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A vida de minha família na cidade grande

Nome: Ana Beatriz Rye Negoro

Eu, Sinha Vitória, meu marido Fabiano e os meus dois filhos, o mais velho, cujo nome é Raul, e o mais novo, chamado Adriano, somos do Sertão e já fugimos várias vezes da seca. Já andamos muito no Sertão. Fomos trabalhar em uma casa de um dono de engenho, conhecido por Tomás da Bolandeira, ele tinha uma cama de couro e sucupira que é o meu sonho. Seu Tomás era um homem gentil, educado, que não maltratava seus trabalhadores, mas minha família nunca teve dinheiro para eu poder realizar. Chegamos aqui na cidade grande faz algum tempo. Nós já sofremos muito lá no Sertão com a perda do nosso papagaio que tivemos que comer para não morrermos de fome e de Baleia, que morreu, pois estava muito doente, eles faziam parte da nossa família. Lá no Sertão, eu fazia as contas no dia que o Fabiano ia receber o seu salário do senhor, que até já foi parar na cadeia pelo soldado amarelo que sempre agredia

o meu marido, ele foi

quem mesmo me contou, e os meus dois filhos Raul e Adriano que não podiam aproveitar a sua infância pois eles me ajudavam no trabalho de casa e ajudavam Fabiano com os animais. No dia de Natal, eu estava quase feliz com a vida, pois eu e minha família estávamos bem arrumados, mas mesmo assim eu continuava infeliz. Ao chegarmos aqui à cidade de São Paulo, ficamos muito encantados com a beleza do lugar e também muito assustados com a grande movimentação de pessoas e automóveis. Viemos para São Paulo em busca de uma nova vida, um novo começo, pois estávamos fugindo novamente da seca, mas eu temo não conseguir um emprego e também temo por Fabiano, precisamos de trabalho. Será que Raul e Adriano vão conseguir estudar e recuperar sua infância perdida? Fiquei cheia de perguntas e medo. Estamos morando em uma casinha que nós mesmos construímos, com umas estacas de madeira que nós encontramos no morro onde a gente mora, mas que fica em um bairro longe da cidade. Depois de eu e Fabiano procurarmos alguns empregos por muito tempo. Até que, finalmente, nós conseguimos. Eu consegui um emprego em uma escola que fica na cidade, como faxineira, pois eu cuidava dos afazeres de casa. Fabiano conseguiu um emprego em uma fábrica de carne de bois que fica também na cidade, o que para ele foi proveitoso, pois era ele que cuidava dos animais da fazenda lá no Sertão, ele já tinha familiaridade com o serviço. Já os meninos conseguiram estudar na mesma escola onde eu trabalhava de faxineira e eles estão conseguindo recuperar a sua infância perdida.

Continua...


Agora que eu tenho dinheiro, posso finalmente realizar o meu sonho de comprar a cama de couro e sucupira. Temos uma cachorrinha que encontramos na rua perto de casa, ela ĂŠ muito parecida com Baleia e com isso nĂłs nomeamos de Baleia, em homenagem a nossa cadela que morreu. E uma nova integrante na famĂ­lia ela se chama Camilly.


Vidas Cinzas

Nome: Antonio Braz

Fabiano contemplava tudo aquilo com os olhos arregalados, os garranchos secos e tortos se transformavam em gigantescas estruturas acinzentadas que olhavam Fabiano de cima, o intimidavam com seus olhos de vidro. O solo seco se tranformara em cimento, agredindo os seus pés calejados. A cidade adstringia o corpo de Fabiano assim como as botinas de vaqueta, o estrangulava que nem o colarinho da camisa. A princípio todas aquelas luzes seduziram os seus olhos, os meninos maravilhados, riam à toa e se mexiam inquietos, mas com o tempo aquilo se tornou a mais cruel das torturas, não havia paz, não havia noite, as luzes torturavam seus olhos, não tinha mais a cama de varas para se deitar, Sinha Vitória faria de tudo para poder deitar-se novamente naquela cama, qualquer coisa era melhor do que o chão sujo e duro das calçadas. Fabiano muito tentou arranjar ofício, não tinha jeito, aquele lugar não era pra ele, não havia gado para tratar tampouco terra para semear, a cidade era povoada por soldados engravatados que andavam depressa pelas calçadas estreitas, pisoteando Fabiano, cuspindo em Fabiano, Pouco a pouco seus joelhos foram cedendo ao solo rígido, o que lhe restava era ficar estirado, se ajoelhar aos pés dos soldados cinzentos. O jeito para ganhar dinheiro era mandar os meninos para a rua, vender balas no farol. Enquanto Sinhá Vitória vigiava as crianças Fabiano catava latinhas de alumínio, o que somado com o dinheiro que ganhava lavando carros no farol conseguia pagar a janta da família. O dinheiro era muito pouco e eles quase passavam fome. Furtar? Jamais! Aquilo ia contra todos os princípios de Fabiano, ele era forçado a obedecer, se render, ajoelhar-se e beijar os pés dos engravatados. Um dia Fabiano conseguiu trabalho de operário de construção civil, não tinha carteira assinada mas mesmo assim sua vida, a da mulher e a dos filhos melhorou um tanto, Agora eles tinham como alugar um quarto de hotel, que mesmo que pequeno era melhor do que o chão frio da rua. O trabalho era desgastante e o corpo

bruto de fabiano já havia sido muito

maltratado, ele tinha emagrecido muito desde que chegara à cidade, mas era necessário, não tinha outro jeito. Não era fácil aguentar, Fabiano precisava dos goles da bebida para engolir a dor e o cansaço cotidianos. Apesar de tudo isso Fabiano percebia que nada mudara, ele continuava a ser um bicho, Homens eram aqueles que caminhavam apressados pelas ruas, que dirigiam seus carros, naquele lugar Fabiano não era nada, talvez fosse até menos do que um bicho, ele estava sozinho, a esposa já não o amava, e para ele não havia mais razão para viver, na verdade já fazia tempo que Fabiano não vivia, e sim sobrevivia.

Continua...


Foi numa noite iluminada pela luz cegante da cidade de São Paulo. Fabiano bebia como nunca, não lhe importava o almoço ou a janta do dia seguinte, ele precisava da bebida, era tudo o que tinha. Desde que começara a beber, Sinhá Vitória o deixou e levou as crianças sabe-se lá para onde. Fabiano estava sozinho, cambaleando pelas ruas, atordoado. Tudo que ele pôde ver foram as luzes dos faróis da frente do carro.


Vidas Secas na Cidade

Nome: Bruno Apollaro Zanin

Lá estavam eles, sem nada para comer e beber, somente sustentados pelo desejo e a força de vontade de Fabiano de dar a sua família, uma vida melhor. Por aquela longa estrada de terra caminhavam com o sol ardente do sertão, somente com um pensamento: São Paulo será nossa salvação. Tinham um amigo que trabalhava para um homem muito rico, que tinha um barco onde levava seus “funcionários” para o porto de Santos, e era para lá que, por um milagre, havia uma chance de toda miséria sumir. Se o homem era mau ou não estava na mão de Deus essa decisão, pensou Fabiano, vendo a oportunidade de uma vida melhor à sua frente. Não via esse amigo há anos, decorrente de toda miséria, luta e exploração pela qual ele e sua família tinham passado. Chegando aonde seu amigo estava, chamou-o de canto enquanto ele trabalhava e explicou rapidamente a sua situação, sem nem pensar direito, com o medo lhe pressionando. Seu amigo disse para encontrá-lo à noite em um local específico para conversarem, pois, se o patrão o visse de bobeira, ficaria sem comer, disse também que partilharia a comida com a família. Então Fabiano e sua família foram para o local marcado e lá passaram até o anoitecer. Com o medo e a fome lhes pressionando, Fabiano foi se renovar dentro do possível, então começou a cantar uma cantiga muito bela que seu pai havia lhe passado, Sinhá Vitória a orar, com o único rosário que havia trazido consigo, que a lembrava, remoendo-se internamente, sob todo o sofrimento, dor e miséria que havia passado.

Então se perguntava “o Senhor me

abandonou, meu DEUS?” e nem rezar conseguia, pois se não caísse em lágrimas, acumulava uma amargura interna, que ia corroendo sua alma, por completo, vagarosamente. Já à noite, com medo de seu amigo não vir, e ali mesmo ser seu fim, uma luz no fim do túnel apareceu. Era seu companheiro com a comida que lhe havia prometido, por mais que fosse uma migalha, uma porção pequena para uma pessoa dividida entre cinco, em muito tempo foi o momento onde um pingo de alegria e esperança ali brotou. Enquanto comiam, Fabiano contou tudo que havia passado nesses últimos anos, e falou que estava querendo ir para São Paulo e que precisava de ajuda. À princípio seu amigo estava receoso mas, depois que discutiram e observou a situação da família, resolveu ajudar. Disse então que uma nova leva de “funcionários” ia sair no dia seguinte, e que ia “uniformizá-los” para que ninguém percebesse a estranheza, disse também que o barco parava no porto de Santos, e lá eles desciam.

Continua...


Também fez um pedido, que, quando chegassem lá, encontrassem seu pai e suas duas irmãs que foram levados há 8 meses a Santos, e foi buscar as roupas. No dia seguinte, acordaram com esperança e tudo havia ocorrido conforme o plano. Embarcaram, sem repararem e desembarcaram tranquilamente, pelo fato de seu amgio ter dado uma roupa de supervisor a Fabiano, algo que percebeu, posteriormente, jurando que iria cumprir a promessa a seu amigo que provavelmente seria executado, pela sua traição, (“no sistema de relação funcionário e patrão” 50 anos depois da escravidão!!!). Arranjou um emprego de segurança de um bar, ganhando uma miséria, mas que era muito mais do que já tinha ganhado na vida, e em alguns meses poderiam ir a Santos. Sinhá Vitória arrumou um emprego como babá de uma família rica, e “muito generosa”, conseguindo então uma moradia péssima e comida para sua família. Era a sua maior aquisição na sua vida, então na suas orações começou a falar “obrigado, DEUS, pela bondade dessa família”... Certo dia, Fabiano, voltando para sua “casa”, foi barrado no portão. Tentou explicar que ele e sua família moravam ali, incoerente o porteiro se fez, revoltado, Fábio continuou a argumentar. Foi quando o porteiro ali chamou os “policiais” que “cobriam aquelas casas” e sem nem perguntar o começaram a espancar até que apagou e pelas próximas 12 horas nada se lembrou. Acordou na prisão em uma cela muito lotada, abalado, e sem entender nada. Quando foi liberado para que fossem comer, viu um senhor que continuou na cela, o identificou, confirmando suas suspeitas: era o pai de seu amigo. E assim começaram a conversar. Ele relatou que o mesmo aconteceu com ele e que havia um tráfico de pessoas, de uma familia rica e antiga a favor da escravidão… percebendo o ocorrido, seu mundo desabou, tudo o que havia passado sofrido, nunca saiu de perto dele. Percebeu, então, que, mesmo tentando uma vida honesta e justa, novamente caiu, então concluiu que só queria a dor e o calor do seu sertão… Cinco dias depois, saiu no jornal local que um prisioneiro havia sido espancado por dez presos, por tê-los provocado ferozmente, escondendo a história dá vontade de Fabiano, o fim e o reencontro com o Sol ardente do sertão...


Vidas Férteis

Nome: Bruno Zapala Delfino

Depois que deixamos a fazenda, caminhamos por quase quatro léguas, e uma pequena bodega brotada no meio da caatinga desenhou-se à nossa frente. Em meio ao calor fustigante da intensa luz que torrava nossas cabeças, aquela visão era a certeza de que Deus ainda não havia decidido dar cabo de nós. Andando em direção ao estabelecimento, tive mais que uma esperança de sobrevivência: um sopro de premonição surreal e descabida às circunstâncias insistia em me fazer acreditar que uma surpresa muito boa nos aguardava. Enquanto nossos corpos descansavam no chão e nossa sede era saciada, a água,

como

eterna fonte de vida, recuperava nossos órgãos desfalecidos. E, num dado momento, tal premonição parecia não ser mais uma utopia, quando o destino decidiu propor uma trégua ao nosso sofrimento, pronunciando-se através da voz de um jovem senhor, muito bem apessoado, com botas cujo brilho irradiava mais luz em nossos olhos, do que o reflexo dos raios de sol que ardiam lá fora: - Tarde! Acho que conheço o senhor! Trabalhou muito tempo na fazenda de meu pai. Seu nome é Fabiano, estou certo? Cismado e sem querer dar muita ousadia ao estranho, respondeu-lhe: - Sou Fabiano, sim! E quem é o senhor e seu pai? - Sou Lucas, filho do seu Tomás da Bolandeira. O frescor da tarde que caia e revigorava nossos fôlegos trazia com ele novo suspiro de vida, através das palavras e da proposta desenvolvida pela conversa do senhor Lucas. Ofereceu-nos a chance de concretizarmos o sonho tão desejado, talvez a maior aspiração de todo aquele que nasce na miséria, ora sendo invisível, ora sendo humilhado: a oportunidade de sentir-se um homem! São Paulo! Enfim, as histórias que ouvíamos eram verdadeiras: a grande cidade mágica que, ao mesmo tempo em que intimidava como o olhar sério de um pai, abria seus braços e acolhia, feito coração de mãe… era real! Ela existia! Senhor Lucas determinou o trabalho que caberia a cada um de nós: - Fabiano, você será meu homem de confiança. Cuidará dos demais empregados e irá orientá-los nos trabalhos da horta, dos jardins e de todos os reparos da casa. Sinha Vitória cuidará da cozinha e de todos os afazeres domésticos. Coordenará a cozinheira, as arrumadeiras e manterá a despensa abastecida, administrando todas as compras. Os meninos, pela manhã irão para a escola e nos horários livres se unirão a Fabiano para ajudá-lo, aprendendo ao mesmo tempo, um ofício.

Continua...


