barrigudo. Nesse período, criei o personagem Azeitona no Palito, que me lembrava a parte engraçada de João. Passei a entender o que acontecia com Lorena quando li um texto de autor desconhecido, em um jornal de Seropédica (RJ) – Ano II – Nº 15 – Agosto/2001. AMOR E LOUCURA “Contam que uma vez se reuniram todos os sentimentos e qualidades dos homens em um lugar da Terra. Quando o ABORRECIMENTO havia reclamado pela terceira vez, a LOUCURA, como sempre tão louca, lhe propôs: - Vamos brincar de esconde-esconde? A INTRIGA levantou a sobrancelha intrigada e a CURIOSIDADE, sem poder conter-se, perguntou: 73


- Esconde-esconde? Como é isso? - É um jogo - explicou a LOUCURA - em que fecho os olhos e começo a contar de um a um milhão, enquanto vocês se escondem. Quando eu tiver terminado de contar, o primeiro de vocês que eu encontrar ocupará meu lugar para continuar o jogo. O ENTUSIASMO dançou, seguido pela EUFORIA. A ALEGRIA deu tantos saltos que acabou por convencer a DÚVIDA e até mesmo a APATIA, que nunca se interessava por nada. Mas nem todos quiseram participar. A VERDADE preferiu não se esconder. - Pra quê, se no final todos me encontram? A SOBERBA opinou que era um jogo muito tonto (no fundo, o que a incomodava era que a ideia não tivesse sido dela). A COVARDIA preferiu não se arriscar. - Um, dois, três, quatro... - começou a contar a LOUCURA. A primeira a se esconder foi a PRESSA que, como sempre, caiu atrás da primeira pedra do caminho. A FÉ subiu ao céu e a INVEJA se escondeu atrás da sombra do TRIUNFO que, com seu próprio esforço, tinha conseguido subir na copa da árvore mais alta. A GENEROSIDADE quase não consegue esconder-se, pois cada local encontrado parecia maravilhoso para algum de seus amigos. Se era um lago cristalino, ideal para a BELEZA. Se era a copa de uma árvore, perfeito para a TIMIDEZ. Se era o voo de uma borboleta, o melhor para a VOLÚPIA. Se era uma rajada de vento, magnífico para a LIBERDADE. E, assim, acabou escondendo-se em um raio de sol. O EGOISMO, ao contrário, encontrou um local muito bom desde o início. Ventilado, cômodo, mas apenas para ele. A MENTIRA escondeu-se no fundo do 74


oceano (mentira, na realidade escondeu-se atrás do arcoíris). E a PAIXÃO e o DESEJO, no centro dos vulcões. O ESQUECIMENTO, não me recordo onde se escondeu, mas isso não é o mais importante. Quando a LOUCURA estava lá pelo 999.999, o AMOR ainda não havia encontrado um local para esconderse, pois todos já estavam ocupados, até que encontrou uma roseira e, carinhosamente, decidiu esconder-se entre suas flores. A primeira a aparecer foi a PRESSA, apenas a três passos de uma pedra. Depois, escutou-se a FÉ discutindo com Deus no céu, sobre zoologia. Sentiu-se vibrar a PAIXÃO e o DESEJO nos vulcões. Em um descuido, a LOUCURA encontrou a INVEJA e, claro, pôde deduzir onde estava o TRIUNFO. O EGOÍSMO, não teve nem que procurá-lo: ele sozinho saiu disparado de seu esconderijo, que, na verdade, era um ninho de vespas. De tanto caminhar, a LOUCURA sentiu sede e ao aproximar-se de um lago, descobriu a BELEZA. A DÚVIDA foi mais fácil ainda, pois a encontrou sentada sobre uma cerca, sem decidir de que lado esconder-se. E assim foi encontrando a todos. O TALENTO entre a erva fresca, a ANGÚSTIA em uma cova escura, a MENTIRA atrás do arco-íris (mentira estava no fundo do oceano) e até o ESQUECIMENTO, que já havia se esquecido que estava brincando de esconde-esconde. Apenas o AMOR não aparecia em nenhum local. A LOUCURA procurou atrás de cada árvore, debaixo de cada rocha do planeta e em cima das montanhas. Quando estava a ponto de dar-se por vencida, encontrou um roseiral. Pegou uma forquilha e começou a mover os ramos, quando, no mesmo instante, 75


escutou-se um doloroso grito. Os espinhos tinham ferido o AMOR nos olhos. A LOUCURA não sabia o que fazer para desculparse. Chorou, rezou, implorou, pediu perdão e até prometeu ser seu guia. Desde então, desde que pela primeira vez se brincou de esconde-esconde na Terra, o AMOR é cego e a LOUCURA sempre o acompanha.” Não resisti e mostrei o jornal para Lorena, que, alegremente, dizia discordar que a BELEZA tinha se escondido em um lago. Ela escondeu-se e vive até hoje em uma serra que leva seu nome, SERRA DA BELEZA. No primeiro dia do século XXI, João a leva para conhecer a Serra da Beleza. Lorena não tinha palavras para definir o encantamento que sentia. Sentia a essência de Deus. A serra fica entre as cidades de Conservatória (RJ) e Santa Isabel do Rio Preto; palco de pesquisa para ufólogos. Da serra, avista-se ao longe a igrejinha que fica no alto de um morro em Santa Rita de Jacutinga. E por falar em Santa Rita de Jacutinga, o casal esteve lá no dia 28 de janeiro de 2001. Visitaram a Igreja Matriz, onde há a imagem do Arcanjo Miguel, protetor de Lorena. No altar, a imagem de Deus, seu Filho na frente e um triângulo unindo-os por trás. Na lateral da igreja, uma imagem de Jesus Cristo transmitia imensa dor e estava vestindo violeta. Uma igreja forte e cheia de imagens. O casal rezou e admirou a natureza. A fé e a religiosidade são importantes na vida dos moradores e de seus visitantes. 76


Da outra vez que o casal esteve em Santa Rita, subiram a pé pelo morro que leva à igrejinha que viram da Serra da Beleza. Lá no alto, há uma torre que controla as imagens das emissoras de TV. A chave da igreja fica com o vigia da torre, que a emprestou para eles. A igreja era pequena e simples. Lorena fez sua oração no pequeno altar. Subiram por uma escada estreita e depois mais outra de madeira que leva a um pequeno buraco onde se passa para tocar o sino. Ficaram ali sentados, observando do lugar mais alto da cidade as montanhas e a natureza. Lorena agradeceu a Deus pela magia do silêncio e pela grandeza do amor. Contou-me emocionada, jurando que jamais esqueceria aquele momento. O que ela não sabia é que João a levava para lugares distantes de onde moravam para que não os vissem juntos. Ele não queria colocar em risco sua fama de ser livre. Com essa artimanha, continuava a atrair novas aventuras com outras mulheres.

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“Três dias após minha posse, fiz minucioso exame na Igreja Matriz. Infelizmente vi vestígios de telhas quebradas e goteiras em vários lugares. As paredes descoladas, tanto no interior, como no exterior da matriz. Vidraças quebradas, portas e janelas sem a menor segurança. As vassouras cresciam tanto ao redor da matriz, que muitos animais vinham pastar no adro e, muitas vezes, era necessário o sacristão deixar-me no altar e ir afastá-los do limiar da porta. O sacrário se achava arrombado; as imagens com os dedos quebrados e cobertas de teia d’aranha.”

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Antes de retornar ao trabalho, ainda tenho alguns dias de férias e tenho que voltar a Carmo da Cachoeira. Agora deixou de ser fuga: é busca. A busca grita dentro de mim, como um bebê que está há horas sem ser amamentado. Passa em minha memória o filme da primeira viagem e repasso a placa de homenagem ao Pe. Joaquim Gonçalves Cardoso, em Carmo de Minas. Ele estava presente, em 23 de fevereiro de 1939, na posse do meu tioavô como pároco da igreja de Nossa Senhora do Rosário de Dom Viçoso. Tento fazer uma adivinhação dedutiva e chego à conclusão que o Pe. Joaquim Gonçalves Cardoso foi quem o ajudou a entrar para o seminário. Algumas noites, ainda perco o sono; então, rezo todas as orações que conheço, procurando acalmar meu coração pela falta da minha mãe querida. Por várias vezes, pensei deixar este mundo e ir ao encontro dela. A dúvida ainda não me permitiu essa viagem.

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13 de janeiro de 2012. Sexta-feira. Como sempre, o ponto de chegada e de partida é São Lourenço. Chegamos ao sul de Minas Gerais no horário de almoço. Saboreamos o tempero mineiro: couve, torresmo, tutu de feijão, carne de porco. Sem falar na sobremesa: doce de leite, doce de abóbora, doce de moranga, doce de mamão verde, doce de cidra, doce de banana, goiabada com queijo mineiro, curau de milho verde, doce de batata roxa. Visitamos galerias de arte, galerias de lojas, descansamos pelas charmosas praças e ainda passeamos no Parque das Águas. Bebemos água mineral em todas as fontes. Todas com propriedades terapêuticas e medicinais, uma diferente da outra. Uma das fontes, a Vichy, só existe duas no mundo: uma em São Lourenço e outra na França, na cidade de Vichy. Outra fonte bem curiosa é a gasosa: só possui gás, para cheirar. Cuidado ao cheirar o gás, para não perder os sentidos. A ferruginosa tem gosto de ferrugem, mas não chega a ser ruim. Todas são muito procuradas e apreciadas, seja pela curiosidade do turista ou para tratamentos alternativos.

