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O ALICIADOR DE DONATO CARRISI: O BOOM INTERNACIONAL DE UM THRILLER ITALIANO

Poucos meses depois da estreia de seu primeiro livro, Donato Carrisi tornou-se um autor cultuado, deixando seus leitores ávidos pela continuação de ‘O Aliciador’ (‘Il suggeritore). Habilmente escrito, o livro consegue deixar sempre uma questão em aberto a ser vorazmente satisfeita com a leitura. A história mostra os rituais macabros de um serial killer de meninas, cujos passos são seguidos por uma equipe de investigação liderada pelo criminalista Goran Gavila. Capaz de ir além dos padrões ocultos do crime, ele é o primeiro a definir o assassino não como um monstro, mas como um simples ser humano. A seu lado ele tem a ajuda de sua equipe e da investigadora Mila Vasquez, especializada em encontrar pessoas desaparecidas. Juntos, eles revelam as pistas que são deixadas com uma estranha precisão- e especialmente para eles. Aos poucos, acabam desvendando uma cadeia de crimes em que quase nada é como parece. Panorama It.: Podemos definir ‘O Aliciador’ como um sucesso antes mesmo do livro ser publicado na Itália. Você pode nos contar como aconteceu esse fenômeno? Carrisi: Eu parei de trabalhar por um ano com o objetivo de escrever esse livro. Mas meu agente me pressionou muito quando me viu recusar outros trabalhos. Eu então o apresentei a Luigi Bernabò, o agente editorial de Ken Follet e Dan Brown, que o ocupou muito. Assim, quando houve um leilão na Itália, a Longesi (editora) ganhou os direitos de publicação do livro. Logo em seguida, a editora espanhola Planeta, a mesma que publica os livros de Carlos Ruiz Zafón, adquiriu os direitos de ‘O Aliciador’. O livro será lançado em breve na Holanda e já foi comprado pela Alemanha, Portugal, França, Inglaterra, Brasil, Grécia, Rússia e Estados Unidos. Digo que minha história se assemelha a um conto de fadas, que eu sou um pouco como a Cinderela. Mas o sucesso do primeiro livro é sempre uma questão de sorte: só sabemos se um escritor é realmente válido a partir de seu segundo romance. Panorama It.: Agora vamos ao que muitos leitores querem saber. Haverá um segundo livro? Ou melhor, uma sequência? Carrisi: Já existe algo em mente, mas dizer que será uma sequência seria prematuro. A Acredito que ela vai nascer, mas talvez seja o meu décimo livro. No entanto, já existem ideias. Panorama It.: Você acha que ser roteirista pode ter ajudado nesse boom? Carrisi: Não creio que tenha influenciado. No entanto me ajudou a escrever, já que já tenho uma escrita um pouco cinematográfica que muitos dizem terem enxergado em ‘O Aliciador‘. Originalmente a obra foi escrita como um roteiro cinematográfico. Eu queria ter feito um filme, mas depois percebi que ‘O Aliciador’ tinha que ser um romance. Panorama It.: No livro há muitos detalhes que requerem estudo e conhecimento, como os os relatórios de autópsia e as inovadoras técnicas de investigação. Para toda essa pesquisa um ano de dedicação foi o suficiente? Carrisi: Não. A pesquisa teve início muito antes. Tenho acumulado material a respeito desses assuntos durante muito tempo. Um ano de trabalho foi apenas para eu escrever e desenvolver a estrutura da história. Entre outras coisas, já havia estudado sobre o assunto e tinha conhecimentos prévios em criminologia. Quando terminei a pesquisa me dediquei à forma do texto. Dediquei-me bastante: na composição de cada página; em como cada capítulo deveria terminar etc.


Panorama It.: O título da obra, na verdade, nos dá imediatamente a pista para desvendarmos o mistério do livro. No entanto, apenas no final do romance temos consciência disso... ‘O Aliciador’ não é o título que eu havia imaginado no início. O nome do livro seria ‘Lobos’. É como se viu no filme ‘O Sexto sentido’...as respostas estão ali, na primeira página, com aquele homem encarcerado. Mas a trama faz você se esquecer disso. Eu coloquei tudo lá, mas, por causa da forma de narrativa que escolhi, todos só chegam à conclusão na última página. Panorama It. O livro não tem uma localização específica. Não é mencionado qualquer cidade ou estado, mas os protagonistas têm nomes que nos parecem americanos. Era sua intenção dar uma aura internacional ao romance? Carrisi: O “melting pot” funciona muito. Mas, como autor italiano, era difícil ambientar a história nos Estados Unidos. Mas ambientá-lo na Itália seria muito previsível. Então resolvi simplesmente omitir o lugar onde a trama ocorreu. Panorama It.: Além disso, as técnicas de investigação parecem mais americanas que italianas, quase como em ‘Criminal Minds’... Carrisi: Sim, muitos me dizem que a trama se assemelha muito à de ‘Criminal Minds’, mas desconheço. Panorama It: Pode-se dizer que o livro é uma sucessão de casos trágicos, horripilantes. No entanto, para o leitor, ‘O Aliciador’ não chega a ser uma obra violenta, ou, ao contrário, crua. Você concorda? Carrisi: Sim, bani a violência das páginas. Resolvi escrever sobre o mal em suas origens. Eu queria suscitar o medo, tanto que escolhi meninas para serem as vítimas, pois quis me referir à criança que há em todos nós. E que também representam nossas heranças. Panorama It.: Um conceito muitas vezes repetido no livro é o de que uma pessoa que os outros julgam como um monstro não é um monstro, propriamente dito. E que todos nós temos um lado obscuro. Carrisi: Todos nós possuímos um olhar perante os atos criminosos que, muitas vezes, vem da mídia. A opinião pública quer ser consolada. Quer pensar que algumas pessoas representam uma exceção. Todos nós queremos imaginar que o criminoso é um monstro totalmente diferente de nós. Mas o mal tem raiz humana. Panorama It.: Você teve algum exemplo literário ao escrever ‘O Aliciador’? Carrisi: Creio que exista uma formação literária indispensável para cada escritor. Eu devo muito a Giorgio Faletti, que me deu coragem para escrever um thriller com o intuito de inovar o conceito de romance policial na Itália. Para mim ele é um mestre, da mesma forma que Michael Connelly, Jeffery Deaver e Dan Brown, no que concerne à criação de uma atmosfera de envolvimento do leitor, do desejo de não parar de ler. Acho que sou, na verdade, um onívoro. Leio de tudo, até mesmo histórias de amor. Mas eu não gosto de finais felizes e nem da dicotomia entre os bons e os maus.

Entrevista com Donato Carrisi  

Entrevista com Donato Carrisi para o site Panorama.It