Desnecessário dizer como estranhamos e demoramos a nos acostumar com aquela realidade que superava nossas expectativas de sonho. Tivemos dificuldade para aprender tudo: o significado das palavras, de cada objeto, o seu uso e a forma de manejá-lo. Era uma cultura totalmente diferente da nossa. Um mundo que ia além da nossa imaginação. O tempo foi passando e nós fomos nos adaptando e acostumando com o sabor diferente das comidas, servidas sempre em abundância, com as roupas que trocávamos todos os dias. As ruas gigantescas por onde circulavam inúmeros automóveis de diversos tipos e cores e a enorme quantidade de bodegas que levavam outros nomes. Tudo aquilo que nos foi oferecido era grandioso demais e merecia nossa dedicação e, principalmente, gratidão à vida que parecia ter se redimido conosco, e ao senhor Lucas, nosso benfeitor. Mas, ainda assim, comentávamos o quanto doía a saudade da terra em que nascemos. A vontade de retomar nossas raízes, muito embora tão judiadas pela natureza e totalmente desprezadas pelos homens de poder. Muito tempo depois, tivemos nosso último diálogo com o senhor Lucas: - Somos gratos a tudo o que nos proporcionou. À sua terra hospitaleira que nos deu o prazer de ver a chuva cair quase todos os dias, o que, para nós, é praticamente, um milagre. Ao teto que nos protegeu da ardência do sol e não permitiu secar e machucar a nossa pele. Ao alimento que nunca nos faltou à mesa. Às camas que nos acolheram com muito mais conforto do que aquelas feitas de lastro de couro. No entanto, decidimos retornar. Graças ao senhor, temos agora como nos estabelecer, plantar, criar nossos animais e quem sabe ainda, ter a sorte de encontrar outra “Baleia” para fazer parte da nossa família. Senhor Lucas compreendeu. Pediu para que aguardássemos alguns dias a fim de tratar detalhes sobre a nossa saída. E assim foi feita a vontade da minha família: comprei-lhes uma casa com quintal, jardim e espaço para plantio e criação. Com idades avançadas, Fabiano e sinha Vitória já não eram mais os mesmos: mas recuperaram suas identidades que foram roubadas, forjadas por uma sociedade injusta que inverte os verdadeiros valores da vida, pelo descaso e as desigualdades sociais, pela exploração humana às classes mais humildes, pelos preconceitos e discriminações que insistem em se perpetuar no nosso país. Fabiano Sousa da Silva. Maria Vitória Sousa da Silva. Adílio Sousa da Silva. Esses são meus pais e meu irmão. Eu continuo morando em São Paulo. Tornei-me advogado e em alguns meses concluirei minha pós-graduação. Sou Moisés Sousa da Silva, o menino mais velho de um nobre e admirável casal de retirantes do sertão nordestino.


Vidas Secas na Cidade

Nome: Daniel Medeiros de Queiroz

De onde estavam, podiam ver um amontoado de casas aparentemente construídas ao acaso, cortadas por ruas alvoroçadas. Tinham fome e sede, a caminhada extensa os havia cansado e tomado quase todos os suprimentos de que dispunham. Os meninos grunhiam pequenas queixas às quais Sinhá Vitória calava com o olhar enquanto Fabiano apenas mandava-os continuar andando. Ombro a ombro com incontáveis outros indivíduos, o odor forte de dejetos e urina inundava as ruas e as narinas dos numerosos transeuntes que se atropelavam pelas ruas e vielas apinhadas. Fabiano, agarrado aos garotos e à mulher, arrastava-os pela multidão. Enfiou-se em uma mercearia encarvoada em busca de algum sossego. Soltou a família e fechou os olhos; sentia-se enjoado e estafado e, ainda mais do que isso, sentia fome. Contou o pouco de dinheiro que tinha e comprou um pedaço de queijo enquanto interrogava o vendedor sobre possíveis trabalhos. O homem franzino atrás do balcão mencionou a possibilidade de uma vaga num armazém no centro ou em alguma das numerosas quitandas e barracas nos mercados. Fabiano agradeceu e, deixando a encargo de Sinhá Vitória encontrar um teto, foi caminhando em direção à promessa de emprego. Com o ânimo revigorado, Fabiano agora ajudava as mulas com seus fardos, transportando sacas e mais sacas de um lombo pro outro por horas a fio. Marchava para casa ao anoitecer e dormia ao lado de Sinhá Vitória e dos meninos. Passaram-se várias semanas e tudo ia bem, Sinhá Vitória lavava em uma casa de brancos nobres e o menino mais velho vendia jornais para os passantes junto com o irmão nas feiras. Comiam bem e vestiam roupas novas. Até cogitaram a possibilidade de comprarem uma cama. Eram, mais uma vez, quase felizes. Fabiano andava cabisbaixo pelo caminho que percorrera diariamente nas últimas semanas. Perdera o emprego e não sabia onde mais arranjar outro, indagou em cada loja, cada quitanda, cada albergue e nada conseguira arranjar, nem mesmo uma dica, sendo enxotado como um vagabundo pelos tratantes, que jogavam nacos de gordura e ossos para os cachorros que reviravam o lixo das praças. Arrastou-se pelo batente da porta para encontrar Sinhá Vitória amarrando com panos a mão inchada do garoto mais velho, que fora pego tentando roubar um cacho de bananas. No dia seguinte percorreu a cidade, conseguiu uma vaga como quitandeiro, sendo dispensado pouco mais de uma semana depois.

Continua...


Vagou pela cidade, fazendo pequenos serviços e ajudando onde conseguia por uma pequena quantia. A situação começava a apertar com a chegada do dia do aluguel e Fabiano não conseguia fixar-se em ofício algum. Chegaram cartas, ordens de despejo enviadas pelo proprietário e uma intimação. A última esperança de permanecerem ali foi-se embora junto com o emprego de Sinhá Vitória e a família de nobres, que decidiram mudar-se para a capital. Andavam novamente, na direção de onde vieram. Fabiano resmungava algo com Sinhá Vitória sobre a cama enquanto os meninos observavam atentos as carroças e pessoas que iam e vinham pela estrada.


Vidas Secas na Cidade

Nome: Gabriela Bersou Ruão

Sinhá Vitória deitou em sua cama pequena e estreita, totalmente exausta. Era sexta-feira, teria uma meia hora antes de os meninos chegarem da escola. Fabiano chegaria da obra dali a alguns minutos, poderia tentar conversar com ele sobre o custo daquelas canetinhas para os meninos, mas, desde que virou pedreiro, há quase um ano, chegava muito cansado. Ela também estava cansada, ser diarista naquela casa era horrível. O perfume da patroa era enjoativo, a mãe e a filha eram arrogantes e a tratavam terrivelmente mal, mas aquilo era normal para aquele tipo de gente. O que Sinhá Vitória não gostava era de como o patrão olhava para ela, aquele olhar era diferente do olhar da patroa. Fabiano e Sinhá Vitória já estavam acostumados com os olhares, mas quando chegaram à cidade foi pior. Não podiam entrar em alguns estabelecimentos e os policiais sempre olhavam torto para eles. Os sistemas de ônibus também deixavam-na confusa, mas os meninos sabiam qual das máquinas pegar, Sinhá Vitória gostava das máquinas, ela já tinha andado muito nas próprias pernas, mas Fabiano se recusava a entrar e não confiava nas máquinas, fazendo de vez em quando a família ir a pé. No começo quase sempre se perdiam, era muito diferente na cidade. A comida era estranha e cara, o chão era feito de alguma coisa diferente, e o ritmo do trabalho não era igual! Nem tinha uma cabeça de gado sequer! O som da portinha se abrindo tirou Sinhá Vitória de seus devaneios. Lá estava Fabiano, vinha se arrastando e estava com uma cara péssima, a sujeira nele e o cheiro de suor não incomodavam mais a mulher, desde que o marido não fosse para cama sujo. Fabiano resmungou e a esposa já estava se levantando para buscar água para o banho do marido. Saindo da pequena casinha com o balde na mão, se direcionou para o poço que havia lá perto, aquela água era estranha, de vez em quando tinha um cheiro horrível e parecia suja. Enquanto enchia o balde olhou para o céu, os meninos deveriam estar chegando. Sinhá Vitória tinha passado para comprar pão no caminho para casa, e como sobraram algumas moedinhas comprara duas balas, talvez pudesse dar a eles se os encontrasse no caminho. Tirou o balde pesado da beirada do poço e foi para casa passando pelas ruas estreitas que já eram muito conhecidas. O balde tinha um furo, então não podia demorar, virando a esquina percebeu dois policias com armas na mão apontando para algo dentro de um beco, o barulho de três tiros a fez soltar o balde e pular para trás. O som de dois gritos infantis a assustou também, pareciam estranhamente familiares. Outras pessoas saíram das casas para olhar o que acontecia enquanto os policiais corriam para longe dali. Após um momento o local estava cheio, havia pessoas chorando, mas também havia pessoas muito calmas, como se fosse comum.

Continua...


Quando finalmente atravessou a multidão para olhar o que havia dentro do beco viu duas crianças abraçadas em cima de uma bolsa gigante de sangue. Se demorou um pouco olhando as crianças, as conhecia? Estava escuro e os rostos não podiam ser vistos, será que eram uns daqueles meninos de brincavam de bola no campo verde? Quando se deu conta de quem eram as crianças, já estava gritando.


Fuga

Nome: Guilherme Autran Machado Vilella

O céu é todo azul, não há mais esperança no amanhã, na chuva, na vida. Por outro lado, quem sabe se aquele grande céu azul não é a felicidade para outros tantos. Pode ser. Mas para esta família não é. O grande céu azul significa medo e sofrimento, lembrança de mais miséria, da dureza da vida, das facadas nas costas, da injustiça. Da vida que cala e dói, que se míngua por dentro; a vida seca mesmo é de dentro para fora. Não pode haver dor maior do que a falta de esperança, do que os olhos de um filho a pedir por uma comida e água que não virão, não chegarão. Fuga de novo e sempre fuga. A fuga não é mais uma exceção, ela é a rotina dessa vida sofrida e miserável, mas, enquanto essa vida maldita não se extingue por si só, há que se continuar, ainda que seja a se arrastar. Fuga, mais uma fuga, a mesma de sempre, a que sempre existiu. Alguém falou, ouviu-se em algum lugar... há um rumor de que na cidade grande há trabalho, há comida e há água. Talvez eu possa me arranjar por lá, pensa Fabiano, talvez os meninos também possam se arranjar, talvez possam ser biscates, talvez a mulher possa ser doméstica. E como uma ilusão, um doce sonho, Fabiano resolve partir para a cidade grande. Vão andando com os pés no chão, de que outra forma iriam? Por vezes conseguem carona na boleia de algum caminhão, alguém de bom coração. Mas é andando mesmo que fazem a maior parte do caminho, com os pés no chão. Vão pedindo e esmolando, um pouco de água para essas crianças por favor, há quem dê, há quem tenha pena. Nada é esperado, nunca se tem direito a nada nessa vida, nem a espera de bondade alheia. Chegam à cidade grande, famintos e esfarrapados. Dormem na rua, ao relento, ingênuos dos perigos da cidade. Pedem emprego de porta em porta, apelam para as boas almas por um prato de comida. Há quem dê, há quem dê as costas. Dormem na sarjeta junto com os ratos e esgoto, perto das prostitutas e cafetões, ao lado do carrinho de ferro velho, das crianças açoitadas, dos viciados em crack, disputam o lixo com os cachorros sarnentos e com a família de colombianos enganados ... a mesma sorte para todos, é a miséria da vida, por caminhos diferentes. Mas há que seguir em frente, se se matar é pecado, viver seria o que então? Parecem ordens inversas.

Continua...


Mas há que se seguir em frente, há esperança, sempre há. Alguém disse, ouviu-se falar, há um grande depósito de coisas que já foram usadas, dizem que é um depósito de lixo, um grande lixão, mas há também quem diga que isso é exagero, Fabiano ouviu alguém dizer que pode haver fartura nesse lugar. Fartura, o que será isso? Nunca viu, nunca sentiu, nunca provou. E foram, porque o que lhes restam não é questionar ou decidir. Não há decisão quando não há escolha, nessa vida há só que se seguir enquanto ainda houver energia para erguer o corpo e, por mais estranho que possa parecer, foi ali, no lixão, que Fabiano e sua família entenderam o significado de fartura, montanhas e montanhas de lixo, restos de comida e de bichos, moscas, urubus, cachorros e pessoas... todos iguais, disputando pelos restos do banquete daqueles para o qual o céu azul é uma benção.


Vidas Secas na Cidade

Nome: Helena Assal Moreli Barbosa

Após dias em uma demorada viagem, Fabiano e sua família finalmente chegam a São Paulo. O percurso não foi nada fácil, eles resolveram ir até uma rodoviária para tentar encontrar alguém que estaria disposto a oferecer uma carona até a cidade, chegando à rodoviária se depararam com restos de salgado, provavelmente do Frango Assado, que estavam no topo de uma lixeira lotada com inúmeras moscas e abelhas voando em volta. Sem nem pensar duas vezes, Fabiano pegou o máximo possível e distribui entre sua esposa e filhos. Quando terminaram de comer, andaram bastante e pararam no acostamento da estrada e pediram carona para todos os carros que passavam, a maioria dos carros nem os notavam, e os que notavam não se importavam nem um pouco. Aos poucos o sol ia sumindo, junto com suas energias. No momento em que eles não tinham mais nenhuma esperança de alguém parar, um homem os abordou dizendo que estava indo para São Paulo. O homem dirigia uma caminhonete, Fabiano entrou na frente junto com ele, o resto de sua família foi na traseira. O trajeto demorou alguns dias com curtos momentos de paradas para se alimentar, até que enfim chegaram a São Paulo. O homem os deixou perto do centro e lhes deu uma nota de cinquenta reais. Sinhá Vitória comprou dois pratos de comida que custaram vinte reais, quando terminaram de comer foram em busca de algum trabalho, andavam pelo centro um pouco surpreendidos com o tanto de pessoas e carros passando. Ao passar do tempo, Fabiano começou a perceber que o tipo de experiência que ele tinha não era muito útil naquela situação, então por enquanto ele não havia conseguido nenhum emprego, consequentemente, com o resto de dinheiro, eles alugaram um quarto de um motel.


