Page 1

não tínhamos outro remédio quando as coisas éramos nós carolina marostica


não tínhamos outro remédio quando as coisas éramos nós carolina marostica visitação | 12 de abril a 11 de maio de 2012 associação francisco lisboa, porto alegre, brasil produção | coletivo or:be

não tínhamos outro remédio quando as coisas éramos nós carolina marostica

textos | carolina marostica, luiza mendonça fotos | carolina marostica, luise malmaceda projeto gráfico | atelier lume


este livro é o registro do processo da intervenção “Não tínhamos outro remédio quando as coisas éramos nós”, da artista Carolina Marostica dentro das paredes da galeria da Associação Chico Lisboa e posteriormente avançando até seus jardins. o projeto, uma parceria da artista com o coletivo de produção cultural Or:Be, foi selecionado no Edital 2013 para abrir o ano de exposições do 75º aniversário da associação.


dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa somos nós. josé saramago

Não havia outro remédio. Deveria reconhecer-se como matéria no espaço, como parasita que se desenvolve sem hesitação, preenchendo-se de existências – da sua e do outro. Marostica ocupou a Chico Lisboa desde abril, experimentando presenças de cor, de vírus, de pintura. Em 2012, passou seus dias em uma outra Lisboa, divisão intercontinental, terras primeiras. Na antiga lisboa, pensava as fronteiras do ato pictórico no espaço. Já na segunda não eram mais de limites que se tratava sua ação artística. Tratava-se de matéria, de corpo, de potencialidade de existência.


Nas paredes da galeria, fome de vírus: a matéria-cor se alastra como parasita, ao mesmo tempo autônoma e dependente em sua existência. Respira sozinha, alimenta-se do espaço.

Por ora, se alastra na parede principal: tomou-a para si. É um único ser agora. Em outros momentos, encontros inevitáveis – a matéria-cor é sorrateira e apodera-se silenciosa de cantos, de esquinas, de nós mesmos.


Os dias de abril observaram a invasão da matéria-cor nas paredes da galeria. Nos dias de maio, são os jardins o território conquistado. Fendas em muros e cicatrizes em árvores não escapam de se tornar parte de um organismo maior, uma coisa viva que respira junto.

Nos últimos dias, a surpresa: vespas haviam escolhido o parasita de silicone cor-de-rosa como lar. Ser vivo tomando parasita tomando ser vivo. Coisa sobre coisa sobre outra coisa, tudo o mesmo, fronteiras e superfícies dissolvidas. A mesma existência.


Dentro de nós, diz Saramago, há uma coisa que não tem nome. Essa coisa não pode ser determinada com precisão, limitada em si mesma. Essa coisa faz parte de nós mesmos e também de coisa maior.

Essa coisa éramos nós.


germinava um (outro) universo dentro de mim. agora era alĂŠm: alĂŠm pintura.


matĂŠria-cor era um ser: com corpo, com vida e, como tudo que ĂŠ vivo, transforma-se; dialoga com nosso corpo como um outro que tem suas especificidades e coloca seus limites, surpreendendo-nos com comportamentos inesperados.


nos dias secos, a matĂŠria desbotava e, enrijecida, virava pedra: o sal brilhava no lugar da cor.


um ser que habita o lugar.


os limites do corpo dissolvidos, as coisas j叩 n達o s達o mais se n達o parte de coisa maior.


agora me parece claro: somos todos feitos dessa mesma matĂŠria.


as coisas 茅ramos n贸s.


textos carolina marostica | p. 33, 34, 37, 41, 46, 54, 63 luiza mendonça | p. 7, 8-9, 10-11, 12-13, 14-15 fotos carolina marostica | capa, 4-5, 6, 8-9, 10-11, 12-13, 14-15, 18 (abaixo), 22-23, 24, 25, 35, 36-37, 38-39, 40, 41, 42-43, 44-45, 46, 47, 50, 53, 55, 56-57, 58-59, 60, 61, 62, contracapa luise malmaceda | 16-17, 18 (acima), 19, 20-21, 26-27, 28, 29, 30-31, 32, 48-49, 51

realização


Não tínhamos outro remédio quando as coisas éramos nós  

relato da intervenção "Não tínhamos outro remédio quando as coisas éramos nós" da artista Carolina Marostica na galeria e no pátio da Associ...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you