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14 de janeiro de 2012. Sábado. Acordei bem cedinho e fui dar uma volta a pé pela cidade para matar saudade e tentar ativar a memória da infância, assim como fiz na viagem anterior. Passei pela Rua Clóvis Reis, onde minha mãe morou assim que se casou, com 15 anos de idade. Fiquei olhando as ruas paralelas, que dão acesso para o morro do Santo Cruzeiro, no bairro de São Lourenço Velho, onde meus avós maternos moravam. Apesar de mais de 40 anos terem passado, tudo me pareceu muito familiar. Passei também em frente ao Hotel Cruzeiro do Sul, onde minha avó materna trabalhou e de onde guardo lembranças agradáveis. Segui para a Praça Brasil para ver o Trenzinho da Alegria que passa pela cidade, cheio de turistas. Também na Praça Brasil, as crianças adoram uma máquina a vapor que fica em exposição permanente. Outro atrativo para os pequeninos turistas são as charretes puxadas por bodes e pôneis. Depois, fomos para o aeroporto, motivados para um voo panorâmico, mas não foi possível, por conta da pista estar obstruída pelo mato alto ao seu redor. Então, ficamos admirando o Trem das Águas, bem em frente ao Hotel Fazenda Ramon. Passamos no bairro Cafundó para visitar a igrejinha de Nhá Chica, toda revestida em mosaico. Aí, rumamos para a charmosa Estação do Trem, que, além de cafezinho e pão de queijo deliciosos, comercializa doces, queijos, aperitivos e artesanatos baratos e de muito bom gosto. 83


Em frente à estação, uma praça com coreto. Os orelhões de telefone público são em formato de animais. Em toda a cidade, os orelhões chamam a atenção de adultos e crianças. Ao redor da estação e da praça, algumas lojas de fábricas de doces e queijos. No período da tarde, fomos à Quinta do Cedro para tomar sorvete. Além da bela paisagem, possui uma fazendinha para visitação, com animais exóticos e brinquedos. Fomos também à Vila Chico, que fica a 2,5 km do centro: possui chalés, pesqueiro, restaurante e bonita vista do bairro que possui amplas casas. Fizemos uma aventura: por uma estrada de terra, entre sítios e chácaras, de carro, chegamos ao ponto mais alto: uma pedra. De lá, podíamos avistar duas cidades: de um lado, a cidade de Soledade e do outro a cidade de São Lourenço. Incansáveis, ainda passamos por dois bairros que ficam em partes altas para ver a cidade de vários ângulos. Uma pausa no Sítio Lagoa Seca para um cafezinho e experimentar queijo de cabra. Rústico, o sítio possui restaurante e vários animais de pequeno porte. Como é bom o horário de verão! O dia rende e ainda não acabou. Visitamos no bairro Federal a igreja totalmente reformada. Sem palavras para descrevê-la; simplesmente encantadora. Às 20 horas, já estávamos na Eubiose para assistir palestra, mencionando seus princípios e seus mestres. Jantamos no restaurante Kibeleza e passamos na Praça Brasil para ver o povo dançar forró.

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15 de janeiro de 2012. Domingo. Madrugamos para que eu pudesse estar na rodoviária por volta de 7 horas. Destino: a cidade de Três Corações e, de lá, Carmo da Cachoeira. A viagem é demorada, porque o ônibus para em todas as cidades no caminho para embarcar e desembarcar passageiros: Carmo de Minas, Olímpio Noronha, Jesuânia, Lambari, Cambuquira e, finalmente, Três Corações. Em Carmo da Cachoeira, deixo a bagagem no hotel e saio para cumprir meu destino. São 12 horas. Vou à Igreja Matriz para rezar para a alma do padre e agradecer por estar novamente onde ele quis descansar eternamente. Desta vez, estou sozinha. Viajei sozinha. Passo em frente ao asilo que ele construiu e em frente ao hospital também construído por ele. Observo a placa em sua homenagem. Vejo a Casa 1 (um). Respiro e encho o pulmão de coragem. Entro junto com uma senhora que estava no portão. A sala é grande e as estantes com livros à venda são colocadas em forma de semicírculo. Pergunto se posso olhar os livros. A atendente gentilmente responde: - Sim. Você conhece Figueira? Respondo que não, que estarei na cidade por um curto período. Que um amigo já havia comentado sobre a fazenda, que tinha ido ver os livros. Eu não sabia que lá tinha livros para vender; como os vi, foi uma boa saída para disfarçar que estava ali por pura curiosidade, 85


atraída pelo desconhecido. Já tinha pesquisado na internet e visto que era uma comunidade alternativa, sobre Trigueirinho, seu líder espiritual, escritor de mais de 70 livros, considerado misterioso por se esquivar da mídia. Em uma mesa que estava no centro do semicírculo formado pelas estantes com os livros, havia dois calendários de 2012 para venda, que acabei comprando. Um, sobre as árvores brasileiras, onde relata várias espécies existentes, seus significados espirituais, sua importância na natureza e dicas de onde e como plantar, com fotos lindas, uma árvore para cada mês do ano. O outro calendário, sobre o crop circles, me deixou intrigada e impressionada: são círculos gigantescos, formando várias figuras enigmáticas em plantações. A maioria surge da noite para o dia, ou, do dia para a noite, do nada ou do tudo que desconhecemos. O fascinante é que as plantas são deitadas no solo sem alterar seu crescimento, aliás, elas se desenvolvem mais que as outras que não foram curvadas. O mistério dos círculos mexeu com minha imaginação. Primeiro pensei em anjos. - Não. Anjos são mensageiros de Deus, ou seja, pessoas que são instrumentos para Suas mensagens. Em seguida, pensei nos Devas6, já que são responsáveis pelos quatro reinos: terra, ar, água e fogo. - Será? 6 Deva: na mitologia budista, espírito invisível não eterno e geralmente benigno. 86


Muitos pesquisadores acreditam em extraterrestres. Portanto, os círculos das colheitas continuam desafiando as ciências dos homens. Coincidência ou não? Meu pensamento foi direto para o caso ET de Varginha (MG). Muito próximo daqui, um intrigante acontecimento que até hoje ainda não foi esclarecido para o público. Aconteceu no dia 20 de janeiro de 1996, dia de São Sebastião. Conta-se que o Corpo de Bombeiros foi acionado por volta das 8 horas da manhã por conta de uma estranha criatura vista em um parque. Os bombeiros chegaram achando se tratar de um animal e levaram jaulas e redes. Conta-se que localizaram uma criatura marrom com 1m50, 3 protuberâncias na testa, olhos vermelhos e uma pequena boca. A criatura parecia estar ferida, então os bombeiros acionaram a base militar mais próxima e o parque foi cercado. A criatura foi encurralada e capturada, colocada em uma caixa de madeira e entregue aos militares. Moradores vizinhos do parque assistiram toda a ação de longe. No período da tarde, outra criatura foi vista bem próxima do local onde a primeira foi capturada e os militares também a capturaram. A notícia vazou e o Brasil inteiro tomou conhecimento dos fatos. Tentou-se ridicularizar o caso, dizendo ser uma pessoa mentalmente doente que estava agachada, de frauda e suja de barro. Sabe-se que levaram para a Escola de Sargentos em Três Corações esta primeira criatura, que acabou ferindo um dos policiais que, 87


dois dias depois, veio a falecer. Conta-se que a segunda criatura foi levada para um hospital de Varginha, não resistiu aos ferimentos e, sem vida, foi levada pelos oficiais militares. Muitas testemunhas foram ouvidas e o caso abafado. Hoje, uns acreditam que eram extraterrestres; outros dizem que eram frutos de experiências do exército com humanos; outros que, no período, o governo dos EUA foi informado e levou as duas criaturas, uma viva e outra sem vida. Esse é um importante caso da história da Ufologia. Minha mente fértil questiona: *Será que essas criaturas saíram daqui de Carmo da Cachoeira? *Será que fugiram daqui? *Será que eram frutos de experiências feitas aqui? Volto à realidade e compro também dois pequenos livros: Contatos com um Monastério Intraterreno, de autoria do Trigueirinho (120 páginas) e Fundamentos da Filosofia Esotérica (100 páginas) de H.P. Blavatsky. Esse último escolhi por conta da palestra da Eubiose, que havia mencionado o nome Helena Blavatsky. Vi mais dois livros que me interessaram. Não os comprei por terem muitas páginas e por conta do preço, que não era barato. São eles: * Madre Teresa – Venha, seja minha luz / Brian Kolodiejchuk / 400 páginas. * Helena Blavatsky – A vida e a influência da fundadora do Movimento Teosófico Moderno / Sylvia Cranston / 680 páginas. 88


Quando eu estava separando e pagando os livros, chegou um grupo de pessoas (três ou quatro), que seriam direcionadas para acolhimento. Fui deixando escolherem livros e passarem na minha frente, para que eu pudesse observar por mais tempo o que acontecia ali. Eu estava curiosa e interessada. Chegou um rapaz moreno, magro, com os olhos um pouco arregalados, o que parecia ser o normal dele. Ele falou que seu acolhimento estava marcado para o dia 23, que ele antecipou e chegou no dia 15. A atendente, educadamente, pediu para ele aguardar, que chamaria uma pessoa que estava em uma casa próxima para lhe atender. Continuei escolhendo os livros e esperando ver o que aconteceria. A pessoa chegou: um senhor magro, alto, de cabelo e barba branca. Com gentileza extraordinária, ele conduziu o rapaz para guardar a mochila que carregava e pediu para o aguardar na sala ao lado. O senhor se dirigiu a mim perguntando se eu pertencia ao grupo que acabara de chegar. Respondi negativamente, eu estaria na cidade por um período pequeno e estava ali apenas para comprar livros. Ele convidou-me para uma palestra que seria no dia seguinte às 19 horas. Notou meu interesse e que fiquei em dúvida. Ele pediu para a atendente me direcionar para fazer a ficha e entrevista. Ponderei que talvez não pudesse ir à palestra que aconteceria na Fazenda Figueira, mas gostaria muito de deixar uma ficha preenchida para uma próxima oportunidade. A atendente comunicou que o pessoal da ficha não poderia me atender por conta de outros 89


afazeres primordiais. O senhor sugeriu para eu retornar no dia seguinte, às 9 horas, horário ideal para preenchimento da ficha. Ele não o faria naquele momento por precisar conduzir o rapaz que chegou antes da data prevista e os demais. Saí de lá motivada para o dia seguinte. Assim, descobriria mais alguma coisa a respeito do lugar que estava começando a me magnetizar. Minha intenção, naquele momento, era voltar para a Igreja Matriz. Já estava na praça e havia começado uma chuva de verão. Como já eram 14 horas, resolvi almoçar e voltar para o hotel. Quando eu estava almoçando no restaurante self-service, sob o olhar de pessoas com cara de paisagem, entrou uma pessoa da comunidade Figueira7, acompanhada com um cão. Comprou alguma coisa no balcão e saiu. A maioria deles anda acompanhada de um cão. Parece que eles recolhem os animais e depois os encaminham para uma instituição de proteção que fica em outra cidade. Voltei para o hotel, chuva caindo. Cochilei até por volta das 17 horas. Eu tinha pedido um quarto de frente; apesar do barulho, queria perceber a movimentação da rua. Além de ficar de frente para o cruzeiro, que é visto logo quando se sai da rodovia e entra na estrada que leva a Carmo da Cachoeira. Mas o que eu queria? Ver a mãe de ouro? Ver a bola de fogo? Medrosa como sou, morreria do coração. É bom adormecer olhando a imagem branca de Jesus de braços abertos. 7 Figueira é um centro espiritual que se dedica à evolução universal, sem vínculos com doutrinas, seitas, religiões nem instituições.

