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Fonte

Singular Singular

INICIATIVA

REALIZAÇÃO

PATROCÍNIO

PARCERIA

APOIO

COLABORAÇÃO


Sumário Apresentação 5 Goethe-Institut SP 7

Primeiro de abril: um jogo entre um jogo, entre um jogo... 62 Teca Alencar de Brito

Os habitantes da “Casa das estrelas” 10 Javier Naranjo

O trovão e o relâmpago, sobre a relação entre som e imagem no mundo infantil 72 Hélio Ziskind

Compromisso com a criança, uma conversa com Jan-Willem Bult 18 comkids e Felipe Jahn

Desenho, infância, trabalho 76 Laura Teixeira

A casa azul 29 Gabriela Romeu

comKids Inovação – programação 78 comKids Inovação – imagens 84

Espaços que honram a infância 36 Cielo Salviolo O brincar e as janelas para inspiração 44 Garatujas Fantásticas

Vídeos

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Sobre o comKids 90 Equipe e agradecimentos 93

Escola: espaço de cultura e inovação 52 Luiza Furman e Helena Mendonça O casting, indo além da busca de personagens de TV 56 Claudia Patrícia González


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Apresentação

Com o objetivo de fazer um debate sobre o novo e seus conceitos, criamos o espaço do comKids Inovação. Já há algum tempo, a palavra “inovação” tem um uso quase indiscriminado para se referir ao diferente, ao especial e ao criativo. Mas seria apenas isso? Quais são os seus conceitos? O que ela é de fato? O que é inovação dedicada à infância? Quais são os processos de inovação social e cultural voltados para crianças? O que caracteriza as produções criativas e inovadoras? Como criar novos modos de desenvolvimento e produção para e com crianças? Como oferecer uma produção cultural que potencialize a iniciativa, a curiosidade e a criatividade das crianças (e dos profissionais que trabalham com a infância)? Em abril de 2014, realizamos o comkids Inovação junto com nosso parceiro Goethe-Institut e vieram respostas a essas perguntas em várias tonalidades. Entre elas, buscar a essência da infância para se inspirar e se dedicar a ela nos pareceram modos permanentes de inovação, ou um movimento contínuo de criar e produzir para crianças. Infância vista como aquele estado de encantamento, curiosidade e surpresa, como quem vê o mundo pela primeira vez. Aprendemos que podemos potencializar a criatividade e o desenvolvimento humano e infantil a partir de suas capacidades cognitivas, simbólicas e emocionais, e que a arte e a cultura estimulam e se conectam com a infância com o frescor do olhar das crianças. Em uma reunião de convidados bem diferentes, que trabalham com várias linguagens e iniciativas, abordamos temas relacionados à inovação cultural, social, tecnológica e artística. Tratamos a criatividade na linguagem e na metodologia de produção para a infância

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e a apresentação de iniciativas nacionais e internacionais de projetos inovadores em audiovisual e em plataformas digitais e interativas. A partir desse encontro, e de outras conexões com amigos do comKids, organizamos esta publicação, onde temos Javier Naranjo, com sua contribuição que mostra que a poesia tem mais a ver com a vida do que com genialidade; uma prosa com Jan-Willem Bult, em um lugar em que as crianças estão no centro; Gabriela Romeu nos conta sobre a Casa Azul, onde uma das lições mais fortes é a amizade e a humanidade profunda, além das lindas imagens produzidas por meninos e meninas da Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri. Também temos as belas contribuições de Teca de Alencar sobre música e criatividade, as do nosso parceiro Garatujas Fantásticas sobre as janelas da inspiração da infância e as de Cielo Salviolo sobre o Tríptico da Infância, projeto que conta com a gestão de Chiqui González, que esteve conosco no evento. A realizadora colombiana Claudia González compartilha a reflexão sobre seu trabalho com as crianças e outros caminhos para o casting e as professoras Luiza e Helena da Escola da Vila compartilham a ideia de que escola também é espaço de inovação. Por fim, percorremos os processos criativos do músico Hélio Ziskind e da ilustradora Laura Teixeira, que estiveram com a gente presencialmente. Entre palavras, ideias e imagens, temos também a felicidade de compartilhar registros do encontro, que contam com pílulas em vídeo realizadas por nossa equipe.

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Beth Carmona

Vanessa Fort

Diretora-geral e editorial do comKids

Coordenação geral e editorial comKids


Goethe-Institut SP

O Goethe-Institut, em todas as suas unidades espalhadas pelo mundo, contribui para a diversificação e a renovação da cena cultural local. Em São Paulo, a parceria com o comKids acontece justamente nesse caminho, especialmente na vontade de redescobrir e inaugurar olhares sobre a produção cultural voltada para crianças e adolescentes. O comKids Inovação, passo importante no trabalho conjunto entre o Goethe-Institut e o comKids, vem solidificar nosso interesse em fomentar as discussões e projetos voltados para a infância, além de representar um investimento sincero na qualidade das produções oferecidas às crianças e jovens. Concretizando a parceria para essa edição do comKids Inovação, o Goethe-Institut ofereceu uma Menção Honrosa ao projeto que, de maneira original e consciente, procura ainda na fase de elaboração e produção, um envolvimento direto com o público para o qual é construído. Temos a certeza de que pensar na recepção dessas produções de maneira complexa e profunda só tem a contribuir para que os projetos fiquem melhores e consigam estabelecer pontes diretas com o imaginário e as potências do público infantojuvenil. Envolver o público como produtor de sentido do próprio trabalho é um desafio grande, todavia acreditamos muito na criatividade da rede que o comKids vem formando com tanta dedicação desde o seu início. Laura Hartz Diretora do Departamento Cultural em São Paulo e para a América do Sul Goethe-Institut São Paulo 7


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Os habitantes da “Casa das estrelas” Javier Naranjo

Da guirlanda de lugares comuns com os quais se adorna a infância – a ternura das crianças, sua imaginação sem limites, seu riso plural e contagiante, seus desenhos espontâneos – não acredito em nenhum deles. Onde outros adultos veem imaginação sem censura, eu vejo desenhos sem sentido, onde outros veem frases que elevam à categoria de verdades reveladas, eu vejo orações torpes ditadas pela ignorância do idioma. Onde todos os pais veem gênios, eu vejo humanos que, em sua maioria, serão senhores e senhoras comuns que não descobrirão a origem do universo nem escreverão a novela perfeita, que terão empregos insignificantes e envelhecerão vendo televisão com seus filhos perfeitamente comuns nos que, por sua vez, desejarão ver meninos gênios. O etecetera é eterno. Leila Guerriero (Trad. libre)

A vida é uma imagem que vai se desconfigurando, perdendo os contornos, dia-a-dia. Crescer é o trânsito da imagem precisa à distorção. Quero seguir sendo menina para conservar a vista.                                          Claudia Masin (Trad. libre)

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Quando deram um nome a esta conversa, eu o questionei, poderia parecer a algumas pessoas algo exageradamente doce e previsível, essa dose intragável de glicose com a qual untamos muitas vezes a infância, e sobre a qual Guerriero ironiza. Pensei melhor sobre isso e decidi acolher o nome, supor - por que não? - que os habitantes de “Casa das estrelas” podem ser as crianças. Assumi isso para que conversemos sobre a infância e sobre o livro, ao que Carlos Gómez, de 12 anos, deu o título, ao escrever que o universo é a casa das estrelas. Suspeito que, ao publicar o que me escreveram as crianças em muitas oficinas, os politicamente corretos me culparão por não mostrar os pequenos como Rubens pinta seus anjinhos, arredondados e sorridentes, imersos em uma paz bobalhona que os banha de candura e êxtase. Há expressões batidas que eu definitivamente não habito (e nem as crianças), como: ah, essas criaturas sempre maravilhosas, ternas, mostras de poesia pura. Querubins em céus de marmelada. Esses pobres seres a quem ninguém escuta, espoliados sempre, maltratados sempre, submetidos a nossos caprichos e à tirania dos adultos. Vítimas desamparadas do nosso desejo doentio e da ordem de buscar ofício assim que desocupam o ventre. Oh dificuldade extrema: sua dura vontade domesticada por nosso estéril esforço para que entendam as regras do mundo: o que é bom e o que é mau, e os converterá em cidadãos exemplares com “carro, casa e bolsa de estudos”. As crianças, máximo imaginativo e criatividade sem limites, pequenos artistas aos seus pesares. As crianças sem arrodeios, sem hipocrisia, sem crueldade alguma, nem maldade possível. Seres que veneram os seus pais sobre todas as coisas, e aos quais é preciso falar com diminutivos, porque as suas cabecinhas ainda não assimilam nossas vozes graves.

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Aqui quero recordar Wilde: “As crianças começam por amar os pais. Quando crescem, os julgam e, algumas vezes, até os perdoam” (trad. livre). Onde está a maneira precisa de entender o que são as crianças? O que nós adultos fazemos de suas vidas? Sempre há matizes, mas com certeza está o maltrato que lhes trazemos e, muitas vezes, a cegueira que temos do outro, e mais da criança. A abrumada solidão desses primeiros anos sem ninguém a nos acompanhar, abraçando sua vida. Ou a sobre-estimulação à que também os submetemos para que não nos toque a necessária solidão, o encontro consigo no silêncio que ilumina. E onipresente está a paulatina doença que nos carcome, sem redenção alguma enquanto crescemos, e cujos sintomas descreve Andrés Felipe Bedoya, de 8 anos, ao apontar que “um adulto é uma pessoa que, em toda coisa que fale, vem primeiro ela”. A infância é uma condição, um modo particular de se estar no mundo, de entendê-lo e de habitá-lo. Não creio que um olhar mais justo esteja no discurso de tantas pessoas, com argumentos bobos e impertinentes, nem naquelas que supõem que as crias de nossa espécie são tiranos prepotentes, egoístas, ignorantes, carentes de uma percepção do real sugestiva e benéfica. Escreve Bachelard: “A criança conhece a visão cósmica, que nos une ao mundo, é na memória dessa solidão cósmica onde encontraremos o núcleo de infância que permanece no centro da psique, nossas imersões nas imaginações infantis nos permitem conhecer um ser prévio ao nosso ser; toda uma perspectiva de antecedência de ser, contada pelos poetas. É voltar à origem” (trad. livre) Com o perdão de Andrés Felipe, aqui vou em primeira pessoa, para referir algo do que vi nos mais de vinte anos que passei com os “monstrinhos” ou “anjinhos”... conversando, recolhendo suas 12


FOTO: BENJAMÍN CASADIEGO

vozes, tentando, apesar de minhas próprias e patéticas urgências, escutá-los, olhá-los nos olhos, alcançar sua altura. Em uma sessão de trabalho em um bairro de desabrigados das encostas de Medellín, Alexandra Villa, de dez anos, descreveu a si mesma: “sou a gota que queima a sua carne fresca”. Li desprevenido, me detive, voltei a ler e, apesar de crer ser próximo das crianças, fiquei assombrado, fiz um montão de festa, celebrando, e ela não entendeu. Me olhava como que dizendo “que graça tem isso que escrevi?”. E este e outros achados mais me fizeram pensar em algo que vou tratar de esboçar me tornando muito sério, atitude de gente grande que à Alexandra e aos meninos e meninas seria algo natural. 13


