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M.U.L.H.E.R FANZINE

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SOBRE O PROJETO O projeto M.U.L.H.E.R – Meios Utopicos de Luta contra a Hipergenitalizaçao como Embate e Resistencia, contemplado pelo Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais - VAI 2017, tem como objetivo fomentar por diversas vias, seja pelo espetaculo, sejam pelas ações do projeto realizadas ao longo do ano de 2017 e parte de 2018, a troca de saberes entre mulheres, visando empoderamento e o apoio coletivo. Neste Fanzine, você encontrará textos de mulheres que compõem a Coletiva Elas e de mulheres que foram convidadas pela coletiva para compartilharem suas trajetórias e experiências de luta e (sobre)vivência. Encontra-se nesta versão online o texto dramatúrgico da peça M.U.L.H.E.R, de Carla Kinzo, a quem agradecemos imensamente pela parceria.

Foto: Murilo Gaulês


Clareamento de pele: racismo e patriarcado

marcas

caminhando juntos

como

Garnier,

Nivea,

com

propagandas

espalhadas pelas grandes cidades, apresentando RAFAELA OLIVEIRA

de

forma

explícita

em

outdoors

gigantes,

dizeres como: “Para uma pele visivelmente mais No

Brasil

sabemos

dos

efeitos

que

a

clara”.

relação entre racismo e machismo causam sob os corpos, principalmente das mulheres negras, que carregam uma imagem de mulher-objeto, máquina sexual, aquela feita só pra ‘fuder’, imagens estas

construídas

ao

longo

dos

séculos

pelo

sistema racista e escravocrata. No entanto, se passam

os

séculos,

a

opressão

continua,

mas

seus mecanismos e manifestações se aprofundam e se modificam. Considero produtos

de

clareamento notícias

africano. A

como

um

beleza da

da

Outdoor em país

desses

que

pele.

mecanismos,

têm

como

Volta

e

popularização

objetivo meia

desses

os

campanha filmada

o

na Nigéria, foi

vemos

cremes

em

transmitida também em países

países como África do Sul, Índia, Coréia do

como Gana,

Sul,

Camarões e

entre

outros.

Em

alguns

lugares

são

produtos clandestinos, mas de fácil acesso em lojas

e

encontrar

farmácias. esse

tipo

Mas

também

de

produto

é em

possível grandes

Senegal.


Sua utilização não se restringe somente às mulheres,

apesar

de

serem

elas

as

maiores

mulheres que os utilizam, sabem dos riscos, mas o que as faz continuar fazendo seu uso? Aqui

consumidoras. O número de consumidores homens

vão

tem

internet,

crescido,

algumas

e

em

marcas

alguns têm

países

asiáticos

criado

produtos

alguns

exemplos (suas

tirados

fontes

de

estarão

notícias ao

final

da do

texto)em tradução livre:

especialmente para o público masculino. O fato de serem vendidos como produtos de

“Em

comparação

maioria

apresentável, mesmo que ela não precise sair de

branco), é uma tentativa de vender a ideia de

casa.

que a cor da pele é uma escolha pessoal, sendo

aparência porque faz com que ela se sinta bem.

este

Foi provavelmente uma das razões pelas quais

que

muitas

marcas

têm

ela,

é

extra

Filipinas,

ser uma pessoa bonita é estar mais próximo do

argumento

esforço

das

Caabay

Para

um

a

beleza, (o que já deixa evidente a noção de que

um

faz

com

importante

sustentado, o que pode acabar por desviar a

seu empregador a trouxe para Roma.

atenção

Seus

de

problemáticas

bem

mais

profundas,

enraizadas em nossa estrutura social. Estão

envolvidas

primeiros

dias

como

para

parecer

ter

ajudante

uma

boa

doméstica

eram difíceis. Porque ela era de pele escura,

questões

sociais,

ela

teve

que

suportar

ser

discriminada,

e

identitárias, culturais, que se tornam um pouco

muitas vezes, receber insultos raciais. Hoje,

mais

ao

complexas

quando

olhamos

com

atenção

o

investir

em

auto-aperfeiçoamento

e

boa

lugar da mulher nessas sociedades. É importante

aparência, recuperou sua autoestima e construiu

dizer

sua confiança. E muito visivelmente, ela é mais

nocivos

que

esses

para

a

produtos

saúde,

seus

são

extremamente

agentes

químicos

podem causar propensão ao câncer de pele, e também gerar danos irreversíveis. A maioria das

clara na aparência atual.”¹


proximidade da branquitude, maiores as chances “[clarear a pele] faz com que os homens te

de ascensão social, um tom de pele mais claro

vejam.”²

pode definir que tipo de emprego se poderá ter, em alguns países essa é a grande preocupação de

Um

outro

comerciais

exemplo

de

um

é

de

creme

uma

série

clareador

de

de pele

mulheres

com

preocupação

pele

de

mais

Caabay,

escura,

como

mencionada

foi

acima.

a

Não

indiano³, onde um homem deixa sua esposa para

podemos deixar de ressaltar que esses são um

ficar com uma mulher de pele mais clara. No

dos vários efeitos causados pela colonização,

decorrer das propagandas, a primeira mulher se

onde

concepção

compelida

término

do

a

clarear

a

sua

pele

relacionamento,

que

ao

após

que

o

tudo

o

definir

colonizador o

de

mundo,

que

seria

e

como

sua

a

sua

raça,

norma.

passaram

Mesmo

difundidos

seu ex parceiro decida reatar o relacionamento.

pelo qual, nações como as citadas inicialmente

nítidos

a

que

esses

influência

três

do

exemplos

racismo

na

deixam

vida

de

vida

a

de pele branco, o que curiosamente faz com que

processo

de

após

a

colonização,

pelo

padrões

cultura,

indica foi traumático, até que chega em um tom

Acredito

esses

bem

são

ocidentalização

passam.

de

É urgente uma reflexão cuidadosa e séria

mulheres em todo o mundo. Se você não é branca,

sobre

logo, não é uma mulher atraente, e é justamente

possibilidades

a atração que um homem sente ou pode sentir por

agora, sem perdermos de vista a necessidade de

você, que constitui o seu valor enquanto ser

uma

humano.

aspectos da vida, de forma a impedir o avanço

incute anos

É em

de

isso

o

nossas vida.

que

o

mentes,

Além

patriarcado desde

disso,

os

quanto

racista

primeiros maior

a

essas

mudança

questões, de

ações

estrutural

pensando à

serem

envolvendo

também

em

feitas

no

todos

de projetos racistas, misóginos, genocidas.

os


¹

“Yes,

Asia

is

obsessed

with

white

skin”

-

pelos termos ‘skin bleaching’ ou ‘skin whitening’.

http://business.inquirer.net/215898/yes-asia-is-

Também é possível encontrar vídeos no youtube com

obsessed-with-white-skin

propagandas desses produtos, com os mesmos termos.