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O horário da missa é 19 horas. Às 18 já estou na igreja; sento bem no final, ao lado do jazigo do padre. Estamos separados por uma parede, mas é como se estivéssemos lado a lado. E estamos! As pessoas vão chegando e, apesar da igreja ser grande, começa a faltar lugar. Em pé, pessoas lotam a igreja. Penso em procurar e conversar com o Padre André assim que a missa terminar. Para minha surpresa, a missa não é celebrada por ele e sim por outro padre. A cerimônia religiosa terminou às 20h30 e foi muito bonita. Retornei para o hotel. Não saberia ir a outro lugar. Chuviscava. Os fiéis voltando em conversa animada para seus lares e eu ali, na expectativa do dia seguinte. Para que eu pudesse procurar as pessoas com quem havia conversado da primeira vez que estive na cidade e tentar obter mais informação a respeito do Padre Zequinha. O dia havia começado bem cedo e a viagem foi cansativa. A ida à Casa 1 (um) não estava em meus planos. Tive conhecimento sobre a comunidade por um cliente da empresa onde trabalho. Ele é de Varginha e acabei comentando sobre meu meu tioavô, padre em Carmo da Cachoeira, e enterrado dentro da igreja após seu falecimento, que eu ia escrever um livro sobre a vida dele. Pedi informação sobre a cidade, se era perto, se tinha hospedagem e ele comentou sobre a comunidade e falou super bem do Trigueirinho. Como era domingo, não quis incomodar as pessoas. Era o dia de descanso delas; eu as procuraria na segunda-feira.

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16 de janeiro de 2012. Segunda-feira. Acordo com o barulho das andorinhas na fiação do poste da rua. Parece até um varal de festa junina com bandeirinhas, só que as bandeirinhas são andorinhas de peito branco e estufado. Ainda está escuro e vejo no alto do morro uma cruz iluminada por várias lâmpadas. Nada de mãe de ouro. Nada de bola de fogo. Nada de disco voador. Às 8h30, já estou na casa paroquial. Sou informada que o Padre André está tomando café e em seguida irá para a cidade de Campanha. O atendimento ao público se dá a partir de quartafeira. Vou para a Casa 1 (um) do Centro Espiritual de Trigueirinho. Comunico que o senhor que me atendeu ontem pediu que eu estivesse ali naquele horário para preenchimento da ficha. Pedem para eu aguardar, que ele está por perto. Quem me atende é uma mulher alta, sorriso largo e sotaque de argentina. Decido comprar os livros sobre Madre Teresa de Calcutá e de Helena Blavatsky. Aquele senhor de ontem, de barba e cabelo brancos chega e, gentilmente, me encaminha para a casa que fica ao lado do hospital. Pergunta sobre os livros que adquiri e lhe mostro. Ele pega o de Helena Blavatsky e comenta: - Bom, muito bom. 92


Os muros das casas são muito altos e os portões todos de chapas de ferro, sem nenhuma visão para o interior das propriedades. O atendimento é feito pelo interfone, sempre de maneira muito educada. Passamos por uma pequena sala, do lado direito do corredor. No computador estava o rapaz que chegou no dia anterior, antes da data programada. Ele tem nome de anjo. Seguimos e entramos em uma sala que mais parecia uma secretaria de escola. Uma senhora disse para o senhor que não poderia fazer a minha ficha naquele momento. Então ele pediu para eu o aguardar em um banco ao lado de fora da casa, porém dentro do muro alto. Todas as casas com pintura limpa, plantas bem cuidadas, limpeza impecável e câmeras eletrônicas. Depois de uns quinze minutos, o instrutor conduziu-me para uma pequena sala que cabia apenas uma mesa redonda com quatro cadeiras. Entregou-me uma ficha para preenchimento que, além dos dados pessoais, pedia informar como tomei conhecimento do local e quais pessoas sabiam sobre minha visita ao centro espiritual. Em um papo ameno. Fui me sentindo à vontade e perguntando sobre as questões dos vícios, das drogas, das bebidas e do não bem. Ele apenas me orientou a orar, orar sempre e finalizar com a frase: “Se assim for a Sua vontade”. Entregou-me um folheto explicativo sobre Figueira, que contém seis páginas. Comenta que em acolhimento não se come carne, nem laticínios e o regime é de celibato. Pede para eu ler parte do folheto para ele. 93


Ele também me orienta a ler o livro de Trigueirinho: Hora de Crescer Interiormente – O Mito de Hércules Hoje. E me convida para almoçar junto com o pessoal do centro espiritual. Agradeço e digo que preciso ainda falar com algumas pessoas da cidade. Quando eu o estava aguardando no banco, resolvi assistir à palestra e adiar meu retorno para São Lourenço em um dia. Para tomar essa decisão, consultei minha conselheira, a morte: “Se para mim não houvesse o amanhã, o que eu faria hoje?” Assistiria a palestra sobre cura e perdão. Meu coração, apesar de tanta novidade, ainda sangrava. Aquele senhor me passava paz, aceitação, ternura e compreensão. Eu queria ficar perto, sentir a energia boa, a bondade e a generosidade. Falei em voltar para a palestra, às 19 horas. Ele disse que não, pois o ônibus sairia às 18 horas. A palestra seria na fazenda. Para que eu chegasse bem antes, assim poderia contratar um táxi e uma pessoa do centro espiritual me levaria para conhecer a fazenda. Concordei e assim que conseguisse resolver tudo, retornaria para a Casa 1. Almocei no mesmo restaurante do dia anterior. Fui à loja do Paulo e da Beth, mas não estavam. Lá, fiz uma cópia da foto do Padre Zequinha e deixei alguns livros de presente. Fui à casa da professora Leonor, que também não estava; deixei alguns livros em sua caixa de correspondência. Passei pela rua de baixo para ver a casa de Dionísia. Pela janela a vi sentada; achei melhor não entrar, já que estava sozinha e ela poderia não me reconhecer. 94


Cheguei à Casa 1 e procurei pelo senhor que havia me atendido. Informaram que ele estava lá, que eu passasse pelo portão interno de madeira e o procurasse na lavanderia. Parei em frente ao alto portão de madeira que separava a recepção do pátio da casa, enquanto minha mão tocava a maçaneta. Por questão de segundos meu coração disparou com a possibilidade do desconhecido e excitação. Para minha surpresa, um jardim bem organizado, com árvores grandes, se mostrou à minha frente. Do lado esquerdo, portas com números indicando pequenos aposentos; do lado direito, vi a mesma mulher que me atendeu quando comprei livros pela manhã, estendendo roupas pessoais em uma área cercada. Fui até lá e me apresentei. Informei estar à procura do senhor para ir até a fazenda. Demorei um pouco para entender o que ela falava, por conta do idioma, depois fui me acostumando. Ela me comunicou ser a guia, para eu aguardar, que terminaria de estender a roupa, tomaria um banho e logo estaria pronta. Perguntei sobre o táxi, sobre o preço e ela respondeu, em torno de quinze a vinte reais, para dividirmos o valor. Voltando para a recepção, vi o senhor no portão grande da garagem, conversando com o rapaz com nome de anjo que limpava o portão. Já tinha pesquisado na internet que as pessoas que ali chegam sem programação ficam acolhidas e prestam serviços gerais. Creio que assim foi com o rapaz. Não quis incomodá-lo; fiquei numa sala ao lado da recepção. Parecia uma biblioteca, um lugar para ler e ouvir os cds de mensagens do 95


Trigueirinho. Aproveitei para comprar o livro que o senhor tinha indicado e fiquei conversando com a atendente sobre cães. A guia era um mar de luz e boa energia, entrou juntamente com o rapaz com nome de anjo. O táxi chegara e íamos os três para a fazenda. O taxista era um senhor simpático, conversador, e fomos os quatro conversando alegremente. A mulher me perguntou o que me trouxe para a cidade. Contei sobre a pesquisa da vida de um parente, meu tioavô. O taxista o conhecera e o levara várias vezes em viagem. Contou que o padre pedia sempre para ele correr, pois tinha pressa, que era bravo e sempre o levava para Careaçú e para Campanha. Anotei o nome e o telefone do taxista, para quando eu voltasse novamente em Carmo da Cachoeira, entrar em contato com ele. Passamos por uma estrada de terra até chegar a um lugar de nome Oca. Lá, o taxista nos deixou e continuamos a pé. Ela nos contou que ali era um lugar sagrado, onde tinha sempre alguém orando. Assim, durante 24 horas do dia, a oração ali reinava. Um lugar de silêncio, paz e oração. Após passar pelo portão de entrada, que parecia uma porteira de fazenda, não poderíamos falar, apenas orar. Passamos por uma trilha larga e limpa; chegamos a um local que tinha uma oca de índio, com várias cadeiras dos dois lados internos. Uma senhora, sentada, orava. Sentamo-nos, fechei meus olhos e comecei as orações que conheço. Senti meus lábios e meus olhos pesarem; um azul forte e escuro invadia minha visão; a sensação de que não 96


conseguiria abrir os olhos e a boca. Consegui sem maior esforço. Fechei os olhos novamente, a mesma sensação, até sairmos da oca. Silêncio e paz. Nossa acompanhante era doce, meiga, gentil, agradável, educada e de bem com a vida. Seguimos pela estrada de terra. Ela nos levaria para a montanha onde estaria acontecendo as aparições da Virgem Maria em datas preestabelecidas. Na estrada, alguns trabalhadores aguardavam o ônibus que os levaria até a cidade, pois já tinham terminado a lida do dia. Eram moradores de Carmo da Cachoeira, contratados para trabalhar na lavoura da fazenda. O salário, conforme contou o taxista, era bom. Desde que a comunidade foi criada, a cidade evoluiu e trouxe mais possibilidade de trabalho para eles. Ainda bem que levamos água; estava quente e foi uma forte subida. Algumas simples árvores, ainda em crescimento, e algumas plantinhas dentro de um cercado de aproximadamente 3 metros de diâmetro. Ali, a imagem da Virgem Maria apareceu para um frei da ordem e lhe dava instruções. A virgem pedia muita oração para o planeta. De mãos dadas, e em voz alta, repetimos a oração feita pela mulher que nos acompanhava. A poucos metros dali, creio que uns trinta, uma pequena capela circular. Ao centro, uma vela acesa tinha como visão o céu, pois no teto havia uma abertura circular, protegida por vidro. Cadeiras colocadas ao redor da vela, onde repetíamos a mesma oração que fizemos do lado de fora, seguidas vezes. 97


