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Relembrar António Ramos de Almeida, no âmbito do centenário do seu nascimento, é o propósito principal desta exposição, que pretende também possibilitar uma interpretação da obra e sinalizar um percurso.

Precocemente falecido, os sinais de uma apaixonada existência no mundo permanecem. António Pedro Pita

organização:

p a t ro c í n i o :

apoios:

A VIDA E A ARTE DE ANTÓNIO RAMOS DE ALMEIDA

Sob o título A vida e a arte de António Ramos de Almeida, a exposição detém-se nos modos pelos quais este português de Olinda, com apaixonado vínculo brasileiro, se tornou figura central no conhecimento, entre nós, sobretudo da ficção dita regionalista; documenta a sua participação ativa (poemas, artigos doutrinários e um primeiro balanço crítico na conferência A arte e a vida, 1941), em Coimbra, na viragem cultural neorrealista desde os primeiros anos 30 e mostra como essa inspiração inicial se transforma num olhar e numa atitude, que serão o critério da impressionante atividade cívica e cultural, em que as demarcações necessárias (e as respetivas intransigências) se entrelaçam com uma larga visão que torna a cultura espaço de encontro de subjetividades contraditórias mas não incompatíveis.


A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida

Museu do Neo-Realismo

Design da exposição

Coordenador

(DIMRP/SDPG)

David Santos Conservação e investigação

David Santos Paula Monteiro Helena Seita Inventariação e catalogação

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Paula Monteiro Helena Seita Odete Belo Lurdes Pina Serviço Educativo

Virgínia Figueiredo Lídia Agostinho Fernando Marques Eugénia Ventura Comunicação e Relações Públicas

Fátima Faria Roque Comunicação e edição

David Santos Fátima Faria Roque Fernando Marques Lurdes Aleixo Registo

Lurdes Aleixo Fernando Marques Centro de Documentação/Biblioteca

Odete Belo Lurdes Pina Secretariado

Gabriela Candeias Vanda Arsénio Rececionistas-vigilantes

Vanda Arsénio Tânia Cravo Rute Oliveira [ Exposição ] Organização

Câmara Municipal de Vila Franca de Xira Museu do Neo-Realismo Curadoria

António Pedro Pita Assistência de curadoria

Fátima Faria Roque Seleção e org. documental

António Pedro Pita David Santos Fátima Faria Roque Odete Belo Conceção e museografia

David Santos António Pedro Pita

Dulce Munhoz Coordenação de produção

David Santos Fátima Faria Roque Produção

David Santos Fátima Faria Roque Odete Belo Lurdes Aleixo Fernando Marques Secretariado

Gabriela Candeias Vanda Arsénio Conservação

Paula Monteiro Helena Seita Montagem

David Santos António Pedro Pita Fátima Faria Roque Odete Belo Lurdes Aleixo Lurdes Pina Fernando Marques Vanda Arsénio DIMRP/SDPG

Dulce Munhoz Miguel Oliveira DOVI/DOG:

Ricardo Pereira/Pintura Rui Melo/Pintura Jorge Silva/Pintura Armindo Rosa/Pintura Gilberto Martins/Carpintaria José Travassos/Carpintaria José Leonel/Carpintaria João Dias/Carpintaria Oficina de Eletricidade Planeamento e logística

David Santos Fátima Faria Roque Lurdes Aleixo Comunicação

Fátima Faria Roque Fernando Marques DIMRP/SCPRP

Filomena Serrazina Prazeres Tavares Serviço Educativo

Virgínia Figueiredo Lídia Agostinho Fernando Marques Eugénia Ventura Maria João Oliveira Seguros

Allianz Seguros

[ Catálogo ] Edição

Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Museu do Neo-Realismo e Fundação Calouste Gulbenkian, julho de 2013 Organização e coordenação editorial

David Santos Fátima Faria Roque Textos

Maria da Luz Rosinha David Santos António Pedro Pita Maria do Rosário Ramada Pinho Barbosa Valéria Paiva Produção

Fátima Faria Roque Susana Vale (DIMRP/SDPG) Apoio à produção

Odete Belo Lurdes Pina Investigação e org. documental

António Pedro Pita David Santos Fátima Faria Roque Odete Belo Catalogação

Odete Belo Design gráfico

Museu do Neo-Realismo Rua Alves Redol, 45 2600-099 Vila Franca de Xira neorealismo@cm-vfxira.pt www.museudoneorealismo.pt © Museu do Neo-Realismo © Dos textos e das fotografias, os autores

Susana Vale (DIMRP/SDPG) Fotografia e digitalização

Organização:

Odete Belo Sara Pereira Revisão

Fátima Faria Roque Odete Belo Lurdes Aleixo Produção gráfica:

Patrocínio:

Pré-impressão, Impressão e Acabamento Santos & Oliveira, Lda. ISBN

978-989-98502-0-0

Apoios:

Depósito Legal

XXXXXX/XX Tiragem

600 exemplares

CAPA: Reprodução de fotografia de António

Ramos de Almeida. – In: Cadernos de cultura: suplemento do jornal de Vila do Conde. – Nº 297 (18 Jul. 1985) CAT 171


A Vida e a Arte de Ant贸nio Ramos de Almeida

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Maria da Luz Rosinha Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira

António Ramos de Almeida: convicção e coerência de um humanista

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atural de Olinda, cidade situada no Estado de Pernambuco, no Brasil1, António Ramos de Almeida regressa a Portugal muito jovem, fixando raízes em Vila do Conde e, mais tarde, no Porto. Advogado de profissão, o seu percurso foi vincado, quer pelas amizades que fomentou ao longo da vida em diferentes círculos da intelectualidade portuguesa – nomeadamente com os neorrealistas –, quer pela intensa reflexão acerca do contexto social, económico e político da sua época (fosse o de Portugal ou o do Brasil), quer ainda pela sua participação cívica ativa, de que é exemplo a sua colaboração na campanha presidencial do General Humberto Delgado. Ensaísta profícuo, poeta e crítico literário, o autor que agora ocupa a Sala de Exposições de Literatura Contemporânea do Museu do Neo-Realismo, manteve, ao longo da sua vida, um profundo interesse pela arte, mas também pela sociologia, política e literatura, com contributos regulares em jornais, revistas e periódicos de assinalável significado na história da arte e, em particular, da literatura em Portugal, como: Seara Nova, Presença, O Diabo, Sol Nascente, Manifesto, ou Vértice, títulos que acolheram, aliás, muitos dos artigos e ensaios de maior relevância no panorama do movimento neorrealista português. Humanista convicto e defensor de ideais democráticos, António Ramos de Almeida deixou-nos um significativo legado, parte do qual temos hoje a honra de dar a conhecer, nesta Exposição Biobibliográfica, resultado do trabalho de investigação levado a cabo pelo Prof. Doutor António Pedro Pita, da Universidade de Coimbra, a quem desde já formulo os sinceros agradecimentos do nosso Município. Às filhas de António Ramos de Almeida, Maria Antónia e Ana Maria – e nelas, aos familiares de Ramos de Almeida que participaram neste projeto –, quero deixar um imenso apreço pela colaboração com o Museu do Neo-Realismo, nomeadamente, no que respeita à cedência de documentos do espólio de António Ramos de Almeida, peças essenciais à compreensão do contexto de uma época que, apesar de nos ser tão próxima, tem ainda muito a revelar, nomeadamente no que se refere ao movimento neorrealista, objeto principal da existência deste Museu. Uma última palavra de agradecimento à Fundação Calouste Gulbenkian, que mais uma vez concedeu ao Museu do Neo-Realismo um importante apoio à realização deste catálogo.

1 Olinda foi declarada Património Histórico e Cultural da Humanidade em 1982.

CAT 26

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A Vida e a Arte de Ant贸nio Ramos de Almeida

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David Santos COORDENADOR DO MUSEU DO NEO-REALISMO

No centenário do nascimento de António Ramos de Almeida

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Museu do Neo-Realismo tem vindo a promover, em especial na sua sala dedicada às exposições de literatura, uma particular atenção aos autores que fizeram ou contribuíram de algum modo para a amplitude do movimento neorrealista português. Desde outubro de 2007, escritores como Arquimedes da Silva Santos, Urbano Tavares Rodrigues, Mário Braga ou António Borges Coelho, entre outros, foram objeto de estudo, a partir da consulta direta dos seus espólios e enquadrados pelas mais recentes linhas de investigação literária e historiográfica. É nossa convicção ser esse o melhor e mais edificante caminho para uma verdadeira homenagem. Desta vez, a escolha recaiu no poeta e ensaísta portuense António Ramos de Almeida. O autor de Sinfonia da Guerra (1939) e de A Arte e a Vida (1941), faria cem anos em 2012 e é ainda nesse contexto evocativo que o Museu do Neo-Realismo apresenta agora uma exposição biobibliográfica sobre alguém que teve um papel decisivo no âmbito da poesia neorrelista e na divulgação e aprofundamento no nosso país da literatura brasileira de inspiração social. Nascido em Olinda, no Brasil, Ramos de Almeida manteve sempre uma ligação estreita com a cultura do “país irmão” e soube, como poucos, fazer a ponte entre os dois lados do Atlântico. Este aspeto particular é, aliás, um dos pontos centrais revelados pela investigação liderada e conduzida pelo Professor Doutor António Pedro Pita a propósito da presente exposição. A sua rigorosa curadoria, bem como o seu ensaio e ainda os textos agora publicados de Valéria Paiva e Maria do Rosário Barbosa vêm provar que António Ramos de Almeida é um autor de relevo no contexto do neorrealismo, e não só. A todos manifesto o meu profundo agradecimento pelo trabalho realizado. O meu maior e mais sentido agradecimento vai, naturalmente, para a família de António Ramos de Almeida, em particular para as suas filhas Maria Antónia e Ana Maria, que com toda a disponibilidade nos receberam, manifestando uma rara sensibilidade sobre o valor cultural do espólio que têm à sua guarda e que agora pretendem doar a este Museu. O seu gesto e a confiança que depositaram desde logo na nossa instituição jamais serão esquecidos. Por fim, gostaria de destacar a determinação e o envolvimento de Fátima Faria Roque em todo o processo de assistência de curadoria da exposição e na coordenação editorial do catálogo que a acompanha. Ainda à Odete Belo e à equipa do Centro de Documentação do Museu do Neo-Realismo quero manifestar o meu agradecimento pelo profissionalismo manifestado em todos os momentos solicitados. Às designers Susana Vale e Dulce Munhoz, o reconhecimento pelo excelente trabalho em torno da imagem do catálogo e da exposição. A todos os técnicos do Município de Vila Franca de Xira que contribuíram para o êxito desta exposição, agradeço a dinâmica e o empenho colocados nas diversas fases da sua realização.

CAT 143

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A Vida e a Arte de Ant贸nio Ramos de Almeida

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A Vida e a Arte de Ant贸nio Ramos de Almeida Ant贸nio Pedro Pita


A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida | António Pedro Pita

A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida António pedro pita1

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ntónio Ramos de Almeida não chegou a publicar o livro anunciado em 1947, com o título A marcha para o Neo-Realismo, por ele próprio caraterizado como uma espécie de prólogo à história do movimento: simultaneamente roteiro (do caminho “que nós fomos obrigados a trilhar”) e explicitação (de que “o neo-realismo foi muito antes da verdadeira consciência que nós tivemos dele, uma aspiração profunda e uma necessidade imperiosa daqueles que começaram”2). No mesmo depoimento, faz uma revelação: “tenho três discursos pronunciados em 1934 e 1935 – em Coimbra – que provam essa primeira etape, ainda vaga e nebulosa, ainda anterior, até, à polémica Arte Pura – Arte Social”3. O depoimento não se alarga em pormenores. Esta última observação é, contudo, suficiente para fortalecer a hipótese de todos aqueles que insistem na necessidade de situar ainda na primeira metade dos anos trinta as condições de génese histórico-cultural do que ganhará, a partir de 1938, o nome de “neorrealismo”. Infelizmente, esses discursos ainda não foram encontrados. No entanto, o artigo estampado em Manifesto, nº 2 (Fevereiro. 1936) já é esclarecedor. A revista Manifesto, recordemo-lo, é um dos lugares de dissolução da rápida (e porventura nunca completamente estabelecida) hegemonia literária presencista. Miguel Torga e Albano Nogueira inscrevem a consciência literária em linhas de força cuja nitidez de demarcação do universo presencista assenta numa discreta (mas real) permeabilidade às preocupações dos movimentos de artistas e intelectuais que marcaram sobretudo a Europa. Manifesto não é, como presença também não fora, uma revista situada nos limites da imprensa estudantil. Corresponde a uma posição intelectual (e não exclusiva ou predominantemente literária ou artística), sustentada na colaboração diversificada de nomes como Paulo Quintela, Bento de Jesus Caraça, Fernando Lopes-Graça ou Sílvio Lima4, sem esquecer a transcrição de um discurso de André Malraux sobre “A obra de arte”, pronunciado no Congresso Internacional dos Escritores para a Defesa da Cultura, realizado em 1935. O tema de “depoimento” de António Ramos de Almeida – “Novos e velhos”5 – traz à cena argumentativa um tópico que se tornará cada vez mais comum na retórica emergente. “Novo” significa consciente do “nosso momento histórico”, o momento 1 Professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Coordenador científico do CEIS20 – Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX. 2 Vértice, vol. IV (1947), p. 470-1. 3 É possível que uma obra de “crítica e polémica” intitulada Falando ao Povo sobre a Arte, reunião de “conferências e discursos”, anunciada como “A publicar” em A arte e a vida, previsse reeditar estas conferências. Mas nunca foi publicada. 4 “A revista nasceu de um grupo que já tem maioridade intelectual: Dr. Paulo Quintela, Carlos Sinde [Alberto Martins de Carvalho], Lopes Graça, António Madeira [Branquinho da Fonseca], João Farinha, etc.”, terá oportunidade de escrever António Ramos de Almeida, num outro texto. O sublinhado é meu. 5 António Ramos de Almeida, “Um depoimento – Novos e velhos” in Manifesto, nº 2, fevereiro. 1936.

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A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida

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de uma transformação civilizacional em processo de doloroso adiamento: “A Grande Guerra deveria ter posto fim a uma civilização, e não pôs; em nome dos mesmos valores que a desencadearam reuniram-se os representantes dos povos que fizerem a paz, a paz armada em que temos vivido. A velha civilização aí está!... Agravaram-se apenas os seus males, as suas mazelas e os seus vícios e nós os homens de hoje é que sofremos; por isso é sobre nós que pesa a missão de realizar aquilo que os outros não realizaram”. A linha de demarcação é, pois, muito nítida: “velhos são aqueles que ainda vivem do outro lado da grande guerra e os novos são os outros. A questão dos velhos e dos novos não é pois uma questão de idade, é uma questão de cultura e de sensibilidade”. Esta conclusão vai alimentar a robustez da argumentação polémica, tanto mais importante quanto o critério de legitimação das novas ideias será menos de ordem geracional do que de ordem ideológico-doutrinária. Entre os que são “conscientemente novos” e os que são “conscientemente velhos”, sublinha António Ramos de Almeida, “não pode haver solução de continuidade possível, porque nós não seremos apenas pacíficos sucessores, nem iremos sacrificar as nossas energias ao serviço de ideias e de valores que cheiram a podridão e a bafio”. O requinte polémico chega ao ponto de voltar, sem citá-los, contra o programático individualismo de matriz regiana, a ressonância de alguns famosos versos do “Cântico Negro” que poeticamente o configurara: “Não, meus senhores, nós não poderemos seguir jamais os vossos caminhos porque temos os nossos”. Um ano depois, é no jornal Humanidade que António Ramos de Almeida traça um “Panorama Literário da mocidade de Coimbra e a necessidade do revigoramento mental das novas gerações”6, ilustrado com um desenho de Fernando Namora. Nele encontramos a notícia da iminente publicação de Cadernos da Juventude, a experiência editorial que é o concentrado primitivo da autoconsciência desse grupo ainda inominado mas já ativo: “atualmente um núcleo de rapazes pretende começar uma nova campanha, abrir outra época na mocidade coimbrã. O que carateriza os rapazes de hoje é uma adesão profunda ao seu mundo, uma comunhão com as suas misérias e as suas virtudes, uma fuga dos subjetivismos doentios e sobretudo uma renúncia às esquisitices formais que foram o conteúdo de certa corrente da literatura contemporânea”. Não será excessivo sublinhar a referência à pretensão de “abrir uma outra época”, ou “uma nova era”, como escreve noutro passo. Revisitará esse ano-chave de 1937, vinte anos mais tarde, nestes termos: “só em 1937, na verdade [...] foi que um grupo de jovens – profundamente interessados por uma literatura mais humanizada e por uma cultura consequente – se lançou abertamente não já somente numa simples querela de princípios com a «presença» mas na realização de novas obras que fossem buscar as suas raízes na vida do Povo e nas inquietações ideológicas, éticas, económicas e históricas que a Humanidade dramaticamente atravessava”7. 6 António Ramos de Almeida, “Panorama Literário da mocidade de Coimbra e a necessidade do revigoramento mental das novas gerações” in Humanidade, nº 39, 4. Dezembro. 1937. 7 Idem, “Rodapé quinzenal de crítica literária – O Homem Disfarçado de Fernando Namora” in Jornal de Notícias / Suplemento Literário, nº 221, 5.janeiro.1958.


A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida | António Pedro Pita

Entretanto, António Ramos de Almeida participara ativamente na afirmação estético-cultural do “neorrealismo”. Em vários artigos publicados nas revistas de referência como O Diabo ou Sol Nascente, de que são exemplo as “Notas para o Neo-realismo”, dispersas tal como a maior parte da sua produção de índole crítico-jornalística, e sobretudo na conferência de 1941, intitulada A arte e a vida, António Ramos de Almeida propõe um neo-realismo, que deveremos hoje pôr em relação com o neorrealismo de Mário Dionísio, o neo-realismo de Óscar Lopes ou o neorrealismo de Mário Sacramento8 – que são o mesmo neorrealismo e outros neorrealismos. Ainda não foi possível levantar a totalidade dessa produção9. Muito menos proceder a uma avaliação ponderada do que, nela, traduz quer o enunciado dogmático em que, como tendência polarizada por uma aspiração hegemónica, o neorrealismo se pensou a si próprio quer as profundas tensões congénitas que não menos o caraterizam e das quais a chamada “polémica interna” será a oportunidade explosiva. Mas o que talvez caraterize o movimento de pensamento de António Ramos de Almeida, é uma deriva do (neo) realismo como categoria estética para um (neo) realismo como critério crítico. A arte e a vida, célebre conferência pronunciada em 1941 e logo publicada (a Drª Rosário Barbosa, neste mesmo volume, traz ao conhecimento público elementos inéditos relativos a algumas circunstâncias dessa edição), procede a uma espécie de balanço do que significaram a génese e as primeiras produções do neorrealismo português – numa leitura que aspira ser, ao mesmo tempo, a enunciação das grandes coordenadas de uma nova categoria estética. São duas as teses fundamentais: primeiro, toda a arte é artifício; segundo, toda a arte tem como finalidade imaginária a realização da vida. A poética de António Ramos de Almeida é assim, ao mesmo tempo, analítica e afirmativa. Desdobra-se em três aspetos centrais: o primeiro, respeita à justificação da tese da deformação da arte; o segundo, prende-se com a historicidade das expressões artísticas; o último, trata de problemas relativos à chamada arte moderna. A deformação da obra de arte tem, digamos, um fundamento ontológico: significa que “a realidade é inapreensível na sua plena totalidade, impossível de cópia ou pastiche”10, que é impossível captá-la “em todos os seus cambiantes, em toda a sua complexidade, na sua permanente mutação”11. Ao artista está reservado o papel de mediador, é por ele que “a realidade passa para a obra de arte”12. 8 Cf. António Pedro Pita, “A árvore e o espelho. Elementos para a fundamentação da heterogeneidade neo-realista” in Conflito e unidade no neo-realismo português, Campo das Letras, Porto, 2002, p. 225-241. 9 Mas as colaborações em Sol Nascente e em Vértice foram já levantadas, respetivamente, por Luís Crespo de Andrade, Sol Nascente. Da cultura republicana e anarquista ao neo-realismo, Campo das Letras, Porto, 2007, p. 134 e Carlos Santarém Andrade, Vértice – Índice de autores 1942-1986, Coimbra, 1987, p. 15. 10 António Ramos de Almeida, A arte e a vida, Livraria Editora Latina, col. Cadernos Azuis, Porto, 1941, p. 16. 11 Idem, ibidem, p. 17. 12 Idem, ibidem, p. 19.

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CAT 22

CAT 22 Panorama literário da mocidade de Coimbra e a necessidade do revigoramento mental das novas gerações / António Ramos de Almeida. - V. F. Xira: MNR, 2013. - Reprod. ampl.: Sépia Reprodução do artigo. - In: Humanidade, Nº 39 (4 Dez. 1937). - Contém desenho evocativo de Fernando Namora Fotocópia cedida pelo Dr. António Pedro Pita CAT 161 A arte e a vida: para esclarecimento e compreensão da literatura moderna portuguesa e da estéril polémica arte pura e arte social / António Ramos de Almeida. Porto : Livraria Joaquim Maria Costa, 1941. - 40, [3] p. ; 19 cm. - (Cadernos Azuis ; 2) MNR ALM/ENS/2525 CAT 12 Novos e velhos/ António Ramos de Almeida In: Manifesto. - Nº 2 (Fev. 1936) p.12 Revista mensal. - Foram editados só os nºs: 1, 2, 3 CAT 161

col. João Paulo L. Campos

CAT 12


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A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida

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É impossível uma relação imediata com o mundo. É necessário construir imagens, expressões desse mundo. Mas nem todas as expressões são artísticas. Só pode falar-se de expressão artística quando os meios específicos de uma arte (a cor na pintura; o som na música) transcendem a imediatidade da sua natureza e da sua utilização: “o pintor será aquele que pode pintar mais do que as cores, embora se sirva de cores para pintar esse mais”13. Visando uma tal finalidade, a arte, pelos seus modos específicos, deve realizar a vida. Por isso, a importância atribuída ao cinema: “no cinema ouve-se, vê-se, quer dizer, a realidade é apanhada flagrantemente no seu todo e sobretudo no seu movimento, isto é, o cinema é mais do que a expressão da realidade, é aquela expressão – ou tende a ser – que esteticamente melhor realiza a vida, embora todas as outras espécies de expressão estética pretendam também realizá-la”14. O cinema exemplifica a contradição que toda a arte é: um artifício que aspira apagar-se em nome da própria realização imediata da vida, um determinado procedimento que opera com recursos formais que se deverão apagar para que seja possível a mais larga comunicação. A arte apela15: por isso é que, para António Ramos de Almeida, pode falar de um problema da arte moderna. No horizonte da comunicabilidade integral, que é o seu, a chamada arte moderna consuma a rutura com o público pelo exacerbamento de processos formais, que criam uma realidade mais do que a exprimem. Escreve: “nas artes plásticas o divórcio entre o artista e a realidade ainda é mais flagrante: na pintura esse divórcio vê-se. Cada escola de pintura moderna julga ter descoberto a realidade, uma realidade que toda a gente julga ser real. Quer dizer: a realidade num quadro nada tem a ver com a realidade na vida, com a realidade real, permitam-me o tautologismo. Eis porque os olhos habituados a ver a realidade da vida ficaram escandalizados diante da pintura moderna”16. Neste ponto, a importância do artista mostra-se. Como mediação concretamente enraizada numa determinada situação histórica, o artista (“vínculo humano que une a realidade viva à realidade estética, […] através do qual a realidade passa para a obra de arte”17) transporta para a obra de arte – tenha ou não consciência disso – a situação histórica de que tem experiência. A experiência do artista, posto que toda a experiência é experiência histórica, funda a historicidade da experiência estética. Se, nas considerações relativas ao conceito de deformação, António Ramos de Almeida poderia ter em mente um ensaio famoso de João Gaspar Simões18, aliás também incorporado no pensamento neorrealista por Mário Dionísio19, agora defronta 13 Idem, ibidem, p. 15 (sublinhado meu). 14 Idem, ibidem, p. 18. 15 Cf. Idem, ibidem, p. 25. 16 Idem, ibidem, p. 39. 17 Idem, ibidem, p. 19 (sublinhado meu). 18 João Gaspar Simões, “Deformação, génese de toda a arte” in presença, nº 45, junho. 1935, p. 7-11. Cf. a análise de António Ramos de Almeida, “A propósito dos «Novos Temas» de João Gaspar Simões in O Diabo, nº 225, 14.janeiro.1939; nº 226, 21.janeiro.1939; nº 229, 11.fevereiro.1939. 19 O artista deve “deformar, deformar sempre até onde esta palavra (liberta do sentido etimológico) possa significar dar nova forma, escolher a forma capaz, a única, de dar a toda a gente claramente aquilo que queremos revelar” (M. Dionísio, “Ficha 5” in Seara Nova, nº 765, 11.abril.1942, p. 132).


A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida | António Pedro Pita

a tese exemplar do presencismo enunciada por José Régio logo no primeiro número da famosa revista20: a de que a transposição estética da mais profunda experiência individual implicava a subjetividade. Para António Ramos de Almeida, não. Na exata medida em que a historicidade da experiência é irredutível e em que, por conseguinte, não há experiência que não seja histórica, toda a arte fica presa ao momento em que nasceu, situada no interior dos grandes conflitos sociais e mentais, e votada a uma posteridade tanto mais duradoura quanto mais penetrantemente elaborar a situação conflitual de que nasce. Creio que está aqui um dos traços definidores da poética neorrealista segundo Ramos de Almeida: a vinculação à situação em que nasce, o papel mobilizador essencial21 e uma noção documental da posteridade das obras de arte: “As grandes iniquidades, as grandes injustiças sociais específicas de cada época histórica, os dramas passionais, onde a consciência do grupo dominante chega para esmagar até os impulsos mais naturais e elevados do homem, os preconceitos próprios e dominantes das sociedades fechadas pelo predomínio cego de uma classe, surgem em todas as obras primas da arte, quer o artista seja Cervantes e escreva o Dom Quixote; Shakespeare e escreva o Romeu e Julieta”22. Poderíamos perguntar, com o Marx da Contribuição para a Crítica da Economia Política23, se os motivos de emoção estética que sobrevivem nessas e noutras obras, e que ainda nos fazem lê-las, resultam do facto de documentarem tais conflitualidades; ou se não é a circunstância de Cervantes ou Shakespeare ou Tolstoi ou Balzac escreverem mais do que as palavras com as palavras que usam. António Ramos de Almeida, contudo, prende esse excesso (esse mais) à própria época24 por meio da noção de cultura, um autêntico pressuposto da sua reflexão. O mais da expressão artística é o contributo da arte (da beleza, da imaginação) para a construção da cultura própria de cada época, de par com as descobertas científicas, os inventos técnicos, etc.: “a cultura representa [...] a interdependência de todas as descobertas, certezas e aventuras do conhecimento humano que, partindo da realidade, agem sobre a realidade, aprofundando e alargando o âmbito de uma conquista cada vez mais larga, mais ampla e mais profunda sobre o mundo externo e sobre ele próprio”25.

20 José Régio, “Literatura viva” in presença, nº 1, 10.março.1927. 21 Leia-se este outro passo da obra que estamos a seguir: “a Arte fala aos sentidos, é dirigida à compreensão das multidões das massas – qualquer artista pretende ser compreendido por todos – enquanto que as doutrinas filosóficas dirigem-se à razão e, embora tendam para a universalização, tal universalização só pode realizar-se pelo convencimento individual de cada um” (p. 25). 22 Idem, ibidem, p. 25. 23 “A dificuldade não está em compreender que a arte grega e a epopeia estão ligadas a certa forma de desenvolvimento social. A dificuldade reside no facto de nos proporcionarem ainda um prazer estético e de terem ainda para nós, em certos aspectos, o valor de normas e de modelos inacessíveis” (Karl Marx, Contribuição para a Crítica da Economia Política, Editorial Estampa, Lisboa, 2ª ed., 1975, p. 240). 24 Cf.: “é a essa densidade material e humana, a esse poder de penetração no fundo da sua época e ao poder simultâneo de técnica formal reveladora que os idealistas acoimam metafisicamente de eternidade” (António Ramos de Almeida, “Notas para o neo-realismo” in O Diabo, nº 315, 5. maio.1940). 25 Idem, A arte e a vida, p. 10.

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A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida

A arte pertence, pois, ao dispositivo de integração da cultura. Subverte na medida exata em que constrói, todo o ímpeto subversivo está inscrito no sentido da sua finalidade, no conceito da sua integração numa visão global do mundo.

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Assim, pode afirmar-se que a arte é um discurso ideológico insubstituível e que a polémica arte pura / arte social é, simplesmente, uma querela: “toda a arte é simultaneamente pura e social. Pura, na medida em que é expressão estética sincera, espontânea e livre de uma consciência humana [...] Social, não só por ser o homem um ser social – mas na medida em que nos revela a relação desse homem com outros homens e, sobretudo, na medida em que o artista, como ser social que é, exprime os dramas sociais, políticos e morais da sociedade de que faz parte, colocando-se na posição do grupo a que pertence”26. É no quadro desta compreensão alargada da inscrição social do processo artístico que vai decorrer a intensa atividade de António Ramos de Almeida. Na avaliação retroativa que dela podemos fazer agora, é possível reconhecer as consequências de uma certa “dispersão”27. Não estou certo de que seja a palavra adequada. Sobreveio a António Ramos de Almeida, inadiável, aquela mesma urgência que consumiu um Mário Sacramento: o imperativo (a um tempo cultural, político e artístico) de intervir em várias áreas particularmente sensíveis para o projeto de vida que tornaram seu. No caso de António Ramos de Almeida, pode dizer-se que esse projeto de vida tem três desdobramentos fundamentais: uma intuição poética do mundo; a inserção da transformação materialista da consciência intelectual portuguesa na nossa própria história cultural e política; a valorização da mediação cultural e da intervenção regular no espaço público. Além do sempre inacabado processo de aproximação luso-brasileira, de que António Ramos de Almeida é um dos grandes pioneiros e sobre o qual a Doutora Valéria Paiva escreve neste volume. O poeta António Ramos de Almeida apresentou-se publicamente, em 1938, com um pequeno livro de poemas intitulado Sinal de Alarme. Prestar atenção a obras como esta – mas há outras: Sedução de José Marmelo e Silva, publicada em Coimbra pela Livraria Portugália de Augusto dos Santos Abranches em 193728; Ilusão da Morte de Afonso Ribeiro, novelas publicadas em 1938 – é uma condição imprescindível para recontextualizar a génese do neorrealismo. No caso de António Ramos de Almeida, quer esse Sinal de Alarme, quer Sinfonia da Guerra, de 1939 (com prefácio e posfácio de Rodrigo Soares e de Joaquim Namorado, respetivamente), quer mesmo o longo poema de amor intitulado Sêde, editado em 26 Idem, ibidem, p. 58-59. 27 Uma nota não-assinada destaca, em Vértice (vol. XXI (1961), p. 210), o contributo de António Ramos de Almeida para a afirmação do neorrealismo e para a formação de uma verdadeira comunidade luso-brasileira. Mas observa que a obra legada “ressente-se da dispersão e de uma certa falta de amadurecimento”. 28 No Jornal de Notícias / Suplemento Literário, nº1, 22. fevereiro. 1953, num dos “Perfis indiscretos”, consagrado a Afonso Duarte, António Ramos de Almeida evoca os tempos em que “surgimos na liça, o Marmelo e Silva, com «Sedução» e eu com «Sinal de Alarme», em 1937, e pouco depois, Fernando Namora e João José Cochofel, respetivamente com «Relevos» e «Instantes»”.


