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cobain 25 contos inspirados em 25 anos do รกlbum Nevermind + bonus tracks


Cobain 25 contos inspirados em 25 anos do álbum Nevermind + bonus tracks

Organização Sérgio Tavares


Copyright Cobain © 2016 By Alessandro Garcia, Alexandre Nobre, Anderson Fonseca, André Tartarini, André Timm, Bruno Liberal, Daniel Osiescki, Débora Ferraz, Delfin, Flávia Iriarte, Flavio Torres, Helena Terra, João Vereza, Maikel de Abreu, Mariel Reis, Marcia Barbieri, Mário Araújo, Maurício de Almeida, Moema Vilela, Paulino Júnior, Patrícia Galelli, Rafael Mendes, Rafael Sperling, Sérgio Tavares, Tiago Velasco.

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.

Título Cobain, 25 contos inspiradores em 25 anos do álbum Nevermind + Bonus Tracks

Capa, diagramação e projeto gráfico Alessandro Garcia

Organização e preparação Sérgio Tavares

Revisão Sérgio Tavares e Delfin

Organização geral Sérgio Tavares, Alessandro Garcia e André Timm [2016] Todos os direitos desta edição reservados aos autores


Load up on guns, bring your friends... Kurt Cobain (1967 - 1994)


Sumário

NEVERMIND

Apresentação | Sérgio Tavares 9 Smells like teen spirit | Bruno Liberal 13 In bloom | André Timm 16 Come as you are | Mário Araújo 25 Breed | João Vereza 33 Lithium | Moema Vilela 40 Polly | Alessandro Garcia 47 Drain you | Patrícia Galelli 85 Lounge act | Flavio Torres 89 Stay away | Anderson Fonseca 94 On a plain | Rafael Sperling 100 Something in the way | Daniel Osiecki 103


BONUS TRACKS

Nobody knows I’m new wave | Delfin 107 About a girl | André Tartarini 124 School | Débora Ferraz 152 Love buzz | Helena Terra 161 Dive | Marcia Barbieri 163 Molly’s lips | Mariel Reis 168 Aneurysm | Maikel de Abreu 172 Serve the servants | Maurício de Almeida 177 Heart-shaped box | Alexandre Nobre 191 Rape me | Sérgio Tavares 209 Dumb | Tiago Velasco 217 Pennyroyal tea | Flávia Iriarte 224 All apologies | Rafael Mendes 236 Autores 250


Apresentação Sérgio Tavares

Em 1993, o Nirvana era a maior banda do mundo. Nevermind, seu segundo álbum de estúdio, lançado dois anos antes, contabilizava milhões de cópias vendidas; fato que colocava o grupo de rock da chuvosa cidade de Seattle no topo das paradas musicais, dentre estas a conceituada Billboard, onde desbancou Dangerous, disco lançado à época pelo Rei do Pop, Michael Jackson. Era, então, a apresentação da maior banda do mundo que o público brasileiro aguardava no Festival Hollywood Rock, naquele ano. Seriam duas noites: em São Paulo, no Estádio Morumbi; e no Rio de Janeiro, na Praça da Apoteose. Cerca de 300 mil fãs puderam presenciar Kurt Cobain, Dave Grohl e Krist Novoselic em performances descritas no livro Heavier Than Heaven: A Biography of Kurt Cobain, do jornalista Charles R. Cross, como “lendárias, surreais e mais emblemáticas de suas carreiras”. No ano seguinte, com a morte de Cobain, o Nirvana passava de uma banda que revolucionou a música, guiando o movimento grunge, para um ícone da cultura pop. Nevermind contabiliza, nos dias de hoje, 30 milhões de cópias vendidas mundialmente e, a cada década de aniversário, com o lançamento de edições especiais, o álbum volta com força às paradas musicais.


O mesmo ocorre com os discos Bleach e In Utero. No Brasil, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD), o Nirvana figura entre os 10 artistas internacionais mais vendidos no país, nos últimos 24 anos. No início de 2014, o Nirvana entrou para o Hall of Fame, por influenciar inúmeras bandas e marcar gerações. Prestes a completar 30 anos de formação, a banda segue angariando fãs e embalando o dia a dia de jovens que cresceram ouvindo suas canções. Alguns destes integram agora a Cobain. Em virtude dos 25 anos do Nevermind, comemorados em setembro de 2016, a antologia visa prestar uma homenagem ao álbum através de contos inspirados em canções do Nirvana. Para tanto, foram convidados 25 autores contemporâneos de diferentes regiões do país, a fim de compor um time que, além da excelência narrativa, compartilhe a condição de fã da banda. Esse projeto apaixonante que o leitor encontrará nas próximas páginas. Uma antologia que marcará época, embalada por leituras de canções memoráveis; um livro que agradará os milhares de fãs do Nirvana, mas também aqueles que apreciam a música e a boa literatura.

Organizador Inverno de 2016


nevermind


Smells like teen spirit Essa coisa da máscara Bruno Liberal

Parece uma criança usando essa máscara de gás da Segunda Guerra Mundial, carregando suas armas e andando normalmente pela rua, ouvindo sua própria respiração enjaulada na música e sentindo o calor no interior das sobras que ainda possui. Essa criança que não consegue respirar mais... ... percebe a delicadeza das mãos balançando soltas, desgarradas, enquanto caminha? O movimento da solidão que se espalha e o sorriso austero do poço é profundo. Crava no rosto dessa criança que agora corre e se esconde na brincadeira de sua infância. Uma rua que é apenas um nome ou apenas um bioma de rua com uma vida distinta que também é uma identidade que se apropria. Uma rua em que ele pode sentir a respiração dentro da máscara e ouvir a mesma música. O pavor do sol e essa coisa da máscara e o vento forte e a poeira de


um caminho e essa vida que desanda com passinhos firmes e vai crescendo, embrulhando os sentimentos que explodem em sua idade de quinze e permanecem alegres enquanto está livre. Não agora, mas ele também se esforça e precisa se impor e falar desse jeito que ele fala, com a voz ensopada e se vestir desse jeito que se veste e partir o cabelo desse jeito de lado que ele acha tão sensual... ... não, por favor, não! ... é que a cor do céu vai mudando para um amarelo escuro e todas as cores, lentamente, se parecem cada vez mais com o interior de uma estrela: aquelas erupções, nuvens de plasma, energias magnéticas. Caminha cantando baixinho com os lábios finos e apertados a música que embalou seus desejos e a rua, essa rua tão sua. Mas os meninos estão do outro lado e esperam e se espalham para pegá-lo. De longe eles observam a máscara verde oliva do rapaz e sorriem. Também gritam palavras de ódio e se agarram em todos os medos que possuem. Sentem, agora, esse outro perfume do medo que o rapaz também sente e chutam sua cara e cravam suas unhas demasiadamente masculinas em todo o corpo que se esvai nos sentimentos belos aflorados com a lembrança do espelho do banheiro de sua casa: onde faz suas poses de homem-mulher e canta... ... percebe a beleza dos sentimentos nesse momento de segurança trancada no banheiro? O espelho, o espelho. Estúpido, contagioso. E também cospe sangue enquanto cata sua alma e os vestígios de alguma coisa e os outros, eles (esses outros) sorriem e mandam ele chupar um pau agora com essa boca toda destruída.


Por isso, também, o rapaz espera que alguém faça alguma coisa por ele que é apenas um rapaz sendo chutado e humilhado na rua que é sua e parece que todos eles também sorriem disso e balançam a cabeça no refrão de Smells like teen spirit, do Nirvana, que é sua música. Uma rua, o sol. Sua rebelião. Ele parece uma criança usando essa máscara de gás da Segunda Guerra Mundial e andando no meio da rua com o sangue pingando na calçada, tropeçando nas pedras que esse caminho possui e são gigantes. Ele abre a porta do banheiro ainda chorando. Não ouve mais a música. Suja a maçaneta de vermelho, levanta o olhar para o reflexo à sua frente e desata a sorrir com sua boca deformada, a cara inchada e os olhos em sangue. Gargalha alto, forçando a voz, como se não soubesse respirar com a máscara de gás verde oliva da Segunda Guerra que sempre precisará carregar... ... percebe o terror e a negação em suas mãos que tremem?


In bloom Como aprisionar um duplo André Timm

Uma de minhas primeiras memórias de infância é a de meu pai comendo uma puta no banco da frente do carro. Mesmo tendo apenas três anos, me lembro com clareza da cena, embora, claro, só tenha vindo a entender do que se tratava conforme fui crescendo e a história se repetia, ainda que em diferentes circunstâncias. Na condição de novos vizinhos, meus pais não conheciam ninguém no bairro, não tínhamos parentes na cidade e minha irmã, um pouco maiorzinha, já tinha idade suficiente para esperar em casa sozinha, mas não para cuidar de mim. Assim, toda vez que precisávamos levar minha mãe ao hospital, fosse em razão da quimio ou de alguma crise, eu precisava ir junto. Nas ocasiões em que era necessário que ela permanecesse internada, quando voltávamos para casa meu pai fazia um caminho diferente do usual, seguindo um padrão recorrente de trajetória, que se dava assim: trafegar uma quadra pela avenida Farrapos,


dobrar à direita em suas ruelas transversais, redutos de prostitutas e moteizinhos baratos, para a seguir virar à direita novamente e outra vez até retomar a Farrapos e continuar pela próxima quadra. Quando encontrava uma mulher que lhe agradasse, parava, negociava e, se chegassem a um consenso, ela entrava no carro. Enquanto eu era pequeno, tudo acontecia ali mesmo, no banco do carona. Essa rotina se repetiu por alguns anos e, à medida que fui crescendo, ele, em seu entendimento, deve ter concluído que já não era possível me manter no carro. Foi quando começou a frequentar os quartinhos entre a Farrapos e a Voluntários. A configuração dessas ruas era basicamente composta por estabelecimentos comerciais e restaurantes ou lanchonetes alternados com pensões ou pequenos aglomerados de quartos que, geralmente em um andar superior, serviam de motel para quem se aventurava no meretrício local. À época com cinco anos, era justamente nesses restaurantes ou lanchonetes que eu costumava esperar por meu pai, o que até certa medida era seguro, pois ele conhecia a todos por ali e sempre havia alguém que pudesse me cuidar durante os 15 minutos em que os programas aconteciam. Mais ou menos um ano depois, minha mãe morreu. Isso levou a uma pequena reconfiguração familiar. Minha irmã mudouse para a casa de minha tia Ana em outra cidade, enquanto nossa prima, Adelaide, veio morar conosco. Começando a faculdade, ela precisava de um lugar para ficar e meu pai precisava de alguém que pudesse ajudar a cuidar de mim. Foi uma boa troca. Sempre carinhosa comigo, conforme eu crescia, Adelaide foi se tornando meu modelo de referência feminina. Convivíamos muito enquanto meu pai trabalhava. Quando entrei para a escola, foi dela que mais senti falta, ao menos até conhecer Ísis, que rapidamente se tornou


minha melhor amiga. Como regulávamos de idade, sempre ficávamos na mesma classe, o que ajudava a estreitar esse laço afetivo. Não raro, depois das aulas, íamos os dois para a casa dela. Às vezes apenas assistíamos a um pouco de televisão; em outras, jogávamos cartas. Em uma dessas visitas, e a essa altura já estávamos no sexto ano, Ísis colocou na cabeça a ideia de me maquiar. A princípio recusei, tentei me esquivar de todas as maneiras, mas não consegui, ela era persistente. Sentei-me à frente da penteadeira, no quarto dos pais dela, enquanto ela delicadamente começou a aplicar uma base em meu rosto. Depois blush, sombra, rímel e finalmente o batom. Se no início eu estava relutante, na metade do processo eu já não oferecia nenhuma resistência. A princípio não disse nada para Ísis, mas quando ela acabou, nem foi preciso. Imediatamente ela percebeu que eu estava gostando e resolveu dar um passo além. Já que você gostou, que tal experimentar uma roupa minha? — perguntou, me encarando fixamente e segurando um sorriso. Falei que eu era maior que ela, que suas roupas não serviriam em mim. Algumas da minha mãe devem dar — ela rebateu sem esforço para esconder a euforia. Hesitei, mas, de fato, a mãe de Ísis era pequena e com 12 anos eu já era bem grande. Ísis desapareceu por alguns minutos e quando voltou do closet trazia um vestido em renda preta com cintura alta bem marcada. O comprimento deu na altura de meus joelhos. Se por um lado eu não tinha as curvas da mãe de Ísis, por outro eu tinha uma silhueta esguia e longilínea. Isso mais o fato de o vestido ser preto e acinturado me fizeram achar que ele havia caído muito bem em mim. Ísis achou o mesmo e, mais uma vez, voltou do closet trazendo um par de sandálias de salto, pretas, que não serviram pois meus pés já eram maiores que os de Nádia, sua mãe. Mesmo assim, apenas com o vestido e a maquiagem, em


frente ao espelho, me senti deslumbrante, e o que a princípio poderia soar estranho ou desconfortável, ao contrário, me pareceu natural. Depois desse dia, começamos a repetir as provas de roupas e as maquiagens constantemente. Os pais de Ísis passavam o dia fora e havia apenas uma empregada que cuidava dela, de forma que podíamos passar horas no quarto sem que a mulher nos incomodasse, apenas perguntando de tanto em tanto, da cozinha mesmo, se estava tudo bem e se queríamos alguma coisa. Entretanto, em uma dessas ocasiões, a mãe de Ísis, indisposta, saiu do trabalho mais cedo. Fomos surpreendidos quando ela entrou em seu próprio quarto e se deparou comigo totalmente maquiado e vestido com suas roupas e acessórios dos pés à cabeça. Jamais vou esquecer a expressão de incredulidade em seu rosto. Ela não se alterou, nem foi rude, apenas pediu educadamente que eu me aprontasse e tirasse a maquiagem, pois ela me levaria para casa. Fiquei tão constrangido que não tive coragem de tentar explicar nada. Levou-me para casa e não disse uma única palavra durante todo o trajeto. Adelaide estava sozinha, mas naquela mesma noite fiquei sabendo que a mãe de Ísis havia ligado para meu pai e contado em detalhes o que havia acontecido. Meu pai me chamou para conversar. Achei que estaria furioso, mas, para minha surpresa, falou de forma tranquila e, na verdade, não me pareceu muito preocupado. Talvez por achar que era apenas uma brincadeira de criança, talvez por acreditar que era alguma compensação boba por me faltar a referência materna ou por conviver demais com Adelaide. Durante todo o tempo em que eu e Ísis nos divertimos experimentando as roupas de sua mãe era comum que eu a visse de calcinha e sutiã ou mesmo nua. A princípio achava estranho que ela


não se incomodasse com isso ou que não tivesse medo de estar assim, exposta e vulnerável diante de um menino. Às vezes pensava em beijá-la, agarrá-la à força, só para mostrar que eu não era tão inofensivo quanto ela aparentava pensar que eu era. Mas foi a partir daí que comecei a perceber um sentimento que inicialmente eu não reconhecia muito bem. O que era confuso pareceu dar lugar a um desconforto que foi se desenvolvendo gradualmente. O corpo das mulheres sempre começa a se desenvolver mais cedo e, em sua transição de menina para mulher, eu percebia Ísis ganhando curvas, reentrâncias e volumes nas proporções e lugares certos. Os seios despontavam, a cintura afinava e evidenciava a projeção dos quadris. Além disso, havia algo diferente na forma de andar, no olhar. Certa ocasião, durante uma aula de matemática, percebi que ela e outra colega cochichavam mais do que o normal. Havia uma certa apreensão no ar e alguns minutos depois vi Ísis, discretamente, retirar da bolsa um absorvente que ela passou para a outra menina por baixo da mesa. Engoli o choro e saí correndo da sala. Percebi que aquele era um tipo de cumplicidade que eu jamais poderia ter com Ísis, por mais amigos que fôssemos. Acabei me afastando dela e foi nessa mesma época que me apaixonei por Tales, um garoto de nossa escola que estava uma série a nossa frente. Se não é correto dizer que eu era correspondido em sentimento, pelo menos fisicamente, sim. Foi em um banheiro da própria escola que, com treze anos, tive minha primeira experiência sexual, o que foi devastador. O sentimento de desconforto em relação ao meu corpo aos poucos começava a se tornar rejeição e o sexo soava como algo estranho, fora de contexto. Ainda assim eu queria estar perto dele, gostava do toque, da pele contra pele, e o ato sexual em si era só uma parte indesejável para mim. Um efeito colateral. Repetimos mais algumas vezes e Tales perguntou se


haveria problema que dois amigos dele participassem na próxima. Deixei. Não queria negar nada a ele. Porém, nos dias seguintes, quando os cumprimentava no intervalo da escola, não respondiam. Primeiro achei que poderiam não ter ouvido ou que estivessem distraídos conversando entre si. Depois, quando os cumprimentei novamente e coloquei amigavelmente a mão no ombro de Tales, percebi o que estava acontecendo. Tornaram-se agressivos e entre ameaças e ofensas ao pé do ouvido disseram que se eu voltasse a falar com eles em público me matariam. Daquele momento em diante entendi que minha condição me colocaria sempre entre mundos e jamais plenamente em nenhum deles. Uma criatura estranha que não é uma coisa nem outra. Um duplo desajustado, fora de sincronia. Com o passar dos anos me envolvi pontualmente com outros homens, trocando sexo por uma falsa e efêmera sensação de pertencimento, por arremedos de afeto. Mais tarde, quando já estava com dezesseis anos, me envolvi com um namorado de Adelaide. Não partiu de mim, mas também não fiz grandes esforços para que não acontecesse. Há tempos eu percebia que havia uma troca de olhares, uma tensão no ar quando Adelaide não estava por perto. Não demorou muito até que estivéssemos transando em cada oportunidade que surgia, até a ocasião em que Adelaide nos surpreendeu na cama. Alguns dias depois, ela foi embora. Ainda assim, teve a generosidade de não comentar nada com meu pai ou com o restante da família. Mais do que nunca, eu sentia a necessidade de emular um corpo com o qual eu não havia nascido, o que também levava a um sentimento de asco. Eu não queria parecer um homem, mas, por outro lado, também não era minha intenção adotar uma aparência que me fizesse parecer uma mulher masculinizada. Eu sentia que


precisava ser tudo ou nada, pois ser um pouco de cada, para mim, era aterrador, já que equivalia a não ser nenhum dos dois. Quando completei 18 anos, legalmente eu estava autorizado a ter acesso à herança de minha mãe, o que me fez considerar uma ideia que se tornava cada vez mais recorrente para mim. Há algum tempo eu já vinha me informando sobre os procedimentos cirúrgicos de mudança de sexo, o suficiente para saber que era um processo extremamente moroso, cheio de trâmites e autorizações difíceis de serem conquistadas antes de se obter a aprovação final para a cirurgia. Mesmo assim, dei entrada nos formulários de requerimento e marquei minha primeira entrevista com o psiquiatra. Conversamos sobre diversos aspectos de minha personalidade, história de vida, família. Como eu mesmo já sabia, o médico explicou todas as dificuldades envolvidas em obter o aceite, especialmente porque um dos aspectos que mais influencia a decisão médica e judiciária é o psicológico, motivo pelo qual o parecer do psiquiatra é o que tem maior peso em processos desse tipo. Paralelamente às consultas com o psiquiatra havia também as visitas ao cirurgião plástico, nas quais ele me explicava detalhes do procedimento e discutíamos aspectos específicos de meu novo corpo. A essa altura, meu pai já havia casado novamente e, embora nunca tivesse havido um comunicado oficial acerca da minha orientação, acho que ele e minha madrasta percebiam. O que nunca veio à tona, de nenhuma maneira, foi o fato de que minha decisão era realizar a cirurgia. O processo se arrastou por longos três anos. As entrevistas e consultas eram espaçadas entre si, e isso parecia acontecer para que quem se submetesse àquilo tivesse tempo suficiente para refletir,


considerar todas as possibilidades e ter certeza de que estava tomando a decisão certa. Em uma das últimas entrevistas com o psiquiatra, chegamos a um momento derradeiro. Ao mesmo tempo em que ele explicava sobre as especificidades de cada etapa, ia se aproximando lentamente de mim até afirmar, com sua mão em meu joelho, que havia maneiras mais práticas de atalhar o processo e mesmo de garantir um laudo positivo. Fiz o que precisava ser feito. Quem estava ali, pagando aquele preço tão alto, deixaria de existir em alguns meses. Seu sacrifício seria por um bem maior, pela felicidade de alguém novo no mundo e, mais importante, que pertencesse a um mundo, seja qual fosse. No terceiro ano, visto que o processo já estava adiantado e os últimos detalhes da cirurgia definidos, julguei que era o momento de comunicar à minha família. Esperei uma noite em que estivéssemos os três em casa e, durante um jantar que se tornou indigesto para todos, informei-os da minha decisão. Meu pai se retirou sem pronunciar uma única palavra, embora tenha ficado claro para mim que seu sentimento era de decepção e talvez até mesmo de repulsa. Minha madrasta, por outro lado, bradou lições de moral com o dedo em riste apontado para meu rosto. Da inconsequência de minha decisão até o efeito devastador que provocaria em minha família, ela deixou claro o quanto seria difícil para mim manter minha relação com eles se eu levasse minha cirurgia em frente. Na data marcada, antes de partir para o hospital, encarei-me fixamente no espelho. Prendi meus cabelos puxando-os para trás a fim de prestar atenção a cada detalhe do meu rosto. Olhei para os lábios entreabertos, que quase se tocavam com delicadeza, deixando apenas o espaço exato para escapar o que antes era um segredo. Com as mãos abertas em forma de concha, encostadas junto ao


peito, antecipei o futuro esboçando um princípio de sorriso. Despedi-me de meu corpo e olhei uma última vez para o reflexo a minha frente, dando adeus ao homem que morreria para que eu florescesse.


Come as you are À espera Mário Araújo

São seis da tarde. Ele está para chegar. Tânia vai até a janela e observa a fila de automóveis estacionados do outro lado da rua. Alguns têm folhas de árvores e cocô de passarinho sobre o capô. Há uma vaga entre dois carrões grandes, desses feitos para trafegar por estradas esburacadas. Alguns metros mais adiante, outra vaga surgirá quando dois homens terminarem de descarregar caixas de uma pequena van de serviço. Mas ele precisa chegar logo, porque a rua, se não é das mais movimentadas do bairro, também está longe de ser uma viela deserta, e as duas vagas não vão ficar dando sopa por muito tempo. Do quinto andar ela tem a visão perfeita dos espaços. Vigia os veículos que chegam e que partem, e assiste à movimentação dos flanelinhas, um em cada extremidade da quadra, acenando para os motoristas e correndo para receber suas gorjetas. O ponto defronte ao prédio parece ser a divisa entre os territórios de ambos. Ali eles se encontram, trocam algumas palavras e em seguida voltam ao trabalho. Um automóvel preto se aproxima, farejando, e ocupa a vaga entre os dois carros grandes. Mas no mesmo instante a van de serviço parte, deixando inalterada a configuração de vagas


disponíveis. Tânia torce para que ele venha logo. Olha o relógio. Passaram-se quatro minutos. Quatro minutos que parecem quatro meses, o tempo decorrido desde que ele foi embora. É curioso como o tempo pode ser ao mesmo tempo curto e longo. Estes quatro minutos de agora, quase eternos, e os quatro meses sem vê-lo, também eternos a seu modo, porém brevíssimos quando ela pensa no quanto ainda estão frescos na sua memória os gestos e expressões que ele fazia, e que fará daqui a alguns minutos, quando estiver sentado no sofá da sala. Ela se afasta um pouco da claridade da janela, como se precisasse de menos luz para poder lembrar. Aproxima-se do sofá onde ele irá sentar-se com o tornozelo direito apoiado sobre o joelho esquerdo, fazendo o pé tremelicar a toda velocidade – um gesto desesperado contrastando com as feições serenas. Igual ao dia em que sentou-se diante dela para contar aquela história. E ele também irá pigarrear, exatamente como fez antes daquela outra história, contada, aliás, não pessoalmente, mas por telefone. Duas histórias que eram, na verdade, a mesma, só que com doses bem diferentes de mentira na sua composição. Mas que bobagem, Tânia pensa. Pigarrear e sentar com as pernas assim ou assado nada tem a ver com o relacionamento dos dois, que, afinal, durara míseros dez meses e acabara há quatro, num total de catorze meses, um grão de areia na vida de um homem adulto. Aquela forma de proceder, é claro, vinha de muito mais longe, da sua infância, dos seus antepassados, do pai e do avô, da maneira como ele os via se sentarem e pigarrearem todos os dias. Talvez o pigarro nem fosse uma herança, mas o desejo de imitar uma atitude adulta que ele considerava charmosa, visto que o pai vivera sua juventude na década de 1960, época de muita fumaça no ar, quando se fumava avidamente e com absoluta convicção de estar agradando as plateias. E isto não tinha nada a ver com o período passado ao lado dela, nem com o que viera depois (acontecimentos marcantes, certamente, outras mulheres, etc.). Ela fora apenas um átimo, um suspiro, um piscar de olhos na vida dele, e agora não estava conseguindo perceber a diferença entre o cruzar


de pernas que iria presenciar dali a dez minutos e o cruzar de pernas de quatro meses atrás, um trejeito que se transformara, sem dúvida, e ao qual se haviam agregado conhecimento, experiência, dor (os sofrimentos da vida e também, quem sabe, um princípio de reumatismo). Ou então o que aconteceria é que ele, ardilosamente, faria questão de repetir um gesto há muito abandonado só para fazer com ela se recordasse do passado. Tânia volta à janela e observa que agora são duas as vagas livres, mas uma delas está bloqueada pelo caminhão de lixo, que se demora na coleta. O compactador de detritos faz um barulho ensurdecedor, os garis gritam e alguns motoristas menos pacientes buzinam. Ela se sente desamparada no meio daquela balbúrdia. Quando o caminhão vai embora, as coisas se acalmam, mas logo a vaga que havia sido desobstruída é ocupada. A vaga que sobrou, metros atrás, é apertada, e Tânia se recorda de que ele não dirige bem. Vai sofrer para colocar o carro ali, ela pensa, e imagina se ele ainda tem o Gol duas portas no qual passearam tantas vezes. Aos domingos, flutuavam pelas alamedas dos bairros elegantes da cidade, apreciando as casas imensas, mesmo as que mal se deixavam ver, escondidas atrás dos muros altos. Não paravam em nenhum lugar para não gastar dinheiro. Desciam os declives em ponto morto para não desperdiçar gasolina. Durante a semana, ele a deixava logo cedo no hospital onde Tânia trabalhava como enfermeira, aproveitava a manhã para resolver as coisas que tinham de ser resolvidas e depois ia para o restaurante, onde era chef de cozinha. Quando ela dava plantão, ele a pegava no hospital pela manhã e a levava para casa antes de iniciar seu expediente. Quando ela largava mais cedo o serviço e tinha de esperá-lo sozinha em casa até depois da meia-noite, tentava se distrair vendo televisão, mas a verdade é que passava horas apreensivas até que ele chegasse. Havia muitos roubos e assaltos no bairro de Vila Guaíra, onde moraram juntos enquanto durou o relacionamento. Foi por isso que, aproveitando o fato de ambos passarem o dia cercados de instrumentos cortantes, cada um levou para casa um objeto com essas características – ela, um bisturi, e ele, uma faca de desossar –, com os quais procurariam


se defender caso fossem atacados por ladrões. Sobretudo ela, que ficava horas sozinha à espera do seu companheiro. Guardavam as armas brancas no quarto, na gaveta do criado-mudo, debaixo de um monte de papéis e cartelas de comprimidos. Quando se separaram, ele levou a faca embora, enquanto ela, na ânsia de eliminar da casa qualquer vestígio do homem que a abandonara, mudou tudo de lugar, inclusive o bisturi, esquecendo-se completamente do seu novo paradeiro. Era um Gol vermelho. Ela o viu parado em frente ao restaurante nas vezes em que esteve lá após a separação. A verdade é que nos primeiros dias que se seguiram à briga, foi ele quem a procurou, implorando pelo seu perdão. Mas Tânia foi inflexível. Até poderia suportar a traição, mas não a mentira. Muito menos a mentira meticulosamente elaborada que ele lhe aplicara por telefone. Aconteceu naquela semana que ele passou em Guaratuba, dando treinamento ao pessoal da cozinha da filial litorânea do restaurante, que iria inaugurar no começo verão. Um trabalho interessante, que o deixou lisonjeado e fez com que ela sentisse orgulho do seu namorado mestre-cuca. Algumas semanas depois da briga, porém, embora não estivesse disposta a perdoá-lo, Tânia deu de sair do hospital no fim do dia e passar no restaurante para comprar a comida que ele fazia. Jamais pedia para chamá-lo, apenas apanhava as marmitas, pagava e levava para casa. Fartas porções de farofa, de salada de feijão cavalo com cebola e de salada de batatas, além da carne, sempre mal passada, que devorava no jantar, matando a saudade dos temperos e, de uma maneira um tanto tortuosa, do próprio ex-amante. Tânia tentara preparar ela mesma molhos como os que ele preparava, refogar à maneira dele as carnes e legumes, mas descobriu que não era capaz de reproduzir nem o sabor nem a textura. E, ainda que conseguisse, não seria o mesmo que comer a comida tocada por ele. Nas primeiras vezes em que ela passou no restaurante, os garçons e o rapaz do caixa, que a conheciam, olharam-na de um jeito estranho. Deviam saber que ela e Dirceu haviam rompido e, certamente, contavam ao colega que a antiga namorada andava por


ali, apanhando umas quentinhas para o jantar. Mas ele nunca apareceu para vê-la, talvez porque aquela fosse a hora do rush na cozinha. Na segunda semana, Tânia levou um susto ao não ver o Gol estacionado na rua, mas lembrou que às vezes ele o deixava em casa e ia para o trabalho de ônibus, a fim de economizar combustível. Outra hipótese seria a de que o carro estivesse na oficina. Ou que Dirceu não trabalhasse mais ali, mas ela não quis perguntar nada aos garçons ou ao moço do caixa, que a essa altura já não a olhavam mais de soslaio, e sim como uma cliente qualquer. O fato é que até o tempero do mais singelo arroz branco denunciava a presença dele no comando da cozinha. Mas, e se ele tivesse mesmo deixado o emprego e sido substituído pelo seu assistente, que, de tão bem treinado, passou a imitar à perfeição seu estilo de cozinhar? Eram muitas as dúvidas flutuando em espiral na mente de Tânia, que, de repente, decidiu não ir mais ao restaurante. Simplesmente retornou ao esquema anterior de comprar pão na padaria, fritar um ovo, abrir uma lata de ervilhas, comer e dormir. E nunca mais ouviu falar dele (a verdade é que já começava a esquecê-lo) até o dia em que ele lhe telefonou e propôs que se encontrassem para conversar. Poderiam ter escolhido um local neutro, um bar ou café, ou mesmo a pracinha em frente ao hospital, mas foi ela quem sugeriu que ele viesse ao seu apartamento numa segunda-feira, noite de folga para ambos. Tânia não sabia bem o que pretendia com essa escolha, que surpreendeu Dirceu – pelo menos foi o que pareceu quando ele lhe disse ao telefone: “Aí?”. Ao que ela respondeu, procurando demonstrar tranquilidade e bom humor: “Sim, mas não se preocupe, eu estou desarmada”. Começa então uma chuva fininha, que deixa os motoristas ainda mais irritados e baratinados. A vaga estreita continua lá. Um carro manobra na tentativa de ocupá-la, mas o condutor (ou condutora) não dá conta das dificuldades e desiste. A chuva aumenta. Uma poça de água começa a se formar no local que Tânia parece estar guardando para ele. Se ele conseguir estacionar


ali, ela pensa, vai meter o pé na poça e subir com os sapatos sujos de lama. De repente, um carro vermelho, cujo modelo ela não consegue distinguir da posição em que está, para diante da vaga e começa a manobrar. Após alguns minutos de intenso trabalho, a porta se abre e ela vê a cabeça de Dirceu surgir acima do capô. Num movimento instintivo, ele olha para baixo e abre os braços, dando a entender que pisou na poça de chuva e que não está contente por isso. Atravessa a rua com as mãos na cabeça. Vai acabar pegando um resfriado, ela pensa, e lembra-se do pigarro. Aliás, foram dois os pigarros antes de ele começar a contar a história por telefone. Eram dez da noite, ele disse que estava no hotel em Guaratuba e que uma coisa muito estranha acabara de acontecer. “Imagine” – ele disse – “que uma mulher ligeiramente embriagada me abordou no saguão do hotel e disse que também era hóspede ali, mas que não lembrava o número do seu quarto”. “E por que ela não se informou na recepção?”, perguntou Tânia, ao que ele respondeu que era exatamente o que ele havia sugerido a ela, mas que a mulher ameaçou fazer um escândalo se ele não a deixasse subir no seu quarto por quinze minutos, só para ir ao banheiro e retocar a maquiagem. “Por que você não usa o banheiro do térreo?”, Dirceu afirmou ter perguntado, antes que Tânia dissesse que era o que ele deveria ter feito. “Mas ela disse” – ele disse – “que a lâmpada do banheiro feminino estava queimada, e então eu deixei que ela subisse, mas só por quinze minutos”. “E você foi junto?”, Tânia perguntou. “Eu tive que vir, meu amor, minhas coisas estavam todas aqui, o dinheiro, que deixei escondido naquele compartimento secreto da mala”. Tânia, que é cinco anos mais velha do que Dirceu, cogitou perguntar se a mulher era jovem, mas não teve coragem. E sofreu, deduzindo que se ela se maquiava é porque era vaidosa, não importava a idade que tinha. “Foram só quinze minutos”, ele garantiu, e a concluiu o relato dizendo que ela havia ido embora levemente cambaleante e “muito agradecida”. Era uma história sem pé nem cabeça, na qual Tânia acreditou. Afinal, por que Dirceu contaria uma história embaraçosa


como aquela quando poderia simplesmente não dizer nada? Ela jamais descobriria se ele tivesse feito alguma coisa errada. E se ele fez questão de contá-la foi justamente porque não havia nada a esconder. Mostrou assim que os dois eram de tal modo companheiros que ele precisava dividir com ela cada acontecimento do seu dia a dia, principalmente os mais insólitos. Tânia encosta o nariz na vidraça, mas não pode mais vê-lo. Ele agora está no hall de entrada do prédio, separado dela apenas verticalmente. Ela ouve o ruído do elevador descendo para buscálo. Não quer parecer ansiosa, por isso deixará que ele toque a campainha duas, três vezes, e só então abrirá a porta. Distraída, lendo uma revista. Não, ele pensará justamente o contrário: que ela estava ocupada passando perfume, ou domando seu cabelo difícil, enfim, preparando-se com esmero para o grande reencontro. Enquanto ela pensa besteiras, a campainha toca. Ela respira fundo. Aproxima-se da porta em silêncio. Não quer gritar que já está indo, arriscar-se a uma voz trêmula, fora do script. Coloca a mão na tetra chave e dá o primeiro giro, barulhento. Em dois minutos ele estará sentado no sofá, com o tornozelo direito apoiado sobre o joelho esquerdo, o pé numa vibração nervosa, exatamente como quando sentou-se diante dela e contou a verdade sobre o que aconteceu no hotel em Guaratuba – com a diferença de que o sapato agora estava enlameado e emporcalharia o seu assoalho recém-polido. O que aconteceu no hotel em Guaratuba foi que a tal mulher não estava embriagada, não ameaçou fazer escândalo se ele não a deixasse subir ao seu quarto, e não foi embora depois de quinze minutos retocando a maquiagem – aliás, pouco deve ter sobrado da sua maquiagem original após os incontáveis minutos que passou ali dentro. Por algum motivo ele havia mentido, e por algum outro motivo, tão misterioso quanto o primeiro, resolvera dizer a verdade. Enquanto completa o terceiro giro da tetra chave e espia Dirceu através do olho mágico – pálido como se tivesse tomado um banho de alvejante antes de sair de casa –, Tânia ainda tem tempo


de rememorar diversas cenas de sua vida com ele. Momentos de amor sincero e de desprezo dissimulado, que agora se confundem de tal modo que é difícil saber quais pertencem ao início e quais pertencem ao fim do período que passaram juntos. Ambos parecem ter o mesmo valor e guardam a mesma distância do tempo presente. Ao dar a última volta na chave e destravar o trinco de segurança, Tânia se dá conta de que o medo de ladrões que tanto os afligia não passava de um reflexo do medo que tinham de perder um ao outro. Pensa então no bisturi, a parte que lhe cabia no modesto arsenal que haviam montado para se proteger, e que não fora extraviado, ao contrário do que ela chegou a imaginar. Não, ele está bem guardado no armário da cozinha, ela se recorda. Lembrase de tê-lo retirado da gaveta do criado-mudo no mesmo dia em que Dirceu a deixou. Sentia vontade de morrer. Não era boa ideia ter uma arma por perto. No armário da cozinha, é ali que ele está. A mão sobre a maçaneta, girando.


Breed Carmela e a caganeira João Vereza

Pedrosinho afasta o bico do sapato do acelerador, corrige o pé para a esquerda e pressiona com gentileza o pedal do freio. Seu carro asiático hidramático; embreagem é para esses que cansam a panturrilha no engarrafamento. Pega o Iphone do bolso interno da jaqueta, ziguezagueia a senha com os dedos na tela. O telefone leva um tempo a mais para exibir o display principal; já lançaram a versão nova, merda, todo mundo tem menos eu. Pedrosinho navega o menu e ancora no Whatsapp fácil como quem espirra. Encontra a foto de Carmela, pressiona e manda a mensagem de que chegou, a carinha! a carinha!; aciona novamente o teclado, aperta dois pontos aperta parênteses, e envia um sorriso ilustrado como se o sorriso fosse seu. A resposta toca rápida e agradável; o texto revela que ela está descendo, os lábios desenhados e caricatos formam um beijo e Pedrosinho se anima com a boca verdadeira. O motor do veículo gira em repouso, ar-condicionado os bancos de couro, o painel de linhas elegantes e música insossa eletrônica. Pedrosinho acaricia sua bochecha bem barbeada, acertou no perfume na camisa no relógio,


e ajeita de leve o cabelo; cuidado com os fios endurecidos pelo gel. Ele pisca para si, sem plateia ou espelho: é isso, campeão, nenhuma noite que nem a de hoje. Carmela demora, claro, seria indecente se não. Pedrosinho desliga o carro em fila dupla, aciona o pisca-alerta, sai e recosta na lataria encerada. A noite brilhosa depois duma chuva, asfalto molhado gotas pelos postes e fios, não há trânsito ou perigo no bairro protegido. Ele olha para cima; o prédio da arquitetura indecisa: francês híbrido classicista e um sonoro nome italiano. Repara nas sacadas e nas varandas. Marcelão jurou que a comeu bem ali; Carmela gosta de meter exibida para o mundo, mas sem forçar, tá louco?, tem que ir oleoso: deixa chamar que a danada chama. Pedrosinho aguarda, vai mexendo no Iphone preenchendo vai o tempo. No Instagram de Carmela; fotos de gatinhos e cachorros, looks no espelho do elevador e o vídeo, que vídeo: Carmela na academia de lycra colada, a fantasia completa de gostosa. Faz abdominais pendurada no aparelho, puxando as pernas para o alto e jogando o rego para lá para cá, putatepariu, Pedrosinho; é hoje que tu janta essa mulher. Os portões duplos do edifício dão dois cliques abrindo as fechaduras e nessa vem ela. Carmela tem a beleza franco-atiradora; a bolsa as botas o cabelão, mulherão na medida entre o provocante e o elegante. Ele se apruma para cumprimentá-la e nessa vem a outra. Uma cólica lhe trespassa a barriga feito facada, ligeira surpresa e precisa, e desaparece pela mesmo mão invisível que a golpeou. Pedrosinho perde a cor, o calor escorre e o frio lhe toma do umbigo à testa. Em sua frente está Carmela; no tremelique a outra aparece em um flash: a caganeira o belisca maliciosa, sacana amorfa e faceira, delírio que dura uma piscadela. Carmela estranha, se preocupa e pergunta; passou, de verdade, passou. Pedrosinho se


recompõe, retorna ao controle. Dá-lhe um beijo na bochecha, aproximando ombro com ombro, testando o cheiro e colando as coxas. Ela mostra o sorriso e os dentes tão brancos, tratados e encaixados, estandarte máximo bem cuidado. Pedrosinho abre a porta do carro e Carmela se acomoda, polidos como manda a educação; delícia esses peitos vistos de cima: esculpidos com silicone e cirurgia. Ele dá a volta por trás do carro. Livre da atenção dela, apalpa a barriga desconfiado. Tudo calmo e firme no lugar, ele espera; a caganeira no momento tão viva quanto lembrança assombrosa. Não, querido, não vou te deixar tão fácil. Logo no primeiro sinal vermelho a caganeira torce Pedrosinho de novo; gata brincando com novelo. O sinal abre, ele não segue. Prende-se ao banco do motorista, as mãos apertam o volante em agonia. Tenta lembrar do que comeu, chega até um açaí azedo e a imagem do pote se desfaz. Ele vê a caganeira e ela é suja. Surge dançando que nem stripper de boate barata. Ela rebola, ela se aperta e se apalpa, ela aponta para Carmela sentada ao lado. Perdeu, garanhão, esquece a mocreia; sou eu quem te faço primeiro. Carmela pega na mão de Pedrosinho; sua mão bonita, unhas bem feitas cores bem escolhidas. Botou a maquiagem que fez dos olhos uns gigantes; brancos e desenhados, no centro uns círculos cinza-azul: o céu o mar depois da tempestade. Ele tem a mão gelada e suada, que foi, meu bem?; tudo bem com você? Carmela não fala com a distância de um primeiro encontro; há carinho em sua voz. A caganeira sofre com a luz e some; vampira afugentada pelo sol. Encontra uma caverna interna e se deita, gargalhando praguejando, contando o tempo para o troco. Chegam ao restaurante. Pedrosinho alerta o manobrista para ter cuidado, sim senhor, como não; Carmela desce do carro como


se houvesse fotógrafos e flashes. O mâitre os acompanha de perto, a mesa os aguarda tal reservado. Pedrosinho empurra a cadeira para que ela se sente. Ele senta, se cobre com o guardanapo e recebe o cardápio; ainda não está na melhor das disposições: uma água uma entrada um garfo de prata logo o farão saudável. Os dois examinam o menu em silêncio. Marcelão adora repetir a regra; com uma gostosa esplendorosa, o momento crucial é o de ler o cardápio. Se ela for a primeira a falar, coitada, caiu no papo e se enterrou; colo um dinheiro se não. Nossa, quanta coisa gostosa; haja corrida pra queimar isso tudo. Carmela diz, Pedrosinho comemora. Responde a ela para relaxar e aproveitar; restaurante melhor, só o original em Nova Iorque. Tem certeza que está bem, meu bem?; no caminho parecia tão abatido, tadinho. Ele prova que sim junto com o vinho. O garçom apresenta a garrafa, serve um pouco em sua taça, Pedrosinho sorve e bochecha; a bebida tem o sabor do seu preço: pode servir. Eles brindam, o encontro entra em cruzeiro. Eles têm a cordialidade treinada; ela leva a mão à boca sempre que ri, somente ele faz os pedidos aos garçons e ambos jamais falam com a boca cheia. O couvert, uma saladinha, os pratos principais; os talheres vão sendo utilizados de fora para dentro. Pedrosinho vai enchendo a barriga, nada mais sente de incômodo ou dor. A vontade de comer Carmela daí cresce canina; uma cadela de rua que anda no cio e é rodeada por cachorros, vários portes e pelagens, rosnando babando brigando, tentando lhe montar à força da natureza. Pedrosinho agora olha Carmela; a pele os músculos malhados, o jeito charmoso de mastigar, o som da pulseira quando ela corta a carne: no sangue dele os cães se agitam com tanto cheiro. A sobremesa, o café a conta; Pedrosinho paga com o cartão


platino trovão. As gorjetas são generosas; dinheiro é virilidade e uiva para cruzar. Sair do restaurante é um espetáculo, o mundo inteiro é galeria. Enquanto aguardam o carro, Carmela o chama para perto e o abraça para um selfie; isso, garoto, o que ela quer é roçar a bunda. Ela joga o cabeça, o cabelão cai para o lado e o pescoço é servido no prato; isso, garoto: o que ela quer eu preciso dizer? Pedrosinho segura os cachorros e se finge de morto; e agora, querida, vamos para onde? Carmela tem a beleza de anzol e de isca; minha casa, meu bem, lá tem uma varanda que vale a pena. O carro acelera e descamba que nem matilha, em um segundo vão da rua ao elevador. Carmela aperta o botão do andar, Pedrosinho cresce o peitoral e se aproxima. Ela o segura com a mão gentil e aponta para a câmera; calma, meu bem, guarda mais um pouco. Dá-lhe uma bitoca seca, a boca durinha; os lábios fazendo bico de quem brinca. Pedrosinho com o tesão do cão, esquenta endurece, toma as cores dum demônio: campeão, é hoje que a vida é boa. Entram no apartamento e ouvem latidos verdadeiros; um cachorrinho de meio quilo corre com uns chorinhos finos. Carmela o pega e o lota de lambidas: prazer, Pedrosinho, eu sou o Ouly; fique à vontade enquanto minha mãe me coloca pra dormir. Ela o leva até a área, Pedrosinho tem a casa desconhecida para si. O sofá, a mesinha de centro, o móvel com a tv e bugigangas, uma poltrona com cara amiga e uma bagunça de almofadas planejadas; personalidade que qualquer um alcança vendo os sites que todo mundo vê. Ele chega à varanda e relaxa no parapeito; a vista é sensacional, ampla quilométrica, sem razão para críticas. O skyline bem sucedido, as áreas arborizadas de praças e casarões, os carros iluminados nas avenidas como naves espaciais, o trânsito grave e constante e as buzinas distantes e errantes; um avião passa em sua


reta descendente: daqui a cidade é uma miniatura de pessoas e problemas. Carmela chama, ele atende. Ela revela o deslumbre igual um ás na manga; está descalça, mais natural, o cabelão preso calculado para ser livre: linda como poucos merecem. Pedrosinho se larga na mão do seu corpo; do que tem de desejo, do que o faz se dizer homem. Ele se engrandece e a beija como quem toma o que é seu. Carmela se ergue nos pezinhos e o beija de volta; fruta feliz e nutrida para ser doce. É agora, no momento fluido no carinho líquido, no descuido; a caganeira aproveita para chegar tomando e tomar machucando: te falei, baranga, esse trouxa não é teu. Marcelão vai falar disso enquanto for vivo; Pedrosinho tem um último pensamento e é tarde demais: a caganeira ressurge com a mão no botão de demolição. A barriga dele se liquefaz feito sorvete derretido, o quente o frio os gases fedidos, corroída pela mistura do jantar estrelado com a bebida e aquele maldito indefinido, o estragado o culpado. Carmela é empurrada, tanta sedução reduzida sem significância. Pedrosinho geme e se contorce, tenta correr para onde for. A caganeira ronca e ronrona; já esperou, guardou sua paciência. Vocês são dois duns sonsinhos; vou mostrar quem que manda. Ele não aguenta e abaixa as calças, se agacha se envergonha, se desfaz no alto chorando que nem o cachorrinho; ardido e enlouquecido, sugado pelo céu o vento aberto, tragado pela paisagem iluminada, as luzes a luz, de um helicóptero desnecessário: quando Pedrosinho olhou para a varanda, a varanda olhou para Pedrosinho.

n. a.: A convite da Cobain, caiu-me a canção Breed, do álbum Nevermind. Conversando com o amigo e ultra especialista Daniel Ferro, descobri que ela originalmente chamou-se Immodium, escrita por Kurt inspirada num vício do


vocalista da banda TAD, de Seattle, com quem o Nirvana dividiu uma turnĂŞ na Europa ainda no inĂ­cio da carreira. Immodium: medicamento para controlar diarreia.