A Luta Pela Sobrevivência

Nome: Henrique

Fabiano e sua família saíram andando sem destino, só pensavam que a seca estava chegando. Sinhá Vitória estava desanimada e com medo de não acharem emprego e onde morar. Vendo a tristeza de sua família, Fabiano teve a ideia de ir para a cidade e arrumar um emprego por lá. Andaram por dias, dormiam no sereno, comeram restos de comida que achavam pelo caminho,mas mesmo assim seguiam em frente. Num dia de sol, cansados de tanto andar e com muita fome e sede, viram uma família se divertindo numa mesa de um pequeno restaurante. Ficaram olhando, os olhos de Sinhá Vitória encheram-se de lágrimas, já que sonhava em ver seus filhos bem alimentados e se divertindo. Foi então que Sinhá Vitória foi falar com aquela família que tanto se divertia e pediu um prato de comida para dar para seus filhos. Todos pararam e ficaram olhando para eles, pois era uma realidade muito diferente da deles. Sinhá Vitória ganhou uma refeição e dividiu-a com todos, saiu agradecida e com os olhos cheios de lágrimas. Seguiram a viagem, mas ainda estava muito distante da cidade, foi então que resolveram pedir carona ,pois todos estavam com os pés cheios de feridas e não aguentavam mais. Alguns caminhões pequenos passaram, mas nenhum deles parou, até que depois de muito tempo os meninos cansados começaram a chorar. Um caminhoneiro que ali passava viu os meninos chorando e resolveu parar. O homem tentou entender o que estava acontecendo e os ajudou. Seguiram na caçamba do caminhãozinho e por algum tempo descansaram. Foram assim de cidade em cidade, pedindo carona, dormindo quando podiam na caçamba de algum caminhão. Finalmente chegaram à cidade grande, ficaram admirados com tanto movimento, carros e prédios. Fabiano já estava sonhando com um trabalho que pudesse ganhar muito dinheiro. Mas essa empolgação não durou muito, não sabia por onde começar, afinal não sabia no que poderia trabalhar e não era tão fácil arrumar emprego como ele imaginava. Fabiano então conseguiu um emprego numa construção e seu patrão, comovido com sua história, resolveu deixá-los morar num barraco dentro do local da obra, assim juntando dinheiro para poder sobreviver. Com o tempo, Sinhá Vitória conseguiu um trabalho como faxineira e os meninos ajudavam seu pai na obra. A vida deles não era nada fácil,mas agora tinham lugar para morar e alimentos para comer. Não mais se preocupavam com a seca e com a fome que a família passava.

Continua...


Se Reencontrando

Nome: Isabel Nassar Maruxo

A seca tinha chegado mais uma vez à família. Todos já estavam desesperados, pois a última experiência foi traumatizante, chegando ao ponto de Sinha Vitória e Fabiano pensarem que suas vidas iam acabar naquela bendita época. Eu estava junto para presenciar, bom, agora ainda estou, só que de outra forma… O tapete voador de pássaros desesperados fugindo do terrível, o tempo, a energia ficando diferente. A família sentindo o que estava acontecendo se preparou, juntaram algumas comidas, e ao partirem da casa vi senhora Vitória chorando, achei esquisito, então foi que percebi que estava sentindo minha falta. Queria estar ali com eles, mas não posso mais voltar, Fabiano não me queria mais. Eu vou estar do lado deles, vou fazer companhia até chegarem a alguma cidade grande. Queria que soubessem que estou aqui... Enfim, não tinha outro jeito. Saímos da casa, as crianças um pouco confusas, Fabiano com a cara de que tudo está perdido de novo e Sinhá Vitória a mesma coisa. Fabiano segurava um saco de tecido pobre, com alguns de seus pertences, atrás de Sinhá, e seus filhos à frente conversando. A casa estava um pouco distante de meus olhos, o chão de terra estava seco, pálido e ao nosso lado direito e esquerdo existiam alguns conjuntos de árvores, um tanto verdes. Olhávamos para o horizonte sem um lugar para descansar, era sempre o calor desesperador que queimava nossas costas e secava nossos lábios. Nesse primeiro dia, estávamos cansados, mas podíamos aguentar mais. Foi escurecendo, e Fabiano preocupado por ter apenas algumas matas, nada além disso. O sol tinha ido embora, então encostamos em uma árvore relativamente grande, cada um sentado em um canto de seu tronco. O menino mais novo, impaciente, indagou: - Fabiano, estamos chegando? - Não sei, menino, não sei… Dentro daquele saco, Fabiano tirou cascas de pães de pouco sustento para todos. Tinha pouco, então dividiram igualmente a casca em pedaços. Cada um comeu e ficou o máximo de tempo parado no mesmo lugar, para guardar energias. Amanheceu, o sol fritando, e o tempo seco, já de se esperar… Mais um dia de caminhada, a família não sabia exatamente para onde estava indo, mas seguia andando na mesma direção. Andando por horas e horas, exaustos, sem nem uma casca de pão para comer. O sol estava na posição de meio-dia, Fabiano tentou procurar qualquer coisa perto das poucas árvores ao seu redor. Acharam alguns insetos, um para Fabiano, outro para o menino mais velho, outro para o mais novo e outro para a Sinhá vitória.


Eles comeram, estavam tão desesperados, coitados. Senti pena, queria estar lá, para pular em cima de todos, animá-los. Descansaram na árvore com o tronco já seco, e logo partiram de novo. Como não tinham sapatos, os pés começaram a ficar rachados, e o menino mais novo se pôs a chorar. - Não quero mais ficar assim, só quero ter uma casa, não quero passar fome, nem sentir medo! Sinha Vitória e Fabiano não ligaram muito, apenas disseram palavras um pouco motivadoras. - Daqui a pouco chegamos, pare de chorar, criança. No final do dia, nada, o mesmo horizonte preocupante. Até que, de uma hora para outra, um urubu passa voando perto das cabeças deles. Todos gritam, Fabiano corre atrás do bicho, com uma espécie de lança de madeira, e acerta a ave. Parecia um sonho, foi tão gratificante vê-los assim... Logo, todos foram correndo em direção ao urubu, e começaram a comer feito loucos. Suas vidas estavam completas! agora só faltava achar alguma cidade. Como eles tinham comido um rango, estava pronto para fazer uma grande caminhada. Andaram o dia inteiro, até chegar a certo ponto em que apareceram mais matas fechadas. Então aproveitaram e entraram lá para relaxar. Foi então que apareceu um mini riachinho, todos correram para lá e jogaram água para cima, beberam a água, acho que é um sinal de que eles merecem viver, o pássaro, o riacho, estava tudo se encaixando! Andaram até o anoitecer, e foi então que o horizonte não era apenas o mesmo, mas tinha silhuetas de casas simples e bastante barulho. Todos correram e correram e correram, eles não estavam sonhando, era realmente uma cidade. Quando chegamos às ruas, vimos que era muito maior do que a que moramos. Felizes, porém exaustos, caímos no chão em forças. As pessoas nos olharam com uma visão de surpresa, então um rapaz nos ajudou a levantar, e nos perguntou: - Vocês vieram do Nordeste? Fugindo da seca, hã? Fabiano disse: - Sim, e quem é você? - Sou Severino, trabalho como catador de lixo desse bar aqui. Venha, deixe-me ajudar. Fomos todos juntos com Severino, e, como Fabiano precisava trabalhar, perguntou: - Posso trabalhar com você, Severino? Não temos nada, preciso sustentar a família. - Vou falar com Oriundo, meu chefe, e te aviso! Depois de dias da família dormindo na rua do bar, Severino aparece e diz: - Fabiano, Seu Oriundo disse que vai te dar um cômodo pequeno para você e sua família, em troca de trabalhar como catador de lixo no bar junto comigo. - Eu aceito. Muito obrigado.

Continua...


Severino mostrou o cômodo, pequeno e simples, porém tínhamos onde ficar. Havia uma cama e dois colchões bem fininhos. Vi o rosto da Sinhá Vitória, estava decepcionada de andar e dormir em uma cama de bambu. Mas, era o que tínhamos. Fabiano e Sinha Vitória dormiram na cama, os meninos dormiram no colchão bem fino e eu em um cantinho gelado do quarto. Acordamos, Fabiano já tinha saído para trabalhar e Sinha Vitória procurara um trabalho com as crianças ao seus lados.


Vidas Secas na Cidade

Nome: Izabella Lee Alves de Carvalho

Ao chegar à cidade grande de São Paulo, a família se deparou com carros e muita movimentação. O dia estava quente, mesmo de noite. Com as poucas coisas que traziam, se sentaram embaixo de uma árvore enorme em uma pequena praça, exaustos. As duas crianças deitaram e dormiram no colo de Sinhá. Arrumaram as coisas escondidas para não serem roubados e deitaram. Fabiano ficou acordado fazendo rondas para ver se a área era segura na Zona Oeste de São Paulo, se fazia de forte, mas estava perdido. Não sabia como acolher a família sendo que nem ele se acolhia, com pensamentos ansiosos, a falta de Baleia marcava os meninos. Como Fabiano iria ajudar sua esposa e seus filhos sem dinheiro? Vendo o sol raiar entre os prédios altos, se deitou com eles e dormiu. Sinhá foi a primeira a acordar, começou a organizar o dia e arrumar as coisas que estavam largadas na grama da praça. Era cedo, mas parecia que a cidade nunca dormia; havia duas pessoas com cara de sono, um homem alto barbudo e cabeludo e uma mulher loura com óculos, que parecia estar estudando e apressada, os dois esperando o ônibus no ponto. A mulher se aproximou das pessoas, "Olá, bom dia, sabem por acaso onde estamos?", as duas pessoas se entreolharam e o homem falou confuso: "Estamos na Zona Oeste, senhora, Alto da Lapa". Sinhá se surpreendeu e perguntou onde havia hotel, o homem não sabia, a mulher, no entanto se aproximou e falou a localização de um motel bem barato na região, ofereceu ajuda, pois percebeu as vestimentas pobres de Vitória, mas a mesma recusou. Voltando para a praça onde a família estava, já acordados, compartilhou a ideia de se acomodarem pelo menos um dia no motel que a moça loira falou. Fabiano, preocupado pela falta de dinheiro, hesitou, mas ao ver as crianças ainda dormindo no chão concordou. Os dois contaram o dinheiro que era escasso, mas viram que daria para pelo menos se acomodarem dois dias. Chegando ao falado motel, viram o lugar caindo aos pedaços, aparentemente o preço estava alguns reais a mais, mas eles aceitaram do mesmo jeito. Escolhendo o quarto mais barato - um quarto pequenininho e um banheiro, viram que as paredes estavam mofadas e caindo aos pedaços, um ar condicionado, que provavelmente foi instalado há vinte anos, quase caindo da parede. Perceberam que no andar de cima do motel havia um cabaré, onde o chão tremia com passos e a música alta. A recepção simples e pobre com vários homens de meia idade fugindo de suas esposas esperando subir para receber danças. Mal se instalaram no hotel, o que foi fácil, a recepcionista, uma mulher rancorosa e velha, nem perguntou cartão, até porque só podiam pagar em dinheiro, e como não era nada chique e provável tinha coisas ilegais, era melhor deixar cédulas de dinheiro mesmo.

Continua...


"Algo ilegal ocorre aqui, com certeza". Foi uma das primeiras coisas que passou na cabeça de Fabiano, a outra foi emprego. Fabiano era o único que carregava os documentos de identidade, como era muito cedo ele deixou Sinhá e as crianças dormirem e foi à procura de emprego. Por sorte algumas quadras à frente havia um pequeno e simples bar, Fabiano entrou, seus olhos encaram o ambiente. Percebendo que estavam lacrimejando, logo piscou rápido, o lugar estava abafado com muita fumaça, ouviu vários murmúrios e risadas, mas de homens, sentou no bar e esperou o barman. Viu um homem grande grisalho rindo com outros homens atrás do bar. "Com licença, você trabalha aqui?" O grupo olhou estranhando Fabiano. O homem grande pediu licença e foi para a conversa em particular, "O senhor trabalha aqui no bar ou lanchon..." "Lanchonete, e sim eu trabalho aqui, por quê?" Fabiano foi interrompido grosseiramente. "Sabe com quem eu posso falar pois estou procurando uma vaga...onde está o gerente?" "está falando com ele, então tá você tá quereno um trabalho aqui… hm, venha aqui". O homem e Fabiano se dirigiram a uma pequena sala com um computador, mostrando a cena de uma câmera de segurança, "sorte sua porque eu to procurando um empregado, tu é adequado para o trabalho? Eu num sou desses patrões que pede essas porcarias dos trabalhadores, só tenho ter certeza que tu sabe preparar bebida tendeu? Dá aí seus documentos". Fabiano se surpreendeu com a facilidade da "entrevista", na verdade ele só teve que falar se era responsável com horários e dar os documentos e assinar papéis. Sinhá acordou com as crianças, os arrumou e falou que os meninos teriam que ajudar na estabilidade até acharem um cantinho pra chamar de nosso. Mandou os meninos para o semáforo em frente ao motel, para pedir esmola. A recepcionista puxou papo com Vitória, "Ah! Tem que botar pra trabalhar mesmo os moleque, lá em casa é tudo assim, eu trabaio e as crianças ajudam". As duas conversaram um pouco e Sinhá descobriu um emprego perto dali, na Rua 12 de Outubro, que era um lugar cheio de vendas e lojas, ótimo lugar para procurar emprego. Sinhá ficou confusa e queria esperar Fabiano chegar para ver sobre os documentos e como se encaixariam na cidade grande, que, por enquanto, ficariam dependendo do motel e da padaria da esquina, e então foi ajudar os meninos na esmola perto do trânsito. Perto da noite, Fabiano voltou cansado mas com um sorriso no rosto, Sinhá e as crianças no quarto contavam o dinheiro, enquanto no fundo havia uma música alta e abafada, e o teto balançava com ritmos de Pole Dance. Mas Fabiano estava feliz demais para ligar ao lugar caindo aos pedaços. Contou que encontrou um emprego e só precisaria ir se registrar e assim teria um ofício e salário, e que sairiam daquele lugar e que logo matriculariam as crianças em escolas públicas.

Continua...


A mulher e os meninos contaram sobre a quantia que ganharam pedindo esmola, não era lá grande coisa mas ajudaria a pagar o jantar da família. Sinhá falou sobre o emprego nessa tal Rua 12 de Outubro, que visitou, e falou que era agitada, e um ótimo lugar para ver empregos, mas que precisava de documentos e se registrar como migrante do sertão para São Paulo. Fabiano apoiou a ideia de que iriam ver o mais rápido possível para ganhar dinheiro o mais cedo. E que logo comprariam um cantinho e começariam a sua vida na cidade grande.


Vidas Civilizadas?