A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida | António Pedro Pita

1944, aos quais devemos acrescentar Vulcão (1956), todos mergulham, mais do que na apreensão da guerra, no sentimento de que este é um mundo que acaba: “podes crer, meu amor, / É este o mundo que vai acabar”, como se lê no último fragmento de Sêde, intitulado “Profecia”. Ora, como dizer em arte a perceção da iminência histórica (que não significa cronológica) de uma transformação civilizacional, sempre pensada não se reduzindo a uma estrita dimensão política – essa é talvez a questão mais geral do neorrealismo. Não foi outro senão Joaquim Namorado que chamou a atenção para o seguinte: a “formulação ideológica” destes problemas “torna-se extremamente difícil, em virtude, primeiramente, de não existir no campo artístico um estudo aprofundado, metódico e específico destes problemas, tratados quase sempre em aspetos particulares ou à margem do desenvolvimento de outros. Os textos sobre arte e literatura dos filósofos materialistas são na maior parte dos casos fragmentos de trabalho incidindo sobre outros assuntos”. Não é tanto, pois, desconhecimento ou conhecimento precário. É de uma efetiva insuficiência teórica que deve falar-se. Mais: esta insuficiência de teoria prende-se com uma insuficiência da tradição – sobretudo, no campo literário, da tradição realista. Ainda nas palavras de Joaquim Namorado, “aos jovens escritores dos anos 30 punha-se o imperativo da criação de técnicas suscetíveis de exprimir o seu modo de entender o mundo” inspirando-se “nas tradições da nossa literatura popular [...] nas conquistas de certo romance moderno, em Michael Gold, em Istrati, em Steinbeck, Hemingway e nas experiências do romance brasileiro”; punha-se o problema de conquistar “um estilo apropriado às suas conceções do mundo e da vida; seria pedagógico comparar os modos como Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, Namora, Cardoso Pires, Afonso Ribeiro e Abelaira atacaram e resolveram (ou não) o mesmo problema. Daí sairia pelo menos destruída a afirmação da uniformidade e realismo dos escritores neorrealistas”. É, pois, já a um neorrealismo ainda não nomeado que pertencem as referidas obras de José Marmelo e Silva, Afonso Ribeiro e António Ramos de Almeida. Que se trata, neste caso, de uma determinada intuição poética – é indubitável. A obra poética de António Ramos de Almeida não responde à letra de Maiakovski quanto à definição de “mandato social”: identificar a existência na sociedade de problemas cuja solução só pode imaginar-se através de uma obra poética. É descritiva, mantém-se no plano da denúncia e da mobilização. Mas um tal desencontro com, por exemplo, a radicalidade de Maiakovski é constituinte do neorrealismo. Mas as razões em que assenta esta (chamemos-lhe) limitação da obra poética aclaram os motivos do empenho de António Ramos de Almeida na intervenção regular no espaço público. A palavra poética é contagiosa, a palavra justa gera comunidade, é necessário alargar mais e mais o círculo da eficácia sentimental. Os “fundos” no Jornal de Notícias, crónicas escritas em cima da hora e sobre a atualidade, são vistas como conversas. Não são reflexões teóricas: mas um fluir do e no quotidiano (português ou não) capaz de pôr a claro algumas questões problemáticas.

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A fundação do “Suplemento Literário” do «Jornal de Notícias» especializa essa intervenção. O cronista não desaparece, a atenção ao quotidiano mantém-se, mas António Ramos de Almeida abre uma outra frente: alargar a possibilidade de encontro do público com a literatura. O diagnóstico é instigante: “nunca a Literatura em Portugal tomou a projeção popular de hoje em dia. As homenagens prestadas o ano passado aos Poetas Teixeira de Pascoaes e João de Barros, o alvoroço que causou a recente visita de Jaime Cortesão, a Mensagem que os leitores e admiradores de Ferreira de Castro lhe vão enviar pela passagem do 25º aniversário da publicação dos «Emigrantes», provam o apreço, mais, a gratidão e a estima cordiais dos portugueses pelos valores mais representativos da sua Literatura [...]”29. O número crescente de suplementos literários em diários de Lisboa e do Porto – a inexistência de estudos impede o alargamento da geografia – é um aspeto dessa projeção popular porque “não há processo mais eficaz, mais relevante, mais consequente de levar a Literatura, no complexo de todos os seus problemas e valores, às grandes massas leitoras”. Essa ainda inexistente história dos suplementos literários é um obstáculo a que a iniciativa de António Ramos de Almeida ganhe escala e contexto. Mas há alguns traços gerais que são, mesmo assim, permitidos: o “Suplemento” consagrou minuciosa atenção ao que podemos considerar a vida cultural nortenha ou portuense mas não no registo neutro da informação, antes concebendo-se como acelerador da atenção. Não será excessivo tomar de empréstimo a Antonio Gramsci a noção de “organizador coletivo” e imaginá-la como tema, imperativo ou legenda da instituição de um “campo literário” consistente e duradouro. Além disso, o “Suplemento Literário” do «JN» torna-se um ponto de encontro de consagrados e estreantes, além de contar quinzenalmente com o Rodapé de crítica literária e de alguns saborosíssimos Perfis indiscretos do próprio António Ramos de Almeida. Nestas páginas fluentes, normalmente breves, amiúde retrospetivas ou memoriais, António Ramos de Almeida está na posse de uma maturidade compreensiva, sempre mais interessada na ótica cultural da integração do que na iniciativa vanguardista da rutura. No mesmo sentido embora menos conhecida e a requerer uma aturada pesquisa autónoma é a iniciativa da Sociedade Editora Norte. A sua constituição em 1942 obriga a situá-la na constelação editorial que o campo neorrealista está a definir desde o início da década: Novo Cancioneiro (1941) e Novos Prosadores (1943) mas também os Cadernos Azuis e, de certo modo, a Biblioteca Cosmos de Bento de Jesus Caraça (1941).

29 António Ramos de Almeida, “A vez da literatura” in Jornal de Notícias / Suplemento Literário, nº 1, 22. fevereiro.1953.


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CAT 44 Sedução: novela / José Marmelo e Silva; capa Luis Filipe de Abreu. – Edição definitiva. – Lisboa: Estúdios Cor, 1960. – 180 p.; 20 cm. – (Latitude; 42). Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

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Entre as obras editadas pela SEN, contam-se Meridianos de arte e literatura: uma antologia de escritores modernos, organizada por Carlos Barroso em 1950 e, neste mesmo ano, o volume de dispersos de Soeiro Pereira Gomes, Refúgio Perdido; em 1951, publica Engrenagem de Soeiro Pereira Gomes. A integração, esse traço decisivo da sua conceção de cultura, subjaz igualmente, a meu ver, ao interesse de António Ramos de Almeida pelo devir do republicanismo português. 20

Entendemos esta expressão em sentido estrito30. Ora, um dos pontos mais interessantes do que podemos chamar a transformação da consciência intelectual portuguesa em curso desde a primeira metade dos anos 30, é, num único e por vezes rápido processo (que, por vezes, a Guerra de Espanha acelerou brutalmente) a identificação dos limites do pensamento republicano (em resposta aos quais o Centro Republicano Académico de Coimbra lança o programa que deveria consistir em “republicanizar a República”), o reconhecimento da justeza do marxismo como discurso de emancipação em linha com todos os outros discursos da tradição iluminista, a vinculação política à esquerda do republicanismo clássico, colocando sob suspeita o socialismo da II Internacional. É na estrita consideração da situação portuguesa no quadro internacional que um grupo de jovens com interesses intelectuais começa a definir, cada um por si, o seu caminho. E, mas só depois, em estádios variados de amadurecimento coletivo. A matriz republicana perdurará no ideário de António Ramos de Almeida como um nunca acabado interesse intelectual de que são prova uma Antologia do Pensamento Republicano que planeou e dirigiria (a concretizar-se), e o trabalho, longamente amadurecido, sobre Bernardino Machado, que concretizado em antologia de textos precedido de estudo interpretativo, deveria inaugurar a referida Antologia. Mas perdura, para além disso, como pressuposto político necessário, embora suscetível de aprofundamento no plano social. A conquista definitiva de Bernardino Machado foi, para António Ramos de Almeida, a instauração política, científica e, por isso, ideológica, de uma antropologização geral. Ora, é neste quadro que Ramos de Almeida vai instalar o imperativo de uma historicização integral das práticas humanas. O trânsito de uma a outra não é imediato nem pacífico. Mas é fundamental: se há nele um elemento de justeza, e é este elemento de justeza que o torna um requisito necessário, nem por isso o cientismo republicano deixa de ser, como ideologia teórica, insuficiente e incompatível com a historicização das práticas humanas.

30 Em sentido lato, seria importante considerar demoradamente, entre outras páginas, os ensaios que consagrou a João de Barros e a Raúl Brandão.


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Mas não deixa de ser expressivo que o legado de António Ramos de Almeida, aquela obra que fica como derradeiro envio ou última palavra seja o seu confronto, a sua apreensão crítica mas sempre compreensiva, com o pensamento de Bernardino Machado. Mais: que as últimas páginas de O pensamento activo de Bernardino Machado transcrevam fragmentos de um escrito tardio do insigne republicano, de certo modo subordinadas a este mote: “Unir os homens pela razão, eis o supremo problema social”. Não será difícil surpreender aqui o problema do próprio António Ramos de Almeida. Pelo menos, um dos problemas centrais do seu envolvimento cívico. Porque os homens unem-se também – esta diferença com o republicanismo clássico é irredutível – pela afetividade e pelo sentimento, como a arte no-lo mostra. A permanente reflexão sobre a literatura brasileira constitui o campo privilegiado desta convicção. É no aprofundamento do significado da literatura brasileira que aquilo a que poderíamos chamar a dimensão cognitiva da literatura mais se revela. De 1938 é o ensaio intitulado “O romance brasileiro contemporâneo através de seus principais intérpretes”, publicado na revista Sol Nascente desdobrado em dois artigos, o primeiro consagrado a Jorge Amado e o segundo a José Lins do Rego e Amando Fontes. Mas vinha de mais longe o conhecimento pormenorizado e o acompanhamento atento da atualidade literária brasileira. O menino de engenho de José Lins do Rego, publicado em 1932, lê-o nas avenidas do Jardim Botânico coimbrão menos de um ano depois. Não será excessivo, por isso, conjeturar a centralidade do seu papel como intermediário na difusão desse chamado “romance regionalista” em Portugal. A conferência A nova descoberta do Brasil, pronunciada no dia 3 de maio de 1944 e nesse mesmo ano editada num pequeno volume31 constitui uma primeira fixação global da complexa relação de António Ramos de Almeida com o Brasil32 – plasmada, aliás, nos múltiplos sentidos do título. O achamento histórico do Brasil, a descoberta do Brasil pelo jovem António Ramos de Almeida, a descoberta do Brasil pelos próprios brasileiros e a descoberta 31 António Ramos de Almeida, A nova descoberta do Brasil, Editorial Fenianos, Porto, 1944. Foi inicialmente uma conferência pronunciada no dia 3 de maio do mesmo ano no Salão Nobre do Clube Fenianos Portuenses, numa sessão presidida pelo Dr. Mauro de Freitas, Cônsul do Brasil no Porto. Doze anos depois, no mesmo dia 3 de maio (Jornal de Notícias, 3. maio.1956), António Ramos de Almeida volta ao tema e reforça a necessidade prática (quer dizer, ao mesmo tempo, política e cultural) da aproximação entre os dois países, fazendo coincidir o seu comentário com as palavras de Pedro Calmon, que estava em Portugal para comemorar justamente o dia 3 de maio e discursou na Academia das Ciências sobre a língua portuguesa. 32 Além da edição autónoma, a conferência fará parte da obra Para a compreensão da cultura no Brasil, Maranus, Porto, 1950. Nela estão reunidos outros significativos ensaios de temática brasileira (“Castro Alves, génio poético do Brasil”, “A conquista da expressão brasileira” e “Para a compreensão de Rui Barbosa, Jurisconsulto da Democracia e da Paz”). Apesar de não reunir todos os escritos referentes ao mesmo tema, a esta obra deveremos regressar, noutra oportunidade, para reconstituir o amplo horizonte em que António Ramos de Almeida situava a valorização da “literatura regionalista”.

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(isto é: o reconhecimento) do Brasil pela comunidade internacional são diferentes tópicos que confluem nessa reflexão apaixonada que – no entanto – é, porventura acima de tudo, a consagração da importância cognitiva da literatura.

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A partir da convicção de que “tudo o que se construiu no Brasil foi [...] produto de trabalho árduo e penoso, lutas de suor, de sangue, de lágrimas e de ideias, sem as quais nada se faz de grande neste mundo”, é lícito perguntar onde poderemos “descobrir os segredos das grandes lutas”, onde é que o devir-nação toma consciência de si próprio. Resposta: é na literatura, são “os poetas, os romancistas, os historiadores, os ensaístas, sobretudo os das novas gerações, aqueles que mostraram ao mundo a grandeza e a extensão do seu país”. Mais: “eles são a linguagem da selva, da ‘caatinga’ e dos pampas, a palavra eloquente das florestas, dos rios e dos homens; representam sobretudo a luta admirável do homem que saiu das tribos, da escravatura e conquistou a liberdade, porta aberta à amplidão do Futuro”. É o que designa por “conquista da expressão brasileira”. Esquematicamente, é certo; rapidamente, sem dúvida – mas está aqui uma conceção de literatura. A literatura não distrai, não evade, não decora. A literatura também não é, simplesmente, a expressão de consciências individuais. A literatura que simplesmente distrai, evade ou decora está dessintonizada do seu próprio tempo. Ora, pertence a uma pré-compreensão geracional, partilhada por António Ramos de Almeida, que é possível, que é historicamente necessário construir os fundamentos dessa sintonia entre a arte e o tempo, isto é, entre o acontecimento histórico e os modos de expressão artística do acontecimento histórico. A arte deve fazer conhecer: e não, simplesmente, referir, ilustrar. Fazer conhecer significa mostrar o sentido de um acontecimento. A identificação destas características singulariza a “literatura regionalista” de outras práticas literárias e investe a sua difusão entre nós de um alcance completamente diferente da mera “divulgação” de autores brasileiros. Num artigo sobre O Amanuense Belmiro de Ciro dos Anjos, escreve: “Os romances de Graciliano Ramos, José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Jorge Amado, Amando Fontes, Raquel Queirós, Erico Veríssimo chegaram de chofre, como um duche sobre uma sensibilidade leitora e crítica embutada pelo decandentismo mórbido do romance europeu que usara e abusara das escavações psicológicas. O romance brasileiro irrompia como qualquer coisa de diferente, repleto de força e de vida de um humanismo novo, onde os problemas concretos e reais da sociedade e do indivíduo se misturavam uns nos outros [...]”. Uma leitura “neorrealista” do modernismo, que reduz a valorização da linguagem ao subjetivismo e permanece numa estrita e estreita noção do que seja a análise psicológica conjuga-se, neste passo, com uma universalização da ficção brasileira “regionalista”. É como se se afirmasse, por outras palavras que o romance


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do século XX precisou dessa ficção regionalista para captar dimensões universais da condição humana. Ou: que o romance regionalista é um dos caminhos para estabelecer as bases de uma nova ficção. Ou ainda: foi na ficção regionalista brasileira que uma universalidade concreta da condição humana ganhou configuração e voz. Esta hipótese altera e enriquece a relação entre as culturas brasileira e portuguesa através do neorrealismo: não se trata só unicamente de divulgar, de fazer conhecer num país os valores artísticos do outro país ou de definir as bases de uma qualquer “comunidade”. Nem estamos também, simplesmente, no plano da “influência”, que é o dispositivo mais referido para caraterizar a receção da literatura brasileira pela literatura portuguesa. A validade da hipótese aberta por António Ramos de Almeida sugere que a influência dê lugar à mediação e, neste deslocamento, seja alterado o campo literário de que falamos. Logo, o que a literatura brasileira traz suscetível de inscrever-se na fundamentação estética do “neorrealismo” é, pelo simples facto de existir, a noção de que é possível uma outra prática literária, em que uma determinada consciência histórica ganha forma artística num espaço do modernismo. Hipótese que repercute muito para além da literatura portuguesa e da literatura brasileira e obriga a uma reconsideração aprofundada de todos os aspetos envolvidos. A hipótese de António Ramos de Almeida pode, mesmo, obrigar a uma revisão da história do neorrealismo e, nela, da receção da literatura “regionalista”. É que, como já vimos, o neorrealismo de António Ramos de Almeida não é um “neorrealismo” comum. A polémica arte pura – arte social é o resultado de um determinado amadurecimento político-doutrinário inicialmente vago e nebuloso, mas já real, em 1934 e 1935; amadurecimento (isto é: o esclarecimento de uma consciência de si) que envolve a irredutibilidade da arte e, em particular, da literatura. Uma revisão do “neorrealismo” que valorize estas indicações como alíneas pertinentes vai resultar, por certo, numa pesquisa que já não se centra em Portugal e no Brasil (embora seja impossível sem eles) mas envolve o desenho de todo um “campo literário” gerado pelo que me permitiria chamar a “positividade da experiência” (em contraponto da “pobreza da experiência” que a lucidez trágica de Walter Benjamin identificou na posteridade da Primeira Guerra). Mas este é um outro programa de trabalhos.

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António Ramos de Almeida e a Livraria Latina Editora: contextos e dinâmicas Maria do Rosário Ramada Pinho Barbosa1

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ste texto não se limita a recensear as obras de António Ramos de Almeida, publicadas pela Livraria Latina Editora, porquanto nos fornece circunstanciadas informações sobre os contextos editoriais em que elas surgiram e as dinâmicas sociais, culturais e políticas em que elas se desenvolveram. Quais os mecanismos de conceção e produção dessas obras? Qual o seu impacto no tecido social? Que processos de comercialização e circulação foram desenhados? De que modo se repercutiram na imprensa? Estas são algumas das questões de que nos ocupamos neste estudo. Para além do elenco das obras de António Ramos de Almeida, elemento básico e de todos conhecido, acrescentamos e apresentamos um corpus documental – pertencente ao espólio de Henrique Perdigão, fundador da Latina – constituído por recortes de publicações periódicas, livros de registo de assinantes e de ofertas, manuscritos, alguns deles autógrafos, e datiloscritos de e para o autor ou a ele, direta ou indiretamente, associados, que nos permite interpretar a atividade da Livraria Latina Editora como mediador cultural no tecido social, histórico e cultural na década de 40 do século XX. Henrique Perdigão e a Livraria Latina Editora Chamava-se Henrique Perdigão. Pelo que foi e pela sua ação, no campo da cultura, trazemos à memória a figura deste autodidata, persistente e empreendedor, que marcou uma época nos setores livreiro e editorial em Portugal.

Este homem de letras, nascido na cidade do Porto em 1888 e emigrado ainda criança para o Brasil, legou-nos uma obra de inegável valor. Cedo manifestou um acentuado gosto pelos livros, pela leitura, pela escrita, pela literatura e pela lusofonia pelo que, em 1934, após duas décadas de trabalho, viu publicada a primeira edição do Dicionário universal de literatura: bio-bibliográfico e cronológico2, obra louvada pela Academia das Sciências de Lisboa e pela Academia Brasileira de Letras. Esgotado o título, deu à estampa, em 1940, uma segunda edição ampliada e ilustrada3. Sócio da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Henrique Perdigão foi colaborador assíduo da Imprensa, designadamente do Diário do Porto entre 1926 e 1927, do Século em 1928, 1 Professora na Escola Superior de Educação / Politécnico do Porto; investigadora no Centro de Investigação e Inovação em Educação (InED); doutoranda em Estudos Contemporâneos no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra. 2 PERDIGÃO, Henrique – Dicionário universal de literatura: bio-bibliográfico e cronológico. Barcelos: Portucalense, 1934. 3 PERDIGÃO, Henrique – Dicionário universal de literatura: bio-bibliográfico e cronológico. 2.ª ed. rev. Porto: Edições Lopes da Silva, 1940.

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d’O Comércio do Porto entre 1930 e 1931, sendo ainda representante no Porto da revista Fémina em 1934. Mas, se os seus trabalhos literários merecem apreço e destaque, foi como livreiro e editor que mais se distinguiu, publicando obras de autores consagrados a par de escritores em início de carreira.

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Mesmo perante um cenário restritivo, de contingências várias definidas pelo Estado Novo, e, por isso, um ambiente pouco propício a novos projetos, dedicou-se a uma prática de mediação cultural alicerçada em dinâmicas consentâneas com a emancipação do campo editorial português e a consagração da difusão da língua portuguesa. Constituiu em outubro de 1941 uma sociedade e, em 15 de janeiro de 1942, inaugurou, no Porto, um novo “centro cultural”4, a Livraria Latina Editora. Em prol da divulgação do livro, e fora da máquina política ou a ela associada, foi “a primeira a instituir prémios literários”5, lançando, logo no dia de abertura, um Concurso Literário dirigido a autores de língua portuguesa. Seguiu-se um outro, no ano subsequente, no âmbito das comemorações do seu primeiro aniversário6. O percurso editorial da Livraria Latina Editora manifestou-se desde o início da sua atividade e traduziu-se na edição de um livro de Henrique Perdigão, intitulado As escolas filosóficas através dos tempos: quadro cronológico desde os Jónios à actualidade7, na publicação das obras vencedoras das duas edições dos Concursos Literários, seguindo-se obras de autores cimeiros da literatura portuguesa e mundial. Contam-se, entre eles, os nomes de António Ramos de Almeida, Teixeira de Pascoaes, António Botto, João Gaspar Simões, Jaime Brasil, Manuel de Azevedo, Manuel do Nascimento, Emília de Sousa Costa, Aurora Jardim, Francisco Keil do Amaral, José Hermano Saraiva, Fausto Duarte, Carlos Babo, Guilherme Gama, Henrique Marques Júnior, Laura Chaves, Somerset Maugham, Molière, Walter Scott, Rabelais, Charles Dickens, Panaït Istrait, Henrique Sienkiewicz e Dostoievsky. Até ao final da década de 40, a Livraria Latina Editora publicou cerca de cinquenta livros, do ensaio à poesia, do romance ao conto, do livro técnico ao manual escolar. Fez ainda nascer a coleção cultural Cadernos Azuis, a coleção infantil Pinóquio e a coleção Autores Notáveis. António Ramos de Almeida e os ensaios sobre Antero de Quental nos Cadernos Azuis António Ramos de Almeida viu algumas das suas obras editadas pela Livraria Latina Editora, designadamente na coleção Cadernos Azuis dirigida por Manuel de Azevedo (1916-1984). 4 RAMOS, Manuel – Editor Henrique Perdigão: um homem que honrou o Porto: a propósito do seu centenário. Jornal de Notícias. Porto, ano 102, n.º 20 (21 de junho de 1989) p. 10. 5 SANTOS, Alfredo Ribeiro dos – História literária do Porto através das suas publicações periódicas. Porto: Edições Afrontamento, 2009, p. 360. 6 Em 1942, o primeiro Concurso foi consagrado ao romance e, no ano seguinte, ao conto. 7 PERDIGÃO, Henrique – As escolas filosóficas através dos tempos: quadro cronológico desde os Jónios à actualidade. Porto: Livraria Latina Editora, 1942.


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A coleção, publicada entre 1941 e 1945, “pela acessibilidade do seu preço e linguagem simples e clara como os problemas serão expostos, constituem um sério esforço de cultura popular. Nos seus volumes, cuidadosamente selecionados, serão abordados todos os assuntos de interesse geral, compreendendo”8 cinco secções: Contos e Novelas, para “obras inéditas, ou pouco conhecidas no nosso meio, de prosadores nacionais e estrangeiros que, pelas qualidades literárias, riqueza psicológica e projecção humana, merecem ser divulgadas”9; Os Homens e as Idéias, consagrada a “estudos sôbre as principais correntes políticas, sociais, económicas e filosóficas, assim como ensaios biográficos das grandes figuras da humanidade”10; Literatura e Arte, para “pequenos ensaios sôbre tôdas as manifestações de carácter artístico e literário. Escolas e tendências. Principais figuras”11; A Evolução da Humanidade, sobre “o homem através dos séculos na sua luta constante pelo progresso e bem estar da humanidade. As grandes descobertas e conquistas da História”12 e, finalmente, Problemas Contemporâneos, secção em que “vários problemas do nosso tempo serão divulgados por especialistas numa linguagem clara e acessível a toda a gente. Serão tratados problemas de Ciência, Técnica, Pedagogia, Economia, Desporto, etc.”13. Dos seus doze títulos, da autoria de Manuel de Azevedo, António Ramos de Almeida (1912-1961), Júlio Filipe, Jorge Vítor, João Pedro de Andrade (1902-1974), Somerset Maugham (1874-1965), Duarte Pires de Lima (1917-1943) e Francisco Keil do Amaral (1910-1975), os números dois, três e quatro não foram editados pela Latina14: AZEVEDO, Manuel de – O cinema em marcha: ensaio.  2.ª ed.  Porto: Livraria Latina Editora, 1944 (Cadernos Azuis: Problemas Contemporâneos; n.º 1). ALMEIDA, António Ramos de – Antero de Quental: infância e juventude. Porto: Livraria Latina Editora, 1943 (Cadernos Azuis: Os Homens e as Idéias; n.º 5). Vol. I. ALMEIDA, António Ramos de – Antero de Quental: infância e juventude. Porto: Livraria Latina Editora, 1943 (Cadernos Azuis: Os Homens e as Idéias; n.º 6). Vol. II. ANDRADE, João Pedro de – A poesia da moderníssima geração: génese duma atitude poética: ensaio. Porto: Livraria Latina Editora, 1943 (Cadernos Azuis: Literatura e Arte; n.º 7). MAUGHAM, Somerset – A carta: novela. Porto: Livraria Latina Editora, 1943 (Cadernos Azuis: Contos e Novelas; n.º 8). 8 Brochura de apresentação da coleção Cadernos Azuis. 9 Idem. 10 Idem. 11 Idem. 12 Idem. 13 Idem. 14 ALMEIDA, António Ramos de – A arte e a vida, 1941; FILIPE, Júlio – Aurora e crepúsculo duma idade, 1942 e VÍTOR, Jorge – Nasceu um maltês!: contos, 1942 são editados pela Livraria Joaquim Maria da Costa, do Porto, embora igualmente dirigidos por Manuel de Azevedo.

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ALMEIDA, António Ramos de – Antero de Quental: infância e juventude.  Porto: Livraria Latina Editora,  1943 (Cadernos Azuis: Os Homens e as Idéias; n.º 5). Vol. I.


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ALMEIDA, António Ramos de – Antero de Quental: infância e juventude.  Porto: Livraria Latina Editora,  1943 (Cadernos Azuis: Os Homens e as Idéias; n.º 6). Vol. II. ALMEIDA, António Ramos de – Antero de Quental: apogeu, decadência e morte. Porto: Livraria Latina Editora, 1944 (Cadernos Azuis: Os Homens e as Idéias; n.os 9 e 10).