Lithium Nick na sombra Moema Vilela

Abro os olhos e vejo o Igor de quatro no chão. Ele está com o meu celular, sussurrando umas palavras. Sento ao lado dele, ele está gravando uma música para a taturana que cruza a sala. “Seu celular tem mais qualidade”, ele diz. Pergunto onde estão os outros e o Igor inclui na música da taturana, canta: De um sonho eu acordo e onde estão meus amigos? Onde estão meus amigos? Estou com sede. Bebo água da pia no banheiro, não quero ir à cozinha. No espelho, lembro que ontem cortei meu cabelo de Cleópatra com uma tesoura escolar. Volto para a sala e tento de novo o Igor, quero saber do Nick e da Roxane. “O Nick não sei, a Roxane falou que ia pegar cerveja e quando eu voltei ela estava na cozinha, debruçada sobre a mesa, com a cara cheeeia de ovo.” Meus amigos se tornaram pessoas com as quais eu tenho que confirmar se ouvi a palavra certa. Ela estava dormindo de novo? Não, ela tinha começado a comer um ovo cozido, dormiu na metade, não tinha mais nada para comer na casa.


Então é isso. Eu podia ir embora a pé ou acordar a Roxane na cozinha, onde o Nick tinha picado e cozinhado os melhores desenhos que ele já tinha feito. Decido só telefonar para o Nick, dá desligado. Espero que ele esteja dormindo em algum lugar com um problema tão benigno quanto gema de ovo na cara, mas, se ele não estiver, não é meu problema. Tenho zero de amizade no corpo para ir atrás de louco. Volto ao banheiro e procuro uma gilete para finalizar o estrago no meu cabelo. Tenho raiva porque ficou feio, mas mais porque fica clara a diferença entre ser feliz e não ser, porque ontem, quando a noite era boa, eu era bonita com qualquer cabelo. Eu tinha felicidade. Começo a raspar e é mais difícil e demorado do que parece. A Roxane bate na porta e me pergunta se eu estou bem. Eu abro, mas não quero falar sobre ontem, então falo do cabelo, de como meu crânio é assimétrico e olha essas orelhas de elfo e a gente ri um pouco, ela fica sentada sobre o tampo da privada me olhando terminar aquilo. Ela fala, sem esperar resposta, como essas coisas acontecem, hein. “De repente, a noite desanda”. Eu também não sei como a noite desanda, mas sei que, faz uns dias, descolei um convite para expor meus desenhos. Eu tinha o maior interesse nisso, muito mais interesse do que admitiria para mim mesma, mas meu melhor amigo desenhava melhor do que eu. Quando a galerista quis selecionar os desenhos, bem rápido para não mudar de ideia, eu mostrei primeiro umas imagens do Nick no meu computador, coisas que ele tinha me mandado por e-mail. A gente ficava de madrugada trocando nossas coisas, colagens, desenhos, descobertas de músicas. A exposição só tinha espaço para mais um, e ele era um artista mais promissor. Corajoso da minha parte, né? A mulher da galeria ficou impressionada. O Nick se


achou, ficou todo grande com essa história, me beijou a bochecha, falou que ia melhorar o trabalho de que ela tinha gostado mais. Corta para sábado, todo mundo feliz, show dos Restos Vitais, rua, noite, luz, casa da Dani, festa na Roxa, piscina, supermercado, toda comida e bebida que posso comprar com o dinheiro que não tenho para nossa festa de viver, e eu corto meu cabelo para me refrescar porque está quente e não preciso de dinheiro e de cabelo e de padrões de beleza para ser feliz, mas de repente alguma coisa acontece, é assim que terminam as noites, alguém briga com alguém, alguém bebe demais, alguém tem alguma ideia idiota e o Nick por algum gatilho desse tipo que pode ser a fala de um amigo, um pensamento que ele teve, ele começa a falar sobre a podridão de tudo e dos sistemas políticos e das nossas vidas e começa a rasgar os desenhos, ele vai fazer um chilli de sonhos da arte dadaísta no mundo de merda do dinheiro e da necessidade de contatos para sobreviver até na arte – ou algo assim, ele diz, com pimenta nos olhos e restos de todo tipo de indigestão dentro da boca, saindo em forma de palavras cruas. A lógica da coisa também não está cozida, porque o Nick também têm raiva de milho, milho é transgênico, milho também é podre, do milho também não dá para escapar porque o milho está em tudo, e esse é um chilli sem milho, e ele atira uma lata de milho em direção à sala que quase acerta a testa de um sujeito, mas só machuca o pinscher da Roxane. O cachorro morde a perna do cara e sai uivando para o quintal. Uma menina diz que chilli nem tem milho, “na real”, mas o resto das pessoas sabe o que interessa. O tempo fechou. Aquela não é mais uma festa legal. O chilli dos sonhos dadaísta não é uma celebração e pode até te levar para o hospital tomar uns pontos. Os espertos de sempre vão indo embora aos poucos,


enquanto eu e meus amigos ficamos ali estragados sob a trilha de uma televisão ao máximo para competir com a ladainha cada vez mais bêbada do Nick em cima de quem passasse perto, depois ouço garrafas quebrando no quintal, o vizinho grita que vai chamar a polícia, tem sangue do cachorro no sofá, esse arrastar próprio da noite ruim que vai se estendendo sem chance de salvação até a bênção do sono descer sobre nós. Foi isso que aconteceu ontem. Não sei se falar dos desenhos para a Roxane esclarece muita coisa sobre ontem, para além do que ela viu. O fim da noite tem muitos começos. A Roxane me ajuda com uma segunda gilete e depois que estou careca dou um beijo na mão dela, amo a Roxane e a deixo ali naquela noite que ainda não terminou por completo, com tudo para limpar. Me dou a desculpa de que o Igor poderia ajudar, mas só eu pensaria em ajudar, e mesmo assim eu pulo Igor, taturana e restos de comida no chão e vou embora. Eu volto para casa, evitando me olhar no reflexo dos carros e lembrar da minha falta de felicidade. Se eu estivesse feliz, talvez eu ajudasse a Roxane a limpar. Talvez eu não colocasse no Nick a culpa de não ajudar a Roxane a limpar. Em casa, desvio das perguntas da minha tia e durmo direto até de madrugada, quando o Nick aparece no portão e fica gritando meu nome. Decido me arrumar para a felicidade, com meu lenço de seda preferido, decido amar minha paciência, minha tentativa de fazer dar certo, decido de novo e vou. A gente sai para caminhar. Eu caminho ao lado dele. Eu pergunto por que ele faz isso. Estamos na Artur Jorge. Ele começa a falar e não para mais. Estamos no Monte Castelo. Estamos na Vila Planalto. “Por que você faz isso?” é a minha única frase na noite e minha última frase para o Nick. Estamos no São Francisco. Minha


paciência é como minha felicidade. Ela é tão grande que eu esqueço que ela é pequena. Já de madrugada, o guardinha do bairro passa assobiando na bicicleta, mas não nos preocupamos, não estávamos mudando a órbita viciada dos planetas nem cometendo crimes de alegria contra autoridades falidas. O Nick não está queimando mentiras montadas em cavalos brancos nem usando drogas psicodélicas derivadas de um acorde cru do rock, eu não estou mijando numa placa de propaganda misógina, declamando poemas vegetarianos em cima da mesa do McDonald's, eu não estou cantando Bowie e subindo nas árvores gratuitas e democráticas, amáveis como a natureza dos homens na praça Ary Coelho. A gente só está trocando palavras, palavras que não nos comovem, o que nos faz sentir mais sozinhos, mais injustiçados, e isso deve dar vontade no Nick de falar mais, alucinado para tentar corrigir essa solidão, porque ele não para de fazer aquelas porcarias de sons. Nada do que ele fala me ajuda. Acho que ele não sabe que está triste porque ele mesmo estragou os desenhos, porque ele destrói coisas que poderiam ser boas para ele e depois transforma isso em heroísmo. Mas ele só fala milho transgênico, blablabla, lítio, gente burra, prefeitura, atitude punk rock. Fica fumando o Marlboro e falando e chorando, e eu, covarde na minha arrogância, cansada até o caroço, não falo nada. Sombras são previsíveis. Depois de horas ouvindo o Nick, quando o guardinha passa assobiando, minha sombra fica aliviada por existir um mundo para além de nós dois, mesmo que esse mundo fosse um pobre funcionário da segurança que me machucava a memória por sua vaga semelhança com a polícia. Em vez de uma cena doméstica, o zelador da paz numa bicicleta no bairro da minha infância, o zelador da paz e o seu canto, eu não


podia esquecer que a polícia matava e nada acontecia depois. Eu e o Nick já tínhamos visto uma pessoa morrer. Tínhamos nos amado de um jeito que eu nem sonhava ser possível antes dele. Tínhamos viajado juntos para a Bolívia, só nós dois, durante um mês. E mesmo assim, depois dessa noite, a gente parou de ser amigo. No meio disso, ele também falou que eu era sortuda porque eu conseguia dar conta das coisas, eu tinha mantido por um ano um trabalho de atendente de telemarketing, e eu estava fazendo o curso de psicologia, ele nunca conseguiria fazer um trabalho ridículo daquele nem estar na faculdade aturando tudo que eu tinha que aturar. E eu que odiava o meu trabalho e que tinha medo, medo de não poder ser feliz porque, além de não gostar de nenhum trabalho que eu conhecesse, eu era incapaz de fazer alguém pagar as minhas contas e não me sentir uma bosta por isso, como o Nick fazia numa boa. Ele vivia fazendo o que eu gostaria de fazer: desenhar, sair, viver. Quem tinha sorte ali? Quando pessoas que se amam desistem, não tem explicação. As explicações oferecidas para os curiosos são desleais, feridas de morte pela mentira. Os amigos de verdade sabem que não é possível explicar de todo, então eles ficam em silêncio em torno do nome de uma pessoa que partiu, de uma separação de inseparáveis. As pessoas que amaram são assim, meio assombradas. É o cansaço, a decepção, a esperança. É o incansável. É o cadê o mundo melhor que isso. O Nick foi meu melhor amigo de uma forma tão intensa que eu passei anos sensível com os meus outros amigos por não serem o Nick. Se alguém era mesquinho comigo, eu chorava, e dava uma de louca, de rainha do drama, chorando porque alguém não me amou direito, e eu sei que eu estava chorando por causa do Nick. O Nick me amou. Quando ele esqueceu isso? Onde ele está agora? Será que ele tem amigos bons?


Naquela noite em que nos cansamos demais, nossas sombras podiam ter secado lágrimas, de tantas formas, com gestos e palavras, ou talvez uma risada, mas as lágrimas secaram sozinhas na noite fria. Secaram na nossa cara ardida, corada do sangue correndo por dentro da pele depois da pele chorar. O Nick sempre chora, sempre chorava, até a mãe dele tirou sarro de ele chorar quando ele era criança, perguntava quando ia acabar o estoque de lágrimas, e ele pequeno chorando sendo zoado pela mãe enquanto estava chorando. Muito triste. Muito engraçado. Depois de um tempo as coisas perdem a graça. A gente não soube se perdoar, e as sombras comeram a nossa luz. Isso ia bem como final, mas o incansável não cansa: saímos de noite e de dia e brilhamos.


Polly Cachorro correndo sem cabeça Alessandro Garcia

“She caught me off my guard.”

(…) de atenção, que cede lugar ao cheiro de mofo espiralando-se como se fossem diminutas formas orgânicas em direção às suas narinas; que cede lugar à mancha esverdeada da umidade no teto, muito próxima ao arabesco de gesso; que cede lugar ao trinado ininterrupto do sabiá-laranjeira, não importando que só tenham se passado alguns minutos além das três horas da madrugada; que cede lugar a cupons de desconto de supermercado em papel-jornal craquelento avolumando-se no criado mudo do lado direito da cama; que cede lugar ao chiado do rádio que ficou ligado todo o tempo e manifesta-se em estática; que cede lugar à luminosidade amarelada do poste ainda aceso na calçada em frente à casa dentro da qual você está — intercalando sua atenção entre sons, odores e vislumbres, olhos arregalados na madrugada como se pudesse ouvir o choro soluçante de um vizinho muito distante, abraçado ao travesseiro, que dirá, se perguntado, Nada. Não é nada. Só sonhos tristes. Ou coisa assim —, em luta para que suas pálpebras façam


peso à angústia da perspectiva da manhã iminente; uma, duas, três piscadas como se em slow motion e seus olhos finalmente cedem e é no exato momento em que a mão da sua mãe se contrai em espasmo e aperta seu braço e interrompe a quase imersão no seu tempo subterrâneo e agora é tarde demais para tentar o sono novamente e por isso seus olhos permanecem arregalados até a luz de vapor mercuriano do poste dar lugar à solaridade inevitável. Já a esta hora há sol em demasia do lado de fora, quando você sai para o lado de fora. Há também ramos secos riscando sua pele fina e corvos sobrevoando o pessegal como se ali houvesse corpos e não polpas caídas ao solo e atacadas por formigas — obstáculos para suas sandálias trançadas. É seu caminho de todos os dias, opção mais longa para chegar ao mercado da cidade no maior período de tempo que você consegue. Quanto mais longa sua permanência fora de casa, mais distante das lamentações e gritos hediondos da sua mãe; ela, que mesmo mergulhada na banheira até fazer boiar a correntinha de ouro com a bonequinha de saia, que deve ser você, encontra disposição para os gritos, porque faltam os mantimentos e daqui a pouco aqueles sanguessugas estarão novamente acampados em frente à casa, tocando a campanhia como se fossem visitas solicitadas e, antes que se perceba, estarão mexendo nos armários e subindo as escadas, por isso é preciso que você vá de uma vez ao mercado, corvos a acompanhando como guarda-costas aéreos. Você precisava ter chamado a polícia? Quem é você? A porra de uma salvadora? Não podia ter deixado ela lá e continuado a caminhar pra casa? Era só andar e ficar de boca fechada e deixar aquela menina lá, só deixar pra lá e outra pessoa faria o que tinha que ser feito. Você não pode ser minha filha. Você é mesmo uma estúpida! Quando você sai do mercado, sacolas pesadas de pão e leite


e pó de café e ovos e coxas congeladas de galinha e garrafas de suco de laranja, eles estão do lado de fora. Blocos de papel em punho, câmeras e gravadores voltados em sua direção como se uma declaração sua fosse ao que todos desejam assistir antes de engolir o purê de batata, encarando o azulado da televisão. “Foi você quem socorreu a menina?” “Como ela estava?” “Você já conhecia a menina? Conhecia ela?” “Ela lhe falou sobre o acusado, Arthur?” “Ei, por favor, só queremos uma declaração sua!” “Por favor!” “Sabia que ela foi torturada?” “Sabia que o nome dele é Arthur?” É uma horda em sua direção, enquanto você retorna para dentro do mercado, saindo pela porta dos fundos porque Romero vai lhe ajudar mais uma vez, levando-a para casa na caminhonete onde se lê Spinelli na porta, sem tirar o avental manchado do sangue das carnes, ele que deixou a velha senhora sem seu corte de alcatra para socorrer você. “Você não fica mal na televisão, sabia?” De dentro da caminhonete, os postes vão passando em formação. Uma sequência numérica que você não consegue acompanhar. E ainda no alto, como se estivessem seguindo você, os corvos em voos espiralados. “Deixa pra lá estes carniceiros atrás de desgraça. Daqui a pouco eles esquecem. Daqui a pouco surge outra desgraça pra virar notícia. Todo mundo esquece tudo. Quer dizer, a menina não. Acho que nunca. Você sabe o que eu quero dizer.” E você se vira para ele em anuência. As mãos de Romero também têm sangue seco e ele aperta bem forte a direção.


“Você tem um jeito doce”, ele diz de repente, simultâneo a puxar um cigarro com os lábios ressequidos de dentro do maço de Derby. “Você parece o tipo de pessoa perfeita para se abraçar quando se passa por algo assim, como aquela menina passou. Eu digo, para alguém, como a menina, abraçar. Como abraçou. Eu… você entendeu.” Uma baforada em direção à rua e não parece que ele esteja esperando uma resposta. Não era uma pergunta, e você não sabe o que se diz nestes casos. “Deixei você sem jeito.” Ele não espera respostas. Sabe que não virão. Ou interpreta o seu olhar como anuência. “Você não sai muito, né?” “Não.” “É sua mãe? Deve ser cansativo. É só você pra cuidar dela?” Você sacode a cabeça, ainda olhando para o lado de fora. “Por que você não sai um pouco? Tomar uma cerveja, aliviar a cabeça.” Em algum momento será preciso dizer alguma outra coisa, mas Romero é sempre mais rápido do que você. Ferragem Aberdin, diz o letreiro na fachada, escrito em tinta vermelha escorrida. “Gostaria de sair com você um dia destes.” “Eu não…” “Não quer sair comigo?”, ele insiste. “Vamos lá, garota. Saia comigo. Não estou pedindo você em casamento, nem nada.” Tacoma Pub, no exato espaço do quebra-vento. Muito rápido para que alguém consiga ler. Mas ela sabe, porque o letreiro está lá desde que se lembra. Uma boate repleta de garotas tristes. “Eu saio às dez, espero você na frente da sua casa. Vai ser divertido. Se não for, você me acerta com uma Bud na cabeça. Olha aqui”, ele aponta para a própria cabeça, batendo nela com os


nós dos dedos, “cabeça dura. Eu aguento. Haha.”

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Tom poderia lembrar do cheiro do esgoto. Poderia lembrar também dos percevejos-da-soja queimados depois de banhados em querosene. Ou dos gatos escalpelados. Gatos com rabos arrancados a golpes de machado. Dos sons animalescos que vinham do trailer da mãe de Arthur ou da forma como Arthur costumava sentar-se perto do cano do esgoto, como se não se importasse com a podridão ao seu redor. Como se estivesse destinado a fazer parte da podridão. Arthur era só um garoto que parecia estar morrendo um pouco a cada dia, desde o dia em que nascera. “Ele nunca foi muito bom da cabeça, não é?”, perguntou Sheyla. Ler sobre Arthur no jornal não parecia tão improvável. O mais improvável era que aquilo fosse só uma repetição do que já havia acontecido, e ainda assim o tenham posto em liberdade. Havia o distanciamento, o distanciamento que se tem quando se lê o nome completo de alguém que se conheceu a vida inteira sob alcunhas impenetráveis para outros. Bexiga. Cobreiro. Buraqueira. Capitão Erosão. Um distanciamento que diferia completamente do ano em que o rosto de Arthur se encheu de espinhas, quando Tom chegava a se envolver em umas três brigas por dia ao lado do garoto esquisito demais. “Ninguém é muito bom da cabeça”, Tom respondeu, passando a mão nos pêlos que se içavam no braço de Sheyla. Arthur sempre fora um pouco esquisito, daquele jeito que


todas as mães odeiam, mas não tanto a ponto de não conseguir parecer interessante para quem se abstivesse de julgá-lo somente por ser magro demais ou por parecer ter a cara mastigada por um cachorro faminto. O tipo de garoto que você nunca sabia se estava calado por não ter nada a dizer ou se o que tinha a dizer era terrível demais para ser dito em voz alta. White trash. Um bando de sujeitos muito brancos para estarem num subúrbio infestado de grafites e hip-hop e negros de cabelos gigantescos; pobres demais para viveram em qualquer outro lugar além de um camping permanente. Quando ainda eram apenas crianças crescendo em meio a churrasqueiras feitas de latões de combustível cortados ao meio, Arthur já tinha habilidade para sobreviver praticamente um dia inteiro fora de casa — era difícil que suas batidas na porta tivessem força suficiente para arrancarem sua mãe de um torpor de Jim Beam e dos Gauloises que a defumavam dentro do trailer de janelas trancadas. Os percevejos-dasoja, fede-fede, eram a obsessão do garoto naqueles dias. Ele arranjava uma porção deles sem problema, bastava escavar um pouco um daqueles estofados de courino rebentado que qualquer um por ali tinha na varanda em frente ao trailer, prendia-os num pote de Hellmann’s e depois os banhava em um pouco de querosene, tacando fogo e rindo da massa verde retorcida que se formava no fundo. Qualquer um com discernimento médio se afastaria daquele garoto esquisito, sempre cheirando a mofo, com uma mãe que parecia conseguir ser mais pobre e bêbada do que todos ali, e isto era difícil, mas o que Tom tinha por Arthur era pena. Pequeno demais, magro demais, um alvo perfeito mesmo para aquela coleção de garotos todos fodidos que habitavam os corredores da


Arlington, atrás mais de uma refeição do que de horas de estudo. Como alguém poderia tirar um palito assim tão pequeno na vida? Tom ficava incomodado com o fato de Arthur aparentar não se importar em voltar para casa com fome, porque mais uma vez roubaram sua batida de morango e suas bolachas que davam na saída da escola; ficava mais incomodado ainda com os sons animalescos e gemidos que se ouvia pela saída do exaustor do trailer da mãe de Arthur quando voltavam da escola, nem uma da tarde era ainda. Ela podia tanto estar tendo uma crise de abstinência de álcool quanto estar trepando. O som do rádio, alguma coisa romântica em meio a ruídos de estática, dava conta da segunda hipótese, não tardando a anteceder a saída de um sujeito qualquer pela porta, camisa ainda pendurada no ombro e dificuldade para encontrar os furos do seu cinto. Sheyla levantou-se da cadeira de plástico em que estava e veio encaixar-se de frente a Tom, as pernas abertas, os fios do cabelo lhe fazendo cócegas nos lados do rosto. “Ele já era um psicopata nesta época?” Quem é psicopata com nove anos? Garotos que invadem escolas com metralhadoras e bombas feitas de pedaços de vidro e pregos? Um garoto que se diverte chamuscando a cabeça de gatos com um lança-chamas feito de acendedor de fogão e desodorante spray? “Era? Um psicopata? Você era amiguinho do psicopatinha?” Quase todos estes sujeitos esquisitos sabem tudo sobre ciência e buracos no espaço, caminhos de minhoca e sabe-se lá mais o quê. O interesse de Arthur pelo assunto rendia tardes inteiras, enquanto os dois tentavam pescar lambaris no açude perto do camping. Ele desembestava a falar sem parar a respeito de


princípio da incerteza, teoria do caos e expansão do universo. Ele contou a Tom que para cada possível ação, o mundo se divide em uma cópia de si mesmo. Explicou-lhe que se você aperta um revólver contra sua própria cabeça, duas coisas podem acontecer: o revólver disparar e você morrer, ou a arma falhar e você viver. E que, quando se está apertando o gatilho, o universo imediatamente se divide em dois: um, no qual você morre porque o revólver disparou e outro no qual você permanece vivo, porque o revólver falhou. São os universos paralelos. “Você já imaginou que, se você decide fazer mal a alguém existe um outro universo, no qual você está fazendo o bem? Deste jeito, não existe bem ou mal, mal ou bem. Tudo o que a gente faz, estamos fazendo ao contrário, no mesmo momento.” Tom ficava horas ali ouvindo, torcendo para que nenhum peixe belicasse, apenas mantendo a mente aberta e esperando o que mais poderia vir de Arthur.

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O grupo se espremia pelo portão de saída da escola como areia se precipitando por um funil. No calor, não importando que aquela fosse uma entidade de educação, brotava carne para todo lado: saída de debaixo de blusinhas cor de rosa, notadas por entre voos de minissaias plissadas de tecido leve, à vista por shorts de necessidade unicamente formal, prenunciadas no alto-relevo das camisetas que pareciam encolher à revelia dos peitinhos crescentes. As garotas eram como faróis — as camadas brilhosas de seus lábios refletindo a falta de adequação do grupo de garotos que nada mais fazia do que observar. Admiradores constrangidos em total


desigualdade com o talento de composição de figurino que as garotas pareciam trazer de berço. Símios de braços sacolejantes enfiados dentro de camisetas compridas demais e bermudas gastas, falando alto e cuspindo enquanto falavam e rindo e se autocumprimentando. Um contraponto injusto à produção esmerada das garotas, que os distrairá durante um dia inteiro. Durante uma semana e uma vida inteira. Elas discutiam coisas infinitamente secretas e intraduzíveis, lançando olhares secretos para os lados antes de trocarem risadinhas, abraçadas a cadernos com a cara gigantesca do Snoopy. Conforme aumentava o grau de exposição de carne, você podia notar ícones menos cartunescos em suas capas de caderno. Assim, garotas com bermudas só um tantinho mais cavadas, traziam lascivos Keanu Reeves, Patrick Swayze e outros atores que invadiam a única sala de cinema daquela pequena cidade, estampados em cadernos adornados com corações desenhados à Bic vermelha. Em meio àquilo tudo, crianças correndo e sacolejando suas lancheiras plásticas. Professores apressados em direção aos relógios-ponto. Um grupo hasteando a bandeira do estado e dublando um hino que ecoava do pequeno toca-discos laranjas, em meio ao barulho do liquidificador da cantina preparando o milk de morango. Poliana, uma daquelas tantas garotas, tinha alguma coisa que penetrava a carne de todos aqueles meninos ainda imberbes de forma muito mais intensa do que o calor. Era algo mais do que o fato de ser bonita e alta demais para os seus quatorze anos — impressionante em uma intensidade que não parecia caber em um apelido tão pequeno. Poli. A languidez, sobre a qual era possível assegurar não possuir qualquer tipo de domínio, era como um prato sendo equilibrado no alto de uma vara muito alta: a vara era sua inocência, à prova de olhares lascivos e ignorante aos gracejos de


todos os tipos, mesmo daqueles tipos de que seus colegas não cansavam de repetir, quando podiam camuflar sua inadequação em bandos, e aí então eram capazes de assovios pornográficos e gritos e apelidos e toda aquela miscelânea verbal que lhes ocorria dentro das poucas opções do pouco vocabulário. À tudo aquilo, a neutralidade de Poli. Seu olhar parecia não captar aqueles movimentos todos em sua direção, ohos vivazes mais inúteis como um alarme em stand by. Se alguma de suas amigas chamava sua atenção, deixava de mirar o que quer que estivesse olhando e, então sorria, perguntando: “Os garotos estão mexendo com vocês de novo?”. “Não, Poli! É com você. De novo!”. Ao que, sorria, sincera: “Não…”. Pela altura de Poli, seu olhar podia transitar por cima das diversas cabeças que ainda se aglomeravam na saída da escola — batia no vidro da carrocinha de cachorro-quente ali na esquina, que refletia o olhar guloso da meia dúzia de moleques volumosos à empanturrarem-se de maionese e salsichas —, e ia criando uma clareira visual à sua frente, simultâneo a despedir-se de algumas das amigas, enlaçar-se pelos braços à outras que fariam trajeto semelhante, enquanto seguiam pela rua principal até a pequena praça. O que seu olhar não encontrava era o fusca 1967, uma presença então silenciosa na frente da escola, dentro do qual, pelo lado de fora, era difícil ver o sujeito com o rosto coberto de caroços, uma camada de carne ruim assobreada pelo pára-sol, sempre baixado, fazendo dupla à película muito escura dos vidros que também dificultavam a visibilidade de alguém que quisesse prestar atenção ao motorista daquele carro que permanecera a manhã inteira em frente ao Elizabeth Fradenburg I, cuidando cada menina que saia daquele colégio, olhos esticados e vidrados então para a menina muito alta com sua camiseta onde se podia ler, para quem


esticasse o olho e quisesse ler, Teen Spirit. Agora o fusca 1967 e seu motorista, espremendo-se dentro da camisa apertada demais contra o banco de courino marrom, à menor desconfiança de estar sendo observado, estão acompanhando Poli e sua amiga Kimberly, remanescente do trio que chegara de braços dados até a praça. Era um daqueles dias em que o calor úmido e branco incomodava tanto que, a menos que se estivesse no cabeleireiro, o único lugar com ar-condicionado da pequena cidade, o melhor a fazer era se trancar em casa com as cortinas fechadas, procurando ficar o mais quieto possível. E lá estava Arthur agitado, suando para tentar manter o motor em primeira marcha sem afogar o carro; girando ao redor da praça como se ali houvesse algo mais o que espreitar além do vendedor de pipocas e a pequena feira de artesanatos, companheiros solitários de Poli e Kimberly, que se abancaram por ali, nem duas da tarde ainda eram. Eram só duas garotas, mas o quer que pareciam conhecer escapava completamente a Arthur. Ele parou o carro à sombra da pequena árvore de jambolão, distância suficiente para deleitar-se com a grossa camada de brilho de morango nos lábios de Poli, uma película que se esticava com a elasticidade de uma cobertura de sorvete à cada vez que a menina comentava alguma coisa com a amiga. Havia noites em que Artur sentava-se na frente do trailer naquele estacionamento em que morava e ficava ouvindo o cantar das cigarras por entre o assovio fino dos pinheiros. O cheiro da noite era diferente, trazia o perfume quente do xampu de pêssego da vizinha do trailer, alguns metros adiante, espreitando-se por entre o vapor do banho e misturando-se ao odor do asfalto levantado pelos pesados caminhões que passavam por ali àquela hora. O xampu de pêssego o fazia lembrar da mãe e de sua essência frutada, aquele


composto nos cabelos ainda molhados com o qual podia ser vista sempre que se achava em condições de abrir a porta de casa para que ele e Tom entrassem, depois de despachar o sujeito com o qual ficara trepando e bebendo a manhã inteira enquanto ele estava na escola. Naquelas noites ele se punha a pensar que merecia uma espécie de recompensa, um benefício adicional que o fato de nunca mais ter ouvido falar da mãe nunca lhe trouxera. Cada vez que encarava os lábios de uma menina, uma menina como Poli, parecia que encontrava este benefício adicional. A efemeridade da recompensa, no entanto, o frustrava — o frustrava ter que contar com a fortuidade de encontrar algo assim nas lojas de conveniências, nos centros comerciais, praças, supermercados. Precisava daquilo para sempre, e sentir aquilo, a viscosidade e maciez daqueles lábios, sob um olhar que ia encará-lo e resfolegar sob seu peso, e gemer e pedir para aliviar um pouco, aquele olhar que diria que estava pronta para mais uma, pronta para ser cosumida e consumi-lo como o brilho labial que devia ter gosto de morango.

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Houve o caso da filha do Donaldo, proprietário do trailer com os luminosos surrupiados da fachada do Supermercado Tacoma, a menina de quatro anos que desaparecera durante um dia inteiro e depois reapareceu caminhando sozinha à margem da Interestadual 5. Houve também a pequena calcinha amarela que Tom viu sob a cama de Arthur na manhã em que esperava no seu quarto que o amigo terminasse de se arrumar para irem para a


escola. Uma pequena calcinha que era como um U apontando para o alto, flutuando sobre a nuvem de poeira e restos de comida com que disputava espaço na escuridão da parte inabitada do quarto de Arthur. Durante alguns dias, a calcinha veio à mente de Tom, e ele não ousou esboçar mais do que a ideia de um roubo de varal, uma coisa assim que Arthur devia ter feito para satisfazer alguma fantasia qualquer, na sua mente não disposta a intrincadas relações. Ou não disposta a ouvir o apelo que aquela pequena calcinha retorcida em U parecia emitir para ele, antes que Arthur entrasse no quarto e dissesse vamos logo para a escola sua bicha desse jeito a gente vai se atrasar viado do caralho.

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Dentro do carro há Derby impregnado em tudo o que é feito de tecido. Esperou a mãe dormir e então achou que não haveria mal algum em esperá-lo na frente de casa, àquela hora completamente às escuras e os vizinhos também já desligaram as luzes então não há por que pensar que alguém vai lhes espreitar por trás de alguma janela e falar dela e perguntar pra sua mãe com quem a filha saíra na noite passada. Soprando o vento de verão em minha mente, diz a letra de Summer Breeze que está tocando no carro dele, e me desculpa eu não consegui limpar o carro direito, ele diz enquanto abre a porta e pergunta porque ela está assim com os braços cruzados, eu não vao morder nem nada hehehe. “E aí, como é que foi?”, pergunta, sem tirar os olhos da estrada. See the paper layi’in the sidewalk, a little music from the


house next door. “Como é que foi o quê?” “Você sabe… Encontrar aquela garota.” Summer breeze, makes me feel fine, blowing through the jasmine in my mind. “Eu não sei. Foi triste. Triste.” Também ali naquele carro há cheiro de carne. Ele deve usar o carro em serviço também. “Ela tinha cortes nas mãos além das marcas de queimadura, não tinha?” “Como você sabe?” Tacoma Pub, de novo. Agora, os letreiros acesos, lâmpadas amareladas piscando em todas as letras em forma de caixa. Faltavam lâmpadas no segundo a. “É que ela era uma garota grande, sabe? Cortes nas mãos são ferimentos de defesa. Quando vi a foto dela pensei que seria o tipo de garota que iria reagir. Diferente de você, não me leve a mal.” “Diferente de mim? Você não sabe nada de mim. Como — como pode falar isto?” “Bom, eu sei que você tá com medo de mim. E eu nem tô com uma faca nem nada. Tô errado?” “Não, é claro que…” “Escuta”, ele pegou no braço dela, o braço que ela deixou muito próximo do câmbio, “eu tô só brincando, ok?”, ele falou isto e soltou o braço para girar o botão de volume do rádio e cantar junto, Sweet days of summer, the jasmine's in bloom. July is dressed up and playing her tune. “Adoro esta música. Você gosta?”, ele perguntou. “As roupas da garota também tavam cortadas, né?”, insistiu.


“Poli.” “O quê?” “O nome da garota é Poli.” “Ah, ok.” “É disso que vamos falar? Não, a Poli não estava vestida. Mas por que as roupas também estariam cortadas?” “A polícia chama de cortes não-funcionais. São cortes que não combinam com os ferimentos no corpo. Devem fazer parte de uma espécie de… preliminar. Sabe? Coisa de maluco. O que acontece é que os caras da polícia precisam justificar esta quantidade de coisas. Imagina a quantidade de coisas que os caras da polícia precisam justificar todos os dias! Taras de sujeitos que se vestem com as roupas de baixo de suas mães e saem por aí cortando pessoas com estiletes. Você pode imaginar? Só quando o pegaram é que foram descobrir depois que ele gostava de roubar roupas femininas dos varais quando era um garoto.” “Por que ele fez isto?” “Sabe, roupas femininas de baixo. Calcinha. Sutiã.” “Sei, ele falou por que…” “Ah, alguma coisa sobre fazer ele se sentir melhor. Você não acompanhou as notícias?” “Só o suficiente para saber que a Poli ficou bem.” “Quem é que fica bem depois de um troço deste?” “Eu só — eu só queria saber sobre a Poli.” “Hmmm. O sujeito disse que tinha alguma coisa a ver com a mãe dele, sei lá.” “A mãe dele?” “Ele maltratava animais também. Gatos, parece. E já tinha feito isto com outra garota, uns vinte anos atrás, e foi solto. Como é possível justificar uma coisa dessas?”


“Você tem razão.” “É. É claro que eu tenho razão.” Summer breeze, makes me feel fine, blowing through the jasmine in my mind. Ela não lembrava da estrada ser tão tranquila assim à noite. Depois do Tacoma Pub, quilômetros e quilômetros quase sem luz em parte alguma. Nada além dos dois Vs do farol varrendo a estrada, espantando zurrilhos. “Sabe que quando eu a encontrei, achei que ela estivesse morta”, ela falou. “Poli estava, apenas, lá. Deitada. Os olhos fechados. Os urubus já estava sobrevoando em círculo no alto. Eu precisei fazer ela beber água. Só depois disto ela acordou. Fazia um tempo que estava ali, meio desmaiada perto dos pessegais.” “Como é que ela se arrastou até ali? Naquele sol. Sem roupas, como você disse que ela tava…” “Sobre isso, ela não parava de repetir. Parecia um… Sabe, um mantra, como se ela quisesse muito deixar claro como chegou ali.” “Como é?” “Ela repetia sem parar ‘eu corri, eu corri, eu corri’, chorando, toda suja de sangue seco, pelo corpo todo, as plantas dos pés em carne viva, sabe? E os cortes, e as queimaduras. Nos braços. Pelo corpo todo.Você não faz ideia do que era aquilo.” “Escuta, se você quiser…” “Como é que alguém pode fazer isto com outra pessoa? Ouvir os gritos de outra pessoa, fazer outra pessoa sofrer deste jeito? Como é que…” “A gente pode falar de outra coisa, se você quiser.” “E eu não queria ter que ir ver ela de novo, no hospital, sabe? Minha mãe também não queria. Eu sou horrível por não


querer?” “Não, você não…” “Mas tive que ir, fotografar junto com ela, pro jornal. E o chefe de polícia. Eu simplesmente fui lá, mas depois de um tempo era como se Poli não estivesse mais lá. Como se ela... Era como se ela já não estivesse mais lá.” “Como assim?” “Acho que ela já não devia mais estar em lugar nenhum, há muito tempo.” “Mas pra onde — pra onde ela foi?” “Pra onde se vai depois que acontece um troço desse com você?”

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“Ele vai olhar para o teto e vai soltar a fumaça do cigarro e vai ficar olhando pra lá, pro adesivo cheio de moscas perto da lâmpada, e vai dizer ‘Isto nunca aconteceu comigo antes’. E aí ela vai alisar o braço dele, isso, assim, só que ele vai sentir a mão dela como uma lixa, então não vai ser reconfortante nem nada e ele não vai se sentir melhor com aquilo. Porque vai parecer condescendente demais pra ele. Você sabe o que é condescendente?” “O quê?” “Você não tá prestando atenção. “Eu tô sim.” “O que é que eu perguntei?” “O que é que tu perguntou?”


“Tem eco aqui?” “Eco?” “Porra, você é surda, porra?” “Não, eu não sou surda, caralho. Tu é um puta dum ignorante!” “Deita aí.” “Vai ser assim? Porque se for assim eu vou embora. Foda-se. Me dá meu dinheiro.” “Deita aí.” “Foda-se. Foda-se, Arthur! Me dá a porra do meu dinheiro. Tu conhece o Magnus, ele vai…” “Deita aí.” “Caralho, larga o meu braço. Larga o meu braço, filha da puta!” “O que é condescendente?” “Foda-se o caralho do concedente. Foda-se tu também. Tu não consegue trepar, seu velho, eu vou embora. Acabou teu tempo. Me dá meu dinheiro, preciso fazer dinheiro!” “É você. Fazendo minhas vontades. Colocando seu braço em mim sem querer me consolar de verdade.” “E tu não queria isto, porra? Tu tava falando.” “Você faz tudo o que falam pra você?” “Não, eu não…” “Se eu falar pra você imitar a porra dum gato, você vai imitar?” “Tu é a porra de um imbecil mesmo.” “Se eu falar pra você imitar a porra dum gato você vai imitar?” “Me dá a caceta do meu dinheiro!” “Você tá vendo aquela bolsa em cima da cadeira?”


“O dinheiro tá lá?” “Não.” “O que é que lá tem então?” “Tem outra coisa lá. Quer ver?” “Eu só quero a porra do meu dinheiro. Eu vou ligar pro Magnus.” “A gente aposta uma corrida até lá. Se você chegar antes, eu dou o seu dinheiro. Mas se eu chegar primeiro, eu vou usar o que tem lá dentro. Em você.” “Cara, eu não tô brincando. Me dá — me alcança minha calcinha, por favor?” “Deita.” “Cara, o que é que tu —” “Só deita. Shshshshs. Isso, deita. Assim.” “Meu, se eu não ligar pro Magnus em cinco minutos, ele vai —” “Shshshshs. Deita. Não vai levar cinco minutos. Deixa eu te contar uma história.” “Que porra de história? Eu vou ligar pro Mag...” “Sabe porque chamam o Magnus de Pooh?” “O que é? Como é que tu sabe disto?” “Ele odeia este apelido, né?” “Cara, ele rebenta tua cara inteira se tu pensar neste nome perto dele.” “Rebenta, nada. Sabe porque chamam ele assim?” “Tu acha que eu vou perguntar pra ele a porra do motivo porque chamam ele de Pooh? Tu acha que eu sou retardada, né?” “Sabe quando o Ursinho Pooh tranca o nariz num pote de mel?” “O quê?”