² ”Why Black Women in a Predominately Black Culture Are

Still

Bleaching

Their

Skin”

-

https://www.marieclaire.com/beauty/a27678/skinbleaching-epidemic-in-jamaica/ ³ “Racist Ponds Commercial (Complete) - India” https://www.youtube.com/watch?v=xgx6xrc0gBs Outras fontes: “Nivea promete branquear pele negra e é acusada de racismo”

-

https://exame.abril.com.br/marketing/nivea-prometebranquear-pele-negra-e-e-acusada-de-racismo/ Mini-documentário

sobre

clareamento

de

pele

na

África do Sul - “Skin bleaching scandal in South Africa

|

Unreported

World”

-

https://www.youtube.com/watch?v=bWHCwXZpH6E **

A

maioria

dos

textos

sobre

o

assunto

são

encontrados em inglês, caso se interesse, procure

Foto: Anne Motta


Não adianta falar, não é você quem me conduz. Cada ser com sua matéria cada sombra com a sua luz. Não adianta tentar você não vive por ninguém o importante é estar

No

SHOW,

em

21

de

outubro

de

2017,

na

Ocupação Casa do Hip Hop, Natt Matt, militante e rapper, cantou e contou suas vivências de mulher trans no que se refere a expectativa de vida, mercado de trabalho e acessibilidade aos produtos públicos e privados da cidade.

vivo e o importante é estar bem.

Fotos: Breno Andreata

Cada ser – Natt Maat


Coloquei pra fora quantas coisas já me fizeram engolir e cuspi de dentro Quantas coisas já te fizeram de mim todas as formas que me ensinaram. Vomitei, e explodiu dentro engolir? de M.U.L.H.E.R, meus abusos e minhas Durante o processo criativo do amarras. espetáculo M.U.L.H.E.R me deparei com E você, essas questões e não fui capaz de já vomitou quantas vezes hoje? respondê-las embora elas me movam muito. Utilizei dessa questão como principal disparador para as cenas que trazia. Através de respostas cênicas descobri que o estômago feminino, e dos demais gêneros não normativos, é muito maior do que o masculino. O patriarcado é a árvore que sustenta nossa tão tradicional sociedade. Dessa árvore caiem frutos tão podres quanto as suas raízes. Que nós, gêneros não contemplados por esse modelo boçal, temos que engolir. Frutos tais como o machismo, a Foto: Anne Motta homofobia e etc. Qual o tamanho do seu estômago?


O MOVIMENTO DE MULHERES: A construção de uma epistemologia plural. VANESSA GONÇALVES Meu desejo pulsante na escrita desse texto nasce de questionamentos que tenho carregado, durante

alguns

estudos

mais

anos,

advindos

aprofundados

de

na

leituras história

e do

movimento feminista e na realidade atual das mulheres brasileiras. Pergunto-me, por vezes, por que apenas em raríssimos momentos na minha formação escolar, por exemplo, ouvi nomes de mulheres que contribuíram e/ou participaram de algum

momento

rodas

de

histórico?

conversa

ou

Por

em

que

cursos,

em

muitas

pouco

ouvi

falar sobre divisão social do trabalho? Por que O jogo performático “Cuidando da Casa” faz parte do projeto M.U.L.H.E.R, onde convidamos donas de casa do bairro do Jaraguá e região a realizar leituras de textos feministas em troca de serviços domésticos. Os serviços são realizados pelas atrizes da Coletiva Elas.

quase não ouvi nomes como de Rosa Luxemburgo ou Angela

Davis?

mulheres

na

que

Revolução

nunca

ouvi

Russa,

ou

falar sobre

das o

movimento de mulheres nas Américas ou na Índia? Isso também não é história? Trago a tona Ana Mae Barbosa, no texto “Cronologia

Para mais informações, só entrar em contato.

Por

da

Dependência”,

do

livro

“John


Dewey e o ensino de arte no Brasil” (2001),

conhecimento, ciência, e se estamos, de quem

onde

estamos

a

pesquisadora

educacional

de

um

discute país

o

sistema

dependente

pelo

“importando”.

cientificista,

o

Em

homem,

uma “o

sociedade sujeito

do

colonialismo e imperialismo durante os séculos,

conhecimento passa a defender a tese de que

trazendo a luz à questão: de onde vêm nossas

conhecer é dominar e controlar a natureza e os

bases

seres humanos”(MELO; AQUINO, 2014, p. 94), o

curriculares?

dependência

se

conteúdos

e

pedagógico,

Explica

reflete

nas

formas a

que

de

educação

essa

escolhas

de

desenvolvimento

neste

torna-se

um

instrumento

de

soberania e de dominação. É possível, uma forma

é

de conhecimento que se pretende dominar tratar

instrumento da “metrópole” para manutenção da

de temas como direitos e busca por emancipação

dependência de países periféricos, do terceiro

das mulheres? Como abrir espaços e acrescentar

mundo,

esses

subdesenvolvidos

denominar

países

ou,

que

contexto

conhecimento

como

durante

se

queria

séculos

vêm

carregando as marcas do período colonial e hoje carregam um peso do capitalismo internacional em sua fase superior, imperialista. O

conhecimento

outros

temas

na

educação,

produção

artística e intelectual, nos debates e espaços deliberativos etc, de nossa sociedade? Retrocedemos no Brasil! Retrocedemos de um Governo Federal liderado por uma mulher, eleita

produzido,

democraticamente, com nove ministras, em 2010,

elaborado por alguém, por uma comunidade, um

e seis até o mês de sua saída, para um governo

grupo

conservador, sem mulheres, negras ou negros em

social

a

é

e

partir

sempre

de

sua

experiência

e

visão de mundo, a partir de uma ideologia. A inclusão

ou

curriculares,

exclusão

muito

nos

diz

de

discussões, sobre

se

temas cursos

estamos

nas

ministérios.

grades

Cada vez mais, torna-se urgente a produção

formações

e reconstrução de materiais sobre o tema não

“importando”

apenas para caráter de informação, mas para que

e


a luta da emancipação da mulher também se dê

Era

por vias epistemológicas.

consciência dos oprimidos. Mas era limitada por

Ao

iniciar

buscas

sobre

o

movimento

de

uma

certas

contracultura,

o

circunstancias

que

e

reflete

foi

uma

incapaz

de

mulheres no mundo, me deparei com uma série de

encontrar uma saída, um caminho para acabar com

livros, artigos, ensaios e materiais online que

esta

datam o início de manifestações feministas a

resposta na religião, ou em algum Deus pessoal.

partir da Revolução Francesa, ou do Movimento

(GANDHI, 2016, p.32)

opressão.

