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FERNANDO JOSÉ PEREIRA Porto, 1961. Vive e trabalha no Porto. Curso de Artes Plásticas (Pintura) na ESBA do Porto, 1987. Doutoramento em Belas Artes na Faculdade de Belas Artes de Pontevedra - Universidade de Vigo Espanha, 2002). Investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagem, na Universidade Nova de Lisboa. Bolseiro da FCG (Lisboa) na frequência da Licenciatura -1985/86 e 1986/87; em Investigação em Artes Plásticas -1988/1989; na frequência do programa de Doutoramento 1997/98; Como doutorando na escrita da tese - 1999/00/01. Membro fundador e co-director da VIROSE (www.virose.pt).

Colecção Fundação PLMJ Fundação Ilídio Pinho Universidade do Porto Bibliografia (selecção) / Bibliography (selection) 1994 "A pintura como actividade post mortem" 1995 "The cooling effect of wind and temperature" 1995 Textos reunidos na publicação "Práticas pós-atelier" de Fernando

Oporto, 1961. Lives and work in Oporto. Graduated in Fine Arts - Painting at the School of Fine Arts of Oporto, 1987. PhD in Fine Arts at the Vigo University, Spain, 2002. Investigator at CECL, Lisbon University. Schoolarships from Calouste Gulbenkian Foundation; As graduated student - 1985/87; As investigator in Fine Arts - 1988/89; As PhD student - 1997/2001. Founder (1997) and co-director of Virose (www.virose.pt).

1997

Exposições individuais | solo exhibitions “Inexterioridades”, Auditorio de Galicia, Santiago de Compostela “Saída de emergência”, Galeria Graça Brandão, Porto “Porque é que as utopias nunca são das razões mas da Razão?”, Projecto “in.transit”, Porto, “Lugar (im)possível, Galeria Marta Vidal, Porto “Fronteiras da impraticabilidade”, Galeria João Graça, Lisboa “Acesso interdito”, Museu de Serralves, Porto “A utopia do exilio”, Fundación Luis Seoane, A Coruña “Assédio”, Museu do Chiado, Lisboa “A pintura como actividade post-mortem”, CAPC, Coimbra “The cooling effect of wind and temperature”, Galeria da Universidade, Museu Nogueira da Silva, Braga

1999 2001

Exposições colectivas (selecção) | group exhibitions (selection) “Provisions for the future”, Sharjah Biennial 9, Sharjah “Deep North”, Transmediale, Berlin "Residenciales (habitar textos)", Galeria Imatra, Bilbao "London Festival of Europe - Visions of Portugal", London “Deslocações”, Braga “Sem rede” - Museu Nogueira da Silva, Braga “Por entre as linhas” - Museu das Comunicações, Lisboa “Antimonumentos” - Galeria António Henriques, Viseu “Ponto de Fuga/Vanishing Point” - Cidade do Engenho e das Artes, Fundão “Ponto de Fuga/Vanishing Point” - CC de Lagos “O poder da arte - Serralves na Assembleia da República”, Lisboa “Penthouse - uma ocupação temporária”, Porto “Fractura - colisão de territórios”, Fundição de Oeiras, Oeiras “Die Anthologie der Kunst”, Akademie der Kunste, Berlin “Proximidades e acessos: obras da colecção de Ivo Martins”, Culturgest, Porto “«Sem gerações», Momentos da vídeo arte portuguesa contemporânea”, Iguapop Gallery, Barcelona “Encuentro entre 2 colecciones - Fundação de Serralves, Fundación la Caixa. Arte Portugués y Español de los 90”, Centro Cultural Fonseca/Capilla del Colegio Mayor Fonseca, Salamanca “Bienal da Maia 03”, Maia “III Bienal Ibero-Americana de Arte Contemporáneo, Lima “Na Paisagem - Colecção da Fundação de Serralves”, itinerância pela Rede Nacional de Museus do IPM “Squatters - Ocupações”, Museu de Serralves/Porto 2001, Porto “90’s for sale”, Galeria Marta Vidal, Porto “312m2, trabalhos de uma colecção particular”, CAPC, Coimbra “More Works about Buildings and Food”, Fundição de Oeiras, Oeiras “Initiare - Colecção de Arte Contemporânea IAC/CCB - Aquisições 1997-1999“, CCB, Lisboa “Plano XXI - Portuguese Contemporary Art“, Glasgow "Young & Serious", Ernst Museum, Budapest "Fernando José Pereira e Oladélé Ajiboyé Bamgboyé", Culturgest, Lisboa "Arte Portuguesa da década de noventa na colecção da Fundação de Serralves", Museu dos Biscainhos, Braga "Index3", Galeria João Graça, Lisboa "Fisuras na Percepción" Bienal de Pontevedra, Pontevedra "Cyber98", CCB, Lisboa II Bienal de Famalicão - Em torno de Camilo, Famalicão Projecto "Além da água", Alentejo "Paisagem económica urbana", Galeria Graça Fonseca, Lisboa "Anatomias Contemporâneas", Oeiras "Zonas de interferência" Frankfurt "Greenhouse display", Lisboa "Ariana enforcou-se ou La grâce du tombeur", Museu Municipal de Viana do Castelo "Hors catalogue, un projet Gulbenkian a propos de sa collection", Amiens "Práticas pós-Atelier", Arte Jovem, Fórum da Maia, Portugal "Imagens para os anos 90", Fundação de Serralves, Porto "I Encontro de Arte Jovem", Chaves "Experiments - Risco", Europália 91, Gand

