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E-DIALOGUE

cConference m i s Mondiale Instituts Seculiers

Nr 9 ano 2011

SUMÁRIO Vida da Igreja . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 Mensagem do Santo Padre para o Dia mundial das vocações Mudanças na diretoria da CIVCSVA Vida da Igreja

- Beatificação de João Paulo II - Sínodo sobre a evangelização

Vida da CMIS.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 - Conselho executivo - Em vista do congresso - Em vista da assembleia - Renovação dos Estatutos Vida dos Institutos e das Conferências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 - Setenta anos do Instituto das Fieles Siervas de Jesus - Regnum Mariae - Ancelle Mater Misericordiae - Piccole Apostole della Carità - CIIS Testemunhos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 de Lampedusa Recordar-se de fazer memória Fé e cultura ……. Despertadores de consciência Para refletir . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19 Leigos, tornamo-nos Os Institutos seculares: uma «chance» para a Igreja e para o Mundo Na biblioteca. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27 Escreva amor («Scrivi amore») Lorenzo Cantù


Vida da Igreja Beatificação de João Paulo II Na nossa mente permanecerão imagens e memórias indeléveis deste importante acontecimento Amados irmãos e irmãs A bem-aventurança eterna de João Paulo II, que a Igreja tem a alegria de proclamar hoje, está inteiramente contida nestas palavras de Cristo: «Bem-aventurado és tu, Simão» e «felizes os que acreditam sem terem visto». É a bem-aventurança da fé, cujo dom também João Paulo II recebeu de Deus Pai para a edificação da Igreja de Cristo. (…) «Não tenhais medo! Abri, melhor, escancarai as portas a Cristo!». Aquilo que o Papa recémeleito pedia a todos, começou, ele mesmo, a fazê-lo: abriu a Cristo a sociedade, a cultura, os sistemas políticos e econômicos, invertendo, com a força de um gigante – força que lhe vinha de Deus – uma tendência que parecia irreversível». (…) A sua mensagem foi esta: o homem é o caminho da Igreja, e Cristo é o caminho do homem. Com esta mensagem, que é a grande herança do Concílio Vaticano II e do seu «timoneiro» – o Servo de Deus Papa Paulo VI – João Paulo II foi o guia do Povo de Deus ao cruzar o limiar do Terceiro Milênio, que ele pôde, justamente graças a Cristo, chamar «limiar da esperança». (…) Feliz és tu, amado Papa João Paulo II, porque acreditaste! Continua do Céu – nós te pedimos – a sustentar a fé do Povo de Deus. Muitas vezes, do Palácio, tu nos abençoaste nesta Praça! Hoje nós  te pedimos: Santo Padre, abençoa-nos! Amém. Tirado de: Homilia da Santa Missa presidida pelo Papa Bento XVI, 1º de maio de 2011. «Un santo di nome Giovanni. In viaggio con Karol Wojtyla, il Papa che ha cambiato la storia»: este é o título do livro (Aliberti editore) do vaticanista Fabio Zavattaro – apresentado ontem à tarde em Roma – que a cinco anos da morte de João Paulo II recorda seu pontificado. Enviado do Noticiário televisivo do primeiro canal da Rai («Tg 1») Zavattaro, que durante 27 anos acompanhou o Papa Wojtyla, oferece uma narração fiel e intensa do percurso feito ao lado do Sumo Pontífice. A partir do atentado, até o comovedor gesto da mão de Wojtyla apoiada no braço do seu atentador. Desde o encontro de 2002 em Assis com os chefes das Confissões religiosas, até a proximidade dos jovens, das Jornadas mundiais da juventude, até a doença vivida sob os refletores dos meios de comunicação. «Durante 27 anos passados ao lado de João Paulo II – explicou o autor – pude assistir, viagem após viagem, a um período de história: caminhando pelas veredas do mundo, ele abriu horizontes que nem sequer podíamos imaginar. Este livre nasce como um agradecimento àquele Papa que acompanhei e que desejei descrever», um Santo que tinha «a capacidade de viver a espiritualidade intensamente e de dialogar com todos». «Um Pontífice que conduziu a Igreja para além de si mesma, ao encontro do mundo», definiu-o o vaticanista Giuseppe De Carli, para quem este livro, «através de uma espécie de diário pessoal, nos comunica a importância do seu pontificado». E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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Sínodo dos Bispos sobre o tema: «A nova evangelização para a transmissão da fé cristã». Trata-se de um acontecimento importante para a Igreja inteira que nos compromete; gostaríamos que todos tivessem a possibilidade de acompanhar e de aprofundar os trabalhos sinodais. Da apresentação dos Lineamenta «Fui encontrado por quantos não me buscavam; manifestei-me aos que não perguntavam por mim» (Rm 10, 20)  A Igreja que anuncia e transmite a fé imita o agir do próprio deus, que se comunica à humanidade entregando seu único Filho, vive na comunhão trinitária, infunde o Espírito Santo para comunicar com a humanidade. A fim de que a evangelização seja eco desta comunicação divina, a Igreja deve deixar-se plasmar pela obra do Espírito e tornar-se conforme Cristo crucificado, que revela ao mundo o rosto do amor e da comunhão de Deus. Deste modo, redescobre sua vocação de Ecclesia Mater que gera filhos ao Senhor, transmitindo a fé, ensinando o amor que gera e alimenta os filhos. No coração do anúncio está Jesus Cristo, acreditado e testemunhado. O Conselho executivo da CMIS julgou que devia sentir-se envolvida a propósito deste tema. Com tal finalidade e precisamente para concordar uma possível contribuição da parte dos Institutos seculares para o Sínodo sobre a nova evangelização, a presidente encontrou-se com Sua Excelência D. Eterovic, secretário do Sínodo, e com ele estabeleceu que os conselheiros que assim desejarem, poderão enviar até o mês de julho uma contribuição neste sentido, para os «Lineamenta».

Vida da CMIS Reunião do Conselho executivo Encontrou-se em Roma, nos dias 8-10 de abril São múltiplos os temas na ordem do dia, entre os quais os seguintes:

I I I I I I

Avaliação da atividade da presidência e do Conselho executivo Congresso Assembleia Proposta de mudança dos Estatutos Secretaria Balanço

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Os conselheiros estavam todos presentes, com a exceção de Naoko Ozawa, do Japão, impedida por motivos extremamente graves, como podemos bem imaginar. Congresso Será realizado em Assis, nos dias 22-25 de julho de 2012 O tema escolhido é: À escuta de Deus nos «sulcos da história»: a secularidade fala à consagração Proximamente, enviaremos o programa e as informações úteis para aprofundar a preparação. Entretanto, podemos antecipar que contaremos com a presença do Prof. Paolo Gamberini, teólogo, e da Prof. Hanna Barbera Gerl Falkovitz, antropóloga. Assembleia extraordinária: 25-27 de julho de 2012 Programamos a assembleia eletiva e programática, como já tínhamos anunciado. No entanto, tendo começado a revisão dos Estatutos, o conselho sentiu a necessidade de proclamar uma primeira assembleia extraordinária, tendo na ordem do dia a revisão e a aprovação dos Estatutos. Assembleia ordinária: 27-29 de julho de 2012 Em seguida terá lugar a assembleia ordinária, para a uma avaliação dos trabalhos do conselho e das atividades desempenhadas, das opções até aqui feitas, e também para orientar os trabalhos do próximo quadriênio, mas inclusive para eleger o novo conselho executivo. A propósito da revisão dos Estatutos Já a partir da última assembleia, como nos recordaremos, teve início um processo de revisão e de atualização dos Estatutos, que viu comprometidos alguns membros do conselho, juntamente com certos peritos juristas da CIVCSVA, que trabalharam na proposta de revisão que durante a reunião do conselho foi examinada pelos conselheiros e pelo subsecretário da Congregação, juntamente com a doutora Leggio, nessa ocasião presente na realização dos nossos trabalhos. Quanto antes será comunicado amplamente aos Institutos, a fim de nos enviem observações e comentários. Aproveitamos o ensejo para recordar a todos que a língua adotada para os Estatutos é o francês. Enviaremos a todos uma cópia do texto na língua de cada um, somente com a finalidade de melhor entender o artigo que estamos prestes a aprovar, mas a língua utilizada para redigir, emendar e publicar permanecerá o francês. Nova presidente Na reunião do conselho executivo tivemos que enfrentar uma situação, sob certos aspectos desagradável, dado que o presidente em função, Fernando Martín Herraez, por motivos pessoais, deixou o encargo embora tenha permanecido no conselho de presidência. O conselho pediu a Ewa Kusz, presidente no precedente quadriênio e ex-membro do conselho de presidência, que seja ela mesma a assumir o encargo de presidente. O conselho executivo da CMIS realizou um encontro com a doutora Leggio, com a finalidade de uma contribuição para a revista Sequela Christi, que a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica programou sobre os Institutos seculares. Concordou-se que os conselheiros poderão contribuir com testemunhos dos institutos nos vários países e nas diversas culturas. E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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VIDA DOS INSTITUTOS E DAS CONFERÊNCIAS A Conferência francesa organizou em Lourdes, em outubro de 2010, um encontro-peregrinação; foi um tempo intenso e sobretudo um momento de comunhão entre os institutos. As conferências nacionais presentes puderam fazer intercâmbios entre si. Nadège doou o vídeo realizado com a televisão católica antes deste acontecimento. A Conferência asiática dos Institutos seculares recebeu da Santa Sé a aprovação definitiva dos seus Estatutos. A Cisal reuniu-se em Lima (Peru), durante primeira semana de fevereiro de 2010 e, no início de 2011, teve lugar o encontro nacional dos IISS da América do Sul; em novembro de 2011 será realizado o encontro nacional dos IISS no México. Vários encontros dos IISS da Bolívia tiveram lugar recentemente: trata-se de experiências de missão para os IISS presentes nesse país. Na América Central trabalha-se em vista de um projeto para uma única Conferência dos Institutos seculares. O próximo encontro terá lugar em Porto Rico, em 2014, com a finalidade de reunir os IISS presentes nos países onde não existe uma Conferência nacional. A Conferência polonesa enviou uma carta aos bispos da Bielo-Rússia e da Ucrânia, com a intenção de os informar sobre a vocação secular; estão muito interessados e não conhecem esta vocação. Em novembro de 2011 terá lugar um congresso para preparar o congresso da CMIS de 2012, e já foram mantidos alguns contatos frutuosos com o novo núncio, que não é polonês, mas conhece bem os IISS. Fomos informados pela Congregação a respeito do desejo dos IISS da Eslováquia de criar uma Conferência nacional, mas parece que ainda será necessário esperar um pouco. A CIIS organiza um curso de formadores, nos dias 2-4 de junho de 2011, sobre o seguinte tema: «O acompanhamento no discernimento vocacional», a realizar-se na Casa de Exercícios dos Padres Passionistas. «Mas vós não vos façais chamar “rabi”, porque um só é o vosso preceptor, e vós sois todos irmãos. E a ninguém chameis “pai” sobre a terra, porque um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem vos façais chamar “mestres”, porque só tendes um Mestre, Cristo. O maior dentre vós será vosso servo» (Mt 23, 8-11). A Conferência Episcopal do Canadá pediu a Sua Ex.cia D. Gérald Lacroix que fosse o intermédio entre os IISS do Canadá e a Conferência Episcopal. Ele aceitou e, dado que é membro de um Instituto secular, poderá dar início a um diálogo fecundo com os bispos e também esclarecer ou responder a eventuais problemas que possam surgir.