Em

vários

casos,

buscaram

a

pelo Sufrágio na Inglaterra, e nesse ponto um aspecto se evidencia: há pouquíssimos registros de

movimentos

anteriores

de

mulheres,

exceto

A construção da epistemologia feminista Alexandra

Kollontai,

texto

populares. Isso, por outro lado, não significa

(1907),

que

não

mulheres é possível em uma sociedade baseada em

reconheciam as opressões que sofriam ou que não

antagonismos de classe?”. A resposta para essa

lutassem

pergunta

não

contra

eram

elas,

oprimidas,

muito

pelo

que

contrário,

se

deu

“Um

Questão

“Os

Fundamentos

questiona:

da

seu

por alguns textos literários, lendas e contos mulheres

Sociais

em

movimento

durante

os

Feminina” unitário

anos

por

de

vias

muitas mulheres em todo mundo tornaram-se a sua

históricas. O movimento de mulheres, desde seus

maneira

primeiros

símbolos

de

resistência,

criando

aos

passos,

enfrentou

diversas

cisões,

meios que lhe foram possíveis para denunciar e

visto a variedade de objetivos e interesses de

transformar suas realidades. Anuradha Gandhi,

classe,

exemplifica

necessidade

esse

olhar,

quando

retrata

mas

algo de

é

comum

teorizar

sobre

todas a

elas:

a

condição

da

especialmente o contexto na Índia, relata este

mulher, de dar-lhes voz a suas experiências e

tipo manifestação individual da seguinte forma:

lutar pelo fim da subordinação feminina.


Em

busca

história, viés

das

origens

perceberam

demasiadamente

nas

do

patriarcado

ciências

masculino

de

na

concepções

masculinas, o

pensamento

abordagem

a

traduzi-lo para resolver as ausências que nele

análises havia um jeito de refletir sobre o

quantidade

de

papel

tendências

pela

forma

que

patriarcal de pensar. Começaram por expor como

que

a

filosófico,

maioria

das

trabalhos

mulheres

com

menores

ficou

de

transformar

Com

impregnado

filosófico,

o

perceberam.

mulher

a

sociais

problemas sociais conjunturais e em todas as da

propuseram-se

encurralada

salários

e

em

menos

isso

surge

correntes, partiram

constituíram

a

entre

e

imensa

abordagens

adotaram

base elas:

uma

do o

e

correntes pensamento

liberalismo,

socialismo, anarquismo, radicalismo etc. Muitas

qualificados, pela divisão sexual do trabalho,

feministas

e de como as classes dominantes, se beneficiam

correntes

economicamente

o

forma, é possível encontrar sobre essa questão

caráter também patriarcal do Estado por meios

estudos que diferem e/ou compactuam entre si, e

de

que

suas

trouxeram oral,

do

patriarcado.

legislações a

como

tona

a

forma

de

e

regulamentações,

importância superar

Discutiram

o

da

tradição

silenciamento

sofrido por mulheres ao longo da história e a necessidade de recuperar em forma de registros a

atuação

e

contribuição

de

mulheres

em

da

buscando

discutem e

mesma

a

e

divisão

forma,

justiça

problematizam do

feminismo,

enriquecem

social

e

essas

a

dessa

discussão,

cognitiva,

aliando

teoria e práxis, realidade material e reflexão teórica. Creio que seja mais necessário ressaltar a importância de temas como esse na

movimentos e lutas. Na filosofia encontraram um

educação, no ensino básico ou no superior, e em

campo

todas as áreas do conhecimento, todos os campos

para

análises,

dar mas

fundamento logo

teórico

perceberam

o

filosofia tradicional era marcada por

às

suas

quanto

a

de atuação social. “As mulheres têm história, mulheres

estão

na

história”

(LERNER

apud


GANDHI, 2016, p. 33), logo devem ser incluídas

BARBOSA, Ana Mae. John Dewey e o Ensino de Arte no

nas grades curriculares, suas produções devem

Brasil. São Paulo: Editora Cortez, 2001.

ser

colocadas

reflexão.

em

Por

oportunidade

muito de

universidades, maioria

em

pauta

para

tempo

hoje,

todasas

tivemos

a

escolas

no

regiões

e

não

frequentar

mas

discussão

Brasil, do

país

e

as

somos

a

desde

o

ensino fundamental até o superior. A luta nos

GANDHI,

Anuradha.

Sobre

as

Correntes

Filosóficas

dentro do Movimento Feminista. São Paulo: Editora Raízes da América – Edições Nova Cultura, 2016. KOLLONTAI, Questão

Alexandra. Feminina

Os

Fundamentos

(Extratos).

Sociais

Disponível

fez construir nossa própria forma de pensar e

<https://www.marxists.org/portu

elaborar, nossos métodos de luta em cada lugar

gues/kollontai/1907/mes/fundamentos.htm>.

da em:

do mundo e nos fez, principalmente, sujeitas históricas. teses,

Agora

trabalhos

compartilhados

e

nossas e

construções, lutas

assimilados

nossas

devem pela

ser

LOUREIRO,

Isabel

(Org.).

Rosa

Luxemburgo:

textos

escolhidos. Vol. I. São Paulo: Editora UNESP, 2011.

sociedade

esteja ela em sua forma atual, capitalista, ou em outra alcançada por vias revolucionárias. Encerro com uma frase da Marcha Mundial das Mulheres, que acredito representar bem o

MELO,

Roberta

Soares

de;

AQUINO,

Sérgio

Ricardo

Fernandes de. A Ideologia Cientificista na Criação do

Mito

Húmus.

da

Neutralidade

Maranhão,

n°10,

Científica.

In

Jan/Fev/Mar/Abr.

Disponível

Revista 2014. em

meu desejo de continuidade prática de luta em

<http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php

todos os âmbitos da minha vida:

/revistahumus/article/view/2394>.

