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Para entender um pouco sobre a Economia Feminista Graciete Santos, socióloga e coordenadora geral da Casa da Mulher do Nordeste

Para iniciar nossa conversa precisamos entender um pouco o que é Economia. A definição feita por um filósofo chamado Aristóteles, foi a Economia como Oiko (casa, lugar) e nomia (regras , normas da casa, do lugar), ou seja, o cuidar da casa, do lugar onde se está. Seria natural pensar que a Economia como ciência e entendida assim daria atenção e valor ao espaço da casa, ao trabalho das mulheres. Pois é nesse espaço de produção que as mulheres desenvolvem trabalho, onde são as responsáveis pelas tarefas e com o cuidado da família, e geram bens e serviços, como também afetos e relações. Porém não é reconhecido pela Economia como trabalho e nem pela sociedade em geral. É invisível. O trabalho doméstico apesar de absolutamente necessário para a sustentação e cuidado da vida humana se mantém invisível do ponto de vista das políticas públicas que dirigem a Economia atual. Com a Revolução Francesa, aconteceu na Inglaterra no século XVIII(dezoito), com a industrialização e mecanização do trabalho nas fábricas, a Economia se volta para a esfera da produção voltada para o mercado para aquilo que pode ser comercializado de forma monetária. As trocas são feitas através de um valor de troca, uma moeda, o dinheiro. Nesse período pensadores denominam de Economia Clássica no fim do século XVIII(dezoito) e início do século XIX(dezenove) onde a Economia é ligada ao processo de industrialização que se inicia e com a ascenção do Capitalismo que estava transformando a realidade social e econômica. O Capitalismo é um modelo, um sistema econômico, e político que visa manter uma relação de exploração entre quem tem o capital, o proprietário dos meios de produção, e aqueles que não têm o capital e não são donos mas tem a força de trabalho,é a classe trabalhadora, que em troca recebem o seu salário, na grande maioria injustos, pois ganham muito pouco em comparação aos lucros obtidos pelos patrões, donos do capital. Esses se interessam no lucro cada vez maior, e para isso tem que explorar as pessoas que trabalham para ele.

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Esse pensamento entendia que os indivíduos são iguais, tem as mesmas condições de acesso ao buscar no sistema econômico o atendimento das suas necessidades. Sendo assim a atividade econômica ao longo da história passa cada vez a se confundir com as atividades ligadas à industria e ao mercado.Os economistas clássicos, não incluíram o trabalho desenvolvido pelas mulheres na esfera reprodutiva nos seus modelos macroeconômicos. A Macroeconomia é a que se importa com as grandes empresas, o mercado, as exportações, a bolsa de valores, o mundo financeiro. Nessa lógica o trabalho das mulheres, do cuidado e da reprodução, realizado no espaço doméstico, não entra nas análises da Economia. Uma outra corrente de pensadores surge nas décadas de 1930 e 1940 denominados de Economia Neoclássica, defendiam a economia reduzida a relação entre oferta e demanda no mercado. O indivíduo era visto apenas como consumidor e como homem. Só importa as atividade que gerem renda. Defendiam o dinheiro onde representa o papel central da economia. Economia como uma ciência exata e assim também não reconhece o trabalho realizado pelas mulheres no doméstico uma vez que não é monetarizado, não gera renda. O que observamos é que até hoje os valores e ideias dessas duas correntes estão presentes no pensamento econômico e influenciam os modelos econômicos de vários países inclusive o do Brasil. Uma outra corrente de pensamento que influenciou muito a ciência econômica foi o Marxismo. O Marxismo foi idealizado por Karl Marx, alemão que revoluciona até hoje o pensamento social, econômico e político. Considera que os indivíduos não são iguais e que faz grande diferença se um é o proprietário da força de trabalho. Ele analisa o mecanismo perverso do modelo de produção Capitalista e revela as relações de exploração e opressão que sustenta esse sistema e aponta a ideia de mudança e revolução a partir do fim do Capitalismo, através de uma luta de classes entre os oprimidos, proletários, e os proprietários, capitalistas. Apesar de sua grande contribuição para as ciências e pensamento crítico, ele não considera na sua análise o trabalho doméstico, nem as mulheres como sujeitos políticos. Deixou um legado importante que é possível intervir para mudar uma realidade.