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O Instituto das Fieles Siervas de Jesus celebrou setenta anos de fundação.

Setenta anos do Instituto Secular das Fieles Siervas de Jesus Padre Carlos Jullermo Alvarez G., Eudista. 25 de março de 2011, por ocasião da festa do padroeiro, na casa «Servir», em Bogotá. Quando, em 1939, se encontraram e conheceram, Pe. Andrei tinha 47 anos e Merceditas, 28. Ele já tinha amadurecido mediante seu trabalho apostólico e pelo seu compromisso a favor da obra de formação na Igreja; ela era uma alma sequiosa da água viva que sacia e revigora, mas tinha recém-iniciado seu caminho de compromisso e de consagração. Houve um encontro, empatia entre os dois, e o Senhor começou através deles uma obra de edificação e de missão que quase dois anos depois se concretizou na fundação do Instituto das «Fieles Siervas de Jesus». Relendo as crônicas de Merceditas acerca daquele 25 de março de 1941, sobressai um sabor de simplicidade, pobreza e humildade. Celebrar juntos, os três fundadores, uma Eucaristia de inauguração, para Pe. Andrei como presidente no meio de um grupo de jovens congregadas, mas sem nada dizer nem proclamar ou anunciar, é muito duro aceitar hoje. Foi um início silencioso da obra de Deus, confiando que aquele «sim» dos três a deus podia ser uma pequena semente que teria florescido com vitalidade e força. Setenta anos depois nós estamos reunidos, celebramos uma maravilhosa festa de fraternidade e de alegria, comemoramos as grandes obras do Senhor em diferentes lugares e pessoas, e proclamamos abertamente que o Instituto é uma obra da Igreja, uma árvore fecunda que estende os seus ramos em vários países e oferece um caminho de santidade a numerosos homens e mulheres que se põem em busca da perfeição. O sim pronunciado por Merceditas, Josefina e Helena tinha, indubitavelmente, muito a ver com o fiat de Maria em um casebre esquecido de Nazaré, assim como mais tarde Natanael ia dizer ao seu futuro mestre: «Pode, porventura, vir algo de bom de Nazaré?» (Jo 1, 46). Assim, deste pequeno grupo de três mulheres, desejosas de Deus, podíamos perguntar: «Destas três jovens que dizem o seu sim a Deus, pode porventura vir algo de interessante?». Hoje celebramos a solenidade da Encarnação, recordamos o sim de Maria à missão que Deus lhe confiava e fazemos memória das primeiras Fieles Siervas de Jesus. Agora, deixemo-nos levar mais atrás, na página do cardeal Pietro de Berulle, onde ele comenta o fiat de Maria: trata-se de uma página que marcou a vida de padre Eudes, a vida de padre Basset, a vida de Merceditas. É uma página que pode assinalar-nos também a nós no cumprimento da nossa missão e na compreensão de quão grande pode ser um pequeno sim a Deus, que nos chama e nos confia uma tarefa no mundo. Lucas diz-nos, no texto da anunciação, que Gabriel, mensageiro de Deus, entra na casa de Maria, saúda, dá início a uma missão, ouve as inquietações, responde e esclarece, espera uma resposta de Maria e volta de novo para Deus. É a casa de Maria, e não o templo, o lugar da presença maravilhosa de Deus, o lugar aonde o Senhor deseja vir para permanecer e para se fazer carne. Há uma mudança de residência, que ainda hoje não começamos a compreender e a viver plenamente. O Senhor deseja deixar o Templo, para vir viver no coração e na vida dos fiéis para sempre. Maria pergunta: «Como é que isto se fará?», e o Anjo ilumina-a e fala-lhe de Jesus, que deseja viver e reinar nela, e Maria compromete-se. De Berulle escreve: «A Virgem concorda com a E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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palavra do Anjo, obedece à palavra de Deus e diz: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1, 38)». Esta palavra da Virgem não é uma palavra de piedade habitual e de sentimento popular, mas sim uma palavra humilde e nobre, que rejubila o céu, realiza a salvação do universo e captura dos céus o Verbo eterno, trazendo-o para a terra. Quando esta Virgem humilde, chamada e modesta abre a sua boa para responder, encontra-se nas mãos do Verbo eterno que a acompanha, que vai encarnar nela, que a deseja como Mãe. É este Verbo Divino que lhe inspira a Palavra e lhe comunica a atitude a manter. A última palavra da Virgem ao Anjo é muito diferente da primeira, não é mais uma palavra de estraneidade, como a precedente, mas sim de consenso. Não é perplexidade humana, mas determinação divina. Não é uma palavra de dúvida, mas sim de confirmação viva e ardente do desejo e da obra de Deus, é uma palavra excelsa, memorável e preciosa; uma palavra de graça, de amor e de vida, de uma vida que agora deve terminar. Porque esta palavra dá vida ao Deus vivo e transmite um estado de Filho eterno do próprio Deus eterno. Contemplemos aquilo que um sim a Deus pode obter e repensemos a nossa resposta à chamada de Deus. É compromisso e abertura a Deus, mas é também a possibilidade que Deus faça maravilhas em nós e através de nós, porque Ele deseja estabelecer o seu reino no mundo. E o cardeal de Berulle acrescenta: «Como é poderosa, fecunda e feliz esta palavra! Quantos segredos, graças e efeitos contém, e é com razão que a Virgem a pronuncia num momento para Ela tão santo e ditoso, no instante de máximo poder e de maior fecundidade que possa dar-se a uma criatura, quando se prepara para conceber e para dar vida ao Verbo encarnado, que é a virtude, a luz e o poder do Pai. Quando a Virgem pronuncia esta palavra, é submergida por uma graça singular, num estado divino numa atitude admirável que a leva a realizar gestos e efeitos excelentes. Neste momento, Ela abaixa-se, e ao seu baixar-se corresponde o fato de ter sido posta no alto dos céus. É assim que se perde nas mãos do seu Deus, como se tivesse nascido antes do seu criador, e começa a ser mãe do seu próprio criador. Então, penetra nas grandezas mediante a sua humilhação; penetra na sua maternidade através da sua virgindade; penetra na soberania mediante a sua obediência. Faz-se serva do Senhor, começa a ser a Mãe do Senhor. Mãe e serva ao mesmo tempo, sempre Mãe e sempre serva, como o seu Filho é Deus e homem, sempre Deus e sempre homem. Então também Ela, permanecendo Virgem, começa a ser Mãe: dois benefícios da corte celestial até agora incompatíveis, que neste instante se unem em Maria na atenção à sua missão e à sua pessoa, de tal modo que, não somente se conserva a sua virgindade, mas até se sublima, se enriquece e floresce mais do que nunca através da maternidade; e a sua maternidade é preparada de modo santo, começada de maneira feliz e divinamente realizada na sua virgindade» (Vida de Jesus). O «fiat» de Maria deu início ao mistério da encarnação do Verbo, à presença definitiva de Deus em nós e à transformação da nossa história. O sim de três mulheres válidas abriu muitas perspectivas novas às mulheres que, na América Latina, desejam consagrar a própria vida a Deus no meio das atividades seculares, e deu vida a um renovado estilo de santidade. O sim do nosso hoje convida-nos a olhar com esperança para o futuro e permite-nos esperar novos caminhos de compromisso e de consagração, que tornam válida e atraente a vocação laica no mundo. Demos graças a Deus por estes setenta anos do Instituto, honremos a memória dos pioneiros que abriram novos caminhos de consagração e comprometamo-nos a ser audazes e criativos, para viver a nossa consagração à santidade na escola de Jesus, Mestre sempre atual. E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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Instituto Regnum Mariae No dia 31 do passado mês de dezembro realizou-se em Ancona (Itália) a 43ª Marcha Nacional pela Paz. A marcha escolheu como sede Ancona, em preparação para o XXV Congresso Eucarístico – 2011. O tema escolhido pelo Papa para o Dia Mundial da Paz foi seguinte: «Liberdade religiosa, caminho para a Paz». Sobre o tema: Que missão hoje para os Institutos Seculares, vai realizar-se o encontro territorial entre a Itália e a Espanha em Loreto, de 3 a 12 de agosto de 2011. Ancelle Mater Misericordiae, junho de 2011 Da tarde de 30 de junho ao almoço de 5 de julho em Macerata, no seminário (perto da estação) será realizada a assembleia geral extraordinária sobre as constituições do Instituto, com a finalidade de obter a sua aprovação definitiva. Além disso, propõem um RETIRO ONLINE, que é assim apresentado: «Pensam mesmo em tudo!». Sim, é assim: também esta é uma «solução» para ajudar quem deseja percorrer um caminho na fé, que deseja continuar a crescer sempre; trata-se de uma «solução» para quantos não se sentem satisfeitos e sabem que de tudo podem aprender mais alguma coisa. Concretamente: cada mês será publicada, nesta página do site, uma meditação que poderá ser a guia para um dia, ou mesmo apenas para um pequeno espaço de «retiro», de solidão com Deus, de revisão do próprio caminho. As meditações que se seguirão foram tiradas de conferências apresentadas a grupos da Família espiritual Mater Misericordiae, ou retiros orientados, ou ainda cursos de atualização. Piccole Apostole della Carità Programaram um congresso sobre o tema: «Cartas ao povo de Deus», do beato Luigi Monza, discípulo e filho de São Carlos, que se realizará no dia 4 de junho de 2011 na sede da fundação ambrosiana, por ocasião da apresentação do volume das Cartas do beato. Trata-se de um momento de aprofundamento da espiritualidade do beato e da sua mensagem para os homens e as mulheres do nosso tempo.

TESTEMUNHOS A imigração, gerada por diversas necessidades, lança interrogações e elementos de «incômodo», que impõem uma nova síntese de vida entre ter-conquistar e compartilhar-dar. Às vezes certas situações tornam-se inquietadoras, e ainda mais as possibilidades de regulamentar as emergências. Propomos em seguida esta reflexão, como fruto da experiência direta de alguns dentre nós.