“Seguiremos livres!”

em

Marcha

até

que

todas

sejamos SCHAEFER, Rosita. Uma visão feminista e comunista: como conciliar classe, etnia e gênero? Disponível em:

<http://www.novacultura.info/single-


M.U.L.H.E.R

post/2016/02/05/-vis%C3%A3o-feministae-comunistacomo-conciliar-classe-etnia-e-g%C3%Aanero? fb_comment_id=9357330531644 81_935781226492997>

A partir dos textos e improvisações das atrizes e de materiais diversos sobre mulheres, por Carla Kinzo Novo tratamento em 7/4/18 [O

espaço

é

uma

casa

em

ruínas.

Abandonada.

Restos de mobília estão espalhados pelo espaço e coberto

com

lençóis.

poeira

no

espaço.

O

público é convidado a procurar por cadeiras para sentar. Vão retirando as cadeiras e se acomodando no

espaço.

Além

da

mobília

quebrada

e

das

cadeiras, há uma câmera e uma televisão velha em cena, também cobertas. Com o público acomodado, Márcia entra em cena com sua Bíblia e começa a narrar

a

parábola

bíblica

de

Lot.

Depois

de

contada a história entram Rafaela, Vanessa e Min, que começam a lavar roupa. Estendem em um varal,

Foto: Anne Motta

disposto

em

cena,

mulheres

símbolos

Carolina

de

Jesus,

Dandara, etc...]

camisetas de

luta: Luana

com

estampas

Marielle Barbosa

dos

de

Franco, Reis,


pernas (RAFAELA sentada em um banco diante do público.

levaram

muito

beliscão

avulso

pelos

corredores”.

Por um longo tempo – o tempo que a atriz sentir Um

dia,

ela

subiu

ao

palco,

num

programa

de

que é necessário para que algo nela se modifique, calouros. Disseram que ela deveria ir bonita: ou algo ao seu redor – ela olha a plateia.

pegou então uma saia da mãe e uma camisa larga.

Então, depois desse tempo necessário, ela tenta Não pesava mais do que 40 quilos. Dobrou os panos um

movimento

com

o

rosto.

Podemos

vislumbrar que sobraram e enfiou uma porção de alfinetes.

pequenos espasmos em seus olhos, em sua boca – Fez duas marias-chiquinhas. Ao entrar em cena, que vamos descobrindo ser uma tentativa de falar. gargalhadas Seu rosto ensaia dar vazão a essa fala, que não perguntou:

no “De

auditório. que

planeta

O você

apresentador veio,

minha

sai. Talvez uma ou outra sílaba escape [uma e filha!?”. outra palavra, talvez?]. Essa

é

a

tentativa

Mais risadas. A resposta veio seca: “Do planeta de

recompor

uma

fala FOME”.

fraturada, mas que fracassa, propositalmente. RAFAELA: VANESSA:

Quantos anos você acha que eu tenho?

1930 ou 1932. Há quem diga que foi em 1937. Não E você...? Quantos anos você acha que eu tenho? se sabe bem o ano do seu nascimento. O que se Você, me diz: quantos anos eu tenho...? sabe é que menina criada na Água Santa, no Rio, (Tempo) foi

lavadeira,

encaixotadora,

empregada Eu tenho a idade da minha vó. Da avó da minha

doméstica. Sobre esses anos, ela diz: “O difícil avó. Da longa fila de avós que deram luz àquela era conter os avanços do dono da casa. Minhas que eu pude conhecer e que embalou a minha mãe. E que depois me embalou. Então, temos todas juntas


338 anos. Temos 18 anos também. Tenho a idade do antes,

em

cima,

bem

no

meio

da

fala

de

navio que trouxe a primeira dessas mulheres para Rafaela). cá, a que não conheci. Tenho a idade dela quando ela foi arrastada pra esta terra: 10. E 38, a (É bem potente, no entanto, que ela possa estar idade em que ela morreu. Tenho 58 anos e eles pelo menos nos ensaios, mesmo que como estímulo a pesam bem aqui (aponta os ombros). Tenho 70 anos essa fala – que deverá arrastar essas figuras também. E 45. 89. 90. 52. 68 anos, 64. Tenho femininas ancestrais rememoradas para o centro apenas 2 anos; é tudo o que eu tenho: 15 anos nas palco, alegoricamente). linhas das mãos. Também tenho a idade desse país. E sou mais velha que esse país. Que esses rios. MIN Tenho 49 anos dessa água toda e 78, e 91, e 22, e (lê trechos de Quarto de despejo, de Carolina 39,

e

44,

e

50,

e Maria de Jesus):

28............................................ “20 de julho de 1955. Deixei a cama às 4 horas (Uma

música

que

entra

enquanto

Rafaela

segue para

escrever.

Abri

a

porta

e

olhei

o

céu

narrando as idades das mulheres todas que ela estrelado. (...) Depois preparei a refeição da carrega em seu corpo: é Elza Soares cantando a manhã. música COMIGO, seca – apenas sua voz).

Cada

filho

prefere

uma

coisa.

A

Vera,

mingau de farinha de trigo torrada. O João José, café puro. O José Carlos, leite branco.

Link: https://www.youtube.com/watch?v=gM0_3uZGNVY Já que não posso dar aos meus filhos uma casa decente para residir, procuro dar uma refeição (A música pode desaguar na cena posterior, ou digna. (...) Depois fui lavar roupa. Eu não tenho conforme

acharem

melhor.

Pode,

ainda,

entrar homem em casa, é só eu e meus filhos. O meu sonho


era

andar

residir

limpa,

numa

possível.

Eu

profissão

que

usar

casa não

roupas

de

alto

preço, Não quero mais falar e no entanto.

Mas

não

é As palavras não alcançam e ainda assim.

descontente

com

a Eu queria que você soubesse, mas.

confortável. estou

exerço,

me

habituei

a

andar Apesar disso eu.

suja. Faz oito anos que cato papel. Que suplício Eu. catar papel atualmente! Tenho que levar a minha filha Vera Eunice. Ela está com dois anos e não MÁRCIA: gosta de ficar em casa. Eu ponho o saco na cabeça Anna

Goriênko

e levo ela nos braços. Suporto o peso do saco na dezessete

anos

nasceu seu

em

pai,

1889, ao

em

Odessa.

descobrir

que

Aos ela

cabeça e suporto o peso dela. Tem hora que me escrevia poemas e pretendia publicá-los, diz: “Vê revolto, depois me domino. Ela não tem culpa de se pelo menos não envergonha o nome da família!”. estar

no

mundo.

(...)

Quando

fico

nervosa, Ouvindo isso, Anna decide adotar um novo nome e

prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento escolhe o sobrenome da bisavó materna: torna-se no quintal e escrevo”.

Anna Akhmátova, uma das poetas mais importantes da Rússia.

