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Biodiversidade e Mudança Climática sob um enfoque Amazônico Paulo Moutinho1 Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – IPAM Av. Nazaré, 669, Centro, 66035-170 Belém, PA

O clima é o principal fator controlando a vida sobre a terra. A distribuição geográfica de diferentes biomas, o funcionamento dos ecossistemas, as taxas de crescimento de animais e plantas e a produção de alimentos para a humanidade são, entre inúmeros outros elementos, influenciados pelo clima. O padrão atual de funcionamento da biosfera é, portanto, resultado de sua interação com o clima ao longo de milhões de anos. Mas, uma nova ordem climática está em curso. Segundo mais de 1000 cientistas, que assinaram o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (Intergovernmental Panel on Climate Change, IPCC) a temperatura da superfície da terra sofreu um aumento 0,5 oC ao longo do século XX (IPCC, 2001). A causa para tal fenômeno tem sido o aumento exagerado do efeito estufa devido às emissões de gases que retém calor, principalmente o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4), promovidas pela queima de combustíveis fósseis (petróleo, carvão mineral e gás natural) e pelas mudanças no uso da terra (desmatamento e queimadas nos trópicos). No entanto, o que mais preocupa é a rapidez com que estas mudanças estão ocorrendo. Grandes oscilações de temperatura, as quais foram positivamente correspondidas por oscilações na concentração (entre ca. 200 e 280 ppm) de CO2 na atmosfera, foram registradas ao longo dos últimos 160 mil anos (Barnola et al., 1995). Cada oscilação ocorreu em escala de milhares de anos e não de séculos ou mesmo décadas como vem acontecendo agora. Para se ter uma idéia da velocidade das atuais alterações na atmosfera, concentração de CO2 , como dito o principal gás

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Endereço atual: IPAM/Brasília, SCLN 211 Bloco C sala 209, 70862-530 Brasília, DF. moutinho@ipam.org.br


2 estufa, antes da Revolução Industrial (por volta de 1750) era de 280 ppm, 30% menor do que a atual (368 ppm) (IPCC, 2001). Uma mudança enorme em apenas 250 anos. Com o aumento na concentração de CO2 e de outros gases estufa na atmosfera, estima-se que nos próximos 100 anos a temperatura média do planeta terá subido entre 1,4 e 5,8 oC (IPCC, 1996). Alterações do clima como as que estão sendo previstas, certamente terão implicações importantes para a “saúde” dos ecossistemas e para a biodiversidade planetária (IPCC, 2002). As previsões indicam que o aquecimento global deverá, principalmente, alterar (1) a amplitude, freqüência e distribuição de chuvas, (2) aumentar a incidência de furacões e (3) provocar o derretimento da calota polar, resultando em aumentos no nível do mar. Como conseqüência, haverá mudanças no funcionamento de vários ecossistemas com uma perda potencial de biodiversidade em vários deles (destruição de recifes de coral e mangues, expansão ou retração de ecossistemas e mudanças no regime de reprodução de animais e plantas) (IPCC, 2002, Tabela 1). Alterações como estas também poderão trazer mudanças consideráveis na produção de alimento no mundo. Estima-se que os países mais pobres serão os mais afetados, especialmente os africanos, por serem estes os menos preparados para enfrentar tais mudanças (IPCC, 2001). Neste cenário futuro de clima alterado, o Brasil, que é detentor de uma mega-diversidade, torna-se um país chave na avaliação dos impactos da mudança do clima para biodiversidade global2. De maneira geral, os potenciais impactos da mudança climática para a biodiversidade brasileira ficam no âmbito de eventos que afetam a região costeira devido a aumento do nível do mar e suas florestas tropicais, em particular a Amazônica, que pode passar por freqüentes períodos de seca prolongada. Os estudos sobre o assunto, contudo, ainda são raros. Por exemplo, entre os 2500 estudos (abrangendo 500 taxa) que avaliaram os impactos das mudanças do clima

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Ao longo deste trabalho o termo biodiversidade será utilizado de maneira mais restrita, isto é, como sinônimo de diversidade de espécies.