«O que vimos e ouvimos é quanto vos anunciamos» (1 Jo 1, 3). Carta de Lampedusa (Itália) «Os poderes viram nas ilhas lugares de reclusão, construíram prisões em cada recife, o nosso mar está constelado de grades. Os passarinhos, ao contrário, veem na ilha um ponto de apoio onde parar e descansar do voo, antes de continuar e voar mais além. Entre a imagem de uma ilha como recinto E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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fechado, a dos poderes, e a imagem dos passarinhos, de uma ilha como ponto de apoio onde pousar o voo, são os passarinhos que têm razão» (Erri De Luca no cemitério de Lampedusa. Tirado de: «Che tempo che fa» de 20 de maio de 2009). A nossa presença em Lampedusa, durante a última semana de março e os primeiros dias de abril, ofereceram-nos a possibilidade de ouvir muitas histórias, pequenas e simples, às vezes diversas daquelas que são narradas pelos jornais e pelas televisões. Durante este dias, os nossos olhos cruzaram-se com numerosos outros olhares, e o nosso coração viveu emoções dramáticas, profundas e verdadeiras, feitas de desespero e de raiva. Por isso, agora queremos narrar. Sentimos quase uma necessidade, como que um desejo de narrar aquilo que vimos e ouvimos, as cenas de dor que encheram os nossos olhos de lágrimas; mas também os sinais de vida que alimentaram a nossa esperança e os nossos sonhos. Um «obrigado» à comunidade de Lampedusa pela hospitalidade e pela solidariedade. «Surpreendidos no meio da noite», não se deixaram assustar, mas foram capazes de permanecer acordados, sem «cochilar» diante da ausência e da falta de uma «vontade» real de enfrentar a emergência da parte das instituições. Não se renderam à cultura do medo. Sem muitas palavras, de um modo bonito e criativo, «construíram pontes» e «destruíram muros». Como em outras ocasiões, numa realidade difícil e cheia de sofrimento, conseguiram reunir as forças morais e espirituais, as convicções e os sentimentos que os levou a viver de uma maneira diferente as respostas às várias necessidades. Muitas histórias, muitos nomes... pessoas concretas As histórias ouvidas na ilha eram feitas de sonhos, projetos e expectativas... um pouco como as nossas. Encontramo-nos com pessoas cansadas, famintas, desesperadas e tristes, embora nos seus olhos a esperança não tenha desaparecida totalmente... momentos fugazes de um sonho ainda vivo no coração. Nos seus rostos reconhecemo-nos próximos, diferentes e iguais. Se a construção de uma sociedade hospitaleira começa com o cultivar a atenção e a sensibilidade em relação às pessoas, a emergência os imigrantes em Lampedusa não só sufocou a sua dignidade, mas também eliminou qualquer possibilidade de viver uma humanidade no plural... uma «outra sociedade». Como todos nós bem sabemos, desde a sua chegada, os imigrantes são expostos à estigmatização e ao racismo. A sua condição de irregularidade, não escolhida mas determinada, «Aquilo que vimos e ouvimos é quanto vos anunciamos» – Carta de Lampedusa 2, pelas normas, há tempos foi transformada numa categoria quase ontológica, marcada com o estigma de uma periculosidade natural, utilizada como bode expiatório ao qual imputar os efeitos da crise econômica e todos os tipos de contradição que vivemos como italianos. Uma realidade tão evidente aos nossos olhos, que temos dificuldade de a reconhecer como tal, justificando-a e mascarando-a de muitos modos. Talvez porque interrogue profundamente as nossas consciências, protagonistas de políticas sociais e econômicas predominadas pelo neoliberalismo (a lógica do lucro). Não podemos esconder o sol com um dedo: os fluxos migratórios continuam a verificar-se para escapar de situações dramáticas nos países de origem – pobreza, carestia, fome, guerra e violência – e hoje os instrumentos de análise fazem-nos compreender quanta responsabilidade têm os governos, sobretudo ocidentais, por detrás de toda a situação dramática, de cada condição desumana. Um sistema que assegura riqueza, pode econômico e financeiro a poucos, só consegue predominar se empobrecer a maior parte da população mundial. Aquilo que procuram, E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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desembarcando no litoral da Itália, é liberdade, dignidade, uma possibilidade de trabalho, assim como o respeito pelos seus direitos fundamentais. Num sistema feito assim tornaram-se gratuitas, sem provocar qualquer reação de indignação, expressões como «sobras», «excessos»... referidas a pessoas ou a povos. Se não forem rejeitados, o seu futuro será cheio de trabalhos flexíveis, informais, precários e irregulares. E isto somente pode produzir condições de perene ilegalidade e incerteza; e/ou a opção do regresso definitivo à pátria; ou ainda o deslocamento contínuo, durante a vida inteira, entre uma vilarejo e outro, uma cidade e outra, um trabalho e outro. Em tudo isto, como podemos esquecer que atrás daqueles que sobreviveram existe um sulco de cadáveres sepultados no mar ou debaixo da terra dos cemitérios de ambos os lados do canal da Sicília? Eles são os novos mártires de uma história onde Deus está presente como o Senhor da Vida. Que a sua morte injusta seja fermento de uma sociedade hospitaleira, justa e solidária. Nenhum muro nem fronteira conseguirá detê-los. «Os africanos continuarão a chegar à Europa com todos os meios, mesmo ao preço de morrer no deserto ou no mar, enquanto o equilíbrio econômico e ambiental entre a África e o resto do mundo não for restabelecido por quantos são responsáveis, ou seja, pelo Ocidente!» (D. W. Avenya. Sínodo para a África, 4-25 de outubro de 2009). A vergonha e a derrota Para o governo italiano e para todos os políticos, Lampedusa foi, como as numerosas outas emergências presentes no território (lixo, terremoto nos Abruzzos, etc.), a possibilidade de transformar as tragédias humanas em vantagens pessoais, econômicas e políticas. E é assim que se inaugura a época das fronteiras fechadas e do controle, do medo da invasão e do migrante como um inimigo, que encontra a sua sanção perfeita nos acordos de Schengen, que realizam a sobreposição político-administrativa entre fronteira, crime e imigração, contribuindo deste modo para incrementar o processo de estigmatização dos estrangeiros não ricos, alimentando xenofobia e racismo. De resto, na Itália a imigração – iniciada já há trinta anos – ainda não é reconhecida como um componente intrínseco e estrutural da economia e da sociedade. Diante de tudo isto, não podemos permanecer indiferentes. Quando a vida humana está em perigo, somos chamados a fazer uma escolha de parte... da parte da vida. Por isso: Gritemos, vergonha! «O que vimos e ouvimos é quanto vos anunciamos!» – Carta de Lampedusa 3. • Pela incapacidade da parte das instituições governamentais de gerir uma emergência humanitária. Serviços higiênico-sanitários, alimentação, lugares protegidos para transcorrer a noite... faltou tudo, uma catástrofe depois da outra. • Pelo show embaraçante para os lampedusanos, da parte do nosso presidente do conselho na ilha. Como bobo da corte, divertiu por algumas horas o humor dos habitantes insulares com piadas, à sua maneira, repugnantes e insensatas. Encher de falsas esperanças o coração de quem espera uma palavra verdadeira: eis o retrato de uma política ao serviço do lucro, e não da vida. • Porque não houve a vontade política de fazer bem as coisas. De resto, os imigrantes ainda são considerados seres de segunda classe. Os animais são tratados muito melhor nas nossas «casas entrincheiradas», porque incapazes de amar e de ser amados. • Porque a proteção civil não foi posta em condições de agir com as estruturas (que chegaram a Lampedusa) adequadas à emergência (cozinhas de campo, estruturas de primeira necessidade, etc.). E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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• Porque, embora nos definamos tolerantes e hospitaleiros, assim que vemos lesados o nosso território, ou os nossos interesses, apelamos à violência, na linguagem e nos gestos. • Pela falta de humanidade nos embarques dos imigrantes nos navios para as transferências. Tratados como prisioneiros... cenas humilhantes e sem um miserável «por quê?». Mas Lampedusa representa também a derrota: • Aí foi derrotada a política dos partidos, demasiado ocupada em fazer quadrar o próprio «do ut des». • Aí foi derrotada a burocracia (prefeitura, delegacia, comissários extraordinários... ) lenta nos seus reflexos sobre as «competências». • Aí foi derrotado o conjunto das várias organizações humanitárias, presentes mas talvez, na nossa opinião, em pouco número em relação à multidão de imigrantes (por exemplo, os medianeiros culturais... ). • Aí foi derrotada a Igreja oficial, a cujo silêncio se opõe o coro de vozes da comunidade de Lampedusa, pronta a acolher, «dar de comer, de vestir e de beber», não obstante o forte sentido de abandono sentido e vivido por parte de todos. É verdade! É inútil dar voltar ao redor da tragédia com palavras mais ou menos retumbantes: todos nós faltamos a este encontro importante com a humanidade! Vimos esta derrota esculpida nos rostos dos imigrantes em lágrimas, pudemos lê-la nos olhos dos jovens da base de Loran ou da casa da fraternidade. Sair de casa para colocar-se na pele do outro, da outra Alguns dizem que o fortalecimento das fronteiras não serve unicamente e em primeiro lugar para deter os movimentos migratórios – que realmente continuam – mas para definir como irregulares os imigrantes que as atravessam, dando-lhes uma identidade que os põe numa posição de inferioridade e de falta de direitos: um exército de pessoas invisíveis, que podem ser chantageadas e exploradas (D. Antônio M. Vegliò, VIII Congresso EU, Málaga, abril-maio de 2010). A chegada de tantos nossos irmãos não pode deixar de nos interrogar... no banco dos réus estão sentados o nosso estilo de vida e as políticas promovidas durante muitos anos pelos nossos governos, em relação aos países de onde chegam os nossos irmãos. Não é um problema dos nossos dias, mas vem de muito longe. No entanto, a cidadania ativa e as associações humanitárias podem realizar percursos para mudar esta realidade. Devemos ter a coragem de superar os temores e as inseguranças para poder realmente criar espaço para o outro, para a outra. «O que vimos e ouvimos é quanto vos anunciamos!» – Carta de Lampedusa 4. Concretamente, isto significa: 1. Em primeiro lugar, o respeito pelos direitos fundamentais da pessoa. É o ponto de partida, a base para qualquer reflexão e para quaisquer ações possíveis. É neste contexto que se devem desenvolver as políticas de acolhimento e a integração jurídico-política dos imigrantes. 2. Um novo modelo de cidadania. Uma nova realidade social, que nos leva a aproximar-nos do outro, da outra. Já não tem sentido dizer: «São eles que se devem integrar...»; a integração é uma responsabilidade que corresponde a todos, a todas: eles que chegam e nós que os recebemos. Somente superando uma lógica paternalista e protecionista, o encontro pode tornar-se o espaço privilegiado para construir uma sociedade pluralista.