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On-line Projectos na rede | web projects “desanosognosia” (com Tiago Assis) “Turbulência 2.0” “Porque é que as utopias nunca são das razões mas da Razão” 2003 “Saída de emergência” 2001 “Anthology of Art” “Linhas estanques” 1998 “Controle=catástrofe” 2009 2005

Colecções Públicas | Public collections Fundação de Serralves Instituto de Arte Contemporânea Museu da Cidade, Lisboa

THE RETURN OF THE REAL

José Pereira, publicada pelo CAPC

1996 "A propos de la vérité, du consensus et de la communication"

2002

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2008

editado na publicação Mégalopole nº 13 do Institut art et ville, Maison du Rhône "Da passividade como forma patológica do presente" in 3TR, publicação produzida no quadro do projecto "Além da Água", Alentejo "Assédio" in catálogo da iniciativa Inter@ctividades uma iniciativa da ICTM'97, International Conference on Technology and Mediation, Lisboa "A utopia do exílio", in catálogo da exposição "Zonas de interferência", Frankfurt "New media artist...?", in catálogo da exposição "Cyber 98", CCB, Lisboa "Revolution is great...", in revista número 2, Lisboa "Todo o sólido se dissolve no ar (parte II), in Miguel Leal, Projecto Bunker (1996-99), CAPC "Bienal da Maia, uma reflexão à posteriori“, in INTERACT (Publicação electrónica do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagem) nº 3 http://www.interact.com.pt/interact3/ “Ligações “livres”- da construção fantasiosa à realidade domesticada”, in “Crítica das ligações na era da técnica”, Ed. Maria Teresa Cruz e José Bragança de Miranda, Editorial Tropismos, Lisboa (Junho) “Da impureza como factor de expansibilidade criativa? O caso particular da web.art”, in Revista de Comunicação e Linguagens,org. Maria Lucília Marcos e José Bragança de Miranda Número extra "Lugar (im)possível“, in Revista Olímpico nº 0, Porto (Fevereiro) "Refracções - Fernando José Pereira”, in Revista de Comunicação e Linguagens, Org José Gil e Maria Teresa Cruz, nº 31 “A apoloxía da crise”, in inexterioridades, Auditorio de Galicia, Santiago de Compostela “Sem título (a possibilidade da impossibilidade), in Metamorfoses do Real, Encontros da Imagem, Braga "Arte e utopia: A condição im-possível do exílio", E-topia: Revista Electrónica de Estudos sobre a Utopia, nº 2 “Diagnóstico: fractura exposta”, in Fractura - colisão de territórios, jornal da exposição, Oeiras “Arte e espacialidade internalizada: Estratégias endógenas de sobrevivência”; Revista de Comunicação e Linguagens, nºs 34 e 35, Relógio d’Água, Lisboa “O peso da arte. Sobre a presença do político na produção artística contemporânea”, in Cultura Light, FL da Universidade do Porto “The B-sides, Combinações algorítmicas e unicidade formal - a apologia da dissensão”, in Revista de Comunicação e Linguagens, nº 37, Relógio d’Água, Lisboa (Julho) “Fragmentos dissonantes - sobre práticas artísticas em tempos de dispersão”, in MONO nº 1, Editora FBAUP, Porto “Pensar o tempo enquanto há tempo”, in Catálogo do projecto Deslocações - open space Project, Braga “Tempo Suspenso”, in Catálogo da exposição Por entre as linhas, Museu das Comunicações, Lisboa “Arq. Nunes de Almeida, Imagens com-tempo-râneas”, in Revista Arq./a nº 59/60, Julho Agosto de 2008, Lisboa. “Novas da Desolação – Notas sobre arte e real”, in Revista Concinnitas, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, nº12, Julho 2008. Comunicações / Conferences