Nome: João Pedro Casquet Elias

Após uma longa viagem, o ônibus que levava Fabiano, Sinhá Vitória, menino mais novo e menino mais velho, finalmente chegou ao seu destino, o terminal rodoviário na Barra da Tijuca. O ônibus estava lotado e em péssimas condições. A família mal conseguiu repousar durante a viagem; chegaram mortos de cansaço. Diversas pessoas chegavam à rodoviária junto com eles, casais e até algumas mulheres com criança de colo. A família buscava deixar sua antiga vida no sertão nordestino para tentar uma nova vida no Rio de Janeiro, a “terra da oportunidade”. Quando chegaram, estavam à procura de moradia. O motorista de táxi que os buscou na rodoviária indicou um local temporário e barato, que era, nada mais nada menos, do que um sobrado na comunidade denominada “Rocinha”, o único pelo qual podiam pagar. Lá, a família se hospedou por um tempo. Porém, em péssimas condições: sem saneamento básico e sem cama para todos, o que fazia com que os filhos tivessem que dormir no chão. O acabamento da casa era mal feito, com falhas no teto e podendo ser facilmente derrubado por algumas chuvas fortes. Logo a família começou a trabalhar, para que enfim pudessem tirar alguma renda e sair daquele subúrbio. Fabiano começou a trabalhar como camelô e também vendia diversas bijuterias na praia de Copacabana, o que era muito cansativo por conta do calor persistente e longas caminhadas durante o dia inteiro. Já Sinhá Vitória, sua mulher, conseguira um emprego como empregada doméstica, em uma casa localizada na área mais elitizada e burguesa da cidade. Seu patrão, Ernesto, não lhe tratava nada bem, porém o salário era relativamente alto, então era necessário que ele continuasse a trabalhar lá. Também era um trabalho bem cansativo: lavar as roupas, preparar a comida, lavar a louça e limpar a casa. Chegava em casa cansada e ainda tinha que preparar a comida para sua família. Ambos trabalhavam muito e mal ficavam em casa. Assim, os filhos tiveram que se virar por eles mesmos, tendo também que contribuir na renda da casa, vendendo balinhas no semáforo e alguns outros serviços na rua. A família viveu assim por seis meses. Juntando toda a sua renda mensal, podiam sobreviver, gastando seu dinheiro com comida e algumas poucas peças de roupa. Fora isso, o dinheiro era quase inexistente. Em meses com baixa renda, os recursos se tornavam mais escassos ainda, fazendo com que muitas vezes passassem necessidades. Com todo o dinheiro conseguido nesses meses, se mudaram para uma pequena casa em uma outra região periférica da cidade. A família, pela primeira vez, pôde experimentar uma vida mais digna, graças ao trabalho duro da família.

Continua...


Após mais seis meses morando no Rio de Janeiro, um ano se passou desde que saíram do sertão. Sempre trabalhando muito mas vivendo um pouco melhor, Sinhá Vitória descobriu que o seu patrão, Ernesto, acabou contraindo uma doença grave, porém ainda desconhecida. Com essa informação, Sinhá Vitória foi junto com Fabiano ao Hospital Municipal Souza Aguiar, um dos renomados hospitais públicos do Rio do Janeiro, saber da sua saúde. O diagnóstico dizia que Sinhá Vitória também havia contraído a doença e poderia apresentar graves sintomas, possivelmente resultando em sua morte. O médico ainda lhes disse que essa era uma doença que poderia se propagar muito rápido. Uma semana se passou, e já havia diversos casos da doença que resultaram em algumas mortes por todo o Rio de Janeiro. Cidadãos e cidadãs tinham que ficar em isolamento social. Isso não seria possível no caso da família de Fabiano, pois eles precisavam de dinheiro para poder sobreviver e simplesmente não podiam ficar desempregados. Então, enquanto seus filhos ficavam em casa e ajudavam a cuidar de sua mãe, Fabiano saía e trabalhava dobrado todos os dias. Não demorou muito para que os sintomas nele também aparecessem. Fabiano também havia contraído a doença. Ele ficara pior que sua mulher e, impedido de trabalhar, a renda da família caiu a níveis absurdos. Fabiano acabou morrendo em frente à sua mulher e nos pequenos braços de seus filhos. A família foi despejada de sua casa e passaram a morar na rua, junto a um cachorro vira-lata, que lhes lembrava muito Baleia e isso lhes trazia um pingo de alegria frente a toda aquela escuridão. A mãe já um pouco melhor, conseguia cuidar dos filhos novamente, e agora, mais do que nunca, os filhos sentiam muita falta do pai que já era ausente, e agora inexistente. A família acabou não conseguindo escapar de suas antigas e dolorosas vidas secas.


Vidas Secas na Cidade

Nome: Joaquim Silveira

O pau de arara andava sobre a estrada de barro de forma irregular, ora entrava em um buraco ora saía, isso pouco incomodava Fabiano, mas Sinhá Vitória já beirava o vômito, Fabiano via a caatinga seca correndo em frente seus olhos, diversas fazendas passavam soprando vento em seus olhos, veio à mente quais poderiam sustentar a família, mas isso era fora de questão, pois agora estavam em fuga, fugiam da caatinga, da seca e do sertão, não eram os únicos, no pau de arara havia meia dúzia de Fabianos e Sinhás Vitórias com seus filhos, todos eram fugitivos, fugiam para a cidade em quantidades que os números não contavam. Açudes passavam pela família a caatinga esverdeava, montes pequenos de pasto desciam em riachos, eles tinham chegado ao seu destino. A movimentação ao sair do pau de arara incomodou o estômago vazio de Fabiano, viveriam de lixo e esmolas aqui em Corrente, quando conseguissem dinheiro iriam comprar passagens para São Paulo. Sinhá Vitória pôs o pé na cidade pela primeira vez, o chão de pedra saturado de sujeira, o ar turvo e poluído, o barulho dos automóveis e a falta de horizonte davam uma atmosfera hostil ao lugar, mas ela se acostumaria como fez tantas vezes antes, a cidade talvez fosse pior que o sertão, mas fazia isso para uma vida melhor para os meninos. A comida era escassa, eles teriam de arrumar serviço ou teriam de vasculhar comida no lixo. Esse pensamento incomodava Sinhá Vitória, a fazia lembrar do papagaio que matou e de baleia resmungou sua preocupação a Fabiano que andava perdido e confuso, mas fez um sinal positivo. Escolheram uma pequena rua em algum lugar no fim da cidade onde montaram uma pequena barraca comprada pelo dinheiro da espingarda, Sinhá Vitória distribuía as rações entre os refugiados do sertão. O menino mais velho corria pelas ruas sem medo de se perder para encontrar com outros meninos, juntos eles brincavam, mendigavam e assaltavam os pedestres. Ele se perguntava se os pais aprovariam isso, se ele iria para o inferno. Por isso mantinha o irmão mais novo longe do grupo, o dinheiro que conseguia dava a Sinhá Vitória, que tinha dificuldade em comprar comida todo dia mesmo com o trabalho novo de carregador de Fabiano. O menino mais novo andava com raiva do mais velho por não deixá-lo entrar no grupo tentava irritá-lo, mas tomou um cascudo. Ele estava cada vez mais ciente de onde estava, pensava em trabalhar ele mesmo, conseguiria dinheiro para sustentar a família sozinho. Mas isso nunca ia acontecer, ele era só uma criança e havia muito à sua frente, ele sabia disso.


Nome:Vitor Moura

Capítulo 11: A esperança

No horizonte desértico o sol alaranjado começava a raiar, os ventos se cessaram e sob uma árvore seca Fabiano e sua família se levantaram. Fabiano como de costume se levantou primeiro para tentar achar algo para a sua família comer. Procurou por preás ou por coelhos, mas só achou pegadas. Seu fracasso veio junto com lembranças de Baleia e de como ela podia ajudar, uma lágrima caiu pelo canto de seu olho. Mas logo ele limpou a lágrima. “Animais não choram", dizia ele. Mais uma vez ele chegou de mãos vazias para sua família. Cansados e famintos abaixavam a cabeça para o seu destino. A mesma cena se repetiu por meses. Mas de repente, após muito tempo de caminhada rumo à salvação, a paisagem desértica se tornava mais verde. Em vez de carcaças havia animais, em vez de um vale seco cheio de areia havia um litoral repleto de areia, as esperanças aumentavam a cada dia. Fabiano e sua mulher choraram de alegria quando viram a primeira praia. Os meninos riam e brincavam com as ondas, mas não tinham coragem de entrar no mar, pois nunca tinham visto tanta água em sua vida. Alguns dias se passaram, a areia e a terra se tornaram uma estrada. Caminhões iam e viam, Fabiano sabia que a cidade estava por perto. Um dia, subindo a estrada da serra, Fabiano se sentia mais livre, mais feliz, porém ele não esqueceu de sua natureza. Ao chegar ao topo ele viu o que tanto esperava. A cidade de Salvador.

Capítulo 12: cidade

Chegando à cidade o menino mais novo estava pasmo com tantas coisas. O cheiro de galinha assada, os carros, cavalos, as crianças, tudo o impressionava. Já o menino mais velho olhava para todos os lados . Reparava nas mulheres e garotas. A mãe contemplava as lojas de tecidos e roupas. Fabiano tinha um pouco de dinheiro em seu bolso, estava desconfiado que alguém fosse roubá-lo, ele não parava de olhar de um lado para o outro. Após algum tempo de caminhada, a família foi abordada por um menino manco de uma perna. O menino suplicava por dinheiro e comida, mas eles não podiam oferecer nada. Fabiano sentiu uma mão encostar em seu bolso, no mesmo instante ele segurou a mão com força. Olhou para trás e viu um menino da mesma idade de seu filho mais velho. O menino gritou “corre sem pernas”, na mesma hora o garoto se chacoalhou tanto que conseguiu fugir das mãos de Fabiano .

Continua...


Hor

Horas passaram e eles se acomodaram em um beco. Não era muito limpo, alguns ratos passavam sobre os panos que usavam de cama mas era melhor que nada. Havia uma lixeira com restos de comida de um restaurante chique. A janta foi praticamente um banquete, legumes não tão frescos, carnes de alta qualidade mastigadas e queijos fedidos. Uma mistura de gostos desconhecidos, mas que eram bons. Todos dormiram de barriga cheia e sorrisos nos rostos.

Capítulo 13: O início

No dia seguinte Fabiano acordou ao som das ondas e sentindo a brisa. Sentia o cheiro de pães frescos,cafés quentes, carnes suculentas e doces assados. Ele tinha dinheiro mas não o suficiente para comprar comida para todos. Pensou por um tempo e decidiu roubar. Fabiano aproveitou a confusão que havia dentro de uma padaria entre dois homens de ressaca tentando pegar um menino que os roubara. Pegou de tudo um pouco. Com o seu sucesso lhe vieram pensamentos dos sorrisos de todos. Ao chegar em sua quase casa, todos ainda dormiam. Reparou na sua esposa que suas costelas não estavam mais aparecendo e seu rosto estava mais cheio, Fabiano abriu um sorriso de orelha a orelha verdadeiro.

Capítulo 14: Dinheiro

Passou-se um tempo e Fabiano havia conseguido um emprego e pelo jeito o menino mais velho também. Ambos voltavam no fim do dia com um punhado de dinheiro. A cada dia o dinheiro ia aumentando cada vez mais, tinha dias que o menino mais velho voltava com mais dinheiro do que o próprio pai. Tinham planos de comprar um terreno para construir uma casa e esse sonho a cada centavo

parecia ser mais real.

Capítulo 15:Trabalho de Fabiano

Fabiano acordou cedo, cedo até demais para ir trabalhar na padaria que ele já havia roubado. Chegou às 5:30 da manhã para carregar as caixas de comida, porém sempre escondia uma para a sua família. Bateu ponto com o seu chefe e começou a servir seus clientes. Alguns eram gentis e a maioria arrogante, mas ele só os servia. Tudo parecia ir estar indo bem em seu trabalho, o dinheiro não parava de entrar na caixa registradora e os clientes não paravam de comer. Mas de repente um bando de garotos mascarados entrou na loja , um deles estava com um revólver. Achou estranho que ele não falava, mas sim os outros falavam.

Continua...


Hor

Parecia que o garoto não queria mostrar quem era para alguém e também parecia não querer estar roubando o lugar. Ele não tinha o que fazer além de entregar o dinheiro e algumas caixas de comida. No fim do dia tomou um esporro de seu chefe, recebeu pouquíssimo dinheiro e quase foi demitido. Frustrado com o ocorrido Fabiano foi encher a cara para recuperar seu ego.

Capítulo 16:Trabalho do menino mais velho

Ele acordou também cedo, mas mais tarde do que seu pai, despediu-se de sua mãe e seu irmão e foi em direção ao velho trapiche onde trabalhava. Sem pernas o esperava na porta falando para se apressar. Ao entrar ele viu o Professor e Pedro Bala falando com alguns de seus companheiros sobre o assalto do dia. Todos estavam falando que ele seria a pessoa que ia levar o revólver. Ao saírem do trapiche, Pedro Bala passou uma camisa e um revólver para ele. Falou com firmeza “a camisa vai na sua cara, o revólver fica apontado na cara do vendedor”. Chegando à padaria fez exatamente isso, mas com um grande arrependimento, pois o seu pai era quem estava no caixa. Após o assalto o dinheiro foi dividido entre todos. O menino mais velho nunca tivera tanto dinheiro em suas mãos, então antes de voltar para casa algumas

resolveu comprar coisas.

Cápitulo 17:Fabiano o homem

Fabiano vagava na escuridão da praia em busca do fundo de uma garrafa de cachaça. Ao passar em uma rua, uma moça de trabalhos lhe ofereceu um serviço por um preço justo. Fabiano queria este serviço, fazia tempo que não sentia esse prazer, mas logo a culpa ocupou a sua mente. Abaixou a cabeça em direção ao cimento da rua que parecia querer puxá-lo para dentro da terra para relembrar quem ele era. Fabiano não gostava de seu trabalho,nem de onde morava, preferia milhares de vezes o mato e o trabalho com cavalos. Cavalos são animais robustos e fortes assim como Fabiano é, cavalos o acolhiam, humanos o espantavam. Mas ele achava estranho, animais não sentem amor nem medo e ele sentia, animais não tem família e ele tem uma. No bar, Fabiano pediu uma garrafa. Tomou tudo de uma vez, o fundo da garrafa parecia o buraco fundo que havia na sua alma. Ele saiu cambaleando do bar com outra garrafa na mão, gritando para o mundo

do fundo dos seus pulmões ”EU NÃO SOU UM ESCRAVO”, mas o

mundo parecia o ignorar. Caminhou até a praia e se sentou. O horizonte estava negro, realçando o contraste branco da metade da lua e a outra metade estava na água. Estrelas estavam no céu, estrelas que pareciam almas perdidas. Fabiano tentou achar a sua mas não adiantou.

Continua...