RAFAELA: As pessoas me dizem: “fala Rafaela! Você tem que VANESSA: falar. Não pode ficar quieta, tem que falar, você 18 de março de 2014. precisa se posicionar. Não pode se abster não, Cláudia Silva Ferreira tem o corpo arrastado por tem

que

botar

a

boca

no

espernear, é preciso!”

trombone,

gritar, 350 metros por um carro da Polícia Militar no Morro da Congonha, em Madureira, no Subúrbio do Rio.

É preciso dizer e no entanto.


Depois

de

ser

baleada,

Claudia

é

colocada

no

porta-malas, “para ser levada para o Hospital MIN: Carlos Chagas”, segundo o relato da Polícia.

Ao voltar do mercado para casa, em 10 de junho de 2016, Sheila Cristina da Silva encontra um corpo

RAFAELA

na calçada, debaixo de um lençol: é um rapaz. Ele

Eu ouço as vozes das mulheres que vieram antes de acaba de ser atingido por um tiro na cabeça na mim

enquanto

estou

aqui,

aquelas

que

me porta de sua casa, no morro do Querosene, região

permitiram estar diante de vocês, pra fazer uma central do Rio. pergunta. Será que vocês poderiam me responder?

RAFAELA: Sheila é o seu nome.

VANESSA: No meio do caminho, o porta-malas do carro da MIN: polícia abriu e Claudia ficou presa por um pedaço Enquanto se aproxima da cena, Sheila se dá conta: de roupa. Teve parte do corpo dilacerado ao ser aquela casa é sua. arrastada pelo asfalto. Um cinegrafista amador E o corpo estendido no chão é o seu. Ela mergulha fez

as

imagens.

Se

não

fosse

por

isso,

não as mãos no sangue espalhado do filho e passa em

saberíamos nem o seu nome. Claudia.

seu rosto. “Aquele sangue é o meu sangue”, é o que Sheila

RAFAELA:

diz.

Qual é a palavra que é capaz de descrever isso? Ela existe? Essa palavra?

RAFAELA:

Vocês conseguem me dizer...?

Eu não conto a vocês a minha história


para que vocês a conheçam. Eu conto minha história a vocês

VANESSA (prosseguindo):

para que vocês saibam

“Eu tentei salvar o meu filho e não consegui. Eu

que nunca vão poder conhecê-la.

vou

morrer.

filho. VANESSA: Dois

policial

dias

Franco,

Me

depois

uma

do

criança

assassinato de

dois

de

anos,

Não um

vou

conseguir

tiro”

diz

militar

“Por

que

(continua

a

revelar

ficar Paloma você

sem para

matou

meu um meu

Marielle filho?” chamada

Benjamin, é morta num tiroteio no Complexo do RAFAELA Alemão. A mãe, Paloma Maria de Novaes...

as

marcas

em

seu

corpo, retornando à palma): Eu li em algum lugar que em alguma cidade dos

RAFAELA:

Estados Unidos um grupo de mulheres decidiu criar

Paloma.

um código pra conseguir se ajudar. Era simples. Caso precisassem dizer, sem usar as palavras, que

VANESSA:

estavam passando por um abuso, por uma situação

...é baleada de raspão no confronto, barriga e violenta ou perigosa em casa, elas marcavam o braço.

centro da palma com um ponto preto. Assim podiam se reconhecer.

(Rafaela mostra a palma das mãos marcadas por um ponto preto. Aos poucos ela vai revelando o resto VANESSA (revelando a palma marcada, ou marcando-a de seu corpo marcado. Ela mostra a barriga e o talvez?): braço, numa alusão às partes do corpo de Paloma, “Quando fico nervosa, prefiro escrever. Todos os narradas por Vanessa)

dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo”.


Eu escrevo. Eu escrevo. Eu escrevo.

E ela está morta.

Pra conseguir criar uma nova língua.

Sou o presente, mas sei que também passarei. E eu não quero morrer”.

RAFAELA: (Aqui Rafaela conta a história dos rapazes com Seu

ex-marido,

o

tal

poeta

muito

famoso,

não

quem saiu, namorou, flertou – não me lembro do permitiria o acesso a seus escritos por muitos texto...

desculpem...

a

leitura

das

mensagens anos depois da sua morte.

recebidas pode ser feita aqui também, que é um material muito forte)

TODAS, TALVEZ, ALTERNADAMENTE: Uma mulher, há cem anos, viveu como eu vivo. Ela

MIN:

está morta. Eu sou o presente.

Anos 60, Estados Unidos. Uma poeta famosa, recém- Uma mulher – digamos, minha mãe –, talvez tenha separada de um poeta ainda mais famoso que ela na vivido como eu vivo hoje. E ela está aqui, ao meu época,

deita

a

cabeça

sobre

uma

toalha

no lado. Sou o presente.

interior do forno, com o gás ligado. Em um trecho Uma mulher, muito distante de mim, vive como eu do seu diário, muitos anos antes dessa cena, ela vivo. Não a conheço. Ela é o presente. escreve:

Uma mulher, hoje, diz que gostaria de viver como eu vivo. Outra,

(Min revela agora a palma marcada também?)

não imagina como seria viver

como eu vivo. Uma outra, ainda, vê muitos pontos de contato

“Nada é real, exceto o presente, e mesmo assim já entre

nossas

sinto o peso dos séculos a me esmagar. Uma moça, diferentes, há cem anos, viveu como eu vivo.

vidas, de

apesar

termos

de

nascido

sermos em

tão

séculos


distintos. Ela está aqui, damos as mãos. Somos, talvez, tentando escrever a carta que seguirá juntas, o presente.

usando luvas de boxe?)

RAFAELA:

VANESSA

Então o presente: aqui e agora.

voz):

E

agora,

nesse

presente,

é

Y.

quem

fala.

Às

“A

(lendo

coisas

a

carta

estão

de

Min,

estranhas

assumindo

aqui.

sua

Acabo

de

vezes, olhando em sua direção enquanto ela fala, descobrir que não me chamo mais Yasmin, quis te podemos achar que ela está de saco cheio, que tem contar. Meu nome é Min – e tudo bem! Nome não tem raiva. Talvez sinta medo, angústia. Ou, nada. Ela a ver necessariamente com batismo. Espero que queria

ser

mais

forte,

pra

perceber, fique feliz, sei que você odeia o seu nome agora.

fisicamente mesmo. Quer poder responder sem medo Devo dizer, aos poucos o mundo foi se desvendando às provocações, não depender das pedras nas ruas, para mim. Pra você. Sabia que você nem sempre foi ou

do

caminhar

curvado

e

“menos

feminino”. mulher? Sabia que nós meio que nascemos todos

Gostaria de se defender com as próprias mãos. Ao X...?