1997 "Media art ou mediacracia - sobre a eficácia" texto para a mesa

1999

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redonda "Media art ou Mediacracia" integrada no curso "Arte, Cinema e Mutação Tecnológica", Universidade de Verão, Convento da Arrábida “O autor como entidade viral (?)”, apresentação de texto para a conferência: “Contaminações - artes, cinemas, multimédias”, FCGCAM/ACARTE “A curiosidade afinal não matou o gato, parte I”, apresentação de texto para conferência: SAT1 - Seminário de Arte e Tecnologia - net art e comunidades virtuais”, MEIAC “Ligações “livres” - da construção fantasiosa à realidade domesticada”, in Conferências Links/Ligações, Museu de Serralves, Porto "Arte e experimentação”, in Ciclo de Seminários, Enciclopédia e Hipertexto, FC da Universidade de Lisboa “Arte interactivo: de la inmediatez necesaria a la pasividad compartida”, in Congreso Internacional “Cultura Digital e Ciudadanía, Universidade Autónoma de Madrid, Madrid “The B-sides, Combinações algorítmicas e unicidade formal - a apologia da dissensão”, in EAC - Encontro de Arte e Comunicação, Debate sobre Art and Media, CCB, Lisboa "Novas da desolação - notas sobre arte, real e realidade", in Arte: identidade e globalización, Consello da Cultura Gallega, Santiago de Compostela “«desanestesia» - Chamar a atenção para a atenção à chamada”, in Conferência Internacional sobre Imagem e Pensamento, CCB, Lisboa. “Congresso Internacional Karl Marx – painel: Arte e vanguardas”, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa. “Remote control – da intencionalidade comunicativa global à (in)comuncabilidade da arte”, in Congresso conciencia histórica y arte contemporâneo, Universidade de Salamanca, Salamanca.

CICLO DE EXPOSIÇÕES DE ARTE CONTEMPORÂNEA

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THE RETURN OF THE REAL 8 CURADORIA: David Santos PRODUÇÃO: Lurdes Aleixo Rogério Silva DESIGN GRÁFICO: Rita Leite ADAPTAÇÃO GRÁFICA: Júlio Miguel Rodrigues PRODUÇÃO GRÁFICA: Soartes - artes gráficas lda. RUA ALVES REDOL, 45, 2600-099 VILA FRANCA DE XIRA TEL. 263 285 626 E-MAIL neorealismo@cm-vfxira.pt SITE www.museudoneorealismo.pt