3 sobre a diversidade de espécies (IPCC, 2002), a maioria foi realizada em zonas temperadas ou em áreas de altitude elevada. Uma pequena fração foi executada nas regiões tropicais e uma minoria na América Latina. A magnitude da ameaça imposta pelas mudanças do clima sobre a biodiversidade brasileira é, portanto, praticamente desconhecida. Estudos recentes, no entanto, dão idéia da dimensão desta ameaça. Alguns deles, especialmente os desenvolvidos na Amazônia são relatados e discutidos ao longo deste trabalho. Ainda, discuti-se como o fenômeno das mudanças do clima impõe uma nova condição para as ações e estratégias de conservação e proteção da biodiversidade brasileira. O Clima e a Floresta Amazônica Avaliar as alterações na biodiversidade em função da mudança climática atual requer a identificação de vários outros fatores que interagem entre si em diferentes escalas de tempo (décadas e anos) e espaço (regional e global). A Amazônia é um exemplo típico desta complexidade de interações. Na escala da bacia, a floresta exerce importante papel na manutenção do clima da região (Nobre et al., 1991; Salati et al., 1991). Ela é capaz de bombear para atmosfera cerca de 7 trilhões (Moutinho & Nepstad, 2000) de toneladas de água via evapotranspiração (evaporação + transpiração), fornecendo assim o vapor necessário para manter o clima da região úmido e chuvoso. Quase a metade da chuva que cai sobre a floresta provém da evapotranspiração (Nobre et al., 1991). Além disto, a conversão de água em vapor esfria o ar, fazendo com que a vegetação florestal funcione como verdadeiros condicionadores de ar gigantes. Alguns modelos prevêem que sem a floresta as chuvas da região seriam reduzidas na ordem de 20 a 30% (Nobre et al., 1991) e a temperatura média sofreria aumentos de 3 a 5 oC (Lean e Warrilow, 1989; Nobre et al., 1991; Shukla et al., 1989). Levando-se em conta a média de desmatamento na Amazônia brasileira (aprox. 1,8 milhões de hectares por ano, INPE, 2001) é


4 possível que num futuro próximo tenhamos alterações significativas do clima regional (Nobre et al., 1991, Henderson-Sellers et al., 1993) A ameaça ao clima amazônico, contudo, tem um agravante. Ela não provém somente da perda de sua cobertura florestal via desmatamento. A exploração desordenada de madeira e o fogo florestal estão entre os vilões reduzindo a capacidade da floresta abastecer com água a atmosfera. Estima-se que entre 1 e 1,5 milhões de hectares de florestas são exploradas por ano na Amazônia (Nepstad et al., 1994, 2000). Durante a exploração, para cada árvore de valor comercial que é retirada, outras 20 ao redor são danificadas (Uhl & Vieira, 1989), resultando em aumento de mortalidade e, conseqüentemente, na redução da área foliar disponível para a evapotranspiração ocorra. Uma vez exploradas estas florestas ficam susceptíveis ao fogo (Nepstad et al., 1999). Esta relação entre desmatamento, exploração madeireira e fogo acaba por estabelecer um ciclo vicioso que pode levar a paisagem amazônica a tornar-se altamente inflamável (Nepstad et al., 2001). Este ciclo inicia-se com a derrubada da floresta e/ou a exploração madeireira que diminuem a quantidade total de água liberada para atmosfera pela vegetação, provocando reduções de precipitação. Com uma precipitação diminuída, há condições para propagação dos incêndios florestais, os quais provocam a morte de várias árvores. O aumento da mortalidade de árvores, por sua vez, resulta na diminuição adicional da área foliar disponível para evapotranspiração, contribuindo ainda mais para a redução de chuvas (Nepstad et al., 2001, Figura 1). Há também o efeito negativo da fumaça sobre a chuva, recentemente demonstrado (Rosenfeld, 1999). A fumaça produzida pelas queimadas em áreas já desmatadas (campos agrícolas e pastagens) e pelos incêndios florestais interfere na formação de gotas de chuva que não ganham tamanho suficiente para precipitarem por gravidade. Quando isto ocorre, a produção de chuva depende de mecanismos que acontecem em altitudes elevadas e que não são comuns quando o ar está limpo (Figura 1).