Olhava de um lado para o outro,mas só ouvia as ondas e via a escuridão, até que ele viu um cachorro radiante como a lua vindo em sua direção. Ao se aproximar viu que se tratava de uma cachorra, peluda e alegre, ela não parava de lamber seu rosto. Achava interessante que a companhia tinha uma cicatriz grande em seu corpo, parecia um tiro. Um tiro que ele havia dado na própria alma. Foi logo quando ele percebeu que Baleia estava ao seu lado mais uma vez. Abraçou a cachorra com todo amor que tinha, lágrimas não paravam de cair de seu rosto. Ela parecia querer mostrar alguma coisa para ele e Fabiano queria ver. Caminhando ao lado de Baleia via lembranças boas de quando ele conheceu vitória e de quando viu os seus filhos nascerem. De repente Fabiano viu uma humilde casa na praia. Baleia latia e pulava na porta, uma porta branca com uma andorinha

desenhada. Ao abrir a porta Fabiano ouvia risadas de crianças,

cantos de pássaros,sentia o cheiro de massa fresca, ouvia latidos e a cantoria de sua esposa. Via alegria e esperança nos olhos de todos. Fabiano ajoelhou-se e fechou os olhos. Ao abri-los estava de novo na praia e Baleia estava ao seu lado olhando para o mar, ela lhe deu uma última lambida na cara e correu em direção ao mar. Corria sobre a água em direção a lua e a lua esticava seus braços para baleia. Depois que só havia ele, o mar, a lua, o céu e a garrafa, uma estrela cadente passou direto no céu diante de seus olhos. Fabiano deixou a garrafa cair no chão junto com o buraco que havia em sua alma. Ele percebeu que agora ele não lutava para sobreviver e sim para ter um futuro com sua família, sua alma estava inteira e a de Baleia descansava em paz. Fabiano não era mais um animal e sim ele se tornou finalmente um homem.


Vidas Secas na Cidade

Nome: Sofia Vanzolini

O sol escaldante cozinhava as cabeças suadas de Fabiano, Sinhá Vitória e dos meninos. O árido bafo dificultava a respiração ao ponto de ser inevitável um descanso de alguns segundos em busca de ar, Fabiano sempre à procura de uma sombra ou algo que pudessem comer, sem sucesso, já escurecia, notou, e tentou suspirar aliviado, mais uma vez lhe faltou ar, ofegava alto guiando a família, o suor escorria de seus corpos com a fluidez da cachaça quando se derramava no copo de Fabiano em seus dias de aposto, e naquele dia fatídico quando o Soldado Amarelo o maltratara, lançou um olhar para Sinhá Vitória, observando-a deslizar a mão na testa e eventualmente empurrar os meninos tomados já pela fatiga, já ela pensava sobre a cama, nunca a teria, soubera desde o início, claro, mas os momentos que a parecia algo tão alcançável a ludibriaram, sacou um empurrão violento no menino mais velho que parou por alguns segundos, este resmungava o que provocava dor em seus ouvidos e alguns cascudos na cabeça do pirralho, resmungava sobre Baleia, como sobreviveriam sem ela, acariciava o local da pancada segurando as lágrimas, mas não fora o bastante para fazê-lo parar de falar, porque Baleia teve que morrer. Chegada a noite, a escuridão tomou o céu de forma vitoriosa, envolvendo Fabiano e sua família na imensidão noturna, seria apenas por algumas horas, mas já devia ser o bastante para não morrerem de esgotamento, determinado o local em que dormiram, o menino mais novo caiu solo, suas pernas fracas e magricelas haviam segurado seu fino corpo ao máximo mas chegaram ao seu limite, o menino mais velho não cessara os resmungos sobre Baleia nem um segundo, mesmo com pancadas doidas e berros da mãe. Sentaram todos sobre o chão, aquele chão seco, sem vida, e rapidamente adormeceram, todos menos Fabiano. Fabiano fitava a escuridão da noite, pensando em tudo que lhes havia acontecido, e pensando o que faria, afinal, não tinha ideia da onde ir, ou se ao menos conseguiriam chegar aonde lá que fosse, até que repentinamente, teve seu momento “Iluminador”, acho que seria a palavra que ele usaria para descrevê-lo, o sol da manhã já se erguia rapidamente quando Fabiano se levantou em um pulo bradando de pé a fim de compartilhar sua ideia:

-Iremos à cidade grande!

Todos mal se lembravam do dia anterior quando despertaram espantados, mas Sinha Vitória não tomou muito tempo a retrucar Fabiano, confusa e ríspida:

-E o que diabos faremos em uma cidade grande?

Continua….


Fabiano bolara tudo na calada da noite, disse que fariam alguns trabalhos mal remunerados de início para se manter, mas que guardariam uma pequena quantia toda vez que recebessem o dinheiro, que os meninos trabalhariam também e que poderiam ter uma vida onde a seca não seria mais temida, Sinha Vitória acompanhara sua fala desconfiada e confusa, mas Fabiano conseguiu convencê-la, mais do que isso, conseguiu fazê-la voltar a sonhar, “se guardaremos dinheiro por anos um dia poderei ter a cama de seu tomás da bolandeira!”, pensara esperançosa, já os meninos não entenderam muita coisa, mas a cada palavra do pai os olhos do menino mais novo brilhavam como quem dizia apenas com o olhar “este homem é um gênio”, o menino mais velho parou eventualmente de resmungar sobre a cachorra morta, levantou a cabeça interessado, na cidade grande com certeza havia muito mais pessoas, parecia assustador e tentador ao mesmo tempo, a ideia da inexistência da solidão, ou talvez uma daquelas pessoas estaria disposta a responder a suas perguntas, afinal tinham muitas. Então naquela manhã saíram em direção à cidade grande, decididos e esperançosos, agora mesmo que suas pernas enfraquecessem o passo não diminuía nem um pouco, o suor incessante não mais incomodava o rosto, e as queimaduras deixadas pelo sol eram triviais, continuaram testando seus limites, mesmo não achando um sequer alimento, e pouquíssima água, até o som de uma cabecinha indo de encontro ao chão causava-lhes terror, o menino mais novo caíra imóvel, o brilho de seus olhos se esvaiu, Sinha Vitória em choque segurava as lágrimas persistentes que vinham sem parar, enquanto Fabiano ainda chocado checava o menino, “estava morto”, o menino mais velho esperneava, mas não podiam parar agora, Sinha Vitória se levantou arrastando o menino mais velho, deixando o corpo sem vida do outro ali. Após algum tempo depois do ocorrido sentaram-se sobre uma árvore quase pelada, o menino mais velho caiu no sono, estava anoitecendo, sobretudo Fabiano ainda tinha seus sonhos em mente, tudo valeria a pena. Já estavam em seu quarto dia, havia comido um préa desidratado, quase morto, tão pequenino que Sinha Vitória não o comeu cedendo sua pequena parte ao faminto menino mais velho, Sinha Vitória estava tonta, desejava cair no chão tranquila, assim com Baleia, o papagaio, assim como seu filho, sorria bobamente fitando o horizonte manchado de preto, sentia seu corpo lentamente cedendo, confortável, mas ao sua cabeça encontrar o chão foi como se encontrasse um travesseiro macio, afofado, quando abriu os olhos se via na cama, a cama de seu tomas da bolandeira.

Continua...


Mais um desastre os tinha confrontado agora mas este sim havia sido mais que suficiente para o menino mais velho abandonar qualquer ambição que ainda possuía, despejava lágrimas no corpo seco da mãe, abraçado a ele, Fabiano lhe dava pancadas com a bainha da faca, engarrafando sua tristeza, mas não surtia efeito algum, o menino mais velho gritava e permanecia agarrado à mãe, nervoso e frustrado, Fabiano partiu, os deixara para trás, olhou para trás uma última vez do filho vir a seu encontro ligeiro, mas não aconteceu, ele permaneceu deitado ao lado de Sinha Vitória, abraçando seu peito, então Fabiano os deixou sem olhar mais uma vez. Após algumas horas de caminhada, Fabiano se deparara com grandes construções e locomotivos, estava finalmente, na cidade grande? Tenta gritar de felicidade e vitória, mas o que o vê é apenas um pranto desolado e solitário.


Vidas cimentadas

Nome: Sergio Roberto Vieira da Motta e Freitas

No caminho da cidade, Fabiano percebe que o filho mais novo estava tossindo muito e com uma cara de cansado e um pouco pálido, mas não ligou e seguiu a viagem para chegar no seu destino, São Paulo. Quando chegou, percebeu o tamanho e a magnitude de uma cidade grande. Procurando uma casa para morar, Fabiano e sua família encontraram um sobrado em um subúrbio que parecia ser justo pelo preço. Depois disso, foi procurar emprego. Após se inscrever em todos os tipos de empregos possíveis, não conseguiu entrar em nenhum, assim tendo que entrar para uma boca de fumo de um vizinho para manter sua família viva. A cada dia em que ele escalava de importância na hierarquia do tráfico, o filho evolui sua doença em conjunto com o ego do pai, e Fabiano percebeu que tinha que cuidar do seu filho que a cada dia ele ficava mais fraco. Fabiano construía ainda mais sua “nova” personalidade, o pai fazia de tudo para cuidar do seu filho e percebeu como ele tinha deixado sua vida de lado por estar sendo egoísta e deixando sua personalidade - inclusive sua família - de lado para o tráfico. Se afastou um pouco do tráfico para cuidar do filho. Após a melhora do menino, percebeu que havia ficado muito tempo fora do tráfico, então ele viu a situação como uma possibilidade de sair definitivamente dessa vida, mas devia para muitas pessoas... Ele estava sendo ameaçado constantemente e após o último aviso, ele pagou com sua vida, não sobrando nada apenas sua alma de sertanejo.

“Por ser de lá Do sertão, lá do cerrado Lá do interior do mato Da caatinga do roçado. Eu quase não saio Eu quase não tenho amigos Eu quase que não consigo Ficar na cidade sem viver contrariado.”

Mas a história tem que continuar… E então, após quase a sua morte, o filho mais novo superou a enfermidade - em grande parte por ter a atenção do pai enquanto doente. Mas, em compensação, o filho mais velho ficou sentido por não ter recebido o tanto de atenção que necessitava, ficando traumatizado. Com isso, o irmão mais novo teve que cuidar das finanças da casa e dando oportunidade de pelo menos o sonho do irmão ser realizado, que era de estudar e se formar em filosofia e ser professor para propagar seus pensamentos para mais pessoas por amar a filosofia como seu pai.


Vidas Secas na Cidade

Nome: Rodrigo Alvarenga

Lembro como se fosse ontem, minha mãe me acordou para arrumarmos as malas. O meu irmão mais novo Fabinho ficou muito confuso, não adiantava explicar para ele que a seca iria voltar com tudo e tínhamos que ir embora, Fabinho não entendia. Meus pais só nos contaram pra onde iríamos quando conseguiram entrar conosco escondido no trem. A falta de dinheiro fez com que fizéssemos o inimaginável. Quando descobri que iria para uma cidade grande e estudar, fiquei confuso, com medo de como me receberiam. Pensava se conseguiria me adaptar ao dia, mas,

ao mesmo tempo,

estava feliz com um novo tipo de vida. Assim que chegamos, meu pai foi para o morro encontrar um velho amigo. Esse homem, que se chamava Jailson, era dono de uma mecânica e em cima dela tinha uma casa que ele alugava. O Jailson foi muito gentil, deu um emprego para o meu pai como mecânico e deixou a minha família morar de graça por um tempo na casa de aluguel. Meu pai teve muitas dificuldades no início, mas com o tempo tornou-se um honesto mecânico. Já minha mãe começou a trabalhar

depois de umas semanas, era cozinheira de um

buteco. De manhã nos levava para escola e ia direto para o trabalho. Voltava em torno das 15h00 para fazer o almoço e

arrumar a casa, depois retornava para o serviço, chegava em

casa só depois das 20h00. A vida era puxada. Após um tempo eu e meu irmão tivemos que aprender a ir e voltar da escola sozinhos. Meu irmão sempre foi mais desligado da escola, às vezes faltava para jogar futebol, às vezes sumia e só voltava no final da aula. Depois de uns anos ele se envolveu com o tráfico de drogas e foi preso, hoje em dia não sei se onde ele anda. A família nunca mais teve notícias. Eu fui para um lado oposto, com a cidade tive a oportunidade de aprender e me desenvolver em todos os sentidos. Depois que me formei no ensino médio, fui para uma ótima faculdade pública fazer jornalismo. Infelizmente, meus pais foram baleados pela polícia em um tiroteio com traficantes do morro. Pelo menos eles se foram, sentindo

orgulho de um dos

filhos. Passou 20 anos, e estou em uma rede de TV famosa, com dois filhos, uma linda mulher, um cachorro e um papagaio.


Vida na Metrópole

Nome: Rodrigo Matias

Pelo asfalto negro e molhado, chega o ônibus que trazia Fabiano, Sinhá Vitoria, menino mais novo e o menino mais velho. A família se retirou da vida dura no sertão nordestino para tentar a sorte em São Paulo. Eles agora vivem nos Campos Elíseos. A casa deles era pequena, apenas um quarto e um banheiro, mas era bem aconchegante e possuía uma cama de varas. Fabiano vende pipoca na frente de um bar, e após o expediente relaxa no botequim. Ele começa o serviço lá pelas seis horas e acaba perto das vinte e três. No começo foi difícil para ele, pois ele não estava acostumado a trabalhos mais urbanizados.

Sinhá Vitória cuida dos

meninos, e eles por sua vez estudam em uma escola municipal, mas ainda assim ajudam de vez em quando o pai vendendo doces. O plano da família era bom, mas eles não contavam com uma pandemia global. Fabiano perdeu muitos clientes e o dinheiro estava acabando. Eles estavam se sustentando quase que exclusivamente do auxílio emergencial. Por conta da urgência, Sinhá Vitória teve que trabalhar. Ela foi contratada por uma empresa de limpeza terceirizada. Sinhá Vitória “limpava” vários tipos de estabelecimentos. Restaurantes, hospitais, farmácias e shoppings, entre outros. Ao chegar em casa, Vitória se sentia cansada e sozinha, pois Fabiano estava sempre no bar. Fabiano acreditava que a pandemia era uma invenção da mídia, ele se descuidou e acabou se infectando. No começo, ele se sentia bem, mas acabou piorando e teve que ser internado na UTI. Ele tinha febre e dificuldades para respirar, Sinhá Vitória estava preocupada, tanto com ele quanto com a questão financeira da família. Então ela resolveu botar seus filhos para trabalhar, eles passaram a pedir dinheiro no semáforo. A vida dos meninos ficou mais complicada, pois eram submetidos a cinco horas de trabalho diariamente. Além disso, eram desrespeitados e abordados diversas vezes pela polícia. Ao longo de algumas semanas, Fabiano piorou, ele entrou em coma e acabou morrendo. Ainda muito cedo os meninos descobriram que planos não são para todos em uma realidade construída de forma desigual.