Mais acima do local onde a virgem apareceu, uma parte plana com uma visão surpreendente de 360 graus, uma dádiva de Deus. Deu para ver um dos monastérios, apenas a construção, um grande prédio de cor verde médio. A mulher parecia imensamente emocionada e agradecida por estar no lugar da aparição. Tenho a sensação de que ela ora em pensamento e agradece cada detalhe da vida, da natureza e de Deus. Descemos a montanha. Nossa acompanhante e o rapaz com nome de anjo conversam sobre monastérios, coisas que não compreendo. Continuamos pela estrada de terra, até chegar em frente a uma figueira, daí o nome da fazenda. O lugar é de beleza ímpar: um centro de cura, uma construção circular; no centro da construção, um jardim circular e todas as portas (dormitórios) com numeração. No jardim externo, árvores foram plantadas, criando um espaço circular, onde a energia da transformação invade a área de reencontro com a natureza e o sagrado. Assim como no local da oca, lá havia uma guardiã com um cão. Antes de entrarmos no grande galpão, que não era circular, fomos ao banheiro. Todas as dependências com limpeza invejável. No banheiro, havia aviso de como economizar água, ou seja, para cada tipo de uso, uma maneira de dar descarga. Na cozinha, grandes garrafas térmicas com chá, que não estava adoçado e nem consegui definir o sabor, creio que algo parecido com camomila, amarelo claro. Pensei no rapaz com nome de anjo, que estava faminto, que ele não teria outra refeição (creio) e no dia seguinte era dia 98


de jejum para todos da comunidade Figueira. Parece que seria servido, no dia de jejum, um caldo de mel. No galpão grande e bem arrumado havia espaço para cerca de trezentas pessoas ou mais. Nós nos sentamos na terceira fileira e os dois palestrantes já se encontravam na frente, o espaço era destacado por ser mais alto, como em lugares de apresentação, teatro e etc. Sentados atrás de uma mesa, aguardavam em silêncio, um rapaz (monge) com vestes brancas e outro rapaz, com aproximadamente 35 a 40 anos de idade, que vestia camisa polo branca. O monge, algumas vezes de olhos fechados, parecia ausente; o outro, sempre de olhos abertos e expressão séria, a tudo observava. Quando chegamos, já havia algumas pessoas sentadas. Aos poucos, foram chegando vários grupos. Creio que estavam em acolhimento nas fazendas, e outros que pareciam não estar em acolhimento. O lugar lotou. Um cântico trazia leveza ao ambiente. Nossa acompanhante mostrou à nossa esquerda, na primeira fileira, o mestre Trigueirinho, ladeado por vários monges de vestes brancas e idades variando entre 40 a 80 anos de idade. Enquanto esperávamos o início da palestra, várias pessoas liam. Um sino com apenas um toque foi ouvido. Nesse momento, houve uma troca de cadeiras dos palestrantes por outras de assento mais alto. O monge começou a palestrar sobre o processo de cura utilizado na fazenda e sobre os centros planetários maiores. Explicou sobre as áreas para 99


sono ao ar livre e áreas de banho. Percebi que a orientação era permanecer com o uso de medicamentos da medicina tradicional. Que Figueiras trabalha com a cura interior, a cura da alma e que através das orações é possível contato com os centros planetários. O segundo palestrante, o homem de camisa polo, pelo qual não senti simpatia pela sua expressão austera, me surpreendeu e encantou. Daí o ditado popular: “Não julgue o livro pela capa”. Tenho muito a trilhar para aprender a não julgar, a não interpretar sem conhecer. Falaram que o decreto filosófico da cura é simples: Ore. Falaram sobre os espelhos da misericórdia, sobre Santa Faustina e Santa Rosa de Lima. Sobre estarmos abertos e usarmos mantras de transmutação e energias cósmicas, sobre o canal curador pelo contato supramental8 com a pureza original. Não trabalham com medicamentos no processo físico, mas sim na consciência que se manifesta no físico. Trabalhar o eu interno, alargar a consciência, resgatar através da oração. Falaram sobre a cura para o planeta, a oração grupal, o resgate de todos através da oração. A cura é a redenção para todos os seres. Falaram sobre a cura pelo perdão e através do perdão. Que temos que usar o aspecto da luz para organizar alguns bloqueios do livre núcleo da alma e trabalhar erros antigos, pecados, defeitos, predisposição e outros. Outro fator relevante para a cura é a alimentação. Já ouvi muitas vezes: “somos o que 8 Supramental: superior à mente 100


comemos”, declaração afirmada pelo palestrante. Eles falam que cada momento de nosso dia é um momento de oportunidade, temos que trabalhar com o pensamento correto e usar o princípio da não resistência. Não resistir ao processo da cura, estarmos abertos e servirmos como canal da cura, trabalhar a paciência e a inofensividade. Nosso corpo é um templo e temos que deixar a alma agir. São favoráveis à acupuntura, ajuda a limpar os canais. O palestrante de camisa polo afirma que o maior curador que já existiu foi Jesus Cristo e comenta sobre o poder da oração, no livro O Diário de Santa Faustina: “Ó sangue e água que jorraste do coração de Jesus, como fonte de misericórdia para nós. Eu confio em Vós”. Que o sangue de Cristo regenera toda raça e que essa oração invoca e atrai os códigos de luz. Muitas coisas não entendi, sobre o hebraico e aramaico, sobre DAN ou ADAN, que significa o sangue permeado pela energia de Deus ou (Adão) e sobre Aleph que representa um único ou energia de Deus, ou seja, A + A. Sobre numerologia 11 = 1 + 1 = 2, que é o amor. Que Jesus pode permear todos os códigos da vida. Muito mais ele palestrou, mas minha pouca percepção ou canalização não registraram em minha mente consciente. O palestrante foi firme quando mencionou que se não nos considerarmos parte da solução, somos parte do problema. Que somos pacientes algumas vezes com nosso irmão e somos intolerantes conosco. Foi muita informação e conteúdo para uma mente como a minha. Claro que o que foi colocado 101


estamos carecas de saber, mas entre saber e agir existe uma grande distância. O diferencial foi a energia, a sinergia com a luz e o amor daquelas pessoas, o clima de fé, de doação e gratidão. Engraçado que antes de eu assistir a palestra sobre cura e perdão, a perda da minha mãe era visível em meu corpo, a magreza, a falta de atenção com as roupas, cabelo, a falta do sorriso largo. Era o rosto da dor e da perda escondidos atrás do sorriso pálido e da vida sem vontade. Senti que algo foi trabalhado em meu ser. Não me curei, mas minha alma está aceitando o tratamento. Sei que terei várias recaídas, mas tentarei ser paciente e tolerante comigo. Vou tentar me perdoar. Estava totalmente escuro quando saímos do galpão. A acompanhante disse que minha luz era bonita e eu disse que bonita era a luz de Deus. Ela nos direcionou até o ônibus que nos levaria até o centro da cidade. Pude perceber outro ônibus e inúmeros carros. Estava muito escuro e eu não imaginava tantos. A viagem foi rápida. A acompanhante me mostrou as estrelas no céu. Nós nos despedimos com emoção e segui rapidamente para o hotel, pois no dia seguinte enfrentaria bem cedo o trajeto até Três Corações, depois para São Lourenço e, de lá, para Barra Mansa (RJ).

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“As pessoas que enfeitavam os altares punham flores nas jarras sem o menor cuidado, sempre trocando flores artificiais em jarras com água e flores naturais em jarras com areia. Na festa da Semana Santa de 1940, as argolinhas presas às cortinas negras foram tiradas, a fim de serem colocadas na Madrinha da Tropa, isto é, no Burro de Guia. Esses objetos da igreja, assim usados, lhes dariam sorte. Era a crença comum dos tropeiros. O presépio era paupérrimo: possuía apenas cinco figuras e um Menino Jesus que se destacava, embora com os dedos das mãos quebrados.”