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3. Saber reconhecer o rosto do outro, da outra, para dar início a um relacionamento «ético» e verdadeiramente «humano». Nas nossas mãos há sem+re a possibilidade de realizar uma sociedade acolhedora, fraterna, caracterizada por relações justas, respeitosas das diferenças, onde cada pessoa possa expressar-se na sua plenitude. 4. Não renunciar ao compromisso profético. A denúncia nasce do compromisso quotidiano pela vida e deve levar-nos a humanizar cada vez mais a história. 5. É necessário unir os esforços e o nosso compromisso para criar espaços de encontro entre as várias culturas e religiões. Este espaço começa a existir quando somos capazes de reconhecer o diálogo como instrumento de participação da parte de todos na construção de uma sociedade diferente. 6. Ser sensível, atento e solidário com quem realmente tem necessidade: isto deve manifestar-se em obras concretas. É muito importante sair dos nossos «âmbitos interiores» e de uma fé intimista, que não leva a lugar algum. «Ser credível e não crente» (Rosário Livatino) continua a ser um desafio para todos nós, cidadãos comuns e sobretudo cristãos. Com gratidão, Dorotea, Maria, Alberto, Maria Grazia, Tony e Domenico Palermo, 12 de abril de 2011. Recordar-se, ou fazer memória Este tema sensibilizou-me porque este verão, durante um curso de retiros, vivi uma passagem entre duas atitudes próximas e contudo diferentes: recordar-se e fazer memória. Então, senti uma profunda tristeza e deixei-me invadir por recordações de todos os momentos dolorosos atravessados durante a minha vida de mulher casada há quarenta anos e mãe de quatro filhos. É um lugar-comum dizer que, nos nossos dias, a família deve enfrentar situações difíceis: droga, álcool, doenças psíquicas, homossexualidade, união com pessoas de cultura e de língua totalmente diferentes, famílias reconstituídas... Dado que eu mesma tive que viver algumas destas situações, além de um luto doloroso, deixei-me levar, enumerando todos os meus reveses e reexaminando-os até nas minhas orações, que assim se tornavam amargas e tristes. Cheguei a não ter mais vontade de viver. Foi então que o Senhor veio em minha ajuda. Repentinamente, senti-me chamada a oferecer todos estes acontecimentos, todos os despojamentos que eu tivera de fazer, e a confiar tudo quanto a Cristo. Então, revi todos os momentos da minha vida em que o Senhor estivera próximo de mim. Voltei a pensar em todos aqueles sinais da sua presença que entretanto eu tinha codificado com o meu acompanhante e compartilhado no meu grupo. Encontros inesperados e portadores de vida. Palavra de Deus que parece proferida para mim e que reanima. Desventura que faz descobrir uma leitura eficaz para indicar uma luz. Sentimento repentino de uma oração habitada pela sua Presença. Cristo vivo dizia-me mais uma vez: «Venha a mim, você que sofre sob o peso do fardo, e Eu aliviá-la-ei». E foi precisamente isto que aconteceu! Graças a tudo quanto eu tinha vivido com Cristo, consegui fazer deste movimento de oferenda a minha vida, e isto uniu-me Àquele que se

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entrega incessantemente. Encontrei-me livre da minha ruminação mortífera e da minha amargura, que deste modo se transformava em paz. Senti-me chamada a uma nova vida. É bom fazer memória de acontecimentos que fazem aumentar a nossa fé no Deus fiel, para lhe dar graças por nos abrir um futuro e para sermos mais fortes quando se apresentarem outras provações. Françoise Larauza, SVE Dax «Cor unum», n. 2, 2011. Fé e cultura Da parte do peixe pequeno O bairro de Bad Cannstatt, em Stuttgart (Alemanha), com a retomada econômica depois da segunda guerra mundial, povoou-se de grandes indústrias e, consequentemente, tornou-se um polo de atração para imigrantes de várias nacionalidades, de modo particular da Europa mediterrânea. Bad Cannstatt, agosto de 1980. Nessa tarde, o apartamento no andar térreo da Neckartalstr., 71 parecia não conter mais os hóspedes que aos poucos continuavam a chegar: «Boa tarde, é aqui a festa?». O salão já estava lotado e as pessoas acomodavam-se nas salas adjacentes, enquanto o vozerio aumentava de intensidade: saudações, diálogos vivazes entre amigos e conhecidos. Eu era um dos jovens vindos da Itália para uma experiência de «campo de verão»: uma semana no meio dos italianos emigrantes na Alemanha, na comunidade das Missionárias Seculares Scalabrinianas. Nos dias precedentes visitamos os Wohnheime, os alojamentos coletivos das empresas para os chamados Gastarbeiter (trabalhadores hóspedes): beliches, pequenos armários de ferro, cozinhas e banheiros em comum, cheiro de fumaça e de alimento nos corredores. No início dos anos 80, a presença de homens sozinhos, com as famílias na Itália, ainda era forte, mas depois muitos deles, dando-se conta de que a almejada perspectiva de um regresso a curto prazo não era facilmente realizável, preparavam-se para permanecer e para mandar vir as respectivas famílias. Nos Wohnheime pudemos ser recebidos graças a Pe. Gabriele Bortolamai e às Missionárias que tinham iniciado, já havia alguns anos, uma experiência de «Comunidade eclesial de base», uma presença de partilha que, sem funções nem estruturas, numa escuta e num diálogo de igual para igual, tencionava alcançar precisamente estes homens sozinhos, confinados às margens da sociedade. Foi precisamente da escuta que nasceu o curso de alfabetização, porque ainda havia numerosos emigrantes italianos analfabetos; a estima e a amizade conseguiram vencer o atraso natural e vários deles aceitaram pegar o papel e a caneta na mão, não obstante a idade não mais jovem e o sacrifício de um trabalho pesado. À noite, deixando de lado os uniformes de trabalho, vestiam um casaco bom e chegavam ao porão da vizinha paróquia alemã de São Martinho onde, ao redor da grande mesa com Adélia e com outras missionárias, aprendiam a escrever e a ler as palavras da sua sua emigração: «trem, estação, mala», enquanto os mais avançados conseguiam soletrar: «Querida esposa, escrevo a você para lhe dizer que estou bem, e espero o mesmo para você e para as crianças». - «Sinto-me uma alma mais aberta, sinto-me mais corajoso de antes, tenho mais ânimo, mais força. Mesmo ao longo do caminho, quando vou à Itália, agora tenho a satisfação de ler, em cada estação, E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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onde eu estiver. Entendo sozinho quando cheguei...» (Antônio). - «A primeira palavra que escrevi foi: Querida!». Sabe o que quer dizer? É a coisa mais importante, porque posso escrever: Querida esposa, querido filho, querida mãezinha... É a primeira palavra mais importante para os afetos. É a primeira palavra que entrou na minha cabeça» (Michele T.). - «No bingo havia alguns prêmios: um pequeno quadro, um chapéu – eu ganhei um lápis. Antes, nas minhas mãos ele não era nada, apenas um pedaço de madeira. Agora tornou-se algo importante, que me permite enviar comunicados de uma nação para outra. Também o Senhor pensou que era bom para mim ganhar um lápis. Se quiser, tire-me 50 marcos, mas não o meu lápis!” (Michele C.). - «Interessa-me frequentar a escola, porque tenho a carteira de motorista, mas não posso ser motorista porque não sei ler o nome das ruas. Gostaria de poder ler os jornais...» (Domenico). Também aqui, nada de funções, mas apenas a posta em comum dos próprios dons, simplesmente, no estilo da secularidade, que vive a partilha em nome de uma pertença recíproca como humanidade e como corpo de Cristo. Talvez fosse precisamente isto, aquele «suplemento» que conferia valor e beleza a uma experiência semelhante, a tal ponto que alguns amigos destes «alunos» maduros se solidarizavam com eles; houve até mesmo alguns que, em posse de diploma de segundo grau ou de magistério, voltaram a apresentar-se ao exame do último ano da escola primária para completar o número mínimo de candidatos exigidos pelo Consulado. Depois da escola primária, chegou a vez da escola do ciclo preparatório. Também neste caso, cursos noturnos, que tinham encontrado uma recepção nos mesmos porões da vizinha paróquia, em que estavam comprometidas várias missionárias: Maria, Grazia, Marina. E a aventura da escola parecia não querer mais parar. Estavam começando as unir-se as famílias, e da Itália chegavam rapazes e moças que tinham recém-terminado a escola obrigatória, agora lançados – com as suas necessidades de adolescentes – num mundo para eles estranho, às vezes até hostil, com poucas ou nenhuma perspectiva de promoção cultural ou social. «Levar a escola secundária também a Stuttgart, como já a Colônia e a Munique»: este era o lema proposto por um Comitê promotor, constituído pelos homens dos Wohnheime, preocupados pelo futuro dos seus filhos. Um lema cunhado com base em outras experiências já em curso: a do ISIS (Instituto Escolar Italiano dos Scalabrinianos) de Colônia, que já era uma instituição consolidada, e o de Munique, onde no ano precedente tinha iniciado um curso noturno para contabilistas, promovido pelos Missionários Scalabrinianos. Nessa tarde de verão de 1980, eles estavam ali precisamente para isto: uns setenta homens reunidos para festejar, mas também para falar do que estava no seu coração, para procurar juntos os passos a dar em relação às autoridades. «Vocês que estudaram, ajudem-nos»: nisto consistia o seu pedido, porque tinham observado que a escola significava não apenas obter um «pedaço de papel», sempre útil na vida, mas – muito mais – adquirir «uma luz nova nos olhos», para ler a realidade circunstante: uma realidade muitas vezes difícil, na qual eram estrangeiros. Então, desejava-se uma escola que fosse escola – profissionalizante, sim – mas não apenas finalizada ao trabalho; uma formação que contemplasse a pessoa inteira, porque «os migrantes não são apenas braços». A escolha privilegiou o Instituto Profissional para o Comércio (IPPIC), com um percurso trienal até à qualificação como Secretários de empresa e um possível ulterior biênio com diploma de curso complementar final e acesso à universidade. Enfrentar um percurso tão