“O Magnus não tem nariz.” “Como é... Caralho! Por isso...?” “Puta nariz escroto, né? É, é só uma droga de uma prótese. Foi o melhor que ele conseguiu.” “Cara, como é que tu sabe disto?” “Alguém cortou o nariz dele.” “Alguém cortou o nariz dele?” “Eu acho que eu vou chamar o filhadaputa do recepcionista pra perguntar se tem algum problema acústico nesta porra deste quarto. Porque eu continuo ouvindo uma porra de um eco toda vez que eu falo uma frase.” “Cara, tu sabe disto é como? Tu sabe muito do Magnus.” “O que contam é que ele dorme umas três horas por noite. No máximo. “Quem é que cortou o nariz dele?” “Fudeu todo o sistema respiratório dele, sabe? Fica ruim de dormir. “...” “Deve ser complicado, né? Se tivesse sido uma incisão cirúrgica, um processo controlado, esterilizado, coisa de profissional, saca? Aí a coisa seria diferente. Eu tenho certeza disto.” “E como...?” “Mas imagina alguém chegar com um estilete, daquele tipo todo ferrado, quase sem fio, sabe aqueles estiletes com cabo plástico que a molecada usa na escola? Chegar assim, com um estilete daqueles e se aproximar assim do seu nariz, começar por esta parte aqui do nariz, e a coisa levar um tempo, né? Porque com um estilete ferrado destes a coisa demora, concorda?” “Aham. Cara, Arthur, olha só, porque é que a gente não esquece esta história e curte um pouco?”


“Você ainda quer ver o que tem na minha bolsa?” “Tu quer que eu te chupe? Eu te deixo duro em um minuto, Arthur, vai por mim.” “Garanto pra você que não é dinheiro. Já faz algum tempo que eu não preciso pagar nada pro Magnus.” “Cara, eu te chupo, tu goza na minha boca, tu vai ficar louco, eu garanto pra tu.” “Eu pedi isso pra você?” “Não, mas eu —” “Então cala a porra da sua boca.” “Arthur, olha só...” “Deita e vira. Vira este rabo pra cima e cala a porra da boca.” “Arthur, o que é que tu —” “Cala. A. Porra. Da. Boca. É a última vez que eu falo. Vira esse rabo pra cima. Assim. Isso. Fecha os olhos e só abre se eu mandar. E para de tremer.”

****

Mais ou menos uma semana tinha se passado desde que Tom lera no jornal sobre Arthur. Agora, toda vez que passava por uma banca ou sintonizava em um destes programas que velhas assistem à tarde, podia se deparar com uma notícia nova sobre um sujeito que pouca gente sabia que existia há até bem pouco tempo, devidamente trancado há até bem pouco tempo, e que Tom sabia que era melhor se tivesse permanecido assim. Houve uma noite em que ficou sozinho porque Sheyla saíra para sua quarta-feira de pôquer com as amigas e então não conseguiu fazer muita coisa


além de fumar e olhar para a tela de televisão desligada. Das poucas coisas que lembrava que Arthur já tivesse gostado de verdade na vida, e que tivera, uma era como uma mancha de molho de tomate numa toalha branca, tal a nitidez da imagem. Havia esta menina chamada Melina. Uma sujinha, como eles, habitando algum dos trailers poucos metros adiantes. Roupas sempre amarrotadas, como eles. Mas havia alguma coisa naquela menina — algo inominável que devia habitar algum espaço indefinido entre o vermelho quase indecente de que seus cabelos eram feitos e a diástema, aquele vão entre os dentes que, nela, parecera projetado para fazer garotos derreterem a cada vez que sorria. E aquilo, aquela coisa inominável, pegara Arthur de jeito. E de toda forma, tudo com o que ele mais desejava ser agraciado era de criatividade suficiente para inventar desculpas todas as manhãs para irem até a escola na sua companhia. Não que parecesse precisar, já que Melina era generosa o suficiente para os receber só com sorriso, a cada vez que os via correndo para alcançá-la. Às vezes a gente se pergunta o motivo de certas pessoas nascerem. Que tipo de plano se tem para que certas criaturas venham ao mundo, se cada segundo seguinte, desde aquele em que o ar entrara por seus pulmões pela primeira vez, tudo o que parece é que elas surgiram para serem eternamentes ferradas, uns seres sem ferramentas e poucas possibilidades de arranjá-las — ocupando os dias como quem empurra vãos de ar com os ombros. Houve a quermesse da escola em que cada criança ficara responsável por um atividade. Cortar e colar bandeirinhas de papel, cuidar da cadeia, organizar o arremesso de argolas em garrafas. Quem diabos decidira que Melina devia ficar na barraca do beijo, sem que aquilo causasse algum tipo de problema, era alguém que


ainda hoje Tom gostaria de encontrar para aplicar-lhe uma boa dupla de tabefes. Como que Arthur não se aplicaria numa missão, à cata de toda sorte de moedas que pudesse surrupiar de sua mãe, pedir à estranhos na rua como um mendicante, até juntar a obscenidade que era, para um garoto da sua idade, a quantia necessária para ter a boca rosada de Melina colada na sua? No conjunto de trailers havia o Estevão, este sujeito gordo, não inteligente, não engraçado e com uma aparência quase repulsiva. Mas era Estevão que saia à caça de marrecos no matagal que havia lá para os lados. Ele se armava de espingarda e da companhia de Tico Sujo, uma piada nominal em forma de cão caçador, e normalmente voltava com marrecos suficientes para vender para os outros moradores por algumas moedas — e famílias inteiras tinham ao menos uma semana inteira para saciarem sua fome de devorar uma ave assada, ao molho, ou o que quer que quisessem fazer. Em uma das caçadas, enquanto corria com Tico Sujo matagal adentro, na cola de marrecos gordos que mal conseguiam alçar vôo, não se sabe se porque havia entornado mais garrafas de cerveja do que seria aconselhável ou porque o coice da arma fora forte demais, o que aconteceu foi que o tiro da sua espingarda atingiu a cabeça do Tico Sujo, cortando-a em duas formas tão perfeitas que tudo o que Estevão vira por alguns segundos, ele dissera depois, foi a metade inferior da cabeça de Tico Sujo. Sem olhos, sem cérebro, sem orelhas. Apenas a parte inferior do seu focinho ainda esgarçado, a mesma língua de fora como sempre, quando corria como um velocista. O fato é que Tico Sujo continuou correndo, continuou enfiando e tirando as patas do barro de que era feito aquele matagal, chapinhando tchóp-tchóp a cada pisada, por mais uns seis ou sete passos. O cachorro estava sem cabeça, mas continuava correndo.


Não havia mais formas de continuar, mas ele não sabia disto, e seguia correndo. Aquele dia da quermesse, e Tom estava perto o suficiente para testemunhar, Arthur conseguira o que tanto queria. Por um tempo que a ele pareceu como um bônus, sabe-se lá por que motivo, vai saber o que se passa na cabeça de meninas lindas de cabelos vermelhos, Arthur teve a boca de Melina colada na sua. O momento em que Tom não estava perto o suficiente foi a meia hora seguinte em que, no banheiro da escola, Arthur teve a mesma boca que ficara colada na de Melina alguns instantes antes, rasgada. A boca rasgada, o olho rebentado e uma orelha estourada, pelo tanto de pancada que levou do grandalhão que era uma turma acima e se achava uma espécie de namorado de Melina, ou devia ser mesmo e ninguém nunca informara Arthur, aquele garoto sem ferramentas, sobre isto. Que espécie de desejo, esperança ou força manteve aquele cachorro correndo sem cabeça durante tanto tempo assim? Que espécie de desejo, esperança ou força manteve aquele garoto correndo sem ferramentas durante tanto tempo assim? Aí estava uma pergunta que, pelo que Tom se lembrava, nunca ninguém se importara com a resposta.

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Epifania? É como chamam, certo? Aquela coisa urgente — uma descoberta, um estalo —, a imagem nítida, diriam mais urgentemente, com os lábios ressequidos por aquela saliva que escorre e se mantém assim nos cantos da boca, os místicos, são os


místicos que diriam: “a imagem nítida!”. Há uma empolgação que não entende muito, mas então é a epifania, descoberta, seja lá que droga for, mas sentiu naquele momento, tudo tão claro. Então, a epifania. Naquela tarde na loja de discos no centro da cidade, quando ouviu pela primeira o riff de guitarra tão nítido que se podia distinguir o som da palheta batendo contra as cordas. E o baixo, surgindo como um ronco suave num quarto de teto alto. Down around the corner a half a mile from here, gritou de forma estridente o sujeito que descobriu depois ser Tom Johnston, naquela introdução, aquela cama sonora. Um corte agudo que era como um intante congelado, ali — não importando o hippie suarento e sua bolsa de couro ensebada, menos olhando a capa do último de Hendrix e mais se inclinando para manjar sua bunda —, nem quatro da tarde era ainda, com o sol entrando pelo vitral mais alto da fachada, cruzando o espaço e revelando a galáxia de poeira em suspensão, um canhão de luz que parecia só existir para projetar Tacoma Music no chão de parquê e para chegar até ela, só faltava um coro de anjos, mas aquilo viria em seguida. Então aquilo era epifania: a revelação. Não porque já tivesse sensibilidade suficiente para reconhecer um arranjo perfeito quando o ouvia, e aquilo era uma música com arranjo perfeito. Não também por preguiçosamente só se entregar à soma de seja lá que multidão de hormônios que deviam estar em ebulição no seu corpo naquele momento, ignorando conscientemente tudo o que devia ter levado a banda a chegar naquela meia dúzia de acordes que eram como um prólogo para o que quer que fosse que iria conduzi-la para um lugar muito distante dali. Não, por nada disso.


Talvez por que, ali, no centro da loja, com um disco que já nem sabia qual era, em suspenso nas mãos, tudo parecia uma coisa já muito conhecida. Não só a música, mas tudo. A vida. E estava feliz por estar sozinha. A presença de suas amigas ou de quem quer que fosse provavelmente iria transformar aquele instante em nada mais do que Uau, que som é este, garota? E sabia que aquele era muito mais do que um instante Que Som É Este Garota. E tudo parecer uma coisa já muito conhecida também era, era sim, como se pudesse anteceder qual acorde viria em seguida (e isto poderia ter relação com o arranjo perfeito), mas era além. A música lhe viera, naquele instante, naquela tarde, naquela luz, porque deveria estar desprovida de qualquer distração para ouvir o coro de anjos que gritava Without love, where would you be now, without love? E foi aquilo, aquele coro masculino, mas por que aconteceu naquele preciso momento, que a fez crer, que precisava descobrir quem era aquela banda e por que sua vida parecera ter reiniciado a partir do primeiro riff de guitarra deles. Era o que precisava fazer. (Certa vez, quando era ainda bastante pequena e nem conseguia relacionar as constantes crises da mãe e suas fugas misteriosas no meio da noite a outra coisa qualquer senão uma espécie de doença que não tinham lhe dito ainda qual era, aconteceu uma tempestade violentíssima em uma vila muito próxima de onde morava. Um menino de uma rua com nome esquisito demais para que pudesse lembrar, mas com alguma idade muito próxima à sua, aparecera na televisão, em todos os jornais locais, com sua roupa muito suja e o irmão ainda bebê chorando no seu colo, os dois cobertos de lama. Ignorando todos os avisos, o menino entrara em seu barraco, que já desmoronara quase que por completo e salvou o irmão, ainda que os bombeiros e todas as


autoridades por ali lhe dissessem que não havia mais esperança de que ele estivesse vivo e nem nada. “Era o que eu precisava fazer”, o menino não cansava de repetir.) Meses depois, a epifania, como uma profecia, se fechava num click. The Doobie Brothers, dizia em preto sobre branco o grande cartaz colado por todo lugar onde se olhasse pela cidade. E reconhecera aqueles cabeludos, aqueles sujeitos que iriam tocar ali no Tacoma Dome, a apenas alguns metros de distância dos seus braços. Precisava ir naquele show. Era o que precisava fazer.

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Aquela tarde não quis ficar dentro do carro só olhando à distância aquelas garotas de saia e shorts na porta da escola lhe provocando. Podia ir até lá, podia comprar um cachorro-quente e ficar próximo o suficiente daquela menina muito alta para sentir-lhe o cheiro. Devia cheirar a morango — aquele batom, aquela coisa brilhosa nos lábios dela devia cheirar e ter gosto de morango. E sabia seus horários. A sequência de dias dentro daquele fusca, suportando aqueles gritos hediondos, aqueles berros histéricos das crianças, servira para conhecê-la: seus passos, seus gestos, o tom de sua voz quando se entusiasmava cercada de suas amigas. Ele sabia que quando a esperança chega tarde, é mau negócio. É uma coisa perigosa. Esperança é um troço para jovens. Crianças estão sempre esperançosas de que seus pais cruzem a porta com um saco de brigadeiros ou um daqueles pirulitos de framboesa. Mas a esperança em um homem adulto, esse tipo de esperança é como ácido percorrendo uma canilha plástica,


deixando uma gosma quente e mau cheirosa pelo caminho. Um travo amargo que não se tira mais da língua. Menos quando se sabe, e ele sabia, quando a esperança podia se tornar um troço real mesmo. Ele tinha certeza de que aquele sorriso que ela dirigira pra ele, aquela coisa resplandecente que refletia o sol nos seus lábios, ali, naquele esbarrão quando estava à caminho do carrinho de cachorro-quente, era o indício de algo. Uma conexão. Um troço real, um troço muito bom mesmo que aquilo podia virar.

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“Você já percebeu aquele catavento no alto do telhado do supermercado? Que ele não se move? Mesmo que um tufão passe por ali, nada vai fazer mexer aquela droga. Aquilo tá ali só pra fazer o supermercado parecer mais antigo. As pessoas gostam de antiguidade, né, não? Aquela coisa com cara de coisa do passado. Certeza de que a velharada quando vai fazer compras lá se sente melhor, como se estivesse indo a, sei lá, algum lugar tradicional. Saca? Como se estivessem comprando suas frutinhas e e seus legumes e seus peitos de frango direto do produtor e não umas bombas de agrotóxicos ensacadas, uma drogas industriais igual a tudo que tem pra vender lá e em todo lugar. Espertos estes caras, né? Tá certo que é uma esperteza diabólica, mas é o jeito como a coisa toda funciona. As pessoas gostam de ser enganadas. Eu acho. Mas tem que se abrir pra estes caras, é uma puta de uma esperteza diabólica.” Uns dois dias dias antes disso, de eles estarem ali naquela


pequena zona rural que antecedia a prainha, aquele rio que era o destino de todo casal que tivessse um carro pra se embrenhar mata adentro, Romero ligara pra ela e perguntara se não podiam se ver de novo, aquela noite fora estranha e queria um outro momento com ela que não fosse, que não parecesse tão estranho e em que pudessem falar de outras coisas, amenidades, foi isso o que ele disse antes de desligar o telefone, quando ele desligou o telefone, assim que ela terminou de sussurrar Pode ser, pode ser, sim. “Sabe, é assim que tinha que ser. Tudo devia ser assim, que nem nas séries de TV, sabe? Aquelas séries onde as meninas se casam todas e os meninos trabalham em algum negócio da família ou vão para a guerra e voltam sem problema nenhum um tempo depois e só têm que se preocupar se a cerca continua branca e se a sopa tá na sopeira e se a calha não tá entupida. Você não acha?” “Eu gostaria que fosse assim”, ela falou, apertando as pernas com os braços e fazendo os joelhos tocarem no queixo. Uma trilha de formigas parecia circundar respeitosamente a toalha vermelha em que os dois estavam sentados. Insetos voadores se demoravam nos copos plásticos atraídos pelo resto de guaraná. “Não é? Por que é que tudo não pode ser simples assim e tudo na verdade é sempre outra coisa? É como um relógio, que todo mundo acha que é pra te informar sobre o tempo, mas na verdade é pra te aprisionar no tempo. Olha aquela borboleta lá. Ela, eu acho que ainda é só uma borboleta.” “Eu não falei uma coisa pra você”, ela falou, algum tempo depois. “Sobre Poli?” “Aquela tarde no hospital, eu cheguei mais cedo do que todo mundo. Não tinha ninguém na porta do quarto, ninguém no quarto, então eu entrei.”


“Tá”, ele respondeu, compenetrado como um garoto no primeiro dia de aula. “Ela tinha ido num show naquela noite e...” “Eu vi no jornal.” “E depois disto, porque era o show que ela mais queria ver e ela estava muito feliz, ela queria ir caminhando pra casa pelo acostamento da rodovia. Mas aí apareceu um sujeito num carro e parou junto dela, oferecendo uma carona. Sabe aquele lance de parecer que você conhece uma pessoa, ou talvez você já tenho mesmo visto esta pessoa, mas só por que ela queria ser vista antes por você?” “Sei, sei.” “E então ela entrou no carro. E ela disse que sabia que tinha cometido um erro no momento em que bateu a porta do carro. Mas o que se faz numa hora dessas, depois que o cara já acelerou? Você diz olha só, mudei de ideia, e faz um cara desses ficar puto ou torce praquela energia estranha, aquela coisa estranha dentro do carro ser só coisa da sua cabeça?” “E depois disso?” “Depois disso a coisa perde o mínimo de encenação que existia antes e o cara simplesmente entra por uma estrada que não é caminho pra nada, além de mato. E ela disse que pensou em abrir a porta e saltar, mesmo que fosse se rebentar pela estrada. Ela queria ter tido a mínima chance de fazer alguma coisa, sabe? Mas é claro que o sujeito controlava a tranca da porta pelo botão dele.” “É claro.” “E depois disto o sujeito começa a falar umas coisas que tinham a ver com vê-la a bastante tempo na porta da escola... e amá-la e saber que ela poderia fazer bem pra ele... e que ia levar ela pra um lugar especial... que ela tinha que colaborar. E ela disse que


no meio disso o cara falava qualquer coisa sobre a mãe dele e ia agarrando a direção de um jeito muito bruto e nestas horas ele dava socos na direção. “Meu Deus.” “E então ele para o carro num lugar que nem a luz da rodovia mais chega, e dá a volta no carro abrindo a porta do lado dela. Aí ele fala pra ela, ainda sem tocar nela nem nada, pra ela descer e deitar no chão e cruzar as mãos atrás da cabeça. E, você imagina, ela é só uma garota e nem tenta entrar na cabeça dele, nem nada, mas começa a implorar, ela começa a implorar...” “Olha só, calma. Acho que você não prec...” “Ela começa a implorar, mas ela faz o que ele mandou. E ele não fala nada e caminha até o porta-malas do carro.” “Ela não achou que aquele era um bom momento pra tentar fugir?” “Ela diz que pensou nisso. Mas só por um ou dois segundos até conseguir olhar por baixo do braço e descobrir o que era o som de metal se batendo nas mãos do sujeito caminhando pelo cascalho na direção dela, depois que ele fechou o porta-malas.” “O que era?” “Numa mão, uma corrente. Uma corrente com um gancho na ponta.” “E na outra mão?” “Um maçarico.” “Caralho! Como é que esta garota, a Poli...” Alguém gritou no meio da mata e os dois ouviram o splash de um mergulho no rio, seguido de risadas dos garotos e garotas ali perto. “Sabe”, ele falou, “eu acho que existem umas coisas tão fortes que não pode nem ser ditas, que é muito forte ter que


conhecer, ou só imaginar. Pensa então em ter que viver uma coisa dessas. Não se tem pra onde escapar depois disso.” Ela balançou a cabeça olhando a borboleta que ainda era só uma borboleta cruzando o ar muito próximo deles. “Sabe, Romero, essa história é uma daquelas histórias tão escabrosas, uma coisa que se você contar para você mesmo vai parecer só como uma lembrança, uma coisa que você viu num filme, escutou numa música. Sabe, um troço que você nem lembra como soube e que nem dá muita bola, mesmo, você não tem nada a ver com aquilo. Vai virar um troço assim: uma história que a gente vai contar anos depois, tão cheia de lembranças falsas que vai ser como contar pra alguém a história de um filme, ou, sei lá, a letra de uma música.”


Territorial pissings Picadeiro de urina Paulino Júnior

Tem gente que nasce pra fazer o som e gente que nasce pra ouvir. Eu me contento em ouvir. Embora já tenha feito. Faz tempo, na época em que eu tinha uma camiseta igual a do Kurt Cobain na foto de uma revista com a letra traduzida de Territorial Pissings. Quase ninguém se ligava na ilustre sósia que virou o meu uniforme, mas eu não apenas a vestia, eu a carregava feito um patuá. Um rolê com ela e eu já não pertencia mais ao mundo ordinário. Quer dizer, eu continuava nele, mas com o encanto de resistir, como se fechasse o corpo e fosse transportado para um videoclipe. Isso foi quando eu era um Alienígena — literal e metafórico — e sequer existia Internet. Demorei quase dois anos entre ouvir falar em Sex Pistols e ouvir Sex Pistols. Conheci Ramones pelo Mondo Bizarro num K7 que o camelô trouxe do Paraguai. Perguntei se não conseguia mais de som pesado e ele arranjou o Black do Metallica, o Arise do Sepultura, e o Nevermind. Essa era toda minha coleção (mais uma coletânea do Raul Seixas) quando eu tinha 13, 14


anos. Morava com minha mãe no conjunto habitacional e trampava numa firma de instalação de campainhas e alarmes. Aprendi a tocar violão na igreja. O professor voluntário conhecia alguma coisa e me deu uns toques na formação de acordes, além de me vender uma guitarra Jennifer no bagaço. Juntei um pedaço do salário com uma graninha que descolei e deu pra comprar um pedal de distorção de segunda mão. Acabei trombando com um cara que estudava à noite também, que fazia um barulho na bateria, que conhecia outro que tinha baixo, mas não sabiam tocar direito e... Foda-se! Eu puxava um dó-ré-mi sujão e nós, Os Alienígenas, tacávamos o terror. “Gotta find a way, a better way, I’d better wait, gotta find a way…” A necessidade é a mãe das invenções, não é? E eu tinha muitas necessidades e recursos próximos ao zero. Escrevi algumas letras num inglês que aprendi com os encartes dos discos e nas revistas de música que eu folheava nas bancas. Daí eu pedia pro professor do colégio revisar e mandava bala. Quatro canções depois e comecei a viajar que a banda pudesse fazer algum sucesso. Sei lá, querendo ou não, a gente acaba caindo nesse papo de acreditar nos sonhos, ter o talento descoberto, receber propostas. Ainda mais quando a gente tem como ídolo um cara que veio de baixo, quebrado de grana e filho de pais separados. Coisas assim, que faz a gente se identificar e achar que pode ter uma trajetória de ídolo também. “Tenho que encontrar um caminho, um caminho melhor, melhor esperar, tenho que encontrar um caminho...” Encontrei há pouco tempo na Vicious – a loja especializada em som aqui da cidade – o ex-guitarrista de uma banda de heavy


metal que fez sucesso relativo nos anos 90. Ele tava de passagem, participando de um curso de capacitação, trajava social e cabelo aparadinho. Foi ele que se apresentou: “Pode não parecer, mas eu toquei...” Então os frequentadores mais velhos da loja (eu incluso) reconheceram o sujeito. Ele se gabou de que o emprego numa grande empresa lhe proporcionava vantagens que a vida musical dificilmente daria. Comprou quase uma dúzia de camisetas e uma pilha de cds e vinis. Vários títulos de gosto duvidoso no meio, mas que combinavam com o tipo que se esforçava pra passar a impressão de que não levava as coisas muito a sério e que se dava ao luxo de consumir e descartar facilmente. Um emprego financeiramente invejável e um hobby que concedesse a sutil ilusão de sentido na vida, a combinação que parecia formar o segredo simples da felicidade do metaleiro. Sei bem que o tempo passa e aplica golpes que nos deixam mais duros de um lado e nos amolecem de outro. Então chega o momento de constituir aquilo que a gente tinha convicção ao taxar de “instituição falida”. Se a gente tenta negar completamente o mundo que vive, dá murro em ponta de faca; se a gente se rende, beija a lona. O meio termo poderia ser uma boa estratégia, mas qual seria a linha da cintura entre o meio humano/meio alienígena? Hoje me sinto bem no meu tranquilo anonimato. Aliás, faço o máximo pra ser notado o mínimo possível a partir do momento em que visto o colete preto com a designação em amarelo nas costas: Segurança. Quem trabalha com gente precisa ter cautela e discrição. Disponibilizo meus serviços para clubes, casas noturnas, bailes, comícios, salões de festa, feiras comerciais e demais eventos que geralmente reúne e mistura todo tipo de gente. Portanto, em vez de ceder à vontade de descer o braço em uns tipos folgados, trato no carisma: “Vamos lá pessoal, sorriem para seu irmão. Todo


mundo junto. Tentem amar uns aos outros. Agora!” Não tenho quem garanta minha segurança depois do expediente. Sou eu por mim no sentido mais implacável do ‘faça você mesmo’. Terminou a festa, me misturo a todo mundo. Saio e sou cumprimentado por quem não tenho a menor ideia: “E aí, segurança, firmeza!?” Aceno com um cumprimento amistoso qualquer e sigo pra tocar a vida com mulher e filho pequeno pra criar. Teve época, inclusive, em que eu saía de um evento e ia pra outro direto, sem descansar, da noite para o dia, de uma whiskeria para um congresso religioso, aqui, ali, acolá... Foi numa dessas que minha mulher quase me dá as contas. A treta tem a ver com uma bombeira militar que fazia uns bicos de segurança também. Vez ou outra a gente trabalhava junto e um dia ela chegou fardada e eu fiz uma brincadeirinha sobre botas, cinturão, algemas... A bombeira deu corda e eu peguei. Eu não tinha tempo nem pra mijar e ainda fui arrumar um caso extraconjugal. De fato, nunca conheci um sábio que fosse homem. Pior é que a bombeira quis marcar posição e começou a bancar a namoradinha, com mensagens e ligações fora de hora. Ficou difícil apagar o incêndio e a casa caiu. Por que o amor e o sexo precisam ser tão complicados? Meu pai fodeu minha mãe e deu no pé, deixando uma cria pra trás. Eu posso comer qualquer mulher que não muda o que sinto pela minha. Os homens passam a adolescência inteira babando e sendo esnobado pela mulherada; quando chega a vez delas caírem de pernas abertas em nosso colo, estamos em um relacionamento sério demais para aproveitar sem culpa. Mulheres mentem quando afirmam que desejam diversão e não estão pensando em compromisso... Só sei que assumi o prejuízo e ainda saí no lucro por não ter


levado um pé na bunda. “Escuta aqui, seu filho da puta...” E abaixei a cabeça como uma criança que faz arte, aguentando o desabafo sobre troca de lugares e perda da confiança. Por fim, balancei a cabeça e chorei. Eu andava alucinado, tomando uns remedinhos que circulam entre o pessoal para trabalhar feito louco, e não pensava em nada além do pau em riste e uma paixãozinha que dava uma pitada de sabor pra vida. O filho veio logo depois da confusão, numa decisão nossa. Embora eu o tenha rejeitado instintivamente no começo e me arrependo de tê-lo trazido ao mundo principalmente nas ocasiões em que fica doente e atacado da bronquite — transformando minha vida num purgatório —, recorro com frequência à lembrança do dia em que nasceu. Paguei o adicional que o plano de saúde não cobre e pude acompanhar o parto. Assim que o bichinho foi retirado do conforto e segurança das entranhas maternas e posto no aparelho que restabelece a temperatura, ele parou de chorar e atacou com uma tremenda mijada territorial. O pinto feito chafariz. É isso!, pensei. Uns nascem pra fazer e outros pra manter, o importante é não deixar a bola cair. Dentro do mundo há o nosso mundo, que precisa ser demarcado, onde se atua mesmo quando encenamos papéis sociais inevitáveis. Dá pra entender aonde quero chegar? É necessário encontrar nosso caminho. Não escolhi estar aqui, mas vou mijar ao meu redor e montar o meu picadeiro de urina. Não sei se me faltou dom pra música, mas a natureza foi generosa com meu porte físico. Graças a isso, e ao meu jogo de cintura, encho o estômago da minha família e sustento fantasias. Aliás, também uso terno e gravata na minha atividade e é comum encontrar uns malucos que são músicos e fazem um som, mas precisam tocar em bandinhas de baile e formatura pra pagar as contas. Sempre tiro um sarro deles: “Ei, manda um Seasons in the


Abyss ou Holiday in Cambodia pra agitar a galera”. A gente era muito jovem e eu era o Cobain com meus gritos e sussurros, de calça jeans, camiseta e Jennifer estropiadas. Guardei a passagem de ônibus da primeira vez em que tocamos fora da cidade sem colocar a mão no bolso. Não teve cachê, mas teve passagem de ida e volta, rango, e pernoite em colchão encardido num ginásio de esporte. Nem sei onde foi parar a recordação com data e horário de embarque, que guardei na esperança de que um dia pudesse mostrar em uma entrevista. E quando Os Alienígenas pensaram que fossem tocar em lugares diferentes e decolar, fiquei sem emprego. Deduraram que peguei dinheiro no caixa da firma e o pior é que chegou ao ouvido da minha mãe. Eu morava debaixo de seu teto, ela que me educava, então eu tive que abaixar a crista, dar um tempo de tudo e arranjar outro trampo. Sem dinheiro, sem sorte e, quem sabe, sem talento... Depois disso, brochei. Sempre que bebo um pouco mais e entro em crises de melancolia, mando um Nevermind pra cabeça. Tenho lembranças anárquicas para o bem e para o mal. Mas ouço em outras ocasiões também. Ontem, assim que entramos no carro, notei que minha mulher havia vestido nosso filhote com uma camiseta listrada que lembrava a do Kurt, girei a chave na ignição e automaticamente o toca-CD retomou a faixa que tocava na véspera, abaixei um pouco o volume e seguimos pra emergência pediátrica ao som de Territorial Pissings — “Gotta find a way…” —, a mais punk do disco.


Drain you drenar, transitivo direto Patricia Galelli

encontrei você na boca. ensaiei uma biografia ideal para me apresentar, mas meu discurso, como um traidor, também me biografa. a primeira vez que te vi, você posava com cara de tonto ao lado de uma lápide. eu imaginei tanta coisa desde aquela fotografia, mas o que eu queria era desvendar você. o máximo que consegui foi criar uma pequena obsessão que dizia “esse é o cara, esse é o cara, esse é o cara”e isso não parava. a anemia do tempo deixava uma coleção de bulas pela casa, o tempo era fraco demais para suportar o encontro, eu supunha, e subtraía todas as minhas experiências com você. eu criei tempos lentos, ainda que mais radicais, para estar junto cada vez que você me faltava. eu fecho os olhos, como se a insônia não fosse minha única relação com as pessoas, e a estrutura que aporta nosso tempo-quecrio se abre. a partir dessa brecha, vetorizo teu corpo com a ponta


da língua; no correr desse escâner eu transformo cada pedaço de ti em representação numérica. decifro a volta do teu pescoço, o fim dos teus dedos, a curva da tua orelha, a tua nuca; um ponto atrás do outro, calculo com exatidão o teu prazer. a localização exata do nosso encontro. sempre fiz isso. eu dreno tua dor pela garganta e meu esôfago escoa tua infecção para dentro; me acordei com o cheiro horrível que isso deixou na minha pele. você me mandou ir à merda e ontem acordei amortecido, esse cheiro me converteu em feto abortado. fui à merda, fui, ainda estou com gosto de cu na boca. dei um nó no tubo, fiquei remoendo o meu esôfago. eu vomitei meu esôfago e depois engoli de volta. “esse é o cara”. te vomitei e também os cálculos que fiz pra amar você. chegava devagar, na cadeira de rodas. você estava velho, a barriga era enorme e nitidamente eu via quase todo o couro cabeludo. era frágil, te empurravam, mas estava sozinho; você doía. apertei as pálpebras, porque também me doía te ver, mas você não fazia ideia que eu existisse. quando te serviram, muito lentamente botou alguma coisa na boca; mastigou com nojo, e eu vi teus dentes podres a ponto de caírem. você estava tão feio, tão feio. eu olhava de longe, via a barriga enorme, cabelos brancos, você desprendendo a cabeça, a cadeira de rodas com reforço pra dar conta de você. estava ridículo, a camisa úmida do suor doente, as meias por cima das calças para vedar o vento, tua barba com rastros de baba. estava


ridículo e eu senti tanto amor por você. senti pavor de pensar que você morreria. você, que gostava de observar todo mundo, agora perdido, olhando o prato, à procura da vida ali naquele arroz. e fiquei pensando que talvez você tenha levado partes de mim, que talvez estivesse escondida muita coisa da minha alma na tua barriga. o teu jeito de fazer as coisas. você torce minha coluna, você calcula pela razão oposta ao prazer a maneira mais trágica pra eu gostar de você. e depois some, rato de gaveta que não passa em nenhuma fresta. um pesadelo atrás do outro. então você aparece, me dá um puta susto e eu tremo, tremo; fico tremendo, epilético, enfiado num interruptor — 220 volts de ódio de você. sabe, o músculo que se contrai não se dá conta de onde vem o impulso nervoso que desencadeia o potencial de ação, ele se contrai. simplesmente se contrai. mas uma cadeira em que falta um braço, um barco sem o remo, um trampolim que não tem sistema de suspensão, essas coisas não se dão conta da falta de suas partes e, no entanto, não saberiam também se fossem completas. posso vetorizar coisas, consertar ou melhorar elas, mas não posso transformar em vetor o movimento do músculo, o sódio que entra ou o potássio que sai das células. apesar de saber disso, insisto. eu afundo na intenção de reprojetar tudo o que é você e o que vem de você. não aceito outros projetos, porque estou sobrecarregado, você me dá muito trabalho, viu. o que se faz depois do ódio? encontrei você no estômago. desintegro teu corpo com um pouco de ácido clorídrico; no correr desse escâner eu esterilizo cada pedaço de ti para só então te absorver de novo. mas não dá, eu não posso. isso não sai desse tom porque nunca fiz nada extraordinário na vida a ponto de conseguir tomar uma decisão enérgica, de fazer alguma coisa que não seja clichê ou de causar a reviravolta nessa


história. de qualquer maneira, obrigado por ter vindo, lindo. vi que você gostou do vinho, que bom - e caiu drenado. “era o cara”.


Lounge act µ Flavio Torres

Ela posiciona, com cuidado, os castiçais de prata sobre a toalha de linho branca que acabara de estender sobre a mesa de oito lugares. Mandara engomar a toalha que fora usada poucas vezes desde o casamento, o cheiro de guardado fora embora. Os castiçais trazem velas de cores claras e uniformes, sem perfume, para não irritar o olfato do marido. A mulher as acende, para se certificar de que não há qualquer problema com elas. Apaga-as em seguida, o fino rastro de fumaça se dissipando no ar. Do fundo do armário da sala, retira dois suplás, também de prata, e os coloca na mesa. Pela primeira vez desde que o filho mais velho nasceu, ela não vai sentar-se em frente ao marido. Dispõe os pratos de modo a ficar à direita dele, lugar este que há mais de vinte anos é ocupado pela filha. O marido sempre sentou-se de frente para ela; ele, na cabeceira esquerda; ela, na direita. A mulher abre a porta da cozinha, e o cheiro do jantar


invade a sala. Ensopado de vitela, receita italiana. É muito fácil de fazer, disse a amiga quando lhe entregou o livro com a receita e lhe indicou onde comprar os ingredientes. Ela caminha até o fogão e prova o caldo que, aos poucos, engrossa. Sorri. Abaixa a chama do fogo, tampa a panela. Agacha-se; no forno, uma torta de amora cresce dourada-vermelha e espalha pelo ar um cheiro quente e doce. A mulher olha no relógio, pouco mais de meia hora. Tem que dar tempo, pensa, enquanto lava um punhado das amoras frescas que comprou na feira. Reserva as frutas para depois, quando fosse adornar o prato, a chave de ouro do jantar especial. Abre a geladeira e pega o pote de aspargos. Com cuidado para não estragar as unhas feitas naquela manhã, abre-o. Retira, com o garfo do faqueiro ganho no casamento, alguns aspargos e os dispõe de forma organizada em uma travessa, à espera da vitela que em breve sairia do fogo. Ainda olha as unhas e se certifica de que elas brilham discretamente. Nada muito chamativo, para não desagradar o marido. Com rapidez, sai da cozinha e sobre as escadas até o quarto. Abre o closet e retira dali um vestido azul, pouco acima dos joelhos. Corta a pequena haste plástica que prende a etiqueta e ajeita alguns poucos fios de cabelo que, escorrendo pela nuca até quase a altura dos ombros descobertos, tentam fugir do penteado feito no mesmo salão onde fez as unhas. Quando sai do quarto, ouve o barulho da porta de casa se fechando. Calça os sapatos de salto não muito alto e caminha até a escada, oi, querido, tudo bem? O marido responde um ruído. Estou com fome, prossegue. O que tinha para jantar? A mulher sugere que ele tome um banho primeiro, já estou


terminando de aprontar tudo. Até você terminar, a janta estará servida. O homem sobe as escadas de cabeça baixa e cruza pela mulher, que sorri. Entra no quarto e fecha a porta atrás de si, deixando por onde passou um odor doce-suave. Ela baixa a cabeça. Ela desce, serve os pratos do jantar em baixelas e as leva até a mesa. Quando termina de trazer a vitela, o marido desce as escadas, samba canção, meias e chinelos de dedo, a barriga apertada dentro da camiseta regata branca. Ele toma o seu lugar quando a mesa já está totalmente posta. O marido começa a comer, os olhos parados no prato. Mastiga, toma um gole de vinho tinto, gran reserva, guardado na adega há pelo menos sete anos. Os olhos então se levantam e atravessam a chama das velas e ignoram a brancura do linho da toalha e alcançam o quadro na parede, que quadro é esse? Como?, ela sorria, mastigando devagar a comida, cada porção calculada com cuidado. Que quadro era aquele que o marido nunca vira? Ela então se volta para o quadro, querido, esse foi presente do teu pai. Está na parede há pelo menos uns quinze anos, ela teve vontade de completar. Sempre esteve atrás dela na mesa de jantar. Na pintura, um barco de lado começa a afundar, jogando ao mar seus tripulantes. Quem compra uma pintura dessas?, ele pergunta. Que coisa mais idiota. Ela sorri, passeando os olhos entre seu prato e o olhar perdido do marido, seu pai estava bem intencionado, o quadro é bonito. E completa, me passa o sal, por favor? Cada um sempre utilizou o seu saleiro, um em cada extremidade da extensa mesa. Hoje o saleiro está do lado esquerdo do marido, ao alcance de sua mão esquerda.


Em silêncio, ele pega o saleiro, os olhos ainda fixos na pintura trágica, os náufragos mergulhando em águas geladas. Teriam eles sobrevivido ao naufrágio? Estende o sal à esposa sem desviar o olhar do quadro. Ela estica o braço e roça a sua mão esquerda na mão direita do marido, a grossa aliança de ouro pesando em seu dedo, o contato leve e quase obsceno de sua pele com a pele do marido, um tremor percorrendo suas costas até a nuca. Com a mão trêmula, a mulher mexe os dedos, na tentativa de prolongar aquela interação. O ar preso nos pulmões. O marido recolhe a mão. A mulher fica com a mão esquerda suspensa ainda por alguns momentos, observando o marido engolindo sua comida com a mesma rapidez com que os náufragos do quadro se afogam naquelas águas escuras. Está boa a comida?, pergunta. Ele move a cabeça no que parece ser uma afirmação. Toma pouco menos de meia taça de vinho em um só gole. Ela retira do colo o guardanapo de pano e seca, com força, os lábios que já não sorriem. O batom de um rosa bem claro se espalha como um borrão pelo guardanapo, e a mulher se levanta, vou pegar a sobremesa, diz. O marido não responde, afogando-se cada vez mais naquele quadro na parede. A mulher entra na cozinha e verifica que a torta está pronta. Ao invés de desligar o forno, aumenta a sua temperatura e observa quando a chama se eleva e castiga a delicada crosta da sobremesa pensada com tanto cuidado. Na sala, tem a impressão de que o celular do marido vibra. Abre a tampa da pequena lixeira que fica sobre a pia, joga as amoras frescas e lavadas lá dentro e caminha em direção à sala, mais uns dez minutos e a sobremesa está pronta, amor, diz ao marido, a


voz sem qualquer delicadeza.