TERÇA A SEXTA - 10H00 ÀS 19H00 SÁBADOS - 15H00 ÀS 22H00 DOMINGOS - 11H00 ÀS 18H00 ENCERRA ÀS SEGUNDAS E FERIADOS

VISITAS GUIADAS. MARCAÇÕES 263 285 626

Câmara Municipal de Vila Franca de Xira Apoio:

18 JULHO A 08 NOVEMBRO 2009 MUSEU DO NEO-REALISMO VILA FRANCA DE XIRA


DA SÉRIE “INEXTERIOR 2.0 [WORK IN PROGRESS]” Desenho a Grafite 100 x 140cm Em painel de 300 x 700cm “INTO THE BLACK (WHITE FOGGY DAYS)” vídeo, 07’:39’’ dimensões variáveis 2008

THE RETURN OF THE REAL

“IM-POSSÍVEL (J.C.)” Conjunto de 142 imagens Xerox Medida total: 261 x 360 cm Medida de cada imagem: 21 x 29 cm

“INEXTERIOR 2.0 [WORK IN PROGRESS]” Conjunto de 15 desenhos a grafite Medida total: 300 x 700 cm Medida de cada imagem: 100 x 140 cm “UNTITLED (SPEECHLESS)” vídeo, 05’:16’’ dimensões variáveis 2008 “LET’S DO IT AGAIN” fotografia, 81 x 100 cm

O sentido de uma arte comprometida, ou a possibilidade da impossibilidade David Santos

O compromisso da arte com a acção política, todos o sabem, não é recente, embora registe nas últimas décadas um desenvolvimento muito particular, quase marginal, associado sobretudo à reflexão sobre os limites e possibilidades desse desígnio ancestral. Fernando José Pereira (n. 1961) faz parte de uma geração de artistas revelada ao longo dos anos 90 e marcada por uma atitude crítica de cariz neo-conceptual que questionava as possibilidades de uma leitura politizada da produção artística. O desejo de uma acção transformadora tem na arte de Fernando José Pereira um parceiro essencial que não alinha em ilusões mas procura uma consciente participação entre o ensimesmado mundo da arte e o seu exterior, funcionando como espécie de laboratório persistente onde confluem teoria, análise política e expressão artística. Os novos trabalhos agora apresentados no Museu do Neo-Realismo reforçam esta estratégia de reflexão sobre as margens da utopia e a sua relação com a distopia, daí o leve apagamento da imagem na série “Im-possível (J.C.)”, pegando no conceito de Jacques Derrida, a afirmação a negro da série de desenhos a grafite “Inexterior 2.0 [work in progress]”, a subtil ligação destes com os vídeos “Into the Black (White foggy days)” e “Untitled (Speechless)”, ou ainda com a fotografia de inspiração soixante-huitarde “Let’s do it again”. A visualidade resulta aqui de uma forte conceptualização de valores e a sua interpretação à escala das artes visuais. Com este fulgor e concentração, o trabalho deste artista tem vindo a ser apresentado no país e no estrangeiro em algumas das mostras mais importantes dos últimos anos. Alguns dos conceitos fundamentais que atravessam os trabalhos agora revelados remetem para a noção de antagonismo e conflito social ou da possibilidade do impossível. Com a série “Im-possível (J. C.)”, o artista mostra-nos o suave apagamento da palavra, ou conceito derridiano, “im-possível”, não apenas como valor e significado concreto, mas também como imagem, interferência gráfica que procuramos, a todo o custo, continuar a ver. A visualidade da palavra, por um lado, e a contravisualidade conflitual a que o seu significado faz referência, por outro, reforçam a ideia da fragilidade artística no seu envolvimento com o destino político da humanidade. O paradoxo, o risco, e o antagonismo que aí se observam, são metáforas da própria ideia de arte política e ainda da política como exercício da democracia. Isto é, o artista procura reflectir aí, com essas imagens deliberadamente pobres em termos