5 Tanto o desmatamento, a exploração madeireira como o fogo florestal são fatores que resultam de atividades humanas locais que produzem uma pré-condição para que uma alteração regional do clima se ponha em andamento. Contudo, os efeitos negativos destes fatores sobre o clima amazônico podem ser potencializados em conseqüência do aquecimento global, ameaçando ainda mais a biodiversidade da região. O fator chave para que isto aconteça é o El Niño, o fenômeno climático que ocorre a partir do aquecimento superficial das águas do Pacífico na altura da costa do Peru e que produz fortes estiagens em várias partes do mundo, incluindo na região amazônica. Estudos recentes sugerem que com o agravamento do efeito estufa, o El Niño tem se tornado mais freqüente e intenso (Trenberth & Hoar, 1997; Timmermann et al., 1999). O indicador direto deste fenômeno tem sido o aumento dos incêndios florestais e das queimadas na Amazônia, implicando em perdas importantes para a biodiversidade regional (Holdsworth & Uhl 1997, Nepstad et al., 1999; Cochrane & Schulze. 1999). Um exemplo do efeito do El Niño sobre a inflamabilidade da paisagem amazônica pode ser obtido analisando-se o ano 1997 e 1998. Durante este período foi registrado o El Niño mais intenso do século. A seca foi tão severa que, em dezembro de 1998, 30% das florestas amazônicas estavam sob risco de incêndio (Nepstad et al., 1999). O risco, neste caso, foi calculado avaliando-se a quantidade de água armazenada no solo até 10 metros em função da precipitação recebida pelas diferentes regiões da Amazônia (Nepstad et al., no prelo). Neste mesmo ano, 13 milhões de hectares de floresta em pé queimaram no estado de Roraima (Kirchhoff & Escada, 1998). Sem que os governos e a mídia se dessem conta, outros 25 milhões de hectares de florestas foram atingidos pelo fogo no sul do Pará e norte de Mato Grosso (Diaz et al., 2002). A maior parte das florestas atingidas pelo fogo em 1998 foi aquela explorada pela indústria madeireira em função da extração não planejada.


6 Embora de magnitude desconhecida, a redução da biodiversidade Amazônia sob um regime de mudança climática global pode ser maior e adicional a aquela promovida pelo desmatamento e a exploração madeireira. Com o aquecimento global agravando os eventos de El Niño a previsão climática para a Amazônia será de secas prolongadas resultando em potenciais perdas de biodiversidade em função de dois fatores principais: (1) aumento na incidência dos incêndios florestais e (2) alterações no funcionamento da floresta (ciclos biogeoquímicos). O primeiro fator depende não somente das condições de umidade da floresta, mas também da fragmentação da paisagem e da presença de fontes de ignição (Alencar et al., no prelo). Fontes de ignição não faltam. Na Amazônia, os incêndios florestais geralmente se iniciam acidentalmente, quando o fogo de queimadas na agricultura e pastagens foge ao controle. Cerca de 50% dos incêndios na região são de origem acidental (Nepstad et al., 1999). Uma paisagem composta por pequenos fragmentos de florestas primárias ou secundárias rodeados de grandes áreas abertas

(inflamáveis) pode propw[J(grande[(incêndiocato)]TJ257765 0 TD0.0003 Tc100888 Twgem)1( [(perdaelevaerdas