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Cada vez que relembro a história de Lorena e João, não consigo me conformar com a ingenuidade dela e nem com a crueldade dele. Fico a pensar na famosa e profunda frase: “O bem e o mal têm a mesma face; tudo depende apenas da época que cruzam o caminho de cada ser humano.” Ainda não consegui enxergar qual foi o bem que João fez a Lorena. Nunca o vi fazer uma bondade para alguém, nunca o vi tendo compaixão por alguém. Aliás, nunca vi ou ouvi que tivesse feito algo de bom que não fosse para ele mesmo. Ela nunca me contou de algum ato nobre dele, ou algo que eu pudesse sentir admiração por ele. Isso me faz crer que devemos nos relacionar com pessoas por quem temos admiração, pessoas que tenham atos concretos de bondade, pessoas que possuam em suas vidas fatos reais ligados com o bem. Claro que isso não é garantia de um relacionamento perfeito, mas só o fato da pessoa não ser individualista e pensar em fazer algo pelo seu próximo, pode ser um indício que essa pessoa dará atenção para a pessoa que está ao seu lado. Fico também a pensar que João poderia ter usado o amor de Lorena para se apoiar e ter se tornado um ser humano melhor. Ele não se permitiu mudar e, com certeza, deve continuar a usar, iludir e enganar pessoas ingênuas e boas como Lorena. Existem no mundo milhões de João e milhões de Lorena. 105


Lembro-me dela triste e confusa em mais um almoço juntas. Contou-me a causa de seus visíveis ferimentos físicos. No domingo anterior, por volta de 7h30, saíram para caminhar. Estavam no sítio e empolgados com a possibilidade de cavalgar até a cachoeira, para ela desconhecida. Mochila com lanche nas costas e máquina fotográfica (ainda não era digital) presa no peitoral da mochila. Tudo parecia lindo e maravilhoso. No céu, de um lado, o sol esplendoroso, e do outro, a lua misteriosa. Logo no início da caminhada, ela fotografou uma árvore cheia de pombos e, no infinito, a lua branca que tudo sabia e observava. Caminharam por seis quilômetros, até chegar à hospedaria de cavalos. Para ele, foi preparado um cavalo branco, com olhar simpático e atendia pelo nome de Paraná. Para ela, uma égua com a orelha esquerda menor que a direita, causada por um ferimento já cicatrizado. Atendia pelo nome de Conquista: era marrom, bem mais baixa que Paraná e possuía um olhar não muito tranquilo. Lorena contou que nunca tinha cavalgado e precisava de um animal manso. Seriam mais 6 km até a cachoeira escolhida. O nome Conquista deu confiança e Lorena achou que era um sinal de boa sorte. Com o coração acelerado de felicidade e expectativa, montou a égua e iniciaram a cavalgada. Conseguiu relaxar um pouco e já conversava com Conquista; em cima dela, sentia-se uma amazonas. A égua teimava em passar próximo ao barranco. A natureza exuberante ostentava grandiosidade e Conquista começou a emitir um 106


som estranho. Como não estava acostumada ao animal, perguntou a João o que era aquilo. Ele respondeu que era normal. Na primeira subida, a égua disparou. Lorena ficou assustada, segurou mais forte e puxou o freio, percebendo que algo estava acontecendo. Outra subida maior e a égua disparou novamente; subiu em um barranco de aproximadamente um metro, saltou e voltou em alta velocidade, tudo num piscar de olhos. João gritou para ela puxar o freio. Isso ela já fazia com toda a força que possuía. A égua não obedecia nem ao freio e nem à voz de Lorena, que suplicava para Conquista parar. Com o corpo já doendo pelo enorme esforço físico, sabia que teria que aguentar os solavancos até a que a égua chegasse de volta na hospedaria, que estava a cerca de 2 km. Lorena sentiu forte medo. Clamou por santos e anjos e, em voz alta, pediu ao arcanjo Miguel que cuidasse dela. O corpo escorregou para o lado direito e a queda foi inevitável. Sentiu o cheiro da terra, o corpo raspando nas pedras, o mato, a testa ardendo. De bruços, olhou e viu Conquista em galope, se afastar. A dor na região lombar era forte e pensou logo na coluna cervical. Lembrou-se das poucas aulas que tivera de primeiros socorros. Virou de frente, apoiou a cabeça na mochila. Foi controlando a respiração e sentindo cada parte do corpo, movendo-se vagarosamente para saber se estava quebrada. A região lombar doía muito, mas 107


conseguia se mexer; o ombro ardendo e a testa queimando. Cuidadosamente sentou-se e colocou a mão na testa para saber se havia sangue. Aliviada, percebeu que era só terra vermelha. No corpo todo e no cabelo só havia terra vermelha. Lembrou-se do espelhinho que carregava na mochila. Olhou o rosto, a testa ralada. O ombro serviu de freio e sentiu vontade de chorar ao olhá-lo; as nádegas ardiam. Levantou, pegou na mochila uma caixa de lenços umedecidos que sempre levava nas caminhadas, no caso de precisar se limpar se sentisse vontade de urinar, e começou a limpar o rosto. Então, ouviu João gritando seu nome e ela não conseguia responder, estava assustada. Ele apareceu na curva da estrada segurando o boné que ela havia perdido quando Conquista disparou. Ele perguntou pela égua e se Lorena havia caído. Claro que ela ficou irritada com tamanha insensibilidade. Ele viu que ela estava suja e machucada. Pelo ocorrido, deu para perceber que ele em nenhum momento se preocupou com ela. Ele se preocupou em pegar o boné e a égua. Ela mostrou os ferimentos para ele, que insistia em ir à cachoeira. Ou ele não percebia a gravidade da situação, ou a ignorava. Só pensava nele, no passeio dele, no divertimento dele, no domingo dele. Ela resolveu voltar a pé para o sítio. Sabia que quanto mais esperasse, mais dor sentiria. Pegou os óculos de grife, comprado com o suor de seu trabalho e com economias feitas por longo período, todo arranhado. Novamente sentiu 108


vontade de chorar. Segurou o pranto, pegou a máquina fotográfica e começou a trilhar o caminho de volta. Se deixasse o corpo esfriar, as dores poderiam se tornar insuportáveis. João a seguia e tentava justificar o ocorrido com a total insensatez de sempre, como se Lorena tivesse provocado o acidente e estragado o passeio de domingo. Calada, sem nada responder, engolindo a indignação, ela seguia. Um dos donos da hospedaria apareceu de moto; o outro montava Conquista. Lorena continuava calada. João se explicava e se desculpava. Os proprietários da hospedaria perceberam o que havia acontecido pelo estado de Lorena e começaram a justificar que a égua era mansa. Então, Lorena se exaltou e perguntou por que gostaria de estar toda suja, machucada e com o passeio perdido. Ninguém, nem João, nem os donos da hospedaria, se manifestaram para levá-la a um hospital. Eles não percebiam a dor de Lorena, o drama, o desespero interno, por tanto egoísmo dos seres humanos, que só pensam neles próprios. João pediu que ela o aguardasse na hospedaria, que buscaria o carro. Ela não suportaria parar e aguardar. Ela sabia que teria que esperar muito tempo, pois ele lancharia antes, ligaria a televisão para ver o que estava passando e talvez ainda ligasse para casa para saber de alguma novidade. Algo dentro dela deu força para ir além do normal. Não sei se raiva, desprezo, a dúvida ou a certeza. Seguiam os quatro a pé, um empurrando a moto, o outro levando a égua e João levando 109


o cavalo. Próximo da hospedaria, ela olhou nos olhos da égua e sentiu que Conquista acompanhava todos os seus passos, quem sabe até seus pensamentos. Lorena a encarou e percebeu que sua força era maior que a do animal. O animal estava preso e ela livre. O cérebro trabalhava rapidamente. Eram muitos pensamentos ao mesmo tempo. No rancho, João achou interessante não cobrarem o aluguel dos cavalos. Indignada, pediu para ele tirar uma foto dela em frente à hospedaria. Queria registrar seu estado deplorável. A câmera não funcionou por conta da violência da queda. Ela quase não conteve sua fúria: havia perdido os óculos, que custou para conseguir comprar, e, agora, a máquina fotográfica que era nova, a qual também teve que fazer economias para realizar a vontade de tê-la. O certo mesmo era que o pessoal da hospedaria cobrisse o prejuízo de Lorena, mas ela sabia que não teria o apoio de João para tal atitude de justiça. Ela estava transtornada e não entendia a passividade dele. Não permitiu que ele lhe tocasse e nem carregasse sua mochila. Caro leitor. Acho que foi nesse episódio que nossa amiga Lorena começou a cair na real. Creio que ela começou a enxergar o tipo de pessoa que era João. E não terminou por aí. Na volta, em frente a uma fazenda, ele ainda sugeriu que entrassem para conhecer. Ela olhou para ele e gritou: - Seu desgraçado. Ainda não percebeu que você está bem, mas estou machucada?

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Ela já não conseguia mais se conter. Não controlava os pensamentos que embaralhavam. Acelerou os passos. Queria chorar e não conseguia. Por algumas vezes, a visão sumiu, mas continuou assim mesmo. Foram seis quilômetros de dor, sofrimento, tentando entender o animal e tentando entender o homem. No dia que Lorena me contou, no almoço, chorei com ela. Depois, em casa, chorei por ela, ao me lembrar da sua dor. Comecei a nutrir sentimento de ódio por João. Depois passou. O sentimento, que não era bom, não me levaria a um bom lugar. O que eu poderia fazer é dar atenção, amizade e carinho para Lorena, que ainda não estava preparada para a vida e, talvez, ainda passasse muitas provações até ter força suficiente para largá-lo.

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Ainda na festa da Semana Santa de 1940.

As imagens da Semana Santa:

pano) pano)

* Um Nosso Senhor Morto * Uma Nossa Senhora das Dores (feita de * Um Nosso Senhor dos Passos (feito de

As duas imagens de pano feitas pelo Revmo. Luiz Gonzaga Pinto.” Além das imagens da Semana Santa havia as imagens: * Nossa Senhora do Rosário * Sagrado Coração de Jesus * São José * Santa Terezinha * São Benedito * São Pedro * São Sebastião * Santo Antonio * Uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida * Quatro anjos custódios – alguns estragados 113


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06 de abril de 2012. Retornamos para São Lourenço, aproveitando o feriado da Sexta-feira Santa. Na serra, a estrada estava toda florida com quaresmeiras. Esta não é uma viagem investigativa sobre o Padre Zequinha, embora tudo aqui tenha a ver com ele. Ou a história do padre tem tudo a ver com São Lourenço, já que aqui ele nasceu e, tenho certeza, que foi acompanhado por tudo que aqui viveu. Meu ideal era passar a tarde no Parque das Águas, o que não foi possível por conta de uma forte chuva. Esperamos a chuva passar e fomos ao cruzeiro para ver, lá de cima, a cidade por um ângulo que ainda não tinha visto nas viagens anteriores. Para nossa surpresa, o senhor que mora e cuida do local mostrou um carneiro com quatro chifres, uma anomalia não explicada pelo veterinário. Soltas, várias ovelhas e galinhas, cavalos prontos para serem alugados e um clima tipicamente mineiro. Não era para menos, apesar de estarmos no estado das Minas Gerais, muitas regiões já perderam seus hábitos culturais por conta da globalização. Sexta-feira Santa, carneiro, cordeiro de Deus, cruzeiro. Tudo ligado a Jesus Cristo e com a data. Agora me pergunto: “O que tenho que aprender e não possuo percepção para tal?” A cidade aqui do alto é ainda mais bela. Dá para ver o Parque das Águas, os prédios, os hotéis, alguns bairros, as montanhas e o céu.