Eles asseguram que já está validada a teoria que diz que, em alguma parte da psicologia evolutiva, no desenvolvimento de um ser humano se repete o da espécie. A ontogênese reproduz a filogênese. Vamos fingir que não acreditamos que transcendemos essa ideia e pensemos que a criança estaria nesse estado “primitivo”, próximo do animismo, onde tudo estava dotado de uma alma comum e não nos sentíamos diferenciados do mundo. Dizer “eu”, era dizer o mundo. E ansiamos retornar, voltar à unidade que é o alívio da separação da criatura humana. Ao crescer temos avidez de individualização, pressão social para conseguirmos nos distinguir uns dos outros, mas, no fundo, nosso ser íntimo anseia por “reunir-se” e, para isso, inventamos algumas coisas que supostamente nos entregam acordos: religiões, promessas de paraísos, ideologias, a arte, a poesia, o amor, o erotismo. Alguns desses “inventozinhos” procuram nos afinar, nos trazer harmonia; outros como as ideologias e as religiões nos dissociam de maneira implacável. Tratamos de nos distinguir da manada mas (ah!), dentro de nossas solidões, como desespera cada pessoa por descansar de si mesma para se fundir em comunhão, nesses breves momentos de graça que muitos místicos e artistas encontraram. Hierofanias as chamam, e quando as contemplamos “entramos no templo”, chegamos a essa união que nos apaga do nome, onde ser e estar não se distinguem. Dizem “os que sabem” que a espécie humana vem “melhorando”, crescendo em complexidade. Construindo para isso, ou a partir disso, capas cerebrais. Que nossa evolução afirmou o império do eu, a eficácia do indivíduo, o domínio de nossas emoções e o controle de nossos instintos. Supõe-se que a sensação de pertencimento a um Todo estaria mais próxima de estruturas arcaicas do cérebro, que se situam no mesmo local em que podem estar a experiência mística e a poesia... E a maneira sem tempo do mundo que habita a infância? Essa infância que vem do latim infans: aquele que não 14


fala. As crianças que por definição são praticamente mudas, ou não sabem falar e menos escrever. Mas condescendemos a admitir que eles têm viva a “capacidade de se espantar”, que sua imaginação é riquíssima, que são profundamente intuitivos. Lendo o que escrevem, vendo-os entregues a seus jogos, sinto que há algo mais profundo: talvez eles possam viver melhor a Unidade, que para nós é recusa. Não quero idealizá-los, isso não nega a sua “crueldade inocente” e o desgarrar e a dor que o mundo vai paulatinamente trazendo-lhes e que se reflete em seus escritos. Para eles, o tempo caminha de maneira diferente, e a riqueza das imagens em suas palavras é comum, porque com imagens o que é nomeado vai além do sentido unívoco que a linguagem meramente utilitária entrega. O mundo é mais rico porque está enramado em meio a correspondências. Muitos especularam sobre as primeiras manifestações da linguagem e concluíram que depois dos gritos e grunhidos, a voz foi se modulando para encontrar analogias e as palavras então falaram dos fios que nos unem a tudo.

Parece que a poesia na linguagem esteve nos primeiros tempos da espécie, quando participávamos do indiferenciado. E as palavras que a criança-poeta usa nos fazem lembrar isso. A poesia está em sua fala natural, e as crianças nem sabem disso – nem lhes importa – porque quando os deixamos, dizem as coisas assim como as dizem, com toda a tranquilidade, brandura e total despropósito.

Apesar do ceticismo de Guerriero, que, com justiça, se 15


encarrega do complexo de Peter Pan, talvez ela não tivesse podido ver e evocar poesia em seu belo livro “Una historia sencilla”, quando escreveu sobre Rodolfo González, campeão do baile tradicional de Malambo: “Ele era o campo, era a terra seca, era o horizonte tenso da pampa, era o odor dos cavalos, era o som do céu de verão, era o zumbido da solidão, era a fúria, era a doença e era a guerra...” (trad. livre). Juan José Millas assegura que é impossível que um escritor chegue realmente longe se não segue se maravilhando – como uma criança – com os fenômenos da natureza, se não é capaz de descobrir que detrás de muitos dos acontecimentos aparentemente rotineiros se escondem motivos extraordinários. Lembro-me de meu espanto quando um astrônomo muito famoso nos olhava a todos, desde a televisão, e muito seguro afirmava que somos pó de estrelas. Já não é metáfora, mas talvez voltemos a habitá-las (nos alegramos com a ideia), quando algo infantil em cada um de nós vive o mundo com a novidade do que nasce, e nos faz lembrar que nossa condição de pertencimento, fusão, nosso vínculo com as coisas, que, sem dúvida, também somos nós. Existe um conto maravilhoso de H. G. Wells que se chama “A porta no muro”, o protagonista é um adulto que se lembra da sua vida de menino e da descoberta, em uma rua sórdida, de uma porta verde que em seus recorridos diários nunca havia observado. Quando atravessa a porta, encontra um jardim que descreve assim: “Lá encontrei companheiros de jogo, o que foi demais para mim, porque eu era uma criança solitária. Brincavam jogos maravilhosos em um terreno coberto de grama que tinha um relógio solar feito de flores. E enquanto se jogava, se amava...” Em “Casa das estrelas”, Ricardo Mejía diz que jogo é estar feliz e amando. É como se Ricardo aos seus dez anos já conhecesse bem esse jardim, que não 16


é propriamente um espaço, mas ainda o tempo de despropósito da infância, que se esplende em meio do que para tantas crianças e adultos é apenas a miséria cotidiana. Ser criança é poder encontrar às vezes a porta no muro dos dias, e atravessá-la encontrando a alegria do amor tranquilo, onde as panteras ronronam como gatos mansos e comprazidos. Não há qualquer perigo, nem dissonância, nem angústia, nem orfandade. Já não podemos esquecer nunca esse estado do ser onde, apesar de tanta dor e perdas, tudo palpita e cintila ao olhar. Recém-criado, destila, se unge de novidade. Nós adultos buscaremos sempre, - ai, tantas vezes em vão – voltar a caminhar em êxtase por esse jardim. Texto escrito e lido na 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura de Brasília.

Javier Naranjo Moreno Escritor, gestor cultural, promotor de leitura e docente. Dirige a Biblioteca e o Centro Comunitário Rural “Laboratorio del Espíritu”. Entre seus li-

FOTO: CÁMARA LÚCIDA

vros de poesia se encontram “Orvalho” e “De parte del aire”. “Casa de las Estrellas” (traduzido ao português, Editora Foz) e “Proyecto Gulliver” são recopilações de criações infantis. “As cartilhas “El Diario de Mammo” y “El Diario de…” foram escritas para o Museu de Arte Moderna de Medellín para aproximar as crianças ao mundo da arte.

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Compromisso com a infância, uma conversa com Jan-Willem Bult Por comkids e Felipe Jahn

Nessa entrevista para o comKids, Jan-Willem Bult nos fala sobre suas experiências de produção para crianças, como enxerga a produção audiovisual em outros países, especialmente na América Latina e de sua incontornável filosofia de TV infantojuvenil: bons programas devem fazer as crianças imaginar. Para ele, obras infantojuvenis precisam também olhar as crianças com todo seu protagonismo, agindo como elas são, naturalmente. Essa é a melhor forma de criar uma conexão e permitir que as crianças pensem sobre seus interesses, direitos e responsabilidades. Ele nos fala ainda sobre o seu último trabalho na KNN, Kids News Network. Com os desafios históricos entre gerações, qual é o ponto de encontro entre elas hoje? Qual é o melhor jeito de criar um diálogo com a infância? Atualmente as crianças de hoje parecem, ou passam a imagem de serem mais adultas, mas, fundamentalmente, elas serão sempre crianças. Isso quer dizer que você pode contar uma boa história e elas vão se emocionar. Com as inovações tecnológicas, há plataformas diferentes e essas possibilidades aumentam, assim como o desafio de achar a linguagem certa. Nesse sentido, há muito a ser desenvolvido. Só que não vejo tantas mudanças em como esse público é por dentro. Temos mais ferramentas e circunstâncias, mas as bases continuam sendo as mesmas: respeitar e estimular o potencial criativo que elas têm. 18


FOTO: FREE PRESS UNLIMITED

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Subestimar as crianças é uma armadilha fácil de cair, no momento de desenvolver um conteúdo para elas. Como evitar? Não é fácil. Estava conversando com alguém algum tempo atrás sobre como, em casos de divórcio, o juiz ainda não escuta o que as crianças pensam e querem. A nossa historia é assim, nos esquecemos da posição delas. E temos um papel crucial na emancipação da criança. É um sinal para adultos que eles têm historias para contar. Tenho a forte convicção de que o meu trabalho exige mais responsabilidade do que muitas pessoas atribuem. Quando fui para Cuba, houve uma expectativa de que eu seria muito crítico ao trabalho feito lá, por ser de uma geração que trata de assuntos como guerra fria de uma maneira muito polarizada. Mas no momento em que começamos a debater, entenderam que meu objetivo é outro. Como falei para o ministro de educação de lá, você tem uma boa mídia para crianças quando coloca elas na tela para inspirar as que assistem em casa. E a qualidade dessa mídia reflete a qualidade de uma nação. Podemos ver nos Estados Unidos, por exemplo, em que há uma posição capitalista, de mercado, onde se vende. Já no meu país há um interesse maior em cultura e menos em marketing. Tratamos mais de temas que são importantes para as crianças. Qual tem sido a influência das inovações tecnológicas em tanta oferta de conteúdos infantojuvenis? Geralmente você pode dizer que o poder da televisão diminuiu e outras plataformas mostraram ótimas maneiras para educar uma audiência. Assim, com os aplicativos, jogos e redes sociais virtuais, nos últimos 15 anos temos procurado desenvolver abordagens de mídia cruzada. Produzimos programas de televisão que vão para o site, assim como vídeos que vão primeiro para a web e depois para a televisão. O papel da TV mudou nos últimos anos, em alguns casos tem um papel secundário, mas de maneira geral ela ainda é protagonista. 20


FOTO: FREE PRESS UNLIMITED

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Com um projeto na internet de bons resultados, muitas pessoas pensam na televisão quando querem ter uma abrangência maior. Porém hoje é preciso se perguntar antes o que está sendo feito na web. Há vídeos, um canal no Youtube, uma conta no Twitter? Tem muita coisa interessante antes desse mundo muito competitivo e caro da TV. Além disso, temos que levar em conta o quanto a repetição é importante para esse público. E com a web, é possível assistir uma obra quantas vezes quiserem. Ou seja, agora você produz algo para a televisão, mas que vai ser muito mais utilizado em outras plataformas. Então, quando crio um show, sempre penso em como minha audiência vai vê-lo depois da quinta vez. Ainda vai ter o bastante para que ela imagine? Alguns programas da KROyouth, durante sua gestão, atingiram bastante sucesso colocando crianças para fazer ações cotidianas, como cozinhar ou desmontar objetos. Como percebeu que isso iria atrair a atenção desse público? Essa é a base da minha filosofia de TV para crianças. Quando era jovem, assistia ao show Vila Sésamo, que tem apenas bonecos, todos interpretando um papel. E quando comecei, eu me perguntei se adultos gostam tanto da realidade, por que não damos às crianças também? Já nas ficções eu gostaria que tivessem os pequenos, agindo naturalmente, sem falar como adultos. Ou seja, às vezes até se comportando mal. Então produzi um documentário sobre o que as crianças da pré-escola gostam de fazer. Foi daí que surgiram as ideias de programas em que elas cozinham e usam a caixa de ferramentas. O estranho é que apesar desses shows serem muito respeitados e ganharem prêmios, quase ninguém copia. Muitos chegam e dizem “olha como as crianças se divertem!”, porém não copiam porque acham que os pais vão reclamar, acham perigoso colocar uma faca na mão de uma criança. Mas o que isso tem a ver? Programas 22


assim dão ideias, estimulam a criatividade. Isso é o que importa. Eu me vejo como alguém completamente comprometido com as crianças. Estou interessado em trazer valores, estimular o engajamento, dar os melhores programas. E vi que consigo isso assim. Sobre o seu novo desafio, KNN , por que você acha importante que crianças e jovens estejam em contato com notícias? Como abordar este tema com elas? Crianças que vivem em países onde existem programas de notícias feitos especialmente para elas, ficam menos assustadas com os conflitos e os temas de violência do que crianças que vivem em lugares sem esta oferta, como os Estados Unidos e o Brasil. Isso já foi apontado num estudo recente realizado pelo IZI, Instituto de Estudos de Televisão da Alemanha. Recentemente fui convidado pela Free Press Unlimited para dirigir o setor dedicado à audiência infantil. A FPU é uma ONG holandesa que trabalha pela liberdade de imprensa e promove a mídia independente. Uma de suas principais atividades da organização é a Kids News Network (KNN), uma Rede de Notícias para Crianças. Há 10 anos eles iniciaram o primeiro programa de notícias em Suriname, antiga colônia holandesa no Caribe, e acabamos de lançar a mesma atividade na Ásia, em Bangladesh. Nestes 10 anos, a KNN vem dando suporte a 12 países, conectando hoje Suriname, Nicarágua, Bolívia, Peru, Nepal, Burma, Indonésia, África do Sul , Gana, Zâmbia, Bangladesh. Já estamos trabalhando para incluir o México, o Egito, a Rússia, a Índia, e com planos de ter o Brasil em nossa rede. Falar sobre a KNN no comKids Inovação foi importante porque reconhecemos o nosso trabalho como inovador. Não estamos só desenvolvendo programas de notícias, estamos conectando comunidades de crianças e jovens, para que eles tenham sua própria rede. São eles que dão input e trazem as questões para que os 23


FOTO: FREE PRESS UNLIMITED

produtores possam produzir, e são eles que promovem os programas. Às vezes, também editam novos clips, transformando em novas produções. Como as notícias produzidas para KNN fazem parte de uma coleção de curtas e pequenos documentários, cada item, individualmente, pode funcionar como uma peça de VOD (vídeo on demand) para telefones celulares, por exemplo. Programas de notícias como nosso telejornal semanal “Wadada World Kids News” representam a conexão entre crianças 24


de diferentes partes do mundo e a criação de conteúdos em contextos multiculturais.