7 insuficiente para causar danos aos animais em geral, é capaz de eliminar praticamente todas as mudas, brotos, cipós e árvores jovens da floresta (Nepstad et al., 1999). Mesmo as árvores adultas sofrem danos consideráveis. Por possuírem troncos recobertos por casca de reduzida espessura, a maioria das árvores não suporta o calor e muitas morrem após alguns meses. O índice de mortalidade nestes casos pode chegar a 45 % (Holdsworth e Uhl, 1997, Cochrane & Schulze 1999, Cochrane et al., 1999). Se o fogo é recorrente, isto é, atinge uma floresta anteriormente queimada, a mortalidade pode aumentar consideravelmente ou mesmo chegar a índices próximos a 95%, como observado em outros estudos em áreas tropicais (Moutinho, não publicado; Woods, 1989). Parte da perda imposta pelo fogo à diversidade de espécies de plantas da Amazônia é resultado da queima de florestas secundárias que crescem sobre pastos ou campos agrícolas abandonados. Cerca de 20 milhões de hectares na Amazônia estão cobertos com florestas secundárias em diferentes idades de recuperação florestal (Walker e Homma, 1996; Serrão & Toledo, 1990). Estas florestas secundárias são importantes para a reposição de parte das espécies animais e vegetais de florestas primárias da região (Vieira et al., 1996; Moutinho, 1998; Nepstad et al., 1996a), mas, por condição, são muito vulneráveis ao fogo (Uhl & Kauffman, 1990; Cochrane & Schulze, 1999). Bastam alguns dias sem chuva para que estas se tornem inflamáveis (Nepstad et al., 2001). Anualmente, centenas de hectares pegam fogo, interrompendo o processo de recuperação florestal. Apesar de grande parte das espécies de árvores de floresta secundária rebrotarem após a passagem do fogo (Kauffman, 1991), esta se perde após incêndios seguidos que geralmente atingem este tipo de vegetação (Nepstad et al., 1999). Em relação à diversidade animal, os impactos negativos dos incêndios florestais são potencialmente grandes, mas raramente estudados. As populações de jabutis e outros animais que se movimentam lentamente, incluindo muitos da fauna que vive na serrapilheira, sofrem,


8 potencialmente, reduções pela ação do fogo como acontece em outros ecossistemas não tropicais (Friend, 1993). A morte de árvores frutíferas provocada pelo fogo, também pode levar à falta de alimentos para os mamíferos frugívoros produzindo reduções em suas populações. (M. Mattos, K. Carvalheiro, D. Nepstad, não publicados,). Contudo, estudos recentes indicam que a fauna de vertebrados, por exemplo, pode suportar consideravelmente a destruição que o fogo florestal promove (O. Carvalho Jr., não publicados). Embora o aumento da ocorrência dos incêndios florestais na Amazônia em função da mudança do clima local e global impõe perdas futuras à biodiversidade regional, outros prejuízos a fauna e flora, independentes da ocorrência de fogo, são esperadas. Sem um regime de chuva adequado, várias mudanças no funcionamento da floresta poderiam imprimir impactos negativos sobre a biodiversidade. Uma parte considerável (30%) da floresta amazônica tem alta tolerância à seca e permanece sempre verde e imune ao fogo, mesmo durante a estão de seca, devido à presença de raízes profundas que bombeiam água do solo profundo (ca. 20m) (Nepstad et al., 1994). Esta tolerância, contudo, tem limite. Se a estiagem for muito prolongada, o solo profundo também fica seco, impedindo que as raízes se abasteçam de água. Este estado hidrológico de total escassez de água no solo tem sido comum durante os anos de El Niño, especialmente nas áreas onde o lençol freático é profundo, e podem levar a alterações no comportamento da floresta. Um dos exemplos de tais alterações em função das secas prolongadas é o colapso da produção de flores e frutos das árvores, como a estudada por Viana & Nepstad (não publicado). Estes autores registraram que ao longo dos últimos 15 anos (1984-2000), a percentagem de árvores (35 espécies) produzindo flores e frutos em uma área de 400 ha, declinou em 60%. Em 1985, 35% das árvores produziam frutos. Em 1999 este número não passava de 15%. Os autores sugerem que tal fenômeno deva estar ligado aos eventos de El Niños intensos, especialmente a partir daquele ocorrido em 1991/92. Resultados similares a estes, têm sido encontrados em um estudo