Cidadãos

Nome: Pedro Domingues Paim

Fabiano e sua família, depois de caminhar várias e várias léguas, bem distantes do nordeste, chegam às fronteiras de São Paulo, mas teriam que andar muito mais para chegar à cidade, sem transporte. Então eles chegam à cidade sem ter onde repousar as forças e sem um teto para ficar. Sinha Vitória, questionada, pergunta a Fabiano: Onde vamos ficar? Nem temos dinheiro pra pagar nem um quarto de hotel! Fabiano não fala nada, só grunhe e levanta os braços indicando não saber aonde ir. Sem dinheiro para o aluguel de uma casa, Fabiano, Sinhá vitória e os meninos ficam debaixo de uma ponte para poderem descansar da longa viagem que tinham feito. Eles desfazem suas coisas e deixam ao lado do escombro de sustentação da ponte. Antes de pegar no sono, Fabiano pensa em ter sorte amanhã para arrumar um trabalho que sustente Sinha Vitória e os meninos e também colocar os meninos em uma escola pública, “quanto o resto só Deus sabe” pensa Fabiano. Depois de uma noite muito fria, em que Fabiano e sua família não estavam acostumados com um clima tão frio comparado ao sertão, eles se preparam para sua nova vida com experiências assustadoras e fora do seu cotidiano. Então Fabiano se despede da sua família indo em busca do seu novo emprego, pouco importava o trabalho que Fabiano conseguiria, só importava arrumar o dinheiro para alugar uma casa ou quarto de hotel, que é a melhor opção. Enquanto isso, Sinha Vitória, aborrecida, está costurando umas roupas, utilizando trapos velhos para meninos e ela sempre gritava para eles não sumirem da vista dela e não irem para rua porque era perigoso. Então os meninos não tinham nada para se divertirem, nada de animais, lama e até mesmo sem Baleia, o que os deixava muito tristes de lembrar, principalmente o menino mais velho. Fabiano ia de um lado para o outro, em busca de um trabalho que pudesse usar as habilidades que ele tem, mas é muito difícil achar um lugar onde possa trabalhar. Tem trabalho que requer conta matemática, requer vocabulário, requer conhecimento técnico e requer outros fatores de que Fabiano não tem conhecimento. Ele descansa um pouco dessa busca implacável, sentado em um banco de uma praça e começa a pensar e ao mesmo tempo ele ver os carros, os grandes belos estruturados edifícios e as pessoas com vestimenta tão diferente que Fabiano nunca viu: - Como essas pessoas, assim como Tomás da Bolandeira, têm tanto conhecimento, tantas coisas e tanto privilégio, enquanto eu e minha família estamos em uma situação de miséria? Não, miséria não, isso é pior do que a miséria.

Continua….


Será que essas pessoas sabem como é nosso modo vida e como nos sentimos? Por que me perguntar sobre algo que as pessoas devem ter conhecimento? Por que o governo sempre beneficia essas pessoas? Por quê? Acho que vir para cidade só me trouxe mais prejuízo para nós. Exausto de raciocinar, Fabiano vai embora para a ponte em que Sinhá vitória e os meninos estão para descansar dessa procura cansativa. Começa outro dia e Fabiano resolve colocar os meninos em uma escola, Sinhá Vitória também concorda. Então ele e Sinhá Vitória levam os meninos a qualquer escola pública onde eles pudessem estudar. Eles chegam em uma escola e Fabiano e Sinhá Vitória vão até a diretoria para cadastrar os dois meninos. Eles começam a conversar, então a diretora começa a perguntar: Quais são os nomes dos nomes dos seus filhos? Surpreso, Fabiano não tinha resposta para essa pergunta. Então responde: Os garotos não têm nome. Como assim eles não têm nome?! Imediatamente ele improvisa sua resposta substituindo a anterior dizendo: Desculpe o engano, o nome do mais novo é João e do mais velho George. Com essa pergunta respondida, deu continuidade a entrevista até o final. Depois, a diretora disse para Fabiano e Sinha Vitória que podiam deixar os dois na escola para ver se eles se adaptariam e gostariam de lá, os pais aceitam a ideia e vão embora se despedindo dos meninos e dizendo para eles se comportarem. As duas crianças ficam confusas porque elas nunca foram em uma escola antes e nem sabem o que é uma escola. A diretora, vendo os dois perdidos, leva os meninos à sala de aula e apresenta a eles a professora e os alunos. Enquanto a diretora apresentava eles à sala, eles se perguntavam que lugar era esse e porque Fabiano os trouxe até ali. Com isso, os meninos entram na sala e sentam cada um em sua carteira e a aula começa. Os alunos entendem explicação da professora na lousa, mas os dois meninos não entendem nada do que ela diz e nem os numeros e simbolos que estava no quadro negro. O mais novo pergunta a professora: O que é aquele rabisco no quadro? Então responde: Aquele é o número 2. E o que é número dois? A professora surpresa pergunta: Quantos anos você tem?! zContinua….


-Eu tenho 8 anos. Ainda mais surpresa, pergunta: -Qual escola você estudava? -Nunca fui a uma escola. Como se nada tivesse acontecido, a aula continuou até o fim do dia. A hora de sair bate e Fabiano está na frente do portão esperando os meninos para voltar ao lugar em que estavam abrigados. O menino mais novo pergunta a Fabiano: - Por que nos trouxe para a escola? - Para estudar! - Responde Fabiano. - Para que estudar? Quero ser como você! Quando Fabiano ouviu isso, ele ficou aflito por dentro e começa pensar que a vida dele vai terminar sendo um mísero cangaceiro pobre, considerado um bicho tanto para ele quanto para sociedade. E, pior ainda, ver os dois meninos, no futuro, acabados que nem Fabiano. De repente, Fabiano lembrou-se da seca e começou a comparar a situação de pobreza da sua família atualmente à situação da família com a seca, um ciclo interminável. Sabendo dessa triste realidade, Fabiano é forçado a aceitar que eles nunca irão sair desse estado e nem seus netos. Mesmo tendo esforço para conseguir sair dessa pobreza extrema, Fabiano, Sinhá Vitória e os meninos estão destinados a viver esse ciclo como muitas famílias pobres estão.


Vidas Secas na Cidade

Nome: Pedro Dantas

Depois de uma longa caminhada, a família havia chegado à cidade. Sinhá Vitória tinha altas expectativas e esperanças de que tudo daria certo em suas vidas desta vez, as crianças só conseguiam pensar em ir à escola pela primeira vez. Fabiano só se preocupava com o sermão que receberia de seu patrão por deixar tudo para trás e parar seu serviço. Mas mesmo com sua preocupação, Fabiano tentou manter-se esperançoso sobre o recomeço da família. Como tinham pouco dinheiro, não tinham um lugar para ficar, mas pelo menos tinham um pouco de comida que levaram de casa, todos dormiram em um beco da cidade e lá se acomodaram. Com o passar do tempo, Fabiano continuou a procurar um emprego, mas quem iria querer contratar alguém como ele, sem experiência nenhuma, mal vestido, e além disso alguém da rua? Sinhá Vitória vagava pela cidade pedindo comida para alguém misericordioso. Os meninos tentaram achar um emprego para ajudar a família, nem Fabiano ou os meninos conseguiram. Não tinham mais nenhum centavo nem mesmo para comprar uma bala. Sem escolha os meninos se envolveram na área das drogas vendendo e traficando para tentar ajudar a família. Mas, um dia, o mal aconteceu. Com fome e sem água, Sinhá Vitória faleceu. Fabiano chorou por muito tempo, aquela era sua esposa, sua amada e agora ela havia o abandonado, os meninos um dia foram ao serviço diário e nunca mais voltaram. No final era só ele, Fabiano, sozinho, sem ninguém. Fabiano não queria morrer, continuou lutando para viver, comeu comida do lixo, bebeu cerveja, fez de tudo para viver. Como não tinha ninguém com quem conversar, sua sanidade caiu, ele ficou cada vez mais e mais maluco e sozinho. A determinação havia acabado, Fabiano cansou, não queria mais continuar a força que tinha antes de se mudarem só existia porque eles estavam todos juntos, todos no mesmo barco. Fabiano ficou parado, encostado em uma parede, enquanto pensava em tudo que passou em sua vida. Ele perdeu tudo, Sinhá Vitória, seus filhos, Baleia, sua casa, sua vida, ele só queria fechar seus olhos e ir embora dali. Fabiano fechou seus olhos e dormiu, então começou a escutar um som, os latidos de Baleia.


Promessa

Nome: Matteo Magri

A família de Fabiano saiu do Sertão nordestino em direção à maior cidade do Brasil com o propósito de ter uma vida melhor. São Paulo sempre teve essa característica, uma cidade a qual as pessoas vão para serem mais bem-sucedidas, viverem melhor etc... Porém, não é bem assim. É dia 23 de março de 2020, Fabiano e sua família já estão instalados em São Paulo. Eles vieram de ônibus em uma enorme e cansativa viagem. Pode até parecer coincidência, mas Fabiano foi contratado para ser motorista de ônibus. Agora vivemos em uma pandemia e os poucos que têm condição de ficar em casa tentam ao máximo não furar a quarentena, ao menos isso é o esperado. Fabiano, infelizmente, não faz parte dessa pequena parcela da população e como o governo não o auxilia em praticamente nada para ajudar essas pessoas a ficarem em casa ele precisa sobreviver. Ele acorda todo dia por volta das 5h da manhã, na verdade ele nem dorme direito, a cama é dura e como a “casa” deles é pequena e apertada é extremamente desconfortável. Ele toma um café preto e puro, come um pão com manteiga e vai para o trabalho. Às 6h entra no ônibus e “vai” para a cidade. Fabiano ouve de tudo no trabalho, tanto elogios quanto xingamentos, mas sua hora favorita do dia é a do almoço, quando está sozinho comendo sua comida e bebendo alguma coisa. Trabalha até às 18h, 12 horas diárias para no final do mês receber 2.000 reais, o que no Brasil não é tão pouco, mas não é o suficiente. Sinhá Vitória, mulher de Fabiano, também precisa trabalhar para ajudar na renda da família. Arranjou um trabalho de empregada doméstica no centro da cidade, vai à casa do seu Carlos 3 vezes por semana para fazer faxina e cozinhar. Para complementar a renda, Sinhá trabalha em um camelô perto de sua casa. Carlos, seu patrão, acredita que o Covid é uma mentira e na verdade não precisa tomar cuidado, o que expõe muito Sinhá Vitória ao coronavírus. No mês, juntando os dois trabalhos e somando ao dinheiro ganho de Fabiano, a família tem uma renda mensal de 3.800 reais. Os filhos de Sinhá Vitória e Fabiano vão para a escola. Mesmo muito pequenos, já pegam ônibus todo o dia. A escola está completamente destruída, não tem material, os banheiros são sujos e não tem coisas básicas como papel higiênico. Os professores, por não receberem um salário digno, não têm vontade de trabalhar, o que acaba afetando no aprendizado de alguns alunos. Se formos fazer uma reflexão, o governo é o maior responsável por tudo, todas as suas ações, tanto boas quanto ruins desencadeiam em outras.

Continua...


Depois de semanas em São Paulo, a família foi se acostumando ao novo ambiente, os meninos vão à escola todos os dias e Fabiano e Sinhá trabalham feito condenados. Em um sábado seu filho mais novo acordou adoecido, com febre e espirrando muito. Fabiano e Sinhá ficaram preocupados, porém acharam que não era nada. Após três dias, ele ficou pior ainda, sua febre foi a 40ºC e estava completamente sem paladar, os pais começaram a se preocupar. Rapidamente levaram-no ao SUS e, a cada minuto que passava, pior o filho ficava. Era uma emergência, mas muitos estavam em uma situação parecida. Era aterrorizante, centenas de pessoas sofrendo e não havia médicos suficientes, não havia equipamento. O suor escorria e o coração batia cada vez mais rápido e forte. O pavor estava entre todos os longos corredores do hospital, os médicos agora usam equipamentos de proteção, porém não há equipamento. Ninguém sabe o que vai acontecer, ansiedade, inquietação, dúvida.. O hospital estava caótico, para ser mais específico, desgovernado. O filho estava quase morto entre os braços da mãe, depois de 5 minutos seus olhos fecharam… para sempre. Estava estático, imóvel. Fabiano, de tanta raiva não conseguia nem chorar, se sentia culpado. São Paulo, que prometia uma vida melhor, acabou tirando a vida de seu filho.


Retirantes em São Paulo

Nome: Marina Bersou Ruão

Hoje, o retirante Fabiano, pai de Antônio e Francisco e marido de Sinhá Vitória, completa 100 anos. Fabiano e sua família fizeram uma viagem para a cidade há 60 anos e, nesta entrevista, ele vai nos contar um pouco de como foi sua vida.

Para começar, gostaríamos que nos contassem, como era a vida de vocês antes de chegarem na cidade?

Não era vida. Não era viver. Era sobreviver. Sempre estávamos nos mudando e sempre que começávamos a nos acomodar, a seca voltava. E o pouco que tínhamos, não era nosso. Sempre me enganavam. Sinha Vitória é que sabia das coisas.

O que esperavam encontrar aqui?

Sinhá Vitória queria uma cama, uma casa. Os meninos iriam estudar e não seriam cabra como o pai. Aqui a seca não chega e não teríamos que nos mudar.

Como foi a viagem? Como vocês chegaram aqui?

Viemos andando. Eu, Sinhá Vitória e os meninos. Baleia não estava mais conosco.

Como está a vida de vocês aqui na cidade? Conquistaram tido que queriam?

Sinha Vitória nunca conseguiu ter sua cama, já que morreu dois anos depois de termos chegado na cidade. Antônio e Francisco foram à escola e Antônio conseguiu entrar em uma faculdade, mas nunca se formou e hoje trabalha com música. Francisco voltou há alguns anos para o sertão e não tenho notícias dele até hoje. E eu ainda estou sobrevivendo.