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longo e exigente, sobretudo na precariedade e na dispersão da emigração, constituía um desafio não indiferente. No entanto, a escola começou verdadeiramente e foi, desde o início, a école de la foi, como a batizou Beatrice, no seu elegante francês parisiense. Faltavam livros e vários professores, não havia fundos e nem sequer dispúnhamos as aparelhagens necessárias: nenhuma máquina de escrever e, para as lições de cálculo, utilizávamos uma peça de antiquariado, um apetrecho monumental à manivela, ao redor do qual se reuniam professores e estudantes. 29 de setembro: a notícia de que estava sendo aberta uma escola secundária difundiu-se entre as famílias, e no dia da inauguração dos cursos o salão do Centro Italiano na Marienplatz apresentava-se muito animado; jovens, famílias, homens dos Wohnheime, amigos vindos por solidariedade, todos tinham um motivo de interesse pela escola: alguns para si mesmos, e outros pela esperança de um futuro diferente para as novas gerações. Quanto a mim, estava na Alemanha havia apenas dois dias, depois de ter partido de casa para seguir a vocação missionária. A emigração era para mim um mundo inteiramente a ser descoberto: não acreditava nos meus olhos, ao encontrar-me repentinamente num ambiente que parecia a Itália de vinte anos atrás. Somente mais tarde, graças à experiência e à interpretação recebida na comunidade, entendi os motivos disto, também em referência à intuição de Scalabrini, que já na sua época tinha compreendido que manter vivas as próprias raízes culturais não significa fechar-se no ambiente mas, ao contrário, representa uma condição necessária para nela se inserir de maneira ativa e partícipe. «Fé e cultura»: este era o binômio scalabriniano ao qual nos referíamos com frequência, como a duas dimensões muito importantes para o desenvolvimento integral da pessoa, de modo especial na dispersão da emigração. Para aqueles anos em que a integração era pensada e desejada como um processo de adaptação em sentido único, enquanto não faltavam posições políticas e associativas que se situavam na margem oposta, reivindicando uma identidade cultural afirmada igualmente em sentido único, essa ideia podia ser precursora. No encontro inicial no Centro Italiano, Maria Grazia explicou tudo isto, falando aos diretos interessados: «Diante do peixe grande, o peixe pequeno tem medo de ser devorado; há quem se deixa engolir e nega a sua identidade para se fazer aceitar e, ao contrário, há quem se fecha num círculo de iguais, formando um pequeno gueto. Mas se o peixe pequeno cresce e adquire segurança, pode olhar o grande nos olhos e dialogar com ele. A escola pode servir para isto!». Um discurso que todos podiam entender e muitos concordavam ou comentavam com os vizinhos: fala-se precisamente da sua situação, da dificuldade de viver num país estrangeiro, de se medir com uma língua difícil e sobretudo da importância de não se sentir «cidadãos de segunda classe»! Somente mais recentemente foi despertada nos estudiosos a consciência de que a cultura de origem não pode ser negada, nem simplesmente posta de lado; pelo contrário, crescendo no meio de várias culturas e pertenças, os jovens da segunda geração podem desenvolver uma nova identidade, como resposta a um mundo que está alterando rapidamente muitas linhas de fronteira geográficas e culturais, contanto que sejam ajudados a viver estes processos como sujeitos ativos e E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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participantes. Esta era a ideia que então já intuíamos: na vigília da Europa unida, os jovens filhos de emigrantes não se sentiam plenamente italianos, e nem sequer totalmente alemães, mas isto abria-os de maneira potencial a uma identidade mais ampla, talvez já europeia, embora não sem dificuldade e labuta. Por conseguinte, a école de la foi começou na noite seguinte, com cerca de trinta inscritos, jovens e adultos, homens e mulheres. A sala do Centro Italiano na Marienplatz, que tinha sido posto à nossa disposição, estava lotada. Estávamos todos bastante emocionados. Ainda recordo muitos nomes, diversos rostos, os olhos vermelhos daqueles que tinham trabalhado o dia inteiro ao ar livre, no frio do inverno alemão e que, na tepidez do quarto, sentia pesar o cansaço. Havia alguns jovens que frequentavam de dia a escola alemã e à noite a escola italiana; Gerardo, um jovem de 16 anos de idade, esperto e capaz, interrogado sobre o seu sonho de futuro, como por exemplo: «O que gostaria de fazer?», respondia invariavelmente: «Schlosser! Soldador!». Alguns, com muito otimismo, já tinham estampilhado nos respectivos cadernos o próprio nome, precedido de um improvável «Rag.» (abreviatura de contabilista, em italiano), que o projetava por encanto num seu imaginário empíreo, povoado de funcionários e empregados de paletó, gravata e maleta. Havia duas moças sicilianas, dois irmãos sardos que falavam somente alemão, um adolescente que frequentava a escola alemã e todas as noites vinha de um vilarejo nos arredores da cidade de Ludwigsburg. E havia Giuseppe, operário «histórico» da Mercedes, um dos membros do Comitê promotor, fidelíssimo e incansável, diligente na execução das tarefas, furtando o tempo às pausas na fábrica, embora soubesse que a idade e a situação lhe teriam impedido de superar os exames. Sim, porque todos os anos os exames esperavam por nós. Dado que se tratava de uma escola particular, somente os exames de fim de ano permitiam garantir o resultado de um ano de estudo. Para isso íamos a Ancona, meta que se nos tornava acessível graças à hospitalidade dos Missionários Scalabrinianos em Loreto. O álbum das recordações está repleto de acontecimentos e imagens destas transferências: a partida da estação de Stuttgart, com o grupo de parentes que vinham para se despedir; a longa viagem de trem, mas com alegria, porque «íamos à Itália, e na Itália tudo é bonito, até as calçadas!»; o estudo comum em vista dos exames orais, a presença tranquilizadora do Professor Antônio Costa que, para assistir até o fim os estudantes, partia da Alemanha com um carro de «dois cavalos» e três marchas, levando consigo a família, viajando de noite para manter calmos os dois filhos pequenos, acomodados nos assentos posteriores. E depois o medo dos exames, os tremeliques antes dos exames orais, mas também as amizades que se faziam e se consolidavam, numa convivência entre coetâneos, experimentada talvez pela primeira vez fora da família. O IPPIC progredia passo após passo: no segundo ano abriu-se mais um curso e, sucessivamente, um terceiro. A idade média dos inscritos diminuía progressivamente: Com efeito, como uma sondagem realizada entre as famílias italianas nos permitiu salientar, não eram poucos os jovens italianos de reais possibilidades de estudo e de formação, que viam no Instituto Profissional para o Comércio uma oportunidade para não permanecer «na estava» nos trabalhos mais humildes e menos qualificados. Mas percebíamos também que o sonho do regresso à pátria tendia a concentrar todos os membros de uma família no trabalho: ganhar em breve

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tempo um «pé de meia» suficiente para regressar à pátria não como derrotados: este era o projeto que empregava para esta finalidade todas as forças disponíveis. Por isso, era necessário motivar, encorajar e sustentar o programa formativo, muitas vezes exposto a tentações de abandono. Em suma, não era fácil. Esta escola nunca teria sido possível, se não tivesse nascido e sido promovida pela colegialidade entre todos os professores e pela comunhão. Era precisamente aqui que se encontrava a originalidade de tal experiência, que envolvia diversas de nós pessoalmente e, de certa maneira, toda a comunidade. Somente assim podíamos correr o risco de um empreendimento que, sob muitos aspectos, nos superava. Nossa sorte consistia no fato de nos encontrarmos no período de formação, durante o qual se frequentava a «Escola de Raízes», chamada assim porque «ensina a lanças as raízes naquilo que conta». Na «Escola de Raízes» íamos aprofundando o carisma secular scalabriniano: além dos fundamentos bíblicos, teológicos e scalabrinianos, aprendíamos a ler numa visão de fé tanto a emigração como a nossa própria vocação, e gradualmente aprendíamos os gestos e o sentido da partilha. Tratava-se de uma visão de fé que nos unia profundamente, de tal modo que a existência vivida em comunidade estava em sintonia com a experiência vivida na escola, e vice-versa. Começávamos a conhecer de perto a emigração e era um conhecimento não teórico, mas através da vida e da história das pessoas que encontrávamos, enquanto a situação sociológica, vivida numa dimensão de fé, começava a tornar-se para nós o «lugar teológico» da experiência de Deus. Vivíamos a alegria de despender as nossas forças caminhando com estes jovens: preparávamos cuidadosamente as lições, participávamos nas suas dificuldades e nos seus sonhos; «lutávamos» com o Consulado e as outras instituições, para que a escola pudesse afirmar-se; mantínhamos contatos constantes com as famílias e os outros professores, para que a instrução e a formação caminham a par e passo. Sentíamos que, apesar da pequenez de uma experiência limitada, estava em jogo algo de maior, graças à experiência de êxodo na fé: uma fé que dava qualidade a cada gesto vivido no dom: «O que fizestes ao mais pequenino, a mim o fizestes» (cf. Mt 25, 40). A escola alcançou um sucesso discreto: algumas dezenas de jovens e de adultos obtiveram a qualificação de «Secretário de empresa» e alguns, tendo chegado ao curso complementar, puderam frequentar a universidade ou encontrar trabalho em algum banco; outros encontraram motivações para se empenhar na política, ou então nas atividades da Missão... Peixes pequenos e crescidos, que não escapam mais! Mariella, Fé e cultura: em: «Sulle strade dell’esodo», n. 1, gennaiofebbraio 2011. Despertadores de consciência Minha história alicerça-se num fundamento de sociologia, marcada por acontecimentos familiares, pessoais, sociais e políticos. Esta noção de busca das próprias raízes, da própria história, tornou-se um centro de interesse importante, tanto para as pessoas como para os organismos. Ela esclarece-se com uma reflexão banal: «Saber de onde se vem, a fim de saber para onde se vai». Toda a história se insere no tempo. A partir de 17 anos de idade, comecei a militar na JOC. Depois de 40 anos de trabalho na mesma empresa, como operário ajustados mecânico, fui despedido. Quando fui contratado, havia aproximadamente 600 pessoas! No dia da minha