9 experimental de exclusão de chuva o qual simula estiagens prolongadas (Nepstad et al., 2002; Moutinho et al., submetido) como aquelas que estão sendo esperadas para o futuro caso os eventos de El Niños sejam mais freqüentes (Trenberth & Hoar, 1997). Este estudo está sendo desenvolvido na Floresta Nacional do Tapajós (FLONA Tapajós, 2.897º S, 54.952ºW, Nepstad et al., 2002). Cerca de 6000 painéis plásticos (3 x 1 m) excluem a chuva de um hectare de floresta, reduzindo em 50 % a precipitação anual (ca. 2000 mm). Os resultados obtidos nesta parcela são comparados com aqueles da parcela controle ao lado, na qual a exclusão não foi realizada (parcela controle). Até o momento, os efeitos da exclusão de chuva na FLONA Tapajós confirmam, por exemplo, uma redução significativa na produção de flores de árvores (Nepstad et al., 2002) que poderia ocorrer com secas longas provocadas pelo El Niño, confirmando o que tem sido sugerido por estudos de longa duração em florestas tropicais (Viana & Nesptad, não publicado; Wright et al., 1999, Curran et al., 1999). Com uma quantidade menor de frutos é possível que ocorra drásticas mudanças na dinâmica de população das árvores, não somente pela menor quantidade de sementes, mas também pelos impactos negativos sobre as populações de animais frugívoros da floresta, os quais são responsáveis pela dispersão e germinação de sementes na floresta (90% das espécies de árvores amazônicas são zoocóricas; Gentry, 1982). A redução no crescimento das árvores também é outra conseqüência direta da falta de água e tem implicações importantes para o aquecimento global (Nepstad et al., 2002). A taxa de produção primária (ANPP) que pode ser estimada pela soma do incremento do caule e a produção de serrapilheira e pode sofrer, após dois anos seguidos de secas intensas, reduções de até 20 % (Nepstad et al., 2002). O maior impacto direto de um clima mais seco sobre a biodiversidade Amazônia fica por conta, no entanto, da redução da expectativa de vida de espécies de árvores já estabelecidas. No experimento de exclusão de chuva desenvolvido na FLONA Tapajós, a seca artificial vem


10 produzindo aumentos significativos na mortalidade de árvores. Após dois períodos de exclusão (2000-2001) a mortalidade de árvores (diâmetro entre 10-30 cm) na parcela coberta com os painéis subiu de 2 % para 5% enquanto que na parcela controle a taxa ficou por volta de 2% (Tohver et al., 2002). O risco de “savanização” Apesar das perdas diretas impostas sobre a biodiversidade amazônica por uma possível mudança do clima regional e global, o prejuízo maior poderá vir a longo prazo. A substituição de florestas perenifólias de dossel fechado por uma vegetação com características de savana (capoeiras e pastos abandonados), somada a exploração madeireira e a ocorrência de El Niño mais freqüentes e intensos, podem produzir uma paisagem onde o fogo é um elemento chave dirigindo a dinâmica dos ecossistemas florestais. Neste cenário, as florestas que sofrerem incêndios periódicos podem ficar esvaziadas de árvores, com o dossel mais aberto, permitindo que a luz solar alcance o chão. Esta condição tornaria a vegetação mais inflamável e susceptível a novos incêndios e propícia para a invasão de gramíneas, o que poderia aumentar bastante a quantidade de combustível fino próximo ao chão da floresta, impedindo o estabelecimento e o crescimento de mudas de árvores. A floresta perenifólia densa e totalmente sombreada internamente daria lugar a uma floresta empobrecida, povoada por algumas espécies de árvores resistentes ao fogo e com o chão coberto por gramíneas, plantas invasoras e arbustos herbáceos e lenhosos (Cochrane & Schultze, 1999; Nepstad et al., 1999). A “savanização” em larga escala na Amazônia é o mais inquietante efeito ecológico advindo da combinação do uso da terra e incêndios florestais na região e a mudança climática global. Sob um clima mais seco, a substituição de florestas ricas em espécies por uma vegetação debilitada em espécies, vazia de animais nativos, de reduzida biomassa (pastagens, principalmente), como vem acontecendo