Stay away Proibido mentir Anderson Fonseca

Era uma vez um cara muito legal que usava umas roupas legais e falava coisas sem sentido e que um dia se deu muito, muito mal. Uns caras ruins, tipo vilões de quadrinhos, pegaram o cara legal, o acorrentaram, julgaram e o condenaram à reinicialização. Agora o cara legal tá murphy, e quando alguém tá murphy em 2083, tá encurralado. O cara legal chamava-se Bob Fischer. Alto, ruivo, cabelo ralo, boca Silvester Stallone e andar chapliniano, sem ginga, um cara que, apesar disso, tinha um soco estilo Tyson, de afundar o queixo. Bob era escritor, optou aos 22 e ficou assim, heisemberguiano; claro, tinha seus momentos clássicos de lucidez, mas não escapava desse estado que proporcionava instantes de puro frenesi. Nessas horas ele e a rapaziada ficavam felinistas, e contavam histórias pra lá de loucas. Também depois de tomarem uma dose de souvenir, qualquer um cai nas graças de Orpheu. Em 2083 todos os jovens bebem souvenir, uma neuro-droga que projeta na consciência do usuário as memórias de pessoas


mortas. É proibido, mas os hackers conseguem invadir as bibliotecas mnemônicas e roubar. O mercado é vasto. Você escolhe: dor, felicidade, sexo, infância, velhice, até sonhos. Mas essas são as drogas baratas, as caras são as memórias reprimidas, sentimentos que os conectados não compartilham na neuro-rede. Pra obter você tem que conectar-se ao olho e oferecer conhecimento, em troca do valor da informação, o olho se abre e você escolhe a memória. É como navegar em balsas flutuantes acima das nuvens contemplando pequenas esferas coloridas e, ao tocá-las com as pontas dos dedos, vê-las estourarem em milhares de luzes, e, então, banhar-se delas. Bob era bom, era um savant em número de livros mnemônicos, e, quando não os queria oferecer, doava alguma história que ele mesmo criou. Bob era um cara das antigas, uma olivetti 1982 que não se abriu à coletividade, rejeitou a I.A. e a neuro-rede. Só quando tava a fim de um souvenir ou falar com a Nancy, ele partilhava. Quem não participa da coletividade é um niilista. Ninguém o conhece, nem sabe o seu nome. Para o governo os niilistas são uma ameaça, pois não podem ser monitorados. Bob só partilhava sua consciência quando bem entendia, e nesses minutos que ficava não apresentava sentimentos, apenas pensamentos coerentes, porque duas horas antes, ele havia memorizado um texto e esvaziado os sentimentos no caderno. Quando entrava na neuro-rede não tinha nada a partilhar senão um texto gravado. Assim, não havia como o governo vasculhar sua consciência na busca de informações. Os niilistas viviam para o esquecimento. Para caras legais como Fischer, isso não era bom. Uma hora tudo fica murphy. A Coletividade, como ficou conhecida a consciência coletiva gerada pela neuro-rede, permitiu a todos conectarem suas mentes umas as outras em rede global. Uma avalanche de emoções, sentimentos e ideias invadiu a todos, era, a partir de então, impossível não sentir o que o outro sente e saber o que o outro sabe. Iniciou-se com isso a Era do Conhecimento. Mas esta Era não somente permitiu a unificação das consciências, como também, reprimiu o instinto humano, daí pra frente, não era mais possível


mentir, trair, fantasiar, enganar, desejar, fingir, sem que todos tivessem conhecimento. O governo para garantir a segurança universal criou o Programa de Monitoramento da Neuro-rede (PMN), uma instituição formada por vigilantes da consciência, dessa forma, qualquer pensamento era monitorado. Após a criação do PMN, o índice de violência começou a cair até desaparecer. Quando um homem intentava matar alguém a policia o prendia porque a PMN conhecia seus pensamentos. Não houve mais mortes, nem dor, nem perda, uma felicidade jamais vista na história do homem, de repente, aconteceu. É aí que o cara legal entra... O cara legal estava com os dedos enterrados na máquina de escrever datilografando esse roteiro: Guilherme dizia todos os dias à sua esposa que ia trabalhar, mas não era verdade. Ele subia as escadas do prédio ao lado e, atrás das janelas com um telescópio, a vigiava. Um dia, assiste a sua mulher deitar-se com outro homem. Ele decide se vingar e planeja detalhadamente como irá matar sua esposa. Freneticamente Bob teclava cada letra num impulso joyceano, e, possuído pela imagem da mulher sendo morta, ensaiava cada golpe, cada grito, e simulava a mesma vontade de Guilherme em matá-la. Mas... o cara legal estava out, tão fora de si, que não percebeu que estava partilhando. Para Bob, ele estava matando uma personagem, mas aos olhos da PMN, estava cometendo um homicídio. Agora o cara legal é preso, a ação é rápida, dois policiais arrombam a porta e o prendem. Surpresa: Nenhuma mulher. Mesmo assim, Bob é levado até o tribunal. Acusação: Intenção de matar. Diante do juiz, Bob escuta a sentença: — Senhor Bob Fischer, está aqui acusado de intentar matar Maria Rosário. Enquanto partilhava na Coletividade, a PMN verificou a intensidade de suas emoções e foi sentido o grau de sua agressividade. A principio, considerou-se que o senhor estivesse a


matando no exato momento em que partilhava, no entanto, os policiais que o prenderam afirmam não terem encontrado a vítima. Por isso, sr. Bob Fischer, estás sendo condenado à reinicialização. O governo não aceita nenhum pensamento que fira os direitos civis. O que tem a dizer em sua defesa? — Meritíssimo, tenho 25 anos e sou escritor. Admito ter errado por participar da Coletividade no momento em que mergulhava em minhas emoções. Mas não se trata de uma intenção real, e sim, de uma ficção. Estava escrevendo uma história e, no instante em que meu personagem deseja vingar-se de sua esposa, Maria Rosário, escolhi viver intensamente suas emoções para tornar o ato verossímil. Acredita mesmo que na consciência partilhada seja possível a coletividade distinguir o real do fictício? — Está, acaso, kantiano, sr. Fischer? Questiona o poder do governo em separar a mentira da verdade? Meça suas palavras! — Não, Meritíssimo. Nem kantiano nem baudelairiano, diria, com todas as afirmativas, que estou um tanto nietzsche, hoje. Um pouco out, um pouco down, e um tanto other side. O senhor crê que a ficção seja distinguível da realidade dentro da experiência consciente? Quando sonhamos sentimos o sonho como sendo real. Quando criamos uma experiência subjetiva como a ficção, não seria a sensação que ela provoca uma experiência também real? — O que o senhor quer dizer com isso? Que nossos julgamentos são errados? A mente, sr. Fischer, é capaz de distinguir o real do sonho quando está desperta, e nós, do governo, sabemos disso. E ninguém nesse mundo sonha qualquer sonho, justamente para não afetar a coletividade. Todos os sonhos são controlados por empresas contratadas. — Mas naquele momento em que eu imaginava a cena do assassinato de Maria Rosário, tornei-a real em meu consciente. Eu a vi, eu a matei. Eu era meu personagem, não um homicida objetivo. É injusto. — Isso não importa. Mesmo que esteja certo, você ignorou um grave erro. Enquanto mergulhava em sua ficção, seus sentimentos invadiram a rede afetando outras consciências, alguma


delas sentiu suas emoções e desejou, como você, matar Rosário. Quem sabe se esta intencionalidade não se torne real? Quem sabe se sua ficção saia do papel e ganhe as páginas dos jornais? O senhor não cometeu nenhum crime, talvez, mas induziu outros a cometêlo. Na coletividade, sr. Bob Fischer, não se partilham mentiras, mas a verdade. Aí está seu erro. — A arte está erguida sobre os pilares da mentira. E vocês a querem destruir? Só por que imaginei uma história enquanto estava conectado, só porque me embebi le monde fantastique de la fiction? — A mentira foi banida da Coletividade! Levem-no daqui! — Prefiro morrer a ser um cool. O cara legal foi carregado pelos vilões, homens vestidos de preto como nas histórias do morcego, usando máscaras mortuárias e luvas de algodão. Numa sala pequena levou a baita de uma surra, apanhou feito maricón. Quando estava ficando desfigurado, o policial mandou parar. Depois, sem as roupas legais e usando no lugar delas roupas chatas e feias, tipo brancas com o emblema do governo e uma sequência de números sinistros atrás e acima delas seu nome em letras maiúsculas, ele foi levado até uma sala branca meio azulada com um teto espelhado, cercado por homens e mulheres com gorros, luvas e máscaras cinzas, deitado em uma cama de aço, amarrado pelos pulsos aos braços da cama para ali esperar pela reinicialização. Então chegou um mascarado e falou através do tecido, ele disse coisas confusas, fez uns gestos estranhos, e depois de passar a mão entre os fios dos cabelos de Bob, disse com uma voz maviosa — como embalada por uma canção de Simons & Gurfunkel —, que era chegada a hora. Levantaram com delicadeza a cabeça de Bob, a colocaram por cima de uma pequena almofada com estampas de gatinhos, e rasparam os cabelos. Aí uma mulher foi até o outro lado da sala e pegou uma touca repleta de pontinhos, e quando voltou colocou na cabeça de Fischer. Ela também disse umas palavras confusas, e então colocou em cada pontinho um fio ligado a uma imensa máquina cheia de pontos brilhantes multicoloridos e que emitiam sons parecidos com música eletrônica. Até então, o cara legal estava out. Aí, aconteceu o


inesperado, um nipster entrou pisando algodões, carregando na mão direita um pequeno aparelho; aproximou-se de Bob Fischer, e sem nada dizer, sem nenhuma palavra que oferecesse significado ao fim da história do cara legal, somente num silêncio abissal que provoca agonia, apertou o botão. Aí a mente de Bob foi apagada.


On a plain Suco de beterraba Rafael Sperling

Kurt Cobain está em um programa televisivo infantil. Ao seu lado está a apresentadora, que sorri bastante e diz como Kurt Cobain é uma lenda viva do rock, que costumava ouvir muito seus discos quando criança e que pede para Kurt Cobain ser aplaudido a cada trinta segundos. Ele está no auge de sua carreira musical (seu sonho real era ser astronauta) e está participando de um programa em sua homenagem. Neste programa, participam crianças-prodígio que interpretam seus maiores sucessos (Kurt Cobain odeia essas músicas) com exibições vocais no melhor estilo gospel-americano, contando com arranjos que fazem releituras das canções em diversos estilos, do pop ao folk, do romântico ao funk carioca. As crianças entram para cantar, e, antes de se dirigirem ao centro do palco, caminham com lágrimas nos olhos até Kurt Cobain para pedir a sua bênção. Kurt Cobain tenta esconder a sua decepção da melhor forma possível e sorri para as crianças, que se afastam e


começam as apresentações. Nos intervalos das apresentações infantis, num telão, são exibidos depoimentos de pessoas próximas a Kurt Cobain, pessoas com quem ele trabalhou, ou simplesmente algum fã chorando, contando sobre o dia em que conseguiu ver Kurt Cobain ao vivo, após passar 15 horas seguidas em frente ao hotel em que ele se hospedava, ou então sobre como teve de derrubar diversas pessoas no chão para pegar a palheta de guitarra que Kurt Cobain jogou para a platéia. Quando a apresentadora anuncia que a próxima criança interpretará On a Plain, com um arranjo de axé-sinfônico, Kurt Cobain interrompe sua partida de Candy Crush e levanta furioso: “Ela não pode cantar isso. É uma péssima canção”. “Mas é uma canção adorada por seus fãs, não é mesmo gente?” (A platéia grita e aplaude). Kurt Cobain diz que é uma de suas piores composições e que só foi incluída em Nevermind para completar o número de faixas estipuladas pelo contrato da gravadora. O diretor do programa aparece, empurra a criança até o centro do palco e a música começa. Segurando uma arma, Kurt Cobain avança com a intenção de matar a criança. A polícia invade o palco acompanhada de um urso melancólico. O urso diz que sobrevive fabricando suco de beterraba e que foi molestado por Kurt Cobain. Kurt Cobain diz que na verdade não tinha a intenção de molestar o urso. O urso diz que na verdade não foi molestado por Kurt Cobain, mas que era possível notar a intenção em seu olhar. Kurt Cobain diz que na verdade tinha a intenção de molestá-lo, mas que preferiu não fazêlo porque o urso fabrica seu suco de beterraba favorito. O urso diz que na verdade queria ser molestado por Kurt Cobain, para assim ganhar uma indenização milionária e não precisar mais fabricar


suco de beterraba. Kurt Cobain diz que na verdade não molestou o urso justamente para não ter de pagar uma indenização milionária, o que faria o urso parar de fabricar suco de beterraba, que é o seu favorito. O urso diz que na verdade sabia que seu suco de beterraba era o favorito de Kurt Cobain e que justamente isso o atrairia para molestá-lo. Kurt Cobain diz que sabia que o urso sabia que o suco de beterraba era o seu favorito e que justamente por isso tentaria o atrair para molestá-lo, para assim ganhar uma indenização milionária e não ter mais que viver de fabricar suco de beterraba. “Urso, você está preso”, grita um policial. Kurt Cobain levanta a arma e dispara. O policial cai morto e Kurt Cobain segura a mão do urso, dizendo “Venha comigo”. Sob uma salva de palmas das crianças e da equipe do programa, eles saem do palco voando em um arco-íris e destroem o teto do estúdio. Kurt Cobain e o urso viajam ao Himalaia para realizar uma segunda viagem, mais profunda e verdadeira: a do autodescobrimento. Durante a viagem, Kurt Cobain molesta o urso, que pede na justiça uma indenização milionária. Com a indenização milionária, o urso não precisa mais sobreviver fabricando suco de beterraba. Kurt Cobain não suporta não ter mais seu suco de beterraba favorito e se suicida.


Something in the way Eles não têm sentimentos Daniel Osiecki

Underneath the bridge The tarp has sprung a leak And the animals I've trapped All become my pets And I give them enough of grass And the drippings from my ceiling It's ok to eat fish 'Cause they don't have any feelings. Something in the way – Nirvana

O guri mais velho já teria comido os bichos há muito tempo. Pelo menos os peixes. O mais novo levou tempo para se decidir sobre o futuro, sobre o que de fato iria fazer. A chuva não parava de cair. Seus pais haviam avisado que em Curitiba chovia muito, mas não deram ouvidos. Tinham emprego garantido na fábrica. Os dois. Logo o mais velho foi pra rua. Meses depois o mais novo também.


Quando se encontravam à noite, no quarto que dividiam na pensão, o mais velho falava sobre as maravilhas daquelas pedrinhas mágicas. E o melhor de tudo é que eram fáceis de conseguir. Um vizinho trazia na porta. Logo o mais novo também descobriu os prazeres das pedrinhas mágicas e passavam horas, noites, dias acordados em seus embates pessoais. Venderam os poucos objetos que tinham trazido na viagem. Um televisor, um micro-ondas, um rádio portátil e a bicicleta que ambos usavam. Por algum motivo o mais novo trouxe um pequeno aquário no qual havia dois peixes, um branco e um vermelho. O mais velho tinha um gato. Não trouxe na viagem, ele simplesmente apareceu uma noite na janela do quarto. A dona da pensão, matrona, velha, repugnante, passou a cobrar os aluguéis atrasados que há algumas semanas os dois irmãos não pagavam. Pagamos amanhã. Amanhã é o caralho, é hoje ou rua. Ofereceram a TV. Eu já tenho uma TV, porra, e é melhor que essa merda. Ofereceram o micro-ondas. Lixo! Não funciona direito. Ofereceram a bicicleta. Tudo bem! Dá pra uma semana. Depois só grana, ou rua. E, lembrem-se, são três semanas que me devem. Ou pagam ou vão pra puta que pariu! Na semana seguinte os dois estavam na rua, sem dinheiro e sem ter pra onde ir. O mais velho carregava o gato no colo e nenhuma bagagem. O mais novo carregava o aquário com os dois peixes e três pedrinhas mágicas no bolso. Entraram no Passeio Público e se abrigaram debaixo da ponte. O mais novo foi procurar latas vazias para desfrutarem daquelas pedrinhas mágicas que fazem os problemas desaparecerem. Ao menos por alguns minutos. O mais velho, que havia há pouco usado suas últimas pedrinhas mágicas, olhava fixo algum ponto do lago. Não conseguia identificar ao certo o que via, mas não gostava do que estava vendo. Chamou pelo irmão. Nada. Chamou novamente pelo irmão. Nada. Levantou-se e foi procurar pelo irmão que estava demorando para


voltar. O encontrou sentado debaixo de uma árvore com lata e isqueiro na mão. Soltava fumaça e tossia sem parar. O irmão mais velho pulou em cima do mais novo e começaram uma briga homérica. Rolaram pelo chão, acertaram socos e chutes um no outro e foram vencidos pelo cansaço. Voltaram para debaixo da ponte onde estava seu único pertence, o aquário com os dois peixes. O gato dormia. Encontraram um pedaço de lona para se protegerem da chuva que estava para começar. Armaram uma espécie de barraca e lá terminaram com as duas últimas pedrinhas mágicas. Uma pra cada um, disse o mais novo. Mas você já fumou uma sozinho, porra. Mas eram minhas, então fuma aí e relaxa. Começou a chover. Dentro da barraca improvisada havia uma goteira persistente. Eles não conseguiriam dormir aquela noite. Estava frio e estavam com fome. Começaram a se debater, a se xingar, o mais velho dizendo que havia algo no caminho. Que caminho, porra? Que caminho? Tem um troço aí no caminho, cara, tem um troço aí no caminho, eu sei, eu sei, eu sei. O gato pulou para fora da barraca e sumiu na noite. O mais novo, com medo do que poderia acontecer, pegou os dois peixes do aquário com as mãos, vermelho e branco, e engoliu um depois do outro. O mais velho, perplexo e horrorizado, tremia. Por que você fez isso? Porque eles não têm sentimentos.


bonus tracks


Nobody knows I’m new wave A nova onda Delfin

Você é o rapaz novo? Pode chegar. Eu sei que o pessoal dos caminhões acha que é um trote, sempre mandam os caras novos para cá, tudo porque eles sabem que eu vou contar a minha história. Pra eles é uma onda. Eles sabem que quem vem aqui nunca volta. Eu nunca ligo. Vai que com você vai ser diferente. Chegue aqui na varanda. Mas, olha, eu preciso perguntar algo, antes de começar a dizer qualquer coisa: você acredita em fadas? Eu sei, tem poucas pessoas que acreditam em fadas. No poder que elas têm. Geralmente o pessoal mistura com outros seres. Ficam também fantasiando sobre tudo: o modo como elas surgem, como elas agem, o que acontece depois, tudo que nem um livro de histórias ou um desenho animado. Então esquece tudo isso, cara, porque eu conheço uma. É, sério, conheço uma. Eu vou contar pra


você como foi que eu a conheci. Senta aí, a cadeira tá limpinha. Você precisa saber que minha vida, naquela época, não tinha nada de mais. Da casa para o trabalho, do trabalho para o bar, do bar para casa, quase todos os dias. Às vezes eu trocava o bar por uma festa. Às vezes eu não voltava para casa. Eu morava sozinho e, de emocionante, minha vida não tinha nada. Eu era contador e, mesmo sendo bom no que eu fazia, não havia quaisquer ganas de abrir o meu próprio negócio. Ganhava bem e não gastava com supérfluos, porque eu tinha uma vida simples e isso era mais do que suficiente. Em casa, eu mesmo fazia tudo. Nada disso de diarista. Sabia bem como lavar e secar as roupas, varrer o chão, arrumar a cama e fazer uma comida qualquer, quando eu precisasse. Comida mesmo quase nunca tinha. Fora isso, eu dormia e acordava e tomava banho. E cagava. Como eu faço todos os dias, até hoje, algumas vezes mais de uma vez. Foi num dia desses, comuns, depois do bar, que eu estava na privada, meu organismo funcionando religiosamente e eu já relaxando o meu traseiro, quando eu ouvi a voz mais delicada. — Você. É você. Você pode acreditar, eu sei que ninguém podia ter testemunhado isso, mas é a verdade. Levantei do vaso que nem um corisco e, ainda com o cu melado, olhei para dentro da privada. Sim, eu sei que ninguém admite que faz isso, mas eu fiz. O cheiro era péssimo, só era suportável porque sabia que aquilo era meu. Olhei bem, mas não vi nada. Digo, nada além da minha merda torcida, meio mole, um tom bem peculiar de marrom mesclado a outro, mais escuro e comum. — Esperei toda a minha vida por você. Pensei em perguntar quem falava, mas eu me contive. A


pergunta seria bem estúpida, admito. Obviamente, era a merda que estava falando. — Eu sou a sua fada. Eu estava falando com o que eu tinha acabado de cagar. É, eu estou vendo a sua cara. Por isso mesmo não conto isso pra muita gente. — Se você é uma fada, então me deixa ver você. — Este é o seu desejo? Não sabia direito se queria ver uma bosta voadora à minha frente, batendo asinhas de libélula e com aquele brilho de Sininho, igual ao dos desenhos do Peter Pan. — Eu tenho que escolher mesmo? — Na verdade, é seu direito me ver. — Não, pera, não faz isso! Mas já era tarde. Um enorme brilho saiu da louça. Não me cegou, mas eu fiquei bem desorientado. A luz se dissipou uns dois minutos depois. Naquele meio tempo, apenas o olfato funcionou plenamente. E não era uma sensação boa. Quando pude voltar a ver, os olhos pareciam me enganar. Era uma garota em miniatura, igualzinha mesmo aos livros de contos de fadas. Mas, nos livros, a fada nunca está pelada. — Oi. Desculpe a luz. Sempre me disseram que ela é forte demais para os outros. — Tudo bem. Eu acho. Então ela sorriu. Sorriso bonito. É importante que você perceba que, de repente, eu já estava aceitando aquela situação. — Eu chamo você de fada mesmo ou você tem um nome? — Eu era chamada de Lirininirinim. Mas já faz tempo. Lembro que eu finalmente fiz uma pergunta pertinente. — Como funciona?


— Não entendi. — Você faz o quê? Eu sou seu dono, eu tenho três desejos, você vai ficar aqui pra sempre? — Ah, sim, me desculpe! Eu não expliquei nada mesmo. Ela falava de um jeito tão agradável que, naquela hora, eu nem ligava mais de ter esquecido de limpar a bunda. Nós dois estávamos muito confortáveis naquele banheiro fechado e meio pequeno. — Deixa eu me apresentar primeiro. Meu nome é Renato. — Prazer. Olhinhos brilhantes. Creio que os meus também devessem estar. — Renato, é assim que funciona: você não é meu dono. Mas eu serei leal a você por toda a vida, não importa o que eu faça ou o que você faça. Eu nunca irei interagir com outras pessoas, a não ser que você queira. Eu nunca serei vista por outras pessoas, a não ser que seja o seu desejo. Eu tenho poderes mágicos e posso atender, de modo limitado, aos seus desejos. Nada complicado, mas, em geral, coisas mundanas estão ao meu alcance. O que complica são os desejos que tenham a ver com as forças da natureza e os moldes da vida. Eu fiquei olhando ela flutuar. Eu lembro que a chamei pelo nome que dei a ela, pela primeira vez, naquele momento. — Linim, eu... — Pode dizer, Renato. Eu sou uma fada bem confiável. — Se você der uma voadinha pela casa, vai notar que eu sou uma pessoa bem sozinha. — Você quer que eu faça alguém se apaixonar por você? — Seria meio injusto, não é? E se eu mudar o destino de alguém?


— Mexer com o destino nunca foi uma boa ideia. É sábio da sua parte ponderar isso. Mas eu posso ajudar em coisas mais urgentes. Foi ali que ela mexeu os dedinhos e eu tive a sensação automática de estar limpo, mesmo sem um banho. — Não é melhor você ir dormir agora? Seus olhos estão tão pequenos... Ela tinha razão. Eu estava cansado demais, comprando os mantimentos para abastecer a geladeira da casa que eu tinha alugado na praia. Não iria conseguir arrumar as malas naquele estado, que ficasse para o outro dia. Pois fui até a minha cama e despenquei. Cheguei a me perguntar, por um momento, onde ela iria dormir, mas eu me lembro vagamente dela dizendo para que eu não me preocupasse com isso. Geralmente eu não me lembro de sonhos, mas o daquela noite eu me lembro bem. E foi com ela. Ou alguém que eu achava que era ela. Mas não era uma fada e, sim, minha mulher. Lembro de estarmos em uma casa no alto de um morro, como esta aqui, mas bem mais bonita. Foi um sono bom, e eu estava acostumado a sonos muito intranquilos. Teve uma hora que eu me virei para o lado na cama, isso no meu sonho, e lá estava ela. Mas crescida, dormindo do meu lado, sem as asinhas, incrivelmente gostosa. Ela estava abraçada a mim e eu, naturalmente, comecei a mexer nos cabelos dela. Lembro que chovia, pois eu ouvia o barulho da chuva e estava escuro. Não dava para ter noção nenhuma da hora, como em todo sonho. Eu sei que a gente trepou muito. Muito mesmo. Era um sonho estranho, lento. Parecia que horas tinham se passado e me bateu, seco, o medo imenso de acordar. Tudo era meio penumbra, totalmente quente e úmido, e ela sorria de um jeito que não se sorri mais. Eu a abracei forte e acabei dizendo que


não queria que ela fosse embora. Ela me disse que não iria a lugar algum se eu não quisesse. Eu retruquei doce, dizendo, bem frustrado, que isso não dependia de mim. Àquela altura, eu tinha a noção de que eu parecia estar lúcido dentro do sonho. Ela então me beijou a boca sem fazer muita pressão, arranhando meu pau com a ponta das unhas, muito de leve. Disse para mim que eu teria uma surpresa. Ela percebeu que eu me sobressaltei, de leve. Foi a deixa para que ela acendesse a luz. — Agora você não está mais sozinho. Imagina isso, rapaz. Eu fiquei bobo, feliz, totalmente sem reação. O que a fada entendeu como um sinal para uma investida oral ao meu pau duro. Tirei o telefone do gancho e, bem naquela hora, vi que passavam das três da tarde. Agradeci por estar de férias havia apenas quatro dias. Encostei a porta e, naquele dia, não falamos mais um com o outro e, que eu me lembre, também não saímos do quarto. O dia seguinte amanheceu ao meio-dia. Ela não estava na minha cama e confesso que eu fiquei um pouco receoso, mas durou menos de um minuto. Ela estava na cozinha, preparando um almoço. — Com minhas próprias mãos!, fez questão de frisar. Mas aquilo não me incomodava. Foi apenas naquele hora que eu reparei: havia quase dois dias inteiros que tudo aquilo tinha acontecido e eu não tinha dado a descarga. Aquilo não tinha me incomodado no dia anterior. Nada me incomodaria no dia anterior. Mas o fato é que minha fronha estava toda melada e era uma boa lavar aquilo e trocar o jogo de cama. Em seguida fui dar a descarga, o que chamou a atenção de Linim. Ela me olhou enquanto eu despachava a merda naquele movimento em espiral. Então me olhou com uma cara neutra, sorrindo levemente. Eu lembro de


fazer um comentário que achei espirituoso. — Essa casa vai ficar com esse cheiro pelo menos uma semana, agora. Eu disse aquilo, na verdade, de um jeito meio indignado, mas a verdade é que, mesmo com o apartamento fedendo, eu podia suportar até comer ali. Afinal, era o cheiro da minha merda. Para a fada, que veio de lá, achei mesmo que não fazia diferença. Descobri, enquanto o mês avançava, que nem isso nem nada mais fazia diferença. Pela segunda vez em dez anos, eu não estava mais sozinho. Minha solidão estava para romper a barreira psicológica dos cinco anos. O mundo que se fodesse, naqueles dias eu só queria Linim. Queria que ela não me escapasse. Ela falou sobre ser fiel a mim, mas eu queria mesmo que ela gostasse de mim verdadeiramente, não graças a algum compromisso místico. Porque eu comecei a gostar dela. Estava totalmente entregue e brutalmente entorpecido. Nós conversávamos muito. Na maioria do tempo, falávamos de mim e do mundo. Ela não gostava do passado e, para mim, isso não importava. Ela adorou a tecnologia, apesar de dizer que fazia tudo até melhor com magia. Foi assim que começamos a assistir à tevê a cabo e a acessar a internet sem gastar um tostão. Viver com Linim era uma surpresa atrás da outra. Aquelas, certamente, foram as melhores três semanas da minha vida. Meus problemas, rapaz, começaram dois dias antes de eu voltar ao trabalho. Eu precisei ir ao supermercado para fazer compras, pois o estoque de comida tinha quase acabado. Tinha esquecido como dois podem comer muito mais do que um só. Lembro bem que fui no 24 horas que ficava perto da universidade. Era madrugada. Cheguei lá, parei o carro, peguei o carrinho e avancei. Fiquei por lá


por uma hora. Sempre gostei daquele horário de compras. Havia pouca gente e pouca encrenca, além de quase nenhuma fila. Mas as poucas pessoas, a maioria funcionários, me olharam com uma cara desagradável. Seriam os primeiros, mas, até aquele momento, eu não sabia. Cheguei ao caixa e a garota me atendeu, sem antes torcer o nariz para mim, olhando feio para sua supervisora. Eu meio que fingi não notar aquela falta de educação. Mas me senti como se estivesse cometendo um crime. Contei pra Linim assim que cheguei em casa. Disse que, se ainda tivéssemos porteiro noturno, ele também teria feito uma careta. Ela guardou as compras enquanto eu contava e, quando pedi a ela por uma opinião ou uma réplica, ela simplesmente me fez esquecer de tudo novamente. Assim, por mais dois dias, fui feliz. Cheguei ao escritório de contabilidade, o maior da cidade, às nove da manhã, uma hora depois do meu horário normal. Culpa de uma trepadinha matutina, cortesia da minha fada na hora do banho. Você sabe como é. Ela era incrivelmente limpinha e, dada a sua origem, evitava entrar no chuveiro. Mas, de vez em quando, dava de fazer isso. O fato é que eu cheguei em minha mesa, feliz como nunca. Um sorriso que me estampou um carimbo de crédito na face. Foi o que acreditei num primeiro momento. Notei rápido as conversas paralelas, próximas de minha mesa. Nem os meus colegas mais chegados de serviço chegavam perto de mim. Inveja, eu cravei. Quando meu chefe me chamou até a sala dele, sério, foi que acreditei que algo estava terrivelmente errado. Ele nunca tinha usado aquele tom de voz comigo, e sempre o usava para situações graves. As janelas estavam abertas, mesmo com o ar condicionado no último. Quando fechei a porta, ele insistiu para que eu abrisse. Não me ofereceu o assento, como era de sua polidez. Certamente


queria que todo o escritório ouvisse o que ele tinha a dizer. E gritava. Coisas sobre respeito ao próximo, sobre convívio em grupo, sobre o macro e o micro ambiente de trabalho e, ainda, sobre o uso indevido das liberdades individuais. Eu ouvi aquilo quieto por quinze minutos. A única coisa que me ocorreu foi perguntar algo direto: — Eu deixei de contabilizar algo, seu Tobias? — Contabilizar! E você ainda vem ofender minha inteligência, seu débil mental? — Se eu puder me sentar e conversar com calma sobre — Não ouse sentar-se nesta cadeira! Eu teria um gasto enorme desinfetando sua presença, senhor Renato! — Com todo o respeito, chefe, eu — Respeito! Olhe só quem fala de respeito! Ainda por cima, encara tudo com um sorriso no rosto! Fora o fato de ter chegado 62 minutos atrasado! Que o senhor pensa que é? Superior? Acha que pode voltar de férias e fazer o que quiser, com todos sendo obrigados a suportá-lo? — Olha, eu não sei o que — Eu o mandaria agora mesmo para o sexto andar, mas sinto que posso privar as outras pessoas de sua presença. Você receberá seus préstimos monetários em sua casa. Ao menos, assim, apenas o boy vai ter de se defrontar com o senhor! Se houver algum papel a ser assinado, nós o enviaremos. Emudeci. Nunca, em minha vida toda, alguém tinha me tratado daquele jeito, rapaz. — Agora saia daqui e limpe a sua mesa rapidamente. Você está despedido. Mesmo enquanto eu saía, ele não se cansou. — E não feche a porta ao sair!


Ninguém olhou na minha cara. Eu fui tratado com um asco sem igual. Algo terrível tinha acontecido enquanto eu estive de férias. Algo que não ficou restrito ao quinto andar do Edifício Bienvenue. Meu dia mal tinha começado. Dia 24 de setembro, eu me recordarei daquele dia para sempre, como se fosse hoje. Eu me lembro de uma cena em particular, pois estava bem no centro empresarial da cidade, pessoas correndo para lá e para cá no calçadão movimentado da Almirante Vig. O grande relógio da Praça Felinto Dias marcava exatamente dez e doze. Acima do relógio, o enorme anúncio de O Sol, o maior jornal do estado. Um dia mais movimentado que o normal. À medida em que eu caminhava, sempre me perguntando o motivo de tudo o que havia ocorrido, uma espécie de clareira abriu-se ao meu redor. As pessoas me olhavam abismadas. Davam espaço para que eu passasse. Corriam de mim quando eu mudava de trajeto. Mudei várias vezes, para testar a reação das pessoas. Foi exatamente às dez e dezessete que eu me sentei num dos bancos públicos em frente ao Monumento aos Propagandistas da República. Coloquei minha pastinha ao lado, junto com a pequena caixa de papelão com os pertences do escritório. Sem alarde ou gritos, simplesmente deixei a água sair dos meus olhos. Isso até as dez e vinte e um. — Bom dia, senhor. Era um Guarda Citadino. — Pois não, seu guarda? — O senhor me desculpe, mas não pode ficar aqui. — Como assim? — O senhor não pode ficar sentado nos bancos desta praça. — Mas a maioria dos outros bancos está ocupado. Eu não


sabia que era proibido. Eu nunca tinha me sentado aqui antes. — Eu não me referia às pessoas em geral, somente ao senhor. — Por quê? — Como o senhor é um cidadão desta cidade, estou mantendo um tratamento de respeito. Mas estou autorizado a utilizar a força, se for necessário. Então eu me levantei, sem maiores explicações. Ele não me deixou partir secamente. — Ainda possui algo para fazer aqui no centro? — Ir ao banco. Eu ia na hora do almoço, mas acontece que eu fui — Eu e meu parceiro acompanharemos o senhor. Qual banco? Fomos até o Continental. Como se eu fosse um criminoso, os guardas me escoltaram até um caixa, no qual a fila se abriu. Verifiquei meu saldo, paguei duas contas, retirei um pouco de dinheiro e dois talões de cheque. Tudo sob o olhar de dois gerentes conspícuos e de uma atendente, que me analisou algumas vezes, de cima a baixo. Fui também escoltado até meu carro. O dono do estacionamento não me cobrou um centavo, mas claramente pude ver os guardas, que não me cumprimentaram à minha saída, dizendo ao seu Ademar para não deixar mais eu colocar meu carro por ali. Voei para minha casa. Estacionei rápido e entrei no elevador, emburrado e veloz, sem deixar o porteiro falar comigo. Abri a porta e um cheiro estranho me invadiu: era o almoço de Linim, quase pronto. — Você chegou cedinho. Melhor assim que come tudo


quente. Está quase pronto. Não quer ver um pouco de tevê? Fugi dos noticiários e fui direto para os canais de filmes. Fiquei esparramado no sofá por um bom tempo, até que ela me chamou para a mesa. Decidi contar tudo a ela mais tarde. De todos, eu acreditava que ela era quem menos merecia ouvir as barbaridades que aconteceram naquelas três horas em que estive fora. Mas não me contive por muito tempo. — Fui despedido. Eu já estava deitado em seu colo, no sofá. Eram quase duas da tarde. — O que isso quer dizer? — Que eu não tenho mais um emprego. Que não vou mais poder pagar o aluguel deste lugar se não arranjar outro trabalho. — Você não precisa disso. — Como assim? — Eu posso fazer esse tal dinheiro pra você? — Dinheiro foi feito só pra gente ter coisas, Linim. Como comprar comida ou pagar a conta da luz. — Eu posso fazer luz. — É modo de dizer. Estou falando de energia elétrica. A tevê, o computador, as luzes, tudo funciona com isso. — Funcionava. Agora, tudo funciona aqui dentro porque eu quero. Eu sorri da inocência da fada. Ela se deitou e dormimos abraçados ali mesmo, no sofá, até o anoitecer. Os dias seguintes foram péssimos, sabe? Muitos lugares já sabiam, fosse o que fosse, e nem me deixavam chegar perto. Nenhum escritório contábil. Nenhum escritório. Nenhum lugar. A cada dia, as pessoas se afastavam mais e mais de mim. No quarto


dia, arrisquei ligar para o Audálio, único amigo com quem, eu pensava, podia contar. — Alô, quem fala? — Audálio? — Renato? Rapaz, o que foi que aconteceu? — Você não sabe? — As pessoas comentam. Liguei no teu escritório e me disseram que tu tinha sido despedido por justa causa. A Júlia te viu anteontem, mas nem tentou chegar perto de ti. — A Júlia? Mas por que ela não veio dar um oi? — Ela não disse. Ninguém diz nada quando eu pergunto de ti. Aliás, onde tu passou as férias, cara? Falou que ia pra Baixada e nem deu sinal! Liguei aí na goma e só dava fora de serviço! — Complicado de explicar. Quer dar um pulinho aqui? Tô precisando falar com você. — Que horas? — Vem jantar aqui. Umas nove. — Eu levo o queijo? — Traz. Quando desliguei, Linim estava do lado. — Esse Audálio vem para cá? — Vem. — Então vou arrumar a casa. Tem que estar bem arrumadinha, pra que ele veja que tudo está bem com você. Casa arrumada, vida tranquila! — Tá. Ela viu que eu estava preocupado. — Que foi? — Eu não sei se eu quero que ele veja você. — Ele só vai me ver se você quiser. Eu vou estar sempre do


seu lado se você quiser. Juro que não vou atrapalhar. — Até a noite eu penso nisso. — Mas eu deixo o jantar pronto. Tá? — Tá. Quando o Audálio chegou, lembro bem que ele estava com um sorriso de orelha a orelha. Na hora em que o chamei para entrar, vi que foi meio constrangedor. Ele viu a mesa posta, a comida com cara de boa. Disse para a gente comer primeiro e papear depois. Topei. Eu reparei de cara que ele estava comendo forçado. Linim fez tudo na mão, como sempre. Macarrão à bolonhesa, franguinho à milanesa, regado a umas cervejinhas muito geladas. Ele não se aguentou e foi vomitar vinte minutos depois. Pelo menos teve a decência de fazer isso na privada e não na casa toda. Achei que ele fosse vomitar a alma, não saía de lá. Mas, quando saiu, completamente branco, lembro de ter perguntado se ele queria um remédio. E daí foi. — Meu, como que tu suporta? — A comida tava ruim, Audálio? — Claro que tava! Quer dizer, tava boa, mas é que nem se fosse o melhor rango do mundo ia ficar bom assim! — Assim como? — Contigo por perto, Renato! — Tá, o problema é comigo. Então me diz, o que que é? — Tu tá fedendo, porra! Não tá notando, não? E tu ainda pôs perfume por cima, tá cheirando esgoto perfumado, tá um lixo! Bem que tinham me dito, mas eu não podia botar fé! Aquilo me deixou bem atônito. — Eu não tô cheirando mal. — Meu, tu tá cheirando merda!


Foi saindo para a porta. — Teu zelador disse que tu vai ser expulso ainda essa semana, Renato! Bendito seja esse novo Código Civil, ele me disse bem na hora que eu cheguei! Porra, tu tá um nojo! Não se toca, não? Ó, nem me liga mais, cara. Eu não tenho amigo porco, tá ligado? Bateu a porta antes que eu pudesse falar de Linim, que tinha visto tudo. Estalou os dedos, fez sumir a comida e foi esperar no quarto. Foi então que eu descobri. — Linim, conta. — Se eu contar, não vai adiantar muito. — Já fodeu mesmo. Pode contar. — Renato, é mais ou menos assim. Nada é de graça. As regras dizem que você tem que me aceitar para você ter a minha fidelidade. Queria que você entendesse, eu fui presa faz pelo menos trezentos anos. Mas você cagou a merda certa, na posição certa, na hora prevista e me libertou. Eu não queria ficar presa de novo. Então eu me deitei com você na primeira noite. — Você trepou comigo pra se livrar da sua cadeiazinha de merda? Ela ficou quieta. Nem um pio, meu caro. — Responde, porra! — Foi. — E você é fiel a mim porque é o trato, é isso? — Não – a voz era quase um sussurro. Mas eu gritava. — Então porque é que foi, caralho? — É por que eu te amei assim que vi você. Eu nunca tive tanto ódio por alguém na minha vida. Até a hora em que ela disse aquilo, estava pronto para espancá-la. Mas ela me disse aquilo que nenhuma mulher, na minha vida inteira, havia


dito. Quando ergui meu braço, o que fiz foi abraçá-la forte, como se minha vida dependesse daquilo. Como você já deve desconfiar, rapaz, eu tinha ficado com alguma maldição dela. Sei que você está sentindo, não precisa disfarçar. Ela não diz, mas é fácil deduzir que é algo como cheirar mal a vida toda. Eu nunca perguntei. Antes que o prédio me expulsasse, eu comecei a empacotar tudo. Quando o síndico chegou com a notificação, ficou xingando, dizendo que ia desinfetar tudo e coisa e tal. Nenhum caminhão de mudança quis levar minhas coisas. Vendi meu carro e comprei um caminhão velho. Aproveitei e tirei toda a minha grana do banco e fechar a minha conta. Exigi falar com o gerente que me atendeu por mais de dez anos. Um segurança me acompanhou e, quando cheguei na sala do indivíduo, eu peidei! Foi muito bom! Que se fodesse a cidade! Peguei minha grana e fugi! Fugi para o leste. Fiz questão de passar pelas grandes cidades que não me conheciam. Passei pelos melhores hotéis e almocei nos melhores restaurantes, sempre bem vestido e cheirando a esgoto. Meu dinheiro, que economizei por tanto tempo, deu para comprar os narizes dos donos desses lugares finos, metidos e chiques por um bom tempo. Grana é um bom prendedor de nariz, sabia, filho? Mas, a cada semana, esses caras espalhavam a notícia para os outros donos de lugares. Então eu não conseguia mais entrar em lugar nenhum. Daí eu mudava de cidade ou até de estado. Foi bom por vinte e sete cidades. Na vigésima-oitava, todo mundo já sabia da lenda do fedido metido a ricaço. Fui entrevistado e apareci no jornal mais importante do país. Só que, aí, a minha grana já tinha quase acabado. Mas o cobertor sempre foi quente,


mesmo desde antes de Linim. Que continuou comigo, claro. O quê? Pensou que eu ia abandonar a única pessoa que me amou na vida? Apenas a proibi de fazer dinheiro. Nada mais. Eu ainda vivo com minha fada, garoto. Nesta vida, não importa o jeito que você vive. Importa é que você tenha alguém que o ame, que o ampare, que faça por você aquilo que você faria por alguém que se ama. Como eu me entreguei à merda, ao amor. Eu me entreguei ao que importa. Ninguém precisa saber de Linim. Ninguém acredita. Hoje eu tenho este emprego bom, aqui no lixão. Alguém na prefeitura desta cidade ficou tocado com a minha história. Uma vez, eu li que este é o maior depósito de lixo das Américas. O maior. E minha casa é esta aqui, bem no alto deste morro. Linim que fez. Um dos meus maiores gostos é quando eu fico sentado aqui, na varandinha aqui de casa, com vista para todo o lugar. À noite, eu posso ver os carros passando nas rodovias, lá embaixo, se somando à beleza dos fogos-fátuos que explodem que nem fantasmas pelos barris, subindo pela noite e alcançando as estrelas. Fico assim do comecinho da noite até a hora em que minha garota me chama para dentro, só para comer a delícia, que agora ela faz surgir com um estalo, e depois eu durmo, abraçado e quente. É por isso que eu sorrio, rapaz. Porque minha vida não é uma merda. A merda está lá embaixo, e aquilo tudo que ficou para trás é passado, mesmo que ninguém perceba. O que está aqui em cima não são os restos de todos, é o futuro de poucos. E ninguém sabe de nada. Acham que me isolaram em um lugar em que eu não vou incomodar. Mas ninguém sabe de verdade por que eu estou aqui. É porque esta aqui é a novidade, rapaz. E um dia todos vão saber da merda que fizeram. Estamos surfando o futuro neste instante! Pois esta aqui é a nova onda!


About a girl O sorriso e o eletrochoque André Tartarini

Às nove da noite a televisão e as luzes são desligadas. A janela dá para a parede do prédio vizinho, melhor olhar para o teto. Ela só dorme depois de meia noite, agarrada ao ursinho. No primeiro mês, passava madrugadas em claro, mas os remédios já começaram a colocar o sono nos eixos. Nem dá para dizer que aquilo é sono. A cabeça fica zonza, a realidade se transforma em outra coisa, os sons lá de fora se misturam com o silêncio barulhento de dentro da cabeça e há algum tempo ela não sabe se ficou maluca mesmo ou ainda possui algum controle sobre a farsa que armou. Maluquice não é obesidade. Não existe uma balança onde se suba e que indique que você é um pouco doido, meio


doido, doido de pedra ou digno de camisa de força, moderadores de humor. Graças a isso, com alguma dedicação, é possível convencer os outros da sua insanidade, mesmo que seja mentira. A dissimulação vem funcionando porque o motivo é nobre. Quer dizer, nobre para ela. Antes a Janete aparecia mais no quarto. Agora o movimento na clínica aumentou, com muitas pacientes novas e indisciplinadas, e por isso os encontros são bem mais raros; à tarde, quando as pacientes menos problemáticas vão para o pátio, as duas também conversam, mas é diferente, não dá para ficar natural na frente de todo mundo, e a Clara tem que se contentar com uma conversa formal, como se o que a tivesse levado àquele lugar fosse de fato uma depressão severa associada a crises de delírio. No pátio, a Janete fala de coisas que só interessam às duas, mas com cara de quem está falando de outro assunto. Tou morrendo de saudade de você. Mas a gente ficou junto hoje de manhã. Eu sei, mas já tou com saudade. Também, mas amanhã não posso te ver. Por quê? É minha folga. Você não pode trabalhar na sua folga? Não é assim, a gente tem uma escala aqui, você sabe. Já tem outra enfermeira selecionada para o corredor C. E amanhã tenho que visitar a minha tia que tá doente. Quando a gente vai se encontrar de novo? Depois de amanhã. É muito longe. Não é nada, Clara, deixa de ser boba. É sim. A cara da enfermeira-chefe quando se dirige a ela no pátio é


a mesma quando fala com as outras internas e as outras enfermeiras e dá a impressão de que não há emoção alguma. Isso é suficiente para surgirem dúvidas sobre seus sentimentos, mas quando estão só as duas no quarto, a Janete olha fundo nos olhos dela e fica tudo bem de novo.