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despedida, éramos um pouco mais de 1.800 pessoas. Primeiro acontecimento: depois de oito meses de trabalho, impôs-se uma greve com a ocupação da fábrica. Quanto a mim, acompanhei o desenvolvimento. Segundo acontecimento: cerca de um anos depois do regresso do serviço militar, pediramme que fosse candidato às eleições profissionais. Minha primeira atitude foi de rejeitar, mas após a insistência da parte dos meus companheiros de responsabilidade, acabei por aceitar. Fui eleito delegado no Comitê de Estabelecimento. Esta responsabilidade perdurou por 34 anos, sem interrupção. Ao mesmo tempo, começaram as dificuldades. Tornei-me «despertador de consciência». É necessário adquirir certas competências. A formação confere um sentido de justiça, de solidariedade, de hospitalidade, de escuta, de humildade e de compreensão. Se há uma crítica a levantar, aprende-se a fazê-la de uma maneira positiva, e não humilhante. Por ocasião de uma minha intervenção durante uma reunião muito importante, o diretor recebeu-me dizendo: «Você vem para trabalhar, ou para fazer o sindicalista?». Minha resposta foi a seguinte: «São realidades que caminham a par e passo, senhor!». E nós convivemos e trabalhamos juntos durante 25 anos. Meu compromisso sindical foi caracterizado por diferentes etapas, algumas positivas (resultados sociais), enquanto outras marcadas por conflitos duros, difíceis de suportar. Dado que eu fazia parte de uma estrutura sindical sólida, pediram-me que assegurasse os vínculos, a formação e o desenvolvimento dos setores profissionais menos protegidos. Confiaramme também outras tarefas, como a criação de uma representação territorial dos trabalhadores, a pesquisa sobre o emprego, a formação profissional com uma atenção aos organismos sociais e à justiça perante o tribunal das pendências no mundo do trabalho. Na nossa história, não estamos sozinhos. É sobretudo a família, a esposa, que deve compreender; e depois os companheiros, com os quais devemos meditar, agir e construir. Os que nos precederam há o fizeram; hoje, nós damos continuidade, pensando em quantos hão de vir amanhã. Penso na observação de um meu companheiro: «Mas o que é que os impele, a vocês, cristãos?». Nossa resposta, depois de breve debate, é esta: «A mesma coisa que para você, é Aquele que construiu a nossa humanidade». «O me me interroga, disse-nos, é a história de Jesus, que chama doze pobres indivíduos para O seguir. É útil ver como eles terminaram; é isto que me interroga!». Eu terminaria, dizendo que viver a minha fé significa responder aos apelos de todos os dias no meu ambiente de vida. A meu nível, isto quer dizer assumir um lugar nos acontecimentos da história, revista num movimento como a ACO (Ação Católica Operária). Significa resistir às medidas econômicas e políticas desumanizadoras, e denunciar aquilo que fere o homem na sua dignidade. Enfim, significa dar testemunho da ação coletiva, da força do próximo e do vigor que se pode encontrar no Evangelho. Jean, Responsável sindical de Bayonne (França) em: «Cor unum», n. 2, Mars — Avril 2011.