A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida

ALMEIDA, António Ramos de – Antero de Quental: apogeu, decadência e morte. Porto: Livraria Latina Editora, 1944 (Cadernos Azuis: Os Homens e as Idéias; n.os 9 e 10). LIMA, Duarte Pires de – História breve duma teoria. A Relatividade e breve ensaio sôbre o modernismo. Porto: Livraria Latina Editora, 1944 (Cadernos Azuis: A Evolução da Humanidade; n.º 11). AMARAL, Francisco Keil do – O problema da habitação. Porto: Livraria Latina Editora, 1945 (Cadernos Azuis: Problemas Contemporâneos; n.º 12). 30

Verificamos, pois, que quatro dos doze títulos dos Cadernos Azuis se centram na vida de Antero de Quental (1842-1891). Nos números cinco e seis, António Ramos de Almeida retrata a infância e juventude abordando respetivamente A pátria e «A encantada e quási fantástica Coimbra» e a Vida coerente e aventurosa. A Latina iniciou a sua venda e distribuição em 25 de fevereiro de 1943, tendo publicitado o seu lançamento no Jornal de Notícias, n’O Comércio do Porto, no Século, no Diário Popular e no Diário de Lisboa. Nos números nove e dez, sobre apogeu, decadência e morte, é refletida a Acção revolucionária, política e cultural; A decadência e O refúgio de Vila do Conde e A morte. Comemorando o segundo aniversário da Latina, este número duplo deu à estampa, em 15 de janeiro de 1944, com anúncios publicitários n’O Primeiro de Janeiro e no Século. No Livro de Assinaturas da Livraria Latina Editora encontram-se registados como assinantes destas publicações pessoas particulares e instituições, seguidos da respetiva proveniência, designadamente Luiz Roseira Abrunhosa (Covas do Douro), António Albuquerque (Évora), Joaquim Henriques Alexandre (Torres Novas), Álvaro Ramalho Alves (Torres Vedras), Mário Henrique do Amaral (Lisboa), Atilano dos Reis Ambrósio (Vila Franca de Xira), José Alexandre (Portimão), António Lopes Bastos (Vila Franca de Xira), Victor Hugo Portugal Branco (Lisboa), Remígio Baptista (Porto), Biblioteca do Ateneu Artístico Vilafranquense (Vila Franca de Xira), Silvino Calçada (Alcobaça), José António de Castro (Ílhavo), Armando G. Martins Coelho (Porto), Alfredo Coelho (Mirandela), Álvaro Santinho Coelho (S. Marcos da Serra), Fernando Couto (Instituto Comercial do Porto), Rui Cochofel (Caldas de Aregos), José dos Santos Dias (Alcácer do Sal), Telmo da Fonseca (Sabrosa), Saturnino Gameiro (Setúbal) Maria de Lurdes da Silva Gomes (Porto), Arnaldo Gouveia (Alcácer do Sal), José Maria Gueifão (Gavião, Alto Alentejo), António da Silva Guimarães (Porto), Carlos Augusto Gaspar (Vila Franca de Xira), Joaquim J. Lagoa Júnior (Portimão), Inácio José Alves Júnior (Torres Novas), Francisco Rocha Levezinho (Vila Franca de Xira), Alberto Gomes Maia (Coruche), Rogério Castro Martins (Porto), José dos Santos Marques (Lisboa), Vasco L. Moreira Marques (Espinho), António Nunes da Mata (Évora), Américo Ferreira Martins (Gondomar), Ramiro Nunes (Coruche), Manuel A. Pinto (Faro), Adelino Gonçalves Pinto (Silves), Fernando Pesca (Lisboa),


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António Segismundo Pinto (Lisboa), Sebastião de Resende (Albergaria-a-Velha), João de Oliveira Rodrigues (Figueira da Foz), Firmino da Silva Rosado (Coruche), Joaquim Rodrigues (Alcácer do Sal), Fernando Soares (Amarante), José Lopes dos Santos (Torres Novas), António Santos (Setúbal), Jorge S. Santos (Porto), Rogério de Sousa (Porto), Carlos da Costa Silva (Paredes de Coura), Eduardo Sousa Vieira (Torres Novas) e Luiz Vieira (Batalha). O espólio integra ainda um Livro de Ofertas de Edições, do qual retiramos a lista de ofertas dos números 5 e 6 referentes aos anos 1943 e 1944: autor, Manuel de Azevedo, O Primeiro de Janeiro (Manuel de Azevedo, Jaime Brasil e redação), Jornal de Notícias (biblioteca e Aurora Jardim), O Comércio do Porto, Mário Vasconcelos e Sá, Século, Diário de Notícias, Diário Popular (Casais Monteiro e redação), Diário de Lisboa (João Gaspar Simões e redação), Novidades, República, Sol (Campos Lima e redação), Abel Salazar, Brotéria, Ocidente, Carlos Sombrio, Semana Tirsense, Raul Ardeiro, Daniel da Silva, Correio do Minho, Sousa Costa, Mota Ferreira, Paulo Freire, Jornal do Comércio, Armando Ferreira, Oldemiro César, Joaquim Costa, Livraria Lello, Seara Nova (Câmara Reis, Sidónio Muralha, Mário Dionísio, Agostinho da Silva, Fernando Lopes Graça e redação), Octávio Rodrigues de Campos, João Maria Ferreira, Maria do Lar, José Régio, João Pedro de Andrade, Adolfo Casais Monteiro, João Gaspar Simões, António de Sousa, Octávio Sérgio, Fernando Pinto Loureiro, Lino Lima, António Salgado, Manuel Mendes, Livraria Antunes, Secretariado de Propaganda Nacional (Diretor, José Alvelos e Tavares de Almeida), Fraga Lamares, Luiz Amaro, Raul Azevedo, Viagem (Conde de Ornelas e Rebelo de Bettencourt), Gil Vicente, Mário Portocarrero Casimiro, Jorge Vernex, José Osório de Oliveira, Ferreira de Castro, Casa da Imprensa e do Livro, Augusto Guerra, União Nacional, Julieta Ferrão e Vida Mundial. No mesmo Livro de Ofertas de Edições encontramos ainda referência às ofertas dos n.os 9 e 10 alusivas ao ano 1944: autor, Manuel de Azevedo, Sousa Pinto, Luiz Amaro, Luiz Botelho de Sousa, Oldemiro César, O Primeiro de Janeiro (Jaime Brasil), Jornal de Notícias, O Comércio do Porto, Seara Nova, Diário de Lisboa (João Gaspar Simões), Diário Popular (Casais Monteiro), Jornal do Comércio, Jorge Vernex, João Maria Ferreira, Mário Mota, Brotéria, Livraria Lello, Maria do Lar, Secretariado, Instituto Britânico, Livraria Antunes, Viagem (Rebelo de Bettencourt), Emília Sousa Costa, Julieta Ferrão, Casa da Imprensa e do Livro, A. Guerra e Mário Portocarrero Casimiro. Estes ensaios de António Ramos de Almeida, sobre Antero de Quental, foram largamente mencionados na imprensa. Entre esses registos encontramos artigos de Jaime Brasil (O Primeiro de Janeiro), João Gaspar Simões (Diário de Lisboa), Álvaro Salema (Vida Mundial Ilustrada), José Trajano (Jornal do Comércio, suplemento Domingo), Celso Pontes (Estrela do Minho), Carlos Sombrio (Gazeta de Coimbra), Jorge Vernex (O Ilhavense), João Maria Ferreira (Gazeta de Cantanhede) e Jorge de Lencastre (O Setubalense) e ainda outros nos jornais Semana Tirsense, Diário Popular, Jornal de Notícias, O Comércio do Porto e na revista Seara Nova.

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Semana Tirsense “Foi posta á venda uma obra sobre Antero de Quental, infância e juventude, por António Ramos de Almeida, trabalho que faz parte de «Cadernos Azuis», edição muito interessante da conceituada Livraria Latina Editora, da rua de Santa Catarina n.º 2 a 10, do Pôrto.

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São dois volumes de bela apresentação, que encerram varios Sonetos do genial poeta, e em que o seu autor se refere a Antero, fazendo a evocação da sua vida, da sua grande obra e da sua figura extraordinaria de homem. Especial cuidado dedicou a Livraria Latina Editora á publicação do livro, que foi apresentado com magnifico aspecto, pelo que é crédora de todos os encómios. Gratos pelos volumes oferecidos a esta redacção”15. Gazeta de Coimbra “Mais um trabalho, mais um estudo sôbre o imortal autor dos «Sonetos». Nunca são demais os estudos àcêrca dos grandes valores. E Antero bem merece ser lembrado de quando em quando, para que a chama fulgurante, a centelha diamantina do seu talento continue erguida junto das sucessivas gerações que vão despontando. Êste estudo, firmado por António Ramos de Almeida, pertence aos «Cadernos azuis» – «Os Homens e as Ideias», – da Livraria Latina, do Pôrto, a quem não regateamos louvores pelo seu labor editorial. Temos presente os dois cadernos – I e II – subordinados à infância e juventude do Poeta que, como muito bem diz o autor do estudo, «continua mais vivo do que muitos que ainda não morreram». Não pretendeu o sr. António Ramos de Almeida dar-nos uma biografia, antes procurou isolar-se do chamado ambiente íntimo que muitas vezes conduz ao elogio das personagens estudadas. Não apresentando Antero como idolo, interpretou-o serenamente, e até um ou outro traço que se nos afigura de ficção literária, ajuda a compor o estudo, não alterando o perfil do Poeta. Nestas cento e tantas páginas que abrangem os dois cadernos, foi todo o espaço aproveitado com acentuada dignidade literária. Apraz-nos não só registar o facto, mas apontá-lo como motivo de mérito para o autor do estudo. Terminada, no II caderno a Infância e Juventude de Antero, vai seguir-se, segundo a nota final, apogeu e morte do Poeta. Aguardamos a conclusão do estudo, com justificado interesse”16. 15 Semana Tirsense. Santo Tirso (7 de março de 1943). 16 SOMBRIO, Carlos – Bibliografia. Gazeta de Coimbra. Coimbra (1 de abril de 1943).


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Jornal de Notícias “Muito se tem escrito sôbre o imortal autor dos «Sonetos», o poeta de suma grandeza cuja vida foi uma chama constantemente agitada pelo vento. Nêste belo trabalho, cheio de personalidade e vibração, não nos é descrita a sua biografia, tão conhecida, mas sim o que o autor desejou comunicar ao leitor: «dar o seu vulto no todo da sua complexidade, através da sua evolução de homem responsável, de escritor e de artista.» Revela os vícios e as virtudes da sua acção e a projecção da sua obra sem parcialidades nem subjectivista «parti-pris» – usando apenas um instrumento: a verdade. Descreve o autor a vida tumultuosa do poeta em Coimbra, analisa a sua obra, traça o quadro em que figuram as grandes personalidades contemporâneas. Nêstes dois volumes da preciosa colecção «Cadernos Azuis», é tratado Antero de Quental na infância e na juventude. O trabalho ficará concluído com o estudo «apogeu e morte» que brevemente será publicado. A reprodução dum inédito busto do Poeta, autoria do ilustre artista dr. Abel Salazar, mais enriquece o marcante ensaio”17. Seara Nova “[...] António Ramos de Almeida, apaixonado pela grandeza e pela complexidade da figura, meteu ombros a essa tarefa, e deu-nos, em dois tomos da colecção de Cadernos Azuis, a primeira parte dum estudo biográfico. Julgo que o facto de ter abandonado tudo o que houve de circunstancial e inconseqüente na vida da figura evocada não tira a êste estudo o carácter de biografia, de que Ramos de Almeida parece defender-se. Biografia não é o elogio dum caso pessoal, como R. de A. pensa, mas sim o aproveitamento de tudo o que ocorre de significativo numa vida. Procurou Ramos de Almeida narrar a evolução do grande poeta e doutrinário, desde a infância contemplativa e mística na Ilha de S. Miguel até às pugnas literárias e políticas que culminariam com a publicação dos opúsculos «Bom senso e bom gosto» e «Portugal perante a revolução de Espanha». As páginas dos dois livrinhos evocam em tons vivos a figura excepcional de quem se poderia dizer, como Romain Rolland disse de Tolstoi, que foi o menos literato dos escritores. O biógrafo não se contentou em dar os movimentos exteriores do homem, quer chefiando uma insurreição académica e transladando-se, com trezentos companheiros, de Coimbra para o Pôrto, quer encafuando-se no fundo duma oficina de tipografia em Paris, a-fim de pôr de acordo a sua acção cotidiana com as suas idéas socialistas: quis ir mais 17 Jornal de Notícias. Porto (24 de abril de 1943).

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longe e mais fundo, pretendendo reproduzir as circunstâncias históricas e sociais que explicam a figura e a tornaram possível, bem como buscar dentro da consciência do próprio Antero as determinantes dos seus actos.

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O caso de Antero tem de ser encarado com amplitude de visão e sem restrições de qualquer espécie, para que, com a obra do poeta e do panfletário, que iniciou uma época literária e ajudou a criar o espírito crítico em Portugal, fique igualmente explicada a sociedade do seu tempo. Ramos de Almeida aproximou-se por vezes desta finalidade, que foi em parte a sua. As páginas em que se relatam as lutas académicas são animadas e flagrantes. Não ficou, possivelmente, assinalado como seria para desejar o ambiente social, que não se confinava a Coimbra e ao reaccionarismo do reitor Sousa Pinto. Sabemos vagamente que ao tempo da revolta académica era presidente do Conselho o Duque de Loulé, mas a evolução do pensamento de Antero, satisfatòriamente explicada quanto ao ambiente intelectual e às fontes culturais, fica um tanto obscura se para a entendermos integralmente quisermos inteirar-nos das condições económicas do país. A Coimbra romântica da boémia e de João de Deus, que ao princípio seduziria Antero inspirando-lhe as composições das Primaveras Românticas, e que mais tarde se transmudaria no foco da inquietação da mocidade literária, prestes a tornar-se a mocidade política, está bem descrita no opúsculo, embora dificilmente possamos, através dela, ajuizar do sincronismo social. A obra do poeta tem, nesta primeira parte, uma crítica quási exclusivamente dirigida às ideas tratadas nas composições que se transcrevem, no todo ou em trechos. As Odes Modernas são, efetivamente, um livro de ideas postas em poesia por um homem que atribuía à Poesia uma «alta missão» e que não supunha antagónicos princípios como êste: «A Poesia é a confissão sincera do pensamento mais íntimo de uma idade» a «A Poesia moderna é a voz da Revolução», porque, segundo êle, era no espírito de revolta que a sua geração vivia e respirava. Com tudo o que as ideas e a expressão tenham perdido de frescura e de verdadeira profundidade, com tudo o que encontramos hoje de precário no espírito poético de muitas composições, o certo é que Odes Modernas, representaram um golpe vibrante dirigido à secura clássica da época representada em Castilho, são espírito ultra-romântico de que eram portadores os bardos reunidos em volta do autor de A Noite do Castelo. Alguns sonetos documentam fases do pensamento de Antero e das suas crises metafísicas e afectivas. É pena que nem sempre as transcrições de sonetos e trechos das Odes fôssem revistas com cuidado. Numerosos versos aparecem com incorrecções que lhes alteram o sentido e o ritmo. Os versos finais dos sonetos transcritos na pág. 27 do tômo I e 40 do tomo II apresentam desses descuidos. Também a interpretação que Ramos de Almeida dá a alguns dos sonetos me não parece sempre das mais correctas. Jugo, por exemplo, que o último soneto da série A Idea, aquêle que começa: Lá! Mas aonde é lá? Aonde? – Espera… não é dos que com mais propriedade se podem chamar pessimistas. Antero coloca a idea, a feia virgem desdenhosa, não no espaço do mundo orgânico, mas no céu incorruptivel da Consciência. Para êle há sempre um refúgio onde


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retemperar a alma triste, a alma chorosa, onde adormecer a antiga e secular ferida. O pouco cuidado nas transcrições prejudica igualmente a interpretação do segundo soneto de Tese e antítese em cujo último terceto que é assim: Combatei pois na terra árida e bruta Tê que a revolta a remoïnhar da luta Tê que a fecunde o sangue dos heróis! Aparece omitido o pronome a dos dois versos finais. Isto leva Ramos de Almeida a escrever: «A intolerância do ideal puro cedia lugar à voz que mandava combater até que se fecundasse o sangue dos heróis.» Aparte destes senões, que um maior cuidado na transcrição dos versos teria evitado, e que é de desejar não apareçam na segunda parte do trabalho, o estudo de Ramos de Almeida representa uma valiosa contribuïção para a compreensão da figura de Antero e do seu tempo”18. O Primeiro de Janeiro “Ao noticiar o aparecimento dos dois primeiros tomos do ensaio biográfico-crítico «Antero de Quental», da autoria do sr. dr. António Ramos de Almeida, lamentamos o erro editorial que levara a fraccionar essa obra em cadernos, publicados com intervalos. Só agora apareceu o fim dêsse trabalho, reünindo num só tomo os dois cadernos de que deveria compôr-se. Com mais forte razão ainda, agora que podemos avaliar a magnitude da obra, lastimamos não ter sido publicada, como devia, em um só volume. Merecia-o a figura de Antero de Quental, sem par nas letras portuguesas; merecia-o, também, o notável estudo do sr. dr. Ramos de Almeida, completo, profundo e escrito com grande nobreza. Obra de investigação e de crítica, a cada passo documentada com pensamentos e afirmações de Antero, tirados dos seus poemas, dos seus artigos, das cartas aos amigos, é, sob êsse aspecto, modelar, tal a arte com que o autor soube engastar essas gemas preciosas no oiro fino do seu estilo. O esfôrço, porém, do autor em compreender e fazer compreender a figura complexa do pensador, em explicar as suas atitudes, em esclarecer pontos que uma crítica ignorante ou malévola deixara obscuros, sobrepassa tudo o mais do seu trabalho. A biografia do escritor Antero de Quental, aliás rigorosa nas datas, nos pormenores, em tudo quanto é do domínio da história, quási se anula ante êsse propósito de revelação do Homem, na sua grandiosa personalidade. O Santo laico encontrou o panegerista à sua medida. Era preciso ser poeta, como o autor, para captar as ressonâncias profundas dos «Sonetos» magníficos; era preciso ser um 18 Seara Nova. Lisboa, ano XXII, n.º 839 (11 de setembro de 1943) p. 43-44.

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estudioso dos problemas sociais para sentir a atitude de Antero ao debruçar-se sôbre êsses mesmos problemas. Certo, o autor, aqui e ali marca, a sua própria evolução, assinalando o que no socialismo de Antero houve de vago e utópico. É, porém, com uma ternura filial que interpreta o pensamento do grande antepassado e o desfibra e analisa, expondo-o, em todo o seu fulgor, aos homens de hoje.

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A segunda parte do trabalho do sr. dr. Ramos de Almeida, agora publicada, é a mais rica e cheia de vibração. Nela estuda o apogeu da vida do poeta e pensador e a paixão e morte do homem. Nestas, apenas evocadas na sua trágica majestade, não se detem muito; mas ao recordar aquele período de actividade que vai das Conferências do Casino até a segunda ida para Ponta Delgada, pode dizer-se ter o autor erguido o mais belo dos monumentos à memória do Poeta. Subtil análise é a que faz das inquietações religiosas de Antero e da sua sublimação que o levou a atingir uma espécie de ascese, aliás sem nada de místico. Considera o autor como uma manifestação do «complexo de inferioridade» a recusa do pensador a aceitar a candidatura de deputado. Talvez não fôsse. A terminologia psicanalítica ao entrar na linguagem comum sofreu alterações semânticas que permitem erróneas interpretações. A atitude de Antero foi obra da «censura do Eu» e, portanto, manifestação de inteligência superior, produto não só da auto-crítica como duma sócio-crítica penetrante e coerente. Em tudo, até no rebater do assêrto de ter Antero traído aqueles cujas angústias quis lenir, fez o sr. dr. Ramos de Almeida uma obra de justiça intelectual, de verdade histórica, sem deixar, contudo, de pôr um humano calor de ternura no modelar da figura portentosa. Assim o ensaio «Antero de Quental», a despeito da sua pobreza editorial, ficará como uma das mais completas e belas obras até hoje escritas sôbre o Santo laico que a geração de 70 reverenciou como um apóstolo e os homens de amanhã admirarão como um precursor”19. Diário Popular “Na colecção «Cadernos Azuis» que a Livraria Latina tem publicado apareceram agora os n.os 9 e 10 que correspondem a um só volume, sobre o «Apogeu, decadência e morte» dêsse extraordinário poeta que foi Antero de Quental. O estudo agora publicado completa o que, na mesma colecção, António Ramos de Almeida publicou e que referia, especialmente, a sua Infância e Juventude. [...] No caso do trabalho de António Ramos de Almeida o interesse é duplo porque o autor conseguiu, de maneira brilhante, mostrar o drama de uma vida, que, numa intensidade pasmosa, sentiu os mais violentos problemas da especulação filosófica da sua época. A sua obra não está ainda convenientemente estudada nem, porventura, 19 [BRASIL, Jaime] – “Antero de Quental”, por António Ramos de Almeida. O Primeiro de Janeiro. Porto, ano 76, n.º 31 (2 de fevereiro de 1944) p. 8. Uma parte do artigo foi reproduzida na badana da obra Eça: ALMEIDA, António Ramos de – Eça. Porto: Livraria Latina Editora, 1945.


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nunca o estará se atentarmos na sua grandiosidade, mas o trabalho agora publicado constitui um valioso elemento para o seu estudo, razão porque merece ser lido por quantos encontram em Antero um Poeta e um Homem”20. Gazeta de Cantanhede “Livraria Latina Editora celebrou no passado dia 15 de Janeiro o 2.º aniversário da sua fundação. Livraria moderna, no mais lato sentido da palavra, ela celebrou o seu 2.º aniversário com a publicação de três obras literárias: Vida e Obras de Zola por A. Luquet, Arte de amar de uma cabecinha louca, romance de Sousa Costa e Antero de Quental por Ramos de Almeida. [...] Antero de Quental – apogeu, decadência e morte, de António Ramos de Almeida, faz parte dos Cadernos Azuis – n.os 9 e 10. Nos n.os 5 e 6 já êste escritor tratara de Antero de Quental – infância e juventude. Com a saída dos n.os 9 e 10 fica concluído o estudo que Ramos de Almeida faz, proficientemente, sobre aquêle notável escritor. Há a registar, com louvor, êste trabalho sobre Antero de Quental por ser feito com desenvolvimento, com inteligência, com certa originalidade. É um estudo que foge da vulgaridade de outros sobre o mesmo assunto. O autor encarou o ilustre biografado pelo seu prisma e dêle estudou, desenvolvidamente a faceta humana”21. Jornal do Comércio. Suplemento Domingo “António Ramos de Almeida prossegue na sua análise da vida de um dos seres mais torturados pelo pensamento que jámais viveram em Portugal e até no mundo. «Antero de Quental», publicado nos cadernos azuis, da Livraria Latina, cujo esforço editorial se deve também pôr em merecido relevo, é uma biografia crítica do apóstolo de novas escolas e novas doutrinas que tam grande influência havia de ter na nossa vida intelectual e até mesmo na nossa vida política. No primeiro volume era a juventude do poeta que se analisava; neste é o seu apogeu, de cadência e morte. De Decadência fala o dr. Ramos de Almeida. Não sabemos, contudo, se se poderá aplicar semelhante palavra a quem toda a vida foi 20 Diário Popular. Lisboa, ano II, n.º 488 (3 de fevereiro de 1944) p. 8. 21 FERREIRA, João Maria – De tudo. Gazeta de Cantanhede. Cantanhede, ano XXVII, n.º 1381 (5 de fevereiro de 1944) p. 4.

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de tam irregulares sentimentos como Antero; não nos parece que o pensamento do poeta tenha enfraquecido – ou decaído – nos últimos tempos de sua vida. Se as suas torturas físicas foram mais intensas, foram-no também as suas torturas morais, o que não significa forçosamente decadência. Não se manifestam elas bem nítidas, na primeira fase da sua vida literária?

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O estudo do Dr. Ramos Dias [leia-se de Almeida] é caracterizado por uma sólida documentação e por um desprêzo das opiniões já formadas e por quási todos aceites que só o recomendam e valorizam”22. O Ilhavense “Em volume elegante, apresentou Henrique Perdigão, da Livraria Latina, os n.os 9 e 10 dos seus Cadernos Azuis. O autor é António Ramos de Almeida que trata do apogeu, decadência e morte do célebre sonetista açoreano, como já tratou da sua infância e juventude nos n.os 5 e 6. Antero de Quental é estudado sob um aspecto novo, o revolucionário e internacionalista e, aqui, nem sempre objectivamente, pois Ramos de Almeida força a nota para fazer um trabalho com outras finalidades que não são o simples conhecimento e a mera interpretação de Antero. Boa apresentação, como sempre, da Latina Editora do Porto”23. O Setubalense “Antero de Quental – esse génio poético que atingiu na poesia portuguesa um dos mais altos lugares, esse vencido da vida que foi expoente da metafísica na nossa história literária – acaba de encontrar em António Ramos de Almeida uma apreciação à sua obra literária e social através do livro «ANTERO DE QUENTAL», editado pela Livraria Latina. É o 2.º e ultimo volume que sobre Antero o autor publica. Do primeiro volume já nos ocupamos nestas colunas em devido tempo. Falêmos deste 2.º volume em que o autor foca o apogeu, a decadência e a dramática morte do Poeta. O livro é de sentido crítico. É um ensaio equilibrado. O trabalho documenta-se sobre as páginas de prosa social, um socialismo dum cérebro iluminado por uma fé extraordináriamente ardente, um Socialismo pelo qual o Poeta batalhou inflamadamente, gritando aos quatro ventos períodos como êste: «O capital é o rei do Mundo: é mais: é um deus, o deus desta sociedade corrupta e injusta, mas um deus feito à imagem dela, como ela corruptor, injusto, tirânico! O resto, o que fica depois dêsse roubo legal e organizado, é o que se atira, quási como esmola, ao trabalhador, com o nome odioso de salário! O salário, resumindo em si todas as injustiças, todas as oposições, todas as misérias da sociedade actual, será de futuro o grande acto de acusação e o corpo 22 Jornal do Comércio. Lisboa, ano 91, n.º 27117 (6 de fevereiro de 1944) p. 3. Suplemento Domingo. 23 VERNEX, Jorge – Processos sumários. O Ilhavense. Ílhavo, ano 33, n.º 1430 (10 de fevereiro de 1944) p. 3.


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de delito contra essa sociedade – e já hoje começa a ser no tribunal da consciência popular!» Mas se era assim quando se exprimia Antero no sentido revolucionario, era também assim que êle, verdadeira sensibilidade poética, que cantava: Num sonho todo feito de incerteza, de noturna e indizível piedade, é que eu vi teu olhar de piedade e (mais que piedade) de tristeza… Um místico sofrer… uma ventura feita só do perdão, só da ternura e da paz da nossa hora derradeira… Ó visão visão triste e piedosa! Fita-me assim calada, assim chorosa. E deixa-me sonhar a vida inteira! É assim que Ramos de Almeida foca a obra poética de Antero: dando-nos páginas do seu labor, acompanhadas de passos da sua vida, com comentários que merecem alguns deles certa reflexão. O trabalho de Ramos de Almeida, é bom mas está muito longe de alcançar a excelência e a profunda crítica do «ANTERO», notável estudo do Dr. Fidelino de Figueiredo, «Great atraction», editado pelo Departamento Municipal de Cultura de S. Paulo, volume grande de 224 páginas, bastante documentado, que se torna de indispensável consulta para o conhecimento mais exacto e completo dessa forte personalidade das nossas Letras”24. O Comércio do Porto “«Cadernos Azuis» – Na colecção «Cadernos Azuis» (Os Homens e as Ideias) acabam de aparecer, reunidos do mesmo volume, os n.os 9 e 10 de tão interessante série bibliográfica. Intitula-se «Antero de Quental» e é da autoria de António Ramos de Almeida. Estudo de crítica, análise e exaltação, «Antero de Quental» – que tem o sub-título de «Apogeu, decadência e morte» – é um trabalho consciencioso. Edição da Livraria Latina, do Pôrto”25. Estrela do Minho “A Livraria Latina Editora editou, recentemente, duas obras que, pela idoneidade e valor dos seus autores e pela contextura e oportunidade dos livros, merecem-nos não só as melhores referências, mas também o nosso franco aplauso. 24 LENCASTRE, Jorge de – Bibliografia. O Setubalense. Setúbal, ano XXVIII, n.º 7964 (15 de fevereiro de 1944) p. 3. 25 O Comércio do Porto. Porto, ano LXXXIX, n.º 51 (22 de fevereiro de 1944) p. 6.

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O nosso franco aplauso estende-se à «Latina»; com efeito, a iniciativa de editar Vida e Obras de Zola e Antero de Quental mostra uma atitude e revela uma responsabilidade que precisa não passe despercebida, mostrando aos editores a compreensão do leitor.

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Apresentar a um público de conhecimentos limitados e sem crítica por acostumado à desagradável e excessiva zurrapa que por tôda a parte e por tôda a gente lhe é servida em baixelas integrais ou em púcaros de barro, dois escritores e duas obras de que andamos precisados e que é mister surjam, se desejamos uma cultura séria e eficaz capaz de nos levar àquele estágio atingido por certos povos, capacita-nos que a Livraria Latina deseja, possivelmente, dirigir o seu labor editorial no sentido de dar ao mercado português (ao povo, por conseqüência) as obras que até hoje lhe tem faltado: trabalhos e divulgações inteligentes, sérias e competentes. Pensamos assim, porque julgamos que tal atitude implica a responsabilidade de continuar a trilhar tão belo e soalheiro caminho [...]”26. Diário de Lisboa “António Ramos de Almeida, que acaba de nos dar a ultima parte do seu estudo sobre Antero de Quental, critico-biografico sobre Antero de Quental, também procurou ocupar-se de uma figura a propósito da qual lhe seria grato discorrer. Antero de Quental – Apogeu, Decadencia e Morte (Livraria Latina, Porto) é o desta ultima parte do seu trabalho. Ao ocupar-me há tempos aqui mesmo das duas primeiras partes desta sua monografia, tive ocasião de referir o tom caloroso em que Ramos de Almeida apoiava tudo quanto na obra de Antero estava de acordo com as suas ideias, dêle, critico. Nesse calor se traíam, então, algumas frases de pouca objectividade interpretativa levando, por vezes, o seu autor a descer ao nível da polemica. Nesta ultima parte, a objectividade é maior. Há mais sereno reflectir nas considerações de Ramos de Almeida, não obstante se denunciar aqui, muito mais ainda que no estudo da mocidade do poeta dos Sonetos, a propensão para interpretar tendenciosamente a obra do grande escritor. A biografia e o estudo do poeta são relegados, pode dizer-se, para segundo plano. Ramos de Almeida compraz-se em estudar a fase socialista de Antero, insistindo demasiado nessa sua tendência em detrimento da outra: a fase verdadeiramente importante para quem queira penetrar fundo no estudo da evolução psicológica e filosófica do grande escritor. Aliás, Ramos de Almeida proclama, quasi em cada pagina, que as ideias sociais do poeta das Odes Modernas são extremamente ingénuas. Mais uma razão, parece-nos, para atentar de preferência naquilo em que Antero não era positivamente de uma grande ingenuidade.

26 PONTES, Celso – Bom Caminho. Estrela do Minho. Vila Nova de Famalicão, ano 49, n.º 2519 (27 de fevereiro de 1944) p. 4.


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O estudo da existência de um homem tão complexo não se compadece, realmente, com parcialismos de ordem social ou politica. A atitude socializante de Antero era uma das modalidades que assumia nêle aquela ansia de perfeição moral tão inquieta e pateticamente documentada nos seus sonetos. É certo que para um espirito como Ramos de Almeida – espirito avido de proselitismo – compreender e aprofundar importa muito menos que afirmar e fazer adeptos. Ingenuo embora, Antero de Quental, no seu apogeu, sempre lutou pelo ideal que arrebata o seu biografo. É compreensivel portanto que seja a esse período da existencia do poeta que Ramos de Almeida consagra os seus entusiasmos. À medida que a morte se aproxima e que êle vai renunciando á luta colectiva a favor do combate consigo mesmo, Ramos de Almeida esfria. Os grandes problemas íntimos da personalidade já não parecem merecer-lhe grande atenção. O sentimento de classe aparece, para que Ramos de Almeida possa explicar mais airosamente aquilo mesmo que transcende os limites da sua interpretação. «No fundo de Antero, escreve êle, ficou sempre, apesar da sua luta titanica, o peso do passado, a sua consciencia de classe, o resto da sua fé religiosa, o virus da metafisica, gritando a sua libertação e a sua vitoria». De facto, é comodo explicar assim o que, afinal, de outra maneira se arriscaria a não ter explicação. Tenho receio de que, dentro de alguns anos, possa vir a acontecer a Ramos de Almeida o que presentemente está acontecendo a Antero de Quental, quando estudado por espiritos da estirpe do autor dêste estudo. A ingenuidade com que o critico o brinda quasi em cada pagina do seu estudo – voltar-se-á um dia contra aqueles que se supõem na posse da ciencia da personalidade e então ver-se-á quem era realmente ingenuo: aquele que tudo julga compreender graças á maravilhosa panaceia que reduz o homem a um jôgo de factores economicos e sociais ou aqueloutro cuja vida foi uma busca angustiosa da Verdade inatingivel. Não quero menosprezar com isto o trabalho de Ramos de Almeida, onde se afirmam valiosas qualidades de exposição e um coerente criterio doutrinario. Que êste estudo seja um ensaio para mais largos vôos no porvir é o que sinceramente desejo. Oxalá, porém, nessa altura já em Ramos de Almeida tenha amadurecido a auto-critica, presentemente verde ainda, e que seja ela, antes de mais ninguem, a segredar-lhe ao ouvido: «cuidado com as ingenuidades, meu velho»”27. Vida Mundial Ilustrada “Nas biografias e estudos críticos publicados desde o centenário do nascimento de Antero sôbre essa estranha e inesgotável figura da vida portuguesa, o trabalho de António Ramos de Almeida em três tomos dos «Cadernos Azuis» foi um dos mais úteis e oportunos. Para isso concorrem igualmente as suas qualidades e os seus defeitos – a simplicidade e clareza da narrativa e a falta de novidade audaciosa nas interpretações. 27 SIMÕES, João Gaspar – Os livros da semana. Diário de Lisboa. Lisboa, ano 24, n.º 7674 (6 de abril de 1944). Uma parte do artigo foi reproduzida na badana da obra Eça: ALMEIDA, António Ramos de – Eça. Porto: Livraria Latina Editora, 1945.