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É bom sentir os dedos molhados de saliva da enfermeira acariciando os cantos dos seus olhos para limpar resquícios de remela seca ao acordar. Não é um prazer sexual, é a sensação de ser protegida, um afago íntimo – mas não só, é difícil explicar, como geralmente as coisas boas são. Os encontros matinais vão além disso, claro, mas também é preciso admitir que a velocidade com que as coisas esquentaram entre as duas é a mesma velocidade com que parecem querer esfriar. Um gráfico que sobe íngreme e agora inicia a fase descendente, talvez simétrica. Era mentira quando a Clara, no começo, disse ser virgem. Já teve orgasmos com alguns caras. Não tantos. Alguns. Mas preferiu mentir. Antes de você, era só masturbação. Isso parecia fazer com que a enfermeira se sentisse mais senhora da situação. Mas a Clara não mentiu quando disse que o que sentia agora era diferente de tudo que achou que pudesse sentir – não por grandes méritos técnicos da outra na arte de apertar os botões certos e encontrar atalhos em seu corpo. Era mais software que hardware, estava no campo abstrato toda a química que bloqueava o oxigênio por segundos intermináveis para depois deixar o ar encher os pulmões e ela ter uma certeza cristalina manchada


de dúvidas: o único caminho possível, até o fim, teria que incluir a Janete.

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A caixa do supermercado parecia mal humorada, não por algo acontecido naquele dia. A frustração acumulada estava nas rugas precoces, na postura que já lhe rendeu um problema crônico de coluna, na displicência do cabelo emaranhado atrás das orelhas e na azia acentuada pelos constantes refluxos que ela tentava amenizar com omeprazol e pastilhas de sal de fruta após as refeições, mas não adiantava quase nada. A Clara percebeu a amargura da caixa do supermercado antes que chegasse sua vez de passar as compras. Se ela soubesse que não tinha levado o dinheiro, largaria o carrinho num dos corredores e iria embora. Também não achou o cartão, e teve que lidar com o constrangimento de informar que não tinha dinheiro. Mas continuou procurando. O dinheiro estava ali, ela tem certeza, deve ter sido roubada. A caixa podia ter sido mais compreensiva. Sua expressão de má vontade se acentuou, deixando nítido que não acreditava nessa conversa de dinheiro perdido, e fez questão de chamar o gerente em voz alta para cancelar aquela compra porque “essa garota não tem dinheiro”. Outros clientes se sensibilizaram, mas ninguém chegou a dar um toque na caixa. Não precisava constranger a menina, uma velha disse em voz alta, mas foi como quem reclama do governo ou do calor, uma reclamação jogada no vento. Só uma pessoa, justamente a que estava atrás na fila, se prontificou. Não precisa chamar o gerente. Eu pago.


Vai pagar a conta dela? (a caixa achava que era essa, desde o início, a estratégia da Clara) Vou. Por quê? Porque sim. Eu pago o que quiser e não é da sua conta. O cartão passado em silêncio; ter alguém para pagar a conta da menina incomodou muito a caixa do supermercado. A Clara estava constrangida, mas a surpresa daquele gesto inesperado a manteve no prumo. Sentir-se protegida era raro, para não dizer inédito. Sentia-se protegida pela madrasta, mas era uma proteção sessenta por cento, com o pé atrás. Daquela vez, não. Era um dos raros momentos da vida em que somos impelidos a jurar gratidão e amizade eternas a um estranho que nos tira de um sufoco repentino. Talvez você nunca tenha passado por isso, mas acontece. Vencer a batalha acidental com a caixa do supermercado fez com que ela sentisse uma euforia muda, uma sensação sutil porém muito agradável, uma microvingança contra as atitudes filhas da puta impostas por um mundo que, já há algum tempo, se mostrava mais traiçoeiro que acolhedor. Pequenas decepções acumuladas iam forjando em sua alma uma personalidade mais amarga, diferente de anos atrás. A Clara chegou a imaginar, durante os quarenta e nove segundos de constrangimento pela falta de dinheiro, se as decepções de sua vida seriam capazes de transformá-la no mesmo tipo de pessoa que a caixa do supermercado mostrava ser. Mas a mulher de trás a fez mudar toda essa perspectiva. Existem pessoas boas. São raras, mas existem. Enquanto saíam, ela perguntou o nome da mulher. Janete, e o seu? Clara. Prazer.


Prazer também. Olha, muito obrigada, deixei o cartão em casa, eu jurava que tava com o dinheiro. Devo ter esquecido ou me roubaram, não sei. Mas essa mulher do caixa não precisava ter me tratado dessa maneira. Não se preocupa. Vamos tomar um café ali em frente, a gente conversa. Mas antes vem comigo. As duas voltam até a caixa do supermercado. A senhora pode dar uma paradinha? (a caixa para e se vira) Fala. Vai tomar no cu. A Janete diz isso em voz alta, de modo que todos possam ouvir. As duas seguem leves a caminho do café. A Clara retribui o olhar como se tivesse recebido um buquê de flores, mas não chega a sorrir. Até tentou, mas permaneceu séria.

****

Não era solitária. Tinha amigas, poucas porém boas. Por causa de sua natureza reservada, não se abria com nenhuma delas. Passava horas afundada na cama entre fones enormes ouvindo música ou vendo filme de terror, fazia longas caminhadas na praia sem companhia. Quase nunca sorria. E isso não significa ser solitária. Às vezes incompreendida, talvez. Mas nunca se dera conta disso. Tem coisas que a gente só percebe que nunca teve quando passa a ter. Ela não conhecia a sensação de se abrir totalmente com alguém, de contar tudo: a morte de mãe, o casamento do pai meses depois com a vizinha, a vontade de fugir de casa depois que o pai


sumiu, a tentativa de suicídio aos treze anos. E depois aos quinze. E aos dezesseis. Era nova a experiência de aprender coisas do mundo com alguém que não a julgava, alguém que já leu livros e viu filmes que ela nem sabia que existiam. Que já foi ao fundo do poço e voltou várias vezes. Alguém verdadeiramente com histórias para contar. Nem a madrasta, nem as amigas, nem os namoradinhos eventuais, nem o pai desaparecido, ninguém parecia ter vivido a metade do que a Janete vivera: era mais que uma amiga, era uma protetora, confidente, pai, mãe, tia, a irmã que ela nunca teve, a Janete era tudo isso e muito mais.

**** As amigas notaram que a Clara estava menos presente, ela era mesmo de sumir às vezes. A madrasta só notou a diferença quando ela começou a chegar mais tarde do cursinho e a dormir fora nos fins de semana. Comentou com a empregada: Deve ser algum namoradinho. Acho até bom, tava ficando preocupada, dezessete anos na cara e nenhum namoro nem nada. Melhor assim. Ela e a madrasta se davam bem, respeitavam mutuamente seus silêncios, conversavam na mesa de jantar, falavam do tempo, do trabalho de uma ou do curso da outra, notícias de jornal, fofocas da vizinhança ou dos poucos parentes. Nada além. Uma convivência boa, com limites. Quando a madrasta notou as mudanças nos horários da Clara, a Janete já era mais que uma amiga íntima.


**** No café em frente ao supermercado, trocaram telefones e a conversa se alongou por mais tempo. Te dou uma carona. Então a Janete soube onde a Clara morava. Aparece. Apareceu no sábado seguinte para levá-la à praia. A Clara gostava de cinema, mas não conhecia muitos filmes de antes dos anos noventa. Golpe de Mestre? Nunca. O Exorcista? Nunca. A Profecia? Nunca. Você gosta de filme de terror e nunca viu A Profecia? Precisamos consertar isso urgente. Podemos fazer um jantarzinho e depois ver o filme. Você gosta de cozinhar? Não sei. Não sabe cozinhar ou não sabe se gosta? Como assim? Deixa pra lá. A Janete disse isso sorrindo e acariciando o rosto da Clara, que achou diferente aquela maneira de ser acariciada. Não era ruim. Era até bem bom. Um mundo cheio de possibilidades abria as portas. Nesse momento, quase sorriu. Ela nunca tinha ido a Grumari, nunca tinha ouvido falar em Bela Lugosi, tiramisu, Milos Forman, Bette Davis, Robert Johnson, pastrami, lambrusco, Mutantes, Buster Keaton, tucupi, jambu, carimbó, Fela Kuti,


Leonard Cohen, Pontal do Atalaia, pastel de Angu, manteiga de garrafa, shimeji, Kurosawa, Visconde de Mauá, cerveja Guinness, Gregory Peck. Parecia que vivera até aquele ponto numa câmara isolada do mundo, enfurnada em cheeseburguers e musiquinhas pop descartáveis. Sentia-se meio estúpida na presença da amiga, mas ao mesmo tempo segura por tê-la por perto: sentimentos que não pareciam conviver harmonicamente. Mas conviviam. De uma hora para outra, a Clara se percebeu mais madura, ainda que se sentisse recém-saída das fraldas. A mão alisando seu rosto era a garantia de que coisas boas estavam por vir. Quando chegaram da praia, a Clara não precisou passar em casa. Eu te empresto um vestido. Vai ficar grande. Tá me chamando de gorda? Não, não é isso. (riram juntas) É melhor assim, larguinho, fica mais confortável. Quando ela saiu do banho com o vestido emprestado, a Janete já estava na cozinha, refogando cebola, alho, gengibre e pimenta na manteiga e a orientou sobre como espremer limão em cima dos filés de namorado, que aguardavam dentro do pote plástico, e como misturar o curry ao caldo de legumes. Era a primeira vez que preparava algo diferente de ovo e bife. Acrescentou rodelas de cebola roxa e cubos de tomate. Despejou lentamente o leite de coco sobre tudo. O peixe foi posto com cuidado num caldo borbulhante de cheiro muito bom. A Janete espetou um pedaço do namorado na panela e pôs em sua boca, com delicadeza, com a mão por baixo de seu queixo, e ela sentiu um gosto inédito, de algo muito maior que um simples pedaço de peixe. Agora o carinho no seu rosto era mais que natural, era algo


que ela desejava. Sentaram-se na sala com os pratos no colo. Na metade do filme, já estavam abraçadas. No final, após o sorriso macabro de Damien no cemitério, Clara, mesmo fã de filmes de terror, estava um pouco assustada, mas não se sentia desprotegida, e por uma única razão: a Janete a abraçava por trás durante as últimas frases do filme: Eis o conhecimento. Que aquele que compreendeu conte o número da besta: pois é ele o número de um homem. E seu número é 666. Apocalipse / Livro das Revelações, capítulo 13, versículo 18

A Clara puxou para si os braços da Janete, que já a envolviam, deixando o abraço ainda mais apertado. A outra percebeu o momento de fragilidade, e se valeu disso, sem má-fé, apenas com muito carinho, para virar seu rosto para trás enquanto beijava seu pescoço. Foi do pescoço à orelha, da orelha à bochecha. Lambeu seu lábio inferior e não havia resistência. Ao som da música sinistra dos créditos finais, a Clara se deixou levar.

****

Quanto mais tempo passava com a Janete, menos vontade tinha de voltar para casa, e é compreensível que a curiosidade da madrasta aumentasse. Foi até um alívio suspeitar que finalmente ela arranjara um namorado, era o normal para uma menina de sua idade.


Mas existem responsabilidades. (a madrasta argumenta com a empregada) E, de mais a mais, ela vive na minha casa sob a minha guarda, o mínimo é eu saber por onde ela tem andado, quem é esse namoradinho, onde ele mora. Por que ela não traz ele aqui para eu conhecer? É pedir demais? Na mesa de jantar, quando estavam só as duas e a empregada já tinha ido embora, a madrasta adotava uma postura mais comedida, a intimidade entre elas era cheia de lacunas. Davam-se bem evitando invadir o território alheio, sempre que a conversa era espinhosa, a madrasta pisava com delicadeza, não dava para esquecer as tentativas de suicídio da Clara (a última, menos de um ano atrás). Sabia das coisas que a enteada vivera na infância, a morte da mãe, o casamento do pai meses depois, logo seguido do seu sumiço, além de todo o resto. Pensou em largar a menina com uma tia, mas não teve coragem. Chegou a empacotar suas roupas, mas quando visitou a tia, desistiu. Ela própria assumiria o abacaxi: não foi por amor. Foi por pena. Tá namorando? (o pedaço de batata preso entre a língua e a garganta) Oi? Você tá namorando, Clara? Por que a pergunta? Dormindo fora todo fim de semana, chegando mais tarde quase todo dia, sempre trancada no quarto, fazendo cara de boba quando olha as mensagens no telefone... (a madrasta sorria tranquila dizendo isso, dando ares de casualidade, mas a Clara sentia a conversa entrar feito chumbo derretido em todos os seus poros) Cara de boba?


É só um jeito de falar. Cara de apaixonada: melhorou? (a madrasta continuava sorrindo. A Clara fazia um esforço enorme para fingir o seu sorriso, sem sucesso) O celular apitou e ela se segurou para não olhar a mensagem, porque sabia que não conseguiria evitar a cara de boba. E então? Então o quê? Você tá? Tou o quê? Namorando. Mais ou menos. (a madrasta riu, entre constrangida e afetuosa, e decidiu parar de perguntar). Duas semanas depois, no primeiro dia de férias, a Janete buscou a Clara na saída do cursinho e a levou para Visconde de Mauá. Cinco dias sem dar notícia. A madrasta ligou para as amigas mais próximas, e a única coisa que descobriu foi que as amigas já não sabiam dela há algum tempo. Meses. Quando a Clara apareceu, a conversa foi diferente. Onde você tava? Por que não atendeu o telefone? Por que deixou o telefone desligado? Quem é esse namoradinho? Você não pode fazer isso comigo, sabia que eu fiquei sem dormir? Fui atrás de você em tudo que é canto, por que você não me apresenta a esse garoto? Eu tenho responsabilidades com você, menina, enquanto você viver debaixo do meu teto eu preciso pelo menos saber onde você tá, com quem você tem andado, o que tá fazendo, e se você morre? E se você é sequestrada? Dezessete anos! Uma criança! Você é uma criança! Se você some onde eu vou te procurar, menina? Eu sou o mais próximo que você tem de uma mãe. Mas não é.


Como é que é? Mas você não é. Eu não sou o quê? Minha mãe. Isso é tudo o que você tem pra me dizer, Clara? Aonde você vai?! Mal acabou de entrar, deu a volta, saiu de novo e bateu a porta.

****

Achava que era questão de tempo a Janete convidar. Chegou a pensar em propor isso ela própria, mas nunca se sentiu à vontade. O convite para morarem juntas não acontecia. Talvez fosse ansiedade. Fazia menos de seis meses que se conheceram. Melhor esperar, mesmo que voltar para cassa fosse cada vez mais insuportável. Havia cuidados ao se lidar com a Clara. Suas tendências depressivas eram sempre um sinal de alerta quando a conversa assumia um tom menos amistoso, e parecia que ela estava entrando numa daquelas fases perigosas outra vez. Era uma corda bamba: manter um mínimo de autoridade sem deixar que a coisa desandasse. Ela entrava em casa, se trancava no quarto e já eram raras as ocasiões em que se sentava à mesa para jantar. Geralmente dizia que já tinha comido na casa de uma amiga. Que amiga? Você não conhece. Qual o nome dela?


Pra que você quer saber? Não posso saber o nome da sua amiga? Então ela bate a porta do quarto, coloca os fones no ouvido só sai de lá no dia seguinte.

****

A madrasta recebeu uma proposta de trabalho em São Paulo. A Clara desconfiava que era uma manobra para matar esse suposto namoro – ao mesmo tempo, seria paranoia demais imaginar que a motivação para a mudança fosse apenas essa. Não aguento mais ela dando indireta no jantar, quando eu chego, quando eu saio, quando eu passo por ela na sala. Fica perguntando quem é o meu namorado, por que eu não levo o meu namorado lá, onde o meu namorado mora... Eu vou falar da gente pra ela logo de uma vez. O clima lá em casa tá uma merda. E vai ficar pior se você disser que namora a enfermeira-chefe de uma clínica psiquiátrica dezoito anos mais velha. E se eu tiver que me mudar pra São Paulo? Aí eu vou te visitar nos fins de semana, e nos outros você vem me ver. Pra você é tão simples... Não é simples, claro que não. Eu também vou sofrer. A menos que... E então a Janete começa uma conversa sinuosa, insinuando sutilmente, para que a ideia final partisse da Clara e não dela. Não seria difícil inventar um quadro mais agudo de depressão, fazer crer que as coisas estavam fora de controle. Já chegou a ser internada


uma vez, depois da primeira tentativa de suicídio, e a hipótese da internação sobrevoava constantemente a cabeça da madrasta. Fazerse de doida não chegava a ser uma medida extrema. Nem precisaria fingir tanto. Bastaria parecer sonolenta e falar algumas coisas sem sentido. A Janete deu a entender que achava um exagero, mas sorriu condescendente, um sorriso de quem não concorda mas também não discorda. Não foram necessárias nem duas semanas de farsa. A madrasta bateu na porta do quarto, pediu licença. O clima não era mais de guerra. Um silêncio de velório pairava por entre os cômodos. A conversa foi andando, e quando não deu mais para a madrasta enrolar, a Clara já estava resignada. Mostrava-se sem condição de sair sozinha daquela, e concordava que talvez uma internação ajudasse. Só por um tempo, para ver se você melhora um pouco. Você pode ter razão, não quero fazer outra besteira. A tia de uma amiga trabalhou numa clínica, não é muito barata mas também não é cara, sei lá, não vi direito, não quero que você gaste muito, mas eu ia gostar de lá. A Clara agora pedia ajuda, e a madrasta sentiu pena, antes de qualquer coisa.

****

Quando entrou no quarto da clínica pela primeira vez, deitou na cama como quem chega a um hotel caribenho para a lua de mel. Nunca uma internação psiquiátrica causou tanta alegria a alguém. Minutos depois, a Janete chegou para a inspeção inicial. As


duas se atracaram como bichos, lambendo-se, acariciando-se com violência, uma arrancando a roupa da outra. Nessa hora pensou sem sorrir: ser maluca é bom demais!

****

Nos primeiros dias, apesar da disciplina imposta e das conversas obrigatórias com a psiquiatra, estava feliz; mas essa sensação não durou muito. Queria ir à praia e tinha que se contentar com o pátio. Queria ir ao cinema e tinha que se contentar com a televisão do quarto, ligada entre cinco da tarde e nove da noite. Ficava abraçada ao ursinho que a madrasta enfiou no meio das coisas levadas para a clínica. A Janete a visitava de manhã e à noite, e ela ficava tranquila por se fazer de maluca para salvar seu amor único, verdadeiro, perfeito e eterno e mais o monte de adjetivos que enfileirava quando falava sobre o que sentia pela enfermeira-chefe, encarando o teto escuro depois das nove da noite, quando a televisão e as luzes eram desligadas. Fazia declarações de amor para ninguém. Quem ouvia era ursinho, esmagado entre seus braços, e ela se via aos sete anos fazendo monólogos abraçada ao mesmo ursinho de sempre, já amarrotado, o único presente que ainda guardava da mãe morta uma década atrás. Abraçar o ursinho acelerava o tempo e não deixava que ela se esquecesse do que gostava e do que não gostava, do que fazia dela a pessoa que era, ou deixava de ser. A medicação diária bloqueava muitas das memórias que ela tentava travar e o ursinho impedia que as lembranças sumissem rápido. A psiquiatra insistia para que ela se abrisse mais durante as sessões, que fosse totalmente honesta e não


se travasse sobre seus sentimentos e medos, porque isso era fundamental para sua melhora. Apesar da crescente confusão mental, a Clara tinha plena consciência de que não era a melhor das estratégias confessar que tinha forçado sua internação ao exagerar alguns sintomas para não precisar se afastar da Janete, a enfermeira-chefe: o único motivo da dissimulação. Às vezes, falava demais e quase abria o jogo, mas se mantinha prudente. A prudência só não a vencia depois das nove da noite, quando encarava o teto e dizia ao urso amarrotado a verdade sobre o que sentia e o que começava a deixar de sentir. Não demorou para a disponibilidade da Janete diminuir — agora, só ia ao quarto pelas manhãs —, e a Clara concluir que a intensidade do sentimento da outra não se comparava à intensidade do seu. Quando se queixava disso, a enfermeira minimizava. Deixa de ser boba, menina. Eu tenho responsabilidades aqui. Não posso me enfiar no seu quarto por tantas horas. Se descobrirem eu vou pro olho da rua, sabia? Aí, babau, não vai ter jeito da gente se encontrar. É isso que você quer? Não, claro que não (a Clara chorava e abraçava a Janete com a mesma força que abraçava o ursinho, quase sufocando, uma intensidade que a enfermeira achava exagerada, mas preferia não comentar).

****

A Janete entrou no quarto mais cedo que de costume com um pedaço de bolo. A Clara demorou a acreditar que já tivessem se passado trinta dias desde sua chegada à clínica. Nem lhe ocorreu


que não era motivo de comemoração, porque para ela era sim: um mês da conquista da liberdade, mesmo que por alguns momentos, de estar a sós com a pessoa mais importante do mundo sem ninguém para encher o saco. E, talvez motivada pela emoção, ela contou algo que guardava só para si: vinha sonhando repetidas vezes com a caixa do supermercado. Eu vou passar as compras e não acho o dinheiro. Aí todo mundo fica rindo de mim, e eu estou pelada, e as pessoas passam a rir mais alto e mais alto ainda, aí a caixa olha para mim, bem dentro dos meus olhos, e me manda tomar no cu, do mesmo jeito que você falou naquele dia. É só um sonho, Clara. Mas eu sonho isso quase todo dia. Não liga, isso passa. (a Clara percebia a falta de paciência da enfermeira; podia ser impressão, ela já não tinha muita certeza de quase nada) Não quero mais sonhar com isso. Acordo no meio da noite e não consigo mais dormir. Talvez você deva falar com a médica. A psiquiatra? É. Mas você disse que eu não podia falar de você pra ela. Você só precisa falar da mulher do caixa. Mas eu vou acabar falando de nós duas. Se você fizer isso, eu perco o emprego. A gente não vai mais poder se encontrar. E você não vai ter ninguém pra te tirar daqui. Quer ficar internada aqui pra sempre? A Clara não sabia mais o que queria, sua única intenção era não se afastar da Janete; se ficar internada para sempre fosse a condição para não se afastarem, estava disposta a arcar com as


consequências, mas não era exatamente disso que estavam falando; as ideias se embaralhavam, ela se sentia afundando num tanque de areia movediça. Acabou se abrindo com a psiquiatra sobre os sonhos recorrentes com a caixa do supermercado, e a médica entendeu diferente. Clara, você já mandou alguém tomar no cu? Como assim? É isso que você escutou. Você já mandou alguém tomar no cu? Não sei. Acho que já. Talvez. Não estou falando de apenas dizer essas palavras, falo de dar um basta, tudo tem limite e você não quer continuar engolindo. A caixa do supermercado está dizendo o que você não consegue dizer. É o seu inconsciente, através dela, se manifestando. Acho que não é isso não. É sim. Não que você deva sair mandando todo mundo tomar no cu por aí. Nem precisa dizer nada, o importante é não engolir qualquer coisa que te empurrem e parar de se preocupar com o que as pessoas pensam, o mundo já é suficientemente hipócrita pra gente ter que aturar algumas coisas intoleráveis, não acha? A caixa do supermercado é você dizendo pra si mesma que é preciso assumir as rédeas, Clara, não deixar mais o vento te levar. À noite, demorou mais que o costume para dormir. No sonho, a caixa mandava ela tomar no cu com um megafone que ecoava por todo o supermercado, as pessoas na rua repetiam, vai tomar no cu, vai tomar no cu, vai tomar no cu, vaitomarnocu, vaitomarnocu vaitomarnocuvaitomarnocuvaitomarnocu, o mundo inteiro repetia nos seus ouvidos, ela fugia para qualquer lado sem chegar a lugar nenhum, e acordou agarrada ao ursinho molhado de


baba e lágrimas. Só um mês internada e já não sabia ao certo quem era, mas preservava a certeza cristalina de que, para onde quer que estivesse indo, estava no caminho certo. Não era uma certeza tão cristalina assim. Amanheceu e a Janete não veio, devia ser uma de suas folgas. Em dias assim, a tarde demorava a chegar. Levou o ursinho para o pátio e o deixou sob o sol, para que secasse. Sentou do seu lado, quieta, olhando em volta, esperando que a enfermeira-chefe surgisse de surpresa e acalmasse seu coração, mas sabia que isso não aconteceria. Começou a repetir para si mesma, em voz baixa, vai tomar no cu vai tomar no cu vai tomar no cu vai tomar no cu, talvez a psiquiatra tivesse razão, às vezes é preciso mandar o mundo tomar no cu. O ursinho, ao lado, permanecia inerte, cúmplice, esperando que o sol o secasse. Seu cheiro não era dos melhores, vai tomar no cu, talvez fosse melhor lavá-lo com água e sabão e trazê-lo ao pátio para que fosse secando aos poucos, dia após dia, vai tomar no cu, vai tomar no cu, continuava ali, vai tomar no cu, sentada ao sol, o ursinho ao lado, vai tomar no cu, quando foi interrompida. O que você tá falando aí sozinha? Que ursinho é esse? Porque você tá nesse canto, já te vi por aqui não tem muito tempo, por que você não conversa com ninguém, por que a Janete vem toda hora falar contigo? Você também fez pacto com o diabo? Aqui todo mundo tem pacto com o diabo, quer dizer, só as enfermeiras, as médicas, os diretores, advogados, motoristas, chefes de gabinete, vendedores de frutas, verduras e legumes, empresários, secretárias, comandantes, soldados, policiais, vigias noturnos, porteiros, moradores dos prédios, todo mundo, quer dizer, todo mundo menos eu, mas eu sei que mais cedo ou mais tarde elas vão enfiar um


microchip de óxido de magnésio na minha nuca igual fizeram com as outras, quantos anos você tem? Quem você pensa que é? Qual o seu nome? Clara. Meu nome é Elizabeth mas elas me chamam de Lili, eu finjo que acho isso uma demonstração de carinho, mas todas fazem parte do complô, é o diabo por trás de tudo, e hoje é dia oito de outubro, o dia oito do mês dez, oito mais dez é dezoito, e dezoito é seis mais seis mais seis, 666, o número da besta, a enfermeira-chefe nem está aqui, deve ter compromissos mais importantes, rituais satanistas, deve estar sacrificando dezoito criancinhas com um punhal de prata e bebendo o sangue delas, a enfermeira-chefe é quem comanda. Quando me internaram aqui ela se aproximou como quem não quer nada, e aí eu, toda carente, porra, só pensava nela, passava o dia esperando a hora dela entrar no meu quarto, a Janete, a enfermeira-chefe, cuidado com aquela filha da puta, ela tem o número 666 no couro cabeludo, você deve se perguntar como é que eu sei, claro que você vai se perguntar isso, arranquei o cabelo dela com a mão, puxei com toda a força um chumaço daquele cabelo satanista dela, e tava escrito direitinho, embaixo do chumaço que eu puxei, 666, o número da besta, não sou eu que tou falando, tá no Apocalipse, e depois eu ainda descobri que a conversa mole dela não era só comigo, ela tem um monte de namoricos com quase todas as internas do corredor C, é pra onde ela manda as pacientes que interessam mais, você mesma deve ter uma paixãozinha por ela, não tem? Confessa, Clara, pode confessar. Eu? Eu, não. Vai tomar no cu, vai tomar no cu, vai tomar no cu. Por que você tá me mandando tomar no cu? (a Clara não sabia se as palavras saíam da sua boca ou se era


apenas um pensamento, mas pela reação da Lili, a dúvida se dissipou) Ei, Clara, ouviu o que tou falando? Por que você fica repetindo “vai tomar no cu vai tomar no cu vai tomar no cu”? Acorda, garota, as satanistas já começaram a derreter o seu crânio com esses remédios, as terapias de baixo impacto, análises freudianas, jungianas, o caralho a quatro, não acredite nessas pessoas, cuidado com o que elas te contam, é tudo mentira, o demônio tá em toda parte, os meses vão passar e você vai perceber tudo piorando, não caia na conversa delas, pare de mandar todo mundo tomar no cu e tome alguma atitude. Que atitude? Não sei. Tenho que descobrir.

****

As visitas da madrasta eram burocráticas. Se em casa os silêncios eram incômodos, na clínica eram insuportáveis. As duas, visitante e paciente, queriam que aquilo acabasse logo. Vinte minutos depois, a madrasta olhava o relógio aliviada e com pena. A Clara via que era hora de voltar para o quarto e esperar a Janete.

****

A Janete entrou no quarto com mais um pedaço de bolo pelo terceiro mês. O conto de fadas estava longe de ser verdade. A


certeza dos primeiros dias foi ruindo até virar outra coisa. A enfermeira percebia a mudança na Clara, mas evitava entrar nessas conversas, ia empurrando com a barriga, até que não deu mais para virar a cara para outro lado e fingir que estava tudo bem. Você pensa em mim, Janete? Claro, claro que penso. (acariciava seu rosto num gesto vazio) Não pensa nada. Pra você eu sou só uma das pacientes que você seduz e tranca aqui no corredor C. Pensa que eu não sei? As pessoas conversam no pátio. A gente descobre muita coisa. Clara, isso aqui é uma clínica psiquiátrica, esqueceu? Não dá pra acreditar em tudo que essas pacientes falam, meu amor, que ideias bobas são essas? Eu vou contar pra psiquiatra. Contar o quê? Tudo, Janete, que você me convenceu a ficar internada aqui e eu aceitei porque era a única saída pra não gente não se separar, que eu descobri que essa clínica é o seu zoológico, onde você tranca a suas malucas de estimação como se fosse dona da nossa hora de dormir, de comer, de tomar banho, que você controla até o remédio que a gente toma. Mas é o meu trabalho, a enfermeira-chefe precisa controlar isso mesmo. Eu vou contar que você seduz as pacientes do corredor C, que eu só entrei aqui porque fingi que tava doida. E que você me obrigou. Assim a gente vai ter problema. (diz isso e segura a Clara pelo pescoço, imprensando-a contra a parede) Me solta. (a voz sai quase inaudível) Se eu souber que você andou dando com a língua nos


dentes, a primeira coisa que vou fazer é cortar seu passeio no pátio. Vai ser fácil dizer que a sua queixa é uma crise de delírio. O próximo passo é enfiar no teu braço uma medicação que vai te deixar babando uma gosma viscosa o dia inteiro sem conseguir pensar em nada. Aí não vai ter jeito, vamos ter que tentar o eletrochoque. Já ouviu falar em eletrochoque, Clara? Isso não existe mais. Proibiram. Ha, ha, ha. Aqui quem proíbe ou deixa de proibir sou eu. Pegamos você de madrugada, enfiamos um tranquilizante de cavalo pela jugular e te levamos numa maca pra sala do eletrochoque. Colocamos um eletrodo de cada lado da sua cabeça e te amarramos com tiras de couro. Depois ligamos na voltagem máxima. No dia seguinte, repetimos a dose. E no outro, também. Ninguém é a mesma pessoa depois de uma sessão de eletrochoque. Imagina depois de três, quatro. Então deixa eu ir embora daqui que eu não falo nada. Não posso confiar. Você tá muito rebelde pro meu gosto. Bateu a porta. Logo depois, entrou de volta sem dizer nada, pegou o pedaço de bolo e saiu de novo. À tarde, no pátio, a Lili se aproximou: A Janete confiscou o meu iPod porque disse que eu era muito tagarela, você deve ter contado pra ela sobre as namoradinhas do corredor C, você ia acabar falando, não posso confiar, vai ver as enfermeiras satanistas já enfiaram um microchip de óxido de magnésio na tua nuca e você nem percebeu, elas fazem isso de madrugada, depois de te darem uma injeção de tranquilizante pra cavalo; quando você acorda, só sente um leve mal estar na coluna e nem faz ideia do que elas fizeram, e agora eu que me fodo, minha única diversão era ouvir música e a satanista-chefe me tirou isso, mas ela não perde por esperar, ela não perde por esperar porque eu


tenho uma tesoura afiadinha escondida em baixo do meu colchão que eu vou enfiar na barriga dela. A Lili tinha contatos que lhe passavam itens não autorizados sem que ninguém soubesse. Principalmente remédios. A Clara ganhava um ou outro comprimido de vez em quando. E quando estava de bom humor, a Lili dividia com ela os fones de ouvido. As duas, lado a lado, o ursinho no meio. A Clara conheceu prozac, dualid, diazepan, Vaselines, Beat Happening, alprazolam, Pixies, mirtazapina, Daniel Johnston, frontal, olcadil, rohypnol, Bikini Kill, topiramato, Dinosaur Jr, dormonid, rivotril, Stooges, Breeders, succinato de sumatriptana, Butthole Surfers, lorax, lexotan, P. J. Harvey. Mas acabaram as sessões de rock no pátio graças a sua língua comprida. Apesar disso, o medo não a deixava abrir o jogo para a psiquiatra, o medo não a deixava falar mais alto porque não queria chamar a atenção, o medo a amordaçava, e se não fossem os dois comprimidinhos de mirtazapina que a Lili lhe passou naquela tarde, as coisas teriam ficado realmente insustentáveis. Ainda bem que não. Mal ou bem, a vida se arrasta. E se arrasta. E o dia começa e termina, mais ou menos como o dia anterior. As visitas matinais da Janete cessaram depois daquela ameaça. Agora só se encontravam no pátio, quando a enfermeirachefe se aproximava para dizer que ela estava na lista do eletrochoque. Era mentira. Dizia isso por pura perversidade. A Clara já era outra pessoa. Tinha medo. Pensava madrugadas inteiras no eletrochoque. A cada ameaça, sentia uma estocada na nuca, onde estava o microchip satanista de óxido de magnésio. Às vezes a


luz falhava no pátio e a Lili dizia que tinha alguém levando eletrochoque naquele momento. Parecia mesmo haver um complô demoníaco ditando as regras na clínica, não era só conversa de maluco, a cruz vermelha estampada no uniforme delas era o símbolo do anticristo, estava nítido.

****

Oi, Clara, oi ursinho. Feliz véspera de natal, vocês sabiam que hoje é um dia importante pras satanistas? Vinte e quatro de dezembro, garota, o dia vinte e quatro do mês doze. Vinte e quatro mais doze é igual a trinta e seis, e trinta e seis é um três e um seis. Três vezes o seis. 666, o número da besta, elas pensam que a gente não sabe, mas a gente sabe. Algumas malucas foram liberadas pra ir pra casa, sabiam? Não é o meu caso, não é o seu caso, nem é o caso do seu ursinho amarrotado; malucas como nós, mesmo sem ser agressivas, não foram liberadas, e vocês sabem por quê? Não sabem, claro que não sabem, vocês não sabem de nada. A gente não foi liberada porque a satanista-chefe não quer que a gente conte em casa que elas idolatram o satanás aqui dentro, que elas seduzem as malucas mais bonitinhas como nós e enfiam tranquilizante de cavalo na nossa jugular e microchip de óxido de magnésio nas nossas nucas. Se a gente disser isso pra alguém, vamos parar na sala do eletrochoque e ficar com o cérebro frito que nem um bife esturricado. Daqui a pouco sua madrasta vem aí pra te visitar e perguntar se você tá precisando de alguma coisa, mas você vai ficar desse jeito, calada, com essa cara de boba, dizendo que “tudo bem”, “tou melhorando”, “vou ficar boa”, e essas merdas que você repete.


Umas frouxas, nós somos umas frouxas, não temos coragem de fazer nada. A satanista-chefe se aproximou com cara de poucos amigos, puxou a Clara pelo braço, interrompendo a conversa sem dizer coisa alguma, e a conduziu para o jardinzinho porque a visita tinha chegado. Nem precisava dizer nada, a ameaça estava clara na maneira como segurava seu braço. Melhor ficar quieta. Faltou ideia de assunto à madrasta. Ficaram as duas sentadas, lado a lado, no jardinzinho de inverno em frente à recepção. A Clara cogitou avançar pela recepção, dar um tranco na secretária, pular o muro e sair correndo pela rua. Mas sabia que, dopada, não teria forças. Devia ser o tranquilizante de cavalo correndo nas veias. O silêncio era maior que tudo. Pelo menos estavam lado a lado, o que as poupava do desconforto de terem que se encarar nos olhos. Qualquer comentário era respondido com monossílabas. A madrasta perdia as esperanças de que uma melhora de fato ocorresse, a Clara não conseguia mais conter a língua nem a saliva dentro da boca, e achava que com o tempo as coisas iriam apenas piorar. Quando se despediram, desejando feliz natal, dividiam caladas a certeza de que o pior estava por vir.

**** No dia seguinte, a enfermeira-chefe foi chamada. Uma paciente do corredor C tinha se enforcado com uma tira de lençol. Quando entrou no quarto, viu o ursinho ao lado do corpo, sobre a cama, com um bilhete dobrado na mão entreaberta. Janete, vai tomar no cu.


O rosto da Clara, meio branco, meio azulado, encarava o teto e parecia sorrir, mas nĂŁo dava para ter certeza. certeza.


School Árvores do cerrado não dão sombra Débora Ferraz

Tenho que dar um jeito de dar o fora daqui.

**** Olhei para a porta fechada. Comecei a contar: sessenta, cinquenta-e-nove, cinquenta-e-oito... Um minuto. Em um minuto o camareiro daqui do hotel, vai vir, vai destrancar a porta por fora, com seu chaveiro imenso, vai abrir meu quarto sem permissão e se assustar. — Desculpe — vai dizer — Não sabia que a senhora estava aqui.


E, de novo, vou fingir não me importar... — Não tem importância — direi. Como se não já tivesse acontecido — Pode entrar.— como se não soubesse que ele vai falar sobre a água. — É que tenho que repor a água — ele apontará para a garrafa de mineral à sua mão — disseram para eu repor a água do frigobar — como se isso explicasse a invasão ao quarto — Eu posso voltar depois — dirá; o quarto pelo qual alguém pagou — Se a senhora preferir — para que eu pudesse descansar. — Já disse para entrar — repetirei. Trinta-e-dois, trinta-e-um, trinta. Meio minuto. Em meio minuto passaremos por tudo isso de novo. As coisas se repetem. As frases se repetem. Estou na escola de novo — penso. De cinquenta em cinquenta minutos entra alguém novo na sala, mas você está preso.

****

Não é a primeira vez que tento deixar esta cidade. Este hotel. A conferência foi cancelada por falta de público. Chove, o ar pesa e o hotel fica na beira da pista, perto do rio. Não tenho mais nada pra fazer aqui, mas é claro que isso não tem importância. Que horas são? Eu não saberia responder. Meu relógio ficou maluco com o fuso horário. E estamos sem rede e sem energia para que ele regularize sozinho. Tentei, claro, acertá-lo por conta própria. Não consegui. Eu poderia me basear na direção das sombras, mas está nublado. E quando falei nisso, em adivinhar a hora pela sombra das árvores, a moça da empresa, que me recebeu aqui e que mora aqui, riu de mim. Riu e falou: árvores do cerrado não dão sombra. Me


senti tão idiota.

****

Três, dois... O som do chaveiro. Alguém força a tranca pelo lado de fora. Forçam a tranca. Eu, aqui dentro, fiquei bem assustada da primeira vez. O camareiro vai estranhar. Lá vamos nós de novo. Sim, a água. — Desculpe — ele diz — não sabia que a senhora ainda estava aqui. Tudo de novo. No fundo, não há grandes razões para o constrangimento. Eu não estava me vestindo, ou desvestindo. Não chorava, não dormia, não injetava droga, nem nada. Nada que pudesse constranger nenhum de nós dois. — Pode colocar — eu digo — Entre — digo entediada, fechando o laptop, fazendo um gesto de desdém com a mão — Não precisa ficar todo sem jeito. — Não estou sem jeito — responde. — Não? — Não. Ele entra. — Por que não?

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Na primeira vez, desci para o balcão para fazer o check-out,


nervosa, procurando, com os olhos, o motorista. Foi quando o recepcionista, no balcão, me perguntou: seu voo é o das três e meia? E sim, o meu voo era o das três e meia. Confirmei. Sim, o senhor poderia, por favor, me chamar um táxi? Abri a bolsa, puxei a carteira, o cartão de crédito... E que horas será que são aqui? Pus no balcão a garrafinha de água que havia pegado no frigobar e a minha chave da porta. Houve consumação de uma água, me antecipei em dizer. Ele continuou só me olhando, não fez nada, não consultou o computador. Não recebeu o cartão. Ele disse: foi cancelado. Você precisa ver como fica esse “foi cancelado”, no sotaque, na entonação desta cidade. Parece que... Bem... Parece que estão lhe chamando de idiota. E, como assim foi cancelado? O sono. O sono ainda retumbava e confundia minhas ideias. Preciso acordar, era o que eu me dizia. Como ele podia saber do meu voo? O comandante tá dormindo no segundo andar. Não entendo. O comandante do vôo das três e meia, foi o que ele disse, Ele está aqui no hotel, mas continuo não entendendo. Ele está hospedado aqui e está dormindo no segundo andar. E depois volta a me chamar de idiota só com a entonação. Não é este o seu voo? Mas continuo não entendendo. Eu não sei. Não sei o que eu faço, então, neste caso. Claro. Claro que já tive voos cancelados, você sabe, mas nunca antes de sequer sair do hotel. Ir ao aeroporto mesmo assim? Lá eu poderia obter uma informação. Conseguir um café forte, que me acordasse... Está tudo fechado lá esta hora, ele me explica. Eu continuo com o cartão estendido. Parada no meio do


gesto de pagamento. Ele dá de ombros. Não sabe de nada. Não é com ele. Aponta o relógio. Sugere: A diária só termina às duas da tarde. Por que não volta a dormir?

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De novo. O camareiro olhando lá dentro do frigobar. Claro que não fica constrangido. E não é um camareiro, de verdade, mas como chama a pessoa que fica encarregada do frigobar? Nada constrangido, não é? Eu sei. Não fica constrangido porque vocês fazem isso o tempo todo. Ficam abrindo as portas que não devem. Eu medito profundamente, observando-o fazer seu trabalho, sentada, de pernas cruzadas. Assistindo-o ver que as garrafas estão completas. — Algum problema? — pergunto. — Hum. Acho que houve engano. — ele diz — O sistema diz que tinha uma garrafinha pra repor... Mas estão as cinco aqui... — Sim...— digo, compreensiva — e que o check out tinha sido feito, não é? Ele sorri. Pede desculpas. Sorrio de volta. É a única vingança que você pode ter nesse caso. Já que esses filhos da mãe resolveram me prender aqui e ficam abrindo minha porta. — Com licença — ele diz. Saindo com a mesma garrafa com que chegou. Quase digo: até daqui a cinquenta minutos. Seria injusto. É injusto. Não é culpa dele. Volto a abrir a tela do laptop para escrever o e-mail que nem vou poder enviar. Explico: Você vai falar que tenho mania de


perseguição, digito, mas já tentei deixar esta cidade tantas vezes... Quarenta-e-nove-e-cinquenta-e-nove; quarenta-e-nove-cincquenta-eoito; quarenta-e-nove-e-cinquenta-e-sete. Cansei desse trabalho de merda. Penso. Quarenta-e-nove-e-cinquenta-e-cinco. Cansei. Quarenta-e-nove-e-cinquenta-e-três. Me resta contar os segundos. Quarenta-e-nove-e-cinquenta-e-dois. Você vira um mestre da contagem de tempo quando viaja demais.

