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QUARTA-FEIRA, 25 DE MAIO DE 2011

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MÚSICA Em entrevista, Lady Gaga diz que cultura pop é sua religião

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Edon Ruiz/Folhapress

ilustrada

ARQUITETURA Projetista de Masdar, Norman Foster, encontra Niemeyer no Rio

PLANETA ARANTES Veja as bandas baianas do projeto

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ANÁLISE

Fotos Divulgação

Nós existimos e pleiteamos nosso quadrado nesse latifúndio PITTY

ESPECIAL PARA A FOLHA

Setembro

MESTRES Earth Wind and

Fire, Herbie Hancock SITE bandasetembro.com.br

Radiola

MESTRES Tropicália e Beatles SITE bandaradiola.com.br

O Círculo

MESTRES Beatles e Incubus SITE myspace.com/ocirculo

rock comdendê

Arantes (à frente, de preto) e membros das nove bandas

Projeto gravado no estúdio de Guilherme Arantes reúne parte da cena roqueira de Salvador, que, segundo o cantor, é ofuscada pelo axé

MARCUS PRETO

ENVIADO ESPECIAL A CAMAÇARI (BA)

Pirigulino Babilake

MESTRES Caetano Veloso e Novos Baianos SITE pirigulinobabilake. com.br

Hajoe

MESTRES Pearl Jam, Pink Floyd e Led Zeppelin SITE hajoe.com.br

No final dos anos 1970, já bebendo da fama de “hitmaker”, Guilherme Arantes lançou dois álbuns de nenhuma repercussão. “A Cara e a Coragem” (1978) e “Coração Paulista” (1980) eram discos de rock. E suas canções espelhavam um jovem artista em crise: com o próprio ofício, com a cena musical e com os rumos que tomava a sua geração. O público do cantor, que consagrara baladas como “Meu Mundo e Nada Mais” (1976), “Amanhã” (1977) e “Êxtase” (1979), não se identificou com esses temas. E desprezou os dois discos. Pois é justamente a reunião das 20 canções dos dois discos que, agora, compõem

Neologia

MESTRES Lenine,

Caetano Veloso e Alceu Valença SITE banda neologia.com.br

Maglore

MESTRES Beatles e Mutantes SITE maglore.com.br

“A Cara e o Coração”. Produzido por Pedro Arantes e Gabriel Martini, o álbum traz recriações desses não sucessos do compositor paulista feitas por nove bandas da nova cena roqueira baiana (veja ao lado e abaixo). O disco deve chegar às lojas em julho. As gravações aconteceram no estúdio Coaxo do Sapo, construído por Guilherme em Camaçari, na Bahia, onde vive há dez anos. “A cena roqueira de Salvador é altamente criativa e precisa explodir para o público”, diz o cantor. “Isso só não aconteceu ainda porque esses músicos foram eclipsados pela ‘indústria da alegria’ que a Bahia se tornou.” A intenção, segundo o compositor, é servir de veículo para que essas bandas possam tentar cruzar frontei-

Quarteto de Cinco

MESTRES Barão Vermelho e Novos Baianos SITE quarteto decinco.com.br

ras regionais e, quem sabe, atingir o público do Sudeste. “Fazer música autoral na Bahia é uma provação diária”, diz Roy, da banda O Círculo. “Desde o empresário até a sua mãe, todo o mundo quer te levar ao mau caminho. ‘Cante axé, meu filho, cante axé que é melhor’.” Não há exatamente uma unidade roqueira nas bandas que integram o disco. Algumas pendem para o soul, outras para o blues, outras para a psicodelia à brasileira, entre o tropicalismo de Caetano e Gilberto Gil e o pós-tropicalismo dos Novos Baianos. “E nós aqui somos só uma parte do que acontece na cena baiana fora do Carnaval”, diz o paulistano Enio, do projeto Enio e a Maloca, radicado em Salvador há 20 anos. Ele cita o Letieres Leite, da

Enio e a Maloca

Orkestra Rumpilezz, o Baiana System e outros artistas, não necessariamente ligados ao rock, como parte fundamental da nova fase da música da cidade. “Seria impossível alcançar toda a grande cena de musica independente de Salvador em único disco”, diz Pedro Arantes, filho de Guilherme e idealizador do projeto. “Esse trabalho tenta sintetizar o que está acontecendo agora na capital baiana e valorizar o que acaba ficando de fora dos grandes eventos até da própria da cidade.” É a eterna busca do jovem músico por seu lugar no espaço e no tempo. Talvez por isso o tema dos dois álbuns “malditos” de Guilherme Arantes soe tão atual. O jornalista MARCUS PRETO viajou a convite do estúdio Coaxo do Sapo

MESTRES Gilber-

to Gil e Stevie Wonder SITE enioea maloca.com.br

Desde que me entendo por banda da cena soteropolitana, uma incongruência se faz notar: como uma cidade com tantos grupos legais, com tantos discos de rock sendo feitos e com público não consolida esses fatos dentro e fora das suas fronteiras? Nessa equação, faltam dois elementos vitais: divulgação em meios de massa e casas de show de médio porte para as bandas que já não tocam só para os amigos mas ainda não enchem uma Concha Acústica. O resto, temos. Mesmo com essas incertezas rondando seu trabalho, o roqueiro baiano não deixa de fazê-lo. A internet ajuda na divulgação independente e livre de conchavos, mas ainda não é suficiente para sair do gueto. Faz-se necessário o apoio da mídia de massa, do rádio e da TV, que, na Bahia, ainda é quase totalmente dedicada aos ritmos populares e à cultura local tipo exportação. Muitas vezes ouvi o argumento de que “não existe público de rock na Bahia” e quase me deixei levar por ele. Até o dia em que a minha banda tocou no Festival de Verão de Salvador. Concluí que o público que estava ali, vibrante, não sabia que existíamos até finalmente aparecermos na TV aberta. Hoje há projetos incríveis realizados com o apoio do poder público, algo antes era impensável. Já é um passo. A cultura baiana, encantadora e de inegável valor, envolve o candomblé e seus ritmos, os blocos afro, a Roma Negra, a guitarra de Armandinho, Dodô e Osmar, Caymmi e sua brejeirice. Mas a industrialização do axé calcou outra Bahia no imaginário popular. “Roqueiro baiano” vira um epíteto digno de menção pela suposta excentricidade: uns o enunciam em tom heroico, outros, de descrença. Essas manifestações musicais podem coexistir. Se essa ideia ainda soa estranha por aqui, é porque o é por lá. Pleiteamos nosso quadrado nesse latifúndio. Não adianta nos escondermos debaixo do tapete: nós existimos. Roqueiro na Bahia não monta banda porque pensa em ficar rico e famoso. É um chamado interno ao qual simplesmente não se pode fugir. Se, no final, ficar rico e famoso, melhor ainda. PITTY é cantora e compositora e vive em São Paulo há oito anos

ROCK COM DENDÊ  

Projeto de Guilherme Arantes reúne cena roqueira de Salvador (por Marcus Preto) __ Folha de São Paulo Caderno Ilustrada 25 de Maio de 2011

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