técnicos e materiais, sobre as “actuais possibilidades da arte como veículo de antagonismo”1. A este propósito, Fernando José Pereira lembra-nos que, para autores como Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, “a possibilidade política de sobrevivência da democracia é unicamente assegurada pela ideia de antagonismo social. Este encontra-se no âmago das incompletudes e descentramentos vários que existem no sujeito e no social e que procuram, desta forma, a sua necessidade de construção identitária. A indecibilidade de tais pressupostos confirma o conflito como base do pensamento democrático sendo, então, lícito aplicar aqui a noção derridiana de possibilidade da impossibilidade. Esta impossibilidade é o garante do impedimento do fechamento a que o consenso naturalmente conduz e que se apresenta, também, como apologia da dissensão, ou seja, do antagonismo […] A estetização do político com que hoje nos defrontamos permite a globalização imagética em seu torno, isto é, um fluxo contínuo de produção de imagens que se colocam, a si próprias, na condição de fornecedoras de conteúdos light para uma sociedade que de tal depende. A arte parece, deste modo, ser compulsivamente envolvida neste ambiente tendo, apesar de tudo e devido à sua pequenez territorial, um papel ainda diminuto no âmbito da espectacularidade cultural. […] Esta reduzida estrutura dimensional do território artístico pode apresentar-se como uma hipótese realmente potenciadora do seu descomprometimento com a estética do consenso existente na contemporaneidade. Ao assumir uma condição reflexiva como enunciado constitutivo está, desde logo, a distanciar-se de uma lógica perceptiva, codificada em termos de velocidade e consumo imediato, tão necessária à totalização do sensível. O que é possível e passível de ser efectivado devido à pouca importância do território em questão. O paradoxo fundacional funciona, também aqui, como uma derridiana possibilidade da impossibilidade. A questão central do antagonismo expande-se, assim, à produção artística que exorta ao risco. Aquelas práticas que, por se posicionarem em posturas de dissensão, invocam a condição experimental de desanestesia. O desvendar das fracturas sem qualquer condicionante de atenuação – não nos referimos, obviamente à arte abjecta – impõe uma relação frontal com a contemporaneidade e, aí, a arte encontra a sua aptidão negativa e crítica. Uma prática que incorpora a competência específica do fazer artístico e que, a partir dele, desenvolve formas de intervenção, ao mesmo tempo, intrínsecas e extrínsecas. Um fazer, que por ambicionar

uma aproximação ao real [de Lacan], agrega no seu saber uma lógica desejante que a afasta da normalização e standartização pragmática da expansividade liberal”2. Sobre o vislumbre de Derrida em torno da derradeira positividade da palavra impossível, Fernando José Pereira sublinha: “o im-possível é a condição de possibilidade do acontecimento e da escrita. Da arte, também, acrescentamos nós. A única possibilidade de algo é a sua experiência de impossibilidade. O desafio é enorme mas as expectativas também se encontram em elevado nível: a concentração de todas as linguagens em uma única e numérica condicionaram, quase para lá dos limites, a produção exterior a ela. Contudo, é esta sensação de impossibilidade que se oferece como verdadeiro desafio à abertura de possibilidades de trabalho”3. O desafio que reside nesta ideia de impossibilidade abre as portas a uma arte mais consciente do seu papel residual, mas, por isso mesmo, activa e sobrevivente ao grande espectáculo da estetização do mundo. Fernando José Pereira não só reflecte sobre a dimensão teórica desta possibilidade como assume na sua produção artística esse conflito estabelecido entre utopia e distopia, enfrentando os limites de uma arte que subtilmente propõe um pensamento político sobre o real. O artista refere que essa experiência de arte política assegura, ao mesmo tempo, como afirma Jacques Ranciére, “the production of a double effect: the readability of a political signification and a sensible or perceptual shock caused, conversely, by the uncanny, by that which resists signification”4. Ora, é esta recuperação do “uncanny”, “unheimlich”, do “estranho” ou “sinistro”, que permite a Fernando José Pereira uma certa resistência ao apagamento do significado, apesar da dificuldade que hoje representa uma qualquer verdadeira experiência “unheimlich”. Sabemos que a sociedade do espectáculo tudo tem feito para nos dar uma visão aparentemente plural, mas afinal limitada, do que poderá ser o “estranho”, apesar do significado original prometer uma certa impossibilidade de circunscrição absoluta. É um daqueles conceitos que resistem à sua domesticação, a qualquer apropriação convencional ou definitiva pelo espectáculo contemporâneo. Ainda assim, o artista convoca-o no contexto da série “Inexterior 2.0 [work in progress]”, fazendo-o alinhar com outras setas, bandeiras, torres de vigia e placas de identificação, geometrias evocativas de uma espacialidade cósmica, em perspectivas ousadas e misteriosas, em plongeé e contre-plongeé, ângulos inesperados mas afinal indissociáveis, como se andássemos todos à procura do seu sentido, da sua