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Mas a segunda vez também não deu certo. Eu havia acordado com o primeiro camareiro que entrou se desculpando: Não sabia que a senhora ainda estava aqui, ele disse. E estava certo, ele. Eu não devia mesmo estar. Desci com a mala, pelas escadas, correndo. Fui até o balcão para o check out. Mas como o motorista não veio?, perguntei, indignada. O moço do balcão era outro, o sotaque, o mesmo. E eu tentei contar, e me fazer entender. Explicar de novo. Explicar tudo, do voo cancelado, do que eu soube pelo telefone, dos fusos horários, do comandante dormindo no segundo andar... Se pelo menos ele se forçasse a prestar atenção. Mas não. Só tinha as respostas automáticas. Ninguém veio. Então o senhor poderia, por favor, me pedir um táxi. Urgente? Mas não era pras oito, seu voo? Corrigi: É as oito! Quis dizer: Tenho esperanças. Mas ele me apontou o relógio de parede: oito e dez. Acho que a senhora está sem sorte, pareceu piada, mas ele não ria, Se quiser, pode ir tomar o café da manhã e apontou, ao


longe, É lá, disse, no fim do corredor. Voltei ao quarto, voltei com a mala e fui tomar café.

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As coisas repetem. As frases se repetem. Eu tento explicar a ele, no e-mail. Digito uma frase copiada de um livro qualquer: “A vida, a rigor, é um conjunto muito reduzido dos mesmos temas, das mesmas situações, dos mesmos gestos inúteis...”— quero lhe explicar que não vou poder, não vou conseguir viajar. Que o trabalho está intenso, que tem mais conferências pra fazer — “Perceber as similaridades entre os instantes isolados pode colaborar com a ilusão de permanência.” — eu enumero os aeroportos, viagens que ainda devo fazer, como se isso pudesse forçá-lo a ver uma relação, a ter a sensação que estou, aos poucos, me aproximando. Que estou em movimento ascendente em sua direção. — “Não revivemos, mas prolongamos, ou supomos prolongar, os momentos de maior intensidade e ternura, já devorados pelo tempo” — e não presa no mesmo círculo vicioso, contando minutos, numa cidade sem sombras. — “Somente isso justifica que depois de termos amado nos encorajemos a amar outra vez”. — Apago a última frase. O e-mail termina com a palavra “tempo”, parece mais adequado. Trinta-e-cinco-e-cinquenta-e-cinco, trinta-e-cinco-e-cinquentae-quatro. Vou até o frigobar, tiro a garrafinha e esvazio, de novo, na pia do banheiro. Foi bobo, isso, de repor a garrafa usando água da torneira, admito. Mas não há muitas vinganças possíveis. Reabro o email. Digito um P.S.: Lembra daquele filme que você recomendou? Do homem que fica preso no tempo?


Trinta-e-cinco-e-vinte; trinta-e-cinco-e-dezenove... Eu olho pela varanda do quarto o céu nublado, uniforme. Trinta-e-cinco-e-dez; trinta-e-cinco-e-nove... Eu olho a porta fechada. Não há tantas vinganças que eu possa executar porque é preciso tratar com cuidado aqueles que fazem a comida que você come, que fazem a cama para que você durma. Abro a blusa. Continuo o e-mail, mentalmente, estou bolando um plano. É o que penso em escrever. Estou bolando um plano pra dar o fora daqui. Tiro a blusa.

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A empresa ligou dizendo que o voo tinha sido remanejado para as três da tarde. Eles pedem desculpa. Juraram que, desta vez, o motorista estará me esperando à uma e meia no saguão. — Não há problema, pode ficar no mesmo quarto. A diária só acaba às duas e mesmo com o check out feito, sim, mesmo assim, posso voltar e esperar com algum conforto a hora de ir. Só não vai ter como reverter o check out, explicou o moço do balcão, porque o sistema está fora do ar. Voltei para o quarto. E é assim que volto. Que explico para o primeiro camareiro. Para o segundo. Sim, você veio. Sim, você não tinha como saber pelo sistema. Sim, o sistema acusa o consumo de uma água. Mas, sim, eu trouxe de volta quando tive que voltar, eu mesma, pro mesmo lugar. A mesma história para o camareiro às nove, para o que veio às nove e cinquenta... E uma hora você começa a desconfiar que estão de brincadeira contigo. Entenda, você quer dizer, Eu bem que queria ter ido embora. Eu quero, mais que você


imagina, dar o fora daqui. Mandar este e-mail... Mas o sistema está fora do ar pra mim também.

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Então cansei. Sessenta. Cinquenta-e-nove, cinquenta-e-oito. Eu deixo a roupa dobrada, para não amassar, em uma das camas de solteiro e sento-me completamente nua à mesa. Pela varanda você ainda consegue ver o rio, as árvores sem fazer sombra. Eu penso na frase que omiti do e-mail. Penso no atraso, nos voos repetidos que pego, todos indo para o lugar errado. Preciso deixar esse trabalho. Mudar de profissão. Firmar numa cidade, sabe? Penso. Conto o tempo. Vou contando e olhando o nada estendido no horizonte cinza, denso. Cinco, quatro, três... O som do chaveiro. Alguém força a tranca do lado de fora.


Love buzz O vazio dos espetáculos Helena Terra

Depois que a pedrinha afunda, ele fecha os olhos, gira o dedo no copo e sente o círculo ondulando, encharcando a unha e os pensamentos. Há tempo que vinha desidratado, desfolhando os dias, os planos e o corpo, sentindo-se nem contente nem o contrário, ouvindo-a ora demais e ora demasiado. Ela não lhe deu chance de falar. Pegou as chaves, abriu a porta. E isso foi tudo. Depois que ela pegou as chaves e abriu a porta, o coração dele rangeu e escorreu pelo silêncio da casa, com quem mesmo ele havia rompido, questionou-se, rodando mais leve e simpático ao vazio recém instalado sobre os discos de vinil, os quatro cantos do lar, das coisas e de todos os seus pedaços. Ela não lhe deu chance de falar. Chutou o gato, jogou os livros, o abajur, o telefone, pegou as chaves, abriu a porta. E isso foi tudo. Depois que o coração dele rangeu, o vazio rolou ainda mais


um pouco e se estendeu feito elástico, abrindo nova passagem no caminho pisoteado, obscurecido por ela e sua natureza uma última vez despejada em sua cara, na toalha de rosto, de banho e na camisa dele jogada sobre o vaso. O vazio adora um espetáculo. Ela não lhe deu chance de falar. Vomitou na cama, despencou no tapete, tremeu, levantou, chutou o gato, jogou os livros, o abajur, o telefone, pegou as chaves, abriu a porta. E isso foi tudo. Depois que o vazio e o vaso testemunharam o espetáculo, forçando o protagonista a entrar em cena para recolher restos, tanto o suor quanto as retinas, revelaram os coadjuvantes e seus detalhes cada vez mais e mais irrevogáveis. E ele e o vazio e os discos de vinil e a natureza dela e as toalhas e sua camisa e a solidão da verdade, todos misturados, caíram a seus pés alvos brancos de outros leites derramados. Ela não lhe deu chance de falar. Abriu o notebook, ouviu Love buzz, colocou os óculos, viu os beijos, os bíceps, os trapézios, as coxas, vomitou na cama, despencou no tapete, tremeu, chutou o gato, jogou os livros, o abajur, o telefone, pegou as chaves, abriu a porta. E isso foi tudo. Ou um pouco menos do que ele esperava.


Dive O cadáver Marcia Barbieri

Para Fernando Rocha

Um cadáver costurado nas costas. Não, não estou mentindo! Ah, que bom seria se fosse mentira! Ah, sim, eu respiraria aliviado! Não precisaria fingir uma sonolência e um entorpecimento eternos para fugir dos seus sermões. Sim, ele canta baixinho no meu ouvido: Pick me, pick me yeah/ Live alone, lone single/ At least, at least yeah/ Everyone is hollow... Sim, o tempo inteiro sussurrando no meu ouvido, minhas orelhas queimam feito fogo. Quem me dera ele fosse um defunto mudo. Admirava as pessoas articuladas, mas só encontrei fluência e verdade nos homens calados, por isso, me dava certo prazer escutar histórias de torturadores que retiravam a língua


de suas vítimas. Não eu, eu sou fraco demais, não teria coragem de arrancar a língua daquele defunto filho da puta, estava fadado a escutar ininterruptamente a sua ladainha, suas lamúrias. Eu só queria mesmo criar mínimos milagres com as mãos, no entanto, era canhoto e o sonho de ser mágico tornou-se uma piada de mau gosto, já no jardim da infância eu sabia, demoraria mais tempo que as outras crianças para abrir uma lata de sardinha. Isso foi antes, muito antes, agora cresci, embora guarde certo receio dos peixes e das embalagens quase invioláveis de alumínio. Estava há duas semanas perambulando pelas ruas, meu corpo suava, do meu dorso escorria um suor espesso, pensava nas glândulas sudoríparas das cobras... nas enguias que atravessavam as carcaças sem vida... nos caranguejos que andavam pelas laterais... nas iguanas e sua falsa aparência de ferocidade. O cadáver finalmente tirara um cochilo, isso me deu um pouco de descanso. Eu tinha me transformado nisso, uma espécie de flâneur mórbido, de caixeiro viajante com uma estranha encomenda, duas semanas de uma suposta liberdade, quanta ingenuidade acreditar que é possível erguer a perna direita e colocá-la por cima do joelho esquerdo e sair ileso de comentários, qualquer grunhido gera meses de discursos, por isso, preferia a catatonia à mania. Quase todos os loucos são falantes compulsivos, talvez isso seja a única coisa que me irrite neles. Sai depois de quatro meses de confinamento forçado. Vocês sabem, ele é perigoso, é uma ameaça a si mesmo... Eu deveria aprender a dar importância para pequenas coisas, como o nascer do sol, o mato crescendo, as montanhas, o jardim florido, a luz dos postes iluminando os becos escuros, o cachorro abanando o rabo, os gatos saltando os muros e desafiando a sorte, as pipas simulando acrobacias no céu, as formigas devorando as baratas que tentam


atravessar a soleira e todo esse blá blá blá cheio de eufemismos de quem nunca conseguiu sentir nenhum parafuso enferrujado atravessar a pele, nenhum tétano devorar o cérebro, conselhos de pessoas que viveram na superfície transparente e insossa das coisas. Eu não, eu gostava do espetáculo, dormia debaixo dos holofotes, mas eles apontavam para a tragédia alheia. Já minha mãe nunca sofreu com isso, ela era o centro dos holofotes, ela e sua esquizofrenia. Não entendia o fascínio que a loucura provocava em mim e nem por que pouco a pouco esse fascínio se transformou em asco. Quando eu tinha uns oito anos, minha vó contava as histórias de nossos parentes loucos; a mim eles pareciam de uma árvore genealógica longínqua e inimaginável... Eu escutava passivo e deslumbrado, acreditava que havia certa genialidade incompreensível na loucura. Contava do seu irmão João que enterrava o rádio e no outro dia desenterrava, voltava a enterrar e depois desenterrar num movimento incessante e contínuo e foi a única coisa imprescindível que ele fez na vida. Depois completava dizendo que talvez aquela alienação tivesse sido herança do tio epiléptico. Não entendia por que espasmos eram comparados à insanidade, mas não era importante decifrar... E do primo de segundo grau que todo entardecer estendia uma vara de pescar no quintal e esperava fisgar um peixe laranja e com pálpebras. Porém, para este era preciso dar um desconto, era escritor e faz parte do ofício do escritor tentar pescar esses tipos de peixes invisíveis. Ela continuava sua narração enquanto as torradas soltavam um cheiro bom de conforto, já eu, suspirava (eu não sabia se era alívio ou arrependimento ou um misto das duas coisas) bem, eu sou normal, falava isso e acrescentava que sempre sonhou em aprender tocar piano e por isso, tinha os dedos rasgados de tanto dedilhar as mesas


de madeira maciça, naquele tempo os móveis não eram a porcaria de hoje, esse material prensado e descartável. É verdade, as cartas estavam todas ali, bastava ler, eu era novo demais para entender. Os genes da loucura já estavam incrustados nos meus ossos, era uma herança que não tinha forças para renegar. Minhas costas doíam, ainda sentia minhas mãos amarrando e abraçando minhas vértebras. Não me amava, não fui capaz de experimentar esse amor próprio de que falam tanto os psiquiatras e os terapeutas, não gostava de ninguém, embora suportasse a companhia de um chacal, se acaso conhecesse um. Mesmo repugnando minha extensão, durante a loucura era obrigado apalpar meu próprio corpo, como se dessa forma eu pudesse ter consciência da minha importância, no entanto, a única coisa que percebia era o tamanho da minha impotência. Sim, eu consegui os holofotes e eles eram povoados de espectros. Eu era louco, entretanto, não havia nenhuma genialidade em mim e se alguém ousou me comparar a Van Gogh isso se dava apenas pelo fato de eu ter perdido uma das orelhas no manicômio. Depois de alguns minutos, o cadáver despertou e de novo os sermões e de novo a música ressoando no meu ouvido: Pick me, pick me yeah/ Live alone, lone single/ At least, at least yeah/ Everyone is hollow... E de novo os seus conselhos torpes: Vamos, não seja tonto, entre nessa boate, ninguém vai perceber que é louco. Veja, eles bebem para fingir uma loucura que lhe foi entregue de graça, sem o mínimo esforço. Ele tinha razão, eles tentavam obter uma insanidade que eu tento extirpar desde a adolescência. Antes de amanhecer saímos da boate. Andamos até a praça,


parei e sentei em frente a uma pequena fonte, peguei minha vara, estendi sobre aquele minúsculo lago artificial. Não fisguei nenhum peixe, nem os mortos que boiavam calados na superfície, desde o princípio desconfiei que os peixes não se enterneceriam com as tragédias e as escamas opacas dos maníaco-depressivos.


Molly’s lips Molly Mariel Reis

1. Em conversa, com um amigo, ele afirma ter dividido, em tempo distante, meu único vício decorrente da fome. Como possui discernimento comprometido - profunda confusão mental - caracterizou minha passageira dependência química erroneamente, além de ter evocado uma falsa lembrança, inserida sabe-se lá como no acervo de sua memória. Não me animei em censurá-lo, porque minha experiência com estupefacientes, supervisionada por um racionalismo atípico, baseou-se em Freud e suas prescrições para afecções nervosas, com igual método: sua diluição em água. O meu escrúpulo era tal que minha pesquisa descia aos detalhes das quantidades do produto prescritas pelo inventor da psicanálise. No entanto, tecnicamente, mesmo sem dependência, a literatura médica me tomaria como um adicto, um termo elegante aplicado ao indivíduo afeiçoado a qualquer substância de uso alucinógeno. É curiosa a in-


terposição de lembranças falsas geradas pelo estado de confusão mental. 2. A ciência, em suas pesquisas, descobriu que o uso de estupefacientes, como a maconha, produz memórias falsas a partir de palavras iscas. O corpo reage a elas como a mesma intensidade com que reagiria a uma experiência real. O meu caso, em meu breve envolvimento com substâncias ilícitas, repousa sobre uma condição singular: a minha utilização da droga baseava-se em seu poder de inibidor de apetite e produtor de euforia. Além de provocar o aumento de alerta em meus sentidos como se uma corrente elétrica percorresse meu corpo, mantendo-o imantado ao que quer que me tomasse atenção. Em sua maior parte, o uso se deu quando na faculdade. Nela, cursava o período noturno, após exaustiva jornada de trabalho meu cérebro parecia afogado em relâmpagos, minhas associações, quase sempre sem comprometimento da lógica, se aceleravam e me punham em contato direto com o cerne de um texto aparentemente hermético. Não posso desprezar a minha inteligência, porque se fosse um boçal de nada me serviria o melhor combustível para um motor medíocre. 3. As minhas reflexões sobre meu ingresso, permanência e saída do uso de estupefaciente me lembra o período em que a fome era minha companheira constante. A ilustração correta acerca de minhas acompanhantes seria uma dama diáfana, com coloração levemente avermelhada nas maçãs do rosto e nariz, com ruivos cabelos a lhe cair pela cintura, coquete e contaminada por uma alegria frenética - a cocaína; e a outra, uma dama gorducha, aparada por pés finos, cercada por criados que lhe serviam canapés, acepipes e outras iguarias que recheariam o ventre inchado, lançando, vez por outra, olhares ao faminto que tomava por "cavalo", como é dito no baixo-espiritismo, hipnotizando-o com o brilho dos talhares, com o gume de uma faca acertada sobre um prato vazio. Nunca desposei o vício como uma finalidade estritamente ligada ao prazer e ao rego-


zijo causado por suas fantasmagorias ao espírito. Influenciado por leituras acerca de seus poderes, como se de fato existissem sem uma inteligência e sensibilidade superior a lhe ditar as regras, encaminhei meu período com método, anotando o comprometimento psíquico ou transtorno físico decorrente. 4. A afecção nervosa pela repetição do sofrimento em gente menor do que a droga sempre me pareceu contraditória, além de determinante de um caráter patológico que muito pouco deve a substância, embora não se possa inocentá-la, sem recriminação social. A dependência é uma variável que muito se liga ao organismo e suas reações, encontrando maior ou menor felicidade na razão identitária da pessoa, no matiz de seu psiquismo e em sua disponibilidade para a infelicidade. É temeroso se afirmar que são os mais infelizes os mais dependentes do que aqueles em polo contrário, mas não seria incorreto. Se a imersão em um caldo psíquico com maior referencial pode fornecer a viagem maior riqueza, a felicidade pode ser antídoto à estagnação em experiências como a do sofrimento. É uma teoria complicada, cercada de um fervor religioso, mas sempre me parecerá mais saudável aquele que não se permite escravizar por nada além de si mesmo. E não é verdade? Talvez. 5. Meu amigo, por não saber, me levou, com exclusividade, a levantar a lebre de uma dependência, sem consequência, de minha juventude aliada a conjunções intelectuais que me serviram como apoio - sem o qual meu desmoronamento seria inevitável. Contudo, equivocado, ele, meu amigo, confia em ditames de uma consciência torturada, sem felicidade, compartilhando comigo o que não me pertenceria se me viesse gratuitamente - o sofrimento. E se não bastasse, lamentava-se acerca de algumas linhas a respeito da própria vida como que a subestimando ou a depreciando, com pouco ou nenhum proveito do que lhe tem ocorrido. Não posso demovê-lo das ilusões com as quais se cercou ou demoli-las para lhe apresentar o que de fato se deu, porque ele, instalado confortavel-


mente, habitando com fantasmas, fecha com cera os ouvidos, preferindo a voz demente que lhe insufla aventuras, repletas de culpa ou de ódio ou de autocensura. Por certo meu prazer não está por ali… 6. O aleijão apontado pelos puritanos ou as associações em que se reúnem para a jeremiada não me parecem em nada com o impulso com que muitos foram recebidos, a primeira vez, nos portões da enorme mansão luxuriosa da imaginação. E os modos com que a condenam - a droga -, tomando-a por inconveniente, como se ela apenas fosse o vetor de desgraça, não me parece justo. Eles parecem miseráveis, mais miseráveis do que aqueles que perderam a alma, porque, em um pacto, como trair a palavra empenhada? Negar o cicio amoroso? Eles o fazem, sempre, chamam de partilha. Um clube de maledicência da ex-mulher. Uma vampira, era uma vampira. Estendem os braços secos, os olhos baços e ressequidos, sem traço no corpo de antiga alegria, clamam sua punição. Alguns, os mais descolados, tomam a tipinha por nome: Molly, Molly, Molly repetem em transe. Ela não está lá, não levará ninguém a lugar algum. O pacto foi quebrado. Ouço: "Quem quer dançar com o demônio?".


Aneurysm 1993 Maikel de Abreu

A sirene tocou. Deixamos a sala de aula, o oitavo ano, que começasse a nova etapa. Mentira. Que demorasse. Todos queriam as férias. A multidão se dispersou pela rua, os da turma oitenta e um começaram a retirar caixas de ovos debaixo do carro da diretora. Alunos enchiam bexigas com água e farinha. Os alvos eram as meninas, que corriam e gritavam. Uma guerra, que na primeira hora da tarde se revelaria como um bizarro ritual de acasalamento. Outros, rasgavam cadernos, livros didáticos, jogando-os pela rua ou para o alto, enquanto os ovos se espatifavam contra as paredes amarelas e descascadas da escola. E eu, querendo falar com Francesca. Porque não sabia onde ela morava, e depois daquele


ano, segundo boatos, abandonaria de vez o estado junto com a família. Mas nada de Francesca em nenhuma parte do tumulto. Uma bexiga estourou contra a calçada, próximo aos meus tênis m-2000, talvez o bem mais valioso de toda a minha vida até então. Foi Diógenes, repetente por duas vezes na oitava, veio correndo na minha direção carregando outra bexiga cheia de farinha e um líquido duvidoso - ingenuidade minha se acreditasse que era só água; no ano anterior ele encheu uma com o próprio mijo. Corri sem olhar para trás. Mas, para minha sorte, Diógenes, pesado e fumante precoce, deve ter desistido na terceira quadra. Foi quando parei para descansar - curvando-me sobre os joelhos e respirando fundo - vi Francesca correndo do outro lado da rua. Ela teve menos sorte, foi alvejada por uma bexiga no meio do peito. Minha timidez havia sumido; no cansaço sempre parece que nada temos a perder. “Eu queria falar contigo”, disse ela, arfando. Eu fiquei surpreso, a vontade parecia ser toda minha. “Sobre o quê?”, perguntei. “Comprei um disco de uma banda muito boa. Lembro que tu disse que gostava de rock. Quer subir lá em casa pra escutar?” Subimos apenas mais duas quadras. A casa de Francesca era modesta, de madeira, azul celeste, com seis anões desbotados sobre o gramado do quintal exíguo, repleto de roseiras e jasmins. Quando tirei meus tênis na entrada, Francesca riu da minha educação. Na sala, numa poltrona reclinável, repousava sobre a cabeceira uma nuca grisalha e imóvel. “Pai, trouxe visita”, ela disse, quase gritando, competindo com o volume da televisão. A cabeça não se moveu. Francesca desligou a tevê. “Gente, que insuportável isso! Que mania de colocar essa televisão sempre no último volume!” Francesca tomou o controle das mãos do pai num


movimento rápido e enérgico. Nada da cabeça se mover, muito menos se ouviu qualquer objeção. Quando fui cumprimentá-lo, me deparei com um rosto vagamente expressivo. Uma mangueira fina e branca introduzida na sua narina esquerda, presa a um pedaço de esparadrapo na ponta do nariz, e um fio de saliva esticado do canto da boca até um babeiro rosa lhe emprestavam um ar paradoxal entre a infância e a morte. O braço esquerdo estava dobrado, enrijecido contra o peito, como se protegesse algo valioso, porém invisível; o outro braço, cuja mão parecia esboçar algum sinal, movia-se debilmente como que reclamando o controle remoto. Não olhei para os lados. Nesses momentos sempre preferi o silêncio. “Isso é o que sobrou do meu pai. Ele come pelo nariz, sabia? Essa mangueira aí vai direto pro estômago.” Deixei escapar um “Legal” e logo corei. Os seus olhos azuis que antes estavam dedicados à televisão agora fitavam a minha cara que não conseguia dissimular o embaraço. Francesca saiu novamente e voltou empurrando uma cadeira de rodas. Colocou a cadeira ao lado da poltrona e travou os pneus finos de borracha. Pediu-me licença e ficou na frente do pai, encarando-o por alguns segundos. Ela estendeu a mão. “Hora de levantar”, ela disse. Ele agarrou a mão dela. “Levanta”, ela ordenou com veemência. Ele inclinou o tronco para frente num só movimento, empregou força em uma das pernas, levantou a poucos centímetros do assento apenas. Acabou sentando novamente. “Pai! Força tu sempre teve!” Novamente ele repetiu a manobra, e com esforço, apoiava o peso de todo corpo sobre uma perna só; notei que a outra perna terminava em um pé torto que mal encostava no chão. A barra da calça de algodão tremia na cadência dos espasmos musculares da perna. Ele ia cair de novo quando eu o segurei. “Por que tu fez isso? Ele se ajuda.” Fiquei calado, mas continuei segurando-o por baixo do braço direito. Ela


olhou para ele e disse: “Tu tem sorte que ele é muito gentil! Comigo as coisas não são assim, hein!” Finalmente conseguimos colocar ele na cadeira de rodas. “Hora do banho de sol, pai”. Conduziu a cadeira para fora da casa. Logo em seguida fomos para o quarto. Sobre a coberta de patchwork, repousava o disco. A pintura tosca que representava dois bonecos na capa não me despertou muito interesse. Francesca retirou o disco com a ponta dos dedos da mão direita e o levou para a sala. Quando ouvia a guitarra dedilhada, tímida nos primeiros seis segundos, Francesca reapareceu, sem a camisa, apenas de sutiã. “Seca pra mim?”, e jogou-me uma toalha. Pressionei gentilmente a toalha contra a pele alva, entre os seios. Logo ela fez a peça íntima escorregar para a cintura. Larguei a toalha e rocei a ponta do meu nariz no busto cuja silhueta pairava sobre o imaginário masturbatório de pelo menos metade da turma 81. O som do bumbo e da guitarra vertiginosa reverberava pelas paredes finas de madeira. Francesca subiu sobre o meu corpo inerte pela inexperiência. Depois, a cada movimento canhestro meu, podia perceber nela um sorriso de regozijo. Foi rápido, pouco ficou na memória. Apenas o fim muito claro: minha porra projetada contra o seu rosto. Ela, então, deitou sua cabeça sobre a minha barriga, os cabelos loiros cobrindo parcialmente o seu rosto. Não pude acreditar que perder a virgindade, esse rito de passagem tão esperado, passasse tão batido. Sonhei, sonhei muito, todas as noites. Mas todos os sonhos, sem exceção, terminavam antes da penetração. Enquanto recobrava o fôlego, meu olhar parou na tira de luz solar irradiada no teto, infiltrada pela persiana semiaberta da janela do quarto. Uma lufada de ar vinda da sala refrescou o ambiente.


Persegui com os olhos a tira de luz que se alargava conforme a persiana se abria com o vento, e lรก, emoldurada pelas esquadrias de madeira, estava a cabeรงa grisalha, o par de olhos azuis, e a boca esboรงava um sorriso. Olhei para Francesca, e o sorriso era o mesmo.


Serve the servants Estuário Maurício de Almeida

I tried hard to have a father but instead I had a dad

Não consigo controlar o desnorteio de meus pensamentos em meio à parafernália que entulha esta sala, não sei o que busco neste lugar. E, já irritado com a excitação de rodoviárias e com o tempo que custou a viagem entre Porto Alegre e Tapes, o desconforto que me acompanha desde que entrei no ônibus para vir até aqui é agravado pelo calor dessas fortes luzes acesas sobre mim, o suor segue o lastro de um fio serpenteando meu peito sob a camisa para dar o bote no meu pescoço, um microfone de lapela


registrando tudo que não digo, as coisas que não consigo dizer. Esse incômodo incita reações que não realizo, porque uma voz feminina irrompe — estamos prontos e ao mesmo tempo que providencia um frágil e fugaz alívio — vamos começar? desvenda e impõe a realidade do que acontece por se dirigir também à razão de todo impasse, questão à qual não encontro respaldo: meu pai. Escoltado pelo remoinho que se cala sob imperativo com o qual ela nos rege a todos — vamos reforço a crença de que estar ao lado dele seja mais que apenas me submeter a uma dor desnecessária na expectativa infundada de confrontar a felicidade que sinto. Entretanto, sentado neste sofá sem saber como me portar, já não tenho certeza alguma. Afinal, como posso ter vindo para falar sobre minha felicidade se mais graves e desajeitadas são minhas ideias em um curso desordenado, batendo-se no fluxo nada amistoso como se um rio impaciente à jusante? Haverão de desaguar onde? Enquanto tudo e todos se postam à ação respondendo a assertiva daquela voz, esforçome para articular um pensamento que contenha o imprevisto dessa situação e me resguarde da intemperança, uma frase de salvação que busco e não encontro – e a voz daquela mulher mais uma vez — vamos começar (teria ela consciência da movimentação que engendra em mim?) enjaula a agitação da sala (sequer respiro) resumindo-a à concentração dos dois homens ladeando a


televisão para mirarem frontalmente com suas câmeras eu e ele. E, antes de me sentir mais desconfortável, uma claquete estampe e então um silêncio que aflora o agitado e inconstante pulsar em meu peito, o ressoar ríspido da respiração dele, um silêncio até ela dizer — gravando e os câmeras se concentram no pai sentado neste sofá no qual me encolho quando ele estende o braço e pega sobre a mesa de centro o controle do videogame para encher a sala com explosões e tiros, o recarregar de cartuchos de uma metralhadora, uma cena de guerra que captura toda atenção dele. Surpreendo uma movimentação sorrateira às costas e aos poucos descubro ser mais um câmera, que maneja com cuidado seu equipamento, abandonando com passos lentos a parte de trás do sofá para se encaminhar até o pai, focalizando primeiro o rosto compenetrado, os dedos em uma dinâmica obsessiva e, dando sequência ao plano, enquadra o entulho de subterfúgios sobre a mesa de centro, o videogame, o mesmo copo de uísque desde tempos imemoriais, o cinzeiro abarrotado de cinzas e filtros e um instável e desordenado maço de discos de vinil sobre a qual vejo a capa com uma foto antiga daquela fazenda na qual se lê TerraCéu, essa psicodelia que permeou a vida dele. Músico por influência do pai (a mim coube romper essa continuidade) ele herdou o primeiro violão de meu avô e repetiu uma história comum: comprou uma guitarra, bandas de colégio e, menos por persistência que por preguiça, meu pai prosseguiu em bandas de bailes até que em uma noite encontrou um sujeito sempre atordoado por tais e quais drogas (desconheço nomes e efeitos, mal posso com o álcool) obstinado a montar uma banda que soasse um Yes


antropofagicamente deglutido junto a batidas brasileiras e africanas, batidas outras que comporiam um som experimental e único. E não bastava serem apenas uma banda, eles precisavam incorporar-se uns aos outros a ponto de a música expor mais que a particularidade de cada um dos integrantes, mas suas intimidades divididas e compartilhadas. Estabeleceram-se em uma fazenda não longe daqui e criaram uma comunidade em que a todos circulavam livremente. E os pouquíssimos e obscuros shows realizados se tornaram contraponto perfeito à fazenda, cheia de jovens em busca de um ideal, músicos esperançosos e rejeitados, mendigos e loucos persistentes na busca de viver o sonho de liberdade no qual se encontravam invariavelmente presos. Em nada o pai coadunava com esses discursos, para ele bastava as oportunidades que o livre amor propiciava. Por isso, ao ver essa pantomima da qual ele se apropriou, esse documentário que só referendará o ídolo, compreendo que estou neste lugar apenas para reafirmá-lo superior, permanecendo figurante quase inexistente dessa história estúpida que fez da minha vida uma confusão por tanto tempo. Sei que não sou figurante algum, por isso, submeter-me a essa situação é o momento propício a declarar com todas as letras que não pertenço a esse contexto e não me entendo filho do exímio guitarrista, que nunca concordei com ideais antigos e ultrapassados, não pactuo com esse desleixo nem me deslumbro com esse estilo desregrado (meu trabalho engravatado, as demandas da rotina, minha esposa em casa) e não me compactuarei ou deixarei levar pelo fluxo violento e narcisista deste homem infantilizado e avesso ao tempo que calhou ser meu pai. Entretanto, pelo simples fato de estar com dele, busco o


conforto de uma dor cotidiana para me justificar incapaz e construo arrependimentos e punições por considerar essas estripulias, meço pedidos de desculpa, volto para o lugar do qual ele não me deixa sair: caninamente ao seu lado, aplausos às conquistas, emulando as incapacidades dele como se fossem as minhas, degrau que serve à ascensão do passo. Percebo um câmera me filmando certo de que estou atento à alucinação na tevê (como se fosse aquela a alucinação mais importante desta sala) que hipnotiza o pai. E a voz ressurge para solapar abstrações e questionar — você também joga videogame? impacientando-se (imagino) com meu titubeio em responder, porque bastava uma afirmativa seguida de um sorriso complacente (na certa ela espera um sorriso igual ao dele) ou uma negação cheia de comentários que recairiam na peculiaridade dele gostar dessas diversões mundanas e ser também um gênio incompreendido e esquecido. Mas embargo, uma confusão meus pensamentos transviados à infância conturbada, o ressentimento de mamãe e o câncer que a comeu viva, as mãos de Isabela sobre o ventre exigindo gravatas e rotinas, essas coisas que não cabem em palavras e não respondo nada, mesmo com a insistência da voz — jogava? e, sem tirar os olhos da televisão, o pai ri contidamente de meu embaraço, um riso irônico e debochado para resmungar — não e retornar ao alheamento do jogo. O desdém com o qual


roubou a resposta exige revanche, sou tomado por vontades de extravaso, permito-me especular a reação dele se eu explodisse nas justificativas pelas quais nunca joguei essa porcaria que ele tanto adora (e imagino a satisfação da voz em me capturar rebelde) eu aos berros colocando tudo que me faz tão diferente dele. Poderia aproveitar as câmeras e criar um evento inédito na história requentada de uma banda inexistente ao confessar que só vim até aqui dizer a ele que não suporto mais esse comportamento infantil e estúpido (vim para isso?) causaria uma comoção incrível e a voz me adoraria. Mas ele jamais cederia espaço nessa luz que restringe nosso raio e reverteria a situação em outros e mais pontiagudos desdéns. Explosões e arroubos não engendrariam reviravolta nesse embate sempre desigual, porque as dores e as conquistas dele possuem uma vantagem anterior e insuperável a qualquer dor ou conquista que eu almeje. E, nesse silêncio tangenciando o constrangimento, liminar em que prevejo a voz repreender minha pasmaceira, ele recupera a palavra — na minha época não existiam videogames em um tom altivo — nossa onda era muito outra, mas descobri isso aqui, é meu jeito de relaxar, sabe?, distrair a cabeça regozijando-se por ser o centro das atenções, e ele percebe o movimento que faz um câmera para se apoiar na televisão a fim de enquadrá-lo em detalhes, o outro câmera abandona meu rosto e percorre o curto espaço da sala até encontrar os outros dois e se dedicarem os três inteiramente aos breves gestos com os quais ele comanda aquela metralhadora que não resiste a uma emboscada e


morre: game over – e mesmo derrotado a vitória é dele. O pai coloca o controle sobre a mesa de centro, pega um cigarro do maço e se volta a um dos câmeras, que se aproxima para captá-lo de perfil e registrar a chama espocando no isqueiro, a brasa ainda jovem ardendo na ponta do cigarro. Do ângulo oposto vejo a imagem obtida: um espectro de fumaça, os dedos pinçando o cigarro e livrando o rosto, os olhos vidrados em loucuras e manias sem perder o charme decorrente de seu ego superlativo combinado a uma condescendência aveludada, ele sempre receptivo e delicado apesar do tamanho imenso, os gestos espalhafatosos como espalhafatosa é sua presença. A voz suspira com deleite quando ele rompe a contemplação e faz uma piada com o constrangimento que sentimos por conta do silêncio, ele sabe que aquelas câmeras o aguardam contar a história da fazenda e a horda de visitantes rotatórios, não sem antes justificar ter sido ele tão somente um jovem sem nada a perder e que morar em uma fazenda experimental ou em uma república de faculdade ou em um hospício (no qual, aliás, ele se trancou por um tempo, ameaçando não poucas vezes os enfermeiros que se jogaria pela janela suficiente baixa para apenas quebrar uns ossos) não fazia muita diferença. E ninguém teria dúvida de que ele encerraria a ladainha atribuindo ao acaso esse percurso, um golpe de sorte que o colocou na banda e lhe proporcionou não apenas um teto gratuito, mas as drogas e mulheres desejadas – e, ironias da libertinagem (mas isso ele nunca diria) mesmo depois que mamãe anunciou a gravidez. Sem dúvida ela esperava que ele renunciasse àquela vida, mas, tão logo percebeu a irrealidade dessa expectativa, fugiu do sítio me levando


no colo. Desde então, meu contato com ele é intermitente e complicado, um sentimento contraditório que mistura a vontade de matá-lo à necessidade de alertá-lo ridículo. Sou eu quem o percebe assim ou a todos que o admiram é justamente esse ridículo que esperam? As asneiras que ele profetiza agora me envergonham e aprofundam uma agonia por conta do inevitável: mesmo depois de encerrar o raciocínio desconexo e vexatório, ele será provocado a continuar, pois a voz demonstra encanto por tudo que está errado com ele, voz de rapina que não está interessada no que ele diz tanto quanto nas consequências do que ele fala por ser uma propaganda fácil e eficiente ao documentário. Não sei se foi a necessidade de protegê-lo que me trouxe de volta a esse lugar ou, ao contrário, a vontade de declará-lo risível para quem sabe despertá-lo. Quando a voz ligou convidando a participar dessa gravação, rememorei as árduas e longas tentativas que ele e eu empreendemos a fim de nos mantermos próximos, o primeiro reencontro que me arrebatou em um misto de desgosto e pena, ele tão mais envelhecido, os cabelos ainda longos mas ralos e brancos, o rosto quase desfeito mantendo sofregamente a empáfia no olhar, esses passeios constrangidos que fazíamos em qualquer lugar público para que nos protegesse da intimidade – e declinei o convite. A voz revidou minha decisão com mil argumentos e, por alguma razão que imagino ser piedade ou culpa, refiz a degeneração daquele homem sempre imenso e senhor de si que perdeu o viço em uma velocidade assombrosa e concordei com ela. Agora, apesar de medos e receios, mesmo que perceba o cigarro entre seus dedos trêmulos arqueados em artrites (a voz questionará se ele ainda toca?) ele alquebrado e curvado sobre si e ainda assim preso àquele


estereótipo que aprendeu a reafirmar, me irrita o pai tentando se esconder em acentos de arrogância, uma risada desproporcional, um movimento repentino com o cabelo ou mais uma dose de uísque, porque, mais do que debilitado, ele é arredio e inacessível, entrincheirado sempre nesse personagem patético e ego-centrado que se impõe ao mesmo tempo em que implora atenção. Como comunicar qualquer felicidade a esse homem que fala para as câmeras com desenvoltura contando aquela certa vez em que esteve em uma turnê pelo nordeste e que, perdido em um porre, encantado com a profunda solidão de um mar inexistente no breu da noite, mijou na boca do oceano sentindo uma liberdade tão profunda e inédita?, como relatar essa pequena e incrível felicidade que certamente me mobilizou até aqui se, neste mesmo dia em que tamanha completude o arrebatou no excesso de álcool, meu apêndice explodia ameaçando morte?, se, enquanto ele mijava liberdades, eu me afundava por corredores de hospitais acompanhado de mamãe, os mesmos corredores que pouco depois percorreríamos com os lugares invertidos, eu ao lado da maca como se amparasse a morte dela? Ele não saberia como reagir se acaso eu expusesse os descaminhos nos quais me embrenhei e que me mantiveram submerso por tanto tempo por causa dele. E, muito embora me envergonhe esses impulsos de violência, essas vontades de revanche, sei que ele renegaria a responsabilidade pelo desgoverno de meus pensamentos quase indomáveis (mas eu os domei, sim) e faria pouco caso de minhas conquistas, ele que nem ao menos conhece Isabela (não teria coragem de apresentá-la a ele) porque ficaria explícito que minha libertação acarreta a impossibilidade de continuar a ser o que nunca fui mas o que ele


acredita que eu ainda seja: plateia. Mesmo assim, sinto uma grande alegria, um alívio abrir mão de obrigações impossíveis que sempre resultaram na mesma sensação de um soco, uma insistência de tudo que é derrota, aplauso forçado no qual nunca acreditei. Talvez eu tenha aceitado estar nesta situação por conta de uma esperança muito frágil de que minha felicidade o fizesse mudar de ideia, quem sabe recuperaríamos um laço, compartilharíamos acolho, mas como explicar a ele (ou a qualquer pessoa que deduziria ser inveja de uma lenda desconhecida da música brasileira) como explicar que minha vida é alheia às histórias que ele conta?, pois sou feliz por não ter parte nessas besteiras. Todos – inclusive ele – preferem o mito e tudo que o reafirma, porque tratase de um ponto impossível de ser revertido: a ele custaria colocar a vida inteira em questão, esse estilo desleixado e relapso, a crença (pois é cega a confiança que tem) de rejeitar o mundo e assim justificar sua vida à margem, ele sempre à beira. Talvez esteja aqui para confrontar a alegria que sinto a fim de provar ter superado a estreiteza que ele significa, porque o evento que enalteço e não sei compartilhar (as palavras me faltam porque sinto medo?) implica também me equiparar a ele ao assumir o lugar que ele ocupa em relação a mim e não posso incorrer nas mesmas falhas, esses erros grotescos: quero fazer minha foz longe dele. Seja como for, sob o olhar compenetrado dessas câmeras, não faz diferença alguma minhas intenções e esforços, tampouco essas felicidades, pois, desatentos à música estridente que insiste no game over e à minha presença, a equipe de filmagem o rodeia feito uma matilha atentíssima ao curso do que ele fala e explodem em


gargalhadas às bobagens dele de tal forma que a voz tão soberana parece render-se a ele ao dizer — temos tudo que precisamos quase sem fôlego, desmobilizando câmeras e microfones e nos devolvendo à fraqueza da lâmpada dependurada no teto e ao desinteresse dessas pessoas que manuseiam a aparelhagem espalhada pela sala. Volto-me a ele e penso serem esses imprevistos também possibilidades, quem sabe consiga lhe dizer ao menos a razão de minha alegria, mas, ao percebê-lo sentado na ponta do sofá observando sozinho a bagunça sobre a mesa de centro, talvez sua foto na capa do disco, alguma coisa quase me coloca na boca um pedido de desculpas, quase um impulso de abraçá-lo. Levanto-me. Ele também se levanta e nós dois temos o mesmo tamanho e estamos frente a frente e nossos olhares são fugidios, um sem-jeito muito parecido no portar-se e um alívio mútuo o desfecho desse encontro. Estendendo a mão, ele corresponde em um cumprimento sem força e diz — ligo depois procurando evadir-se o mais rápido possível – e me arrependo por não ter dito nada, inútil microfone de lapela preso em meu pescoço. Flagrando-nos com as mãos enlaçadas, a voz reage ao lampejo de uma ideia que expõe sem pudor — você dois poderiam jogar uma partida juntos, o que acham? e só me cabe relutar com um sorriso amarelo prontamente confrontado por ela dizendo ser uma cena interessante ao documentário, pai e filho compartilhando um momento descontraído. Os câmeras retomam seus postos e apontam as lentes em nossa direção, as luzes são acesas outra vez e, sem perder tempo,


o pai me entrega um controle e com poucas palavras explica que a estratégia básica do jogo é desarmar uma bomba-relógio escondida em algum lugar daquelas ruínas. Na medida em que iniciamos, ele e eu coordenamos ação com assertivas e compenetradas comemorações, e, ainda que frágil e artificial, estabelecemos um entendimento, uma troca de palavras e sugestões tão horizontais quanto nossa disposição na tela. Sem querer, tomado pela excitação dessa dinâmica, desavisado sobre artimanhas e sem prática alguma, cometo um erro e uma bala atinge em cheio a testa de meu combatente. Em um salto para trás, recosto-me no sofá sorrindo e procuro a mesma descontração nele, posto que sem querer nos divertimos um pouco. Todavia, encontro em seu rosto um siso às explosões tomando a sala, um olhar de descrença ao game over na tela. Mantenho o sorriso na esperança de que ele retorne à sala e às pessoas atentas a nós dois, mas, com o controle entre as mãos, os dedos suspensos sobre os botões, ele aguarda um longo instante antes de lamentar sem conter a contrariedade — perdemos voltando-se a uma câmera para justificar — ele errou a estratégia preocupado com outros erros — o que filmamos agora? levantando-se impaciente, promovendo um embaraço não previsto por nenhum de nós (ou era o que eles esperavam?) e os câmeras mantém-se focados aguardando um direcionamento da voz, que não sabe o que fazer (ou não sei eu?) porque o pai se atrapalha tentando recuperar a atenção dispersa, esforçando-se para desfazer o impasse que se instalou.