Eu acredito que a nossa obrigação como adultos é abrir possibilidades para que crianças e jovens possam expressar seus sentimentos e pensamentos, e possam entender melhor o mundo que os cerca. Essa é a base para pensar os direitos da infância e das crianças, e é disso que os adultos devem cuidar.

Outra característica das suas produções é tratar abertamente de assuntos considerados tabus, como morte ou bullying. Em sua experiência, como você enxerga esses temas sendo tratados no seu e em outros países? Sempre penso que há muita diferença entre o que fazemos aqui e em outros lugares, mas de fato temos mais liberdade. Há países que estão melhorando, principalmente no norte da Europa. Na Alemanha, na Bélgica, você pode achar programas desse tipo. No entanto ainda há uma hesitação geral. Na América Latina eu vejo um desejo de luta ainda no começo. É sempre importante ver o que a criança pensa, não somente o adulto. Cito um caso. Vi que as crianças da pré-escola costumam ser bastante espirituais, gostam de assuntos relacionados a esse tema. Então pensei, por que não fazer uma série de ficção para elas sobre morte? A questão é que eu podia facilmente falar sobre um jovem que o pai ou a mãe morreu. É o que acontece na maioria dos programas. Resolvi falar com meu público e descobri que essa situação seria muito abstrata, porque eles não conheciam os pais de outros. Podiam achar triste, 25


mas só. A solução encontrada foi simples. Se o cachorro do garoto morresse, a conexão seria muito maior. Então, na série o protagonista enterra o animal no quintal de um vizinho rico e sempre volta até o túmulo. Em um episódio, um gato suja a sepultura e o garoto vai atrás dele por impulso, para jogar água, na companhia de um amigo. Isso mostra como uma criança é. Falamos do luto e da raiva, mas também de felicidade, ao mostrar o protagonista e seu amigo se divertindo. Isso tudo poderia ser considerado comportamento impróprio, mas ninguém reclamou, todos que assistiram entenderam a reação do personagem. Qual a importância dos encontros e festivais para o desenvolvimento de mídia infantil no mundo e na região? A cooperação. Quando trabalhamos juntos é importante. Se isso existe, fica mais fácil mostrar exemplos de bons programas. Além disso, filmes são muito importantes. A TV tem que trabalhar com festivais de cinema também. Com filmes você pode fazer algo poderoso e frequentemente as histórias de ficção conseguem correr o mundo. Se forem curtas, há a possibilidade de ficarem disponíveis online e atingir um público imenso. Isso significa que há milhões de pessoas no mundo que o assistiram espontaneamente. Se houvesse um trabalho de divulgação, esse número poderia ser multiplicado. Então é aí que entra essa cooperação internacional. Nossa presença no comKids Inovação, por exemplo, gerou muitos contatos com criadores, produtores e ONGs interessados no compromisso e na criação de novas redes com crianças e jovens. ComKids provou que é uma plataforma poderosa para conectar a América Latina com os resto do mundo e encontrou no GoetheInstitut um grande parceiro. Vamos sim manter nosso foco na Inovação e na cooperação e, juntos, poderemos fazer a diferença na vida das crianças e dos jovens. 26


Veja também: – Como Explicar? – As Histórias Infantis – Autonomia Infantil

Jan-Willem Bult É escritor de livros infantis, roteirista de cinema e séries de TV. De 1997 a 2013 ocupou a posição de diretor criativo e chefe de programação infantojuvenil da KRO, emissora pública da Holanda. Por seu trabalho já recebeu prêmios do Prix Jeunesse Internacional, Prix Danube e Dutch Academy Award, sempre pontuados pela ousadia, inovação e criatividade. Em 2007, fundou sua própria fundação, a JWB Foundation, para apoiar projetos de mídias e esportes com participação infantil para o desenvolvimento da paz. Desde fevereiro de 2014, é embaixador do Kids News Network, com o propósito de apoiar o desenvolvimento da ação e o alcance da rede dos programas de notícias para crianças. 27


Menino Ezaquiel por Samuel Macedo. 28


A casa azul Por Gabriela Romeu

“Sai do meio!”, “olha a lapada”, “errou, deita, deita!”. Depois que a chuva deixa o chão de terra do terreiro da Casa Azul batidinho, os meninos se amontoam por ali, braços ligeiros e falas apressadas, para fazer o pião rodopiar em manobras arriscadas. No meio de tamanha agitação, entre os intensos zunidos dos giros do brinquedo e as disputas narradas de forma acalorada pelo meninos, ouvimos um grito lá de dentro: “Augusto, larga aí, cabinha, tá na hora do programa!”.

Augusto Diniz por Samuel Macedo 29


Os meninos da Casa azul – Letícia, Tainara, Alycia, Yasmin, Augusto, Thiaguinho e Thalles por Hélio Filho

Augusto é um dos cabinhas que corre os dias pela Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri, lugar onde viver-aprender-brincar-crescer-ser são verbos conjugados com a mesma intensidade. O programa é Submarino Amarelo, que há tempos vai ao ar na Rádio Casa Grande FM. Já a Casa Azul, assim como os meninos-personagens dessa história, é importante protagonista de uma narrativa afetiva que se desenrola no dia a dia de um pedaço de Brasil que se configura em Nova Olinda, cidadezinha sertaneja do Cariri cearense. (Ah, e cabinha é como as crianças são chamadas na região do Cariri. Cabra vira caba, que vira cabinha.) 30


Menina Bruna, uma das responsáveis por receber os visitantes da casa, no Memorial do Homem do Cariri por Hélio Filho

São muitas as histórias que já ouvi os meninos, os tais cabinhas, narrando sobre suas peripécias na Casa Azul. Ela, a Casa, está nas muitas fotos que as crianças de lá tiram, também surge entre os versos das narrativas infantis escritas em cordel nessa terra de Patativa do Assaré. Talvez, não sei bem, a Casa Azul seja a maior protagonista dessa história contada aqui – e olha que a galeria de personagens ilustres é extensa: as crianças (e as já não mais tão crianças) Miguel, Samuel, Helinho, Aécio (Bilu), Júnior, Fabiana, João Paulo, Aureliano, Yasmin, Samara, Bruninha, Taynara, Letícia, Thiaguinho, Felipim, Thales, Alycia e, claro, Alemberg e Rosiane (menino e menina crescidos que estão na origem de tudo). Convido então o leitor a entrar nessa Casa e conhecer um pouco tal experiência – se é que isso é possível em tão poucas palavras. Do terreiro onde há pouco os meninos rodavam o pião (sinto ainda o cheiro de terra molhada), adentramos na sala do Memorial do Homem Kariri. Ali, logo somos recepcionados por Cariuzinho, imagem de madeira de um menino índio, antigo cariú, herdado de uma senhora cabocla da região. O indiozinho, imóvel, aparece ao lado de uma das saltitantes crianças (talvez Yasmin, Bruninha ou Thales), provavelmente com a fardinha (o uniforme de camiseta branca e calça vermelha) suja de terra – coisa de criança que brinca. Na parede da mesma sala, Santo Antônio, São Miguel e São Jorge se misturam com as fotos antigas, já esmaecidas, de duas crianças, um menino e uma menina – símbolo da eterna infância, uma Terra do Nunca sertaneja. São as imagens de Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde, casal que nos anos 80 se dividia entre a vida nos festivais de música e as pesquisas das narrativas míticas do Cariri a bordo de uma moto. Nessas andanças, foram reunindo histórias, fotos, objetos, peças da arqueologia (vasos de cerâmica, ferramentas de pedra) da região. Assim, criaram em 1992 um memorial numa casa do século 18, construção que deu origem 31


Menino Alan por Fabiana Barbosa

Menino Filipinho por Fabiana Barbosa

Glauber Filho por Samuel Macedo 32


Meninos em reunião Iêdo, Augusto, Antonieldo, Tailane, Daniel, Thalles, Felipe, Thiaguinho, Alycia, Ana Julia por Hélio Filho

à Nova Olinda, onde vivia Neco Trajano, avô de Alemberg. Era um jeito de preservar suas origens e retribuir tudo àquela gente. Das janelas laterais da Casa Azul, avistamos o Parque do Véio Leonso, onde as crianças brincam de escorregar e balançar, entre o entra-e-sai das atividades nas salas que abrigam diversos laboratórios da Fundação Casa Grande. Numa se faz gibi, na outra há uma DVDteca com filmes de arte, numa terceira aprendem arqueologia. Há ainda biblioteca, estúdio de edição de audiovisual e teatro, este último numa construção que remete às antigas casas de engenho 33


da região. Todo canto da Casa tem uma história a ser contada – e diz a lenda que a Tapera (em tupi-guarani, casa velha abandonada, como já foi chamada) foi mal-assombrada no passado. Hoje, só o assombro de quem chega desavisado. Na Casa Azul, as crianças carregam nas mãos uma vassoura do mesmo jeito que empunham uma filmadora. Elas recebem os visitantes no memorial (local que percorremos em palavras nos parágrafos anteriores), escolhem as músicas e contam histórias nos programas da rádio, acompanham a arqueóloga Rosiane em trabalhos de escavação nos sítios arqueológicos, brigam para definir os rodízios de tarefas às vezes (ou quase sempre), organizam a programação do teatro, que já recebeu artistas como Manu Chao, recolhem o lixo do banheiro. Se existe protagonismo infantil, ele mora na Casa Azul. Entre o parquinho e a biblioteca, meninos e meninas são autoras e autônomas, o que é visível em suas criações, que têm a marca da irreverência das crianças. Quando conheci a Fundação Casa Grande, estavam no auge das paradas de sucesso da Rádio Casa Grande FM as músicas da bandinha de lata Os Cabinha, que reunia um grupo incrível de cinco meninos (Momô, Iêdo, Rodrigo, Artur e Renê). Crias da FCG, eles tocavam na lata, cantavam no gogó sem medo de errar e inventavam composições como Noite de Lua, com versos animados assim: “Um dia, noite de lua Abri a porta, fui cagar no meio da rua A bosta endureceu, passou um jipe e furou o pneu Levaram pra prefeitura, examinaram, era bosta pura Levaram para o xadrez; se duvidarem, eu cago outra vez”

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Alycia, Yasmin, Augusto, Thiaguinho, Felipe, Thalles, Tainara, Filipinho, Ana Julia, Momô, Adenilson, Iêdo, Daniel, Alan e Diassis por Hélio Filho


Já li várias definições para o trabalho da Fundação Casa Grande, coisas como uma “escola de comunicação e gestão dos meninos do sertão”. Pra mim, a Casa Azul é um verdadeiro laboratório de experiências de infância – ou para experimentar, viver e habitar com vontade a infância. Laboratório “experimental” esse que nasceu na infância de seu fundador, Alemberg Quindins, que se lembra com fervor de suas criações mirabolantes de menino, inventor de cineminha em caixa de papelão numa cidade onde não chegava nem gibi e repórter das partidas de futebol que rolavam no “campinho do pé-de-pequi”. Sem se apegar a teorias pedagógicas, Alemberg costuma dizer que a Fundação Casa Grande não é espaço de formação, mas lugar de vivência. A Casa Azul é morada da infância. Apoio na edição de imagens: Fabiana Barbosa

Veja também: – Um homem de narrativas, sobre Alemberg Quindins, fundador da Fundação Casa Grande, junto com Rosiane Limaverde. – A conversa com Alemberg Quindins no evento comKids Inovação (em vídeo).