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A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida

É um êrro muito vulgar supôr-se que a personalidade e a obra de Antero podem ser «tratadas» literàriamente com objectividade, isto é, com rigorosa sujeição ao objecto estudado, com imparcial e exacto julgamento, sem tese e sem critérios pessoais. No entanto, ninguém estranha, como seria lógico esperar-se, que em tal caso a personalidade e a obra literária apareçam íntima e estreitamente ligadas, sem que possam separar-se uma da outra e constituindo problemas humanos intercorrentes que nunca se conseguem desarticular. 42

Em princípio (como intuito prévio e nos primeiros passos do seu trabalho) Ramos de Almeida deixou arrastar-se por essa ilusão. Justamente porque Antero não é um escritor, nem um homem que se observe em obras definidas, mas um problema de múltiplos aspectos, o seu julgamento na mais larga riqueza de sentidos só pode efectuar-se através de uma perspectiva crítica tão fundamentada quanto possível, tão profunda quanto puder ser, relativista e interpretativa, portanto pessoal. Não se percebe bem o que Ramos de Almeida pretende quando afirma que êste trabalho «não é uma tese porque fugi a criar em tôrno do poeta dos «Sonetos» mais uma teoria mistificadora». Para um público mal instruído e mal informado como o nosso, pode muito bem ser a pior das mistificações, em certos casos, apresentar a figura de Antero, juntamente com a análise descritiva da sua obra, sem as versar no mais largo domínio da teoría. Neste estudo, felizmente, a capacidade intelectual do autor riu-se do seu propósito. O que realizou não foi uma obra sem teoria e sem tese – foi o outro objectivo que muito bem expôs e muito bem cumpriu. «Interpretar Antero na totalidade das suas qualidades e dos seus defeitos, vendo-o à luz do condicionamento humano e social em que viveu nos fins do século passado». Para o conseguir submeteu-se a tudo o que faz o inteligente apreciador de Antero: ficção literária, reconstituïção de ambientes, interpretações ousadas e discutíveis. Tão discutíveis que realmente nos aparece muitas vezes em plena expressão do seu grande conteúdo êsse dramático, emocionante, perturbador Antero que nunca terá o seu «estudo definitivo». Se o poeta dos «Sonetos» foi pouco contemplativo e anti-plástico; se foi «o mais gigantesco lutador de todos os mitos do estabelecido»; se o idealismo o atraiçoou ou foi êle que traíu, pela vida e pela morte, o autêntico idealismo; se a acção anteriana pode desmentir a idéia, se pode explicar-se apenas pela ingenuidade o seu idealismo revolucionário – tudo isso são teses que a boa garra crítica de Ramos de Almeida exprimiu com largueza; e o seu maior mérito está precisamente em oferecer aos que as lerem a melhor adesão que é o estímulo a outra análise crítica dos mesmos temas. Quando o autor dêste trabalho biográfico se diminue é nas páginas, bastante numerosas, em que o narrativo predomina sôbre o interpretativo; e como inconvenientes acessórios da obra, podem mencionar-se ainda o fracasso no estudo das influências que sofreu Antero; a indecisão, sentimentalidade vulgar, paisagismo externo exagerado no estudo da infância e adolescência do poeta; a evasão do problema da morte de Antero, que é um dos elementos fundamentais da sua vida e da sua obra


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– talvez o mais arrebatador para quem o julgar na integridade da sua significação humana. Não se pode dizer também que Ramos de Almeida soubesse apreciar com a amplitude necessária à questão, não muito difícil mas com extrema actualidade, das relações de Antero com o socialismo do seu tempo; da compreensão que teve ou não teve da época político-social que atravessou e, sobretudo das razões que o desviaram (ou mesmo fizeram ignorar) do socialismo científico já então formulado. No restante, que é muito, êste biógrafo de Antero soube reconhecer e exprimir o que mais importa da sua sedutora personalidade para as gerações novas. Até o entusiasmo na admiração constitue uma virtude neste livro, para quem se habitua a encontrar neste país, a amarga e gelada indiferença dos medíocres pelos que os ultrapassam. Sincero e justo, apaixonado pelas grandes e generosas devoções do génio ao destino comum que a outros parece banal, Ramos de Almeida soube identificar-se com o seu nobre têma e viver nêle com toda a alma. Isso basta para que da obra irradie uma simpatia humana e uma sugestão compreensiva que aos leitores dirá quási tanto como a mais profunda e séria especulação crítica.”28. Diário de Lisboa “[...] Ramos de Almeida concluiu a publicação do seu Antero de Quental, apogeu, decadência e morte, obra cheia de propósitos definidos em que o entusiasmo esmaga por vezes a serenidade expositiva [...]”29. Jornal do Comércio. Suplemento Domingo “Os Cadernos sôbre Antero revelariam um escritor de garra, se êle já não estivesse revelado. Os nossos ensaistas escrevem na generalidade em estilo impessoal, morto, frio e, por vezes, horrìvelmente maçador. António Ramos de Almeida, pelo contrário, é duma pujança, duma força, duma versatibilidade raras senão únicas na actualidade. Repleto de imagens audaciosas e vibrantes, o estilo de António Ramos de Almeida ganha neste estudo as gamas do descritivo, do explicativo, do interpretativo, do crítico com uma naturalidade impressionante [...]. Ter revelado o Antero Humano parece-me ter sido essa a grande preocupação de António Ramos de Almeida – como êle próprio o diz na nota inicial ao trabalho. Se o foi conseguiu-o de maneira mais perfeita. Antero era até aí um mito, uma tese, uma cousa obscura e complicada. António Ramos de Almeida deu-nos a sua grandeza humana, revelando as suas fraquezas, sem o diminuir e os seus êrros sem o menosprezar”30. 28 SALEMA, Álvaro – Literatura: Antero de Quental por António Ramos de Almeida. Vida Mundial Ilustrada. Lisboa, ano III, n.º 152 (13 de abril de 1944) p. 20. Uma parte do artigo foi reproduzida na badana da obra Eça: ALMEIDA, António Ramos de – Eça. Porto: Livraria Latina Editora, 1945. 29 SIMÕES, João Gaspar – A literatura em 1944: um ano literário sob o signo de Eça de Queiroz. Diário de Lisboa. Lisboa, ano 24, n.º 7938 (30 de dezembro de 1944) p. 17. 30 TRAJANO, José – Jornal do Comércio. Suplemento Domingo. O artigo foi reproduzido na badana da obra Eça: ALMEIDA, António Ramos de – Eça. Porto: Livraria Latina Editora, 1945.

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António Ramos de Almeida e o ensaio sobre Eça de Queiroz No âmbito do centenário do nascimento de Eça de Queiroz, em 1945, a Livraria Latina Editora publicou mais um ensaio de António Ramos de Almeida. Confiando ao autor, cerca de um ano antes, a conceção deste trabalho, anunciou na imprensa, desde abril de 1944, a sua edição.

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ALMEIDA, António Ramos de – Eça. Porto: Livraria Latina Editora, 1945. No Livro de Ofertas de Edições encontram-se mencionados, em outubro de 1945, data do início da sua comercialização, os nomes do autor e de Licínio Perdigão, Casa Museu Guerra Junqueiro, Mário Eleutério, Bertrand, José Filipe C. Silva, O Século, Diário de Notícias, Democracia do Sul, Notícias de Melgaço, O Século Ilustrado, Vida Mundial Ilustrada, Reconquista, Semana Tirsense, Brados do Alentejo, Gazeta de Cantanhede, Diário de Lisboa, República, Beira Vouga, Ocidente, Emissora Nacional, Brotéria, Seara Nova, Julieta Ferrão, João Maria Ferreira, Oldemiro César, Mário Portocarrero Casimiro, Jorge Vernex, Zeferino Moura, Correio dos Açores, João Pedro de Andrade, Leite Faria, Teixeira da Rocha, Carlos Sombrio, Livraria Lello, Araújo Lima, Portucale, Pinto Azevedo Júnior, A. Nascimento e Maria do Lar. Para além da publicidade n’O Primeiro de Janeiro, O Comércio do Porto, Diário de Notícias, Diário de Lisboa, o ensaio de António Ramos de Almeida sobre Eça surgiu em vários momentos nas páginas da imprensa escrita, designadamente através de artigos assinados por Celso Pontes (Estrela do Minho), J. Mendes (Brotéria), Vasco de Lemos Mourisca (Beira Vouga) e João Maria Ferreira (Estrela do Minho) e ainda nos jornais Gazeta de Coimbra, Gazeta Literária, Flôr do Tâmega, Democracia do Sul, O Século Ilustrado e O Comércio da Póvoa de Varzim. Estrela do Minho “[...] No próximo ano comemorar-se-á o primeiro centenário do nascimento de Eça de Queiroz, do actualíssimo Eça, dêsse magnífico escritor de que e de quem conhecemos menos, apesar de darmos a liceus, ruas, praças, jardins e monumentos o seu nome, do que muitos povos se nos avantajam em cultura e de que deles falamos com um ignorante desdém. Pois bem, com vistas a um alargamento de cultura, preparem-se os homens cultos, os pedagogos, os críticos, os homens de idéias e de acções para assentarem num plano de realizações sérias, capazes de tornar Eça melhor conhecido, por mais lido; compreendido e por melhor estudado; e para pô-lo, artista, sim, mas desatualizado por falta do ambiente e do meio que gera os Acácios, os Amaros, os Pachecos, etc., que nos esmagam e não nos deixam ir mais além [...].


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ALMEIDA, António Ramos de – Eça. Porto: Livraria Latina Editora, 1945.


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Mas quem, editorialmente, estudará, ordenará e nos dará boas e acessíveis publicações? Quem chamará a si tão magnífica iniciativa? A Livraria Latina tomou uma posição nítida ao festejar o seu segundo aniversário e o Norte espera uma editorial nortenha que se mostre à altura de compreender a nossa situação cultural e que a resolva. Que caminho irá percorrer agora a Latina Editora? Chamará a si, entre outras, boas iniciativas, a de dar ao País os livros de que carece sôbre Eça de Queiroz? 46

A Latina tomou uma atitude aplaudível e o caminho aliciante que se lhe depara, não a deixará paralizada a pensar e a publicar livros que tão pouco dão a pêso”31. Gazeta de Coimbra “Com a aproximação da data centenária do nascimento de Eça de Queiroz, parece esboçar-se certo movimento de simpatia com a ideia de se celebrar condignamente essa data [...]. No ano de 1945 passa esse centenário, o centenário do autor de «O crime do padre Amaro», de «A ilustre casa de Ramires», de «Os Maias», da «Correspondência de Fradique Mendes». Para que êle seja condignamente celebrado, é mister que se vão lançando, desde já, os alicerces para essa comemoração. Nada de guardar, como é nosso uso, para a última hora, o que deve ser feito com tempo e a tempo e horas preparar-se [...]. Sabemos que uma importante livraria do Pôrto, apesar de contar simplesmente dois anos de existência, mas que, assim mesmo, tem desenvolvido já grande actividade editorial, publicará, sobre a obra de Eça de Queiroz, um volume por ocasião da data do referido 1.º centenário do nascimento do escritor. Referimo-nos à «Livraria Latina» que é dirigida pelo sr. Henrique Perdigão, autor do «Dicionário Universal de Literatura», de que, em 1940, se publicou a 2.ª edição ampliada”32. Gazeta Literária “O poeta e ensaísta António Ramos de Almeida, que recentemente publicou um notável estudo biográfico-crítico de Antero de Quental, vai publicar uma obra sôbre Eça de Queiroz, que será editada pela Latina Editora, desta cidade. Depois dos exaustivos estudos de Alvaro Lins, Viana Moog e Clovis Ramalhete, publicados no Brasil, será o trabalho de Ramos de Almeida a primeira obra de fôlego publicada em Portugal sôbre o grande romancista. Sabemos que mais do que da figura do homem, o ensaísta português se ocupará da crítica das obras de Eça”33. 31 PONTES, Celso – Bom Caminho. Estrela do Minho. Vila Nova de Famalicão (27 de fevereiro de 1944). 32 Gazeta de Coimbra. Coimbra, ano 33, n.º 4679 (18 de abril de 1944) p. 2. 33 Gazeta Literária. Porto (29 de abril de 1944).


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Flôr do Tâmega “Sai brevemente a público êste trabalho do escritor e poeta da moderna geração Dr. Ramos de Almeida, contribuição da Latina nas comemorações do centenário do nascimento de Eça”34. Democracia do Sul “A Livraria Latina Editora, do Porto, quiz contribuir para as merecidas comemorações do centenário de Eça de Queiroz, que agora vão ter lugar. E fê-lo com a publicação do livro «Eça», onde o seu autor, António Ramos de Almeida, fez minuciosa e pormenorizada análise ao incomparável escritor, à sua obra, vista e apreciada sob variados aspectos, à sua vida, etc. No prefácio dizem os editores: «Durante vários anos, desenvolveu-se entre nós uma larga campanha de descrédito com que se procurou, em vão, atingir não só o genial Eça, mas também toda a notável geração de 70. A inevitável reacção do bom senso e da justiça, em relação a esses homens, começou a surgir no Brasil, a que algumas vozes isoladas de portugueses ousaram vir juntar-se. Entretanto, a imortalidade da Obra de Eça não se compadeceu com tão inútil campanha e o preito de admiração e de respeito que hoje lhe rende toda a moderna geração da cultura portuguesa, constitui, portanto, não apenas um dever de justiça, mas também de necessária e imperativa reabilitação». Para que os nossos leitores possam avaliar do espirito criterioso do autor deste livro, no capitulo intitulado «Eça para além dos cem anos», ao referir-se ao presente ano – ao ano do centenário de Eça –, diz: «A época das Ditaduras feneceu. Os Hitlers e os Mussolines, dois símbolos da tirania que sairam das massas para as trair e se bandearem, desapareceram tràgicamente da vida política da Europa. O fascismo rendeu-se incondicionalmente. O dístico Eleições Livres tornou-se a palavra de ordem na Europa Ocidental.» E mais adiante diz: «Neste instante histórico em que parece que vamos assistir a uma viragem, Eça surge-nos como o romancista português que nos lega o mapa social e humano de uma época, o testamento de uma classe, a crítica de uma sociedade». «Eça» é, sob todos os aspectos – literário, histórico e social – o mais completo e perfeito livro que àcêrca do grande escritor surge no ano em que se vai celebrar o seu 1.º centenário. À Livraria Latina Editora agradecemos a oferta desta obra que já se encontra à venda nas livrarias desta cidade”35.

34 Flôr do Tâmega. Amarante, ano 60, n.º 3056 (26 de agosto de 1945) p. 3. 35 Democracia do Sul. Évora (11 de novembro de 1945).

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O Século Ilustrado “Mais uma contribuição para a comemoração centenária do nascimento de Eça de Queiroz. O autor, que já em «Antero de Quental» tinha afirmado as suas qualidades de critico analista, apresenta-nos no seu «Eça» o homem, o artista, o ideologo, o «dandy», o humorista, o autor de caricaturas que ficaram como simbolos e que – ai de nós – como simbolos vivos existem hoje como existiram ao tempo dessa «geração de 70». 48

Estudo demorado, muita observação, acertado criterio, revela êste volume que é mais uma voz clara que nos traz duas afirmações: uma que nos envaidece e outra que nos faz tristeza: 1.ª: Tivemos um grande romancista no século passado, um grande escritor que mereceu a comemoração centenaria do seu nascimento. 2.ª: Vamos caminhando velozmente para outra comemoração centenaria que deverá ser feita em silencio: a da ausencia dum segundo Eça. «Crime do padre Amaro», «Maias», «Primo Basilio» representam, na quasi totalidade, a bagagem literaria dum seculo no campo da literatura de ficção. Esta pobreza que eleva Eça de Queiroz não é de molde a envaidecer-nos a pintura que êle nos legou da nossa psicologia estreita e ainda não se desvaneceu. Duas ou três gerações têm tido o cuidado de a manter longe do sol e bem encaixilhada para que não desbote o colorido. Cuidado êste que se, por um lado prova a continuidade da raça, por outro afirma o nosso hábito de progredir «ou ralenti». E a nossa galeria de retratos continuará a mostrar aos turistas do espirito a Sanjoaneira, o Carlos da Maia, o Basilio, o conego Dias, o Palma Cavalão e êsse Jacinto farto de requintes e campainhas electricas a redimir na quinta de Tormes a orelheira, a couve penca e o tamanco. Num assomo de óptimismo saudavel pensemos que se de 70 para cá tivessem aparecido cinco ou seis Eças no nosso mundo das letras não teriamos agora o prazer de lêr tantas obras escritas em homenagem àquele que foi o unico. Por tudo, «Eça», de Ramos de Almeida, é dos mais completos estudos que até agora apareceram sôbre o grande escritor que a si próprio se designava como «pobre homem da Povoa de Varzim»”36. Estrela do Minho “Eça de Queiroz está na ordem do dia, pelo que os livros, os livrinhos e os livrescos que, sobre o grande romancista, se têm publicado são em número quase infinito. De três livros – livros autênticos e bons – eu vou dizer a minha impressão pela ordem do seu recebimento, que é sempre a melhor para não ferir susceptibilidades. 36 O Século Ilustrado. Lisboa (1 de dezembro de 1945).


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O primeiro que, sobre Eça, veio pousar sôbre a minha mesa de trabalho, enviado pelos editores: Dr. Renato Perdigão e Mário Perdigão, foi o livro Eça do sr. António Ramos de Almeida. Livraria Latina Editora, de que são proprietários os dois ilustres editores acima citados fizeram uma bem cuidada edição deste trabalho do distinto ensaísta. E bem o mereceu o autor que, tratando de Eça, o estuda em todas as modalidades do seu talento e, também, como homem, integrado na sociedade do seu tempo. Neste trabalho do ilustre ensaísta há a notar a minúcia de cada capítulo, que é uma faceta da obra do ensaiado ou dele próprio, como homem, e a maneira como essa observação é feita; maneira que nada tem de impessoal. Ao contrário de outros ensaístas, monótonos na linguagem e de forma apagada e fria, Ramos de Almeida, tem uma linguagem viva, expressão forte, forma rica e delicada, onde aparecem alguns neologismos. A obra e vida social de Eça é desfibrada com verdade e elegância e muitas vezes, comentada com coerente critério. Parece-me ser este o maior trabalho sôbre Eça, pelo menos aquele que melhor estuda e analisa, em profundidade, a obra do Mestre romancista, que foi Eça de Queiroz. Mas o certo é que António Ramos de Almeida mais uma vez nos mostra, como muito bem se diz na Nota dos Editores, «as suas excepcionais qualidades de biógrafo, crítico literário e observador personalíssimo e arguto dos homens e das coisas». E, com a publicação deste bom trabalho, a Livraria Latina Editora deu, patrioticamente e brilhantemente, uma valiosa contribuição para as Comemorações do Centenário de Eça de Queiroz [...]”37. Gazeta de Coimbra “Pode classificar-se de apreciável contributo não só para o centenário de Eça de Queiroz, ou seja a celebração duma data memorável, mas também para a divulgação da obra tão fecunda como magistral, do romancista insigne, êste estudo «Eça». Vê-se que Ramos de Almeida estava intimamente familiarizado com o grande prosador, o que não quer dizer que se não tenha integrado mais profundamente na vasta obra queiroziana, para exprimir tão amplamente a sua análise. «A obra literária de Eça de Queiroz, – diz o autor – é daquelas que pela sua complexidade e rica variedade, não se limita, nem se define.

37 FERREIRA, João Maria – Chá das Cinco: Da minha estante. Estrela do Minho. Vila Nova de Famalicão, ano 51, n.º 2614 (16 de dezembro de 1945) p. 2.

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Querer sustê-la na nossa mão, firmemente, é impossível, porque escorrega e se esgueira por entre os dedos como se fosse visgo. Repleta de contradições e de paradoxos, a obra de Eça é o retrato em corpo inteiro, dêle próprio». Ramos de Almeida analisa, comenta, clamando: «Eu apenas quis dizer dêle a verdade, nada mais. Basta de mistifica-lo, de glosá-lo, de explorá-lo».

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O autor, ao apresentar êste amplo estudo crítico, ergue a sua voz contra as injustiças que tenham pretendido obscurecer a obra que viverá dentro do seu halo de glória imperecível, marcando a intensa actividade do escritor que serviu as nossas letras com o cunho pessoal da sua ironia inimitável, e do seu fulgurante talento, tudo tão alto que, como diz Ramos de Almeida neste valioso estudo, Eça «continua vivo, a pontos de se tornar presente e actual»”38. O Comércio da Póvoa de Varzim “Passou êste ano o centenário do nascimento de Eça de Queiroz. Tôda a gente o sabe, de o ver escrito de há uns tempos para cá. António Ramos de Almeida – já conhecido e apreciado em poesia («Sinal de Alarme», «Sinfonia da Guerra», «Sêde»), em conferências («A arte e a vida», «A nova descoberta do Brasil») e num estudo critico sôbre Antero de Quental – veio falar-nos de Eça. Edição da Livraria Latina, em apresentação de capa felicíssima. O trabalho de Ramos de Almeida é magistral. Honesto, desmistificador, acessível. Classifica de Ensaios o livro e, de facto, cada um dos 12 capítulos é um ensaio completo e perfeito. Eça de Queiroz é-nos apresentado a uma luz nova – luz que esclarece, diz a autêntica verdade, não repetindo elogios acacianos e classificações tendenciosas. E Eça não sai apequenado de tal estudo consciencioso. Pelo contrário. Sentimo-lo maior porque mais humano, mais humano porque mais próximo de nós, mais compreensível. Ramos de Almeida estuda em conjunto o seu escritor e os dois que escreveram os romances mais lindos em Portugal: Camilo com o Amor de Perdição e Júlio Diniz com As Pupilas do Senhor Reitor. «Se, nas obras romanescas de Eça, as convenções acabam por vencer e dominar as paixões; nas de Camilo os convencionalismos nunca vencem e são antes as paixões humanas que acabam por triunfar, sobrepondo-se e reduzindo todas as convenções. E assim é o povo.» «O humanitarismo piegas e o idealismo fácil que emergem da obra de Júlio Diniz, transformam-no num escritor querido do povo português, simultâneamente mistificado por idealismos fáceis e humanitarismos piegas.» «Eça só poderá ser um escritor popular quando as classes trabalhadoras, que constituem a maioria do povo, superarem a sua ignorância primitiva, isto é, quando puderem atingir por meio de cultura – o que só conseguirão depois da sua 38 Gazeta de Coimbra. Coimbra, ano 35, n.º 4925 (18 de dezembro de 1945) p. 2.


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libertação económica – a crítica subtil da obra de Eça de Queiroz e mais tôdas as outras profundas virtualidades humanas e estéticas que nela residem.» Fala-nos, com honestidade, da posição de Eça perante a realidade imediata, em ensaios que parecem anular-se e que docemente, afinal, os dois Eças que é necessário distinguir: um que esteve sempre à margem de qualquer acção e, outro que descreveu e criticou a sociedade do seu tempo. Diz-nos do poder corrosivo da obra eciana, da sua observação perspicaz da «decadência das classes dirigentes, nas suas ideias informadoras e nas suas tradições decrépitas, no ridículo das suas velharias e na pomposa fraseologia das mistificações, que ainda hoje perduram.» E mostra-nos como «ninguém, entre nós apontou com mais verdade os vícios, os ridículos, as falsidades daqueles que por diferentes caminhos atingiram os lugares de comando e de domínio». Ramos de Almeida abre os olhos a muita gente atacando com decisão um dos pontos de mais polémica: que foi Eça politicamente? Todos o têm pretendido levar para o seu grupinho. «Eça de Queiroz tem sido rotulado de tudo: democrata, socialista, bolchevista, anarquista e nacionalista, apesar de ser quási sempre apodado de desnacionalizante e extrangeirado.» Mas «Eça não desfralda qualquer bandeira, antes pelo contrário, coloca diante de si uma missão: descobrir a realidade. As suas Farpas representam um esforço honesto de desmistificação da realidade que não foi igualado por nenhum dos seus contemporâneos, sobretudo, porque todos se deixaram dominar por uma mística.» Tem o autor vários ensaios sôbre os romances de Eça. Sôbre os romances, sôbre as caricaturas e os símbolos, sôbre os contos, as crónicas, os artigos e ainda sôbre as cartas. Crítica circunstanciada e esclarecedora. Padrão notável que ficará a marcar uma época. O condicionalismo em que viveu o escritor, o ambiente dos romances – tudo é considerado e julgado imparcialmente. Mas seria demasiado extenso se passasse a descrever do trabalho de Ramos de Almeida. Peor ainda se me alargasse às influências e ao estilo e à ironia e à sátira que o autor investiga com argúcia e minúcia. Apenas para finalizar me quero reflectir ao último capítulo. «Eça para além dos cem anos» é um capítulo formidável. Começa por historiar, à luz do materialismo dialéctico, o que êste ano de 1945 representa para a evolução da humanidade. «Para lá de tôdas as nebulosas mistificações que ainda restam, todos nós sentimos que neste ano de 1945, o Homem se voltou decididamente para o Futuro e que, apesar de todas as marras que ainda restam, cortou com o passado. A consciência humana venceu mais um interregno, cuja vigência demorava». Primeiro, a decomposição. «Cada vez mais devassa, mais decadente, mais pôdre, no uso sumptuário do seu poderio económico, político e social, a classe dominante acelerou desde o fim da guerra 14-18 – cujos resultados conseguiu ainda ludibriar e trair – a sua marcha para a falência e o fim.» Depois o clarear do novo dia. «A época das Ditaduras feneceu. Os Hitlers e os Mussolines, dois símbolos da tirania que saíram

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das massas para as trair e se bandearem, desapareceram tragicamente da vida política da Europa.»

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O ano da Vitória – precisamente o do Centenário de Eça. Ramos de Almeida aproveita a coincidência para contar a sobrevivência do grande escritor. «Neste instante histórico em que parece que vamos assistir a uma viragem, Eça surge-nos como um romancista português, que nos lega o mapa social e humanos de uma época, o testamento de uma classe, a crítica de uma sociedade. É o mais próximo de todos os escritores do passado, porque a sua obra dá presença a esse passado.» Eis o livro de Ramos de Almeida sôbre Eça de Queiroz. Eis um modelo de crítica honesta, consciente e acessível. Obra que se impõe na literatura nova que está rejuvenescendo Portugal”39. Beira Vouga “Ramos de Almeida, o ensaísta de Antero, traz-nos agora o seu depoïmento sôbre Eça de Queiroz. Este último livro veio completar a impressão que já tinha do seu autor. Ramos de Almeida é um ensaísta, mas não é um crítico literário. E no ensaio tem virtudes muito apreciáveis: capacidade de jogar com ideias gerais, qualidade de ver o essencial, dom de levantar hipóteses, entusiasmo para rebater opiniões divergentes da sua e um estilo quente e fogoso (por vezes manchado de exclamações). Como crítico literário ponho-lhe restrições. O mesmo dom de erguer hipóteses, porventura alicerçadas em subtilezas que podem falsear a finalidade da obra, parece-me muito escorregadio em crítica literária. Uma hipótese, sem ser documentada, tem sempre um cunho de aventura que a crítica literária nâo pode acolher de ânimo leve. Ramos de Almeida, por outro lado, adere demais às personalidades que foca. Quase que combate por elas! Neste livro as manchas do romancista, diluem-se na prosa forte do ensaísta. Ramos de Almeida tem a qualidade de ver o essencial, mas deixa escapar, por vezes, pormenores úteis para a visão de conjunto da obra literária. Vê o essencial, nos romances de Eça, mas não tira as necessárias conclusões que nos habilitem a formular um juizo, que não seja parcelar, sôbre a estética do romancista. Tanto quanto nos permite o espaço, vamos fazer uma digressão pelo livro de Ramos de Almeida. Fá-la-emos por tópicos, a traços largos, discutindo pouco, mesmo o que seja muito discutível. O livro começa com a comparação entre Camilo e Eça, feita com inteligência. A comparação pode resumir-se nisto: mais península em Camilo e menos península em Eça. Dum lado a fôrça das paixões incendiadas, doutro lado os «empurrões do instinto», o «preamar do cio», o «alarido áspero dos desejos» como aponta Moniz Barreto. 39 O Comércio da Póvoa de Varzim. Póvoa de Varzim (22 de dezembro de 1945).


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Ramos de Almeida tem, a seguir, uma bela observação acêrca do pouco vulto que tem o povo na obra de Eça. Eça viu a classe popular como um diplomata. Para ele o povo foi uma mera curiosidade. Torga chegou a dizer, condenando este alheamento, que havia salões a mais e suor a menos nos romances de Eça. Ramos de Almeida explica: as classes populares não tinham, ainda, consciência autónoma e conclui – «uma classe social só adquire expansão romanesca quando adquire consciência de classe». Noutro passo da sua obra, Ramos de Almeida pretende, cautelosamente, identificar a condessa de Govarinho com uma amante que Eça teria tido em New-Castle. É uma hipótese gratuita. Afirmar, em literatura, apoiado em meras presunções é perigoso e arriscado. A não ser que Ramos de Almeida tenha algum documento que ilumine a questão. Mais adiante o ensaísta, levado pelo tal vício de levantar hipóteses, aventura: «se Eça fôsse para Paris 10 ou 15 anos antes, talvez a sua obra tivesse tido outro rumo!» Por este processo até se podia imaginar o rumo da obra de Eça, se ele tivesse ido para Paris em 1940! O próprio Ramos de Almeida nota o deslise e interroga-se: «Mas para que criar hipóteses?...» É a pergunta que o leitor lhe faz. Construir hipóteses, a maior parte delas simples jôgo de raciocínio, pouco consistentes, não me parece o papel do crítico. Noutro capítulo, Ramos de Almeida perfilha a expressão de Castelo Branco Chaves que chama a atitude essencial de Eça – «espectatorismo», vincando que o romancista se sentou à margem da vida, enquanto ela passava. É uma expressão penetrante e singularmente feliz. Mas Ramos de Almeida, logo na página 163, tem uma ligeira contradição. Se Eça era um espectador irónico da vida, se Eça estava sentado á margem, se Eça não aderia, como é que ele: «sofria com a decadência que o cercava e o seu sofrimento se transformava em esperança que brotou no mais fundo da sua consciência?» Parece-me sofrimento demais! Eça apresentou-se, na verdade, como castigador da sociedade. Ele mesmo o diz em carta a Teófilo. Nós, porém, temos o direito de perguntar até que ponto Eça, nessa carta, pretendia justificar o Primo Basílio, e até que ponto essa carta representava uma atitude de verdadeira preocupação social. Em todo o caso, Eça devia sofrer pouco com a decadência que o cercava. Tudo o que não fôsse motivo artístico não o interessava grandemente. Mesmo algumas cartas a Oliveira Martins sôbre política, são cartas cintilantes, de indivíduo que se preocupa em ser cintilante e nada mais. Será prudente não complicar a personalidade de Eça, inventando um drama (a não ser as dramáticas contas do alfaiate!) na estética Queiroziana.