11 atualmente e seria incapaz de manter o atual padrão de precipitação regional mantido através da evapotranspiração, resultando em uma vegetação mais próxima ao cerrado. A ligação entre a floresta amazônica e o clima regional e global é bastante estreita (Fearnside, 1995). Com o aquecimento do planeta as florestas da região deverão responder de diferentes formas, a maioria delas negativas (aumento de mortalidade, inflamabilidade, requerimento maior por água, etc; Fearnside 1995) como citado neste trabalho. Assim, se a dinâmica de derrubada e queima da floresta não for interrompida, a contribuição da região para o aquecimento global será cada vez maior. Uma vez que os incêndios florestais rasteiros matam quantidades substanciais de biomassa florestal, a qual é posteriormente decomposta, o fluxo de carbono para a atmosfera poderá ser bastante elevado. Estima-se que anualmente 200 milhões de toneladas de carbono são lançadas ao ar através do desmatamento (Fearnside, 1997; Houghton, 2000). Este valor poderia ser o dobro se computássemos o carbono liberado pelos incêndios florestais (Diaz et al., 2003). Com mais carbono na atmosfera, maior será a freqüência com que o El Niño (Trenberth & Hoar, 1997) ocorrerá e, portanto, mais severas serão as secas na Amazônia (Nepstad et al., 1999). Conservação da biodiversidade e Mudança Climática: uma nova abordagem Nunca a manutenção da biodiversidade planetária esteve tão ameaçada como agora. Sob um clima em constante mutação, as clássicas ameaças à biodiversidade (fragmentação e perda de habitat) e as estratégias para protegê-la (parques e reservas) precisam ser redimensionadas. Será preciso levar em conta o equilíbrio entre os ecossistemas e o clima regional (McGrath, 1997; Franklin, 1993), dar mais valor às áreas alteradas que, embora relativamente mais pobres em biodiversidade, apresentam importância ecossistêmica (p.e. florestas exploradas e secundárias) e também àquelas ocupadas por populações humanas e, promover estratégias de conservação com


12 base no manejo de paisagens e não apenas de populações isoladas em parques e reservas (Halpin, 1997; Margules & Pressey, 2000). Conservar a biodiversidade através do estabelecimento de reservas biológicas isoladas ou de identificação e preservação de “hotspots” de biodiversidade (Myers et al., 2000) já não surtirão o efeito esperado. Muito menos terão o mesmo valor as estratégias de conservação que se baseiam preservação de espécies ameaçadas de extinção ou daquelas que necessitam de grandes áreas para sobreviverem (grandes mamíferos, por exemplo). É preciso, no contexto da mudança climática, que as ações para a conservação da biodiversidade incorpore medidas que preserve a integridade funcional e ecológicas dos ecossistemas. No caso especifico da Amazônia, é necessário olhar também a preservação de sua fauna e flora sob a ótica da preservação dos seus processos ecossistêmicos (evapotranspiração, por exemplo) responsáveis pela manutenção do clima úmido da região. O que garantirá a conservação de grande parte da biodiversidade amazônica não será apenas o estabelecimento de parques e reservas intocáveis, mas sim a manutenção de uma cobertura florestal (não necessariamente intacta ou de alto valor biológico em toda a sua extensão) contínua. O manejo de paisagem através do estabelecimento de corredores ecológicos pode ter um valor relativo maior como estratégia de conservação. Conservar funções ecológicas dos ecossistemas exigirá, portanto, o reconhecimento do valor biológico dos chamados ecossistemas “alterados” (florestas exploradas, secundárias, queimadas, ou ocupadas por humanos, por exemplo). Estudos recentes na Amazônia brasileira indicam que a exploração madeireira, quando feita de forma adequada reduz drasticamente os efeitos negativos sobre alguns grupos animais (vertebrados e invertebrados de solo) (Kalif, et al., 2002; Pinto & Azevedo-Ramos, no prelo; Azevedo-Ramos, et al., no prelo). Por sua vez, as florestas secundárias da região podem também desempenhar funções hidrológicas do mesmo modo que florestas primárias (Jipp et al., 1998), absorver carbono da atmosfera (através do crescimento