Gabriela Romeu É jornalista, documentarista e crítica de teatro infantil. Coautora de TutuMoringa – História que Tataravó Contou (Companhia das Letrinhas), está agora escrevendo um sobre suas andanças pelos quintais do Cariri cearense ao lado do fotógrafo Samuel Macedo, um sempre menino da Fundação Casa Grande. Em parceria com a jornalista Marlene Peret, é idealizadora do Projeto Infâncias. 35


Espaços que honram a infância Por Cielo Salviolo

A província de Santa Fe, no centro da Argentina, tem o privilégio de ter a queridíssima Chiqui González, uma criadora incansável de espaços e propostas culturais para as infâncias argentinas que enriquecem as experiências, as histórias e os repertórios dos meninos e meninas de todo o país. Alguns dos conceitos que orientaram as propostas culturais e recreativas que ela e sua equipe puseram à disposição de garotos e garotas de todo o país permeiam todos nós que trabalhamos a relação entre infâncias e cultura, desde uma perspectiva que reconhece a todos os meninos e meninas como produtores culturais. O Tríptico da Imaginação (El Molino, La Redonda y La Esquina Encendida) na cidade de Santa Fe e o Tríptico da Infância (La Isla, El Jardín y La Granja) em Rosário, são lugares com uma poética particular, onde os passeios, os jogos, a disposição dos elementos, nos recordam o nosso lado humano, nos remetem a estados de felicidade, de prazer, de brincadeiras, de liberdade, de imaginação e de criação com os outros. A infância, diz Chiqui, é “transmissão” e “criação” de cultura de uma só vez. Por isso, quando pensamos e projetamos nossas propostas culturais, estamos na verdade honrando, facilitando e apoiando o que é próprio da infância: o jogo, a imaginação e a apropriação pelas novas gerações do melhor que oferece o acervo cultural legado pelas gerações anteriores. Não se trata de impor os valores que as crianças têm que internalizar para criar uma sociedade melhor no futuro, e sim de

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Créditos das Fotos 1, 2, 3, 4 e 6: Victoria Vazquez para el Ministerio de Innovación y Cultura de la Provincia de Santa Fe 5: Franco Trovatto/ Guillermo Turin para la Secretaría de Educación y Cultura de la Municipalidad de Rosario, Provincia de Santa Fe


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respeitar os processos mediante os que construímos cultura entre todos, e sobretudo aqueles processos de renovação da cultura próprios da infância. Projetar propostas culturais inovadoras para a infância implica incluir nessas propostas os modos de ser e estar no mundo que a infância possui: o jogo, a imaginação, as perguntas, o estudo, a exploração e a mediação do real. Mas é necessário também nos perguntarmos quais aportes queremos fazer, para que queremos fazê-los e como aquilo que faço para e com as crianças enriquece os seus repertórios culturais, cria afeto, abre caminho à liberdade e convida ao jogo. A cultura precisa da proximidade do cotidiano, do vínculo, porque sem o cotidiano não existe o afeto, e precisa também da distância da imaginação poética porque sem a imaginação poética não há mudança, não há transformação. Esta é a ideia que está por trás dos maravilhosos espaços que Chiqui González e sua equipe criaram. Vale a pena conhecê-los, reconhecê-los e deixar-se inspirar por eles. Veja também: – Congreso de la felicidade – Chiqui González en TED: “Ser un salto” – Rosario, ciudad de los niños – La Redonda – El Molino

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Chiqui González Ministra de Inovação e Cultura de Santa Fé desde 2007, é também advogada, especialista em Direito da Família pela UNR, Argentina. Durante a sua gestão, criou o projeto “Tríptico de la Infancia” de Rosario, circuito pedagógico integrado por espaços públicos destinados para a convivência, educação, criação e imaginação de crianças e adultos. Docente titular da FADU – UBA e da Escola Internacional de Cinema e Televisão ECTV, Chiqui também conta com uma extensa produção teatral como atriz, diretora e dramaturga dentro e fora do país. Vice-Presidenta do Conselho Diretivo de ATEI, participou da criação de canais de televisão infantis como Pakapaka e Encuentro.

Cielo Salviolo Consultora e investigadora em comunicação, cultura e infância e produtora especializada em audiovisual para crianças. Participou no processo de criação do Pakapaka, primeiro canal de televisão pública infantil da Argentina reconhecido na América Latina (Diretora fundadora e consultora criativa e de conteúdos). Dirige o Laboratorio de Televisión Infantil para América Latina (latinlab.org), especializado em conteúdos em múltiplas plataformas.

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O brincar e as janelas para inspiração Por Garatujas Fantásticas

O brincar e as janelas para a inspiração Foi numa manhã de sol suave em Barcelona. Estranhas esculturas de caixa de papelão despon-tavam tranquilas na calçada em frente a uma biblioteca pública. Os pilares marrons, antes tristes, firmes e de pé no chão, tremeram ao som de uma batucada que se seguiu, anunciando a chegada de 24 ilustradores. Era o sinal de que algo muito importante estava para acontecer com as caixas, com a biblioteca, com a calçada da biblioteca, com Barcelona e com a imaginação das crianças, que até aquele minuto chegavam timidamente ao evento. A pompa do batuque foi ideia da Libreria La Petita, que pretendia criar um grande quebra-cabeças ilustrado e tridimensional ao ar livre. O projeto, aliado à Petit PobleNou, uma organização que trata de promover ações locais para famílias, contou com o apoio de editoras e a audácia dos ilustrado-res. Cada um com sua técnica e uma unidade tremenda transformaram o espaço público em uma festa de família. L’art trenca closques, assim chamado o evento em catalão, quer dizer A arte des-arma tua cabeça. Conceito e esforço de realização que partiram da cabeça desarmada do ilustra-dor e editor argentino Diego Bianki. Ao trabalho, os convocados passaram a ilustrar os caixotes de papelão em duas faces, cada uma com pedaços dos personagens de seus livros. Ao mesmo tempo, logo ao lado, um outro quintal revelava uma imaginação sem tamanho. Assim como as caixas

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TARTARUGA FELIZ


enormes para os adultos, havia outras menores, especialmente para as crianças. Depois desse processo de ilustração tão rico, a brincadeira gerou um mundo novo a ser explorado. Começou o troca-troca do maior quebra-cabeças ilustrado que já vimos. Foi divertido demais observar como as crianças queriam mudar e experimentar. E, ao final, como elas mesmas queriam voltar às combinações iniciais, para que cada parte de cima encontrasse de novo com sua parte de baixo correspondente. No quintal das crianças pequenas, uma monitora incentivava a ser livre, pintar, sujar, criar à vontade. No final do evento, a pequena obra virou pre-sente para a praça: uma escultura em colunas coloridas. Em poucas horas, crianças e adultos puderam experimentar juntos o fazer poético no espaço público e reorientar o olhar sobre os personagens da literatura. A transformação das caixas de papelão em um universo criativo rompeu o cotidiano com jogo e imaginação, que uniram uma pequena comunidade em torno do brincar. Os ilustradores, de mãos dadas com esse ideal, fizeram a mediação com louvor.

Processo e inovação O processo das crianças em reordenar os caixotes, rabiscar e sujar foi um rompante de inovação, com resultados práticos e construtivos. No entanto, é preciso ressaltar: trata-se de um rompante normatizado, em uma operação de espaço/tempo definidos. Há elementos limitadores implícitos. Toda a operação se resume a mais uma janela aberta que deixou entrar uma brisa, um raio de sol suave, que iluminou a subversão das regras e permitiu a transgressão. A questão que nos afronta, em muitos momentos, é a dificuldade em deixar as janelas sempre abertas para a inovação - e não apenas em momentos pré-definidos. Mesmo nas conceituações 46


FOTOS: GARATUJAS FANTÁSTICAS

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mais recentes do termo, como a famosa e influente definição do educador britânico Ken Robinson, que propõe a inovação como a criação de novas ideias que tenham valor e que possam ser im-plementadas, há a tarefa perene de encontrar uma chave, escancarar algo e torná-la factível. Ora, se na acepção de Robinson a implementação é o rasgo final da inovação, sob quais parâmetros é possível pensar em implementação? Um deles, que consideramos o mais presente e o mais desafiador, é a entidade luzidia chamada mercado. O mercado é fator preponderante na normatização do espaço/tempo para a inovação, reflexo de um contexto em que o processo capitalista e a infusão de ideais de consumo é galopante. Entre as razões mais perniciosas para inovar está a invisível aceitação do mercado, que submete ao seu jugo o que é ou não é válido como jogo, como imaginação e como brincar. Mesmo as crianças, inovadoras por natureza, acabam submetidas a delimitações imperceptíveis e veem o potencial de suas infâncias ferido de maneira atroz. Acabam esmagadas pela narrativa utilitária do adulto que, muitas vezes sem perceber, ou por entender que não há remédio, transfere uma lógica paradoxal de que a inovação só é permitida se aceita pelo que ele considera como o mercado. Desmorona, assim, a noção de que o inovar é um estado natural de curiosidade e experimentação, elementos cruciais para o brincar. Interessante notar como no ambiente formal de educação o brincar é notadamente tolhido. Muito presente nos anos iniciais de ensino, a janela da inovação se fecha nos períodos seguintes. Esse é um processo bastante simbólico que merece ser repensado, com uma eventual proposição de outras formas de apropriação de saberes que envolvam a brincadeira, tenham as crianças a idade que tiverem. 48


O brincar como norma O filme Tarja Branca (veja trailer aqui), da Maria Farinha Filmes, propõe que simplesmente esquecemos de brincar. A afirmação, quase óbvia, que ganha peso com a profusão de problemas de saúde mental e o uso de medicamentos para combater distúrbios. O verdadeiro remédio, aponta o filme, está na infância e nas construções que advêm do brincar. Isto é, a resposta está nas janelas sempre abertas para receber a brisa e a luz, e precisamente refratárias às narrativas do mercado. Em vez de nos orientarmos por uma normatização do espaço/ tempo da inovação, uma proposição mais atraente é galvanizar o conceito de inovação como norma. O brincar dilapidado pela rotina pesada, pela narrativa do correr atrás e pela contrição da necessidade de implementação, pode voltar a ganhar corpo se partirmos do princípio que a experiência que narramos de Barcelona, ou de qualquer cidade brasileira, não pode ser apenas uma das poucas janelas abertas entre tantas outras fechadas à inovação. Como propõe o filme Tarja Branca, a autoanálise do adulto que deixou de brincar oferece a redenção à infância ferida. Ele reabre a janela da imaginação e do brincar, rompe com o padrão de acumulação de capital e dissolve pressões sociais com vistas para um futuro melhor. É a transgressão como agente facilitador da inovação. Em outras palavras, é apresentar a possibilidade de que é possível e desejável viver daquilo que dá alegria e prazer, e não daquilo que é proposto pelo mercado como ideal. É perfeitamente possível mudar hábitos e reinventar a práxis que leve à inovação. Há princípios talvez um pouco esquecidos, mas bastante importantes, para orientar nossa visão. Estamos falando de cooperação, de coletividade e de horizontalidade. O espetáculo 49


FOTO: GARATUJAS FANTÁSTICAS

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diário do diálogo torto entre adultos, que envolve a polarização política, a reificação de estereótipos, a agressividade e a violência, destrói a alegria do debate para a construção de novas ideias. Precisamos a todo momento olhar para as crianças e lembrar das crianças que fomos quando buscamos inspiração. Essa é uma das maneiras de inspirar as pessoas a abrir suas janelas e deixar os raios de sol arejarem os cantos escuros que criamos para nós mesmos.