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À noite, fomos comer pastel de alho. Aliás, pastel é uma iguaria muito apreciada por aqui. Passamos em frente à igreja do bairro Federal, onde um palco foi montado para a encenação da Paixão de Cristo. Estava muito bonito. Fomos à Igreja Matriz. Terminada a missa, pessoas entravam na fila para tocar o manto da imagem de Nossa Senhora, que tinha no rosto a expressão de dor pela morte de seu filho Jesus. Ao lado, a imagem de Cristo deitado, seminu, com as chagas da crucificação. Ao redor de seu corpo, foram colocados vários ramos de manjericão. O povo pegava os galhinhos para plantar. A cena era tão forte e verdadeira que tive que me conter para controlar as lágrimas. São Lourenço mantém suas antigas tradições religiosas. Voltamos para casa e fomos escutar uns “causos”. Narrado do jeito que me foi contado: “Muitos não interpretam corretamente a palavra de Deus. A bíblia é a palavra de Deus. Mas não é do jeito que está escrito lá, porque foi escrito não sei quantos anos antes de Cristo. Muitos abrem a bíblia e está escrito: E aí, Judas foi e se enforcou. A pessoa fecha a bíblia e diz: - Nossa... Será que é isso que Deus quer de mim? Então, a pessoa abre a bíblia de novo, sem escolher a página, e está escrito: Vá e faça o mesmo. - Nossa! Então Ele está querendo que eu me suicide mesmo!

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A pessoa fecha a bíblia, novamente. Abre e olha o que está escrito: Não deixe para fazer amanhã o que pode fazer hoje. Aí, você vai e oferece a corda para essa pessoa. Se ela acha que é assim que interpreta a bíblia, que é assim a palavra de Deus, ela ou ele, morre enforcado.” Só dando risadas. Aqui na região, e no interior, existe a lenda do corpo seco, que também é conhecida no interior de São Paulo e outros estados brasileiros. O folclore brasileiro é rico em lendas sobre o corpo seco: Conta-se que havia uma pessoa má, que batia na própria mãe. Quando eu era pequena, ouvia minha mãe contar que quem batia na mãe virava corpo seco. Que no bairro São Lourenço Velho, uma mulher vivia presa em um quarto, que ela tinha virado corpo seco. Era conhecida da minha mãe. O corpo seco é uma pessoa tão má, que foi rejeitada por Deus e pelo diabo. Que até mesmo a terra onde foi enterrado o rejeitou e o expulsou. Então, seco e podre, vive junto aos troncos de árvores nas florestas. Um “causo” de corpo seco. (Do jeito que me foi contado)

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“Meu pai contava que trabalhava de carpinteiro. Antigamente, não tinha madeira pra vendê, cumo tem hoje. Ele contava que tinha que í no mato panhá madeira, serrá no jirau, no plantadô, no machado. Pra fazê rancho, pra fazê casa, fazê igreja, fazê tudo. Aí, foi cum o cumpanheiru dele no Córgo da Onça, panhá, cortá mato, pra fazê um rancho. Tinha uma mina d’água e foram enchê a cuia d’água pra bebê. O pai disse que o cumpadre dele viu um pau deitadu e falô: - Ô cumpadre, alá um carapicú bão! Carapicú é esses cogumelinho que dá em pau podre. - Alá um carapicú bão pra nóis armoçá! O pai disse pra ele: - Cumpadre, num mexe cum isso não. Isso deve tá contaminado. - Ah... Ocê é bobo. Num come isso? - Eu num comu não. - Eu vou lá pegá um pouco. Foi lá e começou a panhá aquilo. O pau tava tipo uma cruz, caído no chão. O pai disse que a hora que ele passô a mão debaixo do braço da cruz, que puxô, uma voz falô pra ele: - He, he, tá fazendo cócega. Era um corpo seco. O ômi largô o machado, a cuia dele e perna pra quem tem. Nunca mais voltô lá, nem pra buscá o machado. O meu pai falou: - Conheceu? Dizem que o homem tá correndu até hoje de medo.”

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07 de abril de 2012. No sábado, o tempo amanheceu melhor. A noite anterior, depois da contação de causos, me proporcionou um espetáculo, talvez único em minha vida. Chovia e eu estava preocupada; queria muito, pela primeira vez, tomar um banho relaxante no balneário do centro hidroterápico do Parque das Águas. Então, sozinha, fui para a varanda, para olhar a chuva e talvez programar outra coisa para fazer no dia seguinte, caso a chuva permanecesse. Chovia forte. Não trovejava e nem relampejava. Olhei para o céu em toda sua extensão e do lado direito, surpreendentemente, o céu estava estrelado e a chuva permanecia. Achei lindo, encantador. Agradeci a Deus e ao universo pela grandeza da oportunidade vivida. Talvez a chuva fosse a última nuvem carregada que estava passando, indo molhar outras ruas, outras casas, outras pastagens, outros corações. Aquele momento raro permitiu que eu visse o céu escuro, chuvoso e o céu limpo, o brilho das estrelas. Meus olhos e minha alma saboreavam as duas visões que, na verdade, eram apenas uma. Não eram dois tempos: era um único tempo, uma única visão, um êxtase profundo de paz. Então, pedi a Deus que sempre me ensinasse a ver esse tempo único. Pela manhã, bem cedo, fui direto para a varanda, olhar o céu que tanto me encanta e verificar se não havia pesadas nuvens indicando chuva. Dei um suspiro de deslumbramento ao ver o céu, ainda um pouco nublado, e um lindo balão 119


colorido de amarelo, vermelho e azul a lhe enfeitar. É tradicional o passeio de balão por turistas, só que o horário é mais cedo e a rota é outra. Parece que algo aconteceu. Talvez as nuvens atrapalhassem e o balão teve que ficar com menos altitude para que os turistas admirassem a paisagem. Não sei, só sei que mais uma vez fui presenteada com a generosidade dos deuses. Dei um jeito de descer para o parque. A casa onde ficamos é em um morro e tem uma linda vista da cidade. Um olho na rua e outro no céu. Olhando por onde passava e olhando o balão que continuava parado, como se Deus tivesse usado um pincel e eternizado ali o balão colorido. Parecia uma cena imaginária e não real. Passei pela Vila Verde, com as lojas ainda fechadas. Fazendo a separação dos chalés com o parque, vislumbrei altos pinheiros. Suas folhas em diversos tons de verde cortinavam a extensão do parque, apontando para o céu e para o balão. Meu coração encheu de gratidão. Esta viagem foi uma forma bem íntima de comemorar meus 46 anos de vida, ainda que com o coração triste e sofrido pela falta da minha mãe. Eu queria muito estar em comunhão com Deus, com o universo e com o bem. Não sei se presente de Deus, de minha mãe, da Ordem Divina, do desconhecido, ou seja lá o que for, é do bem e me deram presentes incalculáveis, preciosos, enaltecedores e únicos. Já dentro do parque, como em um estalo, coisa de segundo, decido fazer um ritual. Um ritual de renovação. Vou apenas seguindo minha intuição. Passo perto de um carvalho e coloco 120


minhas duas mãos nele. O carvalho é símbolo de força e resistência. Vou até a fonte gasosa para respirar o gás, como se fosse o sopro da vida. Em seguida, passo por todas as fontes de água mineral e tomo um gole de cada, para que limpem, por dentro do meu ser, minhas imperfeições. Sento em um banco bem aos pés do lago, atrás do balneário. Aliás, o balneário foi construído com arquitetura e toques neoclássicos, fundado em 1935. É de suma importância turística e cultural. Existe registro de que em suas águas já se banharam os ex-presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek e milhares de personalidade importantes. Estico minhas pernas sobre o banco e ocupo todos os lugares. Observo o lago e seu redor. Avisto o cruzeiro onde estivemos ontem e vimos o carneiro de quatro chifres. As árvores e os prédios que fazem sombra no lago, que é o único espelho que reflete desde o tronco até o galho mais alto das árvores, e o único espelho que reflete os grandes prédios, até suas antenas parabólicas. A ondulação que o vento faz na água me relaxa e fico quase a cochilar. Passo a dar atenção ao canto dos pássaros, aos ruídos das crianças, alegres a brincar, e aos namorados que escolhem o melhor ângulo para fotografar e eternizar o momento. O balneário abre. Escolho um banho aromático em água sulfurosa, na banheira vitoriana. Existem muitas opções: ofurô, sauna, ducha escocesa, massagens, shiatsu, terapias com pedras quentes, reflexologia com escalda-pés 121


e muito mais. Fico em uma sala de espera, deitada em uma cadeira confortável, lendo uma revista sobre natureza. Algumas vezes, deixo meus olhos passearem pela paisagem externa, até que meu banho seja preparado e eu seja chamada. A água é morna e o cheiro agradável. Fico em uma sala fechada, na ala feminina, com chinelo e toalhas brancas. A sala é individual. Então, como vim ao mundo, cochilo e ressono, acariciada pela água que continua meu ritual, me limpando exteriormente. Até que, gentilmente, venham me avisar que meu tempo de vinte minutos terminou. Fui para a ermida orar e agradecer pelo divino final de semana. Ao sair, visualizo raios solares coloridos banhando as folhagens ao redor do sino. Desço as escadas e sigo um delicioso e alegre som instrumental que me leva à catedral de bambu. Um espaço para apresentações, ao ar livre, com bambus formando arcos e portais, para aproximadamente 200 pessoas. Um saxofonista inunda o ambiente com o som que tira do instrumento. Algumas pessoas assistem sentadas, outras se unem e dançam alegremente e outras, como eu, apoiam o cotovelo na pequena ponte e se encantam com a harmonia da música com o lugar e com os turistas. À tarde, uma amiga que mora em São Lourenço, conhecendo minha vontade, me convidou para subir a montanha sagrada. Já eram 16 horas. O caminho inicia-se pela Fazenda Santa Helena, estrada de terra e com muitas pedras, um pequeno trecho, pois logo começa o asfalto. Íngreme é a subida. É necessário: disposição, fôlego e bons joelhos. 122