possibilidade actuante. Estamos perdidos e procuramos o caminho. Esta série de desenhos a grafite, que deliberadamente utiliza uma das técnicas artísticas mais ancestrais e decisivas, confirma o cruzamento entre o fazer da arte e a permanência de um conjunto de referências de ordem conceptual que mergulham o observador numa atmosfera visual simultaneamente “estranha”, “irónica” e “familiar”, como num sonho verosímil mas, ao mesmo tempo, inquietante e esquivo. Nos imensos desenhos que constituem desta vez o “work in progress” “Inexterior 2.0”, Fernando José Pereira assume uma densidade visual que é reforçada pelo contrastante jogo entre preto e branco associado à prática do desenho a grafite. O carácter denso e plural das imagens dessa série não deixa contudo de atender ao leve exercício do preenchimento de zonas de cinzento, espécie de único colorido possível para estes desenhos. Bandeiras rasgadas, mensagens incompletas e ambíguas no seu significado, coarctadas que estão na sua completa dimensão visual, parecem fazer parte de um certo jogo de códigos abandonados, desperdiçados pela racionalidade ocidental. São notas sobre aquilo que se tornou desconhecido, perdido, ou já inalcançável, a partir das regras dominantes do espectáculo global, da vida económica, mas também das artes e da política. A profusa desorientação do ser que daí resultou é aqui identificada como tímido desejo de um resgate sobre o sentido e a magia profunda desse “unheimlich” que, ao longo da afirmação tentacular do capitalismo, nos esquecemos de experimentar e viver. O que Fernando José Pereira parece recuperar é assim a auto-consciência de uma arte que não abdica do seu compromisso com o real (social, político e artístico), ainda que se alicerce na complexidade estrutural de um lugar reflexivo, onde a imagem mantém um estatuto essencial de comunicação, embora associado a outras referências, minoritárias diríamos, já sem qualquer pretensão icónica ou de comunhão universalista. Esta é a manifestação da derradeira possibilidade de que falava Derrida. A possibilidade do “im-possível” é a expressão de uma dissidência que é sempre uma oportunidade de resistência real, concreta, pois vive ainda à margem do sistema universal que hoje representa em muitos aspectos a palavra global, e pode, nessa medida, manter actuantes ou criar valores e significados mais ou menos distantes do grande espectáculo que nos domina. A arte contemporânea defendida e praticada pelo artista liga-se assim ao argumento de Jacques Ranciére de que, hoje, o