Garatujas Fantásticas O site Garatujas Fantásticas é um projeto independente do Estúdio Voador. Com foco em arte e literatura, é uma ponte para que adultos e crianças experimentem o mundo juntos, troquem olhares e experiências. Compartilhamos conteúdo e convidamos os mediadores a explorar nossas ideias e vivências pensadas no mundo infantil. 51


Escola: espaço de cultura e inovação Por Luisa Furman e Helena Mendonça Desde a fundação da Escola da Vila, na década de 80, a cultura faz parte do projeto pedagógico e está totalmente inserida no dia a dia, sendo considerada um aspecto fundamental na formação de nossos alunos. Entendemos esse aspecto como uma das marcas que caraterizam e permeiam o trabalho em atividades dentro da sala de aula, em cursos de extensão curricular em ações que por si só contribuem com a compreensão do que é cultura na escola, no mundo e de como os alunos podem e devem se relacionar com isso, dentro e fora da comunidade escolar. O trabalho da Área de Cultura da Escola da Vila é justamente olhar para a comunidade escolar e pensar formas de articular todos esses elementos, oferecendo atividades que apoiem e/ou complementem o currículo , além de eventos anuais para todos os segmentos. Como a Escola da Vila tem se debruçado intensamente sobre a relação entre as tecnologias digitais e a educação, no ano passado realizamos um evento para os alunos de Ensino Médio chamado VilaLab, que congregou uma série de atividades cujo propósito era o de aproximar os alunos de práticas e concepções inerentes às tecnologias de informação e comunicação. Dentre a programação do evento, tivemos oficinas sobre processos de criação e produção musical, animação, remixagem, computação física com arduíno e muitos outros temas. Além destes eventos, os alunos do ensino fundamental podem optar por frequentar os cursos de criação de jogos, destinado aos

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alunos de 9 e 10 anos e o curso de mídias digitais para alunos do ensino fundamental 2, de 11 aos 14 anos. Nesses cursos, eles são convidados a experimentar a programação e criação de peças digitais. “Aprender a programar e programar para aprender”, esta é a frase usada por Mitchel Resnick para definir a proposta de escrita de código desenvolvida por sua equipe no MIT - Massachusetts Institute of Technology - com o uso do Scratch, aplicativo criado por sua equipe, voltado para crianças e jovens e usada atualmente por milhões de pessoas em todo o mundo. Resnick afirma que “quando você aprende a ler, você pode então ler para aprender. É a mesma coisa ao escrever códigos. Se você aprende a escrever códigos, você pode escrever códigos para aprender”. Temos trabalhado com os alunos em algumas propostas, nas quais um dos objetivos é que eles programem, escrevam e decifrem códigos, para aprender. O curso de criação de jogos promove um contato com programação de dados e criação de objetos digitais com imagem, texto e áudio. Além de oferecer recursos visuais avançados, o aplicativo usado, scratch, permite que a programação de objetos seja realizada através do encaixe de blocos, similar a um jogo de lego. Temos feito, neste curso, uma série de propostas de criação de jogos de entretenimento, que abrangem ampla quantidade de blocos e tipos de ações disponíveis no aplicativo. As propostas incluem a criação de labirintos, jogos de campo minado, de adivinhação e outros. Em alguns momentos, usamos temas e ilustrações de outros projetos realizados em outras aulas, como material de apoio para a construção dos jogos. Um dos jogos construídos nos últimos meses, usou ilustrações produzidas pelos alunos do 2o ano, nas aulas de inglês, com base nas fábulas “O Leão e o ratinho” e “A tartaruga e a lebre”. Para a criação de um jogo em meio virtual, os alunos criam uma história. Nela, há personagens, desafios e formas distintas de FOTOS: ARQUIVO DA ESCOLA

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se atingir um objetivo. Além dos conhecimentos de lógica e programação, resolução de problemas, matemática e outros, necessários para as sequências de comandos e instruções, é fundamental que eles se coloquem no lugar do outro, o jogador, antecipando quais as instruções a serem dadas, se é possível ou não chegar ao fim do jogo e quais os caminhos possíveis para se atingir o objetivo principal. É importante também pensar sobre o que comunicamos e o que queremos comunicar com este jogo. Recentemente, fizemos algumas propostas com Arduíno e Scratch. Em uma das aulas, os alunos montaram um circuito com um “pontenciômetro” e a variação desse circuito foi uma das 54


variáveis de um programa construído no Scratch. Pense em dinossauro que tem seu tamanho aumentado ou reduzido a partir do giro de um botão. Foi a primeira experiência desses alunos com computação física na escola. Estas iniciativas têm atraído cada vez mais alunos que se interessam e ficam curiosos ao verem o resultado de suas produções e as dos colegas. Além de promover espaços de criação, pensando num maior protagonismo das crianças e jovens diante das telas, a intenção é, também, mobilizar o conhecimento sobre o uso das tecnologias para o desenvolvimento de games, a criação de aplicativos e outros fins. Estas propostas despertam a vontade de aprender de muitos alunos e trazem temas importantes da nossa cultura, a serem discutidos na escola, como o uso de tecnologias digitais , a educação e a criação de pequenos, e quem sabe, no futuro, grandes mundos virtuais.

Helena Andrade Mendonça Coordenadora de Tecnologias Educacionais na Escola da Vila e e atua também no Centro de Formação da Escola da Vila. Formada em Engenharia Eletrônica com especialização em Psicopedagogia, atualmente pesquisa sobre digital literacies e formação de professores na FFLCH-USP.

Luisa Furman Formada em Artes Plásticas pela FAAP, é professora de Artes para alunos de Fundamental 2 e também uma das coordenadoras da Área de Cultura na Escola da Vila. É mãe, profissional e nas horas vagas, ilustradora amadora.

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O casting, indo além da busca de personagens de TV Por Claudia Patricia González V.

Até uns anos atrás, o caminho para se fazer televisão infantil na Colômbia era um caminho sem mapa e cheio de atalhos para se chegar mais rápido à meta de cumprir com uma cota de programação. Naquela época, nenhuma capacitação era suficiente para que desempenhássemos esse ofício com segurança e sempre ficávamos com mais perguntas do que respostas ao tentar produzir programas infantis de qualidade. Trabalhávamos enfurnados em um escritório, quebrando a cabeça para chegar a conteúdos que conseguissem conquistar o público infantil. Um público que estava longe, muito longe, deste escritório, detrás de milhares de telas de TV ao longo de toda a extensão de nosso país. Mas não sabíamos realmente quem eram eles, o que eles sentiam, o que pensavam, de que precisavam e nem como reagiam aos conteúdos que produzíamos. O público infantil era apenas um número que nos era entregado a cada segunda-feira, segundo o informe das pesquisas de audiência. E assim, com esse número, se media a eficiência de nosso conteúdo. Um dia, o caminho se iluminou, com uma experiência que marcou profundamente a todos nós que fizemos parte dela. Foi a produção de uma série de TV infantil, precedida de uma pesquisa muito completa sobre os meninos e meninas de 8 a 10 anos pertencentes a diversos grupos populacionais1. Para encontrar aos personagens da série, sentimos a necessidade de entrevistar mais de setecentas crianças, em treze regiões do país, na etapa de 56

1. De ocho a diez, Un acercamiento a niñas y niños colombianos para hacer televisión. Proyecto de Televisión Infantil Cultural de la Dirección de Comunicaciones del Ministerio de Cultura, 2010 (“De oito a dez, uma aproximação às meninas e meninos colombianos para fazer televisão. Projeto de Televisão Infantil Cultural da Direção de Comunicadores do Ministério de Cultura, 2010”)


2. Série de TV infantil do Ministério de Cultura, RTVC Señalcolombia, Canal 13 e da Universidade Javeriana, 2010.

pré-produção. Nunca antes na história da TV infantil da Colômbia tínhamos ido conhecer os meninos e meninas destinatários de nossas produções. E, por fim, depois de trabalhar para eles à distância, nós os tínhamos bem diante de nossa câmera, abrindo para nós as portas das suas vidas. Foi assim, fazendo o casting de La Lleva2, que começamos a descobrir o mapa do caminho que vínhamos percorrendo, às cegas, anos atrás.  O casting se converteu  em mais que  um processo de busca de personagens, ele  foi uma ferramenta poderosa de investigação e em uma das estratégias mais eficazes para se desenhar novos formato ou nutrir os conteúdos dos programas de TV que vieram depois: El Gran Dia, Senha Verde (Colômbia), Buzykandá e Te Re-creo tus noticias. Descobrir um personagem de TV infantil é um dos processos da etapa de produção aos que se dedica menos tempo e rigor. Quase sempre conhecemos um menino ou menina que “se encaixa” adequadamente:  a filha impetuosa de uma amiga, o sobrinho que é um diabinho abençoado, ou a vizinha extrovertida que encontramos no elevador e que não pára de falar. Em outros casos, também se recorre às agências de casting ou às escolas de talentos artísticos, onde há mais possibilidades de se encontrar a meninos e meninas talentosos, simpáticos, com boa expressão oral e corporal, e com expectativas de começar cedo uma carreira artística nos meios de comunicação, evento para o que se preparam com muita antecedência. Isso facilita a etapa de casting e, assim, quase sempre se atinge o objetivo de encontrar a criança buscada. Porém, como estamos envolvidos em projetos nos que se pretende fomentar a participação e a inclusão de toda a população infantil, exaltando a sua diversidade, nada poderia ser mais contraditório que limitarmos essa busca aos lugares onde só se encontram “crianças artistas”. Fazê-lo deste modo seria excludente e incoerente com os princípios e com a filosofia de nossos projetos de televisão infantil. 57


Explorando outros caminhos, começamos a incorporar uma metodologia de oficinas que nos permitiria mais aproximação, conhecimento e encontros com meninos e meninas diferentes, com o potencial para se converter em personagens de TV. Enquanto em um casting tradicional, os participantes chegam nervosos para fazer filas e para ser expostos, sem maiores preâmbulos, às câmeras de televisão, no nosso casting-oficina todos conseguem  ficar a vontade,  em uma atividade grupal na que, através de jogo e de atividades lúdicas é possível romper o gelo e baixar o nível de tensão. No casting tradicional, as crianças sabem que  vão ser avaliadas, e que dependendo do que sejam capazes de demonstrar, serão eleitos ou não  pelos produtores do programa, o que gera uma relação vertical entre o “casteador” e a criança. No castingoficina, em vez de avaliá-los, nós os valorizamos e estabelecemos uma relação horizontal entre os condutores da atividade e os participantes, assim como entre eles mesmos, o que propicia um ambiente de respeito e apreciação pelas ideias de todos. No casting tradicional, os participantes nem sempre atuam de modo espontâneo e natural, pois evidentemente têm o interesse de deixar a melhor impressão. No casting-oficina todos demonstram quem realmente são e a essência de seu ser se expressa de modo autêntico e criativo. É maravilhoso ver como até o mais quieto ou tímido termina participando e se animando a dar sua opinião, tornando a atividade um espaço de conversa, de encontro, de jogo e intercâmbio de ideias, para saber o que lhes agrada e o que não, o que pensam, o que opinam, como se comportam, de que riem, o que os entristece, o que os faz felizes, como falam, que palavras usam, enfim... Tudo isso surge numa oficina, mais do que em uma simples entrevista de casting tradicional. Um dos aspectos que mais nos preocupava ao convocar os meninos e meninas a uma atividade de casting era gerar 58


expectativas sobre ser selecionados ou não e deixar neles um sentimento de frustração ao finalizar o processo de seleção. Porém, começamos a ver que, para a grande maioria, o simples fato de participar no casting-oficina já era, em si, uma experiência nova, enriquecedora e divertida. Essa observação nos ajudou a definir uma condição obrigatória na metodologia do casting-oficina: que a atividade fosse sempre um intercâmbio de bens. Depois que essas crianças nos oferecem duas horas de seu tempo, compartilham conosco suas ideias e sentimentos, tornando mais fácil nossa tarefa de desenvolver formatos e conteúdos e nos ajudando a encontrar os personagens de TV que buscamos, é obrigatório deixar-lhes algo positivo em troca: o aprendizado profundo sobre o seu próprio ser, sobre quem são, o que lhes agrada e o que são capazes de chegar a realizar. Por essa razão, uma tarefa adicional em cada casting-oficina é a de reconhecer e fazê-los ver os seus potenciais criativos, suas capacidades de empreendimento e todas aquelas habilidades que muitas vezes nem eles mesmos sabem que tem. Por se tratar de uma experiência na que meninos e meninas têm a oportunidade de se expressar, participar, ser reconhecidos, desenvolver seu próprio conteúdo e se sentir valorizados e incluídos, os participantes do castingoficina saem da experiência com a auto-estima nutrida. Colocarnos às suas alturas para conversar, escutá-los com atenção, interessar-nos pelas suas respostas respeitando-os e valorizandoos TODOS, sem classificá-los em bons ou ruins, tudo isso tem um efeito inimaginável na autoestima dos meninos e meninas, que, na maioria dos casos, veem como algo insólito o fato de que os adultos os tratem desta maneira. Ainda que nos esforcemos para que o intercâmbio de bens seja equilibrado, o que eles levam nunca poderá ser comparado com o bem que eles deixam para nós, os “casteadores”; não só como 59


FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Primeiro dia de gravação do teaser do Buzykandá.