Começamos tarde e não sabíamos o tempo necessário até o topo. As copas das árvores se juntam e fecham, impossibilitando que, em alguns trechos, vejamos o céu e a luz do sol. Comecei a me preocupar com a volta. Sorte que minha amiga corajosa insistiu para continuarmos. Ouvimos um forte trovão e achamos que logo choveria. Ficamos em dúvida, pois o céu estava bem claro, de um azul encantador. Acho que o céu está conversando com a montanha, ou é a montanha que está conversando com o céu? A verdade é que ambas ouvimos o trovão. Grande foi nossa alegria e satisfação quando chegamos na torre. Tínhamos não vencido a montanha, mas vencido a nós mesmas. Com determinação, superamos nossos limites físicos e nosso medo do desconhecido. O prêmio foi o maravilhoso visual da cidade com seu emaranhado de prédios e as montanhas além deles. O céu é incrível: as nuvens vão de um cinza claro ao branco, que ofusca a vista pelo brilho. A vontade é ficar admirando. O avançar das horas avisa que precisaríamos retornar. Na subida, passou por nós um grupo de turistas a cavalo. Não os encontramos na torre; como tinha um caminho para o outro lado, deduzimos que foram pelo outro caminho. Na descida, ouvimos o trotar dos cavalos à nossa frente. Nós os alcançamos e conversamos com os turistas, que contaram estar na Rampa de Parapente, que fica no fim da estradinha que não passamos, e que o visual de lá era incrível. Então, ficou um sabor de “quero ir”, para uma próxima vez, para também conhecer a pedra 123


oca, que dizem ser sagrada. Quando acabamos de descer, os últimos raios solares do dia davam um espetáculo de beleza no céu, deixando as nuvens ora alaranjadas, ora rosadas. E assim foi mais um inesquecível fim de semana em minha terra natal, São Lourenço.

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Ainda na festa da Semana Santa de 1940:

“O esquife (caixão) para ser utilizado na festa da Semana Santa de 1940, foi preciso consertá-lo. Dez toalhas, quatro bem conservadas e seis cheias de ferrugem e bolor preto. Dois estandartes, um de São José e outro do Sagrado Coração de Jesus. Dois pálios (armação portátil, com varas, que se leva em cortejos e procissões, para cobrir a pessoa festejada ou o sacerdote que leva a custódia) e uma umbreca. Ainda restavam alguns paramentos brancos, mas antilitúrgicos em mui ruim estado.”

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No dia seguinte ao falecimento e enterro de minha mãe, fui ao cemitério. Choveu muito no enterro e o sepultamento foi rápido. O dia amanheceu bonito, mas nada estava bonito. A gaveta estava fechada e ela estava lá dentro. Um corpo morto. O corpo da minha mãe. Queria gritar, queria arrancá-la de lá, ou então me deitar a seu lado e ficar abraçada a ela até a morte se compadecer da minha dor e me levar para onde ela está agora. Nada disso fiz ou pude fazer. Senti-me um nada, impotente. Desesperada, tirei as faixas das duas coroas e levei para casa. Queria levar minha mãe de volta para o lar. Pensei: “Isso é dela e o lugar é no lar dela, com as coisas dela.” Escondi as faixas dentro do armário do meu quarto. Na semana seguinte, acordei com um forte barulho de estilhaço. Levantei, olhei em tudo e pela janela e nada vi quebrado. Voltei a dormir. No horário de levantar, o fiz como de costume e fui para o banho. Quando saí, meu pai perguntou se eu ouvi do banheiro, o barulho de minutos atrás. Eu disse que não. Ele contou que estava na cozinha e de repente uma xícara estilhaçou dentro do armário. Na outra semana, sempre que lavava a louça, deixava escorregar ou bater na pia e quebravam com grande facilidade. Comecei a estranhar a sequência de coisas que quebravam, xícara, copos, pratos e espelho. Certa tarde de sábado, estava organizando papéis no armário da sala. Estava sozinha, sentada no chão e estremeci 127


quando ouvi um ensurdecedor barulho de vidro quebrado que vinha do quarto da minha mãe. A jarra de vidro transparente e grosso, que eu havia dado para ela, havia tombado e estava em mil pedaços pelo chão. Limpei tudo e orei. No dia seguinte, levei as faixas para o cemitério e as deixei no suporte da gaveta. Os objetos de vidro pararam de quebrar dentro do apartamento. Mantenho o apartamento do jeito que ela deixou. Meu pai cogitou em mudarmos, mas eu não suportaria viver longe de suas coisas, de sua memória e lembranças. Do jeito que está, parece que o tempo não passou e ela voltará a qualquer momento.

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Cada vez mais penso em Lorena, que coração bom ela tinha. Tudo perdoava; se permitia ser feliz e ser várias vezes enganada por João. Ela se permitia sonhar e ser enganada com toda facilidade. Não tinha maldade no coração, não via maldade no coração das pessoas. Fico a imaginar em que mundo ela vivia. Creio que no mundo da ilusão e da mentira, para se permitir ser feliz.

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28 de abril de 2012. Sábado. Viajo para Poços de Caldas (MG), onde na Flipoços (Feira Literária de Poços de Caldas) haverá lançamento da antologia Palavras Sem Fronteiras 2. Participo com o texto “Mais uma história de amor” que, também no ano de 2010, foi publicado na antologia Elas Escrevem. Estou com uma virose que provoca vômito e diarreia. Estou consumindo apenas medicamento para combater a virose e água de coco. De Poços de Caldas, vou para São Lourenço para encontrar meu pai e participar da peregrinação de Nhá Chica, uma caminhada de 33 km de São Lourenço até Baependi. Nhá Chica que, recentemente, foi beatificada pelo Vaticano, é considerada, no sul do estado de Minas Gerais, como a mãe dos pobres. Era analfabeta e filha de escrava. Francisca de Paula de Jesus, Nhá Chica, acredita-se ter nascido em 1808 e falecido em 1895, na cidade de Baependi. Tornou-se órfã aos 10 anos de idade. Seguiu o conselho de sua mãe para não casar e entregou sua vida para Deus, para a religiosidade. Dedicou sua vida à fé e à caridade. Já na mocidade, dava conselhos ajuizados, palavras de consolo e conforto. Ela recebia e dava esmolas. Depois das orações que organizava, distribuía alimentos para os mais necessitados; sempre tinha um socorro para ofertar. Construiu a capela à Imaculada Conceição, para atender um pedido da própria Nossa Senhora. Dirigia-se a Nossa Senhora da Conceição como “minha sinhá” (minha senhora). 129


29 de abril de 2012. Domingo. Aproveito para descansar da viagem de Poços de Caldas e para recuperar um pouco da disposição que foi perdida por conta da virose e falta de alimentação. Vou à feira livre, na intenção de comprar doces e queijos frescos. Porém, meu estômago ainda não conseguiu pensar em alimentos. Volto sem nada. Preocupo-me se conseguirei fazer a peregrinação com o organismo debilitado. Em Poços de Caldas, fui pela primeira vez. Achei interessante e bastante diferente da Flip (Feira Literária Internacional de Paraty) e também diferente das Bienais Internacionais do Livro do Rio de Janeiro e de São Paulo. O formato é menor e tem a vantagem do público ser bastante participativo. A cidade, conheci pouco. Cheguei cedo, pois viajei de madrugada e o pouco tempo que fiquei foi no espaço da feira, mantendo contato com os organizadores do estande onde estava sendo lançada a antologia que participei e mantendo contato com outros autores. O único lugar de turismo que conheci em Poços de Caldas foi o imenso jardim que fica ao lado da Praça do Relógio. Achei o jardim lindo e o povo educado. Pretendo retornar em 2013, se assim Deus permitir, e ficar mais alguns dias para aproveitar mais o evento literário e conhecer melhor a cidade.

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30 de abril de 2012. Segunda-feira. Meu pai me convence a ir com ele ao cemitério. Continuo indisposta por conta da virose e preocupada se conseguirei fazer a peregrinação. Minha intenção é começar por volta de meia-noite. Porém, chove e a estrada de terra não apresenta segurança pela falta de iluminação, apesar de ter estrutura de apoio das cidades por onde os peregrinos passarão: exército, equipes médicas, os poucos moradores ao longo das estradas e voluntários. Não entro no cemitério. Fico no carro e observo uma árvore seca, totalmente sem folhas, uma árvore morta dentro do cemitério. Essa árvore chama minha atenção por causa de um casal de tucanos que dela faz descanso e começo a orar: Senhor, Que nesta manhã nublada e chuvosa, Eu consiga entender suas mensagens, Aqui neste solo sagrado, De tantas vidas e tantas mortes. Na árvore morta e ainda de pé, Servindo de apoio para tantas aves Descasarem e depois, Alçarem voos longos e curtos, Altos e baixos. Amém. Voltamos para casa onde estávamos hospedados e faço repouso.