13 vegetal, Davidson et al., no prelo) a uma taxa relativamente rápida (3-5 toneladas de biomassa/ano) e ainda preservar parte significativa da fauna e flora nativas (Gascon & Moutinho, 1998; Nepstad et al., 1996, Nepstad et al., 2001), incluindo primatas (Carvalho Jr., não publicado). Nem mesmo a presença de populações tradicionais (índios e extrativistas, por exemplo) em uma floresta (parques nacionais) diminui o seu valor para conservação. O extrativismo exercido dentro de reservas florestais na Amazônia, embora traga impactos diretos sobre fauna e flora (Nepstad et al., 1992), acaba por garantir a cobertura vegetal de modo a manter muitas das funções ecológicas originais da floresta (p.e. evapotranspiração e resistência ao fogo), ajudando a manter o clima úmido e evitando perdas futuras de biodiversidade regional. Numa escala local talvez a conservação da biodiversidade dentro de unidades de conservação ocupadas por comunidades humanas possa parecer sem sentido. Os custos oriundos da caça e da simples presença do homem podem ser altos para a fauna e flora local (Redford, 1992). No entanto, na escala da bacia amazônica, reconhecer o poder de conservação da presença humana em unidades de conservação pode ser a diferença entre grandes (regional) ou pequenas (local) perdas de biodiversidade (Schwartzman et al., 2000a, 2000b). É preciso, portanto, adicionar à abordagem assumida tradicionalmente quando se quer conservar a biodiversidade (florestas em boas condições, inabitadas e em áreas remotas; Terborgh, 1999; Redford & Mansour, 1996) os aspectos relativos à mudança do clima. Assumir o valor biológico de áreas “alteradas ou florestas sob atividades de produção” é, portanto, fundamental como estratégia de conservação. O maior desafio da biologia da conservação talvez seja encontrar estratégias que funcionem num planeta cada vez mais aquecido. Talvez uma das saída seja conservar ecossistemas íntegros (habitados ou não, secundários ou não) o suficiente para continuarem


14 funcionando, mantendo o clima local em equilíbrio e que, de quebra, seja capaz de proteger a biodiversidade.

Agradecimentos: O autor agradece à Dra. Cláudia Azevedo-Ramos e a dois revisores anônimos pelas sugestões ao manuscrito e à Fundação Ford e USAID-Brasil pelo apoio.


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23 Tabela 1. Impactos negativos da mudança climática global sobre a biodiversidade do planeta*. Fator Biológico Reprodução e crescimento

Migração Distribuição geográfica

Doenças Extinção e adaptação

Evidências de impacto Alteração do período de reprodução e tempo de crescimento de invertebrados de clima frio; antecipação ou retardamento no início de ciclos reprodutivos de sapos (Inglaterra), pássaros (Europa, América do Norte e Latina); perda de sincronismo entre o período reprodutivo de pássaros da espécies Parus major e abundância de presas; floração precoce em algumas plantas sazonais (Europa); colapso reprodutivo (redução na produção de flores e frutos de espécies de árvores Amazônicas)** Antecipação (América do Norte) ou retardamento (Europa) do início de períodos de migração de pássaros e insetos; alterações observadas também na África e Austrália. Ampliação da distribuição geográfica de espécies de insetos (p.e. borboletas, libélulas e gafanhotos), incluindo áreas de altitude elevada (Europa e América do Norte); o mesmo para pássaros (Costa Rica); redução da distribuição de recifes de coral e mangues. Aumentos de taxas de infecção de plantas hospedeiras; aumentos na população de vetores como malária ou dengue.

Extinção local ou definitiva para espécies com distribuição restrita (endêmicas) é esperada, embora não se tenha registro seguro de que tal fato tenha ocorrido em função das mudanças do clima. Por outro lado, recente estudo demonstra uma resposta adaptativa ao aquecimento global, isto é, fixada geneticamente, em uma espécie animal (Canadá)*** Fonte: IPCC 2002 (para uma lista completa consulte Burns 2001). ** Nepstad et al., 2002; *** Boutin et al (2003).


24

Figura 1. Relações entre diferentes usos da terra (exploração madeireira e desmatamento) na Amazônia brasileira, fogo florestal e clima (El Niño). As setas indicam a seqüência dos eventos e as elipses em cinza os pontos de perda direta da biodiversidade em ecossistemas florestais. Com o agravamento do aquecimento global estas perdas podem se intensificar no futuro devido a continuidade dos ciclos demonstrados na figura. A continuidade do fogo florestal pode levar a longo prazo a “savanização” da Amazônia. As únicas fontes de recuperação da biodiversidade ficam por conta da sucessão florestal após o desmatamento e a exploração da madeira.

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