Vencendo a timidez (mesmo ela sente o baque) tão logo a voz diz — corta levanto-me em meio ao cessar das luzes e à constrangida desmobilização das pessoas, um calor intenso e uma sensação perene de sufocamento me encaminham à porta e, assim que abro (ouço ainda vozes na sala comentando o material colhido e ouço também os passos pesados dele à cozinha procurar uma nova garrafa de uísque) alcanço a varanda e em um salto ultrapasso o portão aberto, atravesso a rua e encontro a Lagoa dos Patos, que parece não terminar no horizonte. Outra vez uma confusão essas vontades de fuga e abandono que repiso, uma vergonha minha incapacidade de afrontá-lo. Por que não me rebelo? Esse sentimento duro reformula a questão inicial, acertando um tom de ironia e resposta: que procurava eu aqui senão exatamente o que encontrei? E à boca do atlântico-sul compreendo a manutenção de um espinhoso e infinito exercício de compensação que teimo executar, todo meu cuidado não é protegêlo ou mesmo evitar que o frustre, mas compensar um erro anterior que sequer me pertence e ainda assim o carrego por ser eu, pecado originário que me funda e não permite emancipação. Entretanto, a consciência desse fato me emancipa como se estivesse prestes a algo maior – e finalmente a independência de minha alegria permite que ela seja plena. Por isso, desmobilizo a vontade de voltar àquela sala para lhe contar o que quer que seja ou dizer sem meias palavras o absurdo ao qual ele me submeteu e intenta continuar submetendo, pois não encontro mais sentido em confrontos e, ademais, não há nada que eu possa dizer que já não tenha dito


antes. Em meio ao revolto dessas descobertas, ouço passos pesados, mas não me volto: o sol desse fim de tarde estica a sombra, acompanho um pigarreio que antecede o riscar do fósforo, uma lenta inspiração que parece ressoar na lagoa aparentemente inerte à frente. Um dos câmeras surge e oferece o maço de cigarros. Recuso e digo sem querer e com alívio — minha mulher está grávida ele responde com um aquiescer impaciente e um sorriso sem interesse desfeito pela frase — estão lhe chamando que serve também à despedida. Não respondo, não retornarei. E sozinho à margem dessa lagoa finalmente pressinto a confluência turbulenta dessas águas com o mar e a difícil liberdade desse encontro que, apesar de tudo, se realizará — e me alegro.


Heart-shaped box Love Alexandre Nobre

Clipes de metal, papéis de bala, a tampa mordida de uma caneta vermelha, elásticos, presilhas de cabelo, um lápis e uma régua quebrada, metade de um chiclete, vários pedaços de uma lixa de unha: dentro da caixinha em formato de coração, o mundo. Meu mundo. Mal imagino que começo a enlouquecer.

*

Ela entra. Ela passa por mim. Sorrindo. Vejo-a avançar pelo corredor dos caixas, até colocar-se de pé em seu lugar. Apenas três guichês distante de mim. É o que basta para que eu me sinta em


vertigem. Logo, o banco abrirá e nós atenderemos o público juntos. Conversaremos sobre amenidades. Ou vamos reclamar da fila extensa no lado de fora, dos gerentes do andar de cima, do pessoal que trabalha no serviço de limpeza. Mas não agora. Não, por enquanto. Por enquanto, é só oi, oi, bom-dia, bom-dia. Por enquanto, nós mal nos falamos. Faz apenas três semanas que ela chegou à agência e ainda não a conheço direito. Ou melhor, conheço-a como ninguém. Conheço-a desde menina. Conheço-a, minha vida inteira. Só que ela ainda não sabe. Seu nome: Love.

*

Abro os vidros da janela, vejo a rua escura. O que farei o resto da noite, eu não sei. Fumo, contemplando o teto do apartamento. Fecho a janela, ligo a TV. A mensagem do pastor serve para curar as mágoas, as solidões. Não aqui na minha casa. Na minha casa não, violão. Respiro fundo e mudo o canal. Um episódio de Friends que já vi um milhão de vezes. Rio junto com a TV. Rio alto. Rio às gargalhadas. Já decorei todas as risadas. Minha barriga sacode de tanto que eu dou risadas. Estico a mão e busco a caixinha no sofá ao meu lado. Coloco-a sobre a mesinha de centro. Procuro e encontro as presilhas de cabelo, os elásticos, os clipes de metal. Só quero que a noite passe depressa para eu poder voltar ao banco pela manhã. Arrisco comer algo da geladeira. Impossível. Sento e imagino uma série desconexa de coisas. O que mais farei dessa noite, meu amor?


*

Love, Pensei muito para escrever. Fico tímido, com vergonha, sei lá. Antes de tudo, quero dizer que adorei seu nome. Quando me falaram, não acreditei: L-O-V-E. Perfeito, não? Seus pais eram hippies? Quero dizer, ainda existiam hippies no tempo dos seus pais? Acho que não, não é mesmo, você é tão novinha... Diferente de mim. Temos dezesseis anos de diferença, já contei, pode acreditar. Agora: você sabe quem eu sou? Não? Na verdade, não gosto muito de falar de mim. Deve ser alguma espécie de orgulho bobo, medo ou, quem sabe, um pouco de falta de jeito. Só que, a essa altura, você já deve estar imaginando: sou aquele seu colega do banco, do caixa, só alguns guichês longe do seu. Estou sempre fazendo coisas para chamar tua atenção. Achei que esses dias você ficou me olhando tanto... Então percebi! Já temos alguma coisa: o jeito como você me olha. Mas quero te dizer de uma vez. Não pense que sou igual aos outros. De forma alguma. Eu sou diferente, Love, você vai ver. Eu te amo. Assinado, Luís.

*

Ela entra. Ela passa por mim. Ela sorri e segue para o seu lugar. Traz alguns livros nas mãos. Não consigo decifrar os nomes. A moça ao seu lado puxa conversa. Ela é toda sorrisos. Levanta e guarda os livros no fundo da gaveta. Bem no fundo. O caixa do


outro lado entra no assunto. Um gordo animado, com cara de idiota. Ela é toda sorrisos. Daqui a alguns minutos o banco vai abrir. Ela procura a bolsa e tira um espelho. Depois pega uma escova e um batom. Ela se arruma em frente do espelho. O caixa ao lado diz alguma bobagem. Ela é toda sorrisos. Detesto esse gordo animado. Ela joga o batom no lixo. Está no fim. O batom. Ninguém percebe. Eu sim.

*

Love, Que maravilha de dia passamos ontem. Acho que não quero mais nada da vida. O tempo todo trabalhando ao seu lado. Estive pensando: posso te convidar um dia desses para almoçar? Nada muito formal; um lanchinho rápido, ali mesmo, ao lado da agência. O que acha? Pra gente se conhecer melhor. Você é meu sonho. Acredite. Nem calcula quanto. Outra coisa: ontem à noite eu te achei no Facebook. Sério. Na verdade, nem foi tão difícil assim. Com esse seu nome... Olhei suas fotos, seus amigos, os lugares que frequenta, tudo. Tudinho. Fiquei um bocado de tempo olhando... Uma pergunta indiscreta: quem são aquelas pessoas com você? Um bando de sujeitos nas suas fotos. Quem são? Amigos, família, namorado? Sabe, fico preocupado: você vai a tantos lugares, conhece todas essas pessoas, uma vida agitada, cheia de festas. Enquanto eu, vivo aqui sozinho. Quase não saio nunca. De casa direto para o trabalho no banco. Nisso somos diferentes. Muito diferentes. Além do mais, tem o problema da idade. Fico com medo, Love, penso bastante... Mas sei


que, pra valer, isso não tem nada demais. O que importa é o amor que sinto por você. Só por você, viu, meu tudo. My Love. Assinado, Luís.

*

Tomo o elevador, sigo para o subsolo. A agência onde trabalho fica no prédio da matriz e ocupa dois andares inteiros: o térreo e o primeiro. Os demais, em cima, são para a Alta Administração. Embaixo, a sala dos arquivos. Desço, na hora do almoço, para descansar entre as caixas. Tenho esse costume desde que cheguei por aqui. Faz tempo já. Quando estou pronto para deitar ouço um som estourar atrás de mim. Viro e vejo uma moça. Uma moça pequena e magricela, de camiseta larga, jeans e tênis. Quase um menino. Olho a camiseta e o crachá. Reconheço. Ela trabalha nos arquivos. Você não pode ficar aqui, ela diz. Em silêncio, concordo. E continuo no mesmo lugar. Ela se aproxima e para. Ela não olha direto nos meus olhos. Levanto e reclamo do calor como se nunca o tivesse sentido. Ela diz que está acostumada. É feia como o diabo. Tem espinhas, é muito branca e ruiva. Ela ergue o rosto para mim. Ela quase me fuzila com o olhar. Reparo que está com raiva. Uma ruiva raivosa. Qual é o seu nome? Pergunto. Rebeca, ela diz. Mas todo mundo me chama de Réo. Reflito um minuto: Réo. Na hora, associo: Hell. Finalmente o inferno veio para me visitar. Você é lá de cima? Ela volta a perguntar. De cima de onde? Devolvo. Dos andares mais em cima, onde tomam as decisões. Eu explico que trabalho na agência: apenas um caixa querendo descansar. Ela levanta o rosto para me


encarar. Ela é feia como o diabo. Ela me fuzila com o olhar. Você também não gosta deles, ela diz. Eles quem? Pergunto. Eles. Repete. E reparo que fita o nada. Termino de me levantar e começo a sair sem dizer palavra. Volta aqui — ela diz — Amanhã.

*

Love, Essa é a terceira carta que te escrevo. Por mim, escreveria muito mais. Escreveria todos os dias. Sempre. Mas a verdade é que escrevo e guardo aqui comigo. Ainda não tive coragem de te enviar nenhuma. Será que algum dia terei? Não sei. Fico pensando... Assinado, Luís.

*

De volta ao subsolo, Réo está ali, sentada numa cadeirinha baixa, um pouco sufocada. Não fala, mas me fita com curiosidade. Ela me fuzila com o olhar. Ao seu lado, outros dois meninos quietos, sentados. Todos vestem a camiseta larga e o crachá dos arquivos. No crachá não há nomes e eu preciso perguntar. Não entendo. No fundo, não importa. Sei que um é gordo e forte, com a cara engraçada. O outro é magricela e nervoso, como ela. Ela me olha com intensidade. Ela é feia como o diabo. Ela me diz que eles também não gostam dos de cima. De cima de onde? Pergunto novamente. De cima da gente, ela me responde mais uma vez. Ela


me diz que eles, os de cima, são a escória do mundo. Ela me diz que eles são os vendidos, os alienados. Que no fundo eles só pensam em ganhar dinheiro e em mentir. Mas quase todos são assim, digo. Essa é a regra da vida. Insisto. Ela me diz que não é nada disso. Ela me diz que eles é que fazem as regras. Ela me diz que eles fazem as regras para nos foder. Ela me diz que eles são o pior que a humanidade pode oferecer. Então ela me diz que eles, os imundos, são os que vão às festas, os que compram em shoppings centers e passeiam de carro. Que são infiéis e sujos. Que não se importam com nada nem com ninguém. E que, por isso, nós devemos odiálos. Isso ela me diz enquanto está afundada na cadeirinha. O menino forte e gordo levanta uma caixa e a derruba no chão. O magro e nervoso dá voltas por ali, de um lado para o outro. Agora ela me diz que nós devemos nos unir. Ela me diz que nós temos o dever de revidar. “O círculo” é o nome que ela nos dá. Juntos, formamos um time, ela diz. E isso é tudo o que ela me diz.

*

Love, Estive pensando. Você é diferente. Às vezes, pelo jeito como você me olha, sinto isso. Que você é especial. Talvez nós compartilhemos desse mesmo sentimento de abandono, de estar continuamente deslocado, alheio, de nunca estar inteiramente em lugar algum. Não sei. Sempre me senti assim, e acho que você também. O que acha? Estou sendo muito dramático? Complicado? Sabe, sou dado a essas filosofias. Mas, se estiver te enchendo, me fale.


Não quero te chatear. De forma alguma. Agora você precisa saber da nossa caixinha. Uma caixinha em formato de coração, que comprei para guardar nossas memórias. Vou te contar: no dia em que você entrou na agência, no mesmo dia, eu a vi exposta numa vitrine, quando voltava para casa. Na hora não dei muito importância, mas de noite sonhei que você me presenteava com ela e me dava um beijo na boca. Foi o começo. A partir daí comecei a te amar. No dia seguinte comprei a caixinha e passei a colecionar lembranças. São objetos, papéis, pedaços de coisas que você deixa por aí. Enfim, uma antologia particular de ninharias, coisas insignificantes, mas de valor profundo e inestimável para mim. Recolho-as do seu guichê, quando você vai embora, sem ninguém perceber. Mais de uma vez já fui pego e tive que disfarçar para explicar-me de quatro no corredor dos caixas. Mas eu não ligo, Love. Eu te amo. Você é tudo para mim. Meu amor. My Love. Assinado, Luís.

*

Rápido, puxe, diz a voz, e mal preciso forçar, sinto a tampa do ar condicionado sair em minhas mãos. Olhamos para dentro. A tubulação é apertada. De joelhos, Réo se aproxima e começa a avançar pelo túnel. De fora, ficamos esperando. Eu — o Gordo & o Magro. Em seguida, damos uma volta no corredor e nos colocamos de pé, na entrada. Ouço alguma coisa bater lá dentro, percebo que ela faz uns movimentos complicados, imagino uma série de dificuldades, e começo a maldizer. No entanto, após alguns segundos, a porta se abre. Entramos todos juntos: a Diretoria de RH. Passamos a noite acordados, escondidos no subsolo, mas


finalmente estamos aqui; dentro da sala atulhada de papéis, mesas e equipamentos. Avançamos para os computadores. Com um ferro, o gordo começa a destruí-los. Réo pede para que não faça muito barulho. Pode haver um segurança solto pelo andar. Precisa ter cuidado porque, se te descobrem, te prendem, te matam. O magro começa a vasculhar as gavetas. Eu me perco um instante nos arquivos. De repente fico cego e não disponho de outra vontade a não ser derrubar, quebrar, chutar e destruir documentos, registros, objetos que encontro pela frente. Depois de um momento, desisto e me detenho, desnorteado. Respiro alto. Mas apenas por segundos. Logo a cegueira retorna e me debruço sobre mesas, atiro papéis ao chão, pisoteio e espalho tudo. Quando dou por mim, Réo está colando cartazes nas paredes. Em todos eles, uma mensagem clara: o desenho perfeito de um CÍRCULO. Ao final, deixamos a sala e partimos. Mas custa movimentar-me. Tudo me dói. Ainda assim, continuo. Só sei que preciso urgentemente dar o fora dali.

*

Love, A solidão vicia. Sabia? Assinado, Luís. *

Ela entra. Ela passa por mim. Ela me olha como um pisciano


quando estou fraco. Navego loucamente por seus olhos azulados, tranquilos, e por instantes esqueço o resto. Não tenho medo de errar: Eu queria poder comer o seu câncer quando você morrer.

*

Love, Não me envergonho de dizer. Esses dias eu te segui na rua. Queria saber onde você vive, oras. E não foi só dessa vez. Já te segui outras também. Vi o lugar onde você foi esse final de semana, por exemplo. Um bar, cheio de gente. Estava chovendo, fiquei na calçada, te olhando. Me atrapalhava muito a água da chuva e o barulho dos carros que passavam por ali, mas não dei bola e continuei. Não deixei você perceber. Tinha um sujeito ao seu lado, o tempo todo te incomodando. Nessa hora me deu vontade de entrar e partir pra cima dele. Tenho certeza que você gostaria. Cada vez que eu te vejo, eu percebo que me pede ajuda. Que deseja que eu te salve e te proteja. Pra te livrar desses malandros. Essa necessidade que as pessoas têm de conviver, de se fazerem sociais, você não tem. Eu sei. Você é diferente. Você é como eu. Não quer sair, mas acaba saindo, não é mesmo? Imagino como deve ser difícil para uma mulher bonita como você, essa pressão que a sociedade te impõe. Você deve viver no limite. Mas eu vou te salvar. Prometo. Vou bolar um jeito pra gente ficar junto. Só nós dois, viu? Isso porque eu te amo. Meu tudo. Assinado, Luís. *


Perto do meio-dia, volto ao subsolo. Da cadeirinha, Réo me observa. Melhor: da cadeirinha, ela me fuzila com o olhar. Me perco por ali. Ela me chama, acato, andando devagar, tentando disfarçar minha inesgotável solidão. O andar inteiro cheira à merda. O fedor infesta minhas narinas. Ela me encara com naturalidade. Ela é feia como diabo. Ela treme e odeia tudo. Ela é o ódio em estado puro. Hoje é perigoso ficar aqui. Ela diz. Respondo que não há com o que se preocupar. Lá em cima, a agência fechada, os cabos picotados, cartazes espalhados sobre tudo. “O círculo” é um sucesso, afirmo. Ela não me leva em consideração. Ela se levanta e vem até mim. Ela me diz que, para eles, isso tudo não é nada. Ela me diz que, para eles, isso é só mais um contratempo. Que eles só se importam com o dinheiro. Essa é a linguagem que eles falam, ela diz. Essa é a única língua que eles entendem. E essa é a maneira que, agora, nós vamos conversar.

*

Love, Passei a noite na janela, pensando. Preciso te contar uma coisa porque, entre um casal, não pode haver segredos. Conheci uma moça no banco. Não, não se preocupe. É apenas uma menina, não tem nada demais. Além disso, eu só amo você. Ela se chama Réo. Entendeu: Hell. Conversamos bastante. Ela me fez ver a verdade. E a verdade, Love, é que preciso conseguir algum dinheiro para ficarmos juntos. É a única maneira. Uma mulher assim, como você, precisa de dinheiro para viver bem. Já bolei tudo. Não se preocupe. É fácil estornar contas recebidas no caixa para o dinheiro sobrar no


final do dia. O cliente recebe a parte dele, autenticada. Só vai descobrir quando houver cobranças. Se for imposto do governo, pode demorar meses. Anos até. Tem muita coisa errada no Brasil. Depois, é só sumir com o movimento. Eu tenho acesso aos arquivos. Lá em baixo, mando eu. Que mal pode haver nisso? Roubar de quem nos rouba. Além do mais, faço por você. Por seus olhos, quando nos vemos. Você me pede ajuda, eu sei. Para eu te livrar dessas pessoas, dessa cidade opressiva, pra gente ficar juntos. Só nós dois, longe daqui. Porque eu te amo, meu tudo. My Love. Assinado, Luís.

*

De repente já estou em casa outra vez. Hoje é sexta, amanhã é sábado. Então não vai haver banco. Não vai haver você o dia todo ao meu lado. Estou exausto e preciso tomar banho. Carrego à mão, como um objeto raro, a caixinha em formato de coração. A caixinha é o meu guia. A caixinha é meu amuleto. Ela me orienta e consola. Entro no banheiro, com a caixinha nas mãos, tiro a roupa e mergulho os dedos. Clipes de metal, papéis de bala..., procuro até encontrar o batom. Então desenho um círculo no box do chuveiro. Um círculo perfeito. Espalho círculos por todos os lugares. Estão nas paredes, no teto, no vaso sanitário, nos vidros do espelho. Dentro deles, você >>LOVE<<.

*


Love, Roubar banco é fácil. Assinado, Luís. *

Aí, discutimos. Amargamente. Me coloco de bruços, entre as caixas do subsolo, e procuro dormir por segundos. Ela está ali, afundada na cadeirinha. Não posso suportar. Ela me fita com intensidade. Ela quase me fuzila com o olhar. É feia como o diabo. Meus cílios pesam, feitos de chumbo; a boca amarga como se estivesse doente. Acho que já é segunda. Penso. Não durmo faz dias. Reflito. Hoje “O círculo” atacou pra valer. O prédio inteiro às escuras. Espio ao redor: a sala abafada, o gordo & o magro sumidos. Réo levanta para me olhar. Ela é o ódio em estado bruto. Uma ruiva raivosa. Penso. Ela veio de baixo para me dar o alto. Medito. E ela ainda quer mais. O quê?

*

Love, Eu sou caixa de banco e, no almoço, durmo entre as caixas. Não é engraçado? Eu achei. Passei o dia dando risadas. Hoje estou assim: divertido. Deve ser por causa do beijinho que você me mandou pela manhã. Acha que não percebi? Da próxima vez, não precisa disfarçar tanto. Saí da agência e as ruas estavam alegres, iluminadas, muito agradáveis. Fui andando pela calçada, algumas pessoas me


acenaram com simpatia. Da esquina, o Esteves da tabacaria me deu adeus e Babe, o porquinho, sorriu. Júlio, o ex-mágico, vomitou uma família inteira de coelhinhos peludos, com nariz de palhaço. No céu, um arco-íris lindo, feito de caramelo e bem-casados. A noite tropeçou estrelas. Elas cantavam. Te amo, Luís.

*

Chego à agência e me mandam subir. O gerente logo avisa: por hora, estou afastado do caixa. Eu imediatamente finjo que sou contra. Ele me explica que não há o que fazer. Ordens lá de cima. Diz. Tem um sujeito junto com ele. Cheira a café e cigarros. Auditor Geral, descubro depois. Ele me desagrada um pouco. Não fala, mas estuda minhas reações. Compreendo que agora chegou a minha vez: essa história já vinha se arrastando dias demais. Querem saber da minha vida. Minto. Fazem muitas perguntas. Perguntas longas, ridículas. Tentam me pegar de qualquer jeito. Eu continuo na minha. Não falo nada sobre “O círculo”. Rio, tentando disfarçar, querendo ir embora logo dali. Somos todos culpados de alguma coisa. Digo. Para confundir. Essa é a estratégia que encontro. Por enquanto, não falam nada sobre dinheiro. Imagino que ninguém ainda reclamou. Passam muito tempo conversando entre si, horas me olhando, atentos, dentro da sala. E eu ali, rabiscando um papel branco sobre a mesa: casas, nuvens, árvores, traços soltos e infantis. Enfim se cansam e me deixam ir embora. Mas preciso voltar todos os dias. Até descobrirem o que fazer comigo. Adivinho.


*

Love, Já sei o que pretendem: me afastar de você! Mas isso não vão conseguir. Nunca. Um amor assim, como o nosso, não pode acabar dessa maneira. Eles me interrogam todos os dias. Mantenho-me firme. Falam em sabotagem, vandalismo, câmeras de segurança. Eu nem presto atenção direito. Desligo. Nessas horas só penso em você. Seus olhos me pedindo, suplicando ajuda. Vou dar um jeito pra gente ficar juntos. Prometo. Um plano de fuga. Na hora certa, vamos ver. Fico pensando... Você me ajudaria? Assinado, Luís.

*

Ligo o computador. Estou confuso e acendo um cigarro. Olho para a tela: azul. Logo aparece uma imagem. Teclo. Negocio o modelo e o preço. Teclo. Estou tremendo. Meus dedos não obedecem minha vontade. Teclo. Amanhã vão me despedir do banco. Eu sei. Não posso deixar isso acontecer desse jeito. Ninguém vai me afastar dela assim. Teclo. É tudo tão rápido. É quase surreal. Teclo. Fecho o preço e o prazo de entrega. Teclo. Prazo de entrega? Não. Precisa ser hoje. Teclo. Eu mesmo é que vou buscar. Teclo. Essa noite ainda. Teclo.

*


Love, Passei horas acordado, olhando a caixinha em formato de coração. Olhei até os meus olhos doerem. Nossas lembranças todas ali... Amanhã, estamos combinados. Na hora certa, vamos ver. Você se lembra de tudo? Tudo, tudinho? Te amo demais. Assinado, Luís.

*

Tomo coragem e bato. Depois de uns minutos, ele abre a porta e me manda entrar. A casa é apertada e escura. Vejo a luz sebenta que desce das lâmpadas e, por instantes, tenho a sensação de que vou desmaiar. Um cheiro de ferrugem picante encobre tudo. Ele me observa. Seu olhar é frouxo e me incomoda. Aqui o jogo tem que ser rápido. Nem dá tempo de me apresentar. Ele coloca o envelope sobre a mesa. Não fala nada. Quando percebo, já estou vendo uma arma. Examino-a com delicadeza. Sinto o peso, o tamanho, passo os dedos pelo cano, abro o tambor e verifico a mira. Pago. Saio dali em menos de cinco minutos.

*

O amor deixa marcas.


*

A porta giratória trava. Olho para o segurança e faço um sinal de impaciência fria, calculada. Ele abre. Claro. Trabalho aqui há anos. Caminho indiferente pela agência. Um sorriso calmo e os restos adormecidos de uma antiga intensidade que nem mais me lembrava. Em vez de subir, vou direto para o corredor dos caixas. Ela está ali. Apenas três guichês distante de mim. Ouço a manhã escoar pelo prédio. O som de computadores, cadeiras arrastadas, vozes rápidas, vindas de todos os lados. Silencio um instante. E então o meu cérebro dispara. Puxo a arma e atiro. Um tiro apenas. Um tiro para o alto. Um tiro dirigido para o andar de cima. De repente tudo congela. Como se o tempo parasse. Como se o dia fosse água, e secasse. Miro em volta: todos estão assustados. Viro a cabeça e reconheço o segurança que me fita com atenção de pássaro. Aponto a arma para ele. E me dirijo para Love. Puxo-a pelo braço, ela reluta, está ensaiada e não quer deixar parecer fácil, forço um pouco mais e digo, é agora, e seguimos para o subsolo; as pessoas ao redor, apavoradas; chegamos lá em baixo e eu corro até as caixas, procuro reforços, encontro Réo, o gordo & o magro logo ali, peço ajuda, eles se chegam e eu me aproximo de Love, e digo está indo tudo bem, você está fazendo tudo certo, do jeitinho que combinamos, ela hesita, resiste e me olha, luta, assustada, eu a arrasto pelas mãos, não entendo o que se passa; Réo vem por trás e a derruba no chão; discuto com Réo, digo você não pode tratá-la dessa forma, ela é tudo para mim, Réo me responde


que ela é igual a eles, grito NÃO, grito bem alto, me debruço sobre Love e tento levantá-la, peço que ela perdoe a Réo, ela não faz isso por mal, digo, é só uma ruiva com raiva, explico; Love me olha, incrédula, Com quem você está falando, diz, não há mais ninguém aqui; eu não entendo, toco seu rosto com a ponta dos dedos, coloco a arma no chão para abraçá-la, ela me empurra, Sai de perto de mim, seu louco, diz, e pega a arma do chão, treme e aponta para mim, a arma, eu não compreendo, ela não quer ceder, sofro e sento ao seu lado, aproximo meu rosto do seu, e aí, O amor deixa marcas. Enquanto caio, uma carga clandestina no peito, vejo Réo ali, afundada na cadeirinha. E é como se olhasse dentro de um espelho. Ouço um barulho e imagino os seguranças se aproximando, o som árido dos seus passos ecoando pelo andar. Love, à minha frente, trêmula, em estado de choque. Sinto um vazio imensurável. Então eu penso na caixinha em formato de coração, penso nos papéis de bala, nas presilhas de cabelo, nos clipes de metal. Em todas as coisas que acumulei nos últimos dias: nossa coleção supérflua de besteiras. Eu estive trancado em sua caixa em formato de coração por semanas. Olho para os lados e constato que todos sumiram. Finalmente compreendo que estou só. Compreendo que nunca estive aqui ou em nenhum outro lugar de verdade. Compreendo que jamais me senti inteiro dentro de coisa alguma. E tenho pena. Tenho pena de mim mesmo. Tenho pena de minha miséria, pena da minha vida miúda, da minha perpétua inaptidão. Eu sou um bebê errático e triste.* Caio. A queda é minha. O amor. Love. *

“Eu sou um bebê errático e triste”, frase retirada da carta de suicídio de Kurt Cobain, em tradução livre. Durante o conto aparecem várias frases soltas, da letra de “Heart-shaped Box”, em tradução livre.


Rape me Severin Sérgio Tavares

Quando eu tinha oito anos, talvez menos, meu pai me confiou a primeira tarefa. Ocupávamos o living, reprisando a configuração do pósjantar: ele, imerso na poltrona escura limpando o fornilho do cachimbo; eu, guerreando com meus soldadinhos de chumbo no campo de batalha do tapete de cerdas grossas. (Minha mãe ronronava na cozinha, lavando a louça). Meu pai, então, me chamou pelo nome composto e mandou que eu fosse até o aparador pegar a lata onde conservava o fumo. Eu dei um salto enérgico e disparei até o móvel, conferindo à missão a importância extraordinária com que toda criança atende a uma ordem superior. Abri a portinha de vidro e tirei o estojo de alumínio da gaveta com cuidado, mal cobrindo a base com as mãos miúdas.


Voltava cheio de mim rumo à poltrona, quando meu pé deslizou sobre um dos carrinhos e deixei cair todo o conteúdo no chão. (Aqui vale mencionar que meu pai era um sujeito grosseiro. Torneiro mecânico, tinha o hábito de arrancar tampinhas de garrafa com os molares, arrotava e peidava alto em público, e comia de boca aberta, com a colher afeiçoando-se a uma pá.) Apavorado, desabei de joelhos e comecei a devolver o fumo para dentro da lata. Meu pai me observava, emudecido. Recolhi a última palha, fechei a tampa e retomei o caminho restante que agora me parecia um terreno movediço. Finalmente diante dele, ofereci-lhe a lata, sem confiança. Meu pai não se mexia. Ficamos assim por um tempo. Até que ele levou o cachimbo à boca, livrou a mão e, no movimento de descida, a investiu contra o meu rosto com tamanha violência, que me jogou contra a parede. Eu perdi dois dentes, um ainda era de leite.

Meu pai nunca mais me bateu. Ele morreu dois anos mais tarde, com o braço mastigado por uma máquina. No funeral, eu não sentia nada que se assemelhasse à desforra ou ajuste de contas. De fato, aquela bofetada nunca me causou raiva, medo ou rancor. Defronte àquele homem de quase cem quilos, irascível e amordaçado pela barba volumosa, eu estava apavorado, trépido em todo meu corpo imaturo. Antes daquela agressão, eu nunca havia sido atacado por nada que não vivesse no plano imaginário. Meu pai me bateu e então a dor me foi apresentada, era real. Eu experimentava, pela primeira vez, um ato que pervertia a compostura familiar. E deveria ser aterrorizante. Deveria.


À medida que me reerguia e recuperava os sentidos, contraditoriamente fui sendo invadido por uma sensação inigualável. Um fluxo espesso e morno, que se equivalia à potencialização de uma série de afagos da minha mãe. A latência que afogueava meu rosto provinha de uma fonte interna que irradiava prazer. Uma espécie de orgasmo seco, vivo dentro de mim no tempo em que a vermelhidão resistia, até quando doía um tantinho pressionar o hematoma. A partir daquela bofetada, dor e prazer tornaram-se estímulos intrínsecos e consequentes. Passei a só sentir prazer no que poderia me infringir dor. E a busca tornou-se uma escalada desmedida.

Comecei a brigar muito na escola. Instigava desentendimentos com garotos mais fortes e mais velhos somente para apanhar. À noite, estirado na cama, ficava pressionando o calombo ou o corte e me gratificava com a dor que se espraiava pela região. As detenções constantes naturalmente me levaram a ser expulso. Minha mãe, que se desdobrava para nos sustentar com a pensão do meu pai, achou mais prudente me matricular num colégio interno. Foi a época em que descobri que conseguia esporrar. Desparafusava a lâmina do apontador e, depois que o inspetor passava em revista o dormitório, a descolava do céu da boca e me masturbava, abrindo pequenos talhos na medida da coxa. Uma noite, um garoto que diziam ser órfão de pai e mãe, depois de resistir ao incêndio de um circo, me apanhou em flagrante, e perguntou se poderíamos ser amigos. Seu nome era Cristiano. Com ele, tive a minha primeira penetração, a primeira


relação homossexual. Nos trancávamos numa das cabines do banheiro, eu me ajoelhava sobre o vaso sanitário e ele enfiava o piru duro em mim. Eu não deixava passar cuspe. O prazer tinha início com a esfolação. Aquele osso, que não era osso, rasgando as minhas estranhas, arranhando as paredes vermelhas além do orifício apertado onde tentava se ajustar, entrando e saindo com brutalidade, sujando de líquidos, visgos, de sangue misturado com carne a minha bunda. Pôr a prova a elasticidade da pele me elevou a um grau de dependência do qual nunca mais poderia me abster. Sodomia tornou-se um vício. Trepávamos todos os dias. Imãs do coito, bichos no cio. Depois que ele gozava, eu me masturbava, fazendo o uso da lâmina e ele beijava as feridas abertas. Sequer me lavava. Eu fedia a porra dele, ele fedia a minha merda. Sempre com violência. Estupre-me, eu rugia. Estupre-me, meu amigo. Logo correu a notícia sobre o garoto que dava o cu. Fui currado seguidamente por todos daquela camarata, daquele colégio. Inspetores, professores e até diretores tiveram suas chances. Quanto mais agressivo, mais eu pedia que repetissem. Faziam fila para me transpassarem com a fúria do gozo, com o que tinham de mais grosso, de mais trêmulo. Isso, enfia o piru duro em mim. Vai, me machuca por dentro. Vem logo, você não é o único. Enfia dois juntos. Estupre-me. Estupre-me de novo. Durante algumas dessas curras, me fraturaram costelas.

Aos 18 anos, resolvi não voltar para casa. Passei a me prostituir para sobreviver e pagar o aluguel de uma meia-água sem banheiro. Não cobrava um preço fixo, aceitava o que me pagassem,


somente para suprir as necessidades básicas. Rondava por bares, parques, banheiros públicos, terrenos baldios, estações rodoviárias. Trepava com qualquer um, a qualquer hora, muitas vezes sem recompensa e camisinha de Vênus, unicamente para saciar a compulsão. Quando não conseguia parceiro, ia para casa me masturbar, enquanto lanhava a pele ou penetrava o vazio do dente arrancado pelo meu pai com instrumentos pontiagudos até tocar o nervo e explodir sem som.

Eu tinha pregos enterrados na cintura, no dia em que o Opala marrom freou rente às minhas pernas. Um cara chamado Raul, vestindo um colete cinza de cotelê sobre o peito arvorado de pelo, perguntou do que eu gostava. Eu respondi qualquer coisa e entrei no carro. Rodamos por um tempo, cuja finalidade era claramente me confundir, até que paramos em frente a uma estreita porta de aço, banhada por um facho néon púrpura. Era um clube privado de bacanas, administrado por duas mulheres chamadas Adalgisa e Gioconda. Entrar ali foi como descobrir um oásis de LSD no deserto, ingressar numa dimensão cálida onde dor e prazer não dividiam fronteiras. Entre incontáveis idas e vindas, me satisfaziam com murros, mordidas, queimaduras e perfurações. Pratiquei dilatação com objetos de uso comum, com punhos fechados sem vaselina, enforcamento, cavalgaduras, submissão extrema. Dormi, durante uma semana, dobrado numa caixa que cabia uma criança. Por um tempo, me entregar as mais intensas experiências neutralizou a angústia de não encontrar, em caçadas


diuturnas, um estranho qualquer que saciasse o vício. Por um tempo, apenas. O corpo humano dispõe de um dispositivo de autopreservação que gradativamente aumenta a tolerância ao sofrimento físico, até reduzi-lo a um incômodo, uma comichão. Algo como a fisiologia dos esquimós que desenvolveu naturalmente uma camada mais densa de gordura sob a pele, de modo a suportar o inverno polar. O embrutecimento do gozo sexual já não era suficiente.

Numa noite úmida, passava sobre o fosso da escadaria do metrô, quando resolvi me jogar. Quebrei a clavícula e as pernas em partes expostas. O tempo em que passei no hospital foi o mais prazeroso da minha vida. Negligenciava a medicação oral, deixando a dor reinar em toda sua gravidade, um estado sublime. Esse foi o estopim do círculo vicioso. Logo que me recuperava, empreendia outra queda. Lançava-me de marquises, estacionamentos elevados, passarelas e sacadas de sobrados. Em seguida, vieram os atropelamentos. Perambulava por margens de avenidas, até encontrar a circunstância adequada para me arremessar contra um carro. Tudo era calculado. Fratura de pernas, braços, bacia. O plano era romper carne e ossos, explodir tendões e cartilagens, e não me perder por completo. Nunca quis morrer. Aliás, tenho pavor da morte.

Até que errei. Chovia muito, um véu de turvar a visão, mas não foi por isso. O motorista do carro guinou num reflexo improvável e o ônibus, que vinha na sua cola, me acertou em cheio.


Fiquei algumas semanas na UTI, em coma induzido. Quando voltei a mim, pensei que havia transcendido para o plano etéreo. O médico, de pé rente ao leito, era uma cópia asseada do meu pai. Só a voz que era mais suave. Ele disse que o acidente provocara uma lesão grave na coluna que me paralisaria, por um tempo imprevisto, da cintura para baixo. Não havia qualquer sensibilidade em metade do meu corpo. Parte de mim não poderia sentir dor.

Isso aconteceu faz dois meses. Desde então, sigo no hospital. A empresa de ônibus arca com as despesas. Aqui me tratam bem, ganhei peso, embora tenha de usar fralda. Passo a maior parte dos dias no quarto, lendo livros usados ou assistindo à programação chata da tevê. Saio quando tem sol pela manhã. Aprendi a usar a cadeira de rodas com meus próprios meios. Há pouco também comecei a fazer fisioterapia. Uma mocinha atenciosa, dotada de um astral envolvente, administra, três vezes por semana, sessões de recondicionamento nas barras laterais. Um passo de cada vez, ela diz com paciência. Sem pressa. Com o esforço dos braços, então, arrasto o peso do corpo até a metade do caminho. Ali o percurso construído com placas emborrachadas se estreita. É onde sempre solto as mãos e desabo, tentando, com sorte, cabecear o piso frio. Porém, assim que despenco, Frances vem ao meu socorro e me ajuda a levantar, abraçada ao meu peito. Diz que está tudo bem, para eu não ter pressa ou perder o foco, que logo, logo estarei melhor. Não sei, acho que não. Contudo, enquanto espero, antevejo as possibilidades de prazer proporcionadas pela agulha de um crachá.


Por favor, Frances, me leve para o quarto.


Dumb Quando tudo era um barato Tiago Velasco

3 Aos 12 ou 13 anos, quando morava em uma cidade do interior do Rio, com cerca de 5 mil habitantes, não havia muito o que fazer. Jogávamos bola, andávamos de bicicleta, ouvíamos música, bebíamos vodca com Coca e cheirávamos benzina. Um pouco depois, acrescentei a maconha ao repertório, hábito que cultivei de forma intensa por mais uns dez anos. Há apenas algumas lembranças, esburacadas, desse tempo. Sempre fui o mais medroso, aquele que só experimentava as drogas após todos já terem tido várias viagens. Kayke era o primeiro. Ele tinha uma irmã mais velha. Na nossa visão, ela era muito descolada, usava todas as drogas. Já tinha até cheirado pó com um repórter da tv Globo local. Uma vez a vi só de sutiã e calcinha. Kayke tinha ido buscar o beque


com uma velhinha gente-boa, Dona Isolda, e eu fiquei aguardando deitado na cama de seu quarto, lendo alguma porcaria, acho que Paulo Coelho. Ela entrou correndo, achando que não havia ninguém no quarto, e ficou lá, penteando o cabelo seminua. Levantei a vista, mas não tive coragem nem de avisar que estava ali nem de ficar contemplando a cena, baixei novamente o olhar para as páginas do livro e fingi me concentrar na merda daquele caminho de Santiago ou em alguma frase de biscoito da sorte disposta nas páginas. Talvez não fosse medo, eu era apenas meio idiota.

9 Gostar de Nirvana, L7, Ramones e Mudhoney não me ajudava a fazer amigos lá na cidade do interior onde morava. Mas o pior para esse fim, creio, era detestar Pearl Jam. Até hoje acho uma banda de bundão. E se algo dos meus 12 ou 13 anos ainda está em mim, é dividir as pessoas entre as que gostam de Nirvana e as que gostam de Pearl Jam. Lembro de forma imprecisa quando Kurt morreu. Estava passando um fim de semana na casa da minha mãe, no Rio. Peguei o jornal na porta ainda cedo, sábado ou domingo de manhã. Estava lá, com o menor destaque possível, que o ex-líder do Nirvana tinha sido encontrado morto em casa. Suicídio. Não havia internet naquela época. Descobri no jornal mesmo, com alguns dias de atraso, provavelmente. Não lembro de ter ficado muito chateado, talvez apenas surpreso. Todos ainda dormiam, então fiquei lendo aquilo algumas vezes, remoendo levemente a morte do cara que cantava as músicas de que mais gostava. Foi por meio de um conhecido uns anos mais velho do que eu, dj nas horas vagas, que conheci o Nirvana. Queria gravar uma fita nova para ouvir nas


constantes viagens que fazia entre a minha cidade no interior e a casa da minha mãe. Ele ia me apresentando as músicas, e eu apenas dizia quais queria gravar. Quando ele pôs o Nevermind, fui só assentindo com a cabeça, uma música atrás da outra, e o cd foi transferido quase na íntegra para o cassete do curso de inglês em fascículos Speak Up, que eu usava com uma fita durex sobre uns quadradinhos dispostos na face superior, de modo que as músicas podiam ser gravadas em cima das lições de inglês. Devo ter aprendido mais ouvindo Nirvana do que com as audioaulas. Também não falei com esse meu conhecido dj após ler a notícia do suicídio. Se eu estivesse lá na cidade do interior, com os meus amigos de verdade, certamente iríamos ficar chapados o dia todo, usando a morte do ídolo como desculpa.

17 Os calmantes eu tomava com um propósito: aguentar as viagens enfadonhas de ônibus para o Rio, quatro horas de desperdício do meu tempo ocioso, em fins de semana alternados. Conseguia os comprimidos de Lexotan vasculhando as gavetas do meu pai. Quando havia alguma fração qualquer do remédio perdida, a viagem deixava de ser um suplício. Essa fase não durou muito. Logo que comecei a escutar Nirvana, troquei o Lexotan por audições em loop do Nevermind e do Incesticide. Deve ter sido por isso que anos depois, em uma coluna que assinava em um site de música pop, chamei Kurt de “ansiolítico pop”. Escutar minhas fitas do Speak Up com as músicas do Nirvana talvez me fizesse feliz. O primeiro ano em que viajei sozinho – devia ter 11 ou 12 – foi bastante tenso. Ainda não usava nenhum tipo de droga. Ficava sempre alerta, observando todos os outros passageiros. Tinha medo


de ser estuprado. Um medo terrível. Fui criado pela minha mãe ao longo dos dez primeiros anos de minha vida. Foi ela que me passou esse medo. Não usava o termo “estuprador”. O perigo eram os tarados. Todo homem adulto podia ser um tarado. As minhas viagens eram assombradas por tarados em potencial naquele tempo. Meu irmão imediatamente mais velho que eu costumava dirigir para a televisão expressões como “gostosa”, “tesão” ou “delícia” sempre que Cláudia Raia, Luma de Oliveira ou Maitê Proença apareciam. Meu outro irmão, o mais velho de todos, não gostava, mandava ele calar a boca e chamava-o de tarado.

13 Foi com a exploração midiática da morte de Kurt que realmente virei fã. Recortei uma foto imensa do rosto dele e pus na porta do meu quarto. Li tudo que saiu sobre a tragédia. E enquanto lia, aos 12, 13 ou 14, sentia a perda. A música, que sempre me interessou mais pela interpretação e arranjos do que pelas letras, ganhou algum sentido a partir do sentido atribuído pelos jornais. Foi nessa época que decidi que teria tudo o que saísse sobre a banda. Comecei de forma modesta, trocando um cd do Faith No More pelo In Utero, disco que demorou a me arrebatar, talvez por uma estupidez juvenil que não permitia que eu percebesse a grande obra que tinha em mãos. E depois vieram mais discos, livros, camisetas e uma mudança na minha relação com as drogas: de entretenimento nos momentos ociosos para uma fuga romantizada do peso da existência, que, diga-se, eu ainda não sentia, mas fazia questão de frisar o sofrimento da alma como forma de dor superior.