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PARA REFLETIR Os Institutos Seculares (laicais e sacerdotais): Uma dádiva para a Igreja e para o mundo! «... vós resplandeceis como luzeiros no universo, ostentando a palavra da vida» (Fl 2, 15-16). A consagração secular é um dom do Espírito Santo, que deve ser constantemente acolhido e desenvolvido. Para o leigo e para o sacerdote, trata-se antes de mais nada de ser cristãos fervorosos, verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, o Enviado do Pai, único Mestre. Por exemplo, ao vestir a alva branca para presidir à Eucaristia, o presbítero está consciente de que deve revestirse de Cristo para exercer o seu ministério. A união e o apego a Jesus Cristo estão no coração da vida e dos gestos daquele que representa o Senhor com um título especial, na Igreja e no mundo, servo da relação de Deus com as pessoas e do Reino que há de vir. Pode-se dizer que a consagração secular significa entregar a própria existência a deus e ao seu desígnio de salvação no mundo dos humanos, do modo como nos foi revelado na pessoa de Cristo. O consagrado une-se ao Filho de Deus no dom de si mesmo ao Pai, mas também na sua ação solidária em relação a cada pessoa. Vocação, consagração e missão articulam-se plenamente. 1 – A aposta dos Institutos Seculares Se se considera o nascimento jurídico dos Institutos Seculares e o seu reconhecimento por parte da Igreja, compreende-se que não se trata de uma simples associação, mas sim do reconhecimento de uma verdadeira vocação a viver a consagração ao Senhor «no mundo e a partir de dentro do mundo». Em 1948, um ano depois da publicação da Constituição Apostólica Provida Mater de Pio XII (2 de fevereiro de 1947), o Motu Proprio Primo Feliciter esclarecia o seguinte: «Este apostolado dos Institutos Seculares, não somente deve exercer-se fielmente no muno, mas por assim dizer com os meios do mundo, e por isso deve valer-se das profissões, dos exercícios, das formas, dos lugares e das circunstâncias correspondentes a tal condição secular». Os Institutos Seculares fundam-se na chamada à santidade, no chamamento à radicalidade vivida no amor, através dos Conselhos evangélicos postos em prática no meio do mundo. A consagração batismal reveste toda a sua amplitude na consagração existencial vivida pelos membros dos Institutos Seculares na cultura a na história do próprio povo. E é ali que, chamados pelo Pai e sustentados pelo Espírito Santo, eles devem seguir Jesus Cristo de perto. Um dom para o discípulo Os Institutos Seculares são antes de tudo um dom para os batizados e para os sacerdotes que são chamados a dar a própria vida deste modo. Vivem para Jesus Cristo e a sua existência particular no coração do mundo é como um louvor ao Senhor. Animados pelo Espírito Santo, são a alegria de Deus. Na Exortação Apostólica Vita Consecrata, João Paulo II frisa a convergência entre a consagração sacramental e a consagração existencial: os membros dos vários Institutos «consagram-se a Cristo mediante a prática dos Conselhos evangélicos, segundo um carisma específico». Cada vida consagrada «é um aprofundamento singular e fecundo da consagração batismal» e «inclusive um desenvolvimento da graça do sacramento da Confirmação». Dado que a vida consagrada pode ser laica ou clerical, a mesma Exortação acrescenta: E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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«Quanto aos sacerdotes que fazem a profissão dos conselhos evangélicos, a própria experiência demonstra que o sacramento da Ordem encontra uma fecundidade peculiar nesta consagração, dado que ela apresenta a favorece a exigência de uma pertença mais íntima ao Senhor». E na conclusão afirma: «Com efeito, no presbítero a vocação ao sacerdócio e à vida consagrada convergem numa unidade profunda e dinâmica» (Vita Consecrata, 30). A consagração secular do sacerdote é um modo de assumir as exigências de um ministério vivido à maneira dos Apóstolos, na sua condição de «cooperadores da Ordem episcopal» numa Igreja local. A missão presbiteral e a consagração articulam-se profundamente. Um dom para a missão da Igreja Os Institutos Seculares representam uma forma de concretizar a missão de Deus e a missão da Igreja. No mundo e a partir do mundo, participam na função evangelizadora, tanto através do testemunho de uma vida cristã autêntica e fiel à opção de vida, como mediante a ajuda oferecida a fim de que as realidades temporais sejam ordenados segundo Deus e para que o mundo seja vivificado com a força do Evangelho (cf. cân. 713/2). A pessoa consagrada é como que um «memorial» de Deus e da vocação do homem no mundo. O apostolado exerce-se através da sua imersão no mundo. A missão e a santidade chamam-se reciprocamente e misturam-se. A originalidade da vida consagrada dos Institutos Seculares reside na secularidade. Nem o batizado, nem o sacerdote mudam o seu estado canônico. Ambos haurem a sua identidade e a sua missão da consagração sacramental. Tanto na Igreja como no mundo, a autonomia da pessoa e da missão fundem-se na graça sacramental. Um dom para o mundo «Os membros de tais institutos exprimem e realizam a própria consagração na atividade apostólica, e como um fermento esforçam-se por permear toda a realidade de espírito evangélico para consolidar e fazer crescer o Corpo de Cristo» (cân. 713/1). João Paolo II faz o seguinte esclarecimento: os membros dos Institutos Seculares «tencionam viver a consagração a Deus no meio do mundo através da profissão dos conselhos evangélicos, no contexto das estruturas temporais, para ser assim fermento de sabedoria testemunhas de graça no interior da vida cultural, econômico e política. Através da síntese, que lhes é específica, de secularidade e de consagração, eles tencionam infundir na sociedade as energias novas do Reino de Cristo, procurando transfigurar o mundo a partir de dentro, com a força das Bem-Aventuranças» (VC, 10). Por conseguinte, para os membros dos Institutos Seculares, trata-se de permitir à Igreja manter um verdadeiro diálogo com o mundo, prestando atenção quer aos sinais messiânicos onde se manifesta o Reino de Deus, quer às rejeições e aos becos sem saída que ameaçam a humanidade. Os Institutos são chamados a servir com perseverança e inteligência a esperança impaciente da criação, porque «também nós, por nossa vez, gememos enquanto esperamos a adoção, a redenção do nosso corpo» (Rm 8, 23). A sabedoria do discípulos do Reino dos céus pode então manifestarse deste modo. «O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem encontra-o, mas volta a escondê-lo. Depois, cheio de alegria, vai e vende tudo o que tem para comprar aquele campo» (Mt 13, 44). Nas nossas sociedades, os membros dos Institutos Seculares são portadores da alegria e da esperança da Páscoa do avento do Reino de Deus. Jesus Cristo venceu a morte e, na sua humanidade, levou-nos à verdadeira vida, à vida eterna. São Paulo convida à conversão e à E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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ação, com as seguintes palavras: «Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com ele na glória» (Cl 3, 1-4). Solidamente alicerçados nas realidades desta terra, testemunhemos o horizonte escatológico da humanidade. 2 –Testemunhas de Cristo e do Reino de Deus na vida concreta O risco do ativismo pode submergir rapidamente a existência do cristão. O risco do funcionarismo pode dominar a vida do sacerdote. Assim, esquecemos que Jesus Cristo é o Mestre, e terminamos por nos colocarmos a nós mesmos no centro da missão, transcurando os pontos fundamentais do batismo e da ordenação diaconal ou presbiteral. É o conhecimento de Jesus Cristo que faz o cristão e o sacerdote. Os Conselhos evangélicos Portanto, é vital que o Espírito, que anima Jesus, passe através da nossa pessoa e da nossa ação. A união com o Salvador fundamenta a chamada a viver os Conselhos evangélicos. É necessário seguir Cristo de perto no caminho do amor autêntico. Os Conselhos evangélicos indicam-nos o nosso «ser no mundo» e permitem-nos compartilhar a condição humana de modo específico, no nosso corpo e na nossa inserção social, imitando o maior possível Jesus Cristo. Os Conselhos evangélicos põem em evidência a nossa humanidade com todas as suas potencialidades, mas também com todas as suas fragilidades. Fiéis leigos, sacerdotes seculares, vivemos no mundo, influenciados pelas culturas contemporâneas. Somos enviados ao coração das nossas sociedades, como Jesus e no seu seguimento. Não é do mundo que nos devemos proteger, mas do mal que pode arrebatar-nos, do maligno que sempre procura seduzir-nos. Os acontecimentos que atingem os sacerdotes há alguns anos, ultimamente, obrigam-nos a ter em maior consideração o devir da nossa humanidade, permanecendo lúcidos no que se refere às ambiguidades e aos pecados que podem sobrevir na nossa relação com os bens, no exercício da autoridade ou no relacionamento afetivo com os outros. Como animador de uma associação de sacerdotes, Instituto Secular, sinto-me particularmente chamado a recorrer a uma linguagem autêntica e responsável sobre o nosso estilo de vida, o celibato, a sexualidade e a castidade. O que conta é vigiar sobre esta dimensão essencial da caridade pastoral, a fim de que as pessoas possam encontrar em nós o respeito e o alimento bom que provém do céu. A Consagração secular do sacerdote O Direito canônico fala assim da especificidade dos sacerdotes membros de um Instituto Secular: «Os membros clérigos servem de ajudar aos irmãos com uma caridade apostólica peculiar, através do testemunho da vida consagrada, sobretudo no presbitério, e no meio do povo de Deus trabalharam para a santificação do mundo com o seu ministério sagrado» (cân. 713/3). a) Para servir a fraternidade Um modo precioso de concretizar a secularidade, a nossa relação com o mundo consiste em dar testemunho da fraternidade de Jesus Cristo. No momento da ressurreição, Jesus diz Maria Madalena: «Vai ter com os meus irmãos, dizendo-lhes: subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus» (Jo 20, 17). No mistério pascal, Cristo veio para salvar os homens nas relações entre E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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si, restabelecendo a relação filial com o próprio Pai. Esta fraternidade é muitas vezes ameaçada no nosso povo, nas famílias e até mesmo nas comunidades cristãs e nos nossos Institutos. Através da ordenação, o sacerdote é enviado a seguir os passos do Bom Pastor. Para servir a fraternidade, deve conhecer verdadeiramente as pessoas que lhe são confiadas, entrando na atitude de Jesus: «Conheço as minhas ovelhas, e as minhas ovelhas me conhecem, como meu Pai me conhece e eu conheço o Pai. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas» (Jo 10, 14-15). Nosso ministério é um dom que Deus oferece à comunidade humana a fim de que, juntamente com toda a Igreja, sirvamos a presença do Reino de Deus que, pouco a pouco, transfigura o nosso mundo. Somos chamados a viver o serviço da fraternidade e da reconciliação, antes de tudo com o nosso Bispo e com os nossos irmãos presbíteros, para exercê-lo principalmente lá onde se manifestam as divisões e as feridas. São Paulo diz-nos: «Tudo isso vem de Deus, que nos reconciliou consigo, por Cristo, e nos confiou o ministério desta reconciliação; Porque é Deus que, em Cristo, reconciliava consigo o mundo, não levando mais em conta os pecados dos homens, e pôs em nossos lábios a mensagem da reconciliação» (2 Cor 5, 18-20). b) Para permitir a santificação do mundo O segundo ponto exigido pelo Direito canônico é particularmente relevante: «Trabalhar para a santificação do mundo com o próprio ministério sagrado». Isto implica a instauração de uma justa relação da Igreja com o mundo, no âmbito do serviço do Reino de Deus e da renovação da criação. São Paulo diz-nos que «o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e gozo no Espírito Santo. Quem deste modo serve a Cristo, agrada a Deus e goza de estima dos homens» (Rm 14, 17-18). Como fazer com que as pessoas individualmente, que os grupos humanos com as suas histórias e a sua especificidade, possam, para além dos egoísmos e dos interesses particulares, honrar a Deus através do seu modo de se comportar neste mundo? E isto, nas diversas esferas da existência? Este mundo se humanize e seja santificado! Esta finalidade compromete-nos a manter uma sensibilidade viva em relação às pessoas atingidas pelas várias formas de pobreza emergentes, acompanhando todos aqueles que vivem a própria fé no âmago dos compromissos humanos. A presidência da Eucaristia permite-nos entrar na oferta que Jesus Cristo leva ao Pai, e servir a graça que vem para regenerar a humanidade. Nossa oração pode inspirar-se na expressão «para a glória de Deus e a salvação do mundo», e na oração de Cristo no horto do Getsêmani. É necessário oferecer a Deus tudo aquilo que exprime nesta terra a glória de Deus e levar as intenções do mundo diante de Deus, pedindo a salvação para todos. 3 – Três atitudes fundadoras Três atitudes podem orientar-nos para viver a chamada de Deus que nos é dirigida, como leigos ou como sacerdotes, através da consagração secular: A meditação A primeira é a da meditação, à maneira de Maria, da qual Lucas nos diz que, depois da Natividade, «conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração» (Lc 2, 19). Tratase, nos acontecimentos mais concretos da existência, de acolher, aprofundar e rezar a Palavra de Deus. É uma frase-chave que no-lo revela: «O Verbo fez-se carne e veio habitar no meio de nós», à qual poderíamos acrescentar: «Ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo» (Mt 11, 27). A meditação do mistério de Deus e do mistério da pessoa E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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humana leva à admiração, ao louvor, antes de transfigurar de alguma forma a nossa vida ou o nosso ministério. É a importância da lectio divina, do estudo do Evangelho para permanecermos verdadeiros discípulos de Cristo na nossa condição de vida. O olhar O Salmo 113 fala de Deus Pai, o Altíssimo que, para além do céu e da terra, se abaixa para olhar a humanidade e, de modo particular, os pobres e os mais frágeis. Trata-se de um olhar repleto de misericórdia que eleva o pobre da poeira, que ergue a pessoa para dar-lhe toda a sua dignidade de criatura e de filho de Deus, capaz de viver uma existência fecunda. Sabemos que Jesus Cristo realizou plenamente a salvação dos homens no caminho pascal. «Era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem» (Jo 1, 9). O que é que vivemos na luz de Cristo? Como podemos conservar um olhar teologal e ver com os olhos do Salvador as pessoas com as quais vivemos, ou para junto das quais somos enviados? Não se deve esconder a parte de sofrimento apostólico que pode provocar esta visão das pessoas e das realidades. A prática daquilo que podemos denominar «caderno de vida» e da «revisão de vida» pode ser uma ajuda preciosa para compartilhar de alguma maneira o próprio olhar de Deus. A decisão É necessário decidir seguir Jesus Cristo de perto, a fim de que a missão produza bons frutos. A primeira decisão consiste em responder à chamada de Deus, em acolhê-la verdadeiramente e em permanecer na atitude do discípulo, para cumprir melhor a própria missão. «Mas a todos aqueles que o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1, 12). Uma pessoa membro de um Instituto Secular disse o seguinte: «Cada manhã, decido escolher Jesus Cristo como o amor da minha vida!». Um amor que leva a caminhar quotidianamente para o trabalho, rumo aos relacionamentos, as responsabilidade, através das dificuldades e das alegrias da existência. Trata-se também da decisão de prestar atenção ao próximo e de procurar as pessoas animadas pelo Espírito Santo, que o Senhor chama no dia de hoje. É a aposta de uma pastoral vocacional que permita a cada um encontrar o lugar que lhe é próprio neste nosso mundo. Alguns desafios, em jeito de conclusão O primeiro é aquele da fé e da coerência evangélica da vida de cada um de nós. Existe sempre um fosso entre a grandeza da chamada de Deus e a pequenez da nossa resposta. Estejamos conscientes de que somos «vasos de barro». Mas não esqueçamos o tesouro que nos é oferecido, e que levamos ao mundo inteiro. De qualquer maneira, trata-se de uma chamada ao realismo da vida espiritual. Ouvir a Palavra de Deus e colocá-la em prática! Com a força do Espírito Santo, como podemos caminhar em frente, numa existência evangélica e missionária, com alegria e determinação? Eis no que consiste o desafio da santidade na vida quotidiana e nas várias responsabilidades que nos são confiadas. Outro desafio consiste no testemunho da parte dos membros dos Institutos Seculares, dentro e fora da Igreja. A humildade e uma certa discrição caracterizam a nossa atitude desde as origens. Considerando a evolução da presença do cristianismo no seio da sociedade e num momento em que os responsáveis da Igreja encorajam a «nova evangelização», qual é a atitude correta que deve ser adotada, para participar neste impulso missionário? E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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No mundo que evolui deste modo, o desafio de servir a vida e a esperança das pessoas, de maneira particular daquelas que são marcadas pelo sofrimento, pela injustiça, pela incerteza, pela violência e pela falta de amor. Cultivando o sentido da criação e do desígnio de Deus, é necessário aproveitar a possibilidade de viver, as aberturas, os lugares de diálogo e os caminhos percorríveis. Aonde vai a existência de cada um? Aonde vai a nossa terra? Plenamente no mundo, mas revelando um modo de viver diferente, revelando os vestígios do Reino de Cristo! A chamada a esta vocação particular nos Institutos Seculares é, certamente, muito atual. Se esta é a vontade de Deus, como procurar verdadeiramente as pessoas que poderiam ser convidadas a seguir este caminho? É igualmente necessário saber discernir e oferecer uma boa formação na escola de Cristo, para preparar os seus discípulos. O direito de viver esta vocação representa outro desafio. Os membros dos Institutos Seculares são chamados a dotar-se das condições para viver totalmente a sua vocação apostólica. Penso de modo particular nos sacerdotes. Como encontrar o tempo notável, exigido pela escuta da Palavra de Deus, pela oração, pela contemplação da obra do Espírito Santo no coração das pessoas e no âmago dos acontecimentos, quando temos uma agenda cheia? Como levar as comunidades cristãs e os responsáveis da Igreja a reconhecerem que temos o direito de poder encontrar-nos regularmente para tomar fôlego, na fraternidade, com o objetivo de louvar melhor o Senhor e de servir a salvação dos homens? Finalmente, é oportuno ressaltar a confiança que nos deposita o Senhor, através das nossas capacidades e das nossas debilidades. Aquilo que conta, não é porventura permitir ao Espírito Santo que nos leve a ser bons servidores da obra de Deus, para tornar-nos, segundo as palavras de Bento XVI, «sementes de santidade, lançadas a mãos-cheias nos sulcos da história»? (Discurso aos Institutos Seculares, por ocasião do 60° aniversário da «Provida Mater»).

Robert Daviaud (em: «Cor Unum», febbraio 2011).