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01 de maio de 2012. Terça-feira. Optei por começar a caminhar às 4 horas. Com lanterna na mão, a estrada de terra parecia boa, com algumas poças d´água, fáceis de desviar. No primeiro posto de apoio, decido parar e aguardar o dia clarear para fazer a peregrinação. O barro e a lama deixaram a estrada escorregadia. No posto de apoio, o caminhão do exército deslizou e caiu na vala que beira o barranco. Peço informação sobre o caminho. Contaram que uma mulher havia torcido o pé e alguns trechos não tinha passagem para carro e para socorro, caso fosse necessário. Com um cajado feito de cabo de vassoura, esperei o dia clarear e me preparei para o pior. Até que estava tranquilo e foi bom, porque meus olhos vibraram com a paisagem matutina, com as nuvens ainda beijando o solo das montanhas. Em alguns sítios, o gado ainda dormia, mas os tucanos e as maritacas voavam curiosos para saber o que acontecia. Em Caxambu, uma obra da prefeitura criou obstáculos para os caminhantes. Passei por muitos peregrinos e muitos passaram por mim. Em todos, a emoção de vencer seus próprios limites espirituais, os limites da estrada, os limites do físico e dos pés cansados. A chegada foi em Baependi, na igreja de Nossa Senhora da Conceição, construída por Nhá Chica. Nos fundos da igreja, a pequena e humilde casa onde morou a santa dos pobres, a mística Nhá Chica. Na igreja, o túmulo e os restos mortais da serva de Deus. Na pequena casa, a imagem de 132


Nossa Senhora da Conceição, que pertencia a Nhá Chica. Agradeci pela força e pela fé que me foi dada para concluir o caminho. Nhá Chica, apesar de ser analfabeta, compunha versos para Nossa Senhora da Conceição e é conhecida também como protetora dos escritores. Seu devoto mais famoso é o escritor Paulo Coelho, que tem uma linda história de amor com nossa querida e adorada Nhá Chica.

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Após minucioso levantamento feito na Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, em 23 de Fevereiro de 1939. “Pensei em voltar-me para Campanha, mas devo ouvir as palavras que vieram do céu: Pax vo bis, a paz seja convosco. Assim como meu Pai me enviou, assim eu vos envio. Eis que eu estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos (MT-28-18)”.

Mateus 28.18-20 “Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda autoridade me foi dada no céu e na Terra. Ide, portanto. Fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos.”

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Final de 2012. Um ano se passou desde que comecei a escrever sobre o Padre Zequinha. Na verdade, pouco escrevi ou fiz viagens investigatórias. Muitas coisas aconteceram nesse período. No ano de 2009, deixei uma mensagem em um blog que conta a história da cidade de Carmo da Cachoeira. Informei que ia escrever um livro sobe o padre e estava em busca de mais dados sobre a vida dele. Eu tinha me esquecido completamente desse fato. Logo que retornei de Carmo da Cachoeira, depois da minha segunda ida, no início de 2012, recebo um e-mail com apenas duas linhas, e bastante estranho, de uma pessoa que também é parente do padre. Como era de se esperar, familiares que não conhecemos, não somos cientes de sua existência. Foi uma grande surpresa. A pessoa se identificou de forma bem direta, com a intenção de adquirir o livro. Uma mulher. Que bom! É uma mulher! Uma mulher entende outra mulher. Apesar do e-mail ter sido tão direto, apenas duas linhazinhas, eu era pura emoção. Tive que me acalmar para responder; precisava ter a atenção dessa mulher, ou ela poderia não mais retornar. Era um contato que, intimamente, eu silenciosamente aguardava desde o ano de 2003, quando estive pela primeira vez em Dom Viçoso. Deixei pistas, deixei telefones, deixei cartões, deixei mensagens em vários sites e blogs. E agora, inesperadamente, quando eu já não mais 137


acreditava neste contato, ele me chega, cai do céu. Sinto que tenho um pássaro na mão e preciso dos movimentos para mantê-lo ali. Ele terá que ficar livre e liberto, porém querendo permanecer. Cada célula do meu corpo vibra de êxtase e medo. Êxtase por um contato tão direto, que poderá esclarecer tudo. Como em um passe de mágica, toda a verdade pode vir a tona. E eu poderei me libertar do compromisso com o livro, ele será escrito mais rápido. Será mais fácil para mim, pois não tenho recursos financeiros, tempo, experiência de detetive ou intuição apurada para desvendar mistérios. Medo. Medo que essa mulher se contraia, que fuja, que desista de manter contato. Ela quer o livro, então deduzo que ela quer saber o conteúdo do livro. O que tanto ela quer ler no livro? Possivelmente, pesquisou na internet e nada achou sobre o livro escrito, claro. Ele ainda não está pronto e ela não sabe. Com certeza, ela quer saber se o mistério foi desvendado. Será que ela é do bem? Ou não? Ela foi educada. Minha intuição diz que não foi amigável, apenas educada. Não sei porque a cautela se aproxima e senta à minha frente. A mulher não se intimida ao mencionar no e-mail parte do segredo que já conheço. Sinto que a intenção dela é me chocar e me desestruturar. Ela não sabia que eu sabia, então por que ser tão direta em um assunto tão delicado? Resolvo ser verdadeira, simples e clara. O que tiver que ser, que seja. Como orientou o senhor de Figueiras: “Seja feita a Sua vontade”. 138


Incrível! Quando damos os passos necessários para ir à busca de algo, coisas vão acontecendo na direção. Mas acabo fazendo uma confusão ao responder o e-mail. Como não me lembrava do blog e nem da mensagem, achei que a pessoa tivesse me visto em Carmo da Cachoeira, já que ela mencionou que me viu comentando sobre o livro, quando na verdade ela tinha visto no blog. Respondo seu e-mail: “Meu nome é Eliana Neri. Nasci em São Lourenço (MG). Moro em Barra Mansa (RJ). Minha avó Albertina era irmã do Padre Zequinha. A ideia do livro surgiu faz muitos anos, mas só agora está se concretizando. O livro ainda está em fase de pesquisas. Já viajei para algumas cidades buscando informações e fatos sobre sua vida, porém ainda falta bastante coisa e você é um achado muito importante. Saiba que nada é por acaso, que Deus determina cada passo que damos. Tenho certeza que você pode me ajudar bastante. Olha só que curioso: estivemos pertinho uma da outra. O destino é mesmo surpreendente e fantástico. E Deus é divino quando quer que as coisas aconteçam. Estou organizando todo o material pesquisado, colocando em ordem e escrevendo. Também me programando para conseguir uma folga ou férias no trabalho para voltar em algumas cidades onde já estive e ir a outras por onde o padre passou, para continuar a pesquisa. Minha programação é que o livro seja editado até o final do ano. 139


Se for de sua vontade, gostaria muito de manter contato com vocĂŞ. Paz e Bem!!!

No e-mail que recebi, a pessoa se identificou, dizendo que conhecia a famĂ­lia mais prĂłxima do Padre Zequinha, ou seja: filhos, netos e bisnetos.

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Trecho do próximo livro da trilogia

No dia 11 de outubro do ano de 2003, estive pela primeira vez na cidade de Dom Viçoso (MG), cidade onde minha mãe nasceu. Fomos eu, minha mãe e meu pai. Estávamos passeando em São Lourenço. Um dos objetivos da viagem era ir a Dom Viçoso. Minha mãe estava um pouco estranha, talvez pela possibilidade de voltar à cidade onde nascera. Amanheceu chovendo, mas fomos assim mesmo para São Lourenço. Lá, pedimos informação com um tio sobre o estado da estrada de Dom Viçoso e ele informou que estava boa. De São Lourenço, até o início da estrada para Dom Viçoso, foram 4 km de asfalto cheio de buracos enormes, depois mais 19 km de estrada de terra. Isso no ano de 2003. Hoje, a estrada já está asfaltada e realmente agora está boa, além da paisagem ser encantadora. Como no dia estava chovendo, o carro deslizou várias vezes na estrada de terra, chegando quase a bater no barranco. A pequena cidade fica em um vale cercado por montanhas e os moradores são simples e educados. No caminho, passamos por fazendas e sítios. Próximo a uma cerca, havia um boi 141


que me impressionou por seu olhar marcante. Fiquei observando o gado nos pastos. De longe, avistamos a Igreja Matriz de um azul da cor do céu. Então, meu coração bateu mais forte e acelerado. Passamos em frente à casa que foi dos meus avós e onde minha mãe nasceu. Mais à frente, a venda que foi do seu padrinho. O carro que estávamos mudara de cor: de branco, para vermelho barro. Estacionamos entre a Praça e a Igreja Matriz. Fiquei olhando para as árvores da praça, procurando pela araponga que não parava de cantar. Parecia um martelo borracha gigante. De repente, o sino da igreja tocou, anunciando que era meio-dia. Meu pai apontou para uma venda na rua lateral à Praça, para buscarmos informação de onde almoçar. Minha mãe apontou também, penduradas na parede, do lado de fora da venda, duas gaiolas pequenas. Em cada uma, a espécie de pássaro grande, arapongas. O pássaro é branco, com a parte da frente da cabeça e bico pretos. Entramos e encontramos três pessoas: o dono da venda e das arapongas, um fazendeiro e um rapaz que aparentava ter tomado umas pingas (seus olhos avermelhados o denunciavam!). Eles foram bastante atenciosos, comentaram sobre o folclore de um crime que aconteceu na cidade e sobre um padre que tivera dois filhos. Como assim? Padre pode ter filho? Desde quando? Minha avó Albertina, irmã do Padre Zequinha nunca comentou que ele tivera filhos. Estou chocada, sem entender o que está acontecendo. Os senhores contaram também que 142


em Dom Viçoso havia um homem que era bastante conhecedor das histórias do passado da cidade. Para procurarmos o Sr. Gominho. Passamos em frente à casa da minha bisavó e almoçamos em um bar, único lugar que servia almoço. A chuva voltou e ficamos preocupados por causa do perigo da estrada escorregadia. Decidimos voltar para São Lourenço. Eu não queria saber de mais nada; estava decepcionada com a revelação sobre o padre. ................................................................

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Dia 28 de dezembro do ano de 2011. Depois de 8 anos, retorno à cidade de Dom Viçoso para tentar descobrir o que aconteceu com o Padre Zequinha naquela cidade. Quem seriam seus filhos e seus descendentes? Como viveriam atualmente? Durante esses oito anos, apesar da minha recusa em aceitar os fatos, a história não saiu da minha cabeça. E eu preciso de paz interior. Na estrada, lembro-me do olho do boi. Existe uma semente que se chama “olho de boi” e é utilizada como amuleto, contra inveja e mau olhado. Paramos no mesmo lugar, entre a praça e a matriz. Na parede externa da venda, não existe mais gaiolas e nem arapongas. Hoje, eu sou a araponga, ou seja, tento ser uma detetive araponga.

Sim, eu sou uma detetive araponga!

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A Busca  

Livro A Busca Eliana Neri

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