Ciclo Inquebrável

Nome: Mariana Zabotto Udiloff

A seca estava piorando e podíamos percebê-la pelo cansaço que sentíamos ao andarmos pela estrada com destino à estação de trem. A comida e água estavam escassas, assim como nossa esperança para um futuro melhor. A animação dos meninos havia acabado, e estes reclamavam do calor e da sede. Fabiano mal olhava para mim, porém conseguia ver a preocupação em seus olhos enquanto observava as poucas moedas que haviam nos sobrado. Após dias caminhando sob o sol, chegamos à estação de trem. Por sorte, a passagem dos meninos não era paga, nos deixando uma pequena sobra no orçamento. Embarcamos na barulhenta máquina, e nos amontoamos em uma estreita mesa com dois pequenos bancos de madeira. Em pouco menos de dez minutos, o trem partiu rumo a São Paulo. Na maior parte da viagem fiquei pensando em como seriam as nossas vidas a partir daquele momento. Estava preocupada com o dinheiro, com a comida, com a moradia, com o trabalho que teríamos que arranjar e com diversas outras situações que poderíamos enfrentar. O que me acalmava era ver o brilho no olhar inocente dos meus filhos, que olhavam para as paisagens fora da janela com extrema animação. Fabiano, pelo contrário, parecia nervoso e angustiado. Não dormiu nem sequer um segundo no trem. Aparentava estar desconfiado do ambiente, ou com medo de ser passado a perna. Depois de cerca de dez horas, chegamos à turbulenta cidade de São Paulo. O desembarque foi um caos e muito desconfortável, já que todos tentavam descer do trem ao mesmo tempo. Somente quando conseguimos sair da aglomeração, pudemos procurar um lugar para descansar. Encontramos alguns pedaços de papelão largados no chão e nos ajeitamos em um canto da estação, onde passamos a noite. No dia seguinte, fomos acordados por um pequeno grupo de homens vestidos de azul, que apresentavam feições de desgosto. Olhei para meu marido, e este estava apavorado. Não entendi o porquê, porém juntamos as nossas coisas e saímos do nosso pequeno acampamento. Mal começamos a andar e já nos deparamos no centro da cidade. A sensação que tive ao olhar para todas aquelas construções foi ao mesmo tempo esplêndida e agoniante. Me senti livre, porém sem rumo em um só momento. Esse sentimento foi logo interrompido por cinco senhoras vestidas de freiras que nos contaram sobre sua igreja e nos levaram até o local onde fomos acolhidos e fornecidos comida, água, camas e novas vestimentas. Disseram que poderíamos ficar o quanto precisássemos.

Continua….


Nos próximos dias Fabiano e eu fomos em busca de trabalhos, e em pouco tempo arranjei um emprego em um salão de beleza na zona oeste da cidade. Todo dia saía cedo da igreja, pegava três ônibus (que no início foram pagos pelas madres e freiras), e depois de duas horas chegava no local. Trabalhava por sete horas e depois fazia o percurso de volta para a igreja. O tempo nem era o mais cansativo para mim. Era observar todas as clientes bem arrumadas e bem-sucedidas que mais me incomodavam. Um dia, uma das mulheres levou seus dois filhos que coincidentemente tinham a mesma idade que os meus. Estavam vestidos com seus uniformes escolares, enquanto sua mãe vestia um belo vestido e sapatos de salto pretos. Me lembrei de como não podia proporcionar uma verdadeira vida para eles. Estavam estudando o básico na igreja, porém sabia que não era o mesmo que uma escola. No mesmo dia resolvi conversar com Fabiano sobre o assunto, decidindo colocá-los em uma escola pública. A notícia foi logo contada a eles, que ficaram entusiasmados. Foram para a escola já no dia seguinte, pegando o primeiro ônibus comigo. Confesso que fiquei ressentida em deixá-los ir, e me emocionei ao vê-los sair pela porta do ônibus. Nesse mesmo dia recebi o salário do trabalho e fui liberada mais cedo. Resolvi passar nas lojas do centro, me deparando com diversos produtos e roupas nas vitrines. Porém, o que mais me chamou a atenção foi uma cama de couro, igual a de seu Tomás da Bolandeira. Lembrando que o meu salário era a única renda da família, já que Fabiano não conseguia emprego em nenhum lugar, acabei me controlando e não comprando o meu maior sonho de consumo. Assim que cheguei à igreja, encontrei Fabiano largado no chão completamente bêbado e machucado. Fiquei desesperada e não sabia o que fazer já que ele não estava em condições de me contar o que havia ocorrido. Com muito esforço me explicou brevemente que havia saído para ir ao bar e entrado em uma discussão com um soldado azul. Sua sorte foi que conseguiu se soltar a tempo dos braços do homem e fugir para a igreja. Em meio às lágrimas me pediu desculpas e me prometeu não se meter em outras situações como essa. A promessa não foi cumprida. Uma semana mais tarde meu marido voltou para o mesmo bar onde se envolveu em outra briga. E assim seguiu fazendo: inicialmente de uma em uma semana, e aos poucos chegando ao ponto de praticamente viver no bar. Podia perceber os efeitos do alcoolismo de Fabiano nos estudos dos nossos filhos, principalmente do mais novo, que ao olhar para seu pai chorava e me perguntava se seria igual a ele. Não me conformava com essa situação, porém sabia que não podia fazer nada e por isso me sentia injustiçada. Todo o esforço que havíamos colocado para a nossa sobrevivência foi descartado, o dinheiro voltou a ser escasso já que meu desempenho no trabalho diminuiu, os meninos passaram a ir muito mal na escola além de perderem o brilho nos olhos que antes demonstravam. Nosso maior medo se tornou realidade: o ciclo da nossa miserável vida não foi quebrado. Nossos filhos teriam as mesmas péssimas condições de vida. Não aprenderiam a ler, a escrever, a falar, a contar, poder satisfazer suas próprias vontades, ter uma cama decente que nem a de seu Tomás da Bolandeira ou muito menos serem bem sucedidos e arrumados que nem as senhoras do salão de beleza.


Contratempos

Nome: Maria Eduarda Graziano

A história de meu pai pode até ter tido um objetivo digno, porém, será sempre vista por todos como um crime pífio. Há um pouco mais de dez anos, quando eu, minha mãe, meu irmão mais novo e meu pai viemos à cidade fugindo da seca, nós estávamos em péssima condição, não somente financeira como também de saúde e educação. Nós vínhamos de muito longe e passamos por muito no caminho; nossa cachorra Baleia, que era a maior companheira de todos nós, nos deixou, o que foi difícil, já que ela havia nos ajudado a sobreviver e sem ela provavelmente não estaríamos aqui hoje. As expectativas da minha família eram mais altas do que o comum, todos nós achávamos que a vida na cidade seria extremamente mais fácil e que ganharíamos muito com isso. O problema foi que ao chegarmos aqui, todos estavam muito mais avançados que nós. Meu pai mal sabia se comunicar, o que foi um grande problema para nós; minha mãe sofria com a mesma coisa e ainda por cima tinha que lidar com o meu pai gastando o pouco dinheiro que tínhamos comprando pinga; meu irmão não sabia muito, pois era bem novo, mas apesar disso, percebia que não tinha tanta liberdade para brincar quanto antes e isso o incomodava; e eu, nunca havia frequentado a escola, o que trouxe-me grande prejuízo já que eu precisaria aprender muito. Pouco a pouco fomos nos acostumando com o estilo de vida e rapidez da cidade, o que nos aliviou muito e facilitou nossa situação. Eu e meu irmão começamos a estudar e ambos os meus pais procuravam um emprego. Minha mãe finalmente conseguiu um como funcionária na casa de um casal de médicos. Ela trabalhava de segunda a sábado e costumava sair de casa às cinco e meia da manhã e só chegar às sete da noite; meu pai ainda não havia encontrado um emprego. Minha mãe ficava furiosa com ele, pois além de não se esforçar para achar um trabalho, ele gastava muito do dinheiro que ela conseguia tomando pinga. Alguns meses depois, eu já havia aprendido bastante na escola e surpreendentemente tirava notas boas, meu irmão tinha dificuldade e não se esforçava, pois se inspirava muito no meu pai, que antes era vaqueiro. De alguma forma meus pais estavam ganhando mais dinheiro, principalmente meu pai. Nós nos mudamos de uma casa onde morávamos com outras três famílias para uma pequena casa que era só nossa. Eu não sei como, já que não via meu pai saindo para trabalhar, mas ele estava ganhando cada vez mais dinheiro.

Continua….


O tempo foi se passando e a cada mês nós ficávamos mais ricos. Passamos a morar na Zona Oeste de São Paulo em Higienópolis, compramos dois carros, eu e meu irmão fomos para uma escola particular e meu irmão passou também a ter aulas particulares para que pudesse se sair melhor na escola e minha mãe finalmente ganhou aquela cama de couro igual a de Tomás da Bolandeira que tanto queria. Todos nós estávamos achando estranho que meu pai estava ganhando tanto dinheiro, pois, apesar de não estar parando em casa, ele estava agindo muito estranhamente e nenhum de nós sabia até aquele dia com o que ele estava trabalhando ou como ele ganhava todo aquele dinheiro. Eu e minha mãe começamos a investigar, pois já que ele não passava tempo em casa, conseguíamos mexer em suas coisas com tranquilidade. Após cerca de três horas já havíamos conseguido contas e documentos o suficiente; começamos a ler tudo e pensar, até que achamos um contrato no qual ele havia assinado e jurado sigilo em relação a quem havia o contratado. Ao pesquisar o nome da "empresa", que era praticamente cem por cento secreta, vimos que eram contratadas pessoas com a finalidade de cometer crimes hediondos como homicídio em troca de uma grande quantidade de dinheiro. Guardamos isso entre nós por um tempo, porém víamos que meu pai estava cada vez mais aflito e desconfortável. Decidimos então confrontá-lo, não sabíamos no que aquilo daria, porém estávamos dispostos a enfrentar os riscos. Esperamos até o final da semana, pois minha mãe estaria em casa e eu e meu irmão não teríamos aula. Quando ele chegou em casa, pudemos ver em seus olhos que não esperava que nós estivéssemos fora de nossos quartos, pedimos para que sentasse e fomos direto ao ponto. Ele não teve reação, pude ver que estava confuso e surpreso, mas não demonstrou nada. Após cerca de quinze minutos começou a falar; nos disse que odiava o que fazia, porém odiava ainda mais a situação na qual nos encontrávamos antes, disse que faria tudo e qualquer coisa para que nós pudéssemos ter uma vida boa e sermos felizes, que não se importava com a vida dele e sim apenas com as nossas, com o futuro do meu irmão, com o meu futuro e com a felicidade da minha mãe, disse que a única coisa que queria era ver minha mãe sossegada depois de tudo que já havia passado. Acho que nunca ouvi meu pai falar tanto. Na manhã seguinte, eu e minha mãe conversamos, apesar de que tudo o que meu pai estava fazendo fosse horrível, no fundo sabíamos que ele só queria nosso bem. Levamos tudo em consideração mas não tínhamos dúvida que a coisa certa a fazer seria denunciá-lo à polícia. Preferimos ligar para a polícia, achamos que chamaria menos atenção e que seria mais simples. Quando chegaram em nossa casa, apenas levaram meu pai, foi tudo muito rápido então nenhum de nós teve reação, a não ser meu irmão mais novo, que estava em choque por conta de sempre ter sonhado em ser como meu pai.

Continua….


O choque para ele realmente foi muito grande, anos depois ele estava em péssima situação, desenvolveu depressão e estresse pós-traumático, o que fez sua vida desabar. Hoje em dia ele mora com minha mãe, que quando tudo aconteceu ficou mal, mas eventualmente aceitou e entendeu o que havia acontecido. Meu pai está na prisão até hoje, cumprindo a pena por tudo o que fez, por todas as vidas que estragou para que pudesse nos dar uma boa vida. Eu, assim como minha mãe, fiquei confuso mas com o tempo aceitei; decidi me dedicar completamente aos estudos e aproveitar a chance que tinha, me formei e hoje estou aqui, escrevendo este livro. Contando a minha história, a história da minha família.


A Desgraça da Vida na Cidade

Nome:Luma Favretto

Foi uma viagem longa até a capital, finalmente São Paulo, foram dias de fome e sede até a chegada, mas, mesmo assim, quando chegamos tivemos uma sensação de renovação… me sentia como uma formiga pensante, pensando onde trabalhar, onde poderíamos morar, pensava no futuro junto com Sinhá Vitória que estava com um sorriso no rosto que esboçava esperança, os meninos curiosos com a cidade riam. Por um momento pensei em Baleia, pobre Baleia, ela poderia estar conosco nessa caminhada se fosse de vontade, nas nossas aventuras, no recomeço, mas não havia tempo para lamento, ela não conseguiu vir com a família e ponto. Andávamos pela cidade observando a vida das pessoas sem preocupações, passeamos até escurecer e acabamos dormindo na rua pois não havia outro lugar. Não tínhamos um patrão, não tínhamos mais nada, só aquilo que trouxemos da moradia antiga. A noite foi horrível, fria e desagradável, não acreditava que nossas esperanças poderiam acabar tão rapidamente, mas acabaram. Ainda não tínhamos abrigo e eu não sabia o que fazer com a minha pobre família, pensava o que seriamos na cidade grande sem um plano. Nos guiamos até uma igreja que estava dando comida aos moradores de rua, recolhemos três marmitas, felizmente a igreja também estava abrigando os necessitados. Já haviam se passado quatro dias desde quando nos estabelecemos na igreja, os meninos tentavam ganhar esmolas num farol de avenida cheia, Sinhá Vitória cuidava dos meninos e eu tentava achar um emprego para nos sustentarmos. Rodei a região inteira mas não achei nada, recorri a lembranças do passado, como a vida seria mais fácil no campo com a estabilidade necessária até a próxima seca. Eu seria novamente um cabra no campo, mas na cidade grande sou apenas uma barata frágil e nojenta; me contentei com a ideia de ser novamente um cabra. Quando a noite caiu voltei ao abrigo, mas ele estava fechado e nossas coisas estavam pra fora, assim como Sinhá Vitória e os meninos, nos rastejamos até uma ponte local e nos aconchegamos lá. Gastamos nossas economias em comida, tenho certeza de que nos acharam burros e nos passaram a perna, mas não tinha nada que eu pudesse fazer já que os meninos estavam com fome então tudo bem. Arranjei uma pinga num bar lá perto que fazia baratinho, não achei o preço justo mas do mesmo jeito a pinga me aconchegava mais do que a situação presente.

Continua...


Ao acordar vi que Sinhá Vitória estava passando mal de febre, não sabia o que fazer e por um instante pensei que ela se juntaria a Baleia logo. Esse pensamento passou na minha cabeça e fiquei preocupado se isso se tornaria realmente o futuro de minha amada. Os dias foram se passando e todo o dinheiro que os meninos ganhavam eram gastos na comida para Sinhá Vitória e pinga, ela tinha que ficar bem pra me ajudar nessa jornada, não poderia passar que nem Baleia. Mais quatro dias de tristeza se passaram, Sinhá Vitória ficava cada vez mais fraca e, além dela, os meninos começaram a passar mal, por sua vez sofriam com a fome. Não tínhamos mais nada, não havia mais nenhuma alternativa; tive que me contentar com seus últimos dias ao nosso lado, mas não iria aceitar nunca seu destino, tinha que haver uma alternativa, mas para nós, baratas, não tinha. A morte era certa. No mesmo dia ela morreu. Morreu deitada, à noite, passando frio e descontento. Felizmente não vi sua morte, mas nunca iria aceitar seu pobre e miserável destino, não tinha mais esperanças. O corpo de Sinhá Vitória deveria passar seus últimos dias perto dos filhos que estavam morrendo de fome. Não conseguia pegar tantas esmolas quanto as crianças, mas elas não tinham mais forças para sair e andar, o pouco que eu conseguia gastava com pinga, minha pinga, minha querida pinga. Isso continuou acontecendo até meus filhos morrerem, coitados, tão pequeninos, queria que Sinhá Vitória e Baleia estivessem aqui junto comigo; agora era eu, três cadáveres e a imaginação de Baleia. Pensei, por um instante, que eu estaria realizado, a família estava reunida novamente.