21 Comecei a ouvir rock alternativo, usar camiseta de banda, ler autores malditos e cheirar benzina como forma de me distanciar de um certo tipo de colegas de sala de aula, um pessoal alto, atlético, por quem as meninas ficavam de risadinhas, lançavam olhares diagonais e até deixavam escapar alguns suspiros. Durante algum tempo essa estratégia deu certo. Minha galera esquisita me deu um sentimento de pertencimento essencial tanto para perder o medo de ser estuprado no ônibus para o Rio quanto para me dar alguma autoestima para lidar com a rejeição por parte das garotas. Durante semanas, após vinte e cinco minutos cheirando benzina no banheiro da escola durante o recreio, subíamos para a sala momentos antes de tocar o último sinal que indicava o recomeço da aula e fazíamos um corredor polonês na entrada, de modo que todos precisavam passar por nós para se instalar em suas carteiras. E quando elas cruzavam o corredor, apalpávamos bundas e coxas e, com um puxão, estalávamos os sutiãs em suas costas. Tínhamos 12 ou 13 anos, e talvez nos sentíssemos felizes. Um dia, bateu uma consciência de gênero em uma amiga nossa que costumava cheirar conosco a caminho do fliperama e ela contou para a coordenação. O coordenador invadiu o banheiro na hora do recreio. Eu estava cagando, trancado dentro de uma cabine. Todos os outros foram pegos com as camisetas do uniforme embebidas em benzina na boca. Kayke foi expulso. Ninguém me dedurou. Não participei mais de corredor polonês algum. Afastei-me desse pessoal também. Éramos todos uns estúpidos, os roqueiros pretensiosos e os playboys atléticos.

5


Uma das coisas que mais curtia fazer lá na cidade do interior era guerra de bosta de vaca. Depois de jogar bola com alguns dos amigos, fumávamos um beque. Invariavelmente, havia cocô de vaca e de cavalo nas redondezas do campo. Bastava alguém se distrair, meio chapado, e pronto, tomava uma bolota de bosta na cabeça. Era o estopim para todos correrem atrás um dos outros arremessando uma porção de massa escura de pasto ruminado. Os melhores eram os que estavam quase secos, com o núcleo gosmento e a superfície, em casca. Podíamos fazer isso por uns bons minutos. Depois de nos acabarmos de rir, de tropeçar e de ficar com bosta até o cabelo, dávamos a brincadeira por encerrada. Por fim, escolhíamos a piscina da casa de um de nós para nos banharmos, deixando a água turva.

27 Quando voltei a morar no Rio, acho que com 14, 15 ou 16 anos, demorei para fazer amigos na escola. Foi um dos piores lugares que já frequentei. Não me dava com ninguém. Ali, a minha sensação de completo estrangeirismo gritava. Só não devia ser maior do que a do Takahashi. Ele foi um dos meus primeiros amigos na nova escola. Um dia, fui à aula com uma camiseta do Nirvana. Ele era fã da banda e logo veio puxar assunto. Estranhei quando se aproximou e me cumprimentou. Aquele japonês de cabelo longo ficava sempre na última carteira, invariavelmente quieto, fosse aula ou recreio, quando não estava dormindo. Depois descobri que o mutismo tinha a ver com o fato de ele se incomodar muito com a ascendência oriental. Todos os dias que se olhava no espelho tinha que lidar com os traços nipônicos que o deprimiam. Nunca perguntei o motivo, mas já o vi dando um chute no peito de um


sujeito que o chamou de japa. Depois, o cara reagiu com dois fortes socos. Takahashi aceitou, virou de costas e se afastou, taciturno. Ele costumava gostar de Lexotan; eu pegava pesado com a bebida e fumava cada vez mais maconha. Sempre tive uma ótima relação com as drogas, todas sempre me fizeram bem; Takahashi, no entanto, costumava ter bad trips, ficava neurótico, volta e meia falava em suicídio. Não levava muita fé, parecia-me romântico demais, ele sempre dizia que queria morrer como Kurt, queria viver embaixo da ponte como Kurt, queria ser viciado em heroína como Kurt. Eu não tinha mais paciência para esse tipo de relação com a tristeza, já havia optado pelo cinismo, o sofrimento era menor. Havíamos marcado de viajar no feriado. Liguei para ele, precisávamos combinar algumas coisas ainda. Sr. Takahashi atendeu, você não sabe, perguntou, ele, gaguejou, ele morreu, sofreu um acidente de carro na noite passada. Fiquei quieto. A mentira foi revelada quando a senhora Takahashi assumiu a ligação. Ele havia pulado do décimo primeiro andar, da janela do próprio quarto. Conheci o peso da existência. Sempre haverá vodca com Coca, benzina e maconha.

35 Talvez não fôssemos realmente idiotas; tampouco felizes.


Pennyroyal tea Chá de poejo Flávia Iriarte

Sit and drink pennyroyal tea Distill the life that's inside of me Sit and drink pennyroyal tea I'm anemic royalty

Todo casal escolhe suas próprias metáforas. Nisso, não fomos diferentes. Na verdade, não fomos diferentes em quase nada, mas isso não vem ao caso agora. Você chegou com sua calça jeans e blusa lilás, os cachos negros e desalinhados, sentou-se ao meu lado e eu alisei os seus cabelos e beijei sua boca memorizando o seu hálito. Nesse dia aprendi que você sempre chegaria como se o mundo lá fora estivesse acabando. Clássico erótico cult japonês? Rá-rá-rá.


Sabe, há uma história real muito parecida, um caso clássico do Direito Penal alemão. Um casal apaixonado decide que o ato final de amor deles deve ser a devoração mútua. Não no sentido oswaldiano, no sentido literal mesmo. Eles vão se comer. Arrancar, com uma faca, pedaço a pedaço do corpo um do outro e fazer um jantar a dois. Começam arrancando o pênis de um e fritando-o numa frigideira (eles inclusive o refogam, com óleo, alho, cebola), mas o sujeito acaba morrendo de uma hemorragia e o outro é acusado de homicídio. Primeiro decidiram por uma pena mínima, mas depois o caso foi reaberto e ele pegou quinze anos de prisão. É isso que vamos ver? Parecido, acho. Ver esse filme ao seu lado foi uma espécie de permissividade. Ali ao meu lado estava o homem de pele branca, mãos burguesas de quem toca pouco o mundo, o homem que eu autorizaria me invadir e devorar. O homem que eu também devoraria. Todo casal escolhe suas próprias metáforas (ou será que são elas que nos escolhem?) Eu sabia desde o início, você era o meu chá de poejo. Lindo e sóbrio como um rei no momento da ordem, como um leão satisfeito. Eu te consumiria ao meu modo e então fabricaria uma espécie de fim; você também me devoraria, ó sim, com a violência de um ódio cego, de um Pasolini raivoso, de uma serpente perfurando o ovo. E então cairíamos, cada um ao seu modo personalíssimo, pois não há nada mais íntimo e verdadeiro em um homem do que a sua maneira de morrer. * Café? Não, obrigada, eu só tomo chá, café machuca o meu estômago.


Sei, machuca o meu também, mas eu tomo mesmo assim. Acho que só gosto das coisas que machucam... RÁ-RÁ-RÁ-RÁ Que foi? Sua cara essa frase, bem dramática. Deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa... Uau! Falou o fino. Meus dramas têm mais charme. (Rá.) Claro. Você precisa ler um pouco mais. Claro. Que merda de chá é esse que você toma? Você tem que ler Camus. Sim, senhor. Que merda de chá é esse? Impressionante como você é burguês. Somos. Vá se foder. Isso é demodé. Para com isso, por favor. Isso o quê? Não aceitar sua condição burguesa. Coisa mais anos sessenta. Ok, não entendo as suas piadinhas. Mas também não quero entender. Não quero me tornar pedante e miserável como você. Você precisa ler a tese de Camus sobre o suicídio. Uhum. É a única questão relevante. O suicídio. Todo homem deve diariamente tomar a decisão de morrer ou continuar viver. Me passa a faca?


Deve decidir que não. Tem café ainda? Não se matar. Não é chato ficar falando sozinho? Impressionante como você é agressiva. Impressionante como você é insuportável. Eu sou um gênio. * Se um dia eu me matar, você vai no meu enterro? RÁ-RÁ-RÁ- RÁ-RÁ-RÁ- RÁ-RÁ-RÁ. Depois eu que sou dramática. Rá, foi uma boa frase, admita. Eu não podia negar que a sua capacidade de rir de si próprio era invejável. Se eu fosse capaz de um pouco que fosse da sua ironia, minha literatura seria melhor. Nisso você estava certo. Mas será que você não podia viver um minuto como uma pessoal normal? Só estou tentando manter o humor aqui. Um dia só, juro que só tô te pedindo um dia. Será que você não consegue falar por um dia, por uma maldita hora que seja, da pizza, do chope, de uma fantasia sexual. Ó. Taí. Uma fantasia sexual! Você não tem nenhuma? Outro homem. Outra mulher. Aquela sua amiga, a Luíza, a dos olhinhos azuis melancólicos, eu pegava. Que tal hein? Um menàge. Eu, você e Luíza. A Luíza? Rá-rá-rá-rá-rá-rá, não sabia que você tinha esse lado. Mas a Luíza, não sei, sei lá, ela tem uma coisa meio frígida, não passa nada erótico, sexual. Ai, tá bom. É frígida, sim. Pois eu acho ela bem sexual.


Rá! Quê? Falou a mulher bem resolvida e supermoderna. ... Sabe aquela música do Bob Dylan?... É sua. You´re just like a woman, but you break just like a little girl... Ok. Eu não aguento mais. Eu mereço uma pessoa normal ao meu lado. Bod Dylan é demais. Vá se ferrar. * Em muitos momentos eu quis que fôssemos um casal normal sim. Mas não em todos. A mulherzinha frágil que suplicava por afeto enquanto você, ó, intelectualizava a vida. O super-homem capaz de abdicar das contingências mesquinhas dos afetos pra viver no mundo privilegiado dos conceitos. O único caminho é cruel e violento. Ok. Seus cabelos cheiram a desenvolvimento. Sim, meus cabelos cheiram ao que você quiser. Sabe qual o melhor trecho dA insustentável leveza do ser? A parte em que a mulher está sentindo tanta mas tanta angústia que sai de casa com as meias trocadas. É lindo, sabe. É de chorar. É sim. Eu grifei essa parte no meu livro. * Hmmm, que delícia. Sogrinha arrasou no bolo. Me dá um pouco desse chá aí hoje, vai.


Você tem que ler um conto do Sallinger, "Tio Igly em Connecticut". Ele explica por que o texto daquela garota lá na sala aquele dia é tão ruim. Como assim? (distante) É um conto sobre duas amigas que estudaram juntas na faculdade. E depois de anos sem se falar, uma vai visitar a outra em Connecticut. E aí? E aí é só isso. É justamente isso. Um texto não tem que falar sobre nada. Tem que falar sobre ele mesmo. Joyce, Becket, Borges. Não falam sobre nada. A literatura não tem que falar sobre nada. Só sobre ela mesma. Por isso que era ridículo aquele texto da garota sobre o mendigo. Literatura não tem que falar sobre mendigo, pobreza, Holocausto, essas coisas... Essas coisas, sei. Me passa o pão? Por isso seu texto também não é bom. Ele quer falar SOBRE AS RELAÇÕES HUMANAS. (Vingativa) Poejo. O quê? Seu chá. Perguntei pra sogrinha. O neném toma chazinho de poejo pra bronquite. Owwwwn. Há quanto tempo, hein? Desde sempre? Todo dia isso? É essa merda que te faz mal. Por isso você é assim, insuportável, egoísta. Isso te intoxica. Sua mãe te intoxica. Rá-rá-rá-rá-rá-rá-rá-rá! Você tá com inveja. Porque comentaram o meu texto e não o seu. Você se esconde atrás dessas frases de merda, mas no fundo é um molequinho mimado e inseguro. Que toma chá de poejo pra bronquite porque a mamãe manda. Eu sou a realeza anêmica. Oi?


(Irônico) Sit and drink pennyroyal teeeeeeeeeeea/ I'm anemic royaltyyyyy Que isso? A música do Nirvana. Pennyroyal tea, chá de poejo. Não foge do assunto. Que assunto? Eu não aguento mais isso, ok? Isso? Eu não posso suprir todas as suas carências. Você tem que aprender a suportar as coisas. Suportar as coisas. Que coisas?! A única coisa que eu não suporto é a sua arrogância, os seus amigos afetados. Cara, aquele poema do Turelli é uma merda. É equivocado. Ah, não é tão ruim, vai. Melhor que esses lirismos cafonas que você gosta. Rá! Qualquer lirismo é melhor que aquilo. Aquela maluquice formal é só pretexto. No fundo, o poema é nulo. Sabe o que aquela merda quer? Estabelecer uma relação de cumplicidade com uma elite pseudointelectual e desocupada que nunca leu um único livro de poesia até o final e que vai ler aquela porcaria e dizer em silêncio "rá-rá-rá, genial". Isso é verdade. Você tem um pouco de razão. Mas me mostra algo melhor. Claro, tem o que eu faço. Rá! Mas outra coisa, me mostra outra coisa. Tem o que eu faço. O dele é melhor. * Posso ter roubado suas frases sim, mas isso não é tudo. O fato, tão importante mas que você ignorou sempre, é que na minha


boca, na minha vida, elas, as suas frases, ficaram sempre melhores. Você, preocupado em carregar a pedra para o topo da montanha pelo simples prazer de vê-la cair, com seu ar de suicida do século XX, os olhos de Sodoma destruída, castigada pelo enxofre divino, enquanto eu admirava calada o seu espetáculo e forjava a minha própria audiência. Um criador que não pensa no seu público, mesmo que com desprezo, está fadado ao fracasso. * Tô escrevendo um texto. Queria que você lesse. Acho melhor não. Por quê? Porque posso não gostar. Voc Porque provavelmente não vou gostar. E não quero ter que dizer isso. Pode ser que você goste. Acho difícil. Quero que leia mesmo assim. Não quero. Sua arrogância é doentia. Vou na cozinha buscar chá. Quer alguma coisa? Vou embora. Deixa de ser infantil. Você tá me destruindo. De novo esse drama? E eu tô deixando.


Ok. O que você quer que eu faça? Que leia o texto. ... É ruim. Oi? Eu li. Ontem, enquanto você dormia. Fica claro que você tenta me copiar, faz um pastiche do que eu faço, mas os temas são artificiais, a forma é imatura. O título é a pior coisa. Pretensioso, pedante. Mas eu não queria ter entrado nesse assunto. Você me obri (Dramática) Você é patético. Você acha que eu preciso te copiar? Que alguém precisa? Quem você pensa que é? Eu sabia. Eu disse que não queria entrar nesse assunto. Você acha que as coisas nascem em você, é um completo absurdo. Sua arrogância não tem limite. O personagem do texto sou eu, é ridículo. Eu sou seu personagem. Sua forma. É assustador isso. É doentio. Rá! Não dá pra acreditar que você esteja dizendo isso, sabia. Você me usa o tempo todo. Você usa todo mundo o tempo todo. As pessoas não existem pra você. Você anula tudo, só existe você. É repulsivo. Toda forma de lidar com a realidade é apropriativa. RÁ-RÁ-RÁ-RÁ-RÁ-RÁ-RÁ (Interrogativo) Será que você não consegue um minuto ficar longe dessas suas frases feitas e viver a vida. Eu preciso de alguém que saiba viver a vida. Eu não aguento mais isso. (dramática) Eu vou na cozinha, já volto. Você me assusta. Quer alguma coisa? ...


Quer ou não? Eu tô indo embora. Não tá, não. Vamos ver. Você sabe muito bem que não tá. Eu quero que você morra. Você sabe que longe de mim sua literatura não tem futuro. Qual a sensação que te domina a maior parte do tempo? Oi? A sensação. Que você mais sente durante o dia. Sei lá. Que pergunta. Eu sempre respondo as suas. Sei lá (enigmático). Destruição...? Você vai morrer do próprio veneno. Melancolia e vontade de terrorismo. Na maior parte do tempo. * Li, há algum tempo, a tese de Camus sobre o suicídio. Li, na verdade, em silêncio, tudo o que você citava enquanto tomava com ar de realeza o seu chá de poejo. Creio que esses existencialistas querem convencer os outros do que nem eles próprios estão convencidos, é essa a minha opinião. Penso em todos os suicidas do século XX. Woolf, Plath, Hemingway... Em Kurt Cobain andando feito um fantasma em Seattle, as doses de heroína, o sangue escorrendo pelo ouvido na banheira, a carta para o amigo de infância imaginário. Será que você também teve um amigo imaginário?


Depois imagino uma imensa montanha de neve e em todos os homens que foram lá esquiar pensando na morte. Penso também em Camus na estrada, o manuscrito inacabado na maleta, o Fácel-Vega desmantelado como uma ave abatida. Nada pode ser mais absurdo do que morrer num acidente de automóvel. Os intelectuais e suas ironias. * Não iria. Hãn? No seu enterro, se você matasse. Rá! Seria patético, se você fizesse isso. Todo fim é patético. Você me cansa. * Estou intoxicada. De você. Das suas palavras. Do seu chá de poejo. Sou ele também. Tenho em mim o ódio de um Holocausto, mas só o uso contra mim mesma. Vou morrer disso, eu sei. Acabei nunca te perguntando o que você pensa sobre o caso dos amantes alemães. Pelo que entendi, ficou de alguma forma provado que o ato antropofágico causador da morte foi consensual. Será que isso absolve o criminoso? Será sequer que isso o torna criminoso? Será que o consentimento nos absolve das nossas próprias mortes? Talvez. Quem é que sabe, não é mesmo?


All apologies Todas as desculpas Rafael Mendes

Por um tempo minha mãe quis que eu fosse ao psicólogo. É importante você ir, ela disse. Vai te ajudar. O consultório era em Pinheiros, na Avenida Faria Lima, num prédio de aparência muito velha. Tinha uns ladrilhos na fachada, estilo anos oitenta. Nas duas primeiras consultas, minha mãe foi comigo. Pra aprender o trajeto, ela disse. Depois, você vai sozinho, de ônibus. Minha mãe sentava-se no sofá da recepção do consultório, eu também. A recepcionista ficava anotando no caderno dela, atendendo ao telefone, lixando as unhas e, de vez em quando, olhando pra gente. Minha mãe folheava uma revista e eu admirava um quadro velho, na parede. Uma paisagem impressionista, um lago e uma ponte, a imitação de um Monet. Se eu sabia naquele


tempo quem era Monet e o que era impressionismo? Acho que não. Talvez aquele quadro não fosse tão velho, talvez essa imagem pra mim seja mais nova, talvez tenha nela um cone de trânsito e um carrinho de supermercado. Eu ficava olhando praquele quadro, e então o psicólogo me chamava. Rafael, é a sua vez.

***

Muitos anos depois, passei de novo em frente daquele prédio. Parei na frente dele. Mudaram a fachada. Pintaram de uma cor moderninha, meio verde, meio amarela, meio fluorescente. Não é mais um consultório de psicologia, agora parece que lá funciona uma filial da Atento. Naquela tarde o prédio tava todo fechado. Tinha umas grades em torno dele, uns tapumes cobrindo as janelas. Fiquei um tempo olhando pro prédio, mas logo tive que sair correndo. Veio uma leva de gente correndo pro meu lado, correndo sentido Largo da Batata, e tive que correr também. A tropa de choque jogou uma bomba perto da gente. Uma pessoa caiu ao meu lado, mas nem ajudei essa pessoa a se levantar. Não sei se quem caiu era homem ou mulher, não dava pra ver direito, meus olhos lacrimejavam por causa da bomba. Sai correndo, correndo muito. Cheguei ao Largo da Batata, desci a Rua Butantã. Era junho de 2013, e eu participava dos protestos contra o aumento da passagem de ônibus.


***

A partir da terceira consulta ao psicólogo, minha mãe deixou de ir comigo. Ela me dava dinheiro pra passagem, eu pedia pro cobrador me avisar quando o ônibus chegasse ao terceiro ponto da Faria Lima, por favor. Não se esqueça de ser educado, minha mãe dizia. Na recepção do consultório, como eu já tava cansado de olhar pro quadro, ficava folheando a minha revista Showbizz Especial Kurt Cobain. Naquela época, tava fissurado no Nirvana. Queria ser um astro do rock igual aos caras. Havia assistido, na tv Globo, ao show em que o Nirvana fez no Hollywood Rock. O Kurt, vestido que nem menina, botou o pau pra fora em cima do palco, bateu punheta pra câmera, saiu do palco engatinhando e eu achei aquilo tudo muito maneiro. Na época em que ia ao psicólogo, em 1993, tudo o que mais queria na vida era ir ao show do Nirvana. No sofá da recepção, folheava a minha revista com cuidado, metodicamente, prestando muita atenção nas letras traduzidas das músicas. Não sei se meu psicólogo chegou a tirar alguma conclusão a respeito, não lembro nem sequer se chegamos a falar sobre música, realmente não lembro. Não sei nem mesmo se Freud explica isso, essa relação conflituosa que tenho com o Nirvana, mas pra mim isso é muito significativo na minha personalidade, no meu caráter. Rafael, é a sua vez.


***

Viemos a São Paulo porque aqui vivia meu pai, um tal de Ademir. Minha mãe quem me disse. Seu pai mora no bairro do Butantã. Vai ser fácil encontrá-lo. A gente fala com ele, resolve logo essa situação e tudo há de ficar bem. Você vai ver. No começo da década de 90 ainda não existia o Google Earth. Minha mãe não fazia a mínima ideia de que o bairro do Butantã, sozinho, era no mínimo duas vezes maior do que Peabiru, no Paraná, de onde viemos. Encontrar meu pai, em São Paulo, era impossível. Ainda hoje, encontrar qualquer pessoa em São Paulo, sem saber onde essa pessoa mora, seu telefone ou seu perfil no Facebook, é impossível.

***

Um dia, em 2013, corri mais uma vez feito um louco da polícia. Corri da Faria Lima até a Rua Butantã, de lá atravessei a ponte Eusébio Matoso e cheguei à Avenida Vital Brasil. Tava tudo muito bagunçado. A gente jogava pedra nos vidros do Banco Itaú e pichava os carros. Nesse dia, também procurava por uma pessoa. Não é por vinte centavos, eu gritava olhando pros lados, procurando essa pessoa de que nem sequer sabia o nome.


***

Não lembro quanto custava a passagem de ônibus em 1993. Só lembro que se eu juntasse o dinheiro por uns dias, em vez de pagar a condução pra ir ao psicólogo, conseguiria comprar a fita cassete do Nirvana. Era perfeitamente possível caminhar a pé pro consultório, do bairro do Butantã até a Avenida Faria Lima. Economizava aquele dinheiro que minha mãe me dava, pra comprar a minha fita. Às vezes tinha fome, então gastava uns trocados num churrasquinho de rua, no caminho. Ninguém precisava saber disso. Pelo o que me lembro, esse foi meu primeiro segredo, a primeira vez que menti pra minha mãe. Ao chegar ao consultório, dava boa tarde pra recepcionista, do jeito que minha mãe havia me dito, e passava a folhear a Showbizz, me imaginando de cabelo comprido e vestidinho de menina.

***

Numa tarde, indo pro psicólogo, eu comi mais um churrasquinho de rua. Na volta pra casa, topei com o churrasqueiro, na calçada.


Ele tava com a família dele. Acho que era a família dele. O churrasqueiro empurrava um carrinho de pedreiro carregado de carvão, álcool, espetos. A mulher e o menino levavam dois sacos de batata, dois sacos de batata que se mexiam muito. Olha, mãe, esse é bem gordinho, disse o menino. Ouvi um miado. Um miado de gato novo, de gato recémnascido. Vomitei na calçada, lambuzei meu sapato e deixei cair minha revista Showbizz Especial do Kurt Cobain em cima daquela nojeira.

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Recentemente eu me engajei na luta pela proteção e pelos direitos dos animais. Curti todas as páginas de todas as organizações que militam nessa causa, passei a segui-las no Twitter. Já não comia carne há muito tempo, desde que me traumatizei na infância, por isso era natural que me engajasse nessa luta. Quando recebi um convite pra um evento em São Roque, pra salvar alguns beagles que sofriam num laboratório, não tardei em aceitar. Fui até lá, até São Roque, e ajudei a tirar os cachorrinhos das jaulas. Levei um pra casa.

***


Rafael, é a sua vez. Entrava na sala do psicólogo, sentava naquele sofazinho que somente anos mais tarde descobriria se chamar divã. Não entendia muito bem o que eu ia fazer naquele lugar. O psicólogo ficava olhando pra mim, me perguntava alguma coisa, anotava minhas respostas na caderneta. A gente jogava dominó, dama, jogo da memória. Entrava a recepcionista segurando uma bandeja com biscoitos e café com leite. Eu sentia um sono muito grande, sempre. Uma vez, o psicólogo pediu que eu desenhasse alguma coisa. Me deu um papel e uma caixa de lápis Faber Castell. Mas o que é que eu tenho que desenhar? Desenhe o que quiser, Rafael. Eu detestava desenhar. Não sabia desenhar e não queria desenhar nada. Desenhe, é importante você desenhar. Vai te ajudar. É só pôr no papel aquilo que você sente. Então desenhei a única coisa possível a se desenhar, naquele momento. Desenhei pra calar a boca daquele velho que tava me enchendo. Desenhei o rosto do Bad Boy, o símbolo da marca de roupa que tava na moda. Era muito fácil desenhar aquilo. Dois olhos, uma boca torta, um cabelo espetado. Qualquer garoto conseguia desenhar o Bad Boy. Uma cara de mal. Por que você desenhou esse rapazinho nervoso?, o psicólogo quis saber. Eu li num livro que tem coisas na vida que se aprende de uma hora pra outra, e esse jogo que o meu psicólogo fazia comigo, pra me interpretar, me entender, aprendi naquela tarde. Acho que amadureci um pouco durante a consulta. Só desenhei isso porque você me obrigou a desenhar, seu porra, pensei em dizer, mas não


disse.

***

Muitos anos depois, desenhei de novo o símbolo da Bad Boy. Tava na Paulista, alguém colocou um spray na minha mão. Era um dos primeiros dias dos protestos de junho. Piche, esse alguém disse. O quê? Piche, só piche. Então eu pichei o Bad Boy. Dois olhos, uma boca torta, um cabelo espetado. Que bosta é essa?, disse o cara ao meu lado. Acho que ele deu risada. Não dava pra ter certeza porque seu rosto tava coberto por um pano. Eu só conseguia ver os olhos dele. Usava All-Star, igual a mim, e uma camiseta estampada com a capa do Nevermind, um bebê nadando atrás de um dólar. É o Bad Boy, pensei em dizer, mas antes que dissesse qualquer coisa ele disse, filhos da puta. Ei, polícia, vai tomar no cu. A gente teve que sair correndo, correndo sentido Consolação. De lá corremos até a Maria Antônia, nos embrenhamos juntos ali por dentro, despistamos os militares. O cara tirou a camiseta que tampava seu rosto, limpou o suor com ela. Olhou pra mim, sorriu pra mim. As bombas ainda explodiam na Consolação, nossos companheiros gritavam ao nosso lado, se a passagem não abaixar, a cidade vai parar. O cara cobriu o rosto de novo, saiu correndo, correndo sentido Minhocão. Fiquei ali olhando pra ele, até que sumiu no meio da fumaça.


***

Pra Freud, se um sujeito crescer sem pai, entre outros fatores, talvez esse sujeito se torne homossexual, no futuro. Acho que minha mãe assistiu a uma matéria sobre isso, no Note & Anote, da Ana Maria Braga, e por isso resolveu me levar ao psicólogo. Isso foi depois que ela me flagrou em frente ao espelho, trajando um de seus vestidinhos. Acho que ela juntou isso ao fato de eu estar deixando o cabelo crescer e não ter pai, e pensou que o melhor mesmo era eu ir ao psicólogo. É importante você ir, ela disse. Não adiantou em nada dizer que o vestido era pra imitar o Kurt, que o cabelo era pra imitar o Dave, e que meu pai, oras, meu pai era problema dela, minha mãe. ***

Em 2013, quando há muito tempo eu já havia assumido a minha condição sexual, já militava pela peta e votava no psol, achei pertinente participar dos protestos contra o aumento da passagem de ônibus. O que não contava era que fosse me apaixonar pelo cara com a camiseta do Nirvana, dias depois, quando os protestos se intensificaram, já mobilizavam gente fora da cidade, se propagavam pelas demais capitais, de modo que o aumento de vinte centavos na tarifa, que desencadeou todo o movimento, nem mais importava.


***

Outro motivo pra homossexualidade, ou homossexualismo, como Freud diria, pode ser um trauma significativo que o sujeito sofreu na juventude. Em 1994, sofri um grande trauma, é verdade, mas não é por isso que sou homossexual. Eu sempre fui, desde que me entendo. Tudo bem que naquele ano, 1994, tentei negar esse fato, embora ninguém me perguntasse nada a respeito. Mas dentro de mim eu negava. Queimar o vestidinho da minha mãe, rasgar a outra revista Showbizz Especial Kurt Cobain que havia comprado, igual àquela que tinha lambuzado de vômito, eram formas de negar a mim mesmo que era gay. Eu já era gay antes mesmo de a pessoa mais importante pra mim, naquela época, morrer.

***

Depois que os manifestantes subiram a rampa do Planalto, em Brasília, depredaram as ruas do centro do Rio de Janeiro e tentaram invadir o Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, o movimento dos vinte centavos, era natural, começou a se dispersar. A coisa toda descambou pra um protesto genérico contra a corrupção, contra o aborto e outros temas sem diretriz, sem fundamento nem liderança. O prefeito e o governador retrocederam na decisão de aumentar a tarifa, e isso calou a boca de


muita gente.

***

Em 1994, morreu a pessoa mais importante pro rock naquele tempo, Kurt Cobain. Os médicos disseram que ele meteu uma bala de espingarda no queixo, na banheira de sua casa, em Lake Washington. Os médicos também disseram que haviam encontrado uma alta concentração de heroína e vestígios de Valium em seu corpo. Além disso, encontraram uma nota escrita por Kurt, uma espécie de carta de despedida, que não esclarecia muita coisa. Eu chorei muito quando soube. Abracei a minha revista, fiquei escutando as músicas do Nirvana na 89, a Rádio Rock. Beijei a foto do Kurt, beijei muito, tanto que minha mãe precisou me conter e me mandou parar com aquela frescura.

***

A minha paixão pelo carinha, pelo pichador que vestia a camiseta estampada com o bebê do Nirvana, assim como os protestos, também esfriou. Eu deveria saber que nunca mais iria vêlo, que é impossível encontrar alguém em São Paulo dessa maneira, sem pista alguma. Eu havia procurado por meu pai, sem sucesso, já


tinha passado por isso, deveria ter aprendido essa lição. O fato é que esse cara bonitão suscitou em mim alguns sentimentos que há muito tempo tavam escondidos. Talvez por isso tenha me apaixonado por ele. Talvez, por essa paixão, a imagem do cara associada ao Nirvana, a banda que eu mais gostava quando préadolescente, me fez rememorar muita coisa. Pichar o Bad Boy na parede, participar do sequestro dos cachorrinhos, o preço da passagem de ônibus, o mesmo ônibus que pegava pra ir ao psicólogo, o prédio do psicólogo, essa sucessão de acontecimentos me fez lembrar um tempo que tentava esquecer.

***

Em 1994, morreu a pessoa mais importante pra mim, minha mãe. Os médicos disseram que ela morreu de infarto, no meio da rua, a caminho de um dos antigos locais em que ela sabia que meu pai havia trabalhado. Por causa disso, fui parar no Instituto de Meninos São Judas Tadeu, um orfanato na Vila Prudente, onde passei o restante da minha adolescência. Antes de ir pra lá, porém, ainda em casa, queimei os vestidinhos de minha mãe, cortei o meu cabelo com uma tesoura sem ponta, rasguei a minha revista do Kurt e, num impulso, piquei a carta de despedida que havia acabado de escrever pra ela, minha mãe. Ela morreu de infarto, os médicos disseram. Mas, pra mim, nada mudava o pensamento de que ela havia morrido de desgosto. Desgosto por não achar meu pai, por ter que me criar sozinha, por não conseguir me curar da homossexualidade, como ela pensava ser


possível. Por isso eu não podia ser gay, pensava, e escrevi na carta. No orfanato, voltei a consultar um psicólogo. É importante, vai te ajudar, os educadores diziam. Sentava em um dos bancos do pátio, esperava a minha vez de ser atendido, em meio a outros garotos com problemas iguais ou maiores que os meus. Rafael, é a sua vez. Foi lá que aprendi a escrever um diário, a pôr no papel aquilo que sentia, num recurso que imagino ser semelhante àquele que o outro psicólogo tentou aplicar em mim, com os desenhos. Escreva, Rafael, é importante você escrever, o psicólogo de agora me dizia.

***

Adulto, deixei de escrever. Era pior pra mim, escrever me arrastava sempre pro passado, pra minha infância, e eu queria esquecer aquela coisa toda. Nem mesmo o Nirvana queria mais escutar. A morte do Kurt me fazia lembrar a outra morte. Depois dos protestos de 2013, com a recorrência de acontecimentos que me remetiam àquele tempo, pensei em me empenhar nos desenhos. É importante desenhar, disse pra mim mesmo. Queria fazer algo melhor que o meu desenho do Bad Boy. Fiz um estudo sobre arte de rua, sobre Os Gêmeos, sobre o Titi Freak e principalmente sobre o Banksy, um gringo que mistura obras de pintores famosos, como Da Vinci e Monet, a elementos contemporâneos como um cone de trânsito. O Banksy tem umas obras de protesto contra o capitalismo, que vem ao encontro com o


que penso. Mesmo assim, mesmo estudando a obra desses caras, não consegui aprender a desenhar. Dois olhos, uma boca torta, um cabelo espetado. Então só me restava a escrita. É por isso que agora escrevo este texto. Mas acho que nada que venha a dizer aqui se aproximará da comoção que senti ao escrever a carta pra minha mãe, uma carta de despedida que ela jamais leria, pois já tava morta. Não lembro com exatidão o que escrevi, só lembro que no final, depois de dizer que continuaria a procurar por meu pai, pra ele cuidar de mim, e de prometer o impossível, que era tentar deixar de ser o que era, gay, perguntei o que mais eu poderia ser, o que mais eu poderia escrever, e ainda pedi desculpas, todas as desculpas.


Autores

alessandro garcia nasceu em Porto Alegre em 1979. Autor de A sordidez das pequenas coisas (Não Editora, 2010), finalista do Prêmio Jabuti e um dos vencedores do Prêmio Fundação Biblioteca Nacional e de Agora que estamos de volta (e-galáxia, 2015). Participou de diversas coletâneas e revistas e é um dos editores da revista Flaubert. Tem contos traduzidos para o inglês e o espanhol. Finaliza o romance A zona da invisibilidade.

alexandre nobre

é paulistano, mas reside em Ribeirão

Preto, interior do estado. Durante os anos noventa atuou como compositor e guitarrista em bandas de blues e rock e, paralelamente, publicou algumas poesias e contos em jornais e revistas da cidade e região. A partir de meados dos anos 2000 passou a dedicar-se à literatura, sendo premiado em diversos concursos literários do País, dentre os quais destacam-se: o Concurso Nacional Luiz Vilela 2008, de Minas Gerais, com o conto A mangueira da nossa infância; o concurso Newton Sampaio 2009, do estado do Paraná, com o conto Aila; o Concurso Maximiano Campos, do Recife 2007, com o conto A praia; e o concurso de contos Prêmio Ignácio de Loyola Brandão 2011, com o conto Fazenda Nova América, dentre outros. Lançou em 2013 o livro A mangueira da nossa infância, que reúne estes e outros contos e foi vencedor no Proac 2011, da secretaria da cultura de estado de São Paulo.

anderson fonseca é escritor e professor, autor dos livros de


contos Sr. Bergier & outras histórias (2013) e O que eu disse ao General (Oitava Rima, 2014). Escreve diariamente duas laudas de um livro novo de contos, e quando não escreve, está brincando com sua filha Ana Clara.

andré tartarini

escreveu o livro de contos Mormaço

também queima (2008) e o romance ainda inédito Apetites carnais desordenados. É editor regional da Flaubert. Idealizou e organiza a coleção SE7E.

andré timm

é natural de Porto Alegre. Insônia, seu livro de

estreia, recebeu Menção Honrosa no Prêmio sesc de Literatura, tendo um de seus contos selecionado para integrar a revista Machado de Assis, uma publicação da Biblioteca Nacional que tem como objetivo divulgar autores brasileiros para o mercado editorial internacional. É criador e editor do 2 mil toques, um site que mostra as rotinas e processos envolvidos na produção de escritores. Saiba mais em www.andretimm.com.br.

bruno liberal

é economista e escritor. Estreou na literatura

com o livro de contos Sobre o tempo. Seu segundo livro, Olho morto amarelo foi, em 2003, o grande vencedor do 1° Prêmio Pernambucano de Literatura. Também foi um dos vencedores, com o conto Esse último sorriso do 1° Prêmio Internacional de Literatura Cartonera (Cephisa Cartonera, França). Em 2015, publicou o volume de contos O contrário de B., pela Confraria do Vento. Vive em Petrolina, Pernambuco.

daniel osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. É professor de literatura, crítico literário e editor regional da Revista Flaubert. É colunista do Jornal Relevo, de Curitiba. Publicou o livro de contos


Abismo (2009) e seu segundo livro, Sob o signo da noite, está no prelo. Mantém o blog www.novatavolaredonda.blogspot.com.

débora ferraz é escritora e jornalista. Seu primeiro romance, Enquanto Deus não está olhando, foi vencedor da 10ª edição do Prêmio Sesc de Literatura e do Prêmio São Paulo de Literatura. É autora ainda de um livro de contos, Os anjos (2003), e seu conto O filhote de terremoto, finalista do Prêmio Sesc Machado de Assis, foi adaptado para o curta-metragem Catástrofe (2013). Trabalha atualmente em seu segundo romance.

delfin

é jornalista, designer gráfico, editor paulista da revista

literária Flaubert e editor-chefe do site Terra Zero.

flávia iriarte

é editora e publisher, fundadora da Oito e

Meio, editora especializada na publicação de ficção contemporânea, e da comunidade online voltada para escritores, Carreira Literária. Já publicou seus textos em revistas brasileiras e estrangeiras e a coletânea de contos Todo homem naufraga (Editora Oito e Meio).

flávio torres é advogado e escritor. Participou de coletâneas de contos e é autor de Monstros Fora do Armário (Não Editora).

helena terra mora em Porto Alegre. É jornalista, ilustradora e escritora. Seu primeiro romance, A condição Indestrutível de ter sido, foi publicado em 2013 pela editora Dublinense.

joão vereza

nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Em 2006,

mudou-se para São Paulo. É redator publicitário e baterista de


garagem. Vencedor do Prêmio SESC 2012/2013 com o livro de contos Noveleletas (Record), também 4o lugar no Prêmio Jabuti 2014.

maikel de abreu

nasceu em Caxias do Sul, em 1981.

Escreveu, em parceria com César Mateus, Couro ilegítimo e outros contos (2012, Modelo de nuvem), participou da coleção Formas Breves com o conto Às noites de distância (2014, e-galáxia), e atualmente se dedica a uma novela. É técnico em enfermagem há mais de oito anos, mas já foi operário, músico, assessor de imprensa …em suma, um biscateiro.

márcia barbieri

é paulista, formada em Letras e mestranda

em Filosofia. Tem textos publicados em várias antologias e nas principais revistas literárias brasileiras. Publicou os livros de contos Anéis de Saturno (independente), As mãos mirradas de Deus (Multifoco) e o romance Mosaico de rancores (no Brasil, pela Terracota, e na Alemanha, pela Clandestino Publikationen). A Puta (editora Terracota) é o seu mais recente livro.

mariel reis é carioca, nascido em 1976. Cursou Letras (uerj). A partir da década de noventa, começou a publicar seus contos em diversas revistas eletrônicas, culminando a experiência com a extinta revista Paralelos. Publicou o último livro A arte de afinar o silêncio (Ponteio Editora, 2012). É um dos editores da revista de contos Flaubert.

mário araújo

nasceu em Curitiba-PR. Publicou os livros de

contos A hora extrema, prêmio Jabuti em 2006, e Restos. Tem contos publicados em revistas e antologias na Alemanha, Espanha,


Finlândia, EUA e México. Atualmente escreve crônicas para o site www.vidabreve.com e finaliza seu primeiro romance. Sua página na internet é www.marioaraujo.net.br.

maurício de almeida

é autor do livro de contos Beijando

dentes (ed. Record, 2008), vencedor do Prêmio sesc de literatura 2007, e do romance A instrução da noite (ed. Rocco, 2016).

moema vilela

nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do

Sul. Escritora e jornalista, é doutoranda em Letras pela pucrs. Graduada em Jornalismo (ufms), mestre em Estudos de Linguagens —Linguística e Semiótica (ufms) e em Escrita Criativa (pucrs), trabalha com comunicação e artes desde 2000. Autora de Ter saudade era bom (Dublinense, 2014).

patrícia galelli é escritora e atua também na área de gestão e produção cultural. Publicou Cabeça de José (Editora Nave, 2014), Gávea (selo Formas Breves/e-galáxia, 2014) e Carne falsa (Editora da Casa, 2013) e o livro de artista um bicho que (Miríade Edições, 2015).

paulino júnior nasceu em Presidente Prudente, São Paulo, e desde 2005 vive em Florianópolis. É autor de Todo maldito santo dia – selecionado no Edital Elisabete Anderle (Fundação Catarinense de Cultura) e premiado pela Academia Catarinense de Letras como ‘Melhor livro de contos publicado em 2014’. Foi um dos convidados do 5º Festival Nacional do Conto e participou do ebook Cisco. Lançou o livro-conto Bife a cavalo para a coleção Coice de Porco (Butecanis Editora Cabocla), em 2015. Atuou como cronista no jornal Notícias do Dia, em 2015/2016. Sobrevive afiando faca e tesoura.


rafael mendes

é autor do romance Fôlego e do volume de

contos A melhor maneira de comprar sapato.

rafael sperling

nasceu em 1985 no Rio de Janeiro, onde

vive. Compositor e produtor musical, é autor de Festa na usina nuclear e Um homem burro morreu. Suas histórias foram publicadas em sites, revistas e jornais, como a Revista Machado, jornal Rascunho, Lichtungen (Áustria), Faust-Kultur (Alemanha), 2384 (Espanha) e Rattapallax Magazine (EUA).

sérgio tavares nasceu em 1978. É autor de Queda da própria altura, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e Cavala, vencedor do Prêmio sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

tiago velasco

nasceu em 1980, no Rio de Janeiro. É

doutorando em Letras na PUC-RJ, Mestre em Comunicação e Cultura pela ECO/UFRJ, professor universitário e jornalista. Autor dos livros de contos Petaluma (Oito e Meio) e Prazer da carne (Multifoco), além do livro de não ficção Novas dimensões da cultura pop (Multifoco). Em 2015, foi 4º colocado no Prêmio Off Flip, na categoria contos. Blog: www.tiagovelasco.wordpress.com.

Cobain  

Para comemorar os 25 anos do Nevermind, comemorados em setembro de 2016, a antologia visa prestar uma homenagem ao álbum através de contos i...