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As feministas criticam esses modelos econômicos É a partir desses cenários que as feministas vão questionado ao longo das história às ciências e a economia sobre os sentidos da economia, o trabalho não monetário, o valor do trabalho doméstico, a importância da economia do cuidado e a divisão sexual do trabalho. Divisão Sexual do Trabalho é uma forma de organizar e entender o mundo como se ele fosse separado em duas esferas e por dois sexos: 1) A esfera privada, da casa, onde são realizados os trabalhos reprodutivos, limpeza da casa, roupas, produção de comida, cuidado com as crianças, idosos e doentes. Não gera valor monetário nem tem valor econômico nem social. É trabalho das mulheres 2) A esfera pública fora de casa, do trabalho produtivo, que tem valor de troca, monetário, reconhecido como trabalho econômico. É trabalho dos homens. Essa lógica da Divisão Sexual do Trabalho, separa e hierarquiza a relação entre homens e mulheres, ou seja, dar valores desiguais. Existe trabalho de homem e trabalho de mulher. Trabalho de homem vale mais que trabalho de mulher. As feministas criticam essa lógica e apresentam suas análises e criam estudos sobre a Economia. Nesse contexto surge a Economia Feminista como proposta que vai na contramão da Economia Clássica, Neoclássica e também crítica ao Marxismo.

Economia Feminista Como surge Muito material foi produzido muitos em inglês. É bom lembrar que esse debate de uma Economia Feminista acontece internacionalmente. No Brasil, muitas feministas contribuíram para esse pensamento, como Elizabeth Lobo, Helieth Saffioti e outras, mas é mais recente a definição da existência de uma Economia Feminista. Na America Latina foi criada a Rede Mulheres Transformando a Economia, que a partir daí foi sendo divulgado nos países. No Brasil foi formada a Rede Economia e Feminismo, que tem hoje forte ligação com a Marcha Mundial das Mulheres. A SOF organização feminista sediada em São Paulo tem muito contribuído com a produção e 3


disseminação de conhecimentos sobre a economia feminista, com publicações a exemplo do Caderno Feminista com essa temática. O PACSPolíticas Alternativas do Cone Sul no Rio de Janeiro, também têm produzido materiais e formação sobre a economia feminista. No âmbito governamental essa visão passou a ter mais popularidade com a criação de uma linha em uma das chamadas públicas da Secretaria Nacional de Economia Solidária/SENAES, Rede Economia Solidária e Feminista que desenvolveu um projeto em vários estados envolvendo grupos e organizações não governamentais feministas. O que precisamos é entender o que é Economia Feminista para termos apropriação de usar, divulgar e praticar esse pensamento. Essas análises mostram que a Economia Feminista não tem se mostrado monolítica, ou seja, homogênea, os estudos refletem as correntes do pensamento da tradição feminista; a liberal, a radical, e a socialista. Para entender melhor o Feminismo como pensamento crítico e como movimento social mundial, é preciso reconhecer que esse foi sendo vivenciado a partir de outras influências e correntes de pensamento, como já vimos que aconteceu com a Economia: clássica, neoclássica e marxista. O pensamento liberal está fortemente influenciado pelas ideias de um estado mínimo, onde os indivíduos devem buscar seus interesses. Com relação ao movimento feminista foi dado muita ênfase a participação no sistema formal, institucional, dos mecanismos legais, como as conferências, os acordos internacionais etc. A ideia central é igualdade aos homens. A corrente Radical foca na discussão da luta de libertação das mulheres no patriarcado. Romper com a dominação masculina. A Socialista centra suas análises a partir da crítica ao funcionamento do sistema do capital como principal gerador das desigualdades entre homens e mulheres. Esse debate sobre o patriarcado e sistema do capital foi iniciado nos anos 1970 e 1980. Na minha opinião a análise Feminista deve hoje se aportar na crítica ao Capitalismo, ao Patriarcado e ao Racismo. Esses três pilares formam a base de desigualdades, sociais, econômicas e políticas no Brasil mas também nos outros países, considerando as diferenças culturais e históricas de cada realidade. Muitos são os temas tratados pela Economia Feminista. O trabalho doméstico tem sido central nos estudos e pesquisas a partir de várias 4