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A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida

Ramos de Almeida alinha com Gaspar Simões quando afirma que Eça escreveu quase todo o «Mistério da Estrada de Sintra». Simões gasta umas páginas com deduções para tornar sólido o seu modo de ver. Ramos de Almeida não apresenta razões, limita-se a afirmar.

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Parece-me que a opinião não é pacífica e não ficou, ainda, suficientemente esclarecida. É, também, muito discutível e discutido qual será o melhor romance de Eça. Ramos de Almeida com Oliveira Martins e Fialho inclina-se, abertamente, para «O Crime do Padre Amaro». É uma opinião. Ainda, há bem pouco tempo, Régio e Gaspar Simões discutiram, indirectamente é certo, nas páginas de «O Primeiro de Janeiro», o assunto. Gaspar Simões escreveu, então, um magnífico artigo sôbre «Os Maias». Por um lado (não interessa, eu bem sei!) prefiro «Os Maias». Onde Ramos de Almeida se me afigurou extraordinàriamente feliz foi na apreciação de «A Relíquia». Tem, mesmo, um momento de rara penetração quando aborda a presumível incoerência do sonho do Raposão. Quase todos os biógrafos e estudiosos de Eça dão razão, neste ponto, à crítica de Pinheiro Chagas. Ramos de Almeida vê o problema hàbilmente e talvez seja interpretação a considerar. A pulhice de Raposão era uma «estratégia» que o meio beato e a necessidade de não o hostilizar, lhe impunham. E assim, conclui o autor, «se o sonho do Raposão está em contrário ao Raposão é porque para Eça êle era realmente o contrário daquilo que o meio beato o fizera ser» [...]”40. Brotéria “Nos dois livros anteriores de Fidelino de Figueiredo e Vieira de Almeida, leva-se a bem o diletantismo desprendido de Eça de Queiroz e a sua ausência de conclusão. As opressões do pensamento só vinham da extrema direita. Da outra banda, nada a temer para a inteligência. O primeiro daqueles críticos chegava a insistir na falsidade histórica da obra queirozeana, mas sem lhe ligar importância de maior. Se tudo se passava no campo meramente artístico, e o artista não tem de prestar contas daquilo que diz... Outros vieram, porém, que acreditam nas próprias ideias e tiram conclusões das dos outros. Entre esses, está o livro de Ramos de Almeida. Todo êle intrìnsecamente animado da ideologia comunista, um mérito pelo menos apresenta a nossos olhos: o da coerência com o sistema, e o da crença na influência da arte na vida. 40 MOURISCA, Vasco de Lemos – Movimento literário. Beira Vouga. Albergaria-a-Velha, ano 5, n.º 33 (20 de fevereiro de 1946) p. 4. Suplemento ASA.


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Para êste Autor «Eça deixou [...] a verdadeira interpretação de uma classe que dominava e dirigia» (pág. 263); o «Portugal oficial, burguês, dominante e dominador foi chicoteado com requinte» (pág. 348); «Eça atacou sempre a ‘pátria’ dos reaccionários» (pág. 370). Nisto, se pode resumir a interpretação que Ramos de Almeida, complacentemente, nos apresenta da obra de Eça. Tem razão, em buscar conclusões nessa obra, porque todo o artista, forçosamente, as fornece, nem que sejam senão as do seu cepticismo. O que seria para discutir, aqui, é se o romancista viu bem a realidade. Teve, êle, as intenções que o crítico dá como sentido da sua obra? Isso é o que já não tiramos muito a limpo dêste estudo. Dissemos, acima, que êle tinha o mértito da coerência, mas só o de uma coerência fundamental. Porque, no seu desenvolvimento, mostra uma tal pressa de composição e redacção, tal precipitação e incongruência de juizos, tal ausência de modos de ver pessoais, que dá a impressão de ter sido escrito a correr, por uma mentalidade a que o entusiasmo tirou o sentido da medida e dos cambiantes. A sintaxe dos períodos tropeça a cada passo; a boa composição cai em deslises como êste: «Camões que surgiu como uma cúpula com os pés já enterrados na decadência» (pág. 42); a morfologia apresenta anomalias como «sensaçorial» (pág. 271), «ritimo» (pág. 391), «relaixamento» (pág. 377), «Brunuitière» (pág. 276), demasiado sérias para serem gralhas; e a incoerência das opiniões, ora nos apresenta um Eça revolucionário simpatizante dos humildes como «uma das marcas essenciais da sua obra» (pág. 59), ora um «burguês com aspirações de ascender a fidalgo» (pág. 108) e um dandy que «esteve… longe e perto de todos os acontecimentos e de tôdas as ideias do seu tempo» (pág. 131), «aparentemente uma espécie de camaleão que mudava constantemente de côr» (pág. 132); mas que, não sabemos como, «não teve medo ou pudor, olhou sempre para a Verdade»… (pág. 275). A alumiar todos êstes pontos escuros, surge, por vezes, um anticlericalismo primário com as «poderosas forças de reacção armadas com as tochas da Inquisição» (pág. 43). Não; por mais que faça, o Autor não consegue arrastar Eça de Queiroz para o seu partido, apesar de o ver inscrito na Internacional. Êsse intento é a maior «mistificação» deste livro, que, por singular ironia, usa desta palavra, a propósito e a despropósito de tudo, com uma confiança ingénua no prestígio do vocábulo. Também aqui, o Conselheiro Acácio é empurrado, como um remorso, para o lado contrário. Mas, a págs. 365, a propósito da carta a Pinheiro Chagas, diz o Autor: «Nesse escrito, o talento humorístico de Eça é tão exuberante que nós temos a impressão de que êle sobra, quer dizer, ao lê-lo apetece comentar: É pena este homem ter tanto talento! Às vezes, abusa dele, como o bruto da força, o déspota do poder, ou o milionário do dinheiro». Esta frase não consegue quebrar de todo a solidariedade com Acácio. Lá diziam os admiradores exaltados de Pacheco: «Irra, que é ter talento demais!»”41. 41 MENDES, J. – Brotéria. Lisboa (abril de 1946).

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Com uma tiragem de 2000 exemplares e impressa nas Oficinas Gráficas da Sociedade de Papelaria, Lda., esta obra encontra-se estruturada em doze capítulos: Eça cem anos depois; Eça – O Homem, a vida e a obra; Eça diletante, «dandy» e esteta; Eça – A realidade e as ideologias do seu tempo; Eça romântico e realista; Eça – O romancista e os romances; Eça e as suas personagens: das caricaturas aos símbolos; Eça – Os artigos, os contos, as crónicas e as cartas; Eça e as obras póstumas; Eça – As influências e o estilo; Eça humorista: a ironia e a sátira e Eça para lá dos cem anos. Transcrevemos na íntegra a Nota dos Editores: 56

“Ao comemorar-se, êste ano, o Centenário do Nascimento de Eça de Queiroz, a Livraria Latina Editora – consciente das suas responsabilidades culturais e certa de que a melhor maneira de homenagear o grande romancista português é compreendêlo e explicá-lo – decidiu contribuir, para essas Comemorações, com a publicação do presente trabalho. Durante vários anos, desenvolveu-se entre nós uma larga campanha de descrédito com que se procurou, em vão, atingir não só o genial Eça, mas também toda a notável geração de 70. A inevitável reacção do bom senso e da justiça, em relação a esses homens, começou a surgir no Brasil, a que algumas vozes isoladas de portugueses ousaram vir juntar-se. Entretanto, a imortalidade da Obra de Eça não se compadeceu com tão inútil campanha e o preito de admiração e de respeito que hoje lhe rende toda a moderna geração da cultura portuguesa, constitui, portanto, não apenas um dever de justiça, mas também de necessária e imperativa reabilitação. A Livraria Latina Editora procurou, portanto, oferecer uma obra que correspondesse realmente aos fins enunciados. Ao confiarmos – há cêrca de um ano – êsse trabalho a António Ramos de Almeida, certos estávamos de que o consagrado autor de «Antero de Quental» nêle encontraria nova oportunidade para demonstrar as suas excepcionais qualidades de biógrafo, crítico literário e observador personalíssimo e arguto dos homens e das coisas. Com o notável espírito de independência e de imparcialidade que o caracteriza, quer-nos parecer que Ramos de Almeida não desilude, com êste seu novo trabalho, aquele largo público que pelo seu mérito próprio conquistou e que se habituou a considerá-lo como um dos renovadores da actual cultura portuguesa. Entretanto, caberá ao Público e à Crítica o julgamento definitivo. Essa Crítica e êsse Público a quem devemos a glorificação de Eça de Queiroz, o que tanto bastaria para os considerar respeitáveis em todo o mundo das letras. Pela nossa parte sentimo-nos satisfeitos em poder render esta homenagem, modesta embora, ao romancista que, cem anos após o seu nascimento, é o mais actual das letras portuguesas”42. 42 Nota dos editores in ALMEIDA, António Ramos de – Eça. Porto: Livraria Latina Editora, 1945, s.p.


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António Ramos de Almeida e a Sêde da poesia A Livraria Latina Editora foi ainda depositária de inúmeras publicações, das quais evidenciamos a obra Sêde da autoria de António Ramos de Almeida. Impresso em 1944 nas Oficinas Gráficas da Sociedade de Papelaria, Lda. e comercializado a partir de 18 de novembro de 1944, o livro apresenta dezoito poemas com ilustrações de António Sampaio: Lápide; Encontro; Declaração; Liberdade; Sinceridade; Perdão; Pic-nic; Amor eterno; Recordação; Ausência; Saudade; A noite é bela; Tu; Destino; Um filho; Neutralidade; Passeio e Profecia. Encontramos publicidade à obra n’O Comércio do Porto, O Primeiro de Janeiro, Jornal de Notícias, Diário de Notícias, Século e Diário Popular. Para além dos artigos n’O Primeiro de Janeiro, n’O Figueirense e no Diário de Lisboa (assinado por João Gaspar Simões), encontramos publicidade à obra n’O Comércio do Porto, O Primeiro de Janeiro, Jornal de Notícias, Diário de Notícias, Século e Diário Popular. O Primeiro de Janeiro “Em edição da Latina Editora, desta cidade, deve aparecer, brevemente, o volume de poemas «Sêde», da autoria do poeta e ensaísta Ramos de Almeida”43. O Figueirense “A Livraria Latina Editora, do Porto, inaugura a época literária com a publicação dos seguintes volumes: – «Mineiros», romance de Manuel do Nascimento; «Sêde», poema do Dr. António Ramos de Almeida e «Fogo maldito», poema de Jerónimo de Almeida”44. Diário de Lisboa “[...] O ano poetico – foi ano de seca. Não devemos esquecer, no entanto que em 1944 apareceram as Poesias de Alvaro de Campos, uma das obras mais fortes e originais da poesia portuguesa de todos os tempos. Sofia de Melo Breyner, publicou um livro revelador, Poesia, e António Ramos de Almeida tentou de novo as musas com Sêde [...]”45. Revista Latina: um projeto não implementado A ação cultural da Livraria Latina Editora não se limitou, porém, à atividade editorial a que já fizemos referência. Henrique Perdigão pretendeu encetar uma nova 43 O Primeiro de Janeiro. Porto, ano 75, n.º 343 (15 de dezembro de 1943) p. 6. 44 O Figueirense. Figueira da Foz, ano 26, n.º 2465 (25 de novembro de 1944) p. 4. 45 SIMÕES, João Gaspar – A literatura em 1944: um ano literário sob o signo de Eça de Queiroz. Diário de Lisboa. Lisboa, ano 24, n.º 7938 (30 de dezembro de 1944) p. 17.

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ALMEIDA, António Ramos de – Sêde: poema. [S. l.: s.n.], 1944.


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aventura editorial, relançando uma revista ilustrada consagrada à cultura, a Revista Latina. O projeto, pelo intuito cultural e pelo valor dos colaboradores chamados ao primeiro número, merece ser conhecido nos seus pontos fundamentais. Henrique Perdigão, enquanto diretor da publicação, esboçou o propósito editorial dessa revista que se pretendia mensal e que compreendia quatro seções: Letras, Arte, Turismo e Cinema. A redação e a administração seriam da Livraria Latina Editora, o editor Alfredo Fonseca Santos46, o fundador J. Camacho Pereira47, a composição e impressão das Oficinas Gráficas da Sociedade de Papelaria, Lda., no Porto. O seu lançamento fora anunciado para o dia 15 de abril de 1944. Na nota de abertura, intitulada Duas palavras de apresentação, Henrique Perdigão esclarece: “[...]a Latina era, na sua primeira fase, essencialmente uma revista de turismo. Na nova fase que hoje inicia, com novo aspecto e nova direcção, ela pretende ser, acima de tudo, uma revista de Literatura e de Arte, se bem que o Turismo lhe continue a merecer a melhor atenção. E com o Turismo – cuja secção continua entregue a quem por êle já muito tem feito, – o Cinema e outras manifestações da Arte e do Progresso”. O editorial encerra deste modo: “Quem vem dirigir a Latina, entrando, como entra, numa arena onde, até agora, só como «diletante» tem actuado, conhece bem as suas insuficiências e inaptidões. Mas, como a boa vontade e o muito amor às Letras suprem, por vezes, os dons e primores da Inteligência, perdôe-se-nos o ousadio da incumbência que tomamos sôbre nós. De uma coisa, entretanto, podem todos ficar certos: é de que não vimos para aqui servir os nossos interesses particulares, ou da Emprêsa de que fazemos parte, mas única e exclusivamente a cultura em geral e o bom nome da Literatura Portuguesa, em particular. Dessa Literatura que, dentro do âmbito da sua expressão linguística – e com perdão dos derrotistas – de modo nenhum nos envergonha ou deprime – nem deste nem do outro lado do Atlântico.” Transcrevemos uma carta de Henrique Perdigão dirigida a José Alvelos (Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo), na qual se dá conta das caraterísticas da publicação e se solicita o despacho da licença requerida: 46 Um dos sócios de Henrique Perdigão na Livraria Latina Editora, também sócio das Oficinas Gráficas da Sociedade de Papelaria, Lda., tipografia que se encarregou da impressão da maioria dos títulos publicados pela Latina. 47 Proprietário e editor da primeira série.

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Revista Latina (capa e nota de abertura para o n.ยบ1, com lanรงamento previsto para 15 de abril de 1944).


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“[...] uma revista mensal, de caracter literário e artístico, colaborada pelos nossos melhores valores actuais, e feita em papel de optima qualidade, enfim, revista que virá sem dúvida trazer ás Letras – e só ás Letras, pois tudo o que não diga respeito á política do espírito será dela inexoravelmente banido – qualquer coisa de novo, de belo e de util. Tem essa revista o nome de «Latina» e foi fundada já ha perto de 14 anos, mas há muito tinha a sua publicação suspensa, saindo apenas um número de ano a ano para garantia de título. Só em papel para ela estão empatados já mais de 30 contos, pois como V. Exa. compreende sendo o papel, hoje, a nossa maior dificuldade, temos de nos prevenir para largo tempo, por quanto as tradições que a n/ Casa já alcançou não permitem que se crie uma revista para desaparecer passados 2 ou 3 números. Não vimos com ela – é preciso frisar – criar fonte de receita para a n/ Casa; muito pelo contrário, vimos é trazer-lhe um encargo não pequeno, pois que a receita de modo nenhum cobre a despeza, mesmo que vendida seja a tiragem. Só uma pequena publicidade que naturalmente iremos fazer – mas discreta, porque não queremos uma revista de anúncios – irá, hipoteticamente, fazer contrabalançar essas despezas. Tambem não vimos, ao contrário do que possam pensar, fazer da Revista um órgão de interesse da n/ Casa. Vimos, sim, é pô-la ao serviço geral das Letras, de todos os n/ colegas, do público, enfim, mantendo o fôgo sagrado da cultura do Espírito, que é o nosso fim principal. Ora ao contrário do que V. Exa. possa supor, eu não venho, a despeito do que dito fica, pedir qualquer auxílio material para a nova revista – auxílio que, aliás, não seria imerecido. Ouso vir é pedir a valiosa interferência de V. Exa. perante o digno Director desse Secretariado, ou de quem mais possa no caso influir, para que as licenças que se pediram á Censura no sentido de ser autorizada a saida da revista, sejam concedidas sem entraves. Quem pede essas licenças é o próprio proprietário da revista (é o seu nome J. Pereira) pois ele não nos quís vender o título, que lhe propusemos comprar, para que a publicação fosse só nossa. Assim e segundo o contracto que temos, a revista passará a ser da nossa direcção e administração exclusivas, mas… dele a propriedade. Claro que nos não agrada nada esta situação, mas nós só a aceitamos pela dificuldade que sabemos que há de darem autorização para se fundarem revistas novas. Ora é sobre este ponto que venho, principalmente, valer-me de V. Exa: Dado o carácter que á revista vamos imprimir e á garantia que estamos dispostos a dar, como e quando nos seja exigida, não seria possível obter-se licença para publicarmos uma revista NOVA, desse género, que seria, então, só nossa e… de todos os que ainda teem fé de que o Espírito não morre? É a esse respeito que desejava ouvir V. Exa., crente como estou, de que o assunto não poderá deixar de interessar o seu culto espírito, como também suponho que não deixará de interessar o Secretariado, que a iniciativas destas não costuma ficar indiferente”48.

48 Carta remetida por Henrique Perdigão a José Alvelos, em 6 de março de 1944.

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Convém esclarecer que a primeira série da Latina: Revista de Intercâmbio entre os Povos Latinos e Panlatinismo se iniciou em maio de 1930. Encontramos, na sua ficha técnica, J. Pereira, como editor e proprietário, e Mário Peixoto como administrador. Dedicada essencialmente ao Turismo, com uma seção dirigida por J. Pereira, incorporava ainda outras áreas como Expansão, dirigida por Francisco António Corrêa; Paços e Solares, dirigida por Luciano Ribeiro; Sciencia, dirigida por Costa Lobo; Critica Literária, dirigida por Cunha e Vasconcelos; Arte, dirigida por Martinho da Fonseca e outras seções designadamente Economia, História, Tradições e Colónias. Entre os seus colaboradores registam-se os nomes de Alfredo Pimenta, Augusto Casimiro, Antero de Figueiredo, António Corrêa de Oliveira, António Ferro, António Saúde, António de Séves, Armando Cortesão, Armando Navarro, Cardoso Marta, Carlos Carneiro, Carlos Selvagem, Cristóvão Ayres, Egas Moniz, Ernesto Soares, Ernesto de Vasconcelos, Eugénio de Castro, Gago Coutinho, João Barreira, João Jardim de Vilhena, João de Barros, Joaquim Manso, José de Figueiredo, José Ferrão, José Joaquim de Almeida, José Leite de Vasconcelos, José Soares, Júlio Dantas, Laranjo Coelho, Lopes de Mendonça, Luiz Keil, Manuel Ribeiro, Norberto de Araújo, Pinheiro Correia, Raul Brandão, Reinaldo dos Santos, Samuel Maia, Sousa Costa, Teixeira de Pascoaes, Ultra Machado, Vieira Guimarães e Vieira da Silva. O primeiro número da segunda série teria quarenta e oito páginas, das quais dez estariam destinadas à publicidade no sentido de minimizar aos custos de edição. Henrique Perdigão ambicionou desenvolver uma revista de Crítica, para além da Literatura, da Arte, do Turismo e do Cinema. Para a sua seção literária, a revista tinha já garantida a participação de Campos Lima e de António Ramos de Almeida. Havia sido ainda solicitado a outras livrarias, designadamente à Livraria Portugália, de Lisboa, o envio de obras para crítica e apresentadas as diretrizes de inclusão de anúncios publicitários: “[...] vai reaparecer brevemente a Revista “Latina”, editada por n/ Casa, mas que vamos pôr, não a serviço nosso, mas das Letras, em geral, e de todos os n/ colegas, (e, por consequência, dos amigos, muito particularmente) mantendo nela uma secção desenvolvida, de crítica, que confiamos a 2 entidades idóneas e suficientemente conhecidas do n/ meio: os Drs. Campos Lima (pai) e Ramos de Almeida. Nesta conformidade estimaríamos que, de futuro, nos enviassem, para crítica, todas as v/ edições que desejassem ver referenciadas naquela secção e, independentemente disso, nos dessem sugestões de assuntos de interesse geral que nas páginas da citada revista devessem ser tratados com proveito para as Letras, para os autores e para nós próprios, editores. Estas nossas linhas teem, pois, duplo fim: dar-lhes conhecimento directo do que pretendemos fazer e pôr a «Latina» à inteira disposição dos amigos, pois que vossa ela passará, de certo modo, a ser, também, de futuro.


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Se bem que discreta, a revista vai ter, ainda, um pouco de publicidade, pois impossível nos seria, sem ela, equilibrar a receita com a despeza. [...] Devemos esclarecer que os anúncios de página inteira (cujo custo em papel «couché» é de Esc. 500$ e em «vergé» 450$) devem tanto quanto possível ser artísticos e, a levar gravura, destinados somente a pag. «couché» [...]”49. Sobre o artigo de António Ramos de Almeida, em carta de 21 de fevereiro de 1944, Henrique Perdigão constata a excelência e a extensão do seu texto: “Prezado Amigo Sr. Dr. Ramos de Almeida Estou embaraçadíssimo e não sei, francamente, como resolver este «bico de obra». O seu artigo está excelente e agradou-me sob todos os pontos de vista, mas a extensão que lhe deu é absolutamente incomportavel com o tamanho da Revista, que tem só, como lhe disse, 48 pág., ou melhor, 38 pois que 10 são de anúncios. Ora, nessas 38 pág. ha literatura, ha arte, ha turismo e ha cinema, visto que não vamos fazer uma revista só de crítica, ainda que a crítica seja a parte que desejo mais desenvolvida. O seu artigo dá mais de meia duzia de páginas e ha também que contar com o do Dr. C. Lima, que já aqui tenho, e que pouco menos que isso dará. Para onde iríamos, assim? Ora, ha colaboração importante que não podemos pôr de parte, pois que ela nos vem trazer um número de leitores talvez maior que a crítica, pelo que – repito – não vejo possibilidade de resolvermos o caso a não ser desta maneira: ser o artigo alterado. Seja, porém, qual fôr a solução ela urge e, assim, pedia-lhe que sobre o caso me dissesse o que se lhe oferecesse, com a maior brevidade possivel. O ideal seria, se pudesse, chegar até cá para pessoalmente nos entendermos, inclusivamente a respeito do caso da edição do seu livro de versos”50. Apesar de todos os esforços, o objetivo de Henrique Perdigão não foi conseguido e a Revista Latina não passou do limbo, porquanto “a Censura à Imprensa impediu-o de satisfazer esse desígnio. Henrique Perdigão não oferecia garantias ao regime... Estávamos em 1944”51. Foi precisamente em setembro desse ano que, regressando de uma viagem ao Brasil onde se deslocara para adquirir para a sua Livraria e para distribuição em Portugal uma avultada quantidade de livros de escritores brasileiros e traduções de autores estrangeiros, sofreu um trágico acidente de avião. 49 Carta remetida pela Livraria Latina Editora à Livraria Portugália, Lisboa, em 9 de fevereiro de 1944. 50 Carta remetida por Henrique Perdigão a António Ramos de Almeida, em 21 de fevereiro de 1944. 51 RAMOS, Manuel – Editor Henrique Perdigão: um homem que honrou o Porto: a propósito do seu centenário. Jornal de Notícias. Porto, ano 102, n.º 20 (21 de junho de 1989) p. 10.

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Ao pretendermos descortinar alguns contextos editoriais e as dinâmicas sociais, culturais e políticas em que as obras de António Ramos de Almeida, editadas pela Livraria Latina Editora, foram concebidas e se desenvolveram, podemos concluir que a Latina, ao assumir-se desde o primeiro momento como chancela de mediação cultural, atuou como agente ativo na esfera das ideias. Através dos documentos apresentados, pertencentes ao espólio de Henrique Perdigão, afiguraram-se alguns aspetos que podem iluminar o papel da Livraria Latina Editora, permitindo-nos perspetivar o alcance das suas publicações, os canais de circulação das obras do autor, o vigor e a amplitude com que foram comercializadas a par da oferta estratégica das suas edições. Possibilitaram-nos ainda concluir que não se restringiram aos limites do círculo portuense, onde foram editadas, mas, pelo contrário, o processo acabou por ser necessariamente extensivo a todo o país. A Livraria Latina Editora procurou ter ao seu alcance formas diversas de levar o livro aos leitores. Prosseguiu deliberadamente um plano alicerçado em dispositivos estratégicos tentando estimular o público para a sua leitura e aquisição. A título de exemplo, a coleção Cadernos Azuis, à semelhança de outras coleções, configurou um padrão a partir da proposição de um modelo que unificou, gráfica e esteticamente, a relação dos seus números organizando simultaneamente os campos de conceção e produção. Com propósitos de inserção no tecido social e imbuída de mecanismos de intervenção editorial na cultura e na sua configuração, programática e estética, a Latina adotou diversas fórmulas de exponenciar a promoção e difusão das suas edições. A par da publicidade dos seus títulos, nos principais jornais nacionais, os comentários inseridos, sistemática e estrategicamente, nas contracapas e badanas refletem assíduas e repetidas alusões às suas obras publicadas ou a publicar, dando a conhecer o estatuto e a qualidade intrínseca da Livraria Editora, o mérito do autor e das suas obras. Os mecanismos de propagação da sua intervenção editorial na cultura estabeleceram-se ainda na base das relações da Latina com os meios de comunicação social. Na imprensa podemos encontrar, com diferentes narrativas e discursos, o impacto das obras de António Ramos de Almeida nas principais publicações periódicas portuguesas, de que se destacam O Comércio do Porto, O Primeiro de Janeiro, o Jornal de Notícias e a Gazeta Literária, do Porto; o Diário de Lisboa, o Diário Popular, o Jornal do Comércio, O Século Ilustrado, Brotéria e A Vida Mundial Ilustrada, de Lisboa; a Gazeta de Cantanhede; O Ilhavense, de Ílhavo; O Setubalense; a Estrela do Minho, de Vila Nova de Famalicão; a Gazeta de Coimbra; O Comércio da Póvoa de Varzim; O Figueirense, da Figueira da Foz, a Democracia do Sul, de Évora, a Semana Tirsense, de Santo Tirso e o Beira Vouga, de Albergaria-a-Velha. Atendendo a que uma parcela substantiva da história contemporânea emerge nas páginas da imprensa escrita, a compilação desses registos permitiu recolher a influência e a repercussão das obras de António Ramos de Almeida na imprensa na época em que foram editadas pela Livraria Latina Editora. Desde a credenciação editorial até às críticas acesas, conduzidas por visões


António Ramos de Almeida e a Livraria Latina Editora: contextos e dinâmicas | maria do rosário ramada pinho barbosa

sustentadas, ou meras notas informativas, desprovidas de análise, podemos colher a notícia dos acontecimentos, a informação mais ou menos especializada e verificar o reflexo das e nas mentalidades.

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receção, em Portugal, da literatura de caráter social produzida no Brasil a partir dos anos 1930 marcou uma inflexão no contexto mais amplo de intercâmbio luso-brasileiro então em curso, restringindo em alguma medida seu escopo para incorporá-lo ao debate sobre a função social da arte e essa inflexão, por sua vez, esteve relacionada à emergência e consolidação do neorrealismo como movimento cultural. É que, em meio à polêmica levada a cabo entre os jovens escritores que viriam a ser conhecidos como neorrealistas e os escritores ligados à revista Presença, a literatura social brasileira acabaria servindo como modelo para uma “literatura humana”. Contraposta à “literatura viva”, presencista, ela contribuiria, assim, para a definição de um novo paradigma literário que pretendia ser também uma crítica filosófica da cultura, entendida como o espaço simbólico de encontro entre a sociedade e a política. O fato de que o neorrealismo não contasse ainda com uma produção literária própria foi apontado, na época, e ainda o é, hoje em dia, como uma das prováveis razões para que os jovens escritores tenham prestado tanta atenção à literatura social brasileira dos anos 1930. Ademais, revelando o caráter dinâmico de qualquer processo de receção literária, a própria polêmica entre neorrealistas e presencistas acabaria por incidir também sobre a repercussão que essa literatura teria em Portugal. Entre 1937 e 1939, são publicados inúmeros artigos que tratavam de obras e de escritores brasileiros, alguns já bastante conhecidos, como Jorge Amado e José Lins do Rêgo, e outros que se tornariam conhecidos a partir de então, como Erico Veríssimo, Graciliano Ramos e Jorge de Lima, por revistas que já podiam ser associadas, na época, ao movimento neorrealista, como Sol Nascente e O Diabo, mas também, por exemplo, pela Revista de Portugal, próxima ao grupo da Presença. António Ramos de Almeida que, muitos anos mais tarde, daria testemunho de seu envolvimento, na primeira metade da década de 1930, com a circulação de ideias que posteriormente conformariam o neorrealismo, publicaria na revista Sol Nascente, em agosto e dezembro de 1938, dois artigos que tratavam da nova literatura brasileira e dos escritores que, em suas palavras, podiam ser considerados então como seus principais intérpretes: Jorge Amado, Amando Fontes e José Lins do Rêgo2. Analisando os últimos três romances publicados por Jorge Amado – Capitães de Areia, Mar Morto e Jubiabá –, o que mais chamava a atenção de António Ramos era a maneira como o romancista conseguia retratar de maneira realista um ambiente de miséria e preconceitos dentro do qual, no entanto, se moviam personagens carregados de poesia e de sonho. Mais do que isso: em Jorge Amado, a opressão gerada por 1 Pós-doutoranda no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX - CEIS20 da Universidade de Coimbra. 2 Sobre o testemunho de António Ramos de Almeida, ver Pita, António Pedro. Conflito e Unidade no Neo- realismo Português: arqueologia de uma problemática. Porto: Campo das Letras, 2002, especialmente p. 192-207, “O ensaísmo de António Ramos de Almeida: alguns tópicos”.