compromisso criativo sobrevive a partir da sua condição “in-between” entre a arte e a política, ou como nas palavras do teórico francês, “commitment is not a category of art. This does not mean that art its apolitical. It means that aesthetics has its own politics, or its own meta-politics”5. Com efeito, o território da arte tem a sua própria politização, basta lembrar uma linhagem de acção e conflito desenvolvida desde as práticas pós-minimalistas dos anos 60 e 70 entre a liberdade artística (nomeadamente política e social) e os paradigmas legitimadores, sempre resistentes à mudança, da instituição arte. É nesse contexto que devem ser interpretados os vídeos apresentados pelo artista no auditório do Museu do Neo-Realismo durante a exposição. “Into the Black (White Foggy Days)”, parte de uma peça de Samuel Beckett sobre a relação entre um torturador e um torturado. Perscrutando o sentido de uma perseguição sobre o sujeito interrogado, o filme toma como ponto de partida a densidade visual associada aos dias de nevoeiro e a sonoridade de um interrogatório que, em termos psicológicos, cerca o preso, conduzindo-o à queda, à escuridão. Não por acaso, a perspectiva visual do interrogatório, utilizando uma vez mais o picado ou plongeé, coincide com a das habituais e cada vez mais omnipresentes câmaras de vigilância que povoam o nosso espaço público. Ao som de um repetido “help”, que, em fundo, enquadra o desenvolvimento deste destino anunciado, o preso confessa-se só, perdido e confuso. O tom persecutório da narrativa apresenta, no entanto, uma dupla visualidade, alternando entre a visão inerte do torturador e a desorientação, sublinhada pela desfocagem e o desequilíbrio visual e sonoro, do torturado. Paira, deste modo, sobre todo o filme, uma espécie de estranha ambiguidade sobre o posicionamento moral ou o sofrimento das personagens, num eficaz jogo de cruzamento e identificação, balançando assim entre a superioridade ameaçadora e rigorosa do torturador e o desespero crescente do torturado. É essa fusão que nos impressiona e faz perder o sentido da tradicional identificação do espectador com uma das personagens. Em “Untitled (Speechless)”, Fernando José Pereira procura conciliar o esplendor da imagem, filmando num local extraordinário que remete para a luz ou a aparência geométrica e arquitectónica da pintura renascentista, fascinada desde sempre com a perspectiva e o seu ponto de fuga central. Este é um trabalho que resgata a ideia de um inconformismo sem solução. Um plano apenas e a performance de um actor que acentua em poucos gestos, sem discurso ou verbo, uma outra espécie de inquietação existencial. Perante uma longa mesa ladeada de inúmeras

cadeiras, uma única personagem senta-se nos vários lugares disponíveis sem nunca alcançar qualquer estabilidade ou decisão final. A performance progride numa inquietação crescente de insatisfação e desencontro entre o ser, o espaço e a imagem, anulando assim as suas eventuais possibilidades de comunicação icónica. A performance inviabiliza toda e qualquer estabilidade imagética, acentuando antes a desorientação do ser perante o que afinal se sugere enquanto imagem inicial, estática. O tempo invade o espaço e estilhaça a serenidade anunciada da imagem primeira. Uma vez mais, é a metáfora do conflito e do antagonismo da imagem, do tempo e do espaço de acção do sujeito que Fernando José Pereira desenvolve nestes trabalhos em vídeo. Por fim, uma referência ainda para a subtileza soixante-huitarde de “Let’s do it again”. Perante esse título e a fotografia de um monte de pedras da calçada que esperam o seu destino, o autor parece colocar-nos apenas uma questão: serão estas pedras usadas para pavimentar mais um espaço público, ou serão antes as primeiras armas de uma revolução maior que começa, invariavelmente, na rua? O sentido e os significados da imagem dependem sempre, afinal, do desejo de cada um de nós. Aqui reside o compromisso ou essa derridiana possibilidade do impossível. Uma arte que, sem utopias ou micro-utopias, busca no observador não apenas o seu pensamento, mas também a sua vontade e acção.

Cf. Fernando José Pereira, “Novas da desolação. Notas sobre arte e real”, in Concinnitas - Revista do Instituto de Artes da Universidade do Rio de Janeiro, nº12, Julho de 2008. 2 Idem. 3 Idem. 4 Jacques Ranciére, The politics of aesthetics, Continuum, London, 2004. 5 Idem. 1

Exposição “Return of The Real 8” - Fernando José Pereira  

Até 8 de Novembro Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira Entrada gratuita http://www2.cm-vfxira.pt/PageGen.aspx?WMCM_PaginaId=31843&...

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