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profissionais do setor da TV infantil, mas como seres humanos. Fazer casting é a minha atividade favorita, o ofício que mais nutre o meu coração, e o que mais me diverte em fazer televisão infantil. E sem dúvidas é o espaço em que encontro as respostas que surgem no meu cotidiano como roteirista ou realizadora audiovisual. O casting, sem dúvidas, me revelou o mapa do caminho que sigo percorrendo, ainda que um pouco perdida algumas vezes.

Cláudia González Comunicadora Social dedicada à pesquisa, elaboração e produção de conteúdos para o público infantil com experiência de 15 anos em séries televisivas para crianças e jovens. Entre suas produções encontram-se “Revelados”, “La Lleva” e “El Gran Día”. É sócia fundadora da Latente Media Lab for Kids. Atualmente, trabalha no noticiário infantil Te Re-Creo Tus Noticias, da Secretaría de Educación Distrital e do Canal Capital (prêmio UNICEF no Prix Jeunesse Internacional 2014). 61


Primeiro de abril: um jogo entre um jogo, entre um jogo… Por Teca Alencar de Brito

Resumo: A partir do relato de uma experiência que aconteceu em um grupo de musicalização o qual reunia crianças com idades entre seis e oito anos de idade, o artigo tece considerações acerca das relações das crianças com sons e músicas. Considerando o jogo musical infantil sob o prisma da singularidade que caracteriza a infância, cria alianças com alguns conceitos filosóficos propostos pelos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari, bem como, com proposições do chileno Humberto Maturana, entre outros teóricos. Palavras-chave: jogo musical, infância, educação musical, criação musical.

Introduzindo Era dia primeiro de abril e nosso encontro começou com o compartilhar de pequenas mentiras e relatos de casos referentes à data. Formávamos um grupo de musicalização do qual participavam crianças com idades entre seis e oito anos, dois professores e uma estagiária. O jogo da mentira, que a todos divertiu, gerou o desejo de criar uma música para aquele dia especial. Apenas havíamos começado a pensar em ideias e possibilidades para desenvolver o trabalho (uma improvisação, uma canção, uma historia sonorizada etc) quando Henrique1 cantarolou: Hoje eu vi um gato pirata no espaço 1. os nomes das crianças foram alterados. 62


Seu canto provocou muitos risos e o modo como ele cantava e se expressava corporalmente capturou todo o grupo. Ele, então, continuou: Ele era preto (repetindo o mesmo contorno melódico que caracterizou a primeira parte da frase anterior), completando, após um pequena pausa (que nos permitiu deduzir que ele pensava na continuidade do discurso), que nem um gato preto. A solução encontrada também divertiu o grupo, o que talvez justifique a criação da frase seguinte: ele era doido, que nem um gato doido. Henrique dera início a um processo de criação antes mesmo que pudéssemos conversar melhor a respeito da ideia com todas as crianças. Vale lembrar que ele participava das aulas há menos de dois meses, mostrando-se motivado e interessado em fazer música, fosse tocando, improvisando, cantando, escutando…. E agora chegara o momento de criar! Considero relevante apontar o fato de que o menino improvisou sua invenção, criando em tempo real, movendo-se pelo acontecimento. Caminho que ele caminhava ao andar, lembrando os versos do poeta espanhol Antonio Machado. Utilizo a palavra invenção para demarcar territórios, ressaltando a diferença existente entre o modo intuitivo de criar próprio àquela e a outras crianças (em faixas etárias próximas) e os processos de criação de compositores musicais, no sentido em que a palavra tende – tradicionalmente - a ser compreendida. Diferenças de complexidade, podemos dizer. O menino integrou letra e melodia, de imediato, colocando tais forças em jogo. À estabilidade do perfil melódico, que muito pouco variou, ele propôs variações na letra, atualizando um campo de repetições e diferenças. O “gato” de Henrique conquistou o grupo e estimulou o emergir de novas contribuições. Essas, foram movidas, também, 63


pela consciência de que aquele deveria ser um trabalho coletivo. Felipe, então, transportou para a criação os risos disparados pela história, repetindo ritmicamente: Ha ha ha, você acreditou, ha, ha, ha, na minha história tola. Concentrando-se nas forças do ritmo, o menino fez circular aquele ritornelo, que logo tornou-se de todos, até que João introduziu mais uma ideia: Primeiro de abril, o gato sorriu. Imperou, mais uma vez, a força rítmica e com tal frase a invenção se completara. Passamos então a uma nova etapa, dedicada, agora, à realização vocal do trabalho. Dividiram-se em três grupos, ficando, cada um, responsável por repetir uma das partes. Depois de experimentarem algumas vezes decidiram fazer algumas mudanças, a saber: a- a parte criada por Felipe (ha ha ha…) passaria para o final, já que, segundo a análise de Laura, o trecho fazia referência ao jogo da mentira e ao prazer de haver enganado alguém. Por isso, segundo ela, deveria estar no fim; b- inverter a frase primeiro de abril, o gato sorriu, considerando que seria melhor dizer o gato sorriu, primeiro de abril, ou seja, primeiro a mentira e depois a referência ao dia, como costuma ocorrer. As sugestões pareceram interessantes e pertinentes, guiadas por critérios que sinalizavam o modo como aquelas crianças lidavam com as ideias, com os conceitos e formas com as quais trabalhavam. E após os ajustes sugeridos, tínhamos, enfim, o texto final: Hoje eu vi um gato pirata, no espaço Ele era preto, que nem um gato preto Ele era doido, que nem um gato doido O gato sorriu, primeiro de abril - bis Ha, ha, ha, você acreditou Ha, ha, ha, na minha historia tola.

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Definida essa etapa e depois de cantarmos bastante, passamos à etapa de elaboração de um arranjo, começando pela escolha dos instrumentos musicais que seriam utilizados. Bongôs, tamborim, pandeiros, maracas, triângulo, além de um balafon africano, foram os materiais escolhidos. O balafon, vale lembrar, havia capturado Léo, uma das crianças, e sempre que possível eles “tocavam juntos”, criando uma espécie de parceria ou quase cumplicidade! Vinícius, que trabalhava comigo naquele grupo, entrou no jogo criando uma linha de baixo no violão, que realizava enquanto as crianças improvisavam ritmicamente, ora tocando junto com as vozes, ora alternando. No final, Léo seguiu improvisando no balafon e não demorou para que mais uma aliança emergisse: as baquetas que pareciam caminhar por entre as lâminas de madeira – “telhado do gato” – capturaram João, que deixou, então, sua condição de músico e cantor para se tornar gato. Devir-gato primeiro de abril. Como afirmaram Deleuze e Guattari, Cantar ou compor, pintar, escrever não têm talvez outro objetivo: desencadear esses devires. Sobretudo a música; todo um devir-mulher, um devir-criança atravessam a música, não só no nível das vozes [...], mas no nível dos temas e dos motivos: o pequeno ritornelo, o rondó, as cenas de infância e as brincadeiras de criança. A instrumentação, a orquestração são penetradas de devires-animais, devires-pássaro primeiro, mas muitos outros ainda. DELEUZE, GUATTARI, 1997, p.63

Crianças, música, educação musical O relato acima convida-nos a pensar na maneira como as crianças elaboram e reelaboram dinamicamente a relação com a música, destacando a singularidade própria a tais processos. 65


A realização musical da infância se reorganiza continuamente, acompanhando o todo das experiências vivenciadas pelas crianças, lembrando, obviamente, que a possibilidade de conviver com a música nos territórios da educação amplia e transforma significativamente os planos de realização musical. É importante considerar que as crianças elaboram e reelaboram suas ideias de música, como já sinalizei, de modo que entender e conferir valor ao acontecimento musical aos quatro ou aos oito anos, para exemplificar, revela a consciência e também o modo como se atualiza o jogo de interação com sons e músicas. As vivências musicais se transformam em complexidade, sobretudo quando ocorrem planos de formação musical orientada, obviamente. Se características que marcam cada etapa do desenvolvimento tendem a padronizar as condutas musicais, é necessário considerar a presença dos “ruídos”, ou seja, das interferências que singularizam cada percurso. (BRITO, 2009, p.12-13) O diálogo entre o mundo interno e o externo aponta a congruência entre distintos tempos: tempo da criança / tempo da cultura, comportando séculos de um jogo que integra estabilidade e movimento. Entendendo que a construção do significado da música por cada sujeito (a “reinvenção da música”) se dá no jogo com o ambiente (“eu-meio-construção de relações sonoro-musicais”), em processos dinâmicos, considero que as crianças reconstroem as ideias de música em contínua e permanente transformação. Sob essa ótica, importa investigar as condutas de escuta, de relacionamento com sons e silêncios, de produção de gestos, de repetição e de criação no fluxo da infância. Escutar o jogo que se atualiza no relacionamento com o território de sons e músicas da cultura, que implica em constante movimento de estratificar e desestratificar. (BRITO, 2007, p.68) No caso em questão, o jogo da mentira migrara para o jogo musical. 66


Jogo ideal, repetindo Deleuze, onde não há ganhadores ou perdedores, e que jogamos pelo prazer de jogar. Jogo da pseudo-inutilidade que a arte comporta. Jogo da captura, jogo de sensações, da instauração de ritornelos que se ocupam dos contínuos movimentos de criar e desfazer lugares. As crianças são capturadas por ideias de música que se tornam territórios que se desterritorializam, criando, então, novos territórios... A interação com o ambiente sonoro agrega o contato com produtos musicais da cultura, estabilizados pela repetição, de maneira que experiências de ordens diversas podem emergir, dependendo de cada contexto, obviamente, com a singularidade implícita em cada situação. “Fazendo música as crianças não apenas “sonorizam” percepções, pensamentos, forças, movimentos..., como também reproduzem os modelos que observam e apreendem, o que fazem vivendo uma espécie de faz-deconta. (BRITO, 2007, p.159). A convivência com educadores pode se constituir em uma experiência compartilhada de jogos de escuta, de criação, de pesquisa, de pensamento... e muito mais. Isso, se o diálogo com os planos de autoridade não se confundir com o mero controlar, com o preparar unicamente para a repetição do mesmo, para a ausência do efetivo espaço para fazer escutas, trocas e, enfim, para estar juntos. Sempre criando, vale lembrar! Importa, de fato, buscar o equilíbrio entre aspectos que devem ser complementares, que são partes de um todo. No entanto, reconheço não ser fácil transformar relações vinculadas aos sistemas de educação, nos quais, além dos problemas referentes à estrutura e as condições para a realização do trabalho, tende a vigorar um pensamento educacional que privilegia a homogeneização, a repetição do igual, dentre tantos outros aspectos. Segundo o neurobiólogo chileno Humberto Maturana (1928 - ), o processo “ensinar/aprender” deve desencadear mudanças estruturais, devendo acontecer em um espaço de convivência onde alunos e 67


professores são afetados pelas mais variadas sensações. Esse espaço deve ser um espaço de aprendizagem mútua no qual, pela escuta, pela troca, o professor apreende, aprende e refaz o percurso do ensinar, indo além da transmissão de informações e/ou do desenvolvimento de competências específicas em uma ou outra área do conhecimento (MATURANA, 1997). Discorrendo sobre a formação do espaço de convivência, Maturana recorre a uma metáfora na qual lembra a criança que chega à escola pela primeira vez, ainda pequena e que depois de relutar, ou mesmo choramingar, aceita dar a mão à professora que a recebe. Juntas, então, elas se tornam co-ensinantes, transformando-se, continuamente, em congruência. Um professor, para ele, é alguém que aceita a condição de ser guia na criação do espaço de convivência inerente à educação, espaço marcado pela aceitação recíproca que se configura no momento em que surge o professor em relação com seus alunos, produzindo uma dinâmica na qual todos mudam juntos (MATURANA, 1997). “É preciso aprender a apreender do aluno o que ensinar” repetiu Hans-Joachim Koellreutter, muitas vezes, em suas aulas. Repensando o papel e a postura do educador, ele propunha que este fosse animador e parceiro, ao invés de transmissor de informações e conhecimentos. Educador, desse modo, criador de espaços de convivência e de efetiva troca, como bem diria Humberto Maturana.