Claro

mesmo tempo, mal sabe qual é a sensação de socar consciência

que de

não.

que

os

Você

se

gêneros

lembra existiam

de

ter

com

o

uma face, será que machucaria os dedos se fizesse banheiro rosa. Não podia errar o banheiro, tinha isso? Onde dói mais? Talvez desejasse andar nas que entrar sempre no banheiro rosa... quantos ruas com luvas de boxe cor de rosa... Ou em banheiros cor de rosa! Desse lugar aqui de onde qualquer outra cor. Vermelho, quem sabe.

te escrevo, em 2018, para aí, onde você está agora, em 2008, eu te digo: tenha coragem! Saiba

(Enquanto

Rafaela

performativamente

fala, às

suas

Min

pode

palavras.

responder que você não vai se livrar dos olhares estranhos Estaria, na rua, mas não se esqueça: o problema nunca é você! Tem algo que eu preciso te contar: você não


tem

que

engolir

tudo.

Ok?

Você

ainda

vai referências

"cultas"

e

toda

a

baboseira

da

descobrir que tem um estômago maior e vai parecer faculdade da psicologia dele. estranho. Mas, por favor, se precisar, vomite! Eu não fiz nada. Vomite sempre que precisar, sempre que quiser, Tempos depois, escrevi essa carta pra mim mesma. vomite nele! Vá para a casa do seu pai amanhã, Para que eu pudesse ler dez anos atrás. Se o que por favor.

dizem é verdade, que o presente é capaz de mudar

YasMin Xavier, 27 de novembro de 2018”

o passado, essa é minha ação agora. Eu mudo meu passado hoje, meu nome, eu me mudo, eu mudo o

(Talvez o nome Yasmin possa ser escrito de alguma mundo em volta de mim. forma, transformando-se em MIN em cena) (Aqui entraria, por sugestão minha, a proposta de MIN:

cena que Min realizou quando assisti ao ensaio na

É meio difícil falar disso. Eu fui conhecer a UNESP. Não consegui reproduzi-la aqui sem ter o namorada do meu pai numa esfiharia. Foi lá que registro dela... pode ser uma rememoração daquela ele

começou

a

me

explicar

sobre

como

a cena de modo mais sintético, como vocês acharem

feminilidade era importante para o relacionamento melhor. É como se da carta ela partisse para o com

as

amoroso.

pessoas,

principalmente

Sim.

ele

impossível

Ah, se

falou

relacionar

num

também com

âmbito mundo) (Sugestão: que Vanessa seja uma espécie de

como

era “duplo” da Min aqui. Que ela percorra a cena da

pessoas Min do modo dela – pode ser uma dança, um texto,

masculinas... Mulheres masculinas. Comigo? É. Por uma cena muda. É como se a Min se desdobrasse em isso, eu tinha que ser mais feminina –

afinal um duas. Mas é apenas uma proposta, vejam se faz

homem não ficaria comigo assim, como eu sou. O sentido...) pior

de

tudo

foi

que

ele

utilizou

suas


RAFAELA:

da cena. Márcia pode realizar uma pequena ação

Quando elas falam, ela decolam: misturam tudo, que remeta a um episódio de sua vida, algo curto. família, filhos, namorados que não tiveram, as Ou nos contar algo) sogras, as discussões da vida cotidiana; a gente (Vanessa, ao fim da ação/narração de Márcia, que se mistura a elas quando as ouvimos, somos elas, se levanta e sai, ocupa seu lugar. Ela reconta a elas são um pouco de nós. São também a imagem das história que Marcia nos contou como se fosse sua. nossas

mães,

das

nossas

irmãs,

avós,

ou

das Pode usar palavras ou não – a depender da ação de

nossas filhas, mesmo as que não teremos. Elas são Márcia) (Vanessa é novamente um duplo de outra também um sentimento que mora na gente, quando mulher) nos

damos

conta

de

que

não

aguentamos

mais (Depois dessa intervenção, Vanessa presta atenção

trabalhar tanto, ou quando sentimos que mesmo em Min, que assume a fala, podendo reagir como trabalhando muito, não estamos criando um espaço quiser – dançando, talvez? – às suas palavras). nosso. Somos esse sentimento quando não estamos satisfeitas

se

paramos

para

nos

escutar,

em MIN:

silêncio; quando sentimos, junto com elas, o peso V. está falando agora: e quando ela fala, as das nossas carnes em direção ao chão; quando já palavras explodem de suas mãos vermelhas, não sei não conseguimos levantar ou abrir os olhos, ou se de nervosismo, ansiedade, raiva... ou sonho. É quando

preferimos

permanecer

deitadas

até

que como

se

muita

vida

represada,

querendo

sair,

nossos corpos possam se fundir às roupas de cama tivesse nas beiras das mãos de V. quando ela que hoje, só hoje, nos recusamos a lavar.

fala. A vida de todas as vozes que vieram antes dela e que querem falar, falar, falar, falar,

(Talvez enquanto Rafaela fale, algo possa ser falar

estão

ali,

naquelas

mãos,

enquanto

ela

proposto para Márcia, para que ela ocupe o espaço gesticula, querendo se atirar para a cena. Por


isso, acho, quando V. fala é muito difícil ela

“Van, deixa que eu faço isso, você não pode

conter suas mãos. Elas explodem. Essa força é fazer x?!” muito bonita de ver.

A mulher troca de ação e vai realizar x. “Van, deixa que eu faço, você não pode fazer y?!”

(Vanessa pode estar dançando com suas mãos)

A mulher troca de ação e vai realizar y. “Van, deixa que eu faço, você não pode fazer z?!”

(A dança pode desembocar para o roteiro de ação a A mulher troca de ação e vai realizar z. seguir, em que Vanessa é a mulher a quem impedem de trabalhar direito)

Isso se repete algumas vezes até que a mulher perde a paciência e senta-se para observar as

(Ela não é mais um duplo. É sua história que ações ouvimos agora)

dos

três

realização

das

homens.

Eles

atividades

se

e

intercalam

acabam

por

na não

finalizar nada. VANESSA: Falo então com as minhas mãos. As linhas das VANESSA: minhas

palmas

contam

uma

história

em

Segundo

movimento:

Pesos

concretos

e

três ficcionais.

movimentos, um, dois, três. O primeiro deles se chama “Organização dos materiais de trabalho”.

2. TRÊS HOMENS E UMA MULHER A mulher recolhe todos os materiais de trabalho

1. TRÊS HOMENS E UMA MULHER

ou

objetos

presentes

nesse

local.