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esse ambiente de miséria e preconceito acabava paradoxalmente por constituir um dispositivo que permitia ao herói romancesco reagir contra a situação a que estava submetido. Nesse sentido, concluía ele: “Jorge Amado dá-nos em toda a sua obra aquilo que um jovem crítico português chamou muito bem: sentido heroico da vida. As misérias, as desgraças, a dor, não esmagam o homem mas sim são a mola essencial do sonho que os eleva e liberta”3. 68

Em Os Corumbas, romance de estreia de Amando Fontes, somos apresentados a uma família que migra do interior à capital do estado de Alagoas buscando escapar da miséria. Como tragédia, todo esforço dos personagens para melhorar de vida era inútil porque, indo de encontro a forças desconhecidas, sua ação acabaria levando-os, ao final do romance, a uma situação ainda mais degradante que a inicial. Não estaríamos, pois, diante de uma história carregada de poesia e em que os personagens eram arrastados pelo sonho, como em Jorge Amado, diria António Ramos. Ainda que as personagens de Amando Fontes tivessem aquela porção de esperança necessária à vida, como qualquer ser humano, o que ressaltava em seu romance era a crua objetividade e a extrema imparcialidade com que narrava a história: “Amando Fontes não toma parti-pris frente aos seus personagens, não os favorece, não os precipita, deixa-os viver através de suas páginas tão naturalmente como na vida, abandonados às circunstâncias e às emergências do cotidiano”4. José Lins do Rêgo, cujo romance de estreia – Menino de Engenho, de 1932 – havia chegado às mãos de Ramos de Almeida já em 1933, era provavelmente o autor mais representativo dos romances cíclicos em voga no Brasil e talvez o mais sociológico dentro os novos romancistas, ao assumir o Nordeste como seu grande personagem e retratar, no ciclo da cana de açúcar, a decadência de toda uma forma de vida, como consequência da passagem do engenho à usina. Ademais, para Ramos de Almeida, em José Lins era claramente percetível uma caraterística presente, no entanto, em todos os romances e romancistas novos do Brasil, qual seja que as diferenças sociais remetiam aí a degraus do ponto de vista econômico, sem que chegasse a haver uma verdadeira diferenciação de classes no sentido cultural, como a que existia na Europa. Nesse sentido, todos os personagens “[...] vivem sem verdadeiros abismos, sem diferenças subtis de psicologia ou de cultura, sem as lutas de antagonismo latente e profundo que se verificam nas consciências de classe do velho mundo. Tudo é apenas uma diferenciação de posição social, mas onde só existem os degraus do econômico”5. De maneira explícita, no caso de Jorge Amado, e implícita, no de Amando Fontes, vê-se como António Ramos faria uso, nesses textos – como continuaria fazendo, anos depois –, das noções de neorromantismo e neorrealismo, tal como

3 Almeida, António Ramos de. “O romance brasileiro através dos seus principais intérpretes, Jorge Amado”, Sol Nascente, No31, 15 de agosto de 1938, p. 7. 4 Almeida, António Ramos de. “O Romance brasileiro contemporâneo, através dos seus principais intérpretes II, Amando Fontes e José Lins do Rêgo”, Sol Nascente, No32, 1o de dezembro de 1938, p. 6. 5 Idem, ibidem, p. 7.


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elas seriam definidas por Joaquim Namorado6. E isso antes mesmo que os artigos de Namorado viessem à luz, confirmando a amizade que ligava os dois escritores e sugerindo também o papel deste último na organização de uma ação conjunta para a afirmação de um novo paradigma dentro do meio literário português. Assim mesmo, havia uma diferença em relação a Joaquim Namorado para a qual vale a pena chamar a atenção: é que, para Ramos de Almeida, o romance social brasileiro não era tão somente uma solução estética, ou um modelo de uma literatura humana em língua portuguesa. Seu caráter espontâneo e vivo, isto é, realista, tinha uma razão de ser que lhe importava explicar e que se explicava, para ele, em função da ausência de requinte como diferencial do novo mundo, desprovido do intelectualismo da velha Europa: “Quere dizer: o romance do Brasil não contém o requinte – teimo nesta palavra porque é significativa e precisa – mas em compensação possui outras forças ocultas que o dinamizam”7. O interesse pela história do Brasil – que permitiria, em última instância, compreender o caráter realista de sua moderna literatura – apareceria de maneira mais clara na análise da obra de José Lins do Rêgo. No Brasil, não haveria uma consciência de classe suficientemente desenvolvida que, correspondendo às diferentes posições sociais, permitisse encontrar, especialmente no caso da burguesia, as nuances de psicologia e cultura que encontrávamos nos personagens dos romances europeus, incluindo aí os romances portugueses. Os personagens dos romances brasileiros eram simples e bárbaros, e toda a problemática desses romances podia ser resumida às questões amorosas, à vivência de uma religiosidade mágica e à busca da liberdade como contrapartida de um sistema escravocrata formalmente abolido, mas socialmente vigente. O romance do Brasil não continha requinte, vale repetir, mas em compensação, devido às circunstâncias históricas e econômicas do país, tinha algo que os modernos romances europeus pareciam não ter – uma ânsia de liberdade, que era o sonho individual dos personagens centrais nele retratados e, para António Ramos de Almeida, dos próprios brasileiros. Nesses dois artigos publicados na revista Sol Nascente, em 1938, Ramos de Almeida opera com uma visão do fenômeno literário que, se não deixava de estabelecer uma relação causal entre estrutura e superestrutura enquanto esboço de uma teoria do romance, acabava paradoxalmente restringindo a noção de cultura à de consciência de classe e, se não é extrapolar demasiado, da classe burguesa: no Brasil, as diferenças sociais remetiam somente a degraus do ponto de vista econômico, os personagens dos romances brasileiros eram “simples, “bárbaros”... No mesmo sentido, afirmava, não existia entre Portugal e o novo romance brasileiro esse “[...] tabu de admiração que é o nos sentirmos retratados, analisados, sublimados esteticamente pelo talento e o gênio de um romancista”8. Apesar de sua condição peninsular, Portugal era visto 6 Nos referimos aos artigos de Joaquim Namorado, “Do neo-realismo: Amando Fontes”, publicado em O Diabo, No 223, 31 de dezembro de 1938; e “Do Neo-Romantismo: o sentido heroico da vida na obra de Jorge Amado”, Sol Nascente, Nº43-44, fevereiro-março de1940. 7 Almeida, A. R., “O romance brasileiro através dos seus principais intérpretes, Jorge Amado”, opus cit., p. 7 8 Almeida, A. R., “O Romance brasileiro contemporâneo, através dos seus principais intérpretes II, Amando Fontes e José Lins do Rêgo”, opus cit., p.7.

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pelo autor como compartilhando a mesma angústia cultural que a Europa vivia – uma opinião que, bem vistas as coisas, não se distanciava tanto da posição sustentada por José Régio na famosa polêmica com Álvaro Cunhal e para quem o primitivismo caraterístico à literatura brasileira era plenamente compreensível, e mesmo aceitável, se considerássemos que se tratava de um país “jovem”9.

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Esse ponto é interessante. Já na década de 1940 – nas conferências que seriam posteriormente reunidas no livro Para a Compreensão da Cultura no Brasil, publicado em 1950 –, o vocabulário relacionado ao primitivismo praticamente desapareceria dos textos de António Ramos de Almeida que diziam respeito ao Brasil e a distância entre Portugal e o novo romance brasileiro seria sutilmente reincorporada num quadro mais amplo que, pode-se supor, fosse o do capitalismo mundial. Assim, apesar de todas as diferenças que seguiam existindo entre os dois países, já então era oportuno e útil assinalar também “[...] seus pontos de contatos e de semelhança, sobretudo naquele particular em que são idênticos todos os problemas estruturais e superestruturais que se levantam numa certa forma de sociedade e de cultura”10. Para além da questão do primitivismo, o que parece importante sublinhar aqui é que, ao assumir uma perspetiva mais ampla, na qual Portugal e Brasil não deixavam de compartilhar a condição de países periféricos, Ramos de Almeida acabaria modificando em alguma medida sua interpretação do romance de 30, melhor dizendo, do seu significado dentro da história literária do Brasil, no que dizia respeito à sua evolução econômica, política e social, mas também do sentido que ele poderia assumir para a intelectualidade portuguesa. Já no final da conhecida conferência “A Nova Descoberta do Brasil”, de 1944, vemos que, ademais de farol para onde caminhava a moderna literatura, enquanto ânsia de superar a herança escravocrata, a liberdade passa a significar igualmente consciência da própria personalidade e essa era, finalmente, a grande descoberta de que valia a pena falar, conquanto descoberta de si mesmo: “O farol, o rio, o mar, isto é, a essência humanística da moderna literatura brasileira é a Liberdade. E Liberdade quere dizer consciência de personalidade”11. Esse ponto reaparece de maneira ainda mais consequente na conferência “A Conquista da Expressão Brasileira”, de 1948. Tomando a moderna literatura brasileira, como o cume de um longo processo, o autor recorre à história literária do Brasil – especialmente a que começa depois da Independência, com o Romantismo – para mostrar como a conquista de uma expressão própria foi o resultado de um avanço lento, mas progressivo, cuja “solução necessária”, em suas palavras, tinha de ser o encontro entre a forma e o conteúdo representado pelo romance social12. Nesse processo, algumas etapas e movimentos haveriam 9 Cf. Régio, José. “Cartas Intemporais do Nosso Tempo XI: a um moço camarada, sobre qualquer possível influência do romance brasileiro na literatura portuguesa”. Seara Nova, 29 de abril de 1939. 10 Almeida, António Ramos de. Para a Compreensão da Cultura no Brasil. Porto: Maranus, p. 127. 11 Idem, ibidem, p. 60. 12 “A libertação do Povo Brasileiro identifica-se com a libertação de todos os outros povos do mundo. O “índio” de Gonçalves Dias, o “Escravo” de Castro Alves, o “Sertão” de Euclides da Cunha, o Folclore dos Modernistas, foram sucessivos degraus, sucessivas etapas, sucessivas fases de um mesmo movimento. O Romance brasileiro é o fim, o términus, a solução necessária”, Idem, ibidem, p. 162.


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CAT 60 [António Ramos de Almeida cumprimenta Jânio Quadros eleito Presidente da República Brasileira, em visita a Portugal] Portugal]. [1961?]. – 1 Foto: sépia; 17 x 23 cm col. Mª Antónia Ramos de Almeida CAT 62 [António Ramos de Almeida com o ilustre romancista brasileiro, Erico Veríssimo]. – Porto: M. Teixeira, [1959]. – 1 Foto: sépia; 22,5 x 16,5 cm col. Mª Antónia Ramos de Almeida CAT 164 A nova descoberta do Brasil / António Ramos de Almeida. - Porto : Editorial Fenianos, 1944 . - 58 p. ; 19 cm. - (Editorial Fenianos ; 1) Conferência lida em 3 de Maio de 1944, no salão nobre do Clube Fenianos Portuenses. Com dedicatória do autor a Álvaro Salema MNR ALM/ENS/2524

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sido especialmente significativos – como o Indianismo e o Modernismo – tanto por suas contribuições concretas no que dizia respeito à linguagem, quanto por levar ao limite as contradições entre a expressão e seu conteúdo, permitindo sua posterior superação.

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“A Conquista da Expressão Brasileira”, de 1948, dá, pois, um passo além de “A Nova Descoberta do Brasil”, de 1944, ao assumir uma chave de leitura dialética da história e da literatura brasileiras. Em 1944, por exemplo, o Modernismo é interpretado como um movimento essencialmente aristocrático que, munido de um espírito destruidor, havia preparado o terreno para o advento de 1930. E se Ramos de Almeida não parecia totalmente convencido de que o havia feito no que dizia respeito à política, quer dizer, à Revolução de 1930, não parecia ter dúvidas sobre sua importância para o surgimento de uma literatura de caráter social. Assinala-se, no entanto, que em relação à natureza do movimento, assim como às suas consequências, essas conclusões remetem diretamente à conferência de Mário de Andrade, “O Movimento Modernista”, proferida, de fato, muito pouco tempo antes, em 1942. Mesmo as expressões que Ramos de Almeida utilizava aí – “espírito destruidor”, “preparar terreno”, “advento de 1930” – eram retiradas do texto de Mário13. Já em 1948, ao falar sobre “A Conquista da Expressão Brasileira” de uma perspetiva histórica e, como queremos crer, dialética, o depoimento de Mário de Andrade é matizado e a interpretação de Ramos de Almeida ganha um novo sentido. Por um lado, o modernismo brasileiro apareceria então, para ele, como refém do paradoxo de ter uma base social aristocrática e, ao mesmo tempo, sustentar uma ideologia nativista. O melhor exemplo desse paradoxo havia sido a pretensão de se inventar uma língua do Brasil, como se, tal como a opção por versos livres, uma língua pudesse surgir por pura deliberação, como se uma língua fosse, ao final, meramente uma questão de forma. Por outro lado, um novo elemento é incorporado à análise, servindo como contraponto ao movimento modernista. Trata-se da tradição intelectual que, remontando ao início do século, se consolidaria definitivamente nos anos 1930 com as obras de Gilberto Freire, Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda, entre muitos outros, e que se tornaria posteriormente conhecida como ensaísmo sociológico. Para António Ramos de Almeida, enquanto os modernistas se ocuparam de destruir as fórmulas convencionais que, na literatura e na arte, não encontravam qualquer raiz na realidade – sem, contudo, construir nada de novo a partir dessa destruição –, os intelectuais mais progressivos do país haviam se lançado a uma pesquisa exaustiva dos fatores materiais e ideológicos que, no presente e no passado, condicionaram sua história e conformaram “[...] a ascensão do povo brasileiro através das diferentes escalas da sua própria libertação”14. O romance de 30 não era mais, pois, uma consequência mais ou menos “natural” do Modernismo, mas a síntese entre dois momentos que, por sua vez, ele superaria: “Esse duplo condicionalismo: destruição 13 Cf. Andrade, Mário de. Aspectos da Literatura Brasileira. São Paulo: L. Martins Editora, 5ª Ed, 1974, p. 231-255. 14 Almeida, António Ramos de. Para a Compreensão da Cultura do Brasil, opus cit., p. 155.


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das fórmulas, das rotinas, dos preconceitos formais, realizados pelo Modernismo, por um lado; pesquisa exaustiva de todos os fatores materiais e ideológicos que contribuíram para a evolução da realidade brasileira, por outro; preparava o advento do moderno romance brasileiro”15. Nos romances surgidos nos anos 1930, tanto a linguagem quanto o conteúdo já eram, pois, a afirmação da realidade nacional no seu conjunto, “[...] no todo do seu complexo, econômico, político, social, moral, ideológico”16. A partir desse ponto, quer dizer, desse encontro entre a expressão e seu conteúdo humano e social, o Brasil passava a ser visto como mais um povo livre que combatia lado a lado com outros povos pela liberdade. E sua literatura, para além de uma solução estética, representava um exemplo positivo e concreto do avanço progressivo da Cultura – assim, com letras maiúsculas. A análise do Modernismo e de sua relação com o romance social de 1930 revela muito da transformação do pensamento de António Ramos de Almeida a respeito do Brasil, da literatura brasileira e do que ambos poderiam representar para a intelectualidade portuguesa. De exemplo literário, destacável pelo ajustado das suas soluções estéticas, mas condicionada por uma estrutura social em muitos sentidos arcaica, a literatura de 30 passaria a representar a progressiva conscientização de um país por meio de seus intelectuais17. Ademais, o fato de que possamos ver claramente, na conferência de 1948, três momentos distintos, dos quais um – o romance social – seria a síntese, vem associada à defesa de que a realidade evoluía dialeticamente. Esse esquema de leitura, que primeiro opera uma negação dialética para em seguida conduzir o ouvinte/leitor a um momento de síntese, afirmativo, pode ser identificado tanto num texto de juventude – como a conhecida conferência “A Arte e a Vida”, de 1936 –, quanto nos ensaios que Ramos de Almeida escreveria sobre Eça de Queirós e Antero de Quental, também na década de 194018. Assim mesmo, o que gostaríamos de destacar aqui é que, se essa era uma posição cara a Ramos de Almeida desde a juventude, somente ao longo dos anos ela serviria de base à interpretação que faria do Brasil e da literatura brasileira. De fato, se prestarmos atenção à estrutura argumentativa da conferência “A Conquista da Expressão Brasileira”, de 1948, vemos que esse esquema de leitura se restringe, ademais, ao romance dos anos 1930, quer dizer, às condições que tornaram possível sua emergência, não operando em todas as etapas que o antecederam e que ele acabaria incorporando enquanto “solução necessária”. No caso do Indianismo de Gonçalves Dias e José de Alencar, por exemplo, as contradições resultadas, por um lado, de um progressivo abrasileiramento da linguagem a que se aliava, por outro, uma representação idealizada do índio e abstrata da natureza como símbolos nacionais, seriam superadas pela obra individual de Castro Alves. 15 Idem, ibidem, p. 156. 16 Idem, ibidem, p. 159. 17 Para esse ponto chamou a atenção Armando Ventura Ferreira, ainda em 1945, ao recensear “A Nova Descoberta do Brasil”. Cf. Ferreira apud Pita, opus cit., p. 200. 18 Sobre este ponto, ver Pita, opus cit., p. 205-206.

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Mas seriam superadas em parte. A poesia abolicionista de Castro Alves constituiria “o melhor da poesia social e revolucionária que se escreveu na língua portuguesa”19. Entretanto, apesar de sua obra avançar em direção a uma representação mais realista da natureza e do amor, tampouco ele deixaria de ser, na defesa da causa abolicionista, um idealista, impulsionado “por certa megalomania doentia e ridícula, comum nos poetas românticos”20. Para utilizar uma expressão alheia ao pensamento de António Ramos de Almeida: Castro Alves havia sido um gênio, sim, mas, como qualquer escritor, estava inevitavelmente limitado pela “consciência possível” de sua própria época. Assim mesmo, a enorme importância atribuída à poesia abolicionista de Castro Alves chama a atenção se consideramos que, para Ramos de Almeida, o aprofundamento na realidade social que ela havia representado somente encontraria paralelo n´Os Sertões, de Euclides da Cunha, já no século XX. No processo de conquista da expressão brasileira, Machado de Assis, considerado até então como o maior romancista do Brasil, mas conhecido por defender uma arte desvinculada da política mereceria de António Ramos de Almeida apenas uma brevíssima referência de não mais de duas linhas. Ao longo deste texto procuramos lançar luz sobre a relação entre António Ramos de Almeida e o Brasil através do que ele pensou e escreveu sobre a literatura brasileira. Assumimos o neorrealismo como ponto inicial porque foi com a emergência desse movimento – e como parte integrante dele – que António Ramos iniciaria sua atividade crítica e poética, e porque é muito difícil pensar a receção da literatura brasileira em Portugal nos anos 1930 sem nos referirmos à importância a ela atribuída pelos jovens escritores que conformaram esse movimento. Na medida em que, ao final, ambas as coisas se entrelaçam, destacamos da sua produção como crítico, nesse período, dois artigos publicados na revista Sol Nascente – sobre Jorge Amado, Amando Fontes e José Lins do Rêgo. A presença de José Lins do Rêgo, lado a lado com aqueles que seriam considerados – por Joaquim Namorado – como autores paradigmáticos do romance social brasileiro deixava entrever que o interesse de António Ramos de Almeida pelo Brasil não se restringia ao contexto polêmico em que seus artigos foram publicados, nem tampouco à tentativa de definir, nesse contexto, um modelo do que deveriam ser os romances neorrealistas, ou neorromânticos. Desde essa época, importava-lhe também entender as razões próprias ao desenvolvimento social que tornaram possível a emergência no Brasil, antes mesmo que em Portugal, de um romance capaz de exprimir os dramas da sua época, assim como lhe importaria, mais tarde, entender o significado desse romance para a história literária brasileira pensada como uma totalidade. As conferências proferidas ao longo dos anos 1940 são, nesse sentido, significativas. Quando o neorrealismo português já havia dado – tanto na poesia quanto na prosa – algumas de suas importantes obras e a referência à literatura brasileira 19 Almeida, António Ramos de Almeida, Para a Compreensão da Cultura no Brasil, opus cit., p. 147. 20 Idem, ibidem, p. 148.


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não era mais necessária, quando a “novidade” brasileira já havia sido incorporada aos novos romances portugueses e um crítico do porte de Mário Dionísio podia mesmo se reportar ao seu excesso de sentimentalismo, Ramos de Almeida seguiria escrevendo e, mais importante do que isso, pondo ênfase sobre o seu significado, para o Brasil e face ao mundo21. Tanto no contexto de sua receção em Portugal, quer dizer, no período da gênese do neorrealismo como movimento cultural, quanto nas décadas seguintes, vale a pena destacar, pois, que a “moderna literatura brasileira” não deixaria de ser para António Ramos de Almeida uma referência constante. Uma análise mais aprofundada de seu pensamento requereria, certamente, considerar as críticas que publicou ao longo dos anos 1950 no Suplemento Literário do Jornal de Notícias do Porto, assim como a rede de sociabilidade que sempre o ligaria, direta ou indiretamente, ao Brasil. As conferências que foram posteriormente reunidas no livro Para a compreensão da cultura no Brasil, por exemplo, ou foram prefaciadas por cônsules brasileiros, ou pronunciadas em sua presença. Merece destaque, nesse sentido, a correspondência, encontrada no espólio de Ramos de Almeida, referente a um “Clube” – assim, entre aspas – de cidadãos luso-brasileiros do Porto e ao Porto como capital natural do Luso-brasilianismo. Merece destaque, também, sua amizade com Renato de Mendonça que, além de cônsul, foi um estudioso da influência africana no português do Brasil e um divulgador da cultura brasileira no meio universitário estrangeiro. Nessa altura, contudo, em que a arte parece se encontrar com a vida, talvez não seja de todo mal, para terminar, voltar ao início, à descoberta primeira e “ingênua” do Brasil, à infância passada no Recife, evocada e reencontrada, muitos anos mais tarde, nos versos de Manuel Bandeira: Recife Não a Veneza americana Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais Não o Recife dos Mascates Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois – Recife das revoluções libertárias Mas o Recife sem história nem literatura Recife sem mais nada Recife da minha infância22

21 Mário Dionísio se referiria ao caráter descritivo-sentimentalista da literatura brasileira muitos anos mais tarde, ao comentar a chegada da nova literatura estadunidense em Portugal no início dos anos 1940 e sua “influência” tanto sobre a composição de O Dia Cinzento, quanto com o que ocorreria daí em diante com o neorrealismo. Cf. Dionísio, M. Autobiografia. Lisboa: Edições “O Jornal”, 1987, p. 34. 22 Bandeira, Manuel apud Almeida, A. R. Para a Compreensão da Cultura no Brasil, opus cit., p. 15.

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Referências Biográficas

António Ramos de Almeida - Referências Biográficas1 … politicamente, liberal com a grande fé e o grande entusiasmo de um progressista convicto da sua doutrina socializante; literariamente, um dos mais audazes pioneiros do neo-realismo lusitano, “rugido de leão” na larga inspiração de uma nova era para a arte portuguesa; finalmente um devotado talento ao estudo das matérias sociais… In “Dr. Ramos de Almeida”, Caderno de Cultura - Suplemento do Jornal de Vila do Conde – n.º 306, 10 outubro 1985, p. 1. António Ramos de Almeida nasceu a 18 de março de 1912, na cidade de Olinda, Estado de Pernambuco, Brasil. Filho de Serafim Martins de Almeida, emigrante português natural de Vila do Conde, no Brasil desde os 13 anos, e de Beatriz da Silva Ramos, brasileira de ascendência portuguesa, (o pai, António de Silva Ramos, é também um emigrante português, natural da freguesia de Árvore do concelho de Vila do Conde). Para além de António, o casal teve dois outros filhos, Serafim Martins de Almeida Júnior e Rosa Amélia Ramos de Almeida. Evocando esse tempo longínquo de uma infância impregnada de sons, cheiros e afetos caraterísticos da sua terra natal, António Ramos de Almeida recordaria mais tarde “[...] tudo que era simples, inefável, fácil e bom dos tempos da minha infância: brinquedos, canções, fantasmas, histórias, recordações, pessoas [...]”2. Aos 9 anos de idade (1921) e após ter frequentado uma escola particular, António Ramos de Almeida ingressa no Colégio Salesiano do Sagrado Coração de Jesus, no Recife. Nesse mesmo ano, a família Ramos de Almeida havia visitado Portugal, onde permaneceu por um período longo por motivos de saúde do pai de António. Em Agosto de 1924, Serafim Martins de Almeida abandona o Brasil, embarcando com a família a bordo do paquete brasileiro “Rui Barbosa”, rumo a Portugal e instalando-se em Vila do Conde. Até ao que, então, se designava como 5.º ano do liceu, António Ramos de Almeida e os seus irmãos estudam, em regime de internato, no Grande Colégio Universal, no Porto, concluindo António Ramos de Almeida esta fase de estudos no Colégio Almeida Garrett, na mesma cidade. É nesta época que António Ramos de Almeida conhece e convive com uma tertúlia de intelectuais onde figuram nomes como os de Casais Monteiro e José Marinho, entre outros, então estudantes da antiga Faculdade de Letras do Porto, que se juntavam habitualmente num dos cafés da baixa portuense, também frequentados por catedráticos como Leonardo Coimbra e Teixeira Rego. 1 Composto com base no conjunto de textos publicados sob o título “Dr. Ramos de Almeida”, de Celso Pontes, em: Caderno de Cultura - Suplemento do Jornal de Vila do Conde - n.ºs 297 a 307, 18 julho 1985 a 17 outubro 1985. 2 In “Dr. Ramos de Almeida”, Caderno de Cultura - Suplemento do Jornal de Vila do Conde – n.º 297, 18 julho 1985, p. 3.

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CAT 3 CAT 3 [António Ramos de Almeida aos 7 anos de idade]. – [Recife], [1919]. – 1 foto: sépia; 4,5 x 5,5 cm Com dedicatória no verso a “Á titia Isabel, com muitos beijos, oferecem os sobrinhos muito amiguinhos” col. Mª Antónia Ramos de Almeida CAT 2 [António Ramos de Almeida em bebé]. – [Recife], [1912] – 1 foto: sépia; 10,5 x 6,4 cm col. Mª Antónia Ramos de Almeida CAT 6 [Fotografia de António Ramos de Almeida com seu Pai, sua Mãe e outros familiares]. – Vila Conde. - Casa Arizal, Alberto Henriques, [1950]. – 1 Foto: p&b; 8,5 x 5,5 cm CAT 6

col. Mª Antónia Ramos de Almeida


Referências Biográficas

Em outubro de 1932, António Ramos de Almeida matricula-se no 1.º ano da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Ao longo de seis anos, a par dos estudos e com algum prejuízo futuro dos mesmos, colabora em jornais e revistas literárias de Coimbra, afirmando o seu caráter de intelectual progressista e atento aos problemas de um país enclausurado num regime ditatorial. Em julho de 1938 conclui a licenciatura em Direito, com uma tese inovadora para os padrões da época, intitulada “A Teoria Pura do Direito de Hans Kelsen”, publicada no Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em 1939. Datam de 1938 e 1939, respetivamente, os seus livros de poesia, intitulados “Sinal de Alarme “ e “Sinfonia de Guerra”. Regressa a Vila do Conde em 1939, no contexto da II Grande Guerra e, a 5 de setembro do ano seguinte, é celebrado o seu casamento com Maria Idalina Fernandes Carvalho. O casal terá três filhas: Ana Maria, Maria Manuel e Maria Antónia. Inicia nessa época um exaustivo estudo sobre a vida, o pensamento e a obra de Antero de Quental, publicado sob a forma de ensaio nos “Cadernos Azuis”, em três opúsculos, que a censura rapidamente condena e que a PIDE apreende, proibindo a sua circulação. Em março de 1941 escreve o ensaio “A Arte e a Vida”, também publicado em opúsculo. No âmbito da conferência que proferiu em 3 de maio de 1944 no Consulado Brasileiro, publica o ensaio apresentado na ocasião, intitulado “A Nova Descoberta do Brasil”. Em 1944, publica o livro de poemas “Sêde”. Em abril de 1950, muda a sua residência para o Porto, instalando-se, com a família, no 3.º andar de um prédio na Avenida Fernão de Magalhães. Entre 1950 e 1961, desenvolve, a par da carreira de advogado, intensa atividade como jornalista e colaborador – nomeadamente enquanto crítico literário – de vários periódicos e revistas. António Ramos de Almeida cedo manifestou o seu caráter de humanista e um profundo entusiamo pela política, como pela sociologia, literatura e arte. Nos jornais, destaque-se a sua colaboração em títulos como: “República”, “Diário de Lisboa”, “O Primeiro de Janeiro”, “Diário Popular” e “Jornal de Notícias” (onde chega a dirigir um suplemento literário semanal). Assinale-se também a sua colaboração assídua, como crítico literário, em jornais e revistas de cariz cultural e pendor claro de luta contra o regime, como “Seara Nova”, “Presença, “O Diabo”, “Sol Nascente”, “Manifesto” e “Vértice”. Em 1951, com apenas 39 anos de idade, os primeiros sintomas de doença atingem a vida de António Ramos de Almeida, não deixando, desde então, de se agravar o seu estado de saúde. Tal não o impediu, no entanto, de se envolver de modo

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CAT 9 [António Ramos de Almeida, jovem estudante]. - [Coimbra]: [s. n.: s. d.] ]. – 1 Foto: sépia; 15,5 x 9 cm col. Mª Antónia Ramos de Almeida CAT 11 [Caderno de apontamentos] A teoria pura do Direito / [António Ramos de Almeida]. – [S. l.: s. d.]. – 1 Caderno: orig. ms.: [91] fl.; 21,5 x 16,5 cm CAT 9

Apontamentos, manuscritos, para o trabalho final de licenciatura, “ A teoria pura do Direito” col. Mª Antónia Ramos de Almeida


Referências Biográficas

profundo e entusiasta em atividades de teor político e cultural, traduzindo umas e outras a sua postura de humanista e o seu espírito combativo face ao regime vigente. Membro do MUD (Movimento de Unidade Democrática), participa ativamente nas campanhas eleitorais das candidaturas presidenciais do Prof. Egas Moniz, do General Norton de Matos, do Almirante Quintão Meireles e do General Humberto Delgado. É ainda nestes anos que compõe um laborioso estudo sobre a vida e obra de Eça de Queiroz, publica o livro “Para a compreensão da cultura no Brasil” e conclui um trabalho sobre Bernardino Machado, apenas publicado após o 25 de abril de 1974. Em julho de 1960, durante uma viagem pela Galiza, mais precisamente em Orense, a doença agrava-se. É internado em Espinho, numa Casa de Saúde dirigida pelo seu amigo, o médico Gomes de Almeida. Em dezembro desse mesmo ano morre a sua mãe, facto que vem debilitar ainda mais o já frágil estado de saúde de Ramos de Almeida. Por estes dias, escreve ao amigo brasileiro Paulo Cavalcanti, manifestando-lhe o seu desejo em rever a terra onde nasceu, Olinda, e com a qual manteve, ao longo da vida, forte relação, aliás bem patente nos inúmeros artigos e ensaios que escreveu acerca da vida económica e social, mas também da cultura popular do Brasil. A 18 de março de 1961, no dia em que completava 49 anos de idade, António Ramos de Almeida sofre um acidente cérebro-vascular, que determina a sua morte no dia 24 do mesmo mês, no Hospital da Ordem da Santíssima Trindade, no Porto. É velado em câmara ardente na sede da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, dando a imprensa significativo destaque ao homem e ao seu trabalho, sobretudo os jornais da chamada oposição democrática e, entre estes, o jornal “República” em particular. De idêntico modo, os jornais de Olinda evocaram António Ramos de Almeida, destacando-se o “Jornal do Recife”, onde Paulo Cavalcanti lhe prestou a sua homenagem pessoal, num artigo intitulado “Um Ilustre Filho de Olinda”. O funeral de António Ramos de Almeida teve lugar a 26 de março, para o cemitério de Vila do Conde, onde foi sepultado no jazigo da família. A cerimónia foi largamente participada pela população local e nela proferiram a palavra, “[...] o Dr. Alberto Uva, Presidente da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto; Óscar Lopes, pela Sociedade Portuguesa de Escritores; Artur Santos Silva, pelos democratas do Porto; Acácio Gouveia, pelos condiscípulos de Direito e Gomes de Almeida pelos amigos do Porto para evocar o belo e raro exemplo de consciência moral e de independência mental do Dr. Ramos de Almeida, cujos fundamentos se revelaram na sua austera filosofia política e na sua invulnerável integridade intelectual [...]”3.