LEIGOS, TORNAMO-NOS 1. Vocação laical: terminologia Vocação: a chamada essencial para cada homem diz respeito ao destino eterno: tornar-se filho de Deus. A modalidade de chegar à identidade filial é muito diversificada. Deus não impõe um caminho, mas sugere muitos. Na Igreja, o caminho começa com o Batismo. O Batismo é um rito de iniciação e, como tal, não é suficiente para estabelecer as pessoas num estado de vida, mas é o seu fundamento. Ele representa a inserção de uma pessoa no seio da comunidade eclesial, que assume o compromisso de dar testemunho da fé de modo que o batizado, através de escolhas pessoais, chegue a desempenhar a missão eclesial. A comunidade, se exercer de maneira eficaz o seu testemunho, induzirá nas novas gerações a decisão de um seguimento fiel e oferecerá a possibilidade de viver de forma teologal. Uma criança, que cresce num clima de fé, ainda não é um leigo, dado que ainda não tomou decisões pessoais. Prepara-se eventualmente para sê-lo. Só depois de verificações e confrontos chega o momento em que será capaz de fazer uma escolha autônoma e de orientar a sua vida segundo os ideais evangélicos. O complexo destas decisões constitui a identidade eclesial de uma pessoa, configura o seu lugar, a sua função e o seu estado de vida. Portanto, o leigo na Igreja não nasce, nem é constituído apenas com o batismo, mas torna-se tal com as sucessivas escolhas de vida. O leigo na Igreja não é o E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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simples batizado, mas é o batizado que assume conscientemente a tarefa de desempenhar a missão da Igreja no mundo profano, na sociedade civil, na política e no sindicato. Por conseguinte, a opção laical constitui um estado de vida cristão específico, uma modalidade particular de ser discípulo de Jesus Cristo. Com efeito, o leigo na atual terminologia eclesial é o batizado que, além das qualidades comuns de todos os batizados, tem uma tarefa específico que exerce em nome da comunidade eclesial, com consciência e com liberdade: ele compromete-se a exercer a vida teologal e a desempenhar a missão eclesial no âmbito secular ou profano. 2. Opções laicais Por conseguinte, o estado de vida laical implica uma série de decisões pessoais, que correspondem ao testemunho através do qual uma comunidade eclesial suscitou a decisão de desempenhar a missão eclesial no âmbito secular: a família, a política, o esporte, o sindicato, o trabalho, etc. As escolhas da profissão, do matrimônio, do ensino e da política (assim como para outras condições, também a decisão de entrar numa congregação religiosa ou de se tornar sacerdote), são as formas concretas com que um cristão entra num estado de vida específico e decide a sua configuração na Igreja. Em determinados casos (como no matrimônio) tal decisão é tomada no contexto de um rito sacramental, ou seja, como resposta a uma chamada eclesial; outras vezes é inserida na celebração eucarística (como o envio de leigos auxiliares nas missões); outras vezes ainda pode constituir um rito separado. É também possível que o compromisso assumido seja corroborado por promessas reconhecidas pela Igreja, que ratifica o compromisso de desempenhar a missão própria dos leigos (como nos Institutos Seculares). Todos estes momentos, de qualquer maneira, são realizações concretas da consagração batismal. Desta missão particular, é necessário distinguir outras eventuais tarefas confiadas aos leigos. A instrução intercongregacional «sobre algumas questões a propósito da colaboração dos fiéis leigos no ministério dos sacerdotes» (15 de agosto de 1997, EV 16/671 ss.) distingue três âmbitos em que os leigos são chamados a desempenhar a sua missão: 1) as tarefas e os serviços relativos à função específica dos leigos, ou seja, o seu modo peculiar de tornar Cristo presente nas estruturas da ordem temporal e civil; 2) as tarefas e os serviços nas várias estruturas organizativas da Igreja, que são confiadas aos leigos pela autoridade eclesiástica competente, através de ofícios e funções; 3) as tarefas e os serviços, que são próprios dos ministros sagrados mas que, por circunstâncias especiais e graves, e concretamente por falta de presbíteros e diáconos, são temporariamente, de modo supletivo, exercidos por leigos, com a prévia faculdade jurídica ou mandato da autoridade eclesiástica competente. No que se refere ao segundo ponto (os ministérios laicais no interior da comunidade eclesial), a Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in America (22 de janeiro de 1999, fruto do Sínodo especial para a América, 16 de novembro – 12 de dezembro de 1997) observou: «Não são poucos os leigos na América que nutrem a aspiração legítima de contribuir com os seus talentos e carismas para a “construção da comunidade eclesial, como delegados da Palavra, catequistas, visitando os doentes ou os presos, animando os grupos, etc.”. Os Padres sinodais formularam votos a fim de que a Igreja reconheça algumas destas tarefas como ministérios laicais, fundados nos sacramentos do batismo e da confirmação» (EV 18/111). Todavia, o documento concluiu com estas palavras: «De qualquer modo, embora o apostolado intra-eclesial dos leigos deva ser estimulado, é necessário fazer com que ele coexista com a atividade própria dos leigos, na qual eles não podem ser substituídos por sacerdotes: ou seja, o campo das realidades temporais» (Ibid., EV 16/112). E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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3. Urgência e autonomia da missão laical O compromisso no âmbito profano é a urgência atual da Igreja. Seria um erro grave descuidála. Com efeito, os leigos são deputados por toda a Igreja para desempenhar uma missão nos âmbitos que lhes são próprios, em conformidade com os critérios e com a avaliação que eles vem adquirindo a partir da experiência e das competências exclusivas. Hoje, esta tarefa adquiriu uma importância particular para a secularização, que nestes últimos séculos modificou de maneira radical o clima da sociedade ocidental. Tendo terminado o período da cristandade, hoje em dia parece claro que a missão da Igreja para a salvação do mundo se desempenha trabalhando em prol da sua transformação. A missão eclesial na sua essência, ou seja, como testemunho da verdade de Deus e da eficácia salvífica do Evangelho de Jesus Cristo, hoje é desempenhada de maneira essencial pelos leigos. A hierarquia, os sacerdotes e os religiosos vivem em função desta missão, que pertence a toda a Igreja, mas que hoje tem uma modalidade predominante na atividade levada a cabo pelos leigos. Todavia, ela corre o risco de ser comprometida por circunstâncias continentes, como a carência de clero ou a insuficiência de estruturas pastorais. Estas urgências tornaram-se, hoje em dia, sobretudo em determinados ambientes, muitos ampliadas e absorvem grandes forças, não raro as melhores energias, correndo o risco de deixar em segundo plano a tarefa específica dos leigos. Os leigos têm o dever de assumir e de desempenhar a sua missão em sintonia com os outros componentes eclesiais, mas na consciência da sua plena autonomia. Com efeito, aquele que crê em Deus revelado por Cristo, age segundo duas convicções. A primeira consiste em considerar que as dinâmicas da história são todas exclusivamente humanas e que não é possível encontrar nelas componentes divinos. Com efeito, a função da ação criadora é a de suscitar e de alimentar dinâmicas criadas, sem jamais se substituir às mesmas. É o princípio da encarnação: a Palavra divina torna-se carne para poder agir na criação e na história. Por isso, o cristão sabe que nunca pode apelar-se à autoridade de Deus para impor comportamentos ou leis sociais, mas com paciência deve procurar os motivos subjacentes às experiências de fé e às suas aquisições. Nisto, vive segundo um estilo de vida plenamente laico. A segunda convicção do cristão diz respeito, ao contrário, às condições para que a ação humana tenha valor e eficácia salvífica na história. Ele está persuadido de que somente vivendo uma relação particular com Deus é capaz de manifestar as potencialidades do bem, da verdade, da justiça e da vida. Ele sabe que a força da vida, o esplendor da verdade e a exigência da justiça podem sobressair de maneira diversificada, mais rica e profunda, quando permanecem em sintonia com a força vital. Com efeito, se Deus estiver na fonte, «porque todos vivem para Ele» (Lc 20, 38), permanecer em harmonia com a energia criadora faz florescer a vida de modo autêntico. Quem crê está convicto de que as suas obras poderão expressar forças inéditas, se assumir uma atitude em sintonia com a presença concreta de Deus nele. Por isso, ele não vive como se Deus não existisse, mas sim assume uma atitude em harmonia consciente com a ação de Deus e com a sua Palavra, para fazê-la florescer em formas inéditas de humanidade. Deve ser abandonada a imagem de um Deus que supre as carências do homem, que intervém quando ele não pode agir, que completa a sua ação imperfeita e inadequada, ou seja, um «Deus tapa-buracos». O Deus da criação e da redenção, o Deus que se torna carne no homem, quando ele o acolhe, não pode ser descuidado por quantos acreditam. Quando o cristão chega, através da experiência de fé, da oração, da reflexão e do confronto com outros fiéis, a claras conclusões acerca da verdade do homem, a ordem da sua atividade, a finalidade E-DIALOGUE • Nr 9 ano 2011

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da sua existência, ele sabe que a elas correspondem leis do devir da espécie humana e das pessoas, que suscitam autênticas dinâmicas de vida. Por isso, ele sente-se obrigado a procurar com paciência os caminhos racionais para justificar as suas intuições e as suas opções, na certeza de as poder encontrar e propor a todos as razões intrínsecas dos processos históricos, que ele descobriu através da experiência de fé. Com efeito, se a sua convicção for verdadeira, ele será capaz de identificar os seus fundamentos racionais, correspondentes a leis escritas no coração da realidade. Não pode pretender percorrer os atalhos da autoridade divina, como lhe lhe era permitido outrora, quando a vida de fé era reconhecida como âmbito influente de verdade. Por conseguinte, afirmar que as dinâmicas da criação e da história permanecem todas no âmbito criado não significa necessariamente confirmar que a atitude de fé em Deus não tem qualquer relevância social e histórica, e que deve ser reconduzida exclusivamente ao contexto individual e particular. Com efeito, aquele que crê está persuadido de que a fidelidade a Deus e a busca da sua vontade são condições imprescindíveis para alcançar metas autênticas de vida. Por outro lado, ele sabe que as leis da vida, uma vez que são descobertas através de experiências de fé, podem ser explicadas e defendidas com argumentos da razão. Por isso, ele compromete-se na busca dos motivos que também aquele que não crê pode encontrar, avaliar e verificar. Além disso, qual é a atitude correspondente à verdade da vida será manifestada pelos frutos que se desenvolvem, pela riqueza das formas humanas que a fé consegue fazer florescer. Quanto a nós, não podemos esquecer que a fronteira mais exposta da missão permanece sempre o vasto campo do mundo. É ali que os leigos, de maneira particular, são chamados por vocação a exercer o seu próprio sacerdócio batismal e a incidir com o testemunho eficaz da fé que lhes é própria, aceitando todos os dias os seus desafios sem temor e com coragem (Cesare Nosiglia).

Carlo Molari, em: «Incontro», n. 2/2011.

Na Biblioteca Scrivi amore [Escreva amor], teatro musical preparado pelas Pequenas Apóstolas da Caridade. Se vos dissessem: gostaria de escrever a vida do cristianismo num bonito volume este volume numa só página, esta página numa só linha esta linha numa só palavra... Nós lhe responderíamos, dizendo: Escreva: «AMOR»! Lorenzo Cantù, Una vita per il regno [Uma vida pelo reino], «pro manuscripto» Uma colectânea de testemunhos carinhosos da figura bonita de um sindicalista generoso, missionário da Realeza.

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