Um

homem

Tudo que a mulher começa a fazer é imediatamente pergunta: “Tem certeza que vai aguentar?” interrompido por um dos três homens.

Ele toma para si uma parte das coisas, e coloca em um canto da sala.


Os outros dois passam realizando a mesma ação. A VANESSA: ação se repete até que a mulher fique de mãos “Van, deixa que a gente faz”, “Van, você tem vazias. Quando o terceiro deles conclui sua ação, certeza

que

vai

aguentar

a

câmera

o

show

o primeiro deles repete a pergunta: “Você tem inteiro?”, “Você já trabalhou com isso? Não pode certeza que vai aguentar?”. Sem resposta, ele ser a sua primeira vez editando um vídeo, porque sobe, apoia-se de forma a se deixar sustentar até que tá bem legal...”, “Van, pode deixar que pela

mulher.

Os

outros

dois

repetem

a

ação. os meninos fazem...”, “Aí sim Van! Você é quase

Quando ela não mais suportar o peso deverá se um dos nossos”. desvencilhar do peso e permanecer de pé, olhando para a plateia.

Não, não sou. Não sou um deles. Não sou Napoleão, não sou Ricardo III, não sou Shakespeare, Goethe,

VANESSA: Terceiro movimento: Um dos nossos.

não sou o presidente do Brasil, nenhum de seus deputados, não sou o Reitor da Universidade, não

3. TRÊS HOMENS E UMA MULHER

sou a apresentador que perguntou à Elza Soares de

Os três homens se posicionam em um lado do espaço que país ela veio num programa de televisão, não e a mulher de outro. Com um giz retirado do sou. Não sou Lot. bolso, a mulher fará um círculo no chão em torno dos três homens, eles devem estar contidos no MÁRCIA - Eu sou a mulher de Lot. Ela não tem círculo. Eles observam a ação, não saem do lugar. nome, é apenas "a mulher de Lot". A que caiu e se Em seguida, ela os observa e faz um círculo maior transformou em sal, porque se virou para olhar a em torno do círculo menor. Ela observa e entra no cidade que abandonava. círculo

maior.

movimentos.

Olha

para

a

plateia.

Fim

dos Anna Akhmatova escreveu um poema para ela. Anna não se esqueceu dela. No poema, ela disse que seu


coração nunca se esquecerá da mulher que deu a Que precisa queimar a língua que lhe ensinaram. própria vida por um único olhar.

Que precisa encontrar uma língua nova.

Eu nunca me esquecerei essa mulher, que deu a Que ainda que não a encontre, não desiste. vida por um olhar.

Porque sabe que precisa narrar a sua história.

E eu sou a mulher que olha o mundo atrás de um

Que sabe que só é livre aquela que é capaz de

balcão, a mulher por quem se interessou Virginia narrar a sua própria história. Woolf, quando disse que preferia ler a vida dessa Eu narro então. mulher

a

mais

uma

biografia

de

um

"homem Do meu jeito.

célebre".

Com a minha voz.

Eu sou também a mulher que escreve sobre uma Mesmo que ela falhe. mulher atrás de um balcão. Eu sou ainda a mulher que escreve no papel catado Eu sou uma mulher na quinta ou na quarta série, na rua, a mulher que escreve sobre seus filhos uma menina ainda, que descobre em uma aula de nesse papel catado na rua. A mulher que cata o educação física, a sua aula preferida, que tem a papel, que escolhe o feijão, que anda suja sem obrigação de ser mais feminina. querer, que quer andar de bicicleta e não pode. Eu sou a mulher que insiste em escrever a sua MIN: própria história, mesmo que a língua seja caneta Que deve colocar sombra nos olhos. e os ouvidos me sejam papel. RAFAELA: Usar algum acessório na cabeça. VANESSA: Eu sou uma mulher.

VANESSA:


Soltar o cabelo.

Praticar

exercícios.

Corrida,

natação

ou

bicicleta, porque queimam muita caloria. RAFAELA: Vestir roupas mais “de menina”. Foram essas as ATRIZ DOIS: coisas

que

ouvi

na

fila

do

saque,

no

vôlei, Fazer duas séries de doze repetições todos os

quando eu estava na quarta ou na quinta série. Eu dias para se livrar da celulite. era uma menina, mas entendi. E fiz questão de no dia seguinte pôr em prática essas “dicas”, essas ATRIZ TRÊS: “lições”. Guardei essas lições pra sempre comigo. Usar compressas geladas para contrair os vasinhos e melhorar o aspecto das olheiras. Estão em cena três mulheres, posicionadas em uma fila horizontal – a fila do vôlei – de frente ATRIZ DOIS: para o público).

Para não ter mais furinhos nas pernas em apenas dez noites, usar o produto testado pela revista.

(Começam

a

conversar

sobre

maquiagem,

roupas,

feminilidade, retiradas do material que Vanessa ATRIZ UM: separou, de uma revista feminina. Entrelaçado a E

ser

comedida

no

café

da

manhã:

apenas

uma

isso, começam a refletir, como faz Virginia Woolf xícara de cereal, leite desnatado, banana picada. no livro “Um teto todo seu”, sobre o que precisa uma

mulher

para

realmente seu).

escrever,

para

produzir

algo ATRIZ TRÊS: Ou um iogurte natural, uma colher de geleia diet, granola.

ATRIZ UM:


ATRIZ UM: Não. ATRIZ TRÊS: E com ela, ter ideias suas. Criar. Ou ATRIZ TRÊS: Não?

fazer nada, se quiser.

ATRIZ UM: Não. Lembra...? Na verdade, o que uma ATRIZ DOIS: Sim, só isso. Um teto seu. Espaço. E mulher precisa, talvez, seja apenas um “teto todo tempo. seu”. (As atrizes agora podem dizer, devanear, sobre o ATRIZ TRÊS: Um teto seu...?

que fariam se tivessem um teto todo seu).

ATRIZ DOIS: Isso. Um quarto, uma sala, um espaço (Ou podem se dirigir às mulheres da plateia: cada livre de interrupções.

uma

escolhe

uma,

simultaneamente;

começam

a

conversar com elas. O que elas fariam se tivessem ATRIZ UM: E tempo suficiente para se dedicar ao tempo?) que se deseja fazer. (Aqui entraria, de alguma forma, um registro das ATRIZ DOIS: Escrever.

experiências das trocas realizadas pelas atrizes no processo com as mulheres em suas casas. Pode

ATRIZ TRÊS: Estudar.

ser

um

relato

escrito,

a

reencenação

de

um

diálogo, uma impressão do que é estar no “teto” ATRIZ UM: Produzir.

de outra mulher e trocar com ela essa experiência de tempo) (Seria bacana se as atrizes tivessem

ATRIZ DOIS: Criar uma nova língua.

registros

diversos,

sob

diferentes

dicções,


dessas

experiências

livremente

aqui,

para

serem

performativamente

ou

usadas MIN: Por que mordeu o meu dedo anular? de

modo

narrado)

MÁRCIA: Não sei.