3 In “Dr. Ramos de Almeida”, Caderno de Cultura - Suplemento do Jornal de Vila do Conde – n.º 303, 19 setembro 1985, p. 3.

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CAT 10 [António Ramos de Almeida]. – Vila do Conde: Fot. J. Adriano, [s. d.]. – 1 Foto: sépia; 17,5 x 11,5 cm Fotografia com dedicatória manuscrita, no verso, a sua futura esposa col. Mª Antónia Ramos de Almeida CAT 86 CAT 86

[Teatro Experimental do Porto – TEP: fotografia de grupo]. – [Porto]: [1952-53]. – 1 Foto: p&b; 12,8 x 17 cm Reconhecem-se na fotografia, além de Ramos de Almeida, Alexandre Babo, Eugénio de Andrade, João Villaret, Pedro Homem de Melo e João Menéres de Campos Col. João Paulo L. Campos


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CAT 80 [António Ramos de Almeida aquando da presença do General Humberto Delgado no Porto] [Porto]. - [1958]. – 1 foto: p&b; 12,5 x 17 Fotografia que documenta o envolvimento de Ramos de Almeida na campanha presidencial de Humberto Delgado col. Mª Antónia Ramos de Almeida CAT 175 [Informação sobre o facto de Antonio Ramos de Almeida estar presente à chegada do General Humberto Delgado ao aeroporto de Pedras Rubras, Porto, 1958]. - V. F. Xira: MNR, 2013. – Reprod. ampl.; 1 informação: color

CAT 175

Reprodução de imagem cedida pelo ANTT. – Informação que refere que Antonio Ramos de Almeida esperou a chegada do General Humberto Delgado ao aeroporto de Pedras Rubras, quando este se dirigia de Lisboa para o Porto em viagem de propaganda eleitoral, para as eleições de 1958 Arquivo Nacional Torre do Tombo PT-TT-PIDE-DGS-DEL-P-PI-10800-NT3623 CAT 176 [Fotografia de António Ramos de Almeida, Porto, 1952]. – V. F. Xira: MNR, 2013. Reprod. ampl.: p&b Col. Ana Maria Ramos de Almeida

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Três anos depois, a 10 de junho de 1964, os restos mortais de António Ramos de Almeida são trasladados para um mausoléu construído com o produto de uma subscrição pública e sob projeto do arquiteto Côrte Real. A PIDE marcou presença no evento solene, no qual Celso Pontes recordou o amigo e António José de Sousa Pereira transmitiu aos presentes a “Saudação a Ramos de Almeida”, enviada por José Régio. Um outro poeta, Castro Reis, leu a “Carta a Ramos de Almeida”, que Pedro Homem de Mello dirigiu à viúva do advogado e escritor. Por seu turno, o jornalista (e, à data, redator principal) do “Jornal de Notícias” Nuno Teixeira Neves, evocou também a figura de Ramos de Almeida, numa alocução intitulada “Uma Figura Viva entre os Homens”. Finalmente, Armando Bacelar, advogado e amigo de Ramos de Almeida, seu companheiro em muitos momentos de luta contra o regime salazarista, focou a personalidade pública e literária do homenageado. Também esta cerimónia foi seguida de perto pela imprensa nacional, com particular destaque para um artigo de Mário Soares no jornal “República”, na sua coluna “Fogo Solto”, em que dá conta da importância de Ramos de Almeida, ao nível da difusão, em Portugal, da cultura brasileira e dos seus principais nomes à época – sobretudo os escritores brasileiros dos anos 30: Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Raquel Queirós, Erico Veríssimo –, recordando ainda a sua colaboração em revistas literárias como “Sol Nascente”, “Altitude”, “Vértice” e “Seara Nova” e a sua ligação às origens do movimento neorrealista português. Mário Soares apontava ainda, no mesmo artigo, as biografias de Eça de Queiroz e de Antero de Quental, da autoria de Ramos de Almeida e o seu trabalho – então inédito – sobre Bernardino Machado. Neste breve apontamento biográfico, não podemos deixar de referir outras vertentes da atividade de Ramos de Almeida enquanto intelectual empenhado na vida política e cultural daquele que foi o seu tempo. É o caso da sua participação ativa junto do movimento associativo de Vila do Conde (integrou a direção do Clube Fluvial Vilacondense) e do seu olhar atento e crítico face ao panorama que então caraterizava o teatro nacional. É assim que António Ramos de Almeida surge ligado, desde o momento da sua fundação, ao Teatro Experimental do Porto (TEP) e à figura incontornável de António Pedro, num projeto que pretendia fazer ressurgir a arte dramática em Portugal, através da subida a palco de obras clássicas da literatura nacional e estrangeira.


Bibliografia Ativa

Bibliografia Ativa

Estudos, ensaios, crítica literária “A Teoria Pura do Direito de Hans Kelsen”, Dissertação de Licenciatura, in suplemento do Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, 1939. “A arte e a vida: para esclarecimento e compreensão da literatura moderna portuguesa e da estéril polémica arte pura e arte social”, in Cadernos Azuis,   2, Porto,  Livraria Joaquim Maria Costa, 1941, 2.ª edição, Porto, Livraria Latina, 1944. “Antero de Quental: infância e juventude”, 2 vol., in Cadernos Azuis 5-6, Os homens e as ideias, Porto, Livraria Latina, 1943. “Antero de Quental: apogeu decadência e morte”, in Cadernos Azuis, 9-10, Os homens e as ideias, Porto, Livraria Latina, 1944. A nova descoberta do Brasil, Porto, Editorial Fenianos, 1944.  Eça, Porto, Livraria Latina, 1945. Para a compreensão da cultura no Brasil, Marânus, Porto, [s. n.], 1950. Bernardino Machado, evocação de uma figura política, Porto, [s. n.], 1951. O pensamento activo de Bernardino Machado, Porto, Brasília Editora, 1974. Poesia Sinal de Alarme, Coimbra, [s. n.], 1938 Sinfonia da guerra, Porto, Sol Nascente, 1939.  Sêde, Porto, Livraria Latina, 1944. Vulcão, Lisboa, [s. n.], 1956.

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Catalogação

Catalogação [1]

[Cédula pessoal de António Ramos de Almeida]. – República Portuguesa. – Vila do Conde: R. P., 1949. – 1 Caderneta: 5 p; 14 x9,3 cm Cédula pessoal nº 366565, data de nascimento 18 de Março de 1912, em Olinda -Pernambuco Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[2]

[António Ramos de Almeida em bebé]. – [Recife], [1912]. – 1 foto: sépia; 10,5 x 6,4 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[3]

[António Ramos de Almeida aos 7 anos de idade]. – [Recife], [1919]. – 1 foto: sépia; 4,5 x 5,5 cm Com dedicatória no verso a “Á titia Isabel, com muitos beijos, oferecem os sobrinhos muito amiguinhos” Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[4]

Lembrança da primeira comunhão. – [Vila do Conde]: Padre Jerónimo R., 1922. – 1 Imagem: color; 21,5 x 13,5 cm Inscrição mst: Lembrança da primeira comunhão de António Ramos de Almeida na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, 28 de Maio de 1922. Registo de Santo no centro do cartão, apresenta imagem da “Comunhão” Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[5]

Caderneta Escolar: António Ramos de Almeida / Liceu Rodrigues Freitas. – Porto, 1925 -1932. – 1 Caderneta: orig. mst.: 43 fl.;. + 1 requerimento; 22,5 x 14,5 cm Aprovado no exame do Curso Complementar, em 13 de Julho de 1932 Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[6]

[Fotografia de António Ramos de Almeida com seu Pai, sua Mãe e outros familiares]. – Vila do Conde. - Casa Arizal, Alberto Henriques, [1950]. – 1 Foto: p&b; 8,5 x 5,5 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[7]

[Livro do Curso]: IV ano Jurídico, 1936 / [Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra]. - Coimbra: Universidade,1936. – [61] p.:il.;   18 x 28 cm Com dedicatória de António Ramos de Almeida a Lina, 27 de Maio de 1936. - Versos de João [Meneres de Campos], dedicados a António Ramos de Almeida p [17]. – Versos de António Ramos de Almeida dedicados a João Meneres de Castro, p [41]. - Caricatura da p. [17] em evidência: revista “Manifesto” na qual António Ramos de Almeida colaborou com o artigo “Novos e velhos” Col. Mª Antónia Ramos de Almeida Novos e velhos / António Ramos de Almeida In: Manifesto. - Nº 20 (Fev. 1936) p.12 Revista mensal. - Foram editados só os nºs: 1, 2, 3 Col. João Paulo L. Campos

[13]

[António Ramos de Almeida em Coimbra]. – Coimbra: J. Batista Fotógrafo, 1957. – 1 foto: p&b; 10 x 16,5 cm Fotografia: reunião do curso de A. Ramos de Almeida, em Coimbra, 8 Jun. 1957 [pertence a João Menéres de Campos] Col. João Paulo L. Campos

[14]

Cartão de Identidade: Sócio nº 37.687: Dr. António Ramos de Almeida / Futebol Clube do Porto. – Porto, [s. d.]. – 1 Cartão: orig. mst; 8 x 11,5 cm Cartão de associado do Futebol Clube do Porto com fotografia Evocação de António Ramos de Almeida / Paulo Pombo In: O Porto. – A. XXVI, nº 1021 (6 Mar. 1975), p 2, 5 Jornal do Futebol Clube do Porto do qual António Ramos de Almeida era o associado 37.687 Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[15]

[Fotografia de António Ramos de Almeida com a sua esposa em acontecimento não identificado]. - [s. l.: s. n.], [s. d.]. – 1 Foto: p&b; 13,5 x 9,3 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[Álbum de fotografias Ramos de Almeida em Coimbra e Vila do Conde] Photos. – Coimbra: Vila do Conde: Lisboa, 1932-35. – [19] p.; 10,5 x 17,5 cm Fotografia de António Ramos de Almeida, Jardim Botânico, Coimbra 1935, p. [15] Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[16]

[8]

[17]

[Família de António Ramos de Almeida e amigos próximos]. – Vila do Conde: Fot. J. Adriano, [s. d.]. – 1 Foto colada em cartão cinzento: sépia; 24,5 x 20 cm Na fotografia reconhecem-se, entre outros, a Sr.ª D. Idalina, futura esposa de António Ramos de Almeida, e o filósofo Álvaro Ribeiro Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[9]

[António Ramos de Almeida, jovem estudante]. - [Coimbra]: [s. n.: s. d.]. – 1 Foto: sépia; 15,5 x 9 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[Reunião do curso de António Ramos de Almeida, em Coimbra, 8 de Junho]. – Coimbra: [s. n.], [1937-38]. – 1 Foto colada em cartão castanho: sépia; 35 x 25 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida Bilhete de Identidade: Sócio nº 15: Dr. António Ramos de Almeida / Centro Republicano Académico. – Coimbra, 1933-1934. – 1 Cartão: orig. mst; 11,5 x 7 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[18]

Cédula Profissional de candidato a Advocacia: nº 105: António Ramos de Almeida / Ordem dos Advogados: Conselho Distrital do Porto, Delegação de Vila do Conde. – Vila do Conde, 19 Dez. 1938. – 1 Cédula: orig. mst: 1 fl.; 12 x 22; dobr. em 12 x 7,5 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[10]

[António Ramos de Almeida]. – Vila do Conde: Fot. J. Adriano, [s. d.]. – 1 Foto: sépia; 17,5 x 11,5 cm Fotografia com dedicatória manuscrita, no verso, a sua futura esposa Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

Cédula Profissional de Advogado: nº 389: António Ramos de Almeida / Ordem dos Advogados: Conselho Distrital do Porto, Delegação de Vila do Conde. – Vila do Conde, 2 Abr. 1941. – 1 Cédula: orig. mst: 1 fl.; 12 x 22; dobr. em 12 x 7,5 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[11]

[19]

[Caderno de apontamentos] A teoria pura do Direito / [António Ramos de Almeida]. – [s. l.: s. d.]. – 1 Caderno: orig. ms.: [91] fl.;.; 21,5 x 16,5 cm Apontamentos, manuscritos, para o trabalho final de licenciatura, “ A teoria pura do Direito” Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

CAT 55

[12]

Cartão de Identidade: Sócio nº 250: Dr. António Ramos de Almeida / Futebol Clube de Vila do Conde. – Vila do Conde, 1941 – 1 Cartão: orig. mst; 8,5 x 13 cm Cartão de associado desde 23 Mar. 1941, com fotografia Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

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A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida

[20]

[Caneta] PeliKan 400. – Germany: [Gunter Wagner], [1951-1954] Caneta tinta permanente castanha, tartaruga às riscas com aro e aparo dourado; 12,7 x 1,1 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[21]

[Fotografia que documenta a inauguração da Rua Dr. António Ramos de Almeida, em Vila do Conde]. – [Vila do Conde], [s. d.]. - 1 Foto: p&b; 23,5 x 17 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

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[30]

Amigo Ramos de Almeida… / Armando Bacelar. – Coimbra, 22 Jan. 1940. – Carta: orig. ms: 1 fl.; 26,4 x 20 cm Carta sobre o facto de “Sinfonia da guerra” se estar a vender bem, e da nota sobre o mesmo livro que o autor da carta (Armando Bacelar) escreveu para o “Sol” Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[31]

As três pessoas / Políbio Gomes dos Santos. - Coimbra: Portugália, 1938. - 55, [2] p.; 23 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

Panorama literário da mocidade de Coimbra e a necessidade do revigoramento mental das novas gerações / António Ramos de Almeida. - V. F. Xira: MNR, 2013. - Reprod. ampl.: sépia Reprodução do artigo. - In: Humanidade, Nº 39 (4 Dez. 1937). - Contém desenho evocativo de Fernando Namora Fotocópia cedida pelo Dr. António Pedro Pita

[32]

[23]

Búzio: poesia / João José Cochofel. - Coimbra: [s. n.], 1940. - 45, [2] p.; 20 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Coimbra, 23 Nov. 1939) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

Véspera: novela / [António Ramos de Almeida]. – [s. l.: s.n.], [1945]. –125 p.; 21 cm Original datilografado da novela. – Novela várias vezes anunciada mas que permaneceu inédita Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[24]

[Anúncio da novela inédita “Véspera”] / António Ramos de Almeida In: Vértice. – Vol. IV, nº 51, (Out. 1947), p. 470-471 Novela de António Ramos de Almeida “Véspera”, várias vezes anunciada mas que permaneceu inédita Biblioteca particular Santos Silva MNR PP1

[25]

Meu caro António / Vértice, Joaquim [Namorado]. – Coimbra, [s. d.]. – Carta: orig. ms: 1 fl.; 27,4 x 21, 3 cm Inquérito da Vértice sobre a próxima época literária. – Carta de Joaquim Namorado a pedir que António Ramos de Almeida redija o texto como se estivesse a responder ao inquérito, e envie uma fotografia para publicar com as respostas. Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[26]

Sinfonia da guerra: poema / António Ramos de Almeida; pref. Rodrigo Soares; pos-fácio Joaquim Namorado; des. João Alberto. - Porto: Sol Nascente, 1939. - 32 p.; 24 cm Biblioteca José Ferreira Monte MNR ALM/POE/4290 

[27]

Prefácio [Sinfonia da Guerra] / Rodrigo Soares. – [s.l.], 1939. – 4 fl.;: orig. datiloscrito; 22 x 16 cm Original datiloscrito com emendas ms. - Prefácio do livro “Sinfonia da Guerra” de António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[28]

Post-Fácio [Sinfonia da Guerra] / Joaquim Namorado. - [s. l.],  [1939]. – 2 fl.;: orig. ms; 22,5 x 16,5 cm Original manuscrito. - Posfácio do livro “Sinfonia da Guerra” de António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[29]

Querido António / Joaquim [Namorado]. – Coimbra, 26 Dez. 1939. Carta: orig. ms: 2 fl.; 17,1 x 13 cm Carta de Joaquim Namorado dizendo “o teu livro (Sinfonia da Guerra) será modelo das nossas edições”. - Refere livro de contos de Alves Redol e o livro “Gaibéus”. - Refere que Álvaro Cunhal está internado no Hospital Militar Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

As sete partidas do mundo / Fernando Namora. - Coimbra: Portugália,1938. - 255, [9] p.; 20 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[33]

[34]

As várias faces: teatro  /  Augusto dos Santos Abranches. - Coimbra: Portugália, 1943. - 21, [2] p.; 24 cm. - (Vértice. Teatro;1) Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Coimbra, Abr. 1939) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[35]

Os novos escritores e o movimento chamado “Neo-realismo” / Jaime Brasil. - [Porto]: [s. n.], 1945. - 15 p.; 23 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[36]

Ambições e limites do cinema português: ensaio / Manuel de Azevedo. – Lisboa: [s. n.], 1945. – 39 p.; 19 cm. Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida, Porto (29 Abr. 1945) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[37]

Incomodidade: invenção do poeta; aviso à navegação; viagem ao país dos nefelibatas / Joaquim Namorado. – Coimbra: Atlântida, 1945. – 219 p; 21 cm. Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[38]

Maria / Afonso Ribeiro. - Porto: Editorial Ibérica. - 3 vol.; 21 cm Vol. 1: Escada de Serviço. - 1946. - 479, [1] p. Escada de Serviço é uma nova versão de outro romance publicado pelo autor em 1941, com o nome de Plano Inclinado. - Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[39]

O Riso Dissonante: poemas / Mário Dionísio. – Lisboa: Centro Bibliográfico, 1950. – 59 p.; 19 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Lisboa, Jun. 1950) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[40]

Canto de morte e amor / Afonso Duarte. - Coimbra: [s. n.], 1952. - 23 p.; 26 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida


Catalogação

[41]

Olhos de água / Alves Redol. - Lisboa: Centro Bibliográfico,  [1954]. - 343, [2] p.; 19 cm. - (Tempo Presente; 1) Ilustrações de Lima de Freitas. - Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[42]

Agonia: romance  /  Manuel do Nascimento. -  Lisboa:  Sociedade de Expansão Cultural, (1954). - 165, [4] p.;  20 cm. - (Romance Português Contemporâneo) Capa de Manuel Ribeiro de Pavia. - Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Lisboa, 1 Fev. 1954) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[43]

Serranos: contos / Mário Braga. - 2ª ed. - Coimbra:  Coimbra Editora,  1955. - 127 p.; 19 cm Ilustrações de Cipriano Dourado. - Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[44]

Sedução: novela / José Marmelo e Silva. – Edição definitiva. – Lisboa: Estúdios Cor, 1960. – 180 p.; 20 cm. – (Latitude; 42). Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida. - Capa Luís Filipe de Abreu Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[45]

[51]

Na linha Quebrada da nossa época…:carta a Romain Rolland / António Ramos de Almeida In: Sol Nascente. – A. III, nº 34 (1 Mar.1939), p. 5 MNR PP 123

[52]

As sete partidas do mundo: romance, por Fernando Namora. Edições Portugália, Coimbra / António Ramos de Almeida. - V. F. Xira: MNR, 2013. - Reprod. ampl.: sépia Reprodução do artigo das pág. p. 48-50, publicado na Revista Presença, a. XII, série II (Nov. 1939) Imagens retiradas do site da Biblioteca Geral Digital Modo de acesso: https://bdigital.sib.uc.pt/bg4/UCBG-RP-1-5-s1_3/ UCBG-RP-1-5-s1_3_master/UCBG-RP-1-5-s2/UCBG-RP-1-5-s2_ item1/index.html

[53]

Mar vivo: poemas de João Campos, Edições Presença / António Ramos de Almeida In: Altitude. – Nº 2 (Abr. 1939), p. 11,12 MNR PP 11

[54]

Cinema e realidade: desenhos imaginados: realidade imaginada, por Almada Negreiros / António Ramos de Almeida In: Altitude. – Nº 1 (Fev. 1939), p. 10, 11 MNR PP 11

Honra-se a Direção convidando Vª. Exª. e sua Exma. Família a assistirem à conferência sob o título “A nova descoberta do Brasil” / Clube Fenianos Portugueses .- Porto, 29 Abr. 1944.- 1 Convite: orig. mst; 9 x 14,5 cm Convite dirigido a Ramos de Almeida e Família para assistir à conferência “A nova descoberta do Brasil”, com data de 29 Abr. 1944 Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[55]

[46]

[56]

Compra e venda: peça em três atos / [António Ramos de Almeida]. – [s. l.], [s. d.]. – 70 p.; 26 cm Original manuscrito e incompleto da peça de teatro “Compra e Venda peça em três atos Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[47]

Castro Alves, génio poético do Brasil / António Ramos de Almeida. Porto: [s. n.]; 1954. - 55 p.; 29 cm. Manuscrito do estudo “Castro Alves, génio poético do Brasil”, oferecido ao colega de curso e amigo João Menéres de Campos, em 8 Jan. 1954 col. João Paulo L. Campos

[48]

Meu caro Ramos de Almeida / João Gaspar Simões. – Cascais, 19 Nov. 1946. – Carta: orig. ms: 1 fl.; 30 x 18 cm Carta de João Gaspar Simões, pedindo rapidez na entrega do estudo sobre Pinheiro Chagas (19 Nov. 1946) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida Meu caro Ramos de Almeida / João Gaspar Simões. – Cascais, 2 Dez. 1946. – Carta: orig. ms: 1 fl.; 30 x 18 cm Carta de João Gaspar Simões, agradecimento pelo envio do ensaio original “Pinheiro Chagas Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[49]

Epopeias, por António Marques Matias, Lisboa / António Ramos de Almeida In: Revista de Portugal.- Nº 1 (Out. 1937), p. 129-131 Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[50]

O romance brasileiro através dos seus principais intérpretes: Jorge Amado / António Ramos de Almeida In: Sol Nascente. – A. II, nº 31 (15 Ago.1938), p. 6, 7 MNR PP 123

Nota sobre Raúl Brandão / António Ramos de Almeida In: Seara Nova. – Nº 1000-7 (26 Out. 1946) p. 182,183 Número comemorativo do vigésimo quinto aniversário MNR PP 2 Notas para o Neo-Realismo / António Ramos de Almeida IN: Diabo. – A. VII, nº 313 (21 Set. 1940), p. 2 MNR PP 92 Notas para o Neo-Realismo / António Ramos de Almeida IN: Diabo. – A. VII, nº 315 (5 Out. 1940), p. 3 MNR PP 92

[57]

Meu caro Ramos de Almeida / Ribeiro Couto. – Lisboa, 21 Nov. 1944. – Carta: orig. dat.: 1 fl.;.; 26,5 x 21 cm Carta de agradecimento pela referência ao seu nome (Ribeiro Couto) no texto da conferência de António Ramos de Almeida “A nova descoberta do Brasil“ Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[58]

Meu querido Ramos de Almeida / Embaixada do Brasil, Renato de Mendonça. – Madrid, 29 Out. 1950. - Carta: orig. ms:1 fl.;.; 25,5 x 20,5 cm Carta de Renato Mendonça que refere o livro de António Ramos de Almeida “Para a compreensão da cultura no Brasil” Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[59]

Mensagem Luso-brasileira: ao Presidente Jânio Quadros / [António Ramos de Almeida]. – Porto, [1961]. – orig. datiloscrito, c/ emendas ms:1 fl.; 26,8 X 20,5 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[60]

[António Ramos de Almeida cumprimenta Jânio Quadros eleito Presidente da República Brasileira, em visita a Portugal]. - [Portugal], [1961?]. – 1 Foto: sépia; 17 x 23 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

89


A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida

[61]

[António Ramos de Almeida com Assis Chateaubriand]. – [s. l.], [s. d.]. – 1 Foto: p&b; 17 x 12 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[62]

[António Ramos de Almeida com o ilustre romancista brasileiro, Erico Veríssimo]. – Porto: M. Teixeira, [1959]. – 1 Foto: sépia; 22,5 x 16,5 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[63] 90

Meu caro Ramos de Almeida / Publicações Europa América, Fernando Piteira Santos. – Lisboa, 22 Out. 1950. - Carta: orig. ms: 1 fl.; 21 x 14,8 cm Carta de Fernando Piteira Santos, manifestando o interesse de Publicações Europa-América em editar uma História da Literatura Brasileira, na coleção Saber Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[64]

Exmo. Senhor: temos aguardado as suas notícias relativas ao volume sobre “História da literatura brasileira”… / Publicações Europa América, Francisco Lyon de Castro. – Lisboa, 23 Abr. 1952. - Carta: orig. dat.: 1 fl.; 21 x 15 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[65]

Exmo. Senhor: agradecemos as vossas notícias relativas à “História da Literatura Brasileira” / Ler: jornal de letras artes e ciências, Francisco Lyon de Castro. – Lisboa, 8 Mai. 1952. - Carta: orig. dat.: 1 fl.; 26,2 x 20 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[66]

A propósito do intercâmbio Luso-brasileiro / António Ramos de Almeida In: Ler: jornal de letras artes e ciências. – Nº 5 (Ago. 1952), p. 9 Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[67]

Dia longo: poesias escolhidas (1915-1943) / Ribeiro Couto. – Lisboa: Portugália, (1944). – 382 p.,19 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Lisboa, 1944) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[68]

Evolução da poesia brasileira / Agrippino Grieco. – 2ª ed. - Rio de Janeiro : Livraria H. Antunes, [1944].- 248 p.;19 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Rio, Out. 1944) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[69]

Pequeña História del Brasil / Renato de Mendonça. – México: Secretaria de Educacion Publica, (1944). – 94 p.;19 cm. - (Biblioteca Enciclopédica Popular; 23) Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Porto, 30 Jul.1946) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[70]

O declínio do império e o ideal republicano no Brasil / Renato Mendonça. – Porto: Imprensa Portuguesa, 1948. – 32 p.; 25 cm Contém Retrato a óleo do autor por Diego Rivera (México, 1942). Conferência realizada a 15 Nov. 1947 no Grupo de Estudos Brasileiros do Porto. - Separata da Revista “Brasil Cultural”. - A. II, nºs 2,3 Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (1948) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[71]

Invenção de Orfeu / Jorge de Lima. – Rio de Janeiro: Livros de Portugal, (1952). – 431 p.; 19 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Rio de Janeiro, 31 Set.1952) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[72]

Homens, seres e coisas / José Lins do Rego. – Lisboa: Ministério da Educação e Saúde-Serviço de Documentação, 1952. – 77 p.;19 cm. (Os cadernos de cultura) Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (1952) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[73]

O amanuense Belmiro: romance / Ciro dos Anjos. – Lisboa: Livros do Brasil, [1955]. – 182 p.; 22 cm. – (Livros do Brasil; 29) Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Lisboa, 20 Jul. 1955) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[74]

México: história de uma viagem / Erico Veríssimo. – Lisboa: Livros do Brasil, [1959]. – 337, [2] p.; 22 cm. – (Livros do Brasil; 33) Desenho do texto do autor. - Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (25 Fev. 1959) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[75]

Eça de Queiroz, agitador no Brasil / Paulo Cavalcanti. – Ed. Ilustrada. – São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959. – 367 p.; 19 cm. – (Brasiliana; 311) Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Recife, 21 Jan. 1960) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[76]

Deus lhe pague…: comédia completa em 3 actos divididos em 9 quadros / Joracy Camargo; pref. Procópia Ferreira. – 4ª ed. - Lisboa: Livros do Brasil, [1960]. – 182 p.; 22 cm. – (Livros do Brasil; 3). Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Porto, 11 Abr. 1960) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[77]

Exmº. Sr. Dr. Ramos de Almeida e prezado Camarada / Costa Barreto. Lisboa, 26 Fev. 1953. - Carta: orig. ms.: 1 fl.; 27 x 21,4 cm Carta de Costa Barreto, felicitando pela fundação do “Suplemento Literário do Jornal de Notícias” Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[78]

António [Ramos de Almeida] querido: / Donatello. – [s. l.: s. d.]. - Carta: orig. ms.: 1 fl.; 25 x 20 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[79]

A memória do centenário: Ramos de Almeida: um suplemento literário tornado “Lareira pública: “um homem bem sintonizado com os outros homens” In: Suplemento do “Jornal de Noticias”.- (25 Mai. 1988), p. 29 A memória do centenário: matéria sobre o suplemento literário e a colaboração de A. Ramos de Almeida ( 25 Mai.1968) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[80]

[António Ramos de Almeida aquando da presença do General Humberto Delgado no Porto]. - [Porto], [1958]. – 1 foto: p&b; 12,5 x 17 Fotografia que documenta o envolvimento de Ramos de Almeida na campanha presidencial de Humberto Delgado Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[81]