Ciclo inquebravel

Nome: Laura Campanhã de Barros Freire

Depois de semanas árduas de trabalho, Fabiano finalmente conseguiu juntar dinheiro suficiente para uma passagem de ônibus para toda sua família. Eles vão para a cidade de São paulo, e a única coisa que sabem é que a cidade é enorme. As cadeiras do ônibus eram consideravelmente confortáveis e as crianças dormiam profundamente. Fabiano, no entanto, estava desperto, sentia ansiedade, ele estivera pouquíssimas vezes em cidades grandes. Depois de horas, eles chegaram. Conseguiam olhar apenas para os altos prédios que chegavam quase até o céu. As crianças queriam saber como eram por dentro, e Sinhá Vitória sonhava e imaginava como seria morar lá, já Fabiano estava confuso e só conseguia pensar em como encontraria um emprego. As ruas estavam lotadas, movimentadas, e o barulho era muito alto. Todos estavam com fome, por sorte ainda tinha o dinheiro que sobrara da compra da passagem, não demorou muito para eles encontrarem um kilo barato, mas eles só tinham dinheiro o suficiente para fazer um prato. Sendo assim, eles dividiram a refeição, Sinhá Vitória comeu menos para que as crianças pudessem comer mais. Eles saem do kilo vagando sem rumo, até que encontram um supermercado, ficam impressionados com a quantidade de coisas que tem lá. Fabiano avista um grupo de trabalhadores descartando comida e trás para eles comerem, eles dormiram em uma pequena praça aberta, as crianças em um banco e Sinhá Vitória e Fabiano na grama. Amanhecendo, Fabiano saiu para arrumar um emprego, ele percebeu que todo o seu conhecimento sobre animais e a vida no campo não tinham valor na cidade grande. Ele avistou uma pequena lanchonete, o estabelecimento procurava por alguém que quisesse serviço para entregar comida, ele entrou e pediu informação. O trabalho não era tão difícil, o único problema é que se você não possui uma moto, terá que ir de bicicleta e Fabiano não sabia andar de bicicleta. Eles emprestaram, então, a bicicleta que tinham lá e Fabiano foi tentar andar na ruazinha, depois de umas duas ou três tentativas ele já conseguia se equilibrar melhor. Voltando ao parque, Fabiano avista Sinhá Vitória que junto com os filhos juntou pedaços de papelão que acharam nas ruas para que as noites se tornarem mais confortáveis. Fabiano percebeu que os trabalhadores do mercado não descartaram comida, então ele foi procurar nos lixos para ver se achava alguma coisa, por sorte achou alguns restos e trouxe para que pudessem comer juntos e foram dormir.

Continua….


No dia seguinte, Fabiano voltou para a lanchonete para aceitar o emprego. Ele assinou alguns contratos, não conseguia ler o que estava escrito nos papéis, mas já tinha uma ideia do que era o emprego então apenas assinou, voltando para a casa contou para Sinhá Vitória do seu novo emprego e ela o parabenizou. O dia de Sinhá Vitória também tinha sido cheio, ela levou as crianças para conhecer a escola que estudariam e as matriculou lá, o filho mais novo estava animado e curioso sobre como seriam seus dias escolares. Ao raiar do dia, Fabiano foi para seu novo emprego de ônibus, as crianças foram a pé para escola, Sinhá Vitória acompanhou as apenas para não se perderem, mas já alertou que nos próximos dias eles iriam sozinhos, depois ela foi a procura de cobertores, teve sorte e pode encontrar um. Depois de um tempo, eles começaram a morar em uma ocupação, comparado com a praça ela era bem confortável, o único problema é que ficava longe do emprego de Fabiano e da escola das crianças, então eles tinham que pegar diversos ônibus, Sinhá Vitória catava latinhas na rua e juntava alguns trocados e assim eles foram vivendo.


Vidas secas na cidade: Depois da seca

Nome: Laura França

[...] “O que será de nós?” ele se perguntava, ainda pensando na conversa que teve com Sinhá Vitória. “O que será de mim? Onde vamos morar? Qual será o futuro dos meus filhos?” as perguntas martelavam em sua cabeça enquanto o filho mais velho chorava, estava sentindo falta da Baleia. Sinhá Vitória o olhou apreensiva, ainda faltava muito para chegar. Fabiano, já cansado de tanto andar para lugar nenhum, vira para Sinhá Vitória e pensa em dizer: “Estou cansado de fugir da seca, de andar sem rumo sempre que ela chega, de ser passado para trás no meu trabalho, de pensar que no futuro os meus filhos serão iguais a mim. Vamos para a cidade, Vitória.” mas na verdade diz em um tom seco; “Iremos para São Paulo”. Esta, então, apenas balançando a cabeça dizendo que sim e começa a andar mais rápido, iria ser mais uma semana de caminhada. Após uma semana sofrendo, passando fome e com os pés doloridos, finalmente a família chegou até o tão esperado destino. Em São Paulo, sem rumo e sem casa, Fabiano e Sinha Vitória conseguiram alugar um cubículo na periferia por menos de 200 reais. Naquela noite, Sinhá Vitória e os dois meninos dormiram tranquilos, ao contrário de Fabiano, que passou a noite em claro pensando no que iria fazer para sustentar a sua família de agora em diante. Lá pelas 4 da manhã, o mesmo teve uma brilhante ideia, no dia seguinte iria até a fábrica que viu há algum tempo dali e tentaria arranjar um emprego. Ele não sabia como, pois nunca tinha trabalhado antes, a não ser como vaqueiro, e isso o deixou um pouco preocupado, mas ao ver o horário pensou que resolveria este problema amanhã bem cedo. E assim o fez, Fabiano acordou três horas depois assustado com a luz do sol batendo em seu rosto insosso, mal tinha dormido. Assim que levantou, o mesmo nota que Sinha Vitória e as duas crianças não estavam mais no colchão, já tinham começado o dia. Meio atônito Fabiano olha para o relógio, ao notar a hora este põe a roupa às pressas e sai sem se despedir, estava atrasado. Após duas horas de caminhada com o sapato apertando os pés, o homem se vê em frente a uma fábrica, engole em seco e entra. Meio desajeitado, a primeira pessoa a ver Fabiano é o gerente do lugar, que o indaga; “O que faz aqui, moço? está à procura de um emprego?” Fabiano, com um pouco de dificuldade e já regredindo a sua ida, apenas afirma que sim com a cabeça.

Continua...


O gerente então, surpresamente feliz, diz que está precisando de funcionários e que teria que fazer uma pequena entrevista com Fabiano antes de contratá-lo. Ao ouvir estas palavras, o pai de família se lembra quase que instantaneamente do soldado amarelo, que também tinha “conversado” com ele. Mesmo assim, o mesmo entrou na sala do gerente, estava receoso. Por volta de uma hora depois, Fabiano voltou para a estrada, ele tinha sido contratado. Ainda não sabia como, e nem por que o gerente o contratou, ele tinha noção de que não tinha nada a oferecer. Então, pensou: “Esta fábrica deveria estar realmente precisando de funcionários para contratar um bicho ao invés de um homem”. Chegando em casa, o mesmo conta a notícia para Sinha Vitória, que fica muito feliz e mostra o almoço que ela preparou com as poucas comidas que eles tinham trazido na viagem. Ela conta que também, naquela mesma manhã, foi até a escola pública mais próxima pedir à professora que deixe com que seus filhos possam frequentar a escola. A resposta que obteve foi afirmativa, o que deixou a mulher muito orgulhosa de seu trabalho. “Eu devo tudo à minha mãe, que me ensinou a importância da escola”- ela fala. Com isso os dois meninos chegam à mesa, eles festejam a chegada do pai e a nova escola, todos comem e tentam aproveitar ao máximo aquele momento raro de felicidade. No dia seguinte, Fabiano acorda às 4 da manhã, se veste e toma uma xícara de café. Com os sapatos apertados ele sai para o trabalho. Horas depois as duas crianças levantam com o sol batendo em seus rostos, era dia de escola. Sinhá Vitória apronta os dois filhos e faz uma xícara de café para cada. Os três partem para uma caminhada de meia hora, até chegar na escola. Após voltar para casa, Sinhá Vitória decide que também quer ter um emprego e vai até o centro da cidade tentar procurar por um. A noite cai e Fabiano retorna, os filhos já estão em casa, com fome e Sinhá Vitória está a preparar o jantar, ainda não tinha conseguido um emprego. Foram 28 dias dessa mesma rotina, vários deles consumidos por fome e cansaço, ainda sim, mais ou menos na metade destes a mãe consegue um emprego como faxineira de um restaurante fast-food, e no último dia do mês, Fabiano e Sinha Vitória recebem os seus primeiros salários, que ao todo totalizam 2.214 reais, o que foi visto pela família como uma enorme conquista. Com o primeiro salário compraram comida o suficiente e pagaram as contas, além disso planejavam juntar para um dia poderem comprar a tão sonhada cama de Sinhá Vitória, aquela igual a do Tomás da bolandeira. Todos se sentam para comer a melhor refeição que tiveram em meses, olhando para a sua família, Fabiano tem certeza de que está em paz, e que não tem que se preocupar com a seca mais. Ao se lembrar desta, todas as memórias vêm à tona, o que deixa o moço com uma enorme saudade da cachorrinha falecida. “Tomara que Baleia esteja também comendo um preá grande e gordo” -pensou, e voltou a jantar.


Vidas Secas na Cidade

Nome: Jorge Mariotto

Roberto olhava a chuva chegando, não chovia a muito tempo em São Paulo, ele lembra de seu pai, Fabiano, que sempre olhava para o céu para ver se a chuva vinha, lembrou-se também de seu irmão mais velho, que perdera a vida quando vinham para São Paulo. Sentou-se em sua poltrona com dificuldade, pois já iria fazer oitenta anos dali uma semana, Roberto sentiu vontade de passear antes que a chuva viesse, ele se levanta e vai dar uma volta pelo quarteirão de sua casa. Ele já sentia a brisa refrescante da chuva vindo em sua direção, o tempo estava fechando, e quando chegou à calçada ele encontra com Ricardo, o seu único filho, com Vitória e Hugo (seus netos gêmeos). Eles sobem até seu pequeno apartamento conversando bastante, eles discutem suas ideias, principalmente sobre as eleições pela prefeitura. Ele fala bastante com seus netos, e percebe que Hugo está tenso com o seu último semestre na faculdade de biologia, já sua neta estava mais tranquila quanto a isso, pois já trabalhava havia alguns meses. Foi uma visita rápida porém reconfortante, já que Roberto estava estressado com a falta de gente para conversar. Ficou um bom tempo pensando sozinho como sempre fazia, e lembrando da vinda para São Paulo com sua família, onde passaram por vários apertos. O primeiro foi a falta de dinheiro que os forçou a trabalhar para comprar as passagens caras para São Paulo, e que foram compradas após 7 meses trabalhando na parte de limpeza e consertos em uma hotelaria no sul de Altamira. Outra dificuldade sofrida foi a morte de seu irmão mais velho, por conta de uma gripe pouco antes de conseguirem o dinheiro. Por fim ele desce para ir andar um pouco, aproveitou e passou no mercado para comprar pães e ovos que acabaram no dia anterior, as imensas nuvens escuras se aproximavam do bairro de pinheiros, foi até o fim de seu quarteirão na Rua Cunha Gago e entrou, em um pequeno mercado comprou o que precisava e saiu, passou por uma carro funerário lembrou dos anos em que viveram no Cemitério da Lapa, onde seu pai era coveiro e tinha direito a uma pequena casa lá mesmo, além de um baixo salário. Passou pela porta do prédio, subiu alguns degraus de escada, e caminhou pelo longo corredor até o elevador lá no fim, subiu até o terceiro andar, entrou no seu apartamento sentou-se na poltrona enquanto a chuva começava a cair.


Vidas Molhadas

Nome: Jorge Dias

Depois de andar muito, entrar em um ônibus e ter gastado todas as economias, a família chega ao Sudeste, logo de cara o estranhamento. Nunca tinham visto tantas pessoas em um mesmo lugar. No lugar da paisagem seca do sertão, viam enormes construções de concreto, a cidade era cinza e molhada, chovia muito, não havia seca. Logo de início, foram morar na periferia, diferente do centro existiam ainda mais pessoas, lá tudo era mais precário. Fabiano não tinha burro brabo pra domar, não via soldados amarelos, agora nao mais trabalhava no campo, nao tinha seu Tomás da Bolandeira. Agora, ele trabalhava em uma fábrica, passava os dias apertando parafusos de monstruosas máquinas de ferro que ele mesmo não sabia para que serviam, como funcionavam, quem as mandava fazer e nem para quê. Só sabia que tinha que apertar os pregos. Sinha Vitória ainda não tinha uma cama como a de seu Tomás da Bolandeira, trabalhava em uma fábrica têxtil na Mooca, passava o dia todo trabalhando com os fios na cidade cinza e chuvosa. Ela pouco conseguia falar com as outras moradoras do bairro, também não tinha tempo para aquilo além dos tecidos também havia de fazer a comida e cuidar dos dois garotos enquanto estivesse em casa. Os meninos, antes sem nome, agora chamavam-se João (o mais velho) e Miguel (o mais novo). João, de início, não gostava muito dos outros garotos, mas, conforme o tempo foi passando, começou a conseguir se enturmar com um grupo de três amigos de uma espécie de prisão estranha chamada escola. Miguel, por outro lado, enturmou-se logo de cara, jogava pião, soltava pipa, jogava bola e tudo que tinha direito como as outras crianças. O tempo foi passando, mas nada mudava muito. A vida não tinha melhorado como esperavam, não tinham que fugir da seca pelo menos. Porém, havia uma estabilidade miserável, quando os garotos cresceram o mais novo foi trabalhar na mesma fábrica que Fabiano, já o mais velho trabalhou na mesma fábrica de sua mãe, um apertando parafusos e o outro mexendo com os fios.



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