(Aos poucos, palco fica vazio. Márcia entra em RAFAELA: Não sabe que não vamos te fazer nenhum cena e ocupa o espaço – é seu teto agora)

mal?

(Márcia está no palco. Da plateia, as atrizes MÁRCIA: Não sei. reproduzem o poema Vietnã, de Wislawa Szymborka, dirigindo-se a Márcia)

MIN: De que lado você está?

RAFAELA: Mulher, como você se chama?

MÁRCIA: Não sei.

MÁRCIA: Não sei.

VANESSA: É a guerra, você tem que escolher.

MIN: Quando você nasceu, de onde você vem?

MÁRCIA: Não sei.

MÁRCIA: Não sei.

RAFAELA: Tua aldeia ainda existe?

VANESSA: Para que cavou uma toca aqui na terra?

MÁRCIA: Não sei.

MÁRCIA: Não sei.

MIN: Esses são seus filhos?


MÁRCIA: São. (Márcia

agora

passado

ocupa

no

sozinha

presente,

a

cena.

ou

o

Ela

é

o

presente

ressignificado. Ela é o encontro de tempo entre essas mulheres. Ela conta uma história sua, a que ela quiser, para o público. As atrizes podem se relacionar

como

quiser

com

essa

história

narrada). (Proposta ao grupo: que história é essa que Márcia narra aqui? Ela poderá determinar o encaminhamento para o final da peça).

CENTRAL DE ATENDIMENTO À MULHER 180 Centros de Referência da Mulher (CRMs) Casa Eliane de Grammont Rua Dr. Bacelar, 20 – Vila Clementino (11) 5549-9339 / 5549-0335


Casa Brasilândia Rua Sílvio Bueno Peruche, 538 – Brasilândia

CCM Perus

(11) 3983-4294 / 3984-9816

Rua Joaquim Antônio Arruda, 74 – Perus (11) 3917-7890 / 3917-5955

25 de Março Rua Líbero Badaró, 137 – 4º andar – Centro (11) 3106-1100

Maria de Lourdes Rodrigues Rua Luiz Fonseca Galvão, 145 – Capão Redondo (11) 5524-4782

CCM Capela do Socorro Rua Professor Oscar Barreto Filho, 350 – Grajaú (11) 5927-3102 / 5929-9334

CCM Santo Amaro Praça Salim Farah Maluf, s/n (11) 5521-6626

CCM Itaquera Centros de Cidadania da Mulher (CCMs)

Rua Ibiajara, 495 – Itaquera (11) 2073-5706 / 2073-4863

CCM Parelheiros Rua Terezinha do Prado Oliveira, 119 – Parelheiros (11) 5921-3935 / 5921-3665

Delegacias de Defesa da Mulher


1ª DDM – Centro

– Tatuapé

Rua Dr. Bittencourt Rodrigues, 200 – Pq. Dom

(11) 2293-3816

Pedro (11) 3241-3328 6ª DDM – Sul Rua Sargento Manoel Barbosa da Silva, nº 115 – 2ª DDM – Sul

2º andar – Campo Grande

Avenida Onze de julho, 89 – Saúde

(11) 5521-6068 / 5686-8567

(11) 5084-2579 7ª DDM – Leste 3ª DDM – Oeste Avenida Corifeu de Azevedo Marques, 4300 – 2º

Rua Sabbado D'Angelo, 46 – Itaquera (11) 2071-3488 / 2071-4707

andar – Jaguaré (11) 3768-4664 8ª DDM – Leste Avenida Osvaldo do Valle Cordeiro, 190 – 2º 4ª DDM – Norte

andar – Jd. Marília

Avenida Itaberaba, 731 – 1º andar – Freguesia

(11) 2742-1701

do Ó (11) 3976-2908 9ª DDM – Oeste Avenida Menotti Laudisio, 286 – 2º andar – 5ª DDM – Leste

Pirituba

Rua Dr. Corinto Baldoíno Costa, 400 – 2º andar

(11) 3974-8890


Secretaria Municipal de Políticas para

Agradecimentos

as Mulheres MÁRCIA ANDREATA, CARLA KINZO, MARIA MARTA, TELMA

Rua Libero Badaró, nº 293 – 8º andar –

LÁZARO, CRIS BONOTTO, NATÁLIA PEIXOTO, MURILO

Centro – São Paulo CEP 01009-907 Email:

GAULÊS, THALITA DUARTE, BRENO ANDREATA, ANNE

smpm@prefeitura.sp.gov.br – Fone: (11)

MOTTA, DORA, SOLANGE, MIRIAM, GIOVANNA GUEDES, ANDRESSA HABYAK, BEATRIZ SANTIAGO, CAMILA DE SÁ,

2363-9400

COLETIVO MIRA, MÔNICA RODRIGUES, AYSHA NASCIMENTO, MARIA SHU, NATT MATT, LÍGIA HELENA, OLÍVIA SPINOLA, HILDA BARBOZA, DIEGO NASCIMENTO, PROFESSORAS, PROFESSORES, FUNCIONÁRIOS, FUNCIONÁRIAS, ALUNAS E ALUNOS DA EMEF BRIGADEIRO RAYMUNDO DYOTT FONTENELE, SHEILA, CIEJA PERUS, OCUPAÇÃO ARTÍSTICA CANHOBA, JOAQUIM, GRUPO PANDORA DE TEATRO, OCUPAÇÃO CASA DO HIP HOP DE PERUS, MUNIQUE, CEU PÊRA MARMELO, e tantas outras e outros fulanas e fulanos de tal que cruzaram e afetaram nosso projeto e nosso trabalho.

Foto: Anne Motta

M.U.L.H.E.R  

O projeto M.U.L.H.E.R – Meios Utópicos de Luta contra a Hipergenitalização como Embate e Resistência, contemplado pelo Programa para a V...

M.U.L.H.E.R  

O projeto M.U.L.H.E.R – Meios Utópicos de Luta contra a Hipergenitalização como Embate e Resistência, contemplado pelo Programa para a V...

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