abordagens. A formalização de trabalho, a luta pela sindicalização dessa categoria, a discussão sobre a jornada de trabalho, o tempo, a divisão sexual do trabalho e sobretudo estratégias de como medir e atribuir um valor a esse trabalho. O que trata a Economia Feminista

A Economia Feminista, questiona a lógica da economia clássica e neoclássica como vimos e aponta as lacunas com relação às mulheres na visão do marxismo. As principais questões destacadas aqui:  A Economia Feminista questiona a centralidade no homem, como indivíduo principal da economia. Valoriza o trabalho realizado pelas mulheres as reconhece como sujeito econômico;  Questiona a centralidade no lucro, no capital. Ao contrário propõe a centralidade nas pessoas, na vida, na produção do viver;  A Economia Feminista aprofunda a análise da divisão sexual do trabalho afirmando que ela deve acabar;  Valoriza as atividades realizadas no doméstico, o cuidado com as pessoas, com a casa, a produção de alimentos, as relações afetivas e reconhece como parte da economia;  Amplia os sentidos e conceito de trabalho quando inclui o trabalho reprodutivo como parte central da sustentabilidade da vida;  As análises das economistas feministas sobre o mercado de trabalho mostram que o mercado não é uma entidade sexualmente neutra e que as relações de gênero estão na base da organização do trabalho e da produção;  As economistas feministas ampliam suas análises para além das ciências econômicas, dialoga com a sociologia, antropologia, a história, buscando recriar o campo teórico que possa dar conta da crítica à macroeconomia, as políticas econômicas e ao pensamento econômico, construindo novos métodos de análise e investigação.

A Economia Feminista aprofunda a análise da divisão sexual do trabalho afirmando que ela deve acabar. A discussão da divisão sexual do trabalho tem sido importante para entendermos que essa divisão é injusta, traz a ideia de determinação, ou seja, não pode ser mudado, é natural só as mulheres cuidarem da casa etc. 5


Ao meu ver a questão central é entender que podemos romper com essa divisão sexual do trabalho e transformar as relações de opressão e exploração sofridas pelas mulheres. Para isso temos que mudar a cultura e as práticas, onde os homens precisam assumir a responsabilidade de fazer o trabalho doméstico como de sua responsabilidade também. O estado deve assumir o seu papel de oferecer as condições necessárias, equipamentos como as creches para apoiar homens e mulheres que precisam trabalhar fora e deixar seus filhos e filhas protegidos (as). O trabalho do cuidado é social portanto de responsabilidade de toda a sociedade. Para isso é necessário um esforço conjunto, família, estado, escola, organizações e a sociedade em geral para mudar essa ideia naturalizada que cabe a nós mulheres cuidar da casa e das crianças, assim como cabe as mulheres as ocupações e trabalhos mais precários e maus pagos. Bibliografia consultada e recomendada Cadernos Sempreviva Economia Feminista. SOF Organização Feminista. Organizadoras Nalu Faria e Miriam Nobre. São Paulo, 2002. Cartilha Mulher e Trabalho. Casa da Mulher do Nordeste. Recife, 2013. A Mulher na Sociedade de Classes. Mito e realidade. Heleith Saffioti. Expressão Popular. São Paulo, 2013. Economia Feminista e Economia Solidária: sinais de outra economia. Sandra Quintela. PACS. Rio de Janeiro, 2006.

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Para entender um pouco sobre a Economia Feminista  

Texto de apoio para formações sobre Economia Feminista. Por Graciete Santos, socióloga e coordenadora geral da Casa da Mulher do Nordeste

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