[António Ramos de Almeida envolvido numa campanha eleitoral?]. [s. l.: s. d.]. – 1 foto: p&b; 17,2 x 23, 3 cm Na fotografia reconhecem-se, entre outros, Virgínia Moura e Ruy Luís Gomes Col. Mª Antónia Ramos de Almeida


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CAT 143

CAT 143 Para uma antologia de pensamento republicano / Ramos de Almeida In: Vértice. – Vol. XXIV, nº 250-251 (Jul. Ago. 1964), p.397-411 Contém: Três poemas por Ramos de Almeida, p. 402-404.- Uma figura viva entre os homens por Nuno Teixeira Neves, p. 405-409. – Saudação a Ramos de Almeida por José Régio, p. 410,411. - Número 250-251 (Julho-Agosto. 1964) de Vértice consagrado parcialmente a António Ramos de Almeida, com textos de José Régio e Nuno Teixeira Neves bem como um ensaio, sobre Bernardino Machado, e poemas de A. Ramos de Almeida MNR PP 1

CAT 143


A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida

[82]

Canta a alma lusíada! XXVII Concurso das Quadras de S. João In: Jornal de Noticias. – (24 Jun. 1955), p. 2 Recorte que documenta a reunião do Júri do Concurso das Quadras de S. João 1955, organizado pelo “Jornal de Notícias”; reconhecem-se, além de António Ramos de Almeida, os poetas Egito Gonçalves e João Menéres de Campos Col. João Paulo L. Campos

[83]

92

Exmo. Senhor, de conformidade coma a conversa…/ Clube Português de Cinematografia. – Porto, 3 Out. 1948. - Carta: orig. dat.: 1 fl.; 27, 5 x 21,5 cm Carta enviada a António Ramos de Almeida, convite do Clube Português de Cinematografia para proferir palestra, em 10 Out. 1948 Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[84]

Meu caro Ramos de Almeida / António Pedro. – [Porto]: [1951-1952]. Carta: orig. ms: 8 fl.; 17 x 10 cm Carta de António Pedro, lindíssima, sobre o início da atividade do Teatro Experimental do Porto e com referência a uma fotografia de Fernando Lemos, até agora não encontrada. – Os 1ºs estatutos to TEP datam de 1951, estes Estatutos só seriam promulgados, por alvará do Governo Civil do Porto, em 21 de Outubro de 1952 Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[85]

[Teatro Experimental do Porto – TEP: ensaios]. – [Porto]: [1952-53]. – 1 Foto: p&b; 27,5 x 12,5 cm O primeiro contacto, mediado por Eugénio de Andrade, entre elementos do TEP (Alexandre Babo) e António Pedro parece datar de fins de 1952. O primeiro espectáculo foi estreado em 18 Jun.1953 Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[86]

[92]

Aspecto da homenagem a João de Barros na Sala da “Biblioteca José Régio” do Clube Fluvial Vilacondense. - V.F. Xira: MNR, 2013. – Reprod. ampl.; 1 Foto: p&b In: Vértice. -Vol. XII, nº106 (Jun. 1952), p. 313 MNR PP 1

[93]

Querido amigo / João de Barros. – Santa Cruz, 23 Ago. 1951. - 1 Postal: p&b; 8,7 x 13,5 cm Postal ilustrado paisagem da Praia de Santa da Cruz Querido amigo / João de Barros. – [s. l.], 8 Out. 1951. - Carta: orig. ms:1 fl.; 20,8 x 13,4 cm Agradece a oferta de um nº de “Renovação” Querido amigo e nobre camarada / João de Barros. – [s. l.], 5 Dez. 1953. Carta: orig. ms:1 fl.; 17,8 x 13 cm Cartas de João de Barros, uma das quais (05 Dez.1953) agradecendo as gentilezas de A. Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[94]

Humilde plenitude: poemas escolhidos / João de Barros. - Edição limitada. - Lisboa: Livros do Brasil, 1951. – 249, [3] p.; 24 cm. Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Out.1951) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[95]

Meu caro António / Lino Lima. – [Lisboa], 21 Abr. 1953. - Carta: orig. ms: 1 fl.; 26,8 x 20 cm Carta de Lino Lima enviada da Cadeia do Aljube, Sala 2 A (21 Abr. 1953 [António Ramos de Almeida com Lino Lima]. – [s. l.]: [s. d.]. – 1 Foto: sépia; 13,5 x 8,8 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[Teatro Experimental do Porto – TEP: fotografia de grupo]. – [Porto]: [1952-53]. – 1 Foto: p&b; 12,8 x 17 cm Reconhecem-se na fotografia, além de Ramos de Almeida, Alexandre Babo, Eugénio de Andrade, João Villaret, Pedro Homem de Melo e João Menéres de Campos Col. João Paulo L. Campos

Meu prezado amigo / Ruy Luís Gomes. – Porto, 25 Jan. 1955. – Carta: orig. ms: 1 fl.; 26 x 19,5 cm Carta com carimbo de Censurado Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[87]

[97]

[96]

Prezado amigo / Almeida da Costa. - Coimbra, 16 Mai. 1956. – Carta: orig. ms: 1 fl.;.; 26,5 x 20,3 cm Carta solicitando a organização de um número especial do suplemento literário, por ocasião da homenagem ao poeta Afonso Duarte, em 1956 Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

O significado histórico e simbólico da homenagem ao Doutor António Luís Gomes / Ramos de Almeida In: República. – (22 Set.1952), p. 7,11 Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[89]

[Fotografia do Dr. António Luís Gomes]. - Lisboa: San Payo, 1951. – 1 Foto: sépia; 13,6 x 8,6 Com dedicatória, no verso, do Dr. Luís Gomes a António Ramos de Almeida (4 Mai. 1952). - A homenagem ao Dr. Luís Gomes marca o vínculo de António Ramos de Almeida com o Republicanismo Clássico Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

Meu prezado amigo / Vértice, Luís Albuquerque. – Coimbra, 6 Mai. 1952. - 1 Postal: il.; 10,4 x 15 cm Postal dos CTT ilustrado com a Torre de Belém. – Refere o discurso de homenagem a João de Barros Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[90]

Meu caro Ramos de Almeida / Luís Albuquerque. – Coimbra, 11 Mai. 1952. - Carta: orig. ms.: 1 fl.; 26,4 x 20, 2 cm Carta de Luís Albuquerque, pedindo texto para uma conferência sobre João de Barros 11 Mai.1952 Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[91]

Saudação a João de Barros / José Régio In: Vértice. - Vol. XII, nº 106 (Jun. 1952), p. 299, 300 Poeta da humilde plenitude / António Ramos de Almeida In: Vértice. - Vol. XII, nº 106 (Jun. 1952), p. 301-310 Escritor e orador / Agrippino Grieco In: Vértice. - Vol. XII, nº 106 (Jun. 1952), p. 311,312 Artigos da homenagem a João de Barros MNR PP 1

[98]

[99]

[António Ramos de Almeida com o Dr. António Luís Gomes]. – Porto: Bazar Electro - Fot., 1952. – 1 Foto: p&b; 8,8 x 13,6 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[100]

[António Ramos de Almeida com Tomaz da Fonseca, Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes, Mário de Azevedo Gomes e Câmara Reys]. – [s. l.: s.d.]. – 1 Foto: p&b; 9 x 14 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[101]

Dr. Ramos de Almeida / Jaime Isidoro. – Porto, Ago. 1960. - 1 Postal: color; 10,5 x 15 cm Postal ilustrado com reprodução de óleo “Acrobate a la boule” de Pablo Picasso Col. Mª Antónia Ramos de Almeida


Catalogação

[102]

Meu caro Dr. Ramos de Almeida / Jaime Brasil. – Porto, 10 Mar. 1953. Carta: orig. dact: 1 fl.; 21,6 x 17,9 cm Carta convite a Ramos de Almeida para participar como orador na homenagem a Ferreira de Castro, Porto Col. ª Antónia Ramos de Almeida

[103]

Nocturnos / Alberto Serpa. – [s.l.: s.n.], [1945]. - (Entregas de poesia; 12) Nocturnos, folheto de poesia de Alberto de Serpa, com dedicatória autografa a Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[104]

Notícias do bloqueio: poema / Egito Gonçalves In: Árvore. – Nº 4 (1953) Pequeno cartaz com o poema “Notícias do bloqueio”, autografado por Egito Gonçalves Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[105]

A morte do Poeta… / António Rebordão Navarro; Dinis Ramos In: Intervenção. – Coimbra: [Coimbra Editora. Ld.ª], p 9 -12 Cinco poemas dedicados a António Ramos de Almeida: “ A morte do poeta”; “Um poema necessário”; “Deixa vir a noite nos teus passos”; “Sei que as árvores cresceram noutros lados”; “Quando me deitar levo o teu rosto”. – Dedicatória manuscrita dos autores a António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[106]

Querido amigo / Ferreira de Castro. – [s. l.], 14 Nov. 1957. - Carta: orig. ms: 1 fl.;.; 27 x 21 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[107]

Meu caro Ramos de Almeida / António de Sousa. – Lisboa, Fev. 1954. 1 Bilhete-postal; 10,4 x 15 cm Refere o envio de livros pelo CTT, entre os quais, “Jangada”, “Livro de bordo” e “Linha da Terra” Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[108]

Linha de terra: poemas / António de Sousa. – Lisboa: Inquérito, 1951. – 65 p.; 19 cm. Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Algés, Jan. 1954). - Desenho na capa de Manuel Ribeiro de Pavia Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[109]

Ilha deserta / António de Sousa. – Coimbra: Presença,1937. – 78 p.; 24 cm Ilustração da capa Júlio [Pomar]. - Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Coimbra, Abr. 1937) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[113]

Retrato e lição de Gomes Leal: poema / Alberto de Serpa. – Porto: Livraria Portugália, (1948). – 14 p.; 19 cm Escrito e impresso no mês de Novembro de 1948, ano do 1º centenário do nascimento de Gomes Leal. Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[114]

Histórias de mulheres / José Régio. – Porto: Livraria Portugália, (1946). – 342 p.; 19 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Portalegre, 1946) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[115]

Mãe terra / Papiniano Carlos. - Porto: Livraria Portugália, 1949. - 63 p.; 22 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida. – Capa de Altino Maia Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[116]

Ilha: poemas / João de Brito Câmara. – Coimbra, 1950 (Tip. Atlântida). - 96 p.; 18 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Tarrafal [?] Ago. 1952) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[117]

Pedro: romance / Manuel Mendes. – Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural [distrib], (1954). – 223, [1] p.; 19 cm. - (Coleção romance português contemporâneo) Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Lisboa, 1954) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[118]

As mãos e os frutos: poemas / Eugénio de Andrade. – Lisboa: Portugália Editora, 1948. – 57 p.; 20 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (1953). - Capa de Manuel Ribeiro de Pavia Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[119]

Arcas encoiradas: estudos, opiniões, fantasias / Aquilino Ribeiro. – 2ª ed. Lisboa: Livraria Bertrand, [1953?]. – 290 p.; 19 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (1953) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

Abismo: poemas / Adolpho Rocha. – Lisboa: Livros do Brasil, (1932). – 27 p.; 20 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (1936) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

Ramos de Almeida meu ilustre camarada: / Aquilino Ribeiro. – Lisboa, 22 Out. 1957. - 1 postal: il.; 9 x 14 cm Postal ilustrado: imagem com legenda manuscrita por Aquilino Ribeiro “Casa de Romarigães, Trecho da Capela” Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[111]

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[110]

Os quatro cavaleiros: poema / Tomaz Kim. - Lisboa: Portugália [depositária], [1943]. - 43, [5] p.; 25 cm. - (Cadernos de poesia) Capa de Manuel Ribeiro de Pavia. - Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (15 Jan. 1943) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[112]

Da academia do meu tempo aos estudantes de amanhã: conferência / António Macedo. - [s. l.: s. n.], 1945 (Porto: Tip. Mendonça). - 64 p.;19 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Natal, 1945). – Conferência dada em 16 de Maio de 1945, no Salão da Faculdade de Letras, a convite da Associação Académica de Coimbra Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

O rapaz da camisola verde / Pedro Homem de Mello. - Porto: Saber, 1954. – 102, [2] p.; 19 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (1954) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[121]

Estudos sobre a cultura portuguesa do século XIX / Joaquim de Carvalho. – Coimbra: Universidade Coimbra, 1955. – Vol.; 22 cm. – (Acta Universitatis Conimbrigensis) Vol. I: Antheriana. - 321 p. Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Jul. 1955) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

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A Vida e a Arte de Ant贸nio Ramos de Almeida

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A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida

[122]

O guardador de automóveis / João Apolinário. – Porto: Autor, 1956. – 25 p.; 18 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida. – Capa e gravura de Gastão Seixas Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[123]

A obra de José Régio: ensaio crítico seguido de um Inquérito ao autor criticado / Óscar Lopes. – Porto: [s.n.],1956. – 23 p.; 26 cm. - Separata da “Lusíada”, v. 3, nº 9 Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (8 Mai.1957) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

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[124]

Voz nua: líricas / Fausto José. - Braga: [s. n.], 1957. - 105 p.; 19 cm. – (Quatro ventos; 12) Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Douro, Aldeia do Lima, Abr. 1958) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[125]

O tema da morte na moderna poesia portuguesa / Urbano Tavares Rodrigues In: Separata da revista “Graal”. - Nº 4 (1957), p. 3 -14 Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[126]

O vagabundo decepado: poema / Egito Gonçalves. – Porto: Notícias do Bloqueio, 1957. – 5 p.; 18 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Dez. 1957) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[127]

Um fidalgo de pernas curtas: novela infantil / Ilse Losa. – Porto: Edições Marânus, 1958. – 98 p.; 20 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Dez.1957). – Desenhos Júlio Resende Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[128]

Passaporte: poemas / Natália Correia. – Lisboa: [s. n.], 1958. – 60 p.; 20 cm. Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (15 Jun. 1958) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[129]

Filhas de Babilónia: novelas / Aquilino Ribeiro. – Lisboa: Livraria Bertrand, 1959. – 343, [1], p.; 20 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Lisboa, 1959) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[130]

[133]

Dr. Ramos de Almeida: o seu falecimento In: [s.n.]. – [24. Mar.1961] Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[134]

Dr. Ramos de Almeida: o seu funeral In: [s.n.]. – [24. Mar.1961] Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[135]

O funeral do escritor António Ramos de Almeida constitui uma grande manifestação de pesar In: [s.n.]. – [25. Mar.1961], p. 3 Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[136]

[Telegrama de Condolências] / Grupo de Estudos Brasileiros, Amândio Marques. – Porto, 25 Mar.1961 – 1 Telegrama l: 15 x 21,2 cm Telegrama de condolências do Grupo de Estudos Brasileiros Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[137]

[Telegrama de Condolências] / Joaquim Paço D’ Arcos. – Porto, 24 Mar.1961. – 1 Telegrama: 15 x 21,2 cm Telegrama de condolências de Joaquim Paço D’ Arcos e Maria da Graça Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[138]

António Ramos de Almeida / Ferreira de Castro. – [s.l.: s.d.]. – 2 fl.; : texto dat;. 26,5 x 20,5 cm Um texto de Ferreira de Castro, intitulado “António Ramos de Almeida”, escrito por ocasião da morte de A. Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[139]

Levamos a conhecimento de Vª Exª, que a trasladação dos restos mortais do nosso querido e saudoso amigo… / Comissão Pró Mausoléu “Ramos de Almeida”. – Vila do Conde, 23 Abr. 1694. – 2 Cartões + envelope: orig. dat.: 14 x 10 cm Convite para a cerimónia de trasladação dos restos mortais de António Ramos de Almeida, dirigido à esposa, D. Lina Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[140]

Minhas senhoras e meus senhores: perante a morada fúnebre de Ramos de Almeida / Nuno Teixeira Neves. - Vila do Conde, 10 Jun. 1964. - Texto: orig. dat. c/ emend. ms: 6 fl.; 27, 5 x 21 Versão integral do texto, tal como foi lido em 10 do Junho de 1964 no Cemitério de Vila do Conde Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[141]

O crime de aldeia velha: peça em 3 actos / Bernardo Santareno. – Lisboa: Edições Ática, 1959. – 242 p.; 20 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (1960) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

Homenagem à memória do escritor António Ramos de Almeida In: Jornal de Noticias. - (11 Jun.1964) Cópia de artigo sobre a trasladação dos restos mortais de António Ramos de Almeida para Mausoléu em Vila do Conde Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[131]

[142]

Espelho de três faces: romance / Joaquim Paço D’ Arcos. - 3ª ed. – Lisboa: Guimarães Editores, (1959). - 455, [3] p.; 20 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida (Lisboa, Dez.1959) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[132]

A invenção do amor e outros poemas / Daniel Filipe. – Lisboa: Sagitário, [1961]. – 65 p.; 19 cm. Com dedicatória a António Ramos de Almeida (Jan. 1961). - Capa Pilo da Silva Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

Homenagem a António Ramos de Almeida In: Vértice. – Nº 248-249, (Mai. - Jun.1949) Texto original datilografado da notícia publicada na Vértice nº 248-249. Refere que o próximo Numero da “Vértice” será dedicado parcialmente a António Ramos de Almeida MNR Espólio Vértice

[143]

Para uma antologia de pensamento republicano / Ramos de Almeida In: Vértice. – Vol. XXIV, nº 250-251 (Jul. - Ago. 1964), p.397-411 Contém: Três poemas por Ramos de Almeida, p. 402-404.- Uma figura viva entre os homens por Nuno Teixeira Neves, p. 405-409. – Saudação


Catalogação

a Ramos de Almeida por José Régio, p. 410,411. - Número 250-251 (Julho-Agosto. 1964) de Vértice consagrado parcialmente a António Ramos de Almeida, com textos de José Régio e Nuno Teixeira Neves bem como um ensaio, sobre Bernardino Machado, e poemas de A. Ramos de Almeida MNR PP 1

[144]

Em Vila do Conde: prestada homenagem póstuma a dois ilustres democratas In: JN. - (5 Mai. 1977) Homenagem a António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[145]

António Ramos de Almeida: que os novos saibam / Celso Pontes In: Renovação: semanário. – A. XL, nº 1818 (Abr. 1977), p. 1, 2 Semanário de Vila do Conde que refere que “ a partir de 25 do corrente o nome de António Ramos de Almeida figura na toponímia desta nossa terra” Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[146]

Saudade, Justiça e Amor: à memória do grande escritor que foi António Ramos de Almeida / Pedro Homem de Melo. – Porto, 24 Jun. 1979. – Carta + envelope: orig. ms: 1 fl.; 27 x 21 cm Carta dirigida a viúva e filhas de António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[147]

Conferida a ordem de liberdade ao Dr. António Ramos de Almeida / Celso Pontes In: Jornal de Vila do Conde. – (21 Mar. 1985), última página O Presidente da República Grão-mestre das Ordens Portuguesas confere ao Dr. António Ramos de Almeida a título póstumo o grau de Comendador da Ordem da Liberdade Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[153]

Intervenção do Deputado António Macedo em 24 de Outubro de 1983 / Assembleia da República Grupo Parlamentar do Partido Socialista. – Pernambuco, 24 Out.1983. – texto: dat: 9 fl.; 27,8 x 20,4 cm Intervenção que refere a cerimónia que oficializará o cumprimento do projeto lei da Câmara Municipal, em cujo artigo 1ª se consigna que “ fica denominada escritor Ramos de Almeida a atual Avenida da Integração, localizada no Bairro do Jardim Atlântico”, Olinda, Pernambuco Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[154]

Lina. Boa amiga / Lino Ferreira. – Olinda, 21 Out. 1983. - Carta: ms: 1fl.; 28,9 x 20,4 cm Carta enviada à esposa, Maria Idalina Fernandes de Carvalho, acompanha manuscrito de discurso (6 fl.), que o autor pretende apresentar na Assembleia da República, sobre placa toponímica de António Ramos de Almeida.

[155]

Olinda recebe hoje portugueses para homenagear escritor In: Diário de Pernambuco. – (27 Out. 1983) Homenagem a António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[156]

[Sessão solene da homenagem a Ramos de Almeida em OlindaPernambuco]. - Olinda, 27 Out. 1983. – 1 Foto: color; 13,1 x 20,2 cm Sessão solene, Dr. Manuel de Almeida, presidente da Câmara Municipal de Vila do Conde, lê mensagens enviadas à mesa pela inauguração da placa Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[157]

[148]

Olinda recorda figura de Ramos de Almeida In: Diário de Pernambuco. – Secção B (7 Nov. 1983), p 1 Homenagem a António Ramos de Almeida. – Artigo que contém fotografia de Ramos de Almeida (à esquerda) ao lado de Lins do Rego e Alberto de Serpa, numa foto dos anos 50. Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[149]

[Fotografia de Ramos de Almeida (à esquerda) ao lado de Lins do Rego e Alberto de Serpa, numa foto dos anos 50]. – V. F. Xira: MNR, 2013. Reprod. ampl.: pxb Reprodução de fotografia. - In: Diário de Pernambuco. – Secção B (7 Nov. 1983), p 1

O cume estético-teórico de 1940: à memória de António Ramos de Almeida / Fernando Alvarenga In: JN: supl. cultura. – (8 Out. 1985), p.12 Col. Mª Antónia Ramos de Almeida À Ex.ª Vereação da Câmara Municipal de Olinda- Pernambuco / Assembleia da República, Mário Soares. - Lisboa, 23 Jun. 1983. - carta : ms: 2 fl.; 29 x 20,5 cm Carta manuscrita pelo 1º Ministro Mário Soares em nome do Governo Português agradecendo a distinção de “lembrar a memória de um grande português […] António Ramos de Almeida” Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

Maquiavel e outros estudos / Jorge de Sena. – Porto: Livraria paisagem, 1974. – 217, [3] p.; 20 cm. – (Paisagem; 10) Prémio António Ramos de Almeida da feira do livro 1975, atribuído a Jorge de Sena. Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[150]

[159]

Dona Lina / Paulo. - Recife, 10 de Mai.1983. – Carta: dat.: 1 fl.; 20,8 X 14,7 cm Carta enviada à esposa Maria Idalina Fernandes de Carvalho, refere a apresentação do projeto que irá dar a uma avenida em Olinda, Pernambuco o nome de António Ramos de Almeida. - No verso tem colada a resposta do Prefeito José Arnaldo do Amaral Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[151]

António Ramos de Almeida «tem» avenida no Brasil In: JN. – (17 Jun. 1983) “Desde o passado dia 6 e Maio que um das principais avenidas da cidade de Olinda, em Pernambuco, no Brasil, passou a ter o nome do Dr. António Ramos de Almeida” Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[152]

António Ramos de Almeida dá o nome a uma avenida na Pernambucana Olinda onde nasceu há 71 anos In: JN. – (28 Jun. 1983) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[158]

Almanaque de lembranças Luso-Brasileiro / Alberto de Serpa. – 1ª ed. Lisboa: Inquérito,1952. – 111 p.; 19 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida.- Desenho António Vaz Pereira Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[160]

Novo almanaque de lembranças Luso-Brasileiro / Alberto de Serpa, Campos de Figueiredo, Carlos Drummond de Andrade, Francisco Costa, José Régio, Manuel Bandeira, Pedro Homem de Mello, Ribeiro Couto. – Porto: [s.n.],1954. – 29 p.;19 cm Com dedicatória do autor a António Ramos de Almeida Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[161]

A arte e a vida: para esclarecimento e compreensão da literatura moderna portuguesa e da estéril polémica arte pura e arte social  /  António Ramos de Almeida. -  Porto:  Livraria Joaquim Maria Costa,  1941. -  40, [3] p.;  19 cm. - (Cadernos Azuis  ;  2) MNR ALM/ENS/2525    

97


A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida

[162]

Antero de Quental: infância e juventude / António Ramos de Almeida. -  Porto:  Livraria Latina  (1943). -2 vol.;  19 cm. - (Cadernos Azuis.  Os homens e as ideias ; 5-6) 1º Vol.: 1943. - 62 p. 2º Vol.: 1943. - 67, [3] p. 1º vol.contém dedicatória do autor a Álvaro Salema MNR ALM/ENS/2513    

[163]

Antero de Quental: apogeu decadência e morte  /   António Ramos de Almeida. -  Porto:  Livraria Latina,  (1944). -  124, [3], p.;  19 cm. - (Cadernos Azuis.  Os homens e as ideias;  9-10) MNR ALM/ENS/2515    

98

[164]

A nova descoberta do Brasil  /  António Ramos de Almeida. - Porto: Editorial Fenianos,1944. - 58 p.;19 cm. - (Editorial Fenianos; 1) Conferência lida em 3 de Maio de 1944, no salão nobre do Clube Fenianos Portuenses. - Com dedicatória do autor a Álvaro Salema  MNR ALM/ENS/2524  

[165]

Sêde: poema  /  António Ramos de Almeida; il. António Sampaio. - Porto: Livraria Latina, 1944. - 30, [1] p.; 22 cm MNR ALM/POE/1772  

[166]

Eça / António Ramos de Almeida. - Porto: Livraria Latina, 1945. - 402, [1] p.; 20 cm Comemorações do Centenário do Nascimento de Eça de Queirós MNR ALM/ENS/748     

[167]

Vulcão: poemas / António (Ramos) de Almeida. - Lisboa: [s.n.], 1956. - 62 p.; 19 cm MNR ALM/POE/2597   

[168]

O pensamento ativo de Bernardino Machado  /  António Ramos de Almeida. -  Porto:  Brasília Editora,  1974. -  254 p.;  19 cm Comemorações do 5 de Outubro, homenagem nacional a Bernardino Machado Biblioteca particular Santos Silva MNR ALM/ENS/5599    

[169]

[Desenho a tinta da china] / [s.n.]. – [s.l.: s.d.]. – 1 Desenho: tinta da china s/ papel; 35,2 x 32 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[170]

[Diploma de condecoração] Le grand Maistre des Anysetiers du Roy nomme ce jour Dr. António Ramos de Almeida, Jornalista, au grade du Mestre / Commanderie de l’ Orde des Anysetiers du Roy. – Sénéchal: [s. d.]. – 1 Diploma: il. color; 35 x 47 colado em cartolina 62 x 48,6 cm Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[171]

[Dr. António Ramos de Almeida]. - V. F. Xira: MNR, 2013. – Reprod. ampl.: p&b Reprodução de fotografia de António Ramos de Almeida. – In: Cadernos de cultura: suplemento do jornal de Vila do Conde. – Nº 297 (18 Jul. 1985) Col. Mª Antónia Ramos de Almeida

[172]

Sinal de alarme: poemas / António Ramos de Almeida. – V. F. Xira: MNR, 2013. - Reprod. ampl.: color Reprodução da capa do livro de “Sinal de alarme: poemas”, [s.l.: s.n.], (1938): (Coimbra, Tip. Atlântida) Imagem retirada do site da Livraria Ferreira Modo de acesso: http://www.livrariaferreira.pt/5813/ SINAL+DE+ALARME

[173]

Exmº Senhor: conferência cultural/ António Manuel, Chefe de Posto. - V. F. Xira: MNR, 2013. – Reprod. ampl.; 1 relatório extraordinário: color Reprodução de imagem cedida pelo ANTT. – Relatório datado de 22 Mar. 1946, sobre a Conferência levada a cabo no salão do Bombeiros Voluntários, comemorativa do centenário de Eça de Queiroz. – O nome de António Ramos de Almeida é referido como sendo um dos organizadores da Conferência “ Embora com o rótulo de cultural a verdade é que foi uma reunião de todos os elementos desafectos à actual situação politica” Arquivo Nacional Torre do Tombo PT-TT-PIDE-DGS-DEL-P-PI-10800-NT-3623

[174]

[Informação sobre a participação de Antonio Ramos de Almeida na Comissão de Imprensa e Propaganda (Porto) para a candidatura do General Humberto Delgado]. - V. F. Xira: MNR, 2013. – Reprod. ampl.; 1 informação: color Reprodução de imagem cedida pelo ANTT. – Informação sobre a participação de Antonio Ramos de Almeida como fazendo parte da Comissão de Imprensa e Propaganda para a candidatura do General Humberto Delgado, à Presidência da República nas eleições de 1958 Arquivo Nacional Torre do Tombo PT-TT-PIDE-DGS-DEL-P-PI-10800-NT-3623

[175]

[Informação sobre o facto de Antonio Ramos de Almeida estar presente à chegada do General Humberto Delgado ao aeroporto de Pedras Rubras, Porto, 1958]. - V. F. Xira: MNR, 2013. – Reprod. ampl.; 1 informação: color Reprodução de imagem cedida pelo ANTT. – Informação que refere que Antonio Ramos de Almeida esperou a chegada do General Humberto Delgado ao aeroporto de Pedras Rubras, quando este se dirigia de Lisboa para o Porto em viagem de propaganda eleitoral, para as eleições de 1958 Arquivo Nacional Torre do Tombo PT-TT-PIDE-DGS-DEL-P-PI-10800-NT-3623

[176]

[Fotografia de António Ramos de Almeida, Porto, 1952]. – V. F. Xira: MNR, 2013. - Reprod. ampl.: p&b Col. Ana Maria Ramos de Almeida


Índice

5

António Ramos de Almeida: convicção e coerência de um humanista Maria da Luz Rosinha

Presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira

7

No centenário do nascimento de António Ramos de Almeida David Santos

coordenador do museu do neo-realismo

9

A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida António Pedro Pita curador da exposição

25

António Ramos de Almeida e a Livraria Latina: contextos e dinâmicas Maria do Rosário Ramada Pinho Barbosa

67

António Ramos de Almeida e o Brasil Valéria Paiva

77

Referências Biográficas

85

Bibliografia Ativa

87

Catalogação


Relembrar António Ramos de Almeida, no âmbito do centenário do seu nascimento, é o propósito principal desta exposição, que pretende também possibilitar uma interpretação da obra e sinalizar um percurso.

Precocemente falecido, os sinais de uma apaixonada existência no mundo permanecem. António Pedro Pita

organização:

p a t ro c í n i o :

apoios:

A VIDA E A ARTE DE ANTÓNIO RAMOS DE ALMEIDA

Sob o título A vida e a arte de António Ramos de Almeida, a exposição detém-se nos modos pelos quais este português de Olinda, com apaixonado vínculo brasileiro, se tornou figura central no conhecimento, entre nós, sobretudo da ficção dita regionalista; documenta a sua participação ativa (poemas, artigos doutrinários e um primeiro balanço crítico na conferência A arte e a vida, 1941), em Coimbra, na viragem cultural neorrealista desde os primeiros anos 30 e mostra como essa inspiração inicial se transforma num olhar e numa atitude, que serão o critério da impressionante atividade cívica e cultural, em que as demarcações necessárias (e as respetivas intransigências) se entrelaçam com uma larga visão que torna a cultura espaço de encontro de subjetividades contraditórias mas não incompatíveis.


Exposição Biobibliográfica "A Vida e a Arte de António Ramos de Almeida"