Considerações finais Recorri ao relato de uma experiência ocorrida em um grupo de crianças, alunas da Teca Oficina de Música, com a intenção de apontar possibilidades para o fazer musical nos territórios da educação. Possibilidades que consideram as ideias de música das crianças, que se reorganizam contínua e dinamicamente, bem como, as parcerias entre adultos e crianças, tendo a criação como condição essencial. 68


Pretendi sinalizar, também, a construção de espaços de convivência, no ambiente da educação, regidos por modos de comunicação que abarcam “a diversidade da natureza das trocas, em que se fazem presentes os signos representativos ou intelectuais, mas principalmente os poderosos dispositivos do afeto” (SODRÉ, 2006, p.13).

Referências BRITO, Maria Teresa Alencar de. Por uma educação musical do pensamento: novas estratégias de comunicação. Tese de Doutorado. Programa de Comunicação e Semiótica. PUC/SP, 2007. DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix - Mil platôs - Capitalismo e Esquizofrenia, vol.4; tradução de Suely Rolnik – São Paulo: Ed.34 (Coleção TRANS), 1997. MATURANA, Humberto R. A ontologia da realidade. Cristina Magro, Miriam Graciano, Nelson Vaz (org.). Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997. SODRÉ, Muniz. As estratégias sensíveis: afeto, mídia e política. Petrópoli, RJ: Vozes, 2006, 230p.

Teca Alencar de Brito é Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP��������������������������� e educadora musical, criadora da Teca Oficina de Música, núcleo de educação musical voltado à educação musical de crianças, adolescentes e adultos. Desde 2008 é professora e pesquisadora no Depto de Música da ECA-USP.

Este artigo foi publicado, originalmente, nos Anais do XXI Congresso da ANPPOM – Associação e Pesquisa e Pós-Graduação em Música, em Uberlândia-MG 69


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Processos criativos

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O trovão e o relâmpago, sobre a relação entre som e imagem no mundo infantil Por Hélio Ziskind

Em abril deste ano (2014) participei de uma mesa no comKids sobre o tema Inovação. Apresentei um trabalho que fiz para o programa Castelo Ratimbum, da TV Cultura. Um trabalho de vinte anos atrás... Nesse trabalho, eu busquei usar recursos de imagem para aprofundar a percepção musical de crianças. Músicas de um minuto, com três ou quatro instrumentos. Meu objetivo era apresentar os instrumentos tocando juntos, desmembrá-los (ouvir em separado) e reagrupá-los. Na imagem, bailarinos dançando representavam os instrumentos. Apareciam sobrepostos na tela. O trabalho está disponível no site www.helioziskind.com.br (videos). Foi apelidado de “Pentagramas”. Os primeiros Pentagramas criados mostraram que ouvir quatro sons simultâneos é algo muito diverso do que ver quatro bailarinos dançando quatro coreografias diferentes ao mesmo tempo. O ouvido sintetiza, é capaz de ouvir o todo e as partes ao mesmo tempo. O olho não. A diversidade da imagens atrapalhava a percepção do som. A cada novo quadro, fomos modificando a arquitetura das idéias, buscando meios de conduzir o olhar da criança pela tela. O Pentagrama se transformou num espaço de invenção. Creio que a inovação é algo que se encontra inesperadamente, quando se caminha em busca de sentido. Encontrar algo novo é decorrência de um trabalho de criar vínculo, criar motivos para o 72


encaixe das peças. Em geral, os músicos são chamados para integrar um projeto audiovisual quando a idéia já está concebida. A música vem recobrir algo existente. Vem para complementar o ato de ver. Porém, o vídeo contem tempo. Quem explicita o tempo do vídeo é a trilha. Os estados afetivos da imagem são controlados pelo som. A música estabelece o ritmo do fluxo. A presença da música, compreendida como consciência do tempo, quando participa da elaboração de uma idéia visual, produz inovações estrondosas. Cito dois exemplos. Para mim, um exemplo extraordinário foi a série Teletubies. Imagens com tempo expandido, repetições integrais de cenas longas (uma crianças olhando a chuva batendo na janela, por exemplo) nunca tinham sido vistas dessa forma. Não era a trilha musical que 73


comandava, era uma sensação musical que comandava a escolha e o tempo das imagens. O resultado era um convite à percepção. E à coragem de mexer no tempo da linguagem de TV. Outro exemplo fortíssimo foram filmes como Koyaanisqatsi, com trilha criada por Philip Glass. A música estabelece um tempo para o olhar, permitindo transitar rapidamente de andamentos rapidíssimos para tempos ultralentos, de modo que a própria noção de narrativa sai da imagem e passa a residir num ponto intermediário entre som e imagem. Certamente, ver e ouvir acontecem em áreas distintas de nosso cérebro. E uma arte que as coloca em contato nos pede para estabelecer relações. Helicópteros bombardeando soldados ao som de uma ópera de Wagner (Apocalypse Now) nos põe numa situação de percepção (e reflexão) que os elementos separados não conseguiriam atingir. E, o que queremos para as crianças que assistem um vídeo com música? Que se mantenham absorvidas (e quietas) diante da tela? Ou que tenham inquietações? O que vamos oferecer às crianças? Projetos audiovisuais que não pretendem reduzir a criança a um estado de euforia constante deveriam chamar músicos desde o início. As vozes caricatas não deveriam prejudicar a dicção. Os tempos deveriam ser variados. Não podemos ter medo do dos tempos lentos nem do silêncio na TV. A música e o som deveriam ser assuntos, personagens. O refinamento deveria ser uma meta. Não há necessariamente contradição entre refinamento e sucesso. Os Beatles, ou mesmo o disco Acabou Chorare dos Novos Bahianos, são prova disso. Termino com a metáfora do trovão e o relâmpago. São eventos fora de sincronia. A luz chega antes, mas o som alto traz o medo, porque indica se a descarga está perto ou longe. Usamos

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esse “vídeo-com-trilha natural” para organizar o noso pensamento. Penso nas canções que quero fazer, nas histórias que quero contar. Nesse momento, estou voltado para o Patinho Feio. O texto original de Andersen traz uma narração belíssima, descreve uma trajetória com inúmeros sofrimentos em série. Comparo a versão original com as versões modernas da mesma história, onde todos os sofrimentos foram eliminados. A história ficou mais curta e sem sofrimentos. Tem sentido contar (ou cantar) em nossos dias a história original? Estaremos levando as crianças a um sofrimento desnecessário? Ou será que a força da história reside justamente em fornecer à criança uma ferramenta para aprender a suportar? Tendo para a segunda hipótese. Mas guardo comigo o final dos 12 Trabalhos de Hércules, na versão de Monteiro Lobato. Na última missão, Hércules desce ao inferno. Mas Pedrinho, nosso menino herói que tanto o ajudou, não quer ir, porque tem medo. A delicadeza (e o respeito) com que Hércules o trata na volta, é uma lição.

Hélio Ziskind Músico, atua como compositor, arranjador e intéprete. Trabalha com música para crianças, projetos educacionais, trilhas sonoras para dança, teatro, TV, rádio e cinema. Através de seu selo, vem lançando CDs de música para crianças, tendo já recebido três Prêmios Sharp por CDs infantis. Hélio Ziskind é conhecido como autor de temas para os programas infantis da TV Cultura de São Paulo (Cocoricó, Castelo Ratimbum, entre outros).

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Desenho, infância, trabalho Por Laura Teixeira Meu nome é Laura Teixeira e sempre me apresento como ilustradora, apesar de não trabalhar exclusivamente com ilustração. Fui convidada pela equipe do comKids para participar de uma mesa redonda falando sobre meu processo de criação. Ao longo de alguns anos, descobri uma certa facilidade em me comunicar com as crianças, talvez porque me sinta mais à vontade entre menos filtros sociais e formalidades. E eu gosto de brincar, pode ser por isso também. Entretanto, embora tenha atuado bastante num universo voltado para o público infantil, há bastante tempo venho entendendo que o foco da minha carreira não está - e nem nunca esteve - no público-alvo e, sim, no próprio desenho em suas mais variadas formas. Ao me deparar com a necessidade de apresentar às pessoas o que faço, sua relação com a infância e as razões que me levaram a desenvolver esse tipo de atividade, resolvi estabelecer analogias entre alguns trabalhos atuais e outros realizados quando era menina. Imaginei que, através da observação de recorrências e utilizando mais imagens do que palavras, poderia encontrar algumas pistas importantes na tentativa de responder perguntas que surgissem na hora. Três núcleos logo me pareceram claros: os personagens, os vestidos e os livros. Então a estrutura de cada discurso visual ficou assim: algo feito na infância, em seguida trabalhos recentes de criação, depois oficinas relacionadas/trabalhos de terceiros dentro do tema. Seguem algumas imagens mostradas durante o evento. Obrigada pelo convite, comKids! 76


Laura Teixeira Ilustradora e designer especialista em livros infantis e ilustração. É autora de livros de imagens (histórias em quadrinhos, murais e estampas para roupas) que tem como base o desenho à mão livre. Formou-se na FAU-USP, onde fez também um mestrado sobre livros infantis, e especializou-se em ilustração em Barcelona. É integrante do coletivo Charivari. Publicou pelas editoras Cosac Naify, Hedra, Melhoramentos e Jujuba.

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Programação

• Palestra: Tríptico da Infância e da imaginação Com Chiqui Gonzalez – Ministra de Inovação e Cultura de Santa Fé – Argentina Ministra de Inovação e Cultura de Santa Fé desde 2007, María de los Ángeles “Chiqui”González é advogada, especialista en Derecho de Familia pela UNR, Argentina. Durante sua gestão, Chiqui González criou projeto “Tríptico de la Infancia” de Rosario, circuito pedagógico integrado por espaços públicos urbanos, mostras e dispositivos lúdicos destinados a crianças e adultos para a convivência, educação, criação e imaginação: La Granja de la Infancia, El Jardín de los Niños e La Isla de los Inventos. Além de transformar a cidade de Rosario em um grande cenário de aprendizagem e em uma escola da democracia, o projeto contribuiu para a recuperação patrimonial do município. Chiqui González também é vice-presidenta do Conselho Diretivo de ATEI (Associação de televisão educativa ibero-americana) e participou da criação de canais de televisão dedicados às crianças na Argentina – Pakapaka e Canal Encuentro –, e do Programa Señal Santa Fe, iniciativa dedicada à produção de conteúdos audiovisuais sobre a memória, história e cultura santafesina. Além de docente titular da Universidade de Buenos Aires (FADU – UBA) e da Escola Internacional de Cinema e Televisão ECTV, Chiqui também conta com uma extensa produção teatral como atriz, diretora e dramaturga dentro e fora do país.

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• Mesa: Inovação e criatividade O comKids reúne artistas que se dedicam à infância. Eles irão compartilhar conosco sua pesquisa, seus processos criativos e projetos inspirados e que inspiram as crianças a serem crianças em toda sua potência. MEDIAÇÃO: Vanessa Fort – coordenação geral e editorial do comKids CONVIDADOS Andrés Lieban: Trabalha com animação há mais de 20 anos e acumula inúmeros prêmios nacionais e internacionais com seus curtas e séries em festivais. Colabora regularmente com eventos que ligam animação e o público infantil. Criador e diretor das séries “Meu AmigãoZão” (melhor programa infantil da TV de 2010 pela APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte) e “Quarto Do Jobi”. Laura Teixeira: Ilustradora e designer especialista em livros infantis e ilustração. É autora de livros de imagens (histórias em quadrinhos, murais e estampas para roupas) que tem como base o desenho à mão livre. Formou-se na FAU-USP, onde fez também um mestrado sobre livros infantis, e especializou-se em ilustração em Barcelona. É integrante do coletivo Charivari. Publicou pelas editoras Cosac Naify, Hedra, Melhoramentos e Jujuba. Hélio Ziskind: Músico, atua como compositor, arranjador e intéprete. Trabalha com música para crianças, projetos educacionais, trilhas sonoras para dança, teatro, TV, rádio e cinema. Através de

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seu selo, vem lançando CDs de música para crianças, tendo já recebido três Prêmios Sharp por CDs infantis. Hélio Ziskind é conhecido como autor de temas para os programas infantis da TV Cultura de São Paulo (Cocoricó, Castelo Ratimbum, entre outros). Winston Petty: Empreendedor e game designer. Sócio-fundador da Webcore, agência digital e produtora de games e da Insolita Studios. Já liderou jogos premiados como “Turma do Chico Bento”, vencedor do troféu EGW de melhor jogo brasileiro de 2013, e produziu “Freekscape”. Convidado para ser coautor do livro-mangá “Uma Dupla que Faz Acontecer”, com temática empreendedora baseada em sua trajetória. Com formação em Ciência da Computação e Design, foi presidente da Abragames em 2009/10.

• Mesa 2: Inovação e Modos de fazer Laboratórios, núcleos criativos, salas de criação, coletivos. O comkids está interessado em discutir os modos de fazer, os outros e novos modos. Aqueles não tão tradicionais, que permitem novas dinâmicas de gestão criativa. Mediação: Beth Carmona, diretora geral e editorial do comKids. CONVIDADOS Jan-Willem Bult: É escritor de livros infantis, roteirista de cinema e séries de TV. Desde 1997 foi diretor criativo e chefe de programação infantojuvenil da KRO, na Holanda. Por seu trabalho já recebeu prêmios do Prix Jeunesse Internacional, Prix Danube e Dutch Academy Award. Desde fevereiro de 2014 Jan-Willem Bult é embaixador do Kids News Network e Wadada World World Kids News, apoiando o 80


desenvolvimento e o alcance da rede dos programas de notícias para crianças. O Kids News Network já existe em 12 países, entre os quais o Suriname, Bolívia, Gana e Birmânia. Em 2007, fundou sua própria fundação, a JWB Foundation, para apoiar projetos de mídias e esportes com participação infantil para o desenvolvimento da paz. Coletivo Lumika: O Lumika acredita que o mundo está mudando pra melhor. Produzir conteúdo sobre diversidade sexual e de gênero é a maneira que encontraram de questionar e estimular os jovens que são catalisadores de mudanças e estão sedentos por novos diálogos. Ricardo Palmieri: Artista, produtor multimídia e pesquisador de inovação e ferramentas livres para produção artística. Foi colaborador e jurado da GameJam “sobre”viver em Berlim, uma parceria do GoetheInstitut e Festival A.MAZE. Também estarão presentes os ganhadores da Gamejam.

• Rodada de Projetos Com a intenção de fomentar a produção e o desenvolvimento de projetos com esse olhar criativo e reconhecer trabalhos que tenham potencial de desenvolvimento e produção, o comKids Inovação selecionou seis projetos com potencial de desenvolvimento, que serão apresentados publicamente no evento. PRÉ-JURI (que consolidou os finalistas): Thais Caramico e Roberto Almeida (Garatujas Fantásticas), Cielo Salviolo (Consultora e diretora do LatinLab), Cleomar Rocha (Media-Lab da UFG), Artur Tilieri (Cartoon Network), Vanessa Fort e Beth Carmona (comKids). 81


PROJETOS FINALISTAS: Nina (Carmela Conteúdos e Ideias), Pedra Dourada (Alopra Estúdio), Projeto Blogar, Maguaré (Ministério de Cultura da Colômbia), Crianceiras (Criatto Promoções), Projeto Piquenique. JÚRI (presente na avaliação pública): Karen Acioly – FIL – Festival Internacional de Intercâmbio de Linguagens, Luiz Rangel – Programador cultural do Goethe-Institut São Paulo, Sabrina Nudeliman – Elo Company, Herminia Bragança – TV Brasil, Jimmi Leroy – Nickelodeon, Beth Carmona – direção geral do comkids MEDIAÇÃO: Vanessa Fort – coordenação geral e editorial do comkids

• Conversa com Alemberg Quindins, Fundação Casa Grande (Cariri, Ceará) Músico de formação popular, historiador autodidata, Fellow da Ashoka e Líder da Avina. Em 1992, restaurou a primeira casa grande da fazenda que deu origem ao Município de Nova Olinda (CE) e criou em sua sede a Fundação Casa Grande-Memorial do Homem Kariri: uma organização não governamental que tem como missão educar crianças e jovens através da gestão cultural e do protagonismo juvenil. Na África, em Moçambique e Angola, criou a rede de jovens comunicadores da língua portuguesa.

• Rodada de Projetos: entrega de Prêmios e Menções

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Programação 8h30 / 9h - Credenciamento

12h40 / 14h00 - Almoço

9h / 9h20 - Abertura Beth Carmona Eva Fiedler-Carvalho diretora de Cooperação Pedagógica do Goethe-Institut 

15h30 / 15h50 - Intervalo

9h20 / 10h20 - Palestra Tríptico da Infância, com Chiqui Gonzalez – Ministra de Inovação e Cultura de Santa Fé – Argentina

Karen Acioly FIL – Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens Luiz Rangel Produtor de Artes Visuais do Goethe-Institut São Paulo

15h50 / 17h50 - Rodada de Projetos Mediação: Vanessa Fort – coordenação geral e editorial do comkids

Chiqui Gonzalez 10h20 / 10h40 - Intervalo 10h40 / 12h40 - MESA 1: inovação e criatividade Vanessa Fort – coordenação geral e editorial do comKids   Hélio Ziskind Andrés Lieban Laura Teixeira Winston Petty Jan Willen

Herminia Bragança TV Brasil Sabrina Nudeliman ELO Consultoria Jimmy Leroy Nickelodeon Beth Carmona Direção geral do comKids 17h50 / 18h50 - Conversa: Inovação social e Cultural Alemberg Quindins (Fundação Casa Grande) 19h – Rodada de Projetos – Entrega de Prêmios e Menções

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Imagens comKids inovação Fotos de Danila Bustamante/ comKids

Chiqui González (de pé), Beth Carmona (esq.) e Eva Fiedler Carvalho (dir.)

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1. Beth Carmona (de pé), Chiqui González e Eva Fiedler-Carvalho (sentadas) 2, 3. Chiqui González


1

2

3

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Alemberg Quindins 86


HĂŠlio Zinskind

Laura Teixeira 87


AndrĂŠs Lieban, Vanessa Fort e Winston Petty

Laura Teixeira

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Babi Sonnenwend e JosĂŠ Agripino

Jan-Willem Bult 89


Audit贸rio do Goethe-Institutt 90


Rodada de projetos

Márcio de Camillo, projeto Crianceiras

Maribel Salazar, portal Maguaré, menção honrosa Prêmio comKids 91


Phablo Gouvêa de Lima, projeto Blogar, prêmio Goethe-Institut

Cristina Menna Barreto, Angélica Kalil, Liliane haag Brum, Adriana Oliveira, projeto Piquenique

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Flávia Amado e Daniela Conde, projeto Nina, Prêmios comKids, Elo Company e FIL

Nichola Paim e Fernando Stefano, Projeto Pedra Dourada, Prêmio Elo Company

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Vídeos comKids inovação PLAYLIST GERAL

HÉLIO ZISKIND – Música e Subjetividade

CHIQUI GONZÁLEZ

– Música e Imagem

– Criatividade e Infância – Audiovisual, Infância e linguagem

WINSTON PETTY

– As Histórias

– Winston Petty - Games e

– Infância e Identidade

aprendizado

– Infância e Arte COLETIVO LUMIKA JAN-WILLEM BULT

– Coletivo Lumika - Novos Diálogos

– Como Explicar? – As Histórias Infantis 

RICARDO PALMIERI

– Autonomia Infantil

– Ricardo Palmieri - Interfaces e aprendizado

LAURA TEIXEIRA – Inspiração

SOBRE O EVENTO

– Experiência estética

– Teaser do evento

– Livros-Objetos

– Mesa Inovação e criatividade – Mesa Inovação e Modos de fazer 

ANDRÉS LIEBAN

– Palestra Chiqui González

– Os Personagens

– Finalistas Rodada de Projetos

– No Mundo da TV

– comKids Inovação - Geral

– Histórias – As Falhas  ALEMBERG QUINDINS – Fundação Casa Grande – Protagonismo Infantil

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Sobre o comKids O comKids é uma iniciativa para a promoção e produção de conteúdos digitais, interativos e audiovisuais de qualidade para crianças e adolescentes, a partir de pressupostos culturais, de inovação e de responsabilidade social no Brasil e na América Latina. Os propósitos e espaços do comKids trabalham à favor das crianças, buscando uma abordagem especializada e um olhar cuidadoso. Dedicado a compor uma visão mais contemporânea e integral da infância, o comKids reúne artistas, produtores, diretores, roteiristas, ilustradores, animadores, escritores, artistas, game-designers, designers, educadores e agentes culturais para estimular ideias que potencializem o desenvolvimento e a criatividade infantis, a partir da produção cultural dedicada às crianças. Para fazer isso, organiza espaços e incentiva a produzir conteúdos com a intenção de articulá-los em pensamentos e inspirações, e logo em pesquisas, artigos, conversas, vídeos, debates, cursos, entre outras coisas. A intenção é criar espaços livres para o encontro dos profissionais acima mencionados, para enriquecer e possibilitar outras e inovadoras conexões com o circo, o teatro, a música, as artes plásticas, a poesia, a literatura, o audiovisual e as plataformas digitais e interativas. Produzir arte e cultura para a infância é um lindo caminho para a formação do universo simbólico e emocional das crianças, trazendo ricos e fortes estímulos ao seu desenvolvimento. E o objetivo é conseguir isso sempre mantendo a conexão e a inspiração junto ao universo infantil. Dentre o conjunto de atividades promovidas está o Portal comKids, o Festival comKids Prix Jeunesse Iberoamericano (nos anos ímpares) e os eventos temáticos (nos anos pares), como o comKids Inovação, do qual esta publicação faz parte.

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comKids inovação

Goethe-Institut

Direção Geral e editorial Beth Carmona

Diretora Executiva Katharina von Ruckteschell-Katte

Coordenação de comunicação Geraldo Leite

Diretora do Programação Cultural Laura Hartz

Coordenação Geral e editorial Vanessa Fort

Programadora Cultural Isabel Hölzl

Coordenação administrativa Sandra Alves

Programador Cultural Luiz Rangel

Coordenação de produção Gabriela Hashimoto

Assessora de Imprensa e Comunicação Simone Malina

Produção Daniel Leite Paula de Oliveira Assistente de produção Beatriz Gonçalves Leila Baesso Edição de texto e tradução Daniel Leite Programação visual e design Thereza Almeida Foto e vídeo Danila Bustamante Assistente Jamir Cervera

Agradecimentos Vera Franco de Carvalho Juliane Cavalcante Sergio Brandão Leandro Elias Ronaldo Santiago Thiago Lage Milena de Almeida Fabiana Barbosa Samuel Macedo Hélio Filho Alemberg Quindins Cielo Salviolo

Site Elav

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Publicação comkids inovação  

O que é inovação para crianças? Quais são os processos de inovação social e cultural voltadas para crianças? O que